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CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA DO PARANÁ PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TECNOLOGIA

DA NATUREZA DA TECNOLOGIA:

UMA ANÁLISE FILOSÓFICA SOBRE AS DIMENSÕES ONTOLÓGICA, EPISTEMOLÓGICA E AXIOLÓGICA DA TECNOLOGIA MODERNA

ANGELA LUZIA MIRANDA

Dissertação apresentada como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Tecnologia, área de concentração: Tecnologia & Trabalho, pelo Programa de Pós-Graduação em Tecnologia do Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná.

Orientador: Prof.º Dr. Domênico Costella. Co-orientador: Prof.º Dr. João Augusto Bastos.

CURITIBA

2002

ANGELA LUZIA MIRANDA

DA NATUREZA DA TECNOLOGIA:

UMA ANÁLISE FILOSÓFICA SOBRE AS DIMENSÕES ONTOLÓGICA, EPISTEMOLÓGICA E AXIOLÓGICA DA TECNOLOGIA MODERNA

Dissertação apresentada como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Tecnologia, área de concentração: Tecnologia & Trabalho, pelo Programa de Pós-Graduação em Tecnologia do Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná.

Orientador: Prof.º Dr. Domênico Costella. Co-orientador: Prof.º Dr. João Augusto Bastos.

CURITIBA

2002

À Divina Providência (de quem falava Van Gogh) Aos meus pais, Cármina e Deolindo. E às mulheres silenciosamente guerreiras, especialmente, Mª Helena, Ivone, Lurdes, Fátima e Vera, minhas irmãs.

AGRADECIMENTOS

Ao orientador, Profº Drº Domênico Costella, que, na condição de professor-colaborador do PPGTE, generosamente aceitou comigo este desafio. Agradeço-o ainda por ter me oportunizado uma outra chance de desfrutar de seus conhecimentos filosóficos e competência acadêmica. Ao co-orientador e idealizador do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia, Profº Drº João Augusto Bastos que, mesmo desfrutando de seus merecidos descansos e tendo se afastado das atividades acadêmicas, ainda assim orientou-me com sua imensa sabedoria e bondade. À coordenação do PPGTE, na pessoa da Profª Drª Sonia Ana Leszczynski, por todo apoio e amparo recebido. Ao Profº Drº Domingos Leite Lima Filho, que, mesmo não sabendo, em muito contribuiu para garantir a continuidade e a credibilidade desta pesquisa. À Lindamir Salete Casagrande, pela assessoria administrativa competente e dedicada ao programa. Ao Nivaldo, meu irmão, pela comunhão de idéias e ideais.

iv

v

v

SUMÁRIO

RESUMO

viii

ABSTRACT

ix

RESUMEN

x

INTRODUÇÃO

..................................................................................................................

11

CAPÍTULO I: A DIMENSÃO ONTOLÓGICA DA TECNOLOGIA MODERNA

19

  • 1 PREÂMBULO

19

  • 2 TECNOLOGIA E VALORAÇÃO SOCIAL: POSICIONAMENTOS

23

  • 3 CIÊNCIA, TÉCNICA E TECNOLOGIA: APROXIMAÇÕES E DIFERENCIAÇÕES

....

25

  • 4 A GÊNESE DA TECNOLOGIA MODERNA

.........................................................................

32

  • 4.1 HEIDEGGER E A QUESTÃO DA ESSÊNCIA DA TÉCNICA

.........................................

32

  • 4.2 MARX E A TECNOLOGIA COMO (RE) PRODUÇÃO DO CAPITAL

............................

39

  • 4.3 TÉCNICA E CIÊNCIA COMO IDEOLOGIA: A CRÍTICA DA TEORIA CRÍTICA

........

44

  • 5 POR UMA OUTRA ONTOLOGIA DE TECNOLOGIA

.......................................................

48

  • 6 SÍNTESE DA DIMENSÃO ONTOLÓGICA DA TECNOLOGIA MODERNA

51

CAPÍTULO II: A DIMENSÃO EPISTEMOLÓGICA DA TECNOLOGIA

MODERNA

57

  • 1 PREÂMBULO

57

  • 2 EMPIRISMO E TECNOLOGIA MODERNA

........................................................................

61

  • 3 CONHECIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLOGIA MODERNA

.....................................

69

  • 3.1 O PARADIGMA CIENTÍFICO DO CONHECIMENTO

....................................................

69

  • 3.1.1 Aspectos Filosóficos da Revolução Científica Moderna

....................................................

69

  • 3.1.2 Galileu, Descartes e Newton e a Visão Mecanicista

..........................................................

71

  • 3.2 O MÉTODO CIENTÍFICO

..................................................................................................

77

  • 4 A CRISE DO PARADIGMA CIENTÍFICO

............................................................................

79

  • 4.1 INTRODUÇÃO AO PROBLEMA

.......................................................................................

79

  • 4.2 ASPECTOS HISTÓRICOS, SOCIOLÓGICOS E TEÓRICOS DA CRISE DO

PARADIGMA CIENTÍFICO

................................................................................................

81

  • 4.3 ASPECTOS EPISTEMOLÓGICOS DA CRISE DO PARADIGMA CIENTÍFICO

87

  • 4.3.1 A Relação Parte e Todo (A noção do Especialista)

............................................................

87

  • 4.3.2 A Noção do Físico e do Metafísico

....................................................................................

88

vi

  • 4.3.3 A Noção de Objetividade do Conhecimento Científico

.....................................................

90

  • 4.3.4 Causalidade e Generalização

..............................................................................................

92

  • 4.3.5 Ordem, Desordem e Contradição

......................................................................................

94

  • 5 POR UMA OUTRA EPISTEMOLOGIA DA CIÊNCIA E DA TECNOLOGIA

.................

94

  • 6 SÍNTESE DA DIMENSÃO EPISTEMOLÓGICA DA TECNOLOGIA MODERNA

104

CAPÍTULO III: A DIMENSÃO AXIOLÓGICA DA TECNOLOGIA MODERNA .......................................................................................................................109

  • 1 PREÂMBULO

109

  • 2 ÉTICA E TECNOLOGIA: ASPECTOS INTRODUTÓRIOS AO DISCURSO

AXIOLÓGICO DA TECNOLOGIA MODERNA

................................................................

111

  • 2.1 CARACTERIZAÇÃO OU MODELOS DE ÉTICA

..........................................................

112

  • 2.2 A EXCLUSÃO DA ÉTICA DO MUNDO CIENTÍFICO MODERNO

.............................

114

  • 2.3 A DIMENSÃO SÓCIO-CULTURAL DA TECNOLOGIA OU PARA UMA

AXIOLOGIA DA TECNOLOGIA MODERNA

117

  • 3 UTILITARISMO ÉTICO E TECNOLOGIA MODERNA

..................................................

120

  • 3.1 A CORRENTE ÉTICA DO UTILITARISMO

...................................................................

120

  • 3.2 A RELAÇÃO ENTRE TECNOLOGIA E UTILITARISMO ÉTICO

125

  • 3.3 O LEGADO DO UTILITARISMO PARA A ÉTICA MODERNA

128

  • 4 POR UM OUTRO REFERENCIAL AXIOLÓGICO DE TECNOLOGIA

........................

130

  • 5 SÍNTESE DA DIMENSÃO AXIOLÓGICA DATECNOLOGIA MODERNA

..................

138

CONSIDERAÇÕES FINAIS ...........................................................................................144

REFERÊNCIAS ................................................................................................................153

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ..........................................................................160

vii

RESUMO

Na modernidade (a partir do séc. XVI) a tecnologia sofre e propicia transformações sociais profundas, não podendo, pois, ser confundida com o mero estudo da técnica ou um simples conjunto de técnicas. Uma compreensão mais profunda deste fenômeno social exige uma reflexão mais que semântica ou histórica; exige, antes de tudo, uma reflexão filosófica sobre o caráter ontológico, epistemológico e axiológico da tecnologia moderna. Ou seja, trata-se de elaborar uma Filosofia da Tecnologia que implica, primeiramente, em identificar qual a gênese ou o “ser" da tecnologia (dimensão ontológica), para, em seguida, indagar a que conhecimento se refere a tecnologia (dimensão epistemológica) e, por fim, investigar o referencial ético que permeia a tecnologia (dimensão axiológica). O presente trabalho investiga exatamente estas três dimensões da tecnologia na modernidade, considerando que, em termos filosóficos, o empirismo, o conhecimento científico e o utilitarismo ético plasmaram a gênese da tecnologia moderna, em sentido ontológico, epistemológico e axiológico. Para tanto, esta pesquisa enfoca a posição de Heidegger, Marx e os teóricos da Escola de Frankfurt, sobretudo Habermas, em vista da análise da dimensão ontológica da tecnologia moderna; em se tratando da dimensão epistemológica, o referencial teórico prioriza o empirismo baconiano e os precursores da revolução científica moderna, especialmente, Galileu, Descartes e Newton e, sobre a dimensão axiológica da tecnologia moderna, o ponto de partida é o enfoque do utilitarismo ético, a partir de Bentham e Mill. Analisando criticamente as implicações e as interfaces desta constatação ante o mundo da tecnosfera no qual estamos inseridos, e, utilizando-se da posição crítica de teóricos, como:

Boaventura Santos, Enrique Dussel, Hans Jonas, entre outros, este estudo aponta também para a possibilidade e a necessidade de conjecturar um outro entorno ou uma outra identidade para a tecnologia na atualidade, a partir das três dimensões referenciadas.

Palavras-chave: Tecnologia Moderna, Filosofia da Tecnologia, Filosofia da Ciência, Empirismo, Utilitarismo Ético.

viii

ABSTRACT

In Modern Age (after the 16th Century) as technology suffers and causes deep social changes, it can not be taked as a simple study of techniques or a simple collection of techniques. A deeper comprehension of that social phenomenon needs more than a semantic or historical reflection; it must be, mainly, a philosophical reflection about the ontological, epistemological and axiological character of modern technology. In other words, it is related to the elaboration of a Philosophy of Technology that implies, primarily, in identifying the genesis or the “being" of technology (ontological dimension). After that, asking which knowledge is related to technology (epistemological dimension). At last, investigating the ethical model which supports technology (axiological dimension). The present research investigates exactly these three dimensions of technology in Modern Age, considering that, in philosophical terms, Empiricism, scientific knowledge, and Ethical Utilitarianism have molded the genesis of modern technology, in ontological, epistemological, and axiological terms. For that purpose, this research focuses the position of Heidegger, Marx and the theoreticians of the School of Frankfurt, specially Habermas, regarding the analysis of the ontological dimension of modern technology. Regarding the epistemological dimension the theoretical model prioritizes the Baconian Empiricism and the precursors of Modern Scientific Revolution, specially, Galileu, Descartes and Newton. Regarding the axiological dimension of modern technology, the starting point is the Ethical Utilitarianism, after Bentham and Mill. A critical analysis of the implications and interfaces of this evidence in the world of technosphere in which we live, considering the critical position of authors, such as: Boaventura Santos, Enrique Dussel, Hans Jonas, among others, supports the present research which also points out to the possibility and the necessity of thinking another enviroment or another identity to technology nowadays, regarding the three mentioned dimensions.

Key-words: Modern Technology, Philosophy of Technology, Philosophy of Science, Empiricism, Ethical Utilitarianism.

ix

RESUMEN

En la modernidad (a partir del siglo XVI) la tecnología sufre y propicia tansformaciones sociales profundas, no pudiendo, pues, ser confundida con un simple estudio de la técnica o un simple cojunto de técnicas. Una compreensión mas profunda de este fenómeno sociale exige una reflexión mas que semántica o histórica, exige, antes de todo, una reflexión flosófica sobre el carácter ontológico, epistemológico y axiológico de la tecnología moderna. Ou sea, se trata de elaborar uma Filosofía de la Tecnología que, implica, primeramente, em identificar cual la génesis o el “ser” de la tecnología (dimensión ontológica), para, en seguida, indagar a que conocimiento se refere la tecnología (dimensión epistemológica) y, por fin, investigar el referencial ético que permea la tecnología (dimensión axiológica). El presente trabajo investiga exactamente estas tres dimensiones de la tecnología na modernidad, considerando que, en términos filosóficos, el empirismo, el conocimiento científico y el utilitarismo ético plasmaran la génesis de la tecnología moderna en sentido ontolológico, epistemológico y axiológico. Por lo tanto, esta pesquisa enfoca la posición de Heidegger, Marx y los teóricos de la Escuela de Frsnkfurt, sobre todo, Habermas, en vista del análisis de la dimensión ontológica de la tecnología moderna; tratándose de la dimensión epistemológica, el refencial teórico prioriza el empirismo baconiano y los teóricos da revolución científica moderna, como Galileo, Descartes y Newton, y, sobre la dimensión axiológica de la tecnología moderna, el punto de partida es el enfoque del utilitarismo ético, a partir de Bentham y Mill. Analisando criticamente las implicaciones y las interfaces de esta constatación ante el mundo de la tecnosfera en el cual estamos inseridos y se utilizando de la posición crítica de teóricos, como Boaventura Santos, Enrique Dussel, Hans Jonas, entre otros, este estudio apunta también para la possibilidad y la necessidad de conjecturar un otro entorno o una otra identidad para la tecnología en la actualidad, teniendo en vista las tres dimensiones referenciadas.

Palabras-llave: Tecnología Moderna, Filosofía de la Tecnología, Filosofía de la Ciencia, Empirismo, Utilitarismo Ètico.

x

INTRODUÇÃO

Uma história critica da tecnologia demonstraria

seguramente que nenhum invento do século XVIII foi

obra de um único indivíduo. [

]

A tecnologia revela o

... modo de proceder do homem para com a natureza, o processo imediato de produção de sua vida e assim elucida as condições de sua vida social e as concepções mentais que delas decorrem 1

Uma história crítica da poiética ou uma destruição da

dita

história

é

o

mesmo. Se trata de demolir as

interpretações vulgares,

habituais,

as

tidas como

evidentes. 2

 

Na atualidade vivemos no mundo da tecnosfera. Isso significa dizer que a tecnologia representa o modus vivendi da sociedade atual. Tal constatação não é difícil perceber, basta olhar as coisas que estão a nossa volta. Tudo que materialmente nos circunda diz respeito à tecnologia. Ela se tornou inerente à nossa condição de vida, à nossa condição existencial de estar no mundo. Por isso, a concepção de que a tecnologia compreende o “estudo da técnica” ou representa o “conjunto das técnicas” é insuficiente para entender a complexidade deste fenômeno social na atualidade. Na modernidade (a partir do séc. XVI), devido a fatores históricos, sociais, culturais, econômicos, políticos (os quais serão aprofundados no decorrer da pesquisa), a tecnologia sofre e propicia transformações sociais profundas. E, muito além de simplesmente alterar padrões de comportamento, a tecnologia, a partir da modernidade, contribui para alterar a relação do ser humano com o mundo que o cerca, implicando no estabelecimento de uma outra cosmovisão, diferentemente daquela dos gregos ou dos medievais. Daqui decorre o recorte temporal/histórico que se pretende empregar nesta análise, qual seja, enfocar a tecnologia a partir do período moderno. Entendemos que fatores históricos ocorridos a partir do séc. XVI, como: o advento do empirismo inglês a partir de Bacon (em defesa de um conhecimento operativo e não contemplativo); aliado às primeiras explicações matemáticas de Galileu acerca do funcionamento do universo (base do conhecimento científico); o surgimento da visão cartesiana (marco referencial da constituição do pensamento moderno); o nascimento do utilitarismo ético desde Bentham (que enfatizava a validade da ação moral baseada nos

1 MARX, Karl. , O capital. Vol. 1, Tomo 1. São Paulo: DIFEL, 1982, p. 425, nota 89. 2 DUSSEL, Enrique D. Filosofía de la producción. Bogotá: Editorial Nueva América, 1994, p. 14. (Tradução livre).

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seus resultados e na sua utilidade), todos foram fundamentais para a constituição da tecnologia a partir do período moderno. A apresentação deste quadro panorâmico, bem como as relações intrínsecas entre estes fatores que propiciaram a configuração da gênese da tecnologia na modernidade, é o que se pretende demonstrar nesta pesquisa. Por isso, consideramos que indagar sobre a natureza da tecnologia moderna implica em avançar numa análise que é antes de tudo, filosófica. Eis a justificativa central desta pesquisa. Heidegger mesmo dizia que a resposta sobre a essência da técnica não pode ser técnica. E o recurso metodológico que apela para o sentido etimológico, ainda que levando em conta a diferenciação conceitual e a arqueologia de termos, como “ciência”, “técnica” e “tecnologia”, conforme apresentam muitos autores que tratam do assunto, não responde o que é a tecnologia em sua totalidade. Julgamos que tal análise metodológica é demasiadamente limitada para a compreensão da natureza da tecnologia diante da complexidade a qual está revestida e de seu significado na sociedade atual. É por isso, que o tema aqui será tratado como um problema filosófico. Ademais, consideramos um “problema filosófico” aquilo que diz respeito a existência humana, vivenciada pela práxis, isto é, pela condição do ser humano de estar no mundo. É neste contexto que, acreditamos nós, estar inserida a tecnologia e é neste sentido que será investigada como objeto de análise.

Encontramos na literatura moderna e atual o esforço de alguns pensadores em tratar do assunto, ainda que de maneira tangencial. Marx, por exemplo, embora tenha tratado a tecnologia dentro da ótica do modo de produção social, especialmente o modo de produção capitalista, já no primeiro volume da sua mais famosa obra O capital, afirmava a necessidade de se elaborar uma história crítica da tecnologia. História esta, afirmava ele, que até o século XVIII, ainda não tinha sido objeto de investigação científica. Também Heidegger se ocupou do tema a partir de uma análise fenomenológica sobre “a questão da essência da técnica”, título de um dos seus principais escritos sobre o assunto, que será tratada na primeira parte desta pesquisa. A Teoria Critica frankfurtiniana, procurou elaborar uma análise sociológica da sociedade industrializada e conseqüentemente, a tecnologia também se tornou objeto de sua crítica. Destacamos, sobretudo, a visão de visão de Habermas para quem a ciência e a técnica é analisada como ideologia da sociedade capitalista. Acrescenta-se aí também a leitura de Marcuse. Mais recentemente pensadores como Dussel, através do que ele denomina “filosofia de la producción”, bem como Boaventura Santos, através da análise sobre a crise epistemológica do paradigma científico, têm se ocupado do assunto, ainda que de modo tangencial.

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No Brasil, destacamos dois pensadores do núcleo de pesquisa científica da USP, que se ocuparam com o assunto. Ambos desenvolveram seus estudos muito mais preocupados em descrever a história da técnica e da tecnologia (guardadas as devidas proporções e diferenciações teóricas entre eles), do que necessariamente em produzir uma filosofia da tecnologia. Trata-se de Ruy Gama e Milton Vargas, ambos engenheiros de formação. O primeiro toma o tema da tecnologia a partir da perspectiva histórica, cujo eixo central de análise é a relação entre tecnologia e trabalho, mas privilegia, ao enfocar especificamente a natureza da tecnologia, o sentido etimológico e a análise arqueológica, que, nesta pesquisa será observada como sendo insuficiente para atingir uma análise mais profunda sobre o significado da tecnologia na modernidade, conforme já fora advertido o leitor inicialmente. O segundo, prioriza uma análise factual e essencialista da tecnologia que aqui será tomada como objeto de crítica, podendo ser observada em diversas passagens de nossa pesquisa descritiva. Sobre Milton Vargas, vale lembrar que uma de suas obras leva o título exatamente que sugere esta pesquisa. Estamos falando do livro Para uma filosofia da tecnologia. Mas, consideramos que tal obra não reflete o nosso posicionamento, posto que pretendemos dar um outro enfoque à questão. Ademais, ainda sobre a referida obra, supomos que sua elaboração se deu muito mais por uma situação circunstancial, de compilação de textos esparsos, escritos por Milton Vargas sobre o assunto, do que necessariamente como sendo fruto de uma pesquisa sistemática e dirigida, com vistas a alcançar especificamente este fim. Ainda sobre o último autor acima referido, vale dizer que ele nos sugere sim a leitura metodológica desta pesquisa. Ou seja, Milton Vargas considera que para fazer uma filosofia da tecnologia, é necessário levar em conta três aspectos: o ontológico, o epistemológico e o axiológico. O primeiro, diz respeito à gênese da tecnologia; trata-se de aprofundar a sua essência; cabe indagar qual o “ser” da tecnologia. O aspecto epistemológico implica em analisar qual o conhecimento que é subjacente à tecnologia. E o aspecto axiológico diz respeito à valoração da tecnologia; diz respeito ao sentido ético da tecnologia; significa atribuir-lhe valor, configurando qual o modelo ético que permeia a sua ontologia. Diante deste panorama que configura o estado da arte em que se encontra a pesquisa acadêmica sobre a reflexão filosófica da tecnologia, entendemos que a temática objeto desta dissertação faz jus à sua relevância acadêmica. E por estar inserida dentro de um Programa de Pós-Graduação cujo tema é a Tecnologia, é possível afirmar que a contribuição filosófica desta análise pode auxiliar numa elaboração posterior, não somente

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de outros filósofos, mas também impulsionar o estudo transdisciplinar de pesquisadores de outras áreas a fim de aprofundar a complexidade da natureza da tecnologia. Entendemos ainda que analisar, as implicações ontológicas, epistemológicas e axiológicas da tecnologia moderna, significa identificar como se constituiu a natureza e como se construiu a identidade da tecnologia a partir da modernidade. Mas, ao mesmo tempo, implica também em conjecturar uma outra possibilidade de tecnologia; um outro entorno, ou uma outra concepção de tecnologia. Ainda que numa esfera de “conjecturas”, para usar a expressão de Popper, almejamos concluir esta pesquisa oferecendo e propiciando este espaço de reflexão crítica. Nisso consiste o esforço que se pretende empregar nesta dissertação. Por isso, elaborar uma filosofia da tecnologia é uma resposta que a academia pode e deve dar à sociedade, por considerar um “problema filosófico”, conforme fora salientado anteriormente. Em nosso caso, o problema filosófico pode ser colocado nos seguintes termos: na modernidade a tecnologia sofre e propicia transformações sociais profundas, não podendo, pois, ser confundida com o mero estudo da técnica ou um simples conjunto de técnicas. Uma compreensão mais profunda deste fenômeno social exige uma reflexão filosófica sobre seu caráter ontológico, epistemológico e axiológico. Ou seja, trata-se de elaborar uma Filosofia da Tecnologia que implica, primeiramente, em identificar qual a gênese ou o “ser" da tecnologia (dimensão ontológica), para, em seguida, indagar a que conhecimento se refere a tecnologia (dimensão epistemológica) e, por fim, investigar o referencial ético que permeia à tecnologia moderna (dimensão axiológica). Em termos filosóficos é possível considerar que o empirismo, o conhecimento científico e o utilitarismo ético plasmaram a gênese da tecnologia moderna, em sentido ontológico, epistemológico e axiológico? Quais as implicações desta constatação na elaboração da identidade da tecnologia moderna? É possível conjecturar um outro entorno para a natureza da tecnologia em sentido ontológico, epistemológico e ético? Quais são os fundamentos e as perspectivas desta possibilidade? Disso decorre que nossa principal tese consiste em mostrar que o empirismo, o conhecimento científico e o utilitarismo ético plasmaram a gênese da tecnologia moderna em sentido ontológico, epistemológico e axiológico. Portanto, nosso objetivo geral e principal é analisar a dimensão ontológica, epistemológica e axiológica da tecnologia moderna, demonstrando que o empirismo, o conhecimento científico e o utilitarismo ético constituem suas bases de sustentação filosófica. A partir desta configuração sobre a natureza da tecnologia moderna e, conjecturando a crise deste modelo paradigmático, contribuir para uma análise crítica,

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apontando para a possibilidade de um outro entorno, ou uma outra “natureza” para a tecnologia. Deste objetivo geral, pretendemos alcançar os seguintes objetivos específicos:

(1) Demonstrar que na modernidade, devido a fatores históricos, econômicos, sociais, políticos, a tecnologia sofre e propicia transformações sociais profundas, passando a significar mais que o “mero estudo da técnica” ou o “conjunto de técnicas”. E, que, portanto, a análise meramente conceitual constitui um limite metodológico na identificação da tecnologia moderna. A partir de então, identificar as principais características norteadoras da dimensão ontológica da tecnologia a partir da modernidade, sobretudo dentro da visão heideggeriana, marxista e frankfurtiniana, e, daqui, apontar para a necessidade de constituir uma outra ontologia para a tecnologia na atualidade. (2) Analisar a gênese da tecnologia moderna, demonstrando que o empirismo é a corrente que filosoficamente sustenta a nova ontologia e epistemologia da tecnologia surgida com a Modernidade. Demonstrar que além do empirismo, o conhecimento produzido pela tecnologia moderna está embasado epistemologicamente no paradigma científico, a partir da aliança entre ciência e técnica. (2.a) Evidenciar os aspectos teóricos, sociais e epistemológicos da crise do paradigma científico e suas implicações no âmbito da dimensão epistemológica da tecnologia, para, então, conjecturar um outro entorno epistemológico para a tecnologia. (3) Sustentar que, em sentido axiológico, a tecnologia moderna é permeada pelo modelo de ética utilitarista, e que esta possui relação intrínseca com a sua configuração ontológica e epistemológica, e, evidenciando a crise ética deste modelo paradigmático, acenar para a possibilidade de construir uma nova dimensão axiológica para a tecnologia. (4) Analisar as interfaces entre o empirismo, a crise do paradigma científico e o utilitarismo ético e suas implicações no âmbito da tecnologia moderna e, tendo em vista esta análise crítica, fundamentar a necessidade existencial, histórica, social e política de conjecturar, ainda que enquanto possibilidade, uma outra identidade para a tecnologia na atualidade novo entorno ontológico, epistemológico e axiológico para a tecnologia Para tanto, utilizamo-nos das seguintes estratégias metodológicas:

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza descritiva, cuja análise é de conteúdo filosófico. Sua fundamentação filosófica é essencialmente bibliográfica, cuja abordagem leva em conta duas categorias de análise metodológica, a saber, a complexidade e a historicidade do objeto a ser investigado que é a tecnologia moderna.

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Sobre o aspecto qualitativo desta pesquisa, vale dizer que, tendo como objetivo a análise filosófica da natureza da tecnologia moderna, nossa análise prioriza a descrição e a avaliação do conteúdo já abordado por autores que tratam do tema, sobretudo no campo da filosofia, sem, contudo, deixar de levar em conta a relação dinâmica entre o observador (a autora desta pesquisa) e o observado. Portanto, nossa proposta não é somente a de apresentar, a partir da pesquisa bibliográfica um rol de dados isolados, conectados meramente por uma teoria explicativa, dissociável do sujeito-observador. O que queremos é, enquanto sujeito-observador atribuir um significado próprio a partir da descrição do objeto a ser investigado, considerando que aquele não é neutro em relação a este e vice- versa. 3

A primazia da análise filosófica tem em vista dois fatores. Primeiro, porque esta é a formação da autora desta pesquisa, o que credencia e permite ficar mais à vontade para debater o tema. E o segundo motivo e mais relevante é que a filosofia tem uma importância capital e uma contribuição fundamental quando o assunto propõe a reflexão sobre a natureza da tecnologia moderna. O que queremos dizer com isso é que o tema não deve ser somente objeto de discussão de tecnólogos ou especialistas em ciências experimentais, já que convencionalmente ele vem sempre atrelado ou restrito a estas áreas. Entendemos que investigar a identidade, a gênese da tecnologia, sobretudo na modernidade exige, acima de tudo, um conhecimento que leve em conta a Radicalidade do problema, no sentido de ir à raiz da questão (do latim radice: ir à raiz), o que possibilita evitar a priori posicionamentos superficiais e ingênuos sobre o que é a tecnologia; a Criticidade, no sentido de colocar em crise ou em crivo a questão da tecnologia, o que possibilita desconfiar das posições de caráter deterministas tão comum nesta discussão, e um conhecimento que leve em conta a Totalidade do problema, o que possibilita ter uma visão ampla e abrangente do contexto em que está inserida a tecnologia moderna. Eis porquê o discurso é filosófico. No entorno desta visão de totalidade do assunto está situada a categoria metodológica da complexidade. Isto significa dizer que ao nosso posicionamento produzir filosofia da tecnologia é antes de tudo, situá-la dentro de um contexto político, social, econômico, cultural, etc. que compõe um todo complexo. Ou seja, a categoria da complexidade nos obriga a pensar a tecnologia a partir da tecitura, da rede de relações que

3 Sobre a pesquisa qualitativa, cf. as seguintes obras: CHIZZOTTI, Antonio Pesquisa em ciências humanas e sociais. São Paulo: Ed. Cortez, 1991, pp. 77-105; TRIVIÑOS, Augusto N. S. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em Educação. São Paulo: Atlas, 1995, pp. 117-133; DEMO, Pedro. Introdução à metodologia da ciência. São Paulo: Atlas, 1983

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a envolve e não somente pensar a tecnologia dentro de uma visão departamental, fragmentada, situando o tema num âmbito especificamente tecnicista. Compreender filosoficamente a identidade da tecnologia moderna é situá-la na esfera das nossas existências. E isto significa ir além do ambiente técnico ou especializado por excelência. Significa atribuir-lhe um grau de importância que extrapola a mera decisão técnica, pois, no âmago desta discussão existe a complexa questão filosófica da nossa condição existencial de estar-no-mundo. A outra categoria metodológica diz respeito à historicidade. Graças a ela efetuamos o recorte histórico da discussão que propomos aqui. Ou seja, o que intentamos discutir é a identidade ou a natureza da tecnologia na modernidade por considerar que a tecnologia como fenômeno histórico não se constitui como único no decorrer de toda a história. Na modernidade a tecnologia sofre e propicia transformações sociais profundas. Tais transformações modificam, inclusive sua identidade. E a compreensão deste fenômeno torna-se impossível pela análise meramente conceitual ou etimológica da tecnologia. Ela exige uma análise histórica, contextual. Explicando por outros termos: é por utilizar a historicidade como categoria de análise que pontuamos como premissa desta pesquisa que a tecnologia em sentido ontológico, epistemológico e axiológico, não possui o mesmo significado no decorrer de toda a história da civilização e que, na modernidade, ela adquire características que lhe são peculiares, modificando, inclusive sua gênese e identidade. Em síntese, sobre ambas as categorias, instrumentos de análise desta pesquisa, diríamos que a historicidade permite-nos focalizar o tema na sua relação temporal, enquanto que a categoria da complexidade permite-nos identificar o tema na sua relação espacial. Ainda sobre a metodologia por nós utilizada na elaboração deste trabalho vale dizer que as dimensões: ontológica, epistemológica e axiológica da tecnologia moderna (enunciadas já no teor do próprio tema desta dissertação), constituem, para efeitos desta pesquisa, tanto um aspecto de conteúdo, como também indicam o caminho a ser percorrido ao analisar filosoficamente a natureza da tecnologia moderna. Portanto, trata-se também de um aspecto metodológico desta pesquisa. Aliás, em sentido metodológico (e somente neste, posto que em termos de conteúdo nossa proposta em muito se afasta da visão de Vargas) tomamos de empréstimo a proposta metodológica sugerida por Milton Vargas, para quem analisar filosoficamente a tecnologia significa situá-la na sua dimensão ontológica, epistemológica e axiológica. Seguindo, pois, de perto a recomendação do autor,

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os capítulos que compõem este trabalho sistematicamente seguem a seguinte pretensão metodológica. No Primeiro Capítulo a abordagem da tecnologia moderna refere-se à sua dimensão ontológica. Buscando introduzir o assunto a partir da questão da essência e da natureza da tecnologia moderna, a referência a autores como, Heidegger, Marx e os teóricos da Escola de Frankfurt, sobretudo, Habermas, assim como também as contribuições e críticas de Enrique Dussel são elementares para este propósito. No Segundo Capítulo, o foco de análise é a dimensão epistemológica da tecnologia moderna, no sentido de identificar qual conhecimento constitui a gênese da tecnologia moderna. Aqui, em vista da questão-problema apontada no projeto inicial desta pesquisa, conjecturamos que a visão empirista trazida por Bacon, no séc. XVI, e as bases filosóficas e metodológicas do conhecimento científico, sugeridas por Galileu, Bruno, Newton e atreladas à visão antropocêntrica de Descartes, são fundamentais para a constituição epistemológica da tecnologia na modernidade. Acrescentamos a esta compreensão a crise epistemológica do paradigma científico a qual postulamos existir hoje como resultado deste modelo paradigmático de conhecimento forjado desde os renascentistas. Para tanto, autores como, Rousseuau, Bachelard, Boventura de Souza Santos, Edgar Morin, Fritjof Capra, entre outros, são imprescindíveis na elucidação desta problemática. O Terceiro Capítulo trata da dimensão axiológica da tecnologia moderna, apontando que o utilitarismo ético constitui a base ética da tecnologia moderna. Autores como Jeremy Bentham, S. Mill, considerados fundadores do utilitarismo ético moderno, bem como as críticas ao utilitarismo de Dussel e Tughendat, auxiliam nesta exposição. Desta constatação, vista sob uma perspectiva crítica, surge a necessidade de construir um outro entorno axiológico para a tecnologia, sobretudo a partir da leitura de pensadores da ética atual como K-O.Appel, H.Jonas, Habermas, Dussel, entre outros. Nesta mesma direção estão situados os aspectos conclusivos desta pesquisa. Reforçando a tese de que o empirismo, o conhecimento científico e o utilitarismo ético constituem os pilares de sustentação em sentido ontológico, epistemológico e axiológico da tecnologia moderna e apontando a necessidade de pensar um novo entorno para a tecnologia na atualidade, a opção é pela continuidade da pesquisa, sobretudo, no sentido de alargar o horizonte temático da Filosofia da Tecnologia na contemporaneidade.

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CAPÍTULO I A DIMENSÃO ONTOLÓGICA DA TECNOLOGIA MODERNA

1 PREÂMBULO

Assim, pois, a essência da técnica também não é de modo algum algo técnico. 4

Qual é a gênese da tecnologia? Qual sua origem? Qual a sua identidade? Tecnologia é o mesmo que técnica? No que ela se diferencia da ciência? Estas indagações que, a princípio parecem simplistas e até impertinentes como propósito de uma pesquisa de pós-graduação, são elementares para quem deseja se aventurar em conhecer historicamente a tecnologia. Longe de ser uma preocupação de caráter meramente semântico, conceitual, estas indagações nos remetem a um problema profundo e filosófico, que é a questão da natureza da tecnologia. Este primeiro capítulo pretende, então, fornecer uma reflexão, ainda que introdutória sobre a identidade da tecnologia moderna. 5 Trata-se de elucidar certos aspectos ontológicos da tecnologia, sem os quais, torna-se inviável a discussão posterior sobre a dimensão epistemológica e axiológica da tecnologia moderna. Ou seja, antes de indagarmos sobre o conhecimento a que se refere a tecnologia, ou à sua dimensão ética, necessário é identificar qual a sua essência. É somente a partir deste questionamento que podemos compreender a natureza da tecnologia em suas diferentes interfaces ou em sua complexidade como fenômeno social. A dimensão ontológica fornecerá, pois as bases para a compreensão das outras dimensões da tecnologia moderna que aqui também serão objeto de análise e investigação. Conforme já fora dito inicialmente (na apresentação) a dimensão ontológica da tecnologia diz respeito ao seu “ser” em sentido metafísico (do grego: τά µετά τά ϕυσικά = o que está além da física) 6 . A ontologia é a ciência do ser enquanto ser.

  • 4 HEIDEGGER, Martin, A questão da técnica. In: Cadernos de Tradução, n. 2, DF/USP, 1997, p.

42.

  • 5 Parte do que aqui será apresentado fora exposto em comunicação apresentada pela autora desta pesquisa. Cf. MIRANDA, Angela L. Da natureza da tecnologia: uma análise sobre a gênese da tecnologia moderna, In: Simpósio Internacional: Ciência e Tecnologia como Cultura e Desenvolvimento – Um Enfoque

Histórico, 2001, São Paulo. Caderno de

Resumos...CIHC/USP,

Nov/2001, p. 10.

  • 6 O termo metafísica foi introduzido por um aluno de Aristóteles, Andrônico de Rodes, no Séc. I a.C (Cf. LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 665)

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Portanto, a análise ontológica da tecnologia implica em indagar qual o ser da tecnologia; refere-se à sua gênese, à sua identidade, à sua essência. No pensamento grego, prevalece a concepção ontológica de que a identidade já está determinada na natureza de cada ser. 7 Um ser será existencialmente aquilo que previamente estiver contido na sua substância. Aristóteles se refere ao termo, do seguinte modo: “A substância de cada coisa é a causa primeira do ser desta coisa. Algumas coisas não são substanciais, porém aquelas que são tais são naturais e estão postas pela natureza, e de tal maneira é claro que a substância é a natureza mesma e que não é elemento senão princípio”. 8 Então, conhecer a substância dos seres é poder distinguí-los dos demais seres; é poder atribuir-lhe uma identidade própria. É, pois, pela substância que podemos afirmar que “um ser não pode não ser”. 9 Dessa visão, decorrem os princípios da lógica aristotélica, como, o princípio da não-contradição, o princípio da identidade e o princípio do terceiro excluído. Bem mais tarde, Sartre, um dos precursores do existencialismo (corrente filosófica predominante no séc. XX) vai inverter tal propositura. Diferentemente de Aristóteles, para Sartre é a existência que precede a essência 10 . Ou seja, nós somos o que nossas circunstâncias indicam. Dizia Ortega e Gasset que “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Portanto, Sartre, influenciado pela visão marxista e diante da visão de dialeticidade do real, inverte a lógica aristotélica, considerando que a historicidade dos fenômenos é fator indispensável para a constituição de seu ser. 11 A essência, pois, não é algo imutável, inalterável, mas, também ela, inclusive, se constitui pela existência do ser. Trata-se de uma concepção aberta e não fechada de ontologia. A esta altura deve o leitor estar se perguntado qual a relação desta discussão com a questão da tecnologia. Responde-se dizendo: tudo. A inclusão desta reflexão introdutória

Em verdade, Aristóteles falava de uma prima philosophia para designar a ciência das causas primeiras. Já o termo ontologia foi introduzido por Christian Wolff, discípulo de Leibnitz, e consagrado por Heidegger para designar a nova ontologia moderna. Cf. também ABBAGNANO, Nicola, Diccionario de Filosofia, México:

Fondo de la Cultura Econômica, 1996, pp. 793-799.

  • 7 ABBAGNANO, op. cit., p. 794.

  • 8 ARISTÒTELES, Metafísica, VII, 17, 1041b 27. Apud ABBAGNANO, op. cit., p. 795. (tradução

livre)

  • 9 Em sentido inverso tal propositura pode ser exemplificada, considerando que um cachorro nunca será, pois, um cavalo. Cf. os livros VII, VIII e IX da Metafísica de Aristóteles, citado por ABBAGNANO, op. cit., p. 795. 10 SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. In: OS PENSADORES. São Paulo:

Nova Cultural, 1987, pp. 5 e 6. 11 Vale lembrar que o conceito de “historicidade” filosoficamente é introduzido por Hegel na época contemporânea, somente a partir do séc. XIX. Neste sentido, cf. as obras de HEGEL: Lições sobre a filosofia da história e Fenomenologia do espírito, citado por CORBESIER, Roland. Introdução à filosofia. Tomo I, 3 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasiliense, 1990, pp. 92 e 93.

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torna-se mister diante da postura que aqui será adotada ao descrever o aspecto ontológico da tecnologia. Dito de outro modo: ao tratar da essência da tecnologia, não se pretende dar um enfoque determinista, imutável ou a-histórico sobre a tecnologia. Entende-se que a tecnologia é um fenômeno social, circunscrita a partir de circunstâncias históricas de cada época e, por isso mesmo, passível de identidade variável ao longo da história. Portanto, compreender sua essência significa, inclusive, analisá-la tendo em vista uma perspectiva conjuntural. Nisso, justifica-se o recorte temporal que realizamos, pois, entendemos que na modernidade, devido a fatores econômicos, políticos, sociais, culturais, etc, a tecnologia é marcada por uma outra identidade que a difere da concepção grega ou medieval, por exemplo. Esta é, pois, uma das conclusões deste primeiro capítulo. E é esta opção metodológica de análise que nos credencia a descrever ontologicamente a tecnologia sem correr o risco de cair em posições de caráter deterministas ou essencialistas, considerando a tecnologia como um fenômeno único, inerente e intransponível ao ser humano no decorrer de toda a história. Postura esta, aliás, que será rechaçada logo de início quando abordarmos o aspecto etimológico e conceitual da tecnologia. Compreender a identidade da tecnologia significa, então, circunscrever sua necessidade e função social. Afinal, se a sociedade pode ser denominada de “industrializada”, ou “pós-industrializada”, ou ainda “informatizada”, assim o é devido, inclusive, ao fenômeno social da tecnologia. Consideramos ser de fundamental importância na sociedade em que vivemos pensar sobre este prisma a tecnologia, pois, o mundo que nos cerca é o da tecnosfera. Cibernética, automação, engenharia genética, computação eletrônica, eis alguns dos ícones representativos da sociedade tecnológica que nos envolve quotidianamente. Por isso, refletir sobre a natureza da tecnologia, implica em tomar posição frente a ela, enquanto valoração deste fenômeno social. Claro está que nossa pretensão não tem em vista o esgotamento do assunto, até porque o tema não se nos apresenta de modo tão simples. A reflexão que propomos fazer mais que uma conotação semântica, pretende ser filosófica; mais que arqueológica, pretende ser contextual; mais que fenomenológica, pretende ser histórica. Aliás, mais que histórica, pretende ser ontológica, posto que a tecnologia é, antes de tudo uma categoria existencial, ou seja, é um fenômeno que diz respeito à condição existencial do homem de estar-no-mundo. Nisto reside a complexidade do assunto. Mas, acreditamos, que este é também o desafio, pois, aí está o cerne da questão.

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Por causa da abordagem metodológica que privilegia a análise filosófica, a natureza da tecnologia será estudada, tendo em vista a seguinte estruturação didática. Com o propósito de introduzir o assunto e, a título provocativo, introdutório e não de aprofundamento, destacamos alguns posicionamentos valorativos a respeito da função social da tecnologia na atual sociedade em que vivemos. Tais posicionamentos foram explicitados a fim de reforçar a tese de que a valoração ou a função social que atribuímos à tecnologia está intrinsecamente relacionada com a concepção que temos dela. Ou seja, a emissão de juízo que atribuo à tecnologia e seu papel na sociedade dependem do conceito que tenho dela. Daí a importância capital em discutir a natureza deste fenômeno social. De posse desta problematização que nos impulsiona a aprofundar o assunto, adentramos propriamente no tema do primeiro capítulo, iniciando com alguns esclarecimentos de caráter semântico sobre o uso de conceitos, como: ciência, técnica e tecnologia. Aqui, enfocamos as aproximações e diferenciações conceituais destas categorias, inclusive, demonstrando os equívocos conceituais mais comuns. Do mesmo modo que também procuramos resgatar o sentido etimológico originário dado pelo berço da filosofia grega. Essa análise introdutória, meramente semântica da tecnologia e de categorias correlatas, será importante para esclarecer ao leitor dos limites desta opção metodológica ao enfocar o assunto, a qual necessita, pois, do auxílio de uma outra ferramenta que é a análise filosófica e contextual. Por isso mesmo, num segundo momento, passamos a aprofundar especificamente a gênese da tecnologia moderna, sob a perspectiva ontológica. Partimos da concepção fenomenológica de Heidegger sobre a essência da técnica, que constitui, cremos nós, um dos pensadores indispensáveis para a compreensão ontológica da tecnologia em nossa época atual. Destacando suas principais idéias sobre a questão da técnica, observou-se o empenho do filósofo em desmistificar os conceitos de caráter antropológico e instrumental dado à técnica pelos contemporâneos. Mas aqui também pontuamos a insuficiência da análise fenomenológica da tecnologia realizada por Heidegger O próximo passo, então, foi buscar nos autores modernos uma análise da tecnologia que privilegiasse o sentido histórico, concreto e dialético da tecnologia moderna. Encontramo-la em Marx que concebe a tecnologia moderna a partir da produção do capital. 12 Então, para Marx, a tecnologia é o uso da ciência como força produtiva em vista

12 Neste sentido justifica-se a inversão histórica por nós utilizada, quando da exposição da gênese da tecnologia moderna (Cf. tópicos .4.1 e 4.2 deste capítulo). Como se observa, historicamente Marx é anterior a Heidegger. No entanto, a opção metodológica de iniciar o estudo da questão por Heidegger, tem em vista sua análise fenomenológica sobre o assunto, que constitui, em nosso entendimento, ponto de partida, mas não de

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o maior lucro, ou seja, na modernidade a tecnologia surge da aliança entre o saber e o fazer (ciência e técnica), com vista a maior produção. Ressaltamos a aliança entre ciência e técnica, como condição sine qua non para o surgimento da tecnologia da forma como a compreendemos hoje. Desta compreensão, adveio a necessidade de aprofundar a estreita relação entre tecnologia e ciência na modernidade. Tal exigência obrigou-nos a dar um outro passo: utilizando-se do contexto histórico do séc. XVII, enfatizamos o caráter ideológico da aliança entre ciência e técnica, a partir da visão dos teóricos da Escola de Frankfurt, sobretudo Habermas. Aqui fizemos menção à Teoria Crítica da Escola de Frankfurt sobre a ciência e a técnica enquanto ideologia, que tem na tecnologia a realização da fusão entre o conhecimento teórico (ciência) e conhecimento prático (técnica). De posse da construção deste referencial teórico sobre a gênese e a identidade da tecnologia moderna, com base na análise heideggeriana, marxiana e frankfurtiniana, e, seguindo a sistemática desta pesquisa, passamos a apontar os principais elementos para a constituição de um “outro entorno” ontológico da tecnologia. Por fim, a título conclusivo, enfatizamos os principais aspectos apontados neste capítulo que indicam, segundo nosso critério, o norte para uma compreensão ontológica da tecnologia na modernidade, em sentido crítico. Neste momento, iniciamos o embate teórico com algumas concepções sobre o tema assinaladas no decorrer do trabalho, ao mesmo tempo em que também reforçamos outras posições e vertentes de análise, transcritas no decorrer do trabalho. Vale lembrar que nesta empreitada foram nossos interlocutores principais: Heidegger, Marx, os teóricos da Escola de Frankfurt (sobretudo Habermas) Ruy Gama e Milton Vargas. Além desses, constantemente buscamos auxílio através do posicionamento crítico do filósofo latinoamericano Enrique Dussel. Assim, assegurando nossa visão própria, justificamos a necessidade de aprofundar ainda mais a natureza da tecnologia moderna a partir de seu aspecto epistemológico, objeto de análise do capítulo próximo.

2. TECNOLOGIA E VALORAÇÃO SOCIAL: ALGUNS POSICIONAMENTOS

Como fora dito anteriormente, a discussão sobre o que é a tecnologia, fatalmente nos conduz a um posicionamento valorativo frente a ela. E, porque vivemos no mundo da

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tecnosfera, seja para negar, para confirmar ou para exaltar a tecnologia, muitos são os autores que apresentam suas avaliações e posições a cerca da valoração social da tecnologia. Assim, com o intuito de problematizar o assunto e julgando ser esta a melhor opção didático-metodológica, optamos por iniciar a análise ontológica sobre a tecnologia, apresentando alguns posicionamentos existentes atualmente na doutrina a respeito da função social da tecnologia. Destacamos aqui, três desses diferentes posicionamentos, classificando-os como sendo representativos respectivamente da corrente otimista, da corrente pessimista e da corrente moderada. O primeiro deles, refere-se a um dos pensadores mais importantes da atualidade a refletir sobre a sociedade informática, que tem uma visão otimista sobre a tecnologia. Trata-se de Adam Schaff, para quem

A sociedade informática proporcionará os pressupostos para uma vida humana mais feliz; eliminará aquilo que tem sido a principal fonte da má qualidade de vida das massas na ordenação do quotidiano: a miséria ou, pelo menos, a privação. Abrirá possibilidades para a plena auto-realização da personalidade humana, seja liberando o homem do árduo trabalho manual e do monótono e repetitivo trabalho intelectual, seja lhe oferecendo tempo livre necessário e um imenso progresso do conhecimento disponível, suficientes para garantir o desenvolvimento. Desse modo, o homem receberá tudo o que constitui o fundamento de uma vida mais feliz. Todo o restante dependerá dele, de sua atividade individual e social. 13

Na previsão de Schaff encontramos algumas idéias característica daqueles que defendem incondicionalmente a tecnologia, inclusive nos moldes em que ela se encontra hoje. Argumentos como: “garantia de bem-estar para o homem”; “desoneração do trabalho pesado”; “necessidade básica para o progresso e o desenvolvimento”; “curso natural do desenvolvimento e do progresso científico” são comuns nesta corrente. Uma outra corrente se opõe frontalmente aos “otimistas”, porque considera que na gênese da tecnologia está a destruição da vida e do planeta. Para os pessimistas, não há que se falar sequer em possibilidade de reversão do quadro de destruição, a permanecer a natureza da tecnologia tal como a concebemos hoje. Citemos a observação de Enguita:

A tecnologia continua sendo o resultado ‘natural’ da ciência em uma sociedade orientada pela busca do lucro empresarial. Sua aplicação é também, em certo sentido, inevitável, devido aos mercados competitivos. Seus efeitos, contudo, não são já positivos, mas negativos: ela destrói lugares de trabalho, condena os trabalhadores a empregos desqualificados, monótonos e rotineiros, induz ao consumismo, desumaniza as relações sociais e, enfim, nos conduz ao holocausto universal. Os trabalhadores, o movimento operário, a esquerda tradicional e o marxismo não souberam responder à civilização

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produtivista que acompanha o mito do progresso [

].

O trabalho não será nunca reino de

... liberdade de forma que se torna necessário falar de uma cultura do ócio e do tempo livre. 14

Relacionando com a noção de trabalho, esta corrente considera que a tecnologia é um mal implacável, posto que trará consigo a eliminação do trabalho humano. Condição esta, alegam, sobretudo, os marxistas, inerente ao processo de humanização do homem. Ademais, dizem “os pessimistas”, a tecnologia orientada pelo lucro, existe em função da maior produção, daí a robotização e, por fim, a destruição do homem. Uma terceira via, prega a necessidade de repensar a direção dada à tecnologia hoje, postulando que é necessário minimizar os riscos sem abdicar dos benefícios que a tecnologia propicia a humanidade. Neste sentido, Kneller assinala:

O caminho mais sensato é almejar um progresso limitado e manter seus inevitáveis custos em nível mínimo. Alguma inovação tecnológica é essencial e desejável. Ela tem sido necessária à modernização de todas as sociedades, e habilitará a nossa a sobreviver e melhorar. O desenvolvimento de novas tecnologias deve ser encorajado e o treinamento de tecnólogos

imaginativos

promovido. [

...

]

A tecnologia pode criar ou destruir, tornar o homem mais

humano ou menos. Mas as civilizações, como os indivíduos, devem correr riscos se quiserem progredir. Se exercermos prudência para minimizar os danos da tecnologia e

incentivar o máximo seus benefícios, certamente valerá a pena aceitar o risco. 15

Como se observa, a posição dos “moderados” consiste em enfatizar um sistema tecnológico capaz de se adequar a uma sociedade democrática mais humana. Ao apresentar a obra de Ruy Gama, Engenho e tecnologia, Motoyama diz: “Por conseguinte, para a materialização de uma sociedade democrática é insubstituível a evolução tecnológica adequada às características humanas e regionais”. 16 Como se vê, tais posicionamentos confrontam-se entre si. Disso decorre a primeira observação importante e necessária para o escopo da análise que pretendemos empregar: o significado, o valor e o papel que atribuímos à tecnologia na sociedade estão intrinsecamente relacionados com a concepção que temos dela. Daí a importância capital em discutir a natureza deste fenômeno social. Com o objetivo de aprofundar um pouco mais o dito acima, começamos pela distinção entre ciência, técnica e tecnologia.

  • 3 CIÊNCIA, TÉCNICA E TECNOLOGIA: APROXIMAÇÕES E DIFERENCIAÇÕES

14 ENGUITA, Mariano F. Tecnologia e sociedade; a ideologia da racionalidade técnica, a organização do trabalho e a educação. In: SILVA, Thomaz T. da. Trabalho, educação e prática social; por uma teoria da formação humana. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991. p. 231. 15 KNELLER, , G. F. A ciência como atividade humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1980. pp. 269 e

270.

16 GAMA, R. Engenho

...

, op. cit., p.11.

26

Tendo em vista que o foco principal da análise aqui proposta é apontar algumas reflexões sobre a gênese da tecnologia, inicialmente entendemos que é necessário fazer algumas distinções entre ciência, técnica e tecnologia, visto que freqüentemente encontramos referências que utilizam os termos como sinônimo, o que consideramos um equívoco. É comum, por exemplo, confundir técnica com tecnologia; ciência com tecnologia ou ciência e técnica. Inicialmente explicitemos a distinção entre técnica e tecnologia. Para tanto, citemos o sentido conceitual dos dois termos extraído do Dicionário das Ciências Sociais, citado por Ruy Gama. Primeiramente o conceito de técnica, depois o de tecnologia:

Técnica: conjunto de regras práticas para fazer coisas determinadas, envolvendo habilidade do executor e transmitidas, verbalmente, pelo exemplo, no uso das mãos, dos instrumentos e ferramentas e das máquinas. Alarga-se freqüentemente o conceito para nele incluir o conjunto de processos de uma ciência, arte ou ofício, para obtenção de um resultado determinado com o melhor rendimento possível. Tecnologia: estudo ou conhecimento científico das operações técnicas ou da técnica.

Compreende o estudo sistemático dos instrumentos, ferramentas e das máquinas empregadas nos diversos ramos da técnica, dos gestos e dos tempos de trabalho e dos custos, dos materiais e da energia empregada. A tecnologia implica na aplicação de

métodos das ciências físicas e naturais [

...

].

17

Como se verifica na primeira parte do conceito citado acima, a técnica compreende essencialmente a noção do ‘fazer’, habilidade esta inata ao ser humano, utilizada na resolução dos problemas fundamentais do homem. Portanto, ela é tão antiga, quanto à própria linguagem e nasce da relação homem e natureza, em vista da sobrevivência daquele. 18 Já a tecnologia, conforme enseja a afirmativa acima, possui uma amplitude maior, visto que abrange “o conhecimento científico das operações técnicas”. E a ciência? No que ela se diferencia da técnica e da tecnologia? Em sentido etimológico e genealógico, a ciência compreende o saber teórico, explicativo da realidade e que envolve a natureza e a cultura como um todo. Portanto, a ciência enquanto forma de conhecimento é mais abrangente que a tecnologia, pois, aquela é o pensamento organizado racional (o “logos” grego) sobre o mundo, o real; enquanto que a tecnologia é o “logos” da técnica em específico. Sobre a distinção entre ciência e técnica, é mister salientar que na Grécia Antiga (séc. VI) havia uma clara diferença entre o saber teórico, contemplativo

17 BIROU, Alain. Dicionário das ciências sociais. Lisboa: Ed. D. Quixote, 1966, citado por GAMA, Ruy. A tecnologia e o trabalho na história. São Paulo:Edusp, 1987, p. 30 e 31. 18 Esta noção de técnica, será severamente criticada por Heidegger, em seu ensaio sobre A questão da técnica, o qual apresentamos mais adiante. Segundo Heidegger, trata-se de uma noção instrumental e antropológica de técnica que corresponde ao que é correto, mas não ao que é verdadeiro, sob o ponto de vista filosófico da essência da técnica (Cf. tópico 4.1 deste capítulo).

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promovido pela ciência, do qual tinham acesso somente os filósofos, e o saber prático e técnico, promovido pelos artesãos e acessível aos escravos. Mas, esta distinção comumente encontrada na literatura que trata do assunto merece ainda maior aprofundamento. Recuperemos, então, o sentido originário de técnica, dado pelos gregos. O historiador da filosofia Giovanne Reale esclarece que a palavra grega techné (τέχνη) “implica, ao mesmo tempo, conhecimento do universal e aplicação prática, com a predominância do primeiro sobre a segunda”. 19 Portanto, o sentido de técnica empregado pelos gregos diz respeito a um conhecimento universal aplicado à prática, donde o possuía o artesão que, ao produzir um utensílio tinha a dimensão da totalidade do objeto produzido. Esta distinção nos parece fundamental diante do propósito de nossa análise, pois, em sentido moderno, a técnica passou a ser um conhecimento eminentemente prático e específico: diz-se do conhecimento técnico aquele que é especializado. A predominância é sempre da aplicação prática em detrimento ao conhecimento universal, ao contrário do que propunha a civilização grega. Ademais, é por isso que se torna incorreto atribuir a palavra techné o mesmo sentido de “arte” tal como conhecemos hoje. Neste sentido Reale alerta:

A palavra techné tem em grego uma extensão muito mais vasta que a nossa palavra ‘arte’. Com essa se pensa uma atividade profissional qualquer fundada sobre um saber especializado , isto é, não só a pintura, a escultura, a arquitetura e a música, mas também, e mais ainda, a arte sanitária, a arte da guerra e até mesmo a arte do piloto. E dado que a palavra exprime que tal consuetude e ou atividade prática não se apóia só sobre uma rotina, mas sobre regras gerais e sobre conhecimentos seguros, ela chega facilmente ao significado de ‘teoria’, significado que tem correntemente na filosofia de Platão e de Aristóteles, especialmente onde se trata de contrapô-la à pura empiria ou ‘prática’. Por outro lado, techné se distingue de epistéme, a ‘ciência pura’, enquanto a techné é pensada sempre a serviço de uma práxis. 20

A “práxis” grega (πραξις), em sentido amplo, indica sempre “o agir e o fazer dos homens, como atitudes distintas da contemplação”. 21 Diferentemente da poiésis (ποιήσις) que indica “produção”: uma ação que produz fora do sujeito, a práxis é a ação que parte do sujeito e volta para o sujeito. Portanto, é uma ação moral. Enrique Dussel, ao elaborar uma Filosofia de la producción, já na parte introdutória de sua obra chama a atenção para o sentido da questão, quando diz:

Desde já devemos aclarar que prático vem do grego (πραξις: práxis) e indica a relação homem-homem; em especial a relação política, ou as relações sociais de produção.

  • 19 REALE, Giovanni. História da filosofia antiga. Vol. 1. São Paulo: Loyola, 1995, p. 250.

  • 20 Id. Ibid.

  • 21 REALE, op. cit., p. 211.

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Enquanto que poiésis e poiético vem de outra palavra grega (ποιήσις: fazer, produzir, fabricar) e indica a relação homem-natureza, em especial a relação tecnológica, ou todo o âmbito das forças produtivas, a divisão do trabalho, o processo de trabalho, etc. 22

Mas há ainda outro esclarecimento sobre a técnica que aqui é mister expor. Trata-se da relação entre phronesis e techné, a qual também se ocupou Aristóteles.

O VI livro da Ética a Nicômaco é consagrado à prudência (phronesis) que é a virtude da decisão certa e justa. Para determinar o que esta virtude tem de específico, o filósofo a comparava às virtudes intelectuais, à ciência, à arte (techne) , à sapiência, à inteligência intuitiva. A aproximação entre phronesis e techne se impõe de modo especial porque ambas pertencem à razão prática. Têm em comum que cada uma versa sobre “o que é que pode ser de outro modo”, qual é seu contingente, por oposição ao necessário, que é objeto da ciência propriamente dita. De resto, diferem-se a poiésis, a criação e a práxis, a ação ética. A techne se refere à primeira, phronesis à segunda. 23

Nota-se, então, que para Aristóteles a técnica possui uma estreita vinculação com a prudência. A técnica é a virtude mais puramente intelectual da prudência. Aristóteles fala na techné como um “habitus poiético segundo a razão certa”; é a razão que dirige a produção. Por isso, Cottier, prosseguindo na interpretação de Aristóteles, sobre a técnica, esclarece:

Poiesis pode, em realidade, ser traduzida como produção, fazer, fabricação, criação. Os Latinos dirão ars factiva. A razão certa se refere àquela verdade prática que é a verdade técnica; esta tem competência sobre a forma e a medida que o produtor dá ao objeto produzido. De resto cada arte tem por objeto fazer vir qualquer coisa à existência (gênesis), e a explicação da arte consiste em descobrir (technazein e theorein) os meios (ou, o como) fazer vir à existência uma ou outra das coisas que possam ser ou não ser e, em cujo princípio reside no produtor e não na coisa produzida. Porque a arte não tem por objeto nem as coisas que são ou vêem à existência necessariamente, nem as coisas que são ou vêem a existência por natureza, do momento que aquelas coisas têm seus princípios nelas mesmas. 24

Voltaremos a esta questão da técnica como a virtude de dirigir a razão certa, como prudência, no capítulo sobre a dimensão epistemológica e axiológica da tecnologia. Por enquanto, vale lembrar que para Aristóteles, a techné, enquanto poiésis, assim como a phronesis compreendem ambas a parte da razão prática. Prossigamos com o aclaramento dos termos, tratando agora da tecnologia. Aristóteles, em seu tratado sobre Política, imaginava a seguinte situação:

Com efeito, se cada instrumento pudesse cumprir a sua função a uma ordem dada ou apenas prevista, conforme diz das estátuas de Dédalo ou das tripeças de Éfeso, as quais, a ouvir o poeta, “entram de próprio impulso na assembléia divina”, assim também se as

22 DUSSEL, Filosofía

op. cit., p. 13. (Tradução livre).

, 23 COTTIER, Georges. Criteri di giudizio etico sulla tecnologia. In: BAUSOLA, Adriano et al.

...

Etica e transformazioni tecnologiche. Milano: Vita e Pensiero, 1987, p. 72.(tradução livre) 24 ARISTOTELES, Ética a Nicômaco. 1140a , 10-16. Ib. ibid. (tradução livre)

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lançadeiras tecessem as toalhas por si mesmas e se as palhetas tocassem a cetra, os mestres artesãos não haveriam de precisar de subordinados, nem os patrões de escravos. 25

Da situação utopicamente imaginada pelo filósofo que não acreditava poder existir uma sociedade sem escravos, o que se viu foi a sua realização. A utopia tornou-se realidade, quando passou a ser real a possibilidade da substituição do trabalho escravo pelo desenvolvimento técnico, ou seja, através do instrumento que funciona direto por um comando e que substitui o trabalho servil do homem. Então, agora, o instrumento passou a significar mais que uma mera ferramenta, porque alberga em si a habilidade da arte, ou seja, contém em si o conhecimento procedimental que antes pertencia ao homem. Nascia aí o sentido de tecnologia. Sobre o uso em sentido histórico do termo “tecnologia”, Ruy Gama alerta que remonta às origens da civilização ocidental. E diz:

A palavra tecnologia não é nova; apesar das afirmações de que ela foi inventada no séc. XVIII, há fortes argumentos contrários. O Dicionário etimológico da língua portuguesa, de Antenor Nascentes dá como origem a palavra grega Technologia e o Dictionaire grec- français de A. Bailly dá para τεχνολσγια, ας o significado de “tratado ou dissertação de uma arte”. O importante é que Bailly assinala sua presença na obra de Cícero (106 – 43 a.C.), particularmente em Cartas a Alticus, 26

Mas,

o

fato

é

que

a

tecnologia

em

sentido moderno está intrinsecamente

relacionada com a aliança entre ciência e técnica. Milton Vargas, por exemplo, esclarece

que a tecnologia é um fenômeno da modernidade 27 :

No início do século XVII, dois fatos cooperaram para o aparecimento da tecnologia como uma aproximação da técnica com a ciência moderna. O primeiro foi o aparecimento, na Europa, de uma crença de que tudo que pudesse ser feito pelo homem poderia sê-lo por intermédio de conhecimentos científicos. O segundo foi que a ciência experimental exigia, para seus experimentos, instrumentos de medida precisos que teriam que ser fabricados ou por cientistas com dotes artesanais ou por artesãos, informados pelas teorias científicas. Essa, sem dúvida, foi a origem da tecnologia como utilização das teorias científicas na

solução de problemas técnicos

[...]

Os primeiros sucessos apareceram ao se explicar o

funcionamento das máquinas a vapor por meio de teorias científicas para a construção de

máquinas elétricas e confirmou-se com a eletrônica; não se sabe exatamente onde termina a ciência e começa a técnica. 28

  • 25 ARISTÓTELES, La Política. 1253b, 33 – 1244a , 1. Apud, COTTIER, op. cit., p. 76.(Tradução

livre)

  • 26 GAMA, R. Engenho e tecnologia. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1983, p. 40.

  • 27 Especificamente sobre este aspecto, ou seja, que a tecnologia é um fenômeno estritamente moderno, vale lembrar que o posicionamento do autor será retomado como objeto de crítica nos aspectos conclusivos deste capítulo (pp. 30 e ss).

  • 28 VARGAS, M. Dupla transferência; o caso da mecânica dos solos. Revista USP. São Paulo, n. 7, p. 3-12, 1990. Apud RIBEIRO DE SOUZA, Sonia Maria. Um outro olhar. São Paulo: FTD, 1995, p. 229. Semelhante posição adota o autor ao discorrer sobre “Tecnologia, técnica e ciência”, in GAMA, Ruy (Org.) Ciência e técnica (ontologia de textos históricos). São Paulo: T. A. Queiroz, Editor, 1984, p. 14 e VARGAS, Milton. Metodologia da pesquisa tecnológica. Rio de janeiro: Globo, 1985, p. 13 e ss.

30

A constatação do referido autor sobre o surgimento da tecnologia evidencia claramente que a tecnologia, em sentido moderno, não pode ser entendida simplesmente como o estudo da técnica. É mais que isso: a tecnologia implica “na utilização das teorias científicas na solução de problemas técnicos”. Para ele, a tecnologia está intrinsecamente relacionada com a aliança entre ciência e técnica. Portanto, é da aliança entre o saber técnico e o saber científico, a partir da era moderna, parceria esta inevitável pela visão empirista da ciência e pelo surgimento da sociedade capitalista, solidificada no processo da Revolução Industrial, que surgirá o conceito de tecnologia tal como compreendemos hoje. Sobre o uso do termo a partir da era moderna, em que está explícito a preocupação de aliar Teoria e Prática, citam-se alguns exemplos extraídos da pesquisa realizada também por Ruy Gama. O termo em si foi cunhado pelo alemão Johann Beckmann (1739-1811) que era professor de Ciências econômicas de Göttingen. Ele se dedicava a explanação científica das artes dos técnicos e artesãos. 29 Nos Estados Unidos, o termo “technology” foi usado em 1829 por Jacob Bigelon, que, nas suas conferências referia-se ao termo como “aplicação da ciência às artes úteis” 30 . Em 1861, com a fundação do MIT (Massachussets Institute de Technology) o projeto previa claramente a necessidade de um conhecimento voltado às finalidades práticas, ao invés de um saber “puro”, meramente teórico. 31 A École Polytechnique, criada na França em 1794, visava, entre outros objetivos, a reunião entre a teoria e a prática. Os dizeres de um dos pioneiros da criação deste instituto, Gaspar Monge, expresso logo no prefácio da sua obra Geometria Descritiva, citado por Gama, ilustra a proposta da escola:

Para tirar a Nação Francesa da condição de dependência da indústria estrangeira em que está mergulhada até o momento, é preciso, em primeiro lugar, estabelecer a instrução baseada no conhecimento dos objetos, para o que é necessário ter precisão – o que até o presente está abandonada – e educar as mãos de nossos técnicos especialistas no manejo dos instrumentos. (grifo nosso) 32

Também em Portugal, o uso do termo usado por José Bonifácio, talvez pela primeira vez naquele país, enfatizava a necessidade de “eliminar a oposição entre teoria e

  • 29 op. cit., p. 9.

GAMA,

Engenho

...

,

  • 30 op. cit., p. 50.

GAMA, Engenho

...

,

  • 31 GAMA, R. História.da técnica e da tecnologia. São Paulo, 1985, p. 10 e 11.

  • 32 op. cit., p. 42

GAMA,

Engenho

...

,

31

prática”. Um senhor de engenho no séc. XIX aqui no Brasil escrevia “com veemência sobre o uso da ciência para finalidades práticas”. 33

Como

se

vê , todas

as situações acima descritas, ainda que geograficamente e

historicamente narradas de maneira isolada e factual, apontam para a mesma necessidade, qual seja: unir o conhecimento teórico (especialmente dos cientistas) ao conhecimento prático (sobretudo dos técnicos). Tal necessidade não acontece por acaso ou aleatoriamente; ela é fruto de um projeto político, econômico, social, enfim de uma nova cosmovisão, o qual está sendo engendrado neste período: trata-se do surgimento da sociedade capitalista. Em sentido filosófico , a justificativa de aliar o conhecimento teórico e o prático, pode ser explicada através do empirismo. Corrente filosófica esta que se constitui um dos pilares da dimensão epistemológica na modernidade, conforme veremos no próximo capítulo. Contudo, também o conceito em sentido etimológico, meramente semântico não é suficiente para atingir o propósito deste trabalho, posto que entendemos que não existe significado fora de seu contexto, pois, todo conceito necessariamente nasce de uma determinada conjuntura e se transforma a partir de outros novos contextos. É por isso,

inclusive, que optamos pelo uso do termo conceito e não definição. O sentido de definição fecha o significado sob o ponto de vista da dinamicidade da história, o que não é nossa posição. Portanto, necessário é indagar sobre qual contexto estamos nos referindo à técnica, à tecnologia e à própria ciência. Uma demonstração clara de que o conceito sofre variações de acordo com a dinamicidade da história reside na própria passagem do dicionário da Oxford (The Oxford

English Dictionary), editado em 1895 e 1900, para quem “[

...

]

o sentido que se aproxima

do grego τεχνολσγια registrado em 1683, é dado como obsoleto, em desuso no inglês moderno” 34 . Como se percebe, o sentido de tecnologia a partir do séc. XIX não é o mesmo que o registrado até o séc. XVII. Assim, entendemos que dar igual significado à tecnologia antes e depois da era moderna parece-nos um equívoco, posto que, com as transformações advindas, sobretudo, da ciência na modernidade a tecnologia passou a significar mais que o mero estudo sobre a técnica. Neste sentido alude Medeiros e Medeiros 35 que a tecnologia possui significado

33 GAMA,

História

....

,

op. cit., p. 11

  • 34 GAMA, R. Engenho e tecnologia. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1983, p.40

  • 35 MEDEIROS e MEDEIROS. O que é tecnologia. São Paulo: Brasiliense, 1993, p. 7 e ss.

32

próprio por ser uma versão mais elaborada da técnica; ela não pode ser confundida com os produtos que ajuda fabricar. Ademais, além do aspecto histórico que se deve levar em conta, insistimos que o perigo dos métodos de estudo que privilegiam a análise semântica meramente conceitual, advém do fato de desconsiderar o aspecto filosófico que permeia a complexa questão da tecnologia. E, corroborando com a tese de Laruelle, acrescentamos:

Uma análise filosófica da “tecnologia” e da ‘técnica” não se reduz ao inventário lexical e semântico destas palavras e de suas definições. Mas ela não pode evitá-lo e deve passar, deles se servindo como de um material, por esses jogos polissêmicos, deslizamentos, derrapagens, sobredeterminações de sentido e sedimentações de usos. Eis aí toda uma história e mesmo toda uma filosofia. 36

Portanto, um procedimento mais rigoroso sobre o que é tecnologia enfocaria as definições que comumente encontramos na literatura como sendo simples materiais a serem utilizados como ponto de partida e não de chegada. Nisso reside o trato filosófico da questão, pois, uma análise mais profunda sobre a natureza da tecnologia exige uma reflexão a priori sobre o fenômeno, que não se confunde com a realidade objetiva, dada pelas máquinas, nem com as representações psicológicas, históricas ou sociológicas dadas por estas, ao contrário, precede a elas. Também não se confunde com as definições dado como normais, mas que não são reais. Ou seja, uma análise mais rigorosa sobre o assunto deve levar em conta o “teor eidético”, ou o “teor de sentido destes fenômenos” 37 , que é adquirido antes de toda experiência técnica. Por isso, é a priori e, dela, deve-se ocupar a filosofia. A fim de esclarecer melhor o que queremos dizer, situemos então, histórica e filosoficamente a gênese e a identidade da tecnologia moderna, a partir da análise de três grandes pensadores que se ocuparam do tema neste período. Estamos nos referindo especificamente a Heidegger, a Marx e a Escola de Frankfurt (sobretudo, Habermas).

  • 4 A GÊNESE DA TECNOLOGIA MODERNA

4.1 Heidegger e a Questão da Essência da Técnica

  • 36 LARUELLE. François. Para o conceito de não tecnologia. In: SEILER, Achin et al. Tecnociência e cultura: ensaio sobre o tempo presente. São Paulo: Estação Liberdade, s/d, p. 209.

    • 37 LARUELLE, op. cit., p. 212.

33

Certamente o pensamento de Heidegger constitui o marco referencial para aqueles que desejam se aventurar em discutir o significado da tecnologia, sobretudo, a partir da modernidade. Através de uma brilhante conferência, proferida em 1953, em Munique, intitulada A questão da técnica 38 , Heidegger lança as bases filosóficas sobre a essência da técnica em sentido moderno que, para efeito de nossa avaliação e tendo em vista o objetivo deste trabalho, tornam-se imprescindíveis traduzi-los aqui. 39 Heidegger introduz o tema, esclarecendo que “a técnica não é a mesma coisa que a essência da técnica”. 40 Com isso, ele considera que a resposta sobre a questão da técnica não é uma resposta técnica, mas ela é antes de tudo, filosófica. Assim ele argumenta:

quando procuramos a essência de uma árvore não encontramos na árvore. A essência transcende o ser em si concreto. Logo, a essência da técnica não é de modo algum algo técnico. Então, nunca chegaremos a identificar o que é a técnica, falando do que é técnico, ou referindo-se aos aparatos técnicos. Uma outra consideração importante é que para Heidegger, somente chegaremos a ter uma relação livre com a técnica se questionarmos a técnica. Exercício este a que Heidegger se propõe a realizar e que também é o nosso. Longe daqueles comportamentos que se entregam à técnica, sobretudo por considerá-la neutra e que, por isso, apaixonadamente a defendem, ou por aqueles que de modo fictício negam sua existência, esquecendo a própria factibilidade deste fenômeno, o exercício livre de pensar sobre a técnica implica em tomá-la como objeto, portanto, existente, materialmente falando, e, a partir daí estabelecer o pensar livre sobre a técnica. Também outra consideração que compõe a base do pensamento de Heidegger, e que é, sem dúvida, a mais importante para a nossa pesquisa, diz respeito ao significado

38 HEIDEGGER op. cit. O original consta da obra em alemão, intitulada Die frage nach der technik.. 39 Ao descrever a biografia de Heidegger, Safranski lembra que a conferência sobre A questão da técnica não é um avanço isolado neste terreno. Heidegger toma a palavra num debate que já estava acontecendo na Europa, sobretudo, com o desconforto do mundo pós-guerra diante da técnica e da necessidade de discutir a relação entre política e tecnologia. Neste cenário, figuravam tanto os apologéticos, quanto os críticos da tecnologia. Por exemplo, do lado dos críticos, encontramos as manifestações em homenagem a Kafka, um homem horrorizado com o “poder do mundo coisificado”; a análise profética de Huxley em Admirável mundo novo; a obra de Weber, O terceiro ou o quarto homem, em que ele descreve o horror de uma civilização técnica e a visão de Friedrich Jünger, para quem a técnica não é só um meio, mas um modo de vida. Do lado dos anticríticos da crítica, figuravam posições, como: o “mal” não reside na técnica, mas no ser humano; “é preciso evitar a demonização da técnica, e em troca analisar melhor a técnica da demonização”, descrevia um artigo publicado no Monat, e que também era a posição de Max Bense. Além desses, vale lembrar ainda que o físico Heisenberg, bem como o filósofo José Ortega y Gasset (com a publicação de sua obra Meditações sobre a técnica) também participavam deste contexto. Ambos, inclusive, faziam-se presentes na referida conferência de Heidegger, a qual fora, “talvez o maior sucesso público de Heidegger na Alemanha do pós-guerra”. Cf. SAFRANSKI, Rüdiger, Heidegger: um mestre da Alemanha entre o bem e o mal. São Paulo: Geração Editorial, 2000, pp. 455-472. 40 HEIDEGGER, op. cit., p. 41.

34

instrumental e antropológico atribuído à técnica com o advento da era moderna. Heidegger coloca em crise tal concepção e o faz a partir da seguinte análise. Parafraseando os filósofos clássicos da Antigüidade, Heidegger esclarece que “a essência de algo vale pelo que algo é” 41 . Assim, se eu digo que a técnica “é um meio para fins”, ou que “é um fazer do homem”, estou conferindo à técnica uma determinação instrumental e antropológica. Esta é a definição moderna de técnica, que segundo Heidegger, é uma concepção instrumental de técnica, baseada na idéia de “fazer” e de “meio”. É esta visão moderna de técnica que será exaustivamente questionada por Heidegger: mesmo sendo tal concepção correta, argumenta o filósofo, ela pode não ser verdadeira. O correto nem sempre é sinônimo de verdadeiro, pois, aquele pode ocultar a essência de algo, ou seja, daquilo que é verdadeiro. E acrescenta: somente o que é verdadeiro nos leva a uma relação livre com o que nos toca a partir de sua essência. Disso conclui-se que a correta denominação instrumental de técnica não nos revela ainda sua essência. Então, para se chegar à descoberta do que é verdadeiro, o caminho a ser percorrido é o da causalidade dos fenômenos, sugere Heidegger. Para Aristóteles, todo ser se constitui a partir de quatro diferentes causas, a saber: a causa materialis, que indica do que algo é feito, refere-se à sua materialidade; a causa formalis, que se refere à forma/figura dada à matéria; a causa efficiens que indica os efeitos produzidos pelo ser e a causa finalis que revela a intenção ou finalidade das coisas 42 . Entretanto, constata Heidegger, que “há muito tempo temos o costume de representar as causas como o que opera efeito. Efetuar significa então: visar resultados, efeitos. A causa efficiens, uma das quatro causas, determina de modo exemplar toda causalidade. Isso vai tão longe que em geral nem mais se considera a causa finalis, a finalidade como causalidade. 43 Assim, quando afirmamos que a técnica é “um meio para fins”, estamos considerando apenas a determinação instrumental da técnica e simplesmente reconhecendo nela um tipo de causalidade, qual seja: a causalidade eficiente. Para Heidegger, os quatro modos de causalidade são “comprometidos” entre si e não se realizam separadamente. E somente os quatro modos de comprometimento fazem

41 HEIDEGGER, op. cit., p. 43. 42 A título de ilustração, Heidegger utiliza o exemplo da taça: feita de prata (causa material); em forma oval (causa formal); pelo escultor (causa eficiente); para servir vinho (causa final). Cf. HEIDEGGER, op. cit., p. 45. 43 HEIDEGGER, p. 47. Este aspecto da causalidade será retomado no próximo capítulo, quando analisarmos o conhecimento científico e a causa final.

35

com que algo apareça. 44 A causalidade é o modo de deixar apresentar a coisa. Utilizando- se do conceito de Platão (Banquete 205 b) sobre poiésis (como todo fazer-chegar à presença, que passa do não-presente à presença, por meio da produção), Heidegger esclarece que é através da produção que algo se torna des-velado, aparecido. A isso chamamos de verdade: é a descoberta de algo; é o “des-abrigar”, no sentido heideggeriano. Aplicando este conceito de verdade à questão da técnica, diremos, então, que a técnica não é só um meio, portanto não é meramente um instrumento; “é um modo de desabrigar”, porque atua no seio do produzir. “O produzir leva do ocultamento para o descobrimento”, afirma Heidegger. 45 Portanto, “todo tipo de pro-duzir seria, neste caso, um modo de des- velamento, um modo da techné que manifesta a verdade”. 46 Mas, o desabrigar da técnica moderna possui um sentido diferente daquele empregado pelos gregos. A técnica moderna “repousa na ciência exata da natureza” 47 . Por isso, ela é incomparável com outras técnicas anteriores. Ela é mais que a simples técnica manual, e o “desabrigar” da técnica moderna assenta num “desafiar”, observa Heidegger. O desafio consiste em exigir da natureza aquilo que lhe é suscetível de oferecimento ao homem. Não se trata simplesmente de guardar e cuidar. Heidegger utiliza o exemplo do camponês: se, antes, seu esforço consistia em preparar a terra para plantar e colher, no modo de exigir e desafiar da técnica moderna, a ação do camponês, agora é outra, porque sua exigência para com a natureza também é outra. Não se trata somente de pôr a semente no solo, e sim desafiar a natureza no sentido de extrair dela o máximo de proveito e o mínimo de despesas. O campo não é somente o lugar de guardar a semente; “o campo é agora uma indústria de alimentação motorizada”. 48 Portanto, mais que extrair, a intenção e o desafio da técnica moderna é explorar, armazenar (stock).

Disso decorre que o significado das coisas existentes a priori se altera com a intervenção humana pela técnica. Um rio que abriga uma hidroelétrica, deixa de ser ele mesmo e passa a constituir outro significado. Como rio ele é agora a essência da central elétrica: o rio que tem a pressão da água. Em verdade, não é o rio que abriga a hidroelétrica, mas é o rio que está construído na central hidroelétrica; a sua existência vale pela energia que produz e não por ser ele mesmo o rio.

  • 44 HEIDEGGER, op. cit., p. 54.

  • 45 HEIDEGGER, op. cit., p. 53.

  • 46 cit., p. 66. (Tradução livre)

DUSSEL, Filosofía

,op.

  • 47 HEIDEGGER, op. cit., p. 57.

  • 48 Id. Ibid.

36

A técnica é um desabrigar que desafia exatamente por isso: seu descobrimento é um “pôr desafiante”. Situação em que Heidegger designa “subsistência”: “ela significa nada menos do que o modo pelo qual tudo o que é tocado pelo desabrigar desafiante se essencializa”. 49 Através do conceito de subsistência Heidegger argumenta que mesmo uma máquina não é um instrumento autônomo (contrariando a posição de Hegel, para quem a máquina possui autonomia) 50 , pois, ela só existe em função de algo; disso depende sua essência. Nisto consiste a subsistência. Obviamente que o “pôr que desafia” será efetuado pelo ser humano. Este, na visão heideggeriana, não é uma mera “subsistência”, posto que ele cultiva a técnica. Mas também para Heidegger o “desabrigar”, isto é, o desvelamento da verdade pela técnica não é um mero “fazer humano”. Há “uma invocação desafiadora que reúne o homem a requerer o que se descobre enquanto subsistência”, 51 o qual Heidegger denomina Ge-stell, que pode ser entendida como estruturação, invenção, criação. Não se trata de uma simples armação. Pois esta indica montagem, estrutura, camadas ou suportes. Porém, “a armação” aqui é entendida como “aquele pôr que o homem põe, isto é, desafia para desocultar a realidade no modo de requerer enquanto subsistência”. 52 Portanto, trata-se de uma estruturação inventiva, í.é. no bojo da questão do desvelamento da verdade pela técnica reside a criação inventiva, que é o modo de desabrigar característico da essência da técnica moderna. Nela, não há nada de técnico, nada de maquinal. Daí Heidegger esclarece que a estruturação inventiva não é “nem um fazer humano, nem um mero meio no seio de tal fazer”. 53 Contudo, mesmo sendo “a armação” a essência da técnica moderna, ela não surge com o advento desta. De fato, a manifestação da técnica moderna só vai ocorrer dois séculos após a constituição da sua essência. Pois, para Heidegger a armação, enquanto descobrimento que desabriga o real, corresponde à postura requerente do homem em tornar a natureza matematizada. Isso ocorreu no séc. XVII, com o advento da moderna ciência da natureza, sobretudo através da física experimental. Por meio da representação que põe a

  • 49 HEIDEGGER, op. cit., p. 61.

  • 50 Cf. p. 61 da referida obra.

  • 51 HEIDEGGER, op. cit,. p. 65

..

cit., p. 69.

  • 52 HEIDEGGER, op. cit., p. 67. Sobre a tradução do termo Ge-stell, ainda que utilizamos literalmente a tradução da obra consultada, a qual traduz por “armação”, entendemos que o termo germânico não encerra este sentido. A idéia de “estruturação”, “invenção”, “criação”, parece-nos ser mais coerente.

Dussel esclarece ainda que o filósofo atribui-lhe um sentido diferente dos antigos, dando-lhe um significado próximo à “racionalização”, que tem o sentido de “pedir contas”, “exigir sua razão de ser”. Cf. Dussel,

Filosofía

,

op. cit., p 69.

  • 53 Id. Ibid.

37

natureza como um complexo de forças passíveis de cálculo, a física moderna propiciou o aparecimento não da técnica, mas da sua essência. O filósofo, esclarece ainda que

a física moderna não é, por isso, experimental porque coloca em ação aparelhos para questionar a natureza, pelo contrário: porque a física põe a natureza como pura teoria, para que ela se exponha como um contexto de forças previamente passível de ser calculado, por isso o experimento é requerido, a saber, para questionar se a natureza assim posta se anuncia e como ela se anuncia. 54

Desta análise histórica, Heidegger conclui que a essência (e não é só a essência da técnica), sempre permanece oculta por mais tempo; ela é anterior ao aparecimento do fenômeno. Assim, se as máquinas constituem a materialização da técnica moderna, a partir do séc. XVIII, a constituição de sua essência, já está sendo “armada” com a moderna ciência da natureza há, pelo menos, dois séculos antes. Parafraseando os gregos e utilizando-se de um recurso metafórico, Heidegger, observa que o fenômeno do florescer torna-se manifesto a nós naquilo que lhe é essencial, somente mais tarde. E acrescenta:

“Aos homens, a madrugada inicial, se mostra apenas no final”. 55 Então, a concepção de que a técnica moderna é uma ciência da natureza aplicada é enganadora, posto que, se a essência da técnica consiste na armação (que, para tal, utiliza-se da ciência exata da natureza), ela nada tem de técnico, maquinal, conforme demonstrou Heidegger em princípio. Recapitulando a tese central sobre a questão da técnica apresentada por Heidegger até aqui, diríamos que a essência da técnica moderna se anuncia naquilo que se denomina “armação”, que consiste na postura requerente do homem. Nela ocorre o “descobrimento”, que “desabriga” o real enquanto “subsistência”. Mas, em que consiste a posição do homem neste processo? Em outras palavras: qual é o seu lugar na questão da técnica? Passemos,agora, a enfocá-lo. Segundo Heidegger, o homem está situado no âmbito essencial da armação. Mas é bom esclarecer que sendo a armação o modo pelo qual a realidade se desabriga como subsistência, ela não acontece somente pelo e no homem. “A essência da técnica conduz o homem para o caminho daquele desabrigar por onde o real, em todos os lugares mais ou menos capitável, torna-se subsistência” 56 , isto é, por onde o real pode ser essencializado pela técnica.

  • 54 HEIDEGGER, op. cit., p. 69.

  • 55 Id. Ibid. 56 HEIDEGGER, op. cit., p. 75.

38

Repare que Heidegger utiliza o termo “condução”, que indica o sentido de “levar”. Deste modo, o homem é levado (conduzido) ao desabrigar, nisto consiste o descobrimento. Então, a condução deve estar conjugada com o sentido de “destino”. Nestes termos, ele esclarece “o destino de desabrigar sempre domina os homens”. 57 Mas, o sentido de levar destinadamente apontado por Heidegger, como sendo inerente, ao modo de ser da técnica, não pode ser confundido com aquele discurso comumente usado de que a técnica é o destino de nossa época e seu transcurso não pode ser desviado porque inalterável. Ainda que o destino do desabrigar domine os homens, ele conduz à liberdade, porque a essência desta reside no des-velamento da verdade. A liberdade domina o que é livre. Então o aprisionamento do homem pela técnica não é de modo algum uma coação apática. Dito de outro modo: a essência da técnica moderna repousa na armação; esta pertence ao destino do desabrigar; o desabrigar implica na liberdade do desvelar a verdade. Portanto, conclui Heidegger, “se nos abrirmos propriamente à essência da técnica, encontrar-nos-emos inesperadamente estabelecidos numa exigência libertadora” 58 , diante da técnica e não de escravidão por ela. Daí que para Heidegger o perigo não está na técnica, considerada por muitos como demoníaca. O que há de perigoso, assegura ele, “é a essência da técnica, enquanto um destino do desabrigar”. E conclui:

A ameaça dos homens não vem primeiramente das máquinas e aparelhos da técnica cujo efeito pode causar a morte. A autêntica ameaça já atacou o homem na sua essência. O domínio da armação ameaça com a possibilidade de que a entrada num desabrigar mais originário possa estar impedida para o homem, como também o homem poderá estar impedido de perceber o apelo de uma verdade mais originária. 59

Mas, paradoxalmente, onde existe o perigo, cresce também a possibilidade de salvação, assinala Heidegger, parafraseando o poeta Hölderlin, no hino Patmos. Em que medida? Na medida em que “avistamos a essencialização da técnica e não apenas fitamos a técnica”, 60 responde o filósofo. Porque a essência da técnica não é nada de técnico, a salvação do perigo da técnica, vem pelo seu enfrentamento, pelo questionamento do que é aparentemente técnico por um lado, e por outro lado, daquilo que é totalmente diferente dela. 61

  • 57 Id. Ibid.

  • 58 Id. Ibid.

  • 59 HEIDEGGER, op. cit., p. 81.

  • 60 HEIDEGGER, op. cit., p. 89.

  • 61 HEIDEGGER, op. cit., p. 93

39

Embora a análise heideggeriana seja fundamental para a compreensão da técnica moderna, sobretudo, quando Heidegger esclarece que o sentido moderno de técnica difere dos gregos porque ela implica num descobrimento da natureza que revela a verdade, através da produção (poiésis) que agora é desafiadora, posto que a natureza é colocada numa situação de ter que entregar sua energia a fim de que possa ser extraída e acumulada , Dussel observa que a visão do filósofo existencialista ainda é parcial, visto que não chega a realizar uma crítica ao sistema capitalista, de cujo horizonte vê-se o caráter exploratório da natureza, do sentido da produção. Em outros termos, a análise fenomenológica de Heidegger não dá conta da compreensão econômica da técnica que, na modernidade concebe a natureza a partir dos elementos utilizáveis que serão “transformados para um uso máximo com o mínimo de gastos”. 62 Para Dussel, esta atitude pode ser denominada de “explorabilidade”, ou seja, é o modo pelo qual o homem (o homem moderno) ultiliza da natureza como meras mediações exploráveis: ela vale porque pode dar algo de si ante o ato de exprimir, extrair, sacar, roubar, para o projeto de acumular riqueza. E esta análise dialética e histórica da tecnologia, acrescenta Dussel, encontramo-la em Marx. Seguindo, pois, de perto a orientação dusseliana, passemos agora a aprofundar a análise marxista no tocante à compreensão da gênese da tecnologia moderna a partir do modo de produção, em específico, o modo de produção capitalista.

  • 4.2 Marx e a Tecnologia como (Re) Produção do Capital

Karl Marx contempla o sentido de tecnologia tanto na sua famosa obra O capital, sobretudo no Tomo I, como também nos manuscritos de 1851 (Caderno tecnológico- histórico) e nos manuscritos de 1861 a 1863, intitulados Los Grundrisse ou Capital e Tecnologia. Nestes escritos, Marx aponta dois modos de análise da tecnologia. Marx fala do sentido da tecnologia em abstrato, enquanto análise ontológica, teórica do que é tecnologia, e também enquanto categoria concreta e histórica que, segundo ele, é o momento do capital. Neste segundo momento, é possível perceber um pensador mais inspirado e desenvolto. Este sentido metodológico de análise do que é a tecnologia é assim traduzido por ele:

A produção [leia-se tecnologia] é uma abstração, porém uma abstração que tem um

sentido, então põe realmente de relevo o comum, o fixo

O geral ou o comum, extraído

.... por comparação, é algo completamente articulado e se desdobra em diversas

determinações ...

As determinações que valem para a produção [leia-se tecnologia] em geral

40

são as que devem ser separadas, a fim de que não se esqueça a diferença essencial

Um

.... exemplo, nenhuma produção é possível sem um instrumento de produção, ainda que este

instrumento seja a mão. Nenhuma é possível sem trabalho passado, acumulado, ainda que este trabalho seja somente a destreza que o exercício repetido tem desenvolvido e concentrado na mão do selvagem. 63

Tendo em vista o primeiro momento da análise acima descrita e levando em conta a concepção antropológica de ser humano como homo-faber, para Marx, a tecnologia se constitui como mediação da vida humana, que se realiza na produção (poiésis). Buscando uma história crítica da tecnologia, ele diz: “A tecnologia nos descobre a atitude do homem ante a natureza, o processo direto de produção de sua vida e, portanto, das condições de sua vida social e de suas idéias e representações espirituais que delas se derivam.” 64 Desta concepção de tecnologia, Marx procura elaborar uma teoria da produção a partir da categoria de trabalho. Segundo o filósofo, o trabalho é o elemento fundante da produção. Daí o sentido de ser humano como homo-faber. Este, como sujeito produtor, realiza na produção a objetivação de sua pessoa. Dito de outro modo: o trabalho, como atividade abstrata representa, para Marx, a maneira pela qual o homem se humaniza. 65 Mas, em sentido concreto, no contexto da sociedade do séc. XIX, já sob os efeitos da Revolução Industrial e observando A situação da classe operária na Inglaterra 66 Engels constata que o trabalho deixou de ser fonte de humanização para ser alienação, com a introdução das máquinas. Numa passagem brilhante e comparada com o modo de produção anterior ao da sociedade capitalista, ele observa:

Antes de introduzir as máquinas, a matéria prima se fiava e se tecia na mesma casa do

trabalhador

com estes inventos, aperfeiçoados desde então, ano após ano, se havia

... assegurado o triunfo do trabalho mecânico sobre o trabalho manual. A divisão do trabalho; o emprego da força hidráulica e, sobretudo, da força a vapor e o mecanismo da maquinaria são os três grandes pilares por meio dos quais a indústria exaspera ao mundo. O tecedor mecânico compete com o tecedor manual e o tecedor manual, sem trabalho, ou mal pago passa a competência ao que tem trabalho ou ganha mais, e procura desprezá-lo. Cada aperfeiçoamento da maquinaria deixa sem pão a muitos operários. 67

Portanto, o trabalho na sociedade capitalista torna-se alienado, primeiro, porque passa a ser desvinculado da natureza; segundo, porque é realizado através de um conhecimento especializado (daí a divisão do trabalho intelectual do trabalho de execução)

  • 63 MARX, KARL, Los Grundrisse ou manuscritos de 1861-63, citado por DUSSEL, Filosofia

...

,op

cit.,p. 134. (Tradução livre)

  • 64 MARX, Karl, O capital, I, p. 331, nota 89, Apud, Dussel, Filosofia

...

op.

cit., p. 14. (Tradução

livre)

  • 65 Conferir a reflexão de ENGELS sobre O papel do trabalho na transformação do macaco em homem, In: MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Textos. Vol. 1. São Paulo: Edições Sociais, 1977.

    • 66 Titulo da obra do jovem Engels, em 1844.

    • 67 Citado por DUSSEL, op. cit., p. 119.

41

sobre o que se produz em si, donde ocorre a perda substancial do conhecimento do trabalhador que antes detinha a techné (recuperando o sentido grego do conhecimento universal, individualizado e autônomo daquilo que se produz, lembremos o artesão medieval, por exemplo) e, terceiro, porque está vinculado à produção como excedente e não como modo de subsistência, assim como o era nas sociedades primitivas. Assim, o trabalhador, por lhe faltarem as condições materiais para a produção (de trabalho), vende a

sua força de trabalho ao capitalista. Nisto consiste a alienação do trabalho. Além disso, se nas sociedades primitivas, a produção equivalia ao consumo, agora, a produção equivale ao acúmulo. A produção como acúmulo gera o capital. Este só existe porque existe o trabalho excedente do trabalhador, que agora produz não para sua subsistência, mas como excedente. O excedente de produção é adquirido através da maximização da produção e da minimização do tempo. Este processo é garantido pela tecnologia, através da maquinaria. Por isso, Marx argumenta que “com o desenvolvimento da maquinaria as condições de trabalho também surgem como dominando o trabalho do ponto de vista tecnológico, e ao mesmo tempo o substituem, tornam-no supérfluo em sua

forma autônoma.”, e conclui: “

De

fato, separam-se da habilidade e do saber do operário

... individual, e, ainda que observadas em sua origem sejam, por sua vez, produto do trabalho, surgem em toda ocasião em que ingressam no processo de trabalho, como incorporadas ao

capital. O capitalista que utiliza uma máquina, não precisa compreendê-la”. 68 Sobre o surgimento das máquinas, Marx observa:

A natureza não constrói máquinas, locomotivas, ferrovias, telégrafos elétricos, selfatinas, etc. São produtos da industriosidade humana; materiais naturais transformados em órgãos da vontade humana sobre a natureza, ou da participação humana na natureza. São órgãos do cérebro humano, criados pela mão humana; o poder do conhecimento objetivado. O desenvolvimento do capital fixo indica o grau geral em que o conhecimento se tornou força direta da produção, e que grau, conseqüentemente, as próprias condições do processo da vida social tem estado sob o controle do intelecto geral e foram transformados de acordo com ele. A que grau os poderes da produção social têm sido produzidos, não apenas na forma de conhecimento, mas também como órgãos imediatos da prática social, do processo real da vida. 69

Esses produtos da “industriosidade humana” que geram o “conhecimento objetivado”, ou o “trabalho morto”, porque agora é realizado pela máquina e não mais pelo trabalhador, só foram possíveis graças à aplicação intencional da ciência na produção. A

68 MARX., O capital, Livro I, Capítulo VI, (inédito). São Paulo: Ed. Ciências Humanas, 1978, pp. 86 e 87. Apud, BRYAN, Newton A. P. Educação,trabalho e tecnologia em Marx. In: Revista Educação & Tecnologia, n. 1. Curitiba: CEFET, 1997, p. 53. 69 MARX, Los grundrisse, I, p. 706. Apud BRYAN, op. cit.,, p. 52.

42

transformação da ciência em força produtiva, isto é, aplicada à tecnologia, é descrita historicamente por Marx, nos seguintes termos:

Só no século XVII, muitos cientistas se dedicaram ao estudo minuncioso e assíduo do artesanato, das manufaturas e das fábricas. Alguns fizeram desse campo o objeto de suas pesquisas. Só em épocas relativamente moderna descobriu-se a vinculação que une a mecânica, a física e a química com o artesanato (melhor seria dizer com a indústria). Entre os artesãos

as regras e as experiências transmitiam-se dos mestres aos aprendizes e oficiais [

...

].

70

Ou seja, utilizando-se do conhecimento científico para sistematizar o conhecimento técnico e empregando a ciência como força produtiva (máquinas), a tecnologia moderna rompe com as práticas artesanais primitivas, posto que separa o saber do trabalhador. O acúmulo do saber do trabalhador é incorporado à máquina pelo capital. A máquina é, agora, o instrumento de trabalho como tal. Daí o conceito de Marx de “máquina- ferramenta”: aquela que executa o trabalho humano, posto que a ferramenta utilizada pelo homem em seu trabalho é transferida para um mecanismo, a máquina, que toma o lugar da simples ferramenta. 71 Em síntese, na era moderna a tecnologia garante a mais valia e o lucro, base do funcionamento do capital, pois, o uso do conhecimento científico como força produtiva produz a máquina que garante a maior lucratividade, já que ela representa a maximização da produção em detrimento à minimização do tempo. Disso decorre, uma primeira conclusão importante para entender o sentido de tecnologia dado por Marx: “a tecnologia é uma mediação necessária dentro do sistema capitalista diretamente ligada a uma maior rentabilidade”. 72 Outra conclusão também fundamental, inclusive para o propósito de nosso trabalho, sobretudo no tocante ao II capítulo, é que através da tecnologia, retira-se do trabalhador o conhecimento historicamente acumulado (a tehcné) que passa agora a integrar a máquina. Na sociedade atual, dita informática, o ship, por exemplo, acumula o conhecimento do trabalhador adquirido ao longo de sua história de trabalho e da história do trabalho pelo homo-faber, e que foi expropriado pelo capital. Assim, nos Manuscritos de 1844, Marx conclui: O operário tem sido reduzido à condição de máquina; a máquina pode opor-se a ele como competidor”. 73 Então, o trabalhador que detinha o conhecimento de seu ofício, ao

  • 70 MARX, Capital y tecnologia. Manuscritos de 1861-1863. p. 93, citado por BRYAN, op. cit.,p.

63.

71 MARX, O capital

..

,

op. cit.,p. 426.

  • 72 DUSSEL, op. cit., p. 231. (Tradução livre).

  • 73 Citado por DUSSEL, op. cit., p.121.

43

invés de criador, passa a ser um mero operador ou monitor da máquina e sequer conhece sua engenhosidade. A contribuição da análise crítica de Marx sobre a tecnologia moderna em sua concretude reside em grande parte nesta importante constatação:

Mas, na máquina, a ciência realizada apresenta-se ante os operários como capital. Na

realidade, toda essa utilização fundada no trabalho social – da ciência, das forças naturais e dos produtos em grandes quantidades, não surge ante o trabalho senão como meios de exploração do trabalho, como meios de apropriar-se do trabalho excedente, e, portanto, como forças pertencentes ao capital. O capital, naturalmente, só utiliza esses meios para explorar o trabalho; mas para explorá-lo tem que aplicá-los à produção (leia-se tecnologia). E desse modo, o desenvolvimento das forças produtivas sociais do trabalho e as condições

desse desenvolvimento apresentam-se como obra do capital[

...

].

74

Concluindo a contribuição de Marx para nossa reflexão, vale lembrar que para este filósofo que se transferiu para a Inglaterra, berço da Sociedade Industrial e germe do Capitalismo, a fim de compreendê-la in loco, a tecnologia deve ser compreendida a partir de três níveis: como instrumento de trabalho, como processo de produção e como capital. No primeiro caso, trata-se da intervenção da tecnologia no processo de trabalho, como instrumentos objetivos de produção, é o que realiza a máquina-ferramenta, por exemplo. 75 . Já como processo de produção, a tecnologia realiza a produtividade crescente, a partir da mais-valia relativa. E, a tecnologia como capital representa o momento de transubstanciação da tecnologia em capital. Trata-se da tecnologia como “capital constante” (isto é, aquela parte do capital que se transforma em meios de produção, materiais auxiliares e meios de trabalho; como “capital produtivo” (ou seja, o dinheiro transformado em mercadorias. E, para produzir novas mercadorias, este capital compra o “trabalho vivo” e as máquinas: é o investimento em tecnologia) e como “capital fixo” que significa a fixação do capital produtivo como meios de produção, enquanto perdurar a produção. É a retirada do capital de circulação para incorporá-lo ao processo de produção. Sem dúvida, é na condição de processo de produção que a tecnologia moderna mais evidencia sua identidade, pois:

Na maquinaria, a ciência se apresenta ao operário como algo alheio e externo e o trabalho

vivo aparece subsumido sob o objetivado que opera de maneira autônoma

...

O

processo

constante de produção, contudo, não aparece como subsumido sob a habilidade direta do

operário, senão como aplicação tecnológica da ciência. Dar à produção um caráter

74 MARX, O Captal, capítulo inédito, pp 86 e 87, citado por BRYAN, op. cit., p. 53. 75 Vale dizer, que o sentido de instrumento objetivo dado por Marx, não se refere somente à ferramenta.; a máquina-ferramenta, é mais que ferramenta, à medida que executa a função da força motriz humana. O esclarecimento tem em vista a preocupação semântica da qual se ocupa Ruy Gama. Segundo ele, “instrumento” é diferente de “ferramenta” que é diferente de “máquina”. (Cf. GAMA, Ruy. Meios de trabalho. Téchne. São Paulo, n. 10, maio/junho, 1994, pp. 2; 31-35).

44

científico é, portanto, a tendência do capital, e se reduz o trabalho a mero momento deste processo. 76

Este processo é revelador do problema ético do conhecimento tecnológico, pois, no cerne da questão epistemológica da tecnologia está o predomínio do conhecimento científico que contribui para a alienação do trabalho, à medida que sua utilização é requerida como necessária à transformação do trabalho vivo em trabalho objetivado (ou “trabalho morto”). Retomaremos esta questão nos aspectos conclusivos deste capítulo e nos capítulos seguintes, quando aprofundaremos a dimensão epistemológica e axiológica da tecnologia moderna. Por enquanto, resta ainda esclarecer que sob o ponto de vista histórico a tecnologia moderna possui uma estreita relação com a ciência, conforme demonstrou Marx, em diversas passagens ao revelar o processo de produção capitalista. Desse modo, não é possível deixar de lado, ao tratar do aspecto ontológico da tecnologia moderna, a estreita vinculação da tecnologia com a chamada “Ciência Moderna”, a qual passou a ser objeto de crítica dos teóricos da Escola de Frankfurt no séc XX. Por isso, ocupemo-nos um pouco mais do tema.

  • 4.3 Técnica e Ciência como Ideologia: A Crítica da Teoria Crítica

A história do surgimento da tecnologia moderna confunde-se com a história da ciência em termos de modernidade. Régis de Morais, ao descrever o contexto tecnológico do séc. XVII, constata que “de Galileu em diante a ciência e a técnica nunca puderam, de fato, desenvolver-se apartadamente”. 77 Também Engels, ao descrever o processo da revolução Industrial no séc. XIX considera que “o mundo industrial tirou partido da ciência e da técnica” 78 . Estes dados, além daqueles apresentados por Marx que transcrevemos acima, nos parecem elementares para entender a gênese da tecnologia moderna, pois, sem a inclusão da questão do surgimento da ciência moderna no cenário da discussão que aqui propomos fazer, dificilmente teremos uma compreensão mais profunda sobre o significado da tecnologia hoje, a partir da modernidade. Semelhante à tecnologia, também a ciência, com o advento da modernidade, passou a ter um outro significado, diferente daquele dado pelos

  • 76 MARX, Los Grundrisse, II, p.221, citado por DUSSEL, op. cit., p.141. (tradução livre)

  • 77 REGIS DE MORAIS, J. F. Ciência e tecnologia: introdução metodológica e crítica. São Paulo:

Cortez & Morais, 1977, p. 105.

  • 78 Citado por JAPIASSU, H. As paixões da ciência. São Paulo: Letras & Letras, 1999, p. 157.

45

gregos, por exemplo. Vejamos o que diz o relato de estudos de história da ciência realizado por Japiassu:

A ciência moderna nasceu com o advento da sociedade mercantilista. Não surgiu como uma atividade pura e desinteressada, como uma aventura espiritual ou intelectual. Mas dentro de um contexto histórico, separável de um movimento visando à racionalização da existência. E é todo desenvolvimento da sociedade comercial “industrial”, técnica e científica que se inscreve no programa prático da racionalidade burguesa: não se faz comércio empiricamente, pois ele é um negócio de cálculo, deve ser feito racionalmente. Assim, a burguesia nascente, que logo se instala no poder, tem necessidade de um sistema

de produção permitindo-lhe uma exploração sempre maior e mais eficaz da Natureza. E tal sistema não tarda a fazer apelo a um novo tipo de trabalhador: o cientista. Doravante cabe- lhe a responsabilidade de detectar as leis gerais da Natureza. Quanto ao trabalho

propriamente produtivo [

...

],

é da alçada de engenheiros, que utilizam as descobertas dos

cientistas em termos de aplicações particulares. 79

É com esta tese que corroboramos. A ciência na era moderna não se constitui como um saber livre e desinteressado, teórico e especulativo. Na modernidade, ela se tornou um saber pragmático, necessário para dar garantia à aplicabilidade da técnica. Ideologicamente, muitas vezes, converteu-se em tecnologia, porque se aliou à técnica. Dussel, analisando geopoliticamente o contexto social da história da tecnologia, considera que a ciência ocupa um papel de mediação privilegiada para o alcance da produtividade do desenvolvimento tecnológico, sobretudo nos países centrais, chamados “desenvolvidos”. Sua argumentação ajuda-nos a entender o papel político da ciência e sua relação com a tecnologia:

A ciência, então, encontra-se crescentemente acoplada instrumentalmente à tecnologia; a tecnologia não é uma mera aplicação da ciência, senão que o conjunto tecnológico responde às necessidades de gerenciamento e controle, o que introduz-se obrigatoriamente no debate sobre a tecnologia, os problemas globais da organização econômica, da segurança e o militarismo. É um fato conhecido que uma altíssima porcentagem dos cientistas e tecnólogos trabalham em tarefas diretamente ligadas ao avanço da produção bélica. 80

O físico alemão Heisenberg, em 1976 já observava:

Em todo este processo evolutivo que se estende ao longo dos últimos duzentos anos, a técnica tem sido ao mesmo tempo condição prévia e conseqüência da ciência. É sua condição prévia, porque amiúde uma expansão e aprofundamento da ciência só são possíveis graças a um aperfeiçoamento dos instrumentos de observação, recorde-se a invenção do telescópio e do microscópio e da descoberta de raio X. É, por outro lado, conseqüência porque, em geral, a exploração da técnica das forças da natureza só se torna possível graças a um profundo conhecimento do respectivo campo da experiência. 81

  • 79 Id. Ibid.

  • 80 DUSSEL, op. cit.,, p. 231. (tradução livre)

  • 81 Citado por SOUZA, S. M. R de. Um outro olhar. São Paulo: FTD, 1995, p. 230.

46

A interdependência entre ciência e técnica é visto por muitos como proveitosa, daí o prestígio profissional do técnico que é aquele capaz de adaptar a ciência à prática. É no interior da valorização do conhecimento pragmático que se insere a tecnologia. Segundo Kneller,

A tecnologia é essencialmente uma atividade prática, a qual consiste mais em alterar do que em compreender o mundo. Onde a ciência procura formular as leis a que a natureza obedece, a tecnologia utiliza essas formulações para criar implementos e aparelhos que façam a natureza obedecer ao homem. Tal como a ciência, entretanto, a tecnologia é uma entidade imensamente complexa que consiste em fenômenos de muitas espécies – agentes, instituições, produtos, conhecimentos, técnicas, etc. 82

Mas os teóricos da Escola de Frankfurt vêem nesta aliança um perigo para a razão emancipadora, pois, com a tecnologia a razão passou a ser um mero instrumento de dominação, atrelando a ciência à técnica. É o que Habermas denomina o agir-racional- com-respeito-a-fins, ou seja, uma razão instrumental que tem em vista o progresso científico e técnico. A razão tornou-se pragmática e através da ciência e da técnica matematizou o real e mecanizou a natureza, dissociando-a do homem. Parafraseando Marcuse, o filósofo acrescenta:

Os princípios da ciência moderna foram estruturados a priori de modo a poderem servir de instrumentos conceituais para um universo de controle produtivo que se perfaz automaticamente; o operacionalismo técnico passou a corresponder ao operacionalismo prático. O método científico que levou à dominação cada vez mais eficaz da natureza passou a fornecer tanto os conceitos puros, como os instrumentos da dominação cada vez

mais eficaz do homem pelo Homem, através da dominação da natureza [

...

].

Hoje a

dominação se perpetua e se estende não apenas através da tecnologia, mas enquanto tecnologia, e esta garante a formidável legitimação do poder político em expansão que absorve todas as esferas da cultura.[ ] ...

83

Tomando de empréstimo o conceito de “racionalização” usado por Max Weber, Habermas considera que esta é progressiva na sociedade à medida da institucionalização do progresso científico e técnico nos setores sociais, que faz coincidir o direito privado burguês de dominação burocrática, com o papel do Estado de racionalização técnico- científica. Nisso reside a “racionalidade tecnológica”, que faz diferir as sociedades modernas das sociedades tradicionais. Naquelas, observa Habermas, a intenção tecnocrática “serve como ideologia para uma nova política orientada para tarefas técnicas” e a “dominação manifesta do Estado autoritário (típica das sociedades tradicionais) cede às coações manipulativas da administração técnico-operativa”. Além disso, prossegue

  • 82 KNELLER, G. F. A ciência como atividade humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 245 e 246.

  • 83 HABERMAS, J. Técnica e ciência enquanto ideologia. In: OS PENSADORES. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 305. O significado de razão instrumental será retomado no próximo capítulo quando abordarmos o conhecimento da tecnologia.

47

constatando Habermas, “as grandes organizações como tais se submetem cada vez mais à estrutura do agir racional-com-respeito-a-fins”. 84 Habermas, analisando ainda a visão positivista de ciência e de técnica, considera que esta produziu o tecnicismo: “ideologia que consiste na tentativa de fazer funcionar na prática, e a qualquer custo, o saber cientifico e a técnica que dele possa resultar. Nesse sentido pode-se falar de um imbricamento entre ciência e técnica, pois esta, embora dependa da primeira, retroage sobre ela, determinando seus rumos”. 85 Ainda sobre a cientifização da técnica, termo usado pelo próprio filósofo, Habermas, acrescenta:

No capitalismo, a pressão institucional para aumentar a produtividade do trabalho pela introdução de novas técnicas sempre existiu. Todavia, as inovações dependiam de invenções esporádicas que, por sua vez, podiam ter sido induzidas economicamente, tendo, entretanto, ainda o caráter de um crescimento natural. Isso mudou [a partir do século XIX], na medida em que o progresso técnico entrou em circuito retroativo com o progresso da ciência moderna. Com a pesquisa industrial em grande escala, ciência, técnica e valorização foram inseridas no mesmo sistema. Ao mesmo tempo, a industrialização liga- se a uma pesquisa encomendada pelo Estado que favorece, em primeira linha, o progresso científico e técnico do setor militar. De lá as informações voltam para os setores de bens civis. Assim, técnica e ciência tornam-se a principal força produtiva, com o que caem por terra as condições de aplicação da teoria do valor do trabalho de Marx. 86

Repare que Habermas considera a cientifização da técnica como uma nova força produtiva, posto que o “progresso técnico-científico tornou-se uma fonte independente de mais-valia”. Segundo o filósofo frankfutiano, isso só ocorreu graças à produção em grande escala, que exigiu pesquisa industrial que aliasse ciência e técnica, donde ambas foram inseridas no mesmo sistema. Habermas observa que até o séc. XIX não havia interdependência entre ciência e técnica. É com Galileu (séc. XVII) que as ciências passam a gerir um saber tecnicamente aproveitável, mas que só terá reais chances de aplicação concreta a partir do séc. XIX, com a pesquisa em grande escala, oriunda da Revolução Industrial. Deste modo, a tecnologia confere à ciência precisão e controle nos resultados de suas descobertas e a prerrogativa não somente de um saber destinado a facilitar a relação do homem com o mundo, mas destinado a dominar, controlar e transformar o mundo. “O caso da biologia genética revela como a tecnologia da física, da química, da cibernética

  • 84 HABERMAS, Jünger. Técnica e ciência enquanto ideologia. In: OS PENSADORES. São Paulo:

Abril Cultural, 1983, p. 323.

  • 85 In: OS PENSADORES, Benjamim, Habermas, Horkheimer e Adorno – Vida e Obra. São Paulo:

Abril Cultural, 1983, p. XVII.

  • 86 HABERMAS, Técnica

...

,

op. cit., pp. 330 e 331.

48

determinaram uma atividade interdisciplinar que resultou em descobertas e mudanças na biologia”. 87 Em síntese, a Teoria Crítica dos frankfurtianos considera que a ciência moderna instrumentalizou a razão e escravizou o homem através do controle lógico-tecnológico, criando a tecnocracia, onde toda a vida humana é conduzida e determinada pelos padrões técnicos impostos pela ciência. Tudo se submete às regras da produção tecnológica. E Marcuse acrescenta: “A dinâmica do progresso técnico está sempre impregnada de conteúdo político. O logos da técnica tornou-se o logos da servidão. A força da tecnologia que poderia ser libertadora _ pela instrumentalização das coisas _ tornou-se um entrave à libertação _ pela instrumentalização dos homens [ ]” ... Hoje quem dirige e controla a pesquisa científica é o poder tecnológico, situado fora, inclusive, dos grandes centros de pesquisa, como as universidades. Estas perderam, em grande parte, o senso de ciência como pesquisa livre e com autonomia e se tornaram referência de pesquisas encomendadas por centros de tecnologia, feitas, inclusive, sem que os cientistas jamais saibam de sua finalidade. Vale dizer aqui que, quando Habermas realiza a leitura acima descrita sobre a dimensão ideológica da técnica e da ciência, era a década de 70, período em que o contexto geo-político é marcado pela chamada “guerra- fria”, cuja hegemonia política é americana, espaço situado das pesquisas de Habermas e o lugar privilegiado de onde o filósofo observa a realidade, sobretudo, com a subordinação das pesquisas científicas no processo de militarização dos EUA. É o que Habermas denomina de “complexo ciência-técnica-indústria-exército-administração”.

88

  • 5 POR UMA OUTRA ONTOLOGIA DA TECNOLOGIA

Do tecido aqui construído sobre a dimensão ontológica da tecnologia, retomemos alguns aspectos em vista do propósito em âmbito geral desta pesquisa, qual seja, analisar a natureza da tecnologia moderna, considerando a possibilidade de propor outra perspectiva ontológica. Numa sociedade em que o conhecimento especializado e tecnicista tornou-se hegemônico, o qual representa o predomínio do fazer sobre o saber, da aplicação sobre a reflexão, fundamental é retomar e resgatar o sentido originário de técnica atribuído aos gregos. Vimos que a techné na Grécia Antiga consistia no conhecimento universal aplicado

87 Exemplo citado por CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1998, p. 279. 88 MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial. Rio de Janeiro: Zahar, 1982, p. 257.

49

à prática, com vistas à predominância daquele sobre este. 89 Dela era possuidor o artífice ou artesão que ao fabricar os produtos manufaturados (prática) detinha o conhecimento da constituição de todo o processo de produção (conhecimento universal). 90 Ao contrário, ser possuidor da técnica hoje (ser técnico) significa tão somente ter a habilidade de operar, monitorar a máquina, sem que seja necessário conhecer integralmente seu processo de funcionamento. A máquina, sim! Esta detém o conhecimento acumulado do trabalhador. Portanto, a techné, que fora adquirida no decorrer de toda história do trabalho humano, tornou-se trabalho objetivo da máquina, reservando-se ao homem somente a função de operar (a máquina) e não mais a função de criar. Por isso, segundo a visão marxista, o modo de produção capitalista representa a perda qualitativa do trabalho humano. 91 Assim sendo, pensar um novo entorno para a tecnologia, significa conferir um outro logos para a técnica; significa recuperar o sentido esquecido e pervertido da techné em tempos modernos. Isto implica em ao invés de incentivar a polivalência (discurso tão empreendido pela nova linguagem das relações capitalistas de trabalho) que trata de delegar ao trabalhador o controle de todo o processo da produção, mas sem que ele saiba seus mecanismos de criação, porque sua função é meramente operar , incentivar a politecnia (visão de trabalho defendida pelo modo de produção socialista), pois, trata-se de devolver ao trabalhador o controle e a criação da produção, no sentido da sua integralidade e totalidade. 92 . Nisto consiste um novo entorno do aspecto ético da tecnologia, conforme o dizer de Dussel:

89 Cf. p. 25 neste capítulo.

  • 90 O trabalho do artesão foi possível ser visto até o século XIX, quando do início da Revolução

Industrial. Bravermann descreve o artesão, nesta época, como aquele que “estava ligado ao conhecimento técnico e científico de seu tempo na prática diária de seu ofício”. E acrescenta: “Estes artesãos eram uma parte importante do público científico de sua época e, como norma, mostravam um interesse pela ciência e pela cultura que ia além do diretamente relacionado com o seu trabalho”. Neste mesmo sentido, encontramos a leitura de Landes sobre os primeiros artesãos a ocupar a função de maquinistas. Ele constata:

“Ainda

mais impressionante

era

a

preparação

teórica

desses homens [

...

].

Mesmo os maquinistas

(Millwright) ordinários, como faz notar Fairbain, eram, em geral, ‘um bom aritmético, sabia algo de

geometria, nivelamento e medição, e, em alguns casos, possuía conhecimento muito preciso de matemática

prática. Podia calcular a velocidade, resistência e potência das máquinas, podia desenhar em plano e em ’

seção

...

Grande parte desses ‘feitos e potencialidades intelectuais elevados’ refletiam as abundantes

oportunidades para a educação técnica em ‘povoados’ como Manchester, que iam desde as academias dissidentes e sociedades ilustradas até os conferencistas locais e visitantes, as escolas privadas ‘matemáticas e comerciais’ com aulas vespertinas e uma ampla circulação de manuais práticos e publicações periódicas e enciclopédicas”. Citado por ENGUITA, Mariano F. A face oculta da escola: educação e trabalho no capitalismo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989, pp. 119 e 120.

  • 91 MARX, Los Grundrisse

op.cit., pp. 497 e 498. Neste sentido conferir a análise sobre o

..., desenvolvimento capitalista e apropriação de saber, in: BRYAN, op. cit., p. 42.

  • 92 Sobre a politecnia, voltaremos ao assunto no próximo capítulo, quando trataremos da dimensão do conhecimento da tecnologia.

50

À medida que a tecnologia se autonomiza e se transforma em fim, que subsome como um momento seu o trabalho vivo, é imoral, destruidora do homem, um novo fetiche: o tecnologismo, o cientificismo, o positivismo lógico. Temos que tratar, indicativamente, também a questão, que abre a totalidade do sistema à transcendência de trabalho vivo, à exterioridade de sujeito de trabalho que nunca poderá ser subsumido de todo por nenhum sistema, menos ainda pelo capital. 93

Um outro aspecto fundamental a título de conclusão deste capítulo sobre a dimensão ontológica da tecnologia diz respeito à crítica de Heidegger sobre o conceito instrumental e antropológico da técnica, quando afirmamos que a técnica é um “meio para” ou um “fim”. Como vimos, no item 4.1 deste capítulo, Heidegger rechaça tal posição por considerar que a esta conceituação diz respeito à técnica, mas ainda não é a essência da técnica. Argumenta ele que a técnica, enquanto produção, é o modo de des-velamento da verdade. Nisso consiste sua essência, pois, através do ato de produzir, o homem descobre o mundo. Desse modo, a técnica não pode ser confundida como instrumentum. Ora, esta nova dimensão da técnica abre também uma nova visão para a tecnologia, porque significa destituir também da tecnologia seu caráter meramente instrumental e utilitarista. Se a técnica é o modo de desvelamento da verdade ou de descoberta do mundo pelo homem, também a tecnologia, enquanto logos da técnica, representa o momento hermenêutico desta descoberta, que não encerra na dimensão do produzir em si. Analisando outros escritos posteriores de Heidegger além daquele que especificamente foi o objeto de nossa investigação aqui , sobretudo, os escritos depois dos primeiros movimentos ambientalistas que ganham força na Europa a partir da segunda metade do século XX (cita-se a realização do Clube de Roma, por exemplo), Dussel acrescenta:

A técnica contemporânea não seria um mero produzir. É verdade que ela tem um modo novo de relacionar-se com respeito à totalidade das coisas. É verdade que as coisas são vistas como “existenciais” (Bestande), como reservas de um stock, porém não são como o que se pode criar segundo minha vontade: elas, as coisas, me im-põe suas condições. Por isso elas não são meras re-presentações com as quais jogo a vontade.; elas estão-já-postas

[

...

];

ser não apresentado pela re-presentação; ser que chama ao des-velamento pela técnica

para alcançar o “acontecer de co-apropriação” (Er-eigns) do homem e do ser; ser que se

manifesta ao descobrimento do lógos [

...

].

94

Aliando à reflexão anteriormente feita sobre o sentido de techné, com a visão heideggeriana que questiona o sentido meramente instrumental da técnica, talvez possamos entender porque Heidegger considera que na técnica reside a salvação, quando ele diz: “a

93 DUSSEL, op. cit., p. 141. (Tradução livre) 94 DUSSEL, op. cit., p. 70. (Tradução livre)

51

essência da técnica abriga em si o crescimento do que salva” 95 . Pois, se como disse o filósofo, a técnica é o modo de des-velar a verdade que se manifesta através da produção (na relação homem e natureza), por isso, “a técnica está na potência da verdade da natureza” e o técnico “está a serviço desse movimento de revelação da natureza” 96 , Então, a técnica é, pois uma modalidade de verdade que nos convida a revelar os aspectos escondidos da natureza que vivemos. Buzzi, referindo-se à Heidegger diz: “Pensemos um pouco na essência da técnica que faz aparecer o oculto da natureza. Não só faz aparecer! Convida-nos também a morar na lareira do novo aparecer, na companhia do novo mundo de tantos objetos de uso, com que entendemos melhor nossa convivência.” 97 É o que

Dussel denomina de “momento de co-apropriação do homem e do ser

....

”.

  • 6 SÍNTESE DA DIMENSÃO ONTOLÓGICA DA TECNOLOGIA MODERNA

Vimos que, afora a discussão sobre o uso do termo, o fato é que nunca chegaremos à essência da técnica ou da tecnologia, falando do que é técnico ou do aparato tecnológico, conforme também nos alertou Heidegger. Este é, para nós o primeiro aspecto importante como conclusão desta primeira parte. Disso decorre a necessidade de elaborar uma reflexão filosófica sobre o que é a tecnologia, e, ao fazê-la, conclui-se que não podemos atribuir o mesmo significado à tecnologia antes e depois da era moderna. Semelhante à história da ciência na modernidade, a tecnologia sofre e propicia transformações profundas de caráter político, econômico, social, filosófico, na história do séc. XVII em diante. Por isso mesmo, a tecnologia moderna não pode ser considerada o mero estudo da técnica. Ela representa mais que isso, pois, quando a ciência, a partir do renascimento, aliou-se à técnica, (aproximação esta fundada nos princípios da filosofia empirista conforme veremos no capítulo a seguir), com o fim de promover a junção entre o saber e o fazer (teoria e prática), nascia aí a tecnologia tal como a conhecemos hoje. A tecnologia é fruto da aliança entre ciência e técnica, a qual produziu a razão instrumental, como no dizer da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt. Esta aliança propiciou o agir-racional-com-respeito-a-fins, conforme assinala Habermas, a serviço do poder político e econômico da sociedade baseada no modo de produção capitalista (séc.

  • 95 HEIDEGGER, op. cit., p. 82

  • 96 BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar. Petrópolis: Vozes, 1987, pp. 84 e 85.

  • 97 BUZZI, op. cit., p. 85.

52

XVIII), que tem como mola propulsora o lucro, advindo da produção e da expropriação da natureza. Então, se antes a razão tinha caráter contemplativo, com o advento da modernidade, ela passou a ser instrumental. É neste contexto que deve ser pensada a tecnologia moderna; ela não pode ser analisada fora do modo de produção, conforme observou Marx 98 . Já alertamos para este fato, mas vale ainda lembrar os dizeres de Bastos, que aqui serve como síntese do que afirmamos anteriormente:

A tecnologia é um modo de produção, utilizando a totalidade dos instrumentos, dispositivos, invenções e artifícios. Por isso, é também, uma maneira de organizar e perpetuar as relações sociais no âmbito das forças produtivas. Assim, é tempo, é espaço, custo e venda; pois não é apenas fabricada no recinto dos laboratórios e usinas, mas reinventada pela maneira como for aplicada e metodologicamente organizada.(grifo nosso) 99

Seguindo esta mesma análise, encontramos a leitura de David Noble que, apoiado na visão de Marcuse (este influenciado pelo pensamento marxista), assim se refere: “a tecnologia moderna, como modo de produção específico do capitalismo industrial avançado, foi, ao mesmo tempo, um produto e um meio de desenvolvimento capitalista.” 100 Embora a critica contundente de Rui Gama acerca destes posicionamentos, considerando ser “discursos antitecnológicos” e que reduzem a tecnologia ao modo de produção 101 , este esclarecimento nos parece fundamental, visto que conforme tomamos o conceito, será também nossa postura frente à tecnologia, em termos de valoração, emissão de juízo. Isto é, o valor que atribuímos à tecnologia necessariamente está vinculado à noção histórica que temos dela. Deste modo, se concebemos que a tecnologia é meramente o estudo da técnica, existente desde os primórdios, com o surgimento do ser humano 102 , com certeza, tê-la- emos como um instituto indispensável para a sociedade, porque instransponível pelo

98 Cf item .4.2 deste capítulo. 99 BASTOS, João Augusto S. L. A. de. (Org.) Tecnologia e interação. Curitiba: CEFET-PR, 1998,

p. 13.

  • 100 NOBLE, D. América by design. New York, Oxford University Press, 1980, p.33. Apud: GAMA, R. A tecnologia e o trabalho na história. São Paulo: Edusp, 1987, p. 19

  • 101 Ibid. A crítica do referido autor é assim explicitada: Colocada a questão em termos marcusianos, a crítica da sociedade burguesa cede lugar à crítica da tecnologia e da ciência; o responsável historicamente não é o capitalismo, mas a máquina, a tecnologia, a ciência. É fácil constatar a freqüência com que essa formulação aparece, explícita ou implicitamente nos discurso antitecnológicos de diversos matizes. Diferentemente da posição de Ruy Gama, consideramos que a posição de Noble não encerra a responsabilidade somente na tecnologia, pois ele afirma que a tecnologia não é só meio, mas também produto da sociedade capitalista. Portanto, ele admite uma relação recíproca entre capitalismo e tecnologia, enquanto forma de subsistência histórica. Em outros termos, corroboramos com Noble, colocando a seguinte questão:

tendo em vista que a mola propulsora do sistema capitalista é o lucro, é possível pensar a sociedade capitalista sem o desenvolvimento tecnológico nos moldes do que aí está, advindo do atrelamento entre ciência e técnica a partir da época moderna?

  • 102 A compreensão que “a tecnologia é tão antiga quanto o próprio homem” (FORBES) é analisada por GAMA, R. A tecnologia e o trabalho na história. São Paulo: Edusp, 1987, p. 14 e ss.

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homem. Porém, se considerarmos que a tecnologia em sentido moderno está inserida e se produziu num contexto social, político e econômico determinado, qual seja, o surgimento da sociedade capitalista, então, nossa visão sobre a tecnologia e seu papel na sociedade, certamente será outro. Primeiro, porque assim, desmitifica-se aquele discurso em que a tecnologia é tida como um “mal necessário”, porque existe intrinsecamente com a existência humana. Ora, pelo argumento meramente da anterioridade histórica, neste caso, dilui-se esta concepção. Visto que se a tecnologia da forma como a concebemos hoje surgiu em certo período histórico, logo, dado a sua historicidade ela não se constitui como inerente à condição humana desde sempre. Se assim o é, é historicamente e não essencial ou substancialmente. Parece-nos que este ponto de partida configura-se elementar para o nosso propósito, pois, consideramos que na gênese da discussão sobre a natureza da tecnologia a utilização de conceitos meramente semânticos não nos garante a propriedade de argumentação acerca do assunto. Por isso, entendemos que tal postura metodológica é insuficiente para elucidar o que realmente significa tecnologia, pois necessário é identificar a que tecnologia estamos nos referindo. Aqui fazemos uma ressalva: muito embora utilizamo-nos como fonte de pesquisa das obras de Ruy Gama, porque consideramos que o seu trabalho arqueológico e de levantamentos de dados historiográficos é fundamental para a história da técnica e da tecnologia, sobretudo no Brasil, julgamo-las carecedoras de uma maior fundamentação filosófica, no sentido de elucidar os aspectos ontológicos, epistemológicos e axiológicos que configuraram esta ou aquela visão sobre tecnologia. Entendemos que este esclarecimento de caráter mais filosófico, do que propriamente semântico ou arqueológico é mister para compreender o significado de tecnologia e o mundo da tecnosfera que nos envolve no presente. Mas, se por um lado consideramos a leitura arqueológica de Ruy Gama carecedora de fundamentação sob o ponto de vista metodológico, dado a complexidade que envolve o fenômeno social da tecnologia, por outro lado, avaliamos também que a posição de Milton Vargas sobre a filosofia da tecnologia suscita questionamentos. Expliquemos melhor, situando a posição de Vargas. Segundo ele, só se pode falar em tecnologia, com o advento da modernidade. Numa passagem em que o autor analisa as técnicas indígenas na época das descobertas, ele diz:

“Não me referirei aqui as tecnologias. Prefiro usar o termo técnicas, deixando o termo tecnologias para significar as aplicações e utilizações das ciências na solução de problemas

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técnicos, o que é totalmente estranha às culturas ameríndias.” 103 Vargas, portanto, não reconhece distinção entre tecnologia antes e depois da era moderna, pois, segundo ele, sendo a tecnologia a aplicação e utilização das ciências na solução de problemas técnicos, este acontecimento só foi possível depois da era moderna, daí considerar que a cultura ameríndia não possuía tecnologia e sim técnica. É neste sentido que Vargas descreve a evolução da tecnologia no Brasil, pois, para ele a tecnologia adentrou no Brasil somente no séc. XIX, através das Escolas de Engenharia. O engenheiro é, então, “o homem que projeta o ato técnico e dirige o operário na fabricação dos instrumentos, utensílios, ou na construção da obra.” 104 Com base nestas colocações de Milton Vargas é que pontuamos nossa crítica ao autor. Entendemos que enfocar a tecnologia somente sob a perspectiva da modernidade (como aliança entre ciência e técnica) é também um reducionismo, por desconsiderar o “logos” da técnica (a tecnologia) que existia antes do séc. XVII. Não reconhecer a existência da tecnologia antes da modernidade é incorrer num erro de análise histórica, julgamos. Por exemplo, será que não é possível reconhecer o logos da técnica das sociedades ameríndias, constituídas bem antes do processo de revolução industrial? Reiteramos, então, o que conjecturamos já desde o início desta exposição:

identificar a natureza da tecnologia, não significa desconsiderar a existência da tecnologia antes da modernidade, mas sim perceber conceituações e significações diferenciadas a partir de cada contexto histórico. No caso específico da tecnologia moderna, é preciso ter em vista o entorno histórico no qual ela está inserida. Nisto percebe-se sua transformação de identidade, de natureza ao longo da história. Daí que nossa pretensão filosófica consiste em revelar que plasmou o empirismo 105 , o conhecimento científico e o utilitarismo ético a gênese da tecnologia moderna, em sentido ontológico, epistemológico e axiológico.Por isso mesmo, a tecnologia na modernidade passou a significar mais que o mero estudo da técnica.

  • 103 VARGAS, M. O significado da técnica entre os índios brasileiros na época das descobertas. In:

Para uma filosofia da tecnologia. São Paulo: Alfa Omega, 1994, p. 192 e 193.

  • 104 VARGAS, op. cit., p. 202 e 206. A “obra” a qual se refere o autor, diz respeito às primeiras estradas de ferro, surgidas no Brasil, no final do séc. XIX. Daí porque o autor denomina “tecnologia implícita na engenharia”.

  • 105 Vale esclarecer aqui que, embora Ruy Gama tenha dedicado um capítulo exclusivo de sua obra Engenho e tecnologia (1983, p.31-52) a este tema, não nos parece que esta tenha sido a opção metodológica adotada pelo referido autor ao abordar o assunto. Em diversas passagens, sobretudo introdutórias em que Ruy Gama esclarece a metodologia utilizada para análise deste assunto, ele aponta a análise arqueológica como sendo predominante. Cf. p. 21 do livro Tecnologia e engenho (1983); a Apresentação da obra História da técnica e da tecnologia (1985); parte introdutória da obra A tecnologia e o trabalho na história (1987).

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É neste sentido que pontuamos os limites metodológicos da análise semântica que privilegia o aspecto arqueológico ao tratar da história da tecnologia. Mas, a análise meramente fenomenológica também não é suficiente para elucidar a complexidade que envolve a identidade da tecnologia em sentido moderno.

Aporfundemos um pouco mais esta questão do método de análise para a tecnologia, situemos a reflexão de Dussel, que em sua obra Filosofia de la producción, dedica parte dela para elucidar o “método para uma teoria geral da tecnologia”. Parafraseando Marx, que descreve a possibilidade de estudar a tecnologia “em abstrato, independentemente de suas formas históricas, como um processo entre o homem e a natureza” 106 , Dussel, alerta:

Isto significa que a relação tecnológica homem-natureza tem um sentido próprio fora de toda consideração concreta em formações sociais históricas ou em diversas relações de produção. Antes que relações sociais de produção, existe já produção, tecnologia. Se pode, então, cair em dois extremos. Ou negar o condicionamento concreto, ou as determinações econômicas, políticas ou ideológicas, que se exercem sobre a tecnologia, em sua autonomia (seria pensar que a tecnologia tem autonomia absoluta: tecnologismos, tão freqüentes em universidades tecnológicas, de engenharia, desenho, etc); ou negar a existência de uma instância tecnológica autônoma ou a existência de um âmbito de técnico enquanto tal independente (seria negar a existência da tecnologia em sua autonomia: economicismo, tão freqüentes entre marxistas). Neste último sentido abstrato, não há que duvidar que o mesmo Marx diz claramente que “a economia política não é tecnologia ((technologie)107 . Por isso, se pode “desenvolver em outro lugar (mais adiante, diz Marx) a relação das determinações gerais da produção [leia-se tecnologia], em um estágio social dado’ 108 . Tratar-se-ia aqui de descrever a essência, todavia em abstrato, da tecnologia. 109

Seguindo, pois, de perto a visão dusseliana, ancorada na perspectiva do método marxista para o estudo da tecnologia, enfatizamos, então que a opção pela análise filosófica, que não se trata simplesmente de produzir história da tecnologia cremos nós, pode nos conduzir a uma avaliação crítica sobre o que é a tecnologia, sua constituição histórica e sua função social, no sentido não só de compreender o sentido de tecnologia, as também de repensar e redimensionar o papel da tecnologia na sociedade. Apontamos algumas razões desta premissa. Tal entendimento, desmistifica a concepção (de caráter essencialista) de que a tecnologia é um fenômeno inerente à condição humana, tão antiga quanto à técnica. A segunda motivação, é que nos faz perceber a necessidade de dirigir a razão (o pensar) para a emancipação do homem e não para sua escravidão, como ocorre na razão instrumental,

  • 106 MARX, O capital, I, op. cit., p.14.

  • 107 Neste sentido Dussel, está se referindo à obra de MARX, Los grundrisse,I, p. 7, referenciado por ele nas p. 183 da obra citada.

    • 108 Aqui Dussel está se referindo à mesma obra de Marx, anteriormente citada, p. 8. Id. Ibid.

    • 109 DUSSEL, op. cit., pp. 142 e 143. (Tradução livre)

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conforme a avaliação dos frankfurtianos. O terceiro motivo é conseqüência do anterior, pois, conduzir a razão para a emancipação, significa postular a autonomia da ciência, que nos tempos modernos tornou-se escrava da tecnologia. A produção do pensamento livre e autônomo (sem querer aqui pretender neutralidade científica), é condição sine qua non para redefinir qual a função social da ciência, da técnica e da tecnologia. O panorama da sociedade tecnológica na atualidade nos credencia a postular tais razões e necessidades. Passados mais de três séculos, já temos condições históricas suficientes para avaliar as significações da tecnologia moderna que plasmou a sociedade como industrial, pós-industrial e, agora, diz-se da sociedade informática. Os símbolos semióticos criados cinematograficamente como representação social estão aí através de Blade Runner, Matrix, Inteligência Artificial, dentre outros. E, segundo a avaliação de alguns pensadores da atualidade como: Robert Kurz, Arrighi, Ramonet, Boaventura Santos 110 , vivemos hoje o “colapso da modernização”. 111 A começar pela própria confiança absoluta na ciência que emanciparia o homem de toda escravidão, obscurantismos e medo. De fato, isso não ocorreu. O que constatamos hoje é a escravidão do próprio homem pelas suas invenções e descobertas tecnológicas, só possíveis graças à aliança entre ciência e técnica. Outro fato ajuda-nos a ilustrar o que avaliam estes autores. Nunca na história da humanidade tantas pessoas morreram de fome, na miséria ou pela violência. A constatação está nos dados apontados por Boaventura 112 . O próprio Hobsbawn, ao tecer a história do século XX, considera que vivemos a era dos extremos, 113 devido aos paradoxos que se nos apresentam. A começar pela próprio avanço tecnológico de um lado e o extermínio de culturas e povos (seja pela miséria, seja pela guerra) de outro lado. Disso tudo concluímos que a tecnologia não é neutra. Ela é atividade transitiva e não imanente. E sua identidade depende desta avaliação. E porque é um fenômeno histórico, outro pode ser o entorno ou a “natureza” que podemos dar a ela.

110 A referência destes autores está no final deste trabalho. 111 A expressão constitui o próprio título da obra de Robert Kurz (Cf. referência no final deste

trabalho)

112 SANTOS, B. S de. Crítica da razão indolente contra o desperdício da experiência. São Paulo:

Cortez, 2000, p. 22 e ss. 113 HOBSBAWN, E. A era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Cia das Letras, 1995.

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CAPÍTULO II A DIMENSÃO EPISTEMOLÓGICA DA TECNOLOGIA MODERNA

1 PREÂMBULO

Le mere scienze di fatti creano meri uomini di fatto 114

Considerando que o objetivo desta pesquisa consiste na compreensão da natureza da tecnologia moderna, passemos agora a aprofundar seu aspecto epistemológico, pois, assim como em sentido ontológico, com o advento da modernidade, a tecnologia adquire características peculiares e específicas também em sentido epistemológico. Conforme já dissemos na apresentação, referir-se à dimensão epistemológica da tecnologia significa indagar qual conhecimento é subjacente a ela. A tese central aqui apresentada é a de que a tecnologia moderna é moldada pela visão empirista de realidade e pelo conhecimento científico moderno. Ambos constituem seus pilares de sustentação epistemológica.

Já apontávamos para a existência histórica destes fatores quando analisamos a dimensão ontológica da tecnologia moderna, até porque tanto o empirismo quanto o conhecimento científico são também determinantes na constituição de uma nova ontologia da tecnologia na modernidade. Mas, nesta segunda parte, vamos aprofundá-los ainda mais. Por isso, certamente o leitor encontrará aqui o desdobramento de alguns pontos já enunciados no capítulo anterior, só que agora sob o enfoque da epistemologia da tecnologia. Por exemplo: afirmávamos que para entender a gênese da tecnologia moderna é necessário ter em vista a estreita aproximação entre ciência e técnica. Pois bem, a justificativa desta aliança deveu-se a fatores históricos, conforme já descrevemos anteriormente, e, em sentido filosófico, tal aliança tornou-se possível graças ao surgimento do empirismo baconiano, e com o advento da chamada Ciência Moderna no séc. XVI, inaugurando uma nova compreensão do mundo e da realidade. Ora, a visão empirista de realidade e o paradigma científico moderno fundamentaram também uma outra compreensão de tecnologia, do ponto de vista epistemológico.

114 HUSSERL, Edmund. La crisi delle scienze europee e la fenomenologia transcendentale. Milano: Il Saggiatore, 1961, p. 35. As meras ciências de fatos produzem meros homens de fato.(Tradução livre)

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Porém, antes mesmo de adentrarmos neste ponto que é a questão central a ser abordada neste capítulo, necessário é, para facilitar a compreensão do leitor, inicialmente esclarecermos o sentido de epistemologia. A palavra tem suas raízes do grego (episteme), que significa teoria. Usada para diferenciar da dóxa que indica opinião, ou um conhecimento baseado simplesmente na opinião, a episteme diz-se do conhecimento fundamentado teoricamente, enquanto a dóxa refere-se ao conhecimento opinativo, característico do senso comum. 115 Em sentido amplo, o termo indica a teoria filosófica do conhecimento em geral, sendo muitas vezes utilizado como sinônimo de gnoseologia. Atualmente, o termo é mais difundido no sentido da filosofia da ciência. Para Richard Rorty, por exemplo, epistemologia indica o programa filosófico prevalente na filosofia ocidental de Descartes em diante e que concentra sobre o problema da fundamentação do conhecimento. 116

Entendida, para muitos, como a fundação filosófica da ciência, a partir do corte epistemológico instaurado com a revolução científica moderna, 117 o fato é que, em sentido moderno, a epistemologia sofre variações de significado, de acordo com as correntes filosóficas. Os positivistas, por exemplo, reivindicam-na como estatuto próprio da ciência, por entender que a epistemologia é a ciência que estuda o conhecimento científico. Por isso mesmo, consideram-na a “ciência da ciência”. É neste sentido que Habermas avalia que “o Positivismo assinala o fim da teoria do conhecimento” 118 , pois, ao adotar a auto- compreensão cientificista da ciência, os positivistas caíram naquilo que Habermas denomina de “cientismo”: “significa a fé da ciência nela mesma, a saber, a convicção de que não mais podemos entender a ciência como uma forma possível de conhecimento, mas que esta deva identificar-se com aquela”. 119 Deste modo, outros autores entendem que a epistemologia não pode estar enclausurada à ciência e, partindo de uma outra análise sobre o tema, entendem-na como sendo o estudo do conhecimento a partir de sua origem, estrutura, métodos e validade. 120

  • 115 A propósito, vale dizer que Aristóteles classificava o conhecimento fundamentado filosoficamente (epistéme) em três categorias: a THEORÉSIS que compreendia a Prima Philosophia, a Fsica

e a Matemática; a PRÁXIS, que compreendia a Política, a Ética e a Economia e a POIÉSIS, que

compreendia a Arte e a Técnica (Cf. REALE, História da filosofia antiga

...

op. cit.)

  • 116 VATTIMO, Gianni, et al. Enciclopedia Garzanti di Filosofia. Ítália: Garzanti, 1999, p.319.

  • 117 Sobre a natureza e a necessidade das revoluções científicas que ocasionam mudanças de paradigmas, cf. a obra de KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1989.

    • 118 HABERMAS, Jünger. Conhecimento e interesse. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987, p.89.

    • 119 HABERMAS, Conhecimento

...

, op. cit., p.27.

  • 120 In RUNES, citado por SANTOS,

Introdução...,

op. cit., p. 19. Sobre as diversas correntes que

analisam o assunto, conferir a obra de SANTOS, Um discurso

...

, op. cit, pp. 18-30.

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Como em sentido moderno, o conhecimento científico tem sido hegemônico, conforme vamos demonstrar no decorrer deste capitulo, adotamos o termo como sendo equivalente à filosofia da ciência. Ou seja, entendemos que a reflexão epistemológica na atualidade, necessariamente recai sobre a análise filosófica da ciência. Contudo, vale dizer que longe de adotarmos a visão positivista de epistemologia, o que defendemos é que ao propormos uma análise filosófica sobre a dimensão epistemológica da tecnologia, estaremos nos reportando a um conhecimento, que, na modernidade, é permeado pelo conhecimento científico, em vista da sua hegemonia. Ademais, nossa análise epistemológica não se encerra na ciência, e sim é o ponto de partida para aprofundar sua crítica e sua crise, conforme veremos no decorrer da exposição. Portanto, é neste sentido que deve o leitor tomar o conceito de epistemologia que aqui será utilizado. Em outros termos: o objetivo específico deste capítulo é demonstrar as implicações desta forma de conhecimento (ou seja, do Empirismo e do conhecimento científico) na constituição da natureza da tecnologia moderna. Mais que apontar qual o conhecimento subjacente à tecnologia, propomos elaborar uma reflexão hermenêutica sobre o conhecimento em que assenta a tecnologia moderna. Parafraseando Gadamer em sua obra “Verdade e Método”, Habermas considera que a tarefa da hermenêutica com relação à ciência consiste numa “força subversiva que se infiltra em toda abordagem sistemática”. 121 Guardadas as devidas proporções em relação ao aprofundamento do assunto dado pelo filósofo, consideramos que também esta será nossa tarefa. Ao traçar um panorama sobre a condição epistemológica da ciência na atualidade e suas implicações no campo da tecnologia, pretendemos refletir, a partir de alguns aspectos que configuram o que denominamos de crise do paradigma científico, a abordagem sistemática dada pela ciência na relação homem e mundo.

Portanto, o enunciado supra em destaque, certamente será o tom da análise epistemológica que aqui queremos empregar. Pretendemos evidenciar a crise paradigmática desta visão epistemológica baseada na objetividade científica, na qual também se insere a tecnologia, e suas implicações não somente epistemológicas, mas também sociais e até mesmo existenciais, pois, a condição epistemológica da ciência reflete-se na condição do ser humano de estar no mundo.

121 HABERMAS, J. 1989, p.37.

Consciência moral e agir comunicativo.

Rio de Janeiro: Tempo Brasiliense,

60

Com base nesta perspectiva sobre a dimensão epistemológica da tecnologia moderna, este capítulo será estruturado do seguinte modo. Em sentido introdutório, vamos enfocar o empirismo moderno e sua estreita vinculação com a constituição da gênese da tecnologia na modernidade, partindo, sobretudo, da visão baconiana. Do mesmo modo que também apontaremos a importância da visão empirista no surgimento da ciência moderna.

De posse desta constatação, passaremos a analisar o conhecimento científico como também sendo componente da dimensão epistemológica da tecnologia moderna. Neste ponto, o destaque será o surgimento em sentido histórico do conhecimento científico, sobretudo, a partir de Galileu Galilei, Descartes, Newton, entre outros. Feitas tais considerações, o passo seguinte será o de identificar as principais características do método científico. Antes, porém, considerando que toda forma de conhecimento sobre o mundo e a realidade pressupõe um método, levando-se em conta que a ciência constitui uma dentre outras formas de saber do homem e tendo em vista que o foco de nossa análise é a investigação sobre que conhecimento permeia a tecnologia moderna, vamos analisar qual é o sentido do método e suas implicações sobre a visão de mundo que carrega consigo. Entendemos que a análise (ainda que fenomenológica) do que é o método, ou pelo menos o sentido que aqui queremos dar, é mister para assegurar o que propomos dizer a seguir, qual seja: analisar alguns aspectos característicos do método científico para, então, postular a crise do paradigma científico. Ademais, cremos que a adoção deste ou daquele método, não é meramente uma escolha desta ou daquela ferramenta com vistas a um objetivo. O método pressupõe uma visão de mundo e, portanto, carrega em si um modelo paradigmático de cada sociedade em cada tempo. Por isso mesmo, num segundo momento, nossa pretensão será tecer considerações acerca do método científico, partindo de suas características elementares para, em seguida, apontar certas provocações sobre sua constituição enquanto paradigma vigente e dominante do modo como concebemos o mundo e a realidade. Aqui, vamos esboçar algumas críticas sobre o paradigma científico, postulando sua crise, primeiramente em seus aspectos históricos, sociológicos e teóricos, e, posteriormente, em seus aspectos epistemológicos. Tal crítica é o ponto de partida de uma análise que pretende meramente ser uma reflexão introdutória, visto a complexidade do assunto e do estágio ainda embrionário em que se encontra. Mais que explicar, queremos indagar; mais que descrever, propomos

61

conjecturar sobre a crise do paradigma científico. Afinal, afirma Boaventura, vivemos numa sociedade intervalar, uma sociedade de transição paradigmática. 122 Assim sendo, deve o leitor tomar este texto como uma reflexão preliminar, característica daqueles tempos em que se vivem períodos de transição, que é, cremos nós, o momento histórico, em sentido epistemológico, no qual estamos inseridos e conforme assinala Morin:

Creio estarmos numa época em que temos um velho paradigma, um velho paradigma que nos obriga a disjuntar, a simplificar, a reduzir, a formalizar sem poder comunicar aquilo que está disjunto e sem poder conceber os conjuntos ou a complexidade do real. Estamos num período “entre dois mundos”; um que está prestes a morrer, mas que não morreu

ainda, e outro, que quer nascer, mas que não nasceu ainda.[

...

].

123

Em vista deste quadro é que pretendemos acenar para a necessidade de repensar uma outra identidade para a tecnologia moderna. Aqui, vamos elencar, inclusive, algumas práticas que carregam em si um outro olhar epistemológico sobre a tecnologia. Entendemos que a análise epistemológica da tecnologia pode contribuir para apontar novas perspectivas sobre o conhecimento, baseada num outro olhar sobre a realidade, cujas práticas tecnológicas deve levar em conta a complexidade, a intersubjetividade e a intencionalidade na dinâmica dos fenômenos; deve priorizar o local em detrimento do global. Enfim, uma outra dimensão epistemológica da tecnologia que leve em conta o conhecimento historicamente acumulado de uma dada comunidade. Conhecimento este que não é só científico, mas que nasce colado às experiências do cotidiano de uma dada cultura e que se perfaz por múltiplas formas de conhecimento e de produção material. Seguindo a mesma perspectiva de análise, nas considerações finais deste capítulo, apontaremos a necessidade de repensar a própria visão de mundo e de realidade característica do paradigma científico e da visão empirista de realidade, partindo da condição epistemológica do tempo presente e da condição existencial do ser humano. Ou seja, a crise epistemológica se reflete também na nossa condição existencial de estar no mundo. Portanto, não é somente uma crise de conhecimento sobre as coisas, mas, sobretudo, de autoconhecimento do homem consigo mesmo. Neste contexto é que deve ser pensada a dimensão epistemológica da tecnologia.

2. EMPIRISMO E TECNOLOGIA MODERNA

122 SANTOS, A crítica

op. cit., p. 41.

, 123 MORIN, Edgar. A inteligência da complexidade. São Paulo, 1999, p. 40 e 41.

...

62

Vimos que a aliança entre ciência e técnica, a partir da modernidade é fator indispensável para a compreensão da ontologia da tecnologia. Afora as referências que fizemos no capítulo anterior, vale a pena, a fim de retomarmos a compreensão deste consórcio, citar ainda mais uma afirmação sobre o que é tecnologia em que está presente este novo contexto da tecnologia:

Escolho um significado de ‘tecnologia’ que a distingue da ‘técnica’, permitindo contrastar o homem tecnológico moderno com o homem técnico de sempre e caracterizar de modo específico a situação contemporânea. Será tecnologia aquela técnica que não se limita a escogitar maquinarias úteis com método empírico, mas procede pari passu com a ciência, ora (sem dúvida mais freqüente) solicitando-na, ora aplicando-na as descobertas teóricas. E com ciência entendo aquele fato moderno, nascido da época galileana, a ciência que eliminando a qualidade e a essência reduz o cognoscível ao mensurável e à estrutura do mensurável, atravessando as fases (ideais mais que históricas) do materialismo (ser = matéria), do fisicalismo (ser = matéria + energia), do reducionismo (ser = matéria + energia + informação). A tecnologia se distingue como espécie entre o gênero técnica, enquanto técnica solidária da ciência moderna e em particular da sua fase madura, aquela reducionista. 124

Pois bem, esta aliança que delineia o caráter ontológico da tecnologia moderna, além dos fatores históricos que lhe deram sustentação, conforme já enunciamos no capítulo anterior, só se tornou possível em sentido filosófico, graças ao Empirismo. Pensamento que ganha forças, sobretudo, no séc. XVI, com Bacon. Expliquemos melhor tal premissa situando histórica e epistemologicamente o Empirismo Moderno. Podemos considerar que três são as questões fundamentais da Teoria do Conhecimento: “o que se conhece”, “como se conhece” e “quem conhece”. Sobre “como se conhece”, duas são as correntes predominantes em termos de história da filosofia moderna, a saber: o racionalismo e o empirismo. O Empirismo é uma corrente filosófica que tem na experiência o fundamento da verdade. Opõe-se ao Racionalismo que vê na razão a base do conhecimento. A razão como critério de verdade pode ser falível, enquanto que na experiência reside a possibilidade e a condição da verdade ser colocada à prova, alegam os empiristas. O Diccionário de Filosofía de Nicola Abbagnano acrescenta: “a atitude empirista

consiste em supervalorizar a importância dos fatos, dos dados, das condições que possibilitam a comprovação de uma verdade qualquer, já que a verdade não é tal se não é

comprovada como tal e o único meio de comprovação se refere a coisas reis [

...

].

125

124 O conceito é citado por VALLAURI, Luigi Lombardi. L’impatto della tecnologia sulla vita e sulla autopercezione dell’uomo. In: BAUSOLA, Adriano et al. Etica e transformazioni tecnologiche. Milano: Vita e Pensiero, 1987, p. 40 (Tradução livre). 125 ABBAGNANO, op.cit., p.399 (Tradução livre).

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Na modernidade Bacon (1561 – 1626) tornou-se um dos principais representantes desta corrente filosófica. Considerado por muitos como o “profeta da revolução tecnológica moderna”, 126 o filósofo inglês, no séc. XVII (período em que a Inglaterra ocupava a vanguarda européia nos setores de mineração e indústria), defendia uma ciência operativa e não contemplativa. Para ele, os filósofos escolásticos e platônicos são comparados às aranhas que tecem teias maravilhosas, mas permanecem alheias à realidade. Por isso, Bacon defendia que o saber sobre a natureza deveria ser um saber ativo e fecundo de resultados práticos. Analisando outros feitos do filósofo empirista, Paulo Rossi avalia que Bacon foi na modernidade o arauto da indagação sobre a função social da ciência; foi um crítico severo da utilização da magia na pesquisa científica tão comum em seu tempo; um defensor da técnica e da valorização do progresso científico e o mentor de uma nova técnica de abordagem da natureza. 127 Em sua obra Novum Organum, ele propõe o método das ciências naturais baseado na experiência como fundamento da verdade. 128 E a verdade representa o domínio da natureza. Eis como se anuncia o tratado de Bacon, exposto logo no III aforismo: “Ciência e poder do homem coincidem, uma vez que, sendo a causa ignorada, frustra-se o efeito”. 129 Portanto, para Bacon, a verdade é poder (“veritas est possum”). Na referida obra, todo o empenho de Bacon consiste em destruir os pressupostos ou postulados da ciência existentes até então, e, em seguida, dedica-se a construir as novas bases de sua “instauração”. Na parte “destrutiva da instauração”, como ele mesmo assim costumava denominar 130 , Bacon se ocupa em refutar o racionalismo filosófico dos antigos a partir de três pontos. A primeira refutação consiste em considerar a “razão humana natural” como modo de conhecimento. Para Bacon a confiança somente na razão como meio para se chegar ao conhecimento é insuficiente, e pode nos levar a conclusões equivocadas sobre as coisas, pois, os sentidos do homem são enganadores e não nos garante o que, de fato, é a natureza. Daí a necessidade de realizar experimentos a fim de comprovar as descobertas científicas. Providência esta que Francis Bacon não vê em Aristóteles. A lógica aristotélica, dizia freqüentemente Bacon, “estabelecia antes as conclusões, não consultava devidamente a

  • 126 Cf. REALE, op. cit., Vol. II, pp. 322 e 323.

  • 127 Citado por REALE, op. cit., Vol. II, p.328.

  • 128 BACON, Francis.

Novum organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da

natureza. In: OS PENSADORES. São Paulo: Abril Cultural, 1984. Vale lembrar que o título desta obra deveu-se às severas críticas de Bacon à obra aristotélica Organum.

  • 129 BACON, op. cit., p. 13.

  • 130 BACON, op. cit., p. 75.

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experiência para o experimento de suas relações e axiomas”. 131 Por isso ela é equivocada, fundada em noções vulgares e inúteis para o incremento das ciências. O segundo aspecto a ser amplamente criticado por Bacon, diz respeito às demonstrações lógicas da ciência fundada pelos antigos. Para ele as demonstrações advindas da lógica de Aristóteles são falsas. Nestes termos, ele diz:

As demonstrações, na verdade, são como que filosofias e ciências em potência, porque, conforme sejam estabelecidas, mal ou corretamente instituídas, assim também serão as filosofias e as especulações. Errados e incompetentes são os que seguem o processo que vai dos sentidos e das coisas diretamente aos axiomas e às conclusões. Esse processo

consiste em quatro partes e quatro igualmente são os seus defeitos. Em primeiro lugar, as próprias impressões dos sentidos são viciosas; os sentidos não só desencaminham como levam a erro. É pois necessário que se retifiquem os descaminhos e se corrijam os erros. Em segundo lugar, as noções são mal abstraídas das impressões dos sentidos, ficando indeterminadas e confusas, quando deveriam ser bem delimitadas e bem definidas. Em terceiro lugar, é imprópria a indução que estabelece os princípios das ciências por simples enumeração, sem o cuidado de proceder àquelas exclusões, resoluções ou separações que são exigidas pela natureza. Por último, esse método de invenção e de prova, que consiste em primeiro se determinarem os princípios gerais e, a partir destes, aplicar e provar os princípios intermediários, é a matriz de todos os erros e de todas as calamidades que

recaem sobre as ciências [

...

].

132

Sem dúvida, a melhor forma de demonstração, reitera Bacon, é a experiência. E, ainda assim, aquela deve ficar adstrita ao experimento. 133 Mas não basta a experiência. Esta deve ser precedida de leis seguras e de forma gradual e constante. Nota-se que tais noções defendidas por Bacon constituir-se-ão, mais tarde, as bases do método experimental da ciência moderna, como veremos ainda neste capítulo, quando tratarmos do conhecimento científico como um dos elementos também constitutivos da dimensão epistemológica da tecnologia moderna. Ainda quanto à questão do método, vale dizer que se Bacon rechaça a dedução considerando-a incompetente enquanto processo demonstração, utilizado pela filosofia

tradicional , em seu lugar ele propõe a indução. Diz que é melhor dividir em partes a

natureza do que abstraí-la. 134 E acrescenta: “muito se poderá esperar das ciências [

]

se

... souber caminhar dos fatos particulares aos axiomas menores, desde aos médios, os quais se

elevam acima dos outros e, finalmente aos mais gerais”. 135

  • 131 BACON, op. cit., p. 33.

  • 132 BACON, op. cit., p. 38.

  • 133 Aqui Bacon, está se referindo, sobretudo, as experiências dos alquimistas, que, segundo ele, são eivadas de supertições e, portanto, são viciosas. Para ele, os alquimistas são “azarões da experiência”, não sabendo ao certo, se devemos rir ou chorar diante de suas descobertas. Cf, BACON, op. cit., pp. 53-54 e 34.

    • 134 BACON, op. cit., p. 26.

    • 135 BACON, op. cit., p. 68.

65

Também Bacon não admite qualquer finalismo nos seres da natureza. A exemplo de Aristóteles que concebia a existência dos seres a partir das quatro causas (já referenciadas aqui na página – Ver I Cap.), Bacon considera que “a causa final longe está de fazer avançar as ciências, pois, na verdade as corrompe, mas pode ser de interesse para as ações humanas”. 136 Vale dizer que para ele a causa formal é a que resulta na efetiva verdade na investigação e na descoberta da operação, pois, é através das formas que se abarca a unidade da natureza como um todo, em todas as suas matérias. Portanto, esta é a forma causal que interessa à ciência ativa. E conclui: “o que é mais útil na prática é mais verdadeiro no saber”. 137 A terceira refutação diz respeito às próprias teorias filosóficas, que, segundo Bacon, por serem embasadas numa lógica equivocada, em poucos experimentos e em superstições, têm provocado em nossas mentes a geração de idolatrias, os quais, ele classifica como sendo de quatro tipos: os ídolos da tribo (denominado por Bacon para designar os ídolos produzidos pela idéia de que os sentidos do homem são as medida das coisas); os ídolos da caverna (que se referem a forma como produzimos o conhecimento); os ídolos do foro (trata-se do uso das palavras que, se impostas de modo inadequado e inepto, bloqueiam o intelecto) e os ídolos do teatro (que diz respeito aos ídolos produzidos pelas doutrinas filosóficas e suas formas de demonstração). Tais doutrinas filosóficas se referem, especialmente, aos gregos e aos medievais. Sobre a filosofia e a ciência dos gregos, Bacon diz: “os gregos, com efeito, possuem o que é próprio das crianças: estão sempre prontos a tagarelar, mas são incapazes de gerar, pois, a sua sabedoria é forte em palavras, mas estéril em obras”. 138 E sobre os medievais, ele avalia que esta foi uma época infeliz para a ciência, posto que, tanto árabes, quanto escolásticos mais “atravancaram as ciências que concorreram para aumentar-lhes peso.” 139 Mas, se por um lado, Bacon é um severo crítico do modo como se fazia ciência até seu tempo, por outro lado, ele mesmo tornou-se um defensor incansável de um novo organum que pudesse criar uma “filosofia natural pura” e reconduzir a ciência a trilhar caminhos mais seguros e úteis do ponto de vista da necessidade da vida humana. Por isso,

  • 136 BACON, op. cit., p. 94. Com relação aos outros modos de causalidade (a saber: a causa formal, a material e a eficiente), a concordância de Bacon com Aristóteles é meramente no plano terminológico. Mas a extinção baconiana da causa final, representa, sem dúvida, a grande perda do aristotelismo enquanto interpretação do mundo natural.

    • 137 BACON, op. cit., pp. 96 e 97.

    • 138 BACON, op. cit., p. 41.

    • 139 BACON, op. cit., p. 42.

66

anunciava orgulhosamente o impacto das descobertas científicas de seu tempo sobre o homem.

É preciso considerar ainda a força, a virtude e os efeitos das coisas descobertas, que não se apresentam tão claramente em outras coisas quanto nestas três invenções, que eram desconhecidas para os antigos e cuja origem, embora recente, é obscura e inglória: a arte da impressão, a pólvora e a bússola. Com efeito, essas três coisas mudaram a situação do mundo todo, a primeira nas letras, a segunda na arte militar, a terceira na navegação:

provocaram mudanças tão infinitas que nenhum império, nem seita, nem estrela parece se exercido maior influência com mais eficácia sobre a humanidade que estas três invenções. 140

Ele preconizava a urgência de se produzir uma História Natural e Experimental, cuja idéia central é que “não se deve inventar ou imaginar o que a natureza produz, mas descobri-lo”. 141 Depositava confiança suprema na ciência; era ela a razão da esperança num futuro melhor, 142 que aconteceria, segundo ele, quando ocorresse “a aliança estreita e sólida (ainda não levada a cabo) entre essas duas faculdades, a experimental e a racional”. 143 Sobre tal exigência, Bacon faz a seguinte avaliação histórica:

Os que se dedicaram às ciências foram ou empíricos ou dogmáticos. Os empíricos, à maneira das formigas, acumulam e usam as provisões; os racionalistas, à maneira das aranhas, de si mesmo extraem o que lhes servem para a teia. A abelha representa a posição intermediária: recolhe a matéria-prima das flores do jardim e do campo e com seus próprios recursos a transforma e digere. Não é diferente do labor da verdadeira filosofia, que se não serve unicamente das forças da mente, nem tampouco se limita ao material fornecido pela história natural ou pelas artes mecânicas, conservando intacto na memória. Mas ele deve ser modificado e elaborado pelo intelecto. 144

Neste sentido, Ruy Gama afirma: “Bacon rejeitou a separação e a oposição vigentes

nas filosofias tradicionais [

]

entre teoria e prática; entre lógica e operações reais, entre

... verdade e utilidade”. 145 Sobre a dicotomia entre teoria e prática Ruy Gama esclarece que

Bacon:

Interpretou essa oposição como oriunda de condições históricas e sociais bem

determinadas que valorizavam a contemplação _ a verdade em sua pureza _ e que

desprezavam tudo que fosse ligado a atividades materiais. [

...

]

E a partir daí sustenta a

identidade entre verdade e utilidade, teoria e atividade operativa, conhecer e fazer e afirma

  • 140 BACON, citado por REALE, op. cit., Vol II, p. 323. Vale lembrar que para Reale, Bacon foi o “profeta da revolução tecnológica moderna” (Cf. REALE, op. cit., Vol. II, p. 322)

    • 141 BACON, op. cit., p. 102.

  • 142 Vale lembrar que o resultado do imaginário baconiano de uma sociedade regida pela ciência está descrito em Nova Atlântida, título de uma outra obra de Bacon que reflete o sentido utópico da ciência para o filósofo.

    • 143 BACON, op. cit., p. 63.

    • 144 Id. Ibid.

    • 145 GAMA, R. Engenho

...

, op. cit., p. 33

67

que qualquer separação e contraposição entre esses termos cria obstáculos intransponíveis à construção de teorias verdadeiras e à consecução de resultados efetivos e eficientes. 146

Em síntese, Bacon exalta a experiência como verdadeira forma de demonstração e a indução como caminho seguro do conhecimento; exclui o finalismo do processo natural e rechaça a verdade como contemplação, teoria especulativa, enaltecendo a verdade como dado da experiência, das atividades práticas e materiais. A exaltação da prática, para os empiristas, tem em vista uma utilidade, o resultado efetivo, pragmático. Bacon, por exemplo, repudiando a ociosidade da Aristocracia da época, ressalta o trabalho como a arte do fazer. Em palavras textuais ele conclui suas indicações acerca da interpretação da natureza: “Comerás do pão com o suor de tua fonte 147 por meio de diversos trabalhos (certamente não pelas disputas ou pelas ociosas cerimônias mágicas), chega, enfim, ao homem, de alguma parte, o pão que é destinado aos usos da vida humana.” 148 Posição esta que também será adotada pela burguesia nova classe social em ascensão para quem o saber não pode estar desligado da produção. 149 Conclui, então, Gama que “a literatura técnica e as sociedades científicas experimentais têm no empirismo seu suporte filosófico e tentam romper as barreiras entre o Pensar e o Fazer”. 150 Ora, este é o contexto filosófico do surgimento da tecnologia moderna. Esta (a tecnologia) é exatamente o resultado da aliança entre teoria e prática. A primeira representada pela ciência, a segunda pela técnica. Daí afirmar, em princípio que a tecnologia, em sentido moderno, implica num conhecimento racional (portanto, científico) com vistas a uma utilidade prática, instrumental (portanto, técnica). Conforme já salientamos anteriormente (I capítulo), a valorização do conhecimento prático, garantido pela tecnologia, e sustentado ideologicamente pela visão filosófica do Empirismo não aconteceu de modo aleatório, nem foi por acaso. Ela obedece a um projeto político, social, econômico que ultrapassa as fronteiras dos Estados e que estava sendo gestado neste período, que é o surgimento da sociedade capitalista. Por isso, considera-se que, em sentido moderno, não há que separar a tecnologia do modo de produção capitalista, pois sem a aliança entre ciência e técnica (= tecnologia) não seria possível o

  • 146 Id. Ibid., p. 33 e 34. A interpretação de Gama é baseada na obra ROSSI, Paolo. Los filósofos e lás máquinas. Barcelona: Editorial Labor, 1966.

    • 147 A citação refere-se à leitura bíblica do Gênesis, 3, 19.

    • 148 BACON, op. cit., p. 231.

  • 149 GAMA,

Engenho

,

op. cit., p. 37.

  • 150 op. cit., p. 34 e 35. Vale lembrar ainda que para Ruy Gama a preocupação de

GAMA, Engenho

,

68

mercantilismo (fator histórico decisivo para o surgimento do capitalismo), nem o desencadeamento da Revolução Industrial (filha primogênita do capitalismo). A seguir, tem-se a ilustração dos dois fatores históricos acima mencionados a título argumentativo do que se conjectura. A primeira passagem é extraída do livro História social de la ciência, vol. 1, p. 305-306, citado por Gama:

As grandes navegações foram fruto da primeira aplicação consciente da ciência

astronômica e geográfica a serviço da glória e do lucro. Foi natural que as cidades alemãs

e

italianas [

...

]

com seu vasto comércio tomassem a dianteira nos aspectos teóricos do

problema. O aspecto prático foi desenvolvido principalmente pelos navegadores portugueses e espanhóis, que combinaram os últimos esforços das cruzadas com a noção prática acerca das ‘plantations’ de açúcar, dos escravos e do ouro. Teoria e prática confluíram na corte do príncipe Henrique, o navegador (1415-1460), em Sagres, onde técnicos mouros, judeus, alemães e italianos discutiam novas viagens com os capitães que já haviam navegado o Atlântico. (grifo nosso) 151

Relatando o processo das grandes navegações mercantilistas, o historiador da ciência John Bernal deixa claro dois aspectos importantes para o propósito de nossa reflexão. O primeiro, diz respeito à combinação entre teoria e prática como elementar para garantir o projeto de navegação. Sabe-se que até a Idade Média, a ciência é uma atividade de caráter especulativa, dissociada da atividade prática, técnica. Portanto, esta aliança é fato inédito na história mundial. O segundo aspecto refere-se ao fator econômico, pois graças à “aplicação consciente da ciência” foi possível o lucro e a glória, eis os primórdios da sociedade capitalista. 152 O relato seguinte nos dá a idéia de como a tecnologia moderna está imbricada no processo de industrialização. Referindo-se à tecnologia e à indústria, Marx escreve no vol. 1 do livro I, p.567 de O Capital, citado por Gama:

Criou a moderna ciência da tecnologia o princípio de considerar em si mesmo cada processo de produção e de decompô-lo, sem levar em conta qualquer intervenção da mão humana, em seus elementos constitutivos. As formas multifárias, aparentemente desconexas e petrificadas do processo social de produção se decompõem em aplicações da ciência conscientemente planejadas e sistematicamente especializadas segundo o efeito útil requerido. (grifo nosso) 153

Repare que Marx caracteriza o processo de industrialização a partir da aplicação planejada e consciente da ciência com vistas a um fim útil, ao que ele denomina de

151 GAMA, R. Engenho

op cit., p. 49.

, 152 Acrescenta-se ainda que neste relato histórico encontramos claramente a fecundação dos ideais de Bacon, afinal, como observou B. Farrington, nenhum outro filósofo nos últimos trezentos anos se preocupou tanto com a “influência das descobertas científicas sobre a vida humana”. Citado por REALE, op. cit., Vol II, p. 323. 153 GAMA, R. op. cit., p. 50.

...

69

“moderna ciência da tecnologia”. A máquina que incorpora o trabalho objetivado do trabalhador, separando este de seu saber, é fruto do empenho da ciência moderna que garante um conhecimento científico como força produtiva. É na maximização da produção e minimização do tempo como garantia do lucro (operacionalizado pela máquina) que reside a aplicação prática e útil da ciência. Por isso, que (como vimos no capítulo anterior) para Marx, a tecnologia tornou-se uma mediação necessária ao sistema capitalista: ela molda o novo momento histórico do processo de produção, instaurado com a modernidade, quando a ciência instrumentalmente acoplou-se à técnica.

  • 3 CONHECIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLOGIA MODERNA

Vimos até aqui como o Empirismo sustentou histórica e filosoficamente a aliança entre teoria e prática, a qual desembocou na assim chamada “moderna ciência da tecnologia”, conforme a pertinente observação de Marx, quando esta passou a utilizar a aplicação dos conhecimentos científicos na solução dos problemas práticos. Mas, ainda nos resta salientar que, a aliança entre técnica e ciência somente tornou-se possível graças ao surgimento de uma nova concepção de conhecimento que passou a vigorar a partir da era moderna. Em outros termos, o que queremos ressaltar é que ao lado do empirismo, também o conhecimento científico passou a ser um dos pilares epistemológicos que garantiu o conhecimento presente na tecnologia. Aprofundemos, então, o que enunciamos.

  • 3.1 O Paradigma Científico de Conhecimento:

    • 3.1.1 Aspectos Filosóficos da Revolução Científica Moderna

Conforme já fora salientado anteriormente, em sentido filosófico e epistemológico, diríamos que a Modernidade é marcada pelo paradigma da cientificidade. 154 Isto significa dizer que na época moderna a ciência e junto com ela o método científico passaram a ser a forma de conhecimento predominante e hegemônico na sociedade. E equivale a dizer ainda

154 Dado a amplitude que adquiriu o conceito nos últimos tempos, alertamos o leitor que por paradigma considera-se aqui a seguinte noção: trata-se de um modelo de visão de mundo característico de certa época; é a cosmovisão predominante em certo período histórico, que possui implicações não só científicas, mas também culturais, políticas, econômicas, sociais, etc. Cf. MARGARET, Mastern. A natureza de um paradigma. In: LAKATOS e MUSGRAVE (Org.) A crítica e o desenvolvimento do conhecimento. São Paulo: Cultrix, 1970, p. 72 – 109.

70

que na modernidade, assim como o sentido de técnica e tecnologia, a ciência também adquire características que lhes serão peculiares em termos históricos. (1) Assim, por exemplo, no lugar de uma ciência contemplativa, racional, especulativa e dedutiva como eram a dos antigos, gradativamente toma seu lugar uma outra concepção de ciência: experimental, prática, operativa, ativa e indutiva, assim como preconizava Bacon. (2) Outra característica marcante da revolução científica moderna é a valorização de um novo conceito de “cientista”. O “novo douto” não é mais o filósofo medieval, ou o humanista catedrático, o mago, ou astrólogo, ou até mesmo o artesão e o artista do Renascimento, e sim aquele que é capaz de validar seu saber pelo controle da pesquisa experimental. (3) Deste novo conceito surge outra característica marcante da ciência moderna: a instrumentação científica. Se o novo cientista é agora o homem rigoroso que produz saber através da pesquisa experimental, esta exige instrumentos de medida cada vez mais precisos. Ora, a introdução de instrumentos como auxílio das descobertas científicas, tornam-se eles mesmos, parte do saber científico. Ou seja, os instrumentos de medida não estão fora do invento, mas compõe a própria teoria científica. Em suma: “os instrumentos entram na ciência com função cognoscitiva” e não meramente instrumental. Deste modo, a ciência moderna “sanciona a legalidade dos instrumentos científicos”. 155 (4) Mas, a mudança mais significativa que ocorreu no processo da revolução científica foi a transformação filosófica da imagem do mundo, da ciência e do próprio homem. Com as descobertas científicas de Copérnico (1473 – 1543), criou-se um novo paradigma em torno da Teoria Heliocêntrica: a terra deixa de ser o centro do Universo e, conseqüentemente, o homem moderno é levado a desconfiar do posto privilegiado da Criação auferido pelas Escrituras, segundo a interpretação dos medievais. Tal desconfiança só fez aumentar quando das descobertas dos “Selvagens” com as grandes navegações além-mares, que colocou em questionamento as teses antropológicas e antropocêntricas do velho continente europeu. Os limites do mundo rompido com a teoria do Universo Infinito de Giordano Bruno (1548- 1600), então veio consumar tal desconfiança. A transformação da imagem do mundo e do homem atingiu gradativamente a ciência, pois, se para o pensamento clássico a ciência é um saber sobre a essência das coisas elaborado por teorias e conceitos definitivos, para o homem moderno, a ciência passa a ser um saber que busca a

155 REALE, op. cit., Vol. II, pp. 196 e 198.

71

qualidade das coisas, do mundo material e objetivo. “Não é mais o que, mas o como; não é mais a substância, mas sim a função, que a ciência galileana e pós-galileana passariam a indagar”. 156 Em suma:

Com efeito, o advento da ciência moderna veio desintegrar por completo tudo o que se acreditava saber sobre o mundo físico. Este saber se reduzia à cosmologia ensinada nas escolas, impregnada de aristotelismo, reunindo e exprimindo uma espécie de familiaridade concreta (intelectual, estética, moral e religiosa) do homem e do universo. A física científica veio substituir essa cosmologia por um jogo de representações “claras e distintas”, elementares e quantitativas, doravante manejadas matematicamente. A qualidade antiga é posta sob suspeita, sendo acusada de “qualidade oculta”. Os antigos “princípios” são recusados. A matemática passa a ser compreendida de forma inteiramente diversa. A idéia de ‘forma substancial”é proscrita. A figuração do conjunto do universo é derrubada. E é dilacerado o pacto das antigas familiaridades do homem com a natureza .. tudo é substituído por um empirismo intelectual mais adulto e, praticamente, mais eficaz e agressivo. A antiga “filosofia natural”, sobrevivendo aos manuais oficiais de cosmologia, é atingida por um golpe mortal. A nova “filosofia natural” passa a ser doravante a ciência física. Não pode mais haver uma filosofia coerente da natureza. O que sobra da pretensa cosmologia filosófica na escolástica de Worlf, será destruído por Kant. 157

Mas além de Bacon, Copérnico e Bruno outros pensadores contemporâneos a eles forneceram as bases da constituição filosófica de uma nova epistemologia, sendo, portanto, os séculos XVI e XVII o período marcante desta transição paradigmática. Dentre eles destacamos, Galileu Galileu (1564-1642), Descartes (1596-1650) e Newton (1642-1727). A seguir, apresentamos os aspectos mais relevantes de suas teorias em vista do propósito deste trabalho. 158

  • 3.1.2 Galileu, Descartes e Newton e a Visão Mecanicista

Se por um lado Bacon (1620) na Inglaterra inaugurou o Empirismo em sentido moderno, na Itália, Galileu Galileu já havia realizado seus experimentos científicos na área da astronomia. Em verdade, foi Galileu quem inaugurou o “método experimental” e científico por excelência. Suas descobertas ocupavam-se em explicar “como” as coisas

  • 156 REALE, op. cit., Vol. II p. 188.

  • 157 JAPIASSU, op. cit., pp. 54 e 55.

  • 158 A esta altura, é mister esclarecer ao leitor que, em vista do nosso propósito, o que será exposto a seguir não é um estudo minuncioso dos legados destes grandes pensadores modernos, senão uma exposição suscinta e objetiva capaz de fornecer os instrumentais teóricos que nos auxiliem a compreender como suas idéias fundamentaram uma outra epistemologia, inclusive da tecnologia, no período moderno. Com esta exposição também não pretendemos fornecer uma leitura inusitada destes filósofos, o que propomos é tão somente situar os aspectos elementares de suas teorias como ponto de partida, que nos conduzirá a legitimar uma das teses centrais desta pesquisa que é a de que no período moderno a tecnologia sofre e propicia transformações sociais profundas, não podendo ser confundida com o mero estudo da técnica e que ela é um fenômeno social contingencial e não necessário historicamente.

72

funcionam no Universo e consistia em partir de uma hipótese, baseada na experiência, e na formulação de uma lei, baseada na comprovação empírica, explicada através de um modelo matemático. Portanto, Galileu promoveu a união da Física como processo indutivo e da Matemática como processo dedutivo na elaboração de suas descobertas científicas. Desse modo, ele instaurou o que há de mais elementar no processo de construção do conhecimento científico moderno, ou seja, “a experiência científica é feita de teorias que instituem e de fatos que controlam teorias”. 159 Nisso consiste a revolução epistemológica iniciada por Galileu, que é avaliada por Gusdorf nos seguintes termos:

Galileu é o autor da revolução copernicana ou, pelo menos, seu herói, confessor e mártir, não devendo a revolução ser entendida como um episódio na história da astronomia, mas

como uma reavaliação de todos os valores [

...

]

A destruição galileana do Cosmos é a

peripécia capital da história do saber no Ocidente, porque todas as revoluções epistemológicas, ao lado da revolução galileana, não passam de revolução de palácio, enquanto o aparecimento da inteligibilidade mecanicista não transforma este ou aquele modo de pensar, esta ou aquela maneira de ver: impõe um novo pensamento do pensamento. Já nada é igual, porque “tudo mudou”. 160

Por isso, Galileu é considerado o “fundador da ciência moderna” 161 ; pela instituição de seu método científico, ele forneceu as provas empíricas da teoria copernicana. 162 Ademais, Galileu, ainda que membro da Igreja, tornou-se um defensor incansável da autonomia da ciência em relação à fé. Dizia ele que ambas são incomensuráveis e, por isso mesmo, compatíveis; a Fé explica “como se vai ao céu”, a Ciência explica “como é o céu”. 163 Mas, sendo Galileu um defensor da ciência autônoma e independente, sua posição revelou-se também eivada de um certo dualismo acerca do assunto, posto que “a ciência é cega para o mundo dos valores e do sentido da vida, enquanto a fé é incompetente sobre questões factuais”. 164 Acreditava também que a ciência poderia nos dar uma descrição verdadeira e objetiva da realidade, afinal a ciência deveria se ocupar dos aspectos quantificáveis e

  • 159 REALE, op. cit., Vol II, p. 267.

  • 160 JAPIASSU, op. cit., p. 53

  • 161 REALE, op. cit., Vol. II, p. 25