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MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO

Ministério Público do Distrito Federal e Territórios

Exma. Sra. Promotora de Justiça

Dra. Marisa Isar

do MPDFT - 2 a PROSUS

Brasília, 15 de setembro de 2016.

NOTA TÉCNICA

Em atenção à sua solicitação, referente à notícia veiculada na mídia, na data

de ontem (cópia anexa), na qual é exibido um vídeo que mostra as atuais condições de

funcionamento da câmara fria para armazenamento de cadáveres no Hospital Regional da

Asa Norte, faço as observações que se seguem.

Preliminarmente, cumpre reproduzir alguns aspectos descritos na matéria

jornalística:

A câmara fria do Hospital Regional da Asa Norte (Hran). onde são

guardados os cadáveres e restos mortais de pacientes que morreram na unidade, está superlotada e com a temperatura inadequada. Sem

a devida refrigeração, o cheiro dos cadáveres começa a incomodar

os pacientes internados nos quartos.

( - )

Vídeos gravados por funcionários e obtidos com exclusividade pelo Metrópoles mostram até 10 restos mortais de bebês em uma só

gaveta. As imagens foram gravadas na tarde desta terça-feira (13/9)

e chocam pelas más condições de armazenamento.

Instalações precárias, armários enferrujados, um corpo enfaixado sobre uma maca e materiais como facas e martelos sujos e gastos lembram mais um filme de terror do que um hospital público.

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Ao todo, o Hran tem oito gavetas para manter os corpos. Da câmara fria, eles são liberados para as famílias fazerem o enterro ou seguem para o Instituto Médico Legal (IML) para necropsia. De acordo com o relato no vídeo, existem corpos que estão no local há meses. A etiqueta de uma das gavetas aponta a data de óbito como "julho de 2015". O cadáver em cima da maca estava nessas condições justamente porque não havia espaço nas gavetas.

Por meio de nota. a Polícia Civil informou que o Instituto Médico Legal Leonídio Ribeiro é responsável pela necropsia em corpos de vítimas de crimes e mortes violentas (causas não-naturais). "Atualmente, o IML, mediante acordo com a Secretaria de Saúde, é responsável pelo recolhimento, em domicílio ou via pública, de corpos de morte natural, os quais são levados para a rede pública de saúde e liberados pelo Serviço de Verificação de Óbito (SVO) da Secretaria de Saúde".

Ainda segundo a nota, os corpos não estão acumulados em hospitais porque o IML não os recolheu: "porquanto nenhum corpo de morte violenta deixou de ser recolhido e periciado pelo Instituto", diz a Polícia Civil.

Em regra, os cadáveres de pacientes falecidos em hospitais são

encaminhados para o necrotério, localizado no setor de Anatomia Patológica de cada um

deles. Lá existem câmaras frias para armazená-los. a fim de evitar sua degradação, até seja

concluído o desembaraço técnico burocrático de cada um deles.

Sob

possibilidades:

tal

perspectiva,

colocam-se,

em

tese.

pelo

menos

as

seguintes

1. do cadáver ser submetido à necropsia para fins relacionados ao aperfeiçoamento

técnico do médico, quando os achados da anatomia patológica são utilizados em

reuniões clínicas envolvendo esses profissionais, notadamente aqueles que

acompanharam o caso do paciente ainda internado e encontraram dificuldades

diagnosticas, no caso:

2. do cadáver ser encaminhado ao Instituto Médico Legal, na forma da lei, quando se

tratar de casos de morte violenta:

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3. do cadáver ser encaminhado ao Serviço de Verificação de Óbitos, quando não estiver definida a causa da morte e/ou quando se considera a possibilidade de doença infectocontagiosa, potencialmente causadora de surtos ou epidemias;

4. do cadáver ser encaminhado para o serviço funerário contratado pelo familiar e/ou responsável;

5. do cadáver ser submetido a serviço funerário sob a responsabilidade do Estado, como uma atribuição de caráter sanitário.

No caso do HRAN, descrito na reportagem, há uma superlotação da câmara fria o que, por si só, diminui seu rendimento, expondo os cadáveres a temperaturas mais elevadas e ineficazes para a evitar seu processo natural de decomposição.

Adicionalmente, os cadáveres estão simplesmente embalados em lençol comum, permeável a todos fluidos corporais, que são potencialmente infectantes de pessoas que entrem em contato com eles e do ambiente no qual estejam inseridos.

Sobre essa realidade, ainda no século XIX. Semmelweis estudando casos de

infecção hospitalar, j á concluíra: "Eu assumi que a causa da maior taxa de mortalidade

primeira clínica eram as partículas cadavéricas aderidas às mãos dos obstetras quando efetuavam os exames". Portanto, o risco sobre o qual estamos a tratar agora, j á é bem conhecido pela Medicina, cabendo questionar, por exemplo, porque não estão sendo usados no HRAN os plásticos (material impermeável) específicos para a finalidade de embalar cadáveres.

da

Quanto ao caso de permanência de cadáver por mais de um ano no setor de Anatomia Patológica do HRAN. cumpre requisitar esclarecimentos ao responsável técnico pelo setor.

Por fim, sobre as condições do material cirúrgico disponível para utilização nas necropsias, demonstrado no vídeo, sobressai sua absoluta precariedade. Tal situação expõe a segurança dos servidores que manuseiam o cadáver, tanto quanto expõe os

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próprios cadáveres a risco de mutilações imotivadas. aviltantes, por natureza. Sobre esse tema. também cumpre requisitar esclarecimentos ao responsável técnico pelo setor.

Portanto, em síntese, com supedâneo nos dados disponíveis na reportagem, é possível concluir que a situação descrita constitui uma grave ameaça, sob aspectos sanitários, uma vez que um hospital pode assim se transformar de um local onde se espera a cura de doentes para um local gerador de doentes.

Adriana da Fontoura Alves

Analista c/e Medicina -

MPDFT

Matrícula 3755-9 Neurologista - Intensivista CRMJDF 7048

15TJ9'2016

TJDF T - Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios

Circunscrição : 1 - BRASÍLIA Processo : 2014.01.1.173791-7 Vara : 114 - QUARTA VARA DA FAZENDA PÚBLICA DO DISTRITO FEDERAL

Processo : 2014.01.1.173791-7 Classe : Ação Civil Pública Assunto : Concessão / Permissão / Autorização Requerente : MPDFT MINISTÉRIO PUBLICO DO DISTRITO FEDERAL E TERRITÓRIOS Requerido : DF DISTRITO FEDERAL

Sentença

Trata-se de ação civil pública (Lei n. 7.347/95) ajuizada pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios em desfavor do DISTRITO FEDERAL.

Narra a parte autora que o Distrito Federal editou, em 2010, a Portaria Conjunta SES/PCDF n. 7/2010, e a Portaria SES n. 189/2010, que instituiu o Serviço de Verificação de Óbito - SVO. Informa que, desde 2012, o réu recebe recursos da União Federal para implantação do mencionado serviço, classificado como Porte III, porém jamais atendeu às demandas da população, o que ocasiona diversos constrangimentos aos parentes de pessoas falecidas que necessitam da declaração de óbito, bem como aumenta o risco de proliferação de doenças, pois não são investigadas as causas da morte.

Pede, em antecipação de tutela, (i) a conclusão, no prazo máximo de 30 dias, das fases internas e externas dos procedimentos licitatórios n° 0600016281/2012 e 060-009051/2012, destinados à reforma do Serviço de Verificação de Óbito e à aquisição de mobiliário; (ii) a lotação de profissionais, imediatamente após a homologação de concurso público ou mediante a realização de novo certame, em número suficiente para funcionamento do serviço; (iii) a determinação de que o serviço se desenvolva na forma prevista na Portaria 1.405/2006, do Ministério da Saúde; (iv) a aquisição, por meio de processo licitatório, de veículos de transporte de corpos caso a frota atual não seja suficiente; e (v ) a determinação de que o serviço seja prestado diretamente pela Secretaria de Saúde, e não pelo Instituto Médico Legal.

Ao final, pugna pela confirmação da antecipação de tutela.

A liminar foi indeferida por meio da decisão de fls. 798/798-v. Interposto agravo de instrumento, foi negado seguimento ao recurso.

Contestação de fls. 825/831, por meio da qual o réu defende que o serviço é prestado à população, ainda que de forma insatisfatória. Argumenta que a melhor forma de implementação do serviço em questão cabe ao Poder Executivo.

Réplica às fls. 901/915.

Designada audiência de conciliação, não houve acordo entre as partes.

Às fls. 957/969, o Distrito Federal apresentou novos documentos, em especial Relatório do Grupo de Trabalho constituído pela Portaria SES n. 85/2015.

O Ministério Público ofertou manifestação sobre os documentos às fls. 972/982 e, em seguida, o Distrito

Federal teceu considerações finais às fls. 988/989.

Vieram os autos conclusos para sentença.

É o relatório.

FUNDAMENTAÇÃO.

Não há questões preliminares pendentes de apreciação. Presentes os pressupostos processuais e condições da ação, passo ao exame do mérito.

É preciso situar, de início, que o Serviço de Verificação de Óbito e Esclarecimento de Causa Mortis (SVO) atua quando da ocorrência de óbitos decorrentes de causa natural, com ou sem assistência médica, e

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aqueles relacionados a doenças transmissíveis.

O serviço, em primeiro lugar, é uma forma de resguardar a dignidade da família de indivíduos falecidos,

uma vez que o atestado de óbito é medida obrigatória para a inumação (sepultamento ou enterro), não podendo dilatar-se no tempo, aumentando o sofrimento inerente ao evento.

Ademais, ao que se tem dos autos, a atividade em questão é essencial na definição das políticas públicas de saúde, pois viabiliza a implantação, até mesmo preventiva, de medidas de vigilância, diagnósticos e acompanhamento de surtos ou casos isolados de doenças.

Feita essa digressão, é possível afirmar que a matéria em exame nos autos cuida da possibilidade de intervenção judicial em uma política pública voltada para o atendimento do direito à saúde, ainda que sob perspectiva coletiva.

Sobre o tema, em especial sobre a postura do Poder Judiciário em demandas que envolvem políticas públicas, leciona o Ministro Luís Roberto Barroso que:

"(

opções legislativas e administrativas formuladas acerca da matéria pelos órgãos institucionais competentes. Em suma: onde não haja lei ou ação administrativa implementando a Constituição deve o Judiciário agir. Havendo lei e atos administrativos, e não sendo devidamente cumpridos, devem os juízes e tribunais igualmente intervir. Porém, havendo lei e atos administrativos implementando a Constituição e sendo "

regularmente aplicados, eventual interferência judicial deve ter a marca da autocontenção (

a atividade judicial deve guardar parcimônia e, sobretudo, deve procurar respeitar o conjunto de

)

).

g.n

No caso, a intervenção judicial pleiteada pelo autor da ação é a implementação de política pública cuja oferta

já foi devidamente proposta e normatizada pelo próprio Poder Executivo.

Isso porque, no âmbito federal, a Portaria n. 1.405/2006, do Ministério da Saúde, "Institui a Rede Nacional de Serviços de Verificação de Óbito e Esclarec

imento da Causa Mortis (SVO)." Já em âmbito local, cumpriu essa função a Portaria Conjunta SES/PCDF n. 7/2010, e a Portaria SES n. 189/2010

Nada obstante, os documentos acostados aos autos revelam que o serviço prestado no Distrito Federal é ainda incipiente e precário, não atendendo nem de perto à estrutura prevista no Anexo IV da Portaria n. 1.405/2006 - MS, que define as competências necessárias e o quantitativo de pessoal para uma unidade de "Porte III", que é a classificação atribuída ao réu.

Note-se que, caso não houvesse regularmente a colaboração do IML na realização de atribuições próprias do SVO, certamente a situação do serviço caminharia para um verdadeiro caos.

Aliás, as últimas informações prestadas pelo Distrito Federal apresentam um cronograma que praticamente dá início à estruturação do SVO e, além disso, carecem do mínimo detalhamento que se espera na fixação da matriz de atribuições, pois sequer indica qual o marco inicial de cada prazo global, relegando, ainda, definições essenciais, como contratação de pessoal, para uma etapa vindoura sem qualquer perspectiva. Tal documento revela, portanto, que se trata de mera resposta formal, sem qualquer compromisso de efetividade.

Nessa perspectiva, não há dúvidas de que a realidade fática não condiz com a previsão normativa, caracterizando inaceitável inércia do poder público, sobretudo considerando que a edição da mencionada Portaria n. 1.405, do Ministério da Saúde, remonta ao ano de 2006, o que significa o transcurso de quase dez anos desde então. Ressalte-se, ainda, que o Distrito Federal já é destinatário de recursos da União para implantação do SVO.

Logo, caracterizada a inércia do Poder Executivo Distrital em cumprir a sua própria normatização administrativa, tem-se como plenamente legítima a intervenção judicial para que a implantação do SVO venha a ser concretizada, atendendo adequadamente à população, conforme padrão mínimo definido no Anexo IV da Portaria n. 1.405/2006, do Ministério da Saúde, seja no que respeita à estrutura física, equipamentos, materiais e contratação de pessoal.

Vale enfatizar que o artigo 3 o da Portaria SES n. 189/2010 define expressamente que o Distrito Federal irá

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constituir um SVO de Porte III , ao passo que o artigo 4 o da mesma norma assegura o cumprimento dos requisitos da Portaria do Ministério da Saúde n. 1.405/2006.

Confira-se precedente deste TJDFT que corrobora a legitimidade para intervenção judicial:

"CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. DIREITO À SAÚDE. PLANO DIRETOR DE SAÚDE MENTAL DO DISTRITO FEDERAL. PREVISÃO DE IMPLEMENTAÇÃO DE RESIDÊNCIAS TERAPÊUTICAS (RTS) E CENTROS DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAIS (CAPS). NEGLIGÊNCIA QUALIFICADA PELA OMISSÃO ESTATAL. VERIFICAÇÃO. IMPOSIÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER TENDENTE À IMPLEMENTAÇÃO DE RESIDÊNCIAS TERAPÊUTICAS E CENTROS DE ATENÇÃO EM NUMERO SUFICIENTE PARA O TRATAMENTO DE DOENÇA OU TRANSTORNO MENTAL. IMPERATIVIDADE. OBRIGAÇÃO DO ESTADO. DEVER CONSTITUCIONAL PRAZO FIXADO PARA CUMPRIMENTO DA CONDENAÇÃO. INSUFICIÊNCIA. VERIFICAÇÃO. DILATAÇÃO. NECESSIDADE. LEI ORÇAMENTÁRIA. INCLUSÃO DE MONTANTE MÍNIMO. CONCRETIZAÇÃO DE POLÍTICA PÚBLICA. IMPERTINÊNCIA. MULTA. FIXAÇÃO. ADEQUAÇÃO. RAZOABILIDADE. PRESERVAÇÃO DO MONTANTE MENSURADO.

1. A transcendência do direito à saúde, como expressão mais eloquente da evolução dos direitos básicos

inerentes à pessoa humana e das liberdades e garantias individuais, impõe ao estado a implementação de

ações positivas destinadas à materialização do almejado pelo constituinte, revestindo de eficácia plena a norma programática que está inserta no artigo 196 da Constituição Federal, que prescreve que o direito à saúde é direito de todos e dever do estado.

2. Ao doente mental é resguardado legalmente tratamento especializado e condizente com as demandas

provenientes da enfermidade que o acomete, imponto ao estado, como obrigado à implementação das ações

voltadas à materialização do direito à saúde assegurado a todos, o implemento de atuação positiva voltada a fomentar o tratamento adequado ao padecente, que alcança, inclusive, a construção de residências terapêuticas (RTS) e centros de atenção psicossocial (CAPS) como forma de concretização do enunciado constitucional. (Lei Distrital n° 975/95; Lei Federal n° 10.215/01).

3. A apreensão de que o poder público local, negligenciando quanto às imposições cogentes que lhe foram

reservadas de materializar o necessário ao tratamento do doente mental em conformação com suas necessidades terapêuticas e com o tratamento tecnicamente prescrito, legitima que o Ministério Público, como guardião da ordem jurídica e na defesa do interesse público, resida em juízo com o escopo de obter

tutela destinada a viabilizar a materialização dos enunciados legais que, encerrando obrigações impositivas, estão sendo negligenciados.

4. As situações que implicam omissão inconstitucional dos deveres impostos legalmente ao poder

público,ainda que se cuide de omissão parcial derivada d

a insuficiente concretização do conteúdo material do enunciado impositivo cuja gênese reside na Constituição

Federal, refletindo comportamento estatal impassível de chancela, devem ser contornadas mediante interseção do Poder Judiciário, que, divisando descumprimento de preceitos legais e constitucionais, não age como gestor das políticas públicas, mas como fiador da sua execução na moldura do estado de direito.

5. A reserva do possível não é passível de ser legitimamente invocada como escudo e legitimação para o

descumprimento das obrigações impositivas reservadas ao estado de fomentar tratamento mínimo ao doente mental, notadamente quando não divisado obstáculo orçamentário intransponível para materialização do comando legal impositivo, mas simples opção administrativa norteada por critérios de oportunidade que, conquanto impassíveis de sindicalização judicial, implicam o descumprimento de preceitos constitucionais devidamente regulamentados e pendentes de materialização.

6. Constatada hipótese de grave violação a direito fundamental qualificada por omissão estatal

constitucionalmente relevante e que perdura por longo período de tempo, a atuação jurisdicional se legitima como forma de assegurar e ensejar a materialização do comando constitucional, não encerrando, sob essa

ótica, transposição da seara reservada ao executivo por consubstanciar simples forma de velar pela primazia da ordem constitucional ignorada pela conveniente omissão do Poder Público em tornar concretas as políticas públicas em tempo razoável e aceitável.

7.

Qualificando-se a obrigação que lhe está debitada como de origem constitucional, a inexistência de prévia

e

específica dotação orçamentária não exime o ente estatal de adimpli-la, custeando as obras e ações

necessárias a implementação de residências terapêuticas (RTs) e centros de atenção psicossocial (CAPs), com a devida estrutura e pessoal, como forma de fomentar tratamento adequado ao doente mental, competindo-lhe remanejar as verbas de que dispõe de forma a cumpri-la na forma que lhe está debitada, notadamente em face da omissão constitucionalmente relevante em que incidira.

8. Inocorre violação ao princípio da separação dos poderes a cominação de obrigação ao poder público de

implementar locais apropriados para tratamento do doente mental carente de recursos, pois ao Judiciário, estando municiado com competência para velar e ensejar o cumprimento das leis, tem o dever de controlar

a atuação do estado na realização das políticas públicas e agir quanto instado pela parte que ostenta legitimidade para ingressar com ação civil pública com vistas a assegurar o direito à saúde cuja

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materialização vem sendo postergada ao longo de anos. 9. Como forma de assegurar a exequibilidade à obrigação cominada ao poder público no menor espaço de tempo possível, conquanto a omissão detectada encerre reconhecida violação a preceito fundamental, o

prazo estabelecido para adimplemento da cominação deve ser fixado mediante ponderação da obrigação de forma, inclusive, a ser viabilizada oportuna adequação orçamentária e cumprimento das exigências administrativas correlatas.

10. Encerrando a condenação obrigação de fazer derivada de lei e nela lastreada, mas negligenciada ao

longo do tempo pelo estado, legítimo e cabível, como forma de assegurar efetividade ao comando judicial volvido a sanar a omissão estatal, a fixação de sanção pecuniária para a hipótese de descumprimento do estabelecido, sob pena de a omissão perdurar, deixando carente de efetividade a interseção judicial extraordinariamente havida.

11. Apelação conhecida e parcialmente provida. Unânime."

(Acórdão n.914511, 20100110672034APC, Relator:

TEÓFILO CAETANO, Revisor: SIMONE LUCINDO, I a Turma

Cível, Data de Julgamento: 20/05/2015, Publicado no DJE: 22/01/2016. Pág.: 217)

Considerando o estágio atual do serviço e tendo em conta o tempo necessário para o trâmite dos procedimentos no âmbito da Administração Pública, reputo razoável, portanto, a cominação para que o Distrito Federal apresente, no prazo de 30 (trinta dias), cronograma detalhado para implantação dos requisitos mínimos do Anexo IV da Portaria n. 1.405/2006, do Ministério da Saúde, elencando todas as etapas e os respectivos prazos de início e conclusão, seja para aquisição de equipamentos, materiais, reforma das instalações físicas e edital para seleção de servidores, sendo que as medidas deverão ser ultimadas no prazo máximo de 12 (doze) meses, devendo o ente político apresentar relatório de acompanhamento a cada 4 (quatro) meses em juízo. Não é demais enfatizar que todas as compras, bem assim as contratações de serviços e pessoal, deverão observar os procedimentos de seleção próprios do serviço público.

Ressalte-se, por fim, como bem destacado pelo Ministério Público, que as despesas para o provimento dos cargos públicos necessários podem ser realizadas ante a autorização da parte final do inciso IV do parágrafo único do artigo 22 da Lei Complementar n. 101/2000.

DISPOSITIVO

• Ante o exposto, JULGO PROCEDENTE EM PARTE o pedido formulado, para determinar que o Distrito Federal apresente, no prazo de 30 (trinta dias), cronograma detalhado para implantação dos requisitos mínimos do Anexo IV da Portaria n. 1.405/2006, do Ministério da Saúde, elencando todas as etapas e os respectivos prazos de início e conclusão, seja para aquisição de equipamentos, materiais, reforma das instalações físicas e edital para seleção de servidores, sendo que as medidas deverão ser ultimadas no prazo máximo de 12 (doze) meses após a entrega do mencionado cronograma, devendo o ente político apresentar relatório de acompanhamento a cada 4 (quatro) meses em juízo.

O descumprimento dos prazos acima estipulados ensejará a apuração de responsabilidade dos gestores responsáveis pela implementação do SVO.

Resolvo o mérito, nos termos do art. 269, I, do CPC.

Sem custas, pois o Distrito Federal é isento (art. I o do Decreto-Lei federal n° 500/69) e tendo em vista o art. 18 da Lei n. 7.347/1985.

Sem honorários, por força do art. 18 da Lei n. 7.347/1985.

Após o trânsito em julgado, nada sendo requerido, arquivem-se os autos com as cautelas de estilo.

Sentença registrada eletronicamente. Publique-se. Intimem-se.

Brasília - DF, terça-feira, 16/02/2016 às 13h42.

André Silva Ribeiro

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Juiz de Direito Substituto

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