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XV Encontro Baiano de Educação Matemática Educação Matemática na Formação de Professores:um novo olhar UNEB CAMPUS X Teixeira de Freitas BA 3 a 5 de Julho de 2013

FORMA DIFERENCIADA PARA INICIAR NÚMEROS DECIMAIS

VERONICA BORSONELLI MARCARINI Instituto Federal do Espírito Santo veronicabmarcarini@gmail.com

JADY OGIONI COELHO Instituto Federal do Espírito Santo

jady257@hotmail.com

GERLIANE MARTINS COSME Escola Belmiro Teixeira Pimenta gmartinscosme@gmail.com

RESUMO

Este trabalho relata uma experiência vivenciada em sala de aula realizada pela professora regente com o apoio de licenciandas em matemática e bolsistas do Programa de Iniciação a Docência-PIBID. Esta sequência foi desenvolvida nas duas turmas de 5ª série do ensino fundamental da escola estadual de ensino fundamental e médio do município de Serra-ES, em março de 2013. O objetivo da sequência didática desenvolvida foi introduzir o conteúdo de números decimais de forma mais natural para os alunos, identificando as dificuldades e conhecimentos já adquiridos por eles. Concluímos que os alunos conseguiram realizar com êxito todas as etapas propostas, e adquiriram o conhecimento suficiente, de forma bem natural, sobre o conteúdo em estudo.

PALAVRAS-CHAVE: Números decimais. Metodologias de ensinos. Trabalhos coletivos.

INTRODUÇÃO

Estudos têm mostrado que o ensino dos “números decimais” tem deixado lacunas na formação dos alunos no que diz respeito a este conteúdo (ESPINOSA, 2009; CUNHA;MAGINA, 2004). Um dos motivos pelos quais isso acontece se deve ao fato de as abordagens feitas sobre números decimais privilegiarem mais os aspectos procedimentais (e operacionais) relacionados a eles do que os aspectos conceituais (ZABALA, 1998). Por exemplo, segundo Cunha e Magina (2004, p. 1), “a aprendizagem de técnicas operatórias que normalmente ocorre de forma repetitiva e mecânica, não favorece a elaboração pelos alunos, dos nexos conceituais da ideia da medida com o conceito do número”. Acreditamos que a efetiva aprendizagem sobre determinado

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conteúdo matemático ocorre quando conceitos e procedimentos são devidamente explorados quando do desenvolvimento de tal conteúdo.

Tomando por base essa problemática que envolve o ensino dos números decimais (e tantos outros conteúdos matemáticos), nos propusemos aqui relatar e fazer uma reflexão acerca de uma sequência didática desenvolvida em duas turmas de 5ª série do ensino fundamental, atividade esta proposta pela professora regente e desenvolvida com nossa colaboração. Ressaltamos que essa atividade de colaboração faz parte das ações de atuação dos licenciandos inseridos no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência Pibid do Instituto Federal do Espírito Santo Campus Vitória, que atuam no ensino fundamental. Iniciamos nossa atuação nessa escola em maio de 2012 e continuamos até a presente data. A professora regente citada é professora supervisora do programa na referida escola.

A SEQUÊNCIA DE ATIVIDADES

A sequência didática foi elaborada com o objetivo de fazer uma introdução ao estudo dos números decimais e foi organizada em três atividades, cujos objetivos eram:

Primeira atividade reconhecer números decimais expressos por preços de produtos em panfletos de supermercado a partir da pronúncia dos mesmos;

Segunda atividade classificar números decimais expressos por preços de produtos em panfletos de supermercado em ordem crescente;

Terceira atividade realizar operações de adição de números decimais expressos por preços de produtos em panfletos de supermercado e de multiplicação destes por números naturais com auxílio de calculadora.

Na primeira atividade foram distribuídos panfletos de supermercado diferentes para cada uma das quatro filas de alunos. A professora deu uma dica de qual setor (frios, limpeza, entre outros) o produto se encontrava, e prosseguiu ditando o preço de tal produto para que cada aluno o identificasse pela pronúncia do número decimal, e o escrevesse no

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caderno. Tal procedimento foi realizado quatro vezes por fila, sendo que ao final, a professora escreveu no quadro, os nomes dos produtos e seus respectivos preços, para que os alunos corrigissem.

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Figura 1- Aluno realizando a primeira atividade

A segunda atividade foi realizada em grupo com quatro integrantes cada. A

professora pediu para que cada grupo escolhesse dez produtos que pretendiam “comprar” e

fizesse o registro destes em uma tabela especificando nome do produto e preço, em ordem crescente de valores. Além disso, solicitou que os alunos determinassem a quantidade de

cada produto que queriam “comprar”.

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Figura 2- Alunos realizando a segunda atividade

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Figura 3 - Tabela construída na segunda atividade

Na etapa seguinte os alunos deveriam calcular, com o auxílio de calculadora, quanto pagariam pela compra de cada produto de acordo com a quantidade desejada e em seguida, calcular quanto pagariam pela compra toda. Tudo deveria ser registrado na tabela. Para o bom desenvolvimento da atividade, a professora e as bolsistas apresentaram as funções da calculadora, de maneira a não haver erro decorrente da má utilização da máquina.

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Tabela 4 Tabela da terceira atividade em andamento

ANÁLISE DAS ATIVIDADES

Durante a primeira atividade, percebemos grande interesse por parte dos alunos que ficaram atentos à pronúncia dos números para que pudessem encontrar o produto

“correto”. A grande maioria deles obteve sucesso na atividade, o que indica que

conseguem relacionar a pronuncia de números decimais com sua representação escrita, quando estes estão representando preços.

Achamos essa atividade excelente, isso porque, além de atingirem o objetivo inicial, os alunos puderam fazer uma ligação entre o que já conhecem e lidam no cotidiano, que é o valor em dinheiro, e o conteúdo escolar.

A partir de atividades como essa, o aluno começa a construir o conhecimento sobre o conteúdo matemático escolar de forma muito mais significativa, o que favorece a formação dos conceitos relacionados ao conteúdo.

Ao realizarem a segunda atividade, os alunos colocados para trabalhar em grupo, precisaram decidir coletivamente os produtos a serem postos na tabela. Isso gerou discussões, acordos e desacordos, mas apesar dos desacordos, todos os grupos conseguiram definir e classificar seus dez produtos de forma pacífica, e em grande maioria, correta.

Foi interessante perceber como os alunos realizaram essa tarefa de classificação de números decimais com tanta naturalidade, identificando qual número decimal era maior ou

menor, pois eram ações já presentes em seu dia a dia. Também, ao decidirem a quantidade

de cada produto que deveriam levar em suas “compras”, surgiram comentários do tipo:

“Quantas unidades de cada produto levar?!”, “A minha mãe costuma comprar X deste produto!”, o que enfatiza o trabalho coletivo realizado.

Para o desenvolvimento da terceira atividade, foi necessário o uso da calculadora e por isso professora e bolsistas trabalharam as funções da máquina, o que foi bem importante, afinal para quem nunca fez uso de uma, são ações desconhecidas.

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É importante destacar que, apesar de haver certo receio em se utilizar a calculadora como recurso didático-pedagógico, quando a atividade é bem planejada e os objetivos da utilização estão claros e bem definidos, muito se tem a ganhar no processo de ensino e aprendizagem com a utilização da mesma (MARCHESI, 2001).

Observamos que praticamente todos os grupos resolveram essa etapa multiplicando, primeiramente, a quantidade do produto pelo seu respectivo preço (utilizando assim a função de multiplicação da calculadora) e depois efetuando a soma dos totais pagos por cada produto, achando assim o valor total da compra.

Um detalhe relevante é a importância que os alunos deram a como se organizar para realizar a atividade. A maioria deles dividiu as tarefas, organizaram até quem ia usar primeiro a calculadora. Apesar do tumulto que atividades como essa podem causar, é muito bom para eles já vivenciarem estas situações para desenvolverem ainda mais o espírito de organização.

Além disso, os alunos foram levados a repensar seus resultados quando alguém do grupo discordava do resultado encontrado por outro colega do mesmo grupo. Daí, eles tinham que rever os cálculos feitos e quando sentiam muito dificuldade pediam ajuda aos colegas de outros grupos, à professora ou às bolsistas. Teve um aluno que inclusive abandonou a calculadora, pois discordava do resultado obtido pelo colega e fez todos os cálculos mentalmente. Quando pediu-nos para conferir o seu resultado, verificamos que o que ele havia feito mentalmente estava correto, enquanto que havia um erro no cálculo do colega que utilizou a máquina. Ele ficou todo orgulhoso porque havia conseguido fazer esta etapa da atividade sem o auxílio da calculadora.

Para encerrar a sequência de atividades a professora pediu que cada grupo fizesse uma cópia da tabela com os resultados obtidos e a entregasse na aula seguinte para sua avaliação.

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Figura 3- Tabela pronta para ser entregue à professora.

De modo geral, percebemos que os alunos gostaram muito da sequência de atividades e participaram efetivamente de cada etapa. Foi um trabalho que envolveu a todos, tanto nas etapas individuais quanto nas coletivas. Acreditamos que os objetivos definidos pela professora com o desenvolvimento das atividades foram alcançados e outros que não haviam sido previamente definidos também, como, por exemplo, desenvolver o espírito de organização e trabalhos coletivos. Estes últimos foram também conteúdos desenvolvidos durante a sequência, os chamados conteúdos atitudinais (ZABALA, 1998). Tais conteúdos não seriam desenvolvidos se a atividade fosse meramente procedimental.

Quando conteúdos matemáticos são desenvolvidos por meio de atividades diferenciadas, como ocorreu com essa sequência, muitas competências e habilidades podem ser desenvolvidas nos alunos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A ideia de trabalhar com panfletos de supermercado para introdução de números decimais na 5ª série é sem dúvida uma boa ideia. O fato de, em geral, todos os alunos já terem em algum momento contato com compras, panfletos e dinheiro, os deixa mais a vontade com a atividade, já estando habituados com as situações apresentadas aeles. Dessa forma o aprendizado chegou de forma mais leve e confortável. Além de abrir-lhes os olhos para o tanto de conhecimento que tinham sobre o conteúdo.

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Introduzido dessa forma, muitas possibilidades se abrem para o aprofundamento do estudo sobre números decimais. As atividades a serem desenvolvidas posteriormente, deverão ser muito bem planejadas para que não deixem lacunas na formação do conceito de número decimal. E devem, preferencialmente, manter o elo entre a matemática escolar e a matemática presente no cotidiano dos alunos.

As reflexões feitas sobre a experiência aqui relatada e os estudos bibliográficos realizados para a escrita deste artigo nos chamaram atenção para aspectos ligados ao ensino de números decimais que antes nos passavam despercebidos. Aspectos estes que comprometem fortemente a efetiva aprendizagem dos números decimais como, por exemplo, a relação entre o conceito de número decimal e a ideia de medida (CUNHA; MAGINA, 2004; ESPINOSA, 2009), a diferenciação entre grandezas discretas e grandezas contínuas, a classificação dos números decimais de acordo com sua ordem de grandeza (ESPINOSA, 2009), a relação entre os números decimais e as frações, e outros.

São aspectos como os mencionados acima que deverão nortear os planejamentos das futuras atividades sobre números decimais a serem desenvolvidas nas turmas de 5ª série. Todos nós, professores e futuros professores, precisamos estar atentos ao que estamos ensinando e como estamos ensinando, pois as consequências podem ser graves. Só com a constante reflexão sobre nossa prática e estudo/formação, poderemos obter melhores resultados em termos de ensino e aprendizagem da matemática.

REFERÊNCIAS

CUNHA,M. R. K. da; MAGINA,S. M. P. A medida e o número decimal: um estudo sobre a elaboração de conceito em crianças do nível fundamental. In.: VIII Encontro Nacional

de Educação Matemática, 2004, Recife. Anais

eletrônicos...,

Recife: ENEM, 2004.

Disponível em: <ww.sbem.com.br/files/viii/pdf/07/1CC75464039872.pdf>. Acesso em: 28 mar. 2013.

ESPINOSA, C. E. Números decimais: dificuldades e propostas para o ensino e aprendizado de alunos de 5ª e 6ª séries. 2009. 77p. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Matemática) Departamento de Matemática, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre (RS). Disponível em:

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<http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/18228/000728048.pdf?sequence=1 >. Acesso em: 28 de março 2013.

MARCHESI, A. Inversão de mão na rua dos racionais: dos números com vírgula para os fracionários. In: FIORENTINI, D.; MIORIM, M. A. Por trás da porta, que matemática acontece? Campinas: FE/Unicamp/CEMPEM, 2001.

ZABALA, A. A prática educativa: como ensinar. Trad. Ernani F. da F. Rosa. Porto Alegre: ArtMed, 1998.