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Jostein Gaarder O LIVRO DAS RELIGIOES JUDAISMO Abraao judeu «Olhai para Abraiio, vosso pai, e para Sara que vos deu a luz. Ele estava s6, quando o chamei, Eu 0 abengoei e multipliquei.» Isafas 51,2 Abraiio cristao «Disseram-lhes eles em resposta: “Abraiio é nosso pai.” “Se vés cis filhos de Abrafo”, Jesus replicou, “farfeis como ele fez. Mas v6s procurais matar-me, a Mim que vos disse a verdade, tal como a ouvi a Deus. Isso nfo fez Abraao.”» S. Jofio 8, 39-40 Abraaio muculmano «Dizem eles: “Aceitai a fé judaica ou crista e sereis correctamente guiados.” Dizei: “De forma alguma! Nés acreditamos na fé de Abraio, © integro. Ele nao foi nenhum id6latra.”» Alcorao, sura 2, 129 ‘Trés grandes religides mundiais tiveram inicio no Médio Oriente: 0 Judaismo, o Cristianismo ¢ o Islamismo. Todas elas tiveram influén- ja na regiiio do Mediterraneo, mas o Cristianismo e 0 Islamismo baram por se espalhar muito mais, sendo hoje as duas maiores religides no mundo. Enquanto o Cristianismo € sobretudo a religiao do Ocidente (trés quartos da totalidade dos cristaos vivem na Europa e na América do Norte e do Sul), o Islamismo tornou-se uma religiao importante na Asia 109 (trés quartos do total de islamicos habitam aquele continente). Em Africa, as duas religides tém praticamente a mesma forga. O Islamismo esta ainda fortemente enraizado na cultura arabe e € predominante nos paises do Médio Oriente. Mas, apesar disso, actualmente sé uma pe- quena percentagem de muculmanos sao arabes. O Judaismo est4 a ser bem sucedido no Estado de Israel, fundado em 1948, mas ali residem apenas trés dos dezassete milhdes de judeus que existem no mundo, Quase metade deles vive na América. O Judaismo A palavra «judeu» deriva de Judeia, nome de uma parte do antigo dominio israelita, . Gradualmente a definigao alar- gou-se de forma a incluir os cénjuges. O Judafsmo nao € somente uma fraternidade religiosa, mas também. historica e cultural, Historicamente, 0 termo judeu tem-se revestido de conotagdes raciais, o que € impreciso, jé que existem judeus de todas as ragas. O pacto de Deus com o Seu povo escolhido Uma das caracteristicas da religifio judaica consiste no facto de estar tio intimamente ligada & histéria. Os relatos biblicos baseiam-se na crenga firme de que Deus teria feito uma alianga, ou pacto, especial com 0 Seu povo escolhido. Os relatos comegam com Addo e Eva e com algumas narragées draméticas que ilustram. as consequéncias do pecado do homem e do seu desejo de rebeliao contra Deus. Adio e Eva foram expulsos do Pa- rafso. Posteriormente, o mundo inteiro foi destrufdo por um enorme di- Itivio de que apenas se salvaram Noé e¢ a sua famflia, juntamente com todos os animais da terra. As cidades impias de Sodoma e Gomorra foram extintas e a Torre de Babel arrasada, por representarem a tenta- tiva do homem de atingir 0 céu. 110 Cada acontecimento hist6rico é interpretado, pelos autores da Bi- blia, como uma expressdo da vontade divina. De Abraiio a Moisés A fase histérica seguinte comegou quando Abraao partiu da cidade de Ur, actualmente © Sul do Traque, cerca do ano de 1800 a.C. O livro do Génesis refere que Deus teria dito a Abrado: «Deixa a tua terra, a tua familia e a casa de teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de vés uma grande nagiio.» Essa nagao recebeu 0 seu nome depois da dramatica batalha com Deus travada pelo neto de Abraio. Deus apeli- dou-a de Israel, e os doze filhos de Jacob tornaram-se os pais das doze tribos de Israel. Na sua caminhada para a Terra Prometida, algumas das tribos is- raelitas acabaram no Egipto, onde foram escravizadas pelos farads. ‘A Biblia relata como Moisés as conduziu para fora do Egipto, através de uma deambulagao pelo deserto durante quarenta anos, antes de alcangarem Canai, a Terra Prometida. Durante a sua permanéncia temporaria no deserto, Deus entregou a Moisés, no monte Sinai, duas tébuas de leis contendo os Dez Man- damentos, a que os israelitas hebreus deveriam obedecer. Tinha sido conclufda uma alianga em que os israelitas se comprometiam a reco- nhecer um tnico deus mas tornar-se-iam, em contrapartida, 0 povo escolhido de Deus, recebendo o seu auxilio ¢ apoio desde que cum- prissem a sua parte do acordo e obedecessem As Suas leis. Por volta do ano 1200 a.C., os israelitas conquistaram algumas par- celas de Canaa, ¢ durante muito tempo viveram lado a lado com os habi- tantes ndo-israclitas. Os seus chefes politicos e religiosos eram ‘os chamados «juizes», que asseguravam a observancia, por parte do povo, das leis que Deus thes tinha destinado. Foi, em parte, devido 4 guerra com os filisteus, que surgiu a necessidade de um poder centralizado. Dominio de Israel Saul tinha introduzido a monarquia cerca do ano 1000 a.C., mas esta atingiu o seu zénite nos reinados de David e Salomao, época em que Israel foi uma grande poténcia politica. David, que nascera em ut Belém, foi o grande e lendario rei que combateu o inimigo e uniu as doze tribos, em Jerusalém, sob a sua chefia absoluta. A Arca da Ali- anga — o coffe que continha os Dez Mandamentos que, segundo a tradi¢do, os israelitas tinham trazido consigo do Sinai — foi entdo transferida para a nova capital. Af, foi colocada no santudrio interior do novo templo que o sucessor de David, Salomao, tinha mandado eri- gir no século X aC. Além disso, o Templo constava de uma sala sagrada interior que continha ofertas de incenso e de pao da proposigao, assim como de um vestibulo exterior onde os sacrificios eram levados a efeito. Os sa- cerdotes do Templo tinham a seu cargo esses sacrificios, que podiam consistir na oferta de animais ou de frutos provenientes das colheitas. O culto era acompanhado por canticos e hinos, os chamados Salmos de David, da Biblia. Os sacrificios, que eram em parte uma dédiva a Deus, ¢ em parte uma expiagao de culpa, tinham que ser executados de acordo com normas rigorosas, E provavel que as pessoas, lentamente, comegassem a sentir que os sacrificios pareciam mecfnicos, enquanto, simultaneamente, a li- deranga do pais mostrava sinais de decadéncia moral e politica, o que desencadeou 0 oprébrio dos « igrado dos judeus é a Biblia, uma colecgao de textos de 1 hist6rica, literdria e religiosa. A Biblia judaica é igual ao An- ligo Testamento, mas ordenada de maneira bastante diferente. © cénone judaico foi estabelecido por um concilio, em Jabneh, por volta do ano 100 d.C. Compreende vinte e quatro livros, divididos em trés grupos: A Lei (Tora) — os cinco livros de Moisés Os Profetas (Neviim) — os livros histéricos e proféticos Os Escritos (Ketuvim) — os livros remanescentes Se pegarmos nas letras iniciais destas trés 6 me secgdes, elas formam a base do acrénimo Tanakh, a designagao judaica comum para Biblia, A palavra «Biblia» deriva, de facto, de uma palavra grega que signi- fica «livros», mas é utilizada tanto pelo judeus como pelos cristaos, A Lei No tempo de Cristo, os cinco livros de Moisés eram considerados como uma entidade, e denominados «a Lei», por conterem as regras € Preceitos legais, morais ¢ de culto dos judeus. A divisio nos cinco li- vros de Moisés data da tradugio grega feita a partir do original hebraico, aproximadamente no ano 200 a.C. . _Os cinco livros nao foram redigidos do Principio ao fim por um nico autor. A mirfade de histérias que neles se pode encontrar foi, du- zante um tempo considerdvel, transmitida sobretudo oralmente. Assim os livros de Moisés compreendem uma complexa trama de textos que foram transpostos para a forma escrita ao longo de um largo periodo de tempo. O processo completo foi concluido por volta do ano 400 a.C. Os livros hist6ricos e proféticos ; Caracteristicamente, estes livros encaram os acontecimentos poli- ticos como uma expressao do relacionamento entre Deus e os israeli- tas, em circunstancias variadas. A totalidade da hist6ria de Israel é retratada como exemplo da lei de retribuigdo: a conformidade com a 116 vontade de Deus traz béngaos ao Seu povo, com a mesma certeza que a dlesobediéncia e a apostasia conduzem ao julgamento e a dor. O des- lino de Israel é interpretado, de forma consistente, A luz de exigéncias thvinas. Os livros podem, assim, ser lidos como uma justificagao para w incéndio do Tempio em Jerusalém, e para o exilio, na Babildnia, de uma grande parte da populagao. Esses livros constituem a histéria escrita mais antiga do mundo. Surgiram muito antes de existir qualquer coisa como hist6ria compa- Le andlise de fontes. O objectivo dos livros histéricos do Antigo Testamento nao era, vontudo, escrever histéria pela hist6ria, mas antes dar-lhe uma inter- pretagdo religiosa. Os nomes de dois dos livros hist6ricos derivaram de mulheres. Os livros de Rute e Ester so histérias curtas e maravilhosas, que tém mu- Iheres nos principais papéis. Os livros proféticos sao Isafas, Ezequiel e os doze Profetas Meno- res, assim designados em virtude da brevidade das suas obras. De acordo com o seu proprio testemunho, os profetas tinham sido chamados para proclamar a vontade de Deus, empregando com fre- quéncia a formula «O Senhor disse» Quando um mensageiro ia transmitir uma mensagem, de um rei, por mplo, prefaciava-a com «O rei ordena». Desta forma deixava claro que nao falava em nome pessoal. Tal preambulo funcionava um pouco como a assinatura ou o carimbo numa carta, nos nossos dias. Da mesma, forma os profetas acreditavam que tinham sido enviados por Deus para levar a Sua mensagem ao povo. Quando as pessoas nao viviam segundo as exigéncias do Deus justo, iriam deparar-se, segundo os profetas, com o castigo € 0 julgamento. Um bom exemplo dessa pregagao dos profetas foi Am6s, que viveu aproximadamente em 750 a.C., ¢ € 0 profeta mais antigo que podemos encontrar no Antigo Testamento. O seu ataque ao abandono da correcta adoracao de Deus e, em particular, a sua critica & desigualdade social, como a represstio dos pobres pelos ricos, ainda hoje despertam inte- resse. Vai ao ponto de representar os pobres ¢ oprimidos como os puros, em contraste com os ricos. Com efeito, varios profetas colocaram maior énfase na integridade ¢ nos ideais éticos que no culto sacrificial exterior. , em arabe, tem a mesma raiz que a palavra qur'na, que significa «ler», ou «ler em voz alta». O Alcordo, livro sa- grado dos mugulmanos, € a recolha das tevelacGes de Maomé ao longo dos anos subsequentes. Assim, a semelhanga dos Judeus e dos cristios, também os muculmanos atranjaram um texto sagrado. O Alcorio sé foi registado por escrito ap6s a morte de Maomé. Os seus 114 capitulos (suras) foram dispostos de maneira a que os mais longos surgissem pri- meiro, mesmo que tivessem sido recebidos numa data Posterior & dos mais curtos. O sura 1, no principio do Alcorao, constitui a excepeio. De Meca a Medina Depois da sua revelacio, Maomé comec¢ou a pregar em Meca. Pro- clamou-se a si proprio profeta ou mensageiro de Deus, 0 que foi visto pelas familias poderosas de Meca como uma tentativa de usurpar a autoridade politica dentro da cidade. Os grupos que detinham a lide- ranga também se opuseram as suas Proclamagées acerca de Ald ser 0 Deus Unico e verdadeiro. Se se desembaragassem de todos os deuses e deusas que os seus ancestrais tinham venerado, isso equivaleria a admitirem que esses antepassados tinham sido pagdos, A oposigao a Maomé foi crescendo. Depois da morte do tio e da mu- Iher, a situagdio em Meca foi Diorando gradualmente para o profeta e para 08 seus seguidores. Entretanto, Maomé tinha atraido outros partidérios na cidade de Medina, os quais estavam desejosos de 0 aceitar ¢ de o tornar um dos seus. Deixou Meca em segredo, em 622, ¢ alguns dias mais tarde chegou a Medina, onde muitos dos seus seguidores j4 0 aguardavam. A emigragio de Maomé, em arabe, é conhecida por Hijra (Hégira), gue significa «quebra», ou «partida». Maomé quebrou os lagos com a sua propria comunidade, com as suas relagGes e com a sua cidade natal, Nao se tratou de uma fuga, mas foi considerado como um paralelo daquilo que ocorreu com Abraao, da Biblia, a quem Deus exigiu que deixasse a sua casa em Ur, na Mesopotamia. Maomé como chefe politico e religioso ; Em Medina, Maomé transformou-se rapidamente num lider reli- gioso e politico. Conduzir as caravanas pertencentes as familias de 132 Meca permitiu-Ihe adquirir uma boa situagio financeira. Mas esses em- preendimentos eram igualmente uma luta para obter 0 controlo de Meca com © seu acesso 4 reliquia sagrada do Kabah, assim como para ex- pandir a nova religido. Essa batalha, ou Iuta, tem o mesmo nome que posteriormente foi utilizado para descrever a guerra santa (jihad). A luta pela causa de Ald tem prioridade sobre todas as outras consideragées, assim como sobre os conceitos morais e religiosos tradicionais. No decurso da década seguinte, Maomé tomou Meca e, através de meios militares e diplomdticos, subjugou grandes parcelas da Arabia. Antes «de morrer, em 632, tinha unido o pafs num reino sob uma religigo comum ue se tornou mais importante que os velhos lacos familiares ¢ tribais. Cisma islémico depois de Maomé Depois da morte de Maomé, os muguimanos foram governados por califas, ou sucessores. Os trés primeiros estavam, ou relacionados com Maomé, ou entio tinham estado entre os seus Primeiros conver- tidos, O quarto califa chamava-se Ali. Era filho do tio de Maomé, Abu ‘Talib, e seu primo, portanto. Mas era também seu genro, por ter des- posado Fatima, filha do profeta, © cisma no mundo iskimico comegou no tempo de Ali. A sua li- deranga era controversa, ¢ ele foi assassinado pelos seus opositores. Desde a morte de Maomé que os seus apoiantes tinham acreditado que Ali, como parente mais préximo do profeta, era o seu sucessor natural. © partido de Ali, shiat Ali, constituiu a base do ramo do Islamismo actualmente conhecido por Xiismo (ou Shia), ¢ foi adoptado como re- ligio de estado no Indo. Assim, a principal clivagem no seio do Islamismo nao foi causada por uma contenda teolégica, mas por um desacordo relativamente a quem deveria ser chefe. A facco xiita acredita que © lider deverd ser um descendente directo do profeta, enquanto a maior facgiio, a dos sunitas, pensa que a lideranga deveria recair sobre o individuo que, de facto, detém o poder. Apos a morte de Ali, 0 califado teve a sua sede em Damasco du- rante algum tempo, até Bagdade ter tomado 0 controlo por um perfodo de quinhentos anos, Depois disso, a lideranga passou para o sul turco, em Istambul. O tiltimo sultao foi derrubado em 1924, e desde entdo © mundo islimico no tem tido nenhum califia como chefe. A propagagao do Islamismo Apesar do cisma, 0 Islamismo espalhou-se rapidamente. No século subsequente 4 morte de Maomé, as duas grandes poténcias da época, os impérios persa ¢ bizantino, entraram em declinio. E 0 vazio fo re= enchido pelos conquistadores drabes, que tinham uma nova religido pela qual combater. Desde 0 Norte de Africa, atravessaram o estreito $ de Gibraltar até a Europa, conseguindo chegar a Poitiers, em Franga, antes « serem antidos. Durante varios séculos governaram a metade sul da Peninsula Ibérica, a Andaluzia, onde ainda hoje sao visivei sul 5 ie Sik - tigios da cultura drabe. ee ice ao presente, e apesar do colonialismo europeu do iltimo sé- ala Islamismo tem sido a religido dominante no Norte de Africa. partis do norte, estendeu-se a vastas dreas da Africa Oriental e Oci- ntal. Anteriormente, 0 Islamismo tinha também avangado em direcgdo ao ane para a India e Indonésia. Quando a antiga coldnia britanica da India se tomou independente, houve o receio de uma guerra entre nie mugulmanos, pelo que se estabeleceram dois estados distin- tos: a India, de maioria hindu, ¢ o Paquistao, muculmano. Mais tarde, a parte oriental deste iiltimo tornou-se independ 2 : jente. a tangtadach, pen , adoptando o nome Actualmente, o grande movimento pan-islamico esta dividido em estados que iam por uma maior unidade muculmana internacional, mas que também manobram no sentido de alcan : 1 are! chefia para si préprios. ers. ape se Ao longo dos ultimos anos, 08 paises curopeus tém recebido um grande ntimero de imigrantes mugulmanos de Africa e da Asia, sendo o Islamismo a segunda maior religiao da Europa. Credo Occredo islimico esté contido nesta curta declaragao de fé: Nao existe nenhum Deus seniio Ald, e Maomé é 0 Seu Profeta. Estes dois pontos, 0 monotefsmo a s + ¢ arevelagiio através de Maom constituem o 4mago doutrinal do Islamismo. 7 134 Monoteismo ‘Ao dizer que 0 deus dos mugulmanos é Ald, € importante perceber- -se que Ald néo é um nome pessoal, mas a palavra rabe para Deus. (Os cristios 4rabes e os judeus j4 a tinham utilizado antes de Maomé. Sabia-se que era também a designagao de um deus celeste que era venerado na antiga Arabia. A palavra arabe Allah (Ala) estd etimologicamente relacionada com a palavra hebraica Hi, utilizada na Biblia para mencionar Deus. Maomé atacou o politeismo dérabe com uma veeméncia consider4- vel, realgando, tal como os judeus ¢ os cristos, a crenca num Unico Deus. Um Deus criador ¢ juiz. Tinha criado o mundo e tudo o que o mesmo contém. No dltimo dia traria de regresso & vida todos os mor- tos e julg4-los-ia. Nao existe, no Islamismo, qualquer interdigo relativamente ao yoz0 da vida na terra, mas seré de se ter presente, constantemente, que esta é simplesmente uma preparagao para a vida que terd inicio depois do julgamento divino. Essa vida —- seja ela no céu ou no inferno — 6 descrita detalhadamente no Corao, mas nao existe consenso quanto ao Jacto de isso dever interpretar-se literal ow metaforicamente. ‘A crenga num julgamento apés a morte — tao importante nas pregagdes de Maomé — é necessaria, segundo muitos mugulmanos, para garantir que 0 homem aceite responsabilizar-se pelos seus actos. A ideia de julgamento cria um sentido moral de dever que € importante para a comunidade. Deus nao é, contudo, meramente um juiz omnipotente, mas é também dedicado e misericordioso. Os suras do Corao silo todos pre- faciados pelas palavras «Em nome de Deus, 0 Compassivo, 0 Mise- ricordioso». Embora Deus seja aquele a quem todos se devem submeter, Ele é também aquele que perdoa € auxilia o homem. Uma expressao islamica comum que é sempre escutada no cha- mamento & orag3o é Allahu akbar: «Deus é grande» ou «Deus 6 maior». Isto significa, entre outras coisas, que Deus é maior que qual- quer coisa que possamos compreender. Nao pode ser comparado as pretensdes humanas. Nao pode ser confrontado com nada, ninguém é Seu rival. O homem nao pode merecer nada da parte de Deus, ndo pode in- vocar 0 direito a coisa nenhuma. A salvacdo e a fé fluem por graga divina, e slo coisas a que os seres humanos apenas podem aspirar. 135 O facto de Deus ser maior implica ainda que Ele ultrapassa toda a| concepcao dos mortais, e os mucgulmanos servem-se disto para expli« car contradigGes aparentes no Corio, Revelagdo como parte da comunidade judaico-crista. Mas, gradualmente, foi dis- tanciando-se, quer dos judeus, quer dos cristéos. Tempos antes, os ju. deus tinham salientado que Maomé cometera erros na reinterpretacao. das histérias do Antigo ‘Testamento, e Maomé foi incapaz de 0 aceitar, As suas tevelagGes eram as palavras de Deus, por isso deviam ser og ju- deus que tinkam distorcido o significado das suas escrituras sagradas, Para criar um fundamento histérico para a sua nova religiao, Maomé recuou até Abraio e ao seu filho Ismael, antepassado dos dra- bes. Maomé ensinava que Abraao e Ismael tinham reconstruido 0 Kabah, que fora erigido por Adio, mas destruido pelo dikivio, no tempo de Noé. Segundo Maomé, os judeus, os cristios e os politeistas teriam corrompido o monoteismo original de Abraiio, Depois de ter chegado a Medina — onde existia um largo mimero de judeus entre a populagao —, Maomé instituiu que se deixasse de rezar na direcgdo de Jerusalém. Apés a ruptura com os judeus, decidiu-se que © orante voltasse 0 rosto para Meca. Da mesma forma, a sexta-feira foi designada como dia de festa, em vez de sdbado, que era 0 Sabat judeu. A mais severa critica de Maomé ao Cristianismo foi reservada a Santissima Trindade, que ele acreditava ser uma violagio ao mono- teismo puro. O Coro islamico é, muito literalmente, a palavra de Deus. Este facto € ilustrado mais claramente Por comparacéo com o Cristianismo. No Cristianismo ensina-se que «a Palavra fez-se carne, vindo habi- tar entre n6s». A revelagao ocorre em Jesus. No Islamismo, Maomé é um mero intermediério, a revelagdo auténtica tem lugar no préprio Cordio. No Cristianismo, a palavra de Deus transformou-se numa Pessoa, enquanto no Islamismo se transformou num livro. Assim, nao é intei- Tamente correcto comparar-se Jesus a Maomé, e a Biblia ao Corio. Seria mais apropriado dizer-se que Jesus é um paralelo do Corio, 136 Uma outra diferenga importante entre a Biblia e o Corio esté no ‘to de a primeira constituir um escrito histérico, enquanto o segundo ‘io é criado» e existe para sempre. Obrigagées religiosas — os cinco pilares Geralmente considera-se que as obrigagées religiosas dos mugul- manos siio constituidas pelos cinco pilares: * credo * oragaéo + caridade * jejum * peregrinagao a Meca 1, O credo «Nao existe nenhum Deus senfo Ald, e Maomé é o Seu Etofetn» Este credo € repetido pelos figis varias vezes ao dia, ¢ gnitaido (Goi minaretes as horas da oragZo. Esta escrito nas paredes das inesaitas fa primeira coisa a ser segredada ao ouvido de um, reo nase Re a tillima a ser sussurrada ao ouvido de um moribundo. O credo ¢ a chave para a fraternidade islamica. 2. OragGo / O Islao exige que as oragdes sejam proferidas cinco vezes por dia Antes de cada um dos cinco hordrios fixos para a oragdo, a chamada oragao faz-se escutar a partir dos minaretes, torres que ieee Lie ds mesquitas. Em tempos mais recuados, a chamada era eet n homem (um muezim), mas actualmente um gravador repete, habitu: mente, as famosas palavras: «Ald € grande, No existe outro Deus sendo Alé, € Maomé é o Seu Profeta, Vem para a oragio, vem para a salvacio, Alf 6 grande, ndo existe outro Deus sendo Ald.» 137 Antes da oragéo em si, o fiel deverd estar ritualmente limpo. Os mugulmanos acreditam que as pessoas se tornam impuras através das suas funcGes corporais — incluindo o acto sexual — devendo, assim, submeter-se a uma purificagao. Isto significa uma lavagem do corpo, em Agua corrente. Em vez disso, é normalmente suficiente lavar as} mios e a cara. E frequente estarem disponiveis banhos especiais junt das mesquitas. Estas regras conduziram, desde tempos bastante remo« tos, a um elevado padrao de higiene nos paises arabes. (Ver suras 4:46 e 5:8-9.) q No Islamismo, grande parte das oragdes sao fixas e rituais, e re querem palavras ¢ gestos definidos. Embora possa encontrar-se, tam- bém, oragdes improvisadas, nas quais o fiel se dirige a Deus acerca de algo pessoal, a orago ritual deve ser sempre pronunciada primeiro, Ela é, principalmente, um louvor a Deus. Uma ladainha constante nas ora- goes € 0 sura 1 — «O Exérdio»: Louvor a Deus, Senhor do Universo, O Compassivo, 0 Misericordioso, Soberano do Dia do Julgamento! S6 a Ti nés adoramos, e s6 a Ti recorremos quando necessitados. Guia-nos no caminho correcto, O caminho daqueles a quem protegeste, Nao dos que atrairam a Tua célera, Nem daqueles que se extraviaram. As cinco oragées didrias podem ser ditas em qualquer local. Mui- tas pessoas possuem esteiras ou tapetes especiais sobre os quais fazem as suas oragdes, € os gestos sio invariavelmente dirigidos para Meca. Estes gestos tém tanto valor como as palavras, porquanto realgam a submissio do homem, 0 Isléo, e demonstram que corpo e alma sao igualmente importantes. Sempre que possivel, o fiel deve participar das oragdes comunité- tias pelo menos uma vez. por semana, e de preferéncia na mesquita. Isso € especialmente importante para as oragdes do meio-dia de sexta-feira, que constituem um culto com uma petigéo. «Crentes, quando fordes convocados para as oragdes de sexta-feira, apressai-vos perante a lembranga de Deus e cessai 0 vosso negécio.» (62:9) Aqueles que se apresentarem na mesquita deverdo estar respeito- samente vestidos, descalgar os sapatos antes de entrarem, e seguir os 138 movimentos do chefe de oragio de forma ordenada e disciplinada. 0 chefe de oragao direcciona também o rosto para Meca, ou seja, de costas voltadas para a comunidade. . , Normalmente, s6 os homens oram na sala principal da mesquita. ‘As mulheres ou permanecem numa galeria, ou escondidas atrés duma vorlina ao fundo da sala. | - Qualquer mugulmano adulto do sexo masculine poderd ser um chefe de orago, um ima. Nao existe, no Islamismo, um clero organi- vulo. E costume, contudo, 0 Ifder de oragio —- & semelhanga do ora- tlor — ter uma boa formacio teoldgica, e trabalhar na mesquita como funcionério. 3. Caridade A caridade representa, na realidade, uma taxa formal sobre a tir queza e propriedade. Est4 fixado em um quarenta avos, ou dois e meio por cento, mas as pessoas sao estimuladas a darem mais. Segundo Maomé, a taxa deve ser cobrada aos ricos e distribuida pelos pobres. «As esmolas sero apenas para os pobres destituidos, para aqueles que estiverem empenhados na gestao das mesmas, e para aqueles cujos coragdes so complacentes para com a. Fé; para a libertagio dos escra- yos e devedores; para o avango da causa de Deus; ¢ para os viajantes 0s.» ne anaben nao € uma tradugio absoluta da palavra érabe, porque se trata de algo mais que uma oferta. Para os muculmanos, é um dever i Deus, conforme diz 0 Corio. er exe, ao ser cobrada e utilizada para fins sociais, torna-se parte da politica de redistribuicao oficial do estado islamico. 0 objectivo é equilibrar as diferencas entre ricos e pobres, sem interferir no princi- i iedade privada. " 6 pene da dadiva de esmolas teve também efeito no desenvol- vimento do socialismo islamico em certos pafses. 4. Jejum O Corao proibe aos mugulmanos a carne de porco, uma vez que ° animal é considerado impuro. Existe também proibigado relativamente 10 Alcool, mas a parte estas limitagdes, o islamismo nao prega 0 asce- tismo de nenhuma espécie. Muito pelo contrdrio, o Corio diz: «Deus 139 deseja o teu bem-estar, ndo o teu desconforto.» A grande excepgao é& constituida pelo jejum durante o Ramadiio, o nono més do ano lunar. Entre o nascer e 0 pér do Sol é proibido comer, beber, fumar ou ter re- lagdes sexuais. Os viajantes, os doentes, as criangas e as mulheres grdvidas ou que estejam a amamentar, so exortados a observar o jejum numa altura posterior. A noite as interdigdes so levantadas, por isso em muitos locais a vida nocturna € animada, com boa comida e boa bebida, mas muitos dos fiéis congregam-se nas mesquitas para passar o tempo escutando o Coro. O més de jejum do Ramadao é aquele em que Maomé teve a primeira revelagao. A razdo para o jejum é de que todo 0 mugulmano deveria retirar-se por um tempo, como fez Maomé. 5. Peregrinagao a Meca Todo o mugulmano adulto que tenha meios para o fazer, deve fazer a viagem a Meca pelo menos uma vez na vida. Ali se encontra 0 mais antigo santudrio sagrado do Islamismo, o Kabah. Trata-se de um edifi- cio quadrado coberto com um manto preto, A um canto do Kabah foi fixada na parede uma pedra negra com um enorme significado simbélico. Meca e o Kabah sao, para os mugulmanos, 0 centro do mundo. Nao 86 direccionam 0 rosto para Meca quando oram, como as mesquitas sao construidas de maneira a que © seu eixo mais longo aponte para Meca, os mortos sao enterrados voltados para Meca, e Meca constitui © lugar de destino das peregrinagées. Meea é visitada por cerca de meio milhdo de peregrinos anual- mente, e metade deles vém do exterior da Arabia. O ntimero de pere- grinos aumentou consideravelmente depois de se comegarem a organizar voos fretados. A grande mesquita em Meca foi completa- mente reconstruida, e a drea tem agora capacidade para 600 000 pes- soas. Apenas aqueles que conseguirem provar que sio muculmanos obterao o visto de entrada na cidade santa. Quando se aproximam de Meca, os peregrinos envergam uma veste branca. Durante os dias que se seguem, levam a cabo uma série de ritu- ais, dentro da cidade e 4 volta dela. Muitos desses ritos realgam a as- sociagiio a Abraiio ou a Maomé, que mostraram, ambos, obediéncia a Deus. O primeiro ritual consiste em dar sete vezes a volta ao Kabah, a pé, e muitos tentam beijar a pedra negra. Segundo a tradigao, o edificio terd sido erigido por Abraio e por seu filho Ismael, nascido da escrava Hagar. 140 Um outro momento importante é aquele em que os peregrinos se mantém em pé no monte Arafat, desde o meio-dia até ao pdr do Sol, ¢ durante esse tempo nao hes é autorizado proteger a cabega do calor intenso. O monte Arafat foi o local onde Adao e Eva se reencontraram depois de terem sido expulsos do Paraiso. Os peregrinos juntam-se de pé para desta forma afirmarem o pacto com Deus, e a sua crenga de que nfo existe um outro Deus. O climax é atingido com a festa sacrificial. Os peregrinos matam um animal (um carneiro, uma cabra, um camelo, um boi, etc.), que se destina a recordar aos muculmanos que Abraao era tio obediente a Deus que estava disposto a sacrificar 0 seu prdprio filho. (Embora o lilho, neste caso, se chame Ismael e nao Isaac, como nos Livros de Moi- sés.) Mas Deus foi misericordioso e deu-Ihe, em vez disso, um animal sacrificial. Aqui torna-se evidente o Amago religioso da peregrinagilo: obediéncia 4 vontade de Deus. Relagdes humanas — ética e politica Tradicionalmente, o Islamismo nao faz a distinc&o entre religiio v politica, ou crenga e moral. As obrigagées religiosas, morais ¢ sociais do homem estSo todas dispostas na lei islémica sagrada, a sharia, Sharia significa «caminho para 0 ponto de 4gua», ou seja. é o rumo. correcto da conduta humana tal como foi mostrado ao homem por Deus. A lei sagrada esta expressa sobretudo no Coro, que é muito mais que um simples documento religioso. Ele constitui um livro de leis com instrugdes rigidas sobre a governacao da sociedade, a econo- Inia, 0 casamento, a moral, o estatuto das mulheres, etc. Sempre que o Corio nao fornece uma instrugao definida, os mu- gulmanos recorrem ao seu precedente, 0 Suna. Estudam os exemplos estabelecidos por Maomé e pelos primeiros califas. Nos séculos subsequentes A morte do profeta, foram escritos relatos sobre a vida ¢ ininistério de Maomé, coligidos nas colecgdes que formam 0 Hadith", Tanto o Corao, como as narrativas do Hadith, descrevem um tipo de sociedade quase inexistente actualmente. Interpretar e ajustar as re- '\ Palavra drabe gue significa «narratives. De acordo com o Corflo, é a segunda fonte de legislagito islimicu, (NT) 141 gras da escritura e a tradigdo constitui, por conseguinte, uma tarefa con- siderével, que pode ser feita recorrendo a dois principios diferentes, 0 da similaridade e 0 do consenso. O principio da similaridade ou analogia: Para resolver um problema completamente novo, acha-se um exempilo similar (ou andlogo) no Corio ou no seu antecessor, sendo entio estudada a base para a deci- sdo naquela altura. O principio do consenso: Supde-se que Maomé teria dito que o fiel nao seria nunca capaz de concordar com algo que estivesse errado. Assim, uma decisiio comum dos fiéis pode ser considerada vinculativa pelos seus representantes, os peritos da lei. Um exemplo disso foi a declaracaio do café como bebida proibida, pelos chefes religiosos. A de- cisao foi acolhida com protestos t&éo sonoros, por parte da gente comum, que foi acordado anular as regras que incidiam sobre a bebida. O movimento xiita faz uso de um terceiro principio ligado & sua visio sobre a revelagdo. Os sunitas sustentam que a revelagao ocorre apenas uma vez na sua forma final. Mas os xiitas acreditam que a re- velagao pode continuar através dos seus lideres, os imis. Significa isto que podem ser dadas novas interpretagGes a lei, com base no «enten- dimento pessoal» do ima. TradigGo e reforma Maomé ¢ os primeiros califas eram tanto chefes politicos como re- ligiosos. Podiam utilizar 0 Corio como guia em todas as areas da vida social sem muita dificuldade. Mais recentemente, encontros com a cultura e a economia ociden- tais tem provocado certas alteragdes. No século xix a Turquia empre- endeu reformas legais que iriam facilitar a cooperag4o com a Europa Ocidental ¢ criar uma maior seguranga legal para os ndo-mugulmanos, dentro das suas fronteiras territoriais. O resultado foi a emergéncia de um duplo sistema legal: a lei sagrada, aplicada principalmente a as- suntos particulares, e uma lei publica secular. Esta dualidade era ainda mais pronunciada em alguns dos novos es- tados que gradualmente emergiram, ¢ cujos lideres eram muitas vezes influenciados por ideais ocidentais. Para além duma lei publica, fundamentada em regulamentagées le- gais gerais, muitos paises dispdem duma fei privada que é competén- 142 cia de tribunais religiosos especiais. Isto aplica-se sobretudo a dreas da lei que cobrem a familia e as herangas. Mas ao mesmo tempo, existe uma exigéncia crescente para que os princfpios islamicos penetrem a lei publica, como, por exemplo, a justiga criminal, Em 1972, a Libia introduziu um acto de justiga criminal baseado na sharia, e que inclui a proibicdo de servir ou de beber bebidas alcodlicas. O castigo para 0 roubo consiste em cortar ou amputar a mao do ladrao. No Paquistao e no Irdo, convulsées politicas, nos anos 70, levaram ao aumento da pressdo do Islamismo sobre a vida social. Mas foi-se tornando dbvio, mesmo na Arabia Saudita, onde a sharia & universal, que era dificil ser totalmente consistente. Existem varias Areas, nomeadamente a econdémica, em que a sharia nao € posta em pratica sistematicamente. A Turquia constitui a excepgdo dentro do mundo islamico. Depois de 0 califa ter sido deposto, Mustafa Kemal «Ataturk» ¢ 0 seu povo construfram um estado moderno com tragos ocidentais, no qual 0 es- tado ¢ a religiio foram separados. Em 1926, a sharia foi substituida por um cédigo civil que julgava as pessoas segundo uma lei comum, independentemente da sua religiao. Economia O Cordo encara favoravelmente a actividade econémica. Cita, em particular, 0 comércio, principal fonte de subsisténcia, no tempo de Maomé, da cidade de passagem que era Meca. Ndo questiona o prin- cipio do direito 4 propriedade privada, mas existem acordos especiais que envolvem certas restrigdes a riqueza ¢ propriedade. O mais im- portante desses acordos é 0 embargo sobre os lucros, que nao é, con- tudo, imposto de maneira uniforme, em particular no campo da finanga internacional. A obrigacio religiosa da dadiva caritativa tornou-se, na pratica, uma taxa ou imposto sobre a propriedade. Em varias passagens, o Cordo adverte que as riquezas constituem uma tentag’o que conduz ao afastamento de Deus. O pensamento social que até certo ponto suporta a ideia de cari- dade é de que os ricos deverao dar aos pobres. Os politicos que se inclinam para a reforma tém transformado este aspecto em economias politicas de orientagito socialista. No entanto, a economia da maior parte dos pafses 4rubex buseia-se no mercado livre. 143 As mulheres no Islamismo Algumas citagdes do Corao demonstram como este poderd ser’ usado para resumir duas perspectivas diferentes do papel da mulher: «Os homens tém autoridade sobre as mulheres porque Deus criou um superior ao outro» (Sura 4:31). «As mulheres terao, por justiga, direi tos semelhantes aos exercidos contra elas» (Sura 2:228). © contraste no tratamento entre homens e mulheres é visivel numa série de areas da vida social, mas estd mais claramente regulamentado nas leis que dizem respeito ao casamento. Contudo, tal como muitos intelectuais islamicos fizeram notar, existe também um certo némero de leis que protegem a mulher dentro do casamento. Quando 0 contrato de casamento € assinado, o marido tem de pagar um dote, que perma- nece como propriedade da esposa, nao podendo ser utilizado sem 0 seu consentimento. As mulheres s6 poderao ter um marido, enquanto os homens podem ter até quatro esposas. A poligamia, para os homens, nao era rara no Médio Oriente no tempo de Maomé. As suas instrugdes para que os homens nao assumissem mais esposas que aquelas que poderiam sus- tentar tiveram, naquela altura, muitos efeitos positivos. Actualmente, a poligamia € proibida na Turquia e na Tunisia. O divércio é possivel, mas apenas quando iniciado pelo marido, que € responsdvel pelo aspecto financeiro do casamento, Regras e condi- ges abrangentes impedem, supostamente, a indulgéncia extrema em relagao ao divércio que, segundo Maomé, «é a actividade legal menos grata a Deus». Apesar disso, a taxa de divércios nos paises arabes é a mais clevada do mundo. Um marido tem, além disso, o direito de punir a sua esposa se esta for desobediente. «Quanto aquelas de quem temeis desobediéncia, ad- moestai-as, mandai-as para camas separadas e espancai-as», tal como diz o sura 4. A circuncisdo nao é obrigatéria para as mulheres como o € para os homens, nem tio-pouco é mencionada no Corao. Mesmo assim, é uma pratica firmemente instituida nalgumas regides do Norte de Africa, em- bora tenha sido alvo, nos Ultimos tempos, de uma forte oposigao, por causa dos seus efeitos na vida sexual feminina. Nem mesmo a tradig&o do uso do véu provém do Coro, embora se tenha difundido por extensas areas geograficas, de modo bastante independente da retigiao. Era, originalmente, uma moda circunscrita ds 144 is i nde as mu- Jasses superiores, ndo penetrando na sociedade agricola on He a theres tinham que trabalhar 0 campo. A batalha con! Ta bes Arab, titufdo um tema dominante na modernizacao de mui ut ulti 2 m revitalizado mas 0 revivalismo istamico dos iltimos anos tem tambéi o apoio a sua utilizagio. Filosofia no Islio i Africa, mas Islamismo estendeu-se quet para a Asia, quer para a i i istOri: Europa. foi a conquista de Espanha que maior efeito teve na histéria da pa i de Espa- Entre os séculos VII © XV OS Arabes dominaram a parte sul pi m1 © SEU nha. Cortaram relagdes com 0 califa em Bagdade e estabeleceral entro cultural que i i 6 a, que se tornou um C “ rio califado, em Cérdova, a ide a intelectuais de todo 0 mundo mugulmane. g deme on Bante tolerancia relativamente a0s judeus e aa A co a oi i i apet isca iri a gtande influéncia, ndo apen: ee tis astenh também na filosofia. Foi gragas aos arabes do S ae gue a imento de Aristételes, que viria de Espanha que a Igreja tomou conhec! Se anaes a desempenhar um papel consideravel na mo! catélico durante a dade Média. Averréis, de Cordova O maior dos filésofos de Cérdova foi Tbn Rushd, ou Aver Oe 1198), Considerava ger seu dever defender a razao ae ser a A eaciér ia, numa altura em que forgas poderosas dentro emia dleoejavans| or termo a esses pensamentos independentes. Sis of eu end devoto que aceitava a autoridade de Maomé e€ qt ve no a eva veracidade do Corio. Mas ele acreditava que. es Ee me aoe go Co 4 diam ser interpretadas de varias formas. on vo ee para La a gente, instrufda ou ignorante, ele utiliza, p r 6ri ffi 6 que nfo tém conseguinte, um estilo alegérico especifico. Aqueles q\ imaginar forma humana, € 0 instrugo, necessitamn de imaginar Deus com oe arewmentava Paraiso como um local de conforto materia - Por otto rH ilumii jem ess 5 individuos iluminados apreent Averréis, 0s individu: i ndem simbolos revestidos de um significa copie mento Fitoséfice © : i fia combinar religiac f Averréis pretendia cor 1 Oa eslos cientifico, mee a oposigiio a este ponto de vista cresceu. 145 apés a morte de Averrdis, os eruditos mugulmanos concentraram-se no estudo das escrituras e da tradigao. No nosso proprio século, contudo, tém sido debatidas novas ideias relativas A teforma e liberalizagao. Os mugulmanos tém tentado adaptar a sua religiaio as condigées actuais e & ciéncia moderna. Sufismo — misticismo islamico Os primeiros séculos da hist6ria islamica foram dominados por ac- tividades externas, guerra e diplomacia. Mas rapidamente cresceu ali um movimento que promovia a reclusio e a meditacaio. A esta ten- déncia deu-se o nome de Sufismo, Provavelmente em fungao do gros- seiro manto de li envergado pelo seus seguidores (a palavra drabe para 1a é suf). O ideal islamico pode no incluir 9 ascetismo, mas faz apelo a uma atitude séria e zelosa tendo em vista o julgamento final, e a um estilo de vida simples e responsdvel. Assim, muitos mugulmanos opuseram- ~se veementemente a vida de luxo que se fora desenvolvendo na corte do califa, em Bagdade. Reclamavam uma vida puritana de jejum, ora- gio e meditagio. Simultaneamente, alterava-se 0 conceito de Deus. Os sufis acre- ditavam que Deus era, acima de tudo, um Deus afectuoso e dedicado com quem o homem poderia alcangar uma unicidade mistica. Esses Pensamentos pareciam contrastar fortemente com a ideia de Deus como o juiz exaltado e inacessfvel ao qual o homem deveria subme- ter-se. Como consequéncia, estes primeiros misticos entraram rapi- damente em conflito com a principal corrente do Islamismo, Em certos casos, foram acusados de blasfémia Por causa da sua perspec- tiva de Deus, tendo mesmo sido executada uma das suas figuras mais destacadas, Tratou-se de Hallaj, que acreditava que Deus tinha insta- lado em si a Sua morada, e que a unidade e a harmonia entre ele e Deus eram totais. Jesus era tio importante para cle como Maomé, © muitas das palavras que the sao atribuidas sao reminiscéncias das palavras de Jesus conforme esto registadas nos evangelhos. «Eu sou a verdade», «Quem me vé, vé-O a Ele», e aquando da crucificagao: «Perdoai-lhes, Senhor, ¢ tende misericérdia deles.» Em suma, Jesus desempenhou um papel importante como ideal ascético no Sufismo primitivo. 146 Um séculv ¢ meio depois de Hallaj, Ghazali tentou combin a picdade do Sufismo com 0 dogma da corrente principal. Gh al a um dos maiores pensadores mundiais. Nem o estudo da io 0! apeeri oda lei, o satisfizeram. Apés uma longa procura, eatvere: eulne ae mistica onde todos os desejos € problemas sao colocados « fe i: ne. para que © pensamento se possa concentrar em Deus. M * a “ me sito a que Ghazali chegou foi que a verdade mistica, ae ven a nio se podia aprender, tinha antes que ser experimentada at s No seu Amago, 0 misticismo sufista partilha caracterfsticas do misticismo de outras religiées. O sufismo utiliza também exereieos de meditagao especiais. Por exemplo, uma oragio ou uma pa nt podem ser repetidas vezes sem conta, podendo ser soma da . por exercicios de respiragéo ou movimentos particulares. Um a io comum consiste no rosario e na repetigio dos «99 nomes mais belos de Deus. ; ; - O sufismo nfo € uma tendéncia organizada, e pode encontrar-se sufis quer entre os mugulmanos xiitas, quer entre os sunitas. 147 CRISTIANISMO O Cristianismo é | s a filosofia de vi wa a sociedade ocidental. Durante dons gado a histéria, literatura, Filosofia. que mais fortemente caracte- quase dois mil anos tem estado li- Deus Criador ‘No prineyti 2 “No principio, Deus criou 0 Céu ea Terra» 7 Génesis 1, 1 A primeira acgio descrita na Biblia € «Céu € terra» € a expresso hebrai lescrita de duas formas distintas a ctiagio divina do Céu e da ica para «Universo». A cria- ho Génesis, Capitulos 1 ¢ 2. «No principio Deus crion os céus a Terra, ‘erra era informe e IS CI LA Vazia. As trevas cobriam 0 abismo, ¢ 0 Espirito de Deus movia-se sobre a superficie das 4; is aguas. Deus disse: “4 Deus vin qu isse: “Faga-se a luz!” c ie 2!" Ea aiae que a luz era boa, e separou a luz das trevas, aa a . chamou dia 4 luz e as tre: 's trevas, noite. Assi: 3 foi . a - Assim, surgi rar . manha: foi o primeiro dia. 'giul a tarde e, em seguida, foi a 148 Deus disse: “Haja um firmamento entre as dguas para as manter s¢- paradas umas das outras.” Deus fez 0 firmamento ¢ separou as Aguin que estavam sob 0 firmamento. E assim aconteceu. Deus chamou céun ao firmamento. Assim, surgiu a tarde c, em seguida, a manha: foi 0 Ke gundo dia. Deus disse: “Retinam-se as Aguas que estiio debaixo dos céus num Unico lugar, a fim de aparecer a terra seca”. E assim aconteceu. Deun A parte sdlida chamou Terra, ¢ mar, a0 conjunto das aguas. E Deus viu que isto era bom.» B «Esta € a origem ¢ a hist6ria da criagfio dos céus e da Terra. 7 Quando o Senhor Deus fez a Terra e os céus, nao havia arbusto al; pelos campos, nem sequer uma planta germinara ainda, porque 0 S Deus nao tinha feito chover sobre a Terra, e nao havia homem para a tivar, Mas da terra elevava-se um vapor que regava a sua superficie, Se compararmos estas duas versdes da criagSo, torna-se imediata4 mente manifesto que existe demasiada 4gua na primeira, e muito poucal na segunda. Pode isto dever-se ao facto de o autor da historia A ter ™ vivido numa Area constantemente sujeita a enxurradas, como, por 5 exemplo, a Mesopotamia, 0 territdrio entre 0 Tigre e o Eufrates, O autor da hist6ria B pode ter vivido numa drea desértica, Baseados nas suas préprias condigées locais, os autores imaginaram a criagio como con- tada nas duas narrativas (A ¢ B). ‘As narrativas cosmocéntrica e antropocéntrica da criagdo Estas duas narrativas da criagdo so, portanto, diferentes, ¢ a azo para que isto suceda prende-se com 0 facto de terem surgido em altu- ras e ambientes distintos. A primeira (Génesis 1, 1-10), que podemos designar por narrativa cosmocéntrica da criagao, uma vez que tem por objectivo fornecer uma descrigdo sistematica de como todo o Universo foi criado, atingiu a sua forma actual no século VI a.C, Neste caso, foi tealcado 0 facto de 0 mundo ter sido criado por ordem de Deus. Foi pelas suas palavras que tudo comegou a existir. As palavras «Deus disse» sto repetidas com frequéncia nesta narrativa. ¥ colocada énfase na soberania de Deus em relagao & Sua criagdo. Ele é elevado acima de todas as coisas terrenas. 149 A segunda histéria da criagdo (Génesis 2, 4-6) & muito mais antiga. Talvez tenha obtido a sua forma actual por volta do século X a.C., e podemos rotuld-la de histéria antropocéntrica da criagao (do grego anthropos, que significa «homem»), Por se concentrar na criaciio do homem e sua condi¢ao no mundo. Mitos e crengas relacionados com a criagao A finalidade das narrativas da criagdo é descrever o que aconteceu no inicio dos tempos, quando o céu e a terra foram feitos, Geralmente, chamamos a essas narrativas mitos ou alegorias. Os conceitos misticos do Génesis dependem claramente da crenga em Deus. E impossfvel reunir © material mistico das narrativas da criagéo num tnico quadro coerente do mundo, Na realidade, elas fornecem fragmentos de diver- sas gravuras do mundo, largamente divergentes, Um ponto importante na teologia biblica da criagao é que o mundo nao existe desde tempos imemoriais, A Palavra hebraica para criar € bard. Significa «trazer algo para a vida», ou «fazer algo a par- tir do nada». Quando falamos sobre um artista «criar» alguma coisa, referimo-nos & sua concepgio de algo a partir de material j4 exis- tente. A f€ biblica na criagdo distingue-se dos mitos sobre a criagdo existentes noutras culturas, em que o homem imaginou que um ou mais deuses teriam organizado o mundo a partir de matéria primordial in- forme. Na Biblia, tudo 0 que existe est4 relacionado com 0 controlo real de Deus. «Porque Ele disse, e tudo foi feito; Ele mandou, e tudo existiu» (Salmo 32, 9). O mundo ndo existe por acaso As narrativas da criag&o nao fornecem Tespostas 4s questdes cien- icas sobre a forma como 0 mundo comegou a existir, quanto tempo isso levou, ¢ como eram antes as coisas, em termos biolégicos e fisi- cos. A énfase nao estd em como Deus criou 0 céu e a terra, mas no ter sido Ele 0 responsavel pela criagdo. Por outras palavras, 0 mundo que habitamos nao é o resultado de um acidente. A Biblia realga a exis- téncia de uma vontade divina por detrés da existéncia do universo. 150 © mundo foi criado e continua a existir em virtude de algo que the “ exterior. E esse algo nao é uma forga impessoal, mas 0 poder Deus pessoal. | . aid aciéncia actual demonstra o desenvolvimento desde os pri: mérdios até ao presente, um cristéo compreende-o como a deserigao humana da obra de Deus como criador. Deus no se limitou apenas a criar alguma coisa a partir do nada, deu-lhe também uma capaci ide evolutiva inata. A evoluciio faz parte da criagiio. Se regressarmos bis: téria cosmocéntrica da criacdo, veremos que a mesma fornece uma it gem dinamica dessa criagao. «Deus disse: “Que a terra produza seres vivos, segundo as suas es- pécies: animais domésticos, répteis e animais ferozes, segundo oe espécies.” E assim aconteceu. Deus fez os animais ferozes, segune fo, es suas espécies; os animais domésticos, segundo as suas —_ ee os répteis da Terra, segundo as suas espécies. E Deus viu q bom.» Génesis 1, 24-25 Criador do homem i a imagem» «Deus criou 0 homem & Sua imag Génesis, 1,27 A criagio do homem é também descrita de duas formas diferentes no primeiro e no segundo capitulos do Génesis: a : : «Deus, a seguir, disse: “Fagamos 0 homem & Nossa imagem, Nossa semelhanga, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre todos os nimais ferozes, e sobre os répteis que rastejam pela terra. Deus e rion © homem a Sua imagem, criou-o & imagem de Deus; Ele os criou ¢ mulher.» nesta’, 26:27 151 B «O Senhor Deus formou 0 homem do pé e da terra, e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo. «O Senhor Deus disse: “Nao é conveniente que o homem esteja s6; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele.” Entao, o Senhor Deus, apds ter formado a terra, todos os animais dos campos € todas as aves dos céus, conduziu-os até junto do homem, a fim de verificar como ele os chamaria, para que todos os seres vivos fossem conhecidos pelos nomes que o homem Ihes desse. O homem designou com nomes todos os ani- mais domésticos, todas as aves dos céus e todos os animais ferozes: contudo, nao encontrou para ele uma auxiliar adequada, Entao, Senhor Deus adormeceu o homem profundamente; e, enquanto ele dor- mia, tirou-lhe uma das suas costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e con- duziu-a até ao homem. Ao vé-la, o homem exclamou: “Esta é, realmente, osso dos meus ossos ¢ carne da minha carne. Chamar-se-4 mulher, visto ter sido tirada do homem.” Por esse motivo, o homem deixard o pai e a mae para se unir & sua mulher; e os dois sero uma s6 carne. Estavam ambos nus, tanto o homem como a mulher, mas nao sentiam vergonha.» , Génesis 2, 7 e 18-25 Antropdlogos, filésofos, cientistas e escritores, todos cles tiveram ideias divergentes no que concerne A natureza do homem, assim como todas as religides tém a sua percepgao da humanidade. Para um cristao, © aspecto vital € o facto de o homem nio ter sido criado aleatoriamente, como se fosse um subproduto. Até mesmo as narrativas da criago. realgam que a humanidade é 0 resultado da vontade e do poder de Deus. Isso dé-nos uma indicagao acerca da crenga crista no valor do indi- viduo. Nés nao estamos & deriva no espaco. A humanidade tem um pai comum em Deus, e em virtude de cada um de nés ter sido criado por Ele, somos todos, igualmente, preciosos. A visio crista da Humanidade | Os Pontos que se seguem sio de uma importancia consideravel na viséo cristé do homem: 152 A condigo do Homem Por um lado, as narrativas sobre a criagdo destacam a ligagio do homem com 0s restantes seres. «O Senhor Deus formou 0 homem do pé da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, ¢ o homem trans: formou-se num ser vivo.» (Génesis 2, 7). O lado natural do homem esté também patente no jogo de palavras entre adam («homem») e adamah («terra») no original Hebraico. O Homem é feito da mesma matéria que as plantas e os animais. Nascemos do pé, ¢ ao pé voltaremos. Por outro lado, o homem tera sido concebido como o elemento mais elevado da criag&o. Pode dizer-se que a humanidade é orginica e, contudo, algo mais também. O Homem foi criado @ imagem de Deus ‘A expressiio «criado A imagem de Deus» sublinha o facto de o homem ter um lugar especial na criagio. E ébvio que o homem tem um lugar na ordem natural mais vasta, porém, tendo sido 0 iiltimo ele- mento criado por Deus, ele tem dotes especiais ¢ uma tarefa especffica que 0 distingue de todas as outras criagdes. F comum dizer-se que Deus criou o homem por amor — com o fim de partilhar 0 mundo com ele, pois o homem no é um mero ser vivo semelhante a outras coisas vivas. © homem € uma pessoa ¢ um ser individual. A ideia de que o homem foi criado 4 imagem de Deus implica tam- bém que ele tenha sido criado para viver em harmonia com o seu dor. Foi dotado da capacidade de ter a experiéncia da santidade ¢ de participar em actos de culto divino. O Homem é um todo Um conceito fuleral da visdo crista da humanidade é 0 de que o homem nao é um composto de varias partes — como corpo e alma, lista ideia pode ser encontrada, por exemplo, na filosofia grega e nas religides indianas. A Biblia considera o homem como uma entidade que Deus gerou ea quem deu vida, uma vez que nao existe nada no homem como a sua alma, por exemplo — que seja imortal em si mesma, Quando a cristandade prega a esperanga na salvagio do homem, trata- -s¢ do «homem como um todo». No Credo, a fé crista afirma que Cristo «hé-de vir em sua gléria, para julgar os vivos e os mortos». O Homem, um ser social ce} homem nao foi apenas criado para viver com Deus. Também fomos feitos para levarmos uma existéncia em comunhao com os nos- sos semelhantes. Quer 0 Antigo, quer 0 Novo Testamento realgam que nos deverfamos amar uns aos outros como Deus nos amou. Cada uma a sua maneira, as duas narrativas da criagdo sublinham igualmente a nossa criagéio como homem e mulher. Podemos dizer que o casamento ea familia fazem parte da ordem da criagdo. B devido a este factor que muitas comunidades eclesiais encaram 0 casamento como uma institui- ao sagrada. O Homem 6é co-criador e ajudante de Deus Foi dado ao Homem um duplo papel, cabendo-lhe as fungdes de povoar o mundo e estimar a criagdo de Deus. A criago € obra divina, mas 20 Homem foi-Ihe atribuida a tarefa de governar sobre tudo aquilo que foi criado. Devido a isto, a Biblia encara o trabalho de uma forma positiva. O Homem foi criado para se realizar e para cumprir a vontade de Deus pelo esforgo criador. Assim, a historia ndo se faz puramente das acgdes de Deus, mas também das acgdes do homem, uma vez que somos parceiros de Deus, no que concerne a criacdo é a colaboragao. O Homem possui livre-arbttrio Outro dom do homem é a competéncia para distinguir 0 bem do mal. Uma das ideias fundamentais da Biblia é que o homem € res- ponsdvel pelos seus actos. O homem tem a capacidade de ir contra a vontade de Deus. N6s podemos abusar do estatuto que nos foi conce- dido por Deus. A Béblia denomina este abuso pecado. Expresses que tentam descrever Deus . «A qual (aparigao), a seu tempo, manifestard o bem-aventurado e 9 tinico poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores, Aquele 154 que € 0 tnico que possui a imortalidade e que habita na luz inacessivel, Quem nenhum homem viu, nem pode ver. A Ele seja dada honra e poder eterno, Amen.» (Primeira Carta a Timéteo 6, 15-16) A Biblia ndo descreve Deus apenas pelas Suas acgSes (como cria- dor ¢ salvador), mas também através de palavras que reflectem algu- mas caracterfsticas mais marcantes da «imagem divina». Essas palavras so colhidas na nossa esfera imagindria para descrever aquilo E actescentou: «Assim falards aos israelitas: “Aquele que E foi quem me enviou a vés!!"» (Exodo 3, 14). Noutra passagem, no Ultimo livro da Biblia: «Eu sou o Alfae o Omega, 0 Principio e o Fim» (Apocalipse 21, 6). 156 Ambos os textos sublinham o facto de Deus transcender as no- gées vulgares de tempo e espaco. Em contraste com o homem, que estd sujeito 4 temporalidade e 4 morte, Deus é imutével e eterno. Utilizando uma linguagem mais actual, poderiamos dizer que a existéncia de Deus nao esté confinada a um estado «quadrimen- sional». Ele nfo esté num sitio, nem noutro. Ele nao faz parte do universo — como as estrelas, as flores e os animais. Esté acima do mundo — e dos processos que acontecem nessa esfera — como seu criador e senhor. A Biblia afirma que Deus, ao contrério do homem e do universo, €o Santo, E qualquer palavra que designe o sagrado, qualquer palavra conotada com a esfera divina é uma palavra-chave, em qualquer reli- gido. Um conhecido historiador da religiéo descreveu o sagrado como algo completamente distinto de tudo o resto (Das Ganz Andere). O sa- grado € algo misterioso ¢ inexplicével que o homem teme mas pelo qual, simultaneamente, se sente atrafdo. Outras descrigdes de Deus Encontram-se na Biblia outras descrigdes de Deus: ele é pai, Se- nhor, todo-poderaso, omnisciente, misericordioso, justo ¢ pessoal. Por detras de cada uma das diversas caracterfsticas existe sempre um acon- tecimento, uma vez que o Deus cristo é algo mais que um princfpio filosdfico. E um ser que escuta as oragdes e 0 culto dos homens. E Deus da histéria que conduz o mundo rumo ao objectivo que para ele estabeleceu: o Seu reino. Nao existe na Biblia uma doutrina sistematica acerca da esséncia e das caracteristicas de Deus. Muitos cristios diriam que a mais impor- tante descrig¢ao de Deus esta presente em Jesus Cristo e na sua prega- cao. E comum dizer-se que a fé crista na existéncia de Deus nao pode ser separada da fé em Jesus. Desde a Idade Média que se instituiu a ideia de que o homem pode abordar Deus de duas formas diferentes: através do pensamento, ou através da fé. Martinho Lutero, por exemplo, acreditava que nos era possivel conceber uma forga omnipotente que tivesse criado 0 mundo, sem refer€ncia 4 Biblia. Porém, a natureza desta forga mantém-se oculta de nés, Todas as certezas que temos acerca de Deus, sao as que Jesus revelou através da sua vida e pregagdes. i57 A teologia catélica faz a distingio entre revelagao «natural» € «so- brenatural». A revelacdo natural significa a percepgao divina acessfvel a tados os seres humanos porque Deus se revelou no mundo da natu- yeza e nos anseios religiosos do homem. A revelagao sobrenatural € a revelacio especificamente crista. Por conseguinte, considerando o mundo que Deus criou — e re- correndo A nossa razo — nao podemos obter sendo um conhecimento indirecto de Deus. O entendimento perfeito vem apenas do encontro da nossa fé com Cristo. A tarefa de Deus — 0 fardo do homem «Meu pai trabalha continuamente...» (S. Joao 5, 17) «O que sera, seré.» Assim diz 0 refrao de uma velha musica pop. A frase ilustra 0 que se designa por «fatalismo», uma atitude perante a vida que desempenhava um papel decisivo nas vidas dos antigos gre- gos ou dos vikings do Norte. O destino cra uma forga ou um poder no universo, invisivel e impessoal, a que os deuses ¢ os homens deveriam submeter-se. O Cristianismo deu origem a uma nova crenga por todo o mundo, a crenga na providéncia. Na Béblia, deparamo-nos com a ideia de que Deus ainda se encontra envolvido na sua obra de criagao. Deus como criador e come aquele que sustenta 0 mundo E fundamental, para o Cristianismo, a ideia de que Deus sustenta o mundo. Se Ele se tivesse afastado depois da criagio, tudo teria des- moronado. Mas o Deus crist&éo é o senhor da histéria, que conduz o mundo a sua redengao. Uma das razées pela qual os crist&os demonstram t&o frequente- mente a sua gratidao a Deus, é precisamente por terem sentido o Seu terno cuidado e a Sua mao orientadora nas suas vidas. Experimentar © desvelo de Deus est4, no entanto, dependente da disponibilidade de cada um para que a vontade de Deus se exerga nas suas vidas. Assim ensinou Jesus os discfpulos a rezar: «Seja feita a Vossa von- 158 tade, assim na terra como no céu.» Com isto queria ele dizer-nos que a vontade de Deus no prevalece automaticamente neste mundo. Jesus exortou o homem a depender do cuidado de Deus. Isto nfo significa que devamos evitar as nossas responsabilidades ¢ os nossos deveres para com os outros ou para com as comunidades em que vivemos. Deus criou o homem para que seja seu colaborador, seu co-criador. A Biblia também nos ensina que o trabalho sistematico de Deus Todo-Poderoso é conduzido num ambiente de luta contra forgas que a isso se opdem. O dominio perfeito de Deus encontra-se algures no futuro. Viré um dia em que Deus intervird radicalmente. O facto é que, mesmo actualmente, os movimentos de Deus so evidentes, tanto em aissuntos especificos, como num mundo mais vasto. O Cristianismo vai ainda mais longe, ao defender que o amor de Deus pela criac&o é universal. Nao é limitado, por exemplo, a deter- minados grupos seleccionados de pessoas. Deus tem um objective para toda a humanidade para que esta crie as condigdes que ele deseja para este mundo — independentemente da forma como encaram o Cris- tianismo. Ele ama todas as pessoas na mesma medida. 0 homem como ajudante de Deus Hé4 um curto versiculo no principio da Biblia que 6, por vezes, re ferido como «a missao cultural» (Génesis 1, 28). Nesta passagem, Deus abengoa os primeiros seres humanos e diz: «Crescei ¢ multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes de mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra.» Quando somos confrontados com as explosdes demograficas dos ul- timos tempos, devemos admitir que o homem se tem multiplicado. E, se- guramente, também temos dominado a terra. O que nfo conseguimos foi ter controlo sobre os seus recursos — «os peixes do mar, as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra». Estamos num processo de esvaziar os mares de peixe, e enfrentamos o risco de extin- guir muitas espécies animais, As culturas ocidentais tém que assumir uma grande percentagem. de responsabilidade por este grave impacte sobre a natureza ao longo das ultimas centenas de anos. Temos de admitir que nao estimémos a criagdo como deverfamos ter feito. Os problemas da poluigdo sio 159 actualmente to sérios que temos que reservar enormes recursos para impedir que sejamos intoxicados pelo ar que respiramos e pelos pro- dutos que obtemos da terra e do mar. Falhdmos ainda na distribuigao dos beneficios materiais a nivel internacional. Também, neste caso, a maior carga recai sobre a nossa regido do mundo. A desigualdade na distribuigéio dos recursos globais é nao sé uma falha na nossa responsabilidade administrativa, como uma violagiio do apelo cristo & caridade. O homem foi criado para au- xiliar Deus, mas apés ter-se recusado a trabalhar com Ele, tornou-se um adversério e um inimigo Dele ¢ dos Seus planos para a raga hu- mana. A humanidade — boa ou perversa? «Todos pecaram e estdo privados da gléria de Deus.» (Carta aos Romanos 3, 23) | J4 vimos como 0 homem foi criado 4 imagem de Deus. Ele foi do- tado pelo Criador de forma a poder viver os Seus desejos, no entanto, existe «algo» que se opde ao controlo de Deus do mundo é aos Seus pla- nos para a vida terrena. No Cristianismo, este «algo» chama-se pecado. Qual é a esséncia do pecado? O Novo Testamento usa a palavra grega hamartia para significar pecado. Este substantive deriva do verbo que pode significar (fides) significa exactamente isso. Salvagdo — de qué? Do que é que o homem precisa de ser salvo? A Biblia refere que a salvagdo significa a libertagdo do poder que o pecado exerce sobre o homem. O sentimento de culpa vem normalmente no seguimento do pecado. Hoje em dia, tanto o pecado como a culpa s&o frequentemente con- siderados colectivamente, em vez de individualmente. Mas até este é um conceite biblico: aos olhos de Deus, nao é apenas como seres individuais que somos pecadores. Pertencemos a uma raga marcada pela culpa. Presentemente, muitas pessoas preocupam-se mais com 0 vazio e a falta de sentido da existéncia que com o pecado ou a culpa. Palavras como desenraizamento, alienacao e ansiedade descrevem a situagiio ac- tual de muitas pessoas. Sentimentos de destituigio e insignificancia estdo muitas vezes intimamente associados a pensamentos acerca da morte. A ansiedade em relagao a vida é, na realidade, uma ansiedade em relagéo 4 morte, de acordo com a opiniao de muitos psicélogos. Ao longo de toda a histéria do cristianismo, a salvag&o tem sido frequen- temente entendida como a libertacio da nossa condigdo de mortais. 178 Salvaga@o — para qué? Outra palavra para salvagao é liberdade. «Portanto, se o Filho vos li- bertar, sereis realmente livres» (Jo%o 8, 36). «Foi para a liberdade que Cristo nos libertou», escreveu S. Paulo na sua carta aos Gaélatas (Carta aos Galatas 5, 1). «Nao sou eu livre?», exclama noutra passagem (Primeira carta aos Corintios 9, 1), E na sua carta aos Romanos S. Paulo escreve que Cristo 0 libertara da lei do pecado e da morte (Carta aos Romanos 8, 2), FE um conceito biblico que a vida na terra tem um valor intrinseco. Assim, ao longo da Biblia, a morte é vista como algo negativo. S. Paulo designa a morte por «o tiltimo inimigo». E é a vitéria de Jesus sobre a mesma, ou a ressurreigdo de Jesus, que constitui a base da esperanga crista na vida eterna. E com este pensamento que S. Paulo grita triunfalmente: «A morte foi tragada pela vitéria. Onde est, 6 morte, a tua vit6ria? Onde esta, 6 morte, 0 teu aguilhéo?» (Primeira carta aos Corintios 15, 55). A esperanca crista A esperanga crist& € a expectativa do tempo em que tudo aquilo que ainda imperfeito sera substitufdo pela absoluta ¢ incontestavel soberania do amor de Deus, O Cristianismo ensina que uma noya era despontou com a Vit6ria de Jesus sobre as forgas destrutivas cxistentes, e apesar de Deus ter conquistado uma vitéria decisiva, esta nao é ainda a vitéria final, a qual pertencera a Jesus quando ele regressar a terra no final da histéria. A pregacdo de Jesus torna claro que a referéncia que faz ao reino de Deus significa mais do que a salvagio individual. A esperanga crista tem mais que um simples aspecto pessoal, Também comporta 0 aspecto social ou colectivo, dito de outra forma, aspira a uma nova fraternidade humana, uma nova ordem social ou um mundo novo. A esperanca crista envolve igualmente um aspecto césmico. Haverd «um novo céu e uma nova terra». Julgamento Quem comungaré da salvacdo de Cristo? O Novo Testamento con- tém dois grupos principais de assergdes acerca do reino de Deus. De um lado, a adverténcia severa de que o caminho para a vida é€ através de uma «porta estreita». Para estar preparado para viver no novo 179 reino, o homem deve «negar-se a si mesmo» e voltar-se para Deus. Nao raro dé ao individuo uma escolha, e é necessaria forga de vontade para sacrificar o obstaculo a uma verdadeira comunhao com Deus. Aqui nao est4 apenas em causa a libertago do egoismo de uma vez por todas, mas sim a escolha de uma vida de obediéncia, humildade e amor. Nao € apenas a porta que é estreita, mas também o caminho. Seguem-se outras adverténcias que apresentam o reino de Deus como uma dadiva. Alguns dos versiculos do Sermo da Montanha tor- nam claro que esta «porta estreita» é também uma «porta aberta». Esta mesma ideia encontra-se nas mensagens que referem o reino de Deus como pertencendo as criangas, e no convite feito Aqueles que esto «sobrecarregados de pecado». Isto é uma referéncia as pessoas que acham que nao so dignas, ¢ para aqueles que estado abertos a Deus e aceitam o seu dom sem reservas e sem pensar na sua realiza- cio pessoal. Algumas passagens dos Evangelhos apontam para a vinda de um «dia do Senhor» ou «dia do julgamento», quando todos seremos jul- gados pelos nossos actos. Uma delas é a cena grandiosa do jufzo final no Evangelho de Mateus: «Quando 0 Filho do Homem vier na Sua gléria, acompanhado por todos os Scus anjos, sentar-se-4, entdo, no Seu trono de gloria. Perante Ele reunir-se-Go todas as nagdes ¢ Ele apartard as pessoas umas das ou- tras, como © pastor separa as ovelhas dos cabritos. A Sua direita, pord as ovelhas, ¢ & Sua esquerda, os cabritos. O Rei dird ento aos da Sua di- reita: “Vinde, benditos de Meu pai, recebei em heranga o Reino que vos est preparado desde a criagiio do mundo. Porque tive fome e destes-Me de beber; era peregrino ¢ recolhestes-Me; estava nu e destes-Me de ves- tir; adoeci e visitastes-Me; estive na prisio e fostes ter Comigo.” Entio, 08 justos respondet-Lhe-o: “Senhor, quando foi que te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? Quando Te vimos peregrino e Te recolhemos, ou nu e Te vestimos? E quando Te vimos doente ou na prisdo, ¢ fomos visitar-Te?” E o Rei dir-thes-4 em tesposta: “Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes Meus irmaos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes.” Em seguida, dird aos da esquerda: “Afastai-vos de Mim, malditos, para 0 fogo eterno que esta preparado para o diabo e para os seus anjos. Porque tive fome e nfo Me destes de beber; era peregrino e nao Me recolhestes; estava nu, € nao Me vestistes, enfermo ¢ na prisdo, e nao fostes visitar-Me.” Por 180 sua vez, eles perguntario: “Quando foi que Te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisdo, € nao Te socorremos?” Responder-Ihes-a entao: “Em verdade vos digo: Sempre que deixastes de fazer isto a um destes mais pequeninos, foi a Mim que o deixastes de fazer. E estes iro para o suplicio eterno, ¢ os justos para a vida eterna.”» (Mateus 25, 31-46) Neste texto biblico é fundamental a inexorabilidade do julgamento divino em relagdo ao homem. Deus envia 0 homem para a eterna sal- vacio ou a eterna condenacao, O trecho também evidencia o facto de as acgdes do homem serem decisivas nesta questio. Encontramos novamente esta ideia nas cartas do Novo Testamento: «O que o homem semear, isso ha-de colher (...) Nao nos cansemos de praticar 0 bem, pois, a seu tempo, colheremos, se nao tivermos desfalecido» (Carta aos Galatas 6, 7 € 9). No entanto, noutras passagens é tornado bem claro que 0 julgamento do homem se baseard na atitude que este tiver assumido relativamente a Jesus Cristo. Como ja vimos, é também um aspecto central da teolo- gia crista que o homem nao pode ser merecedor da salvacio pelos seus actos, portanto a importancia destes tem sido considerada como uma ex- pressio da atitude para com Cristo e nao como a exteriorizagéo de uma manifestacéio moral. Ou como S. Tiago escreve na sua epistola: «Assim como 0 corpo sem alma € morto, assim também a fé sem obras é morta» (Tiago 2, 26). Comum a pregagiio do Novo Testamento, no que diz respeito ao jul- gamento, é a ideia de que o homem vive sob responsabilidade perpé- tua. O juizo final revela as injustigas do homem e ocupa-se das coisas que vio contra o amor de Deus. Mais que tudo 0 resto, é a aceitacio ou rejeicgéo da oferta divina de salvagio que determinara o destino do homem no dia do juizo. A doutrina das «iltimas coisas» € designada por escatologia. O Evangelho segundo S. Joao é, de alguma forma, invulgar na sua «es- catologia do presente». De acordo com o Evangelho segundo S. Joo, o julgamento esté a decorrer aqui e agora, e a vida eterna é concedida neste mundo, no encontro com Cristo: «Em verdade, em verdade vos digo: Quem ouve a Minha palavra e acredita n’ Aquele que Me enviou tem a vida eterna € nfo incorre em condenagao, mas passou da morte para a vida» (Joiio 5, 24). 181 Condenagao eterna Ao longo da hist6ria da Igreja, existiram, e ainda hoje existem entre 0s cristéos, varias opinides sobre o julgamento, a salvagdo e a conde- nagdo eterna. De uma forma geral, ha trés visdes dispares: + Apenas alguns se salvarao, os restantes serio condenados para toda a eternidade (seja pelo fogo do inferno ou pela auséncia de Deus). + Apenas alguns se salvarao, os outros morrerdo «a outra morte», ou seja, serao eliminados para sempre. * Toda a humanidade sera salva. No Dia do Juizo Final todos os vivos e os mortos se ajoelharaio perante o Senhor, e Deus sera «tudo para todos». Todas estas perspectivas se baseiam em passagens das escrituras. Torna-se pertinente aqui introduzir um conceito que deu origem a muita controvérsia e debate: o do Inferno. Durante a Idade Média foram feitas descrigdes dos tormentos do Inferno particularmente sinistras, porém, as origens deste conceito remontam ao antigo Israel. A palavra norueguesa Hel-viti («castigo da deusa da morte»), de onde deriva a palavra inglesa (hell), € uma tradugio de Gehenna do Novo Testa- mento, que significa o «Vale de Hinnon». Esse vale a sul de Jerusalém era famoso pela idolatria. No tempo de Jesus, o nome Gehenna teria sido associado as chamas eternas do castigo. E impossfvel determinar, pelas citagdes do Novo Testamento, se este fogo é de tortura eterna, ou de destruigaéo. Existe também uma disting&o entre inferno e Hades, 0 reino dos mortos, onde as almas se mantém até ao dia do Juizo Final. O Espirito Santo e a Igreja Crista «Mas 0 Consolador, 0 Espirito Santo, que o Pai enviaré em Meu nome, Esse ensinar-vos-4 todas as coisas ¢ vos recordard tudo o que vos tenho dito.» (Joao 14, 26) O poder de Deus — 0 Espirito Santo E intrinseco ao cristianismo que Jesus continua vivo ¢ que a sua obra esta a ser continuada pelo Espirito Santo. 182 Em todo 6 Novo Testamento Jesus € descrito como um homem, dis- tinto do Pai. Por exemplo, é-nos dito, varias vezes, que ele orava a Deus. O espirito de Deus -— ou o Espirito Santo — é também descrito ocasionalmente como uma forga pessoal. E, em algumas passagens, a Trindade Pai, Filho e Espirito Santo é transformada numa férmula. S. Paulo termina a sua segunda carta a Igreja de Corinto com a seguinte saudagiio: «A graca do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhio do Espirito Santo estejam com todos vés.» Ser4 que isto significa que 0 Cristianismo nao é uma religiao mo- notefsta? A Biblia no contém nenhuma doutrina satisfatéria sobre a relagaio entre o Pai, Filho e Espirito Santo, no entanto, no decurso dos séculos Iv e V d.C, desenvolveu-se a doutrina da Trindade. Segundo esta doutrina, Deus é trés «pessoas» numa tinica divindade. A expres- sGo «pessoa» no era interpretada como significando um individuo, como acontece actualmente. Persona significa «mascara» ou «papel» e deriva do teatro classico, onde 0 mesmo actor usava mascaras para desempenhar papéis diferentes. © Espirito Santo & o Espirito de Deus. No primeiro capitulo da Bi blia, o Espirito de Deus é descrito como a forga criadora ¢ fonte de vida. Todavia, no Novo Testamento, o Espirito Santo associa-se a Cristo, € quando os primeiros autores cristiios descrevem a sua vida religiosa, al- ternam com a mesma frequéncia as expressGes «uma vida no Espirito Santo» e «uma vida em Cristo». No segundo capitulo dos Actos dos Apéstolos encontra-se uma des- crigdo de como os apéstolos receberam o Espirito Santo. Os seguidores de Jesus haviam-se reunido, depois da sua morte, para celebrar o Pente- costes, quando Deus enviou o Espirito. Cré-se que este € 0 momento do nascimento da Igreja crista, ¢ as suas actividades religiosas mais impor- tantes so também descritas neste capitulo: «Eram assiduos ao ensino dos Apéstolos, 4 comunhio fraterna, a fracc4o do pao ¢ as oragbes.» Actualmente os principais objectivos da maior parte das Igrejas sao a proclamagio da palavra de Deus, os sacramentos, a vida de oracao e a fraternidade cristi. Os Sacramentos O amor e a proximidade de Deus nao se manifestam apenas nas Suas palavras, mas também sob a forma de acgdes sagradas, ou sacra- mentos. 183 «Sacramento» € uma palavra de origem latina que nao é men- cionada na Biblia. Significa «um meio de santificar», ou seja, que for- talece a ligacdo entre Deus e o homem. 6 a dadiva tangivel de comunhao feita por Deus ao homem. A palavra «sacramento» pode, por principio, aplicar-se a um conjunto de acgGes que reforgam a comunhio com Deus, e a Igreja Catélica Ro- mana reconhece sete desses sacramentos, Dois tém uma importancia es- pecial, e sio também considerados como sacramentos pela Igreja Protestante. Sao eles o Baptismo e a Eucaristia, sendo ambos utilizados como sinais exteriores, visiveis e institufdos por Jesus. Baptismo Segundo S. Mateus, foi o proprio Jesus quem instituiu o Baptismo, relacionado com o seu «mandado missiondrio» no Dia da Ascensio. Desde os primeiros tempos do Cristianismo que o baptismo tem sido © passaporte de integragéo na comunidade crista. O baptismo ¢ um ritual de iniciagao. Jesus deixou-se baptizar por Joo Baptista ¢ inicion, deste modo, a sua miss&o. Porém, um cristo nao encara o baptismo como sendo apenas um «bilhete de entrada» para a Igreja. E através do baptismo que Deus oferece a salvag’o ¢ 0 perdao ao homem. O homem. morre, é ressuscitado com Cristo e toma o seu lugar na comunhdo com. Deus. Também é comum, na terminologia crista, referir-se 0 Baptismo como 0 «renascimento». O Baptismo nao pode ser separado da palavra de Deus. Nio € um ritual magico que tenha poder intrinseco. «Sem a palavra de Deus, a dgua é apenas Agua e no 0 baptismo», disse Lutero. Nem pode o Baptismo ser dissociado da fé. Aqui reside 0 gérmen do velho debate acerca do Baptismo em crianga ou em adulto. Os de- fensores do Baptismo na idade adulta acreditam que a fé pressupde uma conversio pessoal, uma op¢ao, e que o Baptismo é um acto de confissio e de obediéncia. Os que defendem o Baptismo das criangas dizem que € apenas pela gracga e pelo amor de Deus que somos salvos, ¢ que os esforgos humanos nada significam. Por conseguinte, quer as criangas, quer os adultos podem ser admitidos no reino de Deus através do Baptismo. Embora aqueles que foram baptizados possam, mais tarde, optar por uma outra £6 pessoal. 184 Em qualquer dos casos, é-Ihes dada orientagao baptismal. Na Igreja Luterana os pais prometem educar a crianga na fé cristaé. Essa educa- cdo e aprendizagem é também dada pela catequese dominical e por ou- tros projectos cristéios, bem como através da educacdo religiosa nas escolas primdria e secundaria. A Eucaristia Eucaristia é uma palavra grega que significa «acgdo de gracas», & refere-se A ceia que Jesus fez com os seus discfpulos mais préximos antes de ser executado. Os ingredientes principais desta ceia foram 0 pao e o vinho, Foram estes os elementos que Jesus escolheu para demonstrar o significado do seu ministério. Ofereceu-se, em corpo e sangue, para que o homem pudesse ser perdoado pela sua desuniao com Deus. «...que, na noite em que foi trafdo, tomou 0 pao, e dando gragas, 0 partiu, e deu aos seus discfpulos, dizendo, tomai ¢ comei todos. Este é © meu corpo. Fazei isto em memoria de mim.» Mais que o Baptismo, a Eucaristia tem sido alvo de divergéncias e discusses, ¢ as varias Igrejas tém acentuado aspectos diferentes deste sacramento. Eis alguns dos temas da Eucaristia: * O tema da comunhéo. Jesus instituiu uma forma de fortalecimento quer da comunhao com Deus, quer da comunhao entre aqueles que partilhavam a mesma refeico. Em algumas igrejas a Euca- ristia é designada por comunhdo, que € @ palavra latina para «con- fraternidade». A Eucaristia antecipa a realizagao do reino de Deus. * O tema da memoria. Fornece a justificagao histérica e chama a atenco para o que Deus fez pelo homem através da vida e do mi- nistério de Jesus. * O tema da confissdéo. A Bucaristia é uma declaragiio de fé em Deus e no homem. Isto acontece especialmente onde a Eucaris- tia deixou de ser um habito social. * O tema da forga. Awavés da Eucaristia, Deus concede 0 perddo dos pecados, assim como forga e vida renovadas. Jesus oferece- ¢ através do pio e do vinho. * O tema da acgdo de gragas. A Eucaristia é um dom, ¢ 0 senti- mento de gratiddo e de jubilo era algo que caracterizava a cele- bragiio da Eucaristia, mesmo nos primérdios do Cristianismo. * O tema do sacrificio. Na Igreja Catélica Romana a Eucaristia ¢ igualmente considerada como uma reconstituigao do sacrificio de Jesus em Gélgota. Para além disso, na Igreja Catélica a Eucaris- tia € também conhecida como o Sacrificio da Missa. A Oragio A associag’o do Espirito Santo ao homem nfo est4 apenas ligada ao antincio e aos sacramentos. A oragao é outro meio através do qual os crist&os entram em contacto com Deus. Segundo os evangelhos, Jesus rezava frequentemente, em especial em momentos importantes. Ensinou os seus discipulos a rezar, e o Novo Testamento é fértil em apelos a oracio. A oragao foi sempre uma pedra angular na histéria da Igreja, nos cultos religiosos e na vida individual do cristdo. A oraciio é a conversa do homem com Deus. Assume uma relagao de «eu-tu» ou «nds-vés», ou seja, uma ligag%o pessoal com Deus. Deus. € 0 criador ¢ 0 juiz exaltado, mas € simultaneamente alguém a quem 0 homem pode chamar «pai». Qual € 0 objectivo da oragao? Esta é uma questo que qualquer cris- t&o se coloca mais cedo ou mais tarde, quando nao recebe uma resposta positiva ao seu apelo. «Pede, e ser-te-4 concedido», disse Jesus, porém, ele também ensi- nou os seus discfpulos a dizer «Seja feita a Vossa vontade». E na polaridade destes dois sentimentos que assenta 0 entendimento cristio da oracaio. Podemos rezar a Deus a propésito do que quisermos, no en- tanto, Ele no se deixard pressionar. A oragao nao é um truque de prestidigitagio ou uma formula magica. «O objectivo da oragao nao é a concessio dos nossos desejos egofstas, mas sim 0 cumprimento da vontade de Deus» (E. Thestrup Pedersen). A importancia da oragao A orag’o mais comum exprime uma 4nsia, um desejo de algo. O «Pai-Nosso» é um bom exemplo da amplitude dos desejos, desde o tangivel «pao nosso de cada dia» a «livrai-nos do mal». 186 Uma intercesséo € uma oracdo em favor de outras pessoas. Con- traria o egocentrismo € reza-se pela familia, pelos amigos e pelos co- nhecidos. No entanto, transcende esta delimitagao. Jesus exortou a «rezar por aqueles que nos perseguem», ¢ na cruz clamou a Deus: «Pai, perdoai-Ihes, pois ndo sabem o que fazem.» Uma oragiio de accaio de gragas oferece-se como expresso de gra- tidao pelo atendimento a uma oracio. Um bom exemplo ¢ a histéria de como Jesus curou dez leprosos e apenas um voltou para Lhe agradecer (Lucas 17, 11-19). As oragdes de acgdes de graga sio igualmente utilizadas para as coisas pelas quais nao rezdmos, para agradecer as gragas que acha- mos que Deus nos concede por amor: satide, amigos, etc. Este tipo de gratiddo transforma-se frequentemente em louvor, que é um dos tipos de orag&o mais comum no Novo Testamento. S. Paulo inicia muitas vezes as suas cartas com expressdes de acgio de gragas € louvor. A oragao e o louvor foram muito importantes nos cultos religiosos desde os primeiros tempos do Cristianismo, e, actualmente, a oragdo e o louvor regulares tornaram-se inerentes A liturgia da Igreja. Este tipo de oragio designa-se por oragio estabelecida ou litérgica. Por outro lado, existe também a oracgdo improvisada, na qual cada um utiliza as suas préprias palavras e expressdes. Durante uma liturgia, a oraciio pode ser feita a sés ou acompanhado. O Novo Testamento relata que os apéstolos se reuniam em oragdo comum (Actos dos Apéstolos 2, 42). O conselho de Jesus para que se olassem numa sala separada para rezar pretendia apenas advertir con- tra o exibicionismo da devogio religiosa através da oragdo (Mateus 6, 5-6). O Cristianismo nao exige nenhuma atitude fisica especial para a oragio. Pode ajoelhar-se, inclinar a cabega, juntar as maos ou ergué- -las para o céu. Nenhum gesto exprime mais devogio que outro, sao os préprios orantes que decidem qual a atitude que querem adoptar. A Igreja — a comunhdo crista Pouco depois da morte de Jesus, as pessoas juntavam-se pata ouvir a historia da sua vida e dos seus milagres. Assim se formaram as primeiras comunidades cristis, e podemos ver através do testemunho 187 do Novo Testamento que existia entre os membros destes pequenos grupos uma dose extraordindria de amor e de boa vontade. Aqui reside a semente do que hoje se denomina por Igreja. Porém, no Novo Testamento nao existem regras acerca de como se deveria for- mar uma Igreja, existia apenas a nogo dela. A igreja — de Deus Para que possamos compreender a nogio de Igreja, devemos ana- lisar a forma como Jesus se via a Si mesmo. Ele identificava-se com. 0 rei prometido, o Messias. E um rei precisa de um povo. Foi com as palavras «Segui-me» que Ele langou os fundamentos da Igreja. A Igreja é, portanto, a comunhio de todos aqueles que seguem 0 cha- mamento. A palavra «igreja» em si mesma, est4 relacionada com a pala- vra grega kyriaké — o que pertence a Kyrios, o Senhor. f equiva- lente 4 palavra usada no Novo Testamento, ekklesia ¢ que significa «assembleia do povo (para 0 culto religioso)», a reuniao da comu- nidade. Por conseguinte, os cristéos nao pensam que a sua Igreja tenha nascido porque um determinado grupo de pessoas formou uma organi- zagao, mas antes porque um espirito divino comegou a agir entre os homens. O Pentecostes, a altura em que Jesus enviou 0 seu Espirito para guiar a humanidade, é normalmente considerado como 0 aniversario da Tgteja. Assim, a palavra igreja esta associada & comunhdo com Cristo e a fratemnidade entre as pessoas. Mas € também o nome do proprio edifi- cio onde as pessoas se juntam para 0 culto. Numa mirfade de imagens, 0 Novo Testamento explica aspectos importantes da congrega¢ao, ou do povo de Cristo. Estes adquirem fre- quentemente a forma de comparagSes com uma casa, uma vinha ou um corpo orgénico. Pode pensar-se na Igreja como algo simultaneamente visivel e invisivel. A Igreja € uma comunidade espiritual, é a f€ da fra- ternidade crist&, uma coisa invisivel. No entanto, é igualmente um local onde se proclama o Evangelho e onde so ministrados os sacramentos. Algo visivel. A Igreja néo é apenas um conjunto de sacerdotes e de funciondrios eclesidsticos, mas é de todos aqueles que acreditam em Jesus Cristo. 188 O conhecimento da confissao. A expansao do Cristianismo Os primeiros cristéos De acordo com Jesus, os doze apéstolos formavam o niicleo do novo reino de Deus que estava para vir. S. Pedro era a figura prin- cipal dentre eles. Outra pessoa importante era S. Tiago, primo de Jesus. A primeira comunidade de cristaos era constitufda por judeus, Obe- deciam a Lei de Moisés, participavam nos cultos religiosos do Templo e da sinagoga e geralmente viviam como judeus piedosos. O gue os distinguia dos restantes judeus era o facto de acreditarem que Jesus de Nazaré era o Messias prometido. Eram considerados como uma seita judaica distinta, designados por «os Nazarenos», para os diferenciar dos saduceus e dos fariseus. No inicio, ndo havia uma separagéo muito acentuada entre Cristianismo e Judaismo. Até mesmo os «crentes em Cristo» cram judeus. A conversio do fariseu Saul (Paulo), por volta de 32 d.C., foi de importancia decisiva na expansio progressiva do Cristianismo. Nao sera um exagero dizer-se que os seus muitos anos de ministério transformaram o Cristianismo numa religido universal. O seu con- tributo fez-se a dois nfveis: primeiramente, viajou amplamente pelo mundo greco-romano e proclamou o Evangelho de Cristo entre os nio- -judeus. Em segundo lugar, Jangou as fundacées da teologia cristd, nas intimeras cartas que escreveu As novas igrejas. Nas suas cartas, 0 Cris- tianismo € caracterizado como uma religiao independente, ¢ Jesus Cristo como o salvador de todos os homens. Um aspecto importante na Igreja primitiva era a relacdo entre os cristiios judeus e os cristéos gentios (isto €, cristaos néo-judeus). Es- tariam os cristaos gentios sujeitos A Lei moisaica? Deveriam eles, por exemplo, ser circuncidados antes de se tornarem cristios? Du- rante as primeiras décadas apés a morte de Cristo, muitas das figuras proeminentes do Cristianismo em Jerusalém, incluindo o irmao de Jesus, S. Tiago, acreditavam que sim. S. Paulo tinha uma pers- pectiva diferente, Tinha viajado entre os gentios, e visto como eles abragavam a {6 de Cristo sem um conhecimento profundo do Ju- daismo, 189