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QUESTÃO DE GÊNERO:

imagens de mulheres em cargos executivos

Leonora Figueiredo Corsini

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Sumário

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INTRODUÇÃO

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CAPÍTULO 2 REFERENCIAIS TEÓRICOS

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POR QUE REPRESENTAÇÕES SOCIAIS?

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A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE – O MODELO DE MOSCOVICI

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REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA MULHER – DA IDENTIDADE À PERFORMANCE

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CAPÍTULO 3 ESTUDOS DE CAMPO

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ESTUDO 1 – “SOCIALITE LINHA DURA”

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APRESENTAÇÃO

35

MÉTODO

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RESULTADOS

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ESTUDO 2 – MULHERES EXECUTIVAS. REPRESENTAÇÕES DE ESTILOS DE COMPORTAMENTO E ESTILOS DE GESTÃO

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APRESENTAÇÃO

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ESTILOS DE COMPORTAMENTO, ESTILOS DE GESTÃO E INFLUÊNCIA SOCIAL

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POR QUE ANALISAR REPRESENTAÇÕES SOCIAIS E RELAÇÕES DE GÊNERO NAS EMPRESAS?.

 

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MÉTODO

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RESULTADOS

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CAPÍTULO 4 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS E CONCLUSÕES

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ANEXOS

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REFERÊNCIAS

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Agradecimentos

Venho de uma família numerosa, e de muitas mulheres. Agradeço a esta grande família com quem compartilhei tantas experiências, por vezes difíceis, mas também com muitos momentos alegres e gratificantes, que me permitiram ser

o que sou. Não poderia deixar de agradecer em primeiro lugar a minha mãe,

educadora que construiu e trilhou seu caminho conciliando as demandas da maternidade e o desejo de realizar o seu projeto profissional. Agradeço

igualmente minhas seis irmãs que, cada uma em seu estilo, foram desbravando

e inventando mundos em que coubessem a ousadia e o equilíbrio, o plural e o

singular, a diversidade e a harmonia, o sonho e a realidade; meu único irmão, Alexandre, e meus dois filhos, André e Bernardo, que me ensinaram muitas

coisas sobre o universo dos meninos.

Agradeço também a meu pai, que me deixou como lembrança o gosto pela música, a curiosidade, o espírito aventureiro.

Gostaria de estender meus agradecimentos a todos aqueles com quem tive a oportunidade de conviver, aprender, trocar e compartilhar experiências de trabalho e de vida, seja na clínica, na pesquisa, nas empresas por onde andei. Faço um agradecimento especial a Eudes dos Santos Martins, Patrícia Hausberg, Vera Dias e Alexandre Mathias que facilitaram o acesso às empresas e instituições visitadas, sem o que não teria sido possível realizar o estudo de campo; Gerardo Silva que generosa e pacientemente leu os meus textos, levantou questões, trouxe novas idéias e sugeriu leituras, o que contribuiu para enriquecer e melhorar este trabalho.

Por fim, gostaria de agradecer o prof. Edson Souza Filho, meu orientador no mestrado, cujo estilo flexível e aberto à negociação tornou possível construirmos uma interlocução instigante, fértil e consistente; e as professoras Suely Gomes Costa e Cynthia Clark, que fizeram parte da banca examinadora e me brindaram com suas valiosas indicações e sugestões.

Este livro é, com algumas adaptações e ampliações, resultado da minha dissertação de mestrado “Mulheres no comando – Representações Sociais de mulheres em cargos executivos”, defendida em 2002 no Programa de Pós- graduação do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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“Os modos de vida inspiram maneiras de pensar; os modos de pensar criam maneiras de viver”.

Gilles Deleuze

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Lista de Tabelas

Tabela 1 – Comparação das respostas dos homens com as respostas das mulheres

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Tabela 2 – Comparação das respostas por condição de produção

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Tabela 3 – Caracterização da gestão feminina

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Tabela 4 – Expectativas para a gestão feminina

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Tabela 5 – Expectativas para a gestão masculinas

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Tabela 6 – Caracterização do gerente do sexo masculino

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Tabela 7 – Caracterização da gestão feminina vs gestão masculina

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Tabela 8 – Expectativas para a gestão feminina vs expectativas para gestão masculina

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Tabela 9 – Comparação entre gestão feminina e masculina por profissionais das

duas empresas e estudantes universitários

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Tabela 10 – Caracterização da gestão feminina por profissionais das duas empresas vs estudantes universitários

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Tabela 11 – Expectativas para a gestão feminina por profissionais das duas empresas vs estudantes universitários

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Tabela 12 – As mulheres gerentes vistas pelos homens (empresa e estudantes)

Tabela 13 – As mulheres gerentes vistas pelas próprias mulheres (empresa e estudantes)

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I ntro d u ção

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“No Brasil, a maioria das mulheres se acha excluída de qualquer direito à cidadania. Essa idéia tem raízes profundas na História. Até o Estatuto da Mulher Casada, de 1963, a mulher era uma escrava do marido. Não podia sequer viajar sem a autorização dele”.

Luíza Nagib Eluf Procuradora do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo

Historicamente, as mulheres vivem e reproduzem normas sociais que buscam fixá-las em um papel “natural” de responsáveis pela criação dos filhos e pela administração do lar e a tradição cultural reforça esses papéis e as crenças em um “destino natural da mulher”. Experiências como a maternidade e o casamento são altamente valorizadas, o que parece dar algum sentido ao alto investimento feito por muitas mulheres no “privado” em detrimento do “público”. A educação e as relações familiares favorecem a construção e a alocação de papéis e comportamentos diferenciados para meninos e meninas, que moldam os conceitos do que é sem mulher e do que é ser homem, tal como são percebidos na sociedade. Esses “modelos” valorizam e dão sentido ao papel da mulher como mãe e dona de casa, ao mesmo tempo influindo nas representações acerca da “vocação natural” das mulheres.

Por outro lado, as estatísticas apontam para o crescimento da participação das mulheres no mercado de trabalho, mesmo em tempos de redução de quadros e de diminuição de postos de trabalho, condições trazidas pela globalização e pela flexibilização dos mercados, além de, paralelamente, para o maior número de lares chefiados por elas, como aponta a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD, do IBGE 1 . A permanência de uma

1 Dados da última PNAD e do documento do IBGE sobre Indicadores Sociais 1996- 2006 indicam que, no Brasil, o número de famílias caracterizadas como “mulher sem cônjuge com filhos” passou de 15,8 milhões em 1996 para 18,1 milhões, em 2006. Como há pouco menos de 60 milhões de famílias no país, isto significa que quase um terço das famílias são carregadas pelas mães (fonte Le Monde Diplomatique Brasil, edição Internet, Boletim 26, 12/11/2007, disponível em

http://diplo.uol.com.br/2007-11,a2009).

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relação de confronto entre homens e mulheres – que os coloca em planos opostos

e não como parceiros – apresenta-se assim como questão bastante atual e que se abre à nossa reflexão.

Com efeito, se é verdade que já vão longe os tempos em que as mulheres viviam totalmente à margem e excluídas de sua cidadania, ainda observamos um mercado de trabalho desigual e que favorece, em muitos aspectos, aos homens. Muitas mulheres vêm buscando transpor as barreiras que se interpõem ao seu

crescimento pessoal através da maior escolarização para, respaldadas por mais anos de estudo e certificados, poderem ter acesso a espaços profissionais que eram antes exclusivamente masculinos: existe um contingente cada vez maior de executivas ocupando cargos de chefia e liderando equipes constituídas de homens e de mulheres. Contudo, mesmo construindo trajetórias ascendentes nas empresas e diminuindo a distância salarial em relação aos homens, essas mulheres, que ainda constituem minoria, são às vezes excluídas das áreas consideradas estratégicas nas empresas e organizações, ficando restritas a funções mais administrativas – ou de staff 2 – que se coadunam melhor às imagens comumente associadas às mulheres. E têm de aprender a conviver com

o preconceito, que parte, muitas vezes, das próprias mulheres.

A assimetria social entre homens e mulheres é uma questão antiga, que tem dois grandes marcos históricos: os movimentos de igualdades civis para as mulheres, materializado na luta pelo direito ao voto das sufragistas da década de 1920; e a revolução sexual, que deu impulso ao feminismo e à liberação das

2 Funções de staff e funções de linha são termos que se referem à estrutura organizacional das empresas: as responsabilidades básicas pela administração institucional, incluindo decisões sobre a dinâmica e os destinos da organização constituem funções de linha; já as funções de suporte, assessoramento, consultoria à administração de linha constituem as funções de staff (cf. Chiavenato, 1998). De acordo com Gilles Lipovetsky, a participação das mulheres nos círculos decisórios continua muito restrita, como se um “teto de vidro” (glass ceiling) as bloqueasse vertical e horizontalmente a partir de um certo nível. “Acantonadas em carreiras funcionais, privadas de uma experiência ampla e variada que as ponha no centro vital da empresa, as mulheres chegam apenas excepcionalmente ao topo da hierarquia: o 'teto de vidro' é, antes de tudo, uma 'parede de vidro'” (Lipovetsky, 2000, p. 268).

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mulheres (Women's Lib) da década de 60 do século passado. Gilles Lipovetsky (2000) observa que os papéis identitários estabelecidos em nossa cultura ainda preservam o “índice de dessemelhança” entre os gêneros; apesar das

desigualdades serem cada vez menos visíveis, esta distância diferencial entre os dois sexos se mantém ou até mesmo se acentua. Por outro lado, observamos que a manutenção – e até mesmo, a obsessão – por uma representação formada

a partir da clivagem entre o masculino e o feminino pode projetar uma imagem de homens e mulheres como povos distintos, que inclusive não habitam o

mesmo planeta (homens são de Marte, mulheres são de Vênus

Assim,

verificamos que embora a assimetria e a desigualdade social entre homens e mulheres tenda a diminuir, persistem certos discursos e imagens que reforçam a cisão entre os dois universos subjetivos.

).

Indo além deste mito de mundos cindidos, quais seriam as possibilidades de desconstruir, criticar, subverter ou até eliminar as barreiras que historicamente nortearam a divisão sexual do trabalho? Que caminhos poderiam levar a uma situação em que a relação entre os sexos – que consideramos uma relação entre diferentes – seja compreendida e analisada a partir da heterogeneidade e não nos termos de uma oposição binária? Como são construídas as representações e imagens sobre as mulheres, quando elas cruzam as fronteiras de vidro dos espaços de cuidado e reprodução, para ingressar nos domínios da vida pública e das empresas, onde ainda são minoria? Essas perguntas fizeram disparar nossa reflexão e nortearam as pesquisas que desenvolvemos ao longo deste trabalho. São também a expressão de nosso desejo de contribuir para ampliar o debate sobre a luta das mulheres para conquistar seus espaços de realização profissional, considerando ainda que existem poucos estudos e publicações sobre

o tema das mulheres executivas.

Optamos por encaminhar a discussão sobre a assimetria entre homens e mulheres profissionais levando em conta que a construção da realidade social é um processo através do qual os indivíduos se adaptam e mudam a sociedade, mas sempre mantendo o foco nas relações (entre homens e mulheres) que

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produzem diferença, ou seja, que produzem identidades/subjetividades. Já desde Freud sabemos que o individual e o social são domínios da existência que não se separam. Freud nos ensinou que toda psicologia é sempre social e, simultaneamente individual, porque produzida a partir de uma dinâmica pulsional intrapsíquica sempre referida a um Outro. Entretanto, não podemos deixar de concordar que as explicações determinísticas atreladas às diferenças biológicas ou anatômicas entre os sexos não mais satisfazem, e encontramos nas teorias sociais pistas e indicações que nos mostram como a comunicação e as interações entre pessoas organizam, modelam e constituem o espaço social.

Nossa pesquisa foi metodologicamente referenciada na Teoria das Representações Sociais na perspectiva de Serge Moscovici, acrescida do aporte da Teoria da Identidade Social desenvolvida por Henry Tajfel, que tem o objetivo de introduzir elementos complementares ao debate como os conceitos de minorias, identidade social, grupo de pertencimento etc. Agregamos também as contribuições de outros autores oriundos dos campos da Psicologia Social, da Sociologia, da Filosofia e da Ciência Política. Assim, mantendo uma perspectiva interdisciplinar, fazemos dialogar ao longo do texto diferentes vozes e olhares sobre a problemática das mulheres no mundo do trabalho, das mulheres em posição executiva e de liderança, uma problematização que nasce, por sua vez, da confluência de temas e reflexões sobre questões como relações de gênero, as transformações do trabalho no mundo contemporâneo, as relações e as trocas intersubjetivas entre os pequenos grupos que compõem a vida social.

No Capítulo 2 fazemos uma exposição teórica da perspectiva das Representações Sociais desde a publicação na França do clássico estudo de Moscovici La psychanalyse, son image et son publique, incluindo a apresentação de estudos e pesquisas que abordam mais especificamente a temática da mulher e da mulher no trabalho, algumas delas alinhadas com a perspectiva teórica das Representações Sociais.

O terceiro capítulo abarca os dois estudos empíricos que dão sustentação à nosso trabalho de análise: um primeiro estudo exploratório feito a partir de

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matéria publicada em suplemento de jornal que trata de uma executiva de alto escalão de uma empresa multinacional do setor financeiro; e uma pesquisa realizada em duas empresas localizadas na cidade do Rio de Janeiro e também com estudantes universitários, com o objetivo de identificar e contrastar representações de estilos de gestão entre homens e mulheres. A literatura de referência, bem como a metodologia empregada e os resultados de cada um dos estudos são apresentados separadamente neste capítulo, mas a discussão dos resultados é feita em conjunto, no capítulo 4, junto com as conclusões.

Para facilitar a leitura, os questionários e outros documentos que compuseram nossos instrumentos de pesquisa, bem como as tabelas com os resultados e respectivos testes de significância encontram-se na seção de anexos, no final do trabalho.

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Capítulo 2 Referenciais Teóricos

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Por que Representações Sociais?

“A possibilidade da vida social não acontece, ela é feita acontecer”

Boaventura de Sousa Santos

A teoria das representações sociais ocupa-se da construção do conhecimento do senso comum que tem origem na vida cotidiana e no curso da comunicação entre as pessoas, um conhecimento que circula e é partilhado nos diferentes grupos sociais, desde sua gênese. Este processo vai além de uma manifestação de pensamento coletivo, na medida em que implica uma multiplicidade de posicionamentos de sujeitos singulares que não poderia ser reduzida a uma posição homogênea; além disto, ultrapassa o domínio do conhecimento individual. Como destaca Celso Sá (1993), a representação social é uma “compreensão alcançada por indivíduos que pensam, mas não sozinhos”.

Dentre as diversas estruturas sociais e eventos que dão origem às representações sociais e conferem suas características e especificidades, o denominador comum é o fato delas constituírem processos de comunicação em desenvolvimento nos grupos sociais, ao mesmo tempo que são o resultado destes mesmos processos. As RS possuem, portanto, um caráter dinâmico, plástico e não reificado, como enfatiza Moscovici (1988), ao diferenciar as representações sociais das leis que norteiam o conhecimento científico e ao contrastá-las com as representações coletivas. As diferenças entre o conceito de representações coletivas de Durkheim e o de representações sociais, tal como pensado por Moscovici, ora se apresentam de maneira sutil, ora de maneira evidente nos escritos deste último, mas poderíamos arriscar resumí-las no fato de que o coletivo sugere uma tendência à estabilidade, à homogeneização, à totalização, ao passo que o social nos remete à variabilidade e à plasticidade da vida social. Alguns autores observam inclusive que, no âmbito da Sociologia, o pensamento de Moscovici está muito mais próximo da microssociologia de

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Gabriel Tarde do que da abordagem panorâmica e totalizante da vida social de Durkheim.

Segundo Denise Jodelet (1984), por se tratar de uma forma de conhecimento construído e partilhado por sujeitos singulares, a representação social concorre para a construção de uma realidade que é comum aos conjuntos sociais em interação, além de tornar possível o posicionamento dos sujeitos diante de situações, eventos, objetos e comunicações a eles pertinentes. Porém, as representações sociais não são necessariamente consensuais no interior desses diversos grupos que as produzem. As representações sociais resultam do processo de construção de um código comum e estável ao qual os integrantes de um grupo buscam se adaptar, posicionando-se, mesmo que não haja acordo quanto a este posicionamento. Muitas vezes, a comparação e identificação envolve conflitos e polêmicas sobre situações políticas e eventos sociais e históricos, num movimento circular em que “a identidade social, a associação em grupos e as ações coletivas determinam e recriam umas às outras” (Wagner, 1998, p. 9). As RS constituem, como diz Jorge Vala (2000) um saber prático, um instrumento social que ajuda os grupos que estão sendo confrontados com suas próprias problemáticas a criarem programas e táticas de ação.

Assim, a transformação de conhecimentos e saberes que circulam entre indivíduos e grupos em representação social só pode ocorrer onde o discurso social inclui a comunicação, não apenas de pontos de vista compartilhados, mas também de posicionamentos divergentes sobre vários assuntos. Desta maneira, pensar as representações sociais como produtoras e produtos de um conhecimento socialmente compartilhado implica considerar, para além do posicionamento específico de um grupo em relação a determinados temas, uma pluralidade de visões, uma multiplicidade de processos e modos de funcionamento sociais. Neste sentido, podemos dizer que as representações sociais oferecem pistas sobre as formas singulares pelas quais diferentes grupos sociais se organizam e justificam sua própria prática.

No que diz respeito à questão particular da presença das mulheres no

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mundo contemporâneo do trabalho, a teoria das RS mostra-se também bastante adequada como ferramenta conceitual e como método de pesquisa, por favorecer a apreensão das mudanças e transformações que se operam no interior das interações e trocas comunicacionais entre homens e mulheres enquanto pertencentes a realidades psicológicas distintas, e por abarcar uma questão nuclear no espectro dos temas atuais da sociedade – a questão das relações entre os gêneros (Guareschi, Maya, Possamai, 2000). As RS possibilitam avaliar o quanto as imagens que são construídas a partir dos modelos normativos e dos padrões sócio-culturais de comportamento são também conseqüência da maneira pela qual os indivíduos “percebem” as situações e as estruturas sociais, deixando em aberto a possibilidade de se rearticular as mudanças percebidas, a modificação das imagens de referência, o surgimento de novas aspirações e expectativas como motores da transformação social. Como diz Denise Jodelet, “as representações formam sistema e dão lugar à 'teorias' espontâneas, versões da realidade encarnadas por imagens ou condensadas por palavras, umas e outras carregadas de significação” (apud Swain, 2001).

Para dar um exemplo, a socióloga e feminista Colette Guillaumin discorre em Sexe, Race et Pratique du pouvoir (1992) como a apropriação das mulheres pelos homens – apropriação dos seus corpos, do seu tempo, e enquanto força de trabalho – é um processo que revela uma faceta ideológico-discursiva: constrói- se uma imagem mental da mulher como objeto “naturalizado”, uma construção que acaba reduzindo a singular dimensão subjetiva do feminino ao estatuto de objeto material, um elemento da natureza, a partir da idéia de grupos “naturais” em que características como a cor da pele e o sexo – dados da natureza – operam como marcas constitutivas. Mas esta apropriação e naturalização dos corpos pode ser desconstruída e subvertida através da repetição de certos padrões comportamentais atribuídos a homens e mulheres: trata-se da noção de gênero como “performance” proposta por Judith Butler (1990, 1993) e que veremos mais detalhadamente, ainda neste capítulo.

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A Representação Social da Psicanálise – o modelo de Moscovici

“Pensar é muito mais uma prática de várias pessoas do que uma manifestação individual”

Hannah Arendt

A Teoria das Representações Sociais foi desenvolvida por Serge Moscovici a partir do conceito de representação coletiva, nascido, por sua vez, da elaboração teórica de Émile Durkheim a respeito de como se constrói o pensamento mítico. As representações sociais confeririam, segundo Moscovici (1994), uma nova racionalidade às crenças coletivas, ao “poder das idéias” de senso comum, ao tratá-los como sistemas coerentes de signos produzido no âmbito da vida em sociedade. Neste sentido, o interesse de Moscovici era não apenas de compreender como o conhecimento é produzido, mas sobretudo de analisar seu impacto nas práticas sociais e vice-versa (Oliveira, 2004).

Em 1961, ao publicar sua pesquisa sobre a apropriação da teoria psicanalítica pelo público leigo na França do pós-guerra (La psychanalyse, son image et son publique), Moscovici propunha duas questões: 1) como um saber científico é apropriado, transformado e utilizado por diferentes grupos; e 2) como se constrói um mundo significante (Vala, 2000). A teoria freudiana havia ultrapassado os limites da comunidade médica/acadêmica 3 , difundindo-se em outros âmbitos e dando origem a processos de construção de discursos partilhados socialmente, que identificavam, ao mesmo tempo, alguns grupos específicos: a classe média parisiense, grupos ligados ao Partido Comunista, membros da Igreja Católica. Além disso, as representações da psicanálise construídas por cada um dos grupos estudados estavam ancoradas ao estilo de

3 A psicanalista e historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco observa em Genealogias (1995): “A partir de 1965, a história da comunidade psicanalítica francesa não podia mais ser escrita em termos de gerações. O freudismo não só havia deixado de ser a cultura de uma elite para se tornar uma ideologia de grupo, como havia transbordado a cena parisiense para implantar-se na província”.

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comunicação bem característico de diferentes veículos da imprensa, como a revista feminina Elle, o jornal L'Humanité e o jornal cristão La Croix (op. cit., p. 476). Márcio de Oliveira (2004) observa que a discussão que se seguiu a esta articulação entre diferentes linguagens e representações de um mesmo objeto – no caso a psicanálise – causaram grande impacto, que ele sintetiza da seguinte maneira: “a) entre o que se acreditava cientificamente ser a psicanálise e o que a sociedade francesa entendia por ela, existia um intermediário de peso, as representações sociais; b) essas representações não eram as mesmas para todos os membros da sociedade, pois dependiam tanto do conhecimento de senso comum (ou popular), quanto do contexto sociocultural em que os indivíduos estavam inseridos”.

Essas representações não são vistas, nem no estudo principal de Moscovici tampouco no desenvolvimento posterior do próprio conceito de representação social, como simples reproduções fenomênicas do que é percebido pelos indivíduos, dos estímulos recebidos desde o exterior dos grupos sociais traduzidos em imagens e símbolos. Por adotar uma epistemologia construtivista, Moscovici não utiliza como ponto de partida um sujeito definido a priori e também não faz distinção entre sujeito e objeto. Nos termos em que coloca a representação social, ela não é entendida como reprodução, mas como construção: “É este o estatuto epistemológico e teórico que Moscovici atribuiu ao fenômeno, e no quadro do qual iria desenvolver o conceito de representação social” (Vala, 2000, p. 459). Assim, pretendemos destacar a importância dada por Moscovici a este aspecto de “mútuo engendramento” que se estabelece entre conceitos e percepções na construção de um objeto de representação, processo que se torna possível a partir da mediação da comunicação e da linguagem – o sujeito reconstrói o real com que se confronta e procede a uma remodelagem mental a partir deste confronto (Guimelli, 1994).

Sendo a representação sempre a representação de alguma coisa, bem como a expressão da relação do sujeito com um objeto e manifestação de uma subjetividade que se constitui, ela supõe a construção deste objeto – que não existe a priori, vale lembrar – e sua simbolização. A construção de um objeto de

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representação social se dá, de acordo com Moscovici, a partir de dois processos fundamentais: a objetivação e a ancoragem, seguindo um percurso que vai desde a descontextualização de crenças, conceitos e idéias que já se encontram em circulação no meio social, passando pela seleção destas idéias, pela sua reorganização em um novo esquema conceitual, até a produção de uma imagem que será naturalizada e compartilhada pelo grupo que originou o processo.

A objetivação diz respeito à forma como se organizam os elementos constituintes da representação e ao percurso através do qual tais elementos adquirem materialidade, tornando-se expressões de uma realidade pensada como natural (Vala, 2000, p. 465).

Objetivar significa, portanto, reabsorver significações presentes nas comunicações (Moscovici, 1978), ou “a simplificação dos elementos de informação relativos aos objetos – uma síntese de informações que é feita a partir da lógica interna dos grupos” (Guimelli, 1994). Além desta função, a objetivação é uma concretização das idéias que circulam na sociedade, sua transformação em discurso – o processo de fazer corresponder palavras às coisas, conferindo assim, uma dimensão simbólica à representação social.

Já o processo de ancoragem refere-se, segundo a análise de Jodelet (1984),

ao entrelaçamento social da representação e seu objeto, e, também, como evidenciado em recentes pesquisas, à integração cognitiva do objeto representado no contexto cultural onde se dá a representação, ou seja, a “sua inserção orgânica no pensamento constituído” (idem). A ancoragem aponta ainda para a combinação e o uso, na linguagem do dia-a-dia, dos significados presentes no discurso, ou, em outras palavras, a instrumentalização do saber. A construção da representação de um objeto novo para o sujeito se dá em referência às crenças, aos valores e aos saberes preexistentes que são dominantes para um determinado grupo. A ancoragem consiste assim em tornar familiar aquilo que é novo.

O estudo das representações sociais vem sendo desenvolvido desde o

modelo proposto por Moscovici ao longo dos seguintes eixos conceituais e

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metodológicos:

atitudinal – posicionamentos afetivos/emocionais e avaliações de temas e informações;

cognitivo – construção de informações presentes no discurso, suas combinações e distribuição entre os grupos;

estrutural – definição da organização interna do campo representacional.

Eixo atitudinal

A partir do momento em que implicam uma tomada de posição dos indivíduos de um grupo, as representações sociais apontam também para disposições afetivas/emocionais – as avaliações e comparações que os indivíduos estabelecem com outras pessoas, fatos e fenômenos, destacando o papel ativo dos atores sociais na sua produção e resgatando a idéia presente em estudos da Psicologia Social de que a interação entre indivíduos produz formas de pensamento e ação diferentes daquelas que seriam obtidas se fossem produzidas por indivíduos isoladamente (Vala, 2000).

Eixo cognitivo

Moscovici sempre insistiu na ligação profunda entre cognição e comunicação, entre operações mentais e lingüísticas, entre informações e significação. Da mesma forma que a tematização – orientação lexical do enunciado em direção a um tema que confere sentido a este enunciado – tem sido uma preocupação da lingüística, os elementos organizadores do discurso, a transformação das idéias e conceitos em pensamento socialmente partilhado constitui o eixo central do desenvolvimento das representações enquanto construtoras de significado no interior dos grupos sociais. Esta linha de investigação possibilitou o desdobramento teórico-epistemológico do conceito de representações sociais no conceito de themata, que se refere ao conjunto de temas gerais ou esquemas explicativos que funcionam como meta-organizadores

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para as idéias e imagens que são permanentemente produzidas pelos diversos grupos sociais. “Os temas, ou a análise temática, exprimem uma regularidade estilística, uma repetição seletiva de conteúdos que são criados e preservados por um grupo social” (Moscovici e Vignaux, 1994). Jodelet (1984), citando um estudo de René Kaës sobre grupos, diz que as representações sociais dos grupos (reais, corporativos ou de diagnóstico) estruturam-se ao redor de organizadores sócio-culturais, organizadores que estão, por sua vez, referenciados em modelos “universais” de grupalidade – o modelo cristão com o grupo dos doze apóstolos, o modelo celta com os cavaleiros da Távola Redonda, e assim por diante. Os organizadores temáticos funcionariam desta maneira como uma espécie de “framework” cognitivo que marca e confere significados especiais às coisas e aos acontecimentos que ficam armazenados numa espécie de memória coletiva. “O ato de conhecer existe e é reconhecido no seu desdobramento comunicacional, na sua 'materialização'” (Moscovici, 1988).

Eixo estrutural

Este eixo diz respeito ao próprio terreno da representação, ou seja, o modo pelo qual os indivíduos hierarquizam e coordenam significados e atitudes a partir de um repertório simbólico a respeito do objeto de representação (Souza Filho, 1993). Moscovici e seus seguidores propuseram-se a pesquisar a estrutura das representações sociais a partir da organização interna de seus elementos constitutivos e da identificação, dentro do repertório simbólico de que se utilizam os sujeitos, de sistemas de significados distintos e com funções específicas, denominados núcleo central e sistema periférico. Segundo Jean-Claude Abric (1998), a maneira coextensiva e integrada em que estes sistemas de significados se combinam e operam caracteriza a representação social como uma entidade que é regida por um duplo sistema (op. cit., p. 33). O sistema central constitui o núcleo duro da representação, aquilo que é mais estável e consensual, e que garante a sua permanência no grupo, a despeito de possíveis divergências entre seus integrantes: um “núcleo central coletivamente partilhado”. Mudando o núcleo central, muda a representação (Vala, 2000).

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Por outro lado, o sistema periférico de uma representação engloba as experiências individuais, as particularidades dos grupos e as especificidades dos diferentes contextos onde elas se constituem, conferindo maior dinamismo e heterogeneidade ao pensamento social. São a expressão de opiniões singulares e, muitas vezes, divergentes, e exercem uma função adaptativa e de proteção ao núcleo central na medida em que garantem a dose de dissenso necessária para que a representação mantenha sua dimensão social. Segundo Vala (2000), quando se registra uma contradição entre representações e práticas sociais, deve-se levar em conta que aquilo que é rígido, homogêneo e permanente numa representação – ou seja, o núcleo central – contrasta com o que é flexível, heterogêneo e mutante – o sistema periférico. Pierre Bourdieu (1999) nos dá um exemplo deste contraste quando argumenta que as relações hegemônicas e de dominação do masculino em nossa sociedade estão ancoradas em representações primitivas e inconscientes, que sobrevivem e ainda hoje se reproduzem a partir de mecanismos normativos e de controle de instituições como a Família, a Igreja, a Escola ou o Estado, bloqueando e dificultando as expectativas de transformação e mudança.

A teoria da identidade social

“A primeira definição de uma criança, dada antes mesmo que o feto complete sua evolução, graças aos métodos atuais de investigação ultrassonográfica, é que seja ‘menino’ ou ‘menina’. Significantes que indicam não apenas uma diferença anatômica, mas a pertinência a um de dois grupos identitários carregados de significação. Assim que, entre outras coisas, foi tatuado em cada um de nós que somos ‘homem’ ou ‘mulher’ sem que nossa passagem pelo mundo seja acompanhada de nenhum manual de instruções que dê conta do ajuste entre este ‘ser homem’ ou ‘ser mulher’”.

Maria Rita Kehl

Além de uma dimensão operacional, as representações sociais podem também ser analisadas a partir de sua dimensão social. Processos de diferenciação, categorização, identificação e comparação – que estão envolvidos na constituição e na dinâmica dos diferentes grupos sociais que se formam na

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vida cotidiana – estão atrelados à maneira pela qual estes grupos se pensam e dão forma a este pensamento, como atribuem sentido aos acontecimentos do real (Vala, 2000). Como diz Abric (1998), podemos identificar na função de identificação uma destas facetas ou funcionalidades sociais das RS: elas fazem parte do processo de construção de uma identidade grupal e permitem a proteção das singularidades e especificidades de cada grupo (op. cit., p. 29).

Partindo do princípio que os grupos se auto-definem a partir do pertencimento a uma dada categoria social, e sendo este processo marcado pela interdependência, pelas assimetrias sociais e pelas relações de poder que se estabelecem no interior e fora dos grupos, faremos uma articulação entre a Teoria das Representações Sociais de Moscovici e a Teoria da Identidade Social formulada por Henry Tajfel, provavelmente um dos mais influentes psicólogos sociais na Inglaterra do pós-guerra. Da maneira como foi desenvolvida por Tajfel, a Teoria da Identidade Social caracteriza-se como um conjunto difuso e interrelacionado de diferentes teorias que se voltam para o conhecimento de quando e porquê os indivíduos se identificam aos grupos e se comportam como pertencendo a um determinado grupo social, adotando atitudes que são compartilhadas entre os integrantes deste grupo com relação a quem é de fora. Estas teorias têm também o objetivo de saber se faz diferença quando os encontros e as relações entre indivíduos são percebidas como encontros e relações entre membros de um grupo. Desta maneira, a Teoria da Identidade Social tem a ver com aspectos psicológicos e sociológicos do comportamento dos grupos, situando-se justamente em um campo de interseção entre a Psicologia e a Sociologia, ao mesmo tempo em que coloca em xeque as interpretações individualísticas do comportamento grupal, como as de Gordon Allport, por exemplo.

Tal como no caso das Representações Sociais, o processo de constituição de uma identidade social envolve três momentos ou sub-processos básicos: a categorização, a identificação e a comparação. A categorização diz respeito a uma tendência que todos possuímos de atribuir aos outros e a nós mesmos categorias que funcionam como “etiquetas” de identificação: negros, mulheres,

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latino-americanos, judeus, e assim por diante. A identificação é o processo de associação com certos grupos (nossos ingroups, para usar a denominação de Tajfel), que reforçam nossa auto-estima. E, finalmente, ao fazermos comparações com os outros grupos sociais, tendemos a manter uma perspectiva favorável ao grupo ao qual pertencemos.

Em seu estudo sobre a psicologia das minorias (1978), Tajfel definiu as condições psicológicas que fazem com que membros de um grupo se percebam como minoria, destacando o papel da comparação neste processo:

A consciência de pertença a uma minoria só se desenvolve quando o fato de nos incluírem e/ou de nos incluirmos numa determinada entidade social dá lugar, ao mesmo tempo, à percepção de determinadas conseqüências sociais, incluindo um tratamento discriminatório da parte dos outros e suas atitudes negativas, baseadas em certos critérios comuns de pertença (p. 355).

De acordo com esta análise, os indivíduos pertencentes a um grupo minoritário teriam, pelo fato dessa discriminação ter sido feita com base em princípios externos ao grupo, menos independência individual. O movimento dos indivíduos pertencentes a um grupo social considerado minoritário no sentido de sua diferenciação em nível individual estaria assim na razão direta da percepção de que esta definição foi imposta de dentro para fora, nos termos do grupo majoritário. Por outro lado, os indivíduos identificados com um grupo minoritário têm como alternativa a possibilidade de lutar pela afirmação e valorização das características que os particularizam enquanto minoria, buscando a aceitação por parte do grupo hegemônico exatamente por estas características distintivas, ou abandonar o grupo, buscando reconhecimento como indivíduo 4 .

4 Esta hipótese é trabalhada pelo economista Albert Hirschman em seu livro Exit, Voice and Loyalty (Saída, Voz e Lealdade, 1973), A via exit, a saída, a defecção, é vista pelo autor como um movimento de transformação e constituição de uma nova ordem política, econômica e social. Existem, segundo Hirschman, momentos em que a saída (exit) se conjuga ao protesto (voice) e produz transformação social: nos Estados Unidos, por exemplo, o exit coletivo e a vida errante de grupos socialmente minoritários como os judeus e os negros ganhou força nas décadas de 1960 e 70 com a doutrina black power, favorecendo um duplo movimento de saída e voz “em que se conjugaram o sentimento de desprezo pela penetração individual de uns poucos negros selecionados na sociedade a um grande estímulo

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Para alguns autores as dinâmicas entre minorias e maiorias se estabelecem

em domínios da experiência social que ultrapassam a dimensão grupal ou, nos termos de Guillaumin (1972), em uma dimensão de universalismo supragrupal.

O pertecimento à maioria supõe, de acordo com esta concepção, a possibilidade

de negar a pertença a um grupo minoritário, assimilando valores que são atribuídos à maioria e rejeitando a identificação à minoria, percebida como condição de desvantagem social. Na avaliação de Guillaumin, os membros de um

grupo minoritário não tiveram liberdade para se auto-definir segundo parâmetros próprios e, conseqüentemente, têm poucas condições de conceder esta liberdade

a si próprios. No caso das minorias raciais – que constituem minorias não por

questões numéricas ou qualitativas, devemos lembrar – Guillaumin acredita na existência de uma predisposição inconsciente para a hostilidade entre grupos de

diferentes, que ultrapassa a questão biológica. Os atributos que caracterizam os grupos “racisados” 5 são biológicos ou anatômicos, mas o que define estes grupos como minoritários e a idéia de ser menos, de se perceber em desvantagem, de se sentir em “minoridade”. Esta é uma definição subjetiva, abstrata, e leva Guillaumin a concluir que “a raça não aparece como realidade biológica, mas, sobretudo, como uma forma biológica utilizada como SIGNO” (Guillaumin, 1972).

O caso da condição de minoria das mulheres é citado nos estudos de Guillaumin

como exemplo concreto deste esquema de identificação/diferenciação: as diferenças anatômicas, somáticas e de potencial genético dos dois sexos são transformadas em instrumentos simbólicos de discriminação.

Jennifer Williams (1984) concorda com a hipótese de Tajfel de que a identidade social deriva da afiliação dos indivíduos a grupos sociais e é construída, num contexto de relação entre grupos, a partir da comparação do próprio grupo com grupos exteriores. Após levantar a questão de como os indivíduos lidam com o fato de pertencerem, forçosamente, a uma de duas categorias sexuais, cuja superioridade e inferioridade social já se encontram institucionalizadas, Williams ressalta o aspecto psicodinâmico do processo de comparação proposto por Tajfel, afirmando que “as identidades sociais são

coletivo dos negros enquanto grupo e melhoria do gueto negro” (op. cit., p. 110).

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definidas não apenas no confronto com outros grupos, mas no relacionamento com eles” (Williams, op. cit.). Para Williams, que se preocupou em relacionar as características de gênero aos relacionamentos inter-grupos (homens x mulheres) o foco deve estar nas associações e relacionamentos que ocorrem no processo de definição das identidades nos grupos. Quando se compara o comportamento dos dois sexos, constata-se que o grupo irá valorizar determinados aspectos identitários (como, por exemplo, a “comunalidade” nas mulheres ou a “instrumentalidade” nos homens) em função das atividades e dos relacionamentos preponderantes que têm lugar internamente. Eventualmente, a necessidade de alcançar um desempenho positivamente valorizado motiva a ação comunal, coletiva, que costuma ser associada à feminilidade. Por outro lado, esta mesma sensibilidade pode representar uma opção menos atrativa nas situações em que é vista como característica particularizante do gênero feminino, considerado inferior em relação ao masculino; neste caso, a associação entre sensibilidade e feminilidade acaba por perpetuar o estatuto de “inferioridade” das mulheres.

Williams conclui que a comparação entre os gêneros vai além de representar apenas mais uma forma de relacionamento social; este contraste desempenha um papel primordial na constituição da identidade social, numa perspectiva que ressalta o caráter dinâmico e relacional desta comparação.

Moscovici também se dedicou a estudar, em suas pesquisas sobre a psicologia dos grupos, os processos em que os grupos considerados minoritários conseguem influenciar e desconstruir o suposto poder das maiorias. Com efeito, observa, se as maiorias fossem assim tão poderosas, acabaríamos todos pensando da mesma maneira. Mais ainda, sua premissa tem sido a de que a ênfase na influência das maiorias pode levar a algumas conclusões e inferências que desconsideram o caráter essencialmente dinâmico e plástico da vida social. Moscovici sempre ressaltou que quase todos os movimentos sociais são iniciados pelos indivíduos e por pequenos grupos, e que sem a potência das minorias não haveria inovação ou mudança no cenário social. Suas conclusões apontam que as minorias, por ele denominadas minorias ativas, de fato exercem um efeito na

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opinião da maioria 6 .

Podemos concluir que a teoria da identidade social acaba estabelecendo uma relação de complementaridade com a teoria das representações sociais ao permitir transpor para o plano das práticas sociais cotidianas imagens e discursos que são produzidos pelos grupos em interação social. Entendemos que a análise do processo de construção de uma identidade e, a partir dela, da inserção dos sujeitos em uma categoria que pode ser percebida como vantajosa ou desvantajosa (comparação), e as escolhas daí advindas, pode ser muito útil para a compreensão das estratégias que homens e mulheres adotam ao longo de sua vida profissional. Estas estratégias vão se fazer presentes novamente no caso daquelas mulheres que têm de conjugar suas responsabilidades profissionais com as responsabilidades de cuidar de suas casas e famílias – situações em que os espaços de produção e reprodução tendem a convergir.

Representações sociais da mulher – da identidade à performance

“A noção de sexo acarretou uma inversão fundamental:

tornou possível inverter a representação das relações entre poder e sexualidade, fazendo esta última aparecer não em sua relação essencial e positiva com o poder, mas como enraizada numa urgência específica e irredutível que o poder faz todo o possível para dominar”

Michel Foucault

Desde que Freud (1974) – um dos primeiros pensadores a questionar se a psicologia teria parâmetros conclusivos sobre o que é específico do masculino e do feminino, a partir de dados anatômicos e biológicos – descartou a tese de que as distinções psicológicas e éticas entre homens e mulheres seriam decorrências naturais da anatomia e do trabalho mental que ela implica para cada um dos

6 Os estudos de Moscovici sobre a influência das minorias ativas serão retomados no capítulo 3, na apresentação do nosso estudo sobre representações sociais dos estilos de gestão.

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sexos diferentemente (“anatomia é destino”), ficou em aberto para pensadores de outras áreas a tarefa de utilizar o referencial psicanalítico, ressaltada a influência do contexto social na análise das diferenças entre os gêneros e das condições históricas do predomínio patriarcal na constituição do sujeito feminino. Ao rever do conceito de feminilidade calcado na anatomia, negando que a mulher fosse simplesmente “un homme manqué”, um ser castrado, e introduzindo a questão “se se nasce ou se se faz mulher”, Freud finalmente admitiu o impacto de forças intervenientes na formação da mente, aceitando a idéia de um superego muito rigoroso, e até mesmo perseguidor, não só nos homens, como também nas mulheres. “Cultura também é destino” (Peter Gay, 1990, p. 470).

Hoje já superamos a idéia de que as identidades sejam determinadas por um destino biológico (conjunto de disposições intrapsíquicas e culturais), assim como a de que as diferenças entre os sexos são produzidas a partir de uma oposição binária entre uma cultura masculina (objetiva) e feminina (subjetiva), posição sustentada por alguns sociólogos e antropólogos como Georg Simmel, Pierre Bourdieu e Lévi-Strauss, por exemplo (Puppin, 2001). As divisão em identidade feminina e identidade masculina e as respectivas “sexualidades” acabam constituindo um lugar de domesticação e de controle social; como diz Tania Swain (2001), esta divisão foi aos poucos constituindo um verdadeiro “locus de fixação do afeto e da emoção, um caldo de cultura de todas as significações, a chave de uma ordem que se supõe divina, racional, biológica”. As teorias contemporâneas que se ocupam das relações e diferenciações entre homens e mulheres preferem hoje encaminhar o debate para a noção de gênero, uma construção social, uma construção que está, por sua vez, assentada em uma base material – o corpo.

A noção de gênero permite empreender uma elaboração cultural sobre o sexo em sua dimensão relacional, vendo os gêneros em suas singularidades, 'des'homogenizando-os para além do biológico. A categoria gênero – uma categoria extremamente útil de análise histórica como diz Joan Scott (1995) – serve-nos sobretudo para ajudar a repensar os processos de dominação e subalternização em termos de um interjogo entre poderes e contra-poderes, em

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que se delineia a indissociabilidade entre as esferas pública e privada, entre a produção e a reprodução da vida. A perspectiva do gênero permite ainda deslocar a discussão para o campo da produção de subjetividade: não precisamos necessariamente pensar em termos de uma identidade feminina em oposição a uma identidade masculina, mas sim em múltiplas e heterogêneas possibilidades de constituir as “facetas” com que homens e mulheres se distinguem e se singularizam 7 .

De toda maneira, podemos perceber que existem vozes dissonantes nos discursos tecidos a respeito da ascenção das mulheres a um lugar de igualdade social com relação aos homens, um lugar em que seriam garantidos o direito de trabalhar e construir uma carreira profissional sem imposições ou submissões. Percebemos dissonância também entre as práticas e as ações que sustentam tais discursos.

Em estudos realizados por Henry Chombart de Lauwe na década de 1960 em algumas capitais da Europa do pós-guerra, ficou evidenciado que, apesar das evoluções e das mudanças de comportamento nas relações sociais entre homens e mulheres, as imagens das mulheres que trabalhavam fora de casa eram ainda em grande medida determinadas por uma sociedade que se reconstruía depois da segunda grande guerra e pelas necessidades econômicas das famílias que necessitavam complementar a renda familiar e, por esta razão, aceitavam que as esposas e filhas fossem buscar na atividade profissional um reforço para o orçamento (Chombart de Lauwe, 1962). Na pesquisa, De Lauwe procurou

7 Aqui fazemos referência aos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari, especialmente na crítica que fazem da idéia do sujeito portador de uma identidade fixa e binária. Estes autores partem do princípio de que o indivíduo não é primeiro na ordem do sentido, ele é engendrado em um processo de individuação que supõe a convergência de um certo número de singularidades (singularidades sempre múltiplas), determinando uma condição de fechamento sob a qual se define uma identidade. Assim, poderíamos supor a existência de não apenas uma, mas muitas identidades, que emergem nas relações entre indivíduos. Deleuze e Guattari afirmam que tanto homens quanto mulheres são seres bissexuados que estabelecem comunicações transversais, conexões que fazem emergir “n” posições identitárias possíveis, ou “n” sexos (Ver dos dois autores, para mais detalhes, o capítulo “Psicanálise e Familiarismo: A Sagrada Família” de O Anti- Édipo [1972] e o vol. 1 de Mil Platôs, [2004]).

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classificar e organizar as respostas obtidas em categorias como sexo; características sócio-econômicas (classe operária, classe média); de habitat (residência em bairros antigos ou em bairros novos); idade; condições de origem (se os sujeitos pertenciam a famílias oriundas do mesmo meio sócio-cultural); aceitação da profissionalização das mulheres; escolha de profissões ou ocupações ideais para mulheres; e a percepção das evoluções e conquistas verificadas a partir da emancipação e autonomia provenientes deste novo comportamento social.

A premissa básica da pesquisa era de que

os traços culturais próprios a um grupo particular ou a um determinado meio social podem se revestir de uma importância tão grande quanto os traços culturais que

caracterizam uma sociedade. [

imagem de mulher francesa e cada vez mais imagens

diferentes segundo os meios (op. cit., p. 25).

Existe cada vez menos uma

]

As mudanças verificadas no início da década de 60 pela pesquisa de Chombart de Lauwe no relacionamento entre homens e mulheres estavam vinculadas aos movimentos reivindicatórios da transformação do estatuto social da mulher e da evolução dos papéis de homens e mulheres em suas interações, especialmente na família, advindas da revolução sexual e do crescimento do movimento feminista. Ao mesmo tempo, as possibilidades de obter ganhos a partir da maior autonomia e independência econômica das mulheres casadas com relação a seus maridos eram vistas algumas vezes com certa “desconfiança” e temor pelas conseqüências que tais ganhos poderiam trazer à estabilidade das relações familiares e conjugais (ibidem, p. 42).

E o que podemos dizer da situação da mulher hoje, 40 anos depois? Se

pensarmos na dimensão política, de participação e cidadania, evidentemente constatamos transformações e ganhos, inclusive com a emergência de dispositivos sociais que garantem maior representatividade e participação da mulher na vida pública, que tentam desmontar a lógica instrumental e

meritocrática baseada em diferenças biológicas: sexo e cor da pele (como é o

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caso das políticas de ação afirmativa, por exemplo). Como esta elaboração implica necessariamente relações de poder, a conclusão a que podemos chegar é de que as mudanças nas relações sociais correspondem também a mudanças nas representações de poder, embora estes elementos não operem isoladamente (Eleonora de Oliveira, 1999).

Como enfatizou o movimento feminista, as desigualdades e o modelo de subordinação feminino/masculino foram produzidas a partir de uma psicologia essencialmente masculina, em que são enfatizadas características como autonomia e independência em detrimento das dimensões relacionais e de cuidado, uma imagem da mulher ancorada em aspectos particularizantes da sua condição minoritária – como por exemplo a reprodução e a maternidade. Esta condição minoritária fica ainda mais evidente pelo fato de que tais imagens são construídas e moldadas em um cenário em que a maioria das mulheres não têm voz (Olson, 1995). Assim, as mulheres foram sendo embarreiradas nos espaços profissionais e no cenário político, embora numericamente tenham aumentado sua participação nestes espaços.

A configuração minoritário/majoritário, coincidindo com a diferença mulheres/homens, leva estes últimos a exagerarem suas diferenças em relação às mulheres e a encerrá-las em certos papéis, a etiquetá-las e considerá-las mais como símbolos do sexo feminino do que como pessoas individuais. (Lipovetsky, 2000, p. 269).

Portanto, a tendência até então vinha sendo a de sobrevalorizar aspectos identitários relacionados à posição de minoria das mulheres, onde elas são vistas como grupo e não como indivíduos. Apesar disto, Lipovetsky aponta um novo discurso, surgido recentemente, que celebra um estilo feminino de direção, um modelo de gestão no feminino, em que justamente aqueles clichês diferenciais que justificaram o isolamento das mulheres no mundo dos negócios agora se recompõem adquirindo legitimidade social. A cultura pós-moderna traz como novidade representações de gênero mais maleáveis, que o autor denomina “representações fracas”, as quais conferem menos aderência aos clichês de sexo, mais peso à individualidade e à personalidade dos sujeitos (op. cit., p. 274).

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Os estudos realizados por Kray, Galisnky e Thompson (2001) num ambiente acadêmico altamente competitivo procuram demonstrar, neste sentido, o quanto a confirmação da existência de imagens estereotipadas pode afetar a reação e o sucesso de homens e mulheres quando em negociação. Os pesquisadores confirmaram a existência de uma correlação entre o sucesso do desempenho com a presença mais ou menos explícita de imagens estereotipadas dos dois sexos, isto porque o bom desempenho e a eficácia de uma negociação são atributos caracteristicamente masculinos (assertividade, objetividade, capacidade de tomar decisões, dentre outras) e, contrastando, os traços associados ao mau negociador são vistos como femininos (fraqueza, emotividade, pouca objetividade, busca de conciliação e compromisso etc.). Ao mesmo tempo, detectaram reações diferentes por parte dos homens e das mulheres quando confrontados com estas imagens estereotipadas – as mulheres tenderam a se mostrar mais ameaçadas pelos estereótipos. Esses resultados confirmariam a dimensão instrumental que uma dada representação pode ter no sentido de garantir a manutenção de uma relação de subordinação (como é o caso da ancoragem descrita por Moscovici).

Por outro lado, se não podemos ignorar os avanços e transformações que permitiram o desenvolvimento de atitudes menos tradicionais e mais igualitárias com relação às questões de gênero, precisamos identificar quais os fatores na vida social que contribuíram para esta mudança, e se estas mudanças estão sendo percebidas como tal. Myers e Booth (2001) acreditam que a virada para uma ideologia menos tradicional se dá no ritmo e no compasso de mudanças intergeracionais, com o surgimento, a cada geração, de indivíduos que se colocam em posição de vanguarda, de pioneirismo em relação aos outros membros da família. No caso específico da nova atitude com relação as mulheres, foi identificada como uma das fontes de mudança a existência na família de origem de um modelo de divisão de responsabilidades e tarefas domésticas mais igualitária pelo casal parental, e a interpretação das experiências vividas na idade adulta coerente com este modelo parental, embora este não seja o único fator a contribuir para a nova atitude. Muitas outras

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explicações poderiam ser sugeridas com relação às mudanças atitudinais e comportamentais em questão, incluindo crenças religiosas, convicções políticas, questões raciais, atitudes com relação às desigualdades sociais, padrões de fertilidade, casamento, divórcio e mobilidade social. Assim, podemos perceber um marco que distingue a nossa geração da geração pós-guerra, quando o trabalho das mulheres era visto como um mal necessário, mas nunca como um ganho, nem para elas individualmente, nem para suas famílias.

Por fim, gostaríamos de mencionar que muitas das recentes contribuições das teóricas do feminismo ressaltam o “efeito discursivo” da categoria gênero, idéias que têm feito avançar significativamente as discussões sobre gênero e as relações entre sexos e que se deslocam para um perspectiva bastante próxima à de Michel Foucault a respeito da sexualidade e das tecnologias de si. Dentre estas contribuições teóricas certamente incluem-se as de Judith Butler, uma importante pensadora e filósofa pós-estruturalista norte-americana que tem se destacado nos estudos sobre gênero e sobre a construção de identidade, cujo trabalho se inspira e recebe influências de Michel Foucault, da psicanálise e dos

estudos de feministas pós-estruturalistas como Teresa de Lauretis, Luce Irigaray, Monique Wittig, bem como do desconstrucionismo de Jacques Derrida. Para Butler (1999), ao acolhermos a premissa de que os atributos arbitrariamente conferidos ao masculino e ao feminino – que são, por isso mesmo, “fabricados” –

compreendemos melhor que “a diferença sexual [

não é nunca simplesmente

uma função de diferenças materiais que não sejam, de alguma forma, simultaneamente marcadas e formadas por práticas discursivas” (p. 153).

]

Os trabalhos de Butler inscrevem-se no âmbito da Teoria e do Movimento Queer (em um primeiro momento, queer, que quer dizer bizarro, estranho, foi o nome dado aos homossexuais. Em seguida, passou a designar um novo fenômeno que nomeia o bissexualismo em sua ambivalência transruptiva). De acordo com esta teoria, o gênero é performativo, ou seja, é sempre um fazer, que não é uma ação de um sujeito que preexiste a este feito. Trata-se de um fazer constitutivo, de repetição da lei e dos diagramas do poder para, justamente, deslocar este poder. Esta performance dos gêneros é desenvolvida

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em termos de repetição e redistribuição das possibilidades deixadas em aberto pelas normas hegemônicas – como a heterossexualidade e o falocentrismo – através da operação subversiva das “identificações” que são inevitáveis no campo do poder.

A performance é uma repetida estilização do corpo, um conjunto de ações reiteradas que produzem um efeito de corporificação dessas mesmas normas, formando a figura de um corpo que não é um corpo em particular, mas um ideal morfológico que permanece como padrão regulador da performance (Butler, 1990, p. 16-34). As normas regulatórias que se aplicam aos sexos operam de uma forma performativa, o que sugere a idéia de uma transformação e de um devir. Também no caso do gênero não se trata de uma performance que alguém elege para realizar; o gênero é performativo à medida que constitui como sujeito este alguém que vai se expressar através dele (idem). A performance, neste sentido, funciona como uma interpelação ao revés, que abre um espaço para desconstruir e rearticular os termos da primeira interpelação do poder (Butler, 1993, p. 132).

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Capítulo 3 Estudos de Campo

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Estudo 1 – “Socialite Linha Dura”

“É o gênero que cria o sexo, e não o contrário” Tânia Navarro Swain

Apresentação

O sexo ou gênero como “efeito discursivo” significam, nas palavras de Teresa de Lauretis, que a “construção do gênero é tanto o produto quanto o processo de sua representação” (de Lauretis, 1994). A partir desta constatação, levantamos a hipótese de que o processo de diferenciação entre homens e mulheres podem ser revelados pelos conteúdos de representação que se produzem e fazem circular socialmente sobre o tema das mulheres que assumem cargos executivos nas empresas, a nosso ver um tema ainda minoritário nos estudos e publicações sobre gênero no Brasil.

Nosso ponto de partida no estudo exploratório que passaremos a descrever a seguir foi uma reportagem publicada em 10/09/2000 pela Revista Domingo, suplemento do Jornal do Brasil. A reportagem, intitulada “Socialite Linha Dura”, descreve o cotidiano de uma executiva que ocupa posição de destaque em organização multinacional do setor financeiro (área de investimentos) como uma profissional que adota em suas interações com subordinados e pares um estilo de comportamento rígido, tomando decisões que podem ser consideradas polêmicas. A matéria suscitou uma série de cartas de leitores, publicadas nas três semanas subseqüentes (17/9, 24/9 e 1/10), manifestando opiniões quanto ao que se descreveu da executiva em questão 8 .

8 Por uma questão ética, omitimos os nomes das pessoas e das instituições que foram citados, tanto na reportagem em questão, quanto nas cartas dos leitores e respostas dos demais participantes do estudo. A transcrição da reportagem bem como das opiniões dos leitores na íntegra encontram-se na seção de anexos.

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Método

Em seu estudo sobre a representação social da psicanálise, Moscovici (1976) utilizou o método de análise de conteúdo, elaborada em três etapas principais: 1) levantamento dos temas; 2) identificação da atitude do grupo em relação aos temas apresentados; 3) organização dos temas nos grupos. O tema aqui se refere a noções do senso comum que circulam e são partilhadas por determinados grupos (Schutz, citado por Moscovici, 1994) e também se aproxima à análise dos lingüistas da estrutura subjacente a cada discurso que orienta campos semânticos, controla e liga palavras (sentidos) a funções gramaticais (Chomsky, idem). “O tamanho de uma unidade de significado é variável, podendo constituir-se de uma frase, palavra, ou parágrafo, enfim, um conjunto de proposições que expressem um determinado tema” (Veronese e Felippe, 2000 p. 304).

Aproveitamos a idéia de utilizar como material de pesquisa as opiniões que circulam na imprensa, procedendo à análise qualitativa de material reunido a partir das Cartas de Leitores do jornal carioca, ao qual agregamos um conjunto de opiniões sobre a reportagem manifestadas por escrito por um grupo de pessoas que não a haviam lido anteriormente.

Participantes – do total das cartas de leitores publicadas nas três semanas que se seguiram à publicação da reportagem na Revista Domingo do Jornal do Brasil, foram selecionadas 18: 9 cartas de homens e 9 de mulheres. O critério de seleção foi a apresentação de informações mínimas que permitissem identificar o sexo dos autores das cartas. Em seguida, a reportagem foi apresentada a 6 homens e 6 mulheres que faziam parte de uma equipe de trabalho em educação a distância em atuação na Universidade Federal do Rio de Janeiro, campus da Praia Vermelha. Este grupo apresentava a característica de ser bastante homogêneo em termos de posição social (classe média, nível de instrução superior). Pedimos a estas pessoas que lessem e expressassem por escrito sua opinião acerca da reportagem “Socialite Linha Dura”, e nos entregassem suas respostas, que passaram então a compor, junto com as cartas dos leitores, o

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material de estudo.

Procedimentos de análise – a Análise de Conteúdo é uma técnica de investigação sistemática dos conteúdos manifestos na comunicação entre pessoas, em que o próprio conteúdo constitui o objeto de análise, a partir da qual podem-se fazer inferências de conteúdos psicológicos/psicossociais, nem sempre conscientes, dos sujeitos. Ao analisar a ação comunicativa, o que uma pessoa diz, o pesquisador procura relacionar o que é dito não a um autor individualmente, mas ao processo comunicativo em si mesmo, e aos meios da comunicação. Pesquisadores norteamericanos como Berelson, por exemplo, defendem que para se proceder a uma análise de conteúdo é preciso identificar seu propósito teórico e prático, e definir o objeto da análise, ou seja, aquilo que se pretende caracterizar (Galtung, 1978). Existem, entretanto, diferentes linhas de sistematização da análise: as que procuram relacionar os conteúdos objeto da análise a um corpo teórico já existente (como é o caso das pesquisas de referencial psicanalítico) e as que fazem uma leitura post hoc do processo comunicacional, deixando que os próprios sujeitos indiquem as pistas, caracterizando-se, desta maneira, como análises abertas e exploratórias. O método apresentado por Laurence Bardin (1991) pode ser considerado um método misto, na medida em que existe sim uma leitura prévia do pesquisador que vai nortear a posterior interpretação dos textos e a construção e organização do conteúdo em torno de categorias temáticas ou, de acordo com a definição da própria autora, uma leitura “flutuante”.

No caso do nosso estudo, classificamos o material reunido em função do sexo dos autores e das condições de produção (manifestações espontâneas publicadas na Revista Domingo, ou respostas que foram solicitadas ao grupo da UFRJ), acreditando que constituem variáveis intervenientes nas imagens e representações contidas nos discursos dos respondentes. A leitura do material disparou a percepção de algumas categorias temáticas distintas, a partir das quais pudemos organizar as diferentes respostas obtidas. As categorias e sub- categorias temáticas serão descritas a seguir e, para cada uma serão fornecidos dois ou mais exemplos (as respostas, na íntegra, bem como as tabelas e testes

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encontram-se no Anexo II).

A análise do material evidenciou as seguintes categorias temáticas:

Sexo Feminino (F); Sexo Masculino (M); Revista Domingo (RD); Resposta Solicitada (RS)

A – Ideologias: referências à protagonista da reportagem procurando situá-la

no quadro de ideologias políticas e sociais mais gerais. Foram subdivididas em:

Conteúdos políticos. Exemplos: “Fraulein” (M, RD 17/9); “que venha a

terceira via” (M, RS);

Alusão a modelos econômicos, bem como aos aspectos econômicos do

trabalho de um modo geral.Exemplos: “o capital intelectual é o valor das

organizações” (F, RD 17/9); “o lado mais obscuro do processo de

globalização” (M, RS);

Conteúdos psicológicos gerais. Exemplos: “colocaram em julgamento sem

conhecimento de causa” (F, RD 1/10); “é ‘osso duro de roer’ como ser

humano” (F, RS).

B – Papéis sociais da mulher: As respostas relacionam a protagonista à sua

condição de mulher, seja em termos de estereótipos e papéis geralmente

atribuídos às mulheres, seja naquilo que significa um desvio a esta

representação:

Referências a particularidades da condição feminina: maternidade, cuidados

com a família, educação de filhos, sensibilidade, romantismo. Exemplos:

“importante a presença da mãe junto dos filhos no momento da

amamentação” (M, RD 17/9); “deve conviver com um sentimentalismo

oculto” (F, RS);

Desvio à norma. Referências a desvio ao padrão que reserva às mulheres

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(enquanto minoria) um lugar inferior na escala de poder, e comportamentos

que se desviam do estereótipo tradicional da mulher: frágil, dependente, pouco racional, pouco objetiva, indecisa, etc. Exemplos: “o ideal seria comprá-los [filhos] prontos” (F, RD 17/9); “funciona ao modo de Medusa:

empedra-nos, torna-nos insensíveis” (M, RS);

Afirmação/feminismo. Conteúdos que destacam e valorizam características diferenciadoras das mulheres em contraste com características ditas masculinas. Exemplos: “o exemplo que sua conduta inspirará em nossos jovens” (M, RD 17/9); “a mulher pode e deve exercer as mesmas funções historicamente reservadas aos homens” (M, RS);

Mulher no trabalho. Referência ao desempenho das atividades profissionais da protagonista. Exemplos: “não acho a melhor maneira de promover sua área de investimentos” (F, RD 1/10); “não observando regras trabalhistas conquistadas” (M, RS).

C – Indivíduo: aqui as referências aludem ao indivíduo, seja em seu aspecto pessoal, distinto, como na qualidade de integrante de um grupo. Também foram divididas em três sub-categorias:

Referências à protagonista como indivíduo autônomo, destacado, distinto do grupo. Exemplos: “esta senhora” (F, RD 1/10); “além de dinheiro e bens para si” (M,RS);

Conteúdos que fazem referência a comportamentos e valores partilhados no grupo. Exemplos: “a respeitar o próximo” (F, RD 17/9); “todo aquele que não se enquadre no padrão” (M, RS);

Comparação entre indivíduos em um mesmo grupo, segundo modelo convencional – exemplo: “verdadeira devoção com que conduz sua missão” (M, RD 17/9).

D – O sujeito por ele mesmo: Os conteúdos aqui se referem explicitamente ao que pensam os autores das respostas:

Alusões a conteúdos e temática religiosa. Exemplo: “graças a Deus” (F, RD

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Referência a si mesmo para falar sobre aspectos relacionados ao trabalho e à vida profissional. Exemplos: “minha imagem profissional e da equipe” (F, RD 1/10); “que seja em dia e hora marcada, e em local mais inspirador do que o banheiro” (F, RS);

sujeito se refere a suas próprias convicções políticas. Exemplo: “agradeço por não fazer parte do campo de concentração” (F, RD 1/10);

Alusões a aspectos psicológicos em primeira pessoa, posições individuais do próprio sujeito. Exemplos: “meus valores e caráter” (F, RD 1/10); “chego a invejar” (M,RS). Referências à situação civil: casamento, cônjuge etc. – exemplos: “sou casada”, “[escolha minha] e do meu marido” (F, RD 1/10).

Resultados

Quando comparamos as opiniões dos homens com as das mulheres, verificamos uma grande polarização: os homens usaram com mais freqüência termos e expressões que classificamos na categoria “Ideologias” (conteúdos de ideologia política, econômica e psicológica apareceram 123 vezes, ou 48,24% do total das respostas dos homens); as mulheres, por sua vez, referiram-se mais vezes aos “Papéis sociais da mulher” (o cuidado e a educação de filhos, afirmação de um posicionamento feminista, afirmação de seu valor no trabalho são conteúdos que foram referidos 81 vezes pelas mulheres, 38,39% do total das respostas dadas por elas); e também a “Indivíduo” (46 vezes ou 21,8% do total de opiniões das mulheres).

Em suma, as mulheres destacaram mais do que os homens o ideário feminista (a mulher é tão capaz quanto o homem de desempenhar funções como

a da executiva em questão), bem como os particularismos da condição feminina

e comportamentos tidos como desviantes à norma. Mas também verificamos que as respostas das mulheres aludiam com maior freqüência à afirmação do indivíduo como entidade autônoma, distinta, destacada do grupo, ao mesmo tempo em que pudemos constatar a presença de uma visão mais tradicional, quando as mulheres participantes atrelaram esta autonomia ao campo

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profissional, inserido num plano de experiência mais público (a empresa, o trabalho) do que privado.

Os homens, em contrapartida, exploraram mais vezes os conteúdos ideológicos/econômicos/políticos, que são mais genéricos e universalizantes. Aplicando o teste do Qui-quadrado (Rodrigues, 1976), comparamos as freqüências obtidas com as esperadas e confirmamos que, nas categorias onde houve uma maior polarização, as freqüências obtidas foram pelo menos 30% maiores do que as esperadas, ou seja, os resultados são mesmo característicos dos grupos em cada categoria (vide tabela 1, na seção de anexos).

Quando comparamos as condições de produção das respostas – se foram manifestações espontaneamente dirigidas ao jornal ou se foram opiniões dadas em resposta a nossa solicitação – encontramos com mais freqüência no conjunto das cartas enviadas espontaneamente à redação respostas que enfatizam aspectos de “Ideologia”, principalmente políticas e econômicas (54 vezes, ou 30,68% do total respostas espontâneas); o “Indivíduo” destacado do grupo (46 vezes ou 26,13% do total de manifestações espontâneas); e o “Sujeito por ele mesmo”, expressão de valores do próprio respondente (37 vezes, 21,01% do total de manifestações espontâneas).

Já no caso da categoria de respostas solicitadas diretamente, ocorreu com mais freqüência a afirmação do “Papel social das mulheres”, do ideário feminista, do valor profissional das mulheres, bem como de que mulheres como a executiva em questão representam uma exceção, um desvio à norma que prevê um outro papel para as mulheres (103 vezes este tipo de conteúdo apareceu nas respostas solicitadas, 35,15% do total).

Adotamos o mesmo procedimento de comparação da distribuição observada e a esperada entre as duas categorias (respostas espontâneas x respostas observadas) e destacamos as respostas obtidas que superam em pelo menos 30% a freqüência esperada para cada categoria (ver tabela 2 nos anexos).

Nesse estudo sobre as diferentes representações de uma mulher executiva

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construídas por homens e mulheres com nível de escolaridade superior e que na época atuavam fora de empresas, surgiram diferenças de gênero importantes. No grupo das mulheres, uma grande parte tendeu a defender executiva em questão usando argumentos de mérito individual e de cunho feminista; os homens, por outro lado, manifestaram majoritariamente uma atitude de recusa da executiva “linha dura”, fazendo poucas considerações quanto aos seus méritos individuais e profissionais, como se, para eles, uma crítica social de base sócio-econômica (modelos identificados com o sistema de produção capitalista e com práticas econômicas neoliberais), prevalecesse sobre as considerações específicas da condição feminina. Ficamos então com a pergunta se dentro do ambiente das empresas observaríamos outros tipos de representação na comparação entre os gêneros.

43

Estudo 2 – Mulheres executivas. Representações de estilos de comportamento e estilos de gestão

dizer devir-mulher do trabalho é, ao mesmo tempo,

dizer muito e muito pouco. É dizer muito pouco porque essa transformação não compreende formalmente em si tudo o que o feminismo nos ensinou. Mas é dizer muito, porque o que nos interessa hoje é a transgressividade geral do trabalho: uma transgressividade que se dá entre o homem, a mulher e a comunidade, em meio a uma reprodução geral da sociedade, para a qual contribuem também os processos de produção de saber, riqueza, linguagem e afeto.”

Toni Negri

“[

]

Apresentação

Como já referimos anteriormente, verificamos ainda hoje um descompasso entre os discursos que pregam a igualdade entre homens e mulheres e as práticas que se verificam no dia-a-dia. No que diz respeito ao mundo do trabalho, é verdade que podemos constatar importantes mudanças em termos da redução das barreiras que vinham entravando o acesso das mulheres a cargos gerenciais; ainda assim, algumas dissimetrias no setor empresarial permanecem. Carli e Eagly (2001), por exemplo, afirmam que quase todas as mulheres que alcançaram posições de destaque na hierarquia das corporações mundiais o fizeram na década de 90, ou seja, trata-se de uma conquista bastante recente. No caso específico do Brasil, apesar da crescente participação das mulheres no mercado de trabalho, elas ocupam, segundo pesquisa do Instituto Vox Populi feita em 2002, apenas 6% dos cargos gerenciais nas 500 maiores empresas brasileiras.

As explicações para a permanência dessas disparidades poderiam tanto estar centradas no indivíduo – se há menos mulheres do que homens em cargos executivos e de comando é porque a liderança feminina é menos eficaz – quanto na situação ou contexto das próprias organizações, levando em conta as características de cada empresa, o clima, o ambiente organizacional, a

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composição dos grupos de funcionários, a estrutura de poder, ou seja, os elementos sócio-ambientais que influenciam os comportamentos (Kruse e Wintermantel, 1986).

Neste segundo estudo, encaminhamos nossa análise a respeito da dissimetria entre homens e mulheres nas empresas a partir de uma perspectiva psicossocial, buscando identificar quais são os elementos que participam na construção de representações e imagens de mulheres que ocupam funções executivas chefiando outras pessoas; como seu desempenho e sua liderança é percebida e representada tanto por trabalhadores que efetivamente têm chefes mulheres ou por pessoas que não se enquadram nesta situação mas partilham idéias e imagens sobre mulheres executivas; e as interações que são estabelecidas a partir destas representações. Como já vimos, as RS podem fornecer pistas valiosas sobre o que pensam os grupos e os indivíduos a respeito de questões como esta a partir do estilo de comportamento e da influência social.

Desde que algumas pesquisas em ciências sociais começaram a destacar a interrelação entre o comportamento do líder e a eficácia de sua liderança – onde o estilo de liderança expresso pelo líder determina e influencia o desempenho do grupo que está sendo liderado – começou-se a perceber que não se trata de uma relação estática em que os chefiados têm um papel passivo e secundário, mas sim de uma interação que envolve um processo de trocas sociais. E que estas interações entre liderados e líderes se constituem e se equilibram no interior das relações comunicacionais a partir de determinados padrões comportamentais.

Autores como Moscovici (1981) e Mugny, Kaiser, Papastamou e Perez (1984), afirmam que determinados comportamentos do indivíduo que consegue influenciar outras pessoas – mesmo não dispondo de sinais visíveis de poder ou de que desfruta de reconhecimento social – devem ser considerados determinantes da eficácia de sua influência. A capacidade de influir socialmente e produzir mudanças nos grupos, nestes casos, vai além das situações de dependência e subordinação implicadas nas relações de poder. Portanto,

45

segundo esses autores, sempre que um indivíduo ou subgrupo exerce influência sobre terceiros, conseguindo modificar ou transformar comportamentos e opiniões já existentes, o principal fator de êxito é o seu estilo de comportamento. Embora liderança, competência, maioria, sejam fatores que desempenham o papel de variáveis externas na situação de dependência dos indivíduos em relação aos grupos, eles não são determinantes da eficácia da influência. O que é fundamental no êxito da influência social é o estilo de comportamento adotado pelo agente ou aquele que busca liderar e a percepção que os liderados fazem deste estilo (Moscovici, 1981, p. 139).

Estilos de Comportamento, Estilos de Gestão e Influência Social

A articulação de comportamentos em uma “gramática comportamental”, para utilizar uma analogia feita por Gabriel Mugny (1981), um dos pesquisadores da influência social e do desenvolvimento cognitivo em quem nos referenciamos, ao lado de Moscovici, dão a medida da eficácia social de um comportamento, a partir dos múltiplos significados que ele suscita. A idéia é de que a repetição do comportamento constitui um estilo, um padrão que organiza e torna explícitas as atitudes subjacentes aos comportamentos manifestos. Em outras palavras, são as diferentes maneiras de agenciar os comportamentos que irão nos permitir depreender deles um determinado significado. Os estilos de comportamento teriam assim para Mugny uma dupla função: a de fornecer pistas sobre como as ações comportamentais podem ser lidas, decifradas e interpretadas e, conseqüentemente, representadas pelos observadores e a de produzir imagens que “informam” sobre as características cognitivas da fonte (aquele que busca influenciar através de sua interação com o grupo).

Os estilos de comportamento não só geram e provocam novas imagens, mas também de fato mobilizam representações sociais já organizadas e convencionalizadas, que servirão de ancoragem na elaboração dos significados dos comportamentos da fonte. Este excedente de significado que se desprende de um conjunto organizado de comportamentos dá lugar, em realidade, a uma espécie de consenso: os sujeitos dispõem de representações já estabelecidas, dos diversos significados que tais comportamentos podem

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assumir (Mugny e Papastamou, 1986, p.510).

Moscovici assinala que o conflito enfrentado pelas mulheres que aspiram ou já exercem posições de chefia e liderança, seja na política, no trabalho, ou nas relações sociais em termos amplos, seria uma transição entre a marginalidade social da mulher no mundo do trabalho e o reconhecimento de que a liderança eficaz não passa necessariamente por possíveis atributos exclusivamente masculinos. Ou seja, analisando a partir de um ponto de vista sociológico, a problemática das mulheres líderes estaria mais próxima a uma situação de anomia do que de normatização social. Moscovici conclui que, embora não existam teorias e pesquisas suficientes para dar sustentação à hipótese de que as mulheres exercem a liderança de maneira distinta da dos homens, existe uma crença socialmente difundida e compartilhada de que homens e mulheres adotam, profissionalmente, estilos de comportamento e gestão profissional diversos. “A liderança é um totem para a sociedade e um tabu para a ciência” diz Moscovici (1981, p. 249).

A teorização a partir dos estilos de comportamento permitiu um deslocamento do foco de atenção das dimensões de poder e recursos externos reconhecidos – apresentados pelos que buscam influência – para a retórica exposta pelos mesmos na interação social. Ao longo de mais de três décadas de investigação empírica, foram estudados alguns estilos de comportamento, quase todos em delineamentos experimentais. Os resultados confirmaram, em mais de um país, estilos como consistência, flexibilidade, assim como autonomia, esforço, entre outros (Paicheler, 1985; Pérez e Mugny, 1993). É preciso sublinhar que, dentre os estilos de comportamento, o mais estudado foi a consistência, a qual parece ser indispensável para os que almejam influenciar em culturas que valorizam a lógica, tanto para sujeitos com status majoritário quanto minoritário. Trata-se, portanto, de uma retórica de apresentação que não poderia ser considerada a priori como masculina ou feminina, apesar de que se possa esperar que ela esteja mais associada aos homens em função de modelos sócio- culturais de longa duração histórica. Ao lado disso, podemos dizer que há uma quase ausência de estudos empíricos sobre a influência social a partir dos estilos

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de comportamento em situações "naturais" – em ambientes sociais mais concretos como o de trabalho – onde se podem observar consideráveis disputas de gênero. Nossa suposição era de que outras dimensões discursivas e representacionais emergiriam nesses contextos, modificando a natureza do fenômeno em foco.

Por que analisar representações sociais e relações de gênero nas empresas?

Representações de gênero remetem a um contexto social bastante amplo, além de incluir outras representações, como classes sociais, etnias, relações de subordinação e hierarquia etc. Além disso, segundo Costa (2001), as questões de gênero revelam processos sócio-políticos que levam a distinguir as formas de organização do trabalho.

Incorporar a noção de gênero nas análises das práticas profissionais coloca em cena as representações que legitimam muitas formas de opressão com que nos defrontamos (e que também tememos enfrentar), no interior de nossas relações

Somos parte dos processos

sociais com que lidamos (op. cit., p. 120).

de trabalho e pessoais. (

)

Portanto, através deste viés procuramos não só desvendar os processos de construção das representações que norteiam as interações entre homens e mulheres, como também redimensionar o papel que as mulheres desempenham neste processo. Mais especificamente, no âmbito profissional, explicitando o entrecruzamento de outros fatores como relações de poder, subordinação, identificação com a categoria gênero e auto-apresentação.

Acreditamos que as diferentes maneiras de se apresentar, os estilos de comportamento adotados, os modelos de atuação percebidos, constituem indicadores de representações, não só de gênero, mas também das relações de subordinação e interdependência presentes nas interações entre os grupos no ambiente de trabalho. Construímos então a hipótese de que as mulheres, por não possuírem ainda autonomia para adotar um estilo de gestão segundo um modelo próprio, privilegiariam modelos que remetem à representação de

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comportamento masculino. Os homens, por sua vez, ao avaliarem uma mulher em cargo executivo, talvez tendessem a julgar seu estilo de atuação como rígido, sempre que este comportamento fosse relacionado à hierarquia e ao exercício do poder.

Método

Instrumento – O instrumento do estudo consistiu em um questionário com cinco questões abertas em que procuramos avaliar as representações que homens e mulheres fazem de modelos de gestão masculino e feminino (ver no Anexo III). Buscamos identificar as representações construídas por homens, mulheres, chefes e chefiados para os estilos de gestão praticados em uma empresa, se eram percebidas diferenças entre estilo masculino e feminino, e se a constatação destas diferenças era determinante na maior ou menor aceitação das chefes do sexo feminino, e também no êxito de sua gestão. Comparamos as respostas fornecidas por homens e mulheres que trabalham em duas empresas diferentes, a fim de identificar possíveis variáveis organizacionais que pudessem ter influência na construção destas representações. Além das empresas, foram também entrevistados jovens estudantes dos cursos de Administração de Empresas e de Economia (a partir do terceiro período), sem vínculo de trabalho com empresa ou organização, com o intuito de avaliar se existiria ou não maior utilização de ideologias ou estereótipos de gênero quando as representações não estivessem ancoradas em uma vivência profissional concreta.

Participantes – Participaram da pesquisa 47 pessoas, distribuídas em grupos da seguinte maneira: empresa A, empresa pública do setor de energia elétrica – 15 profissionais; empresa B, empresa privada, setor bens e serviços – 12 profissionais. Ambas as empresas estão localizadas na cidade do Rio de Janeiro. Um terceiro grupo formado por 20 estudantes universitários (10 homens, 10 mulheres) cursando Administração de Empresas e Economia a partir do terceiro período, que foram selecionados no campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Os participantes das duas empresas situavam-se na faixa etária de 41

49

anos de idade, possuíam escolaridade média superior, e um tempo médio de experiência profissional respectivamente de 21 anos na empresa A e de 18 anos na empresa B. Os estudantes tinham em média 20 anos de idade e não possuíam significativa experiência profissional (alguns já haviam estagiado).

Procedimentos – Por opção das duas empresas que concordaram em

participar, a seleção dos participantes, distribuição e coleta das respostas foi administrada internamente por cada uma delas. No caso dos questionários aplicados aos estudantes universitários, os participantes foram selecionados ao acaso, obedecendo ao critério de estarem cursando a partir do terceiro período de Economia ou Administração de Empresas e não terem vínculo profissional com alguma empresa. As entrevistas com os universitários foram individuais, sendo cada participante solicitado a responder de próprio punho as cinco perguntas abertas sobre estilos de gestão de homens e mulheres, para em seguida completar a ficha do perfil sócio-cultural, informando idade, nível de renda, escolaridade e escolaridade dos pais, elementos que acreditamos ter relação com

a

escolha de um modelo ou estilo de comportamento profissional (o questionário

e

a ficha de identificação encontram-se na seção de anexos).

Análise Os dados obtidos foram analisados pelo método de análise de conteúdo (Bardin, 1991). As respostas dadas para cada uma das cinco questões formuladas foram decompostas em categorias ou unidades temáticas (conforme detalhamento no quadro a seguir) para serem depois comparadas entre os diferentes grupos – empresa A vs. empresa B (homens e mulheres); grupo de homens das duas empresas vs. grupo de mulheres das duas empresas; estudantes (sexo masculino e feminino) vs. aqueles que trabalham nas empresas. O método adotado para a análise de conteúdo foi misto, ou seja, foi feita uma análise parcialmente apriorística no sentido de que procuramos inferir alguns conteúdos segundo um quadro teórico-descritivo previamente existente (Moscocivi sobre influência de minorias e Mugny sobre estilos de comportamento). Mas a análise foi também exploratória, ao mapear os conteúdos a partir das falas/respostas espontâneas dos participantes às perguntas formuladas. Ou seja, como se pode ver na descrição dos tipos de

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categorias simbólicas encontradas, acrescentamos outras dimensões não previstas no quadro teórico já referido, tais como poder hierárquico e avaliações diversas, as quais constituiriam representações tanto de retóricas de estilos de comportamento quanto de outros aspectos envolvidos na construção do conhecimento do senso comum grupal pertinentes ao fenômeno observado. A seguir apresentamos o mapeamento das categorias temáticas a partir das respostas ao questionário.

Categorias Temáticas

1) E – Esforço

O esforço psicológico empregado pela fonte justifica mudança de

comportamento; quanto maior a percepção de que o agente empreende um esforço na sua tarefa de convencer o grupo, maiores as chances de lograr êxito.

Exemplos

“As mulheres precisam se esforçar mais” (Pergunta 5, sexo feminino, 33 anos)

“Na gestão feminina é mais presente o esforço gerencial” (Pergunta 5, sexo masculino, 54 anos).

2) A – Autonomia

Relaciona-se à capacidade de formar juízos e atitudes independentes, de levar

em conta todos os fatores pertinentes e extrair deles as conclusões, sem se

deixar levar por interesses pessoais.

Exemplos

“Se a mulher já está no posto de gerência, ela já está provando que tem autonomia” (Pergunta 2, sexo feminino, 27 anos).

“Enquanto o estilo dos homens é mais maiêutico” (Pergunta 5, sexo masculino, 49 anos).

51

3) C – Consistência

A consistência é uma das categorias comportamentais que têm sido mais estudadas pelos pesquisadores da influência social. O comportamento consistente reflete a busca da regularidade, sendo interpretado como sinal de certeza, como afirmação da disposição de se ater inquebrantavelmente a um ponto de vista, refletindo compromisso com opções coerentes e inflexíveis.

Exemplos

“O homem diz anos).

como quer que algo seja feito” (Pergunta 5,

sexo feminino, 45

“Da mesma forma que com as gerentes mulheres, os gerentes do sexo masculino devem sempre agir de forma profissional” (Pergunta 3, sexo feminino, 38 anos).

4) R – Rigidez

Para Moscovici, pode ser atribuída à incapacidade de levar em consideração certos aspectos da realidade, ou de abandonar os próprios pontos de vista. Para Mugny é o bloqueio de qualquer possibilidade de negociação, e se baseia em uma organização fortemente hierarquizada dos critérios de avaliação.

Exemplos

“Muita competitividade gera stress e frustração ao longo dos anos” (Pergunta 3, sexo feminino, 33 anos).

“Têm gerentes que acham que são os donos da verdade” (Pergunta 4, sexo masculino, 51 anos).

5) F – Flexibilidade

Refere-se à intenção de evitar bloqueio da negociação, capacidade de considerar vários aspectos da situação e dos interlocutores relevantes, além de modificar

52

opiniões pré-existentes.

Exemplos

“Acredito eu que o melhor estilo seja o de dar liberdade de expressão e comunicação” (Pergunta 1, sexo masculino, 37 anos).

“Mulheres

deveriam

ouvir

mais

o

que

as

pessoas

que

estão

sob

sua

responsabilidade têm a dizer” (Pergunta 2, sexo feminino, 43 anos).

6) P – Prescrições da empresa / influência da posição hierárquica sobre o indivíduo

A influência das pessoas que exercem liderança ocupando cargos gerenciais está relacionada ao poder que usufruem na hierarquia da empresa, ou à acomodação àquilo que é prescrito pela organização.

Exemplos

“Imagino a gestão feminina mais voltada aos interesses da empresa” (Pergunta 1, sexo masculino, 54 anos).

“Há momentos em que é necessário um gerente que diga o que deve ser feito” (Pergunta 1, sexo feminino, 40 anos).

7) Ag – Avaliação geral (conteúdos não especificados)

As diferentes percepções de estilos de gestão prendem-se a fatores genéricos, não específicos.

Exemplos

“Há bons e maus gestores nos dois grupos” (Pergunta 5, sexo masculino, 47 anos).

“Como para qualquer papel, acredito que a pessoa possa ser treinada” (Pergunta 4, sexo feminino, 40 anos).

53

8) As – Avaliação social (conteúdos discursivos de crítica à sociedade/cultura/política)

Utilização

universalizante.

de

Exemplos

conteúdos

ideológicos,

estereótipos,

visão

sociológica/

“Os homens são mais paternalistas e machistas” (Pergunta 5, sexo feminino, 35 anos).

“Conforme mencionei, as mulheres normalmente têm o lado mais sentimental” (Pergunta 5, sexo feminino, 34 anos).

9) Ap – Avaliação psicológica/individual

Aqui aspectos idiossincráticos, diferenças individuais, são percebidos como determinantes de um melhor desempenho em termos de influência social.

Exemplos

“Para algumas profissionais mulheres, talvez o entendimento em relação a problemas pessoais” (Pergunta 1, sexo feminino, 34 anos).

“Vejo estilos de gestão entre pessoas” (Pergunta 5, sexo feminino, 43 anos).

10) Sd – Sem diferença de gênero

Não existem diferenças de gênero na comparação entre os estilos de gestão, o que se aplica aos homens vale também para as mulheres.

Exemplos

“Nunca estive nesta situação, porém acredito que deva ser normal, sem diferenças” (Pergunta 1, sexo masculino, 45 anos).

“Não consigo identificar nenhum fato relevante que justifique uma mudança de estilo só pelo fato do gerente ser uma mulher” (Pergunta 1, sexo feminino, 32

54

anos).

Resultados

A primeira pergunta do questionário: “Caso você fosse chefiado por uma mulher (independentemente de já ter tido ou não esta experiência), como imaginaria o seu estilo de gestão?” visava identificar como uma gestão feminina seria caracterizada ou representada por homens e mulheres nas duas empresas pesquisadas. Fizemos a tabulação das categorias temáticas estabelecidas pelos grupos (n = 27; 12 homens e 15 mulheres) e os dados tabulados foram submetidos ao teste do qui-quadrado, para determinar a consistência e a significância estatísticas. Dos quatro testes realizados, houve diferença apenas no corte por empresa (cf. Tabela 3, p. 94, na seção de Anexos).

Na empresa estatal (A), foram mais destacados os conteúdos “Consistência” (23%), sobretudo nas respostas dos homens (40%); e em seguida a categoria “Sem Diferença de Gênero” (19%), mais referida pelas mulheres que trabalham nesta empresa (20%); na empresa privada (B), tiveram destaque “Flexibilidade” (23% do total de respostas), mais utilizada pelos homens (28%); seguida por “Avaliação Social” (16% das respostas) e “Avaliação psicológica/individual” (15% das respostas), sendo estas duas categorias utilizadas de maneira homogênea por homens e mulheres da empresa. Deve ser mencionado que os profissionais da empresa A reagiram menos a esta pergunta do que os da empresa B, apresentando menos conteúdos. Houve também maior preocupação em não se identificar (7 participantes da empresa estatal não quiseram declarar o nome, contra 1 caso de não informação do nome na empresa privada).

No que diz respeito à comparação das respostas dadas por homens e mulheres observamos uma certa homogenidade, já que os dois grupos caracterizaram a gerente do sexo feminino principalmente como consistente (50% dos homens e 28% das mulheres); flexível (48% dos homens e 32% das mulheres); ajustada às prescrições da empresa (22% e 20% respectivamente);

55

e apresentando um comportamento não diferenciado pelo fato de ser mulher

(19% dos homens e 32% das mulheres). Poderíamos resumir dizendo que esses resultados fazem emergir um perfil comportamental para as mulheres gerentes caracteristicamente consistente, um estilo que visa o resultado. As executivas procuram se enquadrar às normas e interesses da organização em que trabalham, e procuram ser vistas e reconhecidas pelo seu valor profissional, neutralizando as expectativas relativas ao gênero.

Para a segunda pergunta: “O que você acha que as mulheres poderiam fazer para aumentar sua eficácia profissional, quando têm sob sua responsabilidade gerenciar a produção de outras pessoas?” nosso objetivo era identificar as expectativas compartilhadas pelos dois grupos (empresa A e empresa B, homens e mulheres) com relação à gestão feminina. Foram aplicados os mesmos testes utilizados para a primeira pergunta, os quais revelaram uma diferença significativa entre homens e mulheres quanto ao que pode melhorar o desempenho e a eficácia das mulheres como líderes/gestoras e, conseqüentemente, aumentar sua participação no mercado empresarial (cf. Tabela 4 na seção de Anexos).

Os testes revelaram que, entre os participantes de nossa pesquisa, homens

e mulheres diferem quanto às expectativas em relação à gestão feminina: 52%

dos homens apontaram “Consistência” como um atributo que melhora o desempenho das gerentes do sexo feminino; enquanto que 35% das mulheres indicaram “Flexibilidade” como atributo desejável para aumentar a eficácia da gestão feminina. Houve, por outro lado, convergência nas opiniões dos profissionais de ambas as empresas de que, para aumentar a eficácia de sua gestão, as mulheres gerentes devem se submeter mais à hierarquia e ao poder das organizações (12% na empresa A e 23% na empresa B) e também afirmar mais aspectos psicológicos / individuais (10% e 15% respectivamente).

Passando agora para a terceira pergunta: “E quanto aos homens, o que poderia aumentar sua eficácia gerencial”, quisemos levantar e mapear as expectativas dos diferentes grupos com relação à gestão masculina. Neste caso

56

não encontramos diferenças significativas nas respostas fornecidas por homens e mulheres e pelos profissionais das duas empresas (ver Tabela 5, p. 95 nos Anexos).

Isto quer dizer que houve convergência na opinião dos grupos pesquisados com relação as suas expectativas para a gestão masculina. Detectamos uma espécie de consenso entre os profissionais das duas empresas de que a “Flexibilidade” (26% dos profissionais da empresa A e 31% da empresa B) e também a “Consistência” (26% nas duas empresas) seriam determinantes na eficácia da gestão masculina. No corte de gênero, descobrimos um número expressivo de homens com expectativas de que os gestores do sexo masculino apresentem atributos “Avaliação social” e “Consistência” (29% cada), seguido de “Flexibilidade” (17%); em contrapartida, para 37% das mulheres profissionais o atributo determinante na eficácia da gestão masculina é a “Flexibilidade”, seguido de “Consistência”, com 25% de respostas. Estas expectativas, em seu conjunto, não diferem das expectativas para a gestão feminina, e continuam ressaltando estilos consistentes e flexíveis, só que apareceram mais referências que podem estar ligadas a estereótipos e ideologias de gênero. Faremos, mais adiante, uma comparação das respostas dos grupos para os gestores do sexo feminino (pergunta 2) e gestores do sexo masculino (pergunta 3).

Em seguida, algumas considerações sobre os resultados levantados a partir da quarta pergunta: “Como caracterizaria, a partir da sua experiência ou de suas observações, um estilo de gestão masculina na empresa? Esta pergunta refere- se à representação/caracterização da gestão masculina. Encontramos, mais uma vez, diferenças quando comparamos as respostas dadas pelos empregados das duas empresas (Tabela 6, p. 95, Anexos).

Os conteúdos mais destacados pelos homens e mulheres que trabalham na empresa A foram “Rigidez” (27%), seguido de “Sem Diferença de Gênero” (18%) e “Autonomia e Avaliação Geral” (9% cada). Já na empresa B, foram mais referidos “Avaliação Psicológica/Individual” (26%); “Poder Hierárquico” e “Prescrições da Empresa” (20%); e “Flexibilidade”, conteúdo que embora em

57

termos absolutos tenha sido pouco referido (apenas 5% das respostas), não foi citado nenhuma vez pelos profissionais da outra empresa.

Homens e mulheres convergiram na escolha dos atributos “Avaliação psicológica/individual” para caracterizar a gestão masculina (respectivamente 27% e 12%); “Avaliação social” (22% homens e 19% mulheres); “Poder da empresa sobre o indivíduo” (15% homens e 17% mulheres); e, finalmente, “Rigidez” (referida por 10% dos homens e 12% das mulheres). Contudo, percebemos que existe diferença quando muda o objeto de representação, ou seja, quando o gerente avaliado é homem ou mulher. Fizemos então uma comparação em que as respostas dadas para caracterizar uma gerente mulher foram cotejadas com as caracterizações do gerente homem (Tabela 7, p. 96, Anexos).

Quando mudou o objeto de representação, os homens utilizaram conteúdos diferentes em suas respostas: na caracterização da gestão feminina destacaram “Flexibilidade” (26%); para caracterizar a gestão masculina, os profissionais do sexo masculino escolheram “Avaliação psicológica/individual” (27%) e “Consistência” (11%).

No caso das mulheres, não houve diferenças significativas de conteúdos ao mudar o objeto de representação. As respostas das mulheres foram convergentes para os dois casos (gestão feminina e masculina) – 18% delas apontaram “Sem diferença de gênero”; 14% conteúdos de “Avaliação social”; e 12% “Consistência”. Mas, quando falaram a respeito das expectativas, ou seja, de como gerentes homens e mulheres deveriam se conduzir para sua performance ser percebida como eficaz, as mulheres apresentaram conteúdos diferentes (Tabela 8, p. 96).

Mudando o objeto (expectativas para gestão masculina e feminina), as expectativas indicadas pelos homens não apresentaram diferença; houve convergência nos conteúdos “Consistência” (52% para gestão feminina e 29% para gestão masculina); e “Flexibilidade” (10% para gestão feminina e 17% para

58

gestão masculina).

Já no caso das mulheres, ao mudar o objeto também mudaram os conteúdos. Ao falar sobre suas expectativas para as gerentes do sexo feminino, elas apontaram em primeiro lugar “Poder hierárquico/prescrições da empresa sobre o indivíduo” (20%); seguido de “Avaliação psicológica/individual” (16%); e finalmente “Esforço” (3%), o que contrasta com as expectativas para os gerentes do sexo masculino: “Consistência” (24%), “Sem diferença de gênero” (12%), “Avaliação social” (11%) e “Rigidez” (5%).

Com relação à última pergunta: “Contrastando estilos de gestão de homens e mulheres, você acha que existem diferenças? Quais seriam elas?, queríamos identificar uma possível diferenciação nas representações de estilos de gestão masculina e feminina. Todos os testes resultaram diferenças não significativas, nem entre as duas empresas, nem nas comparações por gênero.

Sendo assim, partindo da nossa hipótese inicial de que poderia haver diferenças nas representações dos que têm vínculos com empresas e dos que atuam profissionalmente fora deste contexto (como seria o caso dos estudantes, que muitas vezes trabalham por conta própria), resolvemos comparar as respostas dos profissionais empregados com as dos estudantes universitários entrevistados (cf. Tabela 9, p. 97 dos Anexos).

Encontramos diferença significativa entre as respostas dadas pelos empregados das duas empresas e pelos estudantes quanto ao contraste entre estilos de gestão feminino e masculino. Os empregados destacaram “Consistência” (14%); os estudantes utilizaram “Flexibilidade” (19%) e “Autonomia” (7%).

Entre profissionais empregados das duas empresas (estatal e privada) e os estudantes (homens e mulheres) não foi evidenciada diferença significativa. Entretanto, ao compararmos as respostas dos homens empregados com as dos estudantes do sexo masculino, encontramos diferença: os do primeiro grupo utilizaram as categorias “Avaliação geral” (12%), “Poder hierárquico” (12%) e

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“Esforço” (7%) contrastando com os estudantes, que indicaram “Sem diferença de gênero” (22%) e “Rigidez” (11%).

Comparando as profissionais das duas empresas com as estudantes, encontramos uma pequena variação: o grupo das profissionais citou mais vezes as categorias “Sem diferença de gênero” (16%); “Avaliação psicológica/individual” (12%); “Avaliação geral” (7%); e Rigidez (6%); as estudantes, por sua vez, privilegiaram “Flexibilidade” (34%); “Consistência” (24%); e “Poder da empresa” (16%).

As expectativas dos empregados das duas empresas diferiram bastante das dos estudantes universitários: os profissionais das duas empresas elegeram “Flexibilidade” e “Consistência” (respectivamente 28% e 23%); ao passo que o grupo dos estudantes citou mais “Avaliação social” (28%) e “Autonomia” (19%) (Tabela 11, p. 98).

Além disso, as respostas dos profissionais do sexo masculino também contrastaram com as fornecidas pelos estudantes homens: profissionais das empresas indicaram “Consistência” (53%) e “Poder hierárquico” (16%), contrastando com os estudantes, que confirmaram “Avaliação social” (32%) e “Autonomia” (12%) para as expectativas da gestão feminina; as mulheres das empresas elegeram “Flexibilidade” (35%), enquanto as estudantes também indicaram “Autonomia” (29%) e “Avaliação social” (23%) (cf. Tabela 12, p. 98 na seção de Anexos).

No que diz respeito às imagens construídas pelos homens, tanto os profissionais das duas empresas, quanto os estudantes, não houve diferenciação significativa de conteúdos (Tabela 12, idem). As categorias mais destacadas pelos homens para caracterizar o estilo de gestão feminina foram: “Flexibilidade” (26% dos empregados e 25% dos estudantes); “Consistência” (19% empregados e 16% estudantes); e “Avaliação Social” (13% empregados e 16% estudantes).

E as mulheres – que trabalham nas empresas e estudantes – como elas vêem e representam as mulheres executivas? Nesta comparação encontramos

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uma ligeira diferença entre os conteúdos utilizados pelas mulheres das empresas e as estudantes para caracterizar a gestão feminina. Conforme podemos ver na Tabela 13 (p. 99 na seção de Anexos), os conteúdos mais referidos pelas estudantes e pelas profissionais das empresas foram: “Consistência” (24% e 14% respectivamente); “Flexibilidade” (34% e 16% respectivamente); e “Poder hierárquico” (16% e 10%). A diferença maior é na indicação de “Sem Diferença de Gênero” (17% das profissionais das empresas contra apenas 3% das estudantes) e “Avaliação Psicológica/Individual” (12% das profissionais contra 3% das estudantes).

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Capítulo 4 Discussão dos resultados e Conclusões

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Nosso objetivo no primeiro estudo (Socialite Linha Dura) foi identificar e analisar as imagens, os sentimentos e as crenças que circulam socialmente a respeito das mulheres executivas que têm sob sua chefia outras pessoas – homens ou mulheres – dentre o conjunto de suas atribuições profissionais. Mais do que descrever ou analisar como estas práticas gerenciais realmente se dão no interior de uma empresa, estávamos interessados nas descrições que são feitas destas práticas. Escolhemos a matéria da Revista Domingo justamente por ela ter provocado – a partir do tom depreciativo com que foi caracterizada a executiva em questão – muitas respostas por parte dos leitores. Mesmo o grupo que foi posteriormente solicitado a ler a matéria e a se manifestar por escrito mostrou-se bastante motivado a participar da experiência. Concluímos que o estilo contundente da jornalista que assina a matéria e o tom polêmico da discussão sobre as práticas gerenciais da executiva “linha dura” poderiam oferecer pistas ou indícios que nos seriam bastante úteis para o aprofundamento de nossa reflexão e no desenvolvimento de uma segunda pesquisa empírica.

Os dados levantados a partir das Cartas dos Leitores e das respostas dos participantes da universidade foram submetidos à análise de conteúdo. A primeira análise sugeria uma recorrência à temáticas ideológicas (principalmente políticas e econômicas), o que se confirmou no emprego de termos e expressões como “Fraulein”, “Hitler de saias”, “campo de concentração”, “práticas neoliberais” etc., bem como na utilização de algumas idéias e jargões em defesa da igualdade das mulheres perante os homens. Como assinala Michelle Perrot na Introdução do quarto volume da coleção História da Vida Privada (1987): “À massificação crescente das ideologias, dos discursos e das práticas – que marcou a primeira metade do século XX em todos os âmbitos da economia, da política e da moral – seguiu-se, em contrapartida, a exaltação dos particularismos e das diferenças” (op. cit., p. 10).

Fizemos uma aproximação com a idéia de uma matriz ideológica para as definições da condição feminina, bem como para as distinções entre homens e mulheres a partir das teses do psicólogo social Michael Billig a respeito das

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ideologias de gênero. Para Billig (1988), além das ideologias políticas ou econômicas, encontram-se presentes nos discursos cotidianos idéias e crenças a respeito da condição social das mulheres que contrastam com as dos homens. Tais idéias são traduzidas em construtos mentais – as ideologias de gênero – ou seja, posições ideológicas contrastantes no que diz respeito às supostas diferenças entre homens e mulheres. Por ideologia de gênero entende-se assim o processo de construção de categorias para o sexo masculino e feminino que se cristalizam na vida social e que, mais do que ressaltar diferenças entre os gêneros, impõem uma diferenciação valorativa e restritiva entre homens e mulheres. Desta maneira, a distinção ideológica do gênero feminino ativaria tanto representações da mulher como indivíduo quanto representações condicionadas socialmente (sex role socialization), que vêm geralmente acompanhadas de uma visão mais generalizante e estereotipada 9 .

Billig ressalta, além disso, que o pensamento do senso comum, assim como as ideologias e as representações sociais, possuem natureza dilemática. O senso comum expressa nos discursos do cotidiano e nas conversas do dia-a-dia uma tensão subjacente a idéias que são contrastantes, antitéticas 10 . Por outro lado, continua Billig, uma certa ideologia da igualdade na diferença presente nos discursos de algumas feministas, pode acabar paradoxalmente justificando e mantendo a subordinação feminina, porque a própria noção de individualismo que é prevalente no pensamento ocidental contemporâneo encerra uma dualidade: “o individualismo envolve ao mesmo tempo a constatação de um fato (de que somos todos 'diferentes') e um juízo de valor (preceitos morais que determinam direitos e liberdades dos indivíduos)” (op. cit., p. 126).

Uma boa indicação da natureza dilemática das representações ou ideologias

9 Louis Dumont (2000) define ideologia como conjunto de idéias e valores comuns numa sociedade num plano mais universal e permanente, portanto mais próximo do conceito de representação coletiva, em comparação com a perspectiva adotada pelos teóricos das representações sociais.

10 Segundo Billig, para outros teóricos das ciências sociais, como por exemplo John Stuart Mill e Weinreich, pelo fato deste ser um condicionamento que se dá de fora, a partir do meio social, a diferenciação entre homens e mulheres ou ideologia de gênero passa a ser um construto artificial, não natural (1988, p. 127).

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de gênero poderia ser encontrada na expressão de traços de conservadorismo no discurso liberal que defende a igualdade entre os sexos: ao se negar a existência de relações de poder encerra-se a necessidade de um debate que promova mudanças sociais, já que somos todos iguais. Portanto, o desafio de pensar em termos de ideologias de gênero é ver o fenômeno como um processo psicossocial – que inclui a construção de diferentes formas de subjetivação. Quando ressalta a dimensão “dilemática” das ideologias de gênero Billig procura alertar os psicólogos sociais de que, mais do que a simples escolha individual entre posições ideológicas opostas, é preciso levar em conta a tensão flutuante presente tanto nas falas das pessoas que estão sendo objeto de investigação, como também nas conversas do dia-a-dia, muitas vezes num mesmo discurso, ou nas idéias defendidas por uma mesma pessoa.

A executiva da reportagem Socialite Linha Dura ilustra bem o quanto a tensão dilemática da categorização de gênero está sempre presente, mesmo quando, aparentemente, houve a opção por um dos modelos contrastantes. Sua performance profissional parece privilegiar valores como autonomia, independência, ganhar o próprio dinheiro, mas não ela deixa de vincular este desempenho a uma visão da mulher que não é naturalmente livre para fazer o que quer – ela tem que “ralar” para alcançar sua autonomia, e à custa de prêmios e incentivos (pashminas, bônus, etc.).

Bourdieu (1999), sempre insistindo na idéia de que a estrutura da dominação masculina é o princípio último das inúmeras e variadas relações de dominação/submissão, observa que estas relações expressam-se sob diferentes formas e nas mais diversas condições, indo desde “a dedicação benévola das mulheres da grande burguesia dos negócios e do dinheiro a seu lar, ou a suas boas obras, à dedicação ancilar e 'mercenária' das empregadas da casa, passando, no nível da pequena burguesia, pela ocupação de um emprego assalariado complementar ao do marido, compatível com ele, e quase sempre exercido como algo inferior” (p. 127; o grifo é nosso). As palavras de Bourdieu parecem-nos de certa maneira pertinentes quando pensamos na reportagem sobre a executiva:

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A verdade das relações estruturais de dominação sexual se deixa realmente entrever a partir do momento em que observamos, por exemplo, que as mulheres que atingiram os mais altos cargos (chefe, diretora em um ministério, etc.) têm que “pagar”, de certo modo, por este sucesso profissional com um menor “sucesso” na ordem doméstica (divórcio, casamento tardio, celibato, dificuldades ou fracassos com os filhos etc.) e na economia de bens simbólicos; ou, ao contrário, que o sucesso na empresa doméstica tem muitas vezes por contrapartida uma renúncia parcial ou total a maior sucesso profissional através, sobretudo, da aceitação de “vantagens” que não são muito facilmente dadas às mulheres, a não ser quando as põem fora da corrida pelo poder (Bourdieu, op. cit., p. 126).

No entanto, o comportamento da socialite como gerente parece indicar um caminho “às avessas”. Historicamente, a administração financeira tem sido uma tarefa masculina, bastando ver as figuras masculinas que compõem a paisagem das bolsas de valores e mercados financeiros ao redor do mundo. Por outro lado, também é uma constatação que cada vez mais mulheres vêm se preparando e obtendo reconhecimento pela consistência com que tratam a economia doméstica. Por muito tempo, e mesmo hoje, muitas mulheres recebem os salários de seus maridos, assumindo a responsabilidade total de administrar os orçamentos familiares. Michelle Perrot, por exemplo, refere-se às mulheres donas de casa da sociedade burguesa do século XIX como as “Ministras das Finanças” das famílias (Perrot, 1987, p. 144), isto sem falar da tendência atual em que um número crescente de mulheres são chefes de família. Algumas “inversões de papéis” podem ser também observadas nas classes de alta renda:

herdeiras de grandes fortunas vão assumindo postos de comando na gestão dos vultosos negócios familiares, substituindo herdeiros do sexo masculino.

Em que pese a gestão das atividades do campo financeiro – voltadas à geração de dinheiro – nem sempre permitirem localizar comportamentos habituais de administração próprios a padrões de sociabilidade feminina, a presença de mulheres nos âmbitos de análise financeira de grandes empresas já não é tão rara. As descrições sobre a socialite seriam emblemáticas de uma primeira tensão: a executiva ocupa um lugar que já não é mais percebido como estranho ou inadequado às mulheres, porém, as descrições acerca do modo

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como ela se relaciona com suas subordinadas parece romper com certos preceitos consagrados de administração quanto às melhores práticas gerenciais para obter produtividade e lucros, em qualquer ramo de atividade, sejam gerentes homens ou mulheres. Assim, ela pode ocupar este lugar, desde que devidamente “masculinizada”.

Por outro lado, este tipo de oposição binária entre masculino/feminino, quem tem ou não o poder (ou o “falo”), apresenta alguns limites, ao manter uma perspectiva determinista (seja intrapsíquica ou sociológica) e repressiva. Os comportamentos da executiva socialite que foram descritos pelos participantes da nossa primeira pesquisa também nos sugeriram uma certa “transgressão”, uma ruptura com um ideário padrão e disseminado sobre gestão de qualidade, o que nos deixa mais próximos das perspectivas teóricas que se apoiam na diferença – não só de gênero, mas do ponto de vista das relações – e na subversão, como expressão de resistência. As diferenças entre homens e mulheres precisam então ser pensadas a partir do campo relacional, da produção de subjetividade, das formas de subjetivação derivadas das relações de poder e dos jogos de verdade – experiências reguladas pelo conhecimento e poder – como propõe Michel Foucault (1994).

Para Foucault não existe um sujeito a priori, existem formas desse sujeito se apresentar em sua trajetória de vida, que constituem um ethos, uma conduta. Foucault analisa as diferentes formas de subjetivação em torno de três eixos que se interconectam: um eixo histórico (arqueologia e genealogia do conhecimento); um eixo moral e ético (cuidado e saber de si) e um terceiro eixo estético (tecnologia de si). De acordo com a perspectiva histórica de Foucault que atravessa os três eixos, a prática sexual é a forma de expressão privilegiada da ética: “a ética é a prática reflexiva da liberdade” (op. cit., p. 111); trata-se de definir os limites morais da sexualidade a partir das práticas de liberdade.

A proposta foucaultiana é de ir buscar na Antigüidade clássica, no pensamento de gregos e romanos, o sentido deste cuidado ético de si mesmo, posteriormente apropriado e desvirtuado pelo cristianismo com a introdução das

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noções de pecado (risco) e culpa. O cuidado de si, assim como era entendido e praticado pelos gregos, implica a ética individual e o exercício da liberdade. Implica a ética enquanto expressão de um ethos, de uma maneira de ser e se conduzir na vida, (um estilo); e pressupõe a liberdade, a senhoridade, não ser escravo, nem de outras pessoas, nem dos próprios desejos ou apetites. Portanto, a arte de saber de si, cuidar de si e governar-se (traduzida na noção de epiméleia 11 ) é pré-requisito para o bom governo das cidades, para a prática da cidadania.

A doutrina cristã apropria-se da noção de cuidado e efetua um deslocamento, introduzindo a ética de si no negativo: lutar contra si mesmo, contra os próprios apetites, para alcançar a salvação para além da vida terrena, na negação do desejo. A ênfase recai para a renúncia, a doação ao outro como fruto do desejo de libertar-se de si para alcançar a salvação eterna. Para os gregos, ao contrário, a salvação era conquistada aqui mesmo, nesta vida, através da construção de uma reputação, reflexo, por sua vez, da tarefa de ocupar-se de si e, por conseguinte, trazer o bem estar ao outro (a família, a criança, o cônjuge).

Estão aí embutidas as noções de poder e liberdade, autonomia e dependência, igualdade e alteridade, público e privado, e estas noções são articuladas com as formas de conhecimento e os modos de subjetivação. Tais modos de subjetivação emergem nas práticas relacionais, nas diferentes formas de os indivíduos se relacionarem consigo mesmos, com os outros e com o mundo. “As práticas de si não são invenções de um sujeito, são esquemas que se encontram na cultura, propostos pela sociedade e pelos grupos sociais” (Foucault, 1994).

Também quando discute a questão do poder Foucault nos esclarece que se tratam sempre de relações de poder que não têm a ver com esquemas já estabelecidos, representações de poder como estrutura política, de governo, uma

11 Epiméleia cura de si mesmo, cuidado de si; conhecer-se através do ocupar-se de si. O conhecimento de si é uma das aplicações concretas da epiméleia na antigüidade clássica (Foucault, 1994, p. 33).

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classe social dominante, o senhor frente ao escravo. Relações de poder são, para ele, relações humanas, sejam elas quais forem, trocas comunicacionais, afetivas ou amorosas, institucionais, enfim, qualquer tipo de relação em que alguém busca dirigir de alguma maneira a conduta do outro.

São também relações marcadas pela mobilidade, pela reversibilidade, e implicam necessariamente a liberdade para ambas as partes envolvidas e, por este motivo, supõem sempre possibilidades de resistência. Onde não existe estratégia de resistência, de reversão de uma dada situação, não há relação de poder. Mesmo quando se tratam de relações de dominação, que visam limitar a liberdade do outro, existem possibilidades de esse outro resistir à dominação. Nas relações conjugais características da burguesia do século XIX por exemplo, a mulher resistia à dominação masculina enganando o marido, tirando seu dinheiro, recusando-se a ter com ele relações sexuais – situação que foi retratada por Gustave Flaubert em seu famoso romance Madame Bovary 12 ). “Se existem relações de poder em todo o campo o campo social, é porque existem possibilidades de liberdade em todas as partes envolvidas na relação” (Foucault, 1994, p. 127). Uma outra dimensão da epiméleia, tal como estudada por Foucault, é que ela implica sempre um labor, uma transformação de si (através do conhecimento), que é o que vai constituir a subjetividade como prática ética e estilística:

[ ]

palavra e de escrita se desenvolveu, na qual se ligam o

em torno dos cuidados consigo, toda uma atividade de

12 Emma Bovary, principal personagem do romance Madame Bovary de Gustave Flaubert (1972), foi uma mulher do século XIX que, depois de ter vivido a infância no campo, estuda o suficiente para se casar e ter outra vida, mais provinciana. Entretanto, à medida que o casamento não corresponde às suas expectativas, Mme. Bovary começa a trair seu marido, um pacato médico de província que não tinha meios para atender a todos os seus desejos e caprichos, mergulhando compulsivamente em um “consumismo” desenfreado, que acaba produzindo uma dívida impagável que a leva a cometer suicídio. Segundo a psicanalista Maria Rita Kehl (1998), o que interessa na personagem Emma Bovary “é o aspecto da dificuldade, específica das mulheres de então, em criar discursos que respondessem a suas necessidades expressivas emergentes” (p. 130). Flaubert constrói, segundo Kehl, uma metáfora para criticar as práticas discursivas alienantes da burguesia da época, quando as mulheres se refugiavam nas falas das personagens literárias dos romances para mulheres de então.

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trabalho de si para consigo e a comunicação com outrem. Tem-se aí um dos pontos mais importantes dessa atividade consagrada a si mesmo: ela não constitui um exercício da solidão, mas sim uma verdadeira prática social (Foucault, 1999, p. 57).

Se para Foucault a sexualidade é a expressão privilegiada deste labor, o casamento, ou melhor, o vínculo conjugal, representaria o espaço em que esta construção se dá na relação do homem com a mulher, uma forma universal de relação com o outro. A mulher-esposa constitui, na análise foucaultiana o “outro” por excelência, mas a relação conjugal como praticada pelos gregos e analisada por Foucault é uma relação de dois construída com base numa igualdade: tanto o homem quanto a mulher, ao estabelecerem o vínculo matrimonial para, a partir dele, garantirem a descendência e satisfazerem uma necessidade natural de compartilhar a vida com um outro, atenderiam a um imperativo da natureza humana, formando uma unidade.

Neste sentido, não haveria inferior, superior, dominante e dominado, mas sim uma relação de complementaridade, de identidade de objetivos, em que cada um tem um papel e uma função (op. cit. p. 160). Vale lembrar que esta identidade pode ser também subvertida, como sugere Judith Butler em sua tese sobre a performatividade dos sexos que já vimos no segundo capítulo.

Assim, o que Foucault traz para a nossa reflexão, no que concerne às problemáticas da liberdade de escolha e do cuidado de si – noções presentes tanto no pensamento liberal quanto nos discursos que privilegiam valores como igualdade e exercício democrático da liberdade – é que, em nossos dias, as relações entre homens e mulheres, transpostas do espaço privado para o espaço público, mais especificamente no domínio do trabalho, ainda não conseguiram se estabelecer na base da interdependência e da complementaridade em prol de um projeto comum. As representações construídas por homens e mulheres acerca das mulheres executivas que têm sob seu comando outras pessoas estão ainda bastante marcadas por uma dissimetria – como se lhes faltasse autonomia suficiente para cuidar de si, e conseqüentemente, dos outros, embora, como vimos no primeiro estudo, as práticas cotidianas, as repetições de

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“performances” estejam concorrendo de maneira importante para a desconstrução de certas imagens e discursos que naturalizam o “lugar” das mulheres no trabalho.

Será que o acesso das mulheres a posições executivas seguem os mesmos padrões em todas as empresas? Até que ponto tradições diversas na incorporação do trabalho feminino em postos de comando de diferentes setores públicos e privados interfeririam neste processo? No nosso segundo estudo partimos da premissa de que, se as desigualdades numéricas entre homens e mulheres que ocupam cargos de chefia e alta gerência não passa pela menor qualificação e preparo da mão-de-obra feminina ou por características intrínsecas que impedem as mulheres de terem um bom desempenho nessas funções (cf. modelo o “Lack of Fit”, Heilman, 1983, 1995), tais diferenças poderiam ser pensadas a partir da constatação de que os próprios profissionais e dirigentes das empresas criam e facilitam a permanência das barreiras, quando avaliam o desempenho das profissionais já contratadas ou a contratar. Seria então uma questão de cognição social, o que vem sendo respaldado por diversas pesquisas norte americanas no campo da psicologia social e organizacional (cf. Kruse e Wintermantel, 1986; Apfelbaum e Hadley, 1986; Carli e Eagly, 2001; Heilman 2001; Eagly e Johannesen-Schmidt, 2001; Yoder 2001).

Neste segundo estudo referenciamo-nos nas contribuições de Moscovici e Mugny sobre a influência social em articulação aos estilos de comportamento e liderança, por acreditarmos que tanto suas premissas quanto suas conclusões apontam caminhos que se coadunam com a dimensão estilística, de “performatividade”, que apareceu de maneira importante no estudo sobre a Socialite Linha Dura. Moscovici começou a desenvolver suas pesquisas sobre a influência das minorias ativas (1986) a partir da idéia de que o fenômeno da influência social iria mais além da dependência ou da submissão a uma situação de poder ou de autoridade. Se grupos minoritários conseguiam convencer ou mudar posições já consolidadas pelas maiorias, este “convencimento” seria devido a uma operacionalização específica, que, pela repetição, constituiria um estilo, uma maneira de se apresentar.

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Por outro lado, o estabelecimento de normas e mecanismos de controle é uma prática histórica no mundo do trabalho. As organizações, a despeito das mudanças que vêm sendo percebidas a partir dos movimentos de globalização, de flexibilização produtiva, de assimilação de novas tecnologias de informação com a conseqüente desmaterialização das unidades de produção (Fridman, 2000), ainda praticam e prescrevem para seus profissionais um comportamento que seja adequado e enquadrado pelas hierarquias. Ainda que as hierarquias piramidais que governavam a era fordista tenham dado lugar às redes flexíveis e descentralizadas de produção e tomada de decisão, a busca da flexibilidade produziu novas estruturas de poder e controle em que subsiste a concentração de poder, embora sem centralização (Sennett, 1999). Podemos então pensar que, pelo menos no que diz respeito às mulheres, existem expectativas de desempenho profissional atreladas a tais valores hierárquicos e de concentração de poder.

Os resultados do segundo estudo apontaram que consistência e flexibilidade são caracterizações que predominam na definição de estilos de gestão, tanto feminina quanto masculina. O fato de na empresa A (setor público) ter sido mais indicado a consistência e na empresa B (setor privado) a flexibilidade ter sido a tônica foi interpretado como uma tendência de instrumentalizar as relações de formas mais impessoais e orientadas contratualmente na busca por resultados, quando a mulher ocupa cargo gerencial/executivo em uma empresa pública estatal; em contrapartida, delineou-se uma representação mais voltada para o reconhecimento e a valorização da diversidade e busca da negociação frente a diferenças individuais, quando a executiva trabalha em organização do setor privado.

Confirmando a tendência verificada na caracterização das gestões feminina e masculina, de que estilos consistentes (busca de resultados) e flexíveis (busca de negociação/adaptação) de gestão podem favorecer a mulher no que diz respeito a influenciar o comportamento e a produção dos grupos sob seu comando e a possibilitar a percepção de que sua liderança/gestão é eficaz e bem sucedida, a maioria dos homens que participaram da pesquisa também

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apontaram a consistência como um atributo que melhora o desempenho das gerentes do sexo feminino, enquanto que a maioria das mulheres apostam na flexibilidade como um atributo desejável para aumentar a eficácia da gestão feminina.

Os dois conteúdos “Consistência” e “Flexibilidade” poderiam ser aproximados às orientações de papéis sexuais na família formalizados por Parsons e Bales (1955, apud Lorenzi-Cioldi 1988), que indicam uma orientação instrumental para o homem e expressiva para a mulher, esta última visando mais a integração social, nos aspectos emocionais e de coesão do grupo, manifestando interesse pelo outro. Ou seja, poderíamos questionar se as representações da gerente mulher que foram encontradas não seriam uma atualização de conteúdos que remontam ao passado.

Por outro lado, tanto os profissionais empregados nas duas empresas, quanto os participantes homens e mulheres como um todo, elencaram, ao caracterizar o gerente do sexo masculino, estilos que valorizam o indivíduo, o poder e as relações hierárquicas, algumas vezes apresentando características de autonomia, rigidez e também conteúdos que ressaltam aspectos sócio-culturais, como ideologias, estereótipos, interdependência entre os grupos etc. Esses resultados estão consistentes com algo que se verificou no estudo Socialite Linha Dura, ou seja, uma tendência de afirmar valores psicológicos e individuais, embora ainda de maneira associada às dinâmicas relacionais e sobretudo profissionais.

É interessante observar que, para caracterizar os estilos de gestão dos homens e das mulheres – que acreditávamos fossem remeter a modelos já estabelecidos e consolidados – os profissionais vinculados às duas empresas acabaram expressando em suas respostas conteúdos heterogêneos. Isto nos sugeriu a possibilidade de que a caracterização de um tipo de gestão esteja ancorada à cultura da empresa, ou ao contexto organizacional, num quadro de maior complexidade.

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As mulheres, quando atingem o topo da hierarquia das empresas e passam a fazer parte dos quadros gerenciais, geralmente se espelham em modelos masculinos, atravessados por questões e valores sócio-ambientais, ideologias e estereótipos culturais, às próprias dinâmicas das relações intergrupais. Mais uma vez, a consistência apresentou-se como um estilo que é muito empregado para caracterizar a gestão de gerentes homens. Esta talvez seja uma indicação de que, na ausência de um estilo próprio de gestão/liderança, as mulheres procuram identificar e valorizar seus elementos diferenciais – a flexibilidade seria um deles – que permitam construir um modelo que se mostre eficaz e influente o bastante para facilitar sua entrada e fortalecer sua posição no mundo gerencial. Assim, o que poderia melhorar o desempenho e a eficácia da gestão das mulheres seria uma performance mais adaptada às prescrições da empresa, com ênfase no indivíduo e na diversidade. Já os homens continuam apostando na consistência e na flexibilidade como atributos desejáveis, tanto em uma gestão masculina quanto em uma gestão feminina.

Uma das nossas hipóteses iniciais era de que os profissionais que atuam fora das empresas (fora de uma relação de emprego) tenderiam a utilizar mais conteúdos estereotipados, segundo as teses levantadas a partir dos estudos de Kruse e Wintermantel (1986) que fizeram a constatação de que, em algumas situações metodológicas específicas (pesquisas em laboratório, ou com estudantes, por exemplo), em que os participantes não têm a vivência concreta da situação que está sendo objeto de estudo (no caso, a liderança), as diferenças baseadas em estereótipos tendem a ficar mais evidentes, até mesmo exageradas. Porém, esta hipótese não foi confirmada em nosso estudo. Quando comparamos as respostas dos profissionais das duas empresas com as dos estudantes, verificamos que, ao contrário, existem nos dois grupos respostas de conteúdo ideológico, de estereótipos de gênero que, inclusive, chegam a predominar entre os profissionais empregados quando comparam a gestão masculina com a feminina.

Sobretudo as estudantes mulheres valorizam a flexibilidade e a consistência como estilos predominantes entre as gerentes do sexo feminino. No entanto,

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quando pedimos para os participantes refletirem sobre as expectativas de mudança para o estilo de gestão dessas gerentes a situação é um pouco diferente: os profissionais dos dois sexos voltam a lembrar principalmente da flexibilidade e da consistência como elementos de mudança, de maior eficácia para a gestão das mulheres, enquanto que os estudantes encaminham as expectativas na direção de um estilo autônomo de gestão. Podemos concluir dessas respostas que estereótipos e ideologias de gênero estão bastante disseminados na cultura, fazendo parte das representações que circulam nos diferentes espaços, profissionais, acadêmicos e da vida privada, e não dependem de um respaldo institucional.

Por último, queríamos identificar as imagens construídas e compartilhadas pelas próprias mulheres (estudantes e profissionais de empresas) e também pelos homens (estudantes e profissionais de empresas) das gerentes do sexo feminino. Os homens representam as mulheres executivas como possuidoras de um estilo flexível e consistente. Já as mulheres se vêem como consistentes, flexíveis e adaptadas ao poder hierárquico e às normas das empresas. Esses resultados parecem indicar a importância do discurso social feminista posto em debate justamente pelos que trabalham na empresa do setor privado (B), quando foi negado pelos que têm vínculos profissionais com a empresa do setor público (A). Além disso, na empresa privada, seguindo uma tendência moderna de gestão de recursos humanos, observamos maior presença de representações da mulher executiva em posição de negociadora (flexibilidade), ao mesmo tempo que também enfatizam a dimensão individual/psicológica como um diferencial importante das mulheres executivas.

Assim, as mulheres buscam afirmar-se no espaço profissional a partir da resolução do dilema entre assumir um papel diferente daqueles tradicionalmente atribuídos a elas, mantendo contudo suas particularidades e singularidades, alcançando reconhecimento por seus valores individuais. O próprio movimento feminista tem encaminhado a reflexão sobre a construção e a afirmação das identidades em um plano de alteridade e diferença, não mais como uma oposição binária. Hoje já esta consolidada a idéia de que a desigualdade ultrapassa a

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diferença entre os sexos, e que inclui relações de complementaridade e interdependência social além de uma dimensão política. Nas palavras de Jane Almeida (2000),

O pensamento feminista dos anos 90 constata que a superação de um sistema de desigualdades não se alcança somente pelo fato de que o considerado inferior obtenha os direitos e ocupe as mesmas posições do superior. Numa ordem democrática não se eliminam os desequilíbrios e os mecanismos de dominação de forma tão simplificada, dado que direitos e privilégios para uns significam os não-direitos de outros, conforme demonstra o modelo de sociedade erigido em bases capitalistas. A perspectiva feminina permite, por parte das mulheres, a apropriação de urna consciência crítica e política que as mobilize para levar à apreensão de que as desigualdades só serão superadas se forem abolidas as divisões sociais de gênero, classe e raça, numa sociedade assentada sobre bases igualitárias.

Não podemos deixar de registrar que, apesar de existirem setores de atividade profissional que historicamente modelaram uma divisão sexual do trabalho 13 em que alguns cargos e funções passaram a ser “naturalmente” destinados às mulheres – por envolverem tarefas e funções de cuidado e afeto –

13 Segundo Eleonora de Oliveira (1999), já na Grécia antiga existia uma marcada divisão sexual do trabalho; tanto as mulheres consideradas livres como as escravas eram responsáveis pela manutenção das atividades referentes ao espaço doméstico, como a comida dos homens, o cuidado das crianças, a busca da água e a lavagem das roupas (p. 59). Por sua vez, a historiadora francesa Michelle Perrot acrescenta que, entre as classes populares urbanas da Europa do século XIX, a figura da dona de casa já despontava como personagem maior e

majoritária. “Majoritária porque consiste na condição da maioria das mulheres que vivem maritalmente, casadas ou não, sendo o casamento o estado civil mais geral

Polivalente, a dona de

casa é investida de múltiplas funções. Em primeiro lugar, dar à luz e cuidar das

crianças, ainda muito numerosas nas famílias operárias, que são as últimas a limitar o nascimento de filhos. A mulher do artesão e a pequena comerciante deixam os filhos com a ama-de-leite, mas as mais pobres amamamentam

Segunda função: atender a família, com os 'serviços

da casa' que abrangem as mais variadas coisas: procurar o melhor preço dos

Por fim, a dona de casa se

esforça em trazer para a família uns 'trocados', obtidos principalmente com tarefas domésticas: faxinas e lavagens de roupa, sistematicamente cumpridas

Gradualmente, sobretudo no último terço do

século XIX, o trabalho domiciliar, no âmbito de uma indústria de confecção dividida e racionalizada, canaliza essa imensa força de trabalho das mulheres em casa” (Perrot, 1987, p. 143-144).

e normativo, principalmente quando elas têm filhos. [

]

pessoalmente os bebês. [

]

alimentos, por compra, troca ou até 'coleta' [

pelas 'lavadeiras por peça'. [

]

]

76

sendo “vetados”, em contrapartida, aos homens, a globalização da produção, com sua difusão e expansão pelo território, tende cada vez mais a embaralhar e diluir esses códigos de divisão binária (homem/mulher, feminino/masculino), fazendo com que a produção hoje seja principalmente biopolítica 14 .

O filósofo italiano Antonio Negri (2001), considera a este respeito que a produção na economia mundializada pós-moderna se faz por comando, um comando global que desfaz as divisões internacionais, territoriais e também sexuais:

Há trabalho demais, porque todos trabalham e porque todos contribuem para a construção da riqueza social. Essa riqueza nasce da comunicação, da circulação e da capacidade de

coordenar os esforços de cada um. [

riqueza é assegurada hoje por uma comunidade biopolítica (o

A produção da

]

trabalho daqueles que têm um emprego, mas também o trabalho dos estudantes, das mulheres, de todos os que

contribuem para a produção da afetividade, da sensibilidade,

dos modos de semiotização da subjetividade) [ cit., p. 25).

(Negri, op.

]

Negri refere-se a um processo de trabalho que é considerado em termos mais amplos, que ultrapassam os limites das empresas ou fábricas como nos tempos fordistas; esta é uma tendência contemporânea (pós-fordista) que precisa ser assinalada e levada em conta nas pesquisas que tenham como objeto de estudo as relações produzidas e configuradas nos domínios do trabalho e da produção – seja produção de bens materiais, tangíveis, ou de elementos imateriais, os afetos, os encontros, as relações, a subjetividade, que são incomensuráveis e, portanto, não podem ser avaliados da mesma maneira que

14 Biopolítica é o termo forjado por Foucault para designar uma das modalidades de exercício do poder. Refere-se ao conjunto dos mecanismos pelos quais aquilo que constitui as condições mais elementares da vida humana (nascimento, saúde, segurança, questões de raça etc.) entra em uma estratégia política. São estratégias políticas que dizem respeito à vida das populações, ao ser humano não como indivíduo, mas como espécie. Assim, a espécie passa a ser vista como o meio ambiente (milieu) da política. Segundo a filósofa Judith Revel (2007), no início dos anos 70 Foucault falava indistintamente de biopoder – o poder sobre a vida como espécie – e biopolítica. Mas finalmente teve que distingui-los: enquanto o biopoder é efetivamente o poder sobre a vida, a biopolítica é sobretudo a resposta resistente da vida diante deste poder.

77

no fordismo.

De acordo com a perspectiva de Negri, está em curso um processo de feminização do trabalho, por ele denominada “o devir-mulher 15 do trabalho”, um novo marco conceitual para se pensar as relações entre homens e mulheres e a produção de subjetividade, em todos os espaços onde estas relações se entretecem e são construídas. Suas considerações reforçam nossa convicção de que, apesar de alguns resquícios de uma histórica dominação masculina poderem ainda ser identificados na nossa cultura ocidental – uma cultura androcêntrica, como defende Bourdieu (1999) – a relação de dominação só existe onde há possibilidade de resistência e estratégias de subversão, como nos ensinou Foucault.

Uma das questões que apresentamos ao início deste trabalho refere-se ao que fazer, quais os instrumentos e quais os caminhos que podem levar a transformar uma situação que ainda é de dissimetria e desigualdade entre homens e mulheres. Uma possibilidade seria a educação e a mobilização política, como propõem Henry Tajfel (1978) e Collette Guillaumin (1992). Mas torna-se também necessária uma mudança de paradigma, um deslocamento, que permita enfatizar o papel ativo e a responsabilidade da mulher como sujeito/agente desta mudança.

15 A proposição de Negri de um devir-mulher do trabalho está ancorada no conceito de devir, um dos conceitos mais complexos e importantes na obra dos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari. O devir é da ordem da produção e do desejo “é o conteúdo próprio do desejo (máquinas desejantes ou agenciamentos): desejar é passar por devires” (Zourabichvili, 2004, p. 48). O devir diz respeito a encontros e alianças entre dois termos diferentes que não se reduzem à semelhança. Não é imitar, não é se tornar outra coisa, não é parecer com esta outra coisa; é antes a potência da afetar e ser afetado que transforma reciprocamente os termos que se encontraram. Sendo os devires agenciamentos, Deleuze e Guattari dizem que podemos pensar em uma “política dos devires”, ou seja, agenciamentos que não são os das formações majoritárias: família, religião ou Estado; referem-se antes aos grupos minoritários, oprimidos, revoltados, que estão à margem das instituições, anômicos. Os devires possuem, além disso, uma relação privilegiada com a feminilidade (devir-mulher), com a infância (devir-criança), ou com instâncias consideradas minoritárias (devir-judeu, devir-negro), porque possibilitam relações que “fazem fugir” uma situação constituída de dicotomias binárias (homem-mulher, adulto-criança, branco-negro, branco-indio) definida pelo macho adulto branco.

78

5

Anexos

79

Anexo I

Socialite linha dura

Executiva do Banco X, VN administra R$ 3,8 bi, comanda com mão de ferro uma equipe feminina que raramente sai para almoçar, faz rodízio para engravidar e ainda tem que ser chique.

Quem conhece VN das colunas sociais nem de longe imagina o que está por trás daquela silhueta de madame. Badalações à parte, a moça, de 32 anos, dirige com mãos de ferro a empresa de

administração de recursos do Banco X no Brasil. E põe mãos de ferro nisso: a equipe de cinco mulheres que comanda

no Rio é obrigada a conviver com regras

que deixariam muito ditador de cabelo em pé. As meninas têm que chegar ao escritório às 8h em ponto, arrumadérrimas, penteadérrimas e com

os jornais lidos. Só vão embora depois

das 20h. Raramente saem para almoçar. Caso engravidem, só gozarão de um mês

de licença maternidade (o combinado é

que, depois, um motoboy fará o transporte do leite). E ainda precisam respeitar a ordem de um rodízio criado

para evitar mais de uma baixa ao mesmo tempo: o direito de ter filhos primeiro é

da mais velha. APM, 34 anos, OAM, 28,

AB, 25, F13, 24 e P, 23, comem o pão

que o diabo amassou porque sabem que

o futuro se anuncia cor-de-rosa. A

Isabel de Luca

empresa, criada em janeiro de 1998, quando o Banco X adquiriu o controle do Banco Y, só faz crescer. Hoje, cuida de R$ 3,8 bilhões de terceiros (3 mil clientes, ao todo). Entre os bancos que não têm agências, é o maior em termos de volume administrado. “E olha que começamos do zero mesmo”, engrena VN, que confirma a previsão das meninas: “Quem quiser ficar aqui tem que dar o sangue, mas vai ganhar dinheiro”. Fora o salário, que é o da média do mercado, elas ganham bônus semestrais, que dependem do lucro obtido. E o lucro, ao seu ver, vem do esforço. Esforço e resignação. Raros são os dias em que nenhuma das funcionárias sai correndo aos prantos para o banheiro, depois de levar uma bronca da impiedosa chefe. “Se alguém chorou, chorou. Eu nem tomo conhecimento”, esquiva-se a própria. “Sou rígida mesmo, exijo muito”. As meninas que o digam. Outro dia, O deu com a cabeça num poste da Rua do Carmo, no Centro, porque

80

tentava decorar um emaranhado de números enquanto caminhava para o escritório, onde seria sabatinada. “Volta e meia ela marca uma argüição, para ver se a gente sabe tudo sobre os fundos que administra”, conta a funcionária. “A gente lida com a parte do corpo que as pessoas mais sentem: o bolso. A responsabilidade é grande, a equipe tem que estar preparada”, justifica V.

A moça é osso duro de roer. Fruto da

união de um alemão dono de empresa de

construções, e de uma alagoana, foi criada como filha única, em um apartamento no Jardim de Alá. Tem quatro meio-irmãs bem mais velhas, do primeiro casamento do pai, mas não chegou a morar com elas. Estudou em

bons colégios – GIMK e Santo Agostinho

– e sempre aproveitou as férias para

ganhar uns trocados. “Desde pequena só sabia que queria trabalhar e ganhar dinheiro”, resume.

“Quem quiser ficar aqui tem que dar o sangue, mas vai ganhar dinheiro”

Por isso, já na faculdade, trocou a dupla jornada dos cursos de Engenharia na PUC e Medicina na UERJ pelas aulas de Economia na Cândido Mendes. Em seguida, começou a trabalhar como estagiária do Banco Z. Foi contratada em seis meses, mas pouco tempo depois

esvaziou as gavetas e se mandou para o Banco W, onde conheceu o atual diretor geral da empresa, JAL. Apesar da vida atribulada, V guarda a sete chaves um leve quê romântico. Só saiu da casa dos pais no ano passado, para se casar com CR, assessor do diretor geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP, David Zylberstejn). A festa, no Parque Lage, foi de arromba. Hoje, o casal mora na Lagoa, mas

raramente consegue ficar em paz

passa dois dias por semana em São Paulo, cuidando da equipe que fica por lá. É na paulicéia, aliás, que a executiva consegue arrumar tempo para fazer as unhas. “Sempre dou uma passada no shopping Iguatemi, onde sou cliente de um cabeleireiro que só fecha às 22h”, comemora. O marido acompanha a correria meio de longe: “Em casa ela é bem calma. Só sei de seu nervosismo no dia-a-dia pelo que dizem as pessoas que trabalham com ela”, arrisca. V pode ser um doce na intimidade, mas o fato é que vida pessoal ali passou longe. O primeiro – e único – filho está planejado para daqui a cinco anos. Festas e jantares têm ficado cada vez mais para os fins de semana. Nos dias úteis, ela acorda religiosamente às 5h45

V

para correr na Lagoa. São oito quilômetros por dia, que servem de

81

treino para as maratonas de que participa. “Em dias de chuva, faço meu cooper na Estação do Corpo”, conta. Quando termina seus exercícios, V toma uma chuveirada, calça um de seus inúmeros sapatinhos Ferragamo e sai para o trabalho. De táxi. “Aboli meu carro. Prefiro aproveitar o tempo das viagens para ler jornal ou ligar para uma amiga”. Há duas semanas, o porteiro do prédio precisou interfonar avisando que dois pneus de seu Passat estavam arriados há dias. No escritório, V é sempre a primeira a chegar e a última a sair. “Ela gosta de dar exemplo, já passou oito anos sem férias. Eu fui a primeira a vir trabalhar com ela e aprendi a respeitar sua

rigidez”, pondera O. A chefona não é mesmo de todo má. No dia do aniversário de AP, por exemplo, fez questão de patrocinar um almoço à base de sushi - mas na própria mesa de trabalho. A funcionária que consegue captar mais dinheiro no mês ganha prêmios como pashminas e relógios da Nike. Tudo para que elas se dediquem mais e mais ao trabalho. “Vivo dizendo que as meninas têm que escolher entre namorar e casar ou ganhar dinheiro. Eu, particularmente, acho que o importante é ser independente”, conclui V. Que abre um sorriso e arremata: “Como eu. Ninguém sabe quanto eu ganho, nem

nunca vai saber”

82

Anexo II – Opinião dos Leitores na íntegra

1) Condições de Produção

2) Gênero

Espontânea Solicitada Masculino Feminino
Espontânea
Solicitada
Masculino
Feminino

Cartas de Leitores à Revista Domingo,

seção “llustríssirno Domingo”.

Os participantes foram solicitados a ler a

reportagem e a expressar por escrito sua opinião.

3) Categorias Temáticas

A1 Políticas Ideologias A2 Econômicas A3 Psicológicas B1 Papéis sociais B2 Particularismos da mulher
A1
Políticas
Ideologias
A2
Econômicas
A3
Psicológicas
B1
Papéis sociais
B2
Particularismos da mulher
(maternidade, cuidado e educação dos
filhos, etc.)
Desvio à norma
B3 Afirmação/feminismo
B4
No trabalho
CI
Indivíduo
C2
C3
Indivíduo como entidade
separada/autônoma/distinta
Indivíduo em situação intergrupal
(valores partilhados no grupo)
Indivíduo em comparação com outros
D1
Religioso
D2
Trabalho
O sujeito por
ele mesmo
D3
Política
D4
Psicológico/Individual
D5
Civil

M.B., Sexo Feminino, Grupo 1 – 17/09/2000

Fiquei chocada (D4) / com as declarações dessa moça (C1) Filhos? (B1) / Certamente para ela (C1) / o ideal ser a comprá-los prontos (B2) / Imagine amamentar, (B1) educar, (B1) / ensinar a amar (B1) / e a respeitar o próximo (C2) / Tudo muito cansativo (B2) / para quem põe dinheiro como meta principal de vida (B2) / A moeda que norteia sua vida (C1) / não forma caráter (C2) / nem faz uma criança feliz (B1) / Filhos órfãos de pais vivos (B2) / são um problema para a sociedade (C2).

83

C.T. Sexo Masculino, Grupo 1 – 17/09/2000

Fraulein (AI) / permita-me destacar alguns trechos da reportagem que me levaram a ter novamente esperanças (D4) / destes novos tempos (A2) / A combinação perfeita de disciplina e firmeza (C2) / com que a senhora organiza a produção (C1) / e, principalmente, o exemplo que sua conduta inspirará em nossos jovens (B3) / resultará

em beneficios para o país (A2) / Ao organizar o transporte do leite (B4) / a senhora deu mostras de coragem (C1) / pois não se deixou levar (C1) / por sentimentalismos (A3) / que certamente considerariam importante a presença da mãe junto dos filhos (B1) / no momento da amamentação (B4) / Sub-humanos (A1) / estão autorizados a procriar (B1)

/ desde que isso não atrapalhe a produção (A2) / Soberbo. (D4) / Termino por aqui. Que

não seja eu o motivo de algum atraso (B4) / na verdadeira devoção (A3) / com que a senhora conduz sua missão (C3) / Esteja certa, Fraulein (A1) / da admiração (C2) / que a senhora nos inspira (D4).

M. R., Sexo Feminino, Grupo 1 – 17/09/2000

Sou assinante do JB (D3) / por considerar sua linha editorial de vanguarda (D3) / que denuncia práticas ditatoriais, (A1) / critica medidas antidemocráticas (A1) / e apresenta matérias inteligentes e criativas (A3) / No entanto, a matéria Socialite Linha Dura, em vez de denunciar a mão de ferro (A1) / a coloca como modelo de sucesso (A2) / Apesar de VN (C1) / ser uma executiva jovem (B2) / e que teve oportunidades de ser profissional atualizada (B4) / com as práticas de gestão participativa, (B4) / aplica uma linha escravocrata (B4) / Como profissional de recursos humanos (D2) / repudio tal atitude (D4) / O capital intelectual é o valor das organizações (A2) / Pessoas reprimidas, com medo do chefe (A2) / não agregam nada à empresa (A2) / E tem mais, assédio moral dá processo na justiça. (A1)

E.T., Sexo Masculino, Grupo 1 – 24/09/2000

Muito bem, V! (C1) / Estas pessoas precisam ser avisadas (A3) / de que o mundo mudou (A3) / e também que existe muito mais gente pensando como você (C3) / do que eles possam imaginar! (A3) / Estou contigo! (D4)

L.C.G., Sexo Feminino, Grupo 1– 24/09/2000

Ótima a sátira feita na reportagem da administradora linha dura (D4) / Decerto a moça conhece (C1) / formas modernas de conduzir pessoal (A2) / sem ter que usar suas ferraduras. Perdão, quis dizer seus sapatos Ferragamo (B4) / Apenas um alerta às meninas que se deixam levar por contas bancárias (B2) / Um dia, vocês terão contas lotadas de verdinhas (A2) / e seus filhos poderão chamar motoboys de mamãezinha

(B2).

A.T.C., Sexo Feminino, Grupo 1 – 24/09/2000

Hitler de saias, é assim que deveria se chamar a reportagem Socialite Linha Dura. (A1) / É deprimente a constatação (D4) / do que as pessoas se sujeitam (A3) / por dinheiro (A2) / Me coloquei no lugar das funcionárias (D2) / da tal socialite (C1) / e me senti como um cachorrinho que ganha um biscoitinho cada vez que faz uma boa ação (D4) / Acordem meninas e se valorizem! (D2)

84

C.M., Sexo Feminino, Grupo 1 – 24/09/2000

Estou indignada corri a reportagern (D4) / sobre essa executiva. (C1I) / Ela se diz rígida (C1I) / mas o que faz com as funcionárias tem outro nome: (B4) / escravizar (B4) /

Rigidez é algo diferente de ditadura e autoritarismo (A3) / O verdadeiro líder, aquele com

a visão do século 21, (A2) / não precisa se impor pela força, e sim pelo respeito (A3)

P.B., Sexo Feminino, Grupo 1 – 24/09/2000

Lamento que um jornal como o JB (D3) / faça reportagens sobre mulheres que atuam no mercado de forma subdesenvolvida (B3) / machista, (B3) / pré-histórica, (B3) / e, por que não dizer, cretina (B3) / Não se pode admirar (C2) / alguém que dedique 20 minutos por dia para fazer bilu-bilu nos filhos (B2) / Nem homens, nem mulheres (C3).

R.G.T., Sexo Masculino, Grupo 1 – 24/09/2000

Só tem uma coisa que me intriga: (D4) / quando funcionário vai chorar no banheiro (A3)

/ não é pelo excesso de trabalho (A3) / geralmente, é por falta de respeito (A3) / o que geralmente acontece quando o chefe é inseguro (B4).

C.J.P.C.G., Sexo Masculino, Grupo 1 – 24/09/2000

Em pleno ano 2000, ainda existem chefes (A3) / como VN. (C1) / Um excelente exemplo (C2) / de como não se deve chefiar (B4).

C.E.B., Sexo Masculino, Grupo 1 – 24/09/2000

Achei ridículo (D4) / VN (CI) / se vangloriar de suas arbitrariedades. (C1) / O setor da executiva (A2) / é um prato cheio para fiscais do Ministério do Trabalho (A2) / e ações na justiça. (A2) / Espero que as gratificações valham a pena (A2) / para Ana (C1) / Olga, (C1) / Alessandra (C 1) / Flávia (C 1) / e Júlia (C 1) / jogarem a juventude no lixo (C2) / para satisfazer a vaidade (C3) / da senhora VN (C1).

A.P.M., Sexo Feminino, Grupo 1 – 01/10/2000

Gostaria de me manifestar com relação à reportagem Socialite Linha Dura, (D4) / que não condiz com a realidade. (D2) / Acho um atentado à minha inteligência (D4) / e

/

dignidade (D4) / considerarem a reportagem como verdade absoluta (

Atingiram (A3) / não só minha imagem profissional e da equipe, (D2) / como colocaram

em julgamento, sem conhecimento de causa, (A3) / meus valores e meu caráter. (D4) /

Trabalho no Banco X há um ano e meio, e sou casada. (D5) / Se não tive filhos (

/ foi por escolha minha (D4) / e de meu marido (D5) / e não por condições pré-

estabelecidas por quem quer que seja. (B4) / E receberei apoio (D4) / de VN (CI) / e da

instituição onde trabalho (D2) quando decidir tê-los. (B1)

)

(A3)

) (BI)

M.F.S., Sexo Masculino, Grupo 1 – 01/10/2000

Qualquer ação trabalhista contra a empresa (A2) / onde esta jovem rainha da cocada preta trabalha (B2) / é causa líquida e certa para o trabalhador. (AI) / Uma pena (D4) / que esta senhora (C1) / não tenha aprendido (C2) / a tratar seus semelhantes. (C2)

85

S. F., Sexo Feminino, Grupo 1 – 01/10/2000

Li a reportagem, havia acabado de chegar de férias (D2) / porque, graças a Deus (D1) /

não trabalho (D2) para VN. (C1) / Agradeço por não fazer parte (D3) / do campo de

concentração (A1) / da VN.(C1)

E.M., Sexo Masculino, Grupo 1 – 01/10/2000

Lamentável! (D4) / Coitadas das funcionárias que têm que trabalhar com um (B4) / carrasco frio, (A3) / que só tem cifras na cabeça. (A2)

A.S., Sexo Feminino, Grupo 1 – 01/10/2000

VN certamente ganha bem mais (C3) / do que suas escravas (A2) / e deve ter situações de poder mal resolvidas, (C2) / que estão sendo liberadas através do seu sadismo. (B4) / Se a reportagem foi paga pelo banco, (B4) / não acho ter sido a melhor maneira de promover sua área de investimentos. (B4) / Se foi paga pelo Cesar Ramos para promover o casal, (D5) / pode ser que tenha causado frisson entre os amigos endinheirados. (C2) / Esta senhora (C1) / gere sua área como (B4) / uma discípula de Hitler. (C2)

M.A.M., Sexo Feminino, Grupo 1 – 01/10/2000

Num país em que juízes e políticos estão envolvidos em escândalos, (A1) / será que devemos fechar também nossos olhos ao que as empresas fazem? (A2)

C.E.M., Sexo Masculino, Grupo 1 – 01/10/2000

Socialite (A3) / capitalista (A2) / e

reportagem (A3) / O que ela faz (C1) / é ilegal (C2) / mas, claro, bem neoliberal. (A2)

selvagem. (C3) / Esse devia

ser

o título

da

M.C.S., Sexo Feminino, 40 anos, Grupo 2

Esta reportagem ilustra bem o perfeccionismo, (B3) / seriedade, (B3) / e força de uma mulher no poder. (B3) / Ela pensa nos mínimos detalhes, (C1) / para que a equipe esteja bem preparada, (B4) / e a qualidade dos serviços seja a melhor possível, (B4) / além do fato de estar sempre com a "mão na massa". (C1) / Por outro lado, me parece (D2) / uma mulher que faz tudo como quer, (se) / tudo calculado (B2) / e consegue se satisfazer com este modelo de vida, (C2) / mas não permite a mesma liberdade aos que

a cercam (B4) / com suas exigências e dureza (B4) / que, para mim beiram o exagero.

(D4) / Eu, por exemplo, jamais trocaria dinheiro e sucesso por equilíbrio e calor humano. (D4) / Acho terrível viver sem tempo para si (D4) / sem equilibrar o dia-a-dia (D4) / com atividades prazerosas, (D2) / ou sob constante pressão, medo e frustração. (D2) / Acho que a mulher tem excelentes qualidades (B3) / para dirigir e realizar grandes empreendimentos (B2) / exatamente pelo "toque feminino" (B1) / da sensibilidade (B1) /

e intuição, (B1) / tolerância, (13 1) / e equilíbrio. (B1) / Não é necessário viver um papel

masculino para se dar bem (B3)

86

N.A.M. Sexo feminino, 71 anos, Grupo 2

A uma leitura simplista o texto louva uma personalidade (C1) / e mostra que a mulher

pode vencer (B3) num mundo tradicionalmente masculino. (B2) / A uma leitura fenomenológica, quase husserliana, o texto se revela bastante machista (B3) / pois não só as atitudes e valores perseguidos pela protagonista são tradicionalmente estereótipos machistas (B2) / como as posturas axiológicas não evidenciam uma "profissionalidade". (B4) / Chorar no banheiro, (B1) / compensar com "pashminas" (B4) / são modelos pobres para equiparação laboral. (B4) / Tais referências, se não diminuem os méritos da pessoa de que trata o texto, não lhe conferem uma solidez profissional. (C1) / O texto focaliza uma camada social privilegiada, (A2) / enquanto centenas (ou milhares) de mulheres enfrentam desafios semelhantes (B1) / e voltam para casa em transportes populares, (B1) / cuidam de filhos pequenos, (B1) / (não fizeram rodízio para engravidar) (B2) / e respondem pela sobrevivência de familiares. (B1) / A favor do texto

fica a dureza do mundo profissional para a mulher (B4) / que, além de tudo, deve ser bonita (limitações genéticas), (B1) / chique (B1) / e charmosa (limitações outras). (B1) /

É bem feito, parabéns a VN e suas comandadas (B4) / mas, por favor, se tiverem que

chorar (B1) / que seja em dia e hora marcada, e em local mais inspirador do que o

banheiro. (D2)

C.V., Sexo Feminino, 25 anos, Grupo 2

Acredito que a rigidez conviva com um sentimentalismo oculto. (C1) / A mesma tendência que VN demonstra ter (C1) / para o radicalismo (D4) / deve ser encontrada também para a flexibilidade. (D4) / A independência reafirmada no texto (B2) / confunde-se com o romantismo de uma cerimônia de casamento tradicional. (B1) / Acho que o segredo do sucesso (A3) / do ser humano VN (B1) / seria conseguir estabelecer uma aliança entre essa ambigüidade (A3)

O.G.P., Sexo Feminino, 70 anos, Grupo 2

Ao ler a reportagem fiquei chocada (D4) / com a insensibilidade de VN. (C1) / Em que pese seu sucesso pessoal, (Cl) / ela utiliza (Al) / meios e formas (A2) / que demonstram desrespeito pelas suas funcionárias, (B4) / negando-lhes, inclusive, direitos adquiridos (licença maternidade, férias) (B4) / chegando mesmo a interferir na vida pessoal de cada uma (B2) / (gravidez programada por ela?) (C1) / Se ela (C1) / como chefe é "osso duro de roer" (B4) / "osso duro de roer" (ou de engolir) é sua postura como ser humano. (A3) / Fiquei simplesmente chocada! (D4) / Indignada! (D4)

A.M.C., Sexo Feminino, 38 anos, Grupo 2

Essa foi a impressão geral (D4) / deste relato de vida, (C1) / a meu ver (D4) / uma postura bem exagerada (C1) / e desrespeitosa consigo mesma. (C1) / Afinal, falamos de uma pessoa, (C1) / um ser humano (A3) / que, por um lado mostra-se impecável, (C1) / numa postura racional (C1) / por outro, percebe-se déficit nos aspectos afetivos (C1) / e emocionais. (C1) / Mesmo um certo desprezo desses aspectos (C2) / integrantes de um ser que, no mínimo (C1) / busca o equilíbrio e a integridade. (C2) / No entanto, não deixo de felicitar a entrevistada (D4) / pelo caráter determinado (C1) / e o seu poder (C1) / de realizar e liderar. (C1)

87

P.H., Sexo Feminino, 44 anos, Grupo 2

Questiono (D2) / se essas mulheres fizeram uma escolha bem informada ao aceitar o emprego. (B4) / Essa história de seguir a carreira a qualquer preço, (A2) / e elas parecem que pagam um bem alto, (B4) / vai na contramão das últimas tendências de mercado. (A2) / O desejável são pessoas com uma vida equilibrada entre pessoal e

profissional. (A3) / Empregados satisfeitos são mais produtivos e fiéis às empresas. (A2)

/ Problemas de saúde relacionados a stress no final são custosos às empresas. (A2) / Se

eles não querem (A2) / que as mulheres se afastem do trabalho por causa da gravidez, (B1) / por que não empregam alguns homens também? (B2) / Isso diminuiria o problema. (B1) / Talvez encarecesse a mão de obra. (A2) / A empresa está violando os direitos legais das mulheres. (B1) / Estilo de chefia que leva empregados às lágrimas (B4) / deveria ser no mínimo questionado. (A2) / As mais modernas tendências defendem um bom ambiente de trabalho, (A2) / onde as pessoas se sintam respeitadas e valorizadas. (A3) / O regime de escravidão acabou há muito tempo. (A2)

C.E.S., Sexo Masculino, 42 anos, Grupo 2

Admiro (D4) / pessoas que se dedicam (A3) / e são persistentes no que fazem. (A3) / Admiro-as pela força que elas impulsionam e as fazem competitivas. (C2) / Eu sou competitivo, (D2) / e hoje muitas empresas pregam que só o trabalho em equipe dá certo. (A2) / Propagam isto, mas, no fundo o que há é uma silenciosa "guerra" competitiva (A2) / por trás de máscaras ou personas. (A3) / Por vezes chego a invejar (D4) / pessoas jovens e dinâmicas, que atingiram sucesso profissional e financeiro rapidamente, (A3) / mesmo não sendo as mais inteligentes, (A3) / ou mais cultas (A3) / ou de terem sido os melhores alunos. (C3) / Conheço inúmeras assim. Não as invejo, (D4) / pelo contrário, por me saber inteligente, (D4) / culto, (D4) / de ter sido um ótimo estudante, (D4) / e de, como estas pessoas, ser persistente e possuidor de constância de

propósito. (D4) / No entanto, acredito que a vida é para ser vivida e aproveitada com prazer. (D4) / Isto inclui não se matar de trabalhar, ter todos os fins de semana, feriados e férias possíveis. (A3) / Se o sucesso e o dinheiro vêm de muito trabalho e esforço, (A2)

/ há que se ter o tempo para este trabalho e esforço, (A2) / assim como para a família,

(B1) / para o amor e para o lazer. (A3) / Ganhar, ganhar, ganhar e não usufruir deste ganho (A3) / demonstra que, por vezes, estas pessoas fanáticas por trabalho (A3) / podem estar fugindo da vida, (A3) / de outras responsabilidades (família, (B1) / filhos etc. ( B1), / ou de si mesmas. (A3) / Creio que ter sucesso, poder e riqueza (D4) / são objetivos comuns da maioria das pessoas, (C2) / por significarem segurança, prazer e liberdade. (A3) / Muitas pessoas são como VN (C3) / que, aos 32 anos já ficou 8 sem tirar férias, (B4) / e trabalham 12 ou mais horas por dia, (B4) / não tendo fins de semana, nem feriados (B4) / conhecendo só o trabalho e, por vezes, só aquele trabalho. (B4) / Não viajam, não se divertem, têm tudo do bom e do melhor, mas, nem sempre têm tempo de usufruir de um quadro, uma pintura, uma escultura, ou uma boa música, (A3) / ou do amor, (A3) / da família, (B1) / do carinho de um filho. (B1) / Simplesmente porque o trabalho é tudo, é o mais importante (B4) / e não há tempo a perder com coisas comuns. (B4) / A música, o quadro, o livro, os filhos, a família podem esperar para depois que todos objetivos e toda a riqueza tiver sido alcançada. (B4) / Mas, não há limites para os objetivos, (A3) / e riquezas sempre queremos mais. (A2) / Eu, particularmente, prefiro colocar em equilíbrio (D4) / o modo de viver, ou seja, trabalhar com afinco, dedicação, buscar novos desafios, obter ganhos e, nos períodos oportunos, ter férias, fins de semana e feriados, usufruir dos ganhos auferidos. (D4) / 0 trabalho não é um fim, deve ser o meio para uma vida melhor. (A3) / Muitas pessoas de questionável sucesso passam anos sem tirar férias (A2) / ganham dinheiro (A2) / não se

88

casam ou simplesmente se unem (A3) / não têm filhos (A3) / e quando chegam aos 50 ou antes, têm o dissabor de não ter conhecido o inverno francês ou o verão em uma praia paradisíaca. (A2) / Às vezes levam um pé no traseiro, após 30 anos de dedicação, e sofrem (A3) / ao ver que não são insubstituíveis. (A2) / Estou com 42 anos e já usufrui de tudo isto e muito mais. (D4) / Também sei que não sou insubstituível. (D2) / Viver é, definitivamente, muito mais do que só trabalhar. (A3)

C.E.C. Sexo Masculino, 41 anos, Grupo 2

Dois aspectos me chamaram a atenção na reportagem. (D4) / Um deles, mais cruel (A3) / representado pela linha-dura da executiva, (B4) / traduz o lado mais obscuro do processo de globalização. (A2) O que importa agora é a eficiência (A2) / o resultado alcançado a qualquer preço, (A2) / não importando as realidades culturais e sociais do local em que se vive. (A2) / 0 modelo que vem inundando o inundo, (A2) / afoga todas as aspirações de uma via alternativa de desenvolvimento, (A2) / se impõe como verdade absoluta e única, (A3) relegando à insignificância (A2) / todo aquele que não se enquadre dentro do padrão estabelecido. (C2) Levar em consideração aspectos pessoais é considerado crime imperdoável, (A3) / verdadeira ofensa ao Deus-Todo-Poderoso, (A2) / conhecido com o nome MERCADO. (A2) / Invertendo-se valores, (A3) / o bem estar do ser humano deixa de ser o grande objetivo a ser alcançado. (A3) / Acena-se com prêmios de consolação: (A2) / transforma-te numa máquina eficiente (A1) / e poderás ter os símbolos de status da moda. (A2) / O segundo aspecto, que agrava ainda mais o primeiro, tem a ver com a perda da identidade feminina. (B1) / Tendo como suporte o discurso feminista de tempos passados (B3) / que trouxe grandes avanços para a vida de homens e mulheres, (B3) / poderíamos argumentar que o estereótipo da mulher frágil e delicada (B1) / só atendia à conveniência dos homens (B3) / e que a mulher pode e deve exercer as mesmas funções que têm sido historicamente reservadas aos homens. (B3) / O padrão adotado por nossa executiva (C1) / desconsidera todas as particularidades da condição feminina (B1) / e da própria condição humana de suas parceiras. (B4) / O padrão adotado é de um ser assexuado (B2) / sem emoções, (B2) / e, principalmente, prisioneiro (escravo) do sistema. (A2) / No mundo globalizado os escravos só se diferem dos antigos por serem muito bem remunerados. (A2) / Para as mulheres é preciso abrir mão de sua condição feminina, (B1) / e dos direitos e prazeres inerentes a esta condição. (B1) / O "parto rodízio" chega às raias do ridículo (B2) / e demonstra o que são capazes de fazer para não serem excluídas do que consideram um futuro "cor de rosa". (B1)

A.C. sexo masculino, 33 anos, Grupo 2

VN, (C1) / um exemplar protótipo de mulher-robô, (B2) / criada pelo neocapitalismo. (A2) / Ela (C1) e o "exército" de meninas, (B2) / talvez um dia se dêem conta que ganhar dinheiro é bom (A2) / mas ganhar dinheiro e viver é bem melhor. (A3) / Que venha a terceira via, (Al) / o ócio remunerado (A3)

G. Sexo Masculino, 51 anos, Grupo 2

Fazendo uma análise fria, sem levar em consideração nenhum outro fator, (D4) / pode- se dizer que a empresária (B2) / é uma pessoa fria e calculista (B2) / e sob o aspecto humanitário uma "carrasca". (B4) / Sabendo-se que é uma reportagem com enfoque empresarial (A2) / pode-se até, pensando pelo lado funcional, afirmar que (A2) / é uma pessoa extremamente capaz, (C1) / objetiva (C1) / de pulso firme (C1) / e excelente administradora. (B4) / Dentro do processo de globalização da economia (A2) / está perfeitamente de acordo com os parâmetros exigidos pelo mercado, (A2) / mas será que

89

está correto? (A3) / Será que as pessoas que trabalham para ela (B4) / estão realmente felizes e realizadas? (B4) / Será apenas uma acomodação dessas moças (C2) / diante de um mercado de trabalho cada vez mais fechado? (A2) / Acreditamos que sim, pois, (D4)

/ apesar de serem recompensadas quando atingem produção satisfatória (A2) / volta e

meia uma vai para o banheiro chorar (B1) / fazer uma catarse, (B1) / readquirir forças para enfrentar o "carrasco" (B4) / e ter sua aceitação e aprovação da mesma, (B4) / e assim garantir seu lugar, (A2) / seu sustento (A2) / e seu sucesso no mercado. (A2) / O que as pessoas procuram hoje? (A3) / Seu bem estar, sua satisfação? (A3) / Onde estão estas necessidades? (A3) / Na boa remuneração, (A2) / no status profissional alcançado? (A2) / Será que vale a pena dar dinheiro e bens para si (A2) / e familiares? (B1) / Dar-

lhes conforto material? (B1) / Será que estão sendo dados carinho (A3) / e atenção, (A3)

/ será que se tem oportunidade de usufruir este conforto (C1) / e dizer: "estou feliz!. Estou realizado!"? (D4)

G.N.A. sexo masculino, 27 anos, Grupo 2

Essa moça me parece (D4) / um típico exemplo de uma "razão perversa" (A2) / que perverteu os valores anteriores. (A3) / Ela (C1) / não me parece um "demônio insensível" (B4) e sim alguém que busca levar ao extremo os "conselhos" do capitalismo neoliberal (A2) / super utilização de todas as potências do corpo e da mente, (A3) / princípio da não ociosidade, (A2) / ganhar todo o dinheiro possível no menor tempo possível. (A2) / VN (C1) / comanda com mão e coração de ferro. (B2) / Não há tempo para as "baboseiras" dos afetos. (B1) / O capitalismo deste nosso mercado totalitário, (A2) / funciona ao modo de Medusa: empedra-nos, torna-nos insensíveis. (B2) / Nosso "planeta clube" prospera incluindo. (A2) / William Burroughs definiu os três pilares do capitalismo monopolista: (A2) / nunca dê nada de graça; (A2) / nunca dê mais do que precisa dar; (A2) / e sempre que puder, tome tudo de volta. (A2) / Isso vale para economistas, (A2) / advogados, (A2) / engenheiros, (A2) / vendedores, (A2) / corretores etc. (A2) / Essa moça se acha especial, (C1) / não vê que repete a mesma dominação (B4) / reativa e ressentida (B1) / que sofre em si mesma? (B1) / Veredito: "tolinha"!

(D4)

A., sexo masculino, 51 anos, Grupo 2

A matéria chamou minha atenção (D4) / pelo caráter quase "escravo" do trabalho, (A2) / não seguindo regras trabalhistas conquistadas há muito tempo pela sociedade. (B4) / Ressalta ainda por ser exigido por uma figura feminina, (B2) / de aparência tão meiga. (B1) / Ficam as indagações: por que pessoas de nível tão bom (A2) / ficam nesse emprego? (A2) / Vale a pena (A3) / pelo que ganham? (A2) / Não conseguiriam melhores condições de trabalho (A2) / pelo mesmo salário? (A2) / Será que ficam pela liderança (B4) / de VN? (C1) / Ou pelo desafio da novidade (A3) / ou pela promessa de crescimento futuro? (A2)

90

Tabela 1 – Comparações das respostas dadas pelos homens com as respostas dadas pelas mulheres

Respostas

Respostas das

CATEGORIAS TEMÁTICAS / SEXO

dos Homens

Mulheres

f

%

f

%

A) Ideologias

Políticas

6

2,35

7

3,32

Econômicas

68

26,67

21

9,95

Psicológicas

49

19,22

13

6,16

B) Papéis sociais da mulher

Particularismos (cuidado e educação dos filhos, etc.)

21

8,24

26

12,32

Desvio à norma

11

4,31

17

8,06

Afirmação/feminismo

5

1,96

11

5,21

No trabalho

25

9,8

27

12,80

C) Indivíduo

Como entidade separada, autônoma, distinta

25

9,80

34

16,11

Em situação intergrupal (valores compartilhados)

11

4,31

10

4,74

Em comparação com outros

6

2,35

2

0,95

D) O sujeito por ele mesmo

Religioso

0

-

1

0,47

Trabalho

2

0,78

13

6,16

Política

0

-

4

1,90

Psicológico/individual

26

10,20

22

10,43

Civil

0

-

3

1.42

TOTAL GERAL

255

100

211

100

χ2 = 61,82, gl = 14, p<0,001

A tabela acima ilustra a distribuição das freqüências obtidas em termos

absolutos e percentuais. O Qui-quadrado alcançado para a tabela de respostas

de homens e mulheres foi de 61,82, bem acima do valor crítico de distribuição

esperada, que seria de 36,12, para um nível de significância igual ou maior que

91

0,001.

Encontram-se na tabela a seguir os resultados observados para as duas

categorias em termos absolutos e percentuais. Após a aplicação do Teste do Qui-

quadrado, encontramos a distribuição de 71,71 contra um valor crítico de 36,12,

nível de significância de 0,001, o que confirmou a plausibilidade das hipóteses

que foram inicialmente levantadas.

Tabela 2 – Comparações das respostas por condição de produção

 

Respostas

Respostas

CATEGORIAS / CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO

Espontâneas

Solicitadas

f

%

f

%

A) Ideologias

Políticas

11

6,25

2

0,68

Econômicas

21

11,93

68

23,21

Psicológicas

22

12,50

43

14,61

B) Papéis sociais da mulher

Particularismos (cuidado e educação dos filhos, etc.)

9

5,11

38

12,97

Desvio à norma

9

5,11

19

6,48

Afirmação/feminismo

5

2,84

11

3,75

No trabalho

16

9,09

35

11,95

C) Indivíduo

Como entidade separada, autônoma, distinta

26

14,77

33

11,26

Em situação intergrupal (valores compartilhados)

14

7,95

7

2,39

Em comparação com outros

6

3,41

2

0,68

D) O sujeito por ele mesmo

Religioso

1

0,57

0

-

Trabalho

9

5,11

7

2,39

Política

4

2,27

0

-

Psicológico/individual

20

11,36

28

9,56

Civil

3

1,70

0

-

TOTAL GERAL

176

100

293

100

χ2 = 71,71, gl = 14, p<0,001

92

Anexo III – Estilo de gestão das executivas Questionário e Ficha de Identificação

Estamos investigando os estilos de gestão adotados ou a serem adotados na nossa sociedade, por meio de avaliações feitas por pessoas que atuam profissionalmente nas organizações. A sua contribuição, pessoal e única, é imprescindível para conhecermos melhor esse assunto relevante. Portanto, não existem respostas certas ou erradas, adequadas ou inadequadas, mas apenas a sua opinião, a ser conhecida e levada em conta por nós.

Agradecemos sua participação!

1) Caso você fosse chefiado por uma mulher (independentemente de já ter tido ou não esta experiência), como imaginaria o seu estilo de gestão? Poderia apresentar exemplos?

2) O que você acha que as mulheres poderiam fazer para aumentar sua eficácia profissional no trabalho, quando têm sob sua responsabilidade gerenciar a produção de outras pessoas?

3) E quanto aos homens, o que poderia aumentar sua eficácia gerencial?

4) Como caracterizaria, a partir da sua experiência ou de suas observações, um estilo de gestão masculina no trabalho?

5)

existem diferenças? Caso afirmativo, quais seriam elas?

Contrastando estilos de gestão de homens e mulheres, você acha que

93

Dados Pessoais

Nome

Idade

Sexo

I. Escolaridade

Nível concluído

Fundamental Médio

Superior Pós-graduação

Escolaridade do pai

Fundamental Médio

Superior Pós-graduação

Escolaridade da mãe

Fundamental Médio

Superior Pós-graduação

II. Situação ocupacional

trabalha ou já trabalhou?

sim 

por quanto tempo?

tempo total de experiência profissional anos

chefiou outras pessoas?

sim 

situação ocupacional dos pais

pai trabalha ou já trabalhou?

sim 

por quanto tempo?

tempo total de experiência profissional

mãe trabalha ou já trabalhou?

sim 

por quanto tempo?

tempo total de experiência profissional

posição/cargo ocupado (último/atual)

não 

anos (se menos de 1 ano, preencher 00)

meses

Quantas

não 

posição/cargo ocupado (último/atual)

não 

anos (se menos de 1 ano, preencher 00)

anos

meses

posição/cargo ocupado (último/atual

não 

anos (se menos de 1 ano, preencher 00)

anos

meses

94

Tabela 3 – Caracterização da gestão feminina

   

EMPRESA A

   

EMPRESA B

 
 

CATEGORIAS

           

TEMÁTICAS

H

M

H + M

H

M

H + M

f

%

f

%

f

%

f

%

f

%

f

%

E

Esforço

3

20

1

3

4

8

1

3

1

2

2

2

A

– Autonomia

0

-

4

11

4

8

0

-

0

-

0

-

C

– Consistência

6

40

6

16

12

23

4

10

5

12

9

11

R

– Rigidez

0

-

3

8

3

6

1

3

2

4

3

4

F

– Flexibilidade

3

20

5

13

8

15

11

28

8

19

19

23

P

– Prescrições da empresa

1

6

5

13

6

11

6

15

3

7

9

11

Ag – Avaliação geral

0

-

0

-

0

-

2

5

6

14

8

10

As – Avaliação social

0

-

3

8

3

6

7

18

6

14

13

16

Ap – Avaliação psic/individual

0

-

3

8

3

6

5

13

7

16

12

15

Sd – Sem diferença

2

14

8

20

10

19

2

5

5

12

7

9

Total

 

15

100

38

100

 

100

39

100

43

100

 

100

Testes:

Empresa A x Empresa B: χ2 = 25.294 / Gl = 9 / (p) = 0.0027

 

Tabela 4 – Expectativas para a gestão feminina

     

EMPRESA A

   

EMPRESA B

 
 

CATEGORIAS

           

TEMÁTICAS

H

M

H + M

H

M

H + M

f

%

f

%

f

%

f

%

f

%

f

%

E

– Esforço

0

-

2

6

2

5

0

-

1

2

1

1

A

– Autonomia

0

-

1

3

1

2

0

-

0

-

0

-

C

– Consistência

8

80

8

25

16

38

8

37

3

6

11

15

R

– Rigidez

0

-

0

-

0

-

0

-

2

4

2

3

F

– Flexibilidade

2

20

8

25

10

24

1

5

22

41

23

31

P

– Prescrições da empresa

0

 

- 5

16

5

12

5

23

12

21

17

23

Ag – Avaliação geral

0

- 1

 

3

1

2

2

10

0

-

2

3

As – Avaliação social

0

 

- 2

6

2

5

2

10

4

7

6

8

Ap – Avaliação psic/individual

0

 

- 4

13

4

10

2

10

9

17

11

15

Sd – Sem diferença

0

- 1

 

3

1

2

1

5

1

2

2

3

Total

10

100

32

100

42

100

21

100

54

100

75

100

Testes:

 

Homens x Mulheres das 2 Empresas: χ2 = 26.239; Gl = 9; (p) = 0.001 Homens Empresa B x Mulheres Empresa B: χ2 = 24.715; Gl = 8; (p) = 0.0017

95

Tabela 5 – Expectativas para a gestão masculina

   

EMPRESA A

   

EMPRESA B

 
 

CATEGORIAS TEMÁTICAS

H

M

H + M

H

M

H + M

 

f

%

f

%