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ISCISA – ESTeSL, 2011 | Módulo I

Curso de Nutrição
Semestre V

DIETOTERAPIA II
Módulo 1: Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e
Metabólicas

Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas

Conteúdos temáticos:

1. Obesidade
2. Síndrome Metabólica
3. Diabetes Mellitus
4. Afecções da Glândula Tiroideia

7. Avaliação de
conhecimentos

5. Doenças da Glândula Supra Renal
6. Aplicação prática dos temas abordados

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Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas

Objectivos a atingir:
1. Reconhecer o impacto epidemiológico de doenças do foro
endócrino e metabólico a nível mundial.
2. Saber identificá-las
diagnóstico.

pelos

sinais,

sintomas

e

critérios

de

3. Reconhecer a importância clínica do controlo destas doenças, de
forma a controlar os sintomas e prevenir as co-morbilidades
associadas.
4. Conhecer as recomendações terapêuticas gerais e a sua amplitude
(diferentes abordagens).
5. Reconhecer a importância da terapêutica nutricional no plano de
tratamentos destas doenças.
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Objectivos a atingir:
6. Reconhecer os objectivos da intervenção nutricional nas diferentes
patologias.
7. Aplicar a dietoterapia (centrada nos objectivos).
8.
9.

Desenvolver “raciocínio clínico-nutricional”
conhecimentos teóricos à prática clínica.

e

aplicar

os

Solucionar casos clínicos.

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OBESIDADE

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Obesidade no Mundo
Organização Mundial da Saúde (OMS)
2005  1.6 biliões de adultos com excesso de peso.
Pelo menos 400 milhões com obesidade.
Pelo menos 20 milhões de crianças (idade < 5
anos) com excesso de peso.
2015  estima que 2.3 biliões terão excesso de peso.
E mais do que 700 milhões serão obesos.

International Obesity Taskforce (IOTF)
2010  aproximadamente 1.0 bilião de adultos com excesso
de peso e cerca de 475 milhões com obesidade.
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Obesidade em Moçambique

2003: IOTF indica que 3,9% das mulheres
são obesas.

2010: Ministério da Saúde indica que, apesar
dos índices de desnutrição em Moçambique, a
prevalência da obesidade é de 22,9%, com uma
maior prevalência nas cidades, cerca de 30,5%.

Estilo de vida sedentário, baixa actividade física
e ingestão energética “não saudável” excessiva.
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Obesidade - definição
Organização Mundial da Saúde
A Obesidade é a acumulação anormal ou excessiva de gordura, que
pode prejudicar a saúde.

A Obesidade…
≠ excesso de peso
= excesso de massa gorda

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0 – 34.9 Médio Excesso de peso 25.5 – 24.0 – 29.5 Baixo* Normal 18.0 e superior Classe I 30.9 Aumentado Obesidade Risco de co-morbilidade 30.0 ou superior * Risco elevado se cancro ou doenças infecciosas Muito severo Definição da OMS e IOTF 10 ISCISA – ESTeSL 2011 5 . 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Métodos para avaliar a obesidade Composição corporal Distribuição da gordura localizada IMC Pregas cutâneas Bioimpedância eléctrica Dual-energy X-ray absorptiometry (DEXA) Peso debaixo de água Perímetro da cintura Relação cinturaanca Tumografia axial computorizada (TAC) Ultrasom Ressonância magnética Ingestão alimentar Gasto energético Registo alimentar Calorimetria das 24h indirecta anteriores (ou das 72h) Questionário do nível de Questionários de actividade física frequência alimentar Detector de movimento Cálculo da composição da Monitorização do dieta ritmo cardíaco (macronutrientes) 9 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Métodos para avaliar a Obesidade Índice de Massa Corporal (IMC) = Peso (kg) / Altura2(m) (Ou Índice de Quetelet) Classificação IMC (kg/m2) Baixo peso Inferior a 18.0 – 39.9 Moderado Classe II 35.9 Severo Classe III 40.ISCISA – ESTeSL.

ISCISA – ESTeSL. subescapular) . tricipital. CDC ISCISA – ESTeSL 2011 11 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Métodos para avaliar a obesidade Pregas cutâneas (bicipital. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Métodos para avaliar a obesidade O IMC é o indicador mais utilizado para avaliar o excesso de peso e a obesidade na população: ▪ Rápido. IOTF. grávidas. ou seja.baixa reprodutibilidade Bioimpedância eléctrica . reprodutível ▪ Baixo custo ▪ Boa correlação com a massa gorda total Mas… Não fornece uma descrição exacta da composição corporal. idosos (IMC específico).mede a % de gordura corporal (ideal: de 25 a 30% para a ♀ e de 15 a 20% para o ♂) . atletas. Não pode ser aplicado em determinadas condições: crianças (tabelas de percentis).avaliação da gordura subcutânea .preditivo da massa gorda corporal . fácil de aplicar.precisão e reprodutibilidade (a gordura é um mau condutor eléctrico) 12 ISCISA – ESTeSL 2011 6 . suprailíaca. não distingue a massa gorda da massa livre de gordura.

associado a maior risco de doenças: Diabetes mellitus tipo 2. Mas…tem baixa reprodutibilidade (medição entre a última costela e a crista ilíaca).9 kg/m2). 13 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Perímetro da cintura e risco associado Risco elevado Risco muito elevado Homem ≥94cm ≥102cm Mulher ≥80cm ≥88cm Quando elevado. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Métodos para avaliar a obesidade Perímetro da cintura É um dos métodos mais utilizados para avaliar a distribuição da gordura corporal e correlacioná-la com o risco de doença cardiovascular. WHO (2007). hipertensão arterial e doenças cardiovasculares (em indivíduos com um IMC entre 25 e 34. Relação cintura:anca Classifica a obesidade quanto ao “formato”.ISCISA – ESTeSL. dislipidemia. de acordo com a distribuição da gordura. Diabetes Care (1994) 14 ISCISA – ESTeSL 2011 7 . Atenção: uma “anca grande” pode camuflar um “abdómen grande”.

colelitíase. etc. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Tipos de obesidade e risco associado Distribuição da gordura corporal: indicador importante de alterações metabólicas e cardiovasculares Obesidade andróide. cólon) • Apneia do sono obstrutiva • Hiperuricémia • Inflamação/ateroesclerose • Osteoartrite • Alterações gastrointestinais (hérnia do hiato. central ou abdominal: a maior parte do tecido adiposo localiza-se acima da linha do umbigo. aterosclerose) Obesidade ginóide: o tecido adiposo está preferencialmente localizado ao nível gluteo-femoral. hipertensão arterial.) • Infertilidade Journal of the ADA (2004) Am Fam Physician.ISCISA – ESTeSL. Maior risco de mortalidade e de doenças (diabetes tipo 2. WHO (2007). (2010) • Stress psicossocial 16 ISCISA – ESTeSL 2011 8 . Diabetes Care (1994) 15 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Obesidade e coco-morbilidades associadas • Doenças cardiovasculares • Dislipidémias • Diabetes Mellitus Tipo 2 e Insulino-resistência • Cancro (endométrio. mama. dislipidémias.

) esteróides.ISCISA – ESTeSL. o dispêndio de energia. sulfonilureias. etc. 18 ISCISA – ESTeSL 2011 9 . género. actividade física) • Sistema Nervoso (o sistema nervoso simpático e a medula da suprarenal desempenham papel importante na homeostase. a TMB em repouso e o equilíbrio das gorduras) • Fármacos (agentes anabólicos. contraceptivos. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Etiologia da Obesidade Doença multifactorial Factores genéticos Sistema Nervoso Sistema Endócrino OBESIDADE Alimentação Actividade Física Ambiente Adaptado de: Frühbeck G (2005) in Clinical Nutrition NS 17 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Etiologia da Obesidade • Hereditariedade • Factores genéticos e familiares • Factores demográficos (idade. anti-depressivos. etnia…) • Factores socioculturais • Factores comportamentais (alimentação. podendo influenciar o consumo de alimentos.

19 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Etiologia da Obesidade Gasto energético Gordura subcutânea Ingestão energética Balanço Energético Positivo Desequilíbro na “balança energética”  Obesidade 20 ISCISA – ESTeSL 2011 10 . Prader-Willi.Hipogonadismo (homens) .Síndrome de Cushing .Hipotiroidismo .ISCISA – ESTeSL.Insulinoma . lesões devido a irradiação ou a infecção.Défice na hormona do crescimento Causas hipotalâmicas: Tumores. S. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Etiologia da Obesidade • Causas endócrinas da obesidade Dispêndio energético reduzido: Consumo energético aumentado: .

serotonina. O Hipotálamo é o centro regulador do metabolismo energético (integra informações com diferentes origens). etc. socioculturais. glucagon.) Os sinais (hormonas. etc. péptidos) que influenciam a ingestão alimentar são mediados no hipotálamo: “Sinais de adiposidade” (ou orexigénicos): Glucocorticóides.ISCISA – ESTeSL. insulina. Hipotálamo “Sinais de saciedade” (ou anorexigénicos): Colecistiquinina. norepinefrina. leptina. neuropéptido y. neurotransmissores. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Etiologia da Obesidade • Ingestão energética O apetite é influenciado por factores cognitivos. 22 ISCISA – ESTeSL 2011 11 . hormona de crescimento. neuroendócrinos. bombesina. metabólicos e comportamentais. sensoriais. “Sinais de adiposidade” “Sinais de saciedade” 21 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Etiologia da Obesidade • Ingestão energética (cont. grelina. gastrointestinais.

Termogénese: Termoreguladora (calor produzido para manter temperatura corporal). 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Etiologia da Obesidade Exemplo para homem de 70 kg • Gasto energético Kcal/dia O gasto energético total (GET) reflecte a soma de 3 componentes major: ± 25% 3000 Actividade física 1) Taxa de Metabolismo Basal* Ef.ISCISA – ESTeSL. Adaptativa (calor produzido na dissipação de energia ingerida excessivamente). transporte e metabolismo de alimentos recentemente ingeridos).) 1. 3. térmico alimentos ± 10% 2000 2) Termogénese 1000 * Ou Taxa de Metabolismo em Repouso (TMB) Taxa metabólica durante o sono Taxa metabólica basal 3) Actividade Física ± 65% 0 Frühbeck G (2005) in Clinical Nutrition NS 23 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Etiologia da Obesidade • Gasto energético (cont. 24 ISCISA – ESTeSL 2011 12 . Taxa de Metabolismo Basal: Energia necessária para a manutenção das funções fisiológicas básicas. 2. Actividade Física: Componente que varia mais no cálculo do GET. Induzida pelos alimentos (calor libertado associado à absorção.

actividade física e alterações do comportamento. de etiologia complexa. num prazo de seis meses. A última etapa são novamente as primeiras recomendações. Se a perda de 5 a 10% do peso não for alcançada.ISCISA – ESTeSL. a etapa seguinte é o mesmo tratamento básico combinado com medicação. o tratamento deve ser também multifactorial e em abordagem multidiscplinar (profissionais especializados): 1º Abordagem comportamental 2º Intervenção nutricional e dietética 3º Plano de actividade física 4º Terapêutica farmacológica Intervenção médica 5º Terapêutica cirúrgica 25 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Tratamento da Obesidade “A primeira etapa do tratamento é a base para cada uma das etapas subsequentes e consiste em dieta. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Tratamento da Obesidade Sendo a obesidade uma doença multifactorial. mas agora combinadas com cirurgia bariátrica. estilo de vida menos sedentário.” WGO Practice Guidelines: Obesity (2009) 26 ISCISA – ESTeSL 2011 13 .

. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Tratamento da Obesidade Abordagem comportamental Promover a alteração do estilo de vida e dos comportamentos associados à ingestão alimentar.ISCISA – ESTeSL.controlo dos estímulos Todos os intervenientes .suporte social .prevenção de recidivas (manter o peso ideal) 27 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Tratamento da Obesidade Intervenção nutricional e dietética 1ª Fase: definição de objectivos Quais as vantagens na perda de peso (ganhos em saúde)? Quais os obstáculos e dificuldades que podem surgir? O doente quer perder peso? Motivação e interesse pessoal ou “o médico mandou”? Definir objectivos realistas.controlo do stress Apoio multidisciplinar . 28 ISCISA – ESTeSL 2011 14 .reestruturação cognitiva Psicólogo .auto-monitorização . tendo em conta o grau de obesidade e as características individuais.grau de motivação .

Proteínas 6. horários. motivar. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Tratamento da Obesidade Intervenção nutricional e dietética 2ª Fase: definição da estratégia nutricional e dietética Conhecer o estilo de vida (ex. valorizar os pequenos ganhos.ISCISA – ESTeSL. profissão. Definir o plano alimentar. Polifraccionamento 2. monitorizar. Acompanhar. Água 30 ISCISA – ESTeSL 2011 15 . Restrição de glícidos simples (açucares) 5. Restrição de lípidos (gorduras) 4. 29 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Tratamento da Obesidade Intervenção nutricional e dietética A terapêutica dietética 1. Explicar os pressupostos do plano nutricional. Corrigir os erros alimentares detectados. Fibra 7. Fornecer ferramentas práticas . redefinir (plano alimentar e objectivos). família. grau de actividade física) e os hábitos alimentares do doente. Restrição calórica total 3.

. .5 a 1 kg em uma semana (sem alterações na práctica de actividade física). 22 a 25 kcal/dia.ISCISA – ESTeSL. Polifraccionamento .várias refeições diárias. Para promover o emagrecimento. de pequeno volume e baixo aporte calórico de cada vez.8 kcal/kg. WGO Practice Guidelines: Obesity (2009) 32 ISCISA – ESTeSL 2011 16 . 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Tratamento da Obesidade A terapêutica dietética 1.distribuição dos macronutrientes. Restrição energética A energia mínima para um adulto de peso normal é de 0. . a ingestão calórica deve ser inferior ao gasto energético: A redução de 500 a 1000 kcal/dia do valor total da dieta. para manter 1 kg de peso corporal. No geral. leva à perda de 0.atenção ao jejum nocturno.curtos intervalos de tempo entre as refeições. 31 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Tratamento da Obesidade A terapêutica dietética 2.

e sempre com supervisão médica). • As VLCD favorecem uma maior perda de peso inicial (15-20%). e com risco de recuperação do peso. Estas dietas não são aconselhadas (apenas se indicação clínica para emagrecimento rápido. Restrição energética (cont. ABESO (2003) 34 ISCISA – ESTeSL 2011 17 . Restrição energética (cont. mas. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Tratamento da Obesidade A terapêutica dietética 2.) Dietas de moderada redução calórica Dietas de baixo valor calórico (lowcalorie diet – LCD) Dietas de muito baixo valor calórico (very lowcalorie diet – VLCD) . à perda de 8% do peso num período de 3 a 8/12 meses. normalmente.ISCISA – ESTeSL. o total de peso perdido não difere das LCD.) • As LCD (ou dietas hipocalóricas) levam.500 kcal/dia em relação ao habitual 800 a 1500 kcal/ dia < 800 kcal/dia WGO Practice Guidelines: Obesity (2009) 33 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Tratamento da Obesidade A terapêutica dietética 2. a longo prazo.

a partir da fermentação das fibras e do amido resistente. ABESO (2003) 36 ISCISA – ESTeSL 2011 18 . Estes ácidos podem diminuir a síntese hepática de colesterol. é menos prejudicial à saúde. dos quais: menos de 7% de ácidos gordos saturados (SFAs). Incluir maioritariamente lípidos com efeito protector cardiovascular. presente na carne. mais de 20% de ácidos gordos monoinsaturados (MUFAs) e igual ou superior a 10% de ácidos gordos poliinsaturados (PUFAs). • O ácido láurico presente no coco é saturado. corresponde. a 60% da ingestão de SFAs na dieta (elevado efeito hipercolesteremiante). • Os triglicéridos de cadeia média (TCM) podem contribuir para a prevenção de doença cardiovascular por favorecerem a oxidação dos ácidos gordos de cadeia longa (mirístico e palmítico). Restrição de lípidos • Reduzir os lípidos (gorduras) na dieta é uma forma de diminuir a densidade energética da alimentação. • Os ácidos gordos de cadeia curta são sintetizados por bactérias do cólon. que são os mais aterogénicos. em média. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Tratamento da Obesidade A terapêutica dietética 3. O colesterol total deve ser < 200mg.7 mg colesterol/dl de sangue). • Recomendações: =ou< a 30% do valor energético total (VET) da dieta em lípidos. mas por ser facilmente oxidado.ISCISA – ESTeSL. • O ácido palmítico. ABESO (2003) 35 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Acerca das gorduras… • Ácidos gordos saturados aumentam o colesterol (1% de SFAs na dieta = 2.

• O azeite contém cerca de 77% dos ácidos gordos sob a forma de MUFA. Restrição de glícidos simples (açucares) • Recomendações: 50 a 60% do VET da dieta em glícidos.ISCISA – ESTeSL. • Os PUFAs têm um importante efeito na protecção cardiovascular: o aumento de 1% de PUFA na dieta equivale à redução de 1. O perfeito equilíbrio entre os ómegas. melhoram o perfil lipídico. Contém ainda elevado teor em vitamina E. • O ómega 6 (n-6) está presente em óleos vegetais e o ómega 3 (n-3) está presente nos peixes.4 mg colesterol/ dl sangue. triglicéridos. ABESO (2003) 38 ISCISA – ESTeSL 2011 19 . favorecem a adequada manutenção da glicemia. glicose e aumenta a fracção HDL (“colesterol bom”). prolongam a sensação de saciedade e suprimem a fome. antioxidante. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Acerca das gorduras… • A substituição de parte dos SFAs da dieta por MUFAs diminui os níveis de colesterol total. associado à diminuição de peso. que protege da peroxidação lipídica e consequente formação de radicais livres. • Preferir alimentos de baixo índice glicémico: diminuem a insulinemia e a resistência à insulina. glicemia e perfil lipídico. ABESO (2003) 37 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Tratamento da Obesidade Intervenção nutricional e dietética A terapêutica dietética 4. tem um efeito sinergético na melhoria da insulinemia.

A perda de peso deve-se à perda de água e de glicogénio. vitaminas. minerais). Frühbeck G in Clinical Nutrition NS (2005) 39 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Tratamento da Obesidade Intervenção nutricional e dietética (11) A terapêutica dietética 6. Água É importante manter uma hidratação adequada (água e bebidas não açucaradas): 1ml/kcal/dia ou 30ml/kg peso/dia. fibra. ABESO (2003) 40 ISCISA – ESTeSL 2011 20 . . . Fibra alimentar  A dieta deve fornecer 20 a 30 g de fibra por dia.Deficiência em nutrientes protectores (ex. (hortaliças e vegetais.Dietas hiperproteicas e hiperlipídicas induzem cetose  com quebra do músculo. cereais integrais. Proteínas Dietas hiperproteicas são desaconselhadas: . 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Tratamento da Obesidade Intervenção nutricional e dietética A terapêutica dietética 5.Excesso de proteína animal:  consumo de purinas e de ácidos gordos saturados   concentrações de ácido úrico e de colesterol-LDL  risco de gota e de doenças cardiovasculares.ISCISA – ESTeSL. leguminosas. fruta fresca) 7.

•  a sensibilidade à insulina •  [ ] de colesterol total e triglicéridos 30 minutos.ISCISA – ESTeSL. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Tratamento da Obesidade Plano de Actividade Física • Aumenta o consumo energético • Favorece a redução da massa gorda • Previne a perda de massa magra • Promove a formação de massa magra • Melhora a função cardiorespiratória • Melhora a pressão sanguínea 150 minutos por semana de uma actividade física de intensidade moderada. 5 dias por semana •  níveis de colesterol-HDL • Ajuda a manter o peso desejável Physical Activity Guidelines for Americans (2008) 41 ISCISA – ESTeSL 2011 A PIRÂMIDE DA ACTIVIDADE FÍSICA 21 .

e pode ser detectada logo na infância. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas SÍNDROME METABÓLICA ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Síndrome Metabólica • É uma condição fisiopatológica comum que pode estar na origem de muitas doenças crónicas.ISCISA – ESTeSL. • A sua presença aumenta o risco de surgir diabetes e cardiopatia. A obesidade desempenha um papel central nesta síndrome. • Tem uma prevalência elevada na população adulta (20 a 25%). juntamente com as crescentes taxas de obesidade infantil e os estilos de vida sedentários. • A sua prevalência tem vindo a aumentar rapidamente a nível mundial. • Atribui um risco 3 vezes superior de desenvolver ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral. WGO Practice Guidelines: Obesity (2009) 44 ISCISA – ESTeSL 2011 22 .

Colesterol-HDL: < 40 mg/dl (1. Glicose plasmática em jejum: ≥ 100 mg/dl (5. * Valores de referência para população europeia.03 mmol/L) em homens e < 50 mg/dl (1. 1IDF – International Diabetes Federation 45 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Síndrome Metabólica – diagnóstico clínico (2) Definição do ATP III1 . ou em tratamento.7 mmol/L). Glicose plasmática em jejum: ≥ 100 mg/dl (5. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Síndrome Metabólica – diagnóstico clínico (1) Definição da IDF1 . e pelo menos dois dos quatro factores seguintes: Triglicéridos: ≥ 150 mg/dl (1.29 mmol/L) em mulheres.03 mmol/L) em homens e < 50 mg/dl (1.29 mmol/L) em mulheres.2005 Diagnóstico quando 3 ou mais condições estão presentes: Perímetro da cintura: ≥ 102 cm no homem e ≥ 88 cm na mulher*. ou em tratamento. ou em tratamento.ISCISA – ESTeSL. ou tratamento para hipertensão arterial diagnosticada previamente. Tensão arterial: sistólica ≥ 130 ou diastólica ≥ 85 mmHg. Tensão arterial: sistólica ≥ 130 ou diastólica ≥ 85 mmHg.7 mmol/L). ou tratamento para hipertensão arterial diagnosticada previamente.6 mmol/L). sendo os valores diferentes para as várias etnias. 1 ATP III – Adult Treatment Panel III do National Cholesterol Education Program 46 ISCISA – ESTeSL 2011 23 . Colesterol-HDL: < 40 mg/dl (1.6 mmol/L). Triglicéridos: ≥ 150 mg/dl (1. ou em tratamento.2005 Ter obesidade central: definida por valores de circunferência da cintura ≥ 94 cm no homem e ≥ 80 cm na mulher*. ou diagnóstico prévio de diabetes tipo 2. * Os valores para os asio-americanos são de 90/80. ou em tratamento.

Tappy&Schwarz (2005) in Clinical Nutrition NS Factor de risco independente para o desenvolvimento de DCV. intolerância à glicose (ou diabetes tipo 2). 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Síndrome Metabólica Caracteriza-se pela ocorrência concomitante de obesidade. estão na origem de cada uma destas condições. ingestão calórica excessiva. HIPERINSULINÉMIA Factor comum a todas estas condições clínicas.ISCISA – ESTeSL. mais especificamente. 47 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Síndrome Metabólica Relação da obesidade com a resistência à insulina Obesidade ginóide Obesidade andróide Sensibilidade à insulina comparada com indivíduos não obesos Menos 23% Menos 55% Secreção de insulina em comparação com indivíduos não obesos Mais 350% Mais 315% Waine C (2007) A Obesidade e o controlo de peso nos cuidados primários 48 ISCISA – ESTeSL 2011 24 . hipertensão arterial e dislipidémia. Desequilíbrios nutricionais e. É a consequência da resistência à insulina.

ISCISA – ESTeSL. Intervenção secundária Terapia farmacológica nos indivíduos cuja alteração dos estilos de vida não é suficiente e apresentam risco elevado de DCV. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Síndrome Metabólica . IDF (2005) 49 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Síndrome Metabólica . se existente). Reduzir as oscilações glicémicas (doentes diabéticos). Evitar o excesso de peso e a obesidade (ou reverter. • Aumentar a prática de actividade física. • Alterar os hábitos alimentares (composição da dieta). Reduzir o risco de doença cardiovascular. Intervenção primária Promoção de estilos de vida saudáveis: • Restringir moderadamente a ingestão energética (promover a perda de peso de 5 a 10% no primeiro ano). Melhorar o controlo da hipertensão arterial.tratamento Objectivo: reduzir o risco de DCV e de diabetes tipo 2.tratamento Objectivos Intervenção nutricional e dietética Aumentar a sensibilidade à insulina. Tappy&Schwarz in Clinical Nutrition NS (2005) 50 ISCISA – ESTeSL 2011 25 .

colesterol total<200mg) Oliveira MJ. Dieta hipocalórica (mas são desaconselhadas as VLCD < 800kcal). 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Síndrome Metabólica . Fraccionar a ingestão alimentar ao longo do dia de forma a proporcionar uma maior saciedade e controlar as glicémias. aumenta a sensibilidade à insulina e reduz os ácidos gordos livres circulantes.ISCISA – ESTeSL. Oliveira MJ. MUFA >= 10%). Uma ingestão calórica controlada promove a redução do peso. in Manual sobre Insulino-resistência. in Manual sobre Insulino-resistência.tratamento Medidas Intervenção nutricional e dietética Reduzir o aporte calórico total (para reduzir a insulino-resistência). Reduzir a ingestão de lípidos e aumentar o consumo de glícidos complexos (para reduzir a glicémia. Reduzir a ingestão de sódio. Glícidos: 50-60% do VET Composição da dieta Proteínas: 15-20% do VET Lípidos: até 30% do VET (SFA <7-10%. GEIR-SPEDM (2009) 52 ISCISA – ESTeSL 2011 26 . GEIR-SPEDM (2009) 51 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Síndrome Metabólica Intervenção nutricional e dietética Ingestão energética De acordo com o grau de actividade física e com o IMC. PUFA <=10%. insulinémia e lípidos plasmáticos).

Oliveira MJ.0 g/kg peso corporal/dia (adulto) Ingestão proteica isolada não conduz a aumento da glicémia. risco de > C-LDL e DCV. cereais integrais. aumento da sensibilidade à insulina e redução do risco de DM2. GEIR-SPEDM (2009) 53 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Síndrome Metabólica Intervenção nutricional e dietética Proteínas Ingestão recomendada  0. frutas).8 a 1. Oliveira MJ.ISCISA – ESTeSL. • Fibra: 20 a 30g / dia • Índice Glicémico (IG): considerar?? Efeitos a longo prazo?? Alimentos com baixo IG e ricos em fibra versus aumento do C-HDL. Ingestão de proteínas animais versus ingestão de gordura animal (colesterol  propriedades aterogénicas  DCV). leguminosas. in Manual sobre Insulino-resistência. in Manual sobre Insulino-resistência. Dietas ricas em proteínas e baixas em glícidos?? Perda de peso rápida mas com risco de aumentar a longo prazo. Frutose como edulcorante não é recomendado. são mais saciantes e concorrem para a diminuição do colesterol-LDL. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Síndrome Metabólica Intervenção nutricional e dietética Glícidos Incentivar a ingestão de glícidos ricos em fibras (grãos. GEIR-SPEDM (2009) 54 ISCISA – ESTeSL 2011 27 . que pela sua digestão mais lenta conduzem a menores variações da glicémia.

reduzir para <7%. in Manual sobre Insulino-resistência. Se níveis de C-LDL aumentados. GEIR-SPEDM (2009) 56 ISCISA – ESTeSL 2011 28 . in Manual sobre Insulino-resistência. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Síndrome Metabólica Intervenção nutricional e dietética Lípidos <10% de ác. Recomendado: 2 a 3 refeições de peixe por semana. Evidências: • dietas com <10% SFA e ricas em glícidos reduzem o C-HDL e aumentam os TGs e a glicémia pós-prandial e a insulinémia. GEIR-SPEDM (2009) 55 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Síndrome Metabólica Intervenção nutricional e dietética Lípidos (cont.ISCISA – ESTeSL. Ingestão de colesterol < 200mg/dia. Oliveira MJ. gordos saturados: melhora o perfil lipídico e a sensibilidade à insulina.) Ácidos gordos ómega 3 (n-3):  TGs e a trombogenicidade Melhoram a actividade plaquetária  C-HDL Contudo. Devem representar pelo menos 10% do aporte total de lípidos). Oliveira MJ. também elevam C-LDL e não têm efeito no controlo glicémico. • dietas ricas em MUFA aumentam a sensibilidade à insulina (sem efeito se ingestão de lípidos >38% do VCT.

in Manual sobre Insulino-resistência. Oliveira MJ.ISCISA – ESTeSL. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Síndrome Metabólica Intervenção nutricional e dietética Álcool A ingestão regular de pequenas quantidades de álcool eleva o C-HDL e a secreção de insulina estimulada pela glicose e reduz a gluconeogénese hepática. sobretudo nos diabéticos insulinotratados. GEIR-SPEDM (2009) 57 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas DIABETES MELLITUS ISCISA – ESTeSL 2011 29 . fornece “calorias vazias” e induz risco de hipoglicémia. reduzindo a insulino-resistência. Homem: < 40 gramas por dia Mulher: < 20 gramas por dia Contudo… O álcool é responsável pela elevação dos TGs.

Sem diagnóstico e tratamento atempado.4% (3.Baixa actividade física AMODIA (2010) 60 ISCISA – ESTeSL 2011 30 .Hábitos alimentares inadequados .Custo de vida elevado . 80% dos casos pode ser prevenido (alimentação e actividade física). • 85 a 95% são diabéticos tipo 2. • 70% dos diabéticos vive em países em vias de desenvolvimento e menos de metade das pessoas são diagnosticados. o número de casos aumentou de 500 para 3500. as complicações e morbilidade associadas à doença aumentam exponencialmente. Segundo a Associação Moçambicana de Diabetes AMODIA. entre o anos 2005 e 2010. Como causas aponta: . Destes.8% no continente africano). 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – no Mundo • Segundo a OMS – 2010: 285 milhões de diabéticos 2030: prevê-se 438 milhões • A prevalência global é de 6. World Diabetes Foundation (2010) 59 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – em Moçambique Não existem dados estatísticos sobre a taxa de prevalência de diabetes em Moçambique.ISCISA – ESTeSL.

2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – em Moçambique Implementação do RAPIA .Rapid Assessment Protocol for Insulin Access em Moçambique: • Maputo. A insulina é produzida nas células ß dos ilhéus de Langerhans do pâncreas e funciona como a “chave que abre a porta das células para a glucose entrar”. a glucose acumula-se no sangue (hiperglicémia). como fonte de energia. ou existir resistência à sua acção. Avalia a disponibilidade de infra-estruturas. Alimentos  Amido e açucares  Digestão  Glucose Depois de absorvida entra na circulação sanguínea para ser utilizada pelas células.ISCISA – ESTeSL. profissionais diagnóstico. Lichinga RAPIA Detecta os problemas/barreiras nas entidades prestadoras de cuidados de saúde aos diabéticos. Se a insulina não for suficiente. 62 ISCISA – ESTeSL 2011 31 . American Diabetes Association (2005) 61 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – definição A diabetes é uma doença crónica caracterizada pelo aumento dos níveis de açúcar (glucose) no sangue = HIPERGLICÈMIA. não alimentando as células. Beira. especializados e materiais/equipamentos para tratamento e cuidados.

amputações) • Neuropatia autonómica • Doença aterosclerótida APDP (2009) 64 ISCISA – ESTeSL 2011 32 . A diabetes é uma doença crónica e requer cuidados médicos permanentes e auto-controlo por parte do doente.ISCISA – ESTeSL. com disfunção e insuficiência de vários órgãos. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – conceito Grupo de doenças metabólicas caracterizadas por estados de hiperglicémia.complicações Complicações agudas: • Cetoacidose diabética • Coma hiperglicémico hiperosmolar • Hipoglicémia Complicações tardias: • Retinopatia (cegueira) • Nefropatia (insuficiência renal crónica) • Neuropatia periférica (úlceras no pé. American Diabetes Association – ADA (2010) 63 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus . que resultam de: .Defeitos na secreção da insulina (destruição auto-imune das células ß-pancreáticas e consequentemente deficit de insulina) . para prevenir as complicações.Defeitos na acção da insulina (alterações que levam à resistência à acção da insulina) A hiperglicémia está associada a complicações agudas e a longo prazo.

APDP (2009) 66 ISCISA – ESTeSL 2011 33 .POLIFAGIA Sensação de boca seca – XEROSTOMIA Fadiga Comichão (prurido) no corpo (sobretudo ao nível dos orgãos genitais) Alterações da visão (“visão turva”) Consequências graves: cetoacidose diabética. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – factores de risco Factores de Risco Ter familiares próximos com Diabetes (hereditariedade) Ter Obesidade (sobretudo se obesidade central) Ter níveis elevados de colesterol total Ser hipertenso Ter tido diabetes durante a gravidez Doentes com afecções pancreáticas e endócrinas APDP (2009) 65 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – sintomas Sintomas típicos associados à Hiperglicémia Urinar em grande quantidade e mais vezes .POLIÚRIA Sede constante e intensa .ISCISA – ESTeSL.POLIDÍPSIA Fome constante e difícil de saciar . coma hiperosmolar e hipoglicémia Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal .

Glucose plasmática ≥ a 200 mg/dl (11. etc. Glicose em jeum ≥ 126 mg/dl (7. HgA1C ≥ 6. doenças do pâncreas exócrino. secundária a insulino-resistência) DM2 ou DMNID – 90% dos casos • Diabetes Gestacional (diagnosticada durante a gravidez) • Diabetes secundária a outras patologias (ex. Jejum significa não ingerir calorias durante pelo menos 8 horas de seguida.ISCISA – ESTeSL. com absoluta deficiência de insulina) DM1 ou DMID – 5 a 10% dos casos • Diabetes Tipo 2 ou Insulino-independente (resulta de uma redução progressiva na secreção de insulina. efeito de fármacos.1 mmol/l) às 2h da Prova de Tolerância Oral à Glicose (PTGO). Ter sintomas de diabetes e valor ocasional de glicémia ≥ 200 mg/dl (11. OU 4.5% (análise feita em laboratório) OU 2. OU 3. deficiências genéticas no funcionamento das células ß-pancreáticas ou na acção da insulina. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – classificação • Diabetes Tipo 1 ou Insulino-dependente (resulta da destruição das células ß-pancreáticas.) American Diabetes Association (2010) 67 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – critérios de diagnóstico 1.1 mmol/l). ADA (2010) 68 ISCISA – ESTeSL 2011 34 .0 mmol/l).

etc.equipa de profissionais de saúde . Atenção às características do doentes (ex.educar o doente diabético (estratégias terapêuticas) . B. grau de escolaridade. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – tratamento ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – tratamento A. Intervenção multidisciplinar .certificar que o doente compreendeu os ensinos para conseguir um auto-controlo eficaz. apoio familiar. Avaliação inicial .) ADA (2010) 70 ISCISA – ESTeSL 2011 35 .ISCISA – ESTeSL.classificar a diabetes e detectar a presença de complicações.“aliança terapêutica” . Idade.

acção intermédia e de acção lenta. Insulina) se necessário um melhor controlo. Valores de A1C inferiores a 7% reduzem o risco de complicações microvasculares e neuropáticas. b) Diabetes tipo 2: Combinação de antidiabéticos orais (fármacos) e alteração do estilo de vida (terapêutica nutricional e actividade física). Insulinas de acção rápida. feita pelo doente ou familiar/cuidador.ISCISA – ESTeSL. ADA (2010) 72 ISCISA – ESTeSL 2011 36 . Controlo glicémico C. controlo dos valores analíticos .1. Controlo específico mediante os valores/tipo de diabetes a) Diabetes tipo 1: Terapia intensiva com insulina. .2. ADA (2010) 71 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – tratamento C.análises à HgA1C (pelo menos 2 vezes por ano). 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – tratamento C. Incluir outros agentes (ex. Permite conhecer a variação da glicémia ao longo do dia e ajustar a terapêutica (farmacológica e nutricional).auto-controlo: avaliação e registo das glicémias ao longo do dia.

tratamento Terapêutica farmacológica aprovada em Moçambique: Anti-diabéticos orais: Sulfuniloreias: aumentam a produção de insulina pelas células beta. Terapêutica nutricional 74 ISCISA – ESTeSL 2011 37 . Biguanidas (metformina e fenformina): reduzem a resistência dos receptores periféricos à insulina e inibem a gluconeogénese hepática.ISCISA – ESTeSL. Insulinas: de acção rápida. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus . intermédia e lenta. AMODIA (2010) 73 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – tratamento D.

Terapêutica nutricional Deve ser instituída em indivíduos com pré-diabetes (glicémia em jejum > 100 mg/dl e < 126 mg/dl) A alimentação da pessoa com diabetes deve ser semelhante à aconselhada para a população em geral. tendo por base as IDR*. peso. * Ingestão Dietética de Referência ISCISA – ESTeSL 2011 38 . ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – tratamento D. O doente diabético com excesso de peso ou obesidade deve seguir as recomendações dietéticas para o emagrecimento. ou seja.ISCISA – ESTeSL. • Prevenir as hipoglicémias graves. equilibrada e adaptada às necessidades (idade. género. tendo em consideração as características do doente. Terapêutica nutricional Objectivos: • Obter e manter as glicémias próximas dos valores normais. saudável. altura. • Prevenir ou reduzir o risco das complicações crónicas da diabetes. actividade física). a dislipidémia e a hipertensão arterial. • Prevenir e tratar (se existente) a obesidade. adaptadas à terapêutica farmacológica e aos objectivos terapêuticos. • Proporcionar as necessidades nutricionais individuais. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – tratamento D.

Equivalências .Glícidos O tipo e a quantidade de glícidos influenciam os valores da glicémia Amido Lactose Frutose “Açucares” Pão Leite Fruta Doces Farinhas/cereais Iogurtes Sumos de fruta Refrigerantes Batata Arroz. Terapêutica nutricional – Ingestão Energética Fórmula Dietética para atingir o VET Proteínas: 15 a 20% do VET (se função renal normal) Lípidos: 30% do VET (seguir recomendações – obesidade) Glícidos: 50 a 55% do VET APDP (2009) 77 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – tratamento D. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – tratamento D. massa Leguminosas -Distribuição ao longo do dia . Terapêutica nutricional .Combinação de alimentos (digestão/saciedade) .ISCISA – ESTeSL.Índice Glicémico 78 ISCISA – ESTeSL 2011 39 .

Diabetes Tipo 1: conjugar com o esquema de insulina.ISCISA – ESTeSL. o colesterol total e regulam o trânsito intestinal.Glícidos Diabetes Tipo 2: distribuição e moderação pelas várias refeições. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – tratamento D. 1 porção (ou equivalente) glicídica = 12 g de glícidos 79 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – tratamento D. Combinação de “açucares de absorção rápida” e “açucares de absorção lenta”. Se esquema convencional: glícidos segundo esquema na DM2 Se esquema com insulina de acção rápida: ajustar o nº de porções glicídicas por cada refeição. Terapêutica nutricional . 80 ISCISA – ESTeSL 2011 40 . Terapêutica nutricional .Fibra Legumes / hortaliças Fruta Leguminosas Cereais e derivados integrais (ou pouco refinados) Complexos não digeríveis. a glicémia pós prandial (após a refeição). ajudam a controlar a saciedade.

xilitol. isomalte) Metade das calorias do açucar Ingestão elevada pode provocar flatulência / diarreia Sacarina. Terapêutica nutricional – “Alimentos para diabéticos” Não são necessários para controlar as glicémias Podem conter ingredientes que influenciam a resposta glicémica e o controlo de peso corporal Geralmente levam a comportamentos de “consumo livre Preço?? Relação custo-benefício?? 82 ISCISA – ESTeSL 2011 41 . manitol. Terapêutica nutricional – Adoçantes Adoçantes calóricos Adoçantes não calóricos Frutose Calorias = açucar (4 kcal/g) Interfere mais lentamente na glicémia Ingestão elevada pode aumentar os TGs Poliálcoois (Sorbitol. acessulfame K. aspartame. ciclamato de sódio. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – tratamento D.ISCISA – ESTeSL. com moderação O aspartame não deve ser consumido por pessoas com fenilcetonúria. 81 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – tratamento D. maltitol. sucralose Não aumentam as glicémias Podem ser consumidos.

ADA (2010) 83 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Afecções da Glândula Tiroideia ISCISA – ESTeSL 2011 42 . 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Diabetes Mellitus – tratamento E. pelo menos 150 minutos por semana. O ideal é a actividade física aeróbia de intensidade moderada (de acordo com a capacidade/resistência física e condição cardíaca).ISCISA – ESTeSL. Actividade Física Recomendação • O doente diabético deve realizar actividade física regularmente.

Malignos (carcinomas).ISCISA – ESTeSL. Neoplasias da tiróide A grande maioria são tumores benignos (adenomas). 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Afecções da Glândula Tiróideia Hipotiroidismo Primário: por insuficiência da glândula tiroideia. Secundário: adenoma hipofisário secretor de TSH. Harrison 16ª Edição (2006) 85 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Hipotiroidismo Sinais e Sintomas spedm-tiroide. Secundário: devido à existência de doença hipofisária ou hipotalâmica. etc. Hipertiroidismo Primário: Doença de Graves. Bócio tóxico multinodular.org ISCISA – ESTeSL 2011 43 .

ISCISA – ESTeSL.org ISCISA – ESTeSL 2011 44 . e nas mulheres grávidas e lactantes. a tiróide capta o iodo circulante e aumenta de volume. Quando existe pouco iodo no organismo. 53. ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Hipertiroidismo Sinais e Sintomas spedm-tiroide. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Hipertiroidismo O bócio é o aumento do tamanho da glândula tiróide. suplementou-se o “sal de cozinha”  sal iodado. As necessidades de iodo são maiores nas crianças e adolescentes. Para compensar a falta de acesso a estes alimentos em algumas populações.7% da população moçambicana utiliza sal iodado. Tiróide Segundo o INE (2003). Fontes de iodo: peixe e marisco.

ISCISA – ESTeSL. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Neoplasias da tiroideia Risco de compressão: Esófago – disfagia Traqueia – dispneia Nervo laríngeo – alterações da voz Tiróide hiperactiva Adequar a alimentação à sintomatologia 89 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Doenças da Glândula Supra Renal ISCISA – ESTeSL 2011 45 .

2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Doenças da Glândula Supra Renal Por hiperfunção da SR: • Síndrome de Cushing (excesso de produção de cortisol) • Hiperaldosteronimo O cortisol é um glucocorticóide. 60 a 70% doença auto-imune) • Hipoaldosteronismo Harrison 16ª Edição (2006) 91 ISCISA – ESTeSL 2011 Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Doenças da Glândula Supra Renal S. imunosupressor e anti-inflamatório Por hipofunção da SR: • Doença de Addison (causada pela produção insuficiente de glucocorticóides.ISCISA – ESTeSL. Cushing – sinais e sintomas Obesidade central HTA Osteoporose Diabetes mellitus Hipocaliémia Alcalose metabólica Labilidade emocional Amenorreia e hirsutismo Acne 92 ISCISA – ESTeSL 2011 46 .

com prejuízo para a saúde.ISCISA – ESTeSL. que. alterações da glicémia. 2011 | Módulo I Tratamento Dietético em Doenças Endócrinas e Metabólicas Doenças da Glândula Supra Renal D. doenças da tiróide e da suprarenal) podem originar sintomas relacionados com o estado nutricional. • A Diabetes Mellitus é uma doença crónica caracterizada por estados de hiperglicémia. pode originar complicações graves para a saúde (algumas irreversíveis). pode dar origem à Síndrome Metabólica. • Outros transtornos endócrinos (ex. • A obesidade central (de pior prognóstico). Addison 93 ISCISA – ESTeSL 2011 Em suma… • A Obesidade é uma doença de origem multifactorial e de tratamento complexo. 47 . que está directamente relacionada com outras patologias. HTA). quando mal controlada. quando associada a outros factores de risco (alterações lipídicas. • A Síndrome Metabólica aumenta o risco de Doença Cardiovascular e de Diabetes tipo 2.

• A intervenção/terapia nutricional deve ser vista como um todo. com o objectivo de controlar e melhorar sintomas. • Assim. promover um estado nutricional saudável e permitir uma melhor qualidade de vida a doentes crónicos. além das abordagens médico-cirúrgico-farmacológicas. na sua vertente comportamental (“ensinar” e promover a adopção hábitos alimentares saudáveis) e na sua vertente de dietoterapia mais direccionada a cada caso. se já instaladas. a nutrição desempenha um papel fulcral no tratamento destas patologias. 2011 | Módulo I Em suma… • Assim.ISCISA – ESTeSL. • A prática regular de actividade física é um dos aspectos obrigatórios a considerar na intervenção nutricional e deve ser encorajada por todos os profissionais de saúde que intervêm junto destes doentes. 48 . reduzir o risco de complicações (co-morbilidades associadas). o objectivo clínico é a prevenção destas patologias ou.