CAPÍTULO VII - A AVALIAÇÃO MORAL

1. Caráter concreto da avaliação moral
A avaliação moral compreende três elementos:
a) o valor atribuível
b) o objeto avaliado
c) o sujeito que avalia
Numa caracterização geral da avaliação moral, a avaliação, por ter atribuição de um
valor constituído ou criado pelo homem, possui um caráter concreto, histórico-social.
Também é preciso considerar que se pode atribuir valor moral a um ato se – e somente
se – tiver ele consequências que afetam a outros indivíduos, a um grupo social ou à
sociedade inteira.
A avaliação é sempre atribuição de um valor por parte de um sujeito. Portanto, pelo
valor atribuído, pelo objeto avaliado e pelo sujeito que avalia, a avaliação tem sempre
um caráter concreto, ou seja, é a atribuição de um valor concreto numa situação
determinada.
Os itens a seguir se referem ao exame do valor moral fundamental: a bondade.
2. O bom como valor
O ato moral pretende ser uma realização do “bom”. Comportando-se moralmente, os
homens aspiram ao bem, isto é, a realizar atos moralmente bons. Definir o bom implica
definir o mau. De uma sociedade para outra, mudam as ideias sobre o bom e o mau de
acordo com as diferentes funções da moral efetiva de cada época, e essas mudanças se
refletem sob a forma de novos conceitos nas doutrinas éticas. Nos povos primitivos o
bom é, antes de tudo, a valentia, enquanto o mau é a covardia. Com a divisão da
sociedade em classes, 24 perde o seu significado universal humano. Na Idade Média é
bom o que deriva da vontade de Deus.
Nos tempos modernos, o bom é o que concorda com a natureza humana concebida de
uma maneira universal e abstrata que podemos definir no pensamento ético como
felicidade, prazer, boa vontade, utilidade. Mas também pode ser caracterizado como
verdade, poder, riqueza e Deus.
3. O bom como felicidade (eudemonismo)
Para Aristóteles, a felicidade é o mais alto dos bens e está no exercício da razão. Isso
significa que a felicidade está no alcance somente de uma parte privilegiada da

oferece-nos um conceito do bom . quantitativas e qualitativas do hedonismo ético reduzem o “bom” a reações psíquicas ou vivências subjetivas. única e exclusivamente pela razão. As teses. sem restrição alguma. O pensamento ético moderno sustenta o direito dos homens de serem felizes neste mundo. ou seja. abstrato e universal. Somente o prazer é intrinsecamente bom.sociedade. da qual. 5. e se essas não se verificam não se pode ser feliz. Numa sociedade na qual não vigore o princípio da propriedade privada nem a onipotência do dinheiro. refletindo a realidade de sua época. O bom como prazer (hedonismo) As teses básicas do hedonismo ético. por seu caráter ideal. de ser bom de uma maneira absoluta. estavam excluídos os escravos e as mulheres. A bondade de um ato ou experiência depende do (ou é proporcional à quantidade de) prazer que contém. como os intelectuais e os estéticos. mas concebem a felicidade num plano abstrato. O bom como “boa vontade” (formalismo Kantiano) Kant defende que o bom deve ser algo incondicionado. não se pode considerar – como adequada à natureza humana em geral – a felicidade que hoje se reduz às tendências egoístas do indivíduo ou ao seu “espírito de posse”. determinada. mas pelo dever. a tese de que a felicidade é o único bom resulta demasiado geral se não se concretiza o seu conteúdo. e na qual o destino pessoal não se possa conceber separado da comunidade. A felicidade está sujeita a certas condições. os homens terão de buscar outro tipo de felicidade. sejam quais forem os resultados ou as consequências da nossa ação. 4. Ou seja. mas em suma. Todo prazer ou gozo é intrinsecamente bom. fora das condições concretas da vida social que favorecem ou constituem obstáculos para a consecução. deduzindo o juízo de valor a partir do juízo de fato. ideal. Portanto. existem algumas objeções. consideram prazer no sentido de prazeres mais duradouros e superiores. Este conteúdo varia de acordo com as relações sociais que o determinam e a cujos interesses serve. A boa vontade é uma determinação de fazer algo. Contra esta concepção Kantiana da “boa vontade”. 2ª. em toda circunstância e em todo momento. a vontade que age não só de acordo com o dever. 1ª. citadas abaixo. 3ª. sem restrição alguma.

portanto. acarreta uma peculiar relação determinada pela estrutura social. cuja boa vontade absoluta e incondicionada seria o único verdadeiro bom.totalmente inexequível neste mundo real e. . mas não num sentido egoísta ou altruísta. cooperação e ajuda mútua – são encorajadas ou obstaculizadas de acordo com as condições concretas nas quais vivem os homens. 6. procuram encontrá-lo em certa relação entre o particular e o geral. onde o bom não é só uma coisa – ou o prazer ou a 26 felicidade – mas várias coisas que podem. ao mesmo tempo. Os utilitaristas põem o bom em relação com o interesse dos homens e. Por isso. e sim no sentido geral de bom para o maior número de homens. ao mesmo tempo. Conclusões a respeito da natureza do bom Os hedonistas e os eudemonistas consideram que os homens estão dotados de uma natureza universal e imutável. ou na harmonização dos interesses pessoais com os verdadeiramente comuns ou universais. O egoísmo e suas opostas manifestações – solidariedade. Na sociedade moderna o bom só pode ocorrer realmente na superação da cisão entre o indivíduo e a comunidade. o problema do bom como conjunção dos interesses pessoais e dos interesses coletivos é inseparável do problema das bases e das condições sociais que tornam possível a sua realização. abstrato e situado fora da história. e exatamente nestes bens fazem consistir o bom. Em que consiste o útil? A concepção pluralista sustenta que se os bens intrínsecos que os nossos atos podem causar não se reduzem a um só. portanto. considerar-se como boas. que nos faz procurar o prazer ou a felicidade. O bom como útil (utilitarismo) Útil para quem? O utilitarismo concebe. A realização do bom na superação do círculo estreito dos interesses exclusivamente pessoais. o bom como o útil. O formalismo Kantiano apela para um homem ideal. inoperante para a regulamentação das relações entre os homens concretos. mas a uma pluralidade dos mesmos. do trabalho ou do estudo e na transformação das condições sociais. no significado social da atividade do indivíduo. 7. A relação entre o indivíduo e a comunidade varia com o tempo e com as diferentes sociedades.