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As regras de reciprocidade nas relações entre seres da sociedade, da

natureza e da sobrenatureza: um estudo comparativo entre índios e colonos
do Rio Grande do Sul, Brasil.
Mártin César Tempass1
UFPel/Brasil

Os Mbyá-Guarani são uma das parcialidades étnicas dos Guarani e habitam em
centenas de pequenas aldeias distribuídas em um amplo território que compreende parcelas do
Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai. Deste vasto território, os Mbyá-Guarani elegem
somente alguns locais específicos para ocupação e constituição de aldeias (tekoá). Esses
lugares eleitos são os que reúnem todas as características ambientais indispensáveis para a
sobrevivência física, espiritual e cultural do grupo.
Os alimentos necessários à sobrevivência dos Mbyá-Guarani são obtidos através das
práticas da caça, da pesca, da coleta e da horticultura. Em cada uma dessas modalidades os
Mbyá-Guarani buscam a obtenção de alimentos específicos, alimentos tradicionais, de acordo
com a sua cultura. E esses alimentos só podem ser obtidos em um contexto ambiental
específico, mediante o acionamento de saberes e práticas tidos como tradicionais. O
conhecimento tradicional é indispensável para a obtenção alimentar. E, como tudo o que os
Mbyá-Guarani precisam vem da natureza, eles acionam os saberes tradicionais para a
preservação do meio ambiente. Eles precisam da natureza, eles são parte da natureza.
Como já observaram vários autores, os grupos indígenas não separam o universo da
cultura do universo da natureza, posto que também consideram os animais e plantas como
sujeitos sociais, mantendo com estes relações de tipo social. “Diferentemente do dualismo
moderno que distribui humanos e não-humanos em dois domínios ontológicos mais ou menos
estanques, as cosmologias amazônicas estabelecem uma diferença de grau, não de natureza,
entre os homens, as plantas e os animais” (DESCOLA, 1998, p. 25).
A própria noção de natureza é uma construção cultural. Cada sociedade tem uma ideia
específica sobre o que é natureza, sendo que o seu recorte é dado pela cultura. Por isso que a
análise antropológica deve trabalhar com os coletivos “natureza-cultura”, ou com os “híbridos
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Doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Docente no Programa de
Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas como bolsista DocFix Fapergs/Capes.

nós. No plano humano os mutirões são executados frequentemente. mas os limites de espaço deste paper impedem que todas as modalidades sejam descritas e analisadas. a pesca e a coleta também envolvem reciprocidades e mutirões. Todos os seres dos cosmos Mbyá-Guarani mantêm relações sociais entre si. tendo a reciprocidade como base. enquanto que a cultura seria o diferenciador. para a abertura de novos roçados. trocando bens e trabalhos entre si. esses alimentos são de variedades 2 Por muito tempo. as quais constituem a única base possível para comparações” (LATOUR. Segundo este autor. 1994). “não existem nem culturas – diferentes ou universais – nem uma natureza universal. inclusive de aldeias muito distantes. até bem recentemente. Os Mbyá-Guarani cultivam uma série de espécies vegetais. Das quatro modalidades de obtenção alimentar escolhi a horticultura por permitir uma comparação mais direta com as concepções e práticas dos colonos que serão apresentados na sequência. Existem apenas naturezasculturas. a batata-doce. E nestas pesquisas se estendia aos “outros” povos (todos os “não modernos”) a “nossa” dicotomização entre natureza e cultura. que desembocou na divisão entre humanos e não-humanos. básica. 1994.de natureza e cultura”. as divindades. por vezes inumana e sempre extra-humana. O esquema de mutirões é um dos pilares da reciprocidade dos Mbyá-Guarani. também entram os seres sobrenaturais. a Antropologia. Os aliados se ajudam mutuamente. seja para a construção de casas. E todas as “naturezas-culturas”. 102). Segundo Latour. Os mutirões tanto podem envolver apenas as pessoas mais próximas quanto também podem envolver indivíduos de várias aldeias. como defende Latour (1994). para colheitas. a pesca e a coleta podem ser obtidas em Tempass (2012). Estando todos sobre uma mesma base natural. dedicando-se apenas a pesquisar as culturas. Como observa Latour (1994). p. Trocam principalmente gêneros alimentícios e trabalhos relacionados à produção alimentar. culturas diferentes. para os “modernos” a natureza é a-humana. a mandioca. 1994). festas. Mas. cientistas. enquanto que a animalidade estaria atrelada unicamente ao domínio da natureza2. como veremos a seguir. Humanos e animais são “híbridos” de natureza e cultura (LATOUR. esta dicotomização tornou a análise antropológica assimétrica (LATOUR. o amendoim e o fumo. Latour (1994) acaba com as antigas noções de que a humanidade estaria relacionada exclusivamente com a esfera autônoma da cultura. etc. . construíram e constroem de forma singular seres humanos. estudamos povos diferentes acreditando em uma natureza universal. o feijão. evitou estudar os objetos da natureza. Nesse esquema. Para os objetivos do presente texto vamos nos limitar a analisar apenas a obtenção alimentar mediante a prática da horticultura Mbyá-Guarani3. antropólogos. As relações entre estes seres também são construídas com as especificidades de cada “natureza-cultura”. com destaque para o milho. Natureza igual. Assim. 3 A caça. a melancia. definido as relações sociais mediante o estabelecimento e a manutenção de alianças. cada uma a seu modo. Informações sobre a reciprocidade na caça. Isto levou – e a Antropologia nasceu disso – a uma dicotomização entre a natureza e a cultura. não-humanos e sobrenaturais. a abóbora. como uma série interminável de mutirões onde todos os seres ajudam e são ajudados. igual para todos os seres humanos.

Não faz sentido produzir mais do que se pode consumir. É por isso que os Mbyá-Guarani abrem os seus roçados no meio da mata. Cada planta deve produzir de acordo com a sua natureza. que só os Mbyá-Guarani possuem (como eles sempre afirmam). da forma ensinada pelos deuses. precisam alegrar as plantas. Inclusive a construção do ser ocorre mediante a apropriação de propriedades imateriais de outros seres. a terra. Os Mbyá-Guarani têm condições e conhecimentos suficientes para produzir excedentes. Os homens. Assim. E também por tal razão que eles “misturam” as plantas nos roçados. os animais. Cada ser é construído a partir dos outros (TEMPASS. São alimentos sagrados. E isso é um dever de todo Mbyá-Guarani. São os alimentos dos deuses. E os conhecimentos tradicionais são muito importantes para a promoção da felicidade geral. por exemplo. o alimento só é perfeito. 2012). sagrado. E cada ser precisa alegrar os outros. é um cuidado para que o mundo continue existindo. Creem. mas não o fazem porque isso não faz sentido na sua concepção de mundo. Não há necessidade de produzir excedentes. é uma das principais condições de vida. que foram criadas pelas suas divindades especialmente para que eles possam se alimentar neste mundo. isso é válido também para os outros grupos ameríndios (CLASTRES. o feijão com o aipim. bem espaçadas entre si. Assim. em meio a uma multidão de outros seres. O milho é cultivado junto à batata-doce. Eles nem . Aliás. mas sim. O plantio consorciado deixa as plantas mais felizes. também se transformarem em divindades.diferentes das cultivadas e consumidas pelos juruá (brancos). não só dos Mbyá-Guarani. eles não dispõem as plantas muito próximas umas das outras. Os Mbyá-Guarani não empregam agrotóxicos e adubos na sua horticultura. A construção dos seres também envolve mutirões. que se seguirem corretamente as regras sociais e consumirem os seus alimentos tradicionais eles podem alcançar a perfeição dos seus corpos e de suas almas e. em um verdadeiro mutirão da felicidade. os Mbyá-Guarani. as águas. estar alegre. Mas. os roçados que os Mbyá-Guarani abrem em meio à mata têm o seu tamanho definido pela necessidade alimentar do grupo. E a interação entre os diferentes seres é a principal fonte de alegria. pois proporciona a cada planta uma interação com vários outros seres. Eles não cultivam roças maiores do que a sua capacidade de consumo e não se preocupam muito em “fazer as plantas render” (como costumam dizer). O estar feliz. todos os cultivares em um mesmo espaço. 2003). São variedades tradicionais. Isso ocorre porque a planta só irá vingar e produzir alimentos se estiver feliz. mas também dos outros seres com os quais eles se relacionam. se for obtido de forma tradicional. com as suas características originais atribuídas pelos deuses. assim. E o primeiro ensinamento dos deuses é a não produção de excedentes.

Os alimentos produzidos de forma tradicional são considerados mais saudáveis para os Mbyá-Guarani. Relações de reciprocidade. A sociedade envolvente ocupou as terras tradicionais deste grupo indígena. mantendo também com as divindades relações de tipo social (TEMPASS. Sem os rituais não se obtêm alimentos. Só com alimentos abundantes é que se pode fazer a escolha de produzir menos para ter mais sabor. A não produção de excedentes também está relacionada com o esquema de reciprocidade entre seres humanos. as práticas tradicionais também conferem mais – muito mais – sabor aos alimentos. De fato. seres naturais e seres sobrenaturais. Além de não separar a natureza da cultura. mesmo não produzindo da forma desejada. com menos frutos e estes frutos também são menores. podemos dizer que em muitas aldeias Mbyá-Guarani prevalece o regime de escassez. mas são melhores em termos de sabor. Atualmente. Isso não é tradicional e vai contra a “natureza” das plantas. pelo jeito Mbyá-Guarani de cozinhar (TEMPASS. Assim. Além disso. maior será a concentração do seu sabor. Produzir pouco é o melhor. E os Mbyá-Guarani preferem tudo muito doce (TEMPASS. que englobam as práticas xamânico-cosmológicas. Para receber algo da natureza. a produção alimentar do grupo está bastante comprometida. que no cálculo alimentar Mbyá-Guarani a qualidade é muito mais importante que a quantidade. O alimento dos Mbyá-Guarani vem da natureza. mas também para a mente e o espírito. 2010). os indígenas também não separam a sobrenatureza da cultura e da natureza. Rezando a planta cresce porque as divindades a fazem crescer. na manutenção do equilíbrio ecológico. . mesmo consumindo muitos alimentos oriundos da sociedade envolvente. atualmente. muitas aldeias Mbyá-Guarani estão distantes do ambiente que consideram ideal. Se eles plantarem da forma como as divindades ensinaram e realizarem determinados rituais as plantas crescerão da forma desejada. Nos rituais as plantas são “rezadas”. os 4 O problema é que. E os Mbyá-Guarani não veem utilidade no emprego desses recursos. 2011). não apenas para os seus corpos. os saberes. Isso atesta que as sociedades indígenas. E por falta de terras propícias para esse modelo horticultor.mesmo empregam a irrigação nos seus roçados. então eles precisam negociar com os seres naturais a obtenção alimentar. Ocorre que os alimentos dos juruá (brancos) são trabalhados pela cultura Mbyá-Guarani. São mais gostosos os alimentos de acordo com os preceitos divinos. Então. proporcionando felicidade. Mas. em sua tradicionalidade. 2003). 2010). Temos. não vivem em regime de escassez. fazem parte do processo produtivo. Mais doces serão os frutos. em campo nunca vi um Mbyá-Guarani se queixar da produtividade dos seus roçados tradicionais4. Na prática a produção tradicional deixa as plantas menores. Quanto menor a produção de uma planta e o tamanho dos seus frutos. o que leva à infelicidade. Esse algo em troca consiste basicamente no respeito ao meio ambiente. mas sim de abundância (CLASTRES. assim. os Mbyá-Guarani precisam dar algo em troca. como nos mutirões. os Mbyá-Guarani dão um jeito de obter sabores bem próximos aos tradicionais.

a natureza é controlada pelos seres sobrenaturais. no esquema de dar. que podem predar o milho antes do consumo humano. quanto mais sagrado e saudável (as duas categorias se confundem) for um alimento. receber e retribuir. têm divindades que os controlam. que principalmente servem para garantir o acesso igualitário aos alimentos e uma alimentação de qualidade. Esses cuidados são formas de demonstrar respeito às divindades que ofertam os alimentos aos Mbyá-Guarani. o responsável pelo milho precisa manter boas relações com as divindades responsáveis pela luz. também envolvem solos. Mas. É por isso que os MbyáGuarani afirmam que os seus deuses “trabalham” para o fornecimento da alimentação aos humanos. . 2012). por exemplo. A retribuição geralmente se dá através de rituais de agradecimentos e pelo respeito a normas sociais (que envolvem também a natureza e a sobrenatureza). De acordo com esse esquema é que os Mbyá-Guarani definem o que pode e o que não pode ser consumido e o que é mais indicado para a saúde física e espiritual. também são os alimentos que necessitam mais cuidados na obtenção. Por exemplo. pelo solo. não caçam nem coletam mais do que precisam. águas e até mesmo outros seres humanos (caso do canibalismo) (Cf. que além de plantas e animais. Desperdiçar um alimento é desperdiçar 5 Outros fatores também entram nessa definição de presa e predador. os deuses não fazem os alimentos surgirem do nada.Mbyá-Guarani. na preparação e no consumo. mais delicadas são as negociações para sua obtenção. TEMPASS. Grosso modo poderíamos dizer que os seres no topo da hierarquia são “predadores” e os da base da hierarquia são “presas”5. os mais sagrados. E esse trabalho não pode ser desperdiçado. Os seres sobrenaturais também precisam negociar entre eles para fornecer cada alimento. E o papel de presa ou de predador na natureza é correspondente à posição hierárquica do ser sobrenatural que controla cada elemento. Desta forma. porque isso causaria danos ambientais desnecessários. pela água e pelo ar e também com os responsáveis pelas outras plantas que compõem o ambiente e até com as divindades que controlam os animais. que estão no híbrido de natureza e sociedade. As relações entre os seres da natureza são análogas às relações entre os seres da sobrenatureza. Uma planta só irá crescer se as divindades assim o permitirem. É preciso um mutirão para que se tenha milho. Os deuses possuem a agência. na organização dos elementos naturais percebe-se uma reprodução da estrutura cosmológica dos Mbyá-Guarani. Mas. Os Mbyá-Guarani negociam os alimentos com as divindades. Por isso. Os alimentos controlados por seres superiores na escala sobrenatural são os mais indicados. E os Mbyá-Guarani possuem muitas divindades e cada uma delas é responsável por uma determinada espécie que se encontra na natureza. Inclusive os próprios Mbyá-Guarani. Mas.

E. Os antepassados dos Mbyá-Guarani estiveram em estreito contato com muitos colonizadores desde a chegada dos europeus ao continente. A diversidade alimentar também é um dos pilares da saúde física e espiritual dos Mbyá-Guarani. Mais do que isso. em uma área modesta. Estiveram também em contato com os imigrantes que chegaram ao Brasil no século XIX. causaria um dano às relações com as divindades. o equilíbrio alimentar dos humanos tem respaldo no equilíbrio da natureza e da sobrenatureza. muitas proximidades de conhecimentos e práticas ainda podem ser percebidas entre os colonos e os indígenas. Estes. . se caracteriza pela monocultura e objetiva a produção de excedentes. por exemplo. porque quem recebe tem a obrigação de retribuir. Então. os Mbyá-Guarani não produzem mais do que podem consumir porque isso causaria um dano desnecessário à natureza. Relações com as quais são construídas os seus seres. É também uma forma de equilibrar as relações de reciprocidade. não produzindo excedentes. Para o presente texto. distantes cerca de trinta quilômetros do centro da cidade de Pelotas e formada majoritariamente por descendentes de imigrantes italianos e alemães. E isso ocorre num circuito que se retroalimenta constantemente. ao passo que estariam excluíndo do circuito de reciprocidade as divindades responsáveis pelos demais alimentos. o equilíbrio cosmológico leva ao equilíbrio alimentar e viceversa (TEMPASS. planta “de tudo um pouco”. o tomate e o fumo. porque estariam sobrecarregando a divindade responsável por este alimento. Brasil. A categoria “pro gasto” corresponde aos cultivos destinados ao consumo da própria família que. para se fixarem nas novas terras. As duas colônias selecionadas foram Maciel e São Manoel. O milho. Nas colônias estudadas podemos classificar a produção alimentar em duas categorias: “pro gasto” e “pra venda” (MACHADO. curiosamente. estado do Rio Grande do Sul. E os Mbyá-Guarani precisam manter as relações recíprocas com todos os seres do seu cosmos.a boa vontade dos deuses. mas eles não podem viver só comendo milho. 2012). É desrespeitar os deuses e colocar em risco as relações de reciprocidade. O espaço destinado ao cultivo dos alimentos “pro gasto” é marcado pela diversidade de espécies e tem o seu tamanho definido unicamente pelas necessidades da família. é o mais sagrado dos alimentos dos Mbyá-Guarani. 2011). Então. 2012). Hoje as duas categorias coexistem em quase todas as propriedades. lado a lado. acabaram adotando os alimentos e a horticultura indígena (TEMPASS. Já a categoria “pra venda” é desenvolvida em uma área muito maior. para realizar a comparação. Na região selecionada os principais produtos produzidos “pra venda” são o pêssego. selecionei dados etnográficos de duas colônias vizinhas no município de Pelotas. Assim.

Diante disso podemos pensar que os produtores se importam unicamente com si mesmos e com as suas famílias ao consumirem alimentos sem agrotóxicos. Eles contam que não foi nada fácil e que só conseguiram mesmo abandonar os “venenos” porque adotaram uma postura radical. Os alimentos “pro gasto” não levam “venenos”. . não é necessário fazê-los render. como eles não visam o lucro. os de fora. mas também os indivíduos que aplicam os venenos. O primeiro fica na propriedade enquanto que o segundo sai. agrotóxicos e vacinas. no passado não existia essa divisão. Pelos relatos colhidos. Na região apenas dois produtores já conseguiram romper completamente com as grandes indústrias e abandonar o uso de “venenos”. pois. Já os cultivos “pra venda” precisam render muito. são frequentes as “quebras de safra”. com agrotóxicos. mas não podem fazê-lo porque são reféns das indústrias. as indústrias que compram a produção dos colonos. produções perdidas por pragas e perdas de fertilidade do solo. Mas. é justamente essa preocupação com a saúde dos aplicadores que é considerada no 6 O termo êmico “venenos” designa adubos. os desconhecidos que compram e consomem os alimentos que foram produzidos de forma prejudicial. Agora. para que se tenha uma renda melhor. lucrando sobre os outros. associadas a indústrias que produzem e comercializam os adubos e agrotóxicos é que são as grandes vilãs da história. E. ninguém nas colônias Maciel e São Manoel quer consumir alimentos com agrotóxicos. que vivem no ambiente contaminado pelos venenos. No passado elas enganaram os colonos para que eles aderissem a “formas mais modernas de produção” e hoje acionam mecanismos que impedem que os colonos abandonem essa forma de produção. Em campo muitos informantes me contaram que produziam muito bem sem o uso dos venenos no passado. Isso porque os agrotóxicos não prejudicam apenas os indivíduos que consomem os alimentos.Os alimentos “pro gasto” e “pra venda” também podem ser diferenciados pelo uso ou não dos “venenos”6. Ambos relatam que tiveram problemas de saúde e se sentiam muito infelizes quando usavam “venenos”. todos querem – e precisam – uma grande produção. Mas. Na opinião deles. isso não ocorre bem assim. Percebe-se em campo que os produtores gostariam de diminuir ou abandonar totalmente o uso de “venenos”. os outros produtores da região têm vontade de abandonar o uso de agrotóxicos. E é em função dessa equação entre saúde versus lucratividade que podemos encontrar na região os dois tipos de produção: “pro gasto” e “pra venda”. mas ainda não têm condições para isso. De forma geral. com vista à saúde pessoal. mas que tiveram de mudar a sua forma de produção em função de mudanças nas indústrias e no mercado. pontuando também uma forma “agressiva” de plantio que coloca em risco o meio ambiente e os seres humanos. pelo que pude entender. por outro lado. com o uso de “venenos”. Entretanto.

Anos mais tarde. Eles também realizam a manutenção das estradas e o paisagismo da região. a preocupação primordial é com eles mesmos. vem apoiando as iniciativas. não com os consumidores. repetidas vezes. adubos químicos e formas “agressivas” de plantio. por exemplo. como um todo. e a mão de obra necessária também é dos membros desta. Uma das principais preocupações atuais da “comunidade” é em relação ao uso de agrotóxicos. Na produção de pêssego. As localidades são pequenas e todos se conhecem e se ajudam reciprocamente. não atuando em praticamente nada. Os prédios das Igrejas. materiais de construção e equipamentos são adquiridos com a realização de festas. pode perceber os danos causados por tais práticas e agora objetivam a abolição e/ou diminuição significativa dos ditos 7 Foi assim que há trinta anos a comunidade se juntou e foi colocando postes e estendendo fios para “buscar” a energia elétrica no município vizinho de Morro Redondo. com igual procedimento.desejo dos produtores de abandonarem os agrotóxicos. Eles acabam com o “prazer de trabalhar na terra”. abandonar ou diminuir o uso de “venenos” não é fácil. Um ou outro político/gestor público “aparece” nas comunidades apenas nas vésperas das eleições. Como contam os moradores. muitos estão adotando armadilhas para capturar a mosca da fruta. Assim. distantes. Passadas algumas décadas. o posto de saúde e o ginásio também foram construídos em mutirões em que todos os membros da comunidade ajudaram. Eles sabem da necessidade do uso – e muitos até usam –. ou no mínimo toleravam o uso indiscriminado de agrotóxicos. eles argumentam que o trabalho fica muito mais pesado. desconhecidos. Até mesmo as Igrejas incentivavam. o poder público quase não “aparece” na região. Em outras palavras. cuja organização envolve toda a comunidade. para a barreira funcionar eles precisaram aplicar uma dose muito maior de agrotóxicos. dessa forma. com o uso desses equipamentos. eles “buscaram” as linhas telefônicas no mesmo município. os equipamentos de proteção são considerados caros e os produtores nem sempre têm condições de mantê-los. Assim. Além disso. Máquinas. criando. Os colonos são unânimes em afirmar que não gostam de usar os equipamentos de proteção pessoal. Todavia. a comunidade. muito forte nas colônias Maciel e São Manoel. Essa preocupação é atual porque no passado recente o uso de agrotóxicos era incentivado por todos e para todos. uma barreira contra a entrada da mosca que danifica os frutos. E também o rendimento do trabalho é menor usando todos os equipamentos. muitos produtores da região estão tentando aplicar menos agrotóxicos nos seus cultivares. é a própria comunidade que resolve tudo e também planeja o seu futuro. para pedir votos. Mas. mas. . Os relatos de doenças e mortes em função dos venenos são frequentes na região. E todos objetivam melhorar a comunidade7. penoso. Na maioria das vezes os colonos optam por simplesmente usar apenas um pano sobre o nariz para aplicar os agrotóxicos (alguns nem isso usam). as escolas. podendo assim empregar menos agrotóxicos. Alguns estão aplicando os venenos só no contorno da área cultivada. Cientes da dificuldade a comunidade. os salões comunitários. e cada morador da região conhece dezenas de vizinhos que sofreram complicações pelo uso de agrotóxicos.

essa alimentação era melhor porque as comidas não levavam venenos. mas trocas de toda ordem. com . Então. antigamente as pessoas “não sabiam o que era bom para a saúde”. chicória. achavam que a saúde estava nos alimentos que davam maior “sustância” e no abuso de gorduras. polenta. verifica-se um crescimento no cultivo e consumo de alimentos até outrora desconhecidos. inovadores. Segundo os meus interlocutores. aos poucos. Segundo o que me informaram. agrião. E a quantidade destes novos produtos vem crescendo significativamente nos últimos anos. desde as trocas utilitárias até as simbólicas. além das espécies que já eram cultivadas “desde antigamente” podem ser encontradas espécies “mais saudáveis”. A análise do sistema de trocas é fundamental para a compreensão das relações sociais que estabelecem e mantêm a comunidade nas colônias Maciel e São Manoel. gengibre. Algumas dessas mudanças indicam um retorno à tradição. frutíferas diversas. batata-doce. pimentão. Não apenas as trocas de mudas e sementes. Já no campo das inovações incorporadas às práticas alimentares está uma série de avanços tecnológicos que diminuem o desperdício e permitem um melhor/maior aproveitamento do alimento. Porém. com melhores efeitos sobre a saúde das pessoas. hoje os colonos buscam uma alimentação mais variada.“venenos”. No que tange à tradição percebe-se todo um movimento em direção ao que se consumia em um passado mais distante. Dessa forma. couve. por outro lado. como cenoura. beterraba. Nesse sentido. trazidos de fora. e uma série de alimentos/espécies novos que são considerados mais saudáveis. nem muito variada. as formas de preparação dos antigos e as técnicas de produção alimentar daquela época. Essas trocas podem ocorrer entre os seres humanos e destes com a natureza e com o sagrado. Ocorre que. tomates de vários tipos. que melhoram a saúde das pessoas. A alimentação cotidiana dos antigos era basicamente arroz. outras apontam para a inovação. feijão. E. Percebe-se uma valorização crescente destes quesitos na atualidade e uma vontade coletiva de resgatá-los e preservá-los mediante o uso do tradicional no cotidiano. a horta tradicional. temperos e muitos tipos de chás. batata. a dieta não era muito rica. alimentos não tradicionais. como apontado acima. como já havia observado Marcel Mauss (1974). Mas. espinafre. as pessoas se dizem e se sentem mais saudáveis com o consumo destes alimentos novos. uma grande mudança nas práticas alimentares da população vem sendo pensada e aos poucos sendo posta em prática. mas com a saúde dos moradores em geral. alguma carne e pão. Neste sentido. que sempre existiu nas propriedades das colônias Maciel e São Manoel. alface. através da troca de mudas e sementes entre os vizinhos. de fato. A preocupação não é unicamente com os “venenos”. Agora. na dieta do passado frutas e verduras eram pouco consumidas. teve a sua configuração alterada.

Pimentões são limpos e congelados. sendo que as relações criadas a partir das alianças são mais importantes do que os bens trocados. Carnes dos animais abatidos nas propriedades são congeladas. palestras e excursões também visam proporcionar um sabor agradável aos novos alimentos. Essas novidades. E a obrigação de dar. quem produz alimentos saudáveis também produz alimentos prejudiciais. tanto “pro gasto” quanto “pra venda”. tornam a produção de alimentos “pro gasto” mais produtiva. Boa parte das “novidades” motoras das transformações chega às colônias via agências públicas como a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e a EMATER (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural). saudáveis. Para a transformação de determinados frutos em suco são usadas centrífugas e/ou suqueiras a vapor. continuam incentivando o uso de agrotóxicos. Com isso são empregados como alimento itens que antes eram descartados. também constituem a natureza e a sobrenatureza. o bagaço de algumas frutas e os talos de diversas hortaliças. na maioria das vezes na forma de suco. Assim. Até pães são congelados. Em toda a região. As novidades tecnológicas – e os novos usos das tecnologias mais antigas – também se aliam aos quesitos tradicionais da alimentação. Para não dependerem das estações do ano para o consumo de determinadas frutas estas são congeladas. de adubos químicos e de formas “agressivas” de cultivo. Ao esquema proposto por Mauss. segundo o que me contaram alguns dos meus interlocutores. E a transformação em um desses termos implica em transformações/adequações também nos outros termos. base do sistema de reciprocidade. E. como já visto para os Mbyá-Guarani. nas mesmas localidades. as duas correntes de extencionistas são bem vindas em praticamente todas as propriedades. além de constituir as sociedades. a atuação dessas agências é tanto para o “bem” quanto para o “mal”. os colonos vêm investindo em cursos. Os modelos de produção encontrados nas colônias Maciel e São Manoel se encontram em forte transformação. Como na região a grande maioria dos proprietários opera nos dois sistemas de produção. Ocorre que enquanto alguns extencionistas destas agências circulam pelas comunidades incentivando o cultivo de produtos orgânicos.as trocas são estabelecidas as alianças que constituem as sociedades. outros extencionistas. além de proporcionar alimentos mais saudáveis. Ao mesmo tempo em que os colonos têm . palestras e até excursões que visam o aprendizado de novas técnicas de aproveitamento dos alimentos. O uso das plantas para o preparo de sucos também está em forte crescimento. é possível acrescentar que as trocas. faz com que as alianças perdurem. como as sementes de abóbora. das mesmas agências. receber e retribuir. Tomates são transformados em molho e congelados. Os cursos.

eles também querem conhecer novos agrotóxicos. espécimes e técnicas para esse tipo de cultivo. realizando inúmeras atividades de forma conjunta. todos são cristãos. Assim. depois de pensar um pouco. Luterana e Episcopal. Quando questionados se os alimentos com agrotóxicos seriam proibidos ou se o consumo destes constituiria um pecado. Mas. em detrimento dos produzidos com agrotóxicos. de alimentos orgânicos. poderia levar à precipitada conclusão de que as transformações vivenciadas nos últimos tempos é algo orquestrado pelas Igrejas. se vale do apoio das religiões para alcançar os seus objetivos. com uma ou outra exceção pontual. os próprios fiéis buscam fundamentos religiosos para se ampararem em relação às mudanças. se desenvolve principalmente dentro das Igrejas ou nos seus salões. Esse fato. de forma unânime. a comunidade. também influencia – igualmente muito – as ações desenvolvidas pelas Igrejas. Nesse sentido. Contudo. relacionando a comida do seu dia-a-dia com quadros mais amplos de ganância. Pelo que pude entender. a maioria dos meus interlocutores disse que não. mesmo as lideranças da comunidade se atrapalharam para fundamentar essa resposta. Assim. Todos indicam os alimentos orgânicos como os mais indicados para a vida religiosa. na condição de comunidade ampla. a coletividade da região. Como já apontado acima. sendo que muitos deles procuraram me indicar outras pessoas (pessoas “que sabem mais”) para conversar sobre isso. para fundamentar um novo estilo de vida. nem constitui pecado. a comunidade manda ele embora logo logo”. Por outro lado. As Igrejas e seus membros convivem de forma harmoniosa. que congrega as colônias Maciel e São Manoel. sendo que a maioria declarou desconhecer as razões. sob a coordenação/orientação das lideranças religiosas. O consumo de alimentos com agrotóxicos não é proibido por Deus. não é isso o que ocorre. Como me afirmou o líder de uma das Igrejas. os objetivos das colônias estão voltados para a produção saudável. Nas colônias Maciel e São Manoel. A noção de que o orgânico é mais valorizado aos olhos de Deus não se limita ao 8 Sobre essa informação. A explicação acima se faz necessária porque no universo de pesquisa o movimento que leva à valorização dos produtos orgânicos. adubos. não só das comunidades religiosas. de maneira que muitas vezes a separação entre os membros por Igrejas fica imperceptível.interesse em conhecer novas técnicas e alimentos orgânicos. mas da comunidade ampla. a religião influencia – e muito – a vida dos colonos. “se chega um padre novo aqui e não agrada o pessoal. a questão da ecologia versus os agrotóxicos também é pensada em termos religiosos. A comunidade “manda” nas Igrejas e nos seus líderes. sentindo a necessidade de modificar o seu mundo. individualismo e capitalismo. Já os moradores que não constituem lideranças comentaram a informação modestamente. As lideranças religiosas estão a serviço da comunidade. apesar da ambiguidade. em um primeiro olhar. Meus interlocutores. mas nem todos refletem sobre essa questão. os entrevistados que possuem um papel de liderança na comunidade teceram longas e complexas explicações. me informaram que perante Deus os alimentos mais indicados – ou mais corretos – para o consumo humano seriam os alimentos orgânicos8. divididos em três Igrejas: Católica. As reflexões são ainda menos significativas quando questionados no sentido inverso. Uma das explicações que obtive – a única que me pareceu fruto de uma reflexão anterior – dá conta que .

Em campo percebi que o conceito de natureza dos colonos também engloba as espécies cultivadas/criadas pelo homem. o ar e as águas. como já observado. Esse cuidado. a maioria dos colonos da região é refém de grandes indústrias. devem ser tratados com “carinho”. Hoje esse “vencer” a natureza foi substituído por “aliar”. A comunidade é a responsável pelas mudanças já observadas na produção “pro gasto” e só com o apoio da comunidade os colonos poderão melhorar as condições da produção “pra venda”. uma reciprocidade sustentável entre homem e natureza só é possível mediante a reciprocidade ao consumir alimentos com agrotóxicos não se está fazendo “o mal”. . A questão é um equilíbrio entre os itens que compõem o que eles consideram natureza. a ideia de natureza também vem passando por revalorização em direção ao sagrado. segundo os meus interlocutores. Sob o conceito de natureza tem-se uma cadeia de elementos que devem ser preservados para que a humanidade (um dos elos da cadeia) possa sobreviver e se alimentar. a equação em que operam os moradores das colônias Maciel e São Manoel é entre “fazer nada” e “fazer o bem”. pela relação direta. Uma vaca é parte da natureza. o que é extremamente complicado. o carinho e o cuidado com os recursos naturais é muito recompensador – dizem eles que a natureza recompensa quem cuida dela. eles são negativamente valorados em termos religiosos. Tal entendimento leva a uma integração do ser humano com a natureza. que a valorização/sacralização do orgânico está finamente encadeada com tudo o que os cerca. posto que. O desafio é estender esse esquema de reciprocidade também para a produção “pra venda”. O homem precisa se “aliar” à “natureza de Deus”. Já ao consumir produtos orgânicos se está “fazendo o bem”. Essa reciprocidade com a natureza já vem sendo posta em prática na produção “pro gasto”. de forma que os itens que alimentam os homens não atrapalhem a sobrevivência/permanência daqueles que não alimentam. como os agrotóxicos destroem os recursos naturais. Assim. silvestres e/ou domesticados. Então. E. Hortas e pomares estão sob o conceito de natureza. Mas. Assim. as formas de cultivo menos “agressivas” seriam as mais indicadas aos olhos de Deus.alimento em si. Já o uso excessivo e indiscriminado dos recursos naturais seria um pecado. Então. propriamente dito. mesmo esta natureza sendo transformada pelo homem através das hortas e roçados. Um pé de pêssego é parte da natureza. às questões de saúde e doenças individualizadas. Então. O mesmo vale para a terra. A natureza é de Deus e o homem precisa conservá-la. na lógica da reciprocidade. ao consumir estes produtos não se está “fazendo nada” para melhorar a própria vida e o mundo ao seu redor. Percebe-se o contrário. através de uma síntese entre tradição e inovação. com a visão de mundo dos colonos da região. Todos meus interlocutores destacaram o papel da comunidade nesta dinâmica. é agradável e prazeroso. plantas e animais. E. A concepção anterior era de que com a ajuda de Deus o homem poderia vencer a natureza.

se uma vaca . favorecem o indivíduo em detrimento da comunidade. sobretudo. nas águas. assimétrica entre os humanos. E. quanto nas opiniões e comportamentos. Que busca o lucro sem se importar com o próximo. mesmo se tomando todos os cuidados para o seu crescimento. a sorte ou o azar se dão conforme a intenção divina. como um todo. E também é uma forma de evitar o desperdício. Desperdiçar alimentos enquanto que o próximo passa fome é um pecado grave. Nesse esquema a reciprocidade é diferenciada. além do esquema de dar e receber da comunidade. o cristianismo das Igrejas Católica. O sucesso no trabalho. deixa de trabalhar para a melhoria da comunidade. nos animais. mas simétrica para com Deus e a natureza. É ganancioso quem não ajuda o próximo. quem não mantém relações recíprocas com seus vizinhos. muitas vezes. que sustenta a comunidade. em função de lucros individuais. É considerado ganancioso o indivíduo que busca o lucro a qualquer custo. Tais atitudes. Luterana e Episcopal. A saúde ou a doença de um indivíduo dependem da vontade de Deus. Estes três aspectos estão relacionados e não podem ser analisados isoladamente. Não tem muitos gananciosos na região estudada – se é que tem algum–. consequentemente não está se importando com a natureza e com a comunidade. de certa forma. etc. Essa reciprocidade torna a comunidade. Deus está acima de tudo. alimentos são distribuídos fora da missa. A ganância é um dos comportamentos mais condenados nas colônias Maciel e São Manoel. A ganância não combina com o ideal da comunidade. Então. é ganancioso quem deixa de participar dos rituais coletivos em que se pede e/ou se agradece a Deus. a harmonia da família. Ocorre que dificilmente os alimentos doados aos necessitados serão retribuídos. tanto nos aspectos sociais e econômicos. ele também está nas plantas. cimenta a vida e a visão de mundo da comunidade. por exemplo. Uma planta. sem se importar com a natureza e/ou sem se importar com a religiosidade. Então. E se Deus está presente em tudo. Deus controla tudo e Deus está em tudo. Assim. se uma árvore cair sobre uma pessoa. na terra. Mas. Também é ganancioso quem. mais forte. só irá vingar e produzir frutos se Deus assim o quiser. E essa união. para os que pertencem a outras Igrejas ou para os que tiveram vergonha de pegar os alimentos publicamente na missa. uniformiza as pessoas. Nas colônias. mas Deus recompensará os doadores por esse ato. doar parte dos seus alimentos para quem está necessitado é uma obrigação religiosa. E. é a negação da ideia de comunidade. as doações são incentivadas e organizadas pelas Igrejas.entre homens. Nesse sentido a ganância é pecado. quem não se importa com a religião. como me contaram em campo. mas isso se deve muito ao fato da comunidade acionar mecanismos que impedem ou dificultam as atitudes gananciosas.

Tratava-se de uma lógica muito praticada no passado. mas é como se tivesse dando pra Deus”. os produtores ecológicos deveriam ter mais sucesso na obtenção alimentar. Então. ao falarem da sua produção alimentar. Mostra um desejo de mudar. uma das hipóteses deste trabalho foi. como a cultura é dinâmica. frequentar missas/cultos. com sua bondade. E o pedir perdão é um dos componentes da reciprocidade com Deus. isso não ocorre assim. Desta forma. esperada antes mesmo de se dar início a presente pesquisa. desta forma. Todos são pecadores. diante das dificuldades de mudança. de forma a subordinar as demais reciprocidades com os outros elementos do cosmos. Então as pessoas rezam para as plantas crescerem. É que nesse esquema entra mais um fator: o pedir perdão a Deus.der um coice no seu proprietário. Mas. Assim. pedirem e conquistarem “o pão nosso de cada dia”. para pedir e agradecer pela ação divina. participar de procissões. principalmente na produção “pra venda”. é praticado por todos igualmente na comunidade. De nada adianta o trabalho na enxada se não houver também trabalho espiritual. em que toda a comunidade participa. Saber um é. Os moradores da região. todos negociam com Deus o sucesso na produção alimentar. quando os recursos tecnológicos e científicos eram quase nulos nas colônias e a dependência ao sobrenatural era muito mais forte. “se dá ao necessitado. até mesmo publicamente como no caso da procissão. E existem grandes rituais. Deus. E também agradecem pelas dádivas alcançadas. são parte inseparável do processo produtivo. . foi ação de Deus. adubos químicos e técnicas “agressivas” deveriam ter insucesso. sempre perdoa. E como me informaram em campo. Frequentam as missas e os cultos religiosos e respeitam os preceitos divinos para agradar a Deus e. Vale tanto para os alimentos “pro gasto” quanto “pra venda”9. temos que entender o que Deus quer nos ensinar com cada coisa que acontece”. consequentemente. as atividades religiosas como rezar. de certa forma negociado entre as duas partes. pelo que acontece com as pessoas. enquanto que os que se valem de agrotóxicos. frequentemente trazem Deus e a Bíblia para seus discursos. as ações humanas são sempre pensadas para agradar a Deus. Esse esquema de reciprocidade com Deus para a obtenção de alimentos. Desde os produtores “mais ecológicos” até aqueles que usam mais “venenos”. Doar alimentos é uma forma de agradecimento. O pedir perdão. tendo Deus a agência sobre tudo. justamente. o dar e receber. de certa forma. Deus dá sinais através das coisas. Assim. As festas da comunidade são uma dessas ocasiões rituais em que graças são pedidas e agradecidas. e vice-versa. Porém. a obtenção dos alimentos para a sobrevivência humana está fortemente subordinada à ação divina. que com o avanço científico e tecnológico as pessoas estariam deixando de lado ou diminuindo essa relação de reciprocidade com Deus. mostra para Deus e para a comunidade que o pecador está consciente dos seus erros. para que obtenham os seus alimentos. Encontrar em campo essa forte ênfase na reciprocidade com Deus. Todos têm iguais possibilidades de serem abençoados por Deus. Então. mediante relações que devem ser recíprocas. Para que Deus lhes dê algo eles precisam ofertar algo em troca. nós temos que saber ler esses sinais. 9 Pelo exposto. já era. o pedir perdão em público é um ritual que serve para que o fiel não se esqueça dos ideais sociais. A vontade de Deus para com os homens é algo construído. Como me informou uma das lideranças religiosas da comunidade: “Deus age através das coisas. saber o outro.

Estrutura ou sentimento: a relação com o animal na Amazônia. Advogo que – como pretendo verificar em futuras pesquisas – em todas as sociedades onde a ciência está subordinada aos conhecimentos e valores tradicionais prevalece este esquema de reciprocidade que envolve todos os seres do cosmos. sociedade. 91 f. Podemos até mesmo cogitar uma base cosmológica comum organizando todos os agrupamentos onde prevalecem os saberes tradicionais. MAUSS. como me disse vagamente um colono. São Paulo: Cosac e Naify.U. Rio de Janeiro: 34. . Pelo contrário. Carmen Janaína Batista. n. abr. 395 f. jan. Monografia de Conclusão de Curso (Bacharelado em Geografia) – Universidade Federal de Pelotas. Comida. Antes. as pragas e o clima seriam mais prejudiciais do que hoje em dia e Deus teria um papel maior na produção alimentar. ______. mas a religião é sempre “pro bem”. p.P. [2011]. A sociedade contra o Estado: pesquisas de antropologia política. A culinária indígena como elo de passagem da “cultura” para a “natureza”: invertendo Lévi-Strauss. 1. A doce cosmologia Mbyá-Guarani: uma etnografia de saberes e sabores. LATOUR. natureza e sobrenatureza não constituem domínios estanques e separados. com a ciência garantindo melhores resultados seria possível a produção sem depender de Deus. 23-45. Atualmente. A ciência não substituiu a religião e os moradores da região não creem que isso um dia possa acontecer. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. 1974. 2011.. Rio de Janeiro. Sociologia e Antropologia. Porque. 2 v. 1994. TEMPASS. 1. que tanto para os Mbyá-Guarani quanto para os moradores das colônias Maciel e São Manoel. as relações de reciprocidade tornam esses três segmentos independentes. a tecnologia “tem pro bem e tem pro mal”. São Paulo: E. 5. v. [2010]. Bruno. 2010. MACHADO. Mártin César. melhor”: um estudo antropológico das práticas alimentares da doce sociedade Mbyá-Guarani. sem a ciência. 2011. a natureza ou a sobrenatureza. 4. 69-101. _____. DESCOLA. 1998. Porto Alegre. Mas. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – UFRGS. 2012. Philippe. Marcel. inclusive com a mesma intensidade – se é que não vem se acentuando nos últimos anos. Referências bibliográficas CLASTRES. seja a sociedade./jun. Pelo contrário. E a ideia de reciprocidade traz consigo uma preocupação na preservação dos elementos do sistema. n. Espaço Ameríndio. Simbolismo e Identidade: um olhar sobre a constituição da italianidade nas colônias Maciel e São Manoel – Pelotas (RS). v. Revista Mana. “Quanto mais doce. Pierre. todos os meus interlocutores informaram que continuam pedindo e agradecendo a Deus da mesma forma que faziam antigamente. essa hipótese não foi confirmada em campo.Temos então. Curitiba: Appris. p. 2003. É uma forma de organizar o mundo como um todo. concluindo.