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Copyright © _UNIVERSIDADE ABERTA- 1995 Palicio Ceia * Rua da Escola Politécnica, 147 1250 Lisboa DL: 80 222/94 ISBN: 972-674-141-6 severe 15 27 29 31 3 35 a 43 45 47 su 33 s4 7 59 60 6 62 o 65 67 Civilizagdes Pré-Classicas sone INTRODUGAO I. A CIVILIZACAO EGIPCIA 1. Introdugio "Taba de matérias Objectivos de aprendizagem pais e os habitantes ONito 0s Exipcios A lingua e a escrita Fontes da histéria do Egipto Actividades 2. Aevolugao politica ‘Tabua de matérias Objectivos de aprendizagem (0 Periodo Arcaico ou Tinita (e, 3000-2635 a. C.) © Império Antigo ou Mentita (c. 2635-2154 a. C.) © I Perfodo Intermédio (c. 2154-2040 a, C.) © Império Médio (2040-1785 a. C) 0 11 Periodo Intermédio: Os Hiesos (1785-1551 a. C.) 0 Império Novo (1554/1 a 1070 a. C.) Actividade sugerida 0 IIL Perfodo Intermédio (1070-714 a, C) A Epoca Baixa (714-332 a. C.) O pertodo saita (664-525 a. C.) Persas e Maced6nios (525-30 a. C:) 0 Egipto ¢ 0 Mediterraneo Actividades Respostas as actividades sverige enorme n B 8 8 9 80 83 86 87 89 95 7 99 102 108 105 109 m1 us 4 18 net 3. Instituigdes e Sociedade abun de matérias Objectivos de aprendizagem As Instituigoes Orei A administracao O exército A Sociedade A familia © quotidiano Os eseravos Acti lades Respostas as actividades 4, Economia ‘Tébua de matérias ‘Objectivos de aprendizagem ‘A agricultura e a pesca subsolo e as relagies comerciais A circulagiio dos bens ¢ das pessoas: as vias Actividades Respostas as actividades 5. AReli Tébua de matérias Objectivos de aprendizagem Prinefpios basicos Duas sinteses teolégicas faraé, descendente de Horus e deus Sol eb enn 119 120 121 124 125 126 129 131 135 136 140 141 ut 142 143, 447 154 156 197 158 164 165 166 168 169 aa a aceon sencenncpepneNORERREREA NESE Os animais sagrados © culto dos deuses 0 caulto dos mortos Actividade sugerida Actividades Respostas as actividades 6. Acultura ‘Tabua de matérias Onjectivos de aprencizagem © escriba A literatura [No Império Antigo No I Pertodo Intermédio Actividade Resposta& actividade No Império Mettio Actividade No Império Novo ‘Na Epoca Baixa [As téenicas eas cincias As tenicas As eicias As artes A arqutectura A escultura As artes paretais As artes menores = vesegeetonnnnnnentetenncene sora sreceereanenneenrcente ee nant 7. Conelusio 4. O império de Acad a eer 225. Taibua de matérias soe Aatidaes 227 Objectivos de aprendizagem 178 Respostas as actividades 28 Acconomia 233 Acultura e a religtio 234 Os Giitios eo fim do império acéicio I. A MESOPOTAMIA 5. AIII dinastia de Ur ou a renascenca suméria 1. O quadro geografico 237 Tiibua de matérias 185 Tabua de matérias 239 Objectivos de aprendizagem 187 Objectivos de aprendizagem 242A decadénela de Ur 244 Acti 2. Da sedentarizacao & urbanizagio as) | Respostas ay etiicndae 195 Tébua de matérias 197 Objectives de aprendizagem 6. O perfodo Paleobabilénico 200 O caminho para a urbanizagio. O exemplo de Uruk 249 Tiibua de matérias 202 Aetividade sugerida 251 Ohjectivos de aprendizagem 254 Actividade 3. Os Sumérios 254 Resposta a actividade 205 Tua de matérias 256 A sociedade e a economia 207 —_ Ohjectivos de aprendizagem 257 A religido 209 © poder eo governo na cidade 258 Acultura 212 Economia e sociedade 258 Actividades 213 Orel 259 Respostas as actividades 216 A vida intelectual 219 Areligiaio 7. Os séculos das grandes convulsées 319 Amwctes 263 Tabua de matérias 220 Actividade sugerida eee nee noe ae setcnalange 221 Actividades 267 Os Cassitas 222 Respostas as actividades 268 Os Mitanios 10 269 269 om am 274 an 279 281 281 292 284 294 297 298 299 300 300 302 305 307 31 312 315 317 st Actividade Os Hititas Actividade sugerida ‘Actividades Respostas as actividades 8. Os Assirios Tabua de matérias ‘Objectivos de aprendizagem s grandes perfodos da hist6ria asstria O Império Antigo O Império Médio 0 Império Neo-Asstrio Orei Crises na sucessao dindstica O exército A administragio A sociedade Actividades Respostas as actividades 9. O Império Neobabilénico ‘Tébua de matérias Ohjectivos de aprendizagem Caracteristicas do Império Neobabilénico Actividade sugerida 10. 0 legado cultural da Mesopotamia "Tabua de matérias, Objectivos de aprendizagem -saysuenaremenenreenranienemte x20 322 226 327 227 333 335 336 336 345 347 355 357 363 365 368 ene cone Religiio e mitos das origens A legislagio As ciéneias Actividade Resposta a actividade 11. Conelusio ‘Tébua de matérias Actividade sugerida Actividade Resposta a actividade Ill. AREGIAO SIRO-PALESTINENSE OS HEBREUS 1. O meio ambiente ‘Tébua de matérias Objectivos de aprendizagem 2. As fontes ‘Tébua de matérias Onjectivos de aprendizagem 3. A formacio do povo hebreu ‘Tébua de matérias Onjectivos de aprendizagem Epoea patriareal Os Hebreus no Egipto n 2 a7 314 374 376 377 381 383, 385 386 389 391 395, 399 401 403 405 407 408 408 40 a2 414 maz nnvnamnnneeeaaas sas ESE Instalagio dos Hebreus ‘A instalagio das tribos: a caminho de um estado A época dos juizes 4, Amonarquia Tabua de matérias Salomio 0s dois reinos Revolugdes em Israel e Juda 5, Os Hebreus perante a ofensiva assiria ‘Tébua de matérias ‘Objectivos de aprendizagem As fontes Juda ¢ Israel no contexto hist6rico do séeulo VIII a. C. Israel Juda A intervengio militar assiria As consequéncias da conquista asstria ‘Actividades Respostas as acti 4i7 419 423 429 431 437 439 442 442 487 439 463 467 469 an 6. O reino de Judé apés a queda da Samaria ‘Tébua de matérias Objecti s de aprendizagem Os diltimos anos do reino de Juda 7. O cativeiro de Babilénia ‘Tébua de matérias ‘Objectivos de aprendizagem pés-exilio: inicio de novos tempos ‘Tébua de matérias Objectivos de aprendizagem Actividades Respostas a actividades 9. A-concepcio da histéria, segundo os Judeus ‘Tabua de matérias Objectivos de aprendizagem Actividade sugerida 10. Sociedade e instituigées Tabua de matérias Ohjectivos de aprendizagem Actividade suge 11, Religiio ‘Tabua de matérias Onjectivos de apren gem A religiio patriarcal “ 473 416 4 485 487 495 47 504 505 maennanoera Caracteristieas do deus dos Hebreus O culto A Biblia OS HEBREUS E OS POVOS VIZINHOS 1. Os povos da Siria ‘Tébua de matérias Objectivos de aprendizagem 2. Os Fenicios Tabua de matérias Objectivos de aprendizagem Actividades lades Respostas is act BIBLIOGRAFIA GERAL nr ERS RESET oto NTRODUGA' isciplina de Histéria das Civilizagbes Pré-Clissicas faz parte do curriculum dos cursos de licenciatura em Hist6ria, segundo a legislagio em vigor. A designacio poderd variar de Universidade para Universidade, mas o seu contetido programético serd substancialmente 0 mesmo: o estudo das sociedades, culturas e civilizagées detentoras da escrita, mas anteriores A época clissica. Como se vé, a matéria é vvastfssima, pois tem inicio quando termina a Pré-Hist6ria e prolonga-se até a0 século V a. C, tradicionalmente conhecido como perfodo 4ureo da cultura cléssica na Grécia. Apesar das suas naturais dificuldades, as civilizagdes pré-cléssicas contém fortes motivos de atracgio: o interesse pelo desconhecido, o gosto do inédito. Como advert Mare Bloch, «em todas as coisas humanas so sobretudo dignas de estudo as origens»’ Uma das épocas mais apaixonantes para o espirito humano é designadamente a passagem da Pré-Hist6ria a Hist6ria. Af se encontram elos de ligacéo entre a experigneia humana veiculada por tradigées orais e aquela experiéncia que jé foi transmitida pela escrita, uma e outra com sobrevivéncias mais ou menos claras no patriménio comum da humanidade. Designa-se por Pré-Hist6ria a fase humana que precede a escrita, pertencendo ‘seu estudo ao pré-historiador. No entanto € bom reconhecermos que tanto aquele que se baseia no dado arqueolégico como aquele que se apoia no documento escrito praticam hist6ria: investigam 0 passado das sociedades humanas no seu processo civilizat6rio. Os Gregos designavam com uma s6 palavra, histéria, quanto tinha acontecido no mundo. $6 no século XIX comecou a vigorar a distingio entre pré-historia (Epoca que antecede a escrita) ¢ histdria, que os Gregos conheciam por suigraphe* A grande diferenga entre uma ¢ outra consiste no método de trabalho e no processo de investigacdo:a hist6ria ante-escrita da competéncia do arque6logo; a histéria és-escrita, com duas espécies de testemunhos, os escritos ¢ os n competéncia do historiador. A historia comeca no Oriente Se € a escrita que caracteriza a histéria, entao esta nasceu no Médio Oriente. O ‘sumeriélogo Samuel N. Kramer escolheu mesmo para titulo de uma das suas obras A Histéria comega na Suméria? ¢, pelo mesmo critério da eserita, Carl Grimberg hao hesitou em escrever: A Histéria comeca no Crescente FértiP. Compreende-se que 0 homem modemno sinta especial atractivo por essa parte do Oriente. Em busca do sentido profundo da sua cultura, nao se pode contentar apenas, om 0 estudo da Grécia e de Roma. Vai procurar as raizes mais distantes nas Sociedades, culturas ¢ civilizagdes pré-classicas que floresceram no Médio Oriente antigo. Recebemos dali como heranga espiritual parte do nosso patriménio, o que 'eva Pietre Amiet a afirmar que a nossa civilizacao 6 «paradoxalmenten € dita anes "Boch ita de memdia a fia- se que atribui a Renan in Apologie pour histoire ow ‘miter dhistrten, Caer des ‘Annales, 3, 4* ed, Armand Colin, Pats, 1961; verso por luguesa fredugioa Hiséria, Europa-América, Lisboa, 1976, p31, 2S. Kramer, A Historia ‘omega na Sumer, versio portuguesa Europa-Amédca * C.Grimbery, «A Histriaco- mega no Creseente Fé, ia Histria Universal, Europa América, Lisboa, 1968, vol, pa. 7 + piere Ambet, As clases antigas do Médio Orient, Buropa-América, Lisboa, 1974, 3. 18 een ad ocidental, acrescentando ainda: «esse Oriente pertence-nos como parte integrante do nosso patriménion', Filologia e Arqueologia A historia do Médio Oriente antigo depende da Filologia, querendo designar por tata palaveao estudo e conhecimento das linguas, eda Arqueologia. Depende desta 4 $6 indirectamente por Ihe revelar os tesouros da escrita, mas também de forma muito directa, pelas informagées do quotidiano, do pormenor da vida conereta que ficou testemunhado nos restos materiais. & bom salientar-se este segundo aspect quaitas vezes.o dado arqueol6gico ilumina o texto ou tem de osubstituir totalmente, se de facto nfo hé documentagio escrita. E sem diivida & Arqueologia que se deve cm grande parte e em tltima andlise o conhecimento actual das sociedades,culturas ‘ccivilizagoes que floresceram no «Crescente Fértil», designado por Oriente Clissico. ‘A Arqueologia tem-se revelado activa e fecunda desde 0 Egipto a Mesopotimia, da ‘Anatolia 2s costas sito-palestinenses, como teremos oportunidade de desenvolver num audiograma. A documentagio eserita Foram geralmente as escavagdes arqueol6gicas que puseram a descoberto os primeiros «arquivos» ou «bibliotecas» da humanidade. Pelos exemplos que vamos apontar de arqueostios, podemos veificar como as vérias regises do Médio Oriente possuem os seus respectivos arquivos da Alta Antiguidade: ‘Tell el Amarna ~ situa-se junto do Nilo, acerca de 300 km a sul do Cairo. Nesta antiga capital de Amenotis IV, as escavag6es ali reafizadas jé em 1887 puseram a escoberto os arquivos teais, onde se guardavam mais de 300 tabuinhas de argila, eseritas em caracteres cuneiformes, que contém cartas provenientes de varios estados do Médio Oriente que tinham relagdes com o Egipto no século XIV a. C. Bogazkoy ~ é actualmente uma aldeia turca, situada nas proximidades das rufnas de Hatusa, capital do império hitita. Nas escavagbes ali realizadas em 1907 foram postos a descoberto os arquivos reais onde se encontravam mais de 10 000 tabuinhas de argila, O conhecimento que actualmente se tem da histéria dos Hititas nas suas seus coevos, deve-se fundamentalmente a esta relagdes com os povos vizinhos, documentagio. Ras Shamra ~ 6 antiga Ugarit, conhecida cidade fenfcia, situada a 15 km a norte dda actual Lataquia. Ap6s ter sido descoberta por casualidade pela relha de um arado, fim 1928, tem sido objecto de estudo em sucessivas campanhas de escavagbes. Fram postos a descoberto 0s arquivos do palicio real com inmeras tbuinhas de argila ecrtas em diversas Kinguss:epipeit htt, hurt, bablénice, minsico, tipriotaeugartco, dialect local Nometo de tantos documentos que testemunam 4s relagdes com as poténcias estrangeiras da época (1600-1200 a. C.),encontram-se também fontes de diversos géneros literétios, Mari - € 0 actual Tell el Hariri, na margem direita do médio Eufrates. Conhecida até 1933 por alguns textos, a sua localizacio 86 nessa data se identificou, Prosseguem actualmente as escavag6es. Interessa referir de momento a vasta e importantissima dlocumentacéo ali encontrada: mais de 20 000 tabuinhas cuneiformes que tém sido estudadas e publicadas por uma equipa de assiridlogos de Paris Ninive ~ situada na margem esquerda do Tigre ¢ @ nordeste da actual cidade de Mossul, esta antiga capital da Assiria foi a primeira a merecer a atengao da Arqueologia ja em 1852. No palacio de Assurbanjpal, encontrou-se uma verdadeira biblioteca, constituida por mais de 24 000 tabuinhas cuneiformes que esse soberano tinha feito reunir, Esta documentagio, em parte ainda a ser publicada em Helsinquia constitui a base dos estudos da Assiriologia. ae Nuzi ~ situada a 13 km a sudoeste de Kerkuk, foi o centro da eivilizagio hurrita As escavagées efectuadas, entre 1925 e 1931, puseram a descoberto centenas d tabuinhas que remontam aos tempos da dnastia de Acad, erea de 2360-2180 a.C. Mais importante ainda foi o achado de milhates de tabuinhas do século XV a. C. la ~ est situada a 10 km a sul de Alepo, na Sitia. Comegou a ser escavada na década de 60, mas descoberta mais sensacional ocorreu em 1974 e 1975, quando foi posta a descoberto a biblioteca do palécio real, eom cerca de 20 000 tabuinhas de argila, O seu estudo tem-se revestido de grandes dificuldades. Esté confiado a professores e investigadores de Roma e de Florenca'. ‘ Peastaa vane documentacao existente, pode concluir-se que é possivel fazer-se — das civilizagées Pré-Clissicas, nao obstante as especiais caracteristicas de que se reveste a historiografia desta época, resultantes da dificuldade do acesso aos textos da complexidade da hermenéutica®, 0 Programa Dentro da enorme vastidio da matéria que, em termos cronolégicos, vai desde 0 ‘parecimento da eserita até 40 séeulo V a. C. , em termos geogrticos, pode ir das reioes sis om vale de Hoang-ho na China, nfo considerando também as ees oanmeeceaen América, virios planos de estudo poderiam ser ados. Alguns poderiam apresentar tendéncia mais monogrétiea, outros @pontariam para uma maior diversificacdo de informagies. : ee ee Poderiam apontar-se planos que insistissem, por exemplo, na a ia, na Sumeriloa, nna Hist6ria Hebraica... ou numa relacio concreta de ae paren igen da _X_Dinastia de Heracledpols, * A. Erman, Hl Ranke, Le civilisation égyptenne, Payot, Pris, 1976, p56 st ‘sonnet 2 seen A dinastia iniciada por Amenemés I foi uma das mais importantes da hist6ria do Egipto. Curiosamente os reis, que usaram 0 nome de Amenemés ou de Seséstris, distinguiram-se como organizadores no campo administrative ¢ econé Do elevado nivel da economia, nesta época, dio testemunho os proprios templos e tuimulos construidos entdo. A riqueza material ficou-se a dever a situagéio interna 4o pais e também as campanhas militares sisteméticas para a NGbia, nfo tanto porque esse pais, de territ6rio estreito e fértil, enriquecesse os celeiros egipcios, mas por causa da riqueza em ouro que possufa nas suas minas. Assim, Ses6stris I, filho sucessor de Amenemés, mal subiu ao trono, apés ter destronado o pai, teve como preocupacio apoderar-se das minas de ouro da Nébia. Se Amenemés II e Seséstris II tiveram reinados menos importantes, limitando-se a gerir as riquezas herdadas, 0 mesmo j4 nao poderemos dizer de Seséstris UII. Este iria distinguir-se mais do que nenhum outro, nas campanhas militares para a Nabia e para a Palestina. Mais tarde, a meméria deste faraé seria exaltada por Tutmésis II, que se sentiria na obrigacéo de erigir um templo, na Nubia, & meméria do seu ilustre antecessor. Também os Gregos haviam de recordé-lo nas suas lendas. Amenemés III péde levar vida tranquila e desenvolver a agricultura no interior do pafs, fazendo aumentar 0 bem-estar econémico. Esta dinastia conta ainda com os reinados de Amenemés IV ¢ de Sebekneferuré, mas deles a histéria pouco fala Considerando a XII Dinastia na sua globalidade, tem de se The reconhecer uma grande importancia para a hist6ria do Egipto. Durante a sua vigéncia, restaurou-se © poder real; fizeram-se grandes construgées, néo s6 de templos e témulos, ‘mas também de fortificagoes, no Sul e no Norte, para defesa contra os inimigos doexterior; promoveram-se as campanhas militares jé referidas, contra a Nabia ea Palestina, e ainda contra os Lfbios, a fim de controlarem as vias de . Organizaram-se expedigdes comerciais para a regio de Punt e © facto de se encontrarem, no Egipto da época, objectos fenicios, cretenses, cilindros ‘da Mesopotamia, etc., leva a pensar que durante o Império Médio houve relagées estreitas entre o Egipto ¢ 0 mundo de entio, designadamente com as regides siro-palestinenses e com 0 Mediterraneo. s faraés desta dinastia usaram também as armas da diplomacia. Embora tivessem desaparecido os documentos da chancelaria faraGnica, as listas das dinastias, os nomes dos principes e dos paises asisticos, escritos sobre estatuetas ¢ vérios objectos, mostram que, no Egipto, havia conhecimento preciso das cortes e dos pafses do Médio Oriente. Tudo isso revela que 0 Egipto do Império Médio, durante a XII Dinastia, estava relacionado com 0 mundo civilizado dessa época. As dinastias XIII ¢ XIV Dinastias so menos conhecidas ¢ 0 tiltimo faraé da XIV Dinastia, de nome Nehesy, jé se considerava vassalo dos Hicsos, que tinham a capital no Delta. ~~ 2.5 OI Periodo Intermédio, Os Hicsos (1785-1551 a. C.) “Apesar das fortificagOes e da vigilincia sobre as fronteiras para defesa dos inimigos do exterior, o Egipto no conseguit evitar as infiltragSes de povos asifticos, como as que ocorreram no fim do Império Médio. 0 periodo que estamos a analisar, com infcio no século XVIII a. C., caracterizou- -se, no Médio Oriente, por invasdes ¢ instabilidade: os Hititas instalaram-se na Capadécia; os Hurritas entre Habur ¢ o Eufrates, ¢ depois na Sitia, enquanto os montanheses do Zagros ¢ os Cassitas submergiam a Babildnia ¢ a Mesopotamia do sul. Essas populagoes, ao deslocarem-se, empurraram para Oeste vagas de némadas semitas que penetraram no Egipto e se fixaram na regiéo do Delta. Fortificaram a cidade de Avaris, a noroeste, ¢ estabeleceram af a sua capital. Intitulavam-se a si mesmos regentes dos patses estrangeiros e Maneton chamou-Ihes simplesmente Hicsos, palavra estranha que parece ser uma deformacio de Heqa-Khasut, vocabulo que nos levaria exactamente 20 significado de chefe (ou regente) de pats estrangeiro. Estes estrangeiros com residéncia no Egipto organizaram-se politicamente, sob a autoridade de um chefe que veio a dominar todo o pafs do Nilo. Maneton apontou para essa época seis nomes de reis estrangeiros, estando cinco, hoje, identificados, Governaram 0 Egipto durante cerca de 100 anos ou talvez século ¢ meio. A razio da sua conquista répida deve-se provavelmente ao facto de se servirem de armamento que os Egipcios desconheciam. Foram eles que, muito provavelmente, usaram pela primeira vez.o carro de guerra, atrelado a cavalos. ‘Nao sabemos muito deste perfodo da hist6ria, mas ndo ha dvida de que os Hicsos exerceram a sua influéncia em todos os domfnios da civilizacdo egipcia. Enquanto tiveram em seu poder o destino do Egipto, estabeleceram relagées com Babil6nia com Creta, onde se encontraram objecios inscritos com os seus nomes. Além disso, como afirma Daumas, «inundaram as cidades cananeias do Sul com objectos egipcios, nomeadamente escaravelhos com decoracao ondulada, caracteristica desta €oca»! Entre as consequéncias da presenca dos Hicsos no Egipto, devemos apontar: = adivulgacao dos elementos da cultura do Bronze do Met ental, nomeadamente armamento, como adagas, espadas ‘maduras de escamas e proas de navio compésitas; — a introdugéo do carro de cavalos de origem asisitica’; — novos métodos de fiagao e de tecelagem como o tear vertical; = novos instrumentos de miisiea, como o alatide de brago comprido, 0 aloé © 0 pandeiro; = o conhecimento da azeitona e da roma, enamine amare 1 Daumas, ob cit, p. 83. * Acomprovar a origem ase tice do ero, temos as madei- ras sada na sue constr © ‘snomes cananets com que se designavam as sas partes, 3 _ enters 54 sateen enema Os préprios costumes funersrios sofreram modificagées. O caixio deixou de ser uma espécie de casa rectangular, para ser substituido por uma caixa antropomérfica decorada, a representat 0 falecisio, mumificado e ressuscitado com Osfris.Aestatua tumular é substitufda por uma estétua pequena, o shawabti, que jé vinha de tempos, mais antigos, provavelmente desde a XI Dinastia. Mas os Hicsos acabariam por ser expulsos do Egipto. Chetiados pelo principe de ‘Tebas, Kamés, os Egipeios expulsaram os dominadores estrangeiros do Egipto e, depois, da Palestina, usando 0 novo armamento que eles tinham introduzido. Este movimento de reconquista ocorreu durante a XVII Dinastia e Tebas tornou-se a capital do novo império. Kamés derrotou o exército hicso a norte de Hermépolis prosseguiu a luta para norte. Apoderou-se do Delta e nomeadamente da cidade de Avétis, deixando o caminho aberto ao seu filho e sucessor, Amésis I, para concluir a tarefa da expulsio e iniciar um novo perfodo na hist6ria do Egipto. 2.6 © Império Novo (154/1-1070 a. C.) Amésis I iniciou a XVIII Dinastia, a primeira do Império Novo, com a qual 0 Egipto entraria numa época de prosperidade, em muitos aspectos,a época de maior esplendor da hist6ria do Egipto faradnico. Foi cle que submeteu definitivamente Avaris e perseguiu os invasores até ao sul da Palestina. Avangou ainda até Tell el Farah, cidade que the ofereceu forte resistencia, mas acabou por ser conquistada, seguindo depois com as suas tropas para norte da Palestina e para a Fenfcia, Mas as suas campanhas militares nao tiveram apenas como objectivo subjugar o Norte. De facto, Am6sis I dirigiu também as suas atenges para o Sul, para a Nabia, que conquistou até & 2. catarata do Nilo, Isto significa que, com 0 fundador da XVIII Dinastia e do Império Novo, as guerras deixaram de ser apenas defensivas para se tornarem meios de conquista. Os reis desta dinastia iriam continuar as tendéncias imperialistas, estendendo © seu dominio militar e politico até ao longinquo Sudio e até ao Eufrates. O fiho e sucessor, Amendfis I, prosseguit a obra de conquista para sul e hé algumas razdes para pensar que também teria avangado com o seu exército até & regio do Eufrates, porque o seu sucessor, Tutmésis I, a0 subir ao trono, afirmava que os seus dominios se estendiam até esse rio da Mesopotimia e nao consta que 0 avd,Amésis, 0 tivesse atingido. Com Tutmésis I, a Nébia, a partir da 3.' catarata, ficou definitivamente a pertencer ao Egipto, tornando-se uma provincia, que se foi egipcianizando em todos os dominios, apesar de a sua administragao ser sempre separada. A sua frente, encontrava-se um governador, com o titulo de filho real da Niibia, personagem de primeira grandeza na corte do Império Novo. Jé estamos longe do tempo em que 0 pats de Kush era depreciativamente considerado pelos Egipcios, como a «miseravel» Nabia. Com os primeiros faraés da XVII Dinastia, os Kushitas tornaram-se Egipcios. seen ‘Tutmésis I subjugou a Palestina ¢ a Siria e penetrou na Mesopotiimia, fazendo erigir junto do Eufrates, para a posteridade, uma estela de vit6ria. Nesta resemha hist6rica da sequéncia dos acontecimentos, nao deverd silenciai-se um curioso fenémeno que aconteceu com os trés primeiros reis do inicio da XVII Dinastia e que consistit no seguinte: Tutmésis I era filho bastardo de Amensfis I, pois este nfo tivera filhos legitimos, mas apenas filhas. Dessa forma, Tutmésis casou com a sua meia irmé, filha do rei e da rainha legitima. Por sua vez, Tutmésis 1 também nao teve filhos legitimos, pelo que o bastardo Tutmésis II, apds casamento com uma sua meia-irmé, filha legitima, Ihe veio a suceder, O mesmo veio a acontecer com este que, ao morrter, apenas deixou filhas legitimas e um filho, nascido de uma concubina. Este foi proclamado rei com o nome de Tutmésis Ill, mas, porque era muito novo, assumiu a regéncia a rainha vidva, a sua tia Hatshepsut. Na realidade, nio se tratou de uma regéncia mas de um reinado que durou 22 anos, contando para isso com 0 apoio dos sacerdotes de Amon, os quais, para legiti- marem 0 seu direito a realeza contra Tutmésis III, recorreram a um pseudo argumento de cardcter religioso. Hatshepsut era filha do deus Amon, como fruto de relagées fisicas desse deus com sua mae, Recordemos, a propésito, 0 relato dessa teogamia que ainda hoje permanece gravada nas paredes dos templos de Deir el-Bahari e de Luxor. Representa-se af o deus Amon que, sob a figura do faraé teinante, tem relagdes sexuais com a rainha, Por tal razo, Hatshepsut, sendo filha do deus ¢ da rainha, tinha direito a reinar! Nio importa, neste momento, desenvolvermos o tema da influéncia na corte ¢ na politica do Egipto, por parte do clero e dos templos no Império Novo. Sera melhor prosseguirmos na sequéncia dos eventos. O reinado de Hatshepsut foi tranquilo do ponto de vista militar e, por isso, 0 poderio egipcio decresceu na Siria e na Mesopotimia. Teve, entretanto, importncia pelas expedigbes comerciais para © estrangeiro, designadamente para o Punt. 6 apés a morte da rainha é que Tutmésis III péde assumir o poder, vindo ainda a reinar por mais de meio século (1490-1439). Nao seré de estranhar que, levado por ressentimentos, tenha movido uma violenta perseguigdo péstuma contra Hatshepsut, mandando raspar 0 seu nome dos monumentos, fazendo-o substituir pelo seu © pelos nomes de seu pai e av6. 0 reinado de Tutmésis IIT foi um dos mais présperos da histéria do Egipto. Amplion as fronteiras do seu pafs para Oriente, de forma até af nunca conseguida ¢ sem yoltarem a ser igualadas no futuro. Foram 17 as suas campanhas militares que pode seguir no primeiro mapa. Comegou por reconquistar 4 Siria e a Palestina e apoderou-se da Fenfcia. Na 6. campanha partiv por via maritima para tomar a grande cidade de Cadesh, nas margens do Orontes. Na 8.* campanha dirigiu-se também por mar, mas desta vez para a Fenfela. A partir dat Seguiu pelo deserto através da Siria até ao Eufrates, fazendo transportar por terra barcos que mandara construir em Biblos, com o fim de os utilizar nos rios da Mesopotamia. Venceu os Miténios, enquanto outros povos, como os Assirios, tinham de se ocupar no combate aos Hititas sen 55 ‘easton esoneeneetenennesneaenenrenennn 56 me ‘Tutmésis III nfo se contentou em subjugar pelas armas. Tentou egipcianizar as terras conquistadas, Com tal objectivo, levou para 0 Egipto os filhos dos chefes politicos vencidos e os principes desses territérios, para aprenderem a lingua e receberem a cultura egipcia, S6 depois, poderiam regressar &s suas terras de como agentes, preparados para difundirem a cultura do pais do Nilo. Diga-s entretanto, que esta politica nao obteve o éxito que esperava. Jé no fim da vida dirigiu também as atengées para a Nubia c 0 Sudo, Mas, recordando certamente 0 que Ihe acontecera, preocupou-se com a sua sucessio, Por isso, associou ao trono o filho mais velho, Amen6fis II, que vitia a ter um reinado pacifico, tal como iria acontecer com o seu sucessor Tutmésis IV. Jé 0 ‘mesmo se no pode dizer do filho deste, Amen6fis IIT, o qual teve de enfrentar os Hititas que instigavam na Siria uma coligagio antiegipcia, sucessor de Amendfis III foi o seu filho Amenéfis IV, que ficaria famoso na hist6ria pela reforma religiosa que empreendeu. Quis impor o culto nico aAton, © disco solar; ¢ foi com esse objectivo que mandou eliminar o nome de Amon em todas as inserigdes monumentais. Segundo o seu pensar, o deus Aton néo precisava de estétua, o culto que se the deveria prestar tinha de ser ao ar livre, pois, devia orientar-se directamente para o deus que brilhava nos céus. Esse deus a quem se ditige ¢ superior aos outros deuses, mas nao seré tinico ¢ exclusivo. Trata-se de enoteismo ¢ nfo de monotetsmo. Nesta reforma religiosa, que se podera classificar de verdadeira revolugéo pela rapidez ¢ métodos com que foi levada a efeito, desempenhou papel importante a sua esposa, a bela Nefertiti, Certamente Amenéfis IV para ficar mais livre do clero de Amon, afastou-se de Tebas ¢ instalou © seu governo em Tell el Amarna, rio Médio Egipto. Em politica interna e externa, nfo teve actuagao digna de registo, pois os problemas religiosos levaram-no a descurar a administragio do pats. Compreende-se, por isso, que morto o rei, 0 clero de Amon, certamente com a conivéncia generalizada do povo, tivesse recuperado o poder momentaneamente perdido. A «revolugio», ou. reforma religiosa, de Amendfis IV, que havia mudado o nome para Akhenaton «0 que adora Aton, ficava condenada ao insueesso. Ainda hoje se discutem as razdes que teriam levado o fara6 a esta reforma religiosa. Terdo sido razoes politicas, para se libertar do poder e das influéncias dos sacerdotes de Amon, ot terdo sido raz0es de f€ € de misticismo religioso? A sucessdo deste rei também nao foi fécil. J4 no fim da vida, associou ao poder 0 marido da filha mais velha, Semenkaré, mas este faleceu quase ao mesmo tempo que ele. Por tal razdo ascenderia ao trono o marido da segunda filha, Tutankhaton, que era ainda muito jovem. Ficou na corte de Amarna com a sogra, Nefertiti, até se transferir, passados trs anos, para Tebas. Foi entdo que achou por bem mudar de nome para Tutankhamon, de quem, certamente ja ouviu falar. Esta mudanga de ‘nome significava, obviamente, uma alteragio na atitude religiosa: jé néio adorava Aton, mas Amon. Morreu jovem, talvez com 18 o 19 anos, mas ficou célebre pelos tesouros encontrados no seu tiimulo, deseoberto em 1922, por Howard Carter no Vale dos Reis, e que hoje se podem observar no Museu do Cairo. __aneeERARER 6 fim da XVIII Dinastia estava a aproximar-se. A viva ainda tentou desposar um principe hitita, mas este foi assassinado quando se dirigia para o Egipto, Na lista {gos faraés da XVIMI Dinastia, refere-se ainda o nome de Ay, que desposara a vitiva de Tutankhamon, mas o seu reinado foi curto e sem relevancia ———— ACTIVIDADE SUGERIDA: Como sugestdo de leitura,Ieia 0 romance hist6rico de Christian Jacq,A Rainha Sol, Bertrand, 1991, sobre os tiltimos anos de Amenéfis IV ¢ o reinado de Tutankamon e de sua jovem esposa, a rainha Akesa, ————————————— De outro fara6, de nome Horemheb, que fora general de Amensfis IV, deve referir- -se que desempenhow importante actividade militar no sul da Palestina, Horemheb designou para Ihe suceder um outro militar, Ramsés I, que subiu a0 ‘ono com idade avangada, vindo a falecer dois anos depois. Entretanto, antes de a morte chegar, associou ao trono o filho que Ihe sucedeu, com o nome de Seti I, faraé que recomecou as campanhas militares no Oriente. O Egipto, porém, j4 no conseguit os triunfos, o prestigio e a influéncia dos tempos de Tutmésis IIL. © apogeu desta nova dinastia situou-se no teinado seguinte, o de Ramsés II (1290- -1224), Realizou uma expedicéo ao Sudio e ficaria célebre por ter ido combater 08 Hititas € os seus poderosos aliados, em Cadesh, no Orontes. Nao teré conquistado a cidade, mas também nfo ficou derrotado. Conseguiu, sim, dispersar 65 inimigos. Tomou Tunip aos Hititas, pacificou a Palestina e desenvolveu uma notével actividade politica e militar que deve ser analisada no contexto histérico da €poca no Médio Oriente, onde duas grandes forcas se enfrentavam: os Assirios ¢ os Hititas, A partir de entio, tudo se alterou no Médio Oriente. Os Assfrios, que constitufam ‘uma forea ja tradicional, apoderaram-se, no século XIII, do reino de Mitani, que se estabelecera no norte da Mesopotamia, Apés a batalha de Cadesh, os Egipcios € 0s Hititas, perante esse inimigo comum, assinavam, em 1269. C., um tratado de miituo auxilio e defesa, comprometendo-se reciprocamente a extraditar os exilados politicos. Tal acordo seria «selado» com 0 casamento de Ramsés II com ‘uma princesa hitita, em 1257 a, C. O texto que ficou conservado, em lingua egipeia © em lingua acédica, € um documento precioso para a hist6ria diplomética da Antiguidade!, © reinado de Ramsés II foi longo e repleto de éxitos. Quando Mernefta, 0 seu 13. filho* chegou ao poder, também jé tinha idade avangada. Como facto importante do seu reinado, deve referir-se a campanha da Lfbia. Tenamos presente que os Indo-Europeus, que no reinado de Seti Thaviam entrado na Lfbia conseguiram een "ALA Tavares, Estudos da Alta Antiguidade, Bd, Pre= ‘senga, Lisboa, 1983, pp, 30 33. * Ramsés I ein tido mais de 130 filbos (Clire Lalouett, Mémoires de Ramsésle Grand, Pars, od. de Fallois, 1993). ” ‘onan * Paseal Verus, Affaires et scandales sous les Ramses, Pygmalion, Paris, 1993, pp. 15-20, 58 uae orRReone RRR submeter os Libios e erguem-se agora contra o Egipto. Pois bem, foi Mernefta {quem teve de os enfrentare afastar, tal como se viu obrigado a mover uma eampanha militar contra os Asiaticos, segundo as informagées que nos deixou na sua estela de vVit6ria, que € 0 primeito documento egipeio onde se 1€ o nome de Israel. A partir de Memefta, comeca a notar-se algum declinio no Egipto. O seu sucessor Amenemés, que usurpara o trono, viria a ser destrufdo, seguindo-se um perfodo de lutas pela sucesso, Uma auténtica anarquia instalou-se no pais dos faraés. A XX Dinastia (1196-1070) surgiu quando Setendquete conseguiu, com 0 apoi do clero de Amon, destronar Yarsu, um sirio, que no meio da confusio politica, tinha ocupado 0 trono do Egipto. O fundador desta dinastia teve um reinado curto, mas evitou lutas pela sucessio, ao associar ao trono, enquanto vivia, 0 seu filho Ramisés IIL, faraé que merece ser recordado pela sua actuagéo como reformador ¢ como guerreiro. Vérios papitos hist6ricos, entre os quais o Papiro de Harris que se ‘mantém intacto e tem mais de 40 m de comprimento, assim como os baixos-relevos do templo funersrio de Medinet-Abu, em Tebas, fornecem-nos muitas informacdes, sobre 0 seu governo. Tais fontes mencionam, por exemplo, que empreendeu reformas no sector da administracao e da organizacao social do pais. Mas ficou mais conhecido pelas suas actividades bélicas. Os referidos baixo-relevos do-nos informagdes preciosas sobre as guerras com os, povos do mar, cotsétios inimigos que foram vencidos e nfo voltaram a atacar. Alguns terdo ficado no Egipto e outros voltariam mais tarde, para actuarem como mercenérios no exército egipcio. Entre esses que se radicaram no pats do Nilo, estio os Meshwesh, por vezes conhecidos apenas por mas ou mes. Prosperaram € chegaram a ocupar o trono na dinastia seguinte. Depois de Ramsés III seguir-se-iam ainda oito reis, todos com o nome de Ramsés, sobre 0s quais pouco se sabe. Mas 0 declinio do Egipto, a partir de Ramsés I, é muito grande. A fraqueza do poder real dos ramessidas torna-se evidente, a avaliar pelas sucessivas revoltas interiores e pela crise social generalizada que conduziria & fome ¢ & miséria por todo o pais. Expressio de tudo isto, eram os assaltos aos sarc6fagos que obrigaram os préprios soberanos reinantes a retirar dos timulos os seus antepassados, para Ihes darem, secretamente, sepultura em timulos colectivos". ‘Tudo leva a crer que as revoltas populares contaram com o apoio do clero de Amon, 0 que certamente irritava 0 poder politico. Assim sendo, compreende-se que o tiltimo dos ramessidas, Ramsés XI, tivesse destitufdo 0 sumo-sacerdote de Amon, para o fazer substituir por Herihor, general da sua confianga. Tal nomeagio marca praticamente o fim da XX Dinastia visto que este iria fazer a transic&o para a dinastia seguinte, cujos soberanos seriam sacerdotes de Amon. Com Ramsés XI terminava também o Império Novo, que &, em muitos aspectos, a época mais brilhante da hist6ria do Egipto, como acabou de ler. Digamos, para concluir, que ¢ também aquela que melhor conhecemos, pela riqueza dos vestigios que chegaram até nds. Recordemos, por exemplo, os objectos de uso pessoal dos farads: ceptros, jéias, objectos de luxo e até mesmo os seus brinquedos de infiincia, tal como as suas armas ¢ carros de guetta, quando adultos. Ficaram-nos, Fr pce re eveanon seeeoeereesannanenaanta por vezes, também as suas poesias e oragdes, como € 0 caso dos hinos de Akhenaton 30 deus Aton. Dos seus monumentos e da sua arte, quanto se poderia dizer! Bastaria referirmos 0s templos erguidos por Ramsés TI. E que pensar dos seus tesouros ¢ do requinte da sua sensibilidade quando contemplamos com deslumbramento a ‘magnificéneia do timulo de Tutankhamon?! E até da sua fisionomia, estatura © doencas podlemos avaliar pelos seus rostos enrugados, pelas marcas das operagoes, cintirgicas, a0 estudarmos os seus cadéveres mumificados. 2.7 O III Perfodo Intermédio (1070-714 a. C.) A crise aberta com a morte obscura de Ramsés XI iria avolumar-se progressivamente e o governo do Egipto iria pasar por mos de proveniéncias muito diversas: sacerdotes de Amon, Lfbios, Nabios, Assirios e Babilénios, a que se seguiriam, ap6s a renascenca safta, os Persas, os Maced6nios e, por fim, os Romanos. Quer dizer, se exceptuarmos a XI Dinastia, a dos sacerdotes de Amon, € @ safta, em todas as restantes, o Egipto foi governado por estrangeiros. ‘Vejamos sumariamente a sequéncia dos acontecimentos para, no fim, emitirmos um juzo de valor sobre este perfodo, que teré de ser analisado dentro da conjuntura hist6riea da época, no Médio Oriente e no Mediterraneo. Dissemos que o titimo dos farads da dinastia ramessida, Ramsés XI, destituiu o sumo sacerdote de Amon, fazendo-o substituir por Herihor. Este soube, certamente, aproveitar-se da predilecgao real, pois além de sumo-sacerdote de Amon, tornou-se vizir do Sul e ainda vice-rei de Kush, assumindo autoridade sobre 0 Sudio. Foi Herihor, 0 fundador da XXI dinastia, mas, na realidade, quando assumiu o poder, jé 0 Egipto estava desunido: 0 Norte e o Sul seguiam caminhos distintos, No Sul quem detinha o poder real eva Herihor, sucedendo-the o filho, Pianky. A Norte assumia 0 poder Semendés, considerado por alguns historiadores como © fundador da XXI Dinastia, com a capital em Tans. Trata-se de dois centros de poder. O filho de Pianky, que foi sumo-sacerdote de Amon, tal como 0 pai e 0 avd, desposou a filha de Psusenes I (filho de Semendés), unindo assim 0 poder do Alto e do Baixo Egipto. Esta dinastia dos sacerdotes de Amon, apesar de ter conseguido uma unificagio Aparente, no impediu a separacao real. E, a avolumar a gravidade da situagao, para além da cisio entre Norte e Sul, comecava a verificar-se um novo centro de poder no Médio Egipto, na regio de Heracle6polis. So os mercenérios Meshwesh ¢ os Libios que af se estabeleceram, prosperaram e alimentavam agora ambigées de conquista do préprio trono faraénico. Tal viria a acontecer quando uma familia de Prestigio conseguiu suplantar os reissacerdotes ¢ instaurar uma nova dinastia, XXII (cerca de 945 a, C.). Esta é, portanto, de origem Ifbia ou, mais exactamente, ‘uma mistura de Ifbios com esse antigo povo do mar, radicado primetramente na Libia e, depois de Ramsés III, no Egipto. eee cy ‘seetsemeeennrsaeent nee oo Estes Libios surgiram como uma forca armada capaz de governar em regime de ditadura, Mas nem por isso conseguiram a unificagio do Bgipto, 0 que se explica no s6 pelas ancestrais tendéncias separatistas como também pela fraqueza real dos usurpadores, Quem eram eles, afinal? Estrangeiros, desde hd séculos radicados no Egipto, sem apego as suas tradigGes de origem e apenas superficialmente deten- tores da cultura egipcia, que nao se assimilava facilmente. Faltava-lhes um verdadeiro ascendente cultural que os impusesse de forma indiscutivel a todo 0 pais. Haviam-se estabelecido na cidade e regio de Heracleépolis, tornaram-se sacer- dotes do deus local, Harsafés, e reivindicavam, por isso, 0 direito a serem sepul- tados em Abidos, Estenderam pouco a pouco o seu poder até Bubastis, no Delta, & seu chefe, Sheshong, tomou o titulo de rei de todo o Egipto. Do Delta parti a sua expedicdo para a Palestina. Saqueou o templo de Jerusalém, donde levou riquezas € tesouros, nomeadamente a Arca da Alianga que, desde entdo, desapareceu completamente. As XXIII XXIV Dinastias continuariam nas maos dos Lfbios, mas os seus reis, tal como os tiltimos da XXII, estavam longe de conseguir a unio do Egipto 0 seu antigo prestigio. O Egipto de entio estava desunido e j4 nfo se tratava apenas da tradicional cisdo Norte/Sul.A fragmentacéo do poder era tal que se contam dinastias paralelas. Nota-se mesmo uma certa pulverizacdo do poder, que € usurpado por verdadeiros régulos locais, Por volta de 745 surgiu uma dinastia mébia cuja origem esta efectivamente no movimento de centralizagdo que se deu em Napata, na Alta Nit 2.8 A Epoca Baixa (714-332 a. C.) AXXV Dinastia (714-698) restabeleceu a ordem no Egipto. O rei Pianky conquistou © Sul € avancou até ao Delta, que conseguir dominar, Entretanto os soberanos neo-assirios dilatayam as suas fronteiras a todo 0 Médio Oriente e dirigiam as suas tendéncias imperialistas para o Egipto. Assaradéo, em 671, avangou para 0 Egipto, que nao teve forga para Ihe resistir. Por raz6es técticas, nfo foi directamente para o Delta, mas dirigiu-se para a regio de Ménfis, donde subiu, em seguida para 0 Delta. Os Egipcios, governados por Nabios, jé nfo tiveram forcas para se opor ¢ reconheceram a suserania assiria, embora posteriormente os chefes locais se sublevassem contra os invasores da Assiria. Tratou-se apenas de lutas momenténeas entre 0 debilitado Egipto ¢ a poderosa Assiria, Em 666, 0 filho de Assaradio, Assurbanipal, atacou de novo o Egipto € Jevou os revoltosos deportados para Ninive. Nestas guertas com os Assirios, 0 Egipto recorreu novamente ao servico dos mereenarios que chegavam do Mediterrinco, tal como outrora havia recorrido a0 servigo de alguns Povos do Mar. tone eam Esta politica de dependéncia do Mediterraneo era bem a expressio da fraqueza que entio experimentava 0 Egipto ¢ constituiu 0 «suicfdio» dos farads, como facilmente se compreende. Por um lado, 0 exército de mercendrios estrangeiros defendia 0 Egipto do império neo-assirio e, em seguida, do neobabilénio, mas, por outro lado, esse exétcito estrangeiro manteria submissos os senhores poderosos que ainda estavam ligados ao fara6. 2.8.1 O pertodo saita (664-525) Deve-se a Psamético I, principe de Sais, no Delta, o mérito de ter inaugurado a XXVI Dinastia, que teve por capital Sais e constituiu o dltimo perfodo de gloria do Egipto independente. Esse principe conseguiu com o auxilio dos mercenarios jénios* ¢ dos cérios* expulsar os Assfrios, perseguindo-os até & Palestina. Unificou o Egipto, eliminando os pequenos reis do Delta, ¢ expulsou os Nibios da regio sul. A reunificacdo do Egipto e a restauragao do poder real, conseguida por Psamético I, foram condigées bésicas para se encetar uma yerdadeira renascenga cultural e artistica, Chamamos-lhe renascenga por se tratar de um ressurgir da antiga cultura egipcia, com o regresso as origens: na teologia, nas préticas religiosas e em diversas dreas intelectuais. E ao Império Antigo que vao procurar os modelos e as fontes de inspiracdo nas letras e nas artes. © Egipto, nesta época, abre-se mais do que nunca para o exterior. Aumentam as relagdes com os Gregos, aos quais o Egipto vende sementes e papiros, em troca de azeite, vinho, ceramica e armas. Psamético estabeleceu também relagdes com Giges da Lidia, a fim de combater a Assitia. Curiosamente, apés ter sido inimigo desta poténcia, aliou-se-Ihe para combater a Babilénia. Esta época de prosperidade e prestfgio do Egipto iria continuar no reinado de seu filho e sucessor, Necao II.A este se ficou a dever a reabertura do canal do Mar Vermelho ao Mediterraneo, premfincio do canal de Suez, ¢ também se Ihe deve arealizagio de um périplo a Africa com marinheiros fenicios. No campo militar, ficou conhecida a sua incurséo na Asia, vencendo 0 rei de Jud, em Meguido. Apés ter submetido a Palestina e a Sitia, avancou até ao Eufrates. Nesta altura, porém, j4 4 Assitia havia perdido a autonomia, porter sido submetida pela Babilénia. O exército de Necao chegou mesmo a combater as tropas de Nabucodonosor II, em Carquemish, elo ano de 562, mas foi derrotado, Tendo regressado ao Egipto, ja nao teve Forgas para expulsar os Gregos, radicados cada vez mais no seu pais, no apenas como militares mercendrios, mas também ‘como comerciantes. Necao teve de conceder aos mercendrios a regiéo de Dafne, erto de Méntis, para af se estabelecerem, e destinou Naucritis aos mercadores, ficando como colénia grega. AS expedig6es militares dos seus sucessores Apri nao tiveram éxito. 's e Amésis, contra 0s Babilnios, ee * Gregos da Jala, na Asia Menot + Povos ausétones do Sudo este da Anat a oes ntseemnnemne nner esterimoomenneameemen * sawapia, nome dado 38 pro: vinias no impéro prs, Oy ee 2.8.2. Persas e Macedénios (525-30 a. C.) O Egipto, no percurso da sua hist6ria, estava agora mais do que nunca condicionado As poténcias vizinhas, sujeito as cobicas estrangeitas. Ultrapassado o perigo babil6nico, ndo conseguiu escapar As cobigas dos Persas, que entrariam no Egipto, em 525, O soberano persa Cambises derrotou os Egipcios em Pelusa, nao obstante © apoio dos mercenérios gregos. Mas Cambises, apesar da dertota, manteve no trono Psamético Ill, que acabaria por se revoltar pouco depois, suicidando-se em seguida. Com ele terminava a XVI Dinastia e o poder passatia totalmente para os Persas. A dinastia seguinte, a XXVII (525-404), seria Persa. De Cambises a Dario II, pasando por Dario I, por Xerxes e Artaxerxes, os faraés do Egipto eram os imperadores da Pérsia. E é curioso que estes, mais do que a coroa imperial, apreciavam a coroa dupla do fara6, Cambises, por exemplo, nao hesitaria em se fazer coroar fara6, em se vestir 4 maneira egipcia, em adorar os antigos deuses do vale do Nilo, numa palavra em egipcianizar-se em toda a sua vida. Na reali ide, a independéncia do Egipto estava perdida para nfo mais ser recuperada nas trés dinastias seguintes que a histéria regista. O perfodo persa néo foi fécil, para 0 povo dominador nem para os que Ihe estavam subjugados, como se depreende do facto de ter havido varias mudancas na forma de governo e nna administragdo desta satrapia* do Nilo. As frequentes revoltas locais eram prova, da desadaptacio dos Egipcios & politica persa, que ficaria conhecida por tolerante e compreensiva, Nao admira, por isso, que 0 macedGnio Alexandre Magno, depois de ter derrotado Dario III Codomanos, em Issos, fosse chamado ao Egipto, onde iria ser recebido, nao como conquistador, mas como libertador. A partir de entéo, 0 Egipto entrou definitivamente no mundo e na cultura do Mediterraneo, fenémeno que iria continuar € acentuar-se na época romana. A milenar cultura egipcia foi-se confinando aos templos que, nas 6pocas helenistica € romana, foram mantidos e restauradios, Mas, no fim do século IV da era crista, com 0 édito de Teodésio, em 391, seriam encerrados, permanecendo como museus, ‘onde se conservam inserigSes a decorar as suas paredes ¢ riquissimos tesouros que tém sido e continuam a ser fonte preciosa para o estudo da religio, da cultura e da hist6ria do Antigo Egipto. 28 0 Egipto e o Mediterraneo Egipto, durante os Impérios Antigo ¢ Médio, foi um pais voltado para Africa, através da Nubia, onde tinha grandes interesses econémicos, principalmente por causa das minas de ouro. Apés a expulsio dos Hicsos, comecou a orientar a sua politica expansionista para o Médio Oriente, chegando a impor-se militarmente até a0 Bufrates. Como vimos, a prosperidade atingida no Império Novo ficou a dever-se, em boa parte, as campanhas militares, empreendidas sistematicamente para Oriente. De facto, até ao reinado de Ramsés Il, 0 Egipto esteve preocupado com os Libios, eae copa Sul, ecom Sinai, 2 Oriente. © Norte, designadamente 0 Mediterrfinco, s6 excep- Cionalmente entrou no quadro de referéncias da histéria do Egipto. ‘gal situagao comecaria a alterar-se apés abatatha de Cadesh, na regiao de Orontes, centre Ramsés II e Muwatalis, rei dos Hititas. Tal batalha a que fizemos alusio, ficou testemunhada na maior inscrigao mural egipeia, que Ramsés I mandou gravar ‘em Luxor. Apesar da linguagem épica, nfo é de crer que Ramsés fosse o vencedor, ‘sem poder também concluit-se que tivesse sido derrotado, Mas néo importa agora descobrir quem venceu, O que interessa é reconhecer que, a partir de tal batalha, se rompeu 0 equilibrio que existia no Médio Oriente, mantido pelas duas grandes foreas: Egipto e Hititas. Para bem compreendermos o periodo que se segue, é bom termos presente quais os apoios que tiveram Ramsés e Muwatalis, em Cadesh. Do lado de Ramsés, encontravam-se os Shardan ¢ as ttopas dos Nearim («jovens»), provavelmente vindos de Amorru, regido que bem poderd coincidir com a Fenicia, enquanto do Jado dos Hititas se encontravam os Luka, os Teresh, 0s Meshwesh, os Skelesh, 08 Danauna e os Ahia. Estes povos, ap6s a queda do Império Hitita, podem ser localizados na Asia Menor ¢ no Mediterrneo Oriental, em terras bastante bem identificadas, sem que isto signifique paz e calmia na regio, pois cerca de sessenta ou sessenta e cinco anos mais tarde alguns destes povos encontravam-se uni 10s Lfbios, com a mesma pretensfo de se fixarem nas terras férteis do Nilo. Foi Mernefta quem, cerca de 1231, teve de os enfrentar, como vimos, podendo depois regozijar-se, na sua estela de vit6ria, de thes ter infligido pesada derrota. Com os Meshwesh, vizinhos ¢ aliados dos Lfbios, estavam os Shardan, os Luka, 08 Ekwesh, os Teresh e os Skelesh, Estes povos, vindos através do Mediterraneo, conhecidos por «povos do mar», voltariam a atacar o Egipto no tempo de Ramsés ILI, por volta de 1189. E curioso verificarmos que alguns dos antigos aliados dos Libios contra Mernefta esto agora do lado egipcio, como é 0 caso dos Ekwesh, dos Teresh e dos Skelesh, lutando contra os seus antigos aliados, 0 que no nos deve causar estranheza, por se tratar de corsérios e piratas que se colocam normalmente ao lado do mais forte. Apesar de Ramsés Ihes ter infligido derrotas, por terra e por mar, nem por isso os afastou totalmente do seu territ6rio. Assim, um grupo dos Meshwesh permaneceu no Egipto, servindo 0 exército, vindo a constituir uma poderosa casta militar que chegou a ocupar o trono. Recordemos, apenas o nome de Sheshong, faraé que pertencia a esse povo, aquele que arrebatou de Jerusalém a Arca da Alianga e levou os tesouros do templo para o Egipto'. A partir da batalha de Cadesh, marcada pela presenga destes povos, que aparecem ligados a varios acontecimentos no Mediterrineo oriental, instaurou-se um perfodo de instabilidade em todo 0 Médio Oriente. Registemos, em primeiro lugar, a desagregacio ¢ desaparecimento do Império Hitita, assim como desaparecem os seus vassalos da Cilicia, de Chipre e da Sfria, Ramsés III, ap6s a vitéria sobre (0s Povos do Mar, ocupava de novo osul da Sitia, tendo, no seu exército, mercenérios, ¢ prisioneiros, provenientes das suas guerras. Entre esses, ao que parece, estariam os Pelesht, ou seja, os Filisteus, que tinham a sua origem em Creta, segundo a nat * Sobre a problemitica dos povos do mar, ver N. K. Sandats. The Sea Peoples. Warriors of the Ancient Mediterranean, Londres, 1988, 6 ‘areas Yer A.A Tavares, «Fentcios ‘e Massionos no sul dt Pent ‘ula Trea in Estudos Or. enteis, UNL, 1993, vol. IV, pp. 13-22, cece Biblia. Constitufam uma guamigao do faraé, tornando-se independentes com a morte deste!, Enfraquecido o Egipto pelas repetidas lutas com esses povos, no aguentando mais © seu dominio militar na regido da Sitia, ficou campo aberto pata o progresso dos ‘Arameus nessa regido, 0 que s¢ verifica a partir do século XII. No norte da Mesopotimia, com a queda dos Hititas e 0 desaparecimento da outta forga de contengio, 0 Egipto, ficou campo aberto para a Assiria se organizar politica e militarmente. Apesar de muitas incertezas que ainda subsistem, quanto as migragées movimentos dos Povos do Mar, iniciadas em finais do século XIV, tendo penetrado alguns na Libia no tempo de Séti I, parece nao haver davida de que foram elemento desestabilizador no Médio Oriente, Mas nao Ihes devemos atribuir apenas 0 que é negativo, pois as suas migragées contribuiram para a expansio e divulgagio Nio deixa de ter interesse, também, relacionarmos 0 aparecimento de tais povos, na zona do Mediterraneo, nos séculos XIV, XIII ¢ XII, ‘com as migragbes dos Indo-Europeus, a partir do centro da Europa, desde a bacia do Dantibio e do Vistula, conhecidas regides dos primeiros metalurgi Quanto acaba de ser exposto, nao é mais do que um largo pano de fundo que nos permitiré compreender a génese ¢ as consequéncias dos fenémenos que se interligam na histéria antiga. Os povos que «vém do norte», segundo pensam os Egipcios, designados geralmente ‘por _sp on stntseen su RERE SEIeeeeR TABUA DE MATERIAS Instituigdes e Sociedade Ohjectivos de aprendizagem As Instituigées Orei A administragao O exército A Sociedade A famtlia 0 quotidiano Os escravos Actividades Respostas as actividades n Depois de ter estudado este ca Objectivos de aprendizagem: lo, deve saber que: 0 faraé € deus; a monarquia egipcia é uma «teologia real»; hd um imaginério especifico da pessoa do fara6; a rainha encontra-se associada a imagem do rei; 0 Egipto estava dividido em 42 nomos; a administragio do Egipto estava entregue aos prineipes dos nomos ¢ a0 vizir; 0 Egipto 86 se militariza a partir do Império Novo; a familia egipcia assentava no casamento monogimico; ppara além da familia real, dos sacerdotes ¢ dos altos funcionétios e escribas, a sociedade repartia-se pelos camponeses, artesdos ¢ escravos. n rant 3.1 As Instituigées 3.1.1 0 rei Nao podemos falar da sociedade sem comegarmos pelo rei e pela monarquia que perdurou, com perfodos de grande esplendor e também de profundas erises, desde as dinastias tinitas até & época romana, ou seja, mais de 3000 anos. Também nao & possivel, quando falamos do Egipto, elaborarmos uma definigo de um conceito de aco a maneira dos Gregos ¢ dos Romanos. Seria desajustado falarmos de nagio politicamente organizada ¢ regida por leis préprias nas suas diversas instituigbes, visto que toda a estrutura assentava no soberano, detentor de todos os poderes. O rei é deus e, como tal, esté acima das coisas ¢ tudo Ihe pertence, desde as terras, com as suas riquezas, até as préprias pessoas. A cle sto devidos os impostos e, para ele, se organizam expedigGes ao estrangeiro ou se promovem as guerras, ete. A monarquia egipeia, mais do que uma instituigéo ou um regime politico, deve ser vista como uma doutrina religiosa. E o que leva o conhecido egipt6logo Frangois Daumas a falar a este propésito de uma teologia real. A ideia de que o rei, sempre conhecido por faraé («a grande casa»), esté no prine‘pio ¢ no fim de todo o edificio nacional, politico, social, econémico, etc., pode avaliat-se de modo especial pela titulatura, Por ela vemos que os Egfpcios consideravam o seu rei como um deus. Ele era o Hérus que mandava sobre a terra, tal como o deus no céu; era o senhor das «Duas Damas», ou seja, do Alto e do Baixo Egipto; o Hérus de ouro. Estes titulos sao plenos de significado teol6gico e juridico para a mentalidade egfpeia A partir da V Dinastia, acrescentar-se-the-ia ainda 0 titulo de Filho de Ré, significando que era um filho, no sentido fisico, do deus solar, cujo dominio se estendia nao s6 ao vale do Nilo, mas também ao mundo inteiro de que era 0 criador. ‘Tendo sido este, provavelmente, 0 tiltimo titulo, foi o que adquiriu maior importancia, Num papiro do século XVIII, conserva-se um conto que pretende ensinar que os tu@s primeiros reis da V Dinastia eram fithos de Ré e de uma mie mortal. A ideia de que o rei era gerado pelo deus Sol mantém-se e expressa por imagens, cerca de {és séculos mais tarde, nos templos de Deir el Bahari e de Luxor, quando 0 clero de Amon (Amon-Ré) teve interesse em atribuir tal nascimento a Hatshepsut, para a impor como rainha, como ja vimos. Nao ha diivida de que a estatua imponente de Kefren, no Cairo, exprime, de alguma forma, esse conceito de poder césmico do rei divino. A divinizagio do soberano constituiu ponto essencial para sustentar as estruturas ideol6gicas, religiosas Imetafisicas sobre as quais assentava toda a orcem social e a estabilidade que garantia continuidade da monarquia. O trono estava sempre ocupado pelo rei que era do ‘agrado divino, pois o deus criador néo cessava de gerar um novo rei. A explicagao era valida mesmo no caso dos reis estrangeiros, como, por exemplo, os Libios ou Nibios (os Kushitas de pele escura), ou 0s Persas ¢ quantos ocuparam 0 trono nas \ltimas dinastias 8 eens 6 enemas * Pascal Verous, «La cons pieation du Harem sous Ramses It», in obit, cap. V, pid #8. Donaéoni, Test religios! Egiel, UTET, 1970, pp. 185- 191 6 ema Note-se, entretanto, que houve sempre escrpulo em levantar templos ao faraé vivo, Parece que s6 no Império Novo se terd transgredido essa regra de «pudor teligioson, a0 erguer-se um templo, a representar Amendtis III a adorar-se a si proprio, Mas, curiosamente, este templo foi consiruido fora do territ6rio egipeio, precisamente na Nabia, Apesar de ser assim em teoria, & evidente que, na vida real, o faraé tinha grandes imitagdes, seja no exercicio dos seus poderes, seja na prépria vida pessoal, Com frequéncia aquele que devia governar como um deus estava limitado nos seus movimentos: eram os préprios conselheiros, que jé haviam servido 0 pais eram os funcionérios e os escribas da corte; eram as familias nobres ¢ ricas que tinham, contacto com as populagées locais, a quem 0 rei nfo poderia desapontar; era lero, sempre cioso das suas regalias e & espera de receber outras; cram os soldados, ‘cheios de ambig6es pessoais, etc. E podemos imaginar com que equilfbrio ele devia agir para com 0s corteséios, os membros da familia e as préprias mulheres do harém. Era nesses meios que, frequentemente, se geravam intrigas ¢ se fomentavam rivalidades que chegavam a levar ao assassinio do rei, para que outro, mais do agrado da feigio dominante, subisse ao trono. E, aliés, nestes movimentos ¢ revoltas palacianas que se encontra a explicagéo para as frequentes mudangas de dinastia ou ‘08 golpes de Estado em que 0 soberano reinante triunfava, como foi o caso de Ramsés III ao dar conta da conspirago que contra ele se levantava no harém ¢ no meio dos altos funciondtios que 0 serviam’. Obviamente que 0 tei nfo era deus, mas apenas um homem como os outros, € a contradigéo entre a realidade e a utopia ndo poderia deixar de ser verificada. Por isso 6 que, simultaneamente com as tendéncias de divinizagio do faraé, se ia desenvolvendo a reflexdo sobre as suas limitagSes. Foi sobretudo na experiéncia da anarquia que o Egipto experimentou, a parti da VI Dinastia, que se comegaram a salientar estes aspectos da debilidade humana do fara6, Entre os textos literérios que apontam as limitagGes humanas do fara6, € bem elucidativo o Ensinamento para o rei Merikaré, ‘Trata-se de um rei da X Dinastia que se dirige ao filho, para the ensinar que 0 21 € escolhido por deus para proteger os humildes. Esclarece-o que nao deixa de ser us) homem entre os homens, embora com particulares fungdes ¢ particulares responsabilidudes®. Entre outras coisas diz-Ihe que a realeza se aprende como offeio e «ninguém aprende se nao for ensinado». Recorda também que 0 Fes Pa" impor a ordem, devers ele proprio conformar-se &ordem universal, que é «rectidso”y «', través deste quadro, podemos nfo s6 avaliar do conceito que 0 povo fazia do vizir como também das fungGes especificas que desempenhava na sociedade egipcia. Quanto & administracao dos nomos, digamos que, em linhas gerais, se assemelhava a administragao geral. O nomos era praticamente um pequeno Estado, Os governadores transmitiam ordens do rei, dirigiam trabalhos pdblicos, superintendiam nas actividades dos escribas ¢ dos funcionérios, nas recolhas de impostos, etc. Possufam a sua tesouraria e dispunham de pessoal para vigiar as fronteiras quando o territ6rio sob a sua jurisdigo confinava com pafses vizinhos. Cumpriam ordens do rei ¢ desempenhavam fungdes administrativas ¢ judiciais. Estas diltimas davam-Ihes particular responsabilidade e prestigio. 3.1.3 0 exército Nao se conhece muito sobre o exército durante os Impérios Antigo e Médio, embora saibamos de actividades militares levadas a cabo pelo Egipto nesses periodos. a partir do Império Novo que o exército ocupa lugar de importéncia no Egipto. Ais, esse «Império» foi criacdo do exército, sem que, entretanto, se pudesse afirmar que o Egipto do Império Novo fosse um estado militar. Desde 0 inicio desse periodo existia um exéreito, dividido em unidades de 40 homens, arqueiros ou lanceiros, comandados por oficiais. A partir da XVIIL Dinastia, para além da infantaria ¢ da marinha, havia os earros de guerra puxados or cavalos, ja que 0 cavalo nfo era animal para ser montado, mas era utilizado apenas para tracgio. © uso do carro puxado por cavalos havia sido uma importagéo da Asia Menor & era muito simples, Sobre o carro, além de uma caixa com as armas, havia lugar para dois homens: 0 condutor e o combatente. Durante a XVIII Dinastia, 0 exército tinha ees al *A.Brman eH. Ranke, obit, pil stoma ne mu nen dues divisdes, as quais se viria juntar uma tereira, Pela deserigfo da bata gy Cadesh, ficamos informados de que o exército de Ramsés II possuia quatro divi, conhecidas cada uma pelo nome de um deus: Amon, RE, Ptah e Sutek (Set), p,, cada divisdo, havia 5000 homens, repartidos em 20 companhias de 250 combatentes tendo cada companhia 5 secgées de 50 soldados cada uma. A hierarquia militar gy, bem definida com generais e oficiais. Assim, os comandantes de companhix formavam 0 corpo dos oficiais de divisfio. Havia generais de divisto ¢ outros que apesar de o nao serem, tinham o titulo honorifico de generais de divisao, 4 © comando geral pertencia a um general com honras de lugar-tenente do rei, embora, na realidade, o comandante supremo fosse o soberano. Sabemos que, nalguns casos, tal funcdo foi claramente desempenhada pela pessoa do farad, Entre aqueles que foram generais ¢ famosos combatentes, contam-se Amésis, Tutmésis I, Tutmésis IN, Amenofis II, Seti Te Ramsés IL Nao faltou também ao exército, nesta época, uma forte organizacéo administrativa, onde intervinha um quadro de funcionétios. Em todos os tempos, 0 exército egipcio contou com mercenérios. No Império Novo, alguns desses foram os mesmos que anteriormente haviam sido inimigos, como aconteceu com alguns que provinham de alguns Povos do Mar. De inimigos passaram a servir como tropas auxiliares ¢ chegaram a ocupar postos de chefia no exéicito, como tivemos ocasido de ver. Na época helenistica ¢ romana jé néo se poderd falar de exército egipcio. No Império Novo, a marinha desempenhou igualmente uma fungio importante. Sabemos, nomeadamente, que Mernefta e Ramsés III se serviram da marinha para combaterem os Povos do Mar. Havia também uma marinha mercante destinada aos transportes pelo Nilo ¢ pelo Mediterraneo, Sem a sua existéncia, ndo teria sido possivel a Necao, na época sat realizar um périplo em volta de Africa. 3.2 A Sociedade 3.2.1 A familia ‘A familia egipcia assentava no casamento monogamico, O homem tinha uma éinic esposa legitima, embora ao lado dela pudessem viver varias concubinas € Se1¥* (© niimero de umas ¢ de outras dependia das possibilidades econdmicas do home Alls, no Egipto, como noutras civilizagbes antigas (¢ nfo s6), as mulheres, f0ss°™ elas segundas esposas, concubinas ou servas, eram sinal de riqueza e de ostentagé do homem. A importincia deste avaliava-se pelo niimero de mulheres gue th Mas, nfo obstante o seu niimero, apenas uma era a esposa legitima com a FONE importante de senhora da casa. Nas famflias mais ricas, ndo faltavam, alé™ 1adas ao servigo doméstico, as jovens cantoras, muito elegantes & jpsas, como n0S Mostram vérias pinturas ¢ relevos, serves dest rai ‘pimagem que nos chega dos textos eds representaqdes artistas € a daharmonia familiar, onde existiam relagdes de amor, de temura e de intimidade. Nos quadros ir vida familiar, podemos observar, com frequéncia, marido e mulher de pé, 20 fado um do out, ou Sentados no mesmo sofa, de mAos entrelacadas, ou com o frago dela no peseaco do marido, em gesto de ajuda e de carinho. As mesmas auitudes se encontram entre pais ¢ filhos. Num texto sapiencial de Ptahotep, Iéem-se frases bem expressivas a respeito da familia: «a esposa € honrada pelo marido» eeste proclama, com alegria, que «fundou ima casa e amou fernamente a sua mulher», E essa ternura conjugal que se advinha fhuma carta que um vivo escreve 3 sua saudosa esposa defunta, quando ele se fncontrava doente ¢ julgava estara serafligido pelo espirito da sua «querida Ankeri», talvez por algum mal-entendido existente em vida dela. Por isso, esereve-lhe uma missiva que vai depositar sobre 0 seu ttimulo, para a apaziguar: «Com que mal cestis tua acabrunhar-me, para eu me encontrar neste estado miserdvel? Que é que cute fiz para que @ tua mao esteja a pesar sobre mim, sem eu ter feito nada contra {i Quando era teu marido, ¢ até ao dia de hoje, que € que fiz contra ti que precise de te esconder?>» Em seguida, o autor representa uma cena de tribunal, diante dos ddouses, para se defender. «Tornaste-te minha mulher quando eu era jovem e estava junto de ti, Em seguida cumpri sempre as minhas obrigacdes para contigo, sem te deixar nem causar qualquer desagrado ao teu corago. Mas ve, tu néio me deixas set feliz». Apresenta-se depois como alguém que dava instrugo militar no exército do faraé e que combateu longe de casa, mas fazia chegar 3 familia os Seus ptesentes. Nunca cometeu adultério nem mereceu de alguém qualquer repreensio pelo seu comportamento. Acrescenta: «Tu nem sabes o bem que te fiz. Enviei alguém para me informar da tua satide e quando adoeceste fiz procurar um bom médico que fez 0s medicamentos, Fez tudo 0 que tu dizias que ele devia fazer. Quando tive de Viajar para o Sul, em companhia do fara6, estavas sempre no meu pensamento Passava as noites sem comer nem beber, como faziam os outros homens. Logo que Yoltei a Mentis, pedi ao faraé e vim para junto de tie chorei muito com as outras Pessoas diate da casa, Del vests e lino par te sepultar.e fo deel de fazer 8 para teu bem, E agora vé: jé passaram trés anos, vivo sozinho e no entrei em apa casa (para ir ter com alguma mulher), pois nio convém que um homem isso ... E quanto as irmas na casa, nunca fui ter com alguma delas!»! os 2 monogamiafose a ep, também se conhecem casos de bigamia¢ ange lige, prineipalmente na corte, Um caso bem eonecido foi 0 de com steve das espns ress Nefertr (Nefer-Mernem), conhecida rede 2 Esto nos documentos eueiformes de Bognzkoy ¢ Ese-Notes a com fe get Alem destas das, desposoua filha dort hit, apésterconluido tam ge td de paz seguir batahe de Cades, de qu falémos.Dignse Onimera ag Ramses eve fihos devas mulheres © 96 asim se compreende que 0, eis deste fra ascendese au nmero que deveriauitapasar os Como fo ets Outos casos de farads que easaram com mulheres estrangeites, ‘480 de Tutmésis IV, Amenéfis III e Amenéfis IV. Em determinadas +A, Frman eH. Ranks, ob. ct, 206. 81 2 obcit, p 202 sprees ae pmoonaeseremananeeete st circunstincias, e por razées politicas, houve farads que elevaram as suas respectivas cesposas i posigio pritica de co-regentes, como foi 0 caso dos dois Amensfis III ¢ LV. Gostariamos de conhecer formalidades e conveng6es escritas de casamentos, mas nenhuma chegou até nds, das primeiras épocas. Existe, porém, a certeza, por varios indicios, de que, com ou sem convengio escrita, 0 casamento revestiu sempre o aspecto de contrato em que ficava garantida a situagio econémica da mulher e dos, filhos. Também se ignoram formalidades quanto ao divéreio, embora se saiba que tal era possiver’ A mulher podia gerir os bens que trazia para o casamento, além dos que faziam parte da famifia, ¢ 0s filhos tinham direitos sobre os bens do casal. Assim, se um homem divorciado voltasse a casar, 86 ficava com um tergo dos bens, visto que os outros dois tergos passavam para os fillos. Apesar de ser esta a regra, o regime de propriedade matrimonial variou e conhecem-se casos em que 0 marido transferiu tudo 0 que era seu para a esposa, acontecendo também o inverso noutros casos. Nilo deveremos omitir, dentro deste tema, o caso sempre falado dos casamentos entre irmaos, no Egipto, pritica bem testemunhada na época helenistica. Assim, a ‘maior parte dos soberanos da dinastia dos Ptolomeus tinha por esposa uma irmé Consta mesmo que dois tergos da populagio da cidade de Arsinoé se encontrava nessas condigdes, mas tal exemplo nao permite afirmar que acontecesse o mesmo noutras cidades, Os casamentos entre irméos deram-se nesta ¢ em épocas anteriores, na familia real, com a preocupacdo de conservar integra a esséncia divina no sangue do herdeiro real. Foi por causa desta crenga que houve casamentos entte irméos, normalmente entre o fillto de uma esposa segunda ou de uma concubina, com a filha mais velha da rainha, para que este bastardo subisse ao trono. Noutras familia, tais casamentos constitufram excepcao. Quando os textos usam a palavra «irma» ou «ismao», no tratamento entre os esposos, muitas vezes a palavra parece querer designar «querida» ou «querido», ou algo semelhante. Em linguagem que aparece nos textos epistolares ou poéticos terd de entender-se em sentido figurado, Nem poderd concluir-se de tal linguagem facilidades em intimidades de cardcter sexual. O amor humano, nomeadamente 0 amor sensual, era algo de muito digno, mesmo quando, na linguagem do homem ¢ da mulher, havia um realismo que poderd chocar certa pudicicia actual. ‘Tomard consciéncia desta realidade quando estudar 0 amor na poesia egipcia. ‘Mas nio poclemos deixar de referir, neste lugar, alguma excepgao & «pureza» do amor humano. Referimo-nos a um papiro da XX Dinastia que contém caricaturas obscenas, acompanhadas da linguagem adequada. E 0 mais curioso € que parece tratar-se de um livro que alguém entregara ao morto para se distrair na outra vida! A fidelidade conjugal era proclamada como um valora defender e nfo se ignoravam 0s perigos, como aqueles que vinham do contacto com mulheres estrangeitas, quet para os operérios que trabalhavam na exploragéo das minas na Nibia ou no Sinai, {quer para qualquer homem que, no pais, podia deparar com tais mulheres, Daf 0 soeeeneonn enna aviso de um sébio: «afasta-te de qualquer mulher que vem de fora, que no é conhecida na cidade... ela estende os seus lagos. E crime grave e digno de morte prestar-Ihe atengio», Para evitar 0 perigo de tais envolvimentos, ¢ por outras razdes, 0 homem era aconselhado a casar-se novo. Nao havia nada de mais belo do que fundar o seu proprio lar. Eassim que Anii, um «sébio» do Império Novo, esrevia: «Toma wma mulher enquanto és jovem e instrui-a acerca do que fazem os homens, Esta te daré um filho, enquanto és vigoroso, e terds descendéncia»’ Mas, muito antes, um vizit da V Dinastia, Ptahotep, jé escrevera: «Quando aleangares a abastanga, casa-te € ama a tta mulher mais do que a tudo no mundo. Dé-the alimento em abundancia e belas vestes. So outros tantos remédios para o seu corpo. é-Ihe perfumados balsamos e toma-a feliz até & morte’ Segundo escreve Anii, na sequéncia do texto acima cit reputagio pelos filhos que the nasceram», ido, «um homem adquire Obviamente que 0 desejo de ter filhos nao era apenas uma questio de reputacdo. pai desejava ter um filho para Ihe transmitir a heranga, para Ihe perpetuar nome ¢ para Ihe prestar 0 culto funerdrio. De facto, competia ao filho dar sepultura honrosa ao pai, conservar em bom estado a sua inscrigio funeriria e fazer- Ihe a oferta da alimentacéo adequada nos dias de festa. Estes deveres filiais eram ‘Go importantes na mentalidade religiosa egipeia que, frequentemente, os filhos apontavam como titulo de honra © cumprimento fiel de tais deveres. E se isto se passa em relagdo ao amor do filho para com o pai, também é justo reconhecermos que, no Antigo Egipto, se exaltava 0 amor do filho para com a mée. Isto tanto nos, documentos escritos como nos monumentos artisticos. J4 em ttimulos do Império Antigo aparece frequentemente representada a mae do defunto ao lado da sua esposa. De uma maneira geral, 0 quadro da famflia que se extrai da literatura e da arte € revelador da grande harmonia, no lar, sem que isto signifique que nao tivesse havido Sobressaltos e mutagdes nos diversos perfodos da histéria. E facto reconhecido que 4 presenga de estrangeiros, de mercensrios no exército e de prisioneiros de guerra, Principalmente ap6s as campanhas de Tutmésis II, teve reflexos nos casamentos, 1a familia e na prépria onoméstica. Mas 0 estatuto bésico nfo se alterou, 3.2.2 0 quotidiano Para conhecermos como seria a vida real, no seu dia-a-dia, 0 melhor sera irmos aos ‘imulos, Por paradoxal que pareca, 6 nos monumentos aos mortos que ests Tepresentada a vida terrena. E que o Egipcio amava-a tanto que nao podia imaginar 4 vida do Além sem ser & semelhanga desta. Por isso, através das representagdes os ttimulos, nés conhecemos a vida dentro e fora do lar. Por af avaliamos como ra: a casa, as distracgdes preferidas, o uso da misica e os instrumentos musicais, 8 vestes, os penteadas € as j6ias, 0 cultivo dos campos e a eriagio de a aca & a pesca, os utensilios para o trabalho, etc. Sao sobretudo cenas da > seamen emnaeeence » Cit. por C. Grimberg Ms: Aria Universal, Europa Amé= lca, 1965, vol p. 129 *Cit por C. Grimberg, ob. p29, 8 * G. Andee, Images dela vie auotidienne en Egypte au temps des pharaons, Hachette, Pars, 1992. 2 & Daumas, ob ct, p. 186 > & Daumas, ob cit, p. 187. 84 campo que af podemos admirar, visto que 0 Egipcio era, antes de mais, agricutio. ‘Assim, aparecem ai representadas as vindimas ¢ as diversas fases de preparacto qe vvinho, tal como a colheita dos cereais e a preparacio do pio ¢ da cerveja, sem faltarem também cenas de eaga e de pesca nos préprios pantanos' Ao lado da vida do camponés,ficaram também representadas cenas da vida urbang, nomeadamente da alta sociedade. E assim que, no apogeu do Império, em pinturag de Tebas, nés podemos admirar como seria 0 Iuxo e 0 requinte das recepedes rmundanas, Nao serd sem razio que Tebas era «a mais rica capital do mundo antigo,, ‘como afirma Daumas®. E 0 mesmo autor que observa, nas pinturas, 0s costumes ¢ as modas e nos fala de recitais e de concertos ¢ nos deixa esta descrigio de reunides soci As mulheres ornadas com jéias sumptuosas, com a sua peruca encimada por um ‘cone de unguento perfumado, flores de lotus na mao, bebem e comem servidas por jovens quase nuas de corpos graciosos e delgados. Por vezes uma destas jovens ajuda uma dama a restabelecer a ordlem do seu penteado ou a por novamente no lugar uma jéia. Estas citadinas da alta sociedade conversam sem dtvida e escutam frequentemente a nmisica, verdadeiros concertos sob a ditecgio de harpistas cegos, ‘que alegram os banquetes. Entre os instrumentos musicais, distinguem-se alates, hharpas, lras,elarinetes, oboés. O canto ¢ a danga nao estavam ausentes, como nio estava ausente a recordacio da brevidade da vida e da ameaga da morte.” Esta descrigo poderé criar-nos a ilusio de que a vida no Egipto era toda cheia de encantos e de facilidades, mas nfo esquecamos que, para além das reunides mun- danas, dos concertos ¢ dos banquetes da alta sociedade, havia 0 trabalho do povo ‘comum, aquele que € 0 grande agente da historia ¢ que a historia por vezes esquece, para s6 falar de reis, de militares ou de grandes senhores. £ bom nao esquecermos os camponeses, os operarios especializados nas mais diversas profissdes, 0s que tratam dos animais, os padeiros e os que fabricam @ ccerveja, as mulheres nos seus feates, os que trabalhiam para os mortes, 0s construtores dos timulos ou do mobilidrio finebre, os téenicos da mumificagio, os médicos, 0S curandeitos, ete. O Egipto era um pais de reis e de altos funcionérios, mas ¢r® igualmente um pafs de trabalhadores. Todos contribufam para 0 bem-estar comum Mesmo as classes mais humildes tinham um nfvel de vida razodvel para a époct Referimo-nos concrelamente aos camponeses ¢ aos opersrios. A imensa maior 8 populagao dedicava-se agricultura que era «o fundamento da civilizacao eB! cian no dizer de A. Erman, Basta observarmos as cenas gravadas nos timulos da resi@? de Tebas, para vermos as cenas que representam os camponeses entregues : faina das sementeiras, das colheitas, das vindimas, do transporte e armazenaImen” do trigo da cevada, da recolha do papiro que cresce espontaneamente nas mage do tio. Vemo-Ios a construir diques, a abrir canais para a gua poder passar d° nivel para outro ou a regatem os campos & forga de pulso, usando a cegonh® chaduf, como faz 0 felah dos tempos modernos. das a vida © © autor da Sdtira dos Oficios descreve com cores muito carrega a camponés: a lutar contra a seca, 0s gafanhotos, os ratos, os ladrdes &, de suportar os cobradores que the levavam boa parte da colheita. por fms x, obviamente, de uma descrigdo exagerada, que se explica pela intengio do sao do funcionétio piiblico pejoconttio, O conto dos dois irmaos apresenta a vida real de maneireatraente, re vd de trabalho, sem divide, mas vivida em paz¢ com dignidade, Nos campos, tareomo nos lazeres e,sobretudo, em dias festivos, ocampones podia cantar, como Fecordam os fextOs ¢ aS TepresentagGes na arte, Assim se compreende que os pgtpoins, mesmo os das classes mais elevadas,idealizassem a vida no outro mundo, nos campos de Ositis, como uma actividade agricola, onde podiam semear e depois ‘ceifur as searas louras e gradas, opviamente que a vida dos operétios nfo era tao fiécil, quando trabathavam por conta de outrem € 0S grandes empregadores eram 0 farad e os templos. Nao ha documentagio que permita um estudo aprofundado do que aconteceu neste dominio nos diversos periodos da histéria. Tém particular importancia, para 0 caso, os documentos de Deir el-Medina, que nos dao informagGes sobre varias geracdes de operdrios que, no decurso de quatro séculos, trabatharam em Tebas, nas obras dos tiimulos dos farads que ficaram sepultados no Vale dos Reis, Foram pedreiros, desenhadores, escultotes, pintores e toda a espécie de artfices, Sabe-se que eram cumpridores ¢ assfduos, embora os homens faltassem ao trabalho quando as suas esposas estavam menstruadas, talvez por se considerarem ritualmente ipuros. Poderiamos perguntar como seriam as condigoes de trabalho. Estes operérios seriam livres ou praticamente escravos, sob as ordens de patrées déspotas? A questio & pertinente quando contemplamos os grandes monumentos que nos deixaram, como, Por exemplo, as pirdmides. Recordemos que Herédoto e outros gregos nio encontravam explicagdo para tais construgdes que ndo fosse o trabalho forcado. Tal ideia poderd também ser corroborada pela leitura do Ensinamento de Duauf, obra vulgarmente conhecida por Sdtira das Oficios. O seu autor na teve em mente apenas a construgdo das pirdmides, pois refere, Para além dos pedreiros, ferreiros e artistas, os barbeiros, os jardineiros, os Miasaores 0s teceloes, ete. Segundo le, todos tinham uma vida insuportivel He gemes que o autor, ao escreverno Império Mésto, tem presente um perfodo il que foi 0 I Perfodo Intermédio, ¢ pretende entusiasmar o seu discipulo pela Profissio de escriba, Voltando as pis “onstrugio das imides, somos levados a estabelecer alguma compara¢o com a ditrne andes catedrais da Idade Média, salvaguardadas as naturais constr ilvez no vejamos aqui obras de déspota, Daumas, ao referit-se& Os ate Ditmides de Guiza e do complexo de mastbas que as ceream, entray a nat AME «Sao obras de um povo que fez isso pelo amor que Ihes per mA cternidade & sombra do seu rein. Mas tems 0 dire £250, rd sem esligarse dary ito de pensar diferentemente. Qualquer juizo de valor no presente “Pred marca da subjectividade, Entetanto,julyamos que munca devers la mentalidade da época, “ Daumas, ob it, p. 256 8s "Daum, ob. it, p24. 2 Pascal Vernus, Les grévesy, in ob. a6 ap. Il pp. 75-97 rennet een ae i Conhecem-se casos em que os reis deram provas de apreciar 0 trabalho dos seus operérios, enquanto estes, por seu lado, faziam tudo para Ihes agradar. Exempio nificativo é o de Ramsés II, ao louvar os artistas que «sabem usar-das suas mos», ¢ ao cumular de bens 0 inspector dos trabalhos a quem pagava em prata @ em ouro. Este, por sua vez, nao se esquecia de referir que os operérios «trabalham com uum coracao cheio de amor para o rei do Alto € do Baixo Egipto, senhor das Duas Terrasy! E Obvio que este testemunho ¢ alguns outros nfio nos permitem generalizagdes faceis, pois certamente também existiram situagées de conflito entre operétios ¢ patrZo, com actualmente se conhecem. Ficou conhecida, por exemplo, uma revolta por parte dos trabalhadores da necr6pole de Ramsés II, como se depreende de um papiro da XX Dinastia Tal revolta terd conduzido @ uma verdadeira greve que foi, segundo parece, a mais antiga que a histéria regista. E ficaram conhecidos certos movimentos reivindicativos dos trabalhadores entre os reinacios de Ramsés TI e de Ramsés XP. Recordle 0 que oportunamente escrevemos sobre a crise que surge no fim da dinastia dos Ramessidas. Depois de Ramsés III, comegaram as graves convulsGes sociai caracterizadas pela corrupcao e pela pilhagem das préprias necr6poles. A profanacio dos timulos, num pafs como 0 Egipto, onde o culto dos mortos era uma realidade 180 profunda, significava crise social ¢ fome. E esta foi tao mé conselheira que no respeitou as préprias crencas religiosas. 3.2.3 Os escravos Nio se pode falar da sociedade egipcia sem fazermos uma referéneia aos escravos, que naturalmente também existiram, como noutras sociedades antiga’ naturalmente os prisioneiros de guerra ou aprisionados por mercadores que, tendo entrado no Egipto, ficavam na posse do rei, Este dispunha deles como entendia: oferecia alguns aos templos ¢ dava outros a particulares, como recompensa pot servigos prestados. Os escravos eram, portanto, de origem estrangeira, nem S¢ pode falar da sua existéncia no Egipto antes do Império Médio, época em que comecaram a entrar Nabios e Asidticos. A escravatura, entretanto, foi um realidade considerdvel durante 0 Império Novo, quando as campanhas militares "™ Asia levaram ao Egipto grande quantidade de prisioneitos. Serviram-se do seu trabalho o palicio real, os templos e o préprio exéreito. Com? 4 dissemos, houve mesmo estrangeiros, como foi o caso dos Libios e dos Meshwesh (povo do mar), que vieram a prosperar, pela via do exército, chegando a constitt uma poderosa forga politica que se apoderou do trono. questo dit 00 Qual a situagio real dos escravos? E questio dificil quando pensamos 4¥° “ Egipto antigo nao hé propriamente cidadaos, quer dizer, homens livres, ¢ pela ™* easement ratio tio pouco hi escravos no sentido cléssico, pois nfo hé o contraste da liberdade». Estamos a citar Presedo que, no mesmo contexto, acrescenta: «No Egipto so rssiveis todos os graus de liberdade até & nao liberdade ¢ coisificagéo»'. Se eram escravos, podiam naturalmente ser comprados, vendidos ou mesmo dados. «Mas, ainda que fossem marcados como 0 gado, parece que eram tratados, em geral, com certa humanidade e que tinham alguns direitos reais, Recebiam, além do seu slojamento e comida, vestidos, unguentos...»2 Na pritica, a situagio néo era de desespero. As condigées de trabalho desses prisioneitos escravizados nao cram diferentes daquelas que tinkam os trabalhadores livres naturais do pais. A demarcagdo entre 0 escravo ¢ 0 «cidadio» parece, pois, muito fluida, A tal propésito escreve A. Cyril: «O escravo pessoal de um Egipcio de alta categoria podia ser muito mais importante do que a maior parte dos camponeses indfgenas»*. Pelo papiro de Wilbour, somos informados de que Ihes era reconhecido o direito de arrendar ou cultivar a terra nas mesmas condigées que qualquer outro individuo, fosse ele militar, sacerdote ou escriba. Conhecem-se mesmo testamentos que designam escravos como herdeiros e existem provas de que houve eseravos que casaram com mulheres livres. A situagio do escravo podia ser temporsiria, tal como a daquele que se entregava voluntariamente para servir alguém, a fim de the ser garantida a subsisténcia e poder preparay, para 0 filhos, uma melhor posigao social. Nio hd informag6es precisas quanto as formalidades para ser concedida oficialmente liberdade a um escravo, mas, segundo parece, bastava uma declaragio do dono Perante testemunhas para que o escravo se tomasse um «homem livre da terra do faradn’ ACTIVIDADES: Assinale com x a resposta certa 1. 0 fara6 intitulava-se: D1 _ fitho de Hérus; fillo de Re; O fitho de Amon. >No Ensinamento para o rei Merikaré, 0 fara encontra-se definido como: chefe dos exércitos, Juiz; Protector dos humildes. eee *R Presedo, sgipton in His ‘rla del Oriente Antiguo, Citedra, Madd, 1992p, *F,Presed, ob. et, 9. 245 *A Cyl ob cit, p. 187 “A. Cys ob. elt, p18 9 cece 2p semerenceneennsenenensmmnnenetenaRE so ss evneneeets 3. Amenéfis III fez erguer um templo a si proprio: RESPOSTAS AS ACTIVIDADES: a em Ménfis; pevia ter assinalado com x em Tebas; 1. Filho de Re. Oo nna Nubia; 2. Protector dos humildes. a na Palestina. 3, Na Nubia. 4. Hicsos, 4. Os carros de guerra entraram no Egipto com os: - 5. Insignia com forma de serpente. Oo Hititas; 6. Deve mencionar na sua resposta o seguinte: 0 cargeter monogimico da oO Hicsos; familia, apesar da existéncia de outras esposas e do harém na familia real; © casamento entre irméos; defesa da fidelidade conjugal; existe e a pea conjugal; existéncia de 5. Ouraeus era a: oO coroa branca do Alto Egipto; Oo coroa vermelha do Baixo Egipto; Oo coroa dupla; oO insignia em forma de serpente. 6, Caracterize a familia no antigo Egipto. 9 4, A Economia Fe senate ‘TABUA DE MATERIAS 4. Economia Objectivos de aprendizagem 4.1 Agricultura ea pesea 4.2 O subsolo e as relagGes comerciai 4.3 Acirculagéo dos bens ¢ das pessoas: as vias Actividades Respostas as actividades 93 SF BO _ssngsanntomanarmneomenaa — Objectivos de aprendizagem: Depois de ter estudado este capitulo, deve saber que: 0 faraé era o senhor de todo 0 Egipto; a partir da IV Dinastia verificou-se a tendéncia para a privatizagio do solo; © paladcio real e os templos tinham uma fungdo econémica e politica; a agricultura foi sempre a base da economia egipci maioria da populagio; , ocupando-se dela a € pesca, a exploragao do solo ¢ as relagdes comerciais com o exterior foram igualmente importantes para a economia do Egipto; toda a economia estava centralizada nas mios do fara6, que a dirigia; € produgio dirigia-se aos vivos, mas também aos mortos; a citculago interna de produtos tinha por base a permuta enquanto 0 comércio externo usava 0 lingote metélico como meio de pagamento; © Nilo ¢ 0s seus canais foram a grande via de circulagao interna. 9s se see teense _spenesoiaseentennannosenere srs {As lacunas da documentagao nao permitem um estudo aprofundado da economia, seja no Egipto, seja em qualquer outra civilizagio da Antiguidade, E possivel, entretanto, reunir algumas informagdes sobre os fundamentos econdmicos que estiveram na base da antiga civilizacdo egipcia. Um estudo completo obrigar-nos-ia aatender a cada periodo, desde a época que antecedeu a unificagao, quando a divisio do trabalho estava pouco desenvolvida, até as épocas helenistica e romana, onde, para além da grande diversificagao do trabalho ¢ das profissdes, existe um comércio interno € externo de grande importancia, 4.1 Aagricultura e a pesca A economia do Egipto assentava na agricultura. Mas um problema que se nos poe este: a quem pertencia a terra que o campones trabalhava? Desde que existe a realeza no Egipto, o faraé é teoricamente 0 proprietério de todo 0 solo. O palicio real é um grande estabelecimento econdmico, um enorme armazém com numerosas sucursais, para onde eram levados os produtos do pats. Gragas a essas reservas estavam asseguradas as necessidades da familia real, da ‘multidao dos funcionérios, que sempre foi crescendo, e dos trabalhadores que estavam ao servigo do rei, Os camponeses trabalhavam para o soberano ¢ a maior parte do que produziam ditigia-se aos celeiros reais. Este sistema atingiu seu ponto culminante no Impétio Antigo, quando se construfram as piramides. As exploracdes econémicas do pafs e dos habitantes exigiam um aparelho administrativo efieaz, ao servigo do faras. A partir da TV Dinastia, comecamos @ conhecer documentago que nos informa dos abusos do funcionalismo, das ambigdes ¢ interesses pessoais. O rei tinha que pagar favores. E, assim, houve principes que receberam propriedades, sendo um bom exemplo o caso do principe Nefermact, fitho de Seneferu, que fez representar no seu témulo os 45 dominios que the pertenciam, Houve também funcionérios que receberam, por doagio régia, grandes propriedades ¢ outros adquiriram-nas por compra. No decorrer do Império Antigo, a partir da TV Dinastia, verificou-se a tendéncia para a privatizacio do solo, Na V Dinastia, jé os grandes templos se afirmavam proprietérios de campos. Sabemos como a imunidade fiscal aumentou 0 poder ‘econsmico dos templos ¢ também a sua influéncia politica, pois escapavam ao con- trolo da administragao. Os problemas daqui resultantes so evidentes: o faras ao fazer certas concessbes aos sacerdotes, aos principes ou altos funcionétios, para pagar ou obter favores, perdia margem de manobra politica. Chegou-se a um momento em que o faraé tinha dificuldades econémicas, para responder As exigéncias da Administragao Central, e, por outro lado, ndo podia libertar-se da dependéncia dos poderes ” _eetonnenenmt " Séaeea, De Milo, 1. De Nilo, 10 98 nae et RET separ econémicos do reino, O facto é manifesto no Império Novo e exemplo significativo 60 de Amensfis IV, ao estabelecer a capital em Amarna. A agricultura esteve sempre no centro da economia egipeia ¢ 0 trabalho da terra ocupava a maior parte da populagio Quando se diz que o Egipto é um «dom do Nilo» afirma-se que a terra das margens do rio, a Kemet, a terra negra, era Gptima para a agricultura. Chegou longe a fama dessa terra que o rio fertilizava. Séneca, por exemplo, deixou-nos este testemunho: «Como tu sabes, 0 Egipto poe neste [no Nilo] toda a sua esperanga; o ano € estéril ‘ou fértil segundo 0 rio se enche muito ou pouco»', Depois acrescenta: «O aspecto do pais nunca é tio belo como quando o Nilo invade os seus campos. As planicies ficam ocultas e os vales cobertos, s6 as aldeias emergem como ilhas. Nenhum habitante do interior pode comunicar com outros a nao ser por barco ea alegria das zgentes é maior quanto menos vejam as suas terras»?, Apés a inundago que destrufa os limites dos campos, aparecia nas aldeias uma equipa de funcionérios do cadastro das propriedades, para marcarem, de novo, as cextremas das terras. Comegava entio a faina dos campos: lavravam-se com 0 arado puxado pelos bois; abriam-se canais, para que na altura propria se regassem as ‘ronas mais afastadas da torrente; levantavam-se diques quando necessério; langava- -se a semente a terra. Esta era fornecida aos camponeses pelos celeiros reais, ja que, mais tarde, a colheita também teria de ir para esses armazéns. Depois da sementeira, homens, mulheres ¢ até criangas viviam para os campos. Naturalmente, os homens encarregavam-se dos trabalhos mais pesados, enquanto as mulheres e as criangas ceifavam as espigas e colhiam os frutos, Depois da cotheita das searas, transportavam as espigas para a eira, onde as patas dos bois as debulhavam. Quando a palha ficava separada do grao, 6 restava encher 08 sacos que eram conduzidos em barcos, para os celeiros reais. Af estavam os funcionsrios do gréo para registarem as quantidades. Mais tarde, 0 cereal seguia os seus caminhos, para ser moido, até se transformar no pao que alimentava todos os Egipcios. Cada uma destas fases era controlada e registada por funciondrios da Administragio Pablica, conhecidos por olhos e ouvidos do rei, por estarem em toda a parte. Os ‘camponeses, tal como os trabalhadores das diversas profiss6es, deviam atender a normas de produgi. O funcionsrio deveria dar conta ao poder central do resultado dos trabalhos agricolas e de tudo o que o pafs produzia. O funciondrio era exigente para agradar ao senhor, Este trabalho comunitirio era também praticado noutros dominios da produgio alimentar. Assim, na propria aetividade piseat6ria que era variada, para além da pesca ao anzol, havia a pesca com rede, com a cooperagio de varios pescadores- ‘A distribuigio do peixe era feita & gente comum, ao passo que a carne raras vezes chegava aos camponeses, por ser cara. Além de agricultores e pescadores, os Egipcios trabalhavam igualmente noutras actividades destinadas 8 alimentagio, tais como: apicultores, padeitos, fabricantes de cerveja, cultivadores de hortaligas, de tamaras, de figos, de vinho, etc. A organizagio do Estado compreendia, de facto, uma grande diferenciagao de profissdes. A cerveja era a bebida comum. O vinho, pelo contrario era destinado as classes, mais elevadas, sendo entregue ao consumidor em grandes fnforas. Nas escavagées, de varios palicios, encontraram-se frequentemente vasilhas destinadas ao vinho, tendo, por vezes, 0 nome do proprietério, do cultivador, da propriedade de origem, etc, 0 que poderd revelar 0 controlo oficial sobre a produgio e distribuigao do produto, Perante esta organizagio quanto & produgio e distribuigéo dos bens alimentares, compreende-se que as riquezas naturais, produzidas no vale do Nilo, constituissem, a base da prosperidade deste povo, Assim se explica como a produgio excedentéria da agricultura permitiu as realizagées que caracterizaram o antigo Egipto. 4.2 Osubsolo e as relagies comerciais O Egipto faradnico possufa grandes riquezas, umas produzidas no proprio pais e ‘outras que af chegavam, pela via comercial ou pelas expedigdes militares, levadas a feito pelo fara. cultivo da terra e a criagdo de gado estavam na base da economia, mas 0 solo do Egipto proporcionava outras riquezas, como, por exemplo, os materiais de cons- truco: eram os granitos cor de rosa das pedreiras deAssuao, era o pérfiro, 0 alabastro das proximidades de Amarna, eram os basaltos da regio do Cairo, etc. Nao faltavam, também as pedras preciosas: a turquesa & a malaquite do Sinai, 0 quartzo, 0 feldspato verde, a dgata, a ametista ¢ a calcedénia dos desertos de Leste e de Oeste. Na época Ptolomaica, comegaram também a explorar-se os corais do mar Vermelho. Quanto 4 metalurgia, o Egipto nao foi rico. E curioso verificar-se que conservaram 4é tarde, mais do que nenhum outro povo da Antiguidade oriental as indistrias Iiticas. Embora desde cedo os Egipcios explorassem o cobre do Sinai, s6 tardiamente usaram a liga do cobre e do estanho de que resulta o bronze, Por isso, este metal s6 tarde se divulgaria, apesar de ter sido introduzido no Império Médio. O ferro foi trabathado, mas escassamente, na Epoca Baixa e apenas se popularizou macigamente na Epoca Helenista', Ao Egipto aflufram também grandes riquezas do exterior, tanto pela via do comércio como pelas pilhagens e, sobretuco, pelas guerras. So conhecidas, desde o Império Antigo, as boas relagdes com o Libano, concretamente com Biblos, de onde vinha ‘madeira, com a Somélia de onde chegavam os aromas destinados ao culto, com a Niibia, de onde vinham as plumas de avestruz, o ébano, o marfim e, sobretudo, 0 Ouro, Estas ligagées do Egipto com outros povos prosseguiram durante os varios Periodos da Hist6ria, com altos ¢ baixos, como é natural. Dai a preocupagio Permanente com a vigildncia ¢ defesa das vias comerciais e das fronteiras.. *F.Presedo, ob. lt, p. 248, 2” men veneer 1 Pose, ob it, p. 227 10 ANabia merece uma referéncia especial por ser a grande produtora de ouro, {que teve importincia primordial na hist6ria do Egipto. Desempenhou sempre ‘esse papel eas quantidudes de metal amarelo entradas foram consideréveis. Assim, durante o reinado de Tutmésis IIT, chegaram ao Egipto 260 kg, no 34.° ano do seu reinado, 268 kg no 38:°¢ 300 kg no 41.° ano! Relativamente ao Libano, recordemos, por curiosidade, a informagio que nos chega através do conto de Wen-Amon, dos finais do Império Novo. Refere as dificuldades fem se obter madeira e fala dos produtos que o Egipto faria chegar em troca: rolos de papiro, peles de animais, pecas de linho e outras de ouro e de prata. Nas relagdes comerciais, a diplomacia desempenhava por vezes um papel importante. Na corte de Amara, encontraram-se sete cartas do rei de Chipre, ilha conhecida entdo por Alashia, dirigidas a Amendfis IV, por onde se conclui das boas relagdes existentes entre os dois soberanos. A amizade ¢ a alianga entre os dois, povos tinha importancia para 0 comérci Mas, apesar de todas as riquezas, o Egipto nfo teria alcangado a prosperidade que se conhece, se nfo se tratasse de um povo inteligente e organizado. Toda a ordem assentava ha sua forga, nas méos de um soberano omnipotente que centralizava todos os recursos e 0s dirigia segundo os seus objectivos. Quando falhava essa organizacao, por falta de um poder central, havia guerra civil e fome. Falar da economia significa referir nfo s6 a produgio de bens materiais mas também 1 distribuigdo e consumo. A economia dirigida tinha como objectivo principal a alimentagio do povo. Ao faraé incumbia, teoricamente, o sustento de todos. O nascimento de uma crianca significava mais uma boca a alimentar, 0 que nfo quer dizer que houvesse uma preocupacéo em limitar os nascimentos. Recorde-se que 609s Gregos, quando comecaram a visitar 0 Egipto, puderam admirar como no pais do Nilo se respeitava a vida humana, sem receios de que o po nao chegasse para todos, Admiravam-se de que os Egipcios deixassem vingar todas as criancas. ‘A.alimentagao chegava para todos os vivos ¢ também para os mortos. Eque no Egipto também os mortostinham necessidade de comer! Entendamos esta linguagem- Os Egipcios tinham anseios de eternidade ¢ cultivavam seriamente essa creng® ‘Acreditavam que apés @ morte o espfrito continuava a viver enquanto 0 corpo subsistisse, Dai a preocupagao com a mumificagéo dos corpos. Era necessério que estes corpos, ou mesmo as estétuas sucedineas, continuassem a alimentar-se, Pare manterem as suas forgas. Assim se compreende que o homem sentisse a necessidade de ter um filho, nao s6 para Ihe perpetuar o nome, mas para Ihe dar sepultura ¢ ‘cuidar da sua eternidade. Compreende-se igualmente que se fizessem contratos com o pessoal do culto funerério, a quem se pagava e a quem se entregavam 05 bens, para cuidar dos mortos. £ que estes deviam continuar a viver. Aqui ‘enconta a explicagio grande parte da civilizagio egipcia, com os seus grandiosos témulos templos e esmeradas (porventura estranhas) priticas funersrias. facto de uma parte considerdvel dos bens ser destinada aos mortos 130 signific® que, de um ponto de vista econémico fosse perdida, como observa Daumasy vist > a _ssonunuisetotereeeanereremeemmmertnnneeeneerea que, na realidade, esses bens eram consumidos pelos encarregados do culto funerario' Quando 0 actual visitante do Museu do Cairo observa os tesouros do timulo de ‘Tutankhamon, com os seus méveis sumptuosos, as j6ias, as pedras preciosas, 0 ouro em quantidade mais que surpreendente, compreende como grande parte da riqueza do Egipto se destinava & morte. Sente também que os Egipcios eram os mais espirituais dos homens. Usavam os bens com um ideal apenas compreensivel, dentro de um mundo de conceitos metafisicos. Fis a complexa imbricagao de factores jideolégicos e religiosos na economia do pats dos faraés. ‘A distribuigio dos bens e, consequentemente, a sua comercializagao obrigam-nos a falar dos modos de pagamento e de circulagdo. E evidente que uma anélise do comércio, como da sociedade, da religifo, etc., conta com factores diferentes, conforme os perfodos da histéria do Egipto e conforme as dinastias. Mas um estudo de pormenor ultrapassa o Ambito do nosso curso. A nossa apreciagio € de carécter getal ¢ tera de ser mais uma sfntese do que uma anélise minuciosa. No pais do Nilo, 0 comércio interno nunca foi florescente, mas néo podera dizer-se 0 mesmo do comércio externo, que conheceria épocas de prosperidade, como aconteceu nas épocas saita e ptolomaica. Qualquer forma de comércio na Alta Antiguidade teve as limitagoes resultantes da falta de moeda. © pagamento era feito pela permuta de bens e, s6 num segundo momento, estes foram avaliados com referéneia a um padrao metalico. Havia, antes de mais, 0 simples mercado de rua ou de vizinhos, onde o camponés trocava os seus produtos com o artifice que the dava 0 que ele proprio produzia. Nao faltam representagdes de mercados do género, onde vemos, por exemplo, um artesfo a trocar um colar e outro a trocar umas sandélias por produtos agricolas, tal ‘como nos surge 0 caso daquele que permuta um escravo por duas vacas € outro que entrega uma casa por duas grandes pecas de tecido e um leito. Ao lado destes pagamentos havia outros, como aquele que eta feito ao governador de El-Kab, em uro, cobre, vestes € cereais. Mas ultrapassemos 0 quadro do comércio de rua ou de mercado de bairro e vejamos ‘aquele que se fazia com a circulagao de bens de uma localidade para outra ou mesmo Para fora do Egipto. Nestes casos, a simples troca deixava de ser prética. Os Egipcios Sentiram, certamente 0 problema e resolveram-n0 ja desde o Império Antigo. Recorreram ao sistema ponderal, isto é, 0 prego abstracto das coisas foi definido Segundo um padréo metilico. Assim, por exemplo, um boi, uma ovelha ou uma ‘medida de trigo correspondiam a determinado peso de cobre, prata ou ouro. Desta forma criou-se um padrao pré-monetirio. Entraram em uso pegas metilicas com um peso fixo. Hlouve mesmo templos que comegaram a estampar lingotes de prata iuito antes da prética da cunhagem de mocdas. ° 3 invengio do sistema monetirio ni ficou a dever-se ao Egipto, pois a cunhagem ™oeda apenas surgiria nos séculos VIII-VIT a. C., na Lidia, tem de reconhecer-se ‘ue, no pais do Nilo, se deram passos considerdveis no sentido da racionalizagio sistema de pagamentos, O metal, usado como referéncia, nfo foi sempre o mesmo. OR mtn "F. Daumas, ob cit, p. 245 101 "A. Erman, H. Ranke, ob ct, exp. XX, pp. 644.696. 102 REE a es anne Nalguns casos foi 0 cobre, noutros a prata e noutros 0 ouro. No Império Antigo, por exemplo, usou-se 0 ouro, sendo a unidade o shat, que pesava 7,5 g. O miiltiplo era 0 deben (unidade mais conhecida), que valia 12 shats, ou seja, 0 correspondente 290g. Note-se que, para calcular miltiplos ou submiiltiplos, se usava entio o sistema sexagesimal, 0 que parece reflectir remotas ligagSes com a Mesopotamia, Mais tarde, na XIX Dinastia, ja encontramos 0 sistema decimal, tipicamente egipcio, aplicado no caso dos miiltiplos e dos submiltiplos ao padrio ponderal pré-monetiio. Eassim que aparece ogite que valia uma décima parte do deben. Registe-se também que, nesta dinastia, o metal de referéncia jé ndo cra 0 ouro, mas a prata, que valia exactamente metade do ouro, segundo 0 que era aceite desde 0 Império Médio. Néo deixa de ter importdncia, para o tema que estamos a tratar, uma referéncia a0 sistema de medidas. A partir do inicio do III milénio era usado como medida de comprimento, 0 covado, que media 525 mm. Tinha como submiiltiplos a mao ¢ 0 dedo, que eram 1/7 € 1/28 do cévado, respectivamente. Os campos mediam-se com uma corda de nés de 100 cévados. A medida de superficie 100 x 100 cévados era 0 arure. ‘A medida de capacidade, usada para medir os cereais, cortespondia a cerca de 48 litros. A partir dessa medida usavam-se outras unidades, uma medida dupla (9,6 litros) ¢ ainda 0 quadruplo (19,2 litros). Havia ainda 0 saco de cerca de 76 litros € uma outra, maior, que correspondia a 96 litros. Para os liquidos, a base era uma medida que correspondia a 0,48 do litro. Utilizavam-se como medidas os recipientes que serviam para o transporte da cerveja, do vinho, do azeite, do mel e que tinham as mestuas formas, transmitidas pela tradigfo, e a mesma capacidade. 4.3 Acirculacdo dos bens e das pessoas: as vias A circulagio dos bens que tinha de fazer-se, qualquer que fosse o sistema de pagamento, revestia-se, obviamente, de importincia, fosse por via terrestre, por via fluvial ou maritima. A via terrestre foi a menos importante, porque o Egipto era constituido praticamente pelas margens do Nilo ¢ pelo Delta ¢ os caminhos por terra sé cram possiveis numa parte do ano. A grande via de circulagio de pessoas ede bens era o rio e os seus canais. De tal forma se impunha esse caminho natural que «viajar» era igual a «subir 0 rio» ou «descer 0 tio»'. Pelos efémeros caminhos de terra, usava-se como meio de locomogio 0 burro. De facto, em todos os perfodos da histéria do Egipto, é sempre este animal que aparece usado para os transportes. Num quadro do Império Antigo pode-se ver mesmo uma espécie de liteira sobre o dorso de dois burros, que naturalmente caminhavam a par, parecendo que tal liteira deveria ser um meio para se fazerem™ cnstearnaeneeeremnain deslocar pessoas da alta sociedade. © cavalo, segundo tudo leva a coneluir, s6 se divulgou no Egipto com os Hicsos, espalhando-se também nessa época pela regio sito-palestinense ¢ pela Anatdlia. No Egipto, o cavalo nio era montado, mas usado para puxar o carro. B, sobretudo, a partir da XVIII Dinastia que os cavalos sio representados a puxar os catros. Ocupam entio lugar de importdneia entre os bens do fara6. A fungao de condutor dos carros do rei tinha tal importincia que, por vezes, era desempenhada por principes. Nao havendo estradas por terra, como dissemos, o Egipto tinha uma via que 0 percorria de sul a norte, O Nilo era, de facto, navegavel a toda a extensio do pais, contando ainda com a rede de canais tio importantes para a fertlidade dos campos ‘como para as comunicagées. Era tio normal 0 uso do barco no Egipto, como das gondolas na Veneza actual, 86 que a variedade de embarcagbes, no Egipto, era muito maior, como se pode avaliar tanto pelas representagées que nos ficaram como pela riqueza do vocabulério. Existia, efectivamente, uma grande variedade de barcos, desde aqueles que se destinavam & pesca, até aos navios largos para transporte de obeliscos; desde os navios répidos de remos ou de velas, até outros bem equipados, destinados & guerra. Estes tinham, por vezes, nomes bem expressivos, como o de «touro selvagem». Quanto as dimensées, sabemos que havia desde a canoa pequena até navios com mais de 50m de comprimento, De um destes, dé-nos testemunho a Pedra de Palermo, na IIIDinastia. E é bem conhecido o caso de um navio de 30 metros de comprimento que foi encontrado enterrado, perto da piramide de Kheops, numa fossa rectangular, talvez para ser utilizado pelo faraé nas suas viagens post mortem. Pelas cenas que a arte nos revela, como aquela da expedigdo da rainha Hatshepsut a0 Mar Vermelho e ao Oceano [ndico, podemos avaliar como eram bem equipados. No Império Novo, e mais ainda na época saita ¢ ptolomaica, a decoragao luxuosa de alguns barcos faz-nos ver como este meio de transporte era, nalguns casos, sinal de ostentagio de riqueza Nao deverd ignorar-se, igualmente, a navegagio maritima, que teve importancia nio s6 para fins comerciais mas também para viagens recreativas, como as que se fizeram para Biblos, nos diversos perfodos da histéria do Egipto. Ao lado de uma marinha de guerra existiu, efectivamente, uma marinha mercante, Recordemos que 0 navio de alto mar recebeu 0 nome de Biblos, que os Egipcios pronunciavam, Gublié, como jé tivemos ocasido de informar na 103 eeomeeompetaanen snesce een ce ACTIVIDADES: Procure auto-avaliar a sua aprendizagem, respondendo ao seguinte questionério. 1. Explique a expressio «teologia real» aplicada & monarquia egfpeia. 2. Identifique os funcionérios designados «os olhos ¢ os ouvidos do rei». 3. Assinale com X as afirmagGes verdadeiras Oo O palcio do faraé era um grande estabelecimento econémico, tal como os timulos, o fara6 centralizava e dirigia toda a produgio do Egipto. a A propriedade privada surgiu na V Dinastia, oO ‘Apés a inundacdo das terras pelo Nilo, os funcionarios do ceadastro das propriedades tornavam a marcar os limites dos ‘campos. oO Egipto possufa um subsolo pobre em metais. Oo O Egipto nao conheceu a moeda, mas usou no seu comércio externo instrumentos pré-monetétios, oOo Os templos egipcios lavraram lingotes metélicos para os pagamentos. a As estradas eram as grandes vias de circulagio de pessoas ¢ bens. 108 mae RESPOSTAS AS ACTIVIDADES: is Devia ter abordado na sua resposta que o farad era deus (Hérus e Filho de Ré); se idemtificava com a globalidade do territério, sendo 0 senhor do Alto € do Baixo Egipto; que a sociedade e a economia principiavam e termina- vam nele. Eram os funcionérios da administragéo real que vigiavam e informavam o fara6 sobre a produgio agricola do Egipto. Devia ter assinalado todas as afirmagoes, excepto a 1.4, a 32 e a tiltima. Como sabe, apenas o palicio pode ser definido como um estabelecimento econsémico aonde chegam os produtos e de onde séo distribuidos, sendo um grande armazém de circulagéo de pessoas ¢ bens, a0 contritio dos {timulos, onde estes jiltimos so depositados para «uso» do morto. Ea partir da IV Dinastia que a propriedade privada surge no Egipto, e no da V Dinastia, como esté na frase. Por fim, o Egipto nao possufa uma rede viiria terrestre, apenas o Nilo era o seu grande meio de circulagao, 1s sneer A Religiio Ohbjectivos de aprendizagem Prineipios basicos Duas sfnteses teol6gicas fara6, descendente de Hérus e deus Sol (Os animais sagrados O culto dos deuses O culto dos mortos Activi lade sugerida Actividades ANS RERERTES 109 a capers eR ERR sgn Objectivos de aprendizagem: Depois de ter estudado este capitulo, deve ter ficado a saber que: a religido egipcia era politeista; as trés principais fontes para o estudo da religifo sdo: 0 Livro das Pirdmi- des, 0 Livro dos Sarcéfagos ¢ 0 Livro dos Mortos; o culto era 0 cere da religiio; © farad era o regulador desse culto; cexistiam duas sinteses teolégicas: a de Ré, 0 deus sol, ¢ a de Osiris; as sinteses teol6gicas constituiam familias de deuses; na religido tinha origem a teologia da realeza, sendo o faraé descendente de Horus, filho de Os a partir da V Dinastia, 0 faraé comecou a intitular-se também «filho de Ré>s ‘com os fara6s do Império Novo, cresceu o prestigio do deus Amon que se viria a identificar com Ré, tornando-se Amon-Ré; no Egipto houve, desde tempos remotos, 0 culto dos animais sagrados, mas a sua vulgarizagao ocorreu durante o Império Novo; © culto dos mortos estava intimamente ligado a crenca numa vida eterna, m1 ‘Seaueraeeaeeetenmeseaneenom Os deuses e a religido ocupam mais de metade da egiptologia ¢ toma-se quase impossivel elaborar uma sintese coerente nesta matéria, como reconhecem, egipt6logos da craveira de E. Drioton e J. Vandier' pantefo egipeio integra uma tal quantidade de divindades masculinas ¢ femininas, de idades ¢ importincia tio diversas, que seria justo perguntarmos se se trata de uma ou de virias religides. Mas, faca-se ou nao esta pergunta, ninguém duvidaré que a antiga religiio egipeia é francamente politeista, apesar do episédio passageiro de Akhenaton, em pleno Império Novo, ao querer que se adorasse unicamente Aton. Pelo menos no inicio da hist6ria do Egipto nao houve uma religigo comum. Cada regifo, ou talvez mesmo cada localidade tinha 0 seu préprio deus ow dleuses, que jé vinham da Pré-Histéria, A medida que o pais se foi unificando também o culto dos deuses foi ganhando alguma coesio, Assim, quando um nomo estendia o seu dominio a outros, a fama do seu deus ow deuses sobrepunha-se também nesse territério. Os adoradores de utras divindades aceitavam os deuses daqueles que ficavam detentores do poder € assimilavam as divindades locais a0 deus ou deuses mais importantes. Este pro- cesso de assimilagao verificou-se durante toda a hist6ria do Egipto. O fenémeno tornava-se por demais evidente quando uma familia ocupava o trono. O deus da cidade de onde provinha a familia real aumentava a sua importancia e estendia a sua influéneia. E dentro destes principios que se compreende como é que o prestigio. do deus solar se estendeu a todo 0 Egipto. De facto, poucos deuses deixaram de se assimilar a R€. Da mesma forma, Osiris, que era originfrio do Delta, estendeu a sua fama a todo o pats ¢ foi ainda pela mesma razdo que, no Império Novo, Amon, © deus de Tebas, se implantou em todo o Egipto, identificando-se com o deus Ré. Era conhecido na altura como Amon-Ré, As fontes para o estudo da religiio sio intimeras, quase dirfamos excessivas, Mas Q abundancia quanto ao niimero nao corresponde a qualidade, ou seja, 0 seu valor informativo. Néo existem obras de tedlogos ou de pensadores egipcios que tivessem sistematizado as crengas ¢ elaborado um corpo teolégico, com uma visio completa doutrinal ¢ com um minimo de conexio l6gica entre as suas partes. Nao existindo fontes dessa natureza, os estudiosos do nosso tempo servem-se, de modo especial, de trés obras classicas que coniém abundante documentagio sobre & matéria: 0 Livro das Pirdmides, 0 Livro dos Sarcofagos e 0 Livro dos Mortos. Em todos os casos trata-se de compilagoes de frmulas titeis para aqueles que, apés morte, passavam para a vida de além-timulo, © Livro das Piriimides é uma compilagao das gravuras sobre os muros dos Corredores e das cémaras sepulcrais das pequenas pirimides de Sakara, que compreende textos litirgicos ¢ formulas relativas a0 destino do rei no outro mundo. Alguns textos ai recolhidos tém uma origem remota. Assim, a primeira recensio € da pirdmide de Unas, que foi o tltimo rei da V Dinastia, © Livro dos Sarcéfagos, do Império Médio, é uma recolha de textos, escritos em caracteres hieroglificos cursivos no interior dos sarcéfagos de madeira, da época. sepaaeeneeeoeeeenane * £. Drioton e J. Vandier, LEgypve, 5+ ed, PUE, Pais, 1975,p, 6, us _seevnnn a ettiteeneameneemmenennbne " DoLivo dos Mortos, em por tuputs, podem consular ‘bun verses: O Livro Exipcio dos Mortos, E. A. Wallis Budge, ed. Pensamento, 8. Paulo, sds 0 Live dos Mor- (as do Amigo Egipto, tad. de “Maria Helena Trindsde Lopes, ed. Asso € Alvin, Lisboa, 1991 14 ee a na 0 objectivo destas formulas mégicas era dar resposta as necessidades do defunto no outro mundo ¢ afasté-lo dos petigos. © Livro dos Mortos surgi no Império Novo. Foi entiio que se reuniram textos funerérios em rolos de papiro que se encerravam nas miimias. Alguns exemplares do Livro dos Mortos sio iluminados com vinhetas muito expressivas. Descle ha muito que se fizeram versbes destas fontes da religido egipcia em diversas, guas’. 5.1 Prinefpios basicos Segundo os nossos conceitos moderos ¢ ocidentais, o que caracteriza uma religido €o conjunto de crengas que tém por base a natureza da divindade, bem como a moral dai resultante e ainda 0 culto que se presta a Deus. A moral ¢ o culto tem intima ligagio com a crenga, que se exprime num «credo» ou simbolo da £6. Na religio egipcia, o elemento que the dé alguma coesio e melhor a caracteriza nfio é a erenca, nem mesmo a moral, mas sim, 0 culto, O fundamental na religifio egicpia adorar os deuses, enquanto legitimos possuidores do solo egipeio. De inicio o culto dirige-se ao deus local, senior do nomo, e apés a unificagéo do Egipto, o culto orienta-se para o senhor de todo o pais. Quem regula o culto é orei e€ ele o garante do servigo publico em todo 0 territ6rio. Para isso assegura as doagdes aos deuses legitimos. Seria utopia pensar que 0 rei poderia conseguir uma unificagio dogmética perante tantas ¢ tao diversas tradigbes. E 6bvio que ele seria partidério desta ou daquela doutrina, mas competia-Ihe garantir ‘© culto em toda a parte, permitindo aos sacerdotes locals as suas elaboragoes teoldgicas. E estes de facto nfo descuravam essa fungio, Criavam e desenvolviam toda uma mitologia, uma cosmogonia e uma hist6ria, segundo @ concepgio que faziam do seu deus, sempre com a preocupacio de realgarem a sua importéncia. ‘A teologia dos templos mais ricos ndo deixava de influenciar a dos santudrios mais modestos, como € de supor. Nestas circunstincias, no foi possivel evitar ccontradig6es nas crencas. Se era impens4vel unificar 0 dogma, nfo era impossivel Uunificar 0 culto, como de facto aconteceu 5.2 Duas sinteses teolégicas Segundo oLivro das Pirdmides, a teologia egipcia da época (ou seja do III milénio) cera apresentada em duas sinteses principais: = a sintese solar com origem em Heliépolis, que tinha como deus supre- mo Re; a sates eee sau nnrenenetneanobensaerenneonenemee — eassintese osiriana, dispondo uma e outra dos mesmos elementos mas de maneira diferente, Em ambos os casos, o agrupamento dos deuses fazi: -se por famflias, segundo o esquema pai--mie-filho, ou seja, as trades. Heli6polis, situada a poucos quilémetros a nordeste do actual Cairo, como pode observar no mapa, tornou-se a sede principal do deus Sol, onde floresceu uma famosa escola teol6gica. Os Egipcios adoraram 0 Sol, considerando-o 0 criador do Universo e a fonte de toda a vida, o deus principal. O seu culto estendeu-se por todo o pais a partir da 6poca da uniticago, de tal modo que os deuses locais foram assimilados ao deus Sol. Por toda a parte foi aceite essa divindade e o ritual litérgico celebrado em Heli6polis acabou por ser seguido pelos outros templos egipcios. E curioso analisarmos 0 conceito que os Egipcios faziam do deus Sol, através das formas com que o representavam ¢ através dos nomes que Ihe atribufam, Representavam-no com forma humana, colocando-Ihe na cabega a coroa dupla, que era usada pelo fara6, ou seja, uma combinacéo da coroa vermelha do Baixo Egipto ¢ da coroa branca do Alto Egipto, como j4 aprendeu. Com essa forma chamavam-the Atum. Representavam-no também sob a forma de esearavelho, recebendo neste caso 0 nome de Kepra, 0 que para a nossa mentalidade nfo deixa de ser estranho. Mas vejamos a razio: 0 escaravelho alimenta-se de um pequenino gro de esterco que revolve e enterra num buraco onde o devora. Acontece também que o escaravelho fémea poe 0 ovo num pedacinho de esterco que enterra no chio, até & época do choco. Mais tarde, sai dessa pequena bola de esterco um insecto vivo, aparentemente, autoconcebido. Pois bem, 0 Sol também rola no céu como se fosse uma esfera acima das nuvens e af surge todos os dias. Por tudo isso, existia uma certa semelhanca entre 0 Sol ¢ 0 escaravelho. Além de tudo, o Sol, ctiador de todas as coisas, era tal ‘como o escaravelho, para os Egipcios, autoconcebido. Masa forma mais frequente com que se representava o deus Sol era a de um homem com cabega de faleéo, tendo por cima da cabeca o disco solar € uma cobra, conhecida por Uraeus. Sob essa forma, ele era conhecido por R8. A cabega de falco fazia com que fosse identificado com Hérus, adorado em vérias partes do Egipto. Notemos, entretanto, que este nao era o deus Hérus, filho de Osiris, Segundo a crenga generalizada, Ré surgia todas as manhs por detrés da montanha da aurora, viajando na sua «barca de milhdes de anos», acompanhado pelos deuses do seu séquito com grande cortejo. E a ideia que transparece no hino que se lé no Livro dos Mortos: Salve, Kepra, aquele que a si préprio se concebeu! Quo maravilhoso € o teu despertar no horizonte, quando iluminas as duas terras com os teus raios. Todos 6s deuses exultam ao contemplar em tio deus de todo o eéu. A serpente Uraeus est fixada tua cabeca, as coroas do Alto e do Baixo Egipto em tua testa .. Thor fica junto a proa do teu bareo, abatendo todas os teus inimigos. us ne oaestrses +e exo Hse a Lito dos Moris, Fala 17, sei Ver A,$.Shore, OsDewses Fgipio, (xa. portsves), Feitora Cltit, . Paulo, 1093, p19 16 ce Acreditavam também os Egipeios que, durante a longa viagem didtia, o deus Rg envelhecia, Assim, ao nascer do Sol, RE era ainda crianga; a0 meio-dia, estava ng pujanca da vida, mas depois ia envelhecendo, de tal forma que, a0 chegar a0 fim do dia, se tornava um velho a cambalear. A escola de Helidpolis idealizava a origem do deus Sol do seguinte modo: antes de ser criada a Terra ¢ os céus, antes de existirem os deuses ¢ os homens, havia uma ‘massa aquosa ¢ informe, designada por Nun, Nessa massa é que existia o deus Sol, como se afitma no Livro dos Mortos: «Sou Atum quando ele estava em Nun, sow RE quando ele despontou, quando comegou a governar o que havia sido criado!, (0 deus Sol gerou duas divindades, cuspindo-as da boca: uma foi o deus Shu, que 6 1 personificagio do ar; a outra foi a deusa ‘Tefnut, personificagio do orvatho, Desta forma temos a primeira triade original: o deus Sol (Ré,Atum, Kepra), 9 deus Shu e a deusa Tefiut. Acontece que o deus Shu e a deusaTefut uniram-se e dessa unio nasceu Geb (0 deus terra) e Nut (a deusa do céu), Geb e Nut, por sua vez, também se uniram, gerando o deus Osfris ¢ a sua esposa fsis, bem como Set ¢ a sua esposa Néftis. Temos assim a Enéade, ou seja, a grande Novena, como a mais importante familia dos grandes deuses do Egipto. Facilmente poderemos vvisualizar 0 que acabamos de deserever no seguinte esquema: DEUS SOL (RE - ATUM - KEPRAY? a ee 4 4 SHU + ‘TEFNUT ‘ 4 GEB + NUT 4 4 ‘ {sis SET + NEFTIS Mas a imaginagio egipcia nio se ficava apenas por esta elaboragio teol6gica, devide aos sacerdotes de Heliépolis. Encontrava outras explicagdes engenhosas para °° deuses, quando era necessério. Assim acontecia no caso de Nut ¢ de Geb. Estes deuses, em certa ocasizo, envolveram-se numa violent discussao ¢ mama lta fic o que levou o deus Shu a intervir, separando-0s & forca: empurrou Nat para 0at0€ ficou a ser 0 c6u, ficando Geb prostrado debaixo dessa deusa. B por isso de Egipcios representam o céu como uma deusa colossal, com 0 corpo dobrado $0 ‘o mundo, tendo a cabega para Oeste € as coxas para Leste. iencia Esta doutrina sobre a criagdo dos deuses, a partir do deus Sol, de prover, heliopolitana, ndo era tinica. Os Egipeios foram atribuindo a estes et, caracteristicas de criadores do Universo, como aconteceu no caso do deus oss caer Ménfis. Também ele desempenhou fungdes criativas sob as ordens do deus Sol. Houve mesmo uma tradigio, testemunhada na estela n° 498 do Museu Britdni que representa Ptah como criador do prsprio deus Sol e de outros deuses. £0, ‘Aescola de Hermépolis, por seu lado, elaborou um sistema diferente, de certo menos vigoroso que @ de HeliGpolis. Em vez de apresentar a Enéade, a novena dos douses primitivos, aptesenta a Octéade, ou os oito deuses, mas de uma forma muito diferente, Estes deuses, em vez de safrem do deus Sol, precederam-no, ‘Tot era 0 deus local de Hermépolis, do qual nasceria, em Gltima anslise, 0 proprio deus Ré. Nasceram de Tot os casais primitivos que tinham os nomes de Noite, Trevas, Mistério e Eternidade, Refugiados numa colina que emergia do Abismo, ali mesmo em Hermépolis, esses casais primitivos criaram um ovo donde saiu o Sol. Foi esse grande deus que, ap6s ter vencido os inimigos, criou e deu forma ao mundo. Acscola de Hermépotis, em vez de subordinar tudo a Ré, como fazia a escola de Heli6polis, criou uma sintese, onde tudo acabava por se subordinar a Osiris, isis e Horus, Osiris era um deus da vegetacio, {sis uma deusa do céu e Hérus um deus falco, Curiosamente, neste sistema, a deusa Néftis, esposa de Set, que era inimigo de Ositis, manteve-se sempre aliada a este iltimo. Notemos que outros santuérios menos importantes também tiveram os seus sistemas {eol6gicos e as suas cosmogonias, imitando Heli6polis ou Hermépolis ou entio misturando, por vezes, os elementos de uma ¢ de outra escola, sempre com a preocupagio de se imporem. E dentro dessa dindmica que se explica como Ménfis, a0 tomnar-se capital, nos primeiros tempos da hist6ria do Egipto, elevou o seu deus Ptah & categoria de deus supremo, chegando este, como dissemos, a exercer fung6es criativas ou sob as ordens do deus Sol ou pelo seu proprio poder. Além dos templos, também o povo ia criando lendas a respeito dos deuses, como foi o caso da lenda de Osiris, tio importante em Hermépolis, a qual se generalizou © entrou na religio popular. Ficou-nos conhecida pela informagéo de Plutarco que 4 reproduz no estado mais recente em que a encontrou quando contactou ‘litectamente com o Egipto. Conserva-se no Museu do Louvre um hino a Osiris, ue nos leva ao Império Médio, e conhece-se também uma versio do Império Antigo, através do Livro das Pirdmides. Fieamos a saber, por exemplo, que Osiris era filho de Geb, 0 deus terra, e de Nut, a deusa do céu. Assim sendo, por razées de familia, Osfris era herdeiro de um MPEtio que se estendia a tado o Universo. Veio a tomar parte na heranga e governou. © mundo com sabedoria e benevoléncia. Entretanto 0 seu irmao Set era muito ‘liferente:tinha mau temperamento e acabou por mati-lo, arremessando, em seguida, © cadiver ao mar. Segundo alguns, esquartejou o cadaver, dispersando as diversas ‘ee E nesse momento que intervém fsis e sua irma Néftis a procuré-lo. Foi do Ver reanimado de Osiris que {sis recebeu 0 gérmen no seu ventre. Uma vez Brivis, refugiou-se para escapar a Set, vindo a dar i luz Hérus. Este deus cresceu, "MOU-Se adulto € atacou Set, a quem venceu, tendo-lhe mesmo arrancado um — 7 ASS, Shor us oh 2 olho que ofereceu a seu pai Osiris. Mais tarde Horus sucedeu a Osiris no govern do Exipt. ‘Como vemos, antes de subirem ao céu, estes deuses haviam reinado na terra Por tal razio, as antigas listas reais comecavam por eles e o papiro de Tarim, de que falmos, até indica o némero de anos do reinado de cada um, 0 siting desses deuses, Osiris, deixou a realeza a seu filho Hérus, Dat por diante, todos os reis do Egipto que haveriam de seguir-se eram seus descendentes. Os direitos do rei fundavam-se, portanto, na sua natureza divina, que era transmitida pelo sangue. Eis o grande fundamento da teologia da realeza no Rgipto. Esta legitimagéo foi sempre afirmada e nas primeiras dinastias, a divindade do faraé era impreterivelmente explicitada em fungao da sua descendéncia de Horus. Era de sangue divino por nascimento e, depois da entronizagio, tornava-se uma réplica do préprio Hérus. 5.3. 0 farad, descendente de Horus e deus Sol Mas perguntar-nos-emos como é que o fara6, descendente de Hérus, passou a ser também considerado uma encarnagio terrestre do deus Sol RE, poissabese que, apesar de manter 0 titulo de Hérus, o faraé intitulava-se filho de RE iguatava-se aos deuses da Enéade, De facto, com 0 desenvolvimento escola de Heli6polis, na V Dinastia, o Horus real néo era s6 um deus particular mas o proprio Sol. O faraé era filho de RE. Logo que morta, o rei ia juntar-se a0 seu dvino pa, Ré, a fim de participar da sua gléria e com ele reinar. Assim, quando a Histéria de Sinué nos fala da morte de Amenenés, 0 fundador da XII Dinasti, informa que 0 «aei do Alto ¢ do Baixo Egipto vou para 0 céu ¢ uniu-se a0 sol, 0 corpo do deus fundia-se com aquele que 0 tinha criado>', [A glétia do faraé associou-se & gloria do deus Sol, sem divida o deus mais importante ao longo da histéria dos Egipcios. Mesmo quando outros deuses adquiriam grande prestigio, por causa de acontecimentos politicos, mesmo entiog doutrina do deus Sol exercia a sua influéneia nos outros sistemas. Caso bem claro {0 do deus Amon proveniente de Tebas. Quando o trono passov para una fanfig de Tebas, 0 deus Amon passou a ser o grande deus nacional, com um presigio sempre crescente no decurso do Império Novo. A ele se atribuiy = Vii sobre os Hicsos, bem como a expansio do Egipto para os paises do Mesto Oveie Faisal, para que fosse aceite como deus nacional, foi necessério que Se omssseun Ces solat. Foi assim que o deus Amon se identificou com o proprio RE. Tomei poe edivulgou-se a doutrina, segundo a qual Amon-Ré, 0 deus Solera mil natitt de todos 0s farass. Era dele que recebiam o ono, Pela desc NT Tet nos baixos-relevos do femplo de Deir el-Bahari, sobre 0 MOU” ee Hatshepsut, depreendemos que se acreditava que Amon OmA do fara6 no momento em que tinha relagdes sexuais com a72in08 herdeiro do trono, Embora o rei mantivesse o tftulo de Hérus, usava também 0 de filho de Ré, ou de Amon-R8, durante o Império Novo, Claro que as vicissitudes politicas tinham os seus reflexos na propria titulatura, No Império Antigo, o rei foi chamado 0 grande deus; no Império Médio, era 0 ‘bom deus, no Império Novo, a sua sujeigio a Amon-Ré fez com que prevalecesse na sua titulatura a ideia de filho deAmon-R@ e se acentuasse 0 seu papel de vigdrio, ou seja, 0 que faz as vezes de deus? ‘Tendo direitos pelo seu nascimento, o mesmo ¢ dizer pelo sangue divino, apés a sagragio, ocupava o trono ¢, como deus entre os homens, era o encarregado de fazer reinar a justiga de Ré. Sabemos que nem sempre a via da sucessio se processava com normalidade. Mas, em tais casos, recorria-se a uma ficgdo para legitimar o rei, mesmo que ele fosse um intruso. A explicacio basica era esta: o deus Sol tinha intervindo ditectamente no seio da mae. Dessa forma ele havia adquirido a pureza do sangue solar. Alenda que se havia generalizado para legitimar os fundadores da V Dinastia, cujo fundador foi Userkaf (farad de que se nfo conhece genealogia real) seria aplicada no decurso da hist6ria nos casos desesperados. A imaginagio dos sacerdotes de Amon, princi-palmente a destes, era fértil e engenhosa quando necessério, Qualquer que fosse a origem do Farad, ele acabava por ser sempre da estitpe divina A sua morte iria juntar-se infalivelmente a seu pai, 0 Sol. Por isso, junto do seu ‘timulo, era-Ihe levantado um templo onde se perpetuaria 0 seu culto como deus, que passava desta terra para 0 Além. Perto dele apenas seriam sepultados os seus altos funeionérios a quem concedia o privilégio de continuarem a formar a sua corte no outro mundo, participando dos seus destinos. A necrpole estava bem demarcada, pois era terra sagrada, jé que ali jazia um deus com a sua corte. 5.4 Osanimais sagrados Oculto dos animais sagrados ¢ algo caracteristico do Egipto. Aceita-se geralmente que, em tempos remotos, anteriores & unificagio do Egipto, cada nomo adorava uma espécie de animal particular, considerando-o divino. Mas, curiosamente, foi durante 0 Império Novo que se vulgarizou o culto dos animais, o que, em parte, viria a contribuir para o decli io da religifo egipcia. Dizemos «curiosamente», Porque foi nessa época que mais se fez sentir 0 zelo do rei, que devia zelar pela Pureza da religiao, encaminhando para os templos doagGes ¢ riquezas de toda a ordem. Apesar de florescer a religio nos templos tradicionais, vé-se alastrar pelo Pais 0 culto a animais sagrados: gatos, cées, crocodilos, cobras, faleses, insectos.. Na época de declinio mais acentuado, o perfodo greco-romano, o fenémeno dessa Proliferacdo de animais sagrados era to grande que nao escapow a ironia mordaz, do poeta Juvenal: «6 povos santos, para quem nascem estes deuses nos seus quintais»2, *E, Drioton J. Vandie, ob cit, p88. CL. Lalouete, Au royaume d'Egypre, le temps des ris dew, Fayand, Pa 1991 Cit por. S. Shorter obey p.3t, ug "et, Hii 25 cis. Seon et Roe Ses Bo Se pis 2 ait Ndi ob, Sed, 18,9. 120 © culto oficial dos animais, tal como € testemunhado nos perfodos mais remotos, apenas se dirigia a um tnico individuo da espécie, que era escolhido por ter marcas especificadas pela tradigdo e pelos rituals. Esse animal era entronizado no interior do préprio recinto sagrado, embora a jaula ficasse fora do templo. Era ali que ocorriam as oferendas para 0 animal sagrado ¢ era também ali que se encontravam, 0s seus oréculos. Quando morria, realizavam-se funerais com grande pompa, cumpria-se 0 luto durante um determinado perfodo de tempo e, em seguida, procedia-se & delicada tarefa de encontrar um animal que the sucedesse. ‘Vejamos, por exemplo, no caso do boi Apis, considerado encarnagao de Ptah, em Ménfis, como seria dificil encontrar um exemplar com as caracteristicas exigidas. Herédoto apontou-as do seguinte modo: Devia ser nascido de uma vaca que nio fosse eapsz, daf por diante, de receber, dentro dos seus flancos, outro feto. Os Egipcios pretendem que um relmpago cala do eéu sobre esta vaca e que é com esse relimpago que ela conicebe o boi Apis Este touro joven que se chama Apis reconhece-se pelos seguintes sina: negro, traz sobre a fronte um trifngulo branco, sobre o dorso a figura de uma gguias os pélos da catuda séo duplos; sob a sua lingua desenha-se um escaravelho.! Mas havia outros animais sagrados também famosos e muito venerados, tais como: Mnévis, encamagio do Sol em Heli6polis, ¢ Biikis, encarnacio de Montu, em Hermépolis; o carneiro de Amon, em Tebas, o de Khnum, em Blefantina; 0 carneiro de Osiris, em Busftis; 0 crocodilo de Sobek em Faium; a gata de Bastet, em Bubastis... Poderfamos ainda ver mencionados a vaca nos templos de Hathor, o cio dos templos ‘A presenga destes animais na religido egipcia faz pensar que se trata de sobrevivéncias, de antiga 2oolatria, Embora entrassem na prépria religido oficial, ocuparam ai apenas, uum lugar secundério, mas 0 seu culto generalizou-se entre 0 povo. 5.5 O culto aos deuses O culto que diariamente se prestava nos templos, segundo o ritual mais vulgarizado, dirigia-se & pessoa do deus. Fazia-se a toilette a estétua do deus: vestia-se, perfumava-se e dava-se-lhe alimento. Preparavam-se para 0 deus iguarias que Ihe eram servidas em pratos por uma determinada ordem, & semelhanga do que acontecia nos paldcios. Sobre essas oferendas, 0 oficiante pronunciava as f6rmulas rituais de oblagéo, para que a sua substincia passasse para 0 mundo invisfvel e fosse agradével ao deus. Em seguida, a comida eta levada, por partes, para a frente das estétuas dos particulares admitidos ‘no templo, a fim de tomarem parte nas oferendas. Finalmente, era dada também aos privilegiados que o rei tinha dotado com uma renda alimentar no templo?. Estas cetiménias tealizavam-se trés vezes ao dia, dentro do santuério, longe dos olhares dos profanos. Mas 0 povo nao era esquecido, pois em certas festas 0 idolo aE ssafa do santuétio, embora escondido por um véu, sendo levado em procissao sobre ‘0s ombros dos sacerdotes na sua barca sagrada. O cortejo parava em frente de certos templos exteriores, onde Ihe eram apresentadas oferendas. Durante 0 percurso actuavam coros de miisica ¢ de cantares ¢ 0 deus recebia as homenagens da multidgo. 5.6 culto dos mortos ‘Um dos aspectos mais fascinantes da religido egipcia 6, sem diivida, 0 cuidado que todos tinham com os mortos, por causa da crenca na sobrevivencia para além desta vida. Os conceitos antropolégicos ¢ a escatologia ndo sao perfeitamente conhecidos quanto a varios aspectos, mas € evidente que, para os Egipcios, a morte era a separaco do elemento corporal dos elementos espirituais, 0 ba ¢ 0 ka. Nao é facil compreender-se com exactidio 0 que era um ¢ outro, mas nio é exagero traduzir- se ba por alma, elemento representado por uma ave com cabeca humana, Quanto a0 ka, pensam alguns que era um duplo, uma espécie de reflexo imaterial do corpo. Ranke explica desta forma 0 ka como um ser imaterial que reside no homem a0 qual confere, pela sua presenga: proteccio, vida, felicidade, satide e alegria!. Era crenca muito arreigada que a alma, mesmo separada do corpo, continuava ater necessidade dele para subsistir. Por isso, se 0 corpo fosse destruido, também. a alma desaparecia definitivamente. Como se vé, os Egipcios acreditavam que @ morte fisica nao era aniquilagio. B esta erenga no post mortem atingia de tal forma a sociedade que the determinava 0 comportamento, a prépria organizagao e nao apenas as praticas rituais, por ocasiéo dos funerais, mas tinha consequéncias na prépria economia. A sociedade toda estava empenhada © comprometida com 0 Além. A esperanca da sobrevivéncia para além da morte marcava-Ihe 0 comportamento terrestre. Quanto a isto, nenhuma outra civilizagio se pode comparar a egipcia, ou, como escreve Pascal Vernus, «nenhuma civilizacio teve mais do que a faraénica a intuigao do sobre-humano»2. ‘A primeira consequéncia desta crenga é 0 cuidado com o enterramento dos mortos, pois era necessério fazer todo o possivel para conservar 0 corpo. Daf 0 cuidado com o lugar onde era colocado 0 cadaver e com as praticas da mumificagio. De inicio os cadéveres, envoltos em peles, eram colocados nos desertos para que a secura os conservasse. Depois, foram-se inventando processos de conservaciio € desenvol-veram-se técnicas de embalsamamento que atingiram grande perfeigio. Ja desde @ Epoca Tinita o embalsamamento se tornou uma técnica ¢ uma arte. ‘Se durante os Impérios Antigo e Médio, se vio notando métodos nos processos de mumificagio, 0 seu apogeu seria atingido no Império Novo com o afluxo dos aromas. € das esséncias asidticas, Sao dessa época as miimias mais bem conservadas que chegaram até aos nossos dias Escritores gregos como Diodoro da Sicflia e Herddoto descrevem-nos as operagdes de mumificagio, que eram diferentes, conforme a categoria social do defunto. cusses "A. Biman ¢ Ranke, ob. cit, p38 2 pascal Vers, ob i, p. 9 1 ° Herddto, Hisdra, tra. ft de Ph. Legrand, col, «Les Belles Lets», vol, pp- 86, Tes m haemnanent seenmnene nena, ‘Vejamos a descrigdo que Herédoto nos deixou, quando o morto era um individuo rico: Primeiramente, com a ajuda de um ferro curvo, extraem o eérebro pelas natinas, cem parte pela operacio deste ferro, em parte por efeitos de drosas que deitam para dentro da cabeca. Em seguida, com uma pedra cortante da Eti6pia, fazem ‘uma incisio ao longo do flanco ¢ retiram todos os intestinos, que limpam © putificam com vinho de tamareira epurificam ainda uma segunda vez com aromas, triturados [mo‘dos]. Em seguida, enchem o ventee de mirra pura mofd, de canela ‘com excepgio do incenso, ¢ cosem-no. Feito isto, e de todos os outros aromas salgam o corpo recobrindo-o de sal natural, durante 70 dias. Nao devem deixé-1o ro sal mais tempo. Quando se passaram 08.70 dias, lavam 0 morto, ligam todo o tas de um tecido de byssos [ou seja, linho finissimo], com, corpo com faixas, ‘uma camada de cola [ou goma que os Egipcios usam]. Os parentes entio fazem a centrega dele; mandam fazer um caixo de madeira com a figura humana; nesse caixio depositam 0 motto, fechado assim, guardam-no preciosamente no interior de uma camara funeréria, onde o colocam de pé contra a parede. Mas se 0 defunto tivesse recursos modestos, 0 processo de embalsamamento tinha outra evolugio: ‘com isso enchem Enchem uma seringa de Iiquidos gordurosos que provers [ co ventre do morto, sem o abrir nem Ihe retirarem as entranhes, fazendo a injecgio pelo fundo e impedindo que a lavagem volte por onde entrou; colocam-no em sal durante © niimero de dias prescrito, No éltimo dia fazem sair 0 dleo gorduroso que ld tinham introduzido. Tal & a sua forga que traz consigo os intestinos e as visceras dissolvidas; quanto &s carnes, elas sio dissolvidas pelo carbonato de sédio natural; € néo testa senio a pele e 0s 0880s. Feito isso, os embalsamadores ‘entregam 0 corpo, sem se preocuparem mais. ‘Quando o morto era um pobre, a técnica era mais rudimentar: no sal durante Purificam-se os intestinos com asirmdria {um desinfectante]; pie-s 70 dias; ¢ 0 corpo € entregue pata ser levado.! Concluido 0 que era necessério para a protecgio fisica do corpo, também se pensava na proteccéo magica, nao faltando para isso amuletos ¢ 0 tracado de linhas figuras simbélicas sobre o proprio cadiver. Nunca deveria faltar, por exemplo, um escaravelho colocado sobre o peito, com uma fSrmula que encorajava o coragho @ no testemunhar contra 0 set senhor no tribunal de Ositis. 0 tratamento da mémia exigia ainda um caixéo, habitualmente decorado com formulas mégicas. As visceras, por sua vez, eram metidas em vasos chamados canopos ou canopiais. A partir do Império Novo, esses vasos eram ordinariamente de alabastro, tendo uma tampa que reproduzia a cabega de um dos quatro filhos de Horus: cabega humana, cabega de babuino, cabega de chacal e cabega de faleio. funeral fazia-se com pompa, nao faltando as carpideiras, mulheres que tinham @ profissdo de chorar nestas ocasides. Antes de 0 caixio ser colocado no timulo, ssonoeereeenarnnt svete emeemmpre procedia-se & ceriménia da «abertura da boca», que consistia em entregar magicamente a0 defunto 0 uso dos érgdos do seu corpo. “ ‘Apés a morte, © morto tinha de passar pela grande sala da justica, ond encontravam, a0 ldo de Osi, 42 figuras de génios, com cabecas de serpente, de falto, de vampiro, de carneito, tendo cada uma dels na mao ume idea O mete tinha de comparecerdiante desta figuras para confessa a sua inocénein, Ai devia nem cometera outros pecados, como podemos ler na f6 : , lemos ler na formula da sua confi cap. 125 do Livro dos Morto cerueconeiae Louvado sejas grande deus, tu, 0 dono das Duas Verdades, Ea vim par 6 meu enor, para contemplar tua bee, Eu conheco-te ¢ sei o nome dos quarenta e dois deus: pees lois douses que esto contigo na sala julzo Eu venho para vem malfeitores e bebem o seu sangue no dia do ago a verdadee escondo 0 pocado, x munca pequel contra os homens. No fz mal aninguém, Nunca atingio tron da verdade, Nao cometi mal nenhum, ‘Nada fiz do que detestam os deuses, “ No indispus ninguém conta o seu superior Nio deixeininguém ter fome, Nao fz chorat. Nio mate io mandei mata, Nio cause sofrimentos a ninguém, ‘Nio reduzi o sustento dos templos. : fo diminu o po dos deus Nao roubeios alimentos ds gloriicados Nao reduzi as medidas gro, Nao diminut 0 ebvado, Nio falstiquei a media agri, Nao sobrecarreguei os pesos da balanca Nao falsifiquei a agiha da balan. Nib retcio lete da boca da cringe Nio tre o gado da sua paste lel Ni desprezei deus no meu coragio. Eu sou puro, sou puro, sou puro! Sean, urbe; vs nome ais are do grande ds sgusan ue bsp smo puns aguem dh on gieo ven: Seabala eS Panga sore ‘qual estava 0 coragto testemunhava que no tinha pecado, que a sua confissdo, entio Thot, 0 escriba dos deuses, {Re cra dada pelo tribunal divino. A partir da, induz este novo sibdito a seu pai Ostis, tl co rei um homem de mérito»?. eserevia a sentenca «rus toma o morto pela mao € mo na terra um prineipe apresenta Ker i ‘nga neste tribunal de Osiris esté bem representada no cap. CXXV do Livro os Mor i 6 age fs ae snetpa i) imps Novo, onde uma vinheta, que aparece a ilustrar Sana ete feptesenta Osis sntado no seu tno, endo a sua frente 0 tibuna eellzars® dos 42 pecados, enumerads no texto, Se, porventur, 0 ihecesse mentira, a alma era lancada aos suplicios até ser aniquilado ote Sd “Cit porA. Eiman,La religion des Exyptons, , 264, A. Biman, ob, it, p 320, 123 eeeanreerrnt Ree completamente. Mas se era declarado justo, recebia o direit destinos de felicidade. 10 de entrar nos seus ACTIVIDADE SUGERIDA: Leia 0 cap. 125 do Livro dos Mortos em Maria Helena Trindade Lopes, 0 Livro dos Mortos do Antigo Egipto, Assitio ¢ Alvim, Lisboa, 1991, pp. 153-161. A definigio do modo ¢ do lugar de felicidade variou conforme as épocas as regides. Para os habitantes do Delta, esse lugar era uma ilha, conhecida por Campos Eliseos, onde havia uma Primavera eterna, Af Osis, que é justo e bom, acolhia os que chegavam e assegurava-thes a abundancia e a felicidade entre os trabalhadores. Sabemos também que a partir da V Dinastia, quando se vulgarizou a esperanga da sobrevivencia para todos, que nao s6 para o faraé e para aqueles que 0 rodeavam, as almas eram transportadas para junto do Sol eera-Ihes assegurado um destino imortal, entre os deuses que estio ao servico de RE. Se tal destino era inicialmente reservado 0 rei, ele estendeu-se depois & familia real e aos funcionérios e, por fim, a todos os Egipcios. Havia também a ideia de que 0 morto tinha de ser alimentado pelo cuidado dos vivos, Por tal razao, instituiu-se 0 servigo de oferendas ao morto, De inicio, tal servigo era custeado por fundacdes reais, o que era um privilégio daqueles a quem era permitido serem sepultados na necrépole do tei. Mas, com 0 empobrecimento da monarquia, a partir da VI Dinastia, o tesouro real nfo podia suportar tanta despesa com a obrigacdo de alimentar 0s mortos. Apelou-se entdo & generosidade privada © comecou a recorrer-se a férmulas mégicas que substituissem a alimentagio. Este processo magico tomou-se, a partir do Império Médio, a maneira normal de alimentar os defuntos, para além das oferendas reais, depositadas nos tGmulos em certos dias de festa. semelhiante 4 que Em virtude de se ter idealizado uma actividade, no outro mundo, . servos ou de ‘ morto levava na vida terrena, colocavam-se no timulo estatuetas de mulheres para que se transformassem em seres vivos ¢ reais no mundo do Alén ‘A partir do Império Médio, multiplicaram-se, nos sare6fagos, tis estatuetas méeic® de servos agricoas, a fim de ajudarem 0 mozto nos seus traballos no paraiso osii2% Ficaram conhecidas essas estatuetas funerérias por shawabris, que nfo terio surbt antes da XI Dinastia. Eram primeiro de cera e depois de pedra ou de madeira ; i es distingue-S° ‘A magia que esteve sempre em voga na civilizagao egipeia, por vezes GST NT, 7 " : faltava também mas ‘mal da religido, Se entrava nas priticas da vida quotidiana, néo cabou 7 er omo proprias préticas funerdrias, bem associadas ao culto dos mortos, com estudar. roy ACTIVIDADES: procure, a partir dos objectivos de aprendizagem enunciados, no inicio do capitulo, selembrar os principais conhecimentos que estudou. Depois tente responder as seguintes questdes. 1. Associe os elementos da coluna B com os da coluna A, colocando nesta os nimeros que The correspondem da B. Coluna A Coluna B ___ Set 1-Aton ___ Apis 2-Kepra ___ Osfris 3-Sakara ___ Ptah 4—descendente de Horus ____. escaravetho 5 —Hermépolis ___. Akhenaton 6-Sol ___. faras 7 — deus da vegetagao __._ Livro das Pirdmides 8—Néftis, Re 9—boi _____ teologia de Osfris 10 — Mentis 2. Caracterize 0 culto dos mortos no Egipto. ns 126 EPS RR re eee RESPOSTAS AS ACTIVIDADES: L. Devia ter associado: 8 (Néftis) / Set; 9 (boi) / Apis; 7 (deus da vegetagio) / Osiris; 10 (Mentis) / Ptah; 2 (Kepra) / escaravelho; 1 (Aton) / Akhenaton; 4 (descendente de Hérus) / fara6; 3 (Sakara) / Livro das Pirdmides; 6 (Sol) / RG; 5 (Hermépolis) / teologia de Osfr Na sua resposta devia ter mencionado: a crenga na vida eterna; @ necessi dade que a alma tinha do corpo para poder subsistir; as préticas de mumificagao, os funerais ¢ os timulos; a alimentagao dos mortos: da depo- sigo de alimentos as f6rmulas magicas; a crenga de que, apds a morte, © morto era conduzido ao tribunal de Osiris, onde devia pronunciar a confis- sio negativa. Reb RA RE EERE RESIS 6. A Cultura ‘TABUA DE MATERIAS~ Acultura Objectivos de aprendizagem O eseriba A literatura No Império Antigo . No I Pertodo Intermédio Actividade Resposta a actividade No Império Médio Activi lade No Império Novo Na Epoca Baixa As téenicas e as ciéncias As técnicas As ciéncias As artes A arquitectura A escultura As artes parietais As artes menores Objectivos da aprendizagem: Depois de ter estudado este capitulo, deve saber que: luma das fungdes mais respeitadas era a dos escribas; as escolas dos escribas estavam ligadas 8 corte, aos templos e aos servigos centrais da administragio; medicina, a astronomia ¢ o célculo eram ensinados em escolas proprias, designadas «casas da vidan; © suporte da escrita egipcia era, por exceléncia, o papiro; 9s caracteres hicroglificos eram inicialmente figurativos, antes de serem cursivos; a escrita hieroglifica cursiva subdividia-se em hieritica ou sacerdotal ¢ demética; ha testemunhos de literatura egfpeia desde o III milénio a. C.; houve uma intima relagdo entre a religido e a literatura; os Egipcios cultivaram a literatura sapiencial, as biografias, os anais, 0 teatro, o romance histético, a narrativa e a poesia; «técnica do paralelismo caracterizou a poesia egipcia e foi comum a todo © Médio Oriente Antigo; 8 literatura alcangou 0 seu perfodo éureo, durante o Império Médio; a tradi¢ao egipcia permaneceu na literatura, até ao perfodo romano; 0s Egipcios preocupavam-se com 0 conhecimento universal, elaborado a Partir da experiéncia do concreto e da aplicagio de técnicas; cultivaram a matematica, a astronomia e a medicina; @ astronomia e a medicina estavam ligadas & magia; ‘108 Egipcios se devem 0 calendétio solar e os primeiros relégios; a religido ¢ a realeza estavam intimamente interligadas com a arte, 134 en Incluimos neste titulo as manifestaGes da vida intelectual em trés éreas especificas as letras, as cigncias e as artes. Em todos estes casos, supunha-se uma formagao basica, adquirida nas escolas, nos efrculos dos escribas. Comecemos pois por observar como era a formagio do escriba, 6.1 Oescril Aguele que queria aprender a profissio de escriba era encaminhado para a escola nna idade infantil, pois a aprendizagem devia ser longa e trabalhosa. Supunha-se, obviamente, que a crianga tinha alguma inclinagio para as letras, porque, de outra forma, ndo se adaptaria as exigéncias escolares. Um sabio, de nome Duauf provavelmente do Império Médio, deixou-nos uma obra conhecida, desde Gaston Maspero, por Satira das Oficios, onde nos informa como acompanhou 0 filho, Pepi, & escola dos escribas que estava ligada A corte, para que este viesse, mais tarde, a ser escriba. Comega por Ihe dizer: «P6e 0 teu coragio nos livros, nada hi que ultrapasse 0s livros. O escriba como um barco a navegar sobre a égua»'. aprego pela cultura aparece repetidas vezes nessa ¢ noutras obras literérias, © mesmo sabio Duauf podia acrescentar que «nada existe que nao seja dominado, com excepgiio do sabio, porque ele é que domina2, Convém antes de mais esclarecermos que siibio nfo tem o mesmo significado que actualmente Ihe atribuimos. O sdbio do Egipto e da Antiguidade pré-clissica é aquele que possui, cultiva e ama a sabedoria, que ¢ filosofia, observagio das realidades, conhecimento experimental, que leva a pritica das virtudes humanas para triunfar na vida, como teremos ocasido de observar na leitura de textos sapienciais mais adiante. Pois bem, 0 sabio Duauf revela nas suas palavras que o objectivo da cultura é antes de mais adquirir uma posigo € um estatuto social superior aos outros. Aids, toda a sua Sdtira dos Oficios pretende exaltar, acima de tudo, a profisséo de escriba. Toda a obra se orienta para esta conclusdo: faz-te escriba. Este é 0 homem, instrufdo que pode mandar ¢ esté preparado para desempenhar misses importantes. Assim, quando o rei precisa de um embaixador, escolhe um escriba. Este estava apto a desempenhar uma funcao no Estado, podia exercer a autoridade sobre os Outros e gozava de uma situagéo estavel. Os outros podiam ter fome, mas ele estava saciado por causa do seu saber: Compreende-se, pois, a satisfagéo de qualquer pai ao encaminhar um filho para a casa de instrugio, na esperanga de o ver um dia na categoria de escriba. De inicio, a escola estava ligada a corte, havendo também templos que possufam 8 suas escolas. Mas, com 0 andar do tempo, outros centros de aprendizagem © M. Lichtheim, Egypian Literature, Berkeley, Las Angeles, Londres, 1975, vol 1p 185 > bide. Ancient 1 _seoveranemennetnnenneneet 14 esneenertent ss EERE ee RU surgiram, ligados aos servigos centrais de administracao. Foi, sobretudo, a partir do inicio do Império Novo que se organizaram escolas, a fim de prepararem os seu quadros. Entretanto a colocagio dos seus «formados» poderia ser fora de tais servigos, em quadro diferente daquele a que pertencia a escola. Conhecem-se efectivamente casos de funcionérios que mudaram de um servigo para outro, Alguns templos tiveram também as suas casas da vida, escolas assim chamadas, por ensinarem a medicina. Ap6s 0 curso geral de escriba, alguns podiam prosseguir os estudos em casas da vida, dedieando-se ao estudo da medicina, da astronomia e do eéleulo. Mas voltemos a escola dos aprendizes de escriba, para vermos quais os métodos de ensino, A disciplina era rigorosa: poucas horas para dormir, refeigoes frugais e ccastigos corporais. A primeira parte do dia era destinada ao ensino, tendo o aluno ‘como alimento pio e cerveja. O castigo fisico era considerado fundamental, j que o adolescente, segundo se dizia, ouve ndo s6 com os ouvidos, mas também com ‘corpo quando se Ihe bate. Dava-se como justificagao 0 seguinte: 0 homem consegue domesticar todos os animais, desde o papagaio que aprende a falar, até aos ledes, 0s cavalos, etc, Por que motivo néo se havia de «amansar» também o aprendiz de escriba?! Este tinha de estar aplicado ao trabalho, de livros na mio e ouvidos atentos, pois tinha muito que aprender. Na escola, para escrever, servia-se de juncos bem afiados na extremidade e quando deixavam de estar afiados, eram naturalmente substituidos. Para estar prevenido, 0 estudante, tal como mais tarde o escriba, no exereicio da sua profissio, segurava atrés da orelha um ou dois de reserva. A principio o estudante eserevia sobre tabuinhas de madeira, recobertas com uuma espécie de cera, onde se racavam as linhas. Desta forma, a8 linhas ¢ a escrita podiam ser apagadas ¢, de novo, usava-se a mesma tabuinha. Quando o estudante jé estava mais adiantado, poderia entio utilizar a membrana de papiro. A tabuinha ou © papiro, no momento em que estavam a ser usados, encontravam-se colocados, sobre uma paleta, assente sobre as pernas cruzadas do estudante, sentado no chao. B esta a imagem do escriba que ocorre a0 nosso pensamento: 0 homem cullo, conhecedor da ciéncia da escrita, sentado de pernas eruzadas, a copiar com o set célamo um papiro desenrolado sobre os seus joelhos.. ‘A paleta tinha duas ou mais cavidades, ou orificios, & maneira de tinteiros, onde se punham as tintas. Nao podia faltar a tinta negra, para escrever o texto, nem a tint vermelha, para escrever o titulo. Conservava também a seu lado uma pequen® vasitha com gua, que servia pata diluir as tintas ou para ajudar a apagar alguma coisa, quando fosse necessério. Sto conhecidas varias paletas do Império Médio e muitas mais do Império Novo, de madeira em forma rectangular e, por vezes, com uma ranhura a servir de estojo: O ensino comecava pela escrita que, certamente, era muito complicada. Era necesséria mio habil para um trago firme e desenho de pormenor, Esta eserit®, como se sabe, comegou por ser figurativa, ou seja, a imagem correspondia a uma _omennereanesnnn sesso Palavra, tal como aconteceu noutras regides do Mundo, onde primeiro se usow a escrita, Assim, desenhava-se um homem para designar «homem e representava-se com as pernas abertas para dar a ideia de «caminhar», tal como se representava luma ave com as asas abertas para a nogio de «voar». E facil verificar-se que os caracteres hieroglificos permaneceram sempre, durante a historia egipcia, como imagens. Pouco a pouco, tais representagdes foram-se esquematizando, quer dizer deformando, e chegaram a ficar irreconhectveis. Quanto mais antiga € a escrita, mais proxima esté da imagem das coisas que pretende reproduzir. Tal aspecto pictogratico nota-se, por exemplo, na famosa paleta de Narmer, do principio da 1Dinastia. Numa das faces representa-se o tei a bater num inimigo. Acompanha esta cena uma inscrigao explicativa que mantém o caréicter pictogréfico. Poderemos ignorar qual a leitura exacta que faziam os Egipcios desta inscri¢ao, mas tudo faz SupOr que o rei Narmer vence os inimigos com a protecgio do deus Hérus que aparece representado a sua frente, sob a forma de faledo, a proteger o rei. Esta pictografia € designada por «escrita hieroglifica», sendo 0 termo «hier6glifo» derivado do grego hieros (sagrado) e glyphein (esculpir). No grego, chamava-se hieroglyphica grammata, ou seja, «letras sagradas esculpidas». Mas esta designagéo no significa que tal escrita se confinasse apenas ao dominio do sagrado, Nao hii vida, entretanto, de que tal definigio concorda em boa parte com o conceito que os Egipeios faziam da sua escrita, que era medu-netjer (ala dos deuses)! A escrita foi-se transformando numa escrita cursiva, escrita hierdtica (sacerdotal), que seria usada sobre cer’mica e prineipalmente sobre 0 papiro e que mais se gencralizou. Surgiu ainda a eserita demética (ou seja, do povo) de forma Cursiva corrente. Generalizou-se a partir do século X a. C., por conseguinte jé depois, do Império Novo. Foi usada principalmente na administragéo, reservando-se a hierética para os textos religiosos, Para além da ciéncia da escrita, o estudante tinha de aprender a boa letra e também 8 ortografia, Para tal, os mestres davam-Ihe a copiar textos de obras clissicas onde cle pudesse admirar ¢ imitar a caligrafia e também o estilo, Competia ao mestre escolher modelos de textos religiosos, de contos, de poemas, de ensinamentos, etc., onde 0 discipulo imitasse o estilo e a caligrafia, Tinham particular interesse para os alunos os ensinamentos clos sélbios, que foram famosos em todos os tempos, pelas méximas sapienciais que continham ensinamentos tteis para a vida. Por vezes, 0 Seu género epistolar servia para estabelecer uma espécie de relagdo entre mestre e discipulo. Ficou-nos abundante material escolar, principalmente do Império Novo. 6.2 A literatura Para que surja uma literatura € necessério haver condigées propicias e estas nfio faltaram no Egipto. As escolas de escribas foram, obviamente, o seu meio natural, ois af se preparavam os escritores e os leitores. Nem sempre o texto escrito entra ha categoria de obra litersria, como sabemos. Por tal razio, vamos apenas fazer * tulia Kristeve, Histéria da Linguagem, Ea. 70, Lisbos, 1980, p. 82 135 _sonereomacorseenenn *. Daumas, ob it, p 389 € 1M. Lichtheim, ob cit, vol. pals 1A Aymard, «Orient et Ia Grice», in Histoire Générale ses Cisations, tomo, PUF, Pers, 1961, p 103. 136 seen cence semen referéncia aos escritos onde se manifesta a preocupagio do autor em escrever com bom gosto literirio, usando bom estilo. Tal escrito era apreciad, dizendo-se que se imortalizava como os deuses, sobretudo quando escrevia uma obra de ensinamentos. E 0 que nos diz o autor do Cantico do Harpista. Segundo a reflexao do autor, que recorda famosos autores do passado, os corpos dos humanos podem desapareeer, mas 05 livros perpetuam os nomes dos seus autores. Quanto «aos escritores, sabios do tempo dos sucessores dos deuses, eles que anunciam o futuro, o seu nome dura para a eternidade, ainda que eles tenham partido, tendo cumprido a sua vida e ainda que toda a sua familia seja esquecida... Eles nfo souberam deixar herdeiros,filhos para pronunciarem o seu nome. Mas deixaram, & maneira de herdeiros, os livros de ensinamentos que escreveram>', Este texto faz-nos ver o apreco em que eram tidos os escritores que se imortalizavam pelo seu legado, ao mesmo tempo que nos dé a entender que os nomes dos autores figuravam nas obras que escreviam, Quanto a este aspecto, convém notarmos que as obras eram habitualmente anénimas, 0 que é facil de compreender em certos _g6neros literdrios. Assim, por exemplo, aquele que escrevia um conto reproduzia geralmente algo que jé era transmitido oralmente e era de algum modo patriménio de todos; 0 que escrevia os registos de carscter administrativo ou gravava inserighes, a servigo da corte, também nao assinava, Mas nao acontecia isso com as obras que tinham origem no circulo dos escribas, particularmente quando estes escreviam ensinamentos sapienciais. Esses escritores deixavam a assinatura no que escreviam ¢,talvez sem o pensarem, entravam no ntimero dos imortais. (Os infimeros textos que nos legou o antigo Egipto constituem uma literatura da maior importaincia, que pode ser estudada sob diversos aingulos e seguindo esquemas orientadores, Uma maneira prética de apreendermos o fundamental da literatura egipeia seré apontarmos algumas obras mais relevantes, em diversos géneros literdrios, nos principais periodos histGricos, tendo presente que a literatura € 0 reflexo da vida dos Egipcios na longa duragdo de mais de 3000 anos que durou a sua histéri 6.2.1 No Império Antigo Os primeiros textos litersrios vém-nos jé do principio do III milénio, Nessa 6poca, principalmente, sem excluirmos as seguintes, a literatura € «um anexo da religifo, derivando dela e servindo-a», na expresso de A. Aymard?, Nao quer isto dizer que os escritos de fundo religioso, como aqueles que se referem aos mortos, por exemplo os Textos das Pirdmides, sejam por sua natureza obras de literatura, embora se possam encontrar af passagens de elevado nfvel literério. Poderia apontar-se 0 caso da teologia menfita do inicio do Império Antigo, com # imaginosa descrigio da génese do Mundo. No princfpio teria havido um mundo em forma liquida, mergulhado em trevas. Foi o deus criador Atum que projectou a vida eta seen no Universo; foi ele que organizou os fenémenos fisicos e concebeu as criaturas Segundo essa teologia, 0 coragio € que gera os conceitos ¢ a lingua anuncia o pensamento que af teve origem.A ordem divina realizou-se porque o coragdo pensou ea lingua ordenou, Esta eas extacmese a tral traced radugio ingles dpresenate M. Lichtheim', ° mr Nos Textos das Pirdmides, colecgao de inscrigdes gravadas nas cdmaras subterriineas 4a pirdmide de Unas ¢ em varios timulos de reis da VI Dinastia, também se encontram hinos ou evocagées dos mortos, onde perpassa grande lirismo. Nalguns casos, os autores usaram 0 verso, servindo-se da técnica do paralelismo, que caracteriza a Poesia de todo o Médio Oriente Antigo. Consiste em retomar a ideia de um verso ‘no seguinte sob a forma de sinénimo, ou de antitese, ou sob a forma progressiva, As evocagdes do rei defunto e os votos de felicidade na vida do Além exprimem em linguagem bela, crengas ¢ mentalidades do tempo. Por af avaliamos a ideia que se fazia do rei no Egipto. A ascensio do soberano a0 céu, apés a sua morte, é af bem descrita, tal como a sua chegada aos céus, onde era esperado pelos deuses. Eis um belissimo poema que devia ser recitado sobre a miimia real, na penumbra do tempo funerdrio, por um ou dois grupos de sacerdotes: ‘Acorda! Levanta-te! Veste-te! $8 puro! Acorda! Levanta-te! Senta-te! Sacode a terra Para longe de ti! Eu venho! Eram palavras magicas capazes de dar a vida a0 morto. O rei ergue-se ressuscitado © dé-se a ascenso com uma grande convulsiio dos elementos do Universo: 0 c6u faa. A terra treme .. © céu ronca .. A terra geme 2 Horas que vem .. © Ré, ote fio vem parat.. ~ Ele encontra os deuses de é, cobcrts com as suas vestes, usando as suas sandals brancas Bes retiram as suas vests ( exclamam): O nosso coracao nao tinha conhecido a alegria antes da tua chegada... ~ Eu estendo o brago para os homens Os deuses vim até junto de mim einclinam-se. Com 0 teu bri, 6 Ré, eu fiz degraus sob os meus pés 2 Dentro da literatura religiosa chegaram-nos também hinos de louvor aos deuses ¢ Aidlogos mitolégicos, originérios do Império Antigo, que nos permitem, de alguma forma, entrar em contacto com a experiéncia religiosa da época. Um outro género literério que surge no Império Antigo, ¢ que continuaré a ser Cultivado nos outros perfodos da hist6ria do Egipto, € 0 da literatura sapiencial, Trata-se de um género literdrio que reflecte a experiéncia da vida, adquirida no decurso dos séculos ¢ transmitida de pais a filhos, como legado precioso das geragdes mais velhas as mais novas. E ciéncia ¢ conhecimento ao mesmo tempo. Essa sabedoria ndo é uma proposta de c6digo moral, mas uma experiencia de honestidade no caminho da vida, «béngio para quem a aceita e aprecia, e maldigao para quem se afastay, como ensina Ptahotep, de quem jé vamos falar. *M.Lichtheim, ob ct, vol. pp. 51-57, * Claze Lalouete, La Litre ture Egyptienne, PUF, Pari, 1981, p.40, nt ‘etneneneetennrnenmennonemana * éculo XXVIII. C. fim da 1 Dinas » Ver M. Lichtin, ob. cit, woh Lp 62. > Uiliedmos agua versio por- tuguesa de C. Grimberg, ob cit, p. 129, mas 0 letor in ressadopaders ler a obra com- pleta em M. Lichtheim, ob tit, pp 61-80 (verso ingles), fu em Elisabeth Lafont, Les livres de sagesses des pharaons, Gallimard, Pais, pp. 31a 138 een ernment 15 sobre temética variadissima & imente se podem memorizar e antigo A literatura sapiencial contém reflexdes de sébi exprime-se geralmente em frases concisas que fa 5 dificilmente se poderé traduzir em linguagem moderna, © exemplo ma desta literatura que nos chegou € o Ensinamento de Kagemni Mas o mais significativo do Império Antigo € 0 Ensinamento de Paley. a autor passa por ser visi do rei Tzesi fara6 da V Dinastia,embora poss se dx sttima parte da dinastia seguinte, 0 que para o1as0, fo tem importncia de maior Nesta obra, que ficou clissica, o velho sabio expe em 36 méximas o seu pensamento sobre diversos aspectos das relagGes humanas. Prope a pratica de virtudes que so fundamentais para todas as pessoas: autocontrolo, moderacio, gentileza, ‘generosidade, justica, amor 8 verdade e discrigfo... Trata-se de regras préticas que 6 velho vizir ensina ao seu filho para triunfar na vida Por toda a obra perpassa tum grande desejo: «Que o meu filho seja instalado no meu gar a fim de que eu the repita as palavras dos que escutaram os conselhos daguetes «que viveram antigamente». Quer dizer, ele transmite uma heranga espiritual recolhida pouco a pouco pela tradigéo. E um cédigo de honestidade, transmitido de pais para fithos. E assim a sabedoria. Mesmo através da tradugio portuguesa, que nunca 6 ‘mesmo que o texto original, poderemos admirar a riqueza do pensamento ¢ a beleza da forma. Vejamos este extracto: ‘Quando fores convidado para um repasto em casa de um homem que te € superior, ‘come 0 que te oferecerem. No fixes 0 olhiar nos pratos que o teu anfitrifo tem diante de si; ocupa-te do que esté no teu proprio prato. Se assim nao fosse, © anitrido poderia zangar-se! -Mantém os olhos baixos até que agrade ao teu anftio saudartee no fas seni auando el gira palava Ri guano cle i. soared ao su coraio gle apreciréo ten comportamento Se queres conserva a amizade de wma famitia qa te recebe, evita aproximarte das mulheres cla casa. As mulheres tém causado & peda de milhares de homens. Os seus corpos marvilhosesenfitigam, mas, ap6s tm curto momento de bern-star, perdem toda abeleza:s6 um minuto de prazer © » ‘A3. parte surge ainda carregada de cores mais escuras, comecando cada uma das seis estrofes com esta afirmacao: «A morte esté hoje diante de mim». Qualquer que seja a interpretagéo de pormenor deste poema filoséfico e de outros dda época, marcadios pelo pessimismo, trata-se de exposigdes filos6ficas, sob a forma de dilogo, entre duas concepcdes sobre o Além: uma negativa e outta positiva. Uma expressio perfeita desse lirismo que se manifesta numa atitude negativa da alma pode ver-se no Cantico do Harpista. & assim chamado porque 0 texto € acompanhado da representagéo em baixo-relevo de um harpista, com os olhos fechados, imagem do homem isolado do mundo, por causa da sua cegueira, Ficou gravado sobre um timulo real do Império Médio. Trata-se do ttimulo de Intep (ou ‘Antep), como informa a primeira linha, O sentido dominante, relativo a vida neste mundo, € de tristeza ¢ de amargura. Apesar disso, 0 harpista aconsetha calma, pois importa procurar na vida do dia a dia toda a felicidade possfvel: ‘Uma geracgio passa e outros homens vém em seu lugar, desde os tempos antigos. Os que outrora foram deuses [os reis do Egipto] repousam nas suas pirimides, ‘mottos mas glorificados. Mas dos que construfram os timulos, as suas residéncias no existem, Que 6 que Ihes aconteceu? [ol Ninguém volta do lugar [onde cles se encontram] para nos dizer como esto, para nos dizer o que € que Ihes falta, a fim de apaziguar 0s nossos coragies, até que nés vamos, por nossa vez, para onde eles jf foram. Assim, que 0 teu coragao seja alegre que ele esquega que um dia tute tornards um «espitito» [2], Segue o tet desejo todo 0 tempo da tua vida, Pde mirra sobre a tua cabeca, veste-te de linbo ‘serra ecm fino, e cinge-te com as verdadeiras maravilhas que pertencem a Deus. Aumenta ainda as tuas alegrias e nfo permitas que o teu coragio se entristega. Refiio: Faz o dia feliz sem te aborreceres, ‘Olha que ninguém leva consigo os seus bens! [Ninguém regressou depois de ter ido!” A propria Sdtira dos Oficios, a que jé fizemos referéncia, a propésito do elevado cconceito em que eram tidos os escribas, revela pessimismo por parte do autor sobre a sociedade em que vivia. Ao procurar aliciar o jovem para a profissao de escriba, considera todas as artes mas e até detestaveis. E claro que na sua descrigéo hi cexageros, hd expressdes dle amargura pelo que vé, mas certamente nio falta algum humor. Digamos que € um escrito satirico, mas néo deixa de oferecer preciosas informagées sobre os problemas sociais que se verificaram no final do Império Antigo. Depois de exaltar a profisséo do escriba a quem as pessoas satidam, mesmo quando 6 pequeno, apresenta 0 contraste: (..) Mas vio ferteito a trabalhar & boca do seu forno: os seus dedos sto como a pele do crocodilo e cheira pior que ovos de peixes. O marceneiro, que usa as suas ferramentas, esti mais fatigado do que aqueles que usam a enxada; 0 seu campo & a madeira ¢ a sua enxada de cobre, Durante a quando esté livre, trabalha ainda para além do que os seus bragos podem fazer; durante a noite acende a candeia. O canteiro trabalha excelentemente todas as espécies de pedras duras; mas, quando termina, tendo-se esforcado por tudo ter bem feito com o seu brago, esti arruinado e esgotado; senta-se ao crepisculo, os seus joelhos ¢ a coluna vertebral estio desconjuntados. O barbeiro trabalha até ao fim do dia; quando cchega @ cidade, vai de rus em rua & procura de clientes. Usa o seu brago para cencher a barriga, como a abelha que se alimenta a trabalhar.. Continua o seu lamento pelas outras profissdes: 0 que arranca o papiro no paintano, © oleiro, o padeiro, o jardineiro, o trabathador do campo, o tecelfo, 0 cagador, 0 pescador, etc. Para 0 nosso autor tudo est mal, excepto a profissio do escriba, a quem nunca falta alimento nem bens que pertengam ao paldcio rea? Mas habitualmente, mesmo em descrigdes de cardcter negativo, os autores egipcios Ievantavam © pensamento para as alegrias da vida, para os prazeres simples que podiam encontrar na vida terrena, & maneira do que séculos mais tarde havia de ensinar Epicuro. Jé 0 pudemos notar no Cantico do Harpista e verifica-se também numa obra cléssica da literatura egipcia, conhecida por Lamentagdes de Ipuver. Esta obra descreve os tempos atribulados do Império Antigo ¢ do I Perfodo Intermédio. O autor insiste na mudanca de situagdes sociais € econémicas, proprias de um perfodo de revolugéo. & sobremaneira sensivel & destruiggo dos valores proprios da ordem no Egipto. Lamenta, mas ndo deixa de levantar também 0 pensamento pata as alegrias da vida no Egipto. ASEAN "ex Latouete, Tees sacrés extents proanes de Vancienne Exypte, I, Pati, Gallimard, 1984, pp, 228.229, 2 Cl, Lalouette, ob. cit, pp. 192-199; M. Liehtheim, fb. cit, vol I, pp. 184-193; The Literature of Ancient Exypt An anthology of sores, Instructions and poetry, ed om ios. por Wiliam Kelly ‘Simpson, Yale University Pres, 1973, p. 329-336. 145