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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
SECRETARIA DE EDUCAÇÃO, PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA
INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO PIAUÍ

TERESINA/PI - BRASIL,V.1 N.1, JUL./DEZ., 2015

FICHA TÉCNICA
Ministério da Educação
Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí
Reitor Paulo Henrique Gomes de Lima
Pró-Reitor de Administração Paulo Borges da Cunha
Pró-Reitora de Ensino Laura Maria Andrade de Sousa
Pró-reitora de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação Ayrton de Sá Brandim
Pró-Reitora de Extensão Divamélia de Oliveira Bezerra Gomes
Pró-Reitor de Desenvolvimento Institucional Antônio de Pádua Alves Pinto
Conselho Editorial
Denise de Paula Veras Aquino
Domingos Alves de Carvalho Júnior
Elenice Monte Alvarenga
Jaislan Honório Monteiro
Leanne Silva de Sousa
Marluce Lima de Morais
Sônia Oliveira Matos Moutinho
Conselho Consultivo
Áurea da Paz Pinheiro
Cristiano das Neves Bodart
Daniel de Queiroz Lopes
Emília Rafaelly Soares Silva
Everaldo Moreira da Silva
Haroldo Reis Alves de Macedo
José Luis de Oliveira e Silva
Marcia Adriana Lima de Oliveira
Marcos Vinicius Dantas Linhares
Raimunda Celestina Mendes da Silva
Editoração e Diagramação
Cristiano das Neves Bodart
Capa, Projeto Gráfico, Logotipo
Aureliano Machado da Silva
Catalogação, Normalização e Revisão Técnica
Sônia Oliveira Matos Moutinho

S697

Avaliadores - v. 1, n. 1, 2015
David Junger da Fonseca Alves
Elton Larry Valério
Emília Beserra de Carvalho
Emília Rafaelly Soares Silva
Enoi Maria da Luz Santos
Evannoel de Barros Lima
Gabriela de Lima Rodrigues
Gabriela Meireles Rosa
Irismar de Carvalho Soeiro Machado
Januário Rosendo Máximo Júnior
Jonathas Luiz Carvalho Silva
José Luis de Oliveira e Silva
José Marcílio de Sá
Layane Costa Saraiva
Lidiane de Morais Evangelista
Lidiane Oliveira
Lorenna Bastos Nogueira da Rocha
Marcos Jadiel Alves
Maria do Socorro Ferreira dos Santos
Mirleno Lívio Monteiro de Jesus
Mísia Tavares da Cruz
Paulo Henrique de Carvalho Bueno
Raimundo Fernandes da Silva
Rafael Jardim Albieri
Rejane Fontenele de Sousa
Roniel Sampaio Silva
Rubens Oliveira de Sousa
Telma Regina Martins Aguiar Magalhães Pedrosa

Somma: Revista Científica do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do
Piauí / Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí. v.1, n. 1, jul./dez. 2015-_ - Teresina (PI): IFPI, 2015 -_.
Semestral
ISSN
ISSN

(versão impressa)
(versão eletrônica)

1. Educação - Periódicos. I. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia
do Piauí.
CDD  370.5

A revista SOMMA é uma publicação científica do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí.
Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não expressam, necessariamente, a opinião do
Conselho Editorial.
É permitida a reprodução total ou parcial dos artigos desta revista, desde que citada a fonte.

Sumário
Editorial ..................................................................................................................................................04
Apresentação ...........................................................................................................................................05
CIÊNCIAS HUMANAS
Dialetos de identidade étnica racial ancorada nos Cenários da prática de poder...........................06-16
Marcieva da Silva Moreira e Robison Raimundo Silva Pereira
A sociointeração comunicativa no ambiente religioso Protestante..................................................17-30
Antônia Lopes dos Santos Filha
Representações sociais do adolescente em conflito com a lei: análise do programa de semiliberdade e
privação de liberdade através de fanzines ........................................................................................31-53
Camila Fernanda Soares Leal, Halanna Talyta Marques Campelo, Marco Antônio Araújo e Patrícia
Rocha Lustosa
Inclusão digital de alunos com deficiência: educação e tecnologia como instrumentos mediadores
.............................................................................................................................................................54-67
Arlete Fragas da Silva Rocha, Allexy Luiz Ribeiro e Silva e Allex Oliveira Alencar Lima
Composição corporal por bioimpedância de policiais da companhia de choque do BPRONE da
Polícia Militar do Piauí......................................................................................................................68-77
Gabriel Vasconcelos Assunção e Cláudia Maria da Silva Vieira
O professor na contemporaneidade...................................................................................................78-90
Alcenir de Sousa Luz
Educação neutra: práticas cotidianas que podem ajudar na permanência e reprodução de
discriminações contra o negro? ......................................................................................................91-103
Leandro Pereira de Sousa Macêdo e Robison Raimundo Silva Pereira
Reflexos sociológicos do consumo simbólico da informação midiática.......................................104-120
Maria dos Remédios de Sousa Bezerra
Topônimos: enunciados ideológicos formadores de um gênero próprio.....................................121-133
Rose Mary Furtado Baptista Passos
Miragens do Oriente: os mouros míticos no imaginário narrativo-performático
português.........................................................................................................................................134-145
Barbara Lito
“À paz perpétua” e as organizações internacionais de direito.....................................................146-156
Wilker de Carvalho Marques
LINGUÍSTICA, LETRAS E ARTES
Memórias póstumas de Brás Cubas e sua adaptação à HQ: (possíveis) implicações para os jovens
leitores.............................................................................................................................................157-169
Patrícia Maria da Conceição Silva Santos
O Reggae como instrumento de alfabetização e letramento: reflexões sobre o saber e o
poder................................................................................................................................................170-181
Silvio Tavares dos Santos e Robison Raimundo Silva Pereira
Sociolinguística variacionista e estruturalismo linguístico: um diálogo. ...................................182-200
Júlio César Lima Moreira

EDITORIAL
Marluce Lima de Morais
Presidente do Conselho Editorial do IFPI

A Revista SOMMA está vinculada ao Conselho Editorial do Instituto Federal de Educação,
Ciência e Tecnologia do Piauí (IFPI), um órgão consultivo, normativo e executivo, responsável
pela formulação e implementação da política de editoração e publicação em suas versões
eletrônica e impressa, bem como de livros editados pelo IFPI.
O periódico foi criado em 2014, e em meio a homologação e articulação do Conselho Editorial
em 2015 vem tornar público o seu primeiro número. A Revista SOMMA Constitui-se numa
publicação periódica semestral e interdisciplinar do Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Piauí – IFPI com edições on-line nos meses de junho e dezembro de cada ano.
Trata-se de um periódico que veicula publicações de trabalhos inéditos relacionados a
produções que versem nos eixos ensino, pesquisa e extensão, bem como constitui um espaço
para divulgação e diálogo para trabalhos de profissionais nas mais diversas áreas, vinculados
ou não à instituição. Temos o objetivo de fomentar através da revista, a pesquisa, produção
científica, literária e cultural, contribuindo para o desenvolvimento do pensamento crítico e
fortalecimento da difusão científico-cultural no Piauí, abordando trabalhos em diversas áreas,
tais como:
Ciências Humanas;
Ciências Sociais Aplicadas;
Ciências exatas e da terra;
Ciências Biológicas;
Ciências Agrárias;
Engenharias;
Linguística, letras e artes

A revista está dividida em seção de artigos, resenhas, notas de dissertações e teses, notas de
trabalhos de conclusão de cursos e entrevistas com submissões abertas, indexadas e avaliadas
por pares e publicada através do sistema de revistas Open Journal System. Em seu suporte
online evidenciamos nossas expectativas em permitir o acesso a uma rede de pesquisadores e
interessados nas questões que perpassam os temas da revista.

Boa leitura.

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APRESENTAÇÃO
Sônia Oliveira Matos Moutinho
Membro do Conselho Editorial

É com prazer e satisfação que apresentamos à comunidade interna e externa do
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí (IFPI) a concretização não
só de uma meta, mas de um sonho: a Revista Somma, uma publicação que reúne as
contribuições científicas, culturais e tecnológicas de servidores, alunos e demais
estudiosos. O IFPI, em seus 106 anos de existência e bons serviços prestados, estava
carente de um espaço como este.
O conhecimento e o saber elaborado, a partir deste espaço de construção do
conhecimento que se transformou o IFPI, no mais amplo conceito que a expressão
“Instituição de Ensino” pode ter, precisa ser divulgado, compartilhado, debatido,
criticado e, acima de tudo, reconstruído. Este é o objetivo da produção deste
instrumento de divulgação científica, cultural e tecnológica. A competência profissional
e o entusiasmo dos que constroem o IFPI passa a ter, a partir de agora, um espaço plural
de manifestação de ideias, pesquisas, projetos, resultados obtidos e de quaisquer outras
formas de troca do conhecimento.
Quando afirmamos que há tempos havia a carência de um espaço para
publicações como este, é porque, no seu processo de desenvolvimento e expansão, o
IFPI, vem praticando de diferentes formas, a pesquisa e a extensão e seus servidores e
alunos vem enriquecendo outras publicações com suas produções intelectuais. Uma
instituição como o IFPI a qual avança no trabalho de envolvimento com os problemas
de sua comunidade, que pensa e experimenta soluções criativas para variadas questões e
problemas de ordens sociais e tecnológicas, pode repartir com o mundo as suas ideias e
conhecimentos através de um veículo próprio.
Esta publicação nasce inicialmente com o objetivo de ser publicada a cada seis
meses, ou seja, dois números por ano. Também é importante dizer que, enquanto
instrumento de divulgação científica e cultural, ela está aberta também a publicações de
artigos produzidos pelas demais instituições de ensino tecnológico e superior, aceitando
inclusive artigos produzidos por pesquisadores de instituições estrangeiras.
Somma, segundo o dicionário Michaelis, significa soma, total, montante,
quantia. Em sentido figurado, significa conjunto, sumário, resumo, in sommaem suma,
concluindo. Essas conceituações sinônimas refletem com muita clareza os propósitos
desta revista que objetiva ser um ponto em comum que permita unir outros diferentes
pontos representados por ideias diferentes, concepções, abordagens, com o objetivo
maior de disseminar conhecimento e cultura.
Parabenizamos e agradecemos o Reitor do IFPI, Prof. Dr. Paulo Henrique
Gomes de Lima, e a Pró-Reitora de Extensão, Profª. Dra. Divamélia Gomes, pela
decisão em criar a revista e pela confiança depositada no Conselho Editorial em
produzir esta revista. Ainda agradecendo o apoio e incentivo de todos, pensamos que a
concretização deste desafio nos lembra a citação de Robert Collier: “O sucesso é a
soma de pequenos esforços - repetidos dia sim, e no outro dia também”.
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DIALETOS DE IDENTIDADE ÉTNICA RACIAL ANCORADA
NOS CENÁRIOS DA PRÁTICA DE PODER  
Marcieva da Silva Moreira*
Robison Raimundo Silva Pereira**

RESUMO
Neste artigo propomo-nos analisar como se desenvolve as mudanças culturais de identidade
étnica, em processo da prática de poder nos cenários educacionais contemporâneos. Até por
que diante da contextualização da sociedade do final do século XX aos dias atuais, busca-se
compreender as fragmentações e disciplinas que envolvem o corpo e o espaço que o individuo
se encontra em razão da hierarquia de poder. O estudo se desenvolveu através de diálogos
bibliográficos entre Anete Abramowicz, Lucia Barbosa, Valter Roberto Silvério (2006),
Bourdieu (1992, 2005 e 2013), Michel Foucault (1979, 2012), Nilma Lino Gomes e
Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva (2011), Pedro Demo (2005), Regina Pahim Pinto e
Fúlvia Rosemberg (2011), Stuart Hall (2005), Hengemunhe (2010). Os resultados identificam
que a cultura étnica racial é uma das mais segregada e prejudicada no campo educativo, onde
a maioria dos 63% da população negra é negligenciada diante dos sistemas de poder, sem
participação no dialogo da escola e nas expressões do ser. O negro precisa ter espaço para o
dialogo, para a aprendizagem e a construção de sua própria identidade, em razão institucional,
econômica, social e cultural.
Palavras-Chave: Identidade. Prática educacional. Poder.

ABSTRACT
In this article we will consider how to develop the cultural changes of ethnic identity in the
process of the practice of power in contemporary educational settings. Even by that given the
context of the late twentieth century to the present day society, we seek to understand the
fragmentation and disciplines involving the body and the space that the individual is because
of the power hierarchy. The study was developed through dialogues between bibliographic
Anete Abramowicz, Lucia Barbosa, Valter Roberto Silverio (2006), Bourdieu (1992, 2005
and 2013), Michel Foucault (1979, 2012), Nilma Lino Gomes and Petronilla Beatriz
Gonçalves e Silva (2011 ), Pedro Demo (2005), Regina Pinto and Fulvia Rosemberg Pahim
(2011), Stuart Hall (2005), Hengemunhe (2010). The results identified that racial, ethnic
culture is one of the most segregated and prejudiced in the educational field, where the
majority of 63% of the black population is neglected before power systems without
participation in the dialogue of the school and in the expressions of being. The black needs to
have space for dialogue, for learning and building your own identity in institutional reason,
economic, social and cultural.
Keyword: Identity. Educational practice. Power.

                                                                                                                       
*

 Graduanda em pedagogia, IX Bloco –UESPI, participa do NEPE – Núcleo de Estudos em Políticas
Educacionais e Diversidade.
 
**
 Docente da Universidade Estadual do Piauí. Mestre em Ciências Sociais pela Universidade de São Carlos.
 
Somma, Teresina /PI, v.1,n.1, p. 6-16, jul./dez. 2015

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1 INTRODUÇÃO
Neste artigo propomo-nos analisar como se desenvolve as mudanças culturais de
identidade étnica, no processo das práticas de poder e nos cenários educacionais
contemporâneos, sobretudo, em perspectiva dos desafios da educação. Até por que a
contextualização da sociedade do final do século XX percorrem até os dias atuais, nas
fragmentações e disciplinas que envolvem o corpo e o espaço que o indivíduo se encontra e
na hierarquia de poder. Um dos questionamentos relevantes da pesquisa é a problemática: por
que os cenários da educação se tornam a ser um dispositivo de exercer o poder e não de
mudanças de identidade étnicas e socioculturais?
Esse processo de transformação é fundamental para compreender as diversas
manifestações de identidades existentes na modernidade e na dimensão étnica racial que fica
ancorada em práticas de hierarquia de poder. É muito abrangente quando se fala de
identidade, mas existe todo um aparato pedagógico e político para a discussão.
Nesse sentido a proposta deste trabalho é investigar quais os mecanismos de poder
interferem nos espaços educacionais que inibem as variações de identidade étnico racial, e as
contextualizações na ordem do poder. Pois existem questões de fragmento e de pertencimento
cultural, social, linguístico e religioso, buscando alternativas para a prática na sala de aula e
no meio escolar.
Este estudo se justifica em razão dos temas abordados no grupo de pesquisa NEPE, em
sala de aula, e de observações da prática escolar, acerca da prática de poder e em processo da
diversidade de identidades étnico racial dos cenários educacionais. Pois percebe-se a
necessidade de contextualizar e trabalhar a quebra do preconceito, tornando-a como base a
prática do âmbito escolar e afirmativo.
Para o desenvolvimento do trabalho dialogamos com os seguintes autores: Anete
Abramowicz, Lucia Barbosa, Valter Roberto Silvério (2006), Bourdieu (1992, 2005 e 2013),
Michel Foucault (1979, 2012), Pedro Demo (2005), Regina Pahim Pinto e Fúlvia Rosemberg
(2011), Stuart Hall (2005), além de debate e apresentações dos temas nos grupos de estudos, e
em sala de aula. Onde há uma necessidade de compreensão e de debates referentes a
diversidade étnico-racial e prática de dominação relacionado ao poder.

Somma, Teresina /PI, v.1,n.1, p. 6-16, jul./dez. 2015

 
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1 Identidade: reflexos de desenvolvimento em uso afirmativo No entanto vale se ressaltar que falar sobre identidade.. de consciência e de movimento no detrimento de conhecimento sobre o ser humano. no assunto relativista da sua essência. e é nesse mesmo processo que corresponde às transformações e variações tanto da cultura como da sociedade em razão da mudança e dos conflitos..] áreas diferentes do globo são postas em interconexão umas com as outras. segundo Ramos (2009)... pois a sociedade convive com a mudança constante Ainda com Hall (2002. interagir as demais identidades. ondas de transformação social [. envolve relações de movimentos tanto do grupo social quanto do íntimo. Argumentar-se em sentido que a identidade em termos culturais. p.07). pois ela se fragmenta. Atualmente entender os reflexos da identidade étnica racial é relacionar aos processos de globalização.2 REVISÃO DE LITERATURA 2. Para compreender o processo de construção de identidade é necessário relativizar diante das três concepções de identidade do sujeito como: iluminista.15) ‘[.. que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social.1. social e a cultura. p. é um fato indispensável para a construção de sujeitos concretos em função do social e cultural. jul. 6-16. e merece confronta-las com as múltiplas realidades do ‘eu’. afirma Hall (2002) é demasiadamente complexa.]’ Somma.] “crise de identidade” é vista como parte de um processo mais amplo de mudança. Teresina /PI. pois cada uma das características se relacionar as capacidades de razão. [. 2015   8   . p. social e pós-moderno./dez. e muito pouca compreendida na ciência social.n.1. No entanto faz necessário destacar que a identidade que existem no próprio ser humano é contraditória. É sabido que a identidade não é algo unificado e estável. v. Como afirma Hall (2002.. pois é algo que vem sendo questionado desde o período do iluminismo. até por que entender o sujeito propõem se relacionar as concepções de identidades. envolve uma série de contextualização.

.2 Educação: como prática de poder Entender a educação requer conhecer a história e as práticas que se amplia através da mesma. mas é uma relação de separação. jul. onde a dialética é negligenciada. musical e corporal).. Ela tornou-se politizada. político e ecológico. traz contextualização bastante abstrata.].21). Ainda com Hall (2009. ou seja. 2. A identidade se constrói através da diversidade dos grupos sociais. da mesma forma que as demais identidades são construídas a negra também se envolve pelas relações sociais. Esse processo é ás vezes. de globalização e histórico percebe-se que a tanto a identidade mestra. pois o discurso torna uma linguagem inacessível para a Somma. realiza o controle dele e garante sua utilização. Partindo para fundamentação da temática étnico racial. é reconhecer sua própria origem. mas a especificidade de cada uma são levadas ao: sexual.] A identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado.. artes (plásticas. pois os processos de mudança tanto na área política e cultural são fragmentados. [. étnico racial. Assim como Ramos (2009). cultural.. Ao relacionar os fatores culturais. culinária. entram capitais e classes de poder que perpassam todo um tempo histórico Dialogando com Foucault (2012) O poder se articulam diretamente sobre o tempo. p. 6-16. v. todos são fatores de diferentes produções como a religião. social e regional. e da luta nos relacionamentos sociopolítico e histórico da sociedade./dez. no entanto construir uma identidade étnica racial é perceber suas capacidades de consciência e ação diante do seu interior. Teresina /PI. mas pode ser ganha ou perdida.1. como a negra não é um processo único. social. 2015   9   . até por que vivemos em um país que a multiplicidades de cultura é evidente e o que pode muda é o reconhecimento e a afirmação do ser negro enquanto sujeito participativo da sua história e cultura.1.Em questão das articulações de identidades. a identificação não é automática. Entanto apropria-se da identidade do “eu”. A questão não se resume somente na diversidade de conhecimento.n. p. descrito como constituindo uma mudança de uma política de identidade [. pode entender que ela se constrói e se desenvolve através das particularidades histórica e de consciência aos seus aspectos religioso. mas como as estruturas que colaboram para a determinação das forças em campo de significação de classe. ela é marcada nas práticas de reafirmação.

por que elas se manifestam sobre várias constituições tanto positivo como negativa. que constrói. mas em toda parte da sociedade. na qual a proposta é lutar contra os efeitos de poder centralizados no único discurso científico. produz saber e discursos pôr uma mediação que atravessa as barreiras hierárquicas do corpo social Dialogando com Foucault (2012) produtiva do poder só pode ser assegurada se por um lado ele tem possibilidade de se exercer de maneira contínua nos alicerces da sociedade.] pode-se dizer que a disciplina produz. jul.. mas no entanto. dos discursos. o grande instrumento do capitalismo na preparação de “mão de obra” improdutiva. o discurso e o saber no sistema capitalista invalida a luta contra as formas de discriminação de poder.n.1. Em contraponto estamos em uma sociedade que se fundamenta em uma genealogia de saberes contínuos. é combinatória (pela composição das forças). ela pode proporcionar obstáculos necessários para a variação do discurso e da aplicação e interação entre a teoria e a prática nas barreiras existenciais dos cenários de poder.. mas também possui uma força que permeia o não e o sim. 2015 10     . ensina. hierárquicos. O sistema escolar seria.161). pela própria necessidade do seu crescimento./dez. a partir dos corpos que controla. O sistema de poder não se justifica somente nas instâncias dominantes. p. 6-16. quatro tipos de individualidade. p. Como afirma Foucault (2012. positivistas. p.1. responsável pela criação e desenvolvimento de uma classe média em expansão com a própria expansão do capital. ele se encontra no seu próprio interior. todos são processos que o meio educacional pode proporcionar. científicos e antes científicos. dos domínios. Hoje. A prática do poder é uma forma que tem caráter repressivo. baseiam-se na construção de saberes. então. [. Como afirma Gadotti (2006. v. é genética (pela acumulação do tempo). requer uma variedade de mecanismo. ou antes uma individualidade dotada de quatro características: é celular (pelo jogo da repartição espacial). Embora a prática sejam parciais e fragmentadas. é uma forma de poder.classe proletariado se colocando a zona de poder e de seleção onde os quem tem acesso são aqueles que estão dentro do aparelho do estado. é orgânica (pela codificação das atividades). Teresina /PI. 147). Repensar a educação. descontínuos. a Somma.

repassando para o grupo de negação. Onde esse discurso não se justifica somente em detrimento dos cenários da prática. 6-16.1. Há uma presença étnica racial nas escolas. onde ela própria se redefine em rendimento e interrupção da aprendizagem. são levar a sério as particularidades da diversidade em relação ao respeito da convivência humana.’.1. nas relações étnicas.] A evolução humana só pode ser concebida como o desenvolvimento desta riqueza social. no sentido da universalização dos bens e das faculdades de todos os indivíduos [. e não como indivíduos participantes da cidadania. na casa.. Em detrimento do aspecto da ética. políticas e de sexos. Teresina /PI./dez.3 Relações raciais: para além da prática de reprodução educacional. p.razão da politização está na diversidade dos discursos. e nas relações biológicas. Dialogando Oliveira (2006) Há um conflito interno no próprio sujeito e com o seu grupo de origem. Atualmente vem se trabalhando contra o preconceito. utilizando-se da genealogia para o combate de poder individual. tornando na prática educacional uma distinção de visão e divisão entre o masculino e feminino. 2. a Escola que agem no interior das estruturas e do indivíduo. usando-se de mecanismo que envolva o indivíduo no seu contexto histórico-estrutural dialético. p. Somma. ‘[. Atualmente trabalhar e vivenciar as relações raciais no cotidiano escolar requer um conhecimento multicultural em decorrência da ética plural e singular.55)’. Uns dos grandes desafios étnicos mais contundentes e urgentes.. onde essa reprodução partir das primeiras interações a Família. esse aspecto de gênero gira na razão do poder entre homens e mulheres. jul. o sujeito rechaçado tentar relegar.]. A condição de transformação que a educação se encontra visa um poder institucional e de mecanismos que a sociedade pode trazer. mas no trabalho. v. em processo de transcendência da educação. ‘Essas relações estimulam grupos que se encontram marginalizados pela reprodução de poder na sociedade e nas instituições a construir uma extensão de qualidade de pertencimento e reconhecimento da sua liberdade cultural Ainda com Gadotti (2006. e as desigualdades étnicas em razão de uma única aceitação por brasilidade..n. 2015 11     . em particular para práticas democráticas. o qual. a Igreja. buscar-se todo um reconhecimento de qual sujeito estamos se relacionando em meios os processos sociais..

p. 6-16. esse espaço deve ser multicultural.. Tudo se relaciona em processo de ações e objetividade. a concepção dialética da educação. em todos os seus níveis. A prática educacional pode buscar por mudança nas hierarquias de poder. Teresina /PI.. A proposta da Lei 10. Como afirma Oliveira (2006.1. p. por que a transformação pode ser possível.60). cultural e ideológica. mas se utilizamos de contradições e contestações. A relevância está na desconstrução da prática racista no campo educacional em processo da construção de novos espaços de diálogos e representações afirmativas. mas é importante se utilizar de uma dialética de significação da sociedade em razão das relações para a diversidade. através da dialética. [. pois colocar a história e cultura afro-brasileira e indígena no ensino causa um grande benefício as relações para as quebras das reproduções de práticas racistas e conservadora sobre o negro no seu espaço social. baseada na análise concreta das relações existentes no trabalho. que se transmitem no interesse da sociedade. a mesma se consubstancia ao um estudo profundo da história social.As escolas de hoje assumem práticas reprodutoras cultural. histórico e não espiritual. p.639/03 é transformar nas práticas e na sociedade visões conservadoras. é uma forma de segregação e exclusão das diversas culturas inserida ao longo do processo histórico. por que o movimento da interação proporciona a transformação. embora ela seja uns dos métodos de preservação das tradições da história./dez. até por que o conhecimento se transforma de forma direta na coletividade e nos conflitos do meio social.212). por que não há incompatibilidade entre os valores humanos e os conhecimentos científicos e filosóficos selecionados para os currículos dos diferentes níveis de ensino. O compromisso da educação com a formação dos sujeitos que se coloquem a serviço da promoção humana deve perpassar toda a educação.1. 2015 12     . Onde repassa uma estrutura de classes. sustenta que o processo de emancipação do homem é antes de mais nada econômico. v. jul.n. Somma. a instituição educacional é o estabelecimento priorizado para reconhecer a pluralidade e a democracia.] Da concepção idealista da educação. Ainda com Gadotti (2006. que crê na possibilidade de uma mudança através da consciência e da quantidade de educação.

se baseia na educação e na cultura da sociedade. 3 METODOLOGIA Para o desenvolvimento da metodologia adotada na investigação. na qual causa um conjunto de relações e ações como econômica. As relações étnicas raciais para além da prática de poder. se a pedagogia interagir a questionamentos modernos.n.. O ser humano se condiciona a um processo social. o campo da pesquisa que foi a Escola Antônio Nivaldo. Teresina /PI. por que o homem se transforma.. p.1. onde há uma identificação das relações entre as variáveis. instrumentalizamos a pesquisa descritiva. cultural. onde pode levar uma dominação física ou mental Dialogando com Gadotti (2006.’.p. histórica. Embora a educação possa ser um campo de poder. 2015 13     . onde o conflito permitir quebrar as barreiras existentes do racismo e das classes camufladas nas instituições da educação. por que o meio do trabalho traz uma desigualdade e alienação. é somente através da mesma que pode haver uma transformação tanto social quanto intelectual. jul. e os instrumentos e técnicas de coleta sendo: Somma. pretendendo determinar sempre a natureza da pesquisa (GIL. 6-16. que consiste essencialmente em submeter os objetos de estudo à influência de certas variáveis.79) ‘[. A proposta adotada no percurso da abordagem da pesquisa destacada foi: a abordagem da investigação. em condições controladas e conhecidas pelo investigador..]./dez. os sujeitos do estudo alunos negros do 5º ano do ensino fundamental. em razão da superestrutura e infraestruturas das instituições e da escola na razão de proporcionar maturidade ao indivíduo. pois o negro ainda é produtor do meio. envolve toda uma contextualização capitalista. na qual também não existe educação. p. que o faz se desenvolve em sua totalidade de produção. etnias e de cultura. pois associam-se aos objetivos propostos no levantamento das informações e descrição das características mais significativas.. e o mesmo se resulta de uma autoridade de produção de poder na liberdade afirmativa e na contextualização política. 2009a.A educação e a prática da escola de fato só pode haver mudança para diversas relações. mas domesticação ou puro adestramento [. a produção impõe sobre o meio a desigualdade de classes. para observar os resultados esta produz no objeto (GIL.16). Pois todas as relações que o indivíduo se interagem. Para o delineamento da pesquisa utilizamos o método observatório do campo estudado. mas o meio traz uma realidade materialista. 2009). v.1.] Caímos no autoritarismo.

tampouco a negra que está inserida como na maioria das vezes e é negligenciada pela sua cultura.n. busca uma relevância nos questionamentos do papel do negro no campo de ensino. onde os méritos só surgem de acordo com as escalas econômicas.1. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Fazer uma abordagem de reflexão diante da educação em razão da identidade étnico racial traz uma reflexão na dialética. pois está enquadrada em um sistema de segregação. falar do reconhecimento do negro na história. 6-16. Teresina /PI.observação do ambiente escolar e questionários direcionados aos docentes da escola e análise dos dados as concepções gerais do assunto estudado e concepções e analises de toda pesquisa. onde funciona como um mecanismo de privilégios específicos de forma de hierarquia da lei. Na prática educacional existe todo um diálogo sobre a construção da sua própria identidade./dez. para a aprendizagem e a construção de sua própria identidade. que é a escola. e não somente cumpre as normas de um sistema que aprisiona barreiras institucionais. social e cultural. propõem uma analises no percurso da educação.1. Desde a década de 70 o movimento negro vem buscando unificar um dialoga sobre a luta da população em processo da educação. jul. pois faz se um levantamento que a própria cultura é um elemento de separação e violação nos movimentos. sem participação no dialogo da escola e nas expressões do ser. O olhar do docente em proposta da construção de identidade torna-se indispensável. mas vale criticar que essa mesma tem um papel muito lento no campo da diversidade. pois trabalhar as relações étnicas chega-se a ser limitado. A todo o momento é construído uma identidade na escola. O negro precisa ter espaço para o diálogo. pois perceber a mazelas que se encontram as áreas pedagógicas. p. pois o racismo interfere no desenvolvimento dos movimentos negros e nos próprios gestos e atitudes. No entanto. por que os manifestos foram fatores importantíssimo Somma. econômica. pois ela é uma divisão de classificações de classes e culturas. seus traços biológicos e os seus socioeconômico. 2015 14     . A cultura étnica racial é uma das mais prejudicadas nesse campo educativo. onde a maioria dos 63% da população negra é negligenciada diante dos sistemas de poder. pois todo sistema educacional tem um caráter disciplinatorio. em relação aos indivíduos para o ensino-aprendizado. v.

tem um fator imprescindível para o desenvolvimento da história e cultura-afro brasileira nos ensinos. Michel. A LDB. por conta da grande produção. dar até um grande salto para a conquista do respeito e igualdade cultural de cada indivíduo que possuir sua história entrelaçada na África. Jean. Com grande aumento do capitalismo tanto as culturas menos abastecidas. BOURDIEU. ______.1. mas tampouco como formação para a vida participativa. 2005.n./dez. mas ainda hoje em pleno século XXI se encontram resquícios de tradicionalismo e racismo no contexto educativo. fazendo assim um mascaramento de desenvolvimento e globalização. 2013. REFERÊNCIAS BOURDIEU. Éticas multiculturais: sobre convivência humana possível.1. através da lei10. Buenos Aires: Siglo Veintino. e para a globalização que existe nos micros cenários de poder. 4. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. ed.Claude. Não basta repensamos somente como proposta de ensino. onde visa um bem social aos indivíduos e não somente uma segregação. onde o monopólio se volta às redes privadas. onde a exigência se volta somente ao capitalismo industrial e cultural das massas. Rio de Janeiro: edições Graal. aonde a escola vai se transformando em deposito de informação e não construção e transformação da sociedade. Somma. p. Então faz a seguinte conclusão à prática é um espaço para a contestação pedagógica e dialética ao coletivo. onde o pequeno grupo detém as regras e a grande massa sofre as misérias do capitalismo e do racismo. que é a prática. mas ao lado da constituição e LDB. Pierre. 2015 15     . sem ela torna-se inacessível a sua efetivação. 639/03 e 11645/08. FOUCAULT. mas é fundamental repensarmos como um espaço de politização ao corpo escolar e o docente pois ele tem um papel relevante na construção afirmativas das diversas culturas existentes no ambiente escolar. 1992. jul. 1979. DEMO. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves. para o trabalho. O ensino da educação está liderado a uma cultura totalmente burguesa. PASSERON. Pierre. como a escola sofrem as consequências. A dominação masculina.para o desenvolvimento da prática de ensino. Pedro. 6-16. Microfísica do poder. RJ: Vozes. 2005. Petrópolis. Teresina /PI. v. A reprodução. La nobleza de Estado: educación de elite y espíritu de cuerpo.

2002. Gestão de ensino e práticas pedagógicas.[S.Vigiar e punir: nascimento da prisão. 2009. 2011. Somma. Tramas da cor: enfrentando o preconceito no dia-a-dia escolar. Belo Horizonte: Autêntica Editora. PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS. RJ: Vozes.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932011000200013>. 7. Disponível em: <http://www. Antonio Carlos. et al. Maria Elena Viana (Org. Relações raciais no Brasil: pesquisas contemporâneas.scielo. Nilma Lino. Nilma Lino. Ricardo Franklin. GOMES. Adelar. PINTO. Experiências étnico-culturais para a formação de professores.MG.scielo. Stuart. [S. 6-16.). 2002. A identidade cultural na pós-modernidade.php?script=sci_arttext&pid=S1413-24782002000300004>. Relações raciais no cotidiano escolar: diálogos com a Lei 10. São Paulo: Atlas. Rio de Janeiro: Rovelle. jul. HALL. As relações cotidianas e a construção da identidade negra. GOMES. RJ: Vozes. 2010. SILVA. 6. ed. 2009. Acesso em: 27 Nov.______. Disponível em <http://www. In: Trajetórias escolares. Rio de Janeiro: DP&A.L]. Raquel de. Petrópolis. Petrópolis. Acesso em: 27 Nov. (Tese de Doutorado) Faculdade de Filosofia. Amilton Carlos. Maranhão. Métodos e técnicas de pesquisa social. Teresina /PI. 6. Corpo e cabelo como ícones de construção da beleza e da identidade negra nos salões étnicos de Belo Horizonte. SOUZA. 1997. ed. Ed. corpo negro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural?. SP. orientação sexual. 2013. HENGEMUHLE. USP. 3.n. São Paulo. ed.L]. 2015 16     . Letras e Ciências Humanas. v. Regina Pahim. Brasília: MEC/SEF. 2011.639/03. CAMARGO. Ed.br/scielo.UFMG. São Paulo: Selo Negro. Petronilha Beatriz Gonçalves.br/scielo. p.1. UFMA. 2005. GIL.1. Pluralidade cultural. 2012.40. 2013. FERREIRA. OLIVEIRA./dez.

A SOCIOINTERAÇÃO COMUNICATIVA NO AMBIENTE RELIGIOSO PROTESTANTE Antônia Lopes dos Santos Filha* RESUMO O presente trabalho objetiva mostrar as razões e como acontecem às variações na linguagem e a sua necessária adaptação ao contexto sócio-comunicacional. p. Preti (2000) e Monteiro (2000). Based on sociolinguistic theories of renowned authors as: Bagno (1999. Linguistic prejudice. ABSTRACT This work presents aims to show why and how changes occur in the language and its necessary adaptation to the socio-communicational. confirmando. 2003. Palavras-chave: Variações. Com base em teorias sociolinguísticas de renomados autores como: Bagno (1999.n. * Especialista em Línguística pela Universidade Estadual do Piauí – UESPI Somma.1. 2015 17 . Keywords: Variations.1. assim. Preti (2000) and Monteiro (2000). 2001. the protestant religious segment in Teresina-PI. 2004). Linguistic heterogeneity. uma necessária adaptação da linguagem ao contexto no qual é proferida para que ocorra comunicação eficaz. 2001. 2004). 2003. carried out a qualitative and quantitative analysis on the linguistic events occurring between twelve young people from fifteen to twenty-five years average level of schooling. confirming a necessary adaptation of language to the context in which it occurs is given to effective communication. fora realizada uma análise qualitativa e quantitativa sobre os eventos linguísticos ocorridos entre doze jovens de quinze a vinte e cinco anos com nível médio de escolaridade. v. Preconceito linguístico. Heterogeneidade linguística. no segmento religioso protestante em Teresina-PI. jul. 17-30. Teresina /PI./dez.

aplicado em duas etapas. o grau de compreensão e conhecimento linguístico adquirido por seus membros. a doze pessoas. tendo por base o método de ensino desenvolvido. confirmando que para haver efetividade quanto ao entendimento do ensino doutrinário são necessárias adaptações na linguagem e a impossibilidade de ser o grupo linguisticamente homogêneo. para a realização de sua atividade de pregação da palavra de Deus. Somma. verificando o nível sociointeracional linguístico.1. v. as formas de adequação linguística segundo o contexto social do grupo.1. jul. p. entre homens e mulheres. tendo em vista que os participantes atendem às expectativas do propósito estabelecido neste trabalho. utilizando-se de um corpus constituído por respostas dadas a partir de um pesquisa de campo. compreensão e os meios que um grupo religioso protestante detém para se relacionar linguisticamente. 2015 18 . o impacto dos eventos extralinguísticos nas variações que ocorrem entre os integrantes do grupo. É objetivo deste estudo. Teresina /PI. também. contribuindo para que haja adequação linguística. Através da análise qualitativa e quantitativa dos eventos linguísticos./dez.n. Este trabalho procura oferecer subsídios que promova uma reflexão crítica quanto ao aspecto linguístico decorrido em meio a este grupo social como forma de conhecimento e entendimento da causa de seu considerável crescimento na sociedade brasileira. mostrando a ocorrência de sua heterogeneidade linguística. cuja idade varia entre quinze a vinte e cinco anos. abordar a questão sobre o fato de o grupo fazer uso do meio de comunicação. cujo instrumento utilizado. analisando. De forma clara e objetiva será exposta a funcionalidade e a maneira como o grupo se utiliza da linguagem para atingir seu objetivo. mesmo havendo diversos fatores que contribuem para que ocorram variações linguísticas. 17-30. será avalizado o grau de entendimento. Assim. a língua.1 INTRODUÇÃO A proposta de realização deste trabalho visa mostrar o comportamento linguístico no segmento religioso protestante. procurou-se deduzir como e por que ocorrem as diferentes formas de expressão oral que faz com que os indivíduos se adaptem linguisticamente segundo o contexto da comunicação. com nível médio de escolaridade. o estilo de linguagem que atende às necessidades e capacidades dos ouvintes e os eventos extralinguísticos que ocorrem no contexto social. um questionário com perguntas sobre sociolinguística.

A análise da linguística na perspectiva Sociolinguística é feita pelo uso da língua em situação real. Desta forma. entre as Ciências Humanas. p. considerando os aspectos socioculturais na sua produção.1. 3 A (CON)VIVÊNCIA SOCIAL Como o uso da linguagem necessita de pessoas que a utilizem e isto em situações sociais de interação.1./dez. as variações e as mudanças linguísticas fazem parte da análise sociolinguística. nos remonta na busca pela compreensão de que todo grupo social interage regularmente com base nas exigências comportamentais de seus integrantes. p. 2015 19 . desenvolveu-se abordagem sociolinguística em 1960 liderada por William Labov. jul. como o estudo científico que visa descrever ou explicar a linguagem verbal humana” (ORLANDI. entender a sua organização. Somente a partir do século XX a linguística começa a dar novos rumos aos estudos da linguagem em uma perspectiva discursiva daquilo que é objeto principal para a realização da comunicação verbal entre os homens – a língua – “A Linguística definiu-se. uma vez que são fatores próprios na utilização da língua. Daí a existência do antagonismo social uma vez que cada indivíduo possui uma conduta que lhe é peculiar. valores. Somma. etnia.n. limitava-se apenas ao estudo da gramática normativa. a princípio. 2 O USO SOCIAL DAS VARIAÇÕES EXISTENTES NA LINGUAGEM Tradicionalmente. adequando as situações às mudanças estabelecidas linguisticamente por cada indivíduo. antes do surgimento da ciência linguística. linguagem. com bastante sucesso. o estudo da linguagem. 2003. discutiu-se sobre o uso das variações linguísticas que se estabelecem no contexto social. Teresina /PI. etc.Para tanto. Não é uma estrutura autônoma por que depende do contexto sociointeracional dos seus falantes e é de caráter adaptativo. pode-se caracterizar uma sociedade relacionando diversos componentes que contribuem para a sua identificação e contextualização tais como: cultura. Assim.9). Contudo. v. 17-30. pois para a sua análise há de se considerar a contextualização dos fatores linguísticos e extralinguísticos que possibilitam ou não o seu uso. religião.

quanto ao acesso e uso desta. Quando se afirma a determinação. constituindo e edificando uma nova categoria de variável linguística. ocorrendo. 2015 20 . Surgem. mas também por moldar e estruturar suas experiências individuais. Todavia. categoricamente. 17-30. p. objeto de estudo em questão.Dentre os componentes produtos da interação humana. Uma vez estruturado. consequentemente. visto que são feitas às pessoas imposições e restrições surreais quanto ao uso da linguagem. todas as demais categorias desta relação se interligam e consolidam suas estruturas. Vê-se aqui. é uma cultura ainda bastante arraigada de Somma. p. Nas interrelações comunicativas essa conduta se apresenta de igual forma. desta forma. Teresina /PI. principalmente nas escolas. à medida que necessário manifestarem-se coerentemente em outros contextos. a língua. até mesmo dentro dos grupos. cada grupo se organizará buscando uma forma de vida regular que corresponda às expectativas de todos. Assim.48) afirma que: “Toda variedade linguística atende às necessidades da comunidade de seres humanos que a empregam. um processo de transformação quanto ao ato de comunicação. Bagno (1999. Quando deixar de atender. grupos e status do qual o indivíduo fará parte. uma vez que eles se utilizam de meios que facilitem e os possibilitem exercer tal atividade com coerência. já que essa formulação varia em diversos ambientes situacionais. um processo de apropriação vislumbrada pelos indivíduos para manterem suas relações e. Toda relação humana. possui valor expressivo não só por ser o meio pelo qual os indivíduos se expressam e se comunicam pelos símbolos verbais. pois à medida que os grupos dela se apropriam para manterem comunicação. Desta forma. Daí. consiste em ser determinada. assim. as transformações ocorridas na linguagem de um grupo constituir. necessária e independente de subjetividade e em algum momento essas interrelações podem sofrer modificações. que ainda sofre grandes limitações. necessidade e independência do querer individual no uso da linguagem pretendem-se enfatizar a complexidade e importância que essa modalidade possui para que aconteça a comunicação e. o que se pode perceber é uma realidade linguística social. ela inevitavelmente sofrerá transformações para se adequar às novas necessidades”. uma ação comunicativa efetiva.1. a importância da linguagem nas relações interpessoais.1. v. Na organização social o processo de estruturação da sociedade estabelece permissões e restrições do que é possível para a vida social. ou seja./dez. 47.n. cada pessoa assume um papel fixo nesse padrão de conduta. jul. pois para cada grupo existirá uma maneira diferente de expressão verbal. pois o que é encontrado. um entendimento entre emissor e receptor da mensagem. as interações comunicativas acontecem moldurando-se de acordo com cada contexto.

Teresina /PI. Nesse sentido. o lugar em que se fazem presentes e a relação que une os interlocutores. pois cada indivíduo. 22). o que inviabiliza cada vez mais a aceitação das diversidades linguísticas. possui uma maneira própria para se expressar. 2015 21 . 17-30. pode-se dizer que a língua possui um caráter de dinamização.1 Mudanças necessárias É inegável que em todo o meio social existem regras de conduta comportamentais. p. ou seja. nem mesmo pelos falantes considerados cultos. “A língua que falamos hoje no Brasil é diferente do que era falado aqui mesmo no início da colonização. os quais muitas vezes marcam a linguagem individual e também de ordem contextual que determinam a linguagem do locutor em detrimento ao público ouvinte. jul. sexo e nível de escolaridade. ainda. Precisa-se entender. e também é diferente da língua que será falada aqui mesmo dentro de trezentos e quatrocentos anos!” (BAGNO. é condicionado a utilizar dessas variações.1. grau de instrução e o contexto ao qual está inserido. 2004. que toda língua passa por um processo de mudança diacrônica e variação diatópica.1. Toda e qualquer imposição linguística quando se trata de um grupo tem que ser levada em conta às variações predominantes naquele meio. tornando-a diferente a todo o momento. v. tais fatores precisam ser observados de forma a tornar flexíveis determinadas regras de comportamento./dez.um grande equívoco no que se refere ao ensino de língua. particularmente. tornando-a essencial no processo interacional entre os indivíduos que dela se dispõem para sua participação na sociedade. sexo. Assim. de acordo com a sua idade. a função da língua no meio social vai além de uma mera casualidade. frustrando a ideia dos que buscam torná-la única e que negam o fenômeno da variação linguística pela imposição da norma-padrão como modelo ideal que deve ser utilizada.n. não é. portanto. Muitos são os fatores extralinguísticos que ocorrem dentro dos mais diversos segmentos sociais e que podem ser de ordem sociológica: idade. é também inegável que para haver harmonia entre os indivíduos é necessário que haja um consenso entre os mesmos quanto ao condicionamento comportamental individual. 3. sendo este entendido como ensino de gramática normativa. o que as torna adequadas e coerentes nas situações em que são proferidas. o que. pois a dicotomia língua/sociedade é o que determina as Somma. p.

relações sociais estabelecidas no processo sociointeracional. . Eles não almejavam frases elaboradas e eloqüência de discurso. claro e direto. tornando indiscutível a interdependência entre as mesmas.. os grupos sociais em meio às diversidades comportamentais linguísticas. o uso premeditado de frases de efeito. observa-se que mesmo existindo uma concepção tradicional e oficial de norma-padrão de linguagem incorporada numa sociedade. que lhes são característicos e lhes possibilitam uma compreensão mútua no processo interacional. o ideal é que se encontre uma forma que seja intermediária entre os mesmos. 216). pessoal) e os puritanos de “estilo crucificado” (ANGLADA. o estilo simples. Teresina /PI.1. Uma das características mais proeminentes da pregação reformada é o assim chamado plain style. mostram que nem sempre se podem seguir regras pré-estabelecidas relativas à linguagem. Os grupos sociais. v. o estilo pomposo e elaborado de discursar.1. mas esforçavam-se com todo empenho para falar de modo que o lavrador simples do campo e a esposo do pescador pudessem compreender a verdade. 2005. Contudo. possuem um falar próprio. 17-30.. 2005. tanto na estrutura morfossintática quanto lexical. rimas e coisas do gênero. pode haver uma mescla entre estes dialetos sem prejuízo ou falha na comunicação. p. 1997. A língua precisa passar por um processo de escolha diante das variações existentes de forma tal que se adeque ao contexto em que ocorre a comunicação (ANGLADA. passando a existência de normas sociais condicionantes e não determinantes do comportamento linguístico. em geral. no segmento religioso protestante não podia ser diferente. p. em prol de um estilo que Calvino chama de familière (familiar. 171).. pois nas relações sociais prevalece a melhor maneira que os indivíduos determinam para o processo de compreensão linguística. caracterizando a pregação de Lutero e Calvino diz: . SPURGEON. Somma. com isso.. eles desprezavam a retórica. 2015 22 . p./dez. visto ser estabelecida esta linguagem como meio comunicacional em contradição à norma-padrão de linguagem imposta e preponderante em determinada comunidade. jul. Diante disto..eles não expressavam a doutrina com palavras difíceis. pois pode haver ocorrência de ambas tanto em um como no outro contexto.. Como se torna difícil uma definição para um dialeto apropriado entre o culto e popular.n. apud.tanto os reformadores como os puritanos rejeitaram deliberadamente a oratória clássica.

uma violação ao conservadorismo tradicional de linguagem culta. 4 NORMAS LINGUÍSTICAS PRÉ-ESTABELECIDAS Com a criação da disciplina gramática. 17-30. Estabeleceu-se e foram cultivadas a partir daí regras. tudo que é dito e que foge às regras de conduta linguística eloquente é denominado erro. “bonita”. visto ser ela quase sempre motivo de discriminação e exclusão de indivíduos que não seguem regras e normas linguísticas pré-estabelecidas por aqueles que ocupam a Somma. portanto.Levando-se em conta as características que apresenta a linguagem culta como “correta”. Um conceito preconceituoso que ao longo dos tempos vem sendo disseminado e impregnado no seio social. Por isso. normas pré-estabelecidas que foram catalogadas para que sejam seguidas fidedignamente por todo e qualquer indivíduo a fim de serem considerados falantes proficientes de sua língua./dez. não seriam considerados objeto de estudo da sociolinguística. Teresina /PI.1. fatores que determinarão a fala do locutor. que não passa de uma ideologia discriminatória se se levar em consideração o uso prático da língua em um processo de interação social e isso com todas as interferências ocorridas entre os seus usuários.n.1. num processo histórico social. por alguns poucos possuidores do poder. por volta do século III a.C. O que para um país de grande extensão territorial como o Brasil e que sofreu desde a sua colonização muitas influências linguísticas é intolerável. ou seja. o estudo da variável segundo a situação. mas esta se coloca em posição completamente contrária. a sua não ocorrência é que precisaria ser explicado. p. por não se perceber as muitas diferenças existentes entre cada grupo social e isso independente de qual região essas pessoas façam parte. percebe-se sua oposição e limitação diante da linguagem popular que mesmo estigmatizada e considerada como deturpada. “ideal”. 2015 23 . Tais preconceitos vão desde o que fala à maneira como fala cada pessoa. usada pelos que “não sabem a língua” é “mais aberta às transformações da linguagem oral do povo”. v. Propõe-se a partir daí uma discussão quanto aos modelos teóricos que discutem a variação linguística apenas como algo ocasional. jul. por que é a própria atividade de comunicação linguística que pressupõe as variações. “um modelo a ser seguido”. surge no campo de ensino referente à língua o equívoco predominante até aos dias atuais de que o indivíduo comete erros ao se expressar na sua língua materna. A realidade linguística em meio à sociedade brasileira ainda constitui alvo real desses preconceitos. Para esta afirmativa.

Portanto. ainda. Percebe-se.1. pois seguindo esta linha de raciocínio. dos que têm direito à palavra” (BAGNO. a busca pelo ideal e perfeição. tornando-os linguisticamente heterogêneos. porém. incorrendo no “mito da língua única” que.1. “é competência suficiente para a inserção do indivíduo na categoria dos que podem falar. não passa de “uma idéia falsa. o quanto é necessária à compreensão de que todo indivíduo é perfeitamente habilitado a expressar-se linguisticamente em sua língua materna. no entanto. jul. e que têm como manual a ser seguido à gramática normativa que por sua vez “passou a ser instrumento de poder e controle”. 5 HETEROGENEIDADE LINGUÍSTICA A dicotomia estabelecida entre o falar criativo de cada indivíduo e a sua necessidade de comunicação e interação em meio ao grupo em que atua propõe-se um equilíbrio entre a Somma. p. v. É constante. O que não está na gramática normativa “não é português”. 1999. dos que sabem falar. pois elas se constituem no processo interacional entre os grupos./dez. assim. e. ou melhor. p.camada social de prestígio. deve-se entender que quando se trata de expressão linguística todo indivíduo é capaz. Admitir tamanha autoridade à gramática normativa é reconhecer sua superioridade perante a língua criando a ilusão de que para se falar bem é preciso ter um bom grau de conhecimento da mesma. ao que se refere à linguagem. pois todos devem segui-la sob pena de não serem reconhecidos como indivíduos conhecedores de sua língua materna. não se podem desprezar as variáveis linguísticas. ou seja. 9) e. negar a dinamicidade da língua e tornar irrelevante a variável das quais os grupos se dispõe como meio de melhor compreensão entre os mesmos. Bagno (2001) afirma que é possível para todo falante nativo de uma língua expressar-se de forma natural e eficaz. aceitar tal concepção é não entender a riqueza linguística constante no meio social. 64). mesmo havendo limitações. E os compêndios gramaticais se transformaram em livros sagrados. atribuir à grande parcela desta sociedade o estigma de que sejam ignorantes. 2001. isto é. sem correspondente na realidade”. Como também concluir que de fato existe um modelo padrão de língua a ser seguido. 17-30. p. sem nenhum fundamento científico que comprove a sua existência. uma vez que estas atendem as suas necessidades linguísticas. Teresina /PI. isto é. cujos dogmas e cânones têm de ser obedecidos à risca para não se cometer nenhuma “heresia” (BAGNO.n. excluir a possibilidade de liberdade expressiva entre os indivíduos. consequentemente. pessoas inabilitadas a se expressarem em sua língua materna. 2015 24 .

. assim como nem todas as pessoas falam a própria língua de modo idêntico (BAGNO. em cada contexto comunicacional é utilizada uma linguagem que se adapte à circunstância. Somma. mantendo-se.1. caracterizando. acabam por fixar normas linguísticas que atenderão ao grupo de maneira satisfatória.) Ambas. a dinamicidade social da língua. p.norma linguística vigente na sociedade e as diversas variações que podem ser encontradas nas falas de cada indivíduo. v. em função de uma necessidade comunicativa. por seu turno. isto é. de tal forma que o indivíduo sacrifica sua criatividade. procurando uma melhor forma de comunicação. O que acontece é que em toda língua do mundo existe um fenômeno chamado variação. fica definida entre os membros de uma sociedade a melhor forma para que os mesmos possam comunicar-se. p. abrem concessões mútuas. pois mesmo que exista certo nível de conformidade quanto aos fatores normativos determinantes da língua e o seu uso em meio à coletividade. na linguagem do grupo em que atua. p. Pensar em uma uniformidade linguística requer compreender que em determinado ponto as normas pré-estabelecidas se interligam às diversidades produzidas pelos seus falantes promovendo. enquadrando-se. o que não o permitirá articulá-la de forma única e constante. a flexibilidade em ambos os lados devem existir. isto é. admitindo a criação individual. inconscientemente. nenhuma língua é falada do mesmo jeito em todos os lugares. 1999. e evolui naturalmente. a comunidade. assim. cada indivíduo possui uma forma que lhe é peculiar e própria de linguagem e este é influenciado por diversos fatores. com isso. não se pode afirmar a homogeneidade da linguagem em um grupo. visto serem necessárias adaptações da língua para que ocorra integração e aceitação entre os membros de uma comunidade. assim. pode-se inferir que a homogeneidade dentro de um grupo social não ocorre devido a muitas manifestações linguísticas existentes no mesmo.1. 2015 25 . 52). Nesta linha de raciocínio Preti (2000. Nesta perspectiva../dez. Para tanto. Assim sendo. No entanto.n. E mais uma vez aqui se vê a fragilidade de toda e qualquer imposição da linguagem. um processo de escolha diante das várias possibilidades de formas adequadas e convenientes de expressão. jul. 17-30. Teresina /PI. 48) posiciona-se da seguinte forma: (. incorpora hábitos lingüísticos originais que atualizam os processos de fala coletiva.

com isso. um equilíbrio quanto às divergências de opiniões emitidas. Somma. a pesquisa fora realizada com o grupo aplicando-se um questionário com dez perguntas. para efeito de descrição e visão compacta do trabalho constituído. segundo. o fenômeno da variação inviabiliza um mesmo falar nas mais diversas circunstâncias. Teresina /PI. 6 RESULTADO DA PESQUISA A metodologia utilizada para a realização deste trabalho foi constituída em dois momentos: primeiro. o que pode evidenciar certo nível de esclarecimento quanto ao ato de fala e escrita. De acordo com estes critérios de escolha estabelecidos. cuja idade varia entre quinze a vinte e cinco anos.1.1. desenvolveu-se uma pesquisa e análise qualitativa e quantitativa sobre os eventos linguísticos ocorridos no segmento religioso protestante. o que existe é a possibilidade de múltiplas ocorrências de conhecimentos e compreensões em níveis variados entre os membros de um dado grupo. entendendo que. foram realizadas leituras sobre posturas teóricas relacionadas ao tema sociolinguística de escritores já mencionados anteriormente.7% responderam que sim e 8. o equivalente a 50% respondeu que sim e os outros 50% responderam não. 1. Na sua opinião. de forma a proporcionar uma visão mais clara sobre o entendimento destas pessoas quanto ao objeto da pesquisa. 2015 26 . 75% responderam que não e 16. pois cada um em sua particularidade tem uma maneira própria de desenvolver sua habilidade linguística. possuem o perfil de interesse para esta análise e assim procurou-se deduzir como e por que ocorrem as diferentes formas de expressão oral que faz com que os indivíduos se adaptem linguisticamente segundo o contexto da comunicação. 17-30. entre homens e mulheres. serão considerados os aspectos mais relevantes que atendem seu objetivo e expostas apenas quatro das perguntas e respectivos resultados.n. jul. mostrou-se. o mesmo em duas etapas. v. ou seja. a doze pessoas. segundo suas descrições. no entanto é notório que o grupo respondeu aquilo que era esperado quanto a sua compreensão.3% não emitiu resposta. p. ter instrução escolar é sinônimo de falar e escrever bem? Na fase inicial. com nível médio de escolaridade. para que houvesse um embasamento fundamentado cientificamente./dez. no entanto.Assim. Na fase final. com apreensão de dados por meio de pesquisa de campo e questionário sociolinguístico aplicado em duas etapas.

Já na fase final. com isso.uma vez que se entende que toda e qualquer manifestação linguística é fundamentada cientificamente na formação da própria língua portuguesa.1. jul. 17-30. Somma./dez. pode-se observar também que ainda que tenhamos uma educação pautada nos princípios de ensino de língua. 68). ou seja. pois.3% marcaram que não e 58. o que mostra que muitos mantêm incutidos em mente a ideia conservadora do ensino gramatical como sendo primordial para o aprendizado da língua materna. em regra geral.67% disseram que sim. Supõe-se então que houve um considerável entendimento por parte do grupo que pode haver comunicação se for considerado o contexto da comunicação. percebeu-se o grau de maturidade do grupo quanto à quebra do paradigma conservador do ensino de normas gramaticais que apesar de. v. 33. E ainda. portanto.n. elas contradizem a realidade linguística vivenciada pelos mesmos.33% disseram não e 66. o grupo pesquisado pode revelar em suas respostas a quebra de um paradigma imposto socialmente e que desconsidera no ato da comunicação a individualidade e as organizações dos grupos para manterem uma comunicação eficaz.4% marcou sim. como fórmulas prontas a serem seguidas. isto é. No segundo momento. entendem que a frase não está estruturada sintaticamente de acordo com a gramática normativa. 75% disseram que não e 25% disseram que sim. não se pode considerá-la estática. fora compreendido pelo grupo a dinamicidade que apresenta a língua. 2015 27 . Teresina /PI.4% não marcou nenhuma das opções. Ou seja. que a língua mantém uma constante no que se refere à diversidade nas produções quer individual. considerando os padrões de norma culta desta língua. pois “há situações em que tanto fatores internos como externos atuam na seleção de uma variante em vez de outra” (MONTEIRO.3% marcaram sim e apenas 8. p. É preciso saber gramática normativa para falar bem? Na fase inicial. desmistificando a ideia de conhecimento gramatical para manter compreensão do ato de comunicação. 3. as suas transformações são frequentes e inevitáveis. Você sabia que do ponto de vista do contexto da comunicação a frase “eu sabo” está correta? Nesta questão inicialmente 91. entendendo. como já esperado. 2000. se apresentar como um ensino tradicional. entendendo isso. os indivíduos mantêm uma comunicação oral manifesta por variações diversas que lhes são reveladas no contexto situacional. Com isso.6% marcaram que não e 8. quer coletiva.1. 2. p. 33.

língua portuguesa é difícil? Esta questão a princípio foi respondida que sim por 75% e que não por 25% dos demais.1. 4./dez.Para a linguística. o seu estudo não se volta apenas para a estrutural das línguas. a linguística não o valida como formas de expressão corretas ou erradas. Os reformadores procuravam pregar com simplicidade e clareza. 1999. Para você. mas “com o objetivo de ensinar e não adornar as suas mensagens”. visto ser a heterogeneidade linguística implícita a realidade dos indivíduos. por parte dos pregadores da palavra. quer na fala ou na escrita. 35). eloquência e retórica são rejeitadas por serem consideradas como meio de desvio de atenção do conteúdo da mensagem para o pregador.n. se há uma efetiva comunicação. sem se apresentarem de modo confuso ou demonstrando falta de conhecimento. Na fase final. 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS Em virtude das necessárias adaptações da linguagem para que os indivíduos compreendessem as mensagens bíblicas que lhes eram dirigidas e assim ocorrer eficácia em seus objetivos.33% responderam que não e 41. mas principalmente como elas são organizadas de maneira que possibilitam o ato comunicacional. em toda a existência da religião protestante houve a preocupação. p. Teresina /PI.67% responderam sim. 17-30. Somma. p. não pode ter atribuição de valor ou preconceito. Pois mesmo considerando uma orientação de aprendizado da norma padrão culta ser importante para o desenvolvimento sociocultural da sociedade. jul. consideram-se as respostas prestadas como satisfatórias. 2015 28 . contudo. v.1. mas adequadas ao contexto de uso. 58. pois reconhece a diversidade linguística humana e o seu uso. considerando fatores internos e externos aos indivíduos. em se expressarem da forma mais simples o possível. vivo e verdadeiro da língua portuguesa do Brasil é bem provável que ninguém mais continue a repetir essa bobagem” (BAGNO. em consonância com a afirmativa de que “no dia em que nosso ensino de português se concentrar no uso real. Levando-se em conta que o grupo pesquisado passou por um ensino escolar arraigado na concepção tradicional e equivocada de que aprender língua portuguesa na escola quando na realidade lhes foi ensinado gramática normativa.

63) “nem tudo o que varia sofre mudança. 13. mesmo que o pregador faça uso de termos teológico-bíblicos. a linguagem tornar-se-á heterogênea. no entanto. segundo a necessidade de seus falantes.Observa-se. ainda. Paulo Roberto Batista. 22. e. dando. de fato. assim. Eni Pulcinelli. São Paulo: Contexto. o que ocorre nas pregações são variações devido às mudanças linguísticas que sofreram alterações em seus contextos para que pudessem ser a mensagem compreendida pelos expectadores. MONTEIRO. Para compreender Labov. O que é linguística. São Paulo: Brasiliense. que os pregadores ainda fazem uso de uma variação adequada para o seu contexto.1. diversificada. toda mudança linguística. José Lemos. 2004. São Paulo: Edições Loyola. 2005. como se faz. PRETI. v. Introdução à pregação reformada: uma investigação histórica sobre o modelo bíblico-reformado de pregação. 2000. Preconceito linguístico: o que é. jul. Como afirma (TARALLO. Corroborando com este teórico. Petrópolis. portanto. mídia e exclusão social. 2001. ed. p. 17-30. Pará: Knox Publicações. Dramática da língua portuguesa: tradição gramatical. no entanto. Sociolinguística: os níveis de fala: um estudo sociolinguístico do diálogo na literatura brasileira. 1999./dez. Variação. REFERÊNCIAS ANGLADA. independente de qual seja o grupo social. mostrando.1. mas a sua forma particular de compreender e fazer-se compreender. toda expressão oral dos falantes será considerada não como um erro. ______. Mudança é variação!”. exemplos práticos do cotidiano dos indivíduos. ele se preocupa em explicar o seu sentido. 1990. Somma. 2015 29 . Norma linguística. mudança. ______. então que a adequação linguística para o segmento religioso protestante em toda a sua história foi considerada primordial. ______. Portanto. Dino. Teresina /PI. A língua de Eulália: novela sociolinguística. fica claro que em todo momento e em cada situação. ORLANDI. sim implica sempre variação. ed. o pensamento dos reformadores ainda subexistem nos tempos atuais. São Paulo: Edições Loyola. 2003. não implica mudança. São Paulo: Edições Loyola. BAGNO. Marcos.n. A partir destas argumentações. pressupõe variação. RJ: Vozes. 2001. 2. ed. 9. p. 2000. tornando o ato de comunicação eficaz. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. normalmente é de conhecimento dos ouvintes ou quando uma palavra diferente precisa ser empregada.

1.1. jul. Fernando. 1990. 17-30. São Paulo: Ática. ed./dez.TARALLO.n. Teresina /PI. p. Série Princípios. 2015 30 . Somma. v. 3. A pesquisa sociolinguística.

optou-se por trabalhar sob o crivo da teoria das Representações Sociais de Moscovici e como foco as práticas infracionais. Medida socioeducativa. Social-Educative Sentence./dez. Objetivou-se elencar as representações sociais do adolescente em conflito com a lei em cumprimento de medida socioeducativa.1. e a partir daí constataram-se produções semelhantes e singularidades dos dispositivos de privação de liberdade e de semiliberdade.1. Representações Sociais. Docente da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) Somma. which is independent from de mainstream media. v. Teresina /PI. p.REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DO ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LEI: análise do programa de semiliberdade e privação de liberdade através de fanzines Camila Fernanda Soares Leal* Halanna Talyta Marques Campelo** Marco Antônio Araújo*** Patrícia Rocha Lustosa**** RESUMO Com o intuito de alcançar novas análises para os comportamentos transgressores em jovens. both in semi-open and closed system. A amostra foi composta por 4 adolescentes voluntários que estavam cumprindo medida de semiliberdade e 4 estavam em medida de internação no Centro Educacional Masculino (CEM) em Teresina. It was been chosen the production of fanzines. a resource for independent (first appearance in 1930s). in other words. For data basis. A ferramenta utilizada para coleta de dados foi a produção de fanzines. Thus. 2015 31   . que independe dos grandes meios de comunicação. we decided to work with the commonly discussed Theory of Social Representations of Moscovici and to focus on the infraction acts. The research goals new methodologies to see otherwise the knowledge of youngsters on their correctional process and try new resources in context of scientific research. um recurso de mídia independente (datado desde 1930). The sample consisted of four youngsters’ volunteers who were living in semi liberty and four were in the detention in Centro Educacional Masculino (CEM) in Teresina. Piauí. 31-53. Palavras-chave: Jovens em conflito com a lei.n. The goal was to rank the social representations of youngsters in conflict with the law and under correctional process. Utilizou-se a análise de conteúdo de Bardin (2011) por meio da categorização e exposição iconográfica dos fanzines produzidos pelos jovens. encouraging youngsters in their unique expression on topics that were related to them. Keywords: Youngsters in Conflict with the Law. jul.                                                                                                                         * Acadêmica do curso de Psicologia pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI) ** Acadêmica do curso de Psicologia pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI) *** Acadêmico do curso de Psicologia pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI) **** Doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Freedom. Liberdade. isto é. Piauí. the content analysis from Bardin (2011) applied on categorizing the iconographic exhibition of the youngsters’ fanzines product. Social Representations. tanto em regime semiaberto quanto em regime fechado. ABSTRACT In order to obtain new analyzes of transgressive behavior in teenagers. A realização da pesquisa converge com os propósitos de pensarmos novas metodologias para a apreensão dos sentidos que os jovens trazem a respeito da medida socioeducativa que lhe fora imposta e experimentar recursos pouco convencionais no contexto da pesquisa científica. além dos comumente discutidos. So that can be pointed the similar and the singular productions in each one. estimulando o jovem na sua singular expressão sobre os temas lhe dizem respeito.

Piauí? Somma. SUCENA.n. v. políticas econômicas e sociais promovem na mesma moeda a satisfação de alguns e a insatisfação de uma grande maioria que não tem a oportunidade sequer a manutenção vital (MOREIRA. 19) relatam que “há na juventude de todo mundo um gosto pelo risco. pois. massificação e criminalização da pobreza e desigualdade social. sociopsicológicos e individual que englobam os aspectos biológicos e psicológicos deste jovem. 2001).1. seja para produzir algum sentido ou pelo puro prazer de manifestar contestação”. O aporte conceitual desta pesquisa está em Moscovici (2007). ou seja. quando trata das representações sociais como categorias estabelecidas socialmente com principal objetivo de facilitar a interpretação de características sociais./dez. tornam-se uma possibilidade imediata de consumo e status (CRUZ NETO. MOREIRA. 2001). (CLOUTIER. pela aventura. grande taxa de desemprego. deve-se pensar em outras justificativas para tais comportamentos transgressores em jovens.” tentarão ser reconhecidos fora deste. Diante desse cenário de forte apelo ao consumo. p. Moreira e Sucena (2001. 2001) afirma que a participação de jovens em atividades ilegais conta com três níveis de conceituação. 31-53. Assis (1999 apud CRUZ NETO. surge a seguinte questão norteadora: na atualidade. 2015   32   . sendo assim.     1 INTRODUÇÃO A adolescência é o período compreendido entre a infância e a idade adulta caracterizada por intensas mudanças. por não serem reconhecidos dentro do “pacto social. como se estabelecem as representações sociais que enquadram características e perfis de adolescentes em conflito com a lei que estejam em cumprimento de medida em semiliberdade e em medidas de internação em Teresina. Cruz Neto. É prescrita como uma fase de transição entre a dependência da infância e a autonomia adulta. SUCENA. Entretanto. para conquistar a autonomia que lhes é posta em moratória. MOREIRA. Segundo Calligaris (2000). Portanto. (CRUZ NETO. 2000). a saber: estrutural. a delinquência poderia ser considerada uma vocação dos adolescentes. priorização do financeiro. MOREIRA. Teresina /PI. a compreensão de intenções e motivos subjacentes às ações das pessoas e grupos sociais. SUCENA. Nossas contradições culturais. tanto físicas quanto sociais. o jovem transgride e. pelo protagonismo. atividades ilícitas viram uma opção para aquisição de bens de consumo e estilos de vida. p.1. 2012). jul.

As diferentes etapas da análise de conteúdo organizam-se em três grandes polos cronológicos: a Pré-análise é a fase que tem por objetivo a organização. Teresina /PI. divididos em dois grupos (4 em semiliberdade e 4 em privação de liberdade). 31-53. representa um método de conceber os princípios gerais de uma perspectiva metodológica apropriada ao estudo dos processos psicológicos. em diferentes etapas. p. Para Bardin (2011). especificou-se para eles o tema “liberdade”. jul. a do fã. além de ser um método empírico que depende do tipo de fala a que se dedica e do objetivo que se visa atingir. em função de regras previamente elaboradas.1. que independe dos grandes meios de comunicação. que se trata de um conjunto de técnicas. os distintos elementos relevantes que irão se configurar no modelo do problema estudado” (REY. 2011). Somma. no espectro micro. apud REY. A produção de fanzines e todo o processo das oficinas foi analisado com Bardin (2011). em seguida.     2 MÉTODOS E PROCEDIMENTOS Este projeto de pesquisa é de cunho qualitativo. a principal é a categorização. Para nossos dados. a de exploração dos materiais. Apresentamos e esclarecemos aos adolescentes que estiveram presentes os objetivos da pesquisa bem como a proposta de técnica utilizada. A segunda etapa.n./dez. adequada para o presente estudo. Sua Epistemologia. Dentre estas regras. 2005. A análise de conteúdo. de forma progressiva e sem seguir nenhum outro critério que não seja de sua própria reflexão teórica. segundo Rey (2005). utiliza procedimentos sistemáticos na descrição do conteúdo das mensagens. pois “o pesquisador vai construindo. O fanzine passou a ser compreendido como um modo de comunicação e laço social. enriquece a tentativa exploratória aumentando a propensão à descoberta.1. 81). Em sua origem. A “revista do fã” reflete uma opinião pessoal sobre um grupo ou banda que era admirada e seguida. v. isto é. 2015   33   . categorização é uma operação de classificação de elementos por diferenciação e. Trata-se de um recurso de um recurso de mídia independente (datado desde 1930). a produção de fanzines. p. segundo Bardin (2011). 2002. o termo engloba a escrita (magazine) sobre uma abordagem pessoal. É um período de intuições que tem por objetivo operacionalizar e sistematizar as principais ideias do analista de forma que o conduza a um esquema preciso das operações sucessivas no decorrer da análise (BARDIN. estimulando o jovem na sua singular expressão sobre os temas lhe dizem respeito. consiste em operações de codificação. em que o autor manifestava opinião sobre um tema de interesse. de análise das comunicações. decomposição ou enumeração. Os pesquisadores ouviram 8 (oito) adolescentes em conflito com a lei que participaram das oficinas de fanzine.

344) Somma. bem como a testes de validação.1. Têm como principal objetivo facilitar a interpretação de características. p. São fenômenos ou categorias de pensamento que expressam uma parcela da realidade e têm funções que a constituem e explicam-na. à medida que os interesses dos humanos mudam. O autor deixa claro que a transição para a modernidade tem uma grande influência para o surgimento de novas formas de comunicação. esses resultados são submetidos a provas estatísticas. servindo também para efetivá-las. na realidade e formar opiniões. No terceiro polo cronológico da análise de conteúdo os resultados são tratados de maneira a tornarem-se significativos e válidos./dez. Tomar as representações sociais como via analítica. que vem se constituindo o pensamento social sobre a criança e o adolescente. a compreensão de intenções e motivos subjacentes às ações das pessoas. requer adentrar no contexto social no qual foram gestadas.n. 2004. o analista poderá dispor de resultados significativos que lhe proporcionarão fazer inferências e adiantar interpretações a respeito dos objetivos previstos ou de descobertas inesperadas (BARDIN. sublinhando o caráter mutável e estável dos sentidos postos pelas pessoas em sociedade.1. 2011). novas formas de comunicação surgem possibilitando o surgimento de novas representações sociais. procura traças as linhas de ação desse processo. 2015   34   . Para conferir um maior rigor sistemático. Segundo Pinheiro (2004. estruturas que se tornaram dialeticamente instáveis e estáveis (quando uma nova representação se manifesta e começa a atravessar a estrutura mais estável de uma representação social já em manutenção em estruturas anteriores). representações sociais são extremamente voláteis. jul. A perspectiva das Representações Sociais. (PINHEIRO. porquanto é na tessitura das relações e das trocas sociais. p. Entretanto. as representações sociais são fundamentalmente um sistema de classificação e de denotação. 31-53. portanto. mediadas por instituições políticas e sociais. p. 344). sendo estas.     por reagrupamento de acordo com características análogas. Teresina /PI. Tentou-se aqui olhar o adolescente em conflito com a lei e elencar as representações sociais que o englobam. Após a validação. 3 REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DO ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LEI De acordo com Moscovici (2007). de alocação de categorias e nomes. v. A melhoria na imprensa e a alfabetização possibilitaram a disseminação de conhecimento e com isso a grande dispersão de ideias e as representações sociais podem ser fruto dessa ampla gama de comunicação.

Diante disso. Se esse confinamento for tão arraigado chegando ao ponto de deixá-lo ciente de tal categorização. Moscovici (2007).n. passa a vivenciar duas situações distintas em virtude dessa nova categoria em que se insere. ao mesmo tempo em que propicia satisfação de alguns com o seu avanço tecnológico. 1996). terminologia utilizada para categorizar a população infanto-juvenil de rua. a representação que a sociedade tem do jovem de que ele é marginalizado e delinquente e julgado por tal como não detentor desses direitos delimitados em leis. explicam que o crescente aumento nas infrações justifica-se pelo processo de formação de cada sociedade e tem raízes no processo de exclusão e desigualdades estruturais. de um lado como sujeito de direitos e objeto de proteção social. a sociedade confina o sujeito a um conjunto de limites linguísticos. Mesmo após essa nova denominação sustentada em lei. é demasiadamente delicado o tocante que envolve a visão social do crime.1. e esse direito lhe reserva a parcela da sociabilidade que lhes cabe (OLIVEIRA. espaciais e comportamentais e a certos hábitos. gera frustração de muitos que são excluídos muitas vezes até mesmo do acesso a seus direitos e suas garantias mais fundamentais (MOREIRA. p. pelo fato de se formular exigências especificas relacionada às expectativas sociais. ao cometer um ato infracional.1. pois. carentes e infratores. essa categoria assume uma nova denominação. alerta para a situação que envolve esse fenômeno. de outro.     Reiterou-se que a categoria “menor” constitui uma representação social do adolescente. Segundo Cruz Neto. e os jovens que cometem ato infracional passam a ser representados pela expressão “adolescentes em conflito com a lei”. portanto./dez. órfãos. Moreira e Sucena (2001). 2000). Cruz Neto. No que tange à segunda situação delimitada acima. um movimento crítico e de grave potencialização de conflitos. Segundo os mesmos autores. v. Somma. o adolescente. 17). essa interferência será levada ao ponto de influenciá-lo. vivemos numa sociedade permeada por contradições socioeconômicas e políticas que delineiam. no limiar do marco históricotemporal do início do século. independente de seu caráter penal. Com o advento do ECA (1990). jul. termo este que para Goffman (1988) é usado em referência a um atributo depreciativo. essa expressão configura uma representação social sob o jovem que comete algum ato infracional rotulando-o e estigmatizando-o. é sujeito de direitos garantidos em lei. Teresina /PI. 31-53. Moreira e Sucena (2001. p. fora da escola. “a situação infracional é. direitos esses configurados na Constituição Federal de 1988 e regulamentada em 1990 pelo ECA. Deparamo-nos com um mundo globalizado capaz de desenvolver processos socializadores tão distintos que. um campo problemático para a sociedade”. 2015   35   . segundo ele. e será sempre. o adolescente.

Diante dessa realidade social que o jovem vivencia. não apenas de jovens. excluído do mundo imediatista do consumo de bens materiais.1.n. Ao contrário dos jovens que estavam cumprindo medida de semiliberdade. que mesmo sendo um meio de vida arriscado. faziam questão de participar em todas as questões levantadas. traziam outros conteúdos para a conversa. A mídia intensifica o desejo ao consumo nos espectadores e enquanto a sociedade aponta que este jovem. 3 RESULTADOS 3. Deve-se refletir que por trás de jovens hostis e estigmatizados existem indivíduos desamparados pelo poder público e com isso buscar compreender os motivos e causas que engendram tal situação para assim destacar os aspectos que oferecem reais condições de socialização a esses jovens em conflito com a lei. sendo este tão difundido culturalmente nas sociedades capitalistas. Cruz Neto. dificilmente respondiam completamente nossas perguntas. vai garantir-lhes ganhos mais elevados (CRUZ NETO. o crime vem para o jovem como uma possibilidade de garantir esse direito. que permaneceram inibidos durante todos os dias de aplicação das oficinas. durando este momento. de status. MOREIRA.1. portanto. existem duas possibilidades de escolha: ser um trabalhador pouco qualificado. não demonstravam Somma. Todavia devem-se refletir as ações políticas que podem ser eficazes para combater os comportamentos desviantes. jul. Teresina /PI. e continuar assim.     Pode-se perceber a partir da afirmação dos autores. necessário que estes jovens em conflito com a lei não sejam vistos sempre como hostis ou inimigos. quarenta minutos. o que configura outra representação social que assola este adolescente infrator. Moreira e Sucena (2001) acrescentam que esse viés representa./dez. uma possibilidade imediata de consumo. É. que a sociedade cria meios que enviesam a prática infratora nesses jovens. mas da sociedade como um todo. porém. p. 2015   36   . v. 31-53. mesmo que não sejam inocentes e não tenham sua culpabilidade retirada ou diminuída. ou entrar para o crime.1 Chegada e Organização Os jovens que estavam cumprindo medida de privação de liberdade demonstraram certa inibição com o primeiro contato. 2001). percebeu-se que não durou muito mais que alguns minutos. em média. respondiam nossas perguntas além do que era solicitado. SUCENA. não possui esse direito. com baixíssima remuneração. que muitas vezes (quase que unanimemente) vive em situação de pobreza. portanto. de poder e de sua identidade social.

31-53. Os outros complementaram falando que não tinham voz. Teresina /PI. A morte parece ser algo iminente para quem adentra o viés do crime e principalmente os que pertencem a classe social desses adolescentes. investimento em si.     interesse em participar ou conversar sobre os assuntos levantados. cerca de quinze minutos. que não tinham particularidades ou individualidade enquanto cumpridores de medida socioeducativa. Verificou-se apenas uma singularidade no CEM. que é quando um indivíduo tende a perceber o outro não dentro das suas especificidades ou então pela sua conduta. segundo eles.1. Um dos pontos levantados pelos garotos do Centro Educacional Masculino (CEM) foi de que todos eram tratados como iguais. Também abordamos os “medos” como tema para discussão. Esse discurso de reprodução apareceu em 6 dos 8 jovens participantes. Tocou-se neste mesmo tema com os garotos em semiliberdade. sai de lá fugindo ou morrendo. pois os jovens trouxeram mais discursos pessoais. referindo-se muito pouco à sua subjetividade. Um dos garotos relatou que “o que um faz. pois todos alegaram que o principal medo que possuem é o da morte e trouxeram isso em algumas variações como medo de “morrer de faca”. todos pagam”. mas sim em razão do grupo a qual ela pertença. Entretanto. uma vez que a grande maioria. não houve uma discussão proveitosa. Deschamps e Moliner (2009) citam como ameaça do estereótipo. Não se constatou diferenciação entre as duas medidas. durando. 2015   37   . este momento. “medo de todo mundo que é vivo”. o que não foi tão observado na liberdade assistida. ainda. e nos demonstra uma não implicação ou apropriação com o que se diz. v. ou talvez não haja nestes jovens representantes da massa. apenas uma fala de reprodução daquilo que é esperado para eles que estão em cumprimento de medida. os jovens relataram ter medo de não conseguirem sair da instituição com vida. Os jovens em cumprimento de medida de privação de liberdade falavam sobre aspectos e situações de maneira generalizada. jul. pois responderam apenas negando que houvesse uma individualidade lá e não se ativeram a detalhes. uma Somma. p. alguma profissão específica. o que representa o meio em que foram inseridos. traçando assim um estereótipo negativo sobre o individuo.1. Isso nos faz pensar sobre o que eles afirmaram terem como sonhos. porém. muito menos davam continuidade a alguma resposta. Ao ser discutido sobre os sonhos e perspectivas para o futuro que eles poderiam ter. ter uma profissão reconhecida socialmente ou terminar os estudos. os jovens de ambas as medidas demonstraram semelhanças: a maioria dos jovens trouxe cuidar e estar com a família./dez. respeito além de passarem por agressões físicas e verbais. pareceu contraditório quando os jovens das duas medidas relataram não saber que profissão seguir ou que não pensavam ou desejavam. como principal perspectiva sobre o que fazer ao terminar de cumprir a medida socioeducativa.n. Segundo Fraga e Iulianelli (2003).

    questão que tem sido bastante referenciada é a crescente capacidade da sociedade de descartar vidas precocemente. notebook. 2015   38   . Segundo eles. sem exceção. Garland (2008. Todos. atribuíram uma dificuldade em viver no mundo por conta de não poderem consumir o que querem. 416) descreve que as liberdades individuais conferidas pelas morais e pela pós-modernidade receberam uma nova estrutura de controles e exclusões direcionada àqueles grupos mais desfavorecidos pela dinâmica econômica e social. principalmente artigos tecnológicos. que destacaram o desejo em consumir. jul. Verificaram-se relatos como o de um dos jovens cumprindo medida de semiliberdade. p. a representação de consumir e ser valorizado. sempre haverá íntimas ligações entre o crime e a legalidade. O crescente número de mortes violentas entre os jovens. entre outros. a juventude não está limitada a uma categoria social reduzida a uma faixa etária e que requeira mediações históricas e culturais. que “a história humana não conhece a sociedade sem crime. Família e amigos foram elementos que demonstraram exercer influência sobre todos os adolescentes. intensifica-se no jovem da periferia o sentimento de exclusão pela crise de viés social. mas depois ficou tudo igual”. a forma encontrada por estes jovens que estão à margem dessa sociedade consumista. de status. Os autores apontam ainda. demonstraram afinidade com os familiares. 31-53./dez. É demonstrada que a relação de poder entre o consumir e o ser. instala-se uma relação conflituosa do adolescente com o seu ambiente que pode levá-lo a assumir comportamentos revoltosos contra leis e autoridades.n. portanto. 200). Cruz Neto. outro. mesmo após cometerem o ato infracional e estarem na medida socioeducativa. portanto. O autor afirma que devido a isso. uma possibilidade imediata de consumo. de poder e de sua identidade social sendo. 12). em ambas as medidas. O jovem está entre diversas representações sociais e uma delas ele toma para si.1. como celular. Na semiliberdade. compreendo não apenas os mais jovens e mais pobres. que falou do filho e da namorada e afirmou que a relação com a família não mudou. Teresina /PI. Nesse sentido. principalmente os mais pobres demonstram que a sociedade está configurada de modo a eliminar os seus “indesejáveis”. o que converge com as ideias de Garland (2008). nem com a namorada “ela só brigou e discutiu. p. Fraga e Iulianelli (2003). Moreira e Sucena (2001) acrescentam que o crime representa. ainda que se procure escondê-las. A menção ao consumo foi feita deliberadamente pelos jovens de ambas as medidas. De acordo com Sales (2003. discutem que o contato de toda a sociedade com o crime parece indicar que essa é também uma forma de inserção no mundo do consumo. p. v. especificamente os que estão à margem da esfera do consumo. mas sim uma etapa do desenvolvimento que contém e generaliza desejos e aspirações. mas a sociedade como um todo.1. também em Somma. principalmente quando é tão reforçado pela mídia o poder do consumo.” (p.

enquanto no CEM observou-se uma maior frequência de um discurso reproduzido. Consistiu em instigá-los a falarem a primeira palavra ou pensamento que tinham ao refletirem sobre o tema proposto. os jovens continuam recebendo visitas dos seus familiares e a grande maioria tem mães jovens adultas e muitos são criados pelos avós. não souberam esclarecer sobre tal. Tais falas de reprodução. O elemento “família e amigos” surgiu no momento de roda e conversação e permaneceu no momento de diagramação semântica. No CEM.” dita anteriormente por um socioeducador que estava presente.1.n. ao serem questionados sobre o porquê da escolha de algumas palavras. podendo ser algo presente no discurso que eles Somma. este momento durou cerca de 35 minutos. a expressão “apagar os erros” aparentemente sob a lógica de um discurso de reprodução. possivelmente influenciado pela frase “ter a mente limpa. A falta de apropriação com o que foi dito pelos jovens cumprindo medida socioeducativa de internação pôde ser notada quando. Também permaneceu no discurso dos jovens para a constituição da rede o desejo pelo consumo. Na semiliberdade destacou-se o afastamento de alguns amigos após o ato infracional cometido. este momento durou em torno de 15 minutos e surgiram algumas expressões semelhantes e diferentes. principalmente. 31-53. demonstrando ter forte influência no discurso dos jovens.1. enquanto na Semiliberdade.2 Diagramação Semântica Denominou-se diagramação semântica o momento de construção de ideias. em determinado momento da discussão. relatou sentir saudade da mãe. estando presente em palavras como “boa vida.     semiliberdade. v. ter o que quer”. No CEM. Teresina /PI. por exemplo. 3. sair recuperado”. palavras ligadas à diversão. portanto. puderam-se observar divergências no que os jovens trouxeram. “fazer bagunça e ir para as festas”. pois expuseram. surgiu. Os participantes da Semiliberdade demonstraram maior apropriação com os elementos trazidos. Acredita-se que essas palavras tenham sido usadas demonstrando uma fala de reprodução. serem visualizadas ao formarem uma “rede de pensamentos” que serviu de base para a produção. sendo fortemente observados nas expressões “caráter. 2015   39   . Constataram-se semelhanças nos discursos dos adolescentes em ambas as medidas socioeducativas. servir de exemplo./dez. tendo por tema de partida “liberdade”. Este momento teve função primordial para a construção dos zines uma vez que as ideias expostas e discutidas foram anotadas em um quadro branco presente na sala podendo. jul. Entretanto. provavelmente tenham sido controladas pela força que as expressões representam para pessoas que cometeram atos infracionais. Na Semiliberdade. como. p.

A partir da análise iconográfica feita através dos fanzines produzidos pelos adolescentes de ambas as medidas. no geral.3 Produção dos Fanzines O terceiro momento foi reservado para a produção dos fanzines. Outro zine. intitulado como “Vontade de voltar para casa. um paradoxo com o discurso “preciso voltar a estudar para ter uma profissão”. algo que sociedade espera de alguém que está ‘livre’ ou algo que esperam que ele diga.1. como cantar e surfar.1. apropriação com as informações que compunham as páginas dos zines. estudar para ter uma profissão. pessoas ou personagens sorrindo e aparentemente felizes. outro caminho para a liberdade” (FIGURA 8) retratou um conteúdo levantado durante a roda de conversa: a fuga de adolescentes do Centro Educacional onde cumprem medida socioeducativa de privação de liberdade. cuidados estéticos e ortográficos e algumas representações sociais. As imagens de profissões escolhidas foram pensadas de forma que ilustrassem a representação que o jovem tem de si mesmo. mas também divergências no que diz respeito à implicação com a atividade. Outros elementos trazidos em dois dos quatro fanzines produzidos foram a importância do estudo e o anseio por uma profissão. Ocorreu após a diagramação semântica. 2015   40   . 3. Notou-se. 31-53. Em todos os zines produzidos pela amostra do CEM apareceram imagens que retratavam a família. pois esta demanda um “caminho” mais curto a percorrer apresentando. v. uma vez que as escolhas foram feitas a partir do que eles acreditavam encaixar-se ao próprio perfil (FIGURA 2). trata-se de um discurso de reprodução ou talvez. p. que todos se implicaram com a construção. pode-se perceber que tal conteúdo./dez. Ao analisar o conteúdo iconográfico e textual no zine acoplado a outras informações já discutidas anteriormente. Teresina /PI. No CEM. escolher uma profissão. namoradas. pois os jovens deveriam usar as ideias que foram discutidas para embasar sua produção. trouxeram para os fanzines os elementos discutidos no momento anterior. Todos os jovens buscaram trazer imagens que estavam relacionadas à sua vida e ao que foi discutido na diagramação. preocuparam-se com a estética e com a coerência entre imagens e elementos textuais. portanto.n. como algo que talvez os falte e por isso estão privados de liberdade. observou-se um maior comprometimento com a produção dos fanzines. puderam-se constatar semelhanças.     escutam. amigos. O adolescente fez várias intervenções nas imagens. demonstrando uma apropriação Somma. jul. Um dos adolescentes trouxe como conteúdo para o zine a realização de atividades que gostaria de fazer. como a de cabeleireiro. em detrimento de outras seja feita.

Teresina /PI. portanto. para a sociedade. (FIGURA 1) No fanzine intitulado “Gostinho da liberdade” (FIGURA 9) encontram-se conteúdos que remetem ao consumo acompanhado da palavra liberdade produzindo o sentido de que “liberdade é consumir” (FIGURA 10).1. como forma de se colocar no mundo e interpretá-lo”. pode-se notar a representação social do consumidor como alguém valorizado e feliz. Falar sobre o consumo é adentrar o campo das representações sociais. além de propagador de ideias e produtor de subjetividade. jul. v. O consumo foi trazido como elemento também em momentos anteriores a este de produção dos fanzines e encontra-se fortemente representado por este jovem. ao fugirem. uma vez que. foi estabelecido. Nenhum dos adolescentes do CEM optou por colocar no editorial do fanzine que poderia ser encontrado no centro educacional em que estavam cumprindo medida socioeducativa. de acordo com Galvão (2010). porém. 2008). MOLINER. 2009.     com o conteúdo trazido. Fazendo uma relação com “liberdade é usar redes sociais e celulares” trazido no fanzine e o discurso deste jovem durante toda a oficina. 2000). JURBEG. Tal informação sugere que a representação social de um jovem que está cumprindo medida socioeducativa de privação de liberdade não está presente nas representações que estes jovens tomam para si. disseminação de sentidos e percepções que o fanzineiro tem de si e do mundo. p. na sua constituição do EU (DESCHAMP./dez.1. p. Tal apropriação demonstra que o lugar do fanzine. Em um dos fanzines produzidos não foi encontrado nenhuma imagem ou elemento textual que indicasse que o autor estivesse sob privação de liberdade ou que tivesse cometido um ato infracional. Não é possível afirmar que não exista uma responsabilização com o ato infracional cometido. Seu zine retrata ainda que meninos se arriscam a fugir para contrariar a lei. passam a viver preocupados e escondendo-se e que isso não é liberdade. O fanzine recebeu o título “liberdade é tudo” (FIGURA 6) e retratou imagens de amigos e lazer.85) discute sobre o papel do fanzine e o coloca como um “lugar de acontecimento e de produção de sentidos. e destacou que elas podem ocorrer devido ao tédio. é fortemente Somma. porém demonstra que talvez estar cumprindo medida socioeducativa não esteja presente na percepção que tem de si. Pode-se também encontrar intervenções nas imagens em outros fanzines que receberam os títulos “Gostinho da liberdade” e “O que eu vou fazer na liberdade? ”. sendo então perseguidos pela polícia. Ele interviu textualmente ao falar sobre a fuga das prisões. não tenha função no seu processo identitário. ou seja. como um local de produção de saberes. 2015   41   . 31-53. enquadrado na criminologia do outro (GARLAND. Pertencer à categoria ‘jovem infrator em cumprimento de medida’ talvez seja repulsivo devido a todos os estereótipos usados para quem é enquadrado como tal.n. Galvão (2010. O zine foi produzido.

se esse dado nos indica uma não implicação na importância do zine ou se nos indica que ele assume e se responsabiliza pelo ato infracional cometido apesar de todo o discurso social que o engloba ao assumir esse posicionamento. segurando uma taça e. “sem rumo”. Além de seres individuais que possuem identidade pessoal. No primeiro fanzine citado. Podemos mencionar ainda o processo identitário.) “Liberdade inspira” (FIGURA 4) “A liberdade na vida atual” e “viver a liberdade da natureza”. como a frase “Espalhados.n. incoerência entre os elementos trazidos nos zines apesar da estética. ao lado. “A tasa da copa”.1. na Semiliberdade todos os jovens puseram no editorial do fanzine que poderiam ser encontrados na medida que estão cumprindo. nenhum dos adolescentes optou por declarar que poderia ser encontrado na instituição. o garoto não respondeu. Dentro ele escreveu duas páginas de informações retiradas de uma matéria sobre futebol e ilustrou com imagens de jogadores de futebol. com suas motos caras e uma mulher na garupa. 2015   42   . Ao ser indagado sobre o porquê da escolha de tal tema [futebol] para seu zine. Outra divergência encontrada entre as amostras foi a implicação e interesse com a produção dos zines. 2000). ao nos definirmos em função dos grupos em que pertencemos construímos. todos nós nos percebemos como pertencentes a grupos de uma determinada comunidade e. Enquanto no CEM. Os textos trazem palavras específicas soltas dentro de um conteúdo incoerente com a imagem. as imagens escolhidas demonstram o discurso presente entre esses adolescentes. Encontrou-se ainda. A escolha da imagem acompanhada a esse elemento textual específico Somma. No fanzine intitulado “Liberdade inspira”. Entretanto. 2008). mas não com o tema liberdade discutido na diagramação semântica. jul. Os títulos foram: “A tasa da copa”. como na imagem de motoqueiros livres. não houve implicação na produção dos zines. nossa identidade social (JURBERG. Nos jovens da Semiliberdade observou-se desinteresse com a oficina e com a produção dos zines. os elementos textuais trazidos não têm coerência com as imagens. Afirmar ser encontrado na Semiliberdade pode demonstrar a força que possui a identidade social deste indivíduo ao estar cumprindo medida socioeducativa como responsabilização dos atos infracionais cometidos.     arraigada a ideia de que um jovem que esteja privado de liberdade é marginalizado e perigoso. Limitou-se a balançar a cabeça. v. Não podemos afirmar./dez. Teresina /PI. 31-53. Na capa há a imagem de um piloto de fórmula 1. imagens de bolas em uma exposição. enquadrado na criminologia do outro (GARLAND. As imagens escolhidas são coerentes com as palavras escritas. mas unidos na fé” (FIGURA 4). (sic. Na medida socioeducativa de Semiliberdade encontram-se algumas divergências significativas e quase nenhuma semelhança no que diz respeito à produção dos zines. porém.1. p.

v. O compartilhamento de todo o momento de produção concretiza o objetivo inicial do trabalho que tinha. além da impressão e distribuição. As semelhanças encontradas nos zines. p. conteúdos que parecem ser um discurso muito forte para estes jovens. Outro fanzine que retrata a família chama-se “Liberdade na vida atual”. de possibilidades para que os jovens possam colocar-se como pessoa. O trabalho possibilitou dar voz a um coorte excluído de um meio social que satisfaz alguns e rotula outros já cerceados por um cenário vulnerável. A partir de uma análise pormenorizada deste processo é possível observar que os fanzines possibilitaram àqueles adolescentes condicionados por inúmeras formas de sujeição. O fanzine retrata ainda a família e o dinheiro como elementos para ilustrar a liberdade. Somma. jul. 31-53.n. Pôde ser percebida a inexistência que há nesse meio. diagramação. mas também trouxe a imagem de policiais aplicando multa em motoristas adicionando um elemento textual que explanava sobre mortes. 16) no comando do processo de produção o fanzineiro é responsável pela “coleta de informações.     demonstra a vaidade. O autor trouxe elementos discutidos na diagramação semântica. foram os elementos “consumo” (FIGURA 5) e “família” (FIGURA 3). O quarto fanzine citado “Viver a liberdade da natureza” (FIGURA 4) demonstra a não implicação com a proposta do zine e com o tema liberdade. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS O uso dos fanzines como ferramenta para colher elementos presentes nas representações sociais nos adolescentes mostrou-se bastante produtivo e válido para as análises realizadas. p. tido como um processo complexo e com capacidade de várias articulações se tornou assertivo para veiculação da subjetividade de cada um dos sujeitos envolvidos.1. 2010. Este método. onde assim como assinala Magalhães (2004.1. uma oportunidade de serem vistos como sujeitos implicados em uma responsabilização. de ambas as medidas. Teresina /PI. fazer com que aquele momento fosse vivenciado como uma expressão de si. composição. 2015   43   . o consumo e a religião. montagem. implicar-se e responsabilizar-se em reflexões e atividades. dinâmicas pessoais e psicológicas que viabilizam de forma eficaz a reinserção desses adolescentes na sociedade. o que lhe possibilita maior liberdade de criação e expressão”. apud MUNIZ./dez. edição. permitindo a expressão daqueles adolescentes. O adolescente não estava interessado na finalização e na construção do material. por uma das metas.

foi possível ouvir dos jovens do CEM o quanto a medida dita socioeducativa. Jean-Claude. RJ: Vozes. 31-53. Análise de conteúdo.     No decorrer das oficinas. Rio Grande do Sul: Editora Vozes. Erving. 2015   44   . Psicologia da adolescência./dez. (Mestrado) Fundação Oswaldo Cruz. p. Rio de Janeiro: LTC. MOLINER. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. p. GOFFMAN. Rio do Janeiro. Pascal. com pontos tão divergentes entre o CEM e a Semiliberdade. David. REFERÊNCIAS BARDIN. ed. Contardo. resguarda o dever de proteção da sociedade. Analisando este resultado. Nem soldados. Escola Nacional de Saúde Pública. FRAGA. 2007. 4. Jovens em tempo real (orgs. apenas o instrumento não se basta. RJ: Vozes. 2003.1. A cultura do controle: crime e ordem social na sociedade contemporânea. Marcelo Rasga. Revan. Teresina /PI. A adolescência.n.1. questionou-se sobre a ação efetiva da medida socioeducativa de semiliberdade. 2011. Paulo Cesar Fontes. v. 1988. Richard.162 MOSCOVICI. A identidade em psicologia social: dos processos identitários às representações sociais. Somma. CLOUTIER. Esta é uma representação momentânea do que lhes acontece diariamente dentro da medida: processos impositivos os rodeiam. Jorge Atílio Silva. 2009. jul. Lisboa: Edições 70. nem inocentes: jovens e tráfico de drogas no município do Rio de Janeiro. Relataram agressões físicas e verbais sofridas por eles dentro da instituição por quem. São Paulo: Publifolha. GARLAND. 2008. Laurence. quais os pontos em que ela realmente toca a ressocialização do adolescente e de que forma o adolescente vê essa e outras medidas socioeducativas mais brandas que a medida de internação. Serge. IULIANELLI. numerosas situações cotidianas são sobrepostas às vontades dos adolescentes. Um fator preponderante é de que não houve liberdade para os adolescentes participarem do trabalho por livre vontade e sabendo previamente o que iria ser pedido a eles. Tradução de Lúcia M. teoricamente. Representações Sociais: investigações em Psicologia Social. Endlich Orth. Petrópolis. 2000. 2000. 2012. é mais repressiva do que qualquer outra. CALLIGARIS.) São Paulo: DP&A. DESCHAMPS. Petrópolis. MOREIRA.

 
 

MUNIZ, Cellina Rodrigues. Fanzines: autoria, subjetividade e invenção de si. Fortaleza:
Edições UFC, 2010.
CRUZ NETO, Otávio; MOREIRA, Marcelo Rasga; SUCENA, Luiz Fernando Mazzei. Nem
Soldados Nem Inocentes: juventude e tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:
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OLIVEIRA, Salete Magda de. Inventário de Desvios: os direitos dos adolescentes entre a
penalização e a liberdade. Dissertação (mestrado). Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo. São Paulo, 1996.
PINHEIRO, Ângela de Alencar Araripe. A Criança e o Adolescente, Representações Sociais e
Processo Constituinte. Psicologia em Estudo. Maringá, v. 9, n. 3, p. 343-355, set./dez. 2004.
REY, Fernando González. Pesquisa qualitativa e subjetividade: os processos de construção
da informação. São Paulo: Thomson Learning, 2005.

Somma, Teresina /PI, v.1,n.1, p. 31-53, jul./dez. 2015   45  

 
 

ANEXOS

FIGURA 1. Adolescente em privação de liberdade. 18/07/2014

Somma, Teresina /PI, v.1,n.1, p. 31-53, jul./dez. 2015   46  

 
 

FIGURA 2. Adolescente em privação de liberdade. 18/07/2014

Somma, Teresina /PI, v.1,n.1, p. 31-53, jul./dez. 2015   47  

 
 

FIGURA 3. Adolescente em privação de liberdade. 18/07/2014

Somma, Teresina /PI, v.1,n.1, p. 31-53, jul./dez. 2015   48  

23/07/2014 Somma. p. 31-53.1. jul./dez. Adolescente cumprindo medida de semiliberdade.n.1. v. 2015   49   . Teresina /PI.     FIGURA 4.

Adolescente cumprindo medida de semiliberdade./dez.1. v. Teresina /PI. p.n. 31-53.     FIGURA 5. 2015   50   . 23/07/2014 Somma. jul.1.

p. Teresina /PI. v. 18/07/2013 Somma.1.1. Adolescente em privação de liberdade. jul. 31-53.     FIGURA 6. 18/07/2014 FIGURA 7.n./dez. Adolescente em privação de liberdade. 2015   51   .

Somma. v. 18/07/2014.n. 18/07/2014 FIGURA 9. Adolescente em privação de liberdade. Adolescente em privação de liberdade.1.1. 31-53. p.     FIGURA 8. jul. 2015   52   ./dez. Teresina /PI.

1.n. Teresina /PI. 31-53. jul. v. p. 18/07/2014.     FIGURA 10./dez. Somma. 2015   53   . Adolescente em privação de liberdade.1.

Education. contribute to the discussion.1999) e Papert (1994). software and applications) as mediating tools of digital inclusion and social development of students with disabilities and as an element to facilitate transformation of reality by overcoming remaining exclusion cases./dez. 54-67. Professora no Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia. Alunos com deficiência. softwares e aplicativos) como instrumentos mediadores da inclusão digital e social de alunos com deficiência. Campus Floriano-Piauí.                                                                                                                         *   Mestre em Educação. Campus FlorianoPiauí. v. p.PI regarding the topic in question. It seeks to develop a discussion about the reality of the city of Floriano . Campus Floriano-Piauí. ensino e extensão pode contribuir com o desenvolvimento de práticas educacionais inclusivas.1. Technological resources. ABSTRAT This article discusses the possibilities of using education and technology as mediating tools for inclusion of students with disabilities. Busca desenvolver uma discussão sobre a realidade da cidade de Floriano-PI referente à temática em questão. Rocha (2011). jul. Palavras-chave: Inclusão. Educação. Recursos tecnológicos.n. mas necessita de um tratamento mais específico voltado para a utilização dos equipamentos existentes e para a melhoria da qualificação dos profissionais da educação. Teresina /PI. em escolas públicas do município de FlorianoPI. e como elemento favorecedor da transformação da realidade.   **   Aluno do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas no Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia. Contribuem com a discussão. Libâneo (1994. It was found that there is potential for material and human resources. teaching and extension can contribute to developing inclusive educational practices in public schools in the city of Floriano . Constatou-se que existe potencial de recursos materiais e humanos.1.1999) and Papert (1994). Students with disabilities. Libâneo (1994.PI using education and technology resources (computers. 2015 54     . utilizando a educação e recursos tecnológicos (computadores. Parte-se do pressuposto de que a articulação entre pesquisa. entre outros autores. através da superação de quadros de exclusão ainda existentes.   Somma.   ***  Aluno do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas no Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia. Rocha (2011). It comes from the assumption that the link between research. but a more specific treatment aimed at using existing equipment and improving the skills of education professionals to promote the inclusion and education of students with disabilities is needed.INCLUSÃO DIGITAL DE ALUNOS COM DEFICIÊNCIA: EDUCAÇÃO E TECNOLOGIA COMO INSTRUMENTOS MEDIADORES   Arlete Fragas da Silva Rocha* Allexy Luiz Ribeiro e Silva** Allex Oliveira Alencar Lima*** RESUMO Este artigo discute as possibilidades da utilização da educação e da tecnologia como instrumentos mediadores para inclusão de alunos com deficiência. among others. no sentido de favorecer a inclusão e formação dos alunos com deficiência. Keywords: Inclusion.

Teresina /PI. Embora tenham sido criadas leis e políticas resultantes de reivindicações por parte da sociedade. Tal projeto recebeu incentivo da Pró-reitoria de extensão (PROEX). Durante a pesquisa./dez. pesquisa e extensão tem chance de potencializar mudanças na realidade desses alunos. a partir de elementos obtidos na primeira fase do projeto. destacando a importância da educação e do uso de recursos tecnológicos como mediadores no desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem de alunos com deficiência. na medida em que envolve pesquisa que contribuirá para o desvelamento e compreensão da realidade de escolas públicas municipais de Floriano . notadamente. A partir dos resultados constatados. jul.PI. Neste artigo. Entendemos ser real a importância do trabalho em desenvolvimento. o qual originou o presente artigo. por meio do edital Pibex-2013 e foi idealizado em duas fases.n.1999). partindo do princípio de que a articulação entre ensino. os professores e familiares que lidam com pessoas que possuem deficiência. apresentamos uma discussão inicial sobre as possibilidades de inclusão digital de alunos com deficiência.1. afirmamos a necessidade de discussão e trabalho permanente para minimizar esse cenário de exclusão. softwares e aplicativos) através de processos formativos junto à comunidade. Papert (1994) e. 2015  55   . ainda permanece o quadro de exclusão social. do Instituto Federal do Piauí – IFPI.1. a exemplo de propostas de utilização de recursos (computadores. v.   1 INTRODUÇÃO Neste artigo. entretanto a necessidade de conhecimento sobre sua utilização e de formação dos professores nessa área torna os espaços que abrigam esses equipamentos. com a contribuição de Rocha (2011). sem efetiva utilização. poderá favorecer futuras atividades de extensão. p. Somma. a partir da utilização da educação e tecnologia como instrumentos mediadores. Libâneo (1994. 54-67. evidenciado durante o desenvolvimento do projeto “Inclusão digital de alunos com deficiência por meio da articulação entre ensino. observamos que os recursos tecnológicos têm chegado às instituições escolares. no que se referem às possibilidades de inclusão digital de alunos com deficiência. pesquisa e extensão: educação e tecnologia como instrumentos mediadores”. Entendemos que esses dois eixos podem contribuir para a superação dos desafios que envolvem as necessidades educacionais de alunos com deficiência. e os próprios.

valores e conhecimentos estabelecidos historicamente pela humanidade. delineia sua legalidade e obrigatoriedade. A educação... Porém. p. 2015  56   . 2011). 54-67. por meio da valorização da educação escolar e do respeito ao direito que todos os sujeitos. É também o direito a crescer e a desenvolver-se plenamente como pessoa. Segundo Libâneo (1999. 205). pode criar quadros de exclusão.   2 POSSIBILIDADE DE INCLUSÃO DIGITAL DE ALUNOS COM DEFICIÊNCIA NO SISTEMA PÚBLICO MUNICIPAL DE FLORIANO – PI 2. traz consigo ideias.1.1 Educação e inclusão A Constituição Federal de 1988. conteúdos. O debate que empreendemos sobre educação e práticas educativas implica no estabelecimento da relação entre educação e inclusão. implicando objetivos sociopolíticos explícitos. proporcionar vivências de experiências e aprendizado que venham Somma. reconhecendo sua liberdade e autonomia. v. a individualidade na sociedade. indiscriminadamente. o que. O direito à educação não se constitui somente acesso a ela.1./dez.] processos educacionais intencionais. podendo sofrer modificações qualitativas. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (CF. 80). no desenvolvimento da prática pedagógica. visto compreendermos que a educação não é imparcial e o professor deve. art. principalmente em relação à educação escolar das pessoas com deficiência. p. lugares e condições específicas para possibilitar aos indivíduos a participação consciente. Tais quadros não precisam ser eternos. mas necessita respeitar a pessoa com suas especificidades. Teresina /PI. a prática educativa enquanto “[. têm a ela (ROCHA. resultando em seu constante processo de transformação no tempo e no espaço. na sua composição imaterial e dinâmica. a ser promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. legitima a educação enquanto instrumento para o processo de inclusão social. jul. a educação vai se modificando e atribuindo aos seus partícipes a própria identidade. quando define a educação como: “direito de todos e dever do Estado e da família. trazendo-lhe complexidade. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. no que se refere à educação formal.n. ativa. crítica na vida social global”. é necessário que essa consista de qualidade e assegure aos alunos a permanência e aprendizagem durante todo seu processo escolar. restabelecer o espaço onde se encontra. sendo fundamental para isso a igualdade de oportunidades e o atendimento das necessidades dos alunos em razão de suas características individuais. nem sempre essa conquista legal se converte em realidade no contexto das instituições escolares. No processo de desenvolvimento histórico. métodos.

  ao encontro das necessidades. o que configura esta área do conhecimento de especial importância para a educação.1. Abrem-se horizontes para o fortalecimento de muitas culturas de Somma. aquela que cria. anseios e habilidades de cada aluno. v. No entanto. oferecendo espaço para ruptura das práticas reprodutivas pela intervenção da práxis humana. 2015  57   . além de ser importante recurso na equidade de oportunidades e inclusão social. à sensibilização da comunidade. p.1. p. Assim. Neste trabalho. recria e transforma a realidade social (ROCHA. à formação de profissionais. 54-67. A informática instiga o aprimoramento cognitivo. com aliados para o desenvolvimento de práticas pedagógicas inclusivas. 2. Entendemos que as possibilidades que encaminham em direção a essa conquista ligam-se: ao aproveitamento dos espaços físicos e sociais intrínsecos à escola. correspondem a modelos socialmente dominantes encarnados pelas classes que detêm o poder econômico e político. a presença do computador significa o advento da era da aprendizagem.n. à potencialização dos recursos tecnológicos e ao desenvolvimento de práticas pedagógicas inclusivas. de trabalho e de relações entre pessoas presentes na educação e nas práticas educativas.72). o desenvolvimento de conhecimentos e de habilidades. essa situação possui possibilidade de modificação pela existência de forças contraditórias que atuam na direção da transformação da realidade social. Inclui o respeito às diferenças e a igualdade de oportunidades na aquisição de novas aprendizagens. os valores. Com tal discussão esperamos ter acenado para a possibilidade de inclusão e destacado o papel da educação nesse processo. vivenciamos o advento e expansão rápida das tecnologias de informação em todos os âmbitos sociais. Teresina /PI. por meio de práticas voltadas para o desvelamento de situações de exclusão presentes na realidade social. mais justa e igualitária. 2011. no sentido de modificá-las e empreender esforços para a conquista de práticas de inclusão. Adotar a mencionada posição demanda compreender que a educação e as práticas educativas não são iguais para todos. Para Papert (1994). investimos em ações que enfatizam a investigação em torno das possibilidades dos recursos tecnológicos./dez. impulsionando os avanços rumo a uma nova sociedade. os desafios são postos à escola para garantir processos educativos efetivos. por vezes.1 Recursos tecnológicos e inclusão digital e social Neste século. os modelos de vida. jul. As normas sociais. Consideramos que inclusão é conceito amplo para além da ideia de integração.1.

dada as complexidades cognitivas e sociais apresentadas por alunos com deficiência. Um processo complexo que pode ser desvendando por meio de pesquisas e intervenções contínuas. Tal processo contribui para que o professor auxilie a si mesmo e aos alunos com necessidade a se emanciparem e tornarem-se autônomos e envolvidos na ação. habilitação profissional.n. desde que sejam respeitadas suas condições e especificidades. a temática do estudo em questão. 54-67. O ajuste no currículo é necessário como instrumento colaborador nas ações. 1999). identificando as necessidades da prática pedagógica. através de observações realizadas durante o desenvolvimento da primeira fase desse projeto. Sua viabilização necessita da estruturação escolar em todas as dimensões: física. curricular. as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC´s) têm sido amplamente utilizadas como meio real de inclusão e interação com o mundo (LÉVY. Na atualidade. Apenas a estruturação computacional inserida no contexto escolar não resolverá. apenas os softwares não são suficientes para atender as necessidades dos alunos com deficiência. apropriando-se de procedimentos que lhes permitam aprofundar seu conhecimento e desenvolver habilidades nessa área. jul. Entendemos que essas tecnologias apresentam-se. p. conhecimento e cultura. 2015  58   . e ainda dos gestores das instituições educacionais. dedicação e empenho dos sujeitos. o desenvolvimento do aluno com deficiência é favorecido por processos de aprendizagens que determinarão suas capacidades. delineado de acordo com as especificidades de cada aluno. estendendo algumas. social.1. entre outras. Teresina /PI.1. É notório. potencialmente. Entretanto. Softwares educacionais podem ser amplamente utilizados para facilitar o desenvolvimento das potencialidades e habilidades dos alunos com deficiência. avalie as estratégias. elegendo as que são mais apropriadas a determinada situação. pois é essencial que o professor. como atores principais da promoção da educação inclusiva. podendo se constituir como estratégia de aprendizagem eficiente.   aprendizagem e para que se cultive o respeito entre elas e os diferentes modos de ser de cada aprendiz./dez. por si só. enquanto mediador norteado por suas intuições. ignorando outras. v. Nesse processo de mediação. Isso diz respeito à atuação dos professores. Tem se incorporado cultura digital às instituições escolares por meio de usuários de ferramentas tecnológicas. o quadro variável encontrado nas escolas públicas municipais de Floriano Somma. A utilização dos recursos computacionais como promotores da aprendizagem suscita reflexões. É imprescindível ainda a motivação. como ferramenta fundamental para o desenvolvimento cognitivo e social de alunos com deficiência. emoções.

Somma. Jogo da memória). o Jaws e outros. o que já se constitui em possibilidade de superação dos quadros de exclusão. 2011. outros não. 54-67. 15) de “elucidação da realidade” para compreensão das possibilidades de inclusão digital de alunos com deficiência e contribuir para o avanço da discussão em torno dessa temática na realidade investigada. são os programas especiais de computador que possibilitam ou facilitam a interação da pessoa com deficiência com a máquina. quando construídos como tecnologia assistiva. Quanto à sistematização desses recursos. No campo da tecnologia da informação e comunicação. escolas com laboratórios montados. nas escolas. de grande valia na instalação. teve a finalidade de produzir conhecimento.]: educação e tecnologia como instrumentos mediadores”. jul. cujo resultado ora discutimos. alguns com softwares educativos (UCA. o Virtual Vision. que são os componentes lógicos das TIC´s. Entendemos que a discussão sobre problemas que envolvem a realidade contribui para seu desvelamento e transformação. mas a realidade do sistema público municipal de Floriano – PI apresenta um quadro situacional que expressa necessidade de um trabalho que potencialize a utilização desses recursos. p./dez. pois entendemos que o próprio processo de pesquisa representa prática educativa e provoca mudança (ROCHA. Todos esses recursos existem em potencial. v.1. p.   PI. São exemplos de programas para pessoas com deficiência visual o Dosvox. O processo de investigação suscita a reflexão nos envolvidos. Teresina /PI. como passamos a discutir.. manutenção das máquinas e auxílio ao ensino. na perspectiva discutida por Luckesi e Passos (2002. durante a primeira etapa do projeto “Inclusão digital de alunos com deficiência [. dos quais citamos: escolas sem laboratório de informática.2 A realidade de Floriano – PI Os dados que apresentaremos e discutiremos nesta secção foram levantados no sistema municipal de educação de Floriano – PI. A investigação. LIBÂNEIO.n. o Bridge. destacamos os softwares especiais de acessibilidade. 1999). e.1. o qual consiste em pesquisa no sistema municipal de educação para identificação de potencial tecnológico e de serviço. alguns equipamentos e instrumentos com ferramentas de acessibilidade ao manuseio. existe uma variedade de ferramentas que podem contribuir com o processo de inclusão digital e social de pessoas com deficiência. a partir de pesquisa realizada no citado sistema. 2. 2015  59   . outros não.. mas sem o profissional técnico em computação. por meio da utilização dos instrumentos de pesquisa. ou seja. quando da presença desses espaços.

7. 2015  60   . 1. recursos e profissionais habilitados. Segundo informações prestadas pela Secretaria Municipal de Educação (SEMED).Informações solicitadas à SEMED. Quadro 1 . 6. Escolas que possuem laboratório de informática. Projetos de inclusão digital desenvolvidos pela SEMED. 5 (cinco) escolas na zona rural.1. Somma. e a um representante da Secretaria Municipal de Educação (SEMED). fizemos uso da observação e de questionários. a SEMED informou a existência de 4 (quatro) profissionais. Com relação à presença de profissionais responsáveis pela manutenção e orientação quanto ao uso dos computadores. v. 10. O questionário aplicado à SEMED objetivou identificar: a quantidade de escolas da rede pública municipal. de todas as escolas pesquisadas apenas uma delas não utiliza os computadores. 54-67. pois os mesmos precisam de manutenção. 9. mas da zona rural apenas duas escolas possuem internet. nossa pesquisa identificou que das oito escolas que oferecem atendimento às pessoas com necessidades educacionais especiais. Projetos de inclusão digital para alunos com necessidades educacionais especiais. Teresina /PI. p. Quantidade de escolas da Rede Municipal de Floriano . 3. Escolas que possuem concessão de tablets para alunos. Entretanto. 5. Existência de profissional para manter e orientar quanto ao uso dos computadores.PI. informações quanto à existência de espaço. entretanto. e ainda projetos que possibilitassem a inclusão digital. para desencadearmos tal processo e levantarmos dados sobre o objeto de pesquisa. Fonte: Dados da pesquisa (2014)./dez. indicado pela coordenação da educação especial do citado órgão.n. Todas as escolas da zona urbana possuem internet. o município possui 17 (dezessete) escolas na zona urbana. Interesse da SEMED em desenvolver projetos de inclusão digital. 2. Segundo informação da SEMED. Os questionários foram aplicados em oito escolas públicas municipais. conforme Quadro 1. e outro direcionado a professores e diretores. Produzimos dois questionários: um direcionado à Secretaria Municipal de Educação. 3 (três) delas contam com esse tipo de profissional. Previsão da SEMED quanto à implantação de projetos de inclusão digital. das quais foram objeto de nossa pesquisa apenas oito escolas. jul. totalizando 65 (sessenta e cinco) computadores e 4 (quatro) profissionais da área de informática. por meio de observação direta.1.   Nessa perspectiva. Escolas com previsão para revitalização dos laboratórios de informática. foi possível identificar a existência dos mesmos em visitas às escolas pesquisadas. Não recebemos informações diretas sobre a existência de laboratórios. 4. 8. na cidade de Floriano-PI. Escolas que usam efetivamente os computadores.

n. Experiência de trabalho como educador (a) com alunos que possuem deficiência./dez. Desenvolvimento de projetos de inclusão digital para alunos com deficiência. 2. 6. 9. Forma de utilização de computadores existentes na escola. Não conseguimos informação sobre previsão da SEMED quanto à implantação e/ou implementação de projetos de inclusão digital. Teresina /PI. 2015  61   . Possibilidade de inserção das TIC´s (programas e softwares educativos) como suporte para o desenvolvimento educacional de alunos com deficiência. Conhecimento de algum projeto de inclusão digital desenvolvido pela SEMED. Conhecimento sobre existência de laboratório de informática na escola. uma vez que a prática educativa na perspectiva de Libâneo (1999). com identificação de evidência. identificadas pelo INEP (por meio de acesso ao site) como escolas que oferecem Atendimento Educacional Especializado para alunos com necessidades educacionais especiais. pode articular órgãos. instrumento de transformação da realidade. 8.1. Segundo dados levantados. vista de forma sistêmica. 5. 54-67. Compreendemos a menção quanto ao interesse em desenvolver projetos de inclusão digital como vislumbre de possibilidade de investimento na educação. o projeto atende aos alunos com necessidades especiais. Conhecimento sobre programa ou software educacional. Fonte: Dados da pesquisa (2014) A primeira pergunta referia-se ao conhecimento dos educadores sobre algum programa ou software educacional. Interesse em participar do projeto de inclusão digital. Indicação do nível de habilidade pessoal para utilização das TIC´s. foram apresentadas perguntas que tentavam levantar informações a respeitos dos aspectos expressos no Quadro 2. Tal prática. aplicado junto aos professores de oito escolas municipais. de acordo com a pessoa responsável pelas informações. mobilizando-os rumo a conquistas em direção a superação de quadros de exclusão. mas. enquanto fator de inclusão e. é do interesse do SEMED desenvolver projetos nessa área. 3. marcada pela intencionalidade. projetos. a seguir: Quadro 2 . v.Informações solicitadas aos professores 1. 7. Presença de profissional para manutenção e orientação para uso dos computadores.   Quanto ao desenvolvimento de projetos de inclusão digital para alunos com necessidades educacionais especiais. fomos informados pela SEMED que uma escola dispõe do projeto UCA (um computador por aluno). mas não é especifico para esses alunos. As respostas a essa questão foram Somma. jul. 10. p.1. é instrumento de inclusão. conforme mencionado por Rocha (2011). No que se refere ao segundo questionário. profissionais e sociedade. inclusive há professores que acompanham os alunos. local de trabalho. 4.

para que a situação evidenciada se modifique. Em relação ao conhecimento sobre a existência de laboratório de informática em suas escolas de atuação. observamos que apenas uma escola não tem laboratório de informática. compreendemos que o potencial de utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC´s) como meio real de inclusão e interação com o mundo amplia a necessidade e evidencia a possibilidade de investir na formação dos professores. Todos os professores investigados informaram que não possuem conhecimento a respeito de programas e/ou softwares educacionais possíveis de serem usados no trabalho de inclusão e educação de alunos com necessidades educacionais especiais. Os entrevistados da Escola 1informaram que não fazem utilização. Nas Escolas 4 e 5.1. para estudos dos alunos. Com base em Lévy (1999). “Sim. Em relação à Escola 3. Para expressar os dados quanto à utilização dos computadores. pois nessa escola ainda não existe laboratório de informática. Com base nas respostas./dez. “São usados pelos funcionários administrativos”. 2015  62   . três informaram que existe o profissional.   negativas. os diretores responderam respectivamente que: “Sim. para pesquisa e no cotidiano da escola”. Teresina /PI. identificando a escola com números. a qual informa que “Sim. “Sim. na escola local de trabalho. usaremos as falas dos próprios sujeitos investigados.1. Na Escola 2 obtivemos as seguintes respostas: “Nem sempre. p. Essa realidade se coloca como possibilidade de investimento em formação. apesar de existirem os laboratórios. v. identificamos que a utilização das máquinas nessa escola é predominantemente para fins administrativos. desenvolveram a aula planejada anteriormente”. a resposta foi não. Já na Escola 7. dada à necessidade expressa pelas respostas dos professores. a entrevistada foi a coordenadora. de profissional para manutenção e orientação quanto ao uso dos computadores das oito escolas pesquisadas. “Somente para uso de serviços de secretaria. jul. Em relação à Escola 6. somente para funcionários administrativos”. tendo em vista que estavam acabando de mudar o local da Somma. para atender a secretaria e é disponibilizado também para os professores”. Com base nos depoimentos. Sobre a presença. pois as ferramentas existem e seus usos podem ser potencializados. os mesmos não estão sendo utilizados. para jogo”. as oito escolas prestaram informação. às vezes. junto com o professor de informática. as outras três informaram que não existe. professores de duas escolas informaram que. para serviços de secretaria” e “Sim. Os professores têm acesso aos computadores para fazer algum tipo de pesquisa”. 54-67. “Para serviços de secretaria”. Os dados revelam o potencial de uso de recursos tecnológicos. a coordenadora nos informou que os computadores ainda não foram devidamente instalados.n. Todavia. o professor da sala de aula traz os alunos para o laboratório de informática e.

n. informa sobre o UCA (um computador por aluno).1. um educador.   escola. Dos dezesseis profissionais que responderam à questão. outra professora cita o Proinfo. p. a necessidade de maior investimento para que a presença desses alunos nas escolas signifique. que assume a direção da escola.1. coordenadora de uma das escolas. que informou que os computadores são utilizados para as atividades administrativas. v. efetivamente./dez. o entrevistado detalha: Somma. 54-67. mas sinalizando para o sistema estadual de ensino (10ª Regional de Floriano-PI). As respostas às questões evidenciam que a presença dos alunos com diversificados tipos de necessidades é uma realidade. Tal constatação. jul. A respeito do UCA. por um lado. cita programas educativos em geral. outra educadora. 2015  63   . expressa avanços em relação ao recebimento. por outro lado. que exerce a função de diretora. nas escolas. inclusão. embora a questão se referisse a alunos com algum tipo de deficiência e não englobasse todos os tipos de necessidades educacionais especiais. As incidências das respostas constam no Quadro 3. As respostas dos educadores a essa questão dão conta de que existe necessidade de investimento para que as máquinas presentes nas escolas se tornem ferramenta de aprendizagem e inclusão. por parte dos professores. independente de sua condição física e psicológica. cita o Proinfo. mas não informa especificamente qual. apenas um informou que nunca trabalhou com pessoas com deficiências. A quinta pergunta da entrevista tinha o objetivo de obter pistas sobre a experiência de trabalho com alunos com deficiência. (programa do Ministério da Educação). Uma professora. Onze profissionais informaram que não tinham conhecimento. Na escola 8. Uma das entrevistadas informou que já trabalhou com alunos com altas habilidades. a seguir: Quadro 3 . de alunos. A sétima questão se referia ao conhecimento. Teresina /PI.Incidências de pessoas com deficiência com base na experiência de trabalho dos professores Deficiência Visual 5 Deficiência Auditiva 6 Deficiência Intelectual 7 Síndrome de Down 2 Deficiência Física 4 Deficiências Múltiplas 6 Fonte: Dados da Pesquisa (2014). de algum projeto de inclusão digital desenvolvido pela SEMED. a entrevistada foi a diretora.

o governo deixou de enviar recursos.n. v. treze dos entrevistados responderam que são iniciantes no processo de utilização e três responderam que possuem um nível básico. Teresina /PI. destacando o papel do professor frente a esse desafio. 1994). trazendo. Instalados nesses computadores existem vários softwares educacionais como: de operações matemáticas e de identificação de números. 1999). Com relação à habilidade em utilização das Novas Tecnologias Educacionais. 54-67. mas a SEMED continua até hoje com o projeto. ajudando a “despertar o interesse do aluno”. Porém. A respeito do interesse em participar de projetos de inclusão digital.1. excelentes e fundamentais para indicarem a importância da utilização das TIC´s. 2015  64   . as possibilidades foram qualificadas pelos educadores como boas. Um aspecto interessante é expresso nas respostas da última questão proposta e que se referia aos sentidos dos entrevistados e entrevistadas quanto à possibilidade de inserção das TIC´s (programas e softwares educativos) como suporte para o desenvolvimento educacional de alunos com deficiência. Todas as pessoas (educadores) questionadas mostraram-se abertas e acenaram para possibilidades. Coadunando com Papert (1994). A estrutura desses computadores é similar a de laptops. foco da oitava questão. jul. alguns professores enfatizam que as TIC´s são “uma Somma. 2011. dessa forma. os registros entre aspas referem-se a trechos das respostas dos profissionais envolvidos na pesquisa. favorecendo ao professor “ajudá-los a se manterem inseridos no contexto tecnológico para melhor desempenhar as suas habilidades”. que funciona da seguinte forma: cada aluno possui uma numeração que serve para identificar qual é o seu computador. p. De maneira geral. mas não especificaram quais. Destacam que as “tecnologias são de fundamental importância não só para o desenvolvimento educacional dos alunos. que ele pode até levar para casa. todos os entrevistados responderam afirmativamente que se interessam. elas funcionam como um facilitador no processo de ensino aprendizagem”. enquanto elemento provocador de reflexões e indicador de propostas (ROCHA. 1999. De uma maneira geral. PAPERT.1. porém com capacidade bem inferior (DIREÇÃO ESCOLA 5). na qual funcionam programas. como afirma uma das professoras (LÉVY. destacando que as mesmas contribuem para os alunos desenvolverem suas potencialidades. treze dos entrevistados responderam negativamente e dois citaram a existência da sala de recurso multifuncional. LIBÂNEO.   O UCA é um projeto de inclusão digital desenvolvido pela SEMED em parceria com o Governo Federal. fertilidade ao trabalho realizado./dez. proporcionando-lhes inclusão digital. No texto que se segue. Questionados sobre o desenvolvimento de projetos de inclusão digital.

quando colocam que “Depende muitas vezes da iniciativa do poder público”. uma vez que está sendo discutida e inserida na realidade da escola”. entendemos que é viável o desenvolvimento de projetos que lancem mão de recursos tecnológicos e. uma das professoras alerta que “os programas devem estar relacionados com o conteúdo”. torna-se mais fácil”. v. Compartilham a responsabilidade com órgãos institucionais.1. p. Com base nas contribuições dos entrevistados e nas discussões sobre o papel da educação para a formação do sujeito e sua inclusão escolar. 2015  65   . bem como uma análise da rede pública municipal da cidade de Floriano-PI Somma.1. colocando o desenvolvimento do mesmo com possibilidade. abrindo espaço para a discussão dos sentidos de “domínio” e nos levando a refletir sobre o fato de que a aprendizagem é processual. e para nós é bastante gratificante e significativo”. Sem descuidar da dimensão pedagógica e da aprendizagem dos alunos. Uma professora chama a atenção para o significado da pesquisa e do projeto. afirmando que “Já utilizamos. A preocupação com a inclusão também está presente no discurso das professoras o que pode ser identificado quando uma professora coloca como “muito importante esse acesso para todos. ajuda a legitimar as discussões. visto que estamos na era da tecnologia”. através de sua vivência.   possibilidade a mais para se tentar desenvolver o potencial cognitivo da pessoa com deficiência”. mesmo quando se trata da aprendizagem e da formação do professor. Colocam ainda que é uma “ferramenta importante no trabalho do professor para desenvolver habilidades de aprendizagem nas crianças com deficiência”./dez. por meio da inclusão digital. potencializem a desenvolvimento das pessoas que possuem deficiência. Outra professora. Os professores também expressam preocupação com a necessidade de formação nessa área. quando relatam que “Primeiro é necessário que o educador tenha domínio” e que “Depende do domínio do professor”. jul.n. 54-67. 3 CONCLUSÃO O trabalho apresenta reflexão sobre as possibilidades de inclusão de pessoas com deficiência por meio de processos educativos que façam uso de tecnologias da informação e comunicação. E acenam para as tecnologias como ferramenta que pode favorecer a inclusão “Com essa tendência das novas tecnologias serem inseridas nas escolas e no momento em que se discute a inclusão. e que “devem ser realizados por meio de estratégias e recursos”. Teresina /PI. já que afirma “Há possibilidade.

2015  66   .n. O trabalho desenvolvido já encaminha outras propostas aos órgãos institucionais. submetida e aprovada em edital do Pibex/2014. defendendo que a inclusão digital associada à educação torna-se instrumento fundamental no processo de inclusão. por meio da democratização e expansão da produção do conhecimento. além das informações. e que poderá consistir em proposição de curso de formação para os professores que participaram da primeira fase e planejamento de projetos. favorecendo a transformação da realidade social. de caráter mais operacional. São Paulo: Cortez. São Paulo: Loyola. Pedagogia e Pedagogos. 1999. pedagogia e didática. PAPERT. Assim. Considerando que este artigo conclui a primeira fase do projeto em discussão. Didática. jul. Porto Alegre: Artmed.   quanto à problemática em questão. caracterizado como extensão./dez. 1994. Nessa perspectiva.S. a pesquisa e a extensão. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. desenvolvemos leve abordagem a respeito da educação enquanto direito conquistado e possível de contribuir para a superação de desigualdades resultantes de condições física e psicológica de sujeitos. José Caros. pesquisa e extensão. Focado no princípio de articulação entre o ensino. serve de base para produção de projetos de intervenção na realidade. Colocamos como necessária uma maior atenção e cuidado por parte do Instituto Federal de Educação – IFPI para o avanço e ampliação das possibilidades de desenvolvimento de trabalho que articule ensino.1. para que?. LIBÂNEO. Somma. o cenário delineado pela investigação pode sofrer mudanças qualitativas. v. ______. o trabalho realizado. Teresina /PI. p. 1999. 2. 1994.1. a saber: a deficiência auditiva. ou seja. REFERÊNCIAS LÉVY. voltados para uma ou duas deficiências mencionadas com maior incidência. Entendemos que a discussão sobre problemas que envolvem a realidade contribui para seu desvelamento e transformação. contribuindo contínua e progressivamente para a melhoria de nossa sociedade com relação à inclusão e igualdade social. a exemplo da proposição da segunda fase do projeto. Prática educativa. acenamos para a necessidade de desenvolvimento de novas experiências em continuidade. de pessoas com deficiência. PIERRE. ed. In: LIBANEO. 54-67. através da relação confrontante teoria-prática. São Paulo: Cortez. A máquina das crianças: repensando a escola na era da informática. José Carlos. Tradução de Luiz Paulo Rouanet.

1.PDF>. Dissertação. p. Acesso em: 18 dez.1.ufpi. jul. Arlete Fragas da Silva. Disponível em: <   http://www. v. Somma.br/subsiteFiles/ppged/arquivos/files/Disserta%20Arlete%202012.   ROCHA./dez. PPGEd/UFPI. 2014.n. Teresina /PI. 54-67. Prática pedagógica: instrumento e resultado no processo de reflexão crítica em contexto colaborativo. 2015  67   . 2012.

Bioimpedance. tempo de trabalho na polícia foi 7. A média de idade foi de 31. tendo como amostra inicial 31 e final 20 policiais do sexo masculino. The fluid and muscle tissues are within the appropriate cutoff point.59% e a massa óssea (O%) com 3. p. A massa muscular (MM%) obteve uma média de 40.2 years and time in shock CIA 19 months. For the bone was not found cutoff point by the lack of published studies. v. We conclude that the officers of the Company shock MP-PI of BPRONE meet with the percentage of fat above the desired range. O percentual de gordura foi de 27. in the city of Teresina-Pi in the period January-July 2014. Teresina /PI.COMPOSIÇÃO CORPORAL POR BIOIMPEDÂNCIA DE POLICIAIS DA COMPANHIA DE CHOQUE DO BPRONE DA POLÍCIA MILITAR DO PIAUÍ Gabriel Vasconcelos Assunção* Cláudia Maria da Silva Vieira** RESUMO Objetivou-se avaliar a composição corporal pelo método de bioimpedância de policiais da Companhia de Choque do Batalhão de Rondas Ostensivas de Naturezas Especiais (BPRONE) da Policia Militar do Piauí. Military police. 2015 ** 68 . aged 20:39 years of Cia de Shock BPRONE Military Police of Piaui.07%. The average age was 31. Os tecidos líquido e muscular estão dentro do ponto de corte adequado. Conclui-se que os policiais da Cia de choque do BPRONE da PM-PI se encontram com o percentual de gordura acima dos valores desejados. o tecido líquido (L%) apresentou-se como média 50. 68-77./dez. jul.1. Somma. The fat percentage was 27.75 metros. Policiais militares. with the initial sample 31 and end 20 policemen male.07%.74%. Body weight and height were 81. * Especialista em Desporto Escolar – IFPI. the net fabric (L%) presented himself as an average 50. ABSTRACT This study aimed to assess the body composition by bioelectrical impedance method of Company's officers Battalion Shock Rounds Chichi Natures Special (BPRONE) Military Police of Piaui.2 anos e tempo na CIA de choque de 19 meses.54 kg and 1. Palavras-chave: Composição corporal.n. Muscle mass (MM%) scores a 40.75 meters.78%. Trata-se de um estudo de campo de caráter descritivo quantitativo e transversal.1 anos.78%. Keywords: Body composition.1 years. peso corporal e estatura foram 81. working time in the police was 7. Acadêmica do Mestrado em Ciências e Saúde – UFPI. It is a study of quantitative and transverse descriptive field.59% and bone mass (The%) with 3.74%. com idade de 20 e 39 anos da Cia de Choque do BPRONE da Policia Militar do Piauí.1. realizado na cidade de Teresina-PI no período de janeiro a julho de 2014.54 kg e 1. Para o tecido ósseo não foi encontrado ponto de corte pela falta de estudos publicados. Bioimpedância.

A técnica de bioimpedância é um método rápido e prático para avaliar os percentuais de todos esses tecidos que constituem o corpo humano. massa adiposa ou tecido gorduroso. ou seja. de modo especial ao grupo de policiais que compões o BPRONE. de manter a ordem e cumprimento das leis na sociedade. 2011). o desequilíbrio associa-se a doenças. De acordo com o American College of Sports Medicine . 2015 69 . De modo específico. em contrapartida.1 INTRODUÇÃO A constituição do corpo é comumente expressa como sendo a soma de quatro elementos básicos. 68-77. baixo nível de atividade física habitual e excesso de peso. Conforme Pereira (2007). é o gradiente que cria condições ideais para a efetiva realização de qualquer trabalho militar. massa muscular e massa óssea. jul. O exercício da atividade policial militar. níveis baixos de aptidão física Somma. O equilíbrio dos valores desses tecidos corporais está associado à saúde. níveis satisfatórios destes componentes estão fortemente associados à prevenção de diversas doenças e à promoção da saúde. deve-se considerar que um nível adequado de aptidão física por parte dos indivíduos que servem a essa autarquia. v. Teresina /PI. nas classes militares.ACSM (2007). é reconhecidamente estressante e predispõe os trabalhadores a riscos físicos e psicológicos. Precedendo a toda preparação técnico-tática.n.1. enquanto órgão do Estado possui como funções e atribuições legais promover e garantir a segurança pública. 2007)./dez. que associados a outros fatores de risco. tais como inadequados hábitos alimentares. relata Medeiros (2011). o policial militar precisa estar preparado para atender às novas e crescentes demandas impostas pelas questões de segurança pública tendo como grande desafio o combate à violência e a criminalidade (MEDEIROS.1. visto que possuem atribuições que exigem maior rigor para sua execução. podem originar doenças crônicas. A polícia militar. massa muscular. deve ser munido de recursos técnicos e táticos para intervir em favor da ordem social. Para o exercício de suas funções. consequentemente requer um preparo físico ainda mais vigoroso. podendo ser alteradas por meio da prática regular de do exercício físico. a composição corporal como componente da aptidão física é um fator determinante. sobretudo as cardiovasculares (PEREIRA. p.

68-77. GUEDES.n. seja relacionado a assuntos inerentes ao trabalho. com faixa etária entre 20 e 39 anos da Cia de Choque do BPRONE da Policia Militar do Piauí. v. p. Somma. Teresina /PI. b) por problemas de saúde e c) por motivo de afastamento no trabalho. Esse método fraciona o corpo por meio de uma corrente elétrica que perpassa através dos tecidos e fraciona o corpo em componentes ósseo. Trabalhadores fisicamente ativos são mais produtivos que seus colegas sedentários. A pesquisa quantitativa segundo Thomas. Inicialmente foi enviado o projeto de intenção da pesquisa ao 1º Tenente do batalhão para apreciação e solicitação de autorização do estudo. do sexo masculino. 2015 70 . A composição corporal por bioimpedância é um dos métodos mais recentes para estimar relativamente o percentual de gordura corporal nas mais diversas populações. Antes.1. A composição corporal é um dos componentes da aptidão física e interfere diretamente ou indiretamente no condicionamento físico geral. Avaliar a composição corporal por meio da técnica de bioimpedância de policiais da Companhia (Cia) de Choque do Batalhão de Rondas Ostensivas de Naturezas Especiais (BPRONE) da Policia Militar do Piauí. líquido e adiposo (REZENDE et. seja pelo cumprimento de férias./dez.. uma das quais era entregue ao participante. jul. 2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A pesquisa realizada caracterizou-se como um estudo de campo de caráter descritivo quantitativo e transversal.influenciam negativamente tanto ao ingresso quanto ao sistema promocional da carreira militar. al. representando 67% do total da composição da CIA de Choque. 2006). Antes do início da aplicação dos testes. Depois realizado o convite aos policiais para a coleta de dados. para só então. porém. Nelson e Silverman (2008) é aquela que quase sempre envolve medidas precisas e análise estatística. Compôs a amostra final deste estudo 20 policiais.1. Acredita-se que os policiais que apresentarem melhor nível de composição corporal possam também demonstrar melhor desempenho nos demais itens da aptidão física (GUEDES. 2007). tendo como cálculo amostral 31 e como amostra final 20 policiais. por motivos diversos: a) não comparecer no dia da coleta de dados. muscular. todos assinaram o termo de consentimento livre esclarecido em duas vias. aqueles que se dispusesse a participar de maneira voluntária comparecer nas dadas estabelecidas para a coleta de dados. foram explicou-se os objetivos e a importância da pesquisa. O estudo foi realizado na cidade de Teresina-Pi no período de janeiro a julho de 2014.

A medida do peso corporal Balança digital com estadiômetro digital medidor de altura por ultrasom e infravermelho – 180 Kg W721 WISO. usando o mínimo de roupa possível e a medida aferida apenas uma vez. A bioimpedância é um método fácil e simples de avaliar a composição e fracionamento do corpo que utiliza uma corrente elétrica ao longo dos tecidos corporais e prediz a quantidade de cada um desses tecidos. As variáveis sócio-comportamentais da referida pesquisa foram: idade. a qual classifica a constituição do corpo em tecido adiposo (G%). Teresina /PI. jul. sexo. muscular. v. nível de escolaridade e prática de exercício sistematizado. ósseo e líquido. músculo e osso.n. mantendo-se ereto e olhando para frente (plano de Frankfurt). tendo sua aferição ocorrida a cada 10 medições. com os dados sendo apresentados em média e desvio-padrão. com avaliado em posição ortostática. Para análise da composição corporal o avaliado colocou-se em posição ortostática. a saber: gordura. tempo na CIA de choque (meses). A composição corporal foi avaliada pelo método de bioimpedância por meio de uma balança digital bipolar e analisador corporal WISO W835. a qual fraciona a constituição corporal em quatro elementos distintos. e em seguida pediu-se ao avaliando para descesse da balança. massa muscular magra (MM%). O indivíduo subia na balança sem calçado e pisava no centro dela. olhar voltado para frente.As variáveis estudadas antropométricas estudadas foram: Estatura (m). percentual dos tecidos constituintes do corpo: adiposo. pés posicionados no centro da balança. O tratamento dos dados foi feito através da estatística descritiva. 2015 71 . O olhar voltado para frente com a cabeça ereta. p.1./dez. tecido ósseo (O%) e tecido líquido (L%). Tratamento através de percentil também foi utilizado para verificação do percentual de indivíduos da amostra que se encontraram acima dos pontos de corte considerados para a normalidade nas variáveis estudadas. Sendo a medida transcrita em quilogramas. 68-77. braços estendidos ao lado do corpo. O testando se encontrava usando o mínimo de roupa possível. A aferição da estatura foi realizada utilizando-se o estadiômetro digital medidor de altura por ultrassom e infravermelho – W721 WISO.1. líquido. Peso corporal (Kg) e composição corporal pelo método de bioimpedância. descalços e ligeiramente afastados sobre a plataforma da balança. tempo de polícia (anos). nível de escolaridade e prática de exercício físico. realizava-se a leitura e as anotações. de costas para a escala da balança com os pés afastados lateralmente. Somma.

1 7. Teresina /PI.2 19 81. (2011) investigou as mesmas variáveis em população de sargentos em Porto Velho e verificou que a média para peso corporal foi de 82.2 anos e 19 meses na Cia de choque. Uma pesquisa realizada com policias no interior de Minas Gerais por Braga et al. O tempo de polícia verificado foi 7. A idade.36 respectivamente. peso corporal e estatura. estatura. A estatura foi de 1.n.74m e idade de 44 anos. idade em anos. peso corporal.47 0. tendo 18 indivíduos do sexo masculino com idade entre 18 e 41 anos.76 m. p. as médias encontradas foram 81. 2015 72 .70 e 6. tempo na Cia de choque.54 1.54 kg e 1.6 kg. E=estatura Dp=desvio padrão Fonte: Dados da Pesquisa.1.Caracterização da amostra de policiais da CIA de choque. com resultados muito semelhantes. idade. (2011) encontrou resultado semelhante ao desta pesquisa para as variáveis peso corporal e estatura 82.75 metros e desvios padrão de 15.9 e 0./dez. tempo de polícia. Tabela 1 . A média geral para idade foi de 31. expressas em média e desvio padrão. PC=peso corporal. 68-77. peso corporal e estatura.1 anos de idade seguido pelo desvio padrão de 4. expressos em média e desvio padrão.47.9 0. entretanto só foi analisada em um estudo e discorda deste.. Va Idad TP TCH PC E (m) riáveis e anos anos meses (kg) Mé 31.06. Luz. As variáveis. Em seu estudo Braga obteve uma amostra muito semelhante a desta pesquisa. 2014.1. TCH=tempo de CIA de Choque. v.. O tempo de trabalho dentro da polícia foi 7. tempo de polícia em anos.75 DV 4.7 6.9 kg e 1. Oliveira et al.3 RESULTADOS E DISCUSSÃO A tabela 1 apresenta a caracterização da amostra de policiais militares.36 15. peso corporal e estatura. Os estudos citados corroboram os resultados observados na referida pesquisa nas variáveis. jul. Lucas e Caputo (2011) realizaram estudo com policiais do BOPE do estado de Santa Catarina e Somma. tempo de CIA de Choque em meses. uma vez que se encontra superior à média da população estudada em Teresina-PI.2 anos e tempo na CIA de choque de 19 meses com desvio padrão de 0.06 dia TP=tempo de polícia.

52% estavam em fase de conclusão do ensino superior e apenas 21. 26% possuíam ensino superior completo.1. Não foram encontrados estudos sobre nível de escolaridade de policiais. 68-77.n. não houve diferença entre as populações das regiões citadas. 25 do sexo masculino e 05 do sexo feminino. utilizamos essa variável como forma de conhecer melhor o perfil dos policiais militares do Piauí. Sul. ESI=ensino superior incompleto. constatou alto nível de sedentarismo. 2015 73 . 2014.1. EM=ensino médio Fonte: Dados da Pesquisa. Destes. ou seja. sexo. O estudo concluiu que 50% da população se encontravam em nível sedentário e 50% ativo. A população pesquisada foi formada no seu total de 100% por indivíduos do sexo masculino.69% estavam cursando o ensino médio. mais que o dobro verificado em nosso estudo. uma vez que os percentuais para o nível de atividade física foram de 50% enquanto a pesquisa atual a mesma Somma. Teresina /PI. A tabela 2 consta os resultados dos dados sócio-comportamentais sexo. Este achado difere daqueles constatados em nossa pesquisa. expressos em percentuais. jul. no entanto.relataram a média de tempo na polícia igual 16. entretanto. nível de escolaridade e prática de exercício físico. Quanto à prática de exercício físico sistematizado. A estatura pode ser explicada pela exigência mínima para ingressar na polícia./dez. nível de escolaridade e prática de exercício físico. Pesquisa desenvolvida por Milan e Ferreira (2013) em Mato Grosso do Sul com um universo de 30 policiais. Norte e Nordeste. todos afirmaram praticar duas vezes por semana. 63% da amostra pesquisada disse praticar alguma modalidade por pelo menos três vezes por semana e 37% não afirmou não praticar. v.Dados sócio-comportamentais. Tabela 2 . em nosso delineamento investigativo.31% E 52% E 21. p.69 SIM 63% NÃO 37% SC F 0% SI M ESC=ensino superior completo.9 anos. Entretanto. o futebol dos policiais no local de trabalho. Sexo Nível de Prática Exercício Escolaridade M 100% E 26.

78% e 8. segundo o método adotado. Entretanto./dez. o que o classifica como “obesidade”. porém. Estudo desenvolvido em Mata de São João . Esses achados diferem dos nossos resultados.1. Na tabela 3 consta a descrição da composição corporal pelo método de bioimpedância.1. MO=massa óssea. Vale ressaltar que o tamanho da nossa amostra é inferior.07 respectivamente. o fator redominante é muito positivo.Bahia por Jesus e Pitanga (2011) com 51 policiais do sexo masculino tendo faixa etária de 21 a 49 anos. massa muscular (MM%) e massa óssea (MO%) expressas em percentuais. idade entre 22 a 43 anos atesta que dos 40 homens que compuseram a amostra do estudo.n. Valores sugeridos para porcentagem de gordura de acordo com o sexo e faixa de etária de 31.06 para desvio padrão.78 40.07%. Fonte: Dados da Pesquisa. descrito em porcentagem. 100% estão classificados como ativos. os resultados serão apresentados em média e desvio padrão.1 anos seria entre 8% e 19%. tecido líquido. p. Variávei G% L% MM % MO % s Média 27.75 e 0. A média encontrada para o percentual de gordura (tecido adiposo) foi de 27. MM=massa muscular. Teresina /PI. 2015 74 . G%=percentual de gordura. tecido líquido (L%).8.8 8. Os itens analisados pelo método de bioimpedância são: tecido adiposo. Sabendo que a gordura corporal tem sido largamente usada como indicador de saúde e Somma.07 DP=desvio padrão. A massa muscular (MM%) da população pesquisada se mostrou com média de 40.variável obteve 63% da amostra ativa. tecido muscular e tecido ósseo.74% seguida pelo desvio padrão de 11.59 3. no entanto a média do grupo pesquisado apresenta-se com média acima de 27%. uma vez que a atividade física em níveis ideais promovem saúde e bem estar. 2014. 68-77.74 50.06 3. L=líquido. jul. o tecido líquido (L%) apresentou-se com a média de 50.59% e a massa óssea (O%) com 3. Tabela 3 . ambas com desvio padrão de 3. Os resultados de uma pesquisa realizada por Cordeiro (2007) com policiais da força tática de Florianópolis – SC tendo estes.07 DP 11. v.Composição corporal pelo método de bioimpedância e percentuais para as variáveis: tecido adiposo (G%).75 0. aponta prevalência de baixo nível de atividade física para todos os policiais que compuseram o universo amostral da pesquisa.

O percentual de gordura do estudo de Braga et al. A composição corporal é um parâmetro associado com o processo saúde-doença. O estudo de Braga corrobora com a investigação da Cia de choque na amostra. fato que dificultou a discussão desta investigação. no entanto./dez.9% de massa muscular naqueles policiais. v. Resultado que muito se assemelha à pesquisa realizada no Piauí.78% e o a massa óssea foi de 3.1. o método adotado por Cordeiro difere do nosso.correlacionada a inúmeras doenças. Entretanto. especialmente as doenças crônicas não transmissíveis e cardiovasculares. 2015 75 . independente do método adotado para investigar. Braga et al. é sempre válido avaliar os componentes dela para evitar processos patológicos na população. Ressalva-se que essa aferição foi conduzida pelo método de somatotipo e não por bioimpedância. nesse caso dos policiais que. (2011) muito se assemelha ao do grupo da Cia de choque do Piauí.07%. o qual se encontra acima do nível desejado. Portanto. jul.. sabíamos que daríamos o primeiro passo para nesse caminho. necessita de estar com a saúde em bom estado para assim desenvolver suas funções com qualidade e segurança.n. Lucas e Caputo (2011) constatou uma média de 33. uma vez que sua amostra foi constituída por 18 policiais com idade entre 18 e 41 anos do sexo masculino. p. ressalta-se que os métodos de aferição são diferentes. Teresina /PI. A bioimpedância trata-se de um método relativamente novo e sua utilização em pesquisas ainda se encontra em estado incipiente.1. Essas variáveis não foram identificadas em outros estudos para corroborar com o nosso. Cordeiro (2007) estudou a composição corporal de 40 policiais com idade entre 22 e 43 anos da força tática de Florianópolis – SC e verificou que 100% se encontram dentro dos padrões recomendados. Embora sabendo das dificuldades para apoiar nossos achados nesta pesquisa.. O tecido líquido observado neste estudo foi em média de 50. na faixa etária e no percentual de gordura. A média para a massa muscular de nosso estudo foi de 40. Estudo realizado com o BOPE de Santa Catarina por Luz. 68-77.59%. valor significativamente alto. (2011) verificou a composição corporal de policiais no interior de Minas Gerais e encontrou um percentual de gordura equivalente a 26%. visto que outros métodos não foram encontrados para corroborar ou refutar os achados sobre a constituição corporal como previamente é definido pelo método de bioimpedância. não se trata de um método comum. Somma. portanto. já que o método utilizado para aferir a composição corporal. devido a sua missão perante a sociedade. apenas os percentuais de gordura e massa muscular serão discutidos.

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being an educator today is to share a new paradigm. já que o público-alvo exige a reformulação de métodos. p.br/7742761039366809 Somma. a new attitude towards the teaching-learning process. tools and resources. due to the economic. este estudo faz uma abordagem exploratória. this study do an exploratory approach. jul. discutindo a respeito da postura do professor na contemporaneidade. v. Alcenir de Sousa * RESUMO O crescente avanço tecnológico tem desencadeado a “sociedade da informação”. to the use of new technologies. Given this reality. Social Change. técnicas. arguing about lecture'posture nowadays. which includes a new way of teaching and learning . it is realize that the role / lecture'posture was modified / a. bibliographic character on the current educational climate. a fim de refletir sobre o contexto e a problemática citada. Levando em consideração todas as reflexões despertadas neste trabalho. So. sociais. it is believe that the subjects inserted in such a society had changed their lifestyles.O PROFESSOR NA CONTEMPORANEIDADE LUZ. surge uma indagação: o papel/a postura do professor mudou? Então. Graduada em Licenciatura Plena em Letras/Português pela Universidade Federal do Piauí – UFPI. Teresina /PI. os quais não se sentem motivados pela exposição tradicional de conteúdos. de caráter bibliográfico sobre a atual conjuntura educacional.cnpq. a question arises: the role / lecture'posture changed? So. Novas tecnologias. Keywords: Teacher. Taking into account all the reflections aroused in this work. pelo Centro Universitário UNINTER. políticas e culturais apontadas pela globalização.1.                                                                                                                         * Especialista em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e Estrangeira. ABSTRACT The growing technological advancement has triggered the “information society”. percebe-se que o papel/a postura do professor foi modificado/a. instrumentos e recursos. New technology. acredita-se que os sujeitos inseridos em tal sociedade tiveram seus estilos de vida modificados. This new way of teaching and learning is result of the style of new students who are not motivated by the traditional exhibition content. techniques.1. in order to reflect on the context and the cited problems. até a utilização de novas tecnologias. tratando-se de educação. 2015 78 . Thus. social. Logo. Mudança Social. desde a interação linguística professor-aluno. participando de um processo evolutivo. Diante dessa realidade. participating in an evolutionary process./dez. que inclui uma nova forma de ensinar e de aprender. 78-90.n. Essa nova forma de ensinar e de aprender é resultado do estilo dos novos alunos. political and cultural changes indicated by globalization. em função das alterações econômicas. Lattes: http://lattes. Palavras-chave: Professor. in the case of education. since the target audience requires the reformulation of methods. ser educador na atualidade é compartilhar um novo paradigma. uma nova postura diante do processo de ensino-aprendizagem. Portanto. from linguistic interaction teacher-student.

n. desenvolveu-se um estudo exploratório. p. como os métodos e os recursos de ensino. que tem como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema. p.”. Teresina /PI.   1 INTRODUÇÃO A educação de uma forma geral. a maneira como aprendemos. direcionou-se o foco do trabalho para o levantamento bibliográfico. A aprendizagem não é mais individual. O conhecimento é construído em grupo e incontestavelmente está mais acessível. A partir do século XX. sugerido por Gil (2007). que tem desencadeado a “sociedade da informação. 78-90. A nossa sociedade. fazer uma breve exposição de caráter evolutivo acerca da figura/postura do professor. Ser professor atualmente exige o domínio de novas metodologias. jul. surge a principal variável da problemática: o papel/a postura do professor mudou? A realização deste estudo parte da necessidade de refletir e despertar novas reflexões sobre a conjuntura que envolve os autores do processo de ensino-aprendizagem no ambiente da sala de aula. aluno. e isso provocou mudanças marcantes. como procedimento metodológico. 2015   79   . 2). No que concerne à metodologia do trabalho científico. Almeja-se refletir sobre o atual papel do professor diante das novas tecnologias aplicadas à educação. está em rede. visando torná-lo mais explícito ou construir hipóteses (GIL./dez. Diante desse contexto. A contemporaneidade impulsionou uma nova forma de ensinar e de aprender. adotando assim. etc. 2007). a Somma.1. técnicas e instrumentos. Conforme Alda (2012. Investigar e discutir sobre esse assunto é pertinente. v. ao passo que fornece uma amostragem da atual realidade que professores e alunos vivenciam no âmbito escolar em decorrência da evolução dos tempos.1. consequentemente. a educação e o sistema educativo sofreram grandes mudanças nos últimos tempos. atualmente. A partir desse ponto. até questões mais didáticas. surgem os seguintes questionamentos: qual o papel do professor perante as novas tecnologias aplicadas à educação? Tais recursos minimizam o valor do conteúdo transmitido pelo professor. quanto aos objetivos da pesquisa. mas sim coletiva. mais especificamente as figuras que a constituem (professor. família. está sendo modificada ao longo dos anos. desde o que diz respeito a normas e valores. os avanços tecnológicos popularizaram o acesso à informação. da aula? Com que intuito essas tecnologias são utilizadas em sala de aula? A partir de todas essas indagações. modificando a maneira como vivemos e. isto é.). Propondo-se também a. nesse contexto.

Faria (2004). jul. 2001./dez. que cuidavam do desenvolvimento intelectual. No decorrer deste estudo. Na Baixa Idade Média. 2 A EVOLUÇÃO DO PAPEL/DA POSTURA DO PROFESSOR MEDIANTE AS MUDANÇAS SOCIAIS Conforme o minidicionário Aurélio. Demo (2011). 2007). A profissionalização do educador brasileiro começou a ser desenhada em 1835. p. Leffa (2006). Somma. em sentido lato. Até o século XIX. em seu artigo “o professor ao longo do tempo. Ferreira e Souza (2010). os grammatistés. que cuidavam do aprimoramento físico. o papel de educar foi desempenhado pelos retores. nenhum curso era elaborado com o objetivo de se formar professores.] se preocupava com o aprimoramento das habilidades físicas do indivíduo. o referido estudo perpassará as abordagens de Abreu (2002). (grifos nossos. Alda (2012).. a educação [. que desempenhavam a função de alfabetizar as crianças que não tinham uma condição material mais abastada. mestre. Gomes (2013). na qual se utilizou de estudos já realizados a respeito do tema explorado para obtenção de embasamento teórico. quando a primeira escola de educadores foi criada na cidade de Niterói. Deste modo..” (FERREIRA. Sendo assim. [a fim de] fazer com que os homens estivessem prontos para a guerra e as mulheres aptas para gerar crianças saudáveis. Gil (2007).1. que circulavam pelas cidades ensinando o que sabiam em troca de alguma compensação financeira. v. o papel de professor vem sendo desempenhado desde as civilizações antigas. O artigo citado traz uma abordagem sobre a função de ensinar desde o Antigo Egito até meados do século XIX. a função de escriba era preservada pela constituição de escolas reais que preparavam o indivíduo para dominar a técnica de ensinar. pode-se citar a presença dos lud magister. arte. Teresina /PI. responsáveis pelo repasse da escrita e da leitura.   pesquisa de cunho bibliográfico. 559). no Brasil. 2015   80   . com adaptações) (SOUZA. Na Roma Antiga. professor é “aquele que ensina uma ciência. Papert (1994). técnica.”. e os kitharistés. [por isso] cada criança [tinha] um tutor. Brasil. Moran (2004. s/d). Ferreira (2001). Entre os espartanos. houve a constituição das primeiras universidades. pretende-se evidenciar como o papel do professor foi modificado ao longo dos anos e que competências e habilidades foram desenvolvidas ou aperfeiçoadas em função das transformações sociais.n. que serviram de fundamentação teórica para o desenvolvimento deste trabalho. 78-90. Atente-se: No Antigo Egito. como mostra Ranier Sousa. Sousa (s/d) e Santos (2010).1. no Rio de Janeiro. Em Atenas. p. Além disso. a educação contou com três tipos básicos de profissionais do ensino: os páidotribés.

dos Estados Unidos e da Índia. v. p. onde o Mestre tem domínio absoluto do que está propondo. por sua vez. contradições e divergências. sem feedback. Os alunos hoje são diferentes. não havia interação entre professor e aluno. que assumam uma postura diferenciada diante do processo de ensino-aprendizagem. ao construir o conhecimento junto com seus alunos. p. em vez de passivamente assistir. isso implica dizer que o professor passa da escola centrada nos conhecimentos./dez. Retomando a citação de Alda (2012. para uma visão de professor que. É importante ressaltar que subjacente às atitudes do professor. Estes. passando apenas do professor para os alunos. é pertinente mencionar uma pesquisa realizada pela União Internacional das Telecomunicações (UIT). pois é a partir da apreensão de conhecimentos teórico-práticos disseminados no processo de formação para o exercício do magistério que o professor fundamenta suas ações. 78-90. além das oportunidades de aprendizagem.’. 2). Somma. percebe-se que o ensino tradicional estava centrado em uma transmissão de via única.   Conforme Alda (2012. Teresina /PI. O estudo “Medindo a Sociedade da Informação” aponta o Brasil como o país que possui a quarta maior população do mundo de “nativos digitais”. fundamentalmente baseada em texto e excessivamente expositiva. Em consonância com Faria (2014. São enquadrados nessa terminologia. 2015   81   . atualmente. pois o público-alvo exige que o conhecimento chegue até ele de forma dinâmica. partindo dos métodos. aquele que detinha o conhecimento e que transmitia para os alunos todo o seu estudo e sabedoria de forma linear. sem grandes reflexões ou visão crítica dos conteúdos. interativa e inovadora. duvida.1. p. p. demandam novos professores. ou seja. a era tecnológica necessita de um sistema educacional reformulado voltado para esses novos alunos. a sociedade formou novos sujeitos e. enquanto profissional crítico atuante na sala de aula. os alunos também mudaram. portanto. o professor era o único participante ativo da sala de aula. aqueles que cresceram acompanhando de perto a expansão da internet e estão acostumados às muitas mudanças trazidas pela web (GOMES. órgão da ONU. novos alunos. 61). jul.n. anteriormente. ficando abaixo apenas da China. que foi divulgada recentemente pelo jornal online G1. A respeito dos “nativos digitais”. e por isso. está a sua formação. questiona. os ‘nativos digitais. a nova geração está acostumada a agir. enriquecendo tais ações pelo apoio na tecnologia. enfrenta conflitos. jovens entre 15 e 24 anos que já possuem experiência de conexão à internet de pelo menos cinco anos. uma espécie de monólogo. isto é. Contudo. 2). Com a evolução das tecnologias e da sociedade. A educação tradicional era centrada no professor. Porém.1. 2013).

p. a codificação digital e a cultura do impresso. Um professor que fala bem.1. Abreu (2002. p. 6) esclarece que [. 80) (grifo do autor). que está em destaque. que varie suas técnicas e métodos de organizar o processo de ensino-aprendizagem (MORAN. mixar. sem dúvida consegue bons resultados com os alunos.. jul. p. p. encontra grande dificuldade para dialogar com as novas gerações da cultura digital e audiovisual. a cultura do livro de nossas escolas. estabelecer uma nova sinergia entre a linguagem audiovisual. SOUZA. Teresina /PI. a escola perdeu seu espaço como única transmissora de informação e necessita. o humor. que traga novidades.. Sobre essa tentativa de reter a atenção dos alunos. 170). atualmente. que se refere “a emergência das mudanças sociais. “Diante destes inovadores recursos tecnológicos da informação. p. passivos e nem colaboram mais com a inalterabilidade. uma revolução tecnológica. 2015 82     . Esta última parte. 1). Este paradigma. pois o homem passou a investir cada vez mais no desenvolvimento de produtos e aplicativos avançados que. o que se pode considerar. que experimentamos desde a última parte do século XX. pois os discentes não aceitam mais serem simplesmente receptores. que sabe jogar com as metáforas. que conta histórias interessantes. 78-90. não podemos simplesmente descartar. surgiu a “sociedade da informação” 1.] estamos presenciando o esgotamento do modelo escolar que trabalha exclusivamente com a linguagem oral e escrita.”. em definitivo. No entanto.                                                                                                                         1 É importante mencionar que o termo “sociedade de informação” está sendo utilizado seguindo uma concepção de Abreu (2002.1.n. que se adapta às circunstâncias. pensando minunciosamente em cada detalhe que faça a diferença. É por esses fatores que o educador da contemporaneidade tem que preparar cada aula da mesma forma que um artista planeja seu espetáculo. v. tecnológicas e culturais. que usa as tecnologias adequadamente./dez. É preciso interagir. Somma. Em decorrência disso. o professor que se mostrar resistente ao fazer uso dos recursos tecnológicos pode enfrentar grandes dificuldades em ministrar aula devido à desmotivação dos alunos. que sistematiza o conhecimento. Os alunos gostam de um professor que os surpreenda. urgentemente. os quais não se sentem atraídos pelo tradicionalismo. ocupam gradativamente menos espaço físico e aceleram o processo de comunicação entre o mundo através da internet. econômicas. permite que se faça uma inferência ao fato que. ou seja.” (grifo nosso) (FERREIRA. fazer uso da linguagem audiovisual para tornar a aprendizagem algo interessante para os alunos. diga-se de passagem. 2010.   A partir dos anos 90 houve. 2007.

em escolas diferentes. p. não-linearidade na aprendizagem [. podendo mencionar.1. Quando se mencionam posturas tradicionais do professor. v. Atualmente. a fala do docente e os recursos tradicionais pelo fascínio das novas tecnologias. Elas se caracterizam pela interatividade. 78-90. dedicou uma parte do seu artigo “Perspectivas (virtuais) para a educação” à abordagem sobre “o professor do futuro próximo. mas não exclusivamente. de substituir o livro pelo texto tecnológico. com jornada de trabalho excedente. de onde o professor ministra sua aula através de um computador conectado a internet. no ano de 2004. 2015   83   . p.] Não se trata... nesse contexto.. No que concerne a essa mudança. porém. muitas vezes. esses recursos foram substituídos por novas tecnologias. levará o educador a ter muito mais oportunidade de compreender os processos mentais. mediar e contribuir de maneira mais efetiva nesse processo de construção do conhecimento.]. observa-se que esse “futuro” já chegou.1. passando pela lousa interativa. com os recursos da informática. os conceitos e as estratégias utilizadas pelo aluno e.. Moran diz que: Vejo o professor do futuro como alguém que poderá estar vinculado a uma instituição predominantemente.] Faria (2004. tudo isso para obter uma boa remuneração ao final do mês. o que está favorecendo e expandindo a viabilidade e a qualidade da Educação a Distância. do livro-texto e do professor conteudista. de orientação de pesquisas em diferentes lugares e níveis.. 2004. No referido estudo... Valente (1999 apud FARIA. jul. 57) menciona que se trata de uma inovação pedagógica fundamentada no construtivismo sócio interacionista que. Considerando o exposto pelo autor./dez. Somma. [. torna-se cada vez menor a utilização do quadronegro. Não se pode esquecer que os mais poderosos e autênticos ‘recursos’ da aprendizagem continuam sendo o professor e o aluno [. com esse conhecimento.”. a exposição (clássica) de um conteúdo se dava por meio da utilização de um quadro negro e um giz. p.] O professor será multitarefa.n. Antigamente. logo se remete também aos recursos utilizados por este em sala de aula. enquanto aumenta a aplicação de novas tecnologias. [. Participará de inúmeros momentos de cursos em outras organizações. até a sala de aula virtual. vê-los e falar com eles. desde o uso do datashow.   Moran. afinal o professor hoje é um profissional multitarefas e vale ressaltar que exerce essas inúmeras tarefas. Teresina /PI. por exemplo.. 57) continua a discussão ponderando que: Nessa proposta pedagógica. Desde qualquer lugar poderá conectar-se com seus alunos.

pois uma máquina.1. Essa situacionalidade aqui evidenciada remete a uma espécie de distanciamento intelectual entre professor e aluno. 2011. ainda não é capaz de esclarecer dúvidas. Essa realidade é perceptível quando se participa de cursos. tememos esta geração.   Contudo. demonstram serem leigos diante dos novos recursos tecnológicos. capacitações. acredita-se que o computador é um instrumento de grande importância no processo de ensino-aprendizagem. Público cativo na escola e universidade vai se tornando aberração. em parte. p. O grande problema diante desse fato é que “professores analfabetos digitais vão ficando naturalmente para trás. 2010 apud DEMO. os professores serem substituídos pelas máquinas? Em relação à primeira indagação. Para estarmos à altura da nova geração. Perdem a chance de ‘educar. com a evolução das novas tecnologias aplicadas à educação. p. o que causa.1. como afirma Alda (2012).n. é fato que os professores.’” (SHERIDAN. receio ao profissional. por si só. como bem coloca Demo (2011. É impressionante o quanto pessoas tão habilidosas e capacitadas em uma determinada área (por exemplo. afinal os alunos é que são “nativos digitais”. contudo não substitui o professor. busca-se uma reflexão: os professores da atualidade dominam as novas tecnologias? Há a possibilidade de./dez. em especial porque pode nos suplantar em termos de fluência tecnológica. 2015   84   . jul. afirmando que. p. 9). v.0 tem a potencialidade de esvaziar o argumento de autoridade (em particular a aula instrucionista). o professor socrático é protagonista crucial desta quadra histórica. é imprescindível mudar o professor. Somma. Diante do segundo questionamento acima realizado. Tememos também porque o ambiente da web 2. porque se colocam fora do tempo. a área em que exercem a docência). porque até mesmo na Educação a Distância há a necessidade de um Tutor para mediar à interação entre os discentes e os professores por meio do uso de tecnologias de comunicação. Isso mostra que o contato entre aluno e professor sempre deverá existir (mesmo que seja através das máquinas) para o bom desenvolvimento da atividade de ensinar e de aprender. 78-90. em primeiro lugar. Este não é descartado. 9). Muito ao contrário. muitas vezes. geralmente. Teresina /PI. INMAN. não dominam os novos recursos tecnológicos com a mesma habilidade ou naturalidade dos seus alunos. os quais terminam ensinando os próprios professores a manusear tais tecnologias. nem de proporcionar um feedback a um grupo de alunos. treinamentos e outros momentos pedagógicos.

a exemplo do Proinfo (este é caracterizado adiante). p./dez. mas. mas os professores não precisam ter ‘medo’ de serem substituídos pela tecnologia. 60) também reforça essa ideia.n. como um componente da complexa atividade de ensinar e aprender uma língua. O professor da atualidade deve ser adepto da concepção de educação continuada.”. através de materiais e de cursos para os professores. de 9 de abril de 1997. jul. p. procurar. contudo muitos educadores ainda não dominam os recursos. Eles têm que unir esforços e utilizar aquilo que de melhor se apresenta como recurso nas escolas e universidades. enfatizando que as tecnologias de comunicação estão provocando profundas mudanças em nossas vidas. 13).' é necessário que os professores desenvolvam a habilidade de beneficiarem-se da presença dos computadores e de levarem este benefício para seus alunos. da inclusão digital e social. fazer cursos que lhe ofereçam informações pertinentes e atuais sobre o novo contexto educacional. do ensino. a ideia que prevalece na área é de que ele seja visto apenas como um instrumento. entre outros. apesar de sua complexidade.1. que o professor precisa conhecer e dominar para usá-lo de modo adequado. do uso das TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação). 78-90. entra-se em consonância com um pensamento de Leffa (2006. ou utilizam os recursos superficialmente. “É evidente que os professores necessitam acompanhar as mudanças a fim de adaptar-se. isto é. estaduais e municipais) estão investindo cada vez mais em tecnologias de informação e comunicação nas escolas.1. O Programa Nacional de Tecnologia Educacional (ProInfo) é um programa educacional criado pela Portaria nº 522/MEC. 70). As redes (federal. com grande potencialidade e muitas limitações. 4). p. Faria (2004. para promover o uso pedagógico das tecnologias de informática e comunicações (TIC) na rede pública de ensino Somma. Segundo Papert (1994. O computador não substitui nem o professor nem o livro. 2012. Tem características próprias. mesmo diante de muitos obstáculos. 2015   85   . p. quando o autor afirma que: O computador tem provocado muitos debates e gerado inúmeros trabalhos na área do ensino de línguas. p. O educador precisa se apropriar desta aparelhagem tecnológica para se lançar a novos desafios e reflexões sobre sua prática docente e o processo de construção do conhecimento por parte do aluno. como também não precisam concorrer com os aparelhos tecnológicos ou com a mídia. v.   Nesse contexto. demonstrando pouca preparação e criticidade com relação a influência dos mesmos para o processo de ensino-aprendizagem. envolvendo as vertentes da pesquisa.” (ALDA. “muito mais do que 'treinamento. até porque ainda demonstram resistência em abandonar os métodos tradicionais e se adequarem à nova realidade. Teresina /PI.

nem aos métodos. complemento a cursos presenciais. porém. no meio social. O professor da atualidade continua tendo a necessidade de dominar o conteúdo. fora da escola. tradicional.1./dez. Conforme Moran (2007). muito menos aos recursos tradicionais utilizados. que antigamente era aquele que detinha o conhecimento e o transmitia de forma expositiva. mas extrair destes novos recursos tecnológicos todo o Somma. v. O MEC compra. almeja-se que os profissionais da educação se empenhem e se interessem pelo aprendizado da utilização dos recursos que o meio escolar oferece. indispensável para que elas recebam os computadores. 2004. por isso.1. Deseja-se apenas evidenciar que a realidade da sala de aula avança concomitantemente à realidade externa. mas o papel do professor continua sendo fundamental na escolha e correta utilização da tecnologia. Por isso. construir conhecimento junto com seus alunos. a tecnologia facilita a transmissão da informação. Em contrapartida.   fundamental e médio. projetos colaborativos e diversas outras formas de apoio a distância e ao processo ensino-aprendizagem. mas sim para. como cursos a distância. Deste modo. projetos de pesquisa. p. pois não se trata aqui de abandonar todos os recursos até hoje utilizados e substituí-los pelos mais modernos. dos softwares e seus aplicativos para auxiliar o aluno a resolver problemas e realizar tarefas que exijam raciocínio e reflexão (FARIA. 167) se colocam: É possível utilizar os novos instrumentos tecnológicos para ensinar velhos conteúdos e ensinar novos conteúdos com velhos recursos. A este respeito Ferreira e Souza (2010. p. Sendo que. Teresina /PI. não é apenas para expor o que sabe. a didática utilizada outrora pode não ser mais tão atrativa para os alunos. ou seja. os governos locais (prefeituras e governos estaduais) devem providenciar a infraestrutura das escolas. Pode-se afirmar que houve uma transformação da figura/postura do professor. pois assim professores e alunos serão beneficiados no atual processo de ensino-aprendizagem. nem eficaz para o processo de ensino-aprendizagem. 78-90. em função disso deve ser adaptada. proporcionar o diálogo e a troca de informações. distribui e instala laboratórios de informática nas escolas públicas de educação básica que ainda não tem laboratório. p. 2015   86   . educar em uma sociedade que sofre mudanças rápidas e profundas nos obriga a reaprender a forma de ensinar e a de aprender. de forma diferenciada. É importante ressaltar que não se objetiva nesse trabalho atribuir menor valor/importância a postura. 58).n. jul. através do Ambiente Colaborativo de Aprendizagem (e-Proinfo) – um ambiente virtual – a escola como um todo pode desenvolver diversos tipos de ações.

1. Retomando um pouco sobre o atual papel do professor. faz-se pertinente elucidar as colocações de Leffa (2006. p. quanto estrangeiras. exatamente pelo fato de não encararem a docência como uma simples transmissão de conhecimento e por não se considerarem os detentores do saber no âmbito da sala de aula./dez. Atente-se: “[o computador] não substitui o professor. são professores bem-sucedidos. que trata do professor pós-moderno. CALL é uma sigla já consolidada em língua inglesa. e nunca ceder ao comodismo. a exemplo do estudo de Santos (2010). saber utilizar as tecnologias em prol de um ensino mais eficiente e eficaz. para Beethoven. Teresina /PI. comparando a necessidade de utilização deste instrumento ao mesmo valor do piano. Na verdade. Nesse sentido. trabalhar em parceria com o aluno e. para que possam contribuir com a sociedade e construir opiniões próprias. buscar novos métodos. Leffa faz uma metáfora para enfatizar a importância do computador no processo de aprendizagem. criar. vale mencionar uma colocação de Alda (2012. Somma. 3). que repensam a sua prática buscando favorecer cada vez mais a aprendizagem dos alunos.n. reflexivos. p. p. ser consciente de que não é o detentor de todo o conhecimento. correspondente à Computer Assisted Language Learning.   potencial que possuem para auxiliar no processo de ensino e de aprendizagem dos educandos. pesquisar. o que todo educador precisa é estar disposto a buscar sempre mais.1. 2015   87   . Essa concepção crítico-reflexiva é bastante difundida nos trabalhos científicos realizados acerca de experiências de professores bem-sucedidos. É importante ressaltar também nesse contexto que o computador é um instrumento bastante utilizado para a aprendizagem de línguas. é necessário ensinar nossos alunos a refletir. jul. inovar. Atente-se: O professor pós-moderno deve estar em sincronia com a contemporaneidade. raciocinar e compreender a nossa realidade. A respeito disso. tanto materna. 12). É como o piano num concerto de Beethoven. Ainda se referindo à CALL. Hoje. são desenvolvidos softwares pensados especificamente com essa finalidade. Professores críticos. 12). p. imprescindível para que a peça musical seja executada pelo pianista” (LEFFA. mas também não pode ser visto dentro de uma escala hierárquica de importância. 78-90. Veja: A Aprendizagem de Línguas Mediada por Computador (CALL) é uma área de investigação que tem por objetivo pesquisar o impacto do computador no ensino e aprendizagem de línguas. v. além de tudo isso. questionar. 2006. que esclarece sobre a aprendizagem de línguas mediada por computador.

In: CONGRESSO BRASILEIRO DE COMUNICAÇÃO. In: XII SEMINÁRIO INTERNACIONAL EM LETRAS: LÍNGUA E LITERATURA NA (PÓS-) MODERNIDADE. Salvador. REFERÊNCIAS ABREU. as quais exigem técnicas. o que deve estar mais evidente para o professor é o objetivo da ação para o processo de ensinoaprendizagem. p.. costumes e valores foram modificados devido ao avanço tecnológico e a influência dos novos recursos de comunicação e informação na vida das pessoas. 12.   3 CONCLUSÃO Com o passar dos anos. porque só a partir de um ideal bem definido pode ser alcançada uma meta. Pelotas. é notório que a metodologia de ensino e a postura assumida pelo professor mudaram. Teresina /PI. L. As inovações tecnológicas devem ser vistas como instrumentos que facilitam a transmissão do conhecimento e valorizam a interação professor-aluno.. Salvador. Pelotas. ALDA. 2015   88   . Em consequência disso. 1-6. Mediação e emoção: a arte na aprendizagem. p. o contexto da sala de aula foi modificado em concomitância e por decorrência da transformação social. senso crítico e viabilizar a interação como via direta para o processo de construção do conhecimento. despertar reflexão. 2012. além da inserção das novas tecnologias. p. muitos hábitos. Nesse aspecto./dez. pois este não ocupa mais o lugar central da sala de aula. novos alunos. jul. Portanto. A questão do objetivo para o professor deve ser tão esclarecida quanto à concepção de linguagem e a concepção de educação. 25. inovadora do professor. 2012. com que finalidade determinado recurso será utilizado e quais conhecimentos o mesmo proporcionará que sejam repassados aos alunos. 1-15. Somma. C. 2002. tornando-a mais dinâmica e atrativa para os alunos. S. v. que está inserida na sociedade. Anais do XXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. O papel do professor atualmente é incorporar as novas tecnologias para facilitar e mediar à aprendizagem. G. Novas tecnologias. ou seja. novos professores? Refletindo sobre o papel do professor na contemporaneidade. 2002. 78-90. a escola.1. L. Considerando toda a reflexão realizada nesse estudo.n. métodos e uma maneira diferente. uma vez que há uma valorização da interação linguística entre o educador e o aluno. Anais do XII Seminário Internacional em Letras. por exemplo. também tem seus hábitos modificados.1.

2015   89   . 4. 12. 2013. A aprendizagem de línguas mediada por computador.htm>. Porto Alegre: EDIPUCRS. 57-72. e-ProInfo. Pelotas: Educat. Acesso em: 11 ago. jul. ______. 2013.iff. Fundação Konrad Adenauer. Cadernos Adenauer IV. n. MORAN. 2013. GIL. FARIA.pdf>. 78-90.eca. V. Miniaurélio Século XXI Escolar: o minidicionário da língua portuguesa. M. SOUZA. 2014.edu.senac. mai.dmg>. M.usp. São Paulo. A. p. Rio de Janeiro. Tecnologia e Games. Disponível em: <http://portal. de. 4.br%2Findex.n. LEFFA. n. 2.html>. Pesquisa em linguística Aplicada: temas e métodos. ed.1. O que é o ProInfo? Disponível em: <http://portal.mec. In: LEFFA.. Disponível em: <http://portal. Ser Professor. Disponível em: <http://www.). p. 2010. 1994. Perspectivas (virtuais) para a educação.gov. São Paulo: Atlas. GOMES. A. O professor e as novas tecnologias. 2007. Olhar do educador e novas tecnologias. A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. S. 2011. Disponível em: < http://www. J. FERREIRA.br/index. (Org.com/tecnologia/noticia/2013/10/brasil-possui-4-maior-populacao-de-nativosdigitais-do-mundo-diz-onu. A redefinição do papel da escola e do professor na sociedade atual. v. Brasil possui a 4ª maior população de ‘nativos digitais’ do mundo. Acesso em: 15 jul.gov. Disponível em: < http://www. 2004.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=2&ved=0CDgQFj AB&url=http%3A%2F%2Fwww.br/dmdocuments/perguntas_frequentes_proinfo1./dez. 11-36. v. 3.d. n. Educ.pdf>. ______.essentiaeditora. Téc. Campos dos Goytacazes.).globo. 31-45. v. T. 2007. G1 Online. RJ.br/index. J. ed. PORTAL DO MEC. H. P. Campinas: Papirus.mec.br/moran/futuro. Acesso em: 12 ago. Acesso em: 18 jul. A. 37.gov. 2001. J. Disponível em: <http://g1.php%2Fvertices%2Farti cle%2Fdownload%2F781%2F616&ei=OQbwUZ-4LZW4AO_7YGACQ&usg=AFQjCNH6dXctqSexe0-pGfHjPnFvJcNmA&bvm=bv. Somma. Prof. Acesso em: 08 out. Teresina /PI. Mundo Virtual. (Org. B. J. D. C. diz ONU. p.google. J.   DEMO.br/BTS/372/artigo2. Senac: a R.com. 2014. Porto Alegre: Artes Médicas. PAPERT.php?option=com_content&id=138:e-proinfo>. In: ENRICONE. 165-175. Acesso em: 11 ago../dez. Acesso em: 11 ago. 2014. set. A máquina das crianças: repensando a escola na era da informática. p. B. p. S.1. 4. 2006. Rio de Janeiro. rev./ago. Vértices.mec. ______. 3. E.php?option=com_content&view=article&id=12840:o-que-eo-proinfo-&catid=349&Itemid=230>. H. ampliada. O. 6. 2004. 2014. ed. ed. FERREIRA. 2013. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 08 out.49641647. Perguntas Frequentes. Como elaborar projetos de pesquisa. V.

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because if they continue using methodologies that do not help students to be really critical. Education. jul. preconceitos e discriminações contra o negro dentro e fora da escola. Palavras-chaves: Neutralidade. just helping in the production and reproduction of racism. Identidade Cultural. através de analises bibliográficas compreender como a postura tida como neutra de muitas escolas e de grande parte dos seus profissionais. through bibliographic analysis to understand how the neutral stance taken as many schools and much of its professionals. bem como trazer para discussão meios relevantes com relação a atitudes que nossas escolas e seus docentes devem ter de acordo com as realidades dos seus alunos. pois caso continuem utilizando metodologias que não ajudam seus alunos a serem realmente críticos. 2015 91 . well as bring relevant media discussion regarding attitudes that our schools and their teachers should have according to the realities of their students. acabará ajudando a produzir e reproduzir mecanismos que deixam a margem grupos. e identidades culturais tidas cotidianamente como ruins. Somma. um ser desvalorizado dentro da sala de aula.1.n. Cultural Identity.1. Mestre em Ciências Sociais pela Universidade de São Carlos. ultimately helping to produce and reproduce mechanisms that leave the bank groups.                                                                                                                         * Graduando do Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia – Bloco IX – UESPI Campus de Floriano. So the reflections contained herein show that our education should immediately revise their concepts and practices./dez. Educação. ABSTRAT The current study aims. Teresina /PI. Negro. Os resultados da pesquisa mostram que nossa educação ainda insiste em ocultar e camuflar atos que fazem do negro. The results shows that our education still insists hide and camouflage acts that make black be devalued in the classroom. acaba ajudando na produção e reprodução de racismos. ** Docente da Universidade Estadual do Piauí.EDUCAÇÃO NEUTRA: práticas cotidianas podem ajudar na permanência e reprodução de discriminações contra o negro?   Leandro Pereira de Sousa Macêdo* Orientador: Prof. MSc. 91-103. como também a não intervenção do professor nestes momentos acabam reforçando os pensamentos da classe dominante que preferem uma escola homogênea e não uma educação que priorize a diversidade. Negro. Key words: Neutrality. cultures and identities taken daily as bad. as well as non-intervention teacher these moments just reinforcing the thoughts of the ruling class who prefer a homogeneous school and not an education that prioritizes diversity. Robison Raimundo Silva Pereira** RESUMO O vigente trabalho tem como objetivo. v. p. prejudice and discrimination against black inside and outside the school. Portanto as reflexões aqui contidas mostram que nossa educação deve imediatamente rever seus conceitos e práticas.

porque muitos docentes acabam se utilizando da postura neutra que acaba ajudando na permanência de preconceitos contra negros e negras e afetando a formação da sua identidade cultural? Nossa pesquisa se justifica por vários contextos analisados e que mostram que a não intervenção da escola e do professor. A mesma possui enfoque bibliográfico. E é desse posicionamento dos profissionais da educação que preferem não comentar ou não intervir que surge a ideia de ser neutro. O que queremos dizer tem haver com a ideia de neutralidade existente em muitas escolas. o papel da escola. e utilizada por vários professores que fazem com que esses acontecimentos fiquem ocultados e por isso acabam cristalizando-se entre as pessoas. pois com uma intervenção adequada pode ajudar a combater a exclusão que ocorre na sociedade e nas instituições de ensino. Nossa problemática gira em torno da seguinte pergunta: Já que a escola é um local que deve prevalecer a valorização às diversidades dos alunos nela existentes. Nesse sentido.   1 INTRODUÇÃO Há muito tempo a educação brasileira vem sendo utilizada para produzir e reproduzir mecanismos de desvalorização da identidade e cultura dos afro-brasileiros. E essa neutralidade geralmente é a ferramenta encontrada pelos docentes que não percebem ou então optam por não intervir nas práticas racistas dos seus alunos e consequentemente isso afeta o desempenho do seu alunado./dez.1. deve ser de ajudar os alunos que sofrem tais insultos discriminatórios. jul. isto é. Teresina /PI. ou seja. v. p. A escola deve tomar posição imediatamente quando se fala de práticas de preconceitos. e quando adultos se torna algo rotineiro e natural aos olhos de muitos. preconceitos e discriminações contra o negro.n. pois isso é brincadeira comum entre eles. pois não está “defendendo ninguém”. 91-103. e de reverter tal quadro vigente na escola. Muitas vezes ocorre o fato do docente se utilizar da ideia de que é normal quando a discriminação ocorre entre crianças e jovens. 2015   92   . o negro. sobre tudo para os que sofrem tais ofensas. e estes mesmos fatos acabam sendo deixados de lado como se nada houvesse acontecido. a sua “neutralidade” acaba corroborando na produção e reprodução de estereótipos contra os afro-brasileiros.1. juntamente com seus profissionais. Consequentemente a isso. como também devem estar atentos a essas práticas que na maioria das vezes são utilizadas contra pessoas de cor deferente do padrão social. nosso objetivo é compreender como a neutralidade dentro da escola acaba ajudando nas práticas de preconceitos e descriminações contra o negro. no sentido de que na escola ocorre atos de racismos. Mas sabemos que atitudes como estas afetam de forma profunda e negativa o negro. Somma.

p. reprovação.   Ser neutro nesse sentido está totalmente carregado de um pensamento de dominação que preferem valorizar as pessoas de tom de pele clara. com negros e negras. v. dignidade. 18). com sua história de lutas em prol da liberdade. Neste ponto. que não perguntam e nem fazem questionamentos./dez.n. 2015   93   . podemos perceber que a postura do professor apesar de ser “neutra”. pois alunos bons são alunos quietos. Fingir que alguém não existe nada tem de imparcial.1. É um absurdo sabermos que em pleno século XXI nossa educação ainda insista em ser homogênea. consequentemente teremos pessoas que não possuem identidades próprias e acabarão assimilando para si. Mas não está apenas aí o problema. igualdade. Heranças essas que tem muito haver com os afro-brasileiros. pois com essa atitude o educador acaba ocultando e minimizando os atos discriminatórios que muitos negros sofrem diariamente dentro da sala de aula e que muitas vezes podem refletir nos autos índices de evasão escolar. com isso fazem da nossa educação um meio centralizador de conhecimento que valoriza saberes e heranças de um povo e desvaloriza e apagar os demais. entre outros fatores. sobre tudo depois que a televisão se implantou em todo país. identidades e características “melhores” (geralmente pertencentes aos brancos). no sentido de querer seguir uma determinada linha de pensamento ou de valorizar padrões tidos como perfeitos. cria hábitos de dependência e passividade. O sistema educacional brasileiro. repetência entre outros exemplos no contexto educacional.1. e ignorar costuma ser a melhor forma de fazer valer os padrões de comportamento considerados “bons”. está carregada de pensamentos baseados nos das elites dominantes. É uma tentativa de eliminá-lo. Por mais insignificante que seja a influência da escola. com seus padrões impostos de fora. pois quando se prioriza trabalhar dentro da escola com práticas que não condizem com seus alunos. A Somma. de culturas. p. ela. jul. 91-103. E o professor muitas vezes se utiliza desse mecanismo para ter alunos passivos e estáticos na sala de aula. “normais”. “corretos”. 2005. criou estruturas centralizadas que não atendem nem à realidade nacional nem às peculiaridades regionais. Continuar nesse modelo de ensino acaba prejudicando nossa educação de forma geral. O silêncio de educadores diante do incômodo causado por um estudante que age de forma distinta da maioria não é uma atitude neutra. isto é. O silêncio e a tentativa de ignorar o diferente são ações que denotam cumplicidade com valores e padrões de comportamento hegemônicos (MISKOLCI. como todo sistema nascido no seio de uma sociedade dependente e colonial. Teresina /PI. quando não se busca trabalhar com as diversas culturas e identidades da sua clientela. características que não as pertencem e também rejeitar suas heranças próprias.

p. 91-103. 2015   94   . na nossa contemporaneidade ainda é muito aplicado. por isso a implementação do ensino vindo de fora (europeu) foi aplicado no Brasil demasiadamente. no sentido de mostrar a ele a verdadeira realidade social e cultural que os menos favorecidos se encontram.1. 1992. 2 EDUCAÇÃO CONTRA EDUCAÇÃO Enquanto docentes. ou também de poder mantê-lo na ilusão de democracia racial. Podemos perceber que esse pensamento centralizador e padronizado que nossa educação possui. e sim porque muitos na sociedade vigente não aceitam escolas e professores que durante o dia a dia escolar preferem o ensino cimentado e padronizado enquanto nossos alunos anseiam por práticas que os façam se sentir importantes e ativos na sociedade. jul. assim. que mesmo com suas lutas diárias possuem muitas dificuldades e barreiras para serem realmente valorizados. Esse modelo de ensino que ocorreu há séculos atrás. E consequentemente acabam prejudicando os povos que geralmente se encontram à margem da sociedade como é o caso muitas vezes dos afro-brasileiros. onde negros e brancos vivem de forma harmoniosa e igual. no sentido que Somma. culturas e identidades que muitas vezes não possui nenhuma semelhança com sua escola e alunado.n. devemos estar sempre atentos com nossas práticas e posturas no ambiente escolar. v. já que durante esse período os saberes e culturas que os povos que aqui existiam não eram tidos como ideais. Mas o que podemos perceber durante nossos estudos é que muitos educadores preferem se utilizar de metodologias ultrapassadas onde se priorizam histórias.1. 86). A postura neutra que muitas escolas e professores se utilizam acaba velando o enorme abismo existente na educação brasileira que separam negros e brancos./dez. está fortemente relacionado com nossa época colonial. O professor possui a capacidade de ajudar o aluno a emancipar-se. Teresina /PI. não que eles não sejam relevantes. Mas mesmo assim não podemos estar apenas estudando fatos que ficaram e marcaram nossa história.   educação. pode dar uma grande contribuição à subserviência (GADOTTI. Ensino esse que acaba ocultando as diversas e múltiplas culturas aqui existentes devido às várias matrizes étnicas que aqui existiram e ainda existe. pois é nesse local que deve ocorrer o rompimento com vários preconceitos e estereótipos que ajudaram nossos alunos durante seu percurso educacional como também fora da escola. p.

resultando em rejeição e negação dos seus valores culturais e em preferência pela estética e valores culturais dos grupos sociais valorizados nas representações (SILVA. p. 91-103. E contextualizando o pensamento de Bourdieu (2005. através de estereótipos. p. e que certamente os desvalorizarão mais ainda.1. bem como a inferiorizarão dos seus atributos adscritivos. Conhecimentos estes que são práticas relacionadas às múltiplas diversidades que nossos alunos possuem e por isso devemos ter como objetivo valorizar os diferentes. descriminações e racismos sejam normais no nosso dia a dia. Teresina /PI. onde não se ver em nenhum momento reconhecido e valorizado. ele apenas se tornará um ser manipulado pela ideologia dominante. certamente acabarão reproduzindo e ao mesmo tempo velando atos que fazem o negro ser inferior ao branco. 2005. p. desenvolver comportamentos de auto-rejeição. Isto significa que nossos profissionais da educação devem procurar novos conhecimentos. fazendo-as assim ser vistas como naturais’. a escola apesar de não se reconhecer assim. e informações passadas. A citação acima exposta enfatiza mais ainda que pessoas e povos que não se sentem respeitados e são inferiorizados. como também dentro da escola.1. fazendo com que preconceitos. E o Somma. Neste sentido a escola deve se emancipar do pensamento centralizador e eurocêntrico e buscar novos caminhos em prol das inúmeras diversidades existentes no seu interior. 2015   95   .22). 46) para nossa discursão ele nos diz: ‘Os dominados aplicam categorias construídas do ponto de vista dos dominantes às relações de dominação. estes estão bem mais familiarizados e acostumados com este tipo de ensino. pois os conteúdos utilizados. ou seja. Os docentes que não estão atentos a estas questões até agora levantadas.   o negro dentro da sala de aula se sente como um corpo estranho. Por consequência essa naturalização acaba fazendo com que os oprimidos percam força e não reflitam sobre as condições de vida pelo qual estão passando. A invisibilidade e o recalque dos valores históricos e culturais de um povo. enquanto o branco esta situado do outro lado da via.n./dez. v. conduz esse povo. Ou seja. Percebe-se que como resultados dessa padronização na nossa educação as pessoas que não se sentem valorizados acabam tomando para si características de culturas que não as pertencem e consequentemente a isso acabam desprezando e rejeitando as culturas tidas como ruins e negativas que erroneamente são relacionadas ao negro. acabam muitas vezes tomando partido para outras culturas e identidades que não os pertencem. na verdade prioriza e se baseia no seu alunado branco enquanto o aluno negro acaba sendo um que geralmente não possui cultura e identidade e que por isso deve ser esquecido. na maioria das vezes. jul.

bem como a imagem e a concepção que o aluno tem do professor também irá interferir na ação de ambos (PEREIRA. jul. esses povos devem ser respeitados e reconhecidos urgentemente no âmbito escolar. mas também. p. 91-103. Concernente teremos pessoas que se auto reconhecem com relação a sua identidade e a partir disso saberão valorizar as demais identidades que todos nós possuímos. nas instituições de ensino ainda prevalecem às desigualdades com relação a dominantes e dominados. por outro lado é nessas instituições que deve ocorrer as mudanças a essas mesmas desigualdades. excludente. pois com nossos professores atentos a valorização das raízes africanas que nós brasileiros possuímos. seu jeito de pensar. Teresina /PI. isto é. Isto é.1. pois estas mesmas podem interferir no aprendizado dos seus discentes. agir e sentir repercutirá no comportamento dos alunos. mas. 3). principalmente para os alunos que ao invés de construírem e elevarem seu senso crítico acabam tornando-se pessoas passivas e com a ilusão de que não existem discriminações contra o negro.n. É fato que o modo de ser do professor. 2015   96   . p. consequentemente acabará fazendo dos seus alunos pessoas altamente preconceituosas e que não respeitam as identidades culturais que os demais alunos possuem. A educação brasileira continuando neste percurso segregacionista e que oculta às discriminações que o negro sofre dentro da escola.   negro não foge a regra.1. v. Como salienta Pereira e Saraiva. precisamos rever nossos conceitos com relação à educação e fazer com que ela assuma seu verdadeiro papel que é de formar pessoas que respeitem as diversidades étnico-culturais que os educandos possuem. desvelar racismos e estigmas que são demasiadamente praticados em nossas escolas. E o professor por fazer parte da escola não pode fechar os olhos para tais discursões. é um espaço para os questionamentos e transformadores. A escola ainda é o espaço das reproduções ideológicas da classe dominante. É evidente que postura neutra que a escola insiste em utilizar é prejudicial para todos que fazem parte da mesma. E como nos diz os autores a seguir: Somma. certamente daremos um passo importante em busca de uma educação que realmente trabalhe com as identidades culturais do seu alunado. onde as mesmas preferem camuflar e escondê-los. 2013. SARAIVA./dez. pois pelo mesmo ser um dos principais alvos de racismos e preconceitos dentro e fora da escola. segregadora e desigual.

que podem absorver para si estas práticas e apenas reproduzir aquilo que aprenderam dentro da escola e na sociedade. é fragmentado. Nossos docentes tem papel fundamental para rompermos com a ilusão de que não existem conflitos dentro da escola. FEITOSA. Por isso não basta apenas à leitura e palavras bonitas contra o preconceito ou racismo é preciso que tenhamos atitudes. A importância do professor na formação do seu aluno é de fundamental importância. pois com metodologias que atendam aos anseios dos discentes. juntos. Compartilhando do pensamento dos autores. certamente irá romper com os padrões dominantes vigentes nas nossas escolas e com a neutralidade. 96). Teresina /PI. podemos perceber que a educação está intimamente relacionada com seus alunos. nossa educação evoluirá Somma. 91-103. normalmente. p. fruto de sua socialização na formação social capitalista. práticas diárias. religião. Isto é.1.n. p. ou então não existem discriminações. estetiotipado. nosso ensino educacional ao se comprometer em buscar valorizar as diferentes raízes culturais que seu alunado possui.   A educação/identidade quando bem trabalhada. Nesse contexto o papel do professor é imprescindível para que nossas salas de aulas se tornem um local de conflito e discussões sobre esta temática que ainda é muito esquecida. político e cultural. mas para que estas cheguem a nossas escolas é necessário que o professor se dedique no campo da pesquisa para sempre buscar novos conhecimentos e através disso possa desconstruir pensamentos e práticas errôneas que ele mesmo pode estar utilizando.7). O saber do aluno. É a partir dessa tarefa diretiva que ele e o aluno. Portanto. tidas como negativas e inaceitáveis. como também ajudar seus alunos a não praticar atos segregacionistas contras seus colegas de turma ou escola. É inegável a relevância das ideias até agora expostas. É apenas dessa forma que eles podem romper com o velho e construir o novo (GADOTTI. Quer-se dizer que o professor deve eximir-se de mecanismos que corroboram com a desvalorização no negro e suas heranças culturais. etc. 2006. O professor precisa reordenar esse saber e o seu próprio. ou seja. social. p. v. jul. sexo. pois caso ele utilize essa conduta estará ajudando na permanência de preconceitos e racismos na escola contra seus alunos. em outras palavras o professor não pode ser neutro. caótico. com certeza deve imunizar o ser social contra esse processo alienante e o conduzirá para o caminho do respeito mútuo e valorização de todos. elucidando-o. ganharam consciência da qualidade de seu conhecimento e de como ele é produzido. o profissional da educação tem que tomar partido da situação e não ficar quieto ou calado. 2015   97   .1./dez. a escola possui bastante influência na formação destes no âmbito escolar. para que possamos ter um futuro digno e ideal para todos independente de cor. (MACÊDO. tornando-o coerente.

para não se posicionar. v. jul. isto é. A seu modo eles exercem sua dimensão social. 15). Estão comprometidos com ele. tomando partido. E por tanto a sala de aula deve tornar-se um local revolucionário./dez. é ato. devido à falta de conhecimento ou de atitude que muitos professores possuem. é decisão. cumprindo ordens. teremos agora pessoas pensantes e ativas no seu meio e ainda ajudaram a construir pensamentos novos e práticas novas. É verdade que. da dominação. Quer se dizer. Educar-se é tomar posição. isto é. acabam reproduzindo inconscientemente ou não.1. Tal esforço é necessário para que possamos romper de vez com esse paradigma que assola nossa educação há tanto tempo. desumanizandose a si mesmo. p. mas que nem por isso devemos desistir de tal proposito. racismos e preconceitos que se espalham demasiadamente entre nossos educandos rotineiramente.n. p. E sua tomada de partido é um passo muito importante para que nossa Somma. Esse é outro lado da profissionalização “puramente técnica” (mas que não deixa de ser política) que as reformas burocráticas pretendem implantar (GADOTTI. Teresina /PI. toma partido. 2006. Temos repetido ainda que a educação é compromisso. 2015   98   . posicionando-se. toma partido do mais forte.   significativamente. Esses estão assumindo concretamente o partido do poder. fazendo o seu jogo. teremos realmente alunos que podem intervir e contribuir para que enfim possamos romper efetivamente com mecanismos que fazem dos afro-brasileiros inferiores e estigmatizados com relação aos brancos. Muitos intelectuais sempre bateram na tecla de que a educação deve se mostrar no seu mais importante objetivo. sendo a neutralidade impossível. ao invés de termos alunos que não se conhecem e não se acham ativos socialmente. e por consequência disso os alunos serão facilmente manipulados e alienados. isto é. Neste momento devemos começar uma mudança no contexto educacional onde a postura da escola muitas vezes é tida como neutra. mas que devido ao nosso processo histórico acabou se prendendo a nossa sociedade de forma equivocada. que é de ajudar a construir pessoas reflexivas e atentas na sociedade. Mas existem ainda entre nós educadores que preferem esconder-se atrás da pseudociência ou burocracia. também aquele que não toma partido. não intervêm nas práticas discriminatórias que ocorriam dentro da mesma. Como reflexo desta postura desafiadora que os profissionais nas escolas devem utilizar. que para o educador é necessário que o mesmo rompa com a padronização e se mostre verdadeiramente compromissado em tornar nossa sociedade mais justa e menos desigual. que nunca deveria ter perdido este princípio. isto é. tomar partido. Já com as necessidades que hodiernamente nossos educandos exigem devido suas diferenças. 91-103. os docentes devem buscar se aperfeiçoar para que possam trabalhar da melhor maneira possível com o seu público estudantil.1. que fazem parte da classe dominante. E o educador educa educando-se.

97). um deixa de valorizar o outro e com isso acabam se afastando e não se respeitando. O que queremos afirmar aqui é que nosso ensino deve transformar-se. nos seus vários âmbitos sociais. nossos alunos poderão se sentir mais importantes e valorizados. Será apenas a partir de conteúdos verdadeiros que poderemos construir métodos verdadeiros. E para reforçar nossa linha de pensamento Gadotti nos diz: É esse o trabalho essencial do pedagogo revolucionário: não é se ocultar./dez.   educação saia da situação que se encontra atualmente. culturais.n. ela é vista com maus olhos e por isso a discriminam e reprimem. religiosos.1. e quando surge um pequeno esboço para apresentá-la. se tomamos a experiência e os interesses das grandes massas como conteúdos primeiros do ensino. porque agora não se terá mais conteúdos que a maioria dos seus alunos desconhecem e nunca viram. ficar “neutro” em meio à “doença da opinionite”. vindo de cima para baixo. Teresina /PI. mas sim vindo de baixo para cima. A citação acima reitera cada vez mais o papel da escola e sobre tudo do professor no âmbito escolar. jul. 2015   99   . dependendo Somma. para que enfim possamos ter uma verdadeira igualdade. acabam repelindo os mesmos de suas características históricas que não são vistas nas salas de aulas. pois é ele que irá ajudar seu aluno de forma positiva ou negativa. como também a importância dos mesmos.1. 91-103. temos. vindo a partir do que os menos favorecidos conhecem e necessitam. se modificar no sentido de que nossos conteúdos devem não mais vir de forma hierarquizada. Podemos assim perceber que a educação quando bem utilizada pode e deve ajudar as pessoas a se emanciparem de atos que prejudicam a todos. v. Aplicando esse modelo mais justo e democrático. fiquem esquecidas. (GADOTTI. uma chance de não estarmos no caminho errado. Não existindo critérios absolutos que nos possam indicar uma direção segura. Neste contexto a falta de assimilação do negro com sua cultura e identidade devido à negação sociocultural que nossas escolas produzem e reproduzem. e sim contextos que os façam compreender verdadeiramente a relevância da escola. ou seja. p. E por consequência desse processo histórico ambos se separam. pelo menos. ou seja. p. 2006. enquanto outros padrões tidos como melhores são aplicados constantemente no cotidiano escolar. fazendo assim com que uma grande parte das nossas heranças que adquirimos dos africanos. que é de tornar uma parte seus alunos submissos e a outra parte dominante. econômicos e etc. no sentido de que quando um negro sofre discriminação ele mesmo se sente o culpado e impotente e o discriminador se sente no direito de ofendê-lo da maneira como quiser. isto é.

Caso ele busque trabalhar de acordo com os anseios dos menos favorecidos.1. porque só assim poderemos dar voz e vez para aqueles que são importantes no nosso país. poderíamos dizer que queremos uma “educação enegrecida”. jul. A educação que buscamos agora não deve estar mais escondida. e o negro não foge a regra disso. sejam valorizados.n. para deixar de pensar pela cabeça dos outros que nos têm explorado e oprimido. Isto é. 2015   100   . queremos que os menos privilegiados./dez. Teresina /PI. poderá estar dando uma contribuição imprescindível para os mesmos. somente queremos que todos sejam valorizados de acordo com cada herança cultural adquirida dos seus ancestrais.1. E ao mesmo tempo em que queremos que este seja o momento do negro. Atitudes diárias no intuito de tornar nossa sociedade mais justa e igual são atos que nos fazem ver a realidade como ela é nua e crua. p. dedicação e conhecimento. nossa libertação. Em outras palavras muito utilizadas entre autores que estudam as relações étnicoraciais. A consciência negra exige esforço para se desalienar. E de acordo com Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva.46). ocultada ou então neutra. e buscarmos a união através do conflito no intuito de desvelar e desmistificar preconceitos e racismos que ocorrem em vários locais. 91-103. percebemos suas desigualdades que estão arraigadas entre boa parte de nós e que ocultamente vai se perpetuando de gerações em gerações e assolando cada vez mais nosso país. Podemos salientar também que o enegrecimento da educação pode e dever ter reflexos na própria atitude do negro com relação a suas práticas diárias. inclusive na escola. ela está agora se mostrando como ela deve ser. tendo por base a nossa história em seus diferentes contextos no continente africano e na diáspora. isto é. não queremos que ocorra racismos e preconceitos inversos (negro superior ao branco). p. mas que infelizmente continuam esquecidos.   dos seus níveis de instrução. que são os descendentes dos africanos. Exige esforço para construir. v. Somma. que é de formar pessoas pensantes e capazes de ajudar positivamente a todos. certamente teremos uma sociedade mais justa e melhor. (SILVA. Nesse contexto o papel da escola é fundamental para fazer com que seu alunado perceba as desigualdades e segregações que ocorrem no seu dia a dia. 2005. e a escola se empenhando para ajudá-lo. pois ele se reconhecendo como negro. Só assim poderemos diminuir as disparidades que acontecem dentro da escola quando falamos em educação para o negro e educação para o branco. Mas possuído a consciência negra poderemos romper com esse padrão de segregação e construirmos outro sem afastamento entre as diferentes pessoas.

 

A educação significa consciência de direitos, consciência da exploração,
significa cultura, e os regimes obscurantistas temem a cultura, têm pavor da
consciência, têm pavor de que seus interesses sejam do conhecimento
público. Por tudo isso eles fazem campanha contra a educação. (GADOTTI,
2006, p.137).

Isto é, a educação não deveria servir para privilegiar uma minoria e esquecer a
grande maioria. A escola significa reflexão e atitude, e isso tudo no intuito de melhorar nossa
sociedade e consequentemente ela própria.
E como já mencionamos anteriormente a educação deve ajudar quem mais necessita
dela, ou seja, o negro e outros grupos estigmatizados (mulheres, homossexuais, deficientes
físicos, e etc.), porque desta forma, os mesmos possuindo uma educação de qualidade e que
saiba trabalhar com as diversidades com o intuito de valorizar os desvalorizados certamente
abriremos o espaço para o conflito e discursões sobre o modo como nossa sociedade e escola
se encontram contemporaneamente.

3 CONCLUSÃO
Portanto podemos perceber que nas nossas escolas devido há ranços históricos, ainda
prevalecem o ensino padronizado e centrado de acordo com que a classe dominante pensa e
deseja. E esse modelo acaba deixando de lado as demais culturas e identidades que os alunos
possuem e isso não pode ser esquecido jamais. Em outras palavras a escola está discriminando
os grupos menos valorizados que geralmente o negro pertence.
E o professor é um dos responsáveis por essas desigualdades dentro das nossas
instituições de ensino, pois o mesmo não busca se aperfeiçoar para saber trabalhar com as
diversidades que irá encontrar dentro da sala de aula, ele acaba colaborando com racismos e
preconceitos contra alunos e alunas negras. E caso ele não possua conhecimento sobre tais
assuntos, ele poderá ajudar para que essas discriminações se cristalizem cada vez mais na
escola e consequentemente fora dela.

Necessitamos de professores com práticas e

pensamentos voltados para o público que mais necessita e assim poderemos melhorar nossa
educação.
É claro que não é somente o professor o culpado por termos uma educação que
segrega os alunos negros, sabemos que isso também tem haver com outros fatores que
envolvem a esfera politica, social, econômica, escolar entre outros. Mas nem por isso a função

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do professor deixa de ser importante e por isso mesmo ele deve buscar se emancipar de
práticas que preferem desvalorizar culturas e pessoas que são tidas como ruins.
O que buscamos aqui é que todos os docentes que fazem parte da escola estejam
atentos e preparados para trabalhar com as diversidades culturais e sociais dentro da sala de
aula e que através disso busquem meios para que seu alunado possa compreender as
diferenças entre os mesmos, e com isso se reconhecer identitariamente, além de compreender
e respeitar as demais identidades culturais que os outros alunos possuem.
Nossa educação com este fim, de tornar o seu aluno ativo na escola e sociedade irá
torná-lo crítico e consciente do seu papel para ajudar e melhorar nosso cotidiano. E para que o
discente tenha essa consciência é necessário que ele compreenda o que ocorre na escola com
relação a racismos e preconceitos e discriminações.
Nesse contexto a escola deve tomar partido imediatamente, pois sua postura tida
como neutra, acaba apoiando uma ideologia que busca reforçar as desigualdades entre negro e
brancos, com a intensão de esconder e camuflar tais desigualdades que tornam nossa
educação harmônica, no sentido de que seus alunos pensem que não ocorre nenhum tipo de
discriminação dentro da mesma. E por reflexo disso teremos alunos não critico e que acabam
produzindo e reproduzindo atos racistas dentro e fora da escola.
E para que possamos reverter esse quadro são necessárias atitudes práticas e diárias
no intuito de construirmos uma educação voltada para seus alunos que historicamente são
desprezados e assim contribuir para que nosso país possa ser de todos e não somente de uma
pequena parte da população.

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REFLEXOS SOCIOLÓGICOS DO CONSUMO SIMBÓLICO DA
INFORMAÇÃO MIDIÁTICA  
Maria dos Remédios de Sousa Bezerra

RESUMO
O presente artigo consiste em uma metodologia de abordagem teórica atinente aos reflexos
sociológicos do consumo simbólico da informação midiática radiofônica. Nessa intenção,
constrói-se um estudo miscigenado referente às perspectivas sociológicas e comunicacionais
relacionadas a uma das principais atividades humanas em sociedade, o consumo. Sendo
assim, constatou-se que desde a Pré-história, o homem tem suas relações moldadas pelos atos
de consumo material, e hoje, na atual contemporaneidade os indivíduos são distinguidos e/ou
caracterizados por meio do consumo simbólico, principalmente no que tange as apropriações
da informação midiática.
Palavras-chave: Consumo. Consumo simbólico. Informação midiática.

ABSTRAT
This article consists of a methodology regards theoretical approach to sociological reflections
of symbolic consumption of the radio media information. This intention, construct an
interbred study relating to sociological and communicative perspectives on some of the major
human activities in society, consumption. Thus, it was found that since pre-history, man has
shaped their relations by acts of material consumption, and today, in the current contemporary
individuals are distinguished and / or characterized by means of symbolic consumption,
especially regarding the appropriations of media information.
Keywords: Consumption. Symbolic consumption. Radio media.

                                                                                                                       
Formada em Comunicação Social habilitação em Jornalismo e Relações Públicas pela Universidade Estadual do
Piauí, Campus Professor Barros Araújo, Picos-PI. E-mail: maria_comunicologa@hotmail.com

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1. 1995).n. os indivíduos que exercem esse fenômeno eminentemente social e o significado do ato de consumir para os seres humanos. o presente artigo analisa o lugar dessa prática. Nesse sentido. tal ação é tratada como uma atividade social por ser um ato dependente da iniciativa dos homens organizados em sociedade. 2008). apresentar o consumo simbólico da informação midiática como modalidade de consumo contemporâneo e elucidar a relevância do estudo do consumo para a compreensão dos atos e relações humanas. 2015   105   . Para tanto. por meio dos seguintes objetivos específicos: apresentar um breve histórico do consumo nas relações humanas./dez. Jean Baudrillard (1995) e Zygmunt Bauman (2008) construiu-se um tópico referente aos “Reflexos sociológicos sobre a abordagem social do consumo”. v. Nesse aspecto. Ao estudar a temática do consumo. onde destaca-se que os indivíduos exercem essa prática do consumo desde os primórdios da existência humana.1. Somma. Em tempos de contemporaneidade. em paradoxo ao consumo que integra os indivíduos como cidadãos críticos e conscientes (CANCLINI. 1996). o consumismo se desenvolveu como uma das culturas marcantes na atualidade.   1 INTRODUÇÃO A sociedade e o consumo estão relacionados por serem resultados das intenções humanas que regem o espaço geográfico. Teresina /PI. as apropriações também ocorrem a partir da interação e utilidade dos acontecimentos divulgados para os indivíduos cotidianamente (FIDALGO. busca-se também. econômico e cultural das populações. tem-se o objetivo geral de construir uma abordagem teórica atinente aos reflexos sociológicos do consumo simbólico da informação midiática radiofônica. ocasionado a partir do significado que as informações/notícias oferecidas para consumo nos meios de comunicação social representam para os consumidores. p. o consumo passou a ser estudado e pesquisado como ação racional libertadora do pensamento humano que se opõe às apropriações alienantes do consumismo (SANTOR. 104-120. Mais adiante este estudo trata do também “Consumo da informação numa perspectiva simbólica”. Nesse sentido. cotidianamente (BAUDRILLARD. jul. Sendo assim. elenca-se que este estudo baseia-se na seguinte questão norteadora: Quais os reflexos sociológicos existentes acerca da temática do consumo simbólico da informação midiática? Baseado nos estudos de Néstor García Canclini (2008). os indivíduos exercem a prática do consumo para viverem integrados com as produções ocasionadas pelos próprios seres humanos. Nesse tipo de consumo. Tido como ação irrefletida. 2008).

p.quanto nas atuais – websites. então. Bauman (2008.1. considera-se o consumo como cultura inerente a todos os indivíduos abrangendo os valores ideológicos da sociedade.e selecionar. um elemento inesperável de sobrevivência biológica que nós humanos compartilhamos com todos os outros organismos vivos. o ato de consumir passou a ser estigmatizado como “algo que se desgasta no desenvolvimento de seu próprio mecanismo fenomenológico” (SANTOR. rádio.   Atualmente há um excesso de informação divulgada tanto nas mídias tradicionais – televisão.1. 1). conhecimento e informação (BAUMAN. transforma e solidifica a identidade dos consumidores de mercadoria. Logo./dez. 2015   106   . jornal impresso .] O fenômeno do consumo tem raízes tão antigas quanto os seres vivos . 104-120. o que. 37) considera o consumo como: Uma condição. passou a ocorrer a acumulação e o apego intrínseco aos bens de consumo indispensáveis para a sobrevivência humana. 2007). e um aspecto permanente e irremovível. webtv e webradio . Em paradoxo as formas de consumo do período neolítico.n. p. Foi a partir da Pré – História. Ramos (2008) relata que os indivíduos da era paleolítica exerciam essa atividade sem apego a acumulação dos produtos que eram consumidos de forma imediata. sem limites temporais ou históricos. e onde consumi-las é uma tarefa que exige criticidade e percepção dos consumidores que almejam informações imediatamente úteis à realidade vigente (MEDISTCH. Teresina /PI. os homens realizavam permutas com os ‘bens e produtos’ estabelecendo uma dinamicidade à atividade do consumo. no paleolítico. especificamente no período da Revolução Neolítica. p. [. 2008). pois relacionaram a atividade do consumo como apenas uma necessidade. 2008.   Nessa implicação.e com toda certeza é parte permanente e integral de todas as formas de vida Somma. v. Vale ressaltar também que o ato de consumir molda. jul. 2 REFERENCIAL TEÓRICO 2. a modalidade do consumo ganhou representatividade no cotidiano dos homens a partir do surgimento da moeda... No período neolítico. Segundo o autor.1 Teoria: Reflexos sociológicos sobre abordagem social do consumo A abordagem social do consumo remete aos primórdios da existência humana. Perante o contexto primordial dessa prática. Assim. que a prática do consumo passou se desenvolver de forma organizada quando os homens primitivos deixaram o nomadismo e a vida avulsa de caçadores e coletores (BAUDRILLARD. precisamente no seu final. 1995).

59) as apropriações exercidas pelos indivíduos são baseadas na lógica social do consumo fundamentada nos princípios da necessidade. com o desenvolver do espaço geográfico. a sociedade de consumo não é pautada pela presença dos objetos concretos. p. Para o filósofo.. Contudo. Na implicação de Araújo (2010. necessidades e desejos dos indivíduos passaram a englobar uma nova esfera do consumo./dez. Bauman (2008. Sendo um fenômeno exercido por indivíduos com o objetivo de satisfazer necessidades e desejos que vão além da conceituação e satisfação do “banal. Teresina /PI. O consumo permeia o cotidiano dos indivíduos junto às relações humanas caracterizando e/ou identificando a sociedade a partir das apropriações exercidas nas diversas fases da história (CANCLINI. social e tecnológico. hábitos.. De acordo com Mancebo et al. Quanto à definição do consumo. p.1. Para o autor. crítico ferrenho da realidade estruturada no sistema econômico capitalista (RIBEIRO. (2002) Marx afirma que capitalismo estimula um consumo alienante e desenfreado chegando a ser um consumismo de produtos sem utilidade pública e privada no cotidiano das populações. sobre o proletariado que vivia e trabalhava em péssimas condições para enriquecer excepcionalmente a classe dominante.] Qualquer modalidade de consumo considerada típica de um período específico da história humana pode ser apresentada sem muito esforço como uma versão ligeiramente modificada de modalidades anteriores. econômico e cultural que rege essa prática. prosaico e rotineiro” consumo “sem muito planejamento. 2008). 2015   107   .n. 37) considera essa atividade como uma prática remota e eminentemente social. jul. a esfera do consumo conglomerava e representava exclusivamente o poderio econômico da classe rica e capitalista. p. nem reconsiderações” que os leigos conceituam. v. uma das primeiras impressões científicas sobre essa prática foi realizada. no século XIX. mas sim pelos “significantes sociais” que tais produtos representam para relações dos homens no cotidiano. felicidade e igualdade. qual a lógica que rege a atividade do consumo? O que define consumo? Na menção de Baudrillard (1995. pelo o filósofo Karl Heinrich Marx.   conhecidas a partir de narrativas históricas [. Mas afinal. os comportamentos. onde a questão do produzir e consumir vai além da lógica de produção-produto-mercado (CANCLINI. 2008). Diante desses aspectos. 104-120.1. 1) o consumo constitui-se como um dos “processos centrais na dinâmica das sociedades contemporâneas” equivalente ao “ponto de confluência Somma. o consumo estimulado no capitalismo age excluindo as pessoas que se encontram aquém da esfera do desenvolvimento social. No século XVIII. p. 2008).

] novas formas de aproveitamento de tempo e espaço” frente a tudo que nos rodeia. 13) tais transformações nas finalidades de apropriação de produtos e estudo do consumo ocorreram devido à “apreciação de novos valores como: velocidade na obtenção de conhecimentos e [. De acordo com Featherstone (1995) sem o ato reflexivo acerca do exercício do consumo. 62) o consumo é um “espaço de interação. p./dez. o consumo é representado como uma prática livre das atitudes dos indivíduos que buscam se fixar no mundo a partir da interação que essa atividade estabelece com as realidades existentes.n. De acordo com Mancebo et al. No entanto. Deve-se pensar. 1) frisam não saber ao certo se nessa atualidade somos “livres para consumir” ou se “consumimos para sermos livres”. Assim sendo. Para Canclini (2008. v. (2002. uma ação moldável sujeita a transformações sociais que envolvem a subjetividade dos indivíduos frente aos produtos concretos e abstratos oferecidos para consumo (BAUDRILLARD. p. p. essa prática passa a revelar características unidirecionais e generalizadas de uma população. por que realizar tal ação? Qual o objetivo e a importância dessa atividade para o cotidiano de determinado público/população? O real objetivo do consumo é integrar a sociedade com as próprias produções para que produtores e consumidores ajam como cidadãos que pensam e refletem sobre as apropriações realizadas cotidianamente (LYRA. jul. 2001). 2008). 1995). porém a natureza que o constituí é coletiva (CANCLINI. Não basta apenas consumir. 2015   108   . Consumir é então. a ordem político-econômica e o campo midiático”. a cultura. p. à medida que nos apropriamos de um produto e repensamos sobre o poder e o contexto de significação. Para o autor. Na sociedade de consumidores o produtor. 104-120. onde o consumo pode ser praticado e/ou exercido sob perspectiva individual... Somma. o produto e o consumidor fazem parte do mesmo espaço social: o cotidiano. vale elencar que a abordagem social do consumo não se restringe apenas as apropriações concretas de objetos/produtos para representar o status do poder financeiro aliado à classe social que o indivíduo está inserido.1. Na perspectiva de Dejavite (2009.   entre a vida cotidiana. Nesse aspecto. Castro e Mattos (2008.1. 7) o consumo é uma atividade integrativa e coletiva estabelecida pela sociedade e para a sociedade a fim de “obter certa constância ou segurança”. o ato de consumir torna-se uma atividade social relevante. Ao passo que racionalizamos sobre o que consumimos culturalmente é desmistificada a generalização unidirecional das apropriações frente à produção e o consumo de objetos. Teresina /PI. p. no qual produtores e emissores não só devem seduzir os destinatários. mas também justificar-se racionalmente”.

mas essas atividades podem ser diferenciadas da seguinte maneira: O consumismo é um tipo de arranjo social resultante de vontades. Assim sendo. influenciando as identidades humanas (MONTEIRO. 1995). Teresina /PI. por assim dizer. A partir dessas implicações. Canclini (2008. metodológicas e simbólicas que remetem a condutas fora do senso comum.. o consumo se desfaz e refaz a cada instante. a identidade dos indivíduos é influenciada por essa prática devido às populações buscarem a diferenciação social por meio das apropriações exercidas (BAUMAN. Por meio da racionalidade acerca do consumo é possível obter infinitas respostas teóricas. 104-120. 2008). o consumismo é atributo da sociedade. pois os produtos na sociedade de consumo são oferecidos para suprir as necessidades indispensáveis. “neutros quanto ao regime” [. 2011).. a natureza do consumo é Somma. p. a capacidade profundamente individual de querer. 2010. 2015   109   . tal como a capacidade de trabalho na sociedade de produtores. que é basicamente uma característica e uma ocupação dos seres humanos como indivíduos. o consumo torna-se então “[.. Na sociedade onde o sólido se evapora. subjetivas e massivas da população (BAUDRILLARD.   O que se sabe ao certo é que o consumo deve ser pesquisado e referenciado sem analogia as apropriações irracionais do consumismo.] De maneira distinta do consumo./dez. jul. De acordo com Bauman (2008. 12). sem monotonia e repetividade. 59) enfatiza que “o consumo serve para pensar” e como prática dinâmica e insaturável ele necessita se desenvolver por meio de fluxos correntes. em que permite “tornar mais inteligível o mundo”. desejar e almejar dever ser. v. Embora o ato de consumir seja realizado individualmente. essa prática é baseada e/ou destinada à coletividade das apropriações em ‘massa’. desejos e anseios humanos rotineiros. Diferentemente do consumismo. Canclini (2008.n. pois ele representa o poder e o exercício social de cada consumidor na sociedade em geral.1.] central na contemporaneidade por perpassar as práticas sociais” dos indivíduos acerca do que é produzido e consumido (ARAÚJO. p. destacada (“alienada”) dos indivíduos e reciclada/reificada numa força externa que coloca a “sociedade de consumidores” em movimento e a mantém em curso como uma forma específica do convívio humano. p. p. pois essas práticas possuem natureza e sentidos opostos. Sendo um bem de consumo. Assim. p.1. permanentes e. 65) relata que é na interpretação subjetiva das apropriações que a sociedade cria um espaço de diferenciação social. Para que uma sociedade adquira esse atributo. 41-42) o consumismo e o consumo estão envolvidos numa vertente bastante confundida na sociedade. enquanto ao mesmo tempo estabelece parâmetros específicos individuais de vida que são eficazes e manipula as probabilidades escolhas individuais..

1. Teresina /PI. etc. surge como sistema de comunicação e de permuta.. religião e ideologia podem utilizar” e praticar. 32) enfatiza que na era contemporânea. o modo de produção e de circulação dos bens. tornando o consumo um sistema global que molda as relações dos indivíduos na pós-modernidade e é reconfigurada por tecnologias variáveis que determinam os padrões de consumo (SIQUEIRA. jul. p. p. portanto. p.. a sua lógica inviabiliza o aparecimento das contradições sociais e do sentido simbólico. a maneira como se estruturaram as instituições da vida cotidiana (como a família. sujeitos. Assim. os padrões de desigualdade no acesso aos bens materiais e simbólicos. 1).1. 1995.   ao passo que o interesse do produtor deve ser atendido somente na medida em que possa ser necessário promover o interesse do consumidor”. p. o consumo enquanto abordagem social “representa o tipo de sociedade que promove. sociedade e nação “numa colagem de traços que qualquer cidadão de qualquer país. Nossa sociedade-cultura de consumo constantemente cria novos espaços para os consumidores. 2008). o ato de consumir é constituído como cultura representativa das ações humanas. encoraja. Somma. desempenhando o papel de integrar a sociedade numa “linguagem”. mesmo não havendo uma teoria sociocultural que explique essa prática. 78-79). [. v. comunidades. 34): “consumo é o único objetivo e propósito de toda a produção. A partir da implicação de Retondar (2008) é válido citar Smith (1983 apud SERPA 2001. 2015   110   . p.]. 104-120. como um grande sistema de valores./dez. Nesse sentido..n. um exemplo paradigmático desse processo. que socializa os indivíduos na disciplina de um código e na corrida competitiva de estar sempre em conformidade com ele. o consumo permeia todos os atos humanos:   Tudo está relacionado ao consumo como. o consumo revela a relação desejante e interpretativa que inclui os indivíduos. ou reforça. estando para além do terreno ideológico porque também é atuante no inconsciente (SANTOS. Canclini (2008. 2011.. 71) que “surge como sistema que assegura a ordenação dos signos e a interação do grupo: constituindo simultaneamente uma moral [. 131). 2008. Mediante aspectos. A importância que a marca assumiu na sociedade de consumo é. o lazer. os ambientes urbanos. 2005. a escolha de um estilo de vida” através do consumo (BAUMAN.   efêmera e em nenhum momento da história o homem enquanto ser social produziu algo sem finalidade (RETONDAR. p.). p. Seja com intuito mercadológico ou simbólico tudo o que é produzido é consumido por grupos e indivíduos da sociedade: O consumo. povos. Nessa menção. por exemplo.] e um sistema de comunicação” (BAUDRILLARD.

/dez. 2015   111   . Nessa época. 2009). 2004). OLIVEIRA. 2010b). p.1. Devido às novas Tecnologias de Informação e Comunicação-TIC’s ocorreram transformações no cenário comunicacional midiático que modificaram as formas de produzir.n. A partir de então. 104-120.   Tanto a cultura quanto o consumo constituem-se como atividades adquiridas na sociedade sendo tão dinâmicos   quanto os consumidores que o exercem para representar poderio econômico. Perante circunstâncias. (FEATHERSTONE. as formas de consumir o segmento noticioso deixaram de ser praticadas exclusivamente através dos veículos de comunicação e informação tradicionais. consumir é então. rádio e televisão (BORELLI. a dinamicidade e o poder de escolha da informação oferecida para consumo no ciberespaço aliado à internet bem como a convergência midiática e as novas mídias portáteis (BIANCO. Consumir o simbólico é se apropriar dos valores e sentidos implícitos em um produto/objeto representativo a realidade vigente de cada consumidor no cotidiano (TOALDO. necessidade de sobrevivência e etc.2 Teoria: O consumo da informação numa perspectiva simbólica Consumir informação midiática numa perspectiva simbólica implica se apropriar do significado bem como a interação e utilidade do conteúdo noticioso difundido nos meios de comunicação social para ser utilizado no cotidiano como fator de sociabilidade nas relações humanas (FIDALGO. Perante contexto de intensas transformações comunicacionais. 2. onde os indivíduos que exercem o consumo a partir do significado e utilidade das mercadorias ora abstratas ora concretas praticam o chamado consumo simbólico. Teresina /PI. comportamentos e gostos no cotidiano. distinção social. 1997). ou seja. ROCHA. 2009). onde expomos nossa identidade. a sociedade se identificou com a maneira Somma. a população se deparou com a velocidade.1. 1995). políticos e institucionais aos consumidores nas relações cotidianas (STEINBERGER-ELIAS. transmitir e consumir o segmento informativo nas mídias tradicionais (AGNEZ. o consumo simbólico da informação pode render dividendos intelectuais. o ato representativo e significativo para sermos cidadãos. v. jul. De acordo com Baudrillard (1995) a sociedade de consumo está rodeada de objetos e produtos transitórios. econômicos. A atividade do consumo é uma prática que todas as populações possuem em comum que perpassa e permeia os valores ideológicos e as representações de todas as formas de apropriações exercidas pelos indivíduos (BRANDINI. racionalidade. Assim sendo. jornais impressos. 1996). subjetividade. 2007). A apropriação simbólica das informações é estudada com representatividade desde 1960.

6). à medida que os meios de comunicação o divulgam com o propósito de integrar a sociedade. “seja em qualquer tipo de mídia acontece pelo livre interesse do cidadão. [. 2010).1. 2008. 62). onde o mesmo tem a capacidade de selecionar o melhor segmento noticioso que lhe é oferecido” (BEZERRA. Pois consumir “é participar de um cenário de disputas por aquilo que a sociedade produz e pelos modos de usá-lo” (CANCLINI. Teresina /PI. Considerando então. o cenário comunicacional tornou-se mais participativo e à medida que novas mídias foram criadas. 2009. Paralelo a essa situação. Nesse aspecto. 63). Somma. As formas tradicionais do fazer jornalístico estão sendo levadas a se reconfigurar e as empresas de mídia sinalizam que estão revendo suas estratégias (AGNEZ. novas relações de consumo frente às possibilidades e formas de se apropriar das informações foram criadas pelos consumidores.   interativa e bilateral de se apropriar do conteúdo noticioso.1. 3).. p. jul. 104-120. numa perspectiva simbólica (CUNHA. 2008..n. No consumo de informação. 2009. o conteúdo noticioso e as formas de difundi-lo foram ampliados. além do mais a relação do consumidor com o consumo noticioso passaram a se modificar (BUFARAH JÚNIOR.] A própria forma de consumo da informação está mais flexível e individualizada” (AGNEZ. 2011. p. v. p. Pois é no poder de escolha do consumo que “se constrói parte da racionalidade integrativa e comunicativa de uma sociedade” (CANCLINI. p. em especial pelo público jovem. Sendo assim. 2010). p. 2010a). torna-se pertinente indagar: o que significa essa modalidade de apropriação? Como ocorre esse consumo? O que são os significados e os significantes no consumo de informação? Os meios de comunicação precisam então estar atentos não só aos impactos que as tecnologias digitais exercem nos processos de produção e distribuição da notícia. as apropriações informativas como simbólicas podemos refletir: como consumimos a informação/notícia? Como a usamos? É possível consumi-la? Utilizamos o conteúdo noticioso para nos mantermos eminentemente informados e nos apropriamos ou consumimos esse segmento./dez. Sendo. assim “os papéis de produtor e consumidor de informação estão se tornando cada vez mais híbridos. 5-6). 2015   112   . 2009). mas essencialmente nesses modos de consumo da informação que estão se desenhando. contrapondo a maneira unidirecional de consumir informação nas mídias tradicionais (JENKINS. A partir das transformações de conhecimento e criticidade dos indivíduos a prática do consumo como fenômeno social torna-se uma ferramenta importante para observar o pensamento e atitudes dos consumidores do segmento informativo. que se depara com maior representatividade em acesso aos meios de comunicação digital e/ou virtual (BIANCO. p.

a informação é um signo que faz referência a algo e ‘produz’ significados e significantes distintos aos consumidores. Baudrillard (1995) relata que os indivíduos não consomem objetos. Na prática. p. a sociedade como um todo. 10) completa: “o signo é como uma moeda que nos dá dois lados: o significante e significado. M. não apenas por parte dos empresários e grandes grupos de mídia. v. estabelecemos um significado a nossa apropriação e a partir do momento que construímos subjetividades e percepções individuais somos considerados consumidores de significantes1. p. Somma. 1995). 2010): Os meios de comunicação não podem se recusar a ver que um novo perfil de consumidor de informações está se moldando e as diversas instituições. A sociedade democrática tem por premissa o acesso livre à informação e quanto mais diversidade de abordagens. páginas pessoais. 3). começam a trabalhar outras formas de interação.. Gomes. 2015   113   .1. a linguagem a fim de manipular o mundo que o envolve. Nesse sentido. de forma mental. Podemos definir o significado como conceito ou ideia evocada ao signo. o espaço comunicacional se transformou e as mudanças quanto ao consumo da informação não podem ser desconsideradas (KISCHNHEVSKY.   Segundo pesquisas. Para Santor (2008. o simbólico não está em lugar nenhum. os jornais precisam rever seus modos de fazer jornalismo e os critérios e modelos de construção da notícia..1.”. melhor. seja ela impressão psíquica. 104-120./dez. Portanto. p. 2010. O simbólico é o abstrato.] O momento deve ser de grande reflexão. Quando conseguimos refletir sobre a informação consumida. [. públicas e privadas. mas especialmente dos profissionais de imprensa (AGNEZ. Teresina /PI. (2000.n. 2009). escrita e etc. jul. o significante como uma materialização. Com os blogs e microblogs. No entanto.. p. 12-13). é o que se pensa é a individualidade essencial para que o ciclo moderno do consumo continue (CASAQUI. esse tipo de consumo povoa o imaginário cotidiano dos indivíduos frente a todo tipo de mercadoria oferecida para consumo (BAUDRILLARD. o simbólico é o grande poder de distinção social do consumo é através dessa modalidade de apropriação que o ato de consumir ganha diferenciação e racionalidade. Com a chegada da internet.                                                                                                                         1 Para reiterar. mesmo que os indivíduos estejam cercados de objetos simbólicos. sites colaborativos. garantindo certa ordem nas relações entre os sujeitos e entre os sujeitos e os objetos”. “a projeção simbólica possibilita ao sujeito organizar. os consumidores de informação da sociedade contemporânea possuem um desejo em comum: querem mais flexibilidade e instantaneidade relacionada a uma maneira dinâmica de consumir informação. gestualidade. mas signos. Voltando as indagações a respeito do consumo simbólico.

Nesse sentido. os consumidores praticam a ação do consumo de forma individual. onde a ação de consumir o simbólico mesmo que não possa ser efetivamente/concretamente exercido. crenças. 2015   114   . 2002. Desde que o consumo tornou-se objeto de estudo nas Ciências Sociais e Humanas constatou-se que essa prática esteve centrada para representar as particularidades da sociedade produtora de objetos para consumo. À medida que a sociedade é considerada como povo e esse povo se constitui como cidadãos a prática do consumo permeia as mais variadas identidades provocando uma diferenciação nos significados que levam os indivíduos a consumir (MATHIAS. p. et al. visto que ambos se compõem dos elementos existentes na mesma realidade. parte da premissa que os homens são seres sociais pensantes.1. do controle remoto e das novas mídias portáteis os consumidores se identificaram com a relação pessoal que poderiam estabelecer com os conteúdos e segmentos difundidos nos meios de comunicação e assim iniciou a passagem do consumo coletivo para a forma individual das apropriações informativas (AGNEZ. 2011. cotidiano e meios de comunicação (STEINBERGER-ELIAS. 129). pois ele é fundado sobre o privado e a liberdade formal do indivíduo” (SANTOS. A resposta que os indivíduos darão ao consumo se efetua a partir da relação entre seu universo simbólico e a vinculação deste com a realidade material (LYRA. 104-120.. a razão de consumir informações pelo livre arbítrio. O consumo simbólico da informação constitui-se como um sistema social. repetitivo e banal. Pois. é perceptível que a sociedade e consumo se modificaram nos últimos tempos e tal fato pode ser constatado e referenciado no consumo simbólico que “não é assunto Somma. significado. é ilusória. p. 2005). 2004). pois o ato de consumir informação nos meios de comunicação social baseia-se na relação: indivíduo. desejos dos indivíduos que buscam se apropriar dos signos para que possam produzir significados e significantes ao produto e/ou objeto: O sistema de consumo é criado a partir da sua interação com a sociedade. Sua separação. o pensamento. informação. “o cotidiano é o lugar que possibilita o consumo por ser um sistema coerente. onde logo se estendeu constituindo a identidade dos indivíduos na sociedade de consumidores entre o consumo racional e o consumismo desenfreado e agora o ato de consumir passa a representar os comportamentos da sociedade de informação/conhecimento (MANCEBO. p. 2008). v. Nas apropriações informativas simbólicas. jul. 2004). permeiam os valores. A partir do transistor. 2001.n.   Sendo assim. 2009). 6). de presenciar a leituras dos jornais impressos e assistir os telejornais (DAMÁSIO. BAUMAN. sem a coletividade das antigas formas de ouvir os informativos no rádio./dez. Teresina /PI.1. estabelecida entre o simbólico e o material.

jul. Bauman (2008. ROCHA. mas quem são os consumidores simbólicos da informação? Qual a quantidade de informação transmitida e consumida na contemporaneidade? Diante de tais indagações.... diante da citação acima pode-se perceber que inseridos numa sociedade caracterizada pelo excesso de informação.. p. absorver e assimilar esse volume de informação “disponível” hoje em dia (circunstância que torna a maior parte dela endemicamente desperdiçada..n. pois “para lá do interesse público há uma curiosidade informativa insaciável [. p... mas sim como elemento importante para sociabilidade e inclusão. no curso de suas buscas desesperadoras pelas informações que necessitam. 57) enfoca: Quão difícil é. e de fato natimorta) [.. Nessa percepção. Além de consumir informações por necessidade. 104-120. vale elencar que o simbólico não pode ser nomeado “[. incluindo os de informação..1. 2009. Esperam que alguma parcela da multidão anônima situada na extremidade [. p.. Teresina /PI. participa na evolução e da revolução do homem em direção à sua história.] em restituir a ambivalência do sentido” (BAUDRILLARD. a informação referencia o homem ao seu destino [. buscam desesperadamente sobras não cultivadas do tempo dos consumidores. v. seu conceito e os benefícios que pode trazer ao indivíduo e no seu relacionamento com o mundo em que vive.. p. os fornecedores de pretensos bens de consumo. 2015   115   .]. Como onda ou partícula.   relativo apenas a conteúdos [..] mas diz respeito especialmente às formas. qualquer brecha entre momentos de consumo que possam ser preenchidos com mais informação. as diferentes práticas de significantes” (BOLERRI. 1): A informação sintoniza o mundo. 1). 4) enfatiza que “o indivíduo utiliza o consumo para se comunicar”. De acordo com Barreto (1994. p. Sendo assim. Monteiro (2011.] A importância que a informação assumiu na atualidade pós-industrial recoloca para o pensamento questões sobre a sua natureza. p. 38). pode-se avaliar que os consumidores não veem o segmento informativo como apenas um produto da sociedade.] o simbólico consiste precisamente em quebrar a univocidade da “mensagem” [. portanto. 1996.a atenção de potenciais consumidores -. onde o grande volume do conteúdo informativo é Somma.1. 1995. pois a informação é um elemento essencial à formação cívica dos cidadãos” (FIDALGO../dez. p. SILVA.] Na acirrada competição pelo mais escasso dos recursos . ou seja. se não impossível. Sendo assim. 234). No consumo de informações os significantes e os significados podem ter infinitos aspectos e valores assim. os indivíduos se apropriam do conteúdo noticioso midiático na medida em que o fato torna-se interessante..] do canal de comunicação. Quem consome informação possui um propósito. Como elemento organizador.

] da informação está. e hoje. Pois. interesse e curiosidade. estudos referentes às práticas e apropriações sociais são realizados para entender o evoluir da humanidade baseado no que produzimos para consumir. realidade.   3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante desses aspectos é válido destacar que desde a Pré-história. contudo condicionada por uma limitação contextual e cognitiva. constata-se que a sociedade consome simbolicamente a informação por ser um produto que tem o poder de aproximar distâncias. implica oferecer informação para consumo. novas apropriações acontecem. Para intervir na vida social./dez. jul. pós-industrialização. p.] de informação orienta-se por uma racionalidade.   transmitido com o intuito de promover o conhecimento e beneficiar a população sobre os fatos que cercam o mundo.1. o homem tem suas relações moldadas pelos atos de consumo material. Assim consumir informação. pois ele é representado como um ato integrativo natural caracterizador da vida humana em sociedade sob os mais variados aspectos. como já foi ressaltado. 4).. Nessa conjuntura. Sendo assim. gerando conhecimento que promove o desenvolvimento. enfatizase que o consumo está presente em toda relação social. 2007).. Em tempos de contemporaneidade. na atual contemporaneidade os indivíduos são distinguidos e/ou caracterizados por meio do consumo simbólico. Atualmente a vida na sociedade urbana e industrial é caracterizada pela diversidade de produtos. pois a população pratica o consumo noticioso para se representar como ser social antenado aos acontecimentos da sociedade e das relações humanas. a informação necessita ser transmitida e aceita como tal (BARRETO.. v.. Assim. principalmente no que tange as apropriações da informação midiática. p. consumo material e simbólico. Teresina /PI.n. onde tudo pode se tornar consumível. onde relações e formas de consumir mudam constantemente. 104-120. a natureza de toda e qualquer forma de consumo é efêmera e dinâmica destacando-se por estar em constante movimento: A produção [.   Somma.1. A distribuição [. 2015   116   . 1994. como um objeto consumível (MEDITSCH.

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n. se tomarmos a literatura existente sobre o assunto. Os autores divergem e se contradizem uns aos outros continuamente. sem autor assumido. in the perspective of Bakhtin and. 1 INTRODUÇÃO Discurso. à primeira vista. ou seja. servidora do IFPI e professora da AESPI. Palavras-chave: Topônimo. style and compositional structure. Eventually. sem destinatário definido. Ideology. Como saber se uma manifestação comunicativa humana pode ser englobada por uma dessas noções? É possível rotular (classificar) essa manifestação quando ela se reduz a um único nome (ou a poucos) postado ao longo de uma estrada. construção sintática inexistente ou elementar? Tal tarefa parece. enunciado são conceitos que se entrecruzam. v. that is. 2003). 2003). com significado aparentemente mínimo.TOPÔNIMOS: ENUNCIADOS IDEOLÓGICOS FORMADORES DE UM GÊNERO PRÓPRIO Rose Mary Furtado Baptista Passos* RESUMO Este trabalho focaliza os nomes de propriedades rurais (topônimos) como enunciados. In it are also presented concepts of Maingueneau (2001) about discourse and genres of discourse that seem to be according to the thoughts of Bakhtin (1999. consideraos tipos de enunciados relativamente estáveis. mas resolve- * Mestra em Estudos de Linguagem pela UFPI. Teresina /PI. considers them as types of relatively stable phrases with similar theme. it shows that toponyms bring several implicit meanings. Gêneros do discurso. Finalmente. 121-133. besides reflecting the dominant ideology in Brazil today. Somma. jul./dez. ABSTRAT This paper focuses the names of rural properties (toponym) as phrases. mostra que topônimos trazem implícitos inúmeros significados. Enunciating. com tema. numa perspectiva bakhtiniana e. praticamente impossível de levar a cabo. Ideologia. para isso.1. Nele são também arrolados conceitos de Maingueneau (2001) sobre discurso e gêneros do discurso que parecem estar em consonância com os pensamentos de Bakhtin (1999. Genres of discourse. groups them in a discourse genre. Keywords: Toponym.1. Enunciado. texto. estilo e estrutura composicional semelhantes. p. além de refletir a ideologia dominante no Brasil hoje. 2015 121 . agrupa-os em um gênero de discurso. for this.

Em outras palavras. pode-se considerá-los enunciados. Essa ideia é desenvolvida durante o percurso do trabalho. Finalmente. chácaras e fazendas) incrustadas ao longo dos primeiros 21 quilômetros da BR 343 partindo de Teresina em direção a Altos. em alguns nomes que estudamos. comparados aos estudos de Maingueneau (2001) sobre discurso e a constituição de gêneros. No item sobre a constituição dos sentidos nos topônimos. forma ou estilo.1. estuda a origem e a evolução dos nomes de ruas. 2 SÃO TOPÔNIMOS ENUNCIADOS? A toponímia. já que essa figura retórica está presente em alguns dos enunciados escolhidos. 2015 122 . 2003 e Maingueneau.n./dez. nomes de lugares. pois repassam significados e produzem efeitos nos receptores ou co-enunciadores (denominação encontrada em Bakhtin.se quando fundamentada em teóricos que se preocuparam em explicar tudo o que se relacionasse com a criação verbal humana. pois verifica-se uma tendência ao uso de signos imagéticos ao lado dos linguísticos. buscamos a base teórica relacionada à linguagem constituída por imagens. jul. tomamos 74 topônimos. v. e muitos implícitos podem dela ser inferidos. 2001). provocam uma atitude responsiva no leitor que passa pela estrada. com conteúdos prenhes de significado. sempre que possível. Em Santaella (2003). Como objeto de estudo. pertença a um gênero do discurso. embora os topônimos se reduzam a uma ou a poucas palavras e não apresentem a marca temporal. passando a vê-los como enunciados formadores de um gênero do discurso. p. estilo característico e estrutura composicional própria. Teresina /PI. independentemente de tamanho. Dessa maneira. por não possuírem verbo. lugares e espaços geográficos e traz com isso uma enorme contribuição Somma. considerada por alguns como uma ciência. retomamos Bakhtin (1999). para falar sobre a ideologia presente neles. ou seja. Por isso os conceitos de Bakhtin são. De acordo com nossa hipótese. no intuito de validar efetivamente nosso corpus como enunciados pertencentes a um mesmo gênero discursivo. no caso aqui propriedades rurais (sítios. Fundamentamo-nos principalmente nos estudos de Bakhtin (2003) sobre as condições exigidas para que uma fala (ou um escrito) se caracterize como enunciado e. o presente trabalho pretende fazer uma abordagem bakhtiniana sobre os topônimos relacionados a propriedades rurais. 121-133. apontamos componentes teóricos de Paschoal (1984) sobre a metáfora.1. como tal. para complementar a base de algumas das afirmações feitas. Buscamos também subsídios em outros pesquisadores da língua e das teorias ligadas à comunicação humana.

Teresina /PI. p. das profissões que exercem ou exerceram.pt/)1 das populações que os habitam ou habitavam. produtor e co-produtor do enunciado. consideramo-los enunciados. Infere-se do conceito de toponímia que cada nome escolhido para identificar uma localidade tem. respondendo à pergunta inicial. 1 Disponível em: <http://www. provoca obrigatoriamente uma necessidade de responder no ouvinte/leitor. de nomes de santos. estão ligados a um referente e. v. Para Bakhtin (2003). jul. sendo seu limite definido pela alternância do locutor. dentro do contexto em que se encontram – placas indicativas no percurso de uma via pública e em frente a propriedades rurais –. 2014. ciclista. À primeira vista. podem ser entendidos como um todo coerente produzido em uma situação interacional que envolve enunciador e coenunciador. dos produtores de discursos.n. factos. ou seja.pt/output_efile. conhecer zonas de influência de outros povos (por exemplo.cm-albergaria. de animais. relaciona-se de imediato com outros enunciados e com a realidade (o mundo que o rodeia). os gostos. motorista – que lê casual ou propositalmente essa placa? Quem o interpela? A quem ele responde? A relação que se pode estabelecer entre os topônimos e outros enunciados remete-nos à noção bakhtiniana de gêneros do discurso: “determinados tipos de enunciados estilísticos.1. uma outra.aspx?sid=6d4cc5a4-14a8-49a0-b83375eb799b5037&cntx=Oj%2BcQqcdjW2U7ec2nYBVj%2BIYt9XwXXJK%2FUZo2YveKBM%2Fhj2ZuMms0 QxjYAEIzb7uIH0loAANL6fXAlrkzdGfgQ%3D%3D&idf=3585>. Através de seu estudo é possível saber quais espécies vegetais existiram noutras épocas no lugar nomeado (lugares cujos nomes têm como origem alguma espécie da flora). Acesso em: 08 set. Podem também refletir “os sentimentos e as personalidades das pessoas e memoriam valores. Somma. no sentido atribuído por Maingueneau (2001). já que deles se podem depreender sentidos (no plural mesmo) a partir do léxico escolhido. 121-133. Dessa forma. portanto. ou seja. do reino mineral e também da flora. Os topônimos geralmente provêm de nomes próprios de pessoas. épocas. o mundo de valores do enunciador. além dessa função imediata.cm-albergaria. 2015 123 . partícipes. topônimos em outras línguas que não a do povo que lá habita na atualidade). figuras de relevo. entre outros. estabelecida de forma consciente ou não: transmitir informações diversas sobre o local e sobre as preferências. topônimos não se encaixam no pensamento do estudioso russo./dez.1. pois como pode uma placa afixada na beira de uma estrada estabelecer relações com outros enunciados? Que tipo de relação é aí estabelecido? Que resposta se pode atribuir a um passante – pedestre. o enunciado constitui a verdadeira unidade do discurso.para o conhecimento da evolução histórica e cultural de uma região. da construção enunciativa. usos e costumes” (www.

portanto. localizar uma propriedade determinada – nesse caso sua resposta é a confirmação ou a negação do que encontra em relação ao que procura. entre esses enunciados está na própria regularidade de sua composição. 2003. daí 2 Destinatário aí significa apenas a pessoa para quem a mensagem é transmitida. um gênero do discurso. os leitores das placas. o “falante” seriam os donos das propriedades (mesmo que as tenham comprado com aqueles nomes. tais como: necessidade de localizar-se – saber em que ponto da estrada está. no mínimo. 2003. raiva. v. No caso dos topônimos. mas não muito. E sua resposta vem em forma de reação à informação obtida: alívio. como queremos. como reforça Bakhtin em diversos pontos de seus estudos. no próprio fato de só adquirirem sentido na relação com seus congêneres (o assunto será aprofundado mais adiante). p. receptor e outros de mesmo sentido. Teresina /PI. 121-133. o leitor virtual Somma.] pode permanecer de quando em quando como compreensão responsiva silenciosa”. excitação. o que torna inadequados os termos destinatário. 2015 124 . expostos em placas (o tipo diverge. Bakhtin esclarece que “nem sempre ocorre imediatamente a seguinte resposta em voz alta ao enunciado logo depois de pronunciado” e complementa: “a compreensão ativamente responsiva do ouvido [. jul. a não ocorrência da função comunicativa da linguagem. pois. 301). do “destinatário”2 da mensagem. 2003.. ou ainda por curiosidade – a resposta aí pode causar novas curiosidades: “Por que aquele nome?” “De onde foi tirado?”. A relação entre esses nomes ou. irritação. Sobre a atitude responsiva do destinatário. 271-272). “um traço essencial (constitutivo) do enunciado é o seu direcionamento a alguém. ou pode trazer uma certa satisfação quando identificada a origem do nome: “Ah! Love Story! Vi esse filme. 266). o seu endereçamento” (BAKHTIN.1. como ativos e co-participantes da produção do sentido. recebedor. responsabilizam-se por eles. p.. quanto falta para chegar a seu destino. Nomes de propriedades rurais são construídos (ou escolhidos) de forma muito similar: substantivos ou sintagmas nominais de núcleo substantivo. sabemos que quem os lê faz isso por motivos vários. é um drama!”. No caso dos topônimos. xingamento –. cuja ausência pode determinar a não constituição do enunciado ou. por conseguinte. ou seja. A outra dúvida é sobre o estabelecimento do outro. já que não os mudaram) e o “outro” são os passantes. p. numa “compreensão responsiva de efeito retardado.1. É importante frisar que Bakhtin (2003) considera ambos. o que nos autoriza a considerá-los um conjunto com estilo.” (BAKHTIN.temáticos e composicionais relativamente estáveis” (BAKHTIN./dez. emissor e “destinatário”. tema e estrutura relativamente estáveis e. a ouvinte. e constituir-se.n. como explica. de acordo com a posse e a criatividade do proprietário) na beira da estrada. p. há uma troca de posições ao término de cada enunciado: o ouvinte passa a ser falante e este. pois.

termos que recebem definições diversas” (MAINGUENEAU. p. Teresina /PI. Essa nossa dedução confirma-se em outro trecho do estudo de Maingueneau (2001) em que.1. assumida por um sujeito e considerada no bojo de um interdiscurso. Esta última determina-se pelo esgotamento do assunto. Parece-nos que os topônimos aqui evidenciados preenchem todos esses requisitos. um conjunto de enunciados que se inter-relacionam e completam uma situação interativa entre falantes. contextualizada. p. regida por normas. Na verdade. Em contrapartida. ou seja.n. 56. porque essas não são condições definidoras de um enunciado. v. um jogo de enunciados interativo concluído por sujeitos falantes em determinado momento sóciohistórico. Somma. como uma forma de ação interativa. não aceita as outras. diz o seguinte: “Para fazer referência às produções verbais. 2001).1. como Bakhtin (2003). Bakhtin (2003. donde concluímos que sua concepção de discurso se aproxima da de enunciado em Bakhtin (2003). as condições que ele aponta como determinantes para um dito falado ou escrito constituir ou não um enunciado são a alternância dos falantes e sua conclusibilidade específica (BAKHTIN. jul. não nos parece causar nenhum problema. ao iniciar o tópico no qual se propõe esclarecer de que forma entende os termos enunciado e texto. 2015 125 . transformá-los-ia apenas em partes de um todo maior. 278) diz que “o enunciado pode ser construído a partir de uma oração. 3 É POSSÍVEL QUE TOPÔNIMOS SEJAM TAMBÉM DISCURSOS? Discurso é visto por Bakhtin (2003) como uma comunicação discursiva completa. 2003). grifo nosso). p. Quanto ao fato de os nomes de propriedades rurais serem formados por uma só palavra ou um único sintagma nominal. 2003).a denominação co-enunciador usada por Antoine Culioli (apud MAINGUENEAU. sem a marca temporal. Maingueneau (2001) vê o discurso como uma organização situada para além da frase. 121-133. os linguistas não dispõem somente do termo “discurso”: recorrem também a enunciado e texto. 2001. pela intenção discursiva do falante (o quê e quanto vai falar) e pela escolha da estrutura formal do gênero a que pertence. mesmo que inconscientemente por nem sempre termos conhecimento dela./dez. coisa que fazemos com habilidade na prática. de uma palavra” e acrescenta que uma característica universal de qualquer língua é ser o limite dos enunciados definido pelo traço interacional e não por seu tamanho nem por sua estrutura (BAKHTIN. Maingueneau (2001). Essa concepção aparentemente tornaria os topônimos aqui estudados meros componentes do discurso.

lista-as. 2001. sabemos intuitivamente a que gênero pertence logo na emissão das primeiras palavras. 57). temos noção aproximada de sua extensão. Para cada situação. caracterizam o discurso: são interativos – transformam proprietários de terras e passantes em co-enunciadores.1. conhecemos sua estrutura. Somma. todos os discursos são organizados em forma de gêneros e. enfim. procuremos desenvolver as características por ele citadas em seu conceito: (a) O discurso é uma organização situada para além da frase – isto não significa que o discurso seja maior que ela. embora não ignore as diferentes acepções normalmente utilizadas por outros autores e. ao ouvirmos um enunciado. inclusive. usa-se um gênero que a ela se adeque. tem preferencialmente “o valor de uma frase inscrita em um contexto particular”. 53-56).Considerando. p. Para ele. e submetem-se às regras de organização de seu gênero de discurso – estilo e composição semelhantes (MAINGUENEAU. (e) O discurso constitui uma unidade completa e submete-se a determinadas regras de organização que o colocam dentro de um gênero específico (MAINGUENEAU. Ao que nos parece essas são praticamente as mesmas características atribuídas por Bakhtin (2003) ao enunciado que.1. Teresina /PI. que sua escolha depende da posição social do falante. 2001. para Maingueneau (2001. 2015 126 . das relações que mantém com seu interlocutor. v. temporais. p. p. espaciais etc. (b) O discurso é uma forma de ação interativa – a interatividade mobiliza dois parceiros: o enunciador e o co-enunciador. então. constituem uma unidade completa – trazem uma informação necessária e suficiente em si mesma./dez. discurso sob o ponto de vista de Maingueneau (2001). 4 TOPÔNIMOS AGRUPAM-SE EM UM GÊNERO DISCURSIVO Segundo Bakhtin (2003). de acordo com Maingueneau (2001).n. 121-133. Inferimos daí que os topônimos possuem os requisitos que. percebemo-lo em seu conjunto (não obrigatoriamente em sua concepção teóricocientífica). da situação em que se encontra. mas que é de uma ordem diferente da dela. os outros topônimos ao longo da estrada. fazem parte de um interdiscurso – só podem ser considerados como discurso se tomados no contexto de seus congêneres. há tantos gêneros. 5356). jul. (c) Essa ação interativa é assumida por um sujeito – que passa a ser seu responsável e fonte de referências pessoais. p. (d) O discurso faz parte de um interdiscurso – seu sentido só toma forma relacionado a outros discursos do mesmo gênero.

contudo. Petrolândia. Tia Jane. flores e animais ou a eles relacionados: Passaredo.1. Chakaran (Chácara da família Karan). Foram encontrados os seguintes: Sítio Francisco Oliveira. Sítio Girassol. Sítio Caneleiro. Fazenda Júlio’s. Dutraville (vila dos Dutras).1. São Raimundo. vêm os nomes de plantas./dez. montanhas etc) e à zona rural. a seu dono. Bakhtin (2003) esclarece. Três Corações (familiares queridos). 121-133. devido à troca de proprietários ou mesmo por alguma necessidade de algum dos atuais. Três Irmãos.n. Tinhorão. Somma. Sítio São Rafael. que é possível transferir um estilo de um gênero para outro. estilos e construções composicionais. ou é renovado. em quantidade. Os nomes ligados à natureza (rios. já apresentado no tópico referente a enunciados. estilo e estrutura composicional relativamente estáveis. estilo e estrutura são indissociáveis e constituem-se elementos tanto do enunciado. Vale do Sol. como podemos comprovar: Tejipió. Sítio São Raimundo. com tema. Pousada Zé de Holanda. Kansela. Sítio Sombra.Seu conceito de gênero. Sítio Santa Teresa. Luar do Sertão. Se observarmos os temas utilizados pelos autores dos topônimos por nós estudados. 2015 127 . para dar lugar a um novo. São José. O primeiro grupo a destacar é o relacionado a nomes de santos ou à religião. de gêneros do discurso. Maanaim. Patamares. apresenta-o como tipo de enunciado histórico ou sócio-histórico. São João. Sítio Suyane. Teresina /PI. lembrando que algum nome pode vir repetido por encaixar-se em mais de um tipo e que esses nomes poderão ser substituídos futuramente. verificaremos que são recorrentes. São eles: São Joaquim. principalmente a cristã. a determinado gênero correspondem determinados temas. a algo ou a alguém a quem deseja homenagear. Espírito Santo. Lírios. Assim. que ou é destruído. Em seguida. Fazenda Rio Grande. p. Sítio Rancho Alegre. Quinta Pau d’Arco. mas no processo modificam-se tanto o estilo como o gênero. Quinta São José. Casa da Vovó Bizé. em geral. São José do Lírio Vermelho. Passemos à análise do corpus. Chakal (Chácara da família Kalume). referem-se. O segundo tipo são os que designam nomes de proprietários ou relativos a eles (parente próximo). Sítio Santo Antônio. Vila Angelita Gilda. São José do Lírio Vermelho. Chácara Jatobá. jul. Chácara Santa Isabel. v. ou seja. Esteios. Jardim de Alá (único que se refere a Deus na forma usada pelos muçulmanos). Chácara Longá. A ordem escolhida leva em conta a quantidade de sítios e/ou chácaras que se encaixa em cada tipo. Cafarnaum. quanto de conjuntos específicos de enunciados. Carrapicho. Sítio Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. majoritária em nosso país. Tema. Deus Contigo. Sítio Cajueiro. Vale do Temujim. Sítio Ana Clara. Pouso Alegre. Greenville. Chácara Rios (da família Rios). ficam em terceiro lugar.

placas de concreto. umas poucas com signos imagéticos. 2015 128 . seu lugar legítimo de enunciação. muito raros./dez. organização textual – roteiros flexíveis. 2001). Massangana. ocupando a quinta colocação. A maneira de fazer ver esse nome. 121-133.1. Segundo ele. vêm nomes com significados desconhecidos. por amadores. exigindo leitura rápida. como Fazenda Nipon.Na sequência. porque esse modelo é tão antigo. ao longo da BR. os enunciadores não têm muita escolha: ou usam substantivos ou formam um sintagma nominal cujo núcleo é um substantivo. Três Corações (cidade mineira). curtos e com letras graúdas (MAINGUENEAU. Por isso vemos. Algumas vezes recorrem a imagens que substituem nomes. de ferro. em todas. levam-se em conta as características que os tornam semelhantes a um “protótipo”. o suporte utilizado para o envio da mensagem é que varia um pouco devido à condição financeira e à criatividade de cada um. vêm os nomes de outros topônimos (cidades. Somma. o que não modifica o valor nem o significado. Por último. para que uma obra ou um texto sejam incluídos em determinado gênero. Quanto ao estilo. 65-67). constata-se a mesma preocupação: deixar a placa bem visível para que os passantes e os viajantes a vejam e não tenham dúvidas: aquela propriedade tem nome e dono. Amoaras.1. p. Mas é possível estabelecer “comportamentos” ou “rotinas” comuns a eles que os fazem pertencer a determinado gênero com suas finalidades – identificar cada pedaço de terra registrado em nome de alguém. No caso dos topônimos relacionados a sítios e chácaras não se pode falar em semelhança com um protótipo. de madeira. procuram-se ver neles determinados comportamentos ou rotinas que os fazem pertencer a um e não a outro gênero: suas finalidades. umas pintadas por profissionais. textos simples. Também podemos legitimar a condição dos topônimos como pertencentes a um gênero específico. Sintra. Biliqui. Akrópolis. outras. Não sendo possível isso. sua organização textual. Teresópolis. seu suporte material – placas de madeira. p. seu lugar legítimo de enunciação – em frente às propriedades. uma individualização justifica a ocorrência do substantivo dito “próprio”. ou seja. A estrutura composicional é sempre a mesma: um nome (substantivo) ou uma locução (sintagmas nominais com núcleo substantivo). estados. e assim por diante. v. Sítio Valparaíso. baseando-nos em Maingueneau (2001. Teresina /PI. concreto ou mesmo muros. a um texto ou obra considerado como referencial para os outros. seu suporte material. que sua origem confunde-se com a própria história da humanidade. Tafa. O fato de ser uma denominação. Fazenda Havaí. países). ou seja. Mas. a maioria só com signos linguísticos.n. por uma questão de natureza sócio-histórica. metal. jul. mas certamente com alguma explicação de ordem sentimental: Ninizo.

que ali há a presença da conotação. Toda figura de linguagem. particularmente da televisão. mas existe simultaneamente uma enorme variedade de outras linguagens que também se constituem em sistemas sociais e históricos de representação do mundo” (SANTAELLA. que. números. 11). segundo Cohen (apud PASCHOAL. observa-se um crescimento visível e acelerado do uso do código imagético. usos e costumes das comunidades em que os lugares que nomeiam estão inseridos. v. fumaças. pois. Hoje. sinais. Entendemos que. jul. na verdade. através da intersecção sêmica entre o que se diz e o que se quer dizer.1. Diz-se. como Canadá. cheiros. gestos. “Existe uma linguagem verbal. os valores. Desde que o homem foi criado. p. 2015 129 . que os sentidos têm sua história.n. Sua presença indica ao enunciatário que o enunciado não deve ser interpretado literalmente. o que há. o segundo é a reestruturação do sentido.1. de sons e letras. dos meios de comunicação de massa. a toponímia. 1984). Teresina /PI. 121-133. ao nomear sítios ou chácaras com nomes de lugares conhecidos. cujos comerciais concentram o Somma. sons musicais etc. é uma metáfora. como co-enunciador contribuem para formar seu sentido. além da verbal: desenhos. o faz por meio de diversos tipos de linguagem. Influência. luzes./dez. sendo o discurso interativo. quem sabe. p. Certamente esta será a conclusão do co-enunciador. por exemplo. tanto enunciador. 2003. contudo. apesar de toda a riqueza das línguas usadas como código. implícita naquele único nome (ou sintagma nominal) uma gama de conhecimentos sobre a cultura. Não se pode esquecer. trazendo embutida em seu pequeno invólucro. isto é. os topônimos são considerados pela própria ciência que os estuda. mudam os receptores (leitores/ouvintes) e isso provoca a possibilidade de inúmeras leituras para um mesmo enunciado. nas modalidades falada e escrita. Mudam as situações. Uma marca da presença de implícitos em um discurso é o uso da figura de linguagem ou tropo chamada metáfora. faz uso da imagem para se comunicar. tem dois tempos: o primeiro consiste na incompatibilidade semântica entre sintagmas do enunciado. 6 A LINGUAGEM NÃO VERBAL NOS TOPÔNIMOS Quando o homem se comunica. uma comparação implícita entre o pedaço de terra (ou esse pedaço de terra como é visto nos desejos de seu proprietário) e o país denominado Canadá. E a cada novo sentido atribuído corresponde uma carga de conteúdo ideológico diferente e “adaptada” aos valores do novo produtor. como enunciados prenhes de sentido.5 SIGNIFICAÇÃO NOS TOPÔNIMOS Como vimos no primeiro item deste trabalho.

por meio do signo linguístico. a maneira como uma classe ordena.1.n. o contexto sócio-histórico. p. o mesmo autor acrescenta que “cada uma das visões de mundo apresenta-se num discurso próprio” (FIORIN. “a palavra é o fenômeno ideológico por excelência” e. 29)./dez. tem-se que levar em conta as relações de poder aí envolvidas. A escolha de um simples nome para designar um pedaço de chão não é feita de forma aleatória. por sua vez. novos horizontes. Isso não prejudica a interação enunciador x co-enunciador. ou seja. o nome próprio da localidade. porque as imagens contêm sentidos tanto ou mais que as palavras. 2003. Essa perspectiva está de acordo com o pensamento de Bakhtin (1999) segundo o qual o signo linguístico realiza-se no processo de interação social e guarda as marcas da época e do grupo social que o utiliza. referindo-se ao elemento expressivo como sempre presente em menor ou maior grau de força diz: “um enunciado absolutamente neutro é impossível. 1998. 121-133. afirmando que ideologia é uma ‘visão de mundo’. Alguns dos topônimos focalizados trazem a informação. os conflitos e reconhecimentos que pode gerar. enfim. interpretação e consumo do sentido por ela produzido. Teresina /PI. v. dos valores. 289). p. a visão de mundo dessa comunidade. novas visões de mundo. Também Fiorin (1998) posiciona-se a respeito. usos. o ponto de vista de uma classe social a respeito da realidade.” (BAKHTIN. costumes de uma determinada comunidade.máximo de mensagem em um mínimo de palavras. 2015 130 . jul. Somma. codificada por meio das linguagens verbal (língua escrita) e não-verbal (figuras que representam referentes que. certamente apresentam. 29) Logo em seguida. No entanto. por conseguinte. Daí podemos deduzir que há tantas visões de mundo numa dada formação social quantas forem as classes sociais (FIORIN. substituem a palavra escrita). Nas mensagens que repassam os topônimos. 1998. construindo.1. ao mesmo tempo que refletem. justifica e explica a ordem social. 7 A IDEOLOGIA PRESENTE NOS TOPÔNIMOS Quando se toma a palavra oral ou escrita. uma nova realidade. constituindo um tipo de linguagem não-verbal de alto grau de comunicabilidade. 36). Segundo Bakhtin (1999. p. há embutida uma inculcação de valores quase sempre retirados da ideologia dominante que contamina sem que se perceba a mente de produtores e usuários do conteúdo linguístico. em outra obra. eles também refratam a realidade que os rodeia. Sendo os topônimos reflexos da cultura. p. fazendo uso concomitante de imagens para complementar o sentido que desejam repassar. p. tem-se que considerar todo o contexto ideológico que atua na produção.

noutros é o desenho da letra lembrando ideogramas orientais (Nipon e Tafa) e em uma. animais e à natureza. tecnologias de ponta. A religião: todos os nomes citados acima na lista dos topônimos ligados a santos e à religião em geral. é somente o uso de uma letra que até pouco tempo não pertencia a nosso alfabeto que mostra a xenofilia. Kansela. Teresina /PI. tornando-se individualizado. Uns se vestem de forma exótica. particularizar. A família: Casa da Vovó Bizé. a magreza. 2015 131 . não massificado. procuram distinguir-se. os principais tipos constatados. Listamos. Todos os proprietários procuram individualizar seu “feudo”.1. Tafa. Ao nomear um sítio. Nomes ou construções linguísticas em línguas estrangeiras: Greenville. 2003): a juventude. nos nomes Sintra. um objeto de sua propriedade. pelo menos. são valorizados (SANDMANN. primeiro dos animais. a seguir. Para isso tomam atitudes e assumem posturas aceitáveis ou não. Individualizar é o mesmo que especializar. distinguindo-se de seus semelhantes. Segundo a ideologia dominante no Brasil de hoje. o próprio nome da propriedade). Tia Jane. distinguir. Chakaram. “Batizando” um animal.n. Não é diferente o que acontece com os sítios. em alguns. particularizá-lo. Além desses exemplos citados. Quinta São José. não comum. identificá-lo como algo especial. Tikim. Somma. Nipon (nesse. chácaras e fazendas. designativo de um só referente ou de poucos da mesma espécie. quase tudo é permitido: nomes estranhos (muitas vezes aglutinações – Chakaran = Chácara da família Karan. toda a placa lembra o Japão: a bandeira. Love Story. seu proprietário faz o que Maingueneau chama de “ato de batismo” (2001./dez. objetos e idiomas estrangeiros. a seguir. entre muitos outros. v. Akrópolis. 183) a partir do qual aquele nome passa a ser próprio. fontes tipográficas não-usuais. Nessa busca pelo original. p. pelo “indivíduo”. os portugueses (que não deixam de ser estrangeiros). nota-se uma especial afeição por nossos ancestrais. depois dos próprios semelhantes. é o uso da marca do possessivo inglês.Tomaremos. Alguns desses valores estão bem explícitos nos nomes de propriedades ao longo dos quilômetros da BR 343 aqui analisados. particularizá-lo. Chakal. A ecologia: todos os nomes já citados na lista dos relacionados a plantas. isto é. 121-133. Três Irmãos.1. Observe-se que. outros destacam-se na multidão pela facilidade com que se expressam ou contam piadas ou mesmo atuam em palcos improvisados ou institucionais. o ser humano procura também individualizá-lo. distingui-lo dos demais. alguns exemplos de nomes de sítios à guisa de ilustração para o que foi dito. Dutraville. tudo o que se refere à ecologia. jul. pelo único. Quinta Pau D’Arco. os ideogramas. p. Os seres humanos. enquanto “indivíduos”. seu pedaço de terra. Julio’s.

pessoas. Ou. unidades de significação. todo texto é produzido para ser compreendido. homenagens a santos. todo enunciado é produzido dentro de um contexto histórico. como vimos. quais sejam: a exiguidade de signos utilizados. orienta-se para ser interpretado no contexto do momento. como se sabe. Tomadas isoladamente e de forma ingênua. mostram um sem número de possibilidades de sentidos ali colocados para serem desvendados por seus receptores (co-enunciadores) ideais e/ou reais. talvez não complexas. as mensagens curtas. Concluindo.1. ou seja. no contexto do processo ideológico do qual faz parte./dez. isso ocorre também com os topônimos. 8 CONSIDERAÇÕES FINAIS Os enunciados acima descritos constituem. pouco significam. Consequentemente. concentradas. O momento histórico por que passamos está recheado de exemplos dessa necessidade humana de exibir seus pertences ou a si próprio. apelos ao emocional. os temas e as estruturas de composição que fazem. no entender de Bakhtin. as mensagens devem ser interpretadas dentro de seu contexto situacional. 2015 132 .Chakal = Chácara da família Kalume – ou justaposições de outros – Dutraville = Vila dos Dutras). uso de desenhos ou figuras significativas. mas vistas sob o ângulo da situação de produção e da situação de consumo. jul. Somma. criativas. são filiados a um gênero específico devido às semelhanças de “comportamento” ou “rotina”. como quer Maingueneau. circula num meio social e dirige-se a alguém. mas dotadas de inúmeras informações mais inferidas pelo consumidor das mensagens que explicitadas por seus produtores. a localização etc. Pertencendo a um gênero de discurso específico. Outras semelhanças dizem respeito ao uso da linguagem não-verbal aliada ou não à verbal e à presença da ideologia dominante. os suportes. p. pois. O que há de comum entre eles é o estilo. quem sabe até do orgulho de possuir algo e mostrar ao mundo o objeto possuído. Os nomes próprios aqui tomados como discursos para análise resultam da busca da individualização. locais. ideal e/ou real. Teresina /PI. basta lembrar os reality shows mundo afora e os selfies na internet. 121-133. com que pertençam a um mesmo gênero discursivo. entre muitos.n. v.1.

Linguagem. São Paulo: Cortez Editora.1. p. v. São Paulo: Hucitec. 1998. S. Estética da criação verbal. jan. de Sousa-e-Silva e Décio Rocha. SANTAELLA. 2001. ed. Rio de Janeiro. 2003. Linguagem e ideologia. SANDMANN. Metáfora Discursiva. FIORIN.n. 167-178./dez. Prefácio de Roman Jakobson. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. 121-133. Dominique. A linguagem da propaganda./ jun.1984.. São Paulo: Brasiliense. Análise de textos de comunicação. p. São Paulo: Ática. v. Teresina /PI. Tradução de Cecília P. Zanotto de. ed.1. 9. MAINGUENEAU. L. 2003. São Paulo: Martins Fontes. ed. 3. PASCHOAL. Somma. 2015 133 . jul. 6. O que é semiótica.2. 1999. n. J. São Paulo: Editora Contexto. Antônio José. M. ______. 2003. 4. Lúcia. Marxismo e filosofia da linguagem.REFERÊNCIAS BAKHTIN. Mikhail.

philosophy. each highlighted by their own characteristics. In their hybrid constitution. collective manifestations and contexts. These characters share – among themselves and also with other mythical characters -. semelhanças evidentes e diferenças decisivas. made up of varied faces and stories. 134-145. presenting it in all its plurality. The critical reading here carried out of the performances and narratives incorporated by this semantic-political operator had as main goal to open room for the discussion of other discourses. inclusive as de fundamentação historiográfica. when correspondences and direct or indirect relations with the Moor characters may be discovered. Imaginário narrativo-performático. à filosofia. religion. Teresina /PI.MIRAGENS DO ORIENTE: OS MOUROS MÍTICOS NO IMAGINÁRIO NARRATIVO-PERFORMÁTICO PORTUGUÊS   Barbara Lito ∗ RESUMO A construção do mouro./dez. p. Palavras-chave: Mouros míticos. à religião. Literatura oral portuguesa. entre si e com os demais. Keywords: Mythical Moors. no 0098-15-9.n. Arab studies. em sua multiplicidade composta de vários rostos e histórias. 2015   134 . anthropology and history.                                                                                                                         Barbara Lito é pós doutoranda pelo Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL) e bolsista da Capes – Proc.1. Portuguese oral literature.1. Popular festivities. ∗ Somma. e devida às características contextuais de maleabilidade. Festas populares. objetivamente. A parallel development between field and bibliographical research was carried out. mostra como esses personagens míticos guardam. Narrative-performative imaginary. Essa constituição híbrida foi encontrada nos festejos e narrativas tradicionais portuguesas. O personagem mouro alimentou a investigação com sua capacidade subversiva ante as narrativas “oficiais”. they stand out as important figures in some traditional Portuguese celebrations and narratives. jul. ABSTRAT The aim of this piece is to study the construction of the Moor character. the latter extending into the areas of popular culture. v. both clear similarities and decisive differences. resistência. à antropologia e à história. A pesquisa bibliográfica foi estendida à cultura popular e aos estudos árabes. insubordinação e insistente autorecriação contextual.

desse encontro de diferentes culturas. Teresina /PI. assim como no Brasil. imaginários e festas transitaram (e ainda transitam) e o contato fértil entre espaços culturais distintos.1. especificamente em Portugal. O que se pretende é demonstrar o desvendamento de processos históricos complexos. p. v. se produzem constantemente novas formas de expressão cultural. mas evidencia a amplitude de circuitos culturais em que os personagens. 2015   135   . O fato de existirem ali não explica sua disseminação e permanência no Brasil. que levaram à formação de certas manifestações e o entendimento das transformações de seus significados para os grupos que as adotaram. e pelas festas nas quais estão inseridos não é um esforço fundamentado na preocupação em apontar origens. p. tanto no passado como na atualidade (enquanto seres mitificados) tem por objetivo delinear desdobramentos mais que simplesmente pontuar genealogias. utilizando para tanto narrativas provenientes de várias fontes enunciativas. que os mouros imaginários estão presentes na configuração de identidades que vêm sendo criadas desde muito cedo na Península Ibérica e no Brasil e que têm como traço comum o hibridismo.n. nascido da congregação de diferentes elementos culturais. o que permite também que se criem múltiplas leituras. Em Portugal. A manutenção de um “caráter medieval” referente (ou “moderno”) convive extemporaneamente com as novas facetas trazidas por contextos atuais e até por temas relacionados ao Oriente Médio e aos orientais. a partir das diferentes visões e situações de que as manifestações e o personagem mouro-turco fizeram parte. dessa maneira. Analisar o contexto histórico e seus desdobramentos evidencia também as variadas formas de releitura e ressignificação dos modelos admitidos pelas sociedades em questão./dez. Esse é um ponto chave na medida em que. exterioridades pluriversais (MIGNOLO.         1 INTRODUÇÃO O texto aqui apesentado faz parte da pesquisa desenvolvida durante o doutorado em Letras realizado na Pontifícia Universidade Católica doo Rio de Janeiro – PUC-Rio. Nesse exercício. manifestamente em enunciações populares como festejos. 2007. conforme quem interage e participa do contexto. Assim. formando.1. 11) que dialogam. traçar o caminho feito pelos personagens mouros. a presença de um imaginário diverso acerca do personagem árabe é evidente ainda na contemporaneidade. a constatação da presença dos personagens mouros na Península Ibérica. Tal investigação tem como objetivo analisar a figura do mouro mítico em festas populares brasileiras e ibéricas. jul. em conjunturas determinadas e diversas. 134-145. assim. danças e narrativas. Essas manifestações agenciam as regras Somma. e continuada no Pós-Doutorado em andamento no Instituto Universitário de Lisboa – ISCTEIUL. Não é excessivo dizer.

como o mouro vem sendo imaginado e materializado também na atualidade. usurpadora. num processo posterior. dentre eles José Leite de Vasconcellos (1858-1941) que. é fruto de uma apropriação reconfiguradora de diferentes emblemas. 2005. procurei acompanhar. ao invasor. 350) precisa escrever um longo capítulo para esclarecer sua ótica acerca das invasões árabes e da Reconquista. Aqui.1. o “arcaico e o contemporâneo” se relacionam sincronicamente. p. Para Vasconcellos (1928. em pleno século XX. ligado à Restauração./dez.” (CORREIA. Teresina /PI. diz: A própria Bandeira Nacional portuguesa tem desenhados sete castelos que representam o número dos que foram tomados dos mouros por D. Afonso Henriques. Além deles.1. há também cinco quinas. bem como cinco pontos brancos que simbolizam as chagas de cristo. apropriados ao longo das décadas. à imagem e semelhança da Espanha. que representam os cinco reis mouros vencidos e mortos na Batalha de Ourique. A imagem do povo muçulmano está tradicionalmente associada. p. em Antroponímia portuguesa. Essa batalha foi escolhida. como os trazidos pelos colonizadores. muitos intelectuais negaram a influência e importância da presença árabe na Península. então. 123). Em outra referência. que ‘nada mais hoje resta deles do que a lembrança meio histórica. a uma espécie de símbolo da sua Somma. declarando. jul. Em Portugal. o mesmo Vasconcellos (1982. Em Etnografia portuguesa. Sem pretender dar uma resposta definitiva. meio lendária da sua permanência entre nós’. como ponto nevrálgico da unificação portuguesa. a partir de casos e mentalidades específicos. e por extensão. a partir das perspectivas dos participantes das manifestações estudadas sobre o comportamento e o universo constitutivo dos mouros. A “história”. figura central do chamado “Milagre de Ourique. no imaginário do povo luso-espanhol. v. que convivem e se interpenetram com a realidade contemporânea. a sua presença se esvazia dos traços ameaçadores e passa a configurar uma alteridade capaz de absorver espaços de significação distintos e diversos. além daqueles presentes nas mídias. 2015   136   . política e social. Alexandre Parafita Correia. os árabes ‘não são nossos antepassados. Deslocados para outra situação histórica. que só a fé e a heroicidade dos cristãos puderam combater (PARAFITA. 387). pelos africanos ou pelos próprios imigrantes árabes. 134-145. p.         tradicionais. aos sarracenos. renega qualquer ligação genealógica dos portugueses com os muçulmanos. p. criminosa. 2005. p. estudando os mouros míticos no imaginário rural a partir de textos da literatura popular de tradição oral e preocupado em contribuir com a compreensão e reafirmação da rejeição portuguesa aos mouros. eram estrangeiros de sangue e domicílio’. gente perversa. 127).n. ao tirano e opressor infiel. aos povos bárbaros.

na medida em que inclui o acontecimento de um milagre. Isso porque tal batalha está envolta num quadro belicista controverso./dez. como as canas. e alli os mandou el-rei matar todos. e disse: — Toma. p. 127). de uma cilada com doze fidalgos de sua casa. e elle enviou-lhe alguns captivos. com bandeiras e as adargas embraçadas com grande grita como mouros […] e houve uma grande escaramuça. A predileção divina pelo patriotismo português pretende demonstrar não só que os mouros eram um inimigo comum. que dizem Tablada. ‘Com a vitória de Ourique construiu-se assim um mito nacional.n. está fortemente ligada a um sentimento anti-islâmico. foram também notórios os autos e peças de teatro popular que tinham como temática a cruzada contra os infiéis mouros e turcos. 2015   137   .1. Teresina /PI. com suas lanças nas mãos. e dos outros trinta e sete. veio ao encontro dos portugueses para ajudá-los na vitória. Podemos observar. assim como por toda Europa. v. Os esportes equestres. quando o próprio Cristo. E enviou el-rei Dom Pedro a cabeça de el-rei Vermelho. na passagem escrita por Fernão Lopes (1390-1459). foram geralmente associados à figura do diabo e a todo tipo de encantamento. porque me fizeste fazer má preitesia com el-rei de Aragão. 35) Somma. em pessoa. João II e sua corte.         nacionalidade que. por exemplo. 50) Nos séculos XV e XVI. (LOPES. Aos poucos. todos vestidos de uma maneira de brocados e ricas sedas e muito galantes à mourisca. coadunado também a um forte apelo religioso. quando: El Rei com todos se foi ao campo e indo por ele lhe saiu o Duque D. a el-rei Mafoma de Granada. 134-145. E foi el-rei Dom Pedro o primeiro que deu uma lançada a el-rei Vermelho. vestido em uma saia de escarlata. 2002. e d'ahi a dois dias foi tirado a um campo. elle e trinta e sete cavalleiros mouros. feito por D. eram difundidos pela corte portuguesa. 1895. irmão da Rainha. 2 OS MOUROS PORTUGUESES Em Portugal. p. por isso: pecador. dizendo: — Pequena cavalgada fizestes.1. pela falta de fé deve ser perseguido e punido. p. como na descrição feita por Garcia e Resende acerca de um passeio e almoço no campo. mas também que Portugal é obra de Deus’. Segundo Correia (2005. na Crónica del rei D. — E o mouro respondeu por sua aravia. que também foram expulsos do território português em 1492 foram se mitificando através de inúmeras lendas. e todos os seus á taracena. Manuel. jul. como vimos. (ANDRADE. também se desenvolveu uma imagem do muçulmano como infiel e. Pedro I: E foi el-rei levado preso. p. os mouros reais. que estava em cima de um asno.

legado do papa.n. Os termos “mourisca” e “mouriscada” eram utilizados frequentemente não apenas para designar as manifestações de simulacro de batalha entre mouros e cristãos. em 1571. foi construído um castelo de madeira em que os mouros estavam a defender. João II. 1940./dez. Um exemplo pode ser visto na descrição do inventário de Dom Manuel (1469-1521). Teresina /PI. As encenações do embate entre mouros e cristãos com a presença de embaixadas. são espaços culturais que se aproximam e interagem. em Guimarães. Cumpunha-se de “oito mouros agrilhoados que. Essa festa. se declararam escravos do legado”. mas também utilizados genericamente em danças que eram executadas por componentes vestidos de mouros. citado por Andrade. ocupando cinco páginas da reimpressão de A. como a que aconteceu para celebrar o nascimento do filho de D.         Nessa época. e um viva militar repetindo o nome de sua Magestade e do Sereníssimo Príncipe nascido. descreve o convite a mouros reais que foram recrutados nas mourarias de Portugal para abrilhantar as festas públicas. 193) Em 1757. pelo nascimento do príncipe Dom José. acabou com uma ‘primorosa Mourisca’ Somma. as danças de evocação mourisca também eram muito populares. o cardeal Alexandrino. com ‘chamadas. até mesmo por mouros reais. 98). na beira do rio Tamega. p. Além da mourisca havia então a Cativa que se dançou. dessa maneira. p. através de documentos provenientes do século XVIII. 134-145. descritas em crônicas do passado. Outro exemplo. Braancamp Freire. Pires de Lima recolheu alguns resquícios das festas em trovas colhidas em Santo Tirso: ‘A moda da mouraria/ Dançada é muito bonita/ P’ra dançar a mouraria/ Moça. o que obrigou os turcos a renderem-se prisioneiros de guerra. quando mouros e mouras estavam lá para tocar e dançar na festividade (ANDRADE. Formados os cativos. 2002. se deteram três salvas de artilharia e mosquetaria.1. coreográficas e dramatizadas. p. Naquele momento. v. ergueu-se uma torre que era defendida por mais de duzentos participantes vestidos de mouros. (ANDRADE. independentemente de ação dramática. de saia de chita’ (PIRES DE LIMA. Teófilo Braga. 98). segundo o uso da guerra’. É interessante a presença do elemento da dança na tradição festiva portuguesa. que tinha tantas peças pertencentes ao baile de mouriscas em seu vestuário. já que não é encontrada nas variantes espanholas. p. p. falas e respostas. 2015   138   . dançando a moda mourisca. entrou em Elvas. quando. 2002. e a torre acaba incendiada. por exemplo. descrita numa correspondência analisada por Braga.1. jul. (ANDRADE. A torre acaba explodida. demonstra que as Cavalhadas com mouros e cristãos e as Mouriscas. como percebemos na descrição da comemoração. 2002. fazem parte das festividades oficiais. Na década de 1940. 78). até que acabam rendidos. dois a dois no centro de quatro soldados.

        (ANDRADE. através da recolha de narrativas sobre esses personagens. Reis. Somma. Esses seres podem ter forma humana e. onde também se observava a presença de momentos fluviais (embarcados) e de músicos. […] a fins do século XVI./dez. nomes rudes e etrepitosos que ressoam hoje como um eco. leão. à Virgem Maria ou ao santo patrono. 3 AS MOURAS ENCANTADAS PORTUGUESAS No acervo mitológico da região transmontana o conceito de encanto tem amplitude polissêmica. que são a origem mesma do teatro nacional espanhol. associado a um tesouro. cobras. 2002. Corpo de Deus e aos santos a misturada ingênua de elementos pastoris e alegóricos. que é uma entidade de manifestação plurimorfa. palha. Páscoa. umas gozando de certa regularidade e outras celebradas esporadicamente. 134-145. diabo. notadamente durante o período manuelino. Portugal. fezes de burro. transformarem-se em serpentes. desenvolve algumas considerações. 2015   139   . (ANDRADE. p. Esse teatro. escórias. muitas vezes durante as entradas reais. Alexandre José Parafita Correia (2005).1. em honra de quem se realizam as festas. estátuas de pedra.n. Os hábitos cortesãos foram um modelo difundido pelas classes populares. boi. o que dificulta a sua definição. popularesco. falações e cantorias. velha. figos. Sebastião maranhense). há nelas a conversão e um simulacro de batismo dos mouros que. em que a inspiração marítima é determinante.1. Teresina /PI. relativas ao Advento. v. Ao final. ao mesmo tempo. Natal. danças e comida. de bailados. no adro da igreja ou no terreno escolhido para a festa. sapos. grifo nosso) Os grupos de ofício também promoviam folias pelas ruas. uma vez convertidos. p. entoam os louvores a Deus. 103). ouvindo-se pitorescas vozes de comando. são representadas aquelas peças em um ato. Geralmente consistem em encenações de peças de teatro feitas para serem representadas em meio ao público. sendo nelas também comum o embate entre mouros e cristãos. jul. O núcleo central é uma luta contra os infiéis até a vitória dos cristãos. da nossa passada grandeza. já no século XVI realizava festas. pedras. incorporado às danças realizadas pelos ofícios. adaptado às exigências psíquicas do povo […] se especializou em Portugal […] sobretudo nos dias de Natal e de Reis” em que “assistimos a um animado cenário marítimo: a nau avança por entre a celeuma da marujada. com qualidades sobrenaturais e. Em sua tese de doutoramento. Atualmente. p. cabras. em geral. 2002. carvões. bem doloroso por sinal. mula. A mitologia popular portuguesa também utiliza esse termo encantado. touro negro (como o D. algumas manifestações festivas persistem em diversas aldeias do interior português. 36.

onde um rei mouro. Nesse caso. a figura da moura surge. 209-211). ‘encantou-a na figura de uma serpente./dez. uma voz. Na mitologia portuguesa. tendo auxiliado os cristãos quando tentaram reconquistar o castelo). jul. como uma vítima. 174). guerreiros gigantes etc. p. rios.). Dentre inúmeros exemplos. 40).1. Leite de Vasconcellos faz um estudo acerca das mouras encantadas. monumentos megalíticos e outros espaços simbólicos do meio rural. p. ribeiros. encantados. 134-145. muitas vezes. dificultando ou impedindo o acesso a ele através dessas figuras descritas. 218). considera as mouras encantadas. e sustentam a mesma realidade mítica. grutas. Teresina /PI. 2005. 2005. Para Correia. normalmente vindo de seu pai. Grande parte das mouras foi encantada como forma de castigo. fato que a teria aproximado do personagem da sereia. em Fragmentos de mytologia popular portugueza. Consiglieri Pedroso. definindo-as como entidades condenadas ‘a viver num certo estado e local. 1988. como castigo pela traição da sua filha (que se enamorou de um fidalgo cristão. a moura encantada é uma resignificação do personagem da fada e das interações entre portugueses e árabes. responsáveis por adoecê-los inclusive (PEDROSO. 1881. CORREIA. p. do conjunto de seres encantados identificados no corpus do estudo. recebendo posteriormente um caráter marinho. dentre outras características. p. aproxima-se muito da Mãe d’Água brasileira. (cf. Somma. Percebe-se. provêm de uma raça de seres mágicos. Nesse sentido. 2005. p. que lhe correspondem enquanto transformada. Eles têm por missão guardar tesouros. habitantes de castros. seu dote ou ambos (CORREIA. 1-9). 2005. a grande maioria projeta-se na figura da mulher-cobra. poços etc. Nesse sentido. v. existem também encantados masculinos. apesar de na maioria dos casos terem o gênero feminino. cuja existência varia entre a figura da moura e de seres repelentes. algumas delas repelentes ou. (VASCONCELLOS. O encantado pode também ser escravizado pelo demônio e o desencantamento torna o seu agente senhor do produto encantado. o encantamento acontece como metamorfose para um estado de existência inferior e surge como punição para aqueles que afrontaram os padrões estabelecidos pelas entidades. ainda em 1881. covas. enquanto uma determinada circunstância lhes não quebrar o encanto’. porém. há a lenda do castelo de Algoso. intimidatórias (CORREIA. deixando-a nos subterrâneos do castelo a guardar um valioso tesouro’ (CORREIA. p. p. um ser suplicante. 2015   140   . encantada em lagoas e poços.n. que pode ser uma mulher. 210). nessa mitologia uma postura de ódio em relação aos mouros e de complacência e paixão em relação às mouras. como guardadoras de tesouros ou como seres maléficos que perseguem o homem.         lagarto (como a princesa Doralice).1. Para Teófilo Braga (1995. simplesmente. 144) que recebem maior atenção. Ambos. de igual forma. como divindades femininas das águas (encantadas em fontes. p.

Outra diz que: ‘Próximo do santuário de S. 2005. onde vive Dona Mirra’ (CORREIA. residente de Chaves: Conta o povo que um dia uma mulher muito bela apareceu naquela fonte a um lavrador. as muradelas que se vêem nos montes. furnas etc. p. mesquitas. […] sítio esse que foi habitado dos Somma. os castelos medievais. covas. 2005./dez. 2015   141   . alguns inacessíveis. as pedras milenárias. p. fontes. Deixou por isso lá os bois e o carro. Outra conta que: No rio Sordo. E o ouro nem vê-lo. 186). que as faziam como estratégia de defesa. onde se fala da existência de uma outra cidade subterrânea deixada pelos muçulmanos. O homem ficou cheio de medo e sacudiu a cobra para o chão. jul. 66).1. covas. portanto. Como exemplo mítico. mesmo algumas igrejas que chamam a atenção para qualquer coisa. p. As formas geológicas mais associadas aos encantados são: os castros. onde os mouros entravam com seus cavalos.1. na freguesia de Torgueda (Vila Real). não se trata de uma mulher normal. essas seriam alusões à construção de galerias subterrâneas pelos povos do Islã. 48) Os mouros míticos portugueses também são habitantes-encantados em locais determinados. o que o obrigava a fugir ainda mais. e disse-lhe: – Se vieres aqui à meia noite com o teu carro de bois. em certas noites. quando ia a passar com o seu carro de bois. as pedras escritas. p. Segundo Correia (2005. O lavrador aceitou e à meia noite lá foi com o carro de bois. há um sítio onde o rio se oculta aos olhos por baixo da terra. quem passar na Ilha dos Lagartos ouve gemidos de mulher vindos daquela fonte. 2005. entre outras. Só que. a forma humana e. os penedos com riscos ou sinais. palácios. após este encontro. 116). onde constroem casas. apareceu-lhe uma cobra que começou a subir por ele acima.         Essa situação evidencia que a figura da moura é um ser que adota. p. as antas e mamoas. os pontes velhas. ou quando não se sabe quem as construiu. onde não é possível a vida humana: debaixo da terra ou da água. levá-lo-ás para casa carregado de ouro. (CORREIA. fugindo dali a sete pés. alguém lhe atirava pedras. Teresina /PI. as aras e lápides antigas. Até que morreu. Leonardo de Galafura (Peso da Régua) existe uma mina em pedra e lá por baixo há um palácio com muitas riquezas. É isso que conta Maria Hermínia Tomás. E para o conseguires só tens de me beijar.’ (CORREIA. Esses locais servem de espaço para inúmeras narrativas: ‘Na aldeia de Morais há uma narrativa que conta haver uma entrada para debaixo da terra. oficinas e onde guardam seus tesouros. ao aproximar-se da fonte. dentro de rochas. foi afectado pelas sezões e nunca mais foi o mesmo. Diz o povo que o homem. temos a cidade espanhola de Cáceres. esperando que a beijasse. os penedos onde existem corgos. v. 134-145. salas. É a moura que ainda não foi desencantada e por isso continua a chorar o seu triste fado. E à medida que fugia.n. E também se diz que. os caminhos velhos. as citânias.

é possível nas situações de desencantamento. Os outros dois santos populares celebrados nesta mesma época são São Pedro (no dia 29) e Santo Antônio (no dia 13). João sempre esteve rodeado de um caráter mágico e supersticioso. seduzindo os homens que julgam capazes de tal proeza. como por exemplo. gigantes e animais estranhos. geralmente. 2005. foi muito mal recebida. e muitos são os relatos dos penalizados por ultrapassarem os limites. odores pestilentos. na Espanha. João. Estão também encantados em ruínas e em espaços naturais com alguma peculiaridade no formato: rochas com marcas de erosão. formando o ciclo das Festas Juninas. na maioria das narrativas estudadas. como o das colheitas. que se encontra no período da noite ou durante as festas a S. Teresina /PI. ao passar por lá. p. jul. 134-145. acidentes naturais geométricos. p. utilizando rugidos no interior das cavernas. também são frequentes os mitos marítimos subterrâneos. v. na Lagoa de Cospeito. Segundo Correia: Somma. Existe também um momento oportuno. 2005. Essa inacessibilidade dos espaços encantados. essa data de sua festa foi cristianizada na Idade Média como Festa de São João. a persistência e a ousadia. Relacionado com a festa pagã do solstício de verão na Europa ou do inverno no Brasil. resultante de uma maldição do próprio Jesus que ali foi alvo do desprezo e humilhação dos habitantes (CORREIA. O desencante também impõe a superação de provas. p. e as mouras procuram atrair as atenções de seus desencantadores.         mouros. Algumas regras existiriam unicamente para promover seu desencantamento: é absolutamente necessário não nomear Deus. onde se diz que há uma cidade nessa condição por maldição da Virgem Maria que. como poços no leito dos rios e rochas furadas. Também na Lagoa de Alcaián há uma dessas. no universo mítico-simbólico. Celebrado a 24 de junho. Os encantados mouros portugueses geralmente preferem as atividades noturnas e protegem seus lugares através de meios intimidadores. por exemplo.1. depressões no terreno. em pleno solstício do verão europeu. 2015   142   . o S.n. agrupamentos rochosos./dez. onde há vilas e cidades submersas. 290 e 283). por exemplo. a negação do convívio e a obstrução à curiosidade de estranhos são vistos como ferramentas de proteção. 166). Seus rituais festivos têm as marcas de uma inspiração esotérica associada ao “mito do sol” e traduzem a relação dos ciclos solares com os ciclos que regem o ritmo da vida popular. entre outros. Na região da Galícia. a Virgem ou os santos no decurso da operação.1. O convívio entre encantados mouros portugueses (com seus segredos e tesouros) e humanos. sempre criadas pelas entidades encantadas. onde tinham mesquita e grandes salas por baixo de uma penedia quase inacessível e muito despenhada (CORREIA.

pois: Somma.n. suas batalhas são tidas como meios para desalojar os inimigos de fé do espaço que reclamam como sendo seu. ser entendida como uma miragem ‘inventada’ pelo homem ocidental que. nessa forma. perseguição e dominação. primitivo. Naquela época. Os mouros seguem aparecendo ainda como antagonistas escolhidos conscientemente. no Brasil. acabam mantendo intrinsecamente. p. Além de detentores de poderes exóticos e de imensas riquezas. Por outro. a abordagem mítica muitas vezes altera e contraria o rigor historiográfico (CORREIA. Ainda hoje o assunto é relevante. 134-145. associada a danças eróticas e a outras exuberâncias corporais. Assim. (2005. no seu imaginário. jul. 2005. Porém. p. coragem e sangue frio para beijar o ser encantado. os portugueses dos descobrimentos tenham também projectado. construiu. bruto e fanático. assim. constroem em seu entorno relatos inventivos que não são simplesmente promoção e resgate de um tema histórico. Teresina /PI. Era o herege alvo de difamação. Daí que. Com isso. como reconhece Gilberto Freire (1936) e já o testemunhava Pero Vaz de Caminha. o antagonismo étnico-religioso entre cristãos e muçulmanos. Dessa maneira. que dialogam com os participantes e o público./dez. voluptuosa. muitas vezes. por um lado. A utilização dos relatos orais. na forma mais repugnante que adotar. desde tempos longínquos. na imagem das índias belas e sensuais banhando-se nos rios. 159). com perfis e motivações elaborados. retrógrado. 4 CONCLUSÃO As expressões culturais da oralidade que representam conflitos entre mouros e cristãos.1. que percorreu um longo caminho desde a Idade Média até hoje.         A moura encantada pode.1. o embate é necessário para manter sua própria sobrevivência nesse espaço. 175). 2015   143   . um arquétipo de mulher oriental. quando aproximados aos seus referentes históricos e assim reconhecidos como os invasores da Península Ibérica. além de discrição para não violar o segredo compactuado. tem como função a desconstrução da imagem negativa do muçulmano. como característica das narrativas populares. são imprescindíveis. v. dessa maneira. na região transmontana os mouros também são tidos como guerreiros. p. mesmo quando mitificados. a intolerância trazida pelo predomínio da cristandade e pelo etnocentrismo produziu imagens do diferente de si – o outro – como irracional. atitudes legitimadas por discursos político-religiosos baseados numa suposta superioridade cristã e europeia ante os povos conquistados. uma imagem envolta em misticismo sexual que o seu imaginário levava das mouras encantadas.

v. França (5 milhões). p. 134-145. p. canibais etc. II. Crónica del rei D.. e na região Sul (9. Na sociedade atual./dez.] na mídia secular. Somma. Desses.025 muçulmanos (RIBEIRO. para além das fronteiras conhecidas. foram representados em mapas e literatura sobre a América. Danças dramáticas do Brasil.1. 2005. ainda é possível encontrar opiniões impregnadas por esta dimensão imaginária. Alemanha (2. 2011. Lisboa: Dom Quixote. com destaque para São Paulo.953). Mouros míticos em Trás-os-Montes: contributos para um estudo dos mouros no imaginário rural a partir de textos da literatura popular de tradição oral. complexificando o imaginário fantástico ocidental. verificou-se a presença de 27. CORREIA. Pedro I. Nos séculos XV. Contos tradicionais do povo português. BRAGA. 140). algumas das expectativas teratológicas foram dilatadas para os habitantes da América. pois apesar de quase um bilhão de adeptos espalhados pelo mundo. seres fantásticos e mágicos que supostamente existiam no mundo real. 2015   144   . Disponível em: <http:// cvc. Mário de. Alexandre José Parafita. de acordo com o IBGE. percebemos a atualização dos bestiários medievais e das lendas da Antiguidade. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. a maior concentração encontra-se nas regiões Sudeste (13.062 muçulmanos. 2002. ou cerca de 25% da população mundial. com 12. 2. As imagens estereotipadas do outro. gigantes. 1995. Esse universo imaginário se estendeu para além-mar. Teófilo. Belo Horizonte: Itatiaia.590). com 6. html? start=30>. Hoje o islã já é considerado a segunda maior comunidade religiosa em países como Estados Unidos (cerca de 6 milhões de muçulmanos). foram povoadas de fantasias de homens selvagens e lascivos. Esses seres mitológicos legitimavam a conquista. no Censo Demográfico de 2000. na qual figuram alusões ao terrorismo e ao fundamentalismo..pt/ conhecer/ biblioteca-digital-camoes/ cat_view/59-literatura. Com a descoberta do Novo Mundo. pouco se sabe realmente sobre ele. jul. LOPES. Edição de 1895.         [.5 milhões) e Holanda (500 mil).1. Acesso em: 15 mar. Tese (Doutorado) em Cultura Portuguesa. elaboradas entre o final da Idade Média e o início da Idade Moderna. XVI e XVII. que reivindica o estatuto da racionalidade. Teresina /PI. 2011. p.n. com destaque para o Paraná. quando seres acéfalos. em território europeu e no Oriente. homens animalizados.instituto-camoes. amazonas. o islã cresce e espanta. 50. ed. já que o padrão europeu era o paradigma do admissível e tudo o que dele se distanciasse era entendido como monstruosidade ou pacto demoníaco. Vol. Fernão. E entre nós. monstros. REFERÊNCIAS ANDRADE. gigantes.239 brasileiros que se declararam seguidores do islã.

Mouros judeus e negros na história de Portugal. set. Alexandre. 91. 22. Lisboa: Dom Quixote. Etnografia portuguesa. Lídice Meyer Pinto./nov. Walter D. Teresina /PI. A.n. José Leite. PARAFITA. RIBEIRO. 1940. Desobediência Epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política. Porto: Gailivro. jul. jan./jun. José Leite. Porto: Livraria Civilização. n. J.1. VASCONCELLOS. v. Consiglieri. 134-145. Contribuições para uma mitologia popular portuguesa e outros escritos etnográficos. Negros islâmicos no Brasil escravocrata. n. 2006. 1881. PIRES DE LIMA. 1988. São Paulo. p. p. 11-41. Lisboa: Imprensa Nacional. 139-152. Porto: Typographia Nacional. 1960. PEDROSO. VASCONCELOS. 2007. A mitologia dos mouros. Somma.1. Revista Gragoatá. 2015   145   . p. Revista USP. 2011.         MIGNOLO./dez. Fragmentos de mythologia popular portugueza.

Kant analisa as condições essenciais ao estabelecimento de uma paz duradoura entre as nações. UN. v. democratic state law. able to mediate the relations between nations.UFPI). national sovereignty. advocates the need to establish a supranational federation of law. tolerance. exerted on contemporary international law and on the emergence of major supranational institutions of law: the League of Nations and United Nations. Advogado (OAB – PI 10197). Lattes: http://lattes. such as international agreements and conventions.“À PAZ PERPÉTUA” E AS ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS DE DIREITO   Wilker de Carvalho Marques* RESUMO O presente trabalho resulta de uma pesquisa bibliográfica realizada entre os anos de 2011 e 2012. international trade.                                                                                                                         *    Professor de Filosofia do Instituto Federal do Piauí – Campus São Raimundo Nonato." the philosopher Kant. disarmament. ethnocentrism. International Law. etnocentrismo. ONU. Palavras-chave: Filosofia da Direito. drawing a parallel between these theses and international law and to demonstrate its importance for the appearance of these international organizations. defende a necessidade de se instituir uma federação supranacional de direito. tais como: acordos e convenções internacionais.br/7256548964188021 Somma. jul. Além disso. Mestrando do PPGEE (Programa de PósGraduação em Ética e Epistemologia da Universidade Federal do Piauí . Kant analyzes the conditions essential to the establishment of a lasting peace among nations. 2015 146 .1. comércio internacional. do filósofo Kant. estado democrático de direito. human rights and democracy. Nele se analisa a influência que a obra “À Paz Perpétua”. colonialism and imperialism. soberania nacional. capaz de intermediar as relações entre as nações. ABSTRACT This work results from a literature search conducted between the years 2011 and 2012.1. tecendo considerações sobre conceitos importantes ao direito internacional contemporâneo. Direito Internacional. estabelecer um paralelo entre estas teses e o direito internacional e demonstrar sua importância para o surgimento destas organizações internacionais. desarmamento. exerceu sobre o direito internacional contemporâneo e sobre o surgimento de importantes instituições supranacionais de Direito: a Liga das Nações e a Organização das Nações Unidas. Direitos Humanos e Democracia. Moreover. Neste livro. p. Especialista em Filosofia e Docência no Ensino Superior. tolerância. colonialismo e imperialismo. 146-156.n. We aimed to investigate the essential theses of the work. 1795. Keywords: Philosophy of Law. Teresina /PI. with considerations on concepts important to contemporary international law. In it we analyze the influence that the work "To Perpetual Peace. de 1795.cnpq. In this book./dez. Objetivamos investigar as teses essenciais da obra.

Teresina /PI. Mas também uma série de considerações que serão de grande interesse à seara dos Direitos Humanos. encontra mais espaço em todo o mundo.1. A discussão desse tema é de relevância patente. p. escrita pelo filósofo Immanuel Kant e publicada originalmente em 1795. percebe-se o florescer de algumas preocupações que resultariam importantíssimas para o mundo atual. Escrita em uma época fortemente marcada por transformações político-sociais. uma vez que. nas páginas desta pequena obra. Como importante fonte historiográfica. fatalmente. a construção e a manutenção da paz entre as nações. escrita sob a forma de um contrato. Como reflexão acerca do Direito. a cada dia. especialmente as duas guerras mundiais. a obra enumera os princípios que deveriam ser levados em consideração no intuito de concretizar uma paz duradoura entre os povos. possibilitando um “direito das gentes”. jul. uma vez que. não se tem somente uma abordagem político-filosófica. cuja reflexão. e do flagelo que a guerra representa. esta obra propugnou os princípios fundamentais que tornariam possíveis. sobre o surgimento da Liga das Nações e da Organização das Nações Unidas – ONU. suscita uma indagação fundamental: em nome da paz seria possível que povos soberanos e autônomos se submetam a um conjunto de normas e princípios supranacionais? Como ideal de prática. a obra transparece fielmente o contexto do “século das luzes”. a soberania dos povos.   1 INTRODUÇÃO O presente trabalho versa sobre a influência que a obra “À Paz Perpétua”. muitos estudiosos e autoridades voltaram seus olhares para os conceitos e princípios propugnados na obra de Immanuel Kant (DURANT. v. Assim. Nem somente uma abordagem relativa ao Direito Internacional Público.1. Em termos filosóficos. sob a óptica do filósofo. 1950)./dez.n. Em decorrência dos conflitos armados deflagrados no século XX. com suas conquistas sociais. a democracia. a exemplo. exerceu sobre o Direito Internacional contemporâneo e. muitas são as indagações advindas do texto kantiano: qual o valor da paz? A paz pode ser conquistada com o uso da força? A difusão cultural possibilitada pelo comércio pode ser um instrumento para a paz? E outras de igual monta. o Iluminismo. a tolerância e a dignidade da pessoa humana. Importa lembrar que o filósofo alertava os governantes para o fato de que a guerra pode representar um grande empecilho à própria sobrevivência do homem. consequentemente. 146-156. considerando-se que cada Estado busque tão somente a defesa de seus Somma. 2015   147   .

quando já dono de uma significativa produção literária.   interesses. bastante religiosa. 1990). 146-156. Voltaire. 2010). porém relevantes. além da Antropologia. 2004). entretanto. analisa fenômenos naturais e sociais. entre outros. aspectos concernentes a Immanuel Kant e sua época. A sua conjuntura social. 2015   148   . Dalambert e Condorcet. Sua mãe. que se apresentam como instrumentos de limitação do poder absoluto dos reis e de negação de todas as formas de discurso de autoridade. (DURANT. Concluindo o seu curso superior com a idade de 23 anos.1. Exatamente por isso. Kant defende veementemente o uso público da razão. Kant nascera em Königsberg. o que lhe traria alguns percalços (REALE. ANTISERI. com as transformações advindas da Revolução Francesa e a efervescência do pensamento de grandes personagens como Montesquieu. impondo-lhe uma severa austeridade moral. o que lhe impediria até de lhes custear o sepultamento (REALE. Nesse sentido. a Cosmologia e a Física. característicos de um passado não tão distante. jul. o filósofo passaria por muitas dificuldades de ordem pessoal.1. 1950). a Pedagogia. Embora não tenha vivido de perto a Revolução de 1789. Kant iria tecer uma análise rigorosa da religião. como a Educação. Em contraposição. com a morte de seus pais e sua situação de insolvência.n. ANTISERI. Prússia em 1724. Diderot. v. teve forte influência sobre sua formação. é muito importante descobrir as condições em que vive um determinado teórico. 1990). Rousseau./dez. Kant se vê entusiasmado com os rumos que ela possibilita à sociedade e. incitava-o à reflexão filosófica e política. tanto na dimensão política como moral (KANT. a racionalidade como parâmetro de pensamento e de ação. Nesta época. Teresina /PI. haveria sempre mais investimentos em projetos armamentistas e em preparo e manutenção da prontidão para os eventuais conflitos armados. já iniciara sua carreira literária. Ironicamente. e. confrontando a muitos de seus contemporâneos. sobretudo. analisaremos aqui alguns poucos. p. É exatamente neste sentido que esclarece o filósofo: Somma. quando se intenciona entender a sua concepção de pensamento. 2 O AUTOR E SEU TEMPO É notório o entendimento de que a construção intelectual de um homem estará sempre indelevelmente relacionada ao seu entorno histórico-social. a Geografia. com a ideia de liberdade e de direitos do homem. o Medievo (BOBBIO. em suas primeiras obras.

deixando um inestimável legado intelectual. a Estética. de 1795. Com a morte de Frederico II. com a edição de suas três críticas1. 3 ASPECTOS ESSENCIAIS DE “À PAZ PERPÉTUA” O opúsculo “À Paz Perpétua”./dez. que o tinha em grande conta e o protegia e que permitia um considerável grau de liberdade entre os seus súditos. em síntese. e) nenhum Estado deve imiscuir-se com emprego de força na constituição de outro Estado. de 1788. Kant vem a falecer em 1804. os seis artigos preliminares encerram. O Grande. Kant enfrentou sérias represálias às suas ideias. c) os exércitos permanentes devem desaparecer. que abrange temas fundamentais à Filosofia e ao Direito como a Metafísica. 1997. A religião.1. querem comumente subtrair-se a ela. a sua estrutura dividida em artigos. relacionadas aos compromissos mútuos necessários à realização e à manutenção da Paz entre as nações. que analisa o fenômeno estético. a “Crítica da Razão Pura”. os Direitos Humanos e o Direito Internacional.n. f) não deve haver hostilidades que tornem impossível a paz futura. que a razão outorga somente àquilo que pode suportar a seu exame livre e público (KANT. 5). que versa fundamentalmente sobre a Epistemologia. de maneira muito conveniente. dentre outros. b) nenhum Estado deve poder ser adquirido por outro. Terminadas essas admoestações inicias. ou um contrato. Sua filosofia política é esparsa. Após uma obra muito profícua. apêndices e suplementos. as seguintes ideias: a) não se deve em um tratado de paz. deixar lugar para aspectos secretos que ocasionem guerras futuras. mediante sua majestade. Inicialmente. 146-156. Somma. a “Crítica da Razão Prática”. a Ética. a Religião. o filósofo estabelece. rei da Prússia. Percebe-se. portanto. v. foi muito constrangedor e perturbante (DURANT. a saber: a) o direito público é caracterizado                                                                                                                         1 As “Críticas” formam o conjunto essencial do pensamento kantiano. Os artigos se subdividem. para ele. 2015 149     . a Epistemologia. cujo objeto é a Ética. destacase o opúsculo “À Paz Perpétua”. a Política. em preliminares e definitivos. Dentre elas.   Nossa época é a verdadeira época da crítica. foi redigido sob a forma de um tratado. e a legislação. a Moral e o Direito. à qual tem que tudo submeterse. 1926). Mas então provocam contra si justa suspeição e não podem reclamar reverência sincera. o que. de 1790. mediante a sua santidade. três artigos definitivos. na segunda parte da obra. de 1781. objeto maior da análise deste trabalho. jul. p. p. de modo muito didático. tendo realizado uma verdadeira revolução no âmbito das ideias filosóficas. Teresina /PI.1. d) não se deve fazer dívida pública para financiar conflitos exteriores do Estado. e a “Crítica dos Juízos Estéticos”. espalhada em diversas obras.

é imperioso evitar que a riqueza de algumas nações as coloque em situação de algozes daquelas que são desprivilegiadas e lhes dê direito de interferir na constituição de outrem. ela deve ser justa e os oponentes devem obedecer aos princípios da honestidade e da boa fé. Para o filósofo. procuraremos nos desviar. em essência. aquilo que foi avençado e. Um deles está relacionado à honestidade e transparência nos contratos internacionais. inicia-se com a constatação de que o Homem. sem jamais fazer uso de subterfúgios imorais. estratagemas desonrosos. Além desses nove pontos essenciais. de algumas questões. há uma série de preceitos éticos que as nações devem assumir. a defesa daquilo que.n. em prol da paz permanente. admite-se a inclusão de cláusulas secretas. analisadas no texto kantiano. Para Kant. d) o segundo apêndice: “Sobre o acordo da Política com a moral segundo o conceito transcendental no direito público”. A análise dos requisitos mais importantes para a concretização da paz. Teresina /PI. que venham a posteriormente se revelar prejudiciais a uma parte ou a terceiros.1. Assim. se houver a extrema necessidade de uma guerra. c) o primeiro apêndice: “Sobre o desacordo entre a moral e a política a propósito da Paz Perpétua”. tanto quanto possível. chamaríamos em Direito Internacional Público de “Princípio da Soberania dos Povos” e “Princípio da Autodeterminação dos Povos”. que impossibilitam a defesa do rival. Percebe-se aí uma contrariedade em relação ao sistema imperialista-colonialista que imperava na Europa. fica evidente no texto. Para os objetivos deste trabalho. troca doação ou a herança em benefício de outrem. v. Além disto. tornando o período de paz mais oneroso e instável que o conflito em si. a obra se estende ainda na análise de dois suplementos e dois apêndices: a) o primeiro suplemento se chama “Da Garantia da Paz Perpétua”./dez. em nenhuma hipótese. Assim. 146-156. deve valer. estando mais no ambiente da Ética. posteriormente. entre as nações. Do mesmo modo. b) o segundo suplemento se chama “Artigo Secreto para a Paz Perpétua”. tem uma natureza belicosa e hostil.   essencialmente na fórmula: a constituição civil em cada Estado deve ser republicana. que da Filosofia Política e Filosofia do Direito propriamente. conforme a tese Somma. p. b) o Direito das Gentes deve ser fundado sobre um Federalismo de Estados livres. jul. c) o direito cosmopolita deve ser limitado às condições da hospitalidade universal. que Kant chamará de artigos definitivos para a paz perpétua. que somente de modo transverso vêm a se relacionar com o problema deste.1. 2015   150   . é essencial que nenhum Estado possa ser objeto de venda. Também é descabido que se invista tantos recursos e tantas vidas humanas no preparo e prontidão para a guerra.

é egoísta e busca sempre a satisfação dos seus interesses. Isto possibilitaria a viabilidade de uma espécie de Constituição Principiológica Supranacional. conforme recomendara o filósofo. a Ética e o Direito devem regular todas as dimensões da vida humana. a Liga das Nações. necessária se faz uma instituição supranacional de direito. Teresina /PI. uma Federação de Estados livres. e constituindo o cerne da concepção que seria chamada “Idealismo” (SALDANHA.1. Para Kant. 2006). inclusive. 2015 151     . o parâmetro de conduta das relações sociais. em estado de natureza. ressurgem . só se torna possível se cada povo tomar para si uma constituição republicana – o que hoje equivaleria a dizer: que cada povo se constitua como um Estado de direito. e. capaz de buscar o bem de todos. Em tais circunstâncias. em todas as circunstâncias. O DIREITO INTERNACIONAL E A CRIAÇÃO DE INSTITUIÇÕES SUPRANACIONAIS DE DIREITO O século XX inicia com uma crise internacional.n. Impacta a tecnologia desenvolvida no sentido de construir armas de grande potencial de destruição (AQUINO. “À Paz Perpétua” de Immanuel Kant.   hobbesiana2. não foram totalmente condizentes com os interesses políticos dos Estados Unidos. e o Congresso Federal americano acabou por                                                                                                                         2 Para Thomas Hobbes. as relações entre as nações soberanas. Como resultado. em especial. o homem. de que as normas e os princípios de direito devem ser. uma Federação de Estados Livres. Neste viés idealista. explode a Primeira Guerra Mundial e o mundo se vê ante um cenário de destruição sem precedentes. de 1795. uma liga de nações. 4 “A PAZ PERPÉTUA”. Somma. datada de 1748. e concretizadas nos princípios norteadores da Liga das Nações. 2008). 146-156. o então presidente dos Estados Unidos da América. Ironicamente./dez. considerada utópica por muitos positivistas radicais. obras como “O Espírito das Leis” de Montesquieu. no entanto. capaz de limitar – ou delimitar – os poderes envolvidos nas relações internacionais entre os povos sem. o idealismo parte da concepção. Thomas Woodrow Wilson (1856 – 1923). p. jul. Assim. em 1919. uma válvula de escape. contudo. ferir-lhes a autonomia e a soberania (ANDRADE. muitas das ideias defendidas por Woodrow Wilson.1. v.tornando-se como um norte para o pensamento político. MELANIE. participando ativamente da fundação de. 1995). A existência de tal organização..Assim. tornou-se um grande entusiasta e defensor das ideias propugnadas no pensamento kantiano.

Mas a própria instituição é.. expressas por pensadores como Grotius. segundo Henkin (1990 apud PIOVESAN et al. 2015   152   . a realização do mais importante preceito exposto em “À Paz Perpétua”: o Direito Internacional não pode prescindir de uma federação de Estados livres. logo o mundo perceberia que ela não foi suficiente para a concretização de uma segurança na paz entre os povos. constituindo-se em um norte para as providências essenciais à paz. com o fito de evitar um novo conflito ainda mais devastador. p. cinquenta países se reuniram em solo americano. do livre comércio. um clima de relativo otimismo diplomático. a Liga das Nações é a concretização de uma nova perspectiva da realidade internacional. mas as hostilidades foram muito mais acirradas e as consequências incalculavelmente mais desastrosas (AQUINO./dez. de uma sociedade mundial pacífica e cooperativa. Nesta conjuntura de pesar. Teresina /PI.n. 146-156. coma eclosão da Segunda Grande Guerra. 2008). o relevante papel que ocupam os valores da Democracia. explicitaram-se as clássicas vontades. Em 1945.   indeferir a participação do País nos quadros daquela instituição. p.1. Ironicamente. 2010) tem enorme relevância para o Direito Internacional. Assim. nos seguintes termos: O direito internacional pode ser classificado como o Direito anterior à Segunda Guerra Mundial e o Direito posterior a ela. em 1939. cresce ainda mais a urgência de se efetivar o programa idealista de uma organização supranacional de Direito.103): Criada após os intensos acontecimentos de 1914-18. Embora tenha se estabelecido. na cidade de São Francisco. ocasião em que fora redigida a Carta das Nações Unidas. em 1945. que perdurou somente até 1946 (SALDANHA. simbolizadas pela Carta das Nações Unidas e pelas suas Organizações. Abade de Saint Pierre e Immanuel Kant. Observando os objetivos e princípios da Liga das Nações. Neste sentido. Era uma defesa da paz através da justiça. v. com o surgimento da Liga das Nações. 1995). com vistas à preservação da civilização ocidental. que. tratado internacional que faria nascer a maior instituição supranacional de direito jamais vista: a Organização das Nações Unidas – ONU. em especial. de um direito internacional. a vitória dos Aliados introduziu uma nova ordem com importantes transformações no Direito Internacional.1. Com sua organização. o mundo não veria simplesmente a repetição dos eventos vividos no conflito anterior. é fácil perceber a tendência idealista de inspiração kantiana. do Estado de direito e da autonomia e soberania das nações. Somma. afirma Saldanha (2008. jul. em que se pode constatar não haver vencedores. já que os custos da vitória em vidas humanas são tão gigantescos. MELANIE. muito claramente.

na dignidade e no valor do ser humano. e a promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade ampla. O Homem. que devem ser honrados acima de tudo. o poder normativo dos acordos internacionais. encontram-se. trouxe sofrimentos indizíveis à humanidade. pela aceitação de princípios e a instituição dos métodos. e a prática da tolerância entre os povos. presente./dez. e reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem. Teresina /PI. faz com que acredite queaquele é o seu destino maior e sua contribuição mais valiosa à pátria (SALDANHA. jul. muitos deles frutos. (INTERNACIONAL.   Com o objetivo precípuo de promover um estado de paz que efetivamente seja duradouro. a igualdade de importância das nações grandes e pequenas. submetido a um intenso processo de desumanização que. assim. assim como das nações grandes e pequenas. e uniras nossas forças par a manter a paz e a segurança internacionais. denunciando que o soldado é. e a garantir. na Liga das Nações e explícito à Carta das Nações Unidas. MELANIE. 1945. portanto. p. em regra. como objetivo. resolvidos a preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra. para que possam efetuar seu desenvolvimento. em última análise. um instrumento de guerra que só vale enquanto pode empunhar uma arma. e a estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito às obrigações decorrentes de tratados e de outras fontes de direito internacional possam ser mantidos. de obras fundamentais do pensamento idealista. como bons vizinhos. das potências bélicas mundiais.. o filósofo expressa uma preocupação eminentemente humanista. é o preceito kantiano de desarmamento gradual. a fé na racionalidade e na razoabilidade do homem. Como pano de fundo da questão do desarmamento. v.1. alijado das decisões acerca da guerra ou da paze reduzido a um mero instrumento nas mãos do Estado. mas efetivo. que por duas vezes no espaço da nossa vida. Somma. E para tais fins. e oferecer alguma tranquilidade e segurança às diversas nações do Mundo. praticar a tolerância e viver em paz. uns com os outros.1). O pensamento kantiano. 2008). a ONU nasce lastreada por uma série de princípios.a empregar um mecanismo internacional para promover o progresso econômico e social de todos os povos (. os povos das Nações Unidas. inclusive. 146-156. conforme se percebe no Preâmbulo da Carta das Nações Unidas: Nós. e o espírito idealista. em termos do paralelo que se está aqui estabelecendo. na igualdade de direitos dos homens e das mulheres.. implícitos ao texto do preâmbulo da Carta das Nações Unidas em diversos pontos: na intensão de proteger as gerações vindouras do flagelo da guerra. especialmente o opúsculo “À Paz Perpétua” de Immanuel Kant. que a força armada não será usada a não ser no interesse comum. p.n. o combate ao abismo que se estabelece entre nações ricas e pobres.1. Essencial também. 2015   153   .).

uma vez que. b) fomentar o progresso político. sempre juízo dos objetivos acima expostos e sob-reserva das disposições do Artigo 80. o surgimento de importantes instituições supranacionais de direito público. uma das ações da comunidade internacional de direito para que se tornem efetivos esses preceitos é o instituto do Sistema Internacional de Tutela. como ainda hoje precisa. defende a necessidade de que as nações mais ricas sejam impedidas de. p. (INTERNACIONAL. 76 da Carta das Nações Unidas: Art. 2015   154   . a defesa exaustiva dos direitos humanos em todas as dimensões imagináveis à época. Adamais. sexo. para estes últimos. conforme se pode verificar no art.9). Teresina /PI. inclusive. a ONU precisava. e d) assegurar igualdade de tratamento nos domínios social. e. os ambientes da Filosofia do Somma./dez. lastreadas neste poder econômico. 5 CONCLUSÃO O filósofo Immanuel Kant. cuja produção intelectual teve grande impacto em sua época. 76 . Desta forma. sufocarem as demais. 146-156. igual tratamento na administração da justiça.   Evidentemente. percorrendo. língua ou religião e favorecer o reconhecimento da interdependência de todos os povos. c) estimular o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais para todos. constitui-se em um autor muito recorrente em nossos dias. encontram profundas raízes no pensamento idealista-kantiano. em larga medida. boa parte dos princípios fundamentais do Direito Internacional contemporâneo.Os objetivos básicos do sistema de tutela. econômico e comercial para todos os Membros das nações Unidas e seus nacionais e. social e educacional dos habitantes dos territórios tutelados e o seu desenvolvimento progressivo para alcançar governo próprio ou independência. sem distinção de raça. de acordo com os propósitos das Nações Unidas e numerados no Artigo1da presente Carta serão: a) favorecer a paz e a segurança internacionais. Neste sentido.1. em muitos pontos da obra analisada. v.n.1. refletida na Carta da ONU e nos documentos posteriores propugnados por esta organização internacional de direito. Sua obra visita aspectos extremamente atuais e relevantes. econômico. como mais convenha às circunstâncias particulares de cada território e de seus habitantes e aos desejos livremente expressos dos povos interessados e como for previsto nos termos de cada acordo de tutela. constituiu-se em uma preocupação do filósofo. de instrumentos eficientes para a concretização desses princípios idealistas kantianos. p. 1945. em especial a Liga das Nações e a Organização das Nações Unidas. Neste aspecto também se deve estabelecer o paralelo com o filósofo. jul.

  Direito.A Era dos Direitos. In: WEFFORT. obra escrita quando o filósofo contava com setenta e um anos. AQUINO. Porto Alegre: L&PM. 1997. O opúsculo “À Paz Perpétua”. 1995. como a dignidade da pessoa humana. e desenvolvendo os contornos de algumas questões basilares da contemporaneidade. Nova ed. A filosofia de Emanuel Kant ao seu alcance. I. que servirão de ponto de apoio para muitas políticas internacionais no século XX. Rio de Janeiro: Edições de Ouro. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico. São Paulo: Nova Cultural. de C. Teresina /PI. Tradução Carlos Nelson Coutinho. fundamentando a concepção idealista. 32. S. constituindo-se em um itinerário de medidas. 1950. Mas são uma demonstração cabal de que. São Paulo: Ática. 2010. do Direito Internacional e dos Direitos Humanos. ocupa espaço privilegiado na discussão das condições de existência e validade de um Direito Internacional voltado para a manutenção do estado de Paz. 2015   155   .Crítica da Razão Pura. Tradução Marco Zingano. Somma. p. Tradução Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. R. 11. 2004. a obra do filósofo Immanuel Kant permanece como um paradigma de raciocínio na busca deste ideal pelas gentes e pelos governos em todo o mundo. W. Kant: a liberdade. História das Sociedades: Das Sociedades Modernas às Atuais.1. o homem tem a capacidade de sentar-se à mesa e debater os seus problemas de modo racional. como a Liga das Nações e. Lisboa: Fundação CalousteGulbenkian. Evidentemente. 146-156. KANT. Rio de Janeiro: Elsevier. ______. A história da filosofia. REFERÊNCIAS ANDRADE. jul. 2006. o surgimento de instituições supranacionais de direito. o indivíduo e a república. Os Clássicos da Política. não foram suficientes para que a humanidade encontre um estado garantido de paz. ed. BOBBIO. a liberdade. v. a Organização das Nações Unidas. DURANT.1. N./dez. L. a democracia e a paz. 1926. Desta forma. posteriormente. Francisco C. ed. mesmo partindo da evidente certeza de que a paz perpétua ainda não é uma realidade.n. conforme Kant. R. recomendações e princípios. de. ______. À Paz Perpétua.

O Idealismo e a Carta da ONU. SALDANHA. Disponível em: <http://unicrio.1. p. MELANIE. 2015   156   . W. Somma. O que é Esclarecimento. TraduçãoPedro Caldas. Teresina /PI. Textos básicos de Ética: de Platão a Foucault. REALE. São Paulo: Folha de São Paulo.n. de A. M.1.. Carta da Organização das Nações Unidas. 2012. E. Acesso em 01 nov. História da Filosofia: do humanismo a Kant. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1945.   ______.. In MARCONDES. 1990. WILSON. São Paulo: Paulus. Curitiba: Juruá. Discursos que Mudaram o Mundo: a paz mundial. 2007./dez. 146-156. D. G. D. ANTISERI.org.pdf>. ONU. jul. 2010.br/img/CartadaONU_VersoInternet. 2008. v.

com   ∗ Somma. jul. Keywords: Literature. starting from the assumption that literature is loaded with art elements socio-cultural-historical. Especialista em Linguística Aplicada à Educação pela mesma instituição./dez. Comics. cujo objetivo é analisar quais as (possíveis) implicações dessa adaptação para jovens leitores. Palavras-chave: Literatura. p. The results point to some changes in the essence of the original work that prevent the young reader ownership of the elements mentioned. partindo-se do pressuposto de que a literatura é arte carregada de elementos sócio-histórico-culturais.1. E-mail: patty_gnr@hotmail. Adaptation. Teresina /PI. Adaptação. Atualmente é professora de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental II na rede particular de ensino no município de Timon-MA.n.1.MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS E SUA ADAPTAÇÃO À HQ: (POSSÍVEIS) IMPLICAÇÕES PARA OS JOVENS LEITORES Patrícia Maria da Conceição Silva Santos ∗ RESUMO Este artigo tem por objeto de estudo a adaptação de Memórias Póstumas de Brás Cubas em História em Quadrinhos. v. ABSTRACT This article aims to study the adaptation of the Mémórias Póstumas de Brás Cubas in Comics. História em Quadrinhos (HQ). whose goal is to analyze the (possible) implications of such adaptation for young readers. Trata-se de um estudo comparativo e interpretativo desenvolvido a partir da análise de pontos convergentes e divergentes entre a obra literária brasileira adaptada ao gênero HQ da editora Escala Educacional e a obra original. 2015   157 .                                                                                                                          Graduada em Licenciatura Plena em Letras Português pela Universidade Estadual do Piauí. This is a comparative and interpretative study developed from the analysis of convergent and divergent points between the Brazilian literary works adapted to gender comics by editora Escala Educacional and original work. Os resultados apontam para algumas alterações na essência da obra original que impossibilitam ao jovem leitor a apropriação dos elementos mencionados. 157-169.

antes praticada como entretenimento.1. a internet com suas poderosas redes sociais entre outras. Quanto ao conteúdo não foi diferente. v. foi se desenvolvendo cada vez mais. A qualidade da imagem. o poeta. o botânico francês Georges ("Christophe") Colomb. p. passando em seguida a incorporar outros temas que refletiam mudanças ocorridas na sociedade. a HQ possibilita a adaptação de clássicos da literatura.       1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS A História em Quadrinhos (HQ) é relativamente recente em nossa sociedade. A leitura de obras literárias.n. A leitura. p. Há muito tempo o cinema e o teatro transformam a linguagem literária em novas formas de linguagem cada uma com suas particularidades. Dessa forma. 2015     158   . incluindo os clássicos. afinal como afirma Marcuschi (2012). Teresina /PI. a fim de atender às necessidades do sujeito. agora compete com outras formas de distração como a TV. portanto sofreu alterações com as modificações ocorridas em sociedade ao longo dos anos. como afirma Silva (2009). com o desenvolvimento das artes visuais e aprimoramento de impressões gráficas associadas ao uso de novas tecnologias. pintor e caricaturista alemão Wilhelm Bush. Atualmente o número de obras literárias clássicas em quadrinhos tem aumentado consideravelmente./dez. atualmente está mais atrelada à escola. dinâmicos e plásticos”. quando se trata de compreensão e produção de gênero textual é importante que se faça essa distinção. Caracterizam-se como eventos textuais altamente maleáveis. 157-169. jul. bem como o desenhista italiano que fez carreira no Brasil Angelo Agostini. Os primeiros quadrinhos eram unicamente humorísticos. 19) “os gêneros não são instrumentos estanques e enrijecedores da ação criativa. Seu caráter eminentemente dinâmico facilita a intergenericidade e possibilita a transformação e adaptação do gênero o que ratifica as palavras de Marcuschi (2002. É incontestável que a leitura por fruição já não é mais tão praticada como outrora. Como gênero textual a HQ está ligada à eventos históricos e à vida sóciocultural. É importante ressaltar que a HQ é um gênero textual que pertencente ao tipo narrativo. Sua criação data do começo do século XX tendo como precursores o artista gráfico e escritor suíço Rudolph Töpffer. Talvez assim tenha surgido Somma.1.

O que tira do aluno totalmente o prazer estético e torna-se uma atividade maçante e nada empolgante. 157-169. mas de forma conveniente para dar prosseguimento ao estudo. é atributo exclusivo da Literatura: entre as Artes é a única que a emprega Somma. Por outros termos. o meio mais eficiente de comunicação entre os homens./dez. Longe de dar um conceito definitivo para Literatura. muitos estudiosos têm tentado encontrar uma definição completa.1. Todavia seguem-se algumas considerações acerca do tema. fazendo uso de palavras multívocas.       a necessidade da adaptação. o predicado que distingue os homens dos animais irracionais: a palavra confere à Literatura uma personalidade que as demais artes desconhecem. como uma tentativa de aproximar mais o leitor da obra tornando-a mais atraente.1. afinal de contas. Como afirma Silva (2009). optou-se por uma pesquisa comparativa e interpretativa. Dar uma definição pronta e acabada para Literatura é uma tarefa muito complexa. seja dona dum privilégio que é. 2 REFERENCIAL TEÓRICO A Literatura. como assevera Massaud Moisés (1989). Para chegar aos resultados apontados por este trabalho. principalmente os clássicos que pertencem a um universo tão diferente do seu. jul. pois sua constituição é fruto de uma produção cultural e estética. não deve ser encarada como material fonte de utilidade prática e direta. tendo por base a análise documental ─que constitui uma técnica útil nesse tipo de abordagem─ da adaptação em HQ de Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis da editora Escala Educacional.n. será adotado o conceito de Massaud Moisés (1989) de que a Literatura é uma forma de conhecimento. Tal dificuldade é visível na relutância dos alunos quanto à leitura de obras literárias. 2015     159   . a palavra. p. uma recriação da realidade por meio do uso da palavra. A Literatura. Teresina /PI. v. Um dos grandes desafios que cercam o professor de literatura é despertar a atenção de jovens leitores. a leitura deixou de ser fonte exclusiva de fruição e passou a adquirir um caráter de obrigatoriedade na sala de aula. salvos nalguns aspectos de ordem crítica. com abordagem qualitativa. diferentemente das outras ciências.

1989. para reforço da sua concepção de vida. definidos conforme os interesses dos grupos dominantes. a Literatura não deve jamais ser vista apenas como forma de entretenimento. Portanto. novamente em grande voga). tendo em vista que o objeto de trabalho da Literatura é a palavra e. pois dele se origina. Essa função relaciona-se à identificação do leitor e de seu universo na Somma./dez. o autor apresenta a terceira função que será a mais relevante para as nossas considerações: (3) a função social da Literatura. o ser humano tem (1) necessidade universal de ficção e fantasia com alguma conexão com a realidade. Tal privilégio torna a Literatura arte por excelência. mas surgem como necessidade de explicar fenômenos reais. Teresina /PI. o Bom. as funções da Literatura podem ser descritas por meio de três perspectivas básicas. p. 41) Ainda sobre a visão do autor.n. ela age com o impacto indiscriminado da própria vida e educa como ela. 2015     160   . luzes e sombras. portanto. o Belo. (2) contribuindo para a formação da personalidade: A literatura pode formar. (MOISÉS.1. mas não segundo a pedagogia oficial. Segundo o autor. Longe de ser um apêndice da instrução moral e cívica (esta apoteose matreira do óbvio. v. jul. Nesse sentido é de fundamental importância levar em consideração para este estudo o que Antônio Cândido (1972) chama de função humanizadora da literatura. 1972. a linguagem de modo geral ─ de criação exclusivamente humana─. A Literatura. O estudioso destaca ainda um ponto essencial quanto ao uso de obras literárias para fins unicamente educacionais. que costuma vê-la ideologicamente como um veículo da tríade famosa. significar tudo quanto os signos das outras artes. portanto a palavra multívoca consegue exprimir. p. deve-se ter em mente que seu objeto de estudo é dinâmico e sofre transformações e influências culturais ao longo do tempo. 84) Finalizando as funções da Literatura. Para o autor. daí o surgimento de mitos e lendas que contemplam o fantástico.       como meio de expressão e emprega-a polivalentemente. Essa necessidade é suprida pela Literatura. para as próximas análises será adotada essa visão acerca da leitura de obras literárias. não pode ser encarada de maneira dissociada de seu contexto sócio-histórico-cultural.1. Segundo o autor. Para ele a função formadora da literatura ultrapassa a simples formação educacional. então. (CÂNDIDO. — o Verdadeiro. p. 157-169. — com altos e baixos.

Mas. como assevera Cândido (1972).1.1. É aquela obra inesgotável de significações. Deve-se. a interpretação dada a uma obra depende também de vários fatores extralinguísticos. principalmente (mas não só) na sala de aula. Como afirma Silva Somma. Dessa forma. A essa função subjaz a formação de um indivíduo crítico tendo em vista que a obra literária não é desvinculada da realidade da qual emana. atentar para a leitura de uma obra literária. (p. ao entretenimento. como deve ser feito o contato do jovem leitor com a obra literária clássica? Essa é uma pergunta que muitos professores se fazem. tendo em vista a apatia dos alunos pela leitura como já mencionado acima. mas desconhecíamos que ele o dissera primeiro (ou que de algum modo se liga a ele de maneira particular). Tampouco se deve ter uma visão de que a obra literária sirva somente a fins escolares. Nenhum leitor. Antes de partir para a análise. por mais jovem que seja. Dessa maneira é uma visão muito ingênua e imatura a leitura de uma obra literária visando única e exclusivamente à fruição. 12) Um clássico. É a obra que sua “fama” precede a sua leitura. de uma relação. percebe-se aqui a função da formação integral do indivíduo. 2015     161   . visando produção de sentidos. crenças e ideologias. chega a uma obra literária despido de suas experiências. v. Todo leitor traz consigo uma bagagem de conhecimento que dialoga com as vozes presentes na obra literária. portanto. às vezes descobrimos nele algo que sempre soubéramos (ou acreditávamos saber). que faz um convite a releituras e de cada releitura emana descobertas não notadas na primeira./dez. como afirma Moisés (1989). como sempre dá a descoberta de uma origem. p. E mesmo esta é uma surpresa que dá muita satisfação.n. Teresina /PI.       obra. de uma pertinência. 157-169. jul. é uma obra que todos conhecem (ou pensam que conhecem) mesmo sem nunca ter lido. convém salientar que o critério para identificar uma obra literária como sendo clássica são as definições propostas por Calvino (1993): O clássico não necessariamente nos ensina algo que não sabíamos. portanto. E cada indivíduo fará interpretações diferentes conforme suas vivências.

Na condição de defunto. Rodrigues (2001. filosofia etc. convém que sejam feitas algumas breves reflexões acerca da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas que será analisada. Nela o autor faz uma análise do interior das personagens descrevendo-as psicologicamente. 2015     162   .1. Trata-se do romance inaugural do Realismo brasileiro no século XIX. Feitas essas considerações. Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma obra clássica da literatura brasileira muito complexa para se fazer uma síntese de sua grandeza neste curto espaço. A autora salienta ainda que tal cuidado deve iniciar-se na escolha da obra que deve ter um tema e linguagem adequados à idade do aluno. 15)./dez. p. 17). de Machado de Assis. “o distanciamento imposto pela morte lhe aprimora a indiferença forçada. o narrador-personagem. Somma. o vezo gozado.” Enfim. o professor deve partir desse conhecimento objetivando a construção de novos. Como corrobora Rodrigues (2001. p. “o professor atuando como leitor-guia pode iniciar seu aluno nesta fase de seu percurso de leitor”. mais precisamente em 1881. p. Pelo contrário.       (2009. Pereira (1988) entre outros tantos autores. 157-169. literatura. para maiores considerações acerca da obra. queira consultar Rodrigues (2001). afinal. Facioli (2002). É uma obra carregada de ironia e crítica à sociedade carioca da época. Breves no sentido de que não se deve perder o foco principal deste trabalho. crenças. Brás Cubas. v. jul. que é proceder a uma análise comparativa e interpretativa da obra com a sua adaptação ao HQ. caracteriza a obra como “estranha”. O que não quer dizer também que o professor deva subestimar a capacidade do aluno evitando ir além dos conhecimentos que o aluno já possui.1. Teresina /PI. p. O narrador utiliza-se de críticas. 44).n. sarcasmos e ironias para caracterizar personagens. depois de morto narra sua vida e conta suas alegrias e tristezas dando enfoque às pessoas que por ela passaram. o cinismo ambivalente. o autor está livre de sanções e recriminações pelas quais passam os vivos.

proceder-se-á à análise do corpus. trajada de preto. Ao chegar ao capítulo “Chimène. jul. ou simplesmente por não ser representado na imagem. A personagem anda pelas ruas e casas contando sua história.1. qui l’eût dit? Rodrigue. para dar destaque a outros elementos da cena. p. na HQ a personagem aparece vestida de cinza. lê-se este trecho “─Anda visitando os defuntos? Disse eu. 19).       3 ANÁLISE COMPARATIVA DA OBRA E SUA ADAPTAÇÃO À HQ Partindo do pressuposto de que a leitura de obras literárias assume múltiplas funções e visões. v. ─ Ora. 2015     163   ./dez. Estalo com a língua e os lábios. Teresina /PI.1. Situação parecida ocorre com palavras como “pêndula” (capítulo 54). Somma. ausente na HQ. O quadrinista. Esse trecho na HQ traz a personagem Virgília sentada próximo a Brás Cubas que está deitado na cama com o balão que traz a mesma fala citada acima. Ainda no mesmo capítulo. sem a profunda descrição de sua feição mostrada na obra original. E depois de me apertar as mãos: ─ Ando a ver se ponho os vadios para a rua” (p. p. 2010)) por meio de desenhos. porém não pode reproduzir um muxoxo (“s. comovida. defuntos! Respondeu Virgília com um muxoxo.n. O que se nota de relevante é com relação ao vocabulário. acompanhado eventualmente da interjeição ah! Indicando desprezo ou desdém” (FERREIRA. 2004.m. qui l’eût cru?” da obra original no qual a personagem Brás Cubas descreve Virgília como “à porta da alcova pálida. uma delas tendo a pele e vestes em tom mais claro que as demais personagens ao seu redor. A obra original traz a palavra muxoxo. sugerindo um fantasma. ou por se dar preferência a alguns capítulos em detrimento de outros. e ali ficar durante um minuto” (ASSIS. e que sua leitura não deve ser vista única e exclusivamente como mera forma de entretenimento dado o contexto sóciohistórico-cultural a ela vinculado e do qual carrega consigo elementos imprescindíveis para a sua significação. 157-169. Em uma rápida observação pode-se inicialmente destacar que a adaptação em HQ de Memórias Póstumas de Brás Cubas não é dividida em capítulos conforme o livro. Logo de início o quadrinista mostra duas figuras da personagem Brás Cubas uma sobreposta à outra dentro do caixão. “alcova” (capítulo 57) e outros tantos vocábulos que não são colocados na imagem. 18).

2015     164   . enfim bradei.. Pacientei-me enquanto pude. p.Eu via isso porque arrastava os olhos da compota para eles e deles para a compota./dez. 2004. e não pude muito. Meu pai ficava. que se relacionam ao nascimento do defunto-autor. no qual Brás Cubas narra o episódio de estar à espera que lhe servissem compota. esperando que fosse a última. Elementos esses que na versão original permitem ao leitor elaborar representações mentais relacionadas ao enredo criando assim uma interação maior com o mesmo. mas fazia-o em vão. o quadrinista não lhe deu um rosto definido. ação diferente do original na qual ele é agarrado pelos cabelos. 36) Esse episódio da vida do protagonista nos faz perceber a angústia e impaciência com que ele aguarda que lhe servissem o doce. Tal detalhe somente pode ser visualizado por meio de nossas representações mentais Somma. 157-169. saboreava a goles extensos. No fim de cada glosa ficava muito contente. a namorar a compota da minha paixão. bati com os pés. são retratados na HQ com apenas 2 quadrinhos.1. O primeiro com a personagem fantasmagórica falando diretamente ao leitor e a segunda com seu pai segurando-o quando bebê. A colossal figura na HQ.n. A ansiedade do menino é evidenciada no trecho “Eu via isso porque arrastava os olhos da compota para eles e deles para a compota. p. como a pedir-lhe que me servissem”. à cabeceira. o livro original traz o seguinte trecho: Quanto a mim. Pedi em voz baixa o doce.1. berrei. Pandora é representada na HQ por uma enorme mulher de cabelos loiros e. como no texto original. No capítulo Um episódio de 1814. Nesse capítulo vê-se que muitos elementos referentes à linguagem da descrição das personagens e do ambiente foram omitidos ou desenhados de forma muito simplória. v. Teresina /PI. seu tio padre Ildefonso e seu tio João antigo oficial da infantaria conjecturando sobre o que a criança seria quando crescesse. solitário e deslembrado. o que requer uma pesquisa por parte do quadrinista para saber o significado de muitos vocábulos para desenhá-los. como a pedir-lhe que me servissem. entretanto a falta da linguagem verbal requer um leitor altamente curioso e atento para buscar-lhe a representação verbal. (ASSIS.       Ainda quanto ao vocabulário temos o desenho da sege (carruagem típica do século XIX). Os capítulos Transição e Naquele dia. lá estava.. segura Brás Cubas pelas vestes. Dessa forma muitos elementos aparecem representados por meio de linguagem não verbal. e a sobremesa continuava intata. mas não era. jul. No capítulo Delírio.

Marcela era uma mulher diferente das demais da sua época. e a rir. Era boa moça. A HQ. jul. apesar de dizer “[. Destaque especial merece a personagem Marcela.n. relacionadas às primeiras aparições da personagem Marcela. O trecho abaixo deixa claro o julgamento de Brás Cubas quanto à reação de Marcela ao receber uma jóia. um presente tão caro” (ASSIS. reserva apenas seis cenas..] Gostava muito das nossas antigas dobras de ouro e eu levava-lhe quantas podia obter.] em verdade. quer brigar comigo. mas protestando derramava-lhe a felicidade dos olhos [. O primeiro beijo. se era jóia.. lépida. p... Marcela.. Sendo que sua apresentação se resume a poucas falas. p. Teresina /PI. como descrita pela obra original. que teve uma representação importante na sua vida do defunto autor. e a beijar-me com uma reincidência impetuosa e sincera. e mal chegava a entender a moral do código. Como afirmam Lima e Santos (2012). Marcela. a procurar melhor a luz. eis alguns deles. porém usava-se de meios ilícitos para conseguir dinheiro para tal fim. primeiro amor de Brás Cubas. Pois isto é coisa que se faça. amiga de dinheiro e de rapazes..] luxuosa. a ensaiá-la em si. sem escrúpulos. Brás Cubas queria agradar a Marcela com presentes...1. (ASSIS./dez.. O personagem narrou sobre seus primeiros encontros com a personagem em vários capítulos. 2015     165   . dizia isto a contemplá-la entre os dedos. a personagem torna-se apenas mais uma dentro na narrativa sequencial.. porém. 157-169. Muito pelo contrário. impaciente. um pouco tolhida pela austeridade do tempo [.40). v.1. 2004 p. a personagem não apresenta profundidade psicológica. Da forma resumida como vem exposta na HQ. era uma mulher muito mais profunda e complexa como mostrado no seguinte trecho: A verdade é que Marcela não possuía a inocência rústica. 42): E. Os autores embasam-se no trecho “Vi-a sair de uma Somma.       proporcionadas pela leitura de textos narrativos. característica pertinente à escrita machadiana. Uma reflexão imoral e Do trapézio e outras coisas. Esse trecho brilhante de obra na HQ é resumido somente a uma cena: o menino com uma expressão de raiva com a mão estendida em direção à compota.

bem como as que representam as falas do narrador. Na HQ é retratada somente a fachada da tipografia. As lembranças de Brás Cubas sempre estão relacionadas a um espaço. O que mostra uma ruptura com o comportamento esperado de uma “moça” daquela época. foram transcritas conforme as que constam na obra original. traz muitos elementos ricos ao entendimento da obra para o leitor ─ imaturo principalmente─ como. contudo./dez.       cadeirinha. trazendo consigo as marcantes diferenças histórico-linguísticas próprias do século XIX. à distância.n. mesmo que de forma reduzida. muito pelo contrário. uma mulher esplêndida” (p. Outro ponto interessante e muito bem representado pelo quadrinista são as vestes das personagens.91). para afirmar que Marcela não era mais virgem. à porta da tipografia do Plancher.1. ondulante. Segundo o artigo de Débora Centoamore (2011). Somma. uma figura histórica que exilado da França abriu uma tipografia na Rua do Ouvidor. vi assomar. Teresina /PI. p. v.1. tal representação não é explorada na HQ. não foram modificadas. estando na Rua do Ouvidor. Ela não era manipulada pelos desejos e vontades dos homens. a presença constante de escravos ao lado dos seus senhores mesmo quando aqueles não possuem fala alguma. Isso deixa bem clara ao leitor a posição do escravo doméstico no sistema escravista ainda vigente no século XIX. Pierre René François Plancher de la Noé foi um editor e jornalista francês. por exemplo. airosa e vistosa. sem haver referência a essa figura importante.40). um corpo esbelto. um desgarre. Quanto ao espaço físico convém lembrar que topônimos como a Rua dos Ourives (capítulo 38) e Rua do Ouvidor (capítulo 50) e outros espaços do Rio de Janeiro estão presentes na obra machadiana e revelam hábitos e costumes próprios do século XIX. 157-169. As falas que constam nos balões. jul. as mulheres brasileiras no século XIX vestiam-se como as mulheres européias. 2015     166   . Leia-se o trecho “No dia seguinte. Não se pode deixar de mencionar que a adaptação. apesar do clima diferente. p. alguma coisa que nunca achara nas mulheres puras” (2004. Todas as cenas do quadrinho retratam essa fase da moda brasileira inspirada na moda européia.

2015     167   . o leitor perderá a magia da criação das representações mentais proporcionadas pelos trechos da descrição presentes na narrativa original. pois a personagem com características fantasmagóricas “dialoga” como o leitor e transita pelas cenas como se elas acontecessem no momento em que são narradas. que é carregada de trechos descritivos. Longe de condenar o uso de obras literárias adaptadas à HQ em sala de aula pretende-se aqui apenas fazer algumas ressalvas e conduzir a algumas reflexões. Se por um lado a transformação da linguagem descritiva em linguagem não verbal proporciona a formação de “hábitos linguísticos e comportamentais”.1. por exemplo.1. pois apenas observará a visão de outrem. quer seja a história em quadrinhos. p. mas por outro lhe proporcionam entrar em contato com diferentes perspectivas da mesma obra. caso contrário. Teresina /PI. As divergências entre a obra e sua adaptação limitam o leitor quanto à interpretação dela por um lado. com a linguagem com a qual foi “concebido” e devidas orientações do professor no sentido de guiá-lo e que outras versões e interpretações da obra sirvam-lhe como atividade complementar e não o oposto. quanto à leitura de obras literárias por um jovem leitor.17). p. o conto ou outro gênero tem o seu valor sócio-histórico-cultural que deve ser considerado. o romance. principalmente no âmbito da sala de aula.       4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Foram observadas várias convergências e divergências entre a obra original e a sua adaptação à HQ. é necessário que o primeiro contato seja do clássico propriamente dito. Cada gênero textual. jul. a utilização da obra literária adaptada à HQ deve ser bem orientada pelo professor. na sua leitura o aluno deixará de perceber as sutilezas características dos trechos narrativos originais. Portanto. como afirmam Palo e Oliveira (1997.n. 157-169./dez. Somma. As divergências vão desde um equívoco quanto à cor da roupa da personagem até a omissão de parágrafos e capítulos inteiros. v. Na HQ não há a noção espaço-tempo. Assim. com a adaptação da obra de Machado de Assis aqui analisada.

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e escrever. Bob Marley dizia que o vocábulo era de origem espanhola e significava “A música do Rei”. a palavra reggae foi cunhada num compacto de 1968 da pyrâmid com música para dançar intitulado Do the Reggay [sic] de Toots and the Maytals. and bibliographic type. Poder. provavelmente mais plausível. e dele faça parte. whose evaluation methods process are crucial to employment policy structures which does not contribute to the transformation of reality of this public. Power. gíria de rua em Kingston para designar prostituta. 170.1. Alguns veteranos músicos de estúdio da Jamaica apresentam uma explicação mais simples e. Floriano   **  Docente da Universidade Estadual do Piauí. p.. e teoria cientifica sobre a constante paixão pelo reggae em um bairro da cidade de Floriano – PI. podemos ter uma arma inovadora. Reggae. Keywords: Literacy for youth and adults. we have an innovative weapon. for better rise in the political. Outros dizem que é uma corruptela de streggae. and cultural field as a form of power.].   1  No livro Queimando Tudo – “Catch a Fire – A biografia definitiva de Bob Marley” de Timothy White. social. e do tipo bibliográfica.O REGGAE COMO INSTRUMENTO DE ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO: REFLEXÕES SOBRE O SABER E O PODER     Silvio Tavares dos Santos* Robison Raimundo Silva Pereira** RESUMO O presente artigo tem como objetivo. Diante do exposto. Based on the concept of literacy. Mestre em Ciências Sociais pela Universidade de São Carlos. são estruturas determinantes para politicas empregatícias a qual não contribui para a transformação da realidade deste público. For this research is a qualitative approach. Partindo do conceito de letramento. and it is a part. Alguns acreditam que o termo deriva-se de regga. social. para uma melhor ascensão no campo politico. Reggae1 ABSTRACT This article aims to highlight two interesting points to literacy for youth and adults. From a dialectic between empirical observation and scientific theory about the constant passion for reggae in a neighborhood of the city of Floriano . identificar dois pontos interessantes para a alfabetização de jovens e adultos. such as the distance and bank practices exercised literacy.n. Teresina /PI. Este estudo partiu de uma visão sobre conhecimento como forma de poder.     Somma. podendo ser uma luz para guiá-los nas suas práticas sociais. entre observações empíricas.181. Given the above. onde a leitura e a escrita. and the conceptions of Paulo Freire.                                                                                                                         * Graduando do curso de Licenciatura em pedagogia – UESPI.PI. afirma que segundo os colecionadores de disco jamaicano. this study was based on a vision about knowledge as a form of power. a partir das suas explorações possam fazer parte do cotidiano dos alfabetizando.1. jul. 2015 170   .. but they slip on the power play. mas que realmente entrem no jogo do poder. Partindo de uma dialética. where reading and writing from of their holdings may be part of the daily lives of literacy. e cultural como forma de poder. nome de uma tribo de dialeto banto do lago Tanganica. Palavras-chave: Alfabetização de Jovens e Adultos. “É uma descrição do ritmo em si”[. como processo de distanciamento das tão e exercidas práticas de alfabetização bancária. o trabalho se justifica como forma de sugestão para um “EJA” (Educação de Jovens e Adultos) mais cristalino onde seus atores não só aprendam a ler. Para tanto a pesquisa é de abordagem qualitativa. the work is justified as a way of suggestion for an "EJA" more lens where your actors not only learn to read and write. cujos métodos avaliativos. can be a light to guide them in their social practices. e das concepções de Paulo Freire. v./dez.

o que não é satisfatório.21). (FREIRE.68).n. Teresina /PI. Ou ainda. e textos. 170. que se feita na prática pode dar aos educandos uma nova visão de leitura e escrita. ou na leitura ou na escrita. Ou como afirma Soares (2009.   1 INTRODUÇÃO A alfabetização de jovens e adultos na realidade brasileira. p.] as habilidades de escrita estendem-se da habilidade de registrar unidades de som até a capacidade de transmitir significado de forma adequada a um leitor potencial. Somma. colocar palavras.. essas definições de letramento que consideram as diferenças entre escrita e leitura tendem a uma concentração. v. e depositária. É o caso do moderno conceito de letramento que tem em suas definições.] é um processo de relacionar símbolos escritos a unidades de som e é também o processo de construir uma interpretação de textos escritos. pensamos em unificar essa concepção. a escrita na perspectiva da dimensão do letramento./dez.. [. p. (a escrita como uma “tecnologia”) . também é um conjunto de habilidades linguísticas e psicológicas. sempre foi criticada por diversos pesquisadores e intelectuais. 68-69) assegura que: A leitura é um conjunto de habilidades linguísticas e psicológicas. [. que se opõe aos métodos tradicionais de ensino. que se estendem desde a habilidade de decodificar palavras escritas até a capacidade de ler textos escritos.. e não deles tirando os méritos da codificação e decodificação. ou alguém pode ler fluentemente. cujas aplicações têm como objetivo.181. p. jul. a leitura e a escrita como uma mesma e única habilidade. Nesse sentido Soares (2009. ‘uma pessoa pode ser capaz de ler. que envolve sua temática significativa. [. Dentre estes pensadores. p.. 2010.1. 2015   171   . com os quais os alfabetizandos começam sua alfabetização como sujeito do processo. por acreditarem que ela atua como uma modalidade simplesmente mecanicista. Paulo Freire nos alertava para essas desastrosas metodologias e dava-nos ideias de como trabalhar com esse público. mas não ser capaz de escrever. Partindo da ideia concepcionista freiriana de alfabetização.. mas escrever muito mal’ Por outro lado. pois para ele: a primeira exigência prática que a concepção critica da alfabetização se impõe é que as palavras geradoras.].1.. sejam buscadas em seu “universo vocabular mínimo”. que o letramento tem como habilidade colocar na prática comportamentos necessários que atendam adequadamente todas as possíveis demandas que possam surgir na prática de leitura. que não condizem com a realidade dos educandos. sendo que não se considera as peculiaridades de cada uma e suas dessemelhanças.

e por ser este um ritmo cultural revolucionário. 170.1. de uma escola do bairro vereda da cidade de Floriano-PI. 2015   172   . Somma. esse novo fenômeno apareceu. esse trabalho se justifica pela dialética entre a teoria e prática observada. porque as formas estruturais que se encontravam o nosso país em caráter da leitura e escrita eram obsoletas. intrinsicamente ligado aos sistemas de produção de opressão. mas do combate as causas sociais.181. jul. quanto a forte predominância da cultura reggae no bairro.   Com isso. de desenvolvimento estratégico e de táticas. de não referenciarmos somente ao modelo de linguagem. ou seja. sendo que o segundo quem dele participa também assumirá a posição do poder. O que nos faz refletir as ideias de Foucault (1979) ao relacionar poder ao saber confirmava que ao primeiro já teria em meio à sociedade um lugar estabelecido. que como sugestão trazem nas suas ideologias a própria realidade daqueles indivíduos. p. e veio por uma necessidade./dez. Creio que aquilo que se deve ter como referência não é o grande modelo de língua ou dos signos. Toda essa novidade a qual referimos são as preocupações com aqueles que sabem ler e escrever. 5) Fazermos aqui uma analogia ao fato. E para isso será preciso correr contra o tempo. Teresina /PI. uma relação de força. diferenciar as redes e os níveis a que pertencem e reconstituir os fios que os ligam e que fazem com que engendrem. uns a partir dos outros dai a recusa das análises que se referem ao campo simbólico ou ao campo das estruturas significantes.1. não supriam as demandas da nossa sociedade. mas não respondem as demandas sociais do mundo da escrita. p. de decidir. ao analisarmos essas alternativas. participar de manifestações que as relações de forças em suas manobras táticas há de lhe reprimir). 1979. (FOUCAULT. digo fato porque essa palavra é recente. a de que nitidamente Michel Focault declara nesse pensamento sobre o poder. podendo ser utilizadas como textos de desalienação. ele passa também exercer as ferramentas de poder (de questionar. como uma ideia de alfabetizar letrando as turmas de jovens e adultos. quando o individuo passa a adquirir as tecnologias do saber. de letras que denunciam fortemente as opressões do poder dominante. v. De fato. 2 CONCEITUANDO LETRAMENTO O problema é ao mesmo tempo distinguir os acontecimentos. e buscarmos alternativas para a construção de um novo paradigma educacional que desvendem os olhos dos nossos alfabetizando.n. mas sim da guerra e da batalha. ou signos. e o recurso às analises que se fazem em termos de genealogia das relações de força.

/dez. a tradução para o nosso português da referida palavra veio do dicionário da língua inglesa literacy. e escrever e envolvendo-se nas práticas sociais. é bem nítido que destacamos o conceito de alfabetização as formas reducionistas e simplificadora. culturais. o qual altera suas condições psíquicas. 3 A PERSPECTIVA CRITICO-SOCIAL PARA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS SEGUNDO PAULO FREIRE Ainda que de forma ingênua. 2015   173   .   Há alguns anos atrás essa mesma preocupação com os sentidos da escrita e da leitura para além de codificação e decodificação preocupava intelectuais. o sentido de letramento vem da tradução do inglês literacy o mesmo que letrado do latim littera. acompanhada do sufixo– cy. como um simples ato de ensinar/ ação de ensinar a ler e escrever. Teresina /PI. cuja algumas diferenças estarão nas próximas linhas desse trabalho. etc. Tentaremos aqui refletir um pouco mais o conceito de letramento. etimologicamente. adquirindo a tecnologia do ler. que denota qualidade. culturais. pois como um estado em que o individuo ao aprender a ler e escrever começa através destas atividades absorverem as consequências sociais. (GERALDI. ou porque não queremos distanciar dos modos operantes do tradicionalismo. Em síntese é possível dizer que. 2011). ou concepções de alfabetização trazia algo diferente a qual denominava de temas geradores. Somma. Acontecendo assim uma mudança do seu estado de analfabeto. politicas. v. Era dai que emergiam as palavras usadas para aquisição dos códigos. É nessa perspectiva que traríamos aos nossos alfabetizando uma visão mais clara do mundo e de suas complexas e astuciosas engrenagens do poder dominante.181. condição. que em seus métodos. e linguísticas. politicas. cognitivas. Há que se analisar primeiramente que essa palavra não é nossa. que ao dedicarem suas atenções ao uso da língua falada relatam eles que não estamos preocupados com os sons delas adquiridos. como é ocaso de Paulo Freire. para alfabetizado. econômicas. conceitua-se. Ao passo que enquadramos os métodos freirianos a comparação do letramento é porque algo entre os dois tem o mesmo cunho linear. sem nos preocupar em dar um verdadeiro sentido a essas ações.1. e que segundo Soares (2009). essa palavra vem do latim litera (letra). Em resumo a palavra inglesa literacy. mas com os seus sentidos. Preocupação essa também por outros estudiosos da alfabetização. p. jul.n. 170. e o seu sufixo–mento denotando assim o resultado de uma ação. ato de ensinar ou de aprender ler e escrever no sentido de entender o que está por trás das artimanhas do poder.1. fato de ser.

119 ) enfatiza que ele criou muito mais que um método. politico. acolhedoras. [.1. educação como conscientização.1. casais risonhos. Alguns textos. ’ (grifo nosso). e que simplesmente não passava de um mecanismo de codificação/decodificação. 2011. textos e frases sem conexões e sentido real do seu cotidiano. p. na qual se depositam. causavam indignação a Paulo Freire. ou títulos de textos totalmente sem fundamento como estes..17). e a concepção de alfabetização que tinha Paulo Freire. ilustrados – casinhas simpáticas.181. mas sim ‘uma concepção de educação como prática da liberdade. Soares (2011. 163). Sendo que com essas inquietações. (FREIRE. Somma. a seleção de palavras que saíssem do universo vocabular dos alfabetizando. às vezes ou quase sempre brancos e louros.n. p. para compreender criticamente. selecionando assim palavras que atendam a uma determinada sequência de aprendizagem das relações fonema-grafema. interligando às relações sociais. Nesse sentido ele tratava a alfabetização brasileira como um processo mecânico. p.] não pode jamais um tal trabalho constituir-se como instrumento auxiliar da transformação da realidade. 2010. ao passo em que analisava livros didáticos enfatizava que: Textos. p. ’ (NEVES. e de suas vivências (SOARES. distanciando-os das reflexões sobre o mundo.   Não podemos deixar de lado a questão a qual nos referimos anteriormente quando falamos do lineamento entre o letramento. Teresina /PI. que ao recebê-las entenderiam a alfabetização como uma espécie de mágica. assimilando como um processo positivo do saber. observando que não se trata de uma palavra qualquer. 2015   174   . de modo geral.] que podem um trabalhador camponês ou um trabalhador urbano retirar de positivo para o seu quefazer no mundo./dez. de faces delicadas. como é o caso de um titulo visto em um livro didático denominado ‘Hoje é domingo pede cachimbo. para o individuo tornar-se um ser desalienado. a situação concreta de opressão [. mas palavras de cunho social. Freire tinha ainda como propostas para cartilhas alfabetizadoras. cultural.. 2011).. bem decoradas. Sendo que no intimo dessas práticas as palavras não condiz com a realidade do educando. palavras silabas e letras nos alfabetizando. v. para mudar os objetivos com que se alfabetizam.. 170. jul. ele cria um novo tipo de material que transformará o modelo de alfabetização vigente. O que na realidade ela não passa simplesmente de uma troca insignificante de palavras distantes. e de uma educação libertadora. Não há como negar que Paulo Freire revoltava-se contra os métodos didáticos das lições cuja frases nada tinham a ver com o cotidiano daquelas pessoas.

e compô-la na síntese outras palavras com silabas encontradas. os alfabetizando necessitam perceber a necessidade de um outro aprendizado: o de “escrever” a sua vida. ao responderem qual o tipo de leitura um alfabetizando deve ler aponta entre outros. e em seguida com palavras criadas. noticia músicas. os seguintes: conto. receitas. tirar proveito de textos obsoletos e contrários a sua realidade. esperança. manuais. muito pelo contrário a alfabetização para ele tem de ter certo distanciamento das astutas manobras do poder.n. e nem tampouco de textos alheios a realidade do educando. onde os alfabetizando busquem a significação profunda da linguagem e das palavras. mas sim enfatiza-la. essa cultura rítmica “senhores e senhoras”. histórias. de nada servindo para o seu fazer diário. E ele acrescenta ainda que: mais que escrever e ler que a “asa é da ave”. que para as concepções freirianas no lugar de elegermos palavras e decompô-las nas etapas da análise. v. é bem complexo para um aluno da EJA que já estar de certa forma em atraso em sua vida escolar.181. p. 2015   175   . e para o desafio. redigir textos como esse anteriormente citado. exigir-se-iam respostas deles. Portanto é possível analisarmos. Teresina /PI. o de “ler” a sua realidade. p.   Na verdade. e o blues americano./dez. é como se as fontes dadas para sua alfabetização atuassem de forma obnubilar. o que não será possível se não tomam a história nas mãos para. justiça. 170. etc.1. já o segundo. Somma. fazendo-a. amoral e muitas vezes selvagem. e colocadas em situações-problemas. ideais. gibis. 2010. Diz-se de um ritmo que sucedeu o calipso. jul.19). em um momento que iremos tratar de um ritmo cultural que ganhou o mundo com suas letras revolucionárias.1. por ela serem feitos e refeitos”. 4 O REGGAE COMO INSTRUMENTO DE LEITURA NA PERSPECTIVA DE UM EJA CRITICO-SOCIAL Em um livro cujo titulo endereça as práticas de alfabetização na educação de jovens e adultos. (FREIRE. sendo o primeiro dono de letras satíricas. Desta forma a concepção freiriana de alfabetização não partiria de certa feita da mecanização repetitiva das silabas. O fato de colocarmos a palavra música em negrito. não nos leva a fazer dela algo mais especial que as outras formas de leituras. A despeito desta posição o “reggae” trata de temas como o amor. chama-se reggae. embora mais suave. Rocha e Souza (2013). a sua prática alfabetizadora era de forma que as palavras geradoras viriam simplesmente do cotidiano do próprio educando. refletia sempre a consciência da classe opressora.

’ Ao passo que em outro trecho também da mesma tese. mas pode influenciar os indivíduos. até hoje os moradores são chamados ‘negros do reggae da vereda.56) com o inchamento de Kingston por causa da imigração cada vez maior de moradores do campo (onde o rastafarianismo havia se estabelecido em primeiro lugar). do bairro irapuã II da cidade de Floriano-PI. onde foram para todos os pequenos sonhadores que acreditaram na independência (do país e na sua própria). p. E a “ África” foi a primeira palavra que ele aprendeu a falar.   novas coisas. e protestos contra desigualdades sociais. Partindo desses princípios podemos afirmar que ele nasceu de ideários religiosos.1. Teresina /PI. Não é capaz de alterar as relações entre as classes nem sua estrutura. A Jamaica produziu um punhado de bons escritores. e que segundo fatos históricos. é um gostar tão forte como uma pedra. É inegável. Partindo dessas visões e levando em consideração as fortes correntes de ideários entrelaçados nas letras do reggae. Pois partindo de algumas observações empíricas.. a autora questiona os envolvidos em sua pesquisa-ação: se a cultura negra florianense fosse um elemento da natureza./dez. pois a religião rastafári não se conformava com a exploração do mundo babilônico.28) que ao relacionar a música reggae. a acadêmica de forma espontânea relatou que esse ritmo chegou a Floriano há muito tempo. pois se referindo as pessoas que gostam desse ritmo. e ainda recorrendo a Manley (2007. com determinações politicas. gritos de libertação. Que nas afirmações de Albuquerque ( 1997.. qual seria o reggae? Veio logo uma resposta envolvente. A autora ainda acrescenta que. [. a qual explicitava que seria uma pedra! Pedra do reggae. uniram-se na esperança da liberdade. v. que se juntavam e ensinavam um pouco sobre o ritmo. e escritos intelectuais. como elemento poderoso para as possíveis interpretações. 2015   176   . que se tornam parte do processo politico. mais conhecido como Vereda. p. e novas formas. de nossos alfabetizando e para eles entenderem as formas camufladas de como o poder se engendram em nosso cotidiano. jul. O reggae nasceu chorando pelos rudes boys. (capitalista) e dessa forma. portanto que as letras deste ritmo tenham propostas desalienante. a pena é uma arma poderosa.181. e sua ligação com a cultura reggae. e atividades de extensão acadêmicas.n. 170.] que abordam o Somma.1. e tomando emprestadas teorias da tese de Meijer (2012) ao reportar a fala de uma das suas alunas sobre o referido bairro. Eis o propósito de inclui-lo como sugestão de textos para alfabetização de jovens e adultos. ele foi trazido por uma família de negros. aquela fé se espalhou pelos guetos. aponta que: Em sociedades com literaturas desenvolvidas. p.

  sofrimento e a opressão. Segundo por se tratar de uma banda made in Jamaica brasileira (São Luis). capitalismo selvagem. Famílias inteiras sofridas. jamais irá suplantar. carentes e subnutridas crianças. e a importância de desvela-la através da música. paraíso dos safados. incontáveis riquezas dominadas por uma elite tão inconsequente. ora prevendo que esse e outros enredos literários construídos pela cultura da diáspora sejam acessíveis como conteúdos educacionais que privilegiam a diversidade do conhecimento.1.181./dez. o quanto caminham em busca da sua própria identidade. p. é o caso de babilônia. A lei do mais forte é sua segurança. tão hábeis em suas trapaças. é importante focarmos na prática como eles se estabelecem. semeando a incerteza. Eu escutei e reforcei minha fé na luta por mudanças. Por conseguinte podemos utilizar um reggae jamaicano. oportunistas Constroem seus impérios manipulando a massa. chama a atenção dos amantes do ritmo. Como pode um país continente? De extensas terras. é o que vamos discorrer a partir de agora na música babilônia brasileira.n. Teresina /PI. v. ou hino da Jamaica. sem esperanças. que denuncia fortemente este sistema. sistema babilônio. cujo trabalho ajudou a criar consciência sobre os imperativos da mudança. p. De que vale tamanha riqueza. sugando a nação inteira. 2015   177   . Somma. o sistema e os desígnios de Jah. 1994). Ao refletirmos sobre essa visão de protesto politico embrenhados nas letras desse tão forte e misterioso ritmo. por ser um som de melodia sentimental. Brasil babilônio. políticos. em seu mundo.1. dele tirarem suas conclusões de mudanças. para os jamaicanos tem o sentido do mundo ocidental brutamente capitalista. Empresários. porque o artigo aqui retrata os malefícios do poder. toca muito essas pessoas que é o caso da canção de Ijahman (Are We a Warrior) eleito na cidade de São Luis como o hino do reggae no Maranhão. saqueando o povo. terra da pouca vergonha. Se o povo não pode almejar. jul. uma música que no mundo regueiro. tão bela natureza. Prepotentes senhores escravagistas. e qual as diretrizes ele nos dar para que envolvendo os alfabetizando. quantas pessoas chegaram a ler? Por outro lado todos escutavam Marley e sua escola de protesto do reggae. 45) O sucesso musical (We Are a Warrior) exemplifica um dos caminhos a ser percorrido pela pedagogia inclusiva. Porém. 170. como é denominado esse universo. Babilônia brasileira. que segundo Rosa (2007. regime do demônio. terras boas. ao menor bem estar de ter o pão sobre a mesa. que como já falamos. Tornando pessoas mais e mais oprimidas. (FAUZI BEYDOUN. primeiro. corruptos. Optamos primeiramente por fazer uma análise da possível utilização da música babilônia brasileira da tribo de Jah (Deus na Jamaica).

n. A vida foi dividida em doce harmonia fazendo uma mulher até sonhar. onde as principais palavras gerem um despertar para as luta contra as mazelas politicas que assolam o nosso país. e incentivo ao amor. Seria toda a nossa própria glória. Teresina /PI. como em outras épocas quando nos conduziram. É nós somos guerreiros. pois estamos numa guerra./Nós somos guerreiros?/É nós somos guerreiros. p. Outrossim. para uma educação inclusiva./São suaves e cheias de paz minhas noites. estúpido./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. A profecia é revelada agora. para possuir nossa cabeça. Oh./dez. “somos guerreiros”. jul. O filho do homem não examinará o coração que está desistindo. incluir os alunos em uma educação de verdade.181./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. não atire a flecha de seu arco. Como forma de manifesto. por que a vida o levará num súbito choque. faz-se necessário colocarmos uma música que apresente um discurso que atinge as necessidades dos guetos. Ele deu sabedoria e conhecimento para entender o amor após uma guerra. 2007. p. estúpido./Examine e olhe determinados sonhos onde há frequentemente histórias verdadeiras./O que te fez ter uma pistola? Seu amor infinito acabou para você atirar no homem ali? Nós desistimos depois que a estrela nos iluminou? Por que nos tornamos como Cordeiros. 1 O amor é a perfeição e eu dou graças pela agradável plenitude presente dentro de mim. pela mansidão que me fez filho do homem. não atire a flecha de seu arco. É nós somos guerreiros.   A referida música tem em sua tradução o titulo. 2015   178   . estúpido. Ainda que não vejamos nenhum amor. mas Jah dará uma resposta para o nosso grito. não atire a flecha de seu arco. E que para elas sirva de reflexão para o seu processo politico social. Edson Gomes é mais um dos brasileiros que nas décadas de 80-90 assume a identidade Somma. Estúpido./Oh cupido./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. É nós somos guerreiros. como frequentemente eu peço./Oh cupido. deixe-a baixa e nunca a lance. É nós somos guerreiros. estúpido./Oh cupido./Fé é uma montanha tão silenciosa e cheia de fontes d’água para todas as adoráveis criaturas. e que façam pensar na riqueza do conhecimento como qualidade para o acesso ao poder.1. em leituras que as libertem. cupido. não atire a flecha de seu arco e nunca a lance. 170. apud. Vindo da periferia baiana. 57) Partindo de uma reflexão apurada dessa música./ Oh cupido. mas para o fim haverá abrigos cheios com clamor de mães e pais. deixe-a baixa e nunca a lance. e a desalienação. não lance sua flecha de seu arco. não confunda. ROSA. v. a realidade nua e crua das nossas famílias que é de onde parte as formações das turmas de educação de jovens e adultos. O choro do povo se multiplica em toda parte. (IJAHMAN. não seria só incluí-los na escola através da matricula. mas sim colocá-los inclusos em atividades desalienantes. amor. sob seus pés. podemos observar a riqueza dessas letras para um trabalho de conscientização. No entanto./Oh. para não olhar a extremidade? Isto não é submissão. Eles certamente querem o caminho às vezes mais confuso.1.

jul. eu poderia estar Minha família. v. lá vem. lá vem. lá vem ela e vem sem dó Lá vem. lá vem. oportunistas Vejam as vítimas De toda a inoperância Da brutal ganância. 2015   179   .1. lá vem.1. E com isso conduzir os mesmos a adquirirem o saber para as mudanças necessárias no quadro social brasileiro. lá vem ela e vem sem dó Lá vem. lá vem. Entusiasmado com a religião rasta entoa canções de temas atuais como a violência brasileira. Teresina /PI./dez. embora passe de algumas décadas. lá vem. Nasci no fim do mundo Vivo no fim do mundo Aqui nesse fim de mundo Vivo como um condenado Pois nada sobrou pra mim Quando as casas caem Sinto-me triste demais Pois no meio dos escombros Bem que eu poderia. Quando a chuva cai É um sacrifício a mais A gente já não vive em paz E quando essa chuva cai Piora tudo aqui e a gente fica assim Pedindo clemência. (EDSON GOMES. correndo risco Tudo é perigo Correndo risco. a morte pulsa mais Queremos ajuda. 170. estavam lá Chuva. lá vem ela Chuva. mas não tem ajuda Não temos culpa de sermos tão pobres assim É calamidade pública Queremos ajuda! Moro no fim do mundo Vivo nesse fim de mundo Rastejo aqui no fim do mundo E sinto um desgosto profundo E muito mais Minha família. Moro no fim do mundo Vivo nesse fim de mundo Rastejo aqui no fim do mundo E sinto um desgosto profundo E muito mais Minha família. os educandos Somma. lá vem. os meus amigos A minha família estava lá Todo ano isso ocorre É sempre o mesmo corre-corre Todo ano a hipocrisia Faz parte dessa agonia Demagogos. 1994) Não há como negar que as ideias desse artista. e as demagogias dos políticos sanguessugas. e protesto contra desastrosa politica do Brasil. lá vem. lá vem. lá vem.. as mazelas são as mesmas.. estava lá Chuva. a realidade das famílias pobres do país. lá vem. traga aos alfabetizadores fontes incentivadoras para despertar em seus alunos através da leitura.181. o amor. lá vem ela Chuva. Outro aspecto a ser analisado é que ao esticar ao seu aluno a leitura dessa música o educador poderá fazer com ele faça uma análise de que. Podendo também depois de analisada.n. de lá para cá só mudaram os poderosos. os meus amigos A minha família. os meus amigos Agora estão soterrados. lá vem ela e vem sem dó Lá vem. lá vem. lá vem ela Chuva. p. Chuva.   regueira .

nas tonalidades das diferentes vozes desse mundo rítmico. 5 A NÍVEL DE CONCLUSÃO Analisando a teia inovadora de uma dinâmica alfabetizadora dos nossos jovens e adultos. pesquisas em torno daquele material do universo dos seus educando. possam refletir sobre estas sugestões. pois acreditamos que a leitura do mundo regueiro./dez. que denota uma arte de decodificar palavras e dela fazer uso para leitura. nas nuances que destacam as posturas de luta de um povo que em sua identidade.n. e que deles saiam as palavras. na concepção de alfabetização de Freire. jul. v. trazem ainda as dores mesmo que disfarçadas ou cínicas de uma opressão severa dos mecanismo do poder. pois é dele que parte o conhecimento do universo do seu educando. que tem como principal ideologia ligalo ao cotidiano do alfabetizando. que tenham foco com as suas realidades. e deixando claro que o ritmo por ser dançante em termos instrumental. e trazer para realidade do seu mundo. que os atores envolvidos no processo de alfabetização principalmente os de jovens e adultos. para os seus questionamentos sociais. como é o caso da tradução da anteriormente explicitada canção. e de muitas e muitas outras que denunciam. No entanto ao analisarmos as letras destas músicas acima citadas. pois os envolve apenas nas danças. e nem deve ser levado em conta somente a parte emocional. é preciso analisá-la. e é dele que se espera autenticidade.181. seria buscar nelas um tema gerador. 2015   180   . Teresina /PI. e dinamismo. e nos chamam a uma reflexão social. pois não se pode dar a alguém que não conhece as formas de engrenagens perigosas do poder Somma.1. p. não pode. Cabe aqui ressaltar que essa sugestão tem que ter iniciativas práticas do alfabetizador. e a partir dessas leituras nelas refletir e fazer sua própria história. do que temas e texto bem distantes dos seus principio de vida. textos. seria algo que traria prazer para os alfabetizando. Portanto somos levados a acreditar. e ao interagir com o letramento. que em português tem em seu titulo: nós somos guerreiros.   partirem para o processo de escrita com temas que envolvam outros problemas de calamidades do seu meio social. a qual eles vivem.1. é uma leitura psicologicamente emocional. que é com certeza o que não falta nos locais onde se encontram as classes menos favorecidas. é imprescindível uma conscientização e principalmente um maior envolvimento nessas modalidades de que talvez seja bem mais fácil e diferente dar aos nossos alfabetizandos palavras. 170. e corporal .

15. Rebeca de Alcântara e Silva. e ao mundo novamente cego eles retornariam. 2015   181   . v.br/edson-gomes>. _________ Paulo Freire e a alfabetização: muito além de um método In: ________. 13-25. São Paulo: In: Marco Antônio Cardoso (Org. 15-48. São Paulo: Editora 34. Beydoun. 2007. e quando se conhece. Maristane Sousa de. MANLEY. O eterno verão do reggae. Ao concluirmos essas argumentações podemos destacar que a inovação de um processo de alfabetizar letrando no âmbito de ensino a jovens e adultos. v. Paulo. jul. é dar-lhes o direito de abrir os olhos para o conhecimento. FOUCAUT. p. FREIRE. Reggae o impulso revolucionário. São Paulo: contexto. São Paulo: Martin Claret.). Acesso em: 31 ago.n. 2011. p. São Paulo: Escala Educacional. 1979. 13-32 GOMES. São Paulo: Cortez 2013. 2010. Letramento em verbete: o que é letramento? In: ___________. é porque se sabe. 1994. Disponível em: < http://letras. Michael. João Wanderley. (Org. Michel. 2011.). p. Babilônia brasileira. FAUZI. 1997. São Paulo: Editora Paz e Terra. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra. n. Sala de aula hipotética. Goiás. Alfabetização e letramento: perguntas de um alfabetizando que lê. Somma.mus. textos longínquos a sua real vivência. 117-122. (Coleção Aprender e Criar) ROCHA. NEVES. O reggae na “Jamaica brasileira” cidadania e politica a partir das letras musicais. Letramento: um tema em três gêneros Belo Horizonte: Autêntica.1. 23-29. 170. Albanize. Raquel. p. Rio de Janeiro: Rovelle. 2012.181. Bob Marley por ele mesmo. Calamidade pública. p. Edson. A alfabetização de adultos critica de sua visão ingênua: Compreensão de sua visão critica. Alfabetização e letramento: o que muda quando muda o nome?. GERALDI. Microfísica do poder. SOARES. ou dele participar. Teresina /PI. São Paulo: BMG Ariola. In: Valorização da cosmovisão africana na escola: narrativa de uma pesquisa-formação com professoras piauienses. In: __________. 2014.1. Carlos. Aparecida Arêdes. Pois com a insistência desses processos estaríamos recebendo os cegos. Magda. Língua Portuguesa 4° ano. p. p. REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE. e sabendo pode decidir seu próprio destino. 2007. Ação cultural para a liberdade. In: Edwiges Zaccur. porque saber é poder. Alfabetização e letramento. 41-60. In: __________. p. 8. 2009. 21-42 ROSA./dez. 2011. Revista Brasileira do Caribe. MEIJER. Fortaleza: UFC. Conto interativo VI: visita regueira. Praticas de alfabetização na educação de Jovens e Adultos.   dominante.

We highlight the most compliance of the variationist model for it consider in its analysis the language in use does not disregarding the linguistic variation understandable on speech considering it as inherent to the linguistic system. a fala. from the variationist perspective. Saussurean dichotomies. especially. Keywords: Structuralism. Teresina /PI. the speaking. p. Variationist sociolinguistics.com. Enfatizamos a semelhança entre os dois modelos quanto à concepção de língua como artefato social compartilhado e fruto da convenção de uma “comunidade de fala”. we critically approach the saussurean dichotomies. a partir desse ponto em comum entre os modelos. em especial. Dicotomias saussurianas. on its concretization in the communicative interaction. jul. ABSTRAT This paper presents a brief theoretical discussion geared to beginners in language studies concerning the viewpoint about the object in two linguistic models: Structuralism and Variationist Sociolinguistics. serão abordadas criticamente as dicotomias saussurianas. We emphasize the similarity between the two models concerning the concept of the language as a shared social artifact and a result of the convention of a “speaking community”.SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA E ESTRUTURALISMO LINGUÍSTICO: UM DIÁLOGO Júlio César Lima Moreira ∗ RESUMO Este artigo apresenta uma breve discussão teórica voltada aos iniciantes nos estudos linguísticos quanto ao ponto de vista lançado sobre a língua de dois modelos linguísticos: Estruturalismo Linguístico e a Sociolinguística Variacionista. In this sense. discorremos sobre as diferenças entre os dois modelos quanto aos pressupostos teóricos que versam sobre a organização do sistema linguístico./dez. 182-200. a partir da perspectiva variacionista. Porém. Defendemos a maior adequação do modelo variacionista por considerar em sua análise a língua em uso sem desconsiderar a variação linguística apreensível na fala. from this similarity between the models we discuss the differences on language approach and. quanto a sua concretização na interação comunicativa. Mestre em Linguística (PPGL/UFC) Professor de língua espanhola e portuguesa do Instituto Federal do Piauí. 2015 182 ∗ . considerando-a como inerente ao sistema linguístico. However. Email: julioo007@yahoo.n.1.1. v.br Somma. Nesse sentido. Sociolinguística Variacionista. Palavras-chave: Estruturalismo Linguístico.

No entanto. a apontar de forma simplificada aos iniciantes dos estudos linguísticos as diferenças entre o Estruturalismo Linguístico de Saussure e a Sociolinguística Variacionista no tocante à concepção de língua como fenômeno social e. esses modelos divergem quanto à abordagem e ao ponto de vista lançado sobre o objeto. imanente e homogêneo. v. Teresina /PI. ao inaugurar o modelo teórico conhecido como Estruturalismo Linguístico. O Estruturalismo coincide com a Sociolinguística Variacionista quanto à concepção do caráter social da língua.n. ferramenta imprescindível para a interação comunicativa e fruto da convenção estabelecida em dada comunidade. dada sua concepção de língua que abrange o tratamento da variação linguística observável na fala e concebida como inerente ao sistema linguístico. a langue. O autor suíço conferiu caráter científico e status de ciência à Linguística. considera que a língua é um fenômeno social. entre os diferentes estratos sociais de uma comunidade de fala. Desse modo. nos propomos.1 INTRODUÇÃO Aos iniciantes nos estudos linguísticos é imprescindível o conhecimento dos postulados de Ferdinand de Sausurre. p. uma ferramenta compartilhada por todos os membros da comunidade de fala que a usam e a dominam. jul. Para a Sociolinguística a heterogeneidade social implica inerentemente a heterogeneidade linguística. assim. nesse sentido.1. a língua. 182-200. onde os elementos linguísticos se combinam e se organizam regidos por regras de dependência e/ou oposição e estabeleceram-se premissas para fundamentar esse modelo teórico. neste breve ensaio. o que permite a comunicação entre si. uma língua natural seria um sistema passível à atualização e mudança e que poderia apresentar características. Saussure. almejamos demonstrar a maior adequação do modelo variacionista na análise de dados concretos da língua observáveis no vernáculo./dez. a Sociolinguística Variacionista. preocupa-se com analisar a língua como um sistema idealizado. apontar as diferentes perspectivas sobre o objeto. considerado pai da Linguística moderna. O estruturalismo. normas e padrões diferentes de uso nos níveis: fonológico. em sua obra. Tendo em vista que ambos os modelos supracitados consideram a língua um fenômeno social. 2015 183 . Por sua vez.1. e até mesmo de uma comunidade em relação a outra que falem a mesma língua natural. Somma. concebe a língua como um sistema heterogêneo e sujeito à variação propiciada pelo uso social e compartilhado da língua em eventos concretos de interação comunicativa. morfológico e sintático. E.

Destacamos sucintamente. Em seguida. mantém entre si uma relação de dependência.n.) é uma nova forma de encarar os fenômenos linguísticos porque faz com que a significação dependa. desconsiderando influências externas ao sistema e as “irregularidades” da fala. se distinguem no ponto de vista adotado sobre o objeto. Mattoso Câmara assim o define: (. na produção linguística de frases. 110).. o modelo teórico do Estruturalismo Linguístico com enfoque nas dicotomias saussurianas. sujeito às pressões de uso e à variação e à mudança. atribuindo-lhe um estado de ciência. p. Um modelo que concebe a língua como um sistema de regras independente e sem interferência externa a ele.. há relações do tipo paradigmáticas (escolha de determinado item de dada categoria gramatical ou lexical de acordo com sua função ou significado) e sintagmáticas (referente às combinações possíveis entre os elementos no nível da frase) onde o falante se vale dessas relações na codificação de sua mensagem.1.. confrontamos ambos modelos apontando criticamente alguns pontos contraditórios entre os modelos estruturalista e variacionista que. Trazemos a dicotomia eixo sintagmático/eixo paradigmático. Prevê um sistema hierarquicamente dividido em níveis e que os elementos (onde se privilegiam os signos linguísticos. que tinham sido explicitamente enunciados e através dos quais se devia deduzir a existência de relações vagas e indistintas. logo. 182-200. Nesse sentido. é uma perspectiva sob a qual a língua é vista como um sistema homogêneo. considerando a língua um sistema heterogêneo. a língua. apontando a semelhança entre os dois modelos. jul. completa e exclusivamente. fechado. Inicialmente. ampliamos com um breve tópico sobre o Gerativismo. em detrimento dos componentes gramaticais). embora compartilhem a premissa de língua como um artefato social. v. trazemos a fundamentação teórica da Sociolinguística Variacionista. o léxico. vale destacar que neste modelo teórico o ponto de vista lançado sobre o objeto. O modelo estruturalista prevê que no sistema. Somma. falsos ou unilaterais. Teresina /PI. 2 ESTRUTURALISMO LINGUÍSTICO: UM BREVE PANORAMA O Estruturalismo concebido por Saussure legou à tradição linguística um modelo de estudo da linguagem que revolucionou os estudos linguísticos.1. isto é. 1979. Por fim. na fala. (CAMARA JR. das suas relações íntimas e liberta esta concepção de outros postulados. em que um considera a língua um sistema ideal. p. homogêneo e o outro lança sua análise na concretização desse sistema. 2015 184 . a seguir./dez.

O signo linguístico é a composição do significante (a imagem acústica) mais o significado (o conceito a que se liga o significante) e ao que se associa o referente (quando se tem representação no mundo concreto). E no campo das relações sintagmáticas teríamos um adjunto ligado ao nome “meninos” que deve concordar em gênero e número com ele por ser o núcleo do sintagma nominal com função de sujeito. jul. Teresina /PI. Ou seja. humano. Desse modo. aquilo que não é previsto e considerado como regular e ordenado não se encaixa no sistema. assim. langue / parole. p. os titubeios. e é por basear-se na tradição que pode ser arbitrário” (SAUSSURE. pouca idade). não conhece outra lei senão a da tradição.88). Destacamos outra dicotomia saussuriana. as hesitações. não há necessariamente motivação nessa relação do signo linguístico. essa dicotomia em língua portuguesa. e.1. Quanto a esse caráter arbitrário do signo.96). 1975. as contrações fonéticas. a língua não é individual e que só se completa na coletividade. diacrônico tudo que diz respeito às evoluções” (SAUSSURE. forme parte do sistema. são excluídos desse. 2015 185 . Para Saussure. marcadores discursivos. tomemos a frase: “Os meninos ____ fizeram um gol” imagine-se e que nesse espaço há um qualificação do signo “meninos”. mas sim um hipotético equilíbrio.n. etc. Outra relevante dicotomia saussuriana é: sincronia / diacronia. v. o modelo considera que na fala atual não há variação. o signo é incorporado ao sistema. mas sim o significante é fruto de convenção instituído na comunidade e. No modelo estruturalista se descarta que a atualização concreta do sistema na fala. desse modo. a inerente trajetória de variação e mudança sofrida ao longo desse percurso. 182-200. nos diz: “justamente porque é arbitrário. assim.1. A arbitrariedade do signo linguístico é outro ponto marcante desse modelo. a análise se centra no sistema operante num recorte atual (eixo das simultaneidades) desconsiderando a trajetória dos itens linguísticos (eixo das sucessividades). p. 1975. rejeitando. A variação observada na parole. a variação linguística. consequentemente. Para Saussure. No Estruturalismo. p. o estudo da história da língua e./dez. o autor suíço diz que “É sincrônico tudo quanto se relacione com o aspecto estático da nossa ciência.Para ilustrarmos de forma simples. dentro do eixo paradigmático estariam as escolhas possíveis na categoria adjetivo que poderiam ser relacionadas ao signo “menino” (traços semânticos: animado. Somma. portanto uma instituição social. por ser uma das regras do sistema no eixo de relações sintagmáticas. Nesse modelo. forma uma rede de relações entre os elementos do sistema que se concretiza na parole. a langue só existe na mente dos falantes. Quanto a isso.

(LYONS. 215-216) [grifo nosso]. conhecimento de mundo.) Chomsky faz uma distinção nítida demais entre competência linguística e outros tipos de conhecimento e de capacidade cognitiva envolvidos no uso da língua. 2015 186 . e mesmo sem intervenções de ordem fisiológica.1. Parte delas tem a ver com a validade do que chamei de ficção de homogeneidade (. onde.. As semelhanças entre o Estruturalismo e o Gerativismo coincidem quanto às dicotomias langue/parole e competência/desempenho que formam a base. baseava-se em um estado idealizado de uso da língua com um falante-ouvinte ideal que não sofria nenhum tipo de intervenção do meio. 182-200. Porém. ou mesmo biológica. respectivamente. é considerada externa ao sistema e que corresponde aos estudos diacrônicos a sua investigação. também de base formalista. está o Gerativismo. p. Teresina /PI. com ótima competência da língua.196)..1. Lyons comenta sobre as correspondências entre esses modelos: A distinção entre competência e desempenho./dez. p. E. um objeto de natureza psicológica. pode-se argumentar que a de Saussure tem menos tendência psicológica do que a de Chomsky. portanto. sendo esta “a faculdade mental que determina as capacidades linguísticas do ser humano. é semelhante à distinção de Saussure entre langue e parole. 2008. mas sim no estudo da linguagem.15). Esse modelo se alinha ao modelo estruturalista no tocante à concepção de homogeneidade da língua e de exclusão da reflexão sobre os conteúdos sociais (MONTEIRO.. jul. e ambos aderem à ficção da homogeneidade do sistema linguístico. 2004. 1981.. Ambos contam com a viabilidade de separar o que é linguístico do que é não linguístico. Lyons critica a dicotomia competência/desempenho como proposta inicialmente no modelo gerativo: A distinção chomskiana entre competência e desempenho surgiu atraindo muitas críticas. v.nesse sentido. no que diz respeito a estrutura gramatical e fonológica (.n. Quanto às diferenças entre s duas distinções. p. p. segundo o modelo teórico gerativista se situa a dimensão estrutural e estruturante do fenômeno linguístico” (LUCCHESI. para isso. 3 O SUCESSOR ESTRUTURALISTA: O GERATIVISMO Passando ao sucessor do modelo estruturalista saussuriano. desses postulados teóricos.) temos que reconhecer que os termos Somma. como feita por Chomsky. é importante ressaltar que não se centra no estudo da língua.

1. partilham normas linguísticas2 e essas. Teresina /PI. cujo sistema disponibiliza aos falantes. uma vez que se baseia em dados empíricos. para entender a variação linguística observável no ato comunicativo e o que influencia a seleção por parte do falante de uma variante em dado fenômeno variável. 1997) pois considera a língua um sistema flexível. Considera-se relevante o enquadramento do contexto social. E que desenvolveremos mais à frente. compartilha dos pressupostos básicos do paradigma funcionalista (Neves. (apreensível no nível pragmático). rigorosamente estratificados e catalogados no seio da comunidade de fala. e são concebidos como estreitamente correlacionados às variáveis sociais. 2015 187 . na comparação entre os modelos estruturalista e variacionista. O modelo considera como invariáveis independentes na análise de um fenômeno variável tanto os aspectos linguísticos como os extralinguísticos como correlacionados à escolha do falante de uma ou outra variante. O modelo prevê uma abordagem que privilegia o caráter quantitativo. E com o emprego de tratamento estatístico visa à análise das variáveis em foco para atribuir regularidades e peso relativos que podem sugerir e apontar ao pesquisador generalizações sobre o fenômeno variável. parte do pressuposto inicial de análise da língua em uso. bem como o propósito comunicativo.n. seção 4. 216). Essa crítica exposta quanto à a ideia de modularidade e homogeneidade da língua presentes no gerativismo corrobora nossa opinião de valorizar um modelo de análise linguístico que seja capaz de abranger a parole. e não vista como separada da língua. que são estratificados socialmente. p. 182-200. escolhas de codificação linguística de acordo com seu objetivo comunicativo. sensível às pressões de uso e dotado de heterogeneidade. por sua vez. sujeita às pressões situacionais e convenções sociais. jul. 1981.competência e desempenho são inapropriados e induzem a erro quando se trata da distinção entre o que é linguístico e o que não é linguístico. (LYONS. v. valorizando a língua efetivamente em uso. ou seja./dez. 4 UM OLHAR SOBRE A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA Esse modelo teórico-metodológico. também conhecido como Teoria da Variação e Mudança. O modelo prevê que os falantes de dada comunidade. o desempenho do falante como inerentes ao sistema. estão estreitamente associadas ao contexto sócio-histórico e cultural no qual vivem. p.1. Somma.

chamadas variáveis independentes. formando o envelope de variação. uma variável linguística. como padrões sistemáticos previsíveis que emergem a partir da língua em uso. dois enunciados que se referem ao mesmo estado de coisas com o mesmo valor de verdade constituem-se como variantes de uma mesma variável Somma. jul. 2015 188 . O estudo procura verificar o grau de estabilidade de um fenômeno. formas diferentes de dizer “a mesma coisa”. indubitavelmente.Criou-se um novo ponto de vista sobre o objeto. v. p. se caracteriza quando uma ou mais formas linguísticas estão em concorrência na codificação do mesmo significado/função em dado contexto e em dado momento. ou se completou uma trajetória que aponta para mudança. Com isso. que veio para suprir as lacunas não atendidas pelos modelos estruturalista e gerativista até então vigentes. A variável linguística pode ser representada pelo seguinte esquema: A = x > A = x / B = x > B = x. segundo terminologia da Sociolinguística. E que a escolha de uma ou de outra variante é mapeável. Coan (2003. Logo. p. a teoria pressupõe um ou mais grupos de fatores que interfiram na alternância. Essas formas em concorrência são denominadas variantes linguísticas. se está em seu início./dez. com mesmo significado referencial3. segue padrões de uso em que incidem fatores condicionadores linguísticos e/ou extralinguísticos. dentro do contexto do fenômeno variável em estudo. Conforme Labov (1978). Teresina /PI. segundo Cezario e Votre. Portanto.n. Os objetivos do pesquisador na Sociolinguística Variacionista. podem ser assim resumidos: O sociolinguista se interessa por todas as manifestações verbais nas diferentes variedades de uma língua. 141). ou melhor. considerando o esquema acima. a dependente é formada pelas variantes linguísticas que sofrem influência das variáveis independentes. de modo a contemplar a variação inserida no sistema linguístico. 2008.61) considerando ainda o conceito tradicional de regra variável nos diz a respeito sobre a condição de sê-la: O alargamento da concepção de sistema para abrigar a variação e a mudança linguísticas traz consigo a noção de regra variável. na alternância dessas variantes. Um de seus objetivos é entender quais são os principais fatores que motivam a variação linguística. (CEZARIO E VOTRE.1. e qual a importância de cada um desses fatores na configuração do quadro que se apresenta variável. chamada variável dependente. em dado contexto. Regras variáveis são concebidas como inerentes ao sistema.1. fortaleceu-se cientificamente a Linguística com a então recém-criada Sociolinguística Variacionista. um fenômeno variável. 182-200. Para esclarecer. p.

basicamente. Passemos agora à apreciação crítica entre estes dois modelos no tocante à concepção de língua como fenômeno social e como objeto de estudo. que é a concretização da língua em uso. como interferentes na variável. 2015 189 . (COAN. Quanto a isso. jul. 1982. Entretanto Labov discorda de Somma. Embora se volte para a fala. como assim o expõe Coan: Ligando a sociolinguística laboviana à linguística saussuriana. ser estruturalmente integrada num sistema de unidades em funcionamento e ser estratificada (LABOV. a tradicional identificação entre funcionalidade e homogeneidade. Teresina /PI. 5 SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA VERSUS ESTRUTURALISMO: UMA FALSA IDENTIDADE A Sociolinguística Variacionista coincide. rompendo-se. 1972.(regra variável). A Sociolinguística laboviana não é uma teoria da fala.] quando se diz que a Sociolinguística é o estudo da língua em seu contexto social. p. p. 2003. Vale ressaltar que o objeto de estudo da Sociolinguística Variacionista é a língua. se a mudança implica necessariamente variação. nos alerta Coan baseada em Figueroa (1996. 182-200. sendo que.n. Labov elencou as seguintes: ter ocorrência frequente. segundo Labov (1972. 1984). com o Estruturalismo de Saussure no tocante à concepção de língua como um fenômeno social. assim.. p. p. mas o estudo do uso da língua no sentido de verificar o que ela revela sobre a estrutura linguística (langue).1. (ii) os processos de mudança que se verificam em uma comunidade de fala se atualizam na variação observada em cada momento nos padrões de comportamento linguístico observados nessa comunidade. Como propriedades de uma variável linguística.71): [.54). e considere fatores extralinguísticos. nem o estudo do uso da língua com o propósito exclusivo de descrevê-la.8). vemos que o que há em comum é a noção de língua como um fato social: a língua não é propriedade do indivíduo./dez. se pauta em dois princípios teóricos fundamentais: (i) o sistema linguístico que serve a uma comunidade heterogênea e plural deve ser também heterogêneo e plural para desempenhar plenamente as suas funções.1. mas da comunidade. a variação não implica necessariamente mudança em curso. aspectos sociais. isso não deve ser mal-interpretado. A Sociolinguística. v..

60). já que incidiria em estágios de evolução da língua e. Nesse sentido. hipoteticamente equilibrado. Assim./dez.n. já que sua estrutura constituiria um sistema de valores. a língua apresenta uma lógica interna. que se explica a si mesma. Tal lógica é a lógica do seu funcionamento. que era um dos pilares do modelo. autônomo. 2015 190 .Saussure. regular e linear. Quanto a isso. um dos princípios empíricos da Sociolinguística Variacionista para explicar como e por que a língua muda enquanto a Somma. principalmente. p. 182-200. Chomsky e outros que insistem na homogeneidade necessária do objeto linguístico. (SAUSSURE. sobre essa concepção do estudo da língua em um estado sincrônico: A primeira coisa que surpreende quando se estudam os fatos da língua é que. Teresina /PI. No entanto. a sucessão deles no tempo não existe: ele se acha diante de um estado. por Saussure ter alicerçado suas bases na noção de língua como sistema homogêneo.1. p.53). (COAN. p. e se privilegia o plano sincrônico. 2004. Esta dicotomia diacronia/sincronia. em cada estado momentâneo. principalmente no tocante à análise da língua atualizada na fala que não era contemplada. que ignoram a heterogeneidade e que consideram a fala como caótica e desmotivada. nas próprias palavras de Saussure. a dicotomia entre sincronia e diacronia se apoia no pressuposto de que. A intervenção da história apenas lhe falsearia o julgamento. apresentaria a variação e mudança. v. jul. E tudo o que fosse diacrônico representaria uma ameaça ao modelo. Complementando. para Lucchesi o problema da transição. onde se projeta o percurso evolutivo e o caráter dinâmico da língua.97). 1973.1. p. tampouco o era o percurso evolutivo dos itens linguísticos que acompanham o evolver sócio-histórico da comunidade de fala. (LUCCHESI. para o indivíduo falante. foi também um dos mais conflituosos para a manutenção do modelo estruturalista. Estudar a língua num estado sincrônico idealmente estável era imprescindível para o modelo estruturalista. consequentemente. no qual se exclui o plano histórico. 2003. Também o linguista que queira compreender esse estado deve fazer tabula rasa de tudo [o que o] produziu e ignorar a diacronia. se opõem. em cuja lógica interna se poderia encontrar toda a sua explicação4. Ele só pode penetrar na consciência dos indivíduos que falam suprimindo o passado. oportunamente expomos as palavras de Lucchesi: Segundo Saussure a língua poderia ser estudada fora da consideração do fator tempo. de suas relações funcionais.

desprestigiando a evolução propiciada pelo uso de um item dentro de dado paradigma. ou seja.1. mas sempre considerando o papel desses signos na organização da língua enquanto sistema.42). p.] um dos pontos cruciais para a superação da concepção estrutural da mudança linguística e da própria concepção estruturalista de língua. Assim.1. portanto uma concepção mais dinâmica. p. jul. se constitui em [. meu” onde não há concordância nominal. por exemplo. Teresina /PI. como o modelo explicaria enunciados recorrentes na fala de brasileiros como: “Eu comprei umas camisa estampada da hora. sendo essencial apenas a relação que une o significado ao significante. [grifo nosso]. Nesse modelo não se contempla uma análise que privilegie as peculiaridades de uso. a sociolinguística se contrapõe frontalmente à concepção de estado de língua de Saussure[. v. p. uma vez que se limita ao próprio sistema de forma imanente e ao plano sincrônico para análise do sistema linguístico. “circunscrito à formulação dicotômica das relações paradigmáticas e sintagmáticas. a qual questiona se a mudança se processa por estágios discretos ou em um continuum. a língua... O sistema linguístico é visto por Saussure. consequentemente. ou mesmo uma mesma forma veiculando diferentes significados/funções. 40-41): “quase exclusivamente um sistema de signos. analisando a dicotomia eixo paradigmático/eixo sintagmático. O modelo legado pelo suíço era incipiente e limitado no tocante ao tratamento dos componentes gramaticais. Assim. não há no eixo sintagmático a efetivação das regras de regulação do sistema previstas no modelo estruturalista.usamos (LABOV. não se observam seus novos usos.174). 2004. ([1968] 2006).n. Passemos à apreciação da dicotomia eixo paradigmático/eixo sintagmático. significados e novas funções que passe a desempenhar no sistema. de dado elemento gramatical de forma individualizada. às relações que o signo linguístico estabeleceria nos eixos vertical e horizontal da estrutura da língua” (Lucchesi./dez. toda a estrutura sintática e gramatical ocupa uma posição secundária. segundo Lucchesi (2004. 2004. não se depreende o percurso que dado item linguístico tenha percorrido e.” Complementa Lucchesi que o tratamento dado aos signos não era de forma isolada. Através do equacionamento do problema da transição através de um continuum ininterrupto de variação e mudança. p. o porquê de uso de formas alternantes para uma mesma função/significado. 2015 191 .. logo.] (LUCCHESI. ou seja. Bem. WEINRICH E HERZOG. 182-200.. e mesmo assim a mensagem intencional do locutor de marcar o plural é facilmente compreendida pelo interlocutor na situação comunicativa? Mais complicado ainda Somma.

Quanto a isso afirma Lucchesi: De igual modo o estudo da variação linguística é excluído. confluem numa síntese ampla”. é necessariamente considerado como acidental e não pertencente ao sistema. com baixa escolaridade. considerada caótica. p. segundo Wartburg (1946 p. entretanto. 1974. ele não afeta o organismo interno do idioma’. se boa parte dos falantes se comunica diariamente em situações informais e até formais. mas não seguem as normas apriorísticas previstas como padrão. é muito claro: ‘O fenômeno geográfico está intimamente associado à existência de qualquer língua. irregular e nãosistematizável. p. Ao tratar da ‘extensão geográfica das línguas e do fracionamento dialetal’.seria o fato de em uma determinada comunidade de fala. mas é falso dizer que. não seria possível conhecer o organismo linguístico interno’. esse desvio da norma padrão fosse observada em maior quantidade entre indivíduos de idade entre os 15 e 24 anos do sexo masculino. por serem estranhos ao sistema. e conclui: ‘Pensamos que o estudo dos fenômenos linguísticos é muito frutuoso. eles não estão usando o sistema linguístico? Se a produção linguística observável na fala não faz parte do sistema linguístico conforme previa o modelo estruturalista saussuriano. 2004. imanente. a esse respeito. aquilo que pertence à fala. A partir de seus pressupostos. “se combinam para constituir uma linguística pancrônica. isso não é coincidência e há padrões de uso estreitamente relacionados tanto a características sociais como linguísticas5. todos os fenômenos relativos à variação linguística. onde a verdade sincrônica e a verdade diacrônica.45). Teresina /PI. a partir da concepção de língua de Saussure. rejeitando a possibilidade de uma sistematização dos mecanismos que formam as frases na língua6./dez. acrescentamos que “todo fato linguístico deve ser considerado no sistema de que Somma. deveriam ser banidos desse estudo. (LUCCHESI. como no exemplo acima. o que é usado durante esses eventos comunicativos? O autor suíço chega a considerar a sintaxe como pertencente à fala e não à língua. à maneira da oposição entre ‘tese’ e ‘antitese’ da dialéctica hegeliana. Ora. rejeitou-se a dicotomia diacronia/sincronia e partilhouse a noção de um estudo numa perspectiva sob a qual os planos diacrônico e sincrônico. v. então.1. é rejeitado para a validade do modelo estruturalista que concebe a língua um sistema autônomo. Portanto. Coincidência? Para a Sociolinguística Variacionista. Se a linguística deveria centrar-se no estudo da língua enquanto sistema. p. Além disso. 2015 192 . 182-200.n. na realidade.1. jul. sem eles. A Sociolinguística Variacionista surgiu como modelo teórico para preencher essa lacuna. o raciocínio do Curso. 42-43).123 apud CÂMARA.

considerando as atualizações da parole. mas esta é necessária para que a língua se estabeleça.1./dez. Não seria mais coerente com a concepção de língua como fenômeno social deduzir o sistema a partir de uma comparação de vários idioletos de uma comunidade. historicamente. Eis o paradoxo saussuriano. 182-200. 1930. Mas tudo isto não as impede de serem duas coisas absolutamente diferentes. 1995. Há. ficando a parole excluída do sistema. onde a partir de um indivíduo se poderia deduzir todo o sistema linguístico. que é história do próprio sistema. Não é aceitável incluir no sistema o idioleto. destacamos que no modelo proposto pelo suíço a língua como instrumento social. e não por si mesma como parte integrante do sistema: [. Como seríamos capazes de associar uma idéia a uma imagem verbal se antes não tivéssemos surpreendido uma associação num acto de fala? Por outro lado.” (PAGLIARO. instrumento de interação social? Na sua proposta. vista como input da langue como se fosse desvinculada dela. No entanto. e na sua história.1. aquela é. não se valorizam fatores de ordem sociocultural presentes na interação comunicativa que se mostram efetivamente refletidos na parole do indivíduo que usa socialmente a langue. há convergência entre o modelo saussuriano e o da Sociolinguística Variacionista apenas quanto à concepção de língua como um artefato cultural socialmente compartilhado. um processo de efetivação do sistema. sendo a língua um artefato socialmente compartilhado. é a fala que faz evoluir a língua: são as impressões recebidas ao ouvirmos os outros que modificam os nossos hábitos lingüísticos..] a língua é necessária para que a fala seja inteligível e produza todos os seus efeitos. Acrescentamos. v. Segundo Saussure. p. O autor afirma quanto a isso: Somma. Como já dissemos anteriormente. Teresina /PI. é ouvindo os outros que aprendemos a nossa língua materna.é parte. ao mesmo tempo o instrumento e o produto desta. não há contradição nem conflito no ponto de vista de Saussure entre sua opinião de que o sistema deveria ser estudado abstraído da sociedade em que funciona e sua concepção de que as línguas são fatos sociais. portanto. 1974. paradoxalmente. a parole é a exteriorização da langue. mas o idioleto do falante somente seria apreensível a partir da comparação de dois ou mais idioletos. Por último. a fala precede sempre. interdependência da língua e da fala. Para o autor. 2015 193 . p.176 apud CÂMARA.n. vista como acidental e irregular não passível de sistematização.. oportunamente. (SAUSSURE. p. jul. ela só se instala no nosso cérebro após inúmeras experiências. 48-49). a essa discussão suscitada pelo paradoxo saussuriano.45). a opinião de Lyons (1981). p. no entanto.

mapear regularidades.) elas possuem seus próprios princípios constitutivos.1. Saussure estava dizendo várias coisas: que eles são diferentes dos objetos materiais. mas sim como um grupo de indivíduos que compartilham traços linguísticos que distinguem seu grupo de outro e se comunicam mais entre si do que com outros e compartilham normas e usos diante do uso da linguagem. grupo visto não como homogêneo. p. p.n. p. Isso nos remete à concepção de Coseriu (1967. Desse modo. Ou seja. escolaridade). o foco do estudo da Teoria da Variação é o falar da coletividade. que são externos aos indivíduos e sujeitam-nos à sua força restritiva./dez. é lícito e coerente estabelecer que há normas linguísticas correlatas aos grupos de indivíduos que compartilham certos traços sociais (idade.. Diferentemente.. padrões de uso de fatos linguísticos considerando os desvios intrínsecos ao sistema linguístico. Conforme Labov (1972) e Guy (2000). considerandose uma comunidade de fala. Como vimos. Ao afirmar que os sistemas linguísticos são fatos sociais. a preocupação maior da Sociolinguística é com a língua em uso. nesse modelo busca-se. uma análise estrutural de um sistema linguístico não deve ser confundida com um relato das causas responsáveis pela constituição do sistema. em essência. 2015 194 . 182-200. jul. O modelo saussuriano baseava-se numa concepção de língua idealizada isenta da variação recorrente na fala dos indivíduos que faziam uso desse sistema.O conflito é meramente aparente. únicos. Teresina /PI. (LYONS. embora não menos reais do que esses. Pois mesmo se elas (as línguas) são fatos sociais (. concebendo-a uma comunidade de fala. o que no modelo estruturalista seria algo acidental e irregular. Por isso. ocupação profissional. 1981. a partir da fala dos indivíduos. 205). atualizada. a Sociolinguística tem uma concepção de língua como objeto histórico culturalmente compartilhado que se constitui da interação social entre os membros de determinada coletividade.1. Veja o esquema proposto de norma linguística pelo autor em dada comunidade de fala em relação ao sistema (a língua): Somma. E a pluralidade sociocultural dessa coletividade estratificada reflete uma estrutura linguística igualmente diversificada. gênero. 95-96) que prevê diferenças estruturais dentro do sistema linguístico de dada língua natural. v. que são sistemas de valores mantidos por convenção social. com a mudança em curso em dada comunidade de fala.

e como e quando Somma. p. no primeiro estrato (a´). modificada e reiterada de falar e escrever de dada comunidade linguística. se pensarmos em explicar como a língua muda enquanto a usamos. Labov. uma vez que é a partir do desenho do linguista sobre um determinado fenômeno de variação observado na fala a ser estudado que deverá ser relacionado adequadamente à comunidade de fala. as oposições funcionais do sistema. Ou seja. 2015 195 . a fala (por extensão. v. Essa foi uma as limitações do modelo estruturalista. bem como o que motiva a mudança e quando essa ocorre. aparentemente caótica. No entanto. é a norma do português brasileiro. a escrita individual). e nos deixa cada vez mais distantes. Constitui-se uma difícil tarefa de se realizar a de investigar a variação observável na fala. fisiológicas e de desempenho de cada falante. Nesse caso. 182-200. Teresina /PI. No terceiro estrato (A). a tradição continuada. está composta das particularidades estilísticas. jul./dez. a partir desse esquema se nos mostra que usamos o mesmo sistema do português lusitano. Portanto.A B a FALA a’ b NORMA SIb’ d’ C STEMA c c’ d D Quadro 1 – Sistema. 2006) postularam alguns princípios empíricos7 para descobrir o mecanismo da mudança. aquilo que é composto da repetição dos modelos anteriores de dada comunidade de fala.n. temos os elementos indispensáveis da estrutura da língua. Esses princípios norteiam a abordagem metodológica do pesquisador variacionista na empreita do reconhecimento de uma variante que passa a covariar com outra já existente. norma e fala Nesse sentido. Weinrich e Herzog ([1968].1. visando responder a essas questões que permeiam os estudos sobre variação e mudança linguísticas. são fundamentais essas concepções de comunidade de fala e de norma linguística aos propósitos dos estudos sociolinguísticos. No segundo estrato se constitui (a). tanto na fala como na escrita. observando como os estratos sociais e características sociais de dada comunidade de fala correlacionam-se à variável em foco.1. o que nos diferencia.

182-200. Por fim. é possível não apenas reconhecer os pontos em que a explicação sociolinguística da mudança supera a explicação estrutural-funcionalista. A regra variável opõe-se à regra categórica chomskyana que gera toda e qualquer sentença da língua. não deve ser com essa confundida. p.1. Assim. 173).] Através da consideração desses cinco problemas. quando e onde determinada implementação da mudança ocorreu? Quanto a isso comenta Lucchesi: Na equação proposta pela sociolinguística variacionista para resolver a questão da mudança linguística. 2015 196 . p. Labov e Herzog (1968) [. Labov (1972) prevê um modelo de regras que atribui sistematicidade ao caráter heterogêneo do vernáculo (PIMPÃO. Convém ressaltar as diferenças primordiais entre os modelos. Ao contrário de Chomsky. jul. quanto ao Gerativismo citado na seção 3./dez.n. em uma retomada à regra linguística da gramática gerativa padrão. Teresina /PI. que prevê um modelo linguístico para a sintaxe. como também as características desta que se perpetuam naquela. o define em relação ao modelo gerativo sucessor estruturalista formal: A interpretação formal da regra laboviana. (LUCCHESI.. O esquema abstrato e formal da regra variável visa a sistematizar a variação e a tratar a frequência com que as variantes são empregadas em situações concretas de comunicação através de um modelo probabilístico. v. 2009). destacam-se os seus hoje já clássicos cinco problemas..se instalou uma nova variante. Esses princípios se apresentam na resposta dos já consagrados problemas clássicos da pesquisa variacionista: (i) Como e por quais caminhos se dá a transição da mudança na língua? (ii) Quais os fatores condicionadores da variação e mudança? (iii) Como se dá o encaixamento no sistema linguístico e no estrato social? (iv) Qual a avaliação da comunidade de fala sobre a variação e mudança? (v) Por que. 2004.1. que foram reunidos em sua totalidade e sistematizados pela primeira vez por Weinreich. alargando a noção de competência linguística e abordando regras variáveis sob um tratamento quantitativo. esse também se opõe ao modelo sociolinguístico quanto ao ponto de vista lançado sobre o objeto. Somma. e nos parecem oportunas as palavras de Pimpão ao comentar como o modelo sociolinguístico surgiu da necessidade de preenchimento de lacunas no tocante à variação linguística que era desprestigiada.

p. Teresina /PI.diz-se que as variantes pertencem a dois sistemas diferentes. ou seja. nos níveis fonológico. para a Sociolinguística a variação é sistemática. 6 CONCLUSÃO No presente ensaio expusemos. concebida como uma heterogeneidade linguística no sistema linguístico (langue) de dada comunidade de fala. como na concepção do suíço Ferdinand Saussure. a fala. idade. e se faz uma correlação entre os fatos linguísticos. oposições e exigências sintáticas (subcategorizações). além das regras internas ao sistema. 182-200. ou. considerações sobre o ponto em comum entre o Estruturalismo e a Sociolinguística Variacionista. é tratada dentro do sistema. 2. 1972[2008].n. da langue. 221). e não exclusivamente sujeito às regras internas. e a seleção se encontra abaixo do nível da estrutura linguística. sexo. a Sociolinguística surgiu para preencher a lacuna que restava nos estudos linguísticos de então que relegavam a análise da língua na sua forma concreta.1. a fala. O modelo estruturalista.A variação para os gerativistas. (LABOV.1. ou antes não privilegia. morfológico. Por sua vez. não considera a variação. Portanto. discorremos quanto ao diferente ponto de vista sobre a língua que cada modelo teórico adota e apontamos. ao plano da expressão. não reconhece. o estudo da língua efetivamente em uso. e que a alternância é um exemplo de “mistura dialetal” ou “alternância de código”. v. sintático e semântico com os fatos sociais. a variação dentro do modelo gerativo era explicada de duas formas: 1. A variação. as principais distinções entre ambos os modelos enfocando no contraste encontrado nas dicotomias saussurianas com a proposta variacionista. apesar de reconhecer a língua como fenômeno social. jul./dez. p. a concepção da língua como um fenômeno social. Conforme Labov. Não obstante.as variantes se encontram em “variação livre” dentro do mesmo sistema. de forma breve e sucinta. Portanto. escolaridade. 2015 197 . contrastes e semelhanças caracterizando uma rede interrelacionada de possibilidades de combinações entre os elementos linguísticos dentro do próprio sistema sem conceber influências de ordem extralinguística nem reconhecer a trajetória histórica que retrata a formação da língua. Reconhece a língua como um sistema imanente de combinações. seguidores do paradigma formal que concebe o sistema voltado à forma. o sistema está sujeito também às pressões extrínsecas ao sistema. observada na parole. Somma. consequentemente. etc.

um sistema que restringe o processo de criatividade linguística aos jogos de relações dos signos nos eixos paradigmático e sintagmático. visto como um sistema fechado de regras e de relações. a interação comunicativa. conforme Coseriu. Portanto. atualizada. isto é. jul. 1967. p. o que é mais comum.Professor de línguas portuguesa e espanhola. mas sim poderiam exercer a mesma função.1. conferir mais detalhadamente a exposição em Coan (2003 p.Quanto à questão de representação do mesmo significado oportunamente fazemos alusão à crítica suscitada por Lavandera (1978. Mestre em Linguística (PPGL/UFC) e integrante do Grupo de Pesquisas SOCIOLIN-LE do Diretório de Pesquisa da CAPES com ênfase na área de descrição e análise sob enfoque da Sociolinguística Variacionista. negociada8. A nosso ver.Em suma. abordagem que objetiva analisar a língua em uso.67) e Carvalho (2007. pois desse modo.181).n. Dito de outra forma. sendo os pressupostos básicos da Sociolinguística de que a variação é inerente ao sistema linguístico.31 – 33). discípula de Labov. não podendo ser a fala expurgada da língua como o idealiza o Estruturalismo. normal e não se deve confundir com prescrição gramatical. Teresina /PI. o modelo estruturalista se contradiz ao considerar a língua um fenômeno social se simultaneamente rejeita a fala como parte integrante do sistema. acreditamos que a concepção de língua na qual se baseia a abordagem variacionista é uma superação do modelo estruturalista pois rompe com a ideia de um sistema fechado e homogêneo ao acrescentar à noção de sistema inaugurada pelo Estruturalismo Linguístico a influência do ambiente externo.A norma é a realização da fala da comunidade. p. um aparente caos de irregularidades. subcategorização (semântica e sintática). e não considera em sua abordagem a análise de dados concretos. Desse modo. 182-200. 2.1. 62 . 3. consideramos que a partir da concepção de língua do modelo saussuriano. as pressões de uso da língua e correlatos sociais na sua análise. A esse respeito. em sua obra: Teoría del lenguaje y linguística general. vemos esse modelo como o mais adequado para o tratamento da língua em uso. é um modelo incompleto. 2015 198 . se acrescentam a força condicionadora do meio. Atualmente leciona no Instituto Federal do Piauí – campus Cocal. desprestigia sua realização concreta em sua função primordial. Notas 1. portanto. Somma./dez. ao invés de mesmo significado para o de comparabilidade funcional. um modelo teórico que não reconhece o caráter dinâmico da língua. regidos pela oposição. a atualização da língua na fala. v. A autora sugere que acima do nível fonológico não haveria duas unidades com mesmo significado. e o repositório sócio-histórico e cultural difundido e estratificado. p. sugerindo alargar o conceito.

95-96. Where does the linguistic variable stop? A response to Beatriz Lavandera. 1978. p. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica. 4. 2008. p. História e estrutura da língua portuguesa. Sociolinguistic Working Paper. S. p. GUY. M. [Padrões Sociolinguísticos. Manual de lingüística. CAMARA JR. J. CARVALHO. Teoría del lenguaje y linguística general. 162).Conferir Saussure (1973. p. p. Princípios de linguística geral: como introdução aos estudos superiores da Língua Portuguesa. 2007. 14. M.. G. p. COSERIUM.Esses princípios são detalhados também em Tarallo (1994. M. A alternância indicativo/subjuntivo nas orações substantivas em função dos tempos verbais presente e imperfeito na língua falada do Cariri.“a língua constitui um sistema de valores puros que nada determina fora do estado momentâneo de seus termos”. COAN. Philadelfia: University of Pensylvania Press. 141. VOTRE. 2 ed.4. v.Universidade Federal do Ceará. modalidade e referência na significação dos pretéritos Mais-que-perfeito e Perfeito: correlações entre função(ões) – formas(s) em tempo real e aparente. 2008] ______. Syntax: an introduction. Madrid: Gregos. Sociolinguistics patterns. LABOV. Petrópolis: Vozes.: Marcos Bagno. 95). W. As categorias tempo. 1967. 2000. CEZARIO. 1973. Marta Scherre e Caroline Cardoso. nº 44. p. 144. Márluce.n.45. 2003.1. 182-200. jul. v. p. 2001). A identidade linguistica da identidade da comunidade de fala: paralelismo unidialetal nos padrões linguísticos. Somma. 1972. 2015 199 . M. 17-32. H. Florianópolis.] Organon. 73-74). Amsterdam: J. Tese de Doutorado .1. aspecto. 2003. Entre esses destaco a pesquisa de Scherre e Naro (1998). São Paulo: Contexto. 7. 6. M.Oportunamente dialoga com o conceito de uma gramática adaptativa (GIVÓN. 2007. 1974.61. 5. E. [S. in: MARTELLOTA (org. Trad. 31-33. Benjamins. (SAUSSURRE.l. ed. 8. Austin: Southwest Educational Development Laboratory./dez. Tese de Doutorado .. Sociolinguística. Teresina /PI.). p. de. J..No português brasileiro existem estudos sobre fenômeno de variação linguística de concordância nominal. T.. 1979. GIVÓN. 2001.Universidade Federal de Santa Catarina. Fortaleza. REFERÊNCIAS CÂMARA JR. p. São Paulo: Parábola.

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