Título: Houdini: o mestre em

ilusionismo e escapada
ou
O amor reinventado

Autor: Lucas Desidério Shiniglia

Sertãozinho, 24 de dezembro de 2014.

Sumário
Título: Houdini: o mestre em ilusionismo e escapada..........................................3
ou..........................................................................................................................3
O amor reinventado..............................................................................................3
Introdução.............................................................................................................7
Do conhecimento à arte........................................................................................9
O absurdo que é a nossa existência..................................................................13
A região desértica da nossa existência e o desespero existencial....................17
Os iludidos..........................................................................................................22
A literatura é relativamente boa e útil.................................................................26
Pedantismo.........................................................................................................31
Dor sem fim.........................................................................................................32
Ampliando a consciência....................................................................................36
A realidade líquida..............................................................................................40
O eterno processo de individuação....................................................................44
O Eu fragmentado..............................................................................................47
O espírito e o desespero....................................................................................51
A estrutura da nossa mente................................................................................53
Ser humano, sociedade e amor.........................................................................59
A cultura e as coisas...........................................................................................63
Definindo as coisas.............................................................................................67
Aula técnica........................................................................................................71
Nós seguimos os mais confiantes......................................................................77
A estupidez.........................................................................................................80
O que nos consideram é o que somos?.............................................................83
Jogos sociais......................................................................................................87
O que quero ver..................................................................................................89
O ser humano DEVE destruir seus ideais..........................................................92
Sobre a personalidade contemporânea.............................................................95
Nossa cultura ridícula.......................................................................................101
O ser incomum.................................................................................................106
Os estranhos.....................................................................................................111

O desenvolvimento inconsciente das impressões............................................115
Sobre a melancolia...........................................................................................122
Do nirvana ao “homem sem qualidades”.........................................................128
Sobre a natureza..............................................................................................131
Q.I. – Que isso?................................................................................................133
Escrever para melhor definir as experiências..................................................137
A mente no estado de Buda.............................................................................139
Breve introdução ao amor reinventado............................................................143
Enxergando como um ser social......................................................................148
Egoísmo, a norma social..................................................................................152
Não confie em ninguém....................................................................................155
Nossas relações insinceras..............................................................................162
A aparência que não agrada de verdade.........................................................164
Você não fica animado quando descobre uma coisa rara?.............................169
O amor reinventado..........................................................................................172
Quem nos permitimos ser?..............................................................................180
Muita imaginação = Grande problema.............................................................185
Sobre a sensibilidade.......................................................................................191
E dizem que ser inteligente é ser capaz de memorizar alguns conceitos.......194
Precisamos de ideias para suportarmos a vida...............................................197
Recordação.......................................................................................................200
Para além do misticismo que envolve o amor..................................................203
Nossas necessidades e motivos ocultos..........................................................207
Do príncipe da Dinamarca................................................................................212
Uma filosofia do futuro......................................................................................215
A consciência ampla.........................................................................................223
As pessoas incomuns.......................................................................................227
Um sentido à mais............................................................................................231
Alguns aspectos da sensibilidade....................................................................247
A burrice coletiva..............................................................................................259
Aula de história.................................................................................................261
A mente se estrutura na forma de linguagem..................................................264
A realidade destrói tudo?..................................................................................267

5

Um relato nada mundano.................................................................................270
Bibliografia........................................................................................................279

Introdução
Após a publicação do livro: “O diário, as primeiras impressões sobre a
vida” — que continha passagens escritas em um diário que recebi de presente
de um dos meus tios —, retorno ao referido diário para transmitir uma parte
mais conceitual do mesmo. Através de uma análise filosófica, digna de um
exímio observador, o autor desconhecido define novos parâmetros com relação
à interação entre as coisas. Mais uma vez o texto se faz inovador e, até certo
ponto, inusitado, convidando-nos a considerar e analisar uma nova perspectiva
sobre os assuntos que a humanidade parece nunca se cansar de abordar.
Durante uma das passagens do primeiro livro — que toma como base o
diário que ganhei de presente — o autor desconhecido diz: “Eu escrevia sobre
todas as coisas, e sobre todas as minhas impressões — que não eram poucas
—, eu criava novos mundos, novos valores, novos idiomas e novas cores”.
Para alguns, essa expressão pode ter parecido exagerada e infundada, digna
de um arroubo juvenil que em toda sua petulância diz ter encontrado um
modelo que melhor explique todas as coisas, mas eu posso garantir que não, e
as próximas páginas — do referido texto — irão provar que os acontecimentos
realmente ocorrem de maneira diferente e mais evidente, na complexa mente
do nosso querido autor desconhecido.
Não me faço grandiloquente, quando afirmo que esse é um dos textos
que possui potencial para contribuir com um verso, no deslocamento poderoso
da grande máquina.

6

“Camus faz com que o absurdo que é nossa existência se torne uma
informação satisfatória e agradável — com a qual podemos conviver
tranquilamente—, quando, na verdade, o vazio sempre atormentou a todos,
chegando até mesmo a fazer Dostoiévski dizer que no futuro o homem nascerá
de uma ideia, dessa forma não tendo a infelicidade de presenciar o desespero
que está presente no vazio da existência; ao mesmo tempo, Freud afirma que,
no futuro, a humanidade ampliará, ainda mais, sua alma, seus mecanismos de
proteção e deslocamentos, passando a aceitar, prontamente, os parâmetros
existenciais que nos são impostos. Além dessas declarações, muitos outros
autores se depararam com o mesmo desespero, que sempre incomodou a
humanidade. No entanto, Camus apresenta sua proposta para a existência, e a
faz parecer simples, de fácil aplicação, proposição essa que a literatura e as
nossas experiências refutam facilmente. Mas, mesmo com a distância entre o
que é exposto por Camus e a realidade e as nossas projeções — que muitas
vezes nos atrapalham —, os argumentos expostos no livro são válidos e muito
interessantes; a vida, de acordo com os parâmetros de Camus, seria realmente
incrível, realmente consciente e evoluída. É preciso que nos arrisquemos, com
o intuito de adquirirmos uma existência consciente e evoluída, nem que para
isso seja necessário enlouquecermos; é preciso que exploremos a vida e que
consigamos viver na realidade, o futuro da humanidade não pode, em hipótese
alguma, ser a cegueira.”
Autor desconhecido

7

Do conhecimento à arte

Desde sempre, grandes pensadores buscam definir com precisão as
bases do intelecto e do conhecimento. Kant, melhor do que muitos outros,
destaca-se nessa difícil tarefa; segundo ele, a única forma de adquirirmos
conhecimento consiste na elaboração conceitual a partir da intuição pura.
Aquilo que percebemos através dos sentidos é definido de maneira intelectual,
proporcionando-nos uma concepção do ambiente à nossa volta e fazendo com
que a psique se estruture em função daquilo que somos direcionados a
enxergar. Servindo como base para essa estrutura conceitual, possuímos a
intuição pura, que se encontra situada além dos conceitos sintéticos, além dos
sentimentos. Localizada em meio ao espaço livre de fenômenos, a intuição
pura possui possibilidades infinitas, nela somos capazes de fazer qualquer tipo
de associação.
Em meio ao espaço infinito, que contém possibilidades infinitas de
associações, encontramo-nos primeiramente como seres destituídos de
qualquer tipo de arranjo das coisas. Com o passar do tempo vamos
estruturando os conceitos na nossa mente; esses conceitos irão nos direcionar
pela vida, eles serão utilizados como base para determinar o nosso
comportamento frente o que nos apresenta os sentidos. Nunca é demais
lembrarmos que as estruturas conceituais são extremamente variáveis e
relativas; os conceitos, que determinam o comportamento dos indivíduos,
podem ser alterados a qualquer momento. Além de possuirmos uma mente
com conceitos instáveis, esses mesmos conceitos não são universais, ou
possuem uma relação exata. Tomando como base essas exposições, podemos
definir, sem receio, que cada indivíduo possui um mundo particular; cada
pessoa possui uma representação específica do ambiente à sua volta, o que a
faz enxergar e agir de determinado modo. Além disso, nunca é demais
relembrarmos, essa estrutura é instável, podendo ser alterada a qualquer
momento.

8

O aprendizado de relações novas entre as coisas é muito mais rápido e
eficiente para aqueles que não possuem conceitos fixos e imutáveis. Quando
nos desvencilhamos das nossas concepções e analisamos uma nova
proposição, utilizando apenas a intuição pura, ficamos impressionados com a
rapidez com que aprendemos a uma nova perspectiva sobre o funcionamento
dos elementos que constituem o mundo. Em relação a essa forma de
aprendizado, percebemos o quanto alguns conceitos são diferentes daquilo
com o que estamos acostumados; essa discrepância, que exige um
desligamento praticamente completo dos nossos conceitos anteriores, torna o
aprendizado difícil. São poucas as pessoas que possuem uma capacidade
elevada de se desprender dos conceitos que estruturam a mente; por causa
disso, muitas relações inovadoras e complexas permanecem misteriosas e
esdrúxulas para a maioria das pessoas.
Após o sacrifício de muitos gênios, podemos definir com clareza a forma
como os conceitos são estruturados na nossa mente, desse modo sendo
permitido que avancemos em nossas investigações sobre o intelecto, passando
a analisar uma pergunta que intriga os estudiosos da mente humana: Seremos
nós capazes de definirmos exatamente aquilo que devemos valorizar ou não?
Repetindo a pergunta em termos mais claros: Seremos nós capazes de
controlar as estruturas conceituais da nossa mente? Para aqueles que pensam,
nem que seja um pouco, sobre si mesmos, a resposta é clara, sendo ela um
categórico Não. O funcionamento da mente foge ao nosso controle; ela faz
associações,

estrutura

arquétipos,

faz

transferências;

todos

esses

acontecimentos acorrem longe da nossa percepção. Possuímos um mundo
grandioso em nossas mentes, ele é restrito e imperscrutável, e define a maior
parte daquilo que somos, e daquilo que queremos ser.
Deparados com a impotência humana perante o que está estruturado
em nossas mentes, percebemos o quanto os nossos conhecimentos sobre o
intelecto são vagos e imprecisos; a humanidade ainda não encontrou a real
forma de funcionamento da psique. Sem termos conhecimento do motivo e a
maneira como algumas coisas são definidas na nossa mente, permanecemos à
deriva dos acontecimentos, à deriva dos pensamentos.

9

Muitos se propuseram a mergulhar no intelecto para tentar explicar as
nossas atitudes, as nossas sensações. Esses artistas corajosos habitaram
regiões inóspitas da existência, eles buscaram o esclarecimento através de
experiências intensas e destrutivas; esse estilo de vida lhes proporcionou
mortes prematuras, muita sabedoria e obras imortais. Essas almas raras
arriscaram tudo pelo conhecimento, abdicaram de todas as coisas pela
humanidade.
Quando nos deparamos com as obras desses gênios corajosos, sentimos, logo
de cara, a presença de uma expressão visceral e sincera. Quase sempre, após
essas grandes obras, sentimo-nos mais sábios, mais esclarecidos; o mundo
parece repousar sobre bases mais sólidas e nós nos sentimos mais seguros e
confiantes.
Consideramos que essas vozes geniais provêm, na maioria das vezes,
do passado. Talvez essa nossa sensação, de que as grandes almas existiram
apenas no passado, ocorra por causa da filtragem que foi feita ao longo do
tempo, onde todas as obras rasas e ruins foram esquecidas, abandonadas.
Nos dias atuais ainda nos deparamos com os verdadeiros artistas, que
arriscam tudo na intenção de desvendar os mistérios humanos; infelizmente,
esses gênios são ofuscados por muitos farsantes e aproveitadores. É preciso
que garimpemos as obras que são lançadas diariamente, para que possamos
encontrar algo que nos seja permitido caracterizar como sendo uma verdadeira
obra artística. Em meio ao interminável amontoado de obras insossas e fúteis,
as verdadeiras obras de arte ainda sobrevivem. Por mais que só enxerguemos
charlatões, ainda existem pessoas arriscando tudo pelo conhecimento,
arriscando qualquer coisa que possuam de concreto para mergulharem
profundamente em suas mentes, em seus conceitos, arriscando tudo pela
humanidade.

10

“Em qualquer esquina o sentimento de absurdo pode atingir a todos, de
forma violenta, bem no meio da cara!”
Albert Camus

11

O absurdo que é a nossa existência
A região desértica da existência é um local que assusta todas as
pessoas. Essa localidade inóspita, que podemos caracterizar como a base do
intelecto, talvez seja o principal tormento humano, fazendo com que criemos
ilusões que nos afastem do vazio, da incerteza e da fragilidade de nossas
vidas. Nessa luta incansável em busca de motivos nos quais possamos nos
segurar, acabamos por criar uma unidade das coisas, que nos posiciona, de
maneira satisfatória, no mundo. Esse arranjo, que elimina o nosso maior
desespero, será defendido de forma voraz, afinal, uma existência saudável
depende da manutenção dessa ordenação específica das coisas. Coitado
daquele que incite, nem que seja sem a intenção, um questionamento profundo
dos ideais que iludem a existência, contra ele será direcionado o ódio mais
irracional, mais selvagem.
O absurdo, que é a existência, é desesperador; além de ilusões que
amenizam o fardo que é a vida, as pessoas, muitas vezes, recorrem ao suicídio
filosófico, quando deparadas com a falta de sentido e a impossibilidade de uma
compreensão exata das coisas à nossa volta. Como principal sustentáculo do
suicídio filosófico encontramos a ideia da deidade, que tem como função
central amenizar as dores e a incerteza existencial, criando um mundo
compreensível, mensurável, que nos permita o entendimento e o sentimento de
pertencimento, mesmo que para isso abdiquemos da realidade e da nossa
capacidade de pensarmos de acordo com aquilo que percebemos, aquilo que
sentimos, esse é um preço que a maioria das pessoas não hesita em pagar.
Nessas mentes comuns, que constantemente fogem do absurdo,
encontramos a edificação compulsiva dos conceitos. Todos os fenômenos,
todos os acontecimentos, são classificados de forma capciosa, sempre
tendendo a satisfazer aquilo em que o indivíduo quer acreditar. Esse tipo de
construção deturpa a realidade, adequando-a a uma maneira pré-determinada
de enxergar o mundo.

12

Em uma mentalidade que aceita o absurdo, a inteligência se torna
evoluída a ponto de encarar cada fenômeno como sendo único, assim
enxergando,

sem

influências

conceituais,

o

mundo.

Nesse

caso,

o

conhecimento não será estruturado de uma única forma, mas sim possuirá
possibilidades múltiplas, diferentes perspectivas, parâmetros, explicações e
objetivos. Nesse tipo de mentalidade, por causa das múltiplas interpretações
dos acontecimentos, torna-se impossível ser estabelecido algo de concreto,
cabendo a esse indivíduo a característica flutuante, que o permite alterar a
maneira de se portar, dependendo das condições externas que lhe são
apresentadas. No entanto, esse tipo flutuante de existência não carece de
estruturação, nele, diferentemente da estruturação capciosa e direcionada a
algo, a construção dos conceitos estará relacionada à maneira como a psique
funciona e como os fenômenos realmente ocorrem, priorizando os motivos que
melhor expliquem o verdadeiro funcionamento das coisas, independentemente
desse conceito ser nocivo aos conceitos presentes no intelecto. De forma
indiferente, sem ser direcionada a uma crença, o indivíduo formula suas
concepções sobre a vida, o que garante uma maior realidade de seus
conceitos.
O homem que se propõe a viver em meio ao absurdo que é a existência,
encarando de frente todos os aspectos da vida, sem se refugiar em ideais e
ilusões, vê um mundo vasto em possibilidades se abrir para ele. A falta de
sentido da vida é recompensada pela multiplicidade de caminhos a serem
seguidos. A depressão e o fracasso são substituídos por uma renovação
constante, por eterno iniciar, um eterno experimentar, um eterno arriscar.
Nessa condição primordial o pensamento profundo — a ponto de
ponderar sobre o multiverso ou sobre a possibilidade de vida além-túmulo, que
se preocupa com a investigação de assuntos que estão muito além da nossa
capacidade de observação — e muito à frente do presente se torna inútil.
Vivendo o presente, o homem absurdo direciona seu pensamento para coisas
realmente palpáveis, não mais perdendo tempo com quimeras longínquas e
inverificáveis, adquirindo, dessa forma, um pensamento profundamente
superficial, que prioriza assuntos realistas e palpáveis, em detrimento de
sonhos alucinados.
13

A vida é inútil e sem sentido. Essa sentença, que pode ser o motivo de
nosso desespero, também pode ser a principal responsável pela nossa
libertação, pelo nosso ímpeto e vontade desenfreada. Quando passamos a
encarar a vida de forma indiferente, tornamo-nos livres, tornamo-nos jogadores
despreocupados, que almejam apenas se tornarem os melhores jogadores
possíveis.

Essa

característica

despreocupada

nos

permite

arriscar

desenfreadamente, nunca nos sentindo cansados ou envergonhados, mas sim
sempre desejando o nosso aprimoramento, em todos os aspectos.
Uma existência sem esperança, sem objetivos, onde nossa principal
preocupação é arriscar e experimentar o máximo possível — para que
ampliemos, cada vez mais, nosso conhecimento e a potência da nossa
existência — é uma condição a ser almejada.
Jogar, experimentar, permitir-se vivenciar os acontecimentos mais
variados, doar-se por completo à vida e todas as suas possibilidades, parece
ser uma atitude reservada a poucos, muito poucos. Um estilo de vida ousado,
onde não somos nada além do que jogadores, do que atores, foi e sempre será
desestimulado por aqueles que pretendem domesticar e enjaular o ser
humano. As filosofias covardes estão por toda parte e preconizam que nossa
existência terrena não importa, que não devemos arriscar muito, nem nos
esgotarmos, que devemos enxergar o mundo de uma forma pré-determinada e
imutável, que somos diminutos e impotentes, etc. Todas essas características
covardes criam uma população sem senso crítico apurado, que permite a
manutenção do status quo, mesmo ele sendo completamente abjeto e
incoerente.
O ator compulsivo, que se permite vivenciar todos os acontecimentos,
adquiri para si muitas possibilidades de se portar perante os mais variados
cenários que a vida pode lhe apresentar. De alma múltipla, e possuindo uma
indiferença evidente, esses indivíduos raros e corajosos se permitem
experimentar tudo o que a vida tem a lhes oferecer. Talvez, em três horas,
essas pessoas, que se permitiram possuir uma constituição rara, vivenciem
acontecimentos que um homem comum precisaria de uma vida inteira para
conseguir experimentar.

14

Possuidores de uma curiosidade louca, os jogadores compulsivos da
existência vão experimentando a vida sem limitações, de forma abrangente,
esgotando a si mesmos e explorando todas as possibilidades. Em cada
acontecimento eles aprendem uma nova lição, com cada experiência eles
aprimoram seus corpos e suas mentes, e esse ciclo ocorre desenfreadamente,
até que esses atores obtenham todo o conhecimento possível, até que se
potencializem ao máximo, até que eles se tornem os jogadores perfeitos.

15

A região desértica da nossa existência e o desespero
existencial
Parece ser característica referente estritamente aos seres humanos de
constituição forte, destemida, a permanência em condições complexas da
existência.
Antes que a explanação sobre o desespero existencial continue, é
preciso que seja feita uma análise pormenorizada do funcionamento do
intelecto, para que, através disso, seja possível a criação de um modelo exato,
que abarque tudo aquilo que sentimos, unindo nossos sentimentos mais
profundos à maneira como classificamos e definimos o funcionamento da
nossa mente.
Primeiramente, é preciso que seja salientado a concepção relativística
das tentativas de elaboração conceitual que serão apresentadas, nenhuma
delas pode adquirir a condição de verdade absoluta, pois não passam de
investigações

exaustivas,

feitas

por

um

observador

indiferente

e

despretensioso, que determinam, tomando como base conceitos empíricos, o
funcionamento do nosso intelecto, realizando, após a determinação de
condições profundas, uma análise pormenorizada de nossas sensações,
sentimentos e estados de espírito, tomando como base para tais associações
uma concepção única, moderna.
A tentativa de implementação e análise dos conceitos aqui propostos,
pelos leitores, é de suma importância para uma definição e elaboração mais
aprimorada dos conceitos aqui propostos, e é isso que cada escrito que é
publicado espera do leitor: uma análise pormenorizada, cheia de ceticismo e
senso crítico, para que apenas as determinações mais exatas, e que
apresentam uma lógico perfeita e irrefutável, permaneçam.
Após apresentada a condição ideal de posicionamento e reação perante
os textos que se seguem, podemos tratar com mais precisão a forma como que
cada conceito foi elaborado, para que assim seja possível identificarmos o
quanto cada proposição é relativa e deve ser pormenorizadamente analisada.
16

Os dois mundos: Podemos perceber a existência de dois mundos dentro
de nós. Um deles, o maior, parece conter as informações mais valiosas sobre
aquilo que somos, aquilo que desejamos, aquilo que tememos. Nesse mundo
vasto, do qual não temos controle, nossas concepções permanecem distantes
do nosso alcance, assim como o funcionamento da mente permanece
escondido para nós.
O segundo mundo, presente dentro de nós, é um ambiente mensurável,
onde os acontecimentos e nossas reações parecem adquirir proporções que
nos permite entendê-los, controla-los. Entretanto, por mais que potencializemos
esse nosso segundo mundo, muitos acontecimentos permanecem inexplicáveis
para nós, permanecem obscuros, sem que consigamos defini-los e transportálos para nosso segundo mundo, onde tudo é mais claro e coerente.
Com o auxílio do nosso segundo mundo, podemos alterar os conteúdos
que permanecem nas profundezas da nossa mente. No entanto, essa é uma
tarefa complexa, e exige que tenhamos um segundo mundo muito bem
estruturado e abrangente; essas características são necessárias pois nossa
mente almeja, involuntariamente, manter nossas concepções e objetivos.
Nesse caso, para que possamos driblar essa resistência intrínseca, é preciso
que tenhamos a capacidade de atacar os conceitos do primeiro mundo em
todas as suas frentes, não possibilitando a presença de nenhuma parte do
mesmo que não consiga ser refutada veementemente. Sem executarmos uma
desconstrução nesses parâmetros, não nos tornamos capazes de alterar os
nossos conteúdos profundos, pois um resquício que seja, que alimente
concepções anteriormente estruturadas, será o responsável por permitir a
manutenção, a sobrevivência, daquilo que queremos alterar.
Referente a essas construções profundas, que são incrivelmente difíceis
de serem alteradas, podemos dizer que elas ocorrem naturalmente, sendo sua
elaboração uma característica estrutural imprescindível para nossa mente.
Nesse caso podemos salientar o quanto é necessário que nos atentemos aos
acontecimentos à nossa volta, para que sejamos capazes de identificar os
17

conteúdos que são absorvidos pela nossa mente e que se tornam incrivelmente
influentes sobre nós.
Nossos atos possuem relação com as estruturas do nosso primeiro
mundo, sendo eles oriundos de conceitos previamente elaborados pelo nosso
intelecto, sem a necessidade da participação do nosso segundo mundo para
que fossem definidos.
Essas estruturas profundas e inconscientes são construídas desde tenra
idade. Nesse caso, seria necessário que o indivíduo possuísse uma memória
incomum para que ele se tornasse capaz de identificar, no segundo mundo,
acontecimentos que determinaram a nossa forma de ser. Sem uma memória
diferenciada, torna-se difícil estruturarmos e definirmos as nossas sensações,
e, sem isso, torna-se ainda mais difícil encontrarmos os verdadeiros motivos e
combatermos, alterarmos, nossos conceitos profundos.

Tomando como base essa nossa característica intrínseca, podemos
definir os seguintes textos, presentes no livro, como sendo de cunho
estritamente psicológico, como sendo uma proposição que visa tornar o ser
humano ainda mais racional, fazendo com que o mesmo seja capaz de possuir
um modelo exato de como as coisas funcionam, como o intelecto funciona,
para que, apenas assim, ele seja capaz de dominar seus desejos mais
profundos, seus medos mais aterrorizantes, seus vícios, seus ideais
descabidos, etc.
Desejando estabelecer uma definição para cada um dos mundos
descritos no texto acima, para que a apresentação dos mesmos, ao longo dos
textos, se torne mais fácil e prática, será definido que o primeiro mundo
receberá o nome de inconsciente, e o segundo mundo o nome de consciente.
Dessa forma, após realizadas as distinções pertinentes a duas
estruturas psíquicas muito presentes ao longo do texto, torna-se mais fácil
muitos desenvolvimentos e explicações.

18

Sem que percamos o foco do assunto principal do texto, podemos agora
iniciar a classificação, após as devidas definições iniciais, do nosso medo mais
profundo, que supera até mesmo a morte, sendo ele pior do que a morte.
Definido aqui como desespero existencial essa confusão profunda, onde a
mente se encontra em completo desarranjo, fazendo com o indivíduo sinta a
dor mais lancinante, o temor mais aterrorizante.
Esse aspecto não é facilmente detectado e reside nas profundezas do
nosso intelecto, sendo necessária uma análise profunda e uma elaboração
delicada e minuciosa para que essa condição seja trazida para a luz, para a
nossa consciência. Provavelmente, grande parte de nossas ações têm relação
com esse desespero profundo, que nos incomoda em proporções absurdas;
talvez grande parte dos nossos atos seja uma fuga desesperada desse cenário
conturbado, desse medo paralisante e lancinante.
Em meio a pequenas alterações, que percorrem a nossa mente e se
tornam grandes desastres que nos transportam para uma região obscura e
desesperada, podemos perceber o quanto facilmente podemos nos deparar
com esses estados de desespero profundo, que muito nos incomodam.
Visando impedir esse nosso desarranjo aterrorizante, nossa mente se
preocupa em manter muitos de nossos conceitos, utilizando de mecanismos de
proteção, que impedem que desenvolvamos conceitos que irão fazer com que
deparemos com o desespero existencial, com o medo profundo.
Direcionados por esses mecanismos de proteção, vamos adquirindo,
com o passar do tempo, uma concepção limitada e estritamente direcionada
rumo a uma estrutura específica da nossa mente. Esses mecanismos
permanecem ocultos para a maioria das pessoas, sendo desvendados apenas
por aqueles que se preocupam em desenvolver sua consciência e definir
conceitos exatos para muitas de nossas sensações e ações.
Longe da percepção da maioria das pessoas, os mecanismos de
proteção vão moldando a nossa forma de enxergar o mundo, tudo em função
de um medo descabido, desenvolvido pelo nosso inconsciente e sua
sensibilidade nervosa descabida.

19

20

“Quando a necessidade e as metas se encontram e emergem, quando
os sonhos começam a ocultar os grandes momentos e as crises da vida, a
estrada torna-se estreita e obscura, e o desesperador sonho da morte
desaparece da mente do homem, que anda sonhando, em seu sono profundo...
O homem que, mesmo distante, sonha com sua esposa, ou com o local onde
passou sua infância, começou a se tornar um sonâmbulo. ”
Hermann Broch

21

Os iludidos
Parece ser uma característica inata, que permanece oculta, nas
profundezas do nosso ser, apenas esperando por algum acontecimento que
possa saciar sua necessidade, que possa servir de parâmetro para tal vontade,
fazendo com que o indivíduo não mais seja capaz de suportar a realidade sem
antes recorrer a uma série de lembranças profundas, que afastam a dor e o
medo, transformando, dessa maneira, a vida, tornando-a estreita e ilusória,
onde a realidade é abandonada em função de sonhos alucinados que nos
fazem sentir muito bem em um ambiente ausente de toda a complexidade,
insegurança e mutabilidade, que tanto nos incomoda.
Na nossa mente, onde nossos pensamentos e impressões são
intensamente irreais e discrepantes, quando comparados com as verdadeiras
proporções dos acontecimentos, vamos desenvolvendo, inconscientemente,
tudo aquilo que vivenciamos. Dotados de tal mentalidade, torna-se comum nos
espantarmos ao perceber que um acontecimento, anteriormente irrelevante
para nós, adquiriu proporções absurdas, após nossos desenvolvimentos
inconscientes, tornando-se uma característica essencial, que, quando não
destruída pela nossa consciência, irá nos influenciar, de uma forma intensa,
pelo o resto das nossas vidas, passando a definir nosso comportamento,
nossas reações, nossos desejos e medos.
O nascimento dos nossos ideais é um fenômeno inato, que foge ao
nosso controle consciente — quando não somos capazes de identifica-los e
estabelecer proporções reais para aquilo que é exagerado em nossa mente.
Esse acontecimento, inerente aos seres vivos, ocorre por causa da presença
de um desespero profundo e destruidor, que pode surgir em função de um
acontecimento que muito nos incomoda, ou por causa de uma alegria intensa,
que, quando não mais se faz presente em nossas vidas, transmuta todas as
coisas, tornando a realidade em um cenário insosso e doloroso, que passa a
necessitar de uma ilusão que nos afaste de tal sentimento.

22

O desespero está presente em praticamente todos os momentos da
nossa vida. Cada nova situação, que contém inúmeros parâmetros novos e
misteriosos para nós, incita uma condição desesperadora que faz fluir uma
energia profunda, pronta para ser direcionada rumo aos parâmetros e
condições que nos afligem, tendo como principal meta a alteração dos reflexos
virtuais da realidade que nos atormentam. Entretanto, essa energia gerada pelo
desespero é ilimitada, intensamente assustadora e muito superior àquilo que
nossa constituição física-psicológica é capaz de suportar.

“Toda força que não se descarrega para fora volta-se para dentro — isto
é o que chamo de interiorização do homem; é assim que no homem cresce o
que depois se denomina sua ‘alma’. Todo o mundo interior, originalmente
delgado, como que comprimido entre duas membranas, foi se expandindo e se
estendendo, adquirindo profundidade, largura e altura, na medida em que o
homem foi inibido de sua descarga para fora. ”

Como nosso corpo não suporta, ininterruptamente, que a descarga
intensa de energia, causada pelo desespero, seja direcionada para atividades e
empreitadas inconsequentes — tudo isso com a intenção de sanar o nosso
desequilíbrio profundo, desrespeitando nossa própria existência; mesmo
deparados com tais características, algumas pessoas têm a audácia de dizer
que nosso instinto mais profundo é a manutenção da espécie —,
desenvolvemos nossa vida interior — alguns desenvolvendo-a muito melhor do
que os outros —, sendo o primeiro passo dessa interiorização a criação de um
ideal, que nos afasta da realidade e afugenta o desespero, a dor.
Em um mundo que nos permite a criação de infinitas interpretações,
onde todas as coisas são um amontoado completamente desconexo, podemos
dizer, sem sombra de dúvidas, que o ser humano é o responsável por
estabelecer o entendimento do ambiente em que está inserido. Desse modo,
torna-se óbvia a presença de uma realidade virtual, existente em nossa mente

23

e sendo a responsável por determinar aquilo em que acreditamos, por definir
nossos conceitos e determinar aquilo que somos capazes de perceber.
Nesse contexto virtual, podemos dizer que não existe diferença entre
imaginação e realidade. Nossos pensamentos transformam a realidade,
definem ela, podendo alterar nosso estado de espírito por causa da percepção
de algum fator novo, ou por causa da identificação de algum elemento que nos
faz recordar de uma situação que nos incomoda ou nos agrada.
Em um mundo que é construído por nós, sentimos, constantemente, o
desespero, que incita o surgimento de uma força profunda e ilimitada, que
nossa constituição não é capaz de suportar e é transformada, primeiramente,
em ideais, que amenizam nossas dores, alterando a nossa realidade virtual.

24

“Muitas vezes, a leitura de um livro não é necessariamente apenas um
entretenimento, podemos muito bem fazer uso de muitos textos para solucionar
os nossos problemas na imaginação.”
James Joyce

25

A literatura é relativamente boa e útil
Algumas poucas pessoas têm realmente a capacidade de compreender
o quanto os livros são importantes, o quanto são ferramentas poderosas,
capazes, sim, de causarem impactos grandiosos e duradouros nas vidas das
pessoas. Para esses indivíduos, um tanto raros, que possuem a capacidade de
realmente digerirem um livro, de realmente sentirem e, até certo ponto,
vivenciarem experiências alheias, a imaginação nunca permanece a mesma,
sendo, constantemente, ampliada, através da aquisição de novas perspectivas,
consequências e vivências. Ao mesmo tempo em que se amplia a capacidade
de observação sob diferentes pontos de vista, amplia-se a capacidade de
objeção a crenças tidas como sendo inquestionáveis, a condutas e sensações
tidas como indispensáveis.
Essas consequências, muitas vezes indesejáveis, podem trazer à tona
aspectos existenciais muitas vezes desesperadores. Uma existência sem
subterfúgios, sem ilusões, sem pátria, em meio a mais absoluta liberdade,
ainda é um fardo muito pesado, até mesmo insuportável, para o ser humano e
sai, ainda vã, filosofia.

“Você deve tomar cuidado com a literatura, é um caminho perigoso,
muitos que se arriscam nunca mais voltam. Você tem de estar disposto a
permanecer absolutamente sozinho, sem ser influenciado por ninguém, sem ter
ninguém em quem se refugiar, ninguém mesmo; é preciso desenvolver suas
impressões até o ponto de não mais conseguir se identificar com ninguém, não
mais possuindo a possibilidade de encontrar alguém com quem compartilhar
seus pensamentos e experiências, alguém que possa fazer com que você não
presencie o desespero profundo e desolador.”

“Geralmente, um professor de boxe francês executa um trabalho, por
onde passa, muito mais útil do que, por exemplo, um tipo como Rousseau, que

26

em qualquer localidade onde se instala não deixa pedra sobre pedra, demoli
tudo!”

Os leitores mais sensíveis têm conhecimento de tais riscos, aspecto
esse que os fazem olhar para a literatura, algumas vezes, com certo receio,
tornando a valorização, de tal atividade, mais contida, sendo, até mesmo,
suprimida por completo em muitos casos, em muitos momentos de suas vidas.
Essa característica faz com que os verdadeiros leitores — aqueles que
realmente vivenciam e adentram as histórias — deixem de indicar e valorizar
sobremaneira, e sem qualquer tipo de distinção, a literatura, deixem de
recomendá-la para todos os casos e para todas os mais variados indivíduos e
personalidades,

como

é

o

caso

de

muitas

pessoas,

principalmente

pseudointelectuais, por aí.
Os “defensores” assíduos da literatura, que a todo o momento divagam
sobre a necessidade de ler constantemente, sobe a importância dos livros,
aplicando, para todos os casos, os livros como remédio, são, pelo menos na
minha humilde opinião, aqueles incapazes de extrair aprendizados profundos, e
relacionados a suas próprias experiências, daquilo que leem. Mesmo
conhecendo agentes transformadores poderosos, esses “defensores” são
incapazes de questionarem suas crenças profundas, seus preconceitos, sua
estupidez, a falta de capacidade de terem opiniões próprias, de abandonarem o
pedantismo insuportável, etc. Tais “defensores” mancham a literatura,
afastando aqueles que realmente poderiam tirar algum proveito dos livros, e
dão uma conotação, absurdamente equivocada, de egocentrismo, estupidez e
covardia àqueles que dizem ser interessados em livros.
Esses “defensores” da literatura mantêm e divulgam os livros, mas a um
preço muito caro, sendo ele a transformação dos mesmos em uma piada
infame e totalmente desnecessária.
O cenário acima descrito, que é facilmente encontrado, pelo menos na
minha opinião, faz com que questionemos a capacidade das pessoas de
aproveitarem e assimilarem as impressões que muitos autores compartilham

27

ao longo dos tempos. Realmente, alguns livros se tornam restritos por si só,
tornando-se impossibilitados de possuírem nem meia dúzia de leitores capazes
de imaginarem muitos aspectos propostos pelos autores.
Algumas pessoas possuem um dom natural, até mesmo podendo ser
considerada uma dependência, para a literatura. Para o ódio dos leitores
estúpidos e egocêntricos, algumas pessoas compreendem ideias complexas e
incomuns com uma facilidade espantosa; essa característica demonstra a
presença de uma imaginação vasta e, consequentemente, de sensibilidade,
atributos esses que mais complicam do que favorecem uma existência
saudável. Casos como esses, que são um tanto raros, podem ser observados
já nas primeiras leituras de tais indivíduos.

“Gosto de ler, gosto muito mesmo. A leitura é uma atividade realmente
emocionante, que nos transporta para as localidades mais interessantes, que
nos faz vivenciar as experiências mais intensas e incríveis, sendo que, para
poder adentrar tais aventuras, preciso apenas pegar emprestado, de graça, um
livro em uma biblioteca.”

“O autor faz uma descrição minuciosa do personagem, dando-lhe as
mais variadas características, fazendo com que eu consiga me identificar com,
pelo menos, algumas delas, sendo isso o suficiente para que eu consiga me
enxergar como sendo tal personagem... Após essa personificação, o autor
conduz o personagem através das situações mais inusitadas e intensas,
fazendo com que eu sinta o peso de cada uma delas como sendo verdadeiras,
reais. Esses acontecimentos, que vivencio nos livros, talvez iriam requerer, se
eu tivesse sorte, uma vida inteira para que fossem realmente experimentados
por mim.”

28

Nesses casos, a literatura se torna indispensável. As pessoas cheias de
imaginação, cheias de espírito, constantemente vão se deparar com problemas
complexos, que poderão ser solucionados com o auxílio da literatura.

“Que Deus ajude a mente desse garoto, ele sabe muito mais do que
você já esqueceu.”

29

“Você não acha entediante ouvir as pessoas falarem? Elas sempre estão
tentando parecer inteligentes com suas palavras; estou entediado!”
Autor desconhecido

30

Pedantismo
É incalculável a quantidade de pessoas intelectualmente inseguras que
tentam, a todo custo, sanar suas incertezas e fraquezas através da exposição
exaustiva

de

sentenças

decoradas,

de

expressões

exaustivamente

memorizadas, sem nenhuma relação mais profunda, sem um entendimento
abrangente.
Através da reprodução de frases daqueles que são considerados
geniais, os prepotentes sanam sua insegurança, confundindo e subjugando
aqueles

que

ouvem

seus

discursos

enfadonhos

e

superficiais;

as

metralhadoras de decorebas estão por toda parte, dando um tom de segurança
a expressões que elas são incapazes de compreender.
Como muitas outras coisas presentes em nossas vidas, o verdadeiro
motivo de tanta falácia permanece oculto, sendo substituído por discursos
infinitamente entediantes, que mascaram os verdadeiros sentimentos e
proporcionam, ao indivíduo que faz uso desses subterfúgios, uma falsa
satisfação.
Por que as pessoas não podem ser realmente sinceras? Por que são
raros aqueles que expressam o que realmente se passa em suas mentes?
Aquela que deveria ser a nossa conduta mais comum é a mais rara, quase
ninguém é sincero, poucos são os que têm coragem de dizer aquilo que
sentem; ao invés de expressões verdadeiras deparamo-nos com discursos
prepotentes, que almejam subjugar e rebaixar os interlocutores, para criar uma
falsa sensação de superioridade, de segurança. Tudo é uma grande
competição, para essas pessoas, uma guerra de egos, onde todos devem
permanecer isolados, resguardando os verdadeiros sentimentos e competindo
sem parar, uns contra os outros.
Essa estrutura intrínseca é percebida por nós, quando nos deparamos
com discursos prepotentes e vazios, que, infelizmente, são encontrados aos
montes por aí. Não é exagero quando se diz que estamos isolados e

31

entediados em meio àqueles que falam de forma veemente e escandalosa,
exprimindo absolutamente nada.

32

Dor sem fim

Acordei corajoso,
Sentindo meu espírito ansioso
A pulsar, em plena potência,
Com espantosa insistência.

Uma onda selvagem parecia jorrar,
Fazendo meu corpo dançar
Em uma harmonia sublime
Inspirando o aclive,
Que minha alma sempre esteve a desejar,
E que trazia a satisfação invulgar,
Intrínseca.
Satisfazendo, assim, minha única pretensão.
Ah, quanta satisfação!

Sentindo-me expandido,
Em um êxtase sem fim,
Proponho-me uma resolução,
Que me parece a melhor opção.

Sedento de vida,
E me sentindo potente,
Decido o meu ideal pulverizar,
Para que a plenitude da vida
33

Eu possa enxergar.

Sei que é uma tarefa perigosa,
Repleta de riscos e desespero,
Mas a isso decido ignorar;
Agora que me sinto forte,
A vida quero enxergar,
Em todas as suas nuances,
Percebendo todas as variantes.

Então isso começo a fazer,
Agora que sou forte e não preciso de você.
Está na hora de a vida enxergar!

Repleto de êxtase começo o que me propus fazer,
Minha estrutura principal elimino sem dó,
Dela só resta pó,
E eu me viro entusiasmado
Para olhar o novo cenário.

Ah, situação cruel.
Meu espírito antes imponente
Agora se retraiu,
Implorando pelo retorno
Daquele mundo que me fugiu.

As informações flutuam intensamente,

34

Trazendo o caos à minha mente.
É muito mais do que aquilo que pensei eu
Ser capaz de lidar.

Minha mente está inundada
E não consigo conectar nada,
Elucidar, ou simplificar, nada. Nada!

Tento retornar, desesperadamente,
Mas nem isso sou capaz de realizar.
A vida se expandiu,
E nesse novo mundo não consigo ficar,
E nem para o antigo consigo voltar.
Ó, desespero!
Ó, proposição infeliz!
Maléfica!

35

“Ele provavelmente não adivinhava, até então, o quanto eu me sentia
infeliz todas as noites, o que minha mãe e a minha avó sabiam muito bem; mas
elas me amavam o bastante para não consentir que me poupassem o
sofrimento, pois desejavam que eu aprendesse a dominá-lo, a fim de diminuir a
minha sensibilidade nervosa e fortalecer minha vontade.”
Marcel Proust

36

Ampliando a consciência

Cada nova impressão percorre nossa mente com uma intensidade
assustadora, selvagem, adquirindo proporções incrivelmente exageradas. Até
mesmo um pequeno detalhe pode suscitar uma perspectiva desesperadora, ou
absurdamente

satisfatória.

Em

nossa

mente

os

acontecimentos

são

desenvolvidos longe do nosso controle, irracionalmente, apresentando-nos
cenários que contêm a satisfação mais incrivelmente perfeita ou cenários que
contêm as características mais abjetas e desesperadoras, sendo essas
possíveis construções carentes de meio-termo, ou de possibilidades que se
aproximem da realidade.
Longe de verificações mensuráveis, ou de parâmetros e consequências
realmente plausíveis, nossa mente vai desenvolvendo as nossas impressões.
Amor ou ódio, redenção ou aniquilação, arquétipo ou sombra, sempre fazendo
construções exageradas e irreais, essa é a maior característica do nosso
intelecto.
Esse acontecimento intrínseco, que ocorre independentemente da nossa
vontade racional, termina por determinar aquilo que nos é mais valioso, os
nossos objetivos, os nossos medos; e, de acordo com essas construções,
adquirimos a nossa intuição, as nossas sensações; através dessas
elaborações profundamente obscuras, ininteligíveis e incompreensíveis vamos
sendo direcionados pela vida.
Deparados com essas nossas características profundas, podemos nos
assustar com a constatação de que nossa mentalidade é muito mais instável
do que nos parece, assim como podemos passar a temer qualquer pequeno
acontecimento, que possui potencial para se tornar o responsável por um
colapso mental; no entanto, esses medos são eliminados pelo próprio intelecto,
que possui numerosos mecanismos de proteção, prontos para deturparem
todos os aspectos da realidade em prol da nossa sanidade.

37

Estima-se que, até mesmo em uma simples conversa, nós utilizamos
diversos mecanismos de proteção, sendo eles responsáveis por amenizar ou,
até mesmo, deturpar as nossas impressões, impedindo que o intelecto se
depare com uma informação que

possa suscitar uma interpretação

assustadora.
Entretanto, nos seres sensíveis esses aspectos psíquicos são diferentes.
Neles, que enxergam demais e não são capazes de estabelecer uma estrutura
exata dos conceitos, uma relação exata entre suas numerosas percepções,
uma alma não é capaz de se estabelecer, e sem alma, sem direcionamento e
conteúdos pré-determinados, os mecanismos de proteção deixam de existir.
Nesse caso, todo acontecimento chega sem filtros ou deslocamentos ao
intelecto; sem uma consciência abrangente e desenvolvida, as estruturas do
intelecto vagam descontroladas e incertas, constantemente criando novos
cenários, novas interpretações exageradas, desesperadoras, longe de qualquer
tipo de controle.
O desespero assustador, a felicidade alucinada, o chiste que gera
tensão, que é dissipada com uma risada selvagem; todas essas características,
dignas de uma constituição em formação e sem consciência, estão presentes
em muitos adolescentes, e, até mesmo nessas pessoas, em evidente formação
intelectual, essa é uma característica um tanto rara; a maioria das pessoas
realmente nasce póstuma.
Os esforços do intelecto são ininterruptos, a mente possui parâmetros a
serem preenchidos, e a todo momento, em uma mentalidade flutuante, esses
mecanismos são estabelecidos e adquirem um conteúdo. A perspectiva mais
satisfatória que ao mesmo tempo é a mais nociva e algo irrelevante; é dessa
forma incerta e múltipla que o intelecto se estrutura enquanto não encontra
seus conteúdos exatos. Alternando a todo instante os conteúdos e os motivos,
o humor muda constantemente; a alegria de um momento se tornou a tristeza
da hora seguinte e a informação irrelevante do dia seguinte, tudo é mutável, o
espírito está fresco e em sua potência máxima, alternando constantemente os
cenários e a forma do indivíduo de se interpretar perante as constantes
construções.

38

Com pouca consciência e sem mecanismos de proteção, essas pessoas
se deparam com paixões intensas, que prometem sanar todos os desejos da
existência, assim como se deparam com aspectos que aparentam aniquilar
tudo o que existe; esses aspectos exigem uma vontade descomunal para que
sejam controlados, para que não incitem atos desesperados.
Angustiados em meio a sensações e estruturas intensas e muito longe
que qualquer tipo de controle, esses seres, nos casos comuns, veem com
satisfação a existência de uma estrutura exata de mundo, que lhes proporciona
um conteúdo inconsciente comum e exato, situado muito além da realidade —
o que não lhes permite a possibilidade de que a constatação de tais
parâmetros os destrua e faça com o indivíduo se depare com o desespero
paralisante —, que os permite eliminar todas as possibilidades discrepantes e
criar uma alma e um espírito imutáveis, que permitem a existência de
mecanismos de proteção, permitindo-os, desse modo, que se desvencilhem da
incerteza agonizante e controlem suas impressões exageradas, característica
essa que os torna irracionais para sempre.
No entanto, em casos raros, alguns seres destemidos, que possuem
uma constituição forte, decidem encarar a vida e os sentimentos de frente.
Ampliando sua imaginação mensurável, constatável, que pode ser analisada e
direcionada (consciência), esses seres vão estruturando, de forma racional,
todos os seus sentimentos e impressões, vão se tornando indivíduos evoluídos,
capazes de entender e controlar todos os aspectos da psique. Eles buscam,
avidamente, todos os tipos de experiências para que possam forjar, na oficina
que é a mente, a consciência, ainda não criada, da sua raça.

39

“Esteja preparado para mudar rapidamente, muitas vezes.”
Autor desconhecido

40

A realidade líquida
Em meio ao ambiente completamente mutável em que vivemos, é
imprescindível estarmos preparados para mudanças constantes, ininterruptas.
Em nossa vida, os elementos com os quais nos deparamos podem ser
considerados como sendo líquidos, como fazendo parte de um rio ininterrupto,
contínuo, que sempre está em movimento, sempre muda; nesse contexto,
encontramo-nos perante a vida e seu fluxo ininterrupto e alucinante. Quando
nos aproximamos das coisas e tentamos classificá-las percebemos o quanto
essa nossa tarefa é ineficiente, e nos sentimos profundamente frustrados com
isso, principalmente porque a mentalidade humana exige respostas imediatas e
claras para as coisas com as quais ela se depara, fazendo com que a falta de
definição das coisas seja uma característica insuportável para nós. Tendo em
vista essa nossa necessidade profunda, arriscamo-nos para tentar definir
aquilo com o que mantemos contato, aproximamo-nos da liquidez das coisas e
nos esforçamos para classificá-las. Essa nossa tarefa constante logo se mostra
ineficiente; como em um rio, quando colocamos as mãos na água, mantendoas unidas em formato de uma concha, e capturamos o máximo que podemos
da liquidez, sentimos o conteúdo líquido tocar as nossas mãos, sentimos esse
conteúdo escapar por entre nossos dedos, até que olhamos para nossas mãos
e a encontramos vazia, sem nada. Após observar essa primeira tentativa
ineficiente de classificação, armamo-nos com algum elemento que nos ajude a
capturar o conteúdo que se encontra à nossa frente, como, por exemplo, um
pote de vidro. Durante essa segunda tentativa, obtemos sucesso; tornamo-nos
capazes de capturar e definir com exatidão a essência daquilo que nos
propomos a definir, mas, no entanto, não conseguimos mais sentir aquilo que
classificamos, o que nos faz permanecer distantes, indiferentes, em relação
àquilo que definimos.
Absortos nessas complicações iniciais de classificação das coisas,
deparamo-nos com uma última e ainda mais complexa condição do ambiente
em que nos encontramos. Nele, as coisas se movimentam e se alteram de

41

maneira ininterrupta, constante. Quando pensamos finalmente ter definido algo
que tanto absorveu nosso tempo, olhamos felizes para o exterior, para fora da
nossa mente reflexiva, que tanto se esforçou para definir aquilo que parecia ser
essencial para nós, e quando analisamos o novo arranjo das coisas,
percebemos que nossas classificações, exaustivamente construídas, são
inúteis, obsoletas; todas as coisas se transmutaram, o fluxo contínuo do rio
alterou por completo o nosso elemento de análise, e agora nos deparamos com
um cenário completamente novo, onde nossas explicações e objetivos são
inúteis, irreais.

“Quando mudamos aquilo em que acreditamos, mudamos o que
fazemos, mudamos quem somos.”

Após a descrição do cenário no qual estamos inseridos, percebemos o
quanto é necessário que constantemente alteremos nossas crenças e
classificações, para que essas se adaptem ao ambiente, ao arranjo das coisas,
com o qual nos deparamos. Essa condição existencial não só pode, como deve
ser aplicada a todas as instituições, governos, companhias, etc., pois, afinal,
qualquer uma das organizações, que foram anteriormente citadas, pode ser
considerada, sem exceção, como sendo um grande organismo vivo, um ser
vivo, que quanto mais se aproxima da verdadeira essência das coisas, quanto
mais se aproxima da natureza, mais eficiente se torna.
Nesse cenário as pessoas e as companhias vão tomando decisões, vão
elaborando suas concepções e estratégias. Aqueles que são mais inteligentes
e perceptivos, constantemente se veem obrigados a alterar seus conceitos, por
causa da constatação de que o ambiente externo se encontra completamente
diferente, completamente discrepante aos conceitos que os guiam, que os
direcionam pela vida.
Esse nosso exercício constante de redefinição de ideais e metas, é uma
tarefa ininterrupta, e absolutamente necessária para o melhor aproveitamento
das condições que o ambiente nos apresenta. Constantemente nos vemos
42

mergulhados em nossas memórias, alterando nossas concepções, alterando
nossos parâmetros e a nossa interpretação das coisas; nesse processo
contínuo vamos aprimorando nossos conceitos, vamos adquirindo informações
que melhor relacionam as coisas, atributo esse que nos permite possuir uma
versão mais precisa e eficiente de nós mesmos. Esse processo de correção e
aprimoramento sempre ocorrerá em nossas vidas, até que, por fim, entregamos
nossa melhor versão, de graça, aos vermes.

43

“Será que realmente sabemos aquilo que somos, ou como somos? A
consciência ainda é uma entidade germinal, diminuta; ela nos diferencia de
todos os outros seres vivos que existem, permitindo-nos não mais sermos
definidos pelo ambiente, mas sim definirmos aquilo que somos, independente
do ambiente. Infelizmente, essa entidade ainda tem muito o que evoluir para
que

possamos

considerá-la

eficiente.

Mesmo

em

sua

ineficiência

constantemente comprovada, podemos perceber pequenos acontecimentos
que nutrem um resquício de esperança de que essa entidade se tornará, no
futuro da humanidade, abrangente e eficiente, fazendo com que o ser humano
finalmente seja superado e que nós nos tornemos deuses.”
Autor desconhecido

44

O eterno processo de individuação
O processo de individuação é um processo de descoberta das nossas
características pessoais, abrigadas no inconsciente. É uma descoberta do Eu,
uma tentativa de nos definir como indivíduos, tornando-nos conscientes das
nossas tendências e desejos; é uma descoberta que expõe a nossa alma, que
permite a nossa identificação como sujeitos possuidores de características
inimitáveis perante o todo, como sendo um microcosmo particular, e de arranjo
único, em meio a tudo aquilo que nos cerca.
Nós nos reconhecemos como indivíduos? Nós compreendemos nossas
vontades e tendências mais profundas? É preciso que ampliemos a nossa
percepção para que sejamos capazes de nos investigar profundamente; essa
investigação profunda nos permitirá compreender aquilo que define as nossas
características psicológicas. Esse processo — que é caracterizado como
individuação — permite que desvendemos aquilo que somos, permite que
corrijamos aquilo que não queremos ser e possibilita a definição de novos
parâmetros. Um Eu maduro, forte e bem definido é capaz de se proteger dos
arroubos provenientes de nossos processos inconscientes, assim como uma
personalidade sólida e bem estabelecida é capaz de impedir o surgimento de
outros traços pessoais, característica essa que tem relação com uma espécie
de bloqueio das influências externas; no indivíduo de personalidade fortemente
estruturada, o ambiente à sua volta continua incitando comportamentos
latentes, mas o indivíduo maduro não permite que essas influências alterem
seu comportamento, dessa maneira percebendo as influências externas , mas
agindo da forma que lhe é mais conveniente. O indivíduo maduro também é
capaz de se desvencilhar de um arquétipo que surge de forma potente e
ameaça as características individuais; ele, com sua consciência evoluída, é
capaz de conter as interpretações inconscientes exageradas, dessa forma não
sucumbindo a projeções, que a mente, teimosamente, insiste em construir. A
consciência é a melhor forma de alterar os conteúdos inconscientes.

45

Quando investigamos mais profundamente os conteúdos da nossa
mente, deparamo-nos com um grande caos, uma variedade interminável de
sensações, memórias, arquétipos, sombras, sentimentos, experiências, etc.. A
síntese desse caos, por mais confuso que possa parecer, determina a nossa
personalidade. Em uma pessoa de consciência diminuta, o conteúdo
inconsciente irá determinar as ações e reações do indivíduo, sem que esse
possua controle sobre aquilo que ele se sente impelido a fazer; nesse caso a
pessoa pode ser considerada como sendo apenas algo em-si, como que um
objeto que não pode ser nada além daquilo que ele é, como uma caneta que é
simplesmente uma caneta, e, pela falta de consciência sobre sua condição,
não pode alterar aquilo que ela é. Uma pessoa dotada de uma percepção mais
abrangente pode desvendar e determinar o seu em-si, característica essa que
pode ser designada como em-si-para-si. Nesse caso, um tanto quanto
incomum, o indivíduo é capaz de identificar os conteúdos, presentes em sua
mente, e é capaz de estabelecer uma nova ordenação para sua personalidade,
tornando-se a pessoa que ele realmente deseja ser.
Possuímos almas múltiplas, ou, melhor dizendo, diferentes maneiras de
nos definirmos como indivíduo perante tudo aquilo que percebemos, que
sentimos, e que é caracterizado como espírito. As pessoas ultrassensíveis são
suscetíveis aos acontecimentos externos a elas; aquilo que acontece em volta
dessas pessoas incita uma maneira de ser, incita um arranjo específico da
personalidade. Perceber uma característica de alguém à nossa volta é, de
algum modo, senti-la, experimentá-la. Essa nossa forma de enxergarmos as
coisas à nossa volta não é absolutamente exata, aquilo que sentimos não é
realmente a verdadeira essência daquilo que observamos; para ser mais exato,
aquilo que percebemos é uma inferência capciosa, proveniente das nossas
próprias

experiências

de

vida.

Cabe

a

nós

analisarmos

tudo

pormenorizadamente, sem termos medo de refutar e reconstruir nossas
interpretações do mundo e nossas ideias, se quisermos enxergar um ambiente
externo a nós que se aproxime daquilo que ele realmente é.
Experimentar,

testar,

jogar,

arriscar,

investigar,

são

tarefas

indispensáveis para a instauração de uma personalidade que seja mais
condizente com aquilo que as coisas realmente são. O processo de
46

individuação é eterno, nós sempre estamos nos descobrindo, determinando o
ambiente à nossa volta, e definindo aquilo que somos.

47

“Acordei com o sol rubro do fim da tarde; e aquele foi um momento
marcante em minha vida, o mais bizarro de todos, quando não soube quem eu
era – estava longe de casa, assombrado e fatigado pela viagem, num quarto de
hotel barato que nunca vira antes, ouvindo o silvo das locomotivas, e o ranger
das madeiras do hotel, e passos ressoando no andar de cima, e todos aqueles
sons melancólicos, e olhei para o teto rachado e por quinze estranhos
segundos realmente não soube quem eu era. Não fiquei apavorado; eu
simplesmente era outra pessoa, um estranho, e toda a minha existência era
uma vida mal-assombrada, a vida de um fantasma.”
Jack Kerouac

“Meu espírito se agitava para procurar saber onde eu estava.”
Marcel Proust

48

O Eu fragmentado
O mundo, o ambiente à nossa volta, as nossas impressões, as nossas
sensações, são os responsáveis por nos fornecer informações para que
determinemos o entendimento do meio em que estamos inseridos. Na
literatura, geralmente, essa nossa construção primordial, e intrínseca, é
conhecida como espírito; essa entidade é a estrutura de mundo que formamos,
ela utiliza como base, para suas interpretações, aquilo que percebemos e
aquilo que nos ensinam. No que concerne à psicanálise, esse entendimento
profundo

também

é

abordado,

sendo

caracterizado

por

inconsciente

suprapessoal (Jung) e superego (Freud).
Após uma breve apresentação, talvez uma pergunta possa ter surgido
na mente dos leitores: “Nós, que estamos situados em um ambiente que é uma
referência em comum para todas as pessoas que existem, devemos possuir
um conteúdo inconsciente semelhante, um espírito semelhante, quando
comparados a outras pessoas, não é mesmo?” Para essa pergunta, que, pela
lógica, deveria suscitar uma afirmativa confiante, a resposta é um categórico
Não!
O ambiente em que estamos inseridos nos permite uma infinidade de
inferências, uma infinidade de modelos plausíveis, uma infinidade de
ramificações, consequências e possibilidades. Essa base, que nos permite
qualquer tipo de associação, qualquer tipo de construção conceitual, qualquer
tipo de arranjo do espírito, foi caracterizada por Kant como sendo a intuição
pura. Em meio a possibilidades infinitas de construção vamos classificando e
estruturando as nossas impressões. Cada um de nós é responsável pela
construção de seus conceitos, cada um de nós estrutura o próprio espírito (o
ambiente à nossa volta); o mundo é a nossa representação, e esperar uma
representação exatamente idêntica, entre as pessoas, ou até mesmo da
mesma pessoa em diferentes momentos de sua vida, é um absurdo.
Referente aos conceitos que são construídos por nós — em um
ambiente que nos permite infinitas interpretações —, percebemos o quanto é

49

incoerente possuirmos apenas um único modelo de mundo; esse tipo de
concepção limitada só pode ser resultado de uma percepção diminuta, de
muitos deslocamentos, ou da falta de experiências. O cenário psíquico que nos
parece mais comum, sendo ele a multiplicidade de interpretações do mundo, é
a principal característica da fragmentação do Eu; mas, mesmo sendo essa o
principal enfoque do texto, é preciso que façamos uma pequena pausa para
analisarmos uma de nossas entidades psíquicas mais importantes, que na
literatura recebe o nome de alma, enquanto na psicanálise é nomeada por Ego
ou Eu (Freud) e por inconsciente pessoal (Jung).
O Eu (ou alma, ou inconsciente pessoal) é aquilo que nos delimita em
meio ao espírito (ou superego, ou inconsciente suprapessoal), determinando
nossas características, de acordo com a melhor forma de nos situarmos
perante a nossa representação de mundo. Possuindo uma tábula rasa, que
permite qualquer tipo de associação, o ser humano vai, ao longo da vida,
construindo a interpretação do ambiente em que está inserido e a forma como
ele se relaciona com esse ambiente criado por ele. Nunca é demais
lembrarmos que essas construções conceituais fogem do nosso controle
consciente; provavelmente os animais possuem a mesma estrutura psicológica,
o que evidencia a falta de necessidade da presença da consciência para que
essas construções ocorram.
Após a apresentação de nossas estruturas psíquicas, a explicação do
surgimento de um Eu fragmentado se torna mais simples. Essa ramificação
individual, essa multiplicidade de formas de nos portarmos perante aquilo que
interpretamos como sendo o ambiente à nossa volta, deveria ser mais comum.
Um observador atento, que a todo o memento assimila novas informações e
cria um novo arranjo das coisas, provavelmente possuirá uma gama variada de
possibilidades do Eu, sendo que cada uma dessas possibilidades foi
estruturada de acordo com o ambiente e as informações assimiladas pelo
observador. No entanto, é comum encontrarmos pessoas que apresentem uma
alma (Eu, Ego) sem ramificações, ou com resquícios de possibilidades do Eu
muito reprimidos e ignorados.

50

Um exemplo totalmente contrário à mentalidade comum é o de Fernando
Pessoa; esse indivíduo incomum, que se permitiu possuir uma constituição
rara, foi capaz de desenvolver, de forma espantosa, diferentes arranjos do Eu,
o que lhe permitia se situar de formas variadas no ambiente em que ele se
encontrava.
A fragmentação do Eu, fruto daquilo que podemos caracterizar como
construções flutuantes, é uma característica que, a princípio, assusta. Vivermos
eternamente na incerteza, eternamente observando atentamente, eternamente
definindo o ambiente à nossa volta e nossa posição em meio a esse ambiente,
são funções que nos amedrontam, e exigem demais de nós; mas após
percebermos o quanto as condições à nossa volta estão constantemente se
alterando, e o quanto um Eu fixo e imutável é retrógrado e ineficiente, não mais
nos será tão complicado encarar todas as múltiplas possibilidades e as
incertezas da vida.

51

“A constituição dele muito me impressiona, ela é múltipla, plural, sem
parâmetros fixos. Quando o analiso fico imaginando: ‘Quantas vezes ele não
teve de pulverizar suas estruturas mais profundas para que pudesse, apenas
assim, enxergar as coisas sob uma nova perspectiva? Quantas vezes ele não
teve a sensação de ver o cenário formado pela sua mente se tornar obscuro,
insuportável? Tenho certeza de que foram muitas vezes, pois sei bem o quanto
é assustador ver um de meus conceitos profundos sendo questionados, sendo
refutados’ — Após analisar esse sujeito incomum, de uma coisa passei a ter
certeza, aqueles que são dotados de pensamento múltiplo não temem a dor,
não temem a desconstrução dos conceitos que traz o desespero insuportável,
eles não temem a morte, eles não temem nada.”
Autor desconhecido

52

O espírito e o desespero
De repente algum pensamento, sendo ele incitado por algum
acontecimento, ou podendo ocorrer de forma espontânea, faz com que
desenvolvamos um cenário obscuro e desesperador na nossa mente. Perante
essa nossa estrutura desesperadora, onde nos sentimos oprimidos perante as
características do mundo à nossa volta, sentimo-nos impelidos a agir, a fazer
algo que altere, que substitua nosso espírito desesperador.
Nesse contexto, talvez a sexualidade seja a nossa atitude mais primitiva,
tendo como intuito amenizar o cenário desesperados com o qual muitas vezes
nos deparamos. Nesses casos, sentimo-nos impelidos ao gênero que mais nos
agrada, ao gênero que estruturamos em nossa mente como sendo o
responsável por nos proporcionar o único objetivo da nossa existência, por nos
proporcionar a potência máxima, por nos proporcionar o nirvana.
Durante a interação sexual, nosso espírito adquiri novas nuances, sendo
elas satisfatórias, desse modo oferecendo um cenário mais aconchegante,
mais tranquilo, fazendo com que nossa alma abandone o cenário anteriormente
desesperador e aumente sua potência em um cenário menos opressor, desse
modo fazendo com que nos sintamos mais satisfeitos.
No entanto, nossa satisfação geralmente dura pouco; logo nos vemos
novamente deparados com os agentes que incitam pensamentos penosos, que
incitam a construção de um ambiente, no qual estamos inseridos (espírito), que
é desesperador para nós.
Novamente, em função do cenário opressor que se forma na nossa
mente, sentimo-nos impelidos a agir de novo, a novamente executarmos ações
que façam com que transformemos nosso espírito, que façam com que,
novamente, o tornemos um cenário satisfatório.
Esse ciclo pode ser considerado como sendo eterno nos animais e na
maioria das pessoas. Na nossa vida os verdadeiros agentes que nos
incomodam nunca serão pormenorizadamente investigados, sanados, restando
a nós apenas ações impulsivas, que somente nos fornecem soluções
provisórias para os verdadeiros problemas.

53

No entanto, diferentemente da maioria das pessoas, alguns seres
humanos adquirem um conhecimento e um poder de controle sobre a mente
que impressionam. Eles se tornam capazes de mensurar as profundezas do
intelecto, assim como são capazes de entender a maneira como seus
conceitos estão estruturados em suas mentes. De posse dessas informações
preciosas, esses seres raros são capazes de sanar o desespero, gerado por
uma construção espiritual abjeta, apenas com a sua imaginação, assim como
são capazes de estruturar cenários, em suas mentes, que os permitam
direcionar toda a sua força rumo a objetivos que eles almejam, racionalmente,
alcançar.
Em um número relativamente alto de seres humanos, podemos observar
a substituição do sexo por outra atividade que adquiri o poder de proporcionar
parâmetros espirituais satisfatórios. Entretanto, o ser raro se diferencia dessas
pessoas por ser capaz de direcionar, de forma racional, suas ações.
Ah, a mente é tão vasta, e nossa consciência pode se tornar tão
abrangente e eficiente, mas, para a infelicidade da maioria das pessoas,
alcançar conceitos profundos e estruturar uma consciência abrangente são
tarefas perigosíssimas, que, a princípio, exigem que o indivíduo suporte uma
dor insuportável, sendo ela totalmente desnecessária, sendo ela coerente
apenas aos teimosos destemidos, que não possuem nenhuma consideração
pela vida.

54

A estrutura da nossa mente
É espantosa as múltiplas interpretações adquiridas pelas pessoas ao
longo de suas vidas, essa característica torna limitada e ineficiente uma
classificação mais generalizada dos conceitos, das metas e dos medos de
cada pessoa. Para além da definição de conceitos fixos, que podem ser
adotados por todos, é preciso que investigamos a forma como se estrutura o
intelecto, é preciso que identifiquemos nossas necessidades e medos
profundos, para que, apenas assim, possamos definir um modelo que possa
abarcar todas as múltiplas interpretações que encontramos quando interagimos
com pessoas que possuem com diferentes experiências, diferentes formações
culturais.
Após estabelecida uma estrutura

exata, que

coordena nossas

construções intelectuais, fica mais fácil analisarmos cada crença, cada medo,
cada objetivo; que, quando comparados entre si, não carecem de lógica, não
carecem de definições que podem ser confirmadas de acordo com aquilo que
definimos ser o funcionamento da mente.
Entretanto, mesmo sendo a definição das estruturas humanas profundas
uma tarefa de suma importância para o entendimento do ser humano e de suas
crenças e condutas, essa é uma das tarefas mais difíceis, senão a mais difícil,
de ser realizada, de ser explorada.
Quanto mais mergulhamos no intelecto, mais vamos desestruturando
nossas crenças que nos impedem de mergulhar em meio ao desespero
paralisante, que nos impedem de transformar o nosso espírito em um cenário
assustador, capaz de atormentar qualquer um. Tendo essa característica em
vista, é preciso que salientemos a dificuldade de tal tarefa, assim como a
inutilidade da mesma, perante um mundo onde todos os conceitos estão
previamente estruturados para as pessoas, onde o homem consciente e de
pensamento profundo é taxado como sendo insensível, louco, psicopata.

55

Mesmo com todas essas dificuldades, algumas pessoas se arriscam em
busca de realizarem essa proeza que resultará em benefícios incalculáveis
para os seres humanos; que resultará no fim de guerras ideológicas; que
proporcionará o controle absoluto da mente; que fará com que o ser humano
seja, finalmente, superado e se torne senhor de si, dono de suas concepções e
de seus atos.
Os escritos dessas pessoas raras e corajosas nos proporciona
definições muito precisas, que podem ser definidas como sendo nossas
estruturas intrínsecas.

A vontade de potência, os ideais, o desespero e outras
características da nossa mente: Sendo essa uma das definições mais
complexas, é preciso que salientemos, desde já, o caráter especulativo das
seguintes definições. No entanto, é preciso que relembremos a análise
exaustiva e pormenoriza que envolve cada definição, cada proposição.
Sem mais delongas, é preciso que mergulhemos em um novo modo de
enxergarmos as coisas, sendo essa nova interpretação talvez muito mais
próxima da realidade do que qualquer outra suposição previamente elaborada.
Primeiramente, é preciso que seja estabelecida a forma mais precisa
como enxergamos as coisas, sendo ela uma concepção absolutamente virtual
do mundo, das coisas à nossa volta. Desde que a ideia de que aquilo
enxergamos, que percebemos, não passa de um reflexo da realidade tornou-se
um conceito preponderante em nossas análises, percebemos uma mudança
drástica no modo como enxergamos as coisas, como interpretamos nossos
conceitos e como consideramos conceitos alheios aos nossos. A relatividade
de cada interpretação, de cada forma de perceber, tornou-se parâmetro
essencial para que analisemos, com precisão, determinadas atitudes e
definições. A imagem virtual do mundo, sendo ela particular e única, nos situa
em meio às coisas, perante os acontecimentos.

56

Após essa definição inicial, podemos encarar cada acontecimento como
sendo estritamente particular, sendo ele responsável por suscitar diferentes
interpretações e reações em cada espectador. Considerando como axioma a
seguinte proposição: “Não existem fatos, apenas interpretações.”, podemos
aprofundar as nossas definições, que têm como base uma concepção
particular e virtual das coisas.
Nesse contexto virtual, podemos perceber o quanto a nossa mente é
responsável por criar o cenário no qual estamos inseridos. Dessa forma, não é
nenhum exagero quando dizemos que o sujeito que sente como que se fosse
cair em um precipício já, desde o surgimento de tal pensamento, imagina o
acontecimento, já se coloca como que se estivesse perante tal cenário. Apenas
esse fato de pensar já é responsável por criar uma interpretação exagerada,
por suscitar uma grande quantidade de sentimentos. O mundo considerado real
por nós é aquele que imaginamos.
Longe da realidade e das verdadeiras consequências e comportamento
das coisas, enxergamos um mundo completamente diferente em nosso reflexo
da realidade; nele, cada acontecimento adquiri proporções absurdamente
exageradas, que não condizem com parâmetros plausíveis, possíveis.
Cada uma de nossas definições profundas têm como cenário a nossa
imagem virtual do mundo. Mesmo nos deparando com muitas interpretações e
sentimentos absurdos, permanecemos alheios a essas nossas construções,
que, muitas vezes, permanecem intocadas, inalteradas para sempre, mesmo
sendo suas definições completamente equivocadas, e irreais, e exigindo, dessa
forma, uma reclassificação urgente.
Como dito anteriormente, a reconstrução de nossos conceitos exige uma
força

descomunal,

uma

resistência

super-humana

contra

o

cenário

desesperador que se forma em nossa mente cada vez que desestruturamos
nossos conceitos e crenças profundas. Nesse caso, muitas de nossas
interpretações permanecem intocadas, assim como a afirmação das mesmas
faz com que o indivíduo deturpe a realidade, para que essa apresente fatores
que validem suas crenças profundas, tudo isso para que não presenciamos o

57

desespero presente em cada uma de nossas desconstruções, sendo ele
inerente a uma mentalidade que é incapaz de se posicionar perante as coisas,
característica essa que faz com que percamos a potência de nossos atos,
aspecto esse que é desenvolvido pela nossa mente de forma absurda, fazendo
com que desenvolvamos o cenário mais desesperador em nossa mente.
Entretanto, mesmo com todos os nossos mecanismos de proteção que
nos afastam do medo paralisante e das construções que tanto tememos, ainda
nos deparamos com o desespero existencial. Esse medo profundo,
presenciado por muitas pessoas, é algo que gera uma energia descomunal,
que faz com o que o indivíduo busque, a todo o momento, superar esse cenário
que insiste em se formar em sua mente. Após muito esforço e tentativas
intensas, o indivíduo, incapaz de afugentar o cenário que tanto o incomoda,
cria aquilo que vem a ser conhecido como sendo o arquétipo, seu ideal,
estrutura essa que é responsável por transcender a imagem virtual que tanto
incomoda, fazendo com que o indivíduo crie um cenário fictício onde o mundo
parece se tornar mais ameno, mais confortável, mais suportável.
Perante essas nossas estruturas intrínsecas, é preciso que sejamos
capazes de estabelecer aspectos profundos que são os responsáveis por gerar
satisfação e desespero em nós. Para a definição daquela que é a nossa
estrutura mais profunda, nada melhor do que contar com as palavras do mais
profundo dos homens: “Não existe busca pela felicidade, mas sim por
potência.” Essa definição parecerá esdrúxula e incoerente para aqueles que
são incapazes de entender o verdadeiro sentido de potência acima descrito. A
potência não se trata de status social, ou domínio de outras pessoas; em um
sentido estritamente intelectual, a vontade de potência se trata da aproximação
do desejo mais profundo dos seres humanos, de seu único e primordial instinto:
A eliminação da alma, para que indivíduo se torne apenas espírito (nirvana).
Sendo conhecido como nirvana, essa é a nossa vontade mais profunda, e a
satisfação (felicidade) e a insatisfação estão estritamente ligadas a essa
potencialização, aproximação das dimensões do espírito, ou à redução da
potência.

58

Essa definição ousada, que é muito diferente daquilo que estamos
acostumados a interpretar sobre nós mesmos, parece ser a única explicação
plausível para muitos de nossos sentimentos, uma lógica mais precisa de
nossas sensações não poderia ser obtida sem tal proposição.
Definindo de forma mais sistematizada e limitada, podemos considerá-la,
como descrita por Freud, como sendo o instinto de morte, o retorno ao estado
inorgânico.
Sendo ela nossa característica mais profunda, precisamos estabelecer
todos os conceitos que derivam dessa nossa estrutura intrínseca.
Primeiramente, podemos salientar nosso desejo profundo de estabelecer
uma concepção imutável e direcionada estritamente a algum conceito
específico. A mente plural, que encara muitos parâmetros e possibilidades
sempre será mais miserável, sempre se encontrará perante o desespero e a
dor. Mesmo perante essas características, percebemos o quanto a realidade é
plural e complexa, sendo esse nosso sentimento e desejo profundo um de
nossos defeitos gritantes, que precisam ser aprimorados.
As

nossas

possibilidades

nos

oprimem,

elas

são

nocivas

e

desesperadoras. Em nossa mente, onde os parâmetros são desenvolvidos em
um ambiente particular, relativo, e os conceitos são estruturados e definidos
sem que esses possuam uma relação exata com a realidade das coisas,
costumamos definir nossas possibilidades de forma exagerada. Os cenários
exagerados nos influenciam, por mais que existam apenas na nossa mente,
esses parâmetros são absurdamente influentes em nossas decisões e estados
de espírito.
Essa característica do nosso intelecto é absurdamente opressiva quando
o indivíduo possui múltiplas possibilidades, quando ele possui interpretações
variadas e discrepantes entre si.
É até mesmo engraçado ouvirmos os tão comuns pseudointelectuais
falando sobre aumentarmos as nossas possibilidades. Suas interpretações,
como sempre, são completamente equivocadas. Sem um espírito vasto, sem
59

conceitos múltiplos, os pseudointelectuais apenas repetem conceitos, sem
serem capazes de compreendê-los, de vivenciá-los.
Aqueles que possuem um espírito vasto, que enxergam as coisas com
perspectivas discrepantes entre si, são os únicos capazes de explicar com
precisão o efeito que o aumento das possibilidades causa em nós.
O desespero sufocante e aterrador, é com isso que os seres cheios de
espírito devem se acostumar, a princípio.
Detentores de possibilidades variadas, os seres cheios de espírito
permanecem tranquilos, serenos, até que uma de suas possibilidades seja
definida como sendo a direção para onde o indivíduo deve seguir. Quando o
intelecto do indivíduo começa a se restringir em função de uma possibilidade
em particular, todas as outras possibilidades se tornam opressivas,
aterrorizando o indivíduo até que esse se sinta desesperado.
Com a definição de uma das possibilidades, aquilo que imaginávamos
que essa possibilidade nos proporcionaria acaba por se perder em meio à
realidade, proporcionando-nos resultados muito menores do que aqueles que
esperávamos. Ao mesmo tempo que nos frustramos com a nossa decisão,
todas as nossas outras possibilidades — que permanecem intactas na nossa
mente, ainda apresentando os aspectos mais incríveis e satisfatórios, que só
existem nas profundezas do intelecto — nos atormentam sobremaneira,
fazendo com que nos sintamos ainda mais frustrados com a decisão que
restringe as outras possibilidades, que passaram a ser ainda mais importantes
para nós, ainda mais essenciais.
Funcionando como um ideal opressivo, que torna a realidade
insuportável, nossas mais variadas possibilidades fazem com que nos
amedrontemos com os aspectos que a realidade passa a nos apresentar.
A decisão, que anteriormente nos parecia ser tão correta, agora apenas
nos oprime, nos aterroriza. Esse aspecto negativo penetra na nossa mente,
adquirindo proporções ainda mais desesperadoras. Nosso espírito se torna um

60

cenário completamente desolador, fazendo com que sintamos uma dor
profunda, como que se o mundo estivesse desmoronando.
O desespero impele o indivíduo a abandonar a decisão anteriormente
definida, fazendo com que as possibilidades opressivas voltem a se tornar
possíveis, dessa forma deixando de causar dor.
Retornando à condição anterior de ausência de definições, o espírito
volta a apresentar um cenário satisfatório, fazendo com que a alma se torne
mais potente, mais ampla, característica essa que a aproxima das dimensões
do espírito, fazendo com que o indivíduo se sinta satisfeito.
Perante essa nossa característica que nos conduz apenas à apatia ou a
estruturação definitiva e limitada de uma concepção sobre as coisas,
percebemos o quanto o ser humano ainda é limitado, e incapaz de encarar as
verdadeiras proporções e aspectos da realidade. Mais do que nunca, aqueles
que se arriscam, para identificar conceitos profundos, sabem que “o homem é
algo a ser superado. Ele é uma ponte, não o objetivo final.”

61

Ser humano, sociedade e amor
Parece ser do feitio humano a criação de imagens fixas, de ideias que,
de alguma forma, tornam a existência mais fácil, mais suportável. No entanto,
às vezes esses ideais podem ser destruídos, fazendo com que encaremos o
fluxo louco da vida, com todas as suas variantes incalculáveis, suas incertezas
e sua velocidade alucinante. Essa assustadora destruição do nosso ideal pode
ocorrer por causa de uma verificação do mesmo; ao alcançarmos e realmente
experimentarmos a ideia que nos iludia, e amenizava o nosso sentimento de
pequenez perante a vastidão do mundo, acabamos por classificá-la de forma
racional, não mais conseguindo nos iludir com aquilo que era projetado pela
nossa mente. Nesse momento de desconstrução — onde obtemos muito
menos do que aquilo que esperávamos ser capaz de sanar todas as nossas
carências — somos atingidos, sem qualquer tipo de subterfúgio, pelo fluxo
alucinante que é a vida, fazendo com que a nossa pequenez e impotência se
tornem ainda mais evidentes e desesperadoras. A nossa particularidade
diminuta, que nos delimita e nos situa perante o mundo, e que chamamos de
ego, torna-se absurdamente impotente, sem um ideal que a fortaleça, fazendo
com que a discrepância entre o ego e o espírito nos incomode ao ponto de
presenciarmos o desespero existencial.
Essa experiência desesperadora, relatada em muitas obras artísticas,
faz com que nos lembremos da importância de estabelecermos ideais
inalcançáveis, inverificáveis, para que esses permaneçam intocáveis em
nossas mentes, não nos sendo permitido desconstruí-los através da
experiência e da percepção. Tendo em vista a criação de imagens fixas
inverificáveis, que amenizam a impotência humana, possuímos a religião, os
deuses, que acompanham o ser humano desde quando esse se deparou com
o primeiro resquício de percepção da sua condição existencial.
Acompanhando a evolução social da humanidade, o conhecimento foi
capaz de identificar um novo ideal longínquo, que, diferente da religião, pode
ser direcionado para o aprimoramento dos meios de produção, sendo esse

62

ideal o dinheiro, a riqueza. Cada pedaço de papel, cada moeda, que tem valor
de mercado, é almejado de forma absurdamente voraz pelos seres humanos;
com o capital nunca conseguimos obter o suficiente, nunca estamos satisfeitos,
o que nos proporciona ideais inatingíveis, que nos resguardam do desespero.
Essa é a nossa nova religião, nosso novo Deus.
A nossa constituição psicológica permite a construção de qualquer meta,
qualquer objetivo; no entanto, por falta de senso crítico e de pensamento
autônomo, terminamos por nos adequar àquilo que é imposto para nós,
direcionando toda a nossa vontade, toda a nossa existência para onde outras
pessoas querem, dessa forma podemos nos caracterizar como uma pequena
engrenagem que possibilita o funcionamento de um grande sistema, de um
estado.
Toda essa nossa luta cega, toda a energia que gastamos protegendo um
ideal que, no fundo, sabemos ser irrelevante, são consequências de apenas
um único motivo: o ego. Nossa estrutura psicológica é formulada em função do
ego e almeja alcançar apenas um único objetivo, a supressão do indivíduo, a
completude.
Existem muitos relatos que nos mostram a ausência do ego em ascetas
e

em

monges,

possibilitando-lhes

experimentar

as

sensações

mais

surpreendentes e satisfatórias. Na nossa estrutura social antinatural a ausência
do ego não nos é permitida, pois eliminaria a principal estrutura humana que
incita o desespero, o desejo, o ideal e a vontade. Mesmo com a proibição do
altruísmo, e da ausência do egoísmo; mesmo com a intensa imposição da
valorização do ego, o ser humano ainda se depara com um estado de espírito
que lhe mostra a verdadeira essência da existência, sendo essa condição
incomum — e desvalorizada pelos mecanismos de imposição do poder — o
amor.

“Talvez eu odeie tudo isso porque um dia amei. Em meio às profundezas
do meu ser, um novo arranjo de mundo se tornou evidente para mim; por causa

63

do meu fascínio absurdo por outrem perdi as fronteiras que me delimitavam
como indivíduo, o que me permitiu contemplar o mundo sob uma nova
perspectiva, sendo ela abrangente e preenchida pelo mais puro e caloroso
êxtase.”
“A ausência de si mesmo é perigosa, e para mim, felizmente, esse
abandono não durou muito tempo. O amor chegou ao fim, a realidade e a
minha consciência o destruíram, mas esse fim não veio sem sequelas; por ter
sentido a verdadeira satisfação da existência, tudo, que antes era valorizado
por mim, passou a me parecer insosso, intragável, desnecessário. Essa
experiência, que me transmutou por completo, fez com que me afastasse cada
vez mais da sociedade e de todo o seu materialismo. Mesmo com todo o
conhecimento, que essa experiência rara me proporcionou, às vezes olho para
as pessoas à minha volta, com todas as suas vontades descabidas e ilusões
entorpecedoras, e metade de mim sente vontade de ser como elas.”

64

“Livre de
apresentação.”

relação,

a

representação

pode

se

dar

como

pura

Michel Foucault

65

A cultura e as coisas
Um pintor transmite em seu quadro uma representação; ele analisa o
ambiente e assimila as coisas através de uma associação aos seus conceitos e
motivos, transmitindo uma representação que tem como base uma definição,
entendimento, particular dos fenômenos e dos elementos que são percebidos
pelo artista. Quando eliminado o pintor que representa, abandonando suas
particularidades e pontos de vista, abandonando padrões pré-estabelecidos e
perspectivas específicas, e deixando que o quadro represente toda a infinidade
de interpretações possíveis, todo o vazio por trás dos conceitos, podemos,
finalmente, encará-lo como pura apresentação.
É do feitio humano buscar, a todo o momento, estabelecer uma
representação

exata

para

as

coisas

que

percebemos.

Essa

nossa

característica mais profunda tem como objetivo afugentar a incrivelmente
perigosa multiplicidade e mutabilidade que a realidade nos apresenta, fazendo
com que nos sintamos mais satisfeitos perante uma interpretação imutável das
coisas. Entretanto, desde sempre sabemos que estabelecer uma ordem fica,
em um meio onde tudo é mutável, é incoerente e ineficiente.
Tendo em vista nossa necessidade intrínseca de mantermos nossas
interpretações exatas em um mundo mutável, criamos os mais variados
mecanismos de proteção, que afastam qualquer tipo de parâmetro que
questione nossas crenças mais profundas. A percepção seletiva, os
deslocamentos e o ódio, contra aquilo que não reforça nossos conceitos, são
apenas alguns de nossos mais variados mecanismos de proteção, que existem
independentemente da nossa vontade consciente, dessa forma, agindo sobre
nós sem que nem ao menos sejamos capazes de perceber suas ações.
Afastados do vazio existencial, graças aos nossos mecanismos de
proteção que mantêm firmes as nossas crenças, vamos vivendo, sempre
fazendo construções conceituais capciosas, que almejam apenas manter a
estrutura que nos impede de mergulhar na assustadora multiplicidade presente
na pura apresentação das coisas. Nesse contexto, os seres humanos

66

desprezam a verdade em prol daquilo que mantém suas crenças. Essa nossa
característica profunda muitas vezes pode ser encontrada na literatura: “A alma
tem que ser eterna, pois sem isso eu não seria capaz de suportar a vida”;
“Acredito em Deus não porque Ele exista, mas porque ele é útil.”; “Partindo de
uma liberdade ilimitada chega-se a um despotismo sem limites.”
Até mesmo as constituições mais fortes, quando se depararam com o
vazio existencial e a incrivelmente alucinante infinidade de possíveis
interpretações, buscaram estabelecer conceitos fixos e imutáveis, que os
mantivessem distantes do desespero perante nossa verdadeira condição
existencial. Essas tentativas de elaboração de conceitos imutáveis, de
definição das coisas à nossa volta, são definidas como sendo a cultura, e
aqueles que eram detentores do poder de elaboração dos conceitos se
tornaram os primeiros déspotas.
Todos os seres humanos, visando não sucumbirem à pluralidade das
coisas, se adequaram às condições impostas pelos déspotas, para que,
apenas assim, eles pudessem adquirir uma existência que não fosse
desesperadora, insuportável.
A antirrealidade, que permitiu a manutenção de uma espécie que possui
a capacidade de sucumbir por si própria, por causa de seu intelecto avançado,
pode ser caracterizada como uma elaboração conceitual muitas vezes
infundada e limitada, quando comparada com o verdadeiro comportamento das
coisas. No entanto, nossos conceitos culturais, que vêm sendo elaborados e
incrementados desde o início da humanidade, e que guiam as condutas
humanas, muitas vezes passam por alterações drásticas, exigindo que as
pessoas se adequem às novas formas de enxergarmos as coisas.
No livro Dom Quixote, é descrito um exemplo de representação
obsoleta, que não mais é condizente com a forma de encarar e se portar
perante as coisas. Dotado de uma concepção ultrapassada, o herói vive
aventuras incoerente, que não mais têm relação com a forma vigente das
condutas humanas e da forma com a qual as pessoas devem enxergar as
coisas; as atitudes do herói fazem com que ele seja considerado como sendo
louco.
67

Distantes das formas vigentes de se enxergar as coisas, o gênio se
encontra muito próximo ao louco; ambos estão situados no limiar entre
conceitos profundos, que relatam a verdadeira essência das coisas, e
conceitos infundados, incoerentes; eles perscrutam além das condições e das
crenças que nos são impostas; apenas eles são capazes de criar o novo, de
refutar os dogmas incoerentes, de estabelecer conceitos que se aproximem da
realidade das coisas.
“Afastei-me de toda a cultura, desprezei as condutas pré-concebidas e
aboli a linguagem, que continha relações capciosas com as coisas. Despi-me
de qualquer tipo de identidade sociocultural, para que pudesse, finalmente,
analisar de forma imparcial as coisas.”

68

“A realidade que se apresenta, a nós, não pode ser mensurada com
precisão, atributo esse que permite a existência de infinitas perspectivas
capazes de classificar, e determinar, as coisas e os acontecimentos.”
Ludwig Wittigenstein

69

Definindo as coisas
“Possuindo esse aspecto impenetrável e incerto, cabe apenas a nós,
observadores, definir aquilo que observamos, definir o mundo e as coisas nele
presentes. Para a realização dessa tarefa, é preciso que utilizemos a lógica e a
imaginação, com o objetivo de criar modelos e explicações que possuam uma
correlação abrangente, caracterizando, dessa forma, a elaboração de um
sistema que pode ser considerado mais verdadeiro, mais abrangente.”
Deparados com um mundo incompreensível e desconexo, nos
surpreendemos, constantemente, com o quanto nossas impressões sobre as
coisas são imprecisas, assim como nos espantamos com o exagero e a
incoerência de nossos sentimentos. Perante esse ambiente misterioso e
complexo nossa mente estrutura conceitos e modelos, sendo tais construções
inconscientes, situando-se nas profundezas do nosso ser e definindo aquilo
que somos.
Tudo o que percebemos é desenvolvido por nós, não necessitando, para
a execução dessa tarefa, da presença de uma elaboração consciente. De
posse de uma constituição desse tipo, podemos perceber conexões absurdas e
distantes, que somente existem em nosso espírito e são provenientes de
elaborações que não admitem, em hipótese alguma, a presença de elementos
indefinidos ou incertos. Sendo uma necessidade inconsciente intrínseca, a
definição precisa de tudo aquilo que percebemos, não admitindo lacunas e
incertezas, tudo aquilo que nos apresenta perspectivas discrepantes será
refutado de imediato; tudo aquilo que incita incertezas nos amedronta e será
odiado e desprezado por nós.
Essa nossa constituição primitiva é absurdamente ignorante, capciosa,
incoerente e irreal. Interpretando as coisas tendo como referência parâmetros
irracionais e discrepantes, quando comparados com a verdadeira proporção
daquilo que analisamos, vamos estabelecendo interpretações exageradas, que
incitam sentimentos desesperados e atitudes ultraviolentas e incoerentes;

70

vamos agindo inconsequentemente, sendo estimulados por impressões irreais,
que existem apenas na nossa mente.
Surgindo como ferramentas que nos permitem nos desvencilharmos
dessa nossa condição existencial primordial, encontramos a linguagem e a
matemática, que têm como principal objetivo estabelecer um ambiente
coerente e mensurável, que nos permite analisar o mundo e nossas
impressões através de parâmetros que foram testados e possuem relação,
evidente, com a realidade, o que, muitas vezes, não encontramos em nossas
interpretações particulares e profundas.
“A filosofia é uma batalha contra a incoerência da nossa inteligência
através da linguagem.”
Almejando estabelecer conceitos virtuais lógicos, que determinam as
coisas e os acontecimentos, o ser humano, desde sempre, se esforçou em
busca de explicações. Primeiramente, ele fez uso da religião para explicar o
mundo em que estava inserido, e, posteriormente, fez uso da ciência, que
determina os elementos estudados através de similitude (semelhança) e
repetição de resultados, desse modo definindo o momento da ocorrência dos
eventos sem definir o modo como tais eventos ocorrem. De posse dessas duas
formas de determinar o mundo, podemos dizer que, pelos menos, a religião
reconhece sua limitação perante os mais variados fenômenos, enquanto a
ciência possui a característica errônea de se considerar capaz de capturar a
essência e determinar tudo com precisão.
“A concepção moderna do mundo fundamenta-se na ilusão de que as
chamadas leis da natureza são a explicação dos fenômenos da natureza.”
“Hoje fica-se pelas leis da natureza como algo intocável, como os
antigos ficavam diante de Deus e do Destino.
Ambos têm e não têm razão. A ideia dos antigos era mais clara, uma vez
que reconheciam um limite claro, enquanto que no novo sistema se tem que
dar a aparência de estar tudo esclarecido.”

71

Possuindo ferramentas — que nos auxiliam a determinar o nosso mundo
— ineficientes, a definição racional dos fenômenos ainda permanece
exageradamente capciosa e, muitas vezes, imprecisa, permitindo a existência
de infinitas interpretações e modelos plausíveis. Essa incerteza em relação a
tudo abre espaço para uma quantidade infinita de formas de enxergarmos o
mundo (culturas), e de expressarmos o modo como enxergamos o mundo
(linguagem).
Identificando essas limitações, em se tratando de elaborar uma definição
precisa e irrefutável para aquilo que percebemos, poderíamos dizer que um
leão, mesmo que sendo ele capaz de falar o nosso idioma, seria
incompreensível para nós, pois a forma como ele interpreta as coisas, expressa
em suas palavras, é totalmente desconhecida por nós, atributo esse que não
nos permite analisar as coisas da forma como ele analisa, característica essa
que nos mantém incapazes de compreender aquilo que foi dito.
Utilizando um exemplo menos exagerado, podemos perceber a mesma
falta de entendimento quando comparamos a interação entre pessoas de
culturas, formas de enxergar, diferentes.
Além de todos esses problemas de comunicação, ainda nos deparamos
com a falta de entendimento e de explicações coerentes para a maioria das
coisas, aspecto esse que não nos permite possuirmos uma linguagem, não nos
permite possuirmos imagens e modelos lógicos, para tais elementos. Em meio
à falta de explicação dos acontecimentos e dos objetos, é dever dos
pensadores perscrutarem profundamente tudo à sua volta, para que o nosso
mundo conceitual possa ser ampliado, abrangendo ainda mais coisas e
acontecimentos.
No entanto, essa tarefa, tão essencial para a humanidade, é permeada
por aspectos atormentantes e perigosos. Despidos de conceitos fixos, que
determinam aquilo que percebemos e estabelecem um mundo fixo e imutável
onde existe apenas elementos múltiplos e mutáveis, esses desbravadores se
deparam com o desespero que a falta de determinação e de explicações nos
causa. Além dessas características, por si só desesperadoras, eles ainda se

72

deparam com a incapacidade de identificar a eficácia e a relação de suas
elaborações com a realidade.
Em um mundo onde a linguagem estabelece e preenche as dimensões do
ambiente em que estamos inseridos, é impossível estabelecermos conceitos
irrefutáveis para o mundo, pois possuímos uma interpretação capciosa, que
não é capaz de possuir um modo de verificação de conceitos que analise as
proposições através de uma perspectiva distante e imparcial, que não é
previamente direcionada a interpretar as coisas de uma forma préestabelecida. Perante tal incapacidade, aqueles que perscrutam as coisas
profundamente, que analisam sem fazer uso do modelo lógico construído e
vigente (cultura), se deparam com a dor que um mundo incerto, desconexo e
incompreensível lhes apresenta, sem nunca poderem fugir de tal sentimento.
Tentando se desvencilhar de tais perigos, a linguagem ignora questões
complexas, contornando-as e classificando-as como ilusões falsas, atitude
essa que permite que a concepção de mundo não se torne dolorosa por causa
de fatores misteriosos e incompreensíveis, que, infelizmente, ainda são a
maioria. Nós não somos capazes de definir, com exatidão, a maioria das
coisas.
“Sobre aquilo que não somos capazes de falar, devemos nos calar.”

73

Aula técnica
Após a demonstração de uma inspeção de soldagem por líquido
penetrante, o instrutor reuniu seus alunos, que formavam uma turma de em
torno de dez pessoas, em volta da peça que havia sido inspecionada. Algumas
conversas descentralizadas podiam ser ouvidas, característica essa que
salientava o quanto o grupo estava disperso; nelas os mais variados assuntos
eram abordados. Alguns conversavam sobre futebol, outros sobre política,
outros relembravam as técnicas utilizadas para a inspeção da peça, e alguns
reclamavam do calor do ambiente, que, por causa do telhado de zinco,
apresentava proporções exageradas; o horário também contribuía para com a
sensação desconfortável que o calor em demasia causava naqueles que
estavam inseridos naquele ambiente fabril. Aproximando-se do meio-dia, o sol
irradiava diretamente o telhado do barracão.
Percebendo o desconforto que o calor estava causando nas pessoas à
sua volta, o instrutor interrompeu as conversas paralelas e, chamando toda a
atenção para si, começou a fazer um discurso:
— Pessoal. Pessoal! Eu sei que o calor está incomodando, mas tenho
que avisar que essa é uma coisa que vocês vão ter que lidar nessa profissão
— com um ar de superioridade, o instrutor sempre tentava identificar situações
que poderiam incitar algum ensinamento para os alunos, após ouvir algumas
pessoas reclamando do calor ele decidiu dizer algumas palavras a respeito
disso. — Vocês devem se acostumar, pois quando forem fazer alguma
inspeção em campo, não será diferente, sendo que algumas vezes o calor é
até pior do que hoje.
Um dos alunos, percebendo que o instrutor havia terminado seu breve
discurso, fez um comentário cômico:
— Olha a profissão que fomos escolher, ein. Há Há.
— Há Há. É; essa é uma das partes ruins — disse o instrutor, mantendo
seu discurso com ares de importância — mas essa profissão é muito

74

satisfatória. Vocês irão conhecer muitos lugares, muitas pessoas, e não terão
uma rotina chata como as pessoas do escritório.
Muitos dos alunos concordaram, passando a demonstrarem maior
satisfação. Na mente de quase todos, que ali se encontravam, aquelas
palavras reforçavam escolhas pessoais, direcionamentos ao longo da vida,
fazendo com que qualquer outra possibilidade discrepante de profissão se
tornasse absurda, incoerente.
Passando a imaginar o quanto a profissão de inspetor de soldagem era
muito superior a todas as outras, muitos dos alunos alteraram suas expressões
fatigadas pelo calor, substituindo-as por semblantes animados e satisfeitos.
No entanto, algumas pessoas ainda se sentiam inseguras em relação à
carreira que estavam decidindo seguir. A menção de um trabalho mais tranquilo
e delicado, onde o calor não seria um problema, fez com que elas
aumentassem,

ainda

mais,

suas

inseguranças.

Os

pensamentos

se

propagavam incessantemente em tais cabeças. O conforto de um escritório
climatizado, que parecia tão satisfatório em mentes, tornava a realidade efetiva
em algo doloroso.
Percebendo seu direcionamento profissional, de muitos anos, sendo
desconstruído, fazendo com que uma dor profunda e inconsciente começasse
a surgir, um dos alunos disse com veemência:
— Eu não suportaria trabalhar em um escritório o dia inteiro, parado no
mesmo lugar, fazendo as mesmas tarefas monótonas e repetitivas sempre, e
sempre, e sempre. Eu não me vejo em outro lugar que não fosse na área de
inspeção, onde a cada dia temos experiências novas, conhecemos pessoas
novas.
O discurso breve, que surgiu como uma rajada inconsciente violenta, fez
com que o aluno se tornasse capaz de afugentar a possibilidade que tanto o
incomodava e tornava sua realidade dolorosa, fazendo com que ele voltasse a
se sentir satisfeito, fazendo com que o ambiente voltasse a adquirir proporções
inquestionáveis, convictas e satisfatórias, que agradava a todos.

75

A convicção intrínseca incitava pensamentos satisfatórios, o que fazia
com que todos ali presentes ficassem em silêncio, por um breve momento,
perdidos em suas ilusões particulares.
Percebendo aquele silêncio inusitado, o instrutor voltou a falar sobre as
atividades executadas pelos inspetores:
— Além do calor, os inspetores devem ter muita paciência, pois, muitas
vezes, nos deparamos com gerentes de produção que querem fazer de tudo
para que o serviço de vocês seja executado o mais brevemente possível, para
que o equipamento que está sendo inspecionado volte a funcionar. Eles não se
importam com a qualidade da inspeção, só querem que tudo seja rápido. É
nessas ocasiões que vocês têm de se impor, pois se o equipamento for
danificado, por conta de ruptura em algum de seus componentes, a culpa
recaíra, com certeza, sobre o inspetor. Por mais que isso gere conflito, o
inspetor deve ser capaz de dizer não, deve impor seus prazos estimados de
inspeção e não sucumbir à pressão.
Essas palavras incitaram, novamente, a insegurança na mente de
alguns dos alunos. Aquele que anteriormente havia se manifestado foi o que se
sentiu mais inseguro. Sentindo a dor retornar, fazendo com passasse a se
sentir muito mal e frustrado novamente, ele disparou, de novo, um discurso que
afirmava a profissão que ele havia escolhido e que o definia, que criava uma
estrutura exata e bem direcionada, que fazia com que ele afugentasse a dor e
o desespero.
— Sabe... Acho que o livre arbítrio não existe; nós, ao longo da vida,
vamos sendo direcionados por Deus, que determina tudo aquilo que somos,
tudo aquilo que devemos fazer. Nós não devemos lutar contra a força divina;
devemos aceitar sua vontade e sermos aquilo que Deus que que sejamos.
Por mais que suas palavras parecessem não possuir relação com o
assunto que era abordado pelo instrutor, todos se sentiram satisfeitos com
aquelas palavras, que deram um novo rumo ao discurso do instrutor.
— Eu acredito que nossos destinos e ações já foram traçados por Deus,
mas, ao mesmo tempo, se ficarmos parados, se não nos esforçarmos, se não
76

nos empenharmos em busca de alguma coisa, não vamos alcançar a vida que
foi traçada para nós. Nesse caso, eu acredito que Deus traça nossos caminhos
e objetivos, mas cabe a nós nos esforçarmos para alcançá-los, pois, do
contrário, não iremos obter a vida que foi definida para nós — o instrutor
parecia não ser capaz de controlar e definir com exatidão o assunto que estava
abordando. Sem se sentir satisfeito com seu discurso inicial, ele tentou
complementar aquilo que havia falado. — Existe uma história que explica isso
que falei: Um homem estava no mar, quase se afogando; mantendo-se
tranquilo, ele acreditava que Deus iria ajudá-lo. Então, enquanto ele esperava
pela ação de Deus, um barco parou próximo a ele e ofereceu ajuda; o homem
recusou a ajuda, permanecendo onde estava, pois dizia a si mesmo que Deus
iria salvá-lo. Após um longo período, quando o homem já estava com câimbras
e não aguentava mais se manter na superfície, outro barco parou ao seu lado e
lhe ofereceu ajuda, que também foi recusada. Por fim, o homem morreu
afogado; chegando ao céu ele perguntou a Deus o motivo de sua omissão,
ainda mais para com ele, que havia sido um homem correto e fiel em toda a
sua vida. Sem se sentir influenciado pela decepção do homem, Deus
respondeu que mandou a salvação, duas vezes, mas foi o homem o principal
responsável por sua morte, por não ter aceitado e aproveitado tais
oportunidades de salvação — todos ouviram atentamente a história, e,
sentindo-se estimulado por tal atenção geral devota, o instrutor terminou seu
discurso com sua interpretação da história. — Esse conto mostra o quanto
Deus nos oferece oportunidades, o quanto Ele nos oferece possibilidades e
meios para que sigamos nossos destinos, cabendo apenas nos esforçarmos
em busca de obter tais destinos, que foram prescritos para nós.
— E não é à toa que você coordena esse curso, o cara sabe das coisas.
Há Há — disse um dos alunos, que obteve o consentimento de todos com suas
palavras.
As conversas novamente se tornaram dispersas. Os alunos dialogavam,
entre si próprios, acerca de situações onde Deus lhes exigiu esforço para que
eles obtivessem seus destinos, para que eles alcançassem aquilo que havia
sido designado para eles, que estava escrito para eles.

77

Enquanto todos conversavam entre si, um dos alunos olhou para o
relógio e disse em voz alta:
— O papo está bom, mas já são meio-dia e eu preciso it, tenho que
passar no banco.
Como que despertos de um transe, todos se dirigiram para a pequena
porta do barracão, alcançaram a rua, onde o calor era menos severo, e cada
um seguiu seu caminho.

78

“Nós não seguimos os mais inteligentes, mas sim os mais confiantes.”
Autor desconhecido

79

Nós seguimos os mais confiantes
Cada

pessoa

possui

uma

forma

própria

de

interpretar

os

acontecimentos, de enxergar as coisas. Em um ambiente que nos permite uma
infinidade de construções conceituais plausíveis, que são responsáveis por
classificar e determinar aquilo que percebemos, deparamo-nos com a
multiplicidade das interpretações, característica essa que evidencia o quanto os
nossos conceitos são incertos e não possuem uma referência exata.
Em meio a essa relação inexata e múltipla entre os conceitos que nos
situam perante o mundo, deparamo-nos com uma incerteza que se torna
intrínseca em nós, que se aloja nas profundezas do nosso ser e sempre nos
impede que direcionemos toda a nossa energia rumo a um parâmetro, a um
conceito, pois nossas múltiplas interpretações sempre irão colocar nossas
definições sob suspeita, dando-lhes um aspecto de insegurança, incerteza.
Essa nossa incerteza profunda pode ser observada toda vez que
propomos, a nós mesmos, uma determinada resolução, ou uma determinada
definição das coisas. Entretanto, não são todas as pessoas que possuem essa
incerteza profunda, algumas pessoas apresentam uma estrutura conceitual
veemente, que proporciona a elas uma característica sedutora, de uma
segurança sedutora, que nos faz refutar nossas crenças incertas para que
adotemos aquilo que se tornou tão irrefutável, tão exato, nos olhos de outrem.
E essa é a principal característica dos líderes: uma construção conceitual
veemente, exata e sem incertezas, aspecto esse que se espalha por todo o
corpo, que está presente em todas as atitudes — que não mais aparentam ser
inseguras, impotentes, como que se não possuíssem conceitos antagônicos
que impedem o indivíduo de direcionar toda a sua energia ruma a algo.
Influenciadas por esses indivíduos que deixam transparecer conceitos exatos e
irrefutáveis, as pessoas se sentem tentadas a seguir aquilo que é proposto por
essas personalidades convictas, independentemente da necessidade de que
aquilo que é proposto seja realmente melhor. As pessoas não seguem os mais
inteligentes, mas sim os mais confiantes.

80

Possuidores dessas características profundas, que fazem parte da
natureza e dos desejos primordiais do nosso ser, vamos, ao longo da vida,
abrindo mão dos nossos conceitos para passar a interpretar as coisas de
acordo com aquilo que outras pessoas nos ensinam. A imposição dos conceitos
começa desde cedo, e até a idade adulta a maioria das pessoas já não mais
possui a capacidade de pensar por si própria. Desestimulados, desde cedo, a
valorizarmos nossas próprias impressões e conceitos, vamos assimilando
apenas aquilo que nos permitem compreender, vamos nos tornando
exatamente aquilo que outras pessoas querem que nos tornemos.
Toda a veemência e os conceitos tidos como irrefutáveis, e que são
adotados pela grande maioria das pessoas — assim determinando sua
personalidade, sua forma de enxergar, de interpretar as coisas —, parecem
não resistir a uma análise mais pormenorizada, profunda e abrangente,
revelando-nos, dessa forma, a fragilidade dos pilares que server de base para
que se instaurem as sociedades. Esse aspecto, quando é ainda mais
trabalhado e analisado, nos mostra a necessidade intrínseca de ausência de
parâmetros diversos e de uma percepção abrangente, para que os conceitos
veementes e exatos existam.
Quando nos permitimos observar as coisas sob diferentes perspectivas,
percebemos o quanto um pensamento veemente é limitado, cego. Essa nova
informação nos permite refutar, mais facilmente, tudo aquilo que nos é imposto
como sendo real. Direcionados por essa nova forma de perceber as coisas,
tornamo-nos capazes de identificar, mais facilmente, a estupidez, a falta de
sensibilidade e a falta de inteligência que torna a maioria de nossos líderes tão
veementes e, consequentemente, atrativos.
Infelizmente, as pessoas realmente inteligentes e perceptivas — que
enxergam as mais variadas possibilidades, os mais variados conceitos
existentes à nossa volta — estão por aí, em algum canto, cheias de dúvidas e
de múltiplas interpretações — sendo elas completamente discrepantes entre si
—, não as permitindo possuir uma personalidade convicta, não as permitindo
serem aceitas como líderes.

81

“O mundo dos astros é menos difícil de conhecer do que as ações reais
dos seres, sobretudo dos seres que amamos, fortificados que são contra nossa
dúvida por fábulas destinadas a protegê-los.”
Marcel Proust

82

A estupidez
“Porém, no momento não suspeitara de nada, porque ela havia contado
aquilo de modo tão natural, e só mais tarde percebi a arte encantadora que ela
possuía de mentir com simplicidade. O que ela dizia, o que confessava,
possuía, de tal forma, as mesmas características das coisas evidentes — do
que vemos, do que aprendemos de maneira irrefutável — que ela semeava,
assim, nos intervalos da vida os episódios de uma outra vida de cuja falsidade
então eu ainda não desconfiava. Aliás, haveria muito a discutir sobre essa
palavra falsidade. O universo é real para nós todos e dissemelhante para cada
um.”
Cada

acontecimento

pode

ser

interpretado

de

uma

forma

completamente particular, única e discrepante, por cada uma das pessoas que
o presenciou; assim como cada reação idêntica pode ser instigada por
sentimentos completamente diferentes, que têm lugar nas profundezas
obscuras e misteriosas, em cada indivíduo. Esse breve exemplo de pluralidade
conceitual torna incrivelmente complexa — até mesmo para as pessoas mais
estúpidas, ignorantes e convictas — a tentativa de interpretar com exatidão as
palavras e as atitudes das pessoas. Além disso, podemos considerar que as
pessoas alteram suas concepções ao longo da vida, ou, até mesmo, possuem
várias interpretações para um único acontecimento; atrelado a esses novos
aspectos, podemos, ainda, considerar o quanto a linguagem muitas vezes é
ineficiente e incapaz de expressar, com precisão, nossos sentimentos, fazendo
com que recorramos a uma interpretação estritamente relacionada às reações
e atitudes daqueles que observamos, que, quase sempre, nos deixa ainda mais
confusos, por não sermos capazes de identificar os pensamentos que incitam
aquilo que percebemos. O acréscimo desses parâmetros torna qualquer tipo de
definição uma tarefa praticamente impossível.
“Por mais que a visse todos os dias, ainda assim me sentia incapaz de
defini-la com precisão. Cada nova interpretação, elaborada por mim, que
parecia, finalmente, capaz de revelar, com precisão, a natureza mais profunda

83

dela, perdia-se ao menor contato com a realidade, era pulverizada e tornava-se
obsoleta após uma breve verificação, fazendo com que, novamente, eu me
deparasse com um ser completamente misterioso para mim.”
Ampliando nossas perspectivas e possibilidades, dificultamos, ainda
mais, nossa capacidade de tomar decisões e de definir com precisão as
pessoas. Deparados com as mais variadas interpretações, percebemos o
quanto muitas perspectivas concomitantes e simultâneas são completamente
plausíveis e podem definir aquilo que estamos analisando. Essa característica
nos torna indecisos, receosos perante nossas escolhas e decisões, o que nos
causa dor, mas, ao mesmo tempo, nos torna sensíveis às mais variadas
possibilidades,

permitindo-nos

analisar

uma

situação

sob

diferentes

perspectivas, característica essa que aumenta a chance de escolha de uma
interpretação realmente condizente com aquilo que vivenciamos.
Essas condições são completamente desconhecidas pelas pessoas
estúpidas, que possuem interpretações exatas sobre as coisas, que
defenderam, desde muito cedo, uma concepção específica, atitude essa que
não os permitiu interpretar os acontecimentos de forma variada, múltipla. Para
essas pessoas, que são a maioria, a incerteza é um fardo demasiado pesado,
que

é,

constantemente,

absurdamente

substituído

preconceituosos

e

por

pensamentos

incoerentes,

que

quase

utilizam

sempre
algumas

características conhecidas para determinar, através de associação a uma
memória pré-existente e exata, qualquer tipo de situação.
Presas em seus mundos para sempre conhecidos e nunca mutáveis, ou
incertos, as interpretações limitadas das pessoas estúpidas, expressas
veementemente, quase sempre são mais valorizadas do que as análises
sensíveis e abrangentes, expressas de forma receosa e incerta.

84

“Aquilo que é dito sobre uma pessoa, geralmente, tem mais influência
em seu futuro do que aquilo que ela realmente é.”
Victor Hugo

85

O que nos consideram é o que somos?
Uma pessoa é um gigantesco aglomerado de experiências, de
sensações, de objetivos, de medos, de desejos, e muito, mas muito mais
outras coisas. Tendo, todos nós, um pano de fundo amplamente vasto, onde
concepções discrepantes ocasionalmente se chocam e onde a cada dia nos
vemos completamente renovados — quando comparados aos dias anteriores
—, fica difícil estabelecermos uma personalidade fixa para nós mesmos. Desse
modo, acabamos por nos encarar como um sujeito múltiplo, que possui muitas
possibilidades, muitas reações prováveis e muitos objetivos.
Enxergando-nos com um olhar subjetivo e profundo, percebemos o
quanto nossas ações não são definitivas, o quanto as condições externas a nós
são influentes em nossas tomadas de decisão e, por fim, o quanto aquilo que
fazemos, aquilo que parecemos ser e querer, não é o que realmente somos.
Após essa simplória introspecção particular, podemos aplicar aquilo que
aprendemos, com nós mesmos, para que passemos a encarar cada pessoa à
nossa volta como sendo um indivíduo igual a nós, cheio de incertezas, desejos,
medos e possibilidades. Enxergar outra pessoa como um sujeito múltiplo,
assim como nos enxergamos, é uma atitude que elimina preconceitos, elimina
interpretações pré-concebidas e imutáveis; é um ato de igualdade e
compreensão.
No entanto, essa atitude sensata para com o próximo, que nos parece
tão simples quando escrita, está absolutamente ausente do nosso cotidiano.
Nosso dia-a-dia é permeado por ignorância e julgamentos absurdos e
preconceituosos. Em muitos casos, os julgamentos são frutos de um ego que
se sente, de algum modo, ameaçado, necessitando que aquilo que o intimida
seja rebaixado, seja desvalorizado, mesmo que para tanto seja necessário
inventar uma característica que nunca poderia ser inferida sobre o outro,
quando tomamos como base os pequenos gestos abstratos que nos servem
como referência para a nossa construção conceitual. Todos os julgamentos
minimalistas são afirmados a título de verdades absolutas e imutáveis. Um
86

pequeno ato espontâneo pode ser responsável pela criação de uma
personagem totalmente diferente daquilo que somos.
A ignorância, o culto ao ego e os julgamentos preconceituosos estão
presentes em todos os lugares; parece que a maioria das pessoas se sente
impelida a definir um estereótipo para qualquer pessoa que cruze o seu
caminho. E é a realidade, não adianta negarmos ela. Nesse nosso mundo de
rótulos redutores e pejorativos, ampliamos ainda mais a nossa insegurança, o
que é um absurdo; tudo aquilo que constitui um julgamento precipitado e
preconceituoso é incoerente, e nos importarmos com esses julgamentos é
ainda mais incoerente e absurdo.
Mesmo que os julgamentos e interpretações sobre nós pareçam
infundados e preconceituosos, vemo-nos obrigados a lidar com eles, pois,
infelizmente, esses julgamentos determinam a forma como as pessoas nos
enxergam e nos tratam. E, a cada nova interpretação alheia incoerente,
sentimo-nos frustrados. Toda definição exata provém daqueles que aparentam
ser os mais ignorantes e, de acordo com a frase que diz: “tudo que
enxergamos nos outros é aquilo que de algum modo enxergamos em nós
mesmos”, sempre são mesquinhas, limitadas. Parece que os julgamentos
provêm apenas daqueles que são limitados e insensíveis, enquanto as pessoas
realmente sensitivas permanecem ausentes de qualquer interpretação
definitiva, por se sentirem incapazes de unir todas as suas vastas impressões,
seu conhecimento e percepções, o que as fazem ficar sempre em dúvida, com
relação a elas mesmas e aos outros, o que caracteriza o primeiro aspecto da
sabedoria.
Mesmo em meio a esse ambiente limitado e preconceituoso, que quase
sempre nos frustra, podemos utilizar certas ferramentas a nosso favor. A mais
eficiente é a passividade; a habilidade de nos manter ausentes, de não
possuirmos uma atitude exata, permite que aparentemos uma forma de vazio,
que possibilita qualquer interpretação por parte das pessoas à nossa volta.
Dessa forma podemos, mais facilmente, perceber aquilo que mais se aproxima
de ser a personalidade preponderante daqueles com quem convivemos.

87

Em meio a tantos julgamentos limitados, e egos inflamados, onde uma
atitude define, para sempre, aquilo que somos, sempre nos classificando com a
pior das possibilidades, reza a lenda que existem pessoas magnânimas, sábias
e originais; provavelmente elas se escondem. Olhando para a nossa sociedade
e suas condutas “normais”, não é difícil entender o porquê.

88

“Aquilo que sua aparência me faz pensar vai ficar para sempre imutável
e potente na minha mente; por mais estúpido que pareça ser, assim será, sei
muito bem. Talvez eu, de algum modo para mim misterioso, necessite disso...”
Autor desconhecido

89

Jogos sociais
“Quando entrei naquela sala, percebi que, desde o momento em que me
viram, as pessoas, ali presentes, estavam me julgando. Utilizando daquilo que
observaram em mim, elas faziam associações a conceitos e vivências antigas,
e, através da relação daquilo que observavam com suas memórias, elas
definiam rapidamente, com uma convicção espantosa, aquilo que eu era.”
Chega a ser assustadoramente engraçado o quanto uma mera
impressão, uma singela e despretensiosa, ou pretensiosa, característica é a
responsável por fazer com que uma pessoa construa, nos mínimos detalhes,
toda a personalidade, os desejos, medos, atitudes, reações e preferências
daquilo que observam. Tal atitude, muito comum, diga-se de passagem, que
por si só é preconceituosa, e incrivelmente capciosa, torna-se ainda mais
impressionante quanto constatamos que esses julgamentos são, na maioria
das vezes, permanentes e estabelecem, sem possibilidade de reavaliação,
aquilo que algo ou alguém representa para outrem.
“Esse julgamento inescrupuloso não era, e nunca foi, surpresa para mim.
Para falar a verdade, eu até mesmo fazia uso dessas atitudes, utilizando-as
para identificar aspectos profundos das pessoas com quem convivo, podendo,
através de meus testes, encontrar constituições que realmente me agradam.
Essa sempre foi nossa brincadeira predileta, minha e de minha mãe, fazendo
com que fugíssemos do tédio desesperador que sempre era despertado em
função de conversas dissimuladas e insossas. Nosso principal objetivo com
esses jogos, muitas vezes perigosos, principalmente para nós, era o de
encontrar mentalidades raras, complexas e completamente destituídas de ego.”
“Na fase inicial de nossos jogos, nós mantínhamos um semblante vazio,
acompanhado de atitudes sem qualquer tipo de intenção, que permitiam as
mais variadas interpretações; ao mesmo tempo, lançávamos aquilo que
chamávamos de ‘iscas’, sendo elas lampejos de olhares profundo e
concentrados, ou frases eruditas. Após a primeira fase, observávamos aquilo
que as pessoas construíam a nosso respeito; para isso, utilizávamos daquilo
90

que minha mãe chamava de ‘folha ao vento’. Como éramos seres abrangentes
e múltiplos, possuindo os mais variados conceitos e interpretações em nossas
mentes, e sendo destituídos de um ego que exige proteção, podíamos
contemplar as mais variadas formas possíveis de se enxergar as coisas, sem
que tais formas fossem deturpadas ou alteradas em função da necessidade de
proteger nosso ego, de conservar um mundo centrado apenas em nós
mesmos, atributo esse que nos permitia possuir conceitos que se aproximavam
da realidade. De posse dessas características raras, espantávamo-nos com o
quanto éramos capazes de nos deixarmos ser, sendo direcionados por atitudes
alheias, que ditavam aquilo que passávamos a ser, desse modo nos tornando
uma nova pessoa a cada momento, assumindo uma nova constituição e
direção, sem que essas estruturas fossem alteradas ou barradas pela nossa
vontade, exatamente como folhas ao vento. Durante essa etapa, ficávamos
espantados com aquilo que a atitude das pessoas, em relação a nós, nos
incitava, sendo quase sempre apenas impressões e atitudes deploráveis.”
“De acordo com aquilo que identificávamos como sendo a interpretação
das pessoas com relação a nós, que quase sempre eram negativas — mesmo
quando apresentávamos uma constituição vazia e suscetível a muitas
interpretações —, eliminávamos quase todos os participantes dos nossos
jogos. Os poucos que restavam eram submetidos à segunda fase, onde nos
esforçávamos, não muito, para desconstruirmos qualquer tipo de boa
impressão, tendo como intuito facilitar a desconstrução natural de uma pessoa
cheia de ego, que acidentalmente se encanta por algo que a faz desprezar seu
enfoque egoísta, que a princípio causa dor e é afugentada a todo custo.”
“É meio redundante dizer que nunca ninguém passou da segunda fase
dos nossos testes, que sempre foram encerrados nesse ponto, não nos
permitindo possuir experiências posteriores a esse estágio, cabendo as
possibilidades de continuidade apenas à nossa imaginação. Muitas vezes, vime forçado, em função dos fracassos constantes, a reavaliar os atributos da
nossa metodologia que, por mais que eu perscrute, não me permite encontrar
falhas, cabendo a mim apenas a conclusão de que santos não existem e que
as pessoas são, salvo raríssimas exceções, um lixo!”

91

O que quero ver
É isso o que quero ver, o rosto de uma pessoa que não se importa com
nada.
A face de alguém que sabe muito, tem pensamentos profundos e não
mais possui ilusões.
O aspecto de quem é capaz de controlar seus sentimentos e desejos;
que é possuidor de uma força profunda e selvagem, que vem do subsolo e
pode ser direcionada para qualquer objetivo definido por essa pessoa rara.
A característica que está relacionada com aqueles que passeiam
facilmente pela vida, sem preocupações, e que são capazes de fazer piadas e
rir de tudo, a todo o momento. Que mantêm um semblante indiferente, não por
causa de sua frieza, estupidez ou incapacidade de compreensão, mas sim por
causa

de

uma

sensibilidade

exacerbada

que

oferece

sentimentos

avassaladores, que, no entanto, foram racionalizados com precisão, e que, por
isso, deixaram de ser misteriosos e intensamente incontroláveis.
Eu almejo encontrar indivíduos capazes de escolher ter uma concepção
satisfatória e empolgante acerca de tudo com o que se deparam, que
conseguem aproveitar todos os momentos de suas vidas e fazer com que
todos as experiências se tornem significativas, indispensáveis e especiais, ao
invés de viverem rancorosos, cheios de mágoas e tristeza, como a maioria das
pessoas.
Quero ver os despreocupados, que são capazes de criar suas próprias
interpretações com relação ao mundo, que possuem múltiplas perspectivas,
sendo elas totalmente discrepantes, quando comparadas; quero estar próximo
daqueles que não mais possuem uma alma centralizada neles mesmos e
conseguem ver as coisas e criar conceitos e desejos que estão além de
vontades puramente corporais.

92

Tento encontrar os possuidores de espíritos vastos, cheios das mais
variadas perspectivas, mutáveis e livres, que não se importam com
absolutamente nada, mas, mesmo assim, são capazes de direcionar todas as
suas forças em direção a uma meta definida por eles, conscientemente, são
capazes de gastar toda a sua energia se empenhando na realização de tais
objetivos, alcançando, muitas vezes, a exaustão com suas tentativas, não
porque eles realmente acreditam em recompensas para aquilo que se propõem
a fazer ou têm ilusões em relação ao que poderão obter, mas, diferentemente
das demais pessoas, apenas agem de forma intensa e selvagem para que
possam explorar mais amplamente a vida, para que possam aprender mais,
tornarem-se mais experientes, mais sábios e melhores jogadores.
E é isso o que quero ver!

93

“É do feitio dos indivíduos mais inteligentes e diferenciados a busca
incessante por todos os tipos de experiência, por todas as sensações e
impressões, com o intuito de destruir qualquer tipo de ideal, qualquer resquício
de interpretação exagerada e irreal sobre as coisas, para que a mentalidade se
aproxime, cada vez mais, da verdadeira proporção dos acontecimentos, da
realidade.”
Autor desconhecido

94

O ser humano DEVE destruir seus ideais
“Meu amigo incomum possuía um olhar frio e inalterável. Ele
constantemente zombava de mim, quando me via emocionado por causa de
algum acontecimento que me encantava; para ele, a condição humana ideal é
caracterizada por um alheamento completo a todas as coisas. Ele acreditava
que o indivíduo realmente consciente, e senhor de si, era aquele capaz de
afugentar suas paixões e desejos mais profundos. Essa sua forma peculiar de
enxergar as coisas fez com que eu o seguisse; mas, mesmo com toda minha
devoção, ele constantemente se enfurecia comigo, comigo, pobre alma! O
demônio, ele não é humano! Era comum ouvi-lo dizer que nunca trocaria seu
vazio pelo estupor das pessoas comuns, e isso me intriga; ele representa uma
ameaça incontestável à sociedade e aos valores vigentes; diferente de tudo o
que já vi, ele não foge da vida, não foge das sensações mais atormentadoras e
desesperadoras. Talvez ele possua segredos capazes de alterar, por completo,
a existência humana.”
Parece ser pertencente à natureza humana a necessidade intrínseca de
ideais, de sonhos alucinados — que nos transportam para uma condição
existencial mais satisfatória e suportável — responsáveis por eliminar a dor que
a realidade nos apresenta. Afastados, por causa de nossos ideais, do vazio
sem sentido que é a vida, vamos, a todo o momento, alimentando ilusões,
ampliando sonhos e desejos, ao mesmo tempo em que desprezamos e
invalidamos tudo aquilo que nos faça questionar e desconstruir tais ideais.
Por mais que nossas alucinações tenham sido desenvolvidas apenas
por nossa imaginação, por mais que elas nos afastem da realidade e da
verdadeira proporção das coisas, são elas as responsáveis por definir aquilo
que somos, fazendo com que estruturemos toda uma existência em função
desses desejos profundos, que em nossa mente serão os responsáveis por
proporcionar a satisfação mais sublime, a felicidade inabalável, a supressão de
todas as nossas carências, etc.

95

Mesmo que tenhamos conhecimento do quão inverossímeis são nossas
expectativas, ainda assim não somos capazes de abandonar nossos ideais.
Mesmo que estejamos cientes dos exageros irreais, construídos para além da
realidade, ainda assim somente nos envolvemos e valorizamos as opiniões
daqueles que alimentam as nossas crenças entorpecedoras.
Atraídos apenas por aquilo que reforce seus ideais, as pessoas iludidas
desprezam, com todas as suas forças, qualquer indivíduo ou coisa que as faça
questionarem suas crenças infundadas, que as afastam da realidade e tornam
a existência mais suportável. No entanto, até mesmo algumas pessoas iludidas
percebem o quanto suas crenças são infundadas; para essas pessoas, uma
pessoa alheia a qualquer ideal passará não mais a representar alguém a ser
repudiado e odiado, mas sim alguém a ser admirado, estimado; os desiludidos
se tornam objetos de admiração em tais casos, apresentando condições que
algumas pessoas almejam, mas não são capazes de alcançar.
Tal condição indiferente é realmente especial, e, por mais que seja
repudiada pela maioria das pessoas, se aproxima da realidade, da verdadeira
proporção das coisas. Na existência desiludida os valores são alterados quase
que completamente. Uma vez destituído de qualquer tipo de ideal e lidando
com as dores da existência apenas com sua consciência, a vida sofre uma
grande reviravolta. A impossibilidade de mudar dá lugar a uma capacidade
incrivelmente abrangente de mudança, aspecto esse que altera, por completo,
as condições existenciais.
A incapacidade de mudança, que exigia a criação de uma existência
além-túmulo e reencarnações para que não nos sentíssemos desesperados
perante a desconstrução de nossos ideais, dá lugar à ideia, que não mais nos
incomoda, de que a vida é única e de que nós simplesmente deixamos de
existir após a morte. Ao mesmo tempo, não mais nos sentimos desesperados
perante possibilidades variadas e concorrentes entre si. Não mais perdemos
tempo com sonhos alucinados que nos afastam da realidade. Não mais nos
sentimos magoados perante acontecimentos passados que tanto nos
atormentavam. Adaptados a um mundo completamente variável, deixamos de
sentir medo de mudanças abruptas e abrangentes.

96

Por mais que tenhamos medo, por mais que a destruição de nossos
ideais pareça ser o acontecimento mais desesperador de nossas vidas, sempre
nos surpreendemos com os relatos incrivelmente satisfatórios dos seres
destemidos que foram capazes de destruir aquilo que estruturava suas vidas.
Esses relatos nos mostram uma vida rica, cheia de possibilidades e de
conceitos que estão próximos à verdadeira essência das coisas.

97

Sobre a personalidade contemporânea
“Posicionados em meio a um novo arranjo das coisas, é preciso que
sejamos capazes de desenvolver um novo comportamento que nos permita
usufruir, de maneira eficiente, a vida em toda a sua nova amplitude, em todas
as suas novas possibilidades.”

É de se espantar ainda nos depararmos com julgamentos precisos e
imutáveis. A maioria das pessoas se mostra obsoleta e carente de percepção,
pois até mesmo o observador menos atento é capaz de perceber que os
conceitos, no mundo atual, possuem uma volatilidade alucinante; tudo se
locomove com uma velocidade absurda, o fluxo da vida e o das informações se
tornaram incrivelmente acelerados, fazendo com que as concepções sobre o
mundo sejam incrementadas e alteradas a todo o momento. Em meio a esse
fluxo louco, é de se espantar que nos fixemos em conceitos imutáveis,
fazendo-me mais específico: Tornou-se antinatural nos fixarmos a conceitos
imutáveis.
Aqueles que se deixaram levar pelo superfluxo observam espantados as
teimosas ilhas fixas, que ainda insistem em conservar conceitos que se
mostraram falhos e incompletos. Dotados de pensamento veloz e possuindo
conceitos flutuantes, os integrantes da nova era se deparam com um mundo de
dimensões vastas, cheio de possibilidades e oportunidades. Nessa nova vida,
sem parâmetros, nada restringe a nossa capacidade de observação, não
possuímos nada definido, o que nos permite enxergar todos os caminhos.

Nessa

nova

era

nossos

desejos

são

explorados,

não

mais

permanecendo por longos períodos, não mais sendo desenvolvidos de maneira
exagerada pela nossa imaginação — o que sempre acabava por nos afastar da
realidade, acabava por nos impedir de enxergar a realidade —, não mais
permanecemos distraídos por causa de um objetivo longínquo, que, em nossas

98

mentes, se tornou exageradamente incoerente; as nossas experiências nos
permitem estabelecer conceitos mais próximos à realidade, assim como
impede que estruturemos toda a psique em função de um desejo que não foi
realizado. Todas essas novas condições nos permitiram encarar o vazio
existencial, e, diferentemente do que a maioria das filosofias anteriores
preconizaram, ele é absolutamente incrível.
Quando alcançamos o Nada, presenciamos o fim do querer, o fim do
sentimento; nele o mundo simplesmente se expande e, destituídos do nosso
ego, deparamo-nos com a liberdade absoluta, que não mais é opressiva. No
vazio, todos os caminhos podem ser seguidos, qualquer associação pode ser
feita. Quando essa base infinita se alicia à imaginação, deparamo-nos com o
perfeito indivíduo contemporâneo, que sente as coisas da maneira mais
próxima à realidade e possui a capacidade de definir os rumos mais evoluídos.
A mentalidade contemporânea é extremamente mutável e extremamente
impressionante. A nossa era é totalmente diferente de todas as anteriores, tudo
o que é sólido tornou-se incoerente, e os objetivos foram abandonados. O
microcosmo da existência humana nunca antes foi tão plural e relativo; talvez,
essas novas condições permitam que o ser humano progrida em proporções
nunca antes imaginadas.

99

“Não desrespeito os milhares de anos
De construções conceituais,
Só quero dar uma olhada no lado de lá
E ver o que posso encontrar;
Quero explorar e experimentar,
Talvez eu possa achar
Algo de que venha a gostar,
E que amenize o desespero
Que me incomoda sem cessar.
Assim espero,
E não titubeio em procurar
Um sentido que essa sociedade
Não é capaz de me dar.”
Autor desconhecido

“Ele chegou a casa amargurado, deparado com a força descomunal que
não consegue encontrar, nem ao menos, uma singela atividade que lhe permita
expressar sua oposição à perfeita inadequação do mundo.”
Robert Musil

100

Nós, os inconformados

A mente possui estruturas a serem preenchidas, sendo essas estruturas
capazes de adquirir qualquer tipo de conteúdo, qualquer tipo de interpretação,
que podem, até mesmo, carecer de lógica e referencias palpáveis,
características essas que não impedem que uma determinada interpretação se
torne uma verdade absoluta e inquestionável.
Em meio a construções conceituais capciosas, nós vamos, desde muito
cedo, adaptando nossa percepção e o nosso pensamento para que
assimilemos por completo o mundo, da forma como outras pessoas querem
que enxerguemos ele.
Uma observação despretensiosa é capaz de tornar evidente esse
aspecto da nossa existência. Aqueles que preconizam que cada indivíduo
determina a sua representação de mundo estão completamente equivocados.
A única coisa que consigo perceber à minha volta é uma busca desenfreada
por adaptação, por adequação aos valores vigentes, em detrimento de
qualquer tipo de interpretação particular.
As pessoas abandonam toda sua originalidade para que se tornem
exímios repetidores superficiais, incapazes de fazerem uma interpretação
particular das coisas à sua volta. Sem senso crítico e sem imaginação, são
essas as características mais evidentes em um ser social.
Em contrapartida a todo esse discurso revelador sobre a nossa condição
existencial, percebemos o quanto é improvável que não nos limitemos e nos
adaptemos aos conceitos sociais, por mais que eles pareçam retrógrados a um
observador lúcido. Afinal, a nossa existência é hiper-relevante e essencial para
que possamos abrir mão dela por causa de um conflito ideológico, por causa
de uma consciência pesada que não se sente confortável em fazer parte de um
estado tirânico, governado por homens lunáticos e egoístas. Por fim, não é de
se impressionar que a família Samsa tenha se tornado tão famosa; ela é uma
síntese crua e evidente da nossa condição existencial, da nossa luta

101

desmedida pela sobrevivência, que se adequa a qualquer condição que nos é
imposta.
Nossa sobrevivência é tão importante que, até mesmo, desenvolvemos
mecanismos para afugentar a presença de uma consciência pesada, que não
concorda com aqueles que determinam a nossa forma de ser.
Em nosso mundo, onde a grande maioria das pessoas são acometidas
pela síndrome de Estocolmo — que as permite possuir uma existência
saudável —, podemos considerar um fenômeno extremamente raro a
existência de pessoas que possuem uma mentalidade desenvolvida de forma
particular, individual, que não sucumbiu à alienação e à imposição dos valores
vigentes, por mais que eles fossem estimados por todos.
Sem se submeterem a conceitos pré-estabelecidos ou a juízos
sintéticos, esses seres raros vão estruturando a sua mentalidade, sua própria
forma de ser, que tem como referência nada além do que suas percepções e
sensações.
Nessas mentalidades cheias de senso crítico e de imaginação, várias
possibilidades se tornam plausíveis, coerentes, fazendo com que a razão
prática torne-se, cada vez mais, insossa e incoerente; acabando, por fim,
tornando-se um motivo de escárnio, que muitos filósofos não se cansam de
retratar em seus escritos: “Conforme fui crescendo, abri meus olhos e vi o
verdadeiro mundo, a verdadeira forma como a vida se apresentava para mim, e
então eu comecei a rir, e não parei desde então. Eu percebi que o sentido da
vida é ter uma bela casa, que o maior objetivo é ter um emprego rentável, que
a interpretação mais elevada de amor é se casar com uma mulher bela e rica,
que sabedoria é dizer aquilo que a maioria pensa, que coragem é nos
arriscarmos com o intuito de ganhar uns trocados, que cordialidade é dizer
belas palavras a uma pessoa, que paixão é falar de forma fervorosa sobre algo;
foi isso o que vi, e é por causa disso que rio desde então.”

102

“Na última organização onde trabalhei, a cultura organizacional era quase que
absolutamente informal, sem que ninguém se preocupasse em defini-la ou regulá-la
com precisão. Entretanto, mesmo com essa ausência de controle, em um parâmetro
fundamental de uma empresa, todos os colaboradores seguiam normas que eram
compartilhadas por todos. A palavra Deus era usada por todos, constantemente, sendo
eles incapazes de definir com precisão o que aquilo queria dizer, mas que, de alguma
forma, trazia conforto e satisfação quando pronunciada. As pessoas tinham como
principal objetivo o sexo, e todos valorizavam isso acima de tudo; no entanto, essas
mesmas pessoas associavam o acúmulo de capital a oportunidades de transarem com
pessoas melhores, e isso fazia com que elas se dedicassem a seus trabalhos,
assiduamente, pois pensavam que promoções e aumentos lhes proporcionariam mais,
e melhores, oportunidades de sexo. Essa mentalidade básica, que era seguida por
todos, sem exceções, era explicita naqueles que eram chamados de ‘peões’ e
implícita, floreada e disfarçada, em pessoas que ocupavam cargos que exigiam maior
esforço intelectual. Aqueles que conseguiam disfarçar bem sua sexualidade exagerada
e doentia eram tidos como sendo educados e inteligentes. Um dia, um desses seres
‘super-educados’ disse que leu um livro de Freud; todos do seu setor ficaram curiosos
e o consideraram como sendo um dos poucos homens que havia lido aquilo que
consideravam como sendo uma espécie de ‘bíblia contemporânea’. Em uma outra
situação, um homem disse que havia ido na igreja; ninguém entendeu o que queria
dizer aquilo, então o homem tentou explicar o que era: ‘Ah, eu fui por curiosidade,
achei que era uma espécie de museu; chegando lá peguei um papel na porta, que era
tipo um itinerário, com músicas e textos. Um homem com uma roupa esquisita ficava
lendo um livro para as pessoas. Lá dentro pude ver umas imagens e estátuas legais,
mas quando tentei andar pelo local, para vê-las melhor e mais de perto, percebi que
as pessoas, pelas suas reações, não aprovavam essa minha atitude, então retornei ao
lugar onde estava sentado e fiquei imitando o que todos à minha volta faziam.’ Tudo
mundo continuou olhando, meio sem entenderem nada; então alguém falou: ‘Esse
local pode ser considerado como sendo um de clube do livro.’ Aquele que havia ido à
igreja pensou por um momento e disse, logo em seguida: ‘Você tem razão, é
exatamente isso. Um grandioso clube do livro.’ Todos acharam aquilo interessante; o
mesmo homem que havia definido aquele local como sendo um clube do livro disse: ‘E
ainda dizem que a literatura está em baixa hoje em dia.’ Todos riram e voltaram aos
seus afazeres.”
Autor desconhecido

103

Nossa cultura ridícula
“— Ele tem um rosto diferente, que me faz sentir alguma coisa legal. Ele deve ser muito
rico.”

Ah, os tempos modernos. Ah, o nosso mundo conectado, que nos
permite vencer distâncias e desbravar aquilo que antes nos era improvável e
restrito. Ah, a internet, a maravilhosa rede de computadores que nos possibilita
conhecer tudo aquilo que quisermos saber a respeito de qualquer coisa,
apenas com alguns cliques. Ah, nossas máquinas supereficientes, que
facilitam, e muito, todas as nossas tarefas diárias, proporcionando-nos, desse
modo, muito tempo livre, que pode ser utilizado para o desenvolvimento de
atividades realmente relevantes. Ah, nosso mundo contemporâneo, onde as
pessoas possuem informações que as permitem refutar qualquer coisa,
libertando-as,

assim,

de

serem

escravas

de

ilusões

completamente

inverificáveis e tidas como, anteriormente, inquestionáveis e intocáveis,
fazendo-as ficarem presas a uma única ideia, direcionando-as, limitando-as e
iludindo-as por toda sua existência. Esses atributos do nosso entorno atual são
suficientes para nos fazer enxergar as pessoas, e suas atitudes e
mentalidades,

cheios

de

belas

expectativas,

que,

infelizmente,

são

completamente pulverizadas desde os primeiros momentos que dedicamos à
observação das pessoas com as quais convivemos.
Em nosso mundo conectado, praticamente sem fronteiras, uma viagem,
que permanecia, anteriormente, para sempre como uma ilusão longínqua —
capaz de fornecer tudo aquilo que necessitamos, todo o conhecimento e as
experiências necessárias para fazer com que finalmente deixemos de nos
sentir incompletos —, atualmente não mais é uma experiência improvável ou
absurdamente dispendiosa, permitindo-nos realmente vivenciar aquilo que
antes nos iludia, permitindo-nos desconstruir, em função da verdadeira
proporção daquilo que antes era desenvolvido e mensurado apenas pela nossa
imaginação, qualquer tipo de ilusão descabida com relação ao contato com
uma cultura estrangeira ou à visita de algum ponto turístico. No entanto, não é
104

isso o que ocorre, mas muito pelo contrário; cada nova viagem frustrada, que
parece ser muito legal de colocar no facebook ou muito interessante em uma
conversa entre amigos, não sana nossa necessidade profunda e essencial,
deixando apenas um gosto de desilusão, que faz com que estimemos uma
nova empreitada, uma nova viagem, uma nova ilusão, sendo, essa sim, a
responsável por fornecer tudo aquilo que sentimos falta em nós.
A manutenção de tais ideais faz com que essas pessoas sejam
consideradas duplamente bobas, burras e estúpidas, tornando-as ainda mais
patéticas do que as pessoas pobres, que por causa da falta de dinheiro
direcionam toda a sua existência em função de suas ilusões de riqueza e
bonança, sendo esse direcionamento estúpido e intenso — que altera
comportamentos e pensamentos, tudo em função de uma miragem específica
— perdoado quando constatamos a incapacidade de tais pessoas adquirirem
perspectivas reais, realmente vivenciadas, para suas ilusões entorpecedoras e
profundas.
Após perceber a resistência das ilusões, mesmo perante o contato com
a realidade destruidora, podemos, logo de cara, descartar o grande potencial
da internet em desiludir. Eliminando esse primeiro atributo, podemos nos
concentrar em como a internet é importante quando se trata de fornecer
informações referentes àquilo que gostaríamos de desenvolver melhor, de
aprofundar. Essa ferramenta poderosa é capaz de fornecer material que nos
permite desenvolvermos, ainda mais e melhor, nossas particularidades e
idiossincrasias, e, ao mesmo tempo, é também capaz de proporcionar
informações importantes, que ampliam os nossos horizontes e nos permitem
desenvolver trabalhos complexos e exaustivos.
Entretanto, novamente, essas características não chegam nem perto
daquilo que realmente observamos, mas muito pelo contrário. Quando nos
concentramos em analisar as coisas à nossa volta, podemos observar apenas
a homogeneização, cada vez mais eficiente, das mentalidades, direcionandoas para objetivos em comum, introduzindo conceitos semelhantes e destruindo
qualquer tipo de particularidade ou perspectiva discrepante e complexa. Ao
mesmo tempo, o imediatismo e o menor esforço se tornam dogmas vivamente

105

influentes nas vidas das pessoas, eliminando, dessa forma, a possibilidade de
criação de trabalhos abrangentes, complexos e inovadores. Matando a
individualidade e as perspectivas inovadora e sensíveis, podemos perceber a
internet como um meio que propaga os conceitos estúpidos, fazendo-os se
tornarem ainda mais influentes, ainda mais inquestionáveis e intocáveis, ainda
mais pragmáticos.
Em nossa sociedade materialista e pervertida, podemos ouvir mantras
estúpidos a todo o momento, em qualquer lugar, sendo eles valorizados e
estimados pela maioria das pessoas, que apenas são capazes de enxergar, as
coisas à sua volta, tendo como referência modelos limitados, superficiais e
estúpidos:
“Tudo pode ser explicado através de conceitos simples, todas as coisas
possuem uma constituição simples.”
“Em se tratando de ganhar dinheiro eu poderia desmatar uma floresta
inteira, matar, roubar, etc. Eu seria capaz de fazer qualquer coisa.”
“Ela parece meio triste, meio deprimida; provavelmente está assim por
pensar não ter tanto dinheiro quanto gostaria.”
“Quando uma pessoa é rica ela é muito mais bonita, muito mais atrativa.”
“Ele é muito feliz e bem sucedido, possui uma bela casa, uma bela
esposa e uma caminhonete.”
“Acho que estou sentindo alguma coisa por aquela pessoa, acho que
preciso transar com ela; no final todos os sentimentos e sensações têm como
referência o ato sexual.”
“Aquela pessoa é meio introspectiva, reflexiva, portanto, só pode ser
gay.”
“Aquela menina deve ser muito ridícula, só sai com gente pobre, não
consegue agradar ninguém que seja rico.”
A potencialização da alienação, e a impossibilidade de destruição das
ilusões, faz com que o tempo livre do homem contemporâneo seja
106

absolutamente infrutífero, não passando de um tempo irrelevante, onde os
acontecimentos são sempre observados sob as mesmas perspectivas, de novo
e de novo e de novo; as mesmas ilusões são constantemente evocadas,
fazendo com que as pessoas vivam em locais completamente irreais, sem
relação nenhuma com a verdadeira proporção das coisas.
Em nosso mundo cada vez mais cego e conformista, as maravilhosas
inovações tecnológicas, que possuem o potencial de fazer com que a cultura e
as pessoas evoluam rapidamente, servem somente para aprimorar e propagar,
mais amplamente, a preguiça, a burrice, a estupidez e a artificialidade. Criando,
com precisão, uma massa amorfa e completamente incapaz de possuir
sentimentos intensos e genuínos.
A vida contemporânea está repleta de conceitos vulgares, superficiais e
falsos, sendo eles estimados pela grande maioria das pessoas. As perspectivas
inovadoras, profundas e sinceras existem, infelizmente, na maioria das vezes,
apenas nos livros, e, ainda assim, em uma pequeníssima quantidade de livros.
“— Ele tem um rosto imponente, sempre despreocupado, como que
alheio a tudo à sua volta. Indiferente até não poder mais, ele expressa algo
completamente novo, nunca antes visto por mim, capaz de incitar a curiosidade
de qualquer um. Inabalável e desiludido, imune às paixões e desejos mais
selvagens, que por mais que eu saiba serem, no fundo, ilusórios e
completamente desimportantes, não consigo deixar de me ver influenciada por
tais paixões. Pessoas assim tornam evidente a presença de ideias que definem
cada coisa ou pessoa que conhecemos, fazendo com que finalmente nos
tornemos capazes de entender um aspecto que se torna para sempre claro na
nossa mente: Tudo o que percebemos, e sentimos, tem referência a nada além
do que ideias e interpretações.”

107

“Sem medir suas palavras, ele apenas expressava aquilo que vinha à
sua mente, sem fazer uso de filtros, sem se importar com o impacto que suas
palavras causariam nas pessoas com que ele interagia.
Sua sinceridade crua e ininterrupta, por mais irracional e inconsequente
que parecesse a

um observador externo, provinha de uma opção

minuciosamente elaborada e almejada. Sentindo-se como sendo um indivíduo
destituído de qualquer resquício de egoísmo, destituído de necessidade de
companhia, que não possuía mecanismos de proteção e nem receios, ele se
permitia externar sua verdadeira essência, permitia-se expressar seus
pensamentos e opiniões mais profundas, que constantemente faziam com que
as pessoas questionassem as ilusões que as afastavam de seus tormentos e
fraquezas; por fazer com que as pessoas se sentissem desiludidas, ele era
odiado por todos.”
Autor desconhecido

108

O ser incomum

O ambiente não era diferente do comum; várias pessoas, todas elas
cheias de frustrações e ódio, perambulavam sem rumo. Para aquelas pessoas
o intervalo era o pior momento do dia, pois as obrigava a pensarem por si
próprias, obrigava-as a agirem por livre e espontânea vontade, sem terem de
obedecer a alguma ordem, e isso incomodava todos aqueles que se
encontravam no refeitório, durante o intervalo.
O refeitório sempre estava impecavelmente organizado, todos os
utensílios estavam postados em seus devidos lugares, proporcionando, com
intenção, a transmissão de um ar de harmonia; no chão não se encontrava
sequer uma mancha, assim como nas paredes, que eram brancas e, por causa
da boa iluminação do recinto, capazes de ofuscar a vista de quem se atrevesse
a fixar seu olhar por muito tempo nelas. Para aquelas pessoas ali presentes,
que conseguiam julgar apenas através da aparência das coisas, o ambiente
era e impecável, e expressava as qualidades inquestionáveis que a empresa
possuía.
Além de transmitir uma imagem superficial e de fácil compreensão para
a mentalidade superficial dos funcionários, toda a organização, harmonia,
limpeza, de forma sucinta: toda a preocupação com a aparência dos ambientes
da empresa eram intrinsicamente necessárias. Todas aquelas pessoas, que
frequentavam o refeitório, estavam prontas para odiar, prontas para
despejarem, em outrem, todas as suas frustrações, e, para que isso não
ocorresse dentro da empresa, era preciso que o ambiente fosse o mais
aconchegante possível, de forma que não incitasse o aparecimento de algumas
dessas sensações destrutivas, que estavam presentes em excesso na maioria
dos funcionários da empresa.
Mesmo deparados com uma instabilidade constante, onde o ódio se
mostrava sempre pronto para emergir, as pessoas de davam bem entre si, na

109

medida do possível. Todas elas possuíam a mesma visão de mundo, nutriam
os mesmos ideais, valorizavam a si mesmas acima de tudo e sempre
mascaravam seus verdadeiros sentimentos. Essa compatibilidade impecável
fazia com que todos se sentissem, de alguma forma, mais próximos, mais
parecidos, o que os impedia de externarem todo o seu ódio, pois consideravam
todos ao redor como semelhantes, como companheiros que estimulavam os
conceitos e o ideais mais profundos. No entanto, todo o ódio e as frustrações
não deixavam de ser externados. Constantemente aquelas pessoas se
revoltavam com a política, com algum time de futebol, com alguma celebridade,
etc.; eles sempre encontravam algo para desprezar, algo para transferir todos
os seus sentimentos de impotência, de desespero e de mediocridade, que não
eram poucos.
Após essa breve análise, podemos classificar a empresa como sendo
tranquila, onde um ambiente aconchegante, a semelhança dos ideais e o
direcionamento do ódio para objetos longínquos propiciam uma atmosfera sem
sobressaltos, serena e, para a alegria de todas aquelas pessoas dotadas de
uma percepção lenta, estável, praticamente imutável.
Entretanto, mesmo no paraíso fixo das almas egocêntricas as coisas
correm o risco de sofrerem uma mudança abrupta, e foi isso que ocorreu com o
ambiente sereno daquela empresa; um ser incomum foi inserido naquele
ambiente, comum em demasia, e tudo mudou. Ele, que possuía um semblante
despreocupado, andava de maneira magnânima pelos corredores da empresa.
Sua atitude tranquila e cínica, referente aos valores vigentes e almejados pela
grande maioria dos funcionários, incomodava a todos, que encontraram nesse
homem incomum uma mentalidade que, por ser diferente, ameaçava todos os
ideais que eram mantidos cegamente, e que evitavam a falta de sentido, assim
como evitavam o desespero. O jeito despojado e feliz de levar a vida, e a
ameaça aos ideais que todos mantinham inquestionáveis em suas mentes, e
que eram utilizados como subterfúgio para afugentar as verdades desoladoras
da vida, o que permitia que todos fossem capazes de evitar encarar de frente
suas existências mal resolvidas e medíocres, fez com que todas as pessoas
odiassem o novo funcionário. Pela primeira vez, em muito tempo, um objeto

110

para onde seria direcionado todo o ódio se encontrava próximo, encontrava-se
precisamente ao lado, ao alcance de um soco, ao alcance da violência mais
irracional e descabida. E foi esse o caso.
Em apenas dois meses como funcionário, o homem incomum havia
causado um rebuliço inimaginável. Todas as frustrações, todos os problemas,
eram atribuídos a ele. Toda vez que o ser incomum adentrava alguma
repartição, as pessoas relatavam um sentimento ruim, uma espécie de
“ambiente pesado”, e isso era confirmado em coro, por todos que tinham
contato com ele.
Com o passar do tempo a situação se tornou ainda mais catastrófica.
Todo mundo tentava estruturar o caráter do ser incomum, e sempre construíam
os personagens mais esdrúxulos, mais bizarros e malévolos, sem possuírem
um único motivo para tanto. Para se ter uma ideia, até mesmo a forma como o
ser incomum bebia água era utilizada como base para a elaboração de uma
característica pessoal que demonstrava uma maldade sem fim. Por fim, todos
os gestos eram deturpados para que as pessoas conseguissem enxergar
aquilo que elas gostariam de enxergar; o motivo de toda essas deturpações era
o questionamento que o ser incomum incitava nas pessoas à sua volta. Vendo
seus valores absolutos sendo testados, essas pessoas se apressavam e não
hesitavam em tentar desmerecer e rebaixar aquele que incitava o
questionamento, até que ele não mais fosse valorizado a ponto de causar um
mal-estar conceitual. No entanto, a desvalorização era tão absurda que criava
um indivíduo digno de ser responsável por todas as frustrações, tornando-o o
alvo perfeito para o ódio ilimitado e para as transferências que protegiam o ego
de se sentir impotente, ambas características presentes na maioria dos
funcionários.
Ao fim do terceiro mês o ser incomum já havia recebido um apelido, ele
era conhecido por todos como sendo o monstro. Ele se tornou o responsável
por todos os acontecimentos ruins, que iam desde o café que foi derramado no
chão até, pasmem, à nota baixa do filho de um dos funcionários. As
demonstrações de desprezo contra ele se tornavam cada vez mais explicitas.
Constantemente ele se via obrigado a se livrar de agressores, tanto verbais
111

como físicos, assim como se via obrigado a ignorar insultos gratuitos, que eram
pronunciados por todos.
Mesmo com um ambiente completamente hostil à sua volta, o ser
incomum se mostrava inabalável, deixando transparecer toda a sua vivacidade,
toda a sua alegria pura e sincera. A construção conceitual incoerente, feita
pelos funcionários, mostrava o quanto o ser humano é capaz de acreditar em
qualquer coisa que deseja, que se propõe a acreditar. Aquele que era
considerado o pior ser humano do mundo parecia um santo quando analisado
por alguém que possuísse uma interpretação imparcial. Incapaz de odiar, ele
possuía um sorriso fraternal, que era interpretado por todos os funcionários
como sendo o sorriso de um demônio.
A permanência do ser incomum naquela empresa, que já vinha sendo
direcionada para uma estada curta, por causa daquilo que sua constituição
incomum causava nas pessoas à sua volta, chegou, finalmente, ao fim, de fato.
Durante o almoço, um funcionário, sentado a três mesas de distância do ser
incomum, deixou cair sua bandeja, esparramando uma grande quantidade de
comida pelo chão, que estava impecavelmente limpo; sem se preocupar em
limpar toda aquela comida que estava no chão, o funcionário se dirigiu, cheio
de ódio, até a mesa do ser incomum, e, transbordando de raiva, começou a
xingar à plena voz.
“Você é o culpado de tudo isso, seu merda, seu monstro! Todos te
odeiam, você é o mal da humanidade, você é um monstro do mal, Judas!”
O ser incomum olhou de forma indiferente para aquele interlocutor
exaltado, e após uma interrupção de em torno de 5 segundos, voltou a se
alimentar despreocupadamente. A sua atitude de indivíduo intocável irritou
ainda mais o funcionário exaltado, que tentou partir para cima do ser incomum,
mas foi interrompido por outros funcionários.
O acontecimento repercutiu quase que instantaneamente. Todos diziam
que o ser incomum era o culpado, explicando que isso foi demonstrado pela
maneira como ele se portou perante o confronto, entre ele e o funcionário

112

prejudicado por ele. Todos diziam que aquele semblante sereno e indiferente,
durante uma discussão, era digno de alguém que, com certeza, era culpado, e
essa afirmação foi defendida por todos, por mais incoerente que possa parecer.
Entretanto, que culpa o ser incomum tinha ninguém sabia, mas todos o
julgaram culpado.
A diretoria, que se incumbiu de cuidar do caso, decidiu demitir o
funcionário que foi acusado por todas as pessoas que presenciaram a
confusão. Após quatro meses a empresa recuperou sua atmosfera habitual, as
coisas voltaram a ser como eram, sofrendo apenas uma única mudança, o ser
incomum ser tornou, para muitos, uma imagem responsável, para sempre, por
todos os acontecimentos ruins, uma imagem abjeta e permanente, para onde
era direcionado todo o ódio.

113

“Eu senti que tinha sido feliz e que era feliz novamente. Para tudo ser
consumado, para me sentir mais satisfeito, eu tinha apenas que desejar a
presença de um grande público no dia da minha execução, e que eles me
recebessem com gritos de ódio.”
Albert Camus

114

Os estranhos

“Ele se recusava a mentir, dizia apenas aquilo que realmente sentia,
aquilo que realmente pensava. Por ser assim, por não esconder seus
sentimentos e não se importar com a forma como as pessoas o enxergavam,
ele era visto como uma ameaça, como um elemento capaz de demolir qualquer
tipo de ilusão, qualquer tipo de artifício responsável por tornar a vida mais fácil
e entorpecida, trazendo dor e agonia.”
Somente nos momentos em que tentamos encontrar uma personalidade
original, cheia de perspectivas únicas, contendo arranjos abrangentes e
possuindo uma conexão lógica impecável e irrefutável, que percebemos o
quanto as pessoas possuem conceitos incoerentes, mal elaborados, diminutos
e, muitas vezes, completamente alheios a uma verificação e interpretação
estritamente pessoal. Dessa forma, logo nos decepcionamos com os indivíduos
que encontramos regularmente; a grande maioria das pessoas se esforça,
desde sempre, para afugentar qualquer tipo de sensação e interpretação
diferente daquelas que lhes são impostas. Em um mundo onde desde cedo
somos ensinados a rejeitar nossas sensações e a desvalorizar nossa
capacidade própria de elaborar conceitos, percebemos o quanto as pessoas
são artificiais, incoerentes, semelhantes e alienadas.
Não possuindo a capacidade de pensar por si próprias, as pessoas
precisam contar com definições alheias para que possam determinar aquilo
que são; sem possuírem a capacidade de fazer uma análise crítica, incapazes
de imaginar consequências e diferentes perspectivas, os indivíduos não
possuem ferramentas que os permitam impedir que se tornem burros,
ignorantes e cegos.
O mundo interpretado através de conceitos limitados valoriza e almeja
definir conceitos que permitam a existência das mais variadas falhas e
aspectos que os seres humanos deveriam se empenhar para alterar. Em um
mundo onde a burrice e a ignorância não mais são preconizadas por templos

115

suntuosos e padres convictos — que desprezam qualquer tipo de desejo e
sensação —, mas sim por torres de marfim e cientistas ignorantes, os dez
mandamentos perderam espaço para a lei do menor esforço, para a
manutenção das espécies, para o materialismo, para a realpolitik e para o
egoísmo racional. Perante novos conceitos, a ignorância e as carências
humanas são mantidas e valorizadas, adquirindo novas conotações, novas
interpretações.

“A religião é o ópio das massas.” Tornou-se, nos dias atuais: “O ópio é a
religião das massas.”

Atualmente, os remédios substituem a religião, afastando as pessoas da
dor e de questões mal resolvidas, apenas com algumas pílulas. “A medicação é
muito mais eficiente, e prática, do que a religião, é um cristianismo sem
lágrimas.”
“— Eu não acredito em Deus! Sou um ser evoluído e muito inteligente,
que não mais necessita de uma ilusão para suportar a existência.
— Interessante. No entanto, pelo que ouço você falar, você acredita em
dinheiro e amor, não é mesmo?
— Claro. São essas as minhas crenças racionais e reais, tangíveis.
— Eu entendo o seu ponto de vista, mas, por mais que me esforce, não
consigo entender o que te torna tão mais ‘evoluído’ do que alguém que acredita
em Deus; você, a meu ver, continua possuindo e sendo direcionado por
ilusões, a única diferença consiste na meta estipulada por você.
— Há, Há. Você é incapaz de me compreender, não tem força suficiente
para enxergar as coisas como eu enxergo. Por sorte, não dou ouvidos a seus
argumentos impensados e fúteis. Adeus.”
Em um mundo onde questões complexas continuam sendo desviadas e
tratadas como se fossem anomalias, aqueles que começam a adquirir
116

concepções discrepantes entre si, aqueles passam a enxergar possibilidades
variadas nos acontecimentos, são marginalizados e tratados como se fossem
doentes, que apenas serão considerados saudáveis ao adquirirem, novamente,
uma concepção única e inquestionável para as coisas.
Assim sendo, a regra primordial é ser ignorante, é enxergar um mundo
extremamente mutável, e de interpretações infinitas, como possuindo apenas
uma definição exata e irrefutável.
O esforço desenfreado em busca de afugentar acontecimentos e
mudanças que causam dor, faz com que o ser humano mantenha uma
constituição burra e ignorante.
“Podemos dizer que os indivíduos que possuem um espírito vasto são
capazes de interpretar as coisas de formas variadas, o que os permite enxergar
várias possibilidades, atributo esse que faz com que eles sejam capazes de
compreender, de aplicar a suas interpretações das coisas, uma grande
quantidade de proposições. Aspecto esse que é o pré-requisito essencial para
quando desejamos analisar se uma pessoa é inteligente ou não, assim como é
o pré-requisito para a desgraça.”
Distantes de qualquer possibilidade de definições variadas, sendo
afastadas por remédios, por distrações e por definições conceituais, as
pessoas são incapazes de explorar e delimitar, mais racionalmente, a
desconstrução de ilusões e estruturas que nos direcionam durante nossa
existência, fazendo com que temamos, incondicionalmente, e tentemos fugir,
incessantemente, de qualquer acontecimento que nos faça questionar e
desconstruir nossos direcionamentos mais profundos.
A presença desse medo irracional faz com que continuemos a valorizar
conceitos que apenas nos deixam desesperados e que sabemos, muito bem,
que não determinam com precisão aquilo que vivenciamos. A incapacidade de
valorizarmos nossas próprias interpretações também contribui para o nosso
aprisionamento, fazendo com que continuemos sendo direcionados por
conceitos ineficientes, que, por mais que nos incomodem, não temos a
capacidade de refutar e substituir.

117

As carências e os defeitos humanos, que servem como base para a
construção conceitual vigente, criam um mundo onde nossa condição normal é
sermos burros e ignorantes, onde as pessoas realmente evoluídas incitam
perspectivas novas, que estimulam desconstruções, e causam dor, fazendo
com que sejam odiadas.

118

O desenvolvimento inconsciente das impressões
Desde quando essa característica inconsciente foi pormenorizadamente
identificada por Freud, em seu livro: A interpretação dos sonhos, várias análises
e verificações dessa função psíquica foram elaboradas, cogitadas e
experimentadas. Partindo da premissa de que esse desenvolvimento
inconsciente realmente ocorra, irei analisar esse assunto.

O desenvolvimento inconsciente como a realização de um
desejo: Freud deixa claro que a função do sonho é a realização de um
desejo. Na maioria das vezes o sonho tem que ser interpretado, pois mesmo
com a redução das resistências psíquicas durante o sono, ainda assim são
feitas transferências, deslocamentos dos desejos mais profundos, evitando que
o desenvolvimento seja reprimido por causa de um parâmetro que a mente não
aceita. Então, para identificarmos a realização de um desejo durante o sono,
temos de interpretar as transferências, que acontecem através de metáforas,
sendo-nos desvelado o desejo em si, através dessa interpretação. Jung
apresenta uma visão completamente diferente, atentando para a relação dos
acontecimentos do sonho com um significado que tenta ser expresso da
maneira mais clara possível, utilizando de memórias, e interpretações aquém
da nossa capacidade de identificação consciente, para expressar aquilo que o
inconsciente interpreta sobre a impressão, a sensação, que está sendo
desenvolvida; nesse caso, podemos verificar o quanto nossos conceitos
permanecem ocultos para nós, adquirindo, nas profundezas do nosso intelecto,
relações que somos incapazes de imaginar. Ao mesmo tempo que percebemos
a grande disparidade entre nosso imaginário e aquilo que observamos,
conseguimos notar o quanto nossa mente é veloz, o quanto nossos
desenvolvimentos inconscientes flutuam de forma acelerada, pulando de um
planeta para o outro, em questão de centésimos de segundo; cada nova
impressão, percepção, pode suscitar uma imagem diferente em nossa mente,
fazendo com que percorramos as localidades mais distantes, em questão de

119

segundos. Essas imagens aleatórias, quando conectadas e interpretadas por
nós, dão a impressão de uma duração gigantesca, para algo que não dura
mais do que centésimos de segundo. Essa elaboração rápida e ininterrupta de
imagens, relações e interpretações pode acabar por desenvolver parâmetros e
interpretações discrepantes, com relação àquilo que está estruturado em nossa
mente, nesse caso, nosso inconsciente é responsável por fazer uma nova
síntese que relacione essas informações discrepantes entre aquilo que foi
percebido e aquilo previamente presente no intelecto. Essa perspectiva pode
definir nossa mente como uma espécie de conector, que relaciona nossas
impressões entre si, aparando pontas, elementos desconexos e incoerências,
fazendo com que por mais que tenhamos interpretações diferentes, ainda
assim sejamos capazes de possuir um imaginário coeso e bem direcionado.
A visão

freudiana

do

sonho

(que

podemos

denominar

como

desenvolvimento inconsciente) não é totalmente abrangente, e abre espaço
para muitas dúvidas, por causa da ineficiência em abarcar um grande número
de fatores. Primeiramente, como Freud pode identificar uma necessidade
profunda da psique, que justifique os sonhos? Ele toma como base seus
pacientes e seu conhecimento adquirido, e define como base do desejo a
sensualidade, o ato sexual, mas não o atribuindo a uma perspectiva vulgar e
lasciva, mas sim o designando como um desejo de manutenção da espécie,
que de tão arraigado na psique, já se tornou primordial.
Com certeza, essa definição de Freud é puramente interpretativa,
especulativa. Segundo Lacan, uma vontade em comum não pode ser
especificada, pois a psique é uma grande cadeia de significantes que nunca
realmente demonstram o seu significado, cabendo a nós tentarmos interpretar
esses significantes e encontrarmos os pontos de ligação, expressos por
metáforas, que remetem ao significado que permanece oculto para nós, sendo
que cada indivíduo possui uma relação estrutural do significante diferente
quando relacionada ao significado.
Ignorando essas classificações de Lacan — que são posteriores a Freud
e ampliam as complicações que envolvem a interpretação dos sonhos,
integrando conceitos estruturalistas ao conteúdo manifesto dos mesmos — a

120

interpretação freudiana dos sonhos remete estritamente a parâmetros sexuais
e lembranças da infância, relacionadas ao início da sexualidade.
Estabelecendo a sexualidade como base, Freud remete todas as
metáforas à realização de desejos sexuais profundos; essa metodologia
proporciona uma análise extremamente complexa e cheia de ramificações,
durante a interpretação dos sonhos; recorrendo às mais variadas séries de
relações absurdas, Freud sempre consegue definir um desejo sexual como
base do sonho. Um exímio trabalho de lógica e distorção, essa é a
característica que enxergo na interpretação freudiana dos sonhos.
Criando um objetivo e utilizando de artimanhas que conduzam a esse
objetivo, é possível determinar uma realização de desejo para todas as coisas,
todas mesmo. Uma situação desse tipo é possível de ser identificada na
interpretação do sonho de um paciente, feita por Freud, e que foi descrita no
livro A interpretação dos sonhos:
“O sonhador se encontrava num grande pátio onde alguns cadáveres
estavam sendo queimados. ‘Vou embora!’ disse ele, ‘não suporto ver isso.’
(Isso não era claramente uma fala). Encontrou-se então com os dois
aprendizes de açougueiro. ‘E então’, perguntou, ‘estava gostoso?’ ‘Não’,
respondeu um deles, ‘nem um pouquinho’ — como se tivesse sido carne
humana”.
A seguir Freud define o conteúdo latente do sonho: “O pretexto inocente
do sonho era o seguinte. O sonhador e sua mulher, depois do jantar, tinham
feito uma visita a seus vizinhos, que eram pessoas excelentes, mas não
exatamente ‘apetitosas’. A idosa e hospitaleira senhora estava justamente
ceando e tentando forçá-lo (existe uma expressão de sentido sexual que é
jocosamente empregada entre os homens para expressar esta ideia) a provar
um pouco. Ele recusou, dizendo não ter mais nenhum apetite: ‘Vamos’,
retrucou ela, ‘você consegue!’, ou alguma coisa nesse sentido. Assim, ele foi
obrigado a provar e a cumprimentou pela ceia, dizendo: ‘Estava muito gostoso’.
Ao ver-se novamente a sós com sua mulher, ele reclamou da insistência da
vizinha e também da qualidade da comida. O pensamento ‘Não suporto ver
isso’, que também no sonho não chegou a emergir como uma fala em sentido
121

estrito, era uma alusão aos encantos físicos da senhora de quem partira o
convite, e deve ser entendido como uma afirmação de que ele não tinha
nenhum desejo de olhá-los”.
Essa interpretação capciosa e duvidosa ergue uma série de dúvidas e
desconfianças, com relação às afirmações de Freud sobre o sonho.
Em seus escritos posteriores, Freud define uma característica dualista
dos instintos, separando-os em instinto sexual (reprodução, manutenção da
espécie) e instinto de morte (retorno ao estado inorgânico); nesses parâmetros
novos, a interpretação dos sonhos pode assumir uma nova possibilidade de
objetivos, fazendo com que os sonhos possam se relacionar a algo novo, além
da sexualidade. Mesmo assim, a realização de desejos, proporcionada pelos
sonhos, faz-se capciosa e extremamente interpretativa. Tentando incorporar
essa metodologia de identificação do desejo na pluralidade estrutural de Lacan,
ainda nos deparamos com um resultado capcioso, inconclusivo e muitas vezes
imputado, sendo que essa metodologia não consegue responder de maneira
satisfatória a questionamentos simples: Se o sonho (desenvolvimento
inconsciente) é a realização de um desejo, por que eu não me sinto satisfeito
com todas as impressões que adquiri durante a vida? Por que algumas
impressões se tornaram memórias que me repugnam, que são ruins para mim?
A realização do desejo é algo bom, que nos satisfaz; então, por que algumas
impressões foram desenvolvidas de maneira pungente para a psique? Na
defesa das teorias psicanalíticas de base, essas perguntas poderiam ser
desenvolvidas das mais variadas formas, com recursos exagerados e
fantasiosos, no intuito de manter essa frágil teoria da realização dos desejos.
Não se faz muito mais coerente e lógico, a definição do sonho como sendo
uma associação inconsciente que relaciona a impressão a memórias
anteriores, a estruturas e relações anteriores, assim desenvolvendo e
classificando as impressões em nossa mente? Para mim, essa proposição faz
muito mais sentido, é muito mais coerente e plausível.
A psique é dotada de uma curiosidade profunda, tenta relacionar todas
as coisas que vivencia a uma força profunda, a base do intelecto. Cada
impressão adquirida ou parâmetro carente de exploração incomoda a psique,

122

que em sua vontade descontrolada de definição, de classificação das coisas
com o seu significado profundo, almeja explorar esse parâmetro e classificá-lo,
podendo essa classificação ser boa ou ruim.
Talvez a mente funcione de acordo com a maneira descrita a seguir:
Adquirimos uma impressão, que se aloja nas profundezas da nossa
mente e muitas vezes nem mesmo é percebida, de forma consciente, por nós;
durante o sono ou até mesmo durante a vigília, a mente tenta definir essa
impressão. “O que é isso? Será que isso é a resposta para esse meu desejo
mais profundo? Eu preciso descobrir o que é isso, eu preciso descobrir, de
qualquer jeito. Sabe... Acho que já vi algumas partes dessa impressão em uma
memória antiga, será que são iguais? Acho que vou relacionar algumas
memórias com a impressão e defini-la, eu não posso ficar sem saber o que ela
é, de jeito nenhum!”.
Todo esse processo é executado de maneira inconsciente, longe do
nosso controle e direcionamento. Toda interpretação inconsciente está
relacionada a estruturas profundas do nosso intelecto, e não necessariamente
é a realização de um desejo, mas sim um ato de curiosidade, de exploração
das impressões, no intuito de compará-las a memórias antigas e defini-las com
relação às estruturas da nossa mente, dando conteúdos a tais elementos
intrínsecos. A curiosidade é uma das características mais marcantes da nossa
psique.
No entanto, os sonhos realmente podem adquirir alguns aspectos que os
relacionam à realização de um desejo, ou à fuga de qualquer coisa que nos
cause dor. Nossos mecanismos de proteção, visando afugentar o desespero
existencial, transformam cada desenvolvimento, fazendo com que as
interpretações se tornem conceitos relacionados às nossas crenças e
conteúdos profundos, dando um significado capcioso a tudo aquilo que é
desenvolvido por nós, fazendo com que muitos desenvolvimentos adquiram
interpretações capciosas e direcionadas rumo a uma meta específica, a um
ideal específico, assim como aquilo que incomoda e ameaça tais ideais pode
ser desprezado, diminuído e repreendido pela mente, tudo ocorrendo de forma
inconsciente.
123

Essa nossa característica, que está mais relacionada com um medo
profundo do que a uma característica intrínseca em nós, muitas vezes não é
percebida em todas as pessoas. Algumas delas possuem uma constituição
plural, que as fazem possuir múltiplas interpretações sobre as coisas. Nesse
contexto, os sonhos se tornam simplesmente classificações espontâneas, que
visam estabelecer conceitos que melhor abarquem as nossas impressões, sem
que as mesmas sejam direcionadas rumo a uma estrutura específica, rumo à
manutenção de um ideal específico.

124

“Esse cenário que abarca todas as nossas sensações e impressões, que
podemos caracterizar como espírito, é transmitido para o organismo na forma
de parâmetro máximo, sendo necessário o aprimoramento existencial para que
isso — que se tornou uma necessidade profunda — sinta-se em parte
satisfeito. A base da psique se transforma em vontade de potência nos seres
vivos”.
Autor desconhecido

Sobre a melancolia
Segundo a teoria freudiana, a melancolia se dá como a desvalorização
do objeto¹ através de uma decepção, que induz o indivíduo a uma
restruturação de seus parâmetros psíquicos, substituindo o objeto que é
valorizado. A melancolia se aproxima do luto, sendo que no segundo caso a
reestruturação é irremediável, o indivíduo não tem nenhuma opção a não ser
excluir o objeto que não mais existe; os conceitos são esvaziados e a mente se
vê livre e pronta para encontrar um novo objeto — mesmo nesses casos, a
mente encontra subterfúgios que lhe permite a manutenção de estruturas
ultrapassadas; um exemplo desse subterfúgio é o conceito de vida após a
morte —; no caso da melancolia, essa reestruturação ocorre de uma forma
mais complicada; o objeto ainda existe, mas por causa de alguma conduta

125

considerada absurda pelo indivíduo ele não mais agrada como antes, induzindo
a mente a um questionamento profundo sobre a conduta observada, dessa
maneira induzindo o duelo entre se desfazer do objeto ou mantê-lo.
Entretanto, mesmo com o luto, a mente busca manter vivas as
construções previamente elaboradas. Essa é uma de nossas características
profundas. Nesse caso, onde até mesmo o luto não é capaz de alterar os
conteúdos psíquicos, podemos dizer que a melancolia também é ineficiente na
tarefa de alterar os conteúdos profundos presentes na mente. Como dito
anteriormente, a desconstrução exige uma força imensurável do indivíduo, que
para tanto precisa mergulhar em uma condição de dúvidas e de ausência de
parâmetros, que faz com que o espírito adquira cenários absurdamente
desesperadores, sendo esse um aspecto aterrador, que nossa mente busca
fugir, desde sempre. Dessa forma, a desconstrução dos objetivos se torna
tarefa das mais difíceis, fazendo com que, na maioria das vezes, o indivíduo
apenas altere alguns parâmetros, mantendo

as estruturas profundas

inalteradas.
Além do duelo da manutenção e da desconstrução do objeto, o indivíduo
se vê questionado, como que se seus conceitos estivessem sob uma análise
pormenorizada. Quando amamos o objeto, passamos a encará-lo como sendo
nosso ideal direcionador, interpretamo-lo como sendo o responsável por
nossas alegrias e tristezas; tornamo-nos absurdamente sensíveis a qualquer
tipo de alteração que possa ocorrer a tais objetos. Em alguns casos, o
indivíduo pode passar a se enxergar como possuidor das características do
objeto, passando a se interpretar, em muitos casos, como sendo ele. Nesses
casos, a desvalorização do objeto, a decepção com o objeto, torna-se uma
decepção com nós mesmos, induzindo-nos a um estado de autoanálise: “Será
que essa característica que encontro no objeto está presente em mim também?
Provavelmente está; eu sou tão ruim quanto o objeto”. Esse questionamento,
essa autoanálise em excesso, induzida por um agente externo, é a responsável
pelo aparecimento da má consciência no indivíduo. Ele passa a se sentir
discrepante àquilo que considera como sendo satisfatório, aceitável, fazendo
com que a mente desenvolva essa pequena discrepância de um modo
absurdo,

exagerando

o

verdadeiro

sentido

e

consequência

dos
126

acontecimentos. O indivíduo se sente como que reduzido, incapaz e ruim para
o todo. Nesse ponto, uma nova característica psíquica toma parte nos atos do
indivíduo: o desprezo em excesso do Eu quando analisado em relação ao todo,
ou segundo Freud: “nota-se o aparecimento de algum tipo de instinto de
morte.”
Freud, em seus escritos posteriores, define o instinto como possuindo
duas vertentes (instinto sexual e o instinto de morte) que são discrepantes
entre si, um luta com o outro. Segundo ele, quando a vida deixa de ser
prazerosa — por qualquer motivo que possa incomodar o indivíduo —, o
instinto sexual não mais é capaz de se sobrepor ao instinto de morte, que
clama pelo retorno ao estado inorgânico, clama pela aniquilação do indivíduo.
Essa definição de Freud deixa muitas dúvidas, grande parte dessas dúvidas se
situa na possível luta entre esses dois instintos, que me parece estranha; um
novo modelo para esses acontecimentos pode ser elaborado.

¹ A maneira como o autor emprega o termo objeto não remete ao significado filosófico em si.
Diferente do objeto que pode ser considerado como a antítese do que seria o sujeito, o
presente livro relaciona o objeto a simplesmente algo externo ao indivíduo.

A vontade de potência (retorno ao estado inorgânico) como
sendo o único instinto na psique: A teoria da manutenção das
espécies me parece um conceito complicado para estar na base da psique,
sendo que a proposição de que a reprodução derive de um instinto ainda mais
profundo e simples, faz-se muito mais coerente e plausível para mim.
Grande parte das nossas atitudes seriam derivadas de um desejo de
retornar ao estado inorgânico, de tornar o Eu tão grandioso e potente quanto o
cenário que possuímos na nossa mente (espírito), sensação essa que ocorre
de maneira oculta em nossa mente. Mas o que seria essa vontade de retorno?
Seria ela regida por uma lembrança ou possui outra característica? Nesse
caso, faço uso dos conhecimentos budistas, que parecem elucidar essas
questões.

127

O estado de espírito mais revelador, que nos permite identificar o
funcionamento da mente, é o nirvana. No nirvana o indivíduo passa por um
completo desligamento das funções mentais que definem o indivíduo, que
fazem projeções, etc., passando a estar em contato com a base da psique. Eu,
que já fui praticante assíduo do budismo, consegui atingir o nirvana algumas
vezes, e a sensação é realmente impressionante. Nosso corpo perde todas as
suas delimitações, de repente nos sentimos como se estivéssemos maiores do
que nunca, parece que finalmente entramos em contato com todas as coisas,
sentindo um fluxo intenso de energia que percorre todo o nosso corpo. No meu
caso, essa sensação não durou muito tempo, o que eu atribuo à minha mente,
que voltou a funcionar normalmente, definindo novamente os limites do
indivíduo e barrando essa interação abrangente com tudo aquilo que
percebemos. De acordo com as minhas experiências, posso dizer que o
impulso mais profundo da psique é essa ligação com todas as coisas, esse
estado de potência elevada, onde o espírito é o indivíduo. Faço essas
afirmações e, de acordo com as minhas experiências, permaneço ultrarrealista,
diferente de quem afirma que a base da psique é caracterizada pela
manutenção da espécie.
Retornando à melancolia, podemos integrar à sua análise essa nova
forma de encarar a psique humana. Primeiramente, quero salientar que o
estado melancólico não é algo que ocorre a todas as pessoas, quem se
identifica nesse estado pode se considerar como alguém que se encontra em
um estágio de desenvolvimento que vai além do ser humano comum atual, que
ainda é dotado de um narcisismo exagerado, assim como é incapaz de nem ao
menos tocar, parcialmente, seus ideais e direcionamentos profundos, dessa
forma, não se tornando possível distanciar-se muito da concepção psíquica do
animal primitivo, que possui, desde sempre, um ideal específico, e que não é
capaz de fazer a diferenciação entre o indivíduo e o todo, encarando a si
próprio como sendo o todo, encarando-se como sendo o centro das coisas,
como que se o mundo existisse apenas em função de si mesmo.
Nessa condição de narcisismo exagerado, que eu considero como
sendo o tipo de mentalidade que rege a atitude da maioria das pessoas, o
próprio Eu é definido como sendo o todo. De acordo com Schopenhauer, nós
128

criamos um modelo de mundo em nossa mente, e um motivo para o repúdio do
suicídio é a perda desse mundo, o desaparecimento do indivíduo que define o
mundo, que praticamente o cria, pois na mente primitiva o mundo não existe
para além do indivíduo, todas as representações, todos os acontecimentos e
coisas acontecem em função dele, e possuem relação estritamente para com
ele; se esse indivíduo deixa de existir o todo também desaparece. Na mente
narcisista essa característica é evidente, o mundo é o indivíduo, todas as
coisas acontecem em função dele e nada além. Nesse tipo de constituição
psíquica, o aparecimento da melancolia se torna praticamente impossível de
acontecer; o indivíduo narcisista não consegue possuir uma alma que leva em
consideração parâmetros que vão para além de si mesmo, não é capaz de se
colocar além de si, assim como ele, que protege desde sempre seus ideais,
não irá passar por uma fase de autoquestionamento profundo incitada por um
objeto externo, pois não é capaz de questionar, profundamente, nada, dessa
maneira, sendo impossível que alguma coisa suscite questionamentos sobre a
sua maneira de ser. Ele não se vê como sendo parte do todo, mas sim como
sendo o todo.
No caso do narcisismo exagerado, o sentimento de interação com todas
as coisas (vamos chamar de nirvana) não pode ser alcançado, sendo que a
única coisa que pode ser obtida com a destruição dos ideais é o desespero
existencial, onde, sem ideais que amenizem a impotência do indivíduo, sua
pequenez, a pessoa se sente profundamente desesperada, por causa das
projeções da mente, que a transportam para um cenário absurdamente
opressor, desesperador. O narcisista faz juízos de valores, sendo eles voltados
apenas para o mundo exterior, voltados para o seu limitado não-eu, que é
valorizado de acordo com as necessidades particulares e nada além. Como as
profundezas do nosso intelecto é extremista, e classifica as coisas em apenas
boas ou ruins, sem meio termo, as decisões não fogem muito dessa análise
extrema, fazendo com que o indivíduo classifique o mundo externo em coisas
que devem ser aniquiladas e coisas que devem existir, relacionando essa
valoração à vontade de potência que almeja alcançar a amplitude inorgânica,
vontade essa que rege todas as funções do indivíduo. Por causa do excesso
de narcisismo, e do culto exagerado ao egoísmo, a alma nunca atingirá as

129

proporções do espírito no indivíduo narcisista, fazendo com que ele nunca se
sinta profundamente satisfeito, nunca se sinta próximo dessa sensação de
interação com todas as coisas, característica essa que é totalmente
impossibilitada de ser alcançada por causa da excessiva valorização individual.
No narcisismo exagerado, as barreiras do indivíduo são muito intensas,
apartando cada vez mais a alma da expansão até as dimensões do espírito.
Na pessoa que é capaz de se sentir melancólica, esse narcisismo,
muitas vezes, se encontra diminuído; o indivíduo não mais se considera como
sendo o todo, mas sim parte do todo. Essa maneira de se enxergar se
aproxima do que é o espírito, permitindo que o indivíduo possua uma forma de
construção da sua alma que é mais refinada, alheia a si mesmo, muitas vezes
sendo quase que inteiramente suprapessoal, fazendo com que a alma seja
construída levando em consideração parâmetros que vão além das próprias
dimensões físicas do indivíduo. Diferente do narcisismo exagerado, o indivíduo
não faz juízos de valor com relação apenas ao mundo exterior, ele também se
analisa e define-se como sendo bom ou ruim para o todo, definindo-se como
algo a ser aniquilado ou conservado. Quando esse indivíduo, que é capaz de
questionar a própria existência, adquire um estado de má consciência,
podemos notar que ele irá valorizar a todos, sobrepondo-os a si mesmo,
tornando o desejo alheio mais importante do que o seu próprio. Em casos
extremos, esse indivíduo, que se enxerga como sendo retrógrado com relação
ao todo, pode repudiar sua interação com todas as coisas, até mesmo
chegando a cometer o suicídio.
Além de um objeto externo, muitas coisas podem suscitar um estado
melancólico, como a própria autocrítica, um acontecimento que faz com que o
indivíduo se sinta diminuto e insignificante, a preocupação excessiva com a
capacidade própria de executar alguma tarefa, etc.; tudo que suscite um estado
de má consciência, de diminuição, de impotência, no indivíduo pode ser
considerado como um agente melancólico.
Essas construções negativas são raras por causa da dor que elas
suscitam, e que muitas vezes é bloqueada por nossos mecanismos de
proteção profundos, que impedem que sintamos qualquer tipo de sensação que
não seja satisfatória, boa. Desse modo, a maioria das pessoas se volta contra
130

o mundo exterior, utilizando-se de atos impulsivos para que os cenários
deploráveis, que estão se formando, sejam imediatamente alterados, ou
esquecidos. Esses agentes impulsivos nunca serão capazes de construir uma
vida interior, um mundo interior, pois não possuem força e coragem suficiente
para tanto. Para elas, o máximo de desespero que irão encarar será o
aparecimento de agentes que causam construções indesejáveis e atitudes
impulsivas e impensadas que eliminam, prontamente, esses cenários
desesperadores.

Do nirvana ao “homem sem qualidades”
Vemo-nos deparados com notícias sobre pessoas que conseguiram se
ausentar por completo de seus corpos; elas pararam todos os seus
pensamentos e bloquearam os sentidos, e, por causa dessas condições,
alcançaram um estado de paz absoluta, de harmonia absoluta. Essa condição
humana, que se assemelha com a morte, não é nova, e já foi comentada
exaustivamente ao longo dos anos, possuindo várias explicações diferentes,
variando de acordo com a doutrina daqueles que tentam explicar o assunto. A
despeito das várias expressões que caracterizam essa condição especial,
iremos caracterizá-la com sua denominação mais comum, pelo menos a meu
ver, sendo ela o nirvana.
Tomando como base esse estado de paz celestial e absoluta, onde a
nossa vontade de potência se sente satisfeita, passemos agora a analisar tudo
aquilo que se estrutura sobre essa completude, sobre isso que podemos
considerar como sendo o puro espírito. Sobre esse todo é estruturado e
definido o indivíduo, que possui suas delimitações estabelecidas através das
informações adquiridas pelos sentidos. Uma vez definida as dimensões do
nosso Eu, restringimos a nossa interação com o todo, passando a encarar as
coisas em relação a esse Eu estabelecido. Nossa mente passa a trabalhar da
seguinte maneira: Eu perante isso, Eu perante aquilo, Eu perante o mundo.
Essa restrição das nossas dimensões não segue sem efeitos colaterais; por

131

causa da restrição daquilo que enxergamos como sendo nós, encarando-nos
como um indivíduo diminuto, passamos, de maneira inconsciente, a nos sentir
desesperados com o nosso Eu limitado perante o grandioso não-eu, e essa
discrepância, entre aquilo que somos e aquilo que poderíamos ser, gera uma
tensão que preenche o indivíduo com energia, preenche-o com vontade. Toda
essa vontade se transforma em sentimento e, consequentemente, em ação.
Todas as pessoas se sentem desesperadamente motivadas a agir em
função da ampliação desse Eu diminuto; todos nós nos arriscamos, tentamos,
tentamos, jogamos e jogamos, com a intenção de alcançarmos o espírito puro,
onde não mais enxergamos o mundo através do véu que delimita o indivíduo,
mas sim, não mais possuindo esse véu, seremos o mundo, seremos o todo,
dessa maneira suprindo a nossa necessidade mais profunda, que é a de
ampliar o Eu até que esse possua a mesma dimensão que o não-eu, que o
espírito puro. Todas as nossas ações e sentimentos têm relação com essa
nossa constituição psíquica.
Com relação à vontade proveniente dessa tensão intrínseca à existência
dos seres vivos, podemos classificar, de maneira imprecisa e generalizada,
dois tipos de constituições humanas: No primeiro caso o indivíduo transformará
toda essa vontade em ação, sendo essa ação estritamente reativa, que não é
meticulosamente

analisada,

mas

sim

executada

impulsivamente

e

precipitadamente; esse agir se tornará empreendimentos, tentativas, que
raramente são previamente analisadas e estudadas, assim como a energia
utilizada na execução dessas ações não é acumulada e conscientemente
direcionada para uma direção específica. No segundo caso, o indivíduo irá
ponderar, em excesso, todas as suas possibilidades, todas as consequências e
os motivos dos seus possíveis atos, dessa forma resguardando grande parte
da sua vontade, acumulando-a para utilizá-la apenas quando uma direção,
condizente com tudo o que foi analisado, for definida.
Situando-nos como um observador externo, que analisa essas duas
possibilidades de indivíduo, poderíamos perceber o imenso rastro, de ações
impulsivas e pouco elaboradas, deixado pelo primeiro tipo de indivíduo; ao
mesmo tempo, poderíamos citar com precisão suas qualidades, seus méritos e

132

suas fraquezas; poderíamos definir com precisão aquilo que o primeiro
indivíduo é, enquanto o segundo indivíduo permanece oculto, não nos
permitindo uma dedução precisa; seu posicionamento contemplativo, perante o
mundo, e a ausência de parâmetros que possam defini-lo o transformaram em
alguém que poderia ser classificado, por um observador externo, como “um
homem sem qualidades”.

133

“Escolher a morte, como o caminho mais
potencialização da vida, é uma atitude anti-humanista”.

coerente

para

a

Autor desconhecido

Sobre a natureza
É um erro, e dos mais absurdos, considerar a natureza como sendo
perfeita, impecável e absoluta em todas as suas formas e fenômenos. Essa
consideração descabida cria uma espécie de inferioridade para a humanidade,
encarando-a como uma entidade esdrúxula, à parte, e que não compartilha da
perfeição do meio.
Diferente do que é e o que foi preconizado por todo misticismo que
envolve a natureza, é sensato considerar que ela possui sua forma e
fenômenos derivados de nada além a interação pura entre as coisas, de
disputas incessantes, interação essa que abarca todas as influências e que
define a forma mais eficiente e harmoniosa de existência do todo.

134

A natureza, em toda a sua extensão, não passa de acasos, de
interações entre as coisas, sem objetivo algum. Inseridos nesse meio se
encontram os seres humanos, que dotados de inteligência são capazes de se
adaptarem aos acasos e manipular as variáveis para que as coisas possuam
um arranjo melhor, bem direcionado, e mais eficiente.
Mesmo a natureza sendo uma interação desgovernada e sem sentido,
ela tem suas características definidas por parâmetros muito vastos e
complexos, que o ser humano ainda não é capaz de identificar, fazendo com
que suas formas permaneçam mais harmoniosas e eficientes, em comparação
com aquilo que é manipulado e identificado pelos seres humanos. No entanto,
devido aos avanços humanos em áreas que vão desde a física até a filosofia,
já nos é possível imaginar um horizonte onde os homens desvendaram e
dominaram todas as forças da natureza, as influencias e interações entre as
coisas, e as utilizam na implementação de tecnologias e modelos existenciais
mais evoluídos. O amor à humanidade é algo que vale a pena nutrir.

135

“Você deve parar de pensar tanto sobre as coisas. Se você ficar
analisando tudo pormenorizadamente e constantemente, irá desconstruir tudo,
tudo mesmo, até mesmo Deus!”
Liev Tolstói

136

Q.I. – Que isso?
Hoje em dia, em nosso mundo prático e de respostas rápidas, que não
nos permite manter dúvidas ou conceitos em aberto, nos deparamos com
metodologias para a medição e definição das capacidades intelectuais das
pessoas. Um conjunto de testes pré-elaborados são os responsáveis por
determinar, de forma generalizada, a acuidade mental de pessoas que
possuem vivências, culturas, percepções e objetivos completamente diferentes,
quando comparadas entre si.
Esses

indicadores,

tanto

emocionais

quanto

intelectuais,

estão

intrinsecamente relacionados. Mesmo pesquisando até a exaustão, a
verdadeira análise feita por tais testes ainda permanece um mistério para nós,
sendo que é praticamente impossível determinarmos aquilo que essas análises
realmente analisam, o que elas realmente apontam como sendo o
comportamento humano e a constituição intelectual mais satisfatória.
A despeito de resultados que têm como base o número de respostas
certas, que são parâmetros responsáveis por determinar as aptidões das
pessoas, nesses testes, aquilo que é analisado no teste de Q.I. é a capacidade
do indivíduo de utilizar sua imaginação, criando conceitos que possuem uma
relação lógica impecável, irrefutável. A inteligência emocional (I.E.) está
conectada ao Q.I., sendo ela a capacidade do indivíduo de ser capaz de
elaborar uma definição consciente para suas emoções, de conseguir imaginarse com sendo um outro indivíduo, de ser capaz de estruturar, de imaginar, um
ambiente, conceitos e perspectivas, completamente diferentes das suas. Essa
capacidade tem relação direta com o Q.I., sendo imprescindível que o indivíduo
possua uma capacidade de elaboração conceitual absurdamente elevada para
que ele seja capaz de estruturar as mais variadas interpretações sobre as
coisas, sentimentos e acontecimentos, em um modelo exato e abrangente.
Atrelada a uma capacidade de imaginação e estruturação lógica
anormais, podemos encontrar a frieza. É um fato incontestável a perca da
nossa capacidade de sentir, em função do aprimoramento da nossa

137

capacidade de imaginar e estruturar nossos sentimentos mais intensos. Essa
característica, facilmente observável, faz com que passemos a repensar
nossos sentimentos e aquilo que eles realmente representam, faz com que
constatemos que os acontecimentos e pessoas que nos incitam sensações
intensas não passam de interpretações profundas e inconscientes, cheias de
exageros irreais, que, quando exploradas e definidas com precisão, se tornam
nada além do que conceitos irrelevantes, que foram reestruturados, de acordo
com a verdadeira proporção das coisas, da realidade, e perderam todo o seu
conteúdo desenvolvido estritamente pelo nosso inconsciente, deixando de ser
impressões imprecisas e absurdamente exageradas.
Nesse caso, seria de se esperar que um indivíduo com um Q.I. incomum
fosse uma pessoa fria, sem qualquer tipo de sentimento. No entanto, a
capacidade de imaginação das pessoas ainda é subdesenvolvida, fazendo com
que ainda não sejamos capazes de imaginar o verdadeiro funcionamento da
nossa mente, assim como não nos permite reproduzir em nossa mente, com
precisão, a vastidão de elementos que determinam a realidade, atributos esses
que fazem com que continuemos, por mais inútil que pareça ser, escravos de
nossos sentimentos.
A nossa incapacidade de imaginarmos tudo, a ponto de mensurarmos
com precisão a realidade, faz com que mantenhamos necessidades, que ditam
a forma como nos comportamos, assim como determinam nossas reações e
interpretações. Essa característica faz com que nos sintamos completamente
frustrados perante aspectos que sabemos ser nocivos, incoerentes, mas que,
por mais que tentemos alterá-los, continuam sendo absurdamente influentes
em nossas vidas. Nesse caso, as pessoas dotadas de uma capacidade de
imaginação mais avançada tornar-se-ão as mais infelizes; elas possuem a
capacidade de enxergarem e estruturarem mais profundamente seus conceitos
e impressões, mas, ao mesmo tempo, são incapazes de determinar com
precisão, de controlar e alterar as características particulares que não as
agradam.
“Isso realmente me incomoda muito; tento reproduzir em minha mente
os acontecimentos que me proporcionam sentimentos intensos, mas me vejo

138

incapaz de suscitar, apenas com minha imaginação, aquilo que sinto quando
me deparo com algumas situações ou pessoas; isso me irrita, sobremaneira.
Como sou curioso, vejo-me sempre perseguindo tais acontecimentos, tentando
vivenciá-los novamente, para que, somente assim, eu possa analisá-los
novamente, para que eu possa extrair um significado profundo e misterioso.
Constantemente vejo essa minha curiosidade sendo direcionada a pessoas
aleatórias, que incitam e trazem à tona memórias profundas, que parecem ser
importantíssimas para mim. Esse aspecto faz com que eu me interesse muito
por alguém, e isso é um grande problema. Nós valorizamos apenas aquilo que
não temos, aquilo que incita nossas impressões inconscientes irreais e faz com
que tenhamos interpretações absurdamente exageradas, que nos prometem
recompensas incríveis; nesse caso, meu interesse intenso por alguém faz com
que as pessoas sintam como que se já tivessem obtido tudo o que podiam de
mim, já possuíssem toda a devoção e o que tenho a oferecer, fazendo com que
eu me torne alguém insosso e entediante, incapaz de oferecer algo mais.
Muitas vezes vejo-me como uma pessoa que, aos olhos de um pervertido,
perde todo o interesse após o ato sexual. Essa característica faz com que eu
tente analisar as coisas meio que a uma distância segura, onde a falta de
interesse forjada me permite ainda ter as pessoas que me interessam por
perto. Mas, no entanto, analisar desse jeito muitas vezes é insuficiente para
mim, não me permitindo explorar tudo aquilo que gostaria, de investigar tudo o
que pretendo... Ah, que merda!”
Esse fracasso inicial, fruto de uma capacidade de imaginação que ainda
precisa ser aprimorada, não deve, em hipótese alguma, tornar-se um
empecilho a tentativas de aprimoramento da imaginação e estruturação lógica
humana — da consciência humana.
Entretanto,

mesmo

com

essas definições, que

determinam

as

qualidades que todo homem deve almejar, deve possuir, tais testes são muitas
vezes falhos, fornecendo respostas que não definem com precisão as
verdadeiras capacidades dos analisados. Nesses casos comuns, uma pessoa
pode ser considerada um gênio, quando na realidade apenas é capaz de
imaginar situações simples e que não exigem uma conexão lógica muito vasta,
assim como uma pessoa estúpida e ignorante pode obter um resultado elevado
139

em um teste de IE, sendo que, na verdade, ela simplesmente treinou e
reproduziu respostas que, em sua concepção, iriam fazer com que ela tirasse
uma nota mais alta, sem que para isso ela possua as qualidades que o teste
procura encontrar.
Mesmo com as limitações e incoerências evidentes desses testes, ainda
assim é preciso que eles sejam considerados e utilizados na análise das
pessoas. O comportamento humano, assim como o intelecto humano, é
absurdamente complexo, sendo impossível de ser definido com um simples
teste. Mas, mesmo com tais limitações evidentes, ainda precisamos possuir
conceitos exatos, que nos afastem da dor, que conceitos imprecisos e
misteriosos nos apresentam, desse modo elaborando uma concepção que nos
afasta da realidade, mas que sana nossa necessidade profunda de possuir
explicações exatas, que afugentem incertezas. Essa é o papel da psicologia,
nossa nova religião.

140

Escrever para melhor definir as experiências
Reservo um breve momento do dia de hoje para transmitir alguns de
meus pensamentos para o papel, para dar forma às minhas percepções, para
transferi-los, para expressá-los, desse modo tirando-os das profundezas
obscuras e desconhecidas da minha mente, onde tudo é exagerado e intenso,
e os desenvolvendo em um ambiente racional, palpável, que me permite
fornecer uma dimensão real — ou, pelo menos, que se aproxime da realidade
— para tudo aquilo que percebo e que sinto.
Todas as minhas numerosas impressões, que percorrem minha mente
com um ritmo alucinado, são desenvolvidas quase que inteiramente através de
pensamentos irracionais, que estabelecem conexões absurdas, exageradas e
muito, mas muito mesmo, aquém da realidade. Tendo como base esses
pensamentos irreais, que me acompanham desde sempre, sinto, quase que
constantemente, uma vontade impulsiva de falar sobre os aspectos que me
amedrontam, que entorpecem minha mente e deixam meu corpo em estado de
alerta, fazendo jorrar o medo mais assustador, por todos os meus órgãos. Essa
necessidade descontrolada de falar, está relacionada com a vontade de
estabelecer uma perspectiva mais realista para tudo aquilo que sinto, dessa
maneira estabelecendo uma interpretação mais condizente com o verdadeiro
aspecto das coisas, fazendo com que todas as minhas interpretações errôneas
sejam reestruturadas, fazendo com que o pensamento racional altere todos os
pensamentos incrivelmente absurdos, que minha mente sempre se mostrou
exímia em criar.
Entretanto, é muito raro encontrarmos alguém com quem possamos
conversar sobre nossos pensamentos mais profundos, é incrivelmente raro
encontrarmos pessoas que são de confiança e que nos permitirão expressar
tudo aquilo que se passa na nossa mente.
Tendo em vista essa impossibilidade de comunicação, esforço-me para
encontrar outras formas de racionalização de minhas impressões, sendo elas
solitárias e não dependendo da presença de outrem. Após algumas tentativas
141

infrutíferas, finalmente fui capaz de encontrar a forma de racionalização que
melhor me permite relacionar e externar minhas impressões; essa atividade,
que se tornou de suma importância para mim, é a escrita.
Almejando estabelecer uma interpretação coerente e racional para os
meus desenvolvimentos inconscientes, fico, pelo menos uma hora por dia,
escrevendo sobre minhas experiências, fico corrigindo minhas interpretações e
tornando-as mais reais, mais condizentes com a realidade.
Essa tarefa constante, e extremamente satisfatória, proporciona
satisfações que antes me eram inimagináveis. Ultimamente, posso dizer que
meu espírito se aproximou, e muito, da realidade das coisas, equiparando-se a
fenômenos e situações que observo, dessa forma fazendo com que eu possua
uma intuição muito realista, permitindo-me utilizar meu intelecto como uma
oficina, como um laboratório, onde analiso as mais variadas perspectivas,
desenvolvendo-as em todos os seus aspectos, característica essa que acelera
minha definição de conceitos, que potencializa minhas experiências, e me
permite possuir uma imaginação empírica, bem próxima da realidade, onde
posso analisar qualquer parâmetro, ou aspecto, da minha vida.

142

A mente no estado de Buda
Caracterizado como o estado existencial supremo, que um ser humano é
capaz de alcançar, o estado de Buda não é reservado para pessoas especiais,
ele pode ser alcançado por todos que se dediquem a essa realização. Nessa
condição existencial o desenvolvimento inconsciente se encontra reduzido,
quase que totalmente controlado pela consciência; os sonhos passam a ter seu
conteúdo facilmente identificado, mesmo em se tratando de associações que
parecem totalmente descabidas, e somos dotados de um conhecimento
abrangente, que explorou todas as possibilidades e estrutura seus conceitos
sobre bases inabaláveis; a mente já explorou todas as possibilidades em
relação àquilo que ela é capaz de perceber; por causa disso, nenhum
parâmetro permanece mal desenvolvido no intelecto, as emoções, que são
provenientes do desenvolvimento inconsciente exagerado de determinados
acontecimentos, deixam de existir, pois tudo é analisado pela razão, todas as
memórias passam a ser condizentes com aquilo que a pessoa deseja que elas
signifiquem; a pessoa não mais se surpreende com nada, não mais sente o
exagero das emoções impelindo-a a fazer algo, e não mais vê sua atenção
sendo direcionada, meio que inconscientemente, para algum acontecimento,
pois tudo já foi desenvolvido, de maneira racional, no intelecto, que não mais
contém interpretações exageradas, que proporcionam emoções exageradas.
Ao mesmo tempo em que os conceitos repousam sobre bases sólidas, o
mundo continua a ser extremamente variável, podendo apresentar novos
parâmetros que irão intrigar a mente e incitar um novo desenvolvimento
inconsciente de informações; nesse caso, o indivíduo já possui uma
consciência ampla e madura, a ponto de possuir conhecimento suficiente para
controlar possíveis arroubos e interpretações inconscientes descabidas.
A identificação dos sonhos torna-se precisa, identificando qualquer tipo
de associação e dando uma significação consciente exata, para tais
associações, que pode ser percebida pela conexão precisa entre os
desenvolvimentos inconscientes e as definições conscientes. Nessa condição,
as pessoas passam a perceber o quanto nossa mentalidade é incansável, e
143

não para em nenhum momento, desenvolvendo impressões, interpretando,
qualquer coisa que se apresenta para nós. Ao mesmo tempo em que o
indivíduo nota esses desenvolvimentos incessantes e inconscientes, ele
percebe o quanto aquilo que se estrutura nas profundezas de sua mente é
diferente da realidade que se apresenta a ele; essa característica o permite
identificar, sem surpresa, relações e interpretações, que poderiam parecer
impossíveis, entre aquilo que está estruturado em nossa mente e a realidade.
Nesse caso, os sonhos que pareciam mais absurdos e incoerentes, passam a
ser identificados com facilidade e precisão, atributo esse que lhes permitem
racionalizar com exatidão aquilo que lhes influencia e que está construído em
suas mentes. A descoberta dessa riqueza conceitual faz com que o indivíduo
não mais consiga acreditar em vidas passadas e coisas do tipo; investigando
suas memórias, ele percebe o quanto cada nova situação incita novas
interpretações e posicionamentos, que são responsáveis por criar novas
personalidades

e

possibilidades,

que

permanecem

escondidas

nas

profundezas do nosso ser, podendo vir à tona quando o indivíduo reencontra
cenários,

ou

situações,

desenvolvimento

específicas.

conceitual

Essa

inesgotável

e

pluralidade

profunda,

ininterrupto,

faz

com

esse
que

percebamos a sensatez em sentenças como: “Um homem que viveu apenas
um dia, é capaz de permanecer por cem anos apenas imaginando sobre esse
dia”. Referente a essa afirmação, que não considero exagerada, o estado de
Buda se mostra ainda mais surpreendente, revelando a necessidade de uma
inteligência elevada, que seja capaz de analisar uma quantidade imensurável
de informações, de desenvolvê-las e de definir conceitos a partir delas. Uma
memória superdesenvolvida também se faz necessária para a obtenção desse
estado existencial, assim como uma diminuição do senso crítico, para que
alguns parâmetros sejam aceitos como conceitos inabaláveis, fazendo com que
exploremos apenas aquilo em que acreditamos. Iremos armazenar linhas de
pensamento em nossa mente, não mais perdendo tempo em desenvolver
maneiras diferentes e recorrentes de pensar.
Mesmo com todas essas explicações, o estado de Buda parece estar
relacionado a algum tipo de estupor ou limitação dos parâmetros a serem
analisados pela mente; por isso que enxergo os seres iluminados como

144

pessoas isoladas de toda a complexidade social, possuindo uma vida simples,
o mais simples possível, desse modo limitando os parâmetros a serem
analisados, fazendo com que sejam capazes de desenvolver conceitos
inabaláveis, pois não possuem inputs excessivos, que a inteligência humana
ainda não é capaz de explicar e desenvolver por completo.
Possuidores de uma concepção única e inabalável das coisas à sua
volta, e de seus desejos, objetivos e medos, esses seres adquirem uma
condição rara, que os permitem se sentir muito satisfeitos, potencializando-os,
fazendo com que se sintam mais potentes do que nunca. Podemos caracterizar
essa condição rara como sendo a paixão. Nela, a mente possui uma estrutura
fixa e bem direcionada, que eliminou parâmetros concorrentes, fazendo com
que o indivíduo viva em meio a um estado exato e sem cenários concorrentes,
aumentando, dessa forma, sua potência e, consequentemente, sua satisfação.

“É preciso reinventar o amor, toda a gente sabe disso.”
Arthur Rimbaud

145

Breve introdução ao amor reinventado
Sem titubear ou utilizar de um prolongamento desnecessário, deixo claro
o que enxergo como sendo as experiências e sensações que são definidas, por
mim, como sendo o amor: é uma condição psíquica que permite ao indivíduo
possuir uma concepção exata das coisas, um ideal preciso e muito bem
direcionado, característica essa que o permite, quando destruído tal ideal que
direciona o indivíduo ao longo de sua vida, o alcance da aniquilação da alma
(nirvana), fazendo com que ele satisfaça sua necessidade mais profunda. Os
efeitos

dessa

aniquilação

momentânea

da

alma

deixo

para

serem

desenvolvidos posteriormente, tratando, por enquanto, da relação entre o
indivíduo e o seu ideal.
Podemos tomar como conceito, após algumas observações simplórias, a
presença de algo como que um narcisismo excessivo presente nos seres vivos;
nos seres humanos essa característica não é diferente. A princípio, o ser
humano não está focado em algum objeto, algo além dele mesmo, algo
externo, mas sim tem as suas necessidades suprimidas pelo próprio indivíduo,
pela sua própria imaginação. Se, com o passar do tempo, o indivíduo não
direciona sua necessidade para algo externo, ele pode viver em um estado de
completa introspecção, desse modo perdendo o contato com a realidade, não
enxergando nada além de si mesmo, nada além do que aquilo que ele pensa e
acredita, chegando, nesse caso, a nutrir perspectivas ilusórias, e totalmente
incoerentes, sobre o meio. Nesse estado de introspecção extrema, o indivíduo
tem suas necessidades supridas por si próprio, em sua mente; desprezando o
mundo

externo,

a

pessoa

acaba

por

se

tornar

megalomaníaca

e

patologicamente egoísta, sendo incapaz de levar em consideração sentimentos
alheios ou de se esforçar para reestruturar suas crenças. De posse dessa
mentalidade diminuta e que possui conceitos antigos, que foram defendidos e
conservados, desde sempre, o indivíduo adquire uma interpretação estreita e
bem direcionada sobre o ambiente e os acontecimentos, fazendo com que ele
seja incapaz de interpretar múltiplas possibilidades com relação àquilo que ele
vivencia. Infelizmente, essa constituição é muito comum ultimamente, acho que
sempre foi e, provavelmente, sempre será.

146

No desenvolvimento mais racional e plural da personalidade, passamos
para além da autossupressão de nossas necessidades — conforme crescemos
— e absorvemos estímulos do mundo externo, classificando-os como bons
(amor) ou ruins (ódio); aquilo que amamos nos dá vontade de adquirir,
englobar, tornar nosso; o objeto que valorizamos adquiri uma interação
profunda conosco, e ele faz com que nutramos expectativas de que aquilo que
almejamos irá nos proporcionar a supressão da nossa necessidade profunda.
Aquilo que odiamos nos dá vontade de destruir, aniquilar; em nossa mente os
conceitos odiados têm a capacidade de aniquilar a vida, destruir tudo aquilo
que está estruturado em nossas mentes, fazendo com que nos sintamos mais
impotentes e diminutos do que nunca; eles induzem a construção de um
cenário doloroso e abjeto, que muito nos incomoda, aspecto esse que nos
fazem tentar aniquilar tudo aquilo que suscita isso em nós. Não devemos
esquecer de que os conceitos morais, instaurados pelos homens, visam
controlar esses impulsos dualistas profundos, controlando o egoísmo —
controlando nossas atitudes exageradas, derivadas de desenvolvimentos
psíquicos profundos, realizados em ambientes que não têm relação com a
realidade das coisas — e tornando possível a vida civilizada. Toda essa
interpretação dos objetos externos remete a mecanismos e necessidades mais
profundas da nossa psique. As pessoas realmente capazes de amar, não
possuem uma interpretação absolutamente egoísta sobre seus ideais; elas são
capazes de explorar aquilo que amam, desse modo adquirindo parâmetros,
com relação ao seu ideal, que realmente têm relação com o objeto externo, o
que as difere de um ideal egoísta, estritamente construído pelo indivíduo, que,
por fim, não apresenta nenhuma semelhança quando comparado o ideal
construído em sua mente e o objeto.
Nessa relação com o mundo externo, o indivíduo pode reduzir todas as
suas projeções e expectativas para o Eu, no intuito de se adequar às
expectativas externas, às imposições sociais, ou o indivíduo pode manter um
estado de preservação de suas interpretações, mantendo uma relação de
independência, de distanciamento com relação à realidade imposta (condutas
sociais), de conservação das qualidades e de todas as características
particulares do indivíduo, que não será influenciado por interações retrógradas

147

e, muitas vezes, descabidas; esse segundo tipo de indivíduo é autossuficiente,
não necessitando de interações para que permaneça satisfeito, e, ao mesmo
tempo, mantém conceitos precisos, que, muitas vezes, possuem uma maior
semelhança com a realidade do que muitas de suas imposições sociais; esse
caso difere, e muito, do narcisismo patológico, de uma construção capciosa e
pretensiosa, pois o indivíduo mantém uma relação saudável, e muitas vezes
mais real, com o mundo exterior (não-eu), apenas optando por não englobar
valores dos quais não concorda, discordando de maneira sensata e lógica —
na maioria das vezes possuindo uma coerência conceitual que supera os
parâmetros cotidianos —, sendo invejado pelas outras pessoas, por causa de
sua segurança e da independência em relação a suas crenças e condutas.
Podemos dizer que nascemos egocêntricos, assim como podemos dizer
que vamos interpretando e dando significado àquilo com o que nos deparamos,
desde sempre; ao mesmo tempo, também podemos dizer que somos
influenciados, constantemente, por todos à nossa volta, sendo essa influência
responsável

por

direcionar

nossas

construções

conceituais.

Esse

direcionamento faz com que os indivíduos possuam uma essência, um
significado, para as coisas e acontecimentos, que vão sendo classificados, ao
longo da vida, de uma forma pré-estabelecida, limitada, preconceituosa e
capciosa. A mudança, que sempre é dolorosa e que sempre é evitada por nós,
se apresenta como um empecilho, algo a ser evitado, desde sempre,
característica essa que faz com que mantenhamos muitas crenças,
características e objetivos que adquirimos quando muito novos. Além dessa
nossa característica egoísta inicial, presente desde os primórdios de nossa
existência, muitas vezes nos deparamos com conceitos socioculturais egoístas,
que prezam a valorização e a manutenção de uma alma diminuta e focada
estritamente nas nossas necessidades particulares, aspecto esse que dificulta
ainda mais a estruturação de uma alma mais vasta e que leva em consideração
parâmetros que não estão diretamente relacionados os indivíduo.
Em dado momento de nossa vida absorvemos um parâmetro externo a
nós, e o transformamos em nosso ideal do Eu, que será responsável por nos
afastar do desespero existencial, de nos proporcionar um objetivo específico
para as nossas forças, sendo esse ideal o responsável, pelo menos na nossa
148

imaginação, por suprir a nossa necessidade mais profundas. A princípio, a
relação de afeto é ambivalente, alternando entre a valorização e o repúdio,
possuindo o seu desprezo e sua desvalorização dirigida à manutenção do
estado econômico da mente, onde os acontecimentos são atenuados e não
são tão intensos e dolorosos. O repúdio surge antes da valorização, ele é a
recusa aos estímulos externos, ao ideal, almejando a manutenção da
constituição presento do indivíduo, afastando, assim, a definição de uma
valorização que faz com que a pessoa se torne vulnerável e influenciável por
algum objeto externo, que, mesmo que possa fazer muito bem, pode, ao
mesmo tempo, destruir a pessoa por completo. O afeto é posterior à
capacidade do Eu de autossuprir suas necessidades; o ideal acaba por fazer
com que o indivíduo passe a se encontrar em desarranjo, onde a imagem de
uma condição muito satisfatória, que ocorre apenas na mente, faz com que a
realidade se torne dolorosa, e, muitas vezes, insuportável.
“— Por que você está se sentindo triste?
— Sinto-me dessa forma porque minha imaginação me apresenta algo
muito grandioso e satisfatório, que está muito além daquilo que realmente
encontro, fazendo com que me sinta triste perante tal realidade diminuta e
insuficiente para mim. Ao mesmo tempo, essa, que parece ser uma pequena
decepção, vai se desenvolvendo em minha mente, adquirindo parâmetros
gigantescos, que estão além da minha capacidade de controle de tais
construções

misteriosas,

tornando-se

algo

absurdamente

doloroso

e

infinitamente triste.”
Entretanto, o indivíduo pode adquirir, ao longo de sua vida, uma
constituição mais altruísta, que, por si só, o torna um completo estranho
perante uma constituição comum, e que lhe permite adquirir uma elaboração
de ideológica que não seja estritamente relacionada com o próprio indivíduo.
De acordo com a estrutura da nossa mente, vamos identificar objetos a serem
definidos por nós como sendo nossos ideais, como sendo possuidores da
capacidade de suprir nossa necessidade profunda, assim como iremos definir
parâmetros que serão os responsáveis por aniquilar tudo e trazer o desespero,
tudo de acordo com as estruturas que possuímos dentro de nós mesmos.

149

De acordo com suas experiências e influencias, as pessoas podem
apresentar diferentes constituições do Eu (alma), sendo, em alguns casos,
dotadas de um egoísmo exacerbado e em outros casos possuindo um
altruísmo ímpar.
Como mediador entre a alma e o espírito possuímos a reflexão, uma
entidade psíquica que nos analisa como se estivéssemos de fora, e oprime
muitos de nossos desejos; quanto mais desenvolvemos nossa consciência,
mais somos capazes de nos analisar de forma imparcial. A reflexão pode ser
considerada como uma entidade reguladora, que analisa as coisas em relação
ao conhecimento e os parâmetros que possuímos. Perante o mundo que
enxergamos, nós estabelecemos o ideal do Eu, que almeja alcançar o estado
de plenitude e a potência inorgânica, fazendo com que alcancemos as
dimensões do espírito; algumas vezes esse ideal do Eu é anómalo, com
relação aos parâmetros que nossa reflexão identifica como sendo a nossa
realidade, como sendo o certo, cabendo a nós a tarefa de transferir, ou de
desconstruir, de algum modo, essa discrepância nociva, para que nos livremos
da má consciência e da repressão.

Enxergando como um ser social
O pai comprimia, com o pé, o rabo de um pequeno rato, que se debatia
desesperadamente, pressentindo a iminência de sua morte. Próximo ao rato,
um garoto, de idade em torno de 11 anos, permanecia imóvel e assustado,
observando apreensivo à cena.
O ambiente onde ocorria esse acontecimento havia se tornado
desimportante,

encontrando-se

praticamente

ausente,

restando,

como

referência, apenas os pisos brancos, que pareciam ser de uma cozinha; esse
único detalhe perceptível apenas era possível por causa do rato, que, de cor
cinza escuro, se tornava ainda mais evidente, quando se debatia sobre o piso
branco.

150

Ignorando o olhar assustado do garoto, o pai se inclinou até ele e o
aproximou ainda mais do rato.
— Olhe para mim, olhe para mim — disse com um tom de voz autoritário
— Hoje irei lhe ensinar uma valiosa lição. É preciso que se concentre; que
deixe fluir sua imaginação, que, por sinal, é formidável, e capaz de construir
cenários e personalidades complexas; e faça tudo o que eu disser. Tudo bem?
Ainda assustado, o filho foi incapaz de responder, olhando aterrorizado
para o pai, tentando pronunciar as palavras que insistiam em permanecer
ocultas.
— Não tenha medo, meu filho. Essa lição é de suma importância, e será
muito útil em sua vida, isso eu posso lhe garantir.
O garoto se sentiu mais confiante com as palavras obstinadas do pai,
fazendo com que consentisse, com a cabeça, gesto esse que agradou o pai,
que prosseguiu com a experiência que estava disposto a proporcionar ao filho.
— Agora feche os olhos. Imagine-se como um ser único no mundo, todo
o resto, externo a ti, é inanimado, uma ilusão. O mundo existe em função
apenas de ti, e nada mais; você é o único ser de verdade nesse mundo, sem
você nada disso existiria, tudo ocorre em função de você, é referente a você.
Nada além de ti tem sentimentos, ou uma personalidade, ou objetivos, medos,
etc.; tudo o que existe está presente apenas em função de você, o mundo não
existiria se não fosse por sua causa — disse o pai com sua voz convicta, sem
hesitação — Consegue se imaginar como sendo um ser desses?
O garoto consentiu com a cabeça. O par, então, continuou a falar.
— Abra os olhos, filho. Agora lhe peço que continue a imaginar que você
é uma pessoa desse tipo. Quero que você permita que que essa possibilidade
de ser se aproprie de ti, sem restrições, passando a direcionar seus
pensamentos e coordenar seus atos. Quero que você estruture seus conceitos
de acordo com essas características que citei para você.
Os dois permaneceram em silêncio por um breve momento. A expressão
do filho, anteriormente assustada, havia se transmutado por completo; agora
151

ele possuía uma feição imponente, convicta, que não mais demonstrava toda a
sua insegurança anterior, o medo de alguns momentos antes. Seu olhar
anteriormente passivo e analítico, agora era tomado por um direcionamento
convicto, inabalável, que demonstrava a presença de uma interpretação
específica para as coisas, que era aplicada independentemente daquilo que
era observado, aquilo que se apresentava, externamente.
— Meu filho — disse o pai se ajoelhando, ainda mantendo o rato preso
pelo rabo, e se aproximando ainda mais do filho — Eu lhe forneci informações
que agora lhe permitem enxergar o mundo da maneira que a maioria das
pessoas, e dos animais, o vê. Eu fiz isso não para que você adquira uma
perspectiva igual a essa, mas muito pelo contrário. Nós somos seres evoluídos,
situando-nos em um patamar onde não existe qualquer tipo de mesquinharia,
ou parâmetros primitivos e animalescos. No entanto, não quero ser eu o
responsável por criar um bobo, que, por causa da inexistência de aspectos
egoístas em sua mente, não consegue enxergar as ações mesquinhas,
egoístas e abjetas das pessoas; é preciso que você consiga produzir, em seu
espírito, não só a bondade, mas também a perversidade, a fim de você seja
capaz de identificá-la nas pessoas com quem você irá se relacionar ao longo
de sua vida; afinal, nós apenas identificamos aquilo que esteja, de algum
modo, presente dentro de nós.
O filho absorveu cada palavra daquele discurso, alojando-as em sua
mente, de forma abrangente e profunda. O pai, quando percebeu a rápida
assimilação daquilo que ensinava ao garoto, sorriu satisfeito, e continuou com
a lição que pretendia ensinar ao filho.
— Ainda mantendo essa personalidade recém-criada, esmague esse
rato, sem dó. Ele não é nada, só você existe.
O garoto direcionou um olhar indiferente ao rato, ergueu o máximo que
pôde sua perna direita e pisou, violentamente, no rato, três vezes.

152

“Por fim, todo o conhecimento, toda cultura, todas as normas de conduta
e todos os governos são embasados no egoísmo. Aqueles que não são
egoístas, são loucos!”
Autor desconhecido

153

Egoísmo, a norma social
“Age de tal maneira, que aquilo que você definiu como máxima possa
ser utilizado como parâmetro para as condutas de todas as outras pessoas.”
Até mesmo o imperativo categórico tem como base o egoísmo e visa
estabelecer um egoísmo racional, que permita a convivência das pessoas em
sociedade. Esse tipo de premissa é imprescindível para a coexistência
humana; em um mundo onde o egocentrismo é lei, é preciso estabelecermos
limites que impeçam que o culto ao ego destrua tudo.
Almejando o aprimoramento das interações entre as pessoas e o
aprimoramento das sociedades, alguns seres egoístas ficaram incumbidos de
elaborar códigos de conduta, que aprimorassem a interação humana. Esses
legisladores obtiveram o poder de estabelecer normas sociais após se
mostrarem exímios indivíduos egocêntricos, após se mostrarem indivíduos
exemplares, que seguiram à risca as normas egoístas vigentes, o que lhes
permitiu avançar na hierarquia social, até o patamar de regentes das condutas
sociais.
Tendo como base essas almas diminutas, todos os indivíduos se veem
impelidos a agir de determinado modo. Dessa maneira um ciclo vicioso é
estabelecido; a alma de todas as pessoas será diminuta, irá almejar apenas o
benefício particular e não enxergará nada que não agrade ao ego.
Em meio a essa fórmula social simples, deparamo-nos, a todo o
momento, com os egocêntricos inconsequentes que, em sua sede insaciável
de promoção pessoal, desprezam tudo aquilo que é externo ao indivíduo. Esse
tipo de personalidade será reprimida, punida e excluída pelos demais
integrantes da sociedade. No extremo oposto, desses egoístas patológicos,
encontramos a constituição mais rara da psique, sendo ela a constituição
altruísta, que possui uma alma vasta e que não cultua o ego; esses indivíduos,
por não se enquadrarem nos parâmetros sociais, também serão desprezados e
excluídos pelos demais integrantes da sociedade.

154

Para esses indivíduos de constituição rara, os códigos morais são
inúteis. Eles, por si só, repousam no solo da virtude; suas ações são sempre
virtuosas e almejam sempre a melhor condição para o todo. Além disso, por
serem destituídos de ego, não possuem mecanismos de proteção e
deslocamentos, o que lhes permitem enxergar um mundo mais real e mais
amplo do que aquele com o qual se deparam os indivíduos egocêntricos.
Após descrevermos como se porta uma personalidade rara, podemos
perceber o quanto as ações “benevolentes” dos seres egoístas são insossas e
visam apenas o bem próprio. Essa característica é gritante à percepção das
pessoas e não foge da percepção do próprio executor das ações; para eles a
seguinte afirmação sempre lhes será evidente: “De bom grado sirvo aos
amigos, mas infelizmente o faço com inclinação, e então, amiúde, corrói-me o
interior, visto que não sou virtuoso.”

155

"O meu maior medo é que os outros me vejam como eu os vejo."
Athur Rimbaud

156

Não confie em ninguém
A empresa Oleto se preparava para um momento crucial de sua breve
existência. A sociedade limitada, que foi fundada há 7 anos e era especializada
em processos de automação inovadores — sendo a logística ousada, que
integrava vários setores da empresa, o principal diferencial. Mesmo com essa
vantagem comercial gritante, que reduzia em larga escala o tempo de
realização dos serviços, a empresa vivenciava um momento tenebroso.
A ampliação de um dos setores, durante um momento econômico de
recessão prolongada, havia reduzido drasticamente o caixa; atrelado a essa
redução exagerada, a companhia não conseguia atrair novos clientes, novos
projetos, fazendo com que os fluxos de caixa se tornassem cada vez menores,
obrigando os dirigentes a realizarem massivos cortes de gastos, que incluíram
demissões, reduções de cargas horárias, racionamentos e reengenharia de
processos.
Mesmo com a redução dos gastos, a empresa não conseguiria se
manter viva por muito tempo. A única esperança consistia na entrada de um
grande serviço, que estava sendo orçado e exigia muito esforço por parte da
reduzida equipe da Oleto.
O possível cliente, que era uma multinacional de destaque, deixava clara
a realização de múltiplos orçamentos, com diferentes empresas. Esse fator
aumentava, por si só, o nível de exigência requerido aos funcionários.
Entretanto, para agravar ainda mais o estresse que a situação gerava, o
possível cliente exigia a realização de tarefas e apresentações periódicas,
sendo elas as principais responsáveis por determinar quem iria produzir o
serviço grandioso.
Os setores de programação e hardware se preparavam para uma
apresentação conjunta, de extrema importância, que, de acordo com os
representantes da multinacional, seria a etapa decisiva em se tratando da
escolha do fornecedor.

157

O setor de programação possuía dois funcionários: 1 dirigente e 1
engenheiro elétrico; muitos dos trabalhadores do setor tinham sido demitidos,
todos sendo indicados pelo dirigente. Os primeiros dispensados do setor foram
aqueles que não compartilhavam das ideias do dirigente, de suas aflições e
ódios. O único funcionário remanescente era alguém que compartilhava das
crenças e pontos de vista do seu superior imediato. Os dois desprezavam o
dirigente do setor de hardware, sendo esse desprezo agravado em função da
possibilidade de promoção, para o cargo de diretor de processos, que estava
vago e poderia ser preenchido em um momento futuro, onde a situação
econômica fosse melhor.
Rodrigo, o dirigente do setor de programação, admitia a superioridade
hierárquica de seus dirigentes. Ele atribuía essa superioridade a oportunidades
de estudos, as quais ele não teve, fazendo com que ele se conformasse com
seu papel inferior; no entanto, ele constantemente se imaginava como
possuidor de oportunidades similares, o que fazia com que, em sua
imaginação, se tornasse superior a todos os dirigentes, fazendo com que
desprezasse, até certo ponto, as posições de seus superiores, que, em sua
mente, poderiam ser muito melhores. Apesar desse desprezo oculto, Rodrigo
era solicito e sempre procurava agradar aos chefes, fazendo uso de
expressões completamente artificiais que poderiam ser identificadas facilmente
através de uma observação um pouco mais aprofundada. Ele mantinha tais
relações com muita habilidade, sem que ninguém desconfiasse dos motivos
egoístas de suas ações, que visavam nada além do que a autopromoção, nada
além do que melhores oportunidades dentro da empresa. Essa constatação,
por mais simples que possa parecer, não era obtida por ninguém, o que
permitia a manutenção da estima dos dirigentes, em função de atitudes falsas e
calculadas. As pessoas nunca prestam atenção em nada!
A

subordinação

e

aceitação

de

inferioridade — com

muitos

deslocamentos, logicamente — de Rodrigo se restringia apenas aos dirigentes.
Em relação aos outros funcionários, ele não admitia se enxergar como sendo
inferior. A todo o momento em que isso ocorria, ele se sentia muito mal e
reduzido, fazendo com que se esforçasse ao máximo para desvalorizar aquilo

158

que lhe causava dor. De posse dessa característica intrínseca, ele era exímio
na tarefa de reduzir e desprezar os feitos alheios.

O trabalho excessivo, para a preparação da apresentação via
videoconferência, havia desgastado João, que sofria com problemas de saúde.
Essa debilidade inesperada fez com que ele tomasse uma medida drástica.
Ele chamou Rodrigo em particular e lhe pediu um favor:
“Oh, estou me sentindo muito mal. Você poderia me fazer um grande
favor?”
“Claro! É só falar. E, por sinal, gostei muito da sua camisa, a cor é muito
bonita, e os detalhes são harmoniosos, além disso, ela parece ser muito
confortável. Onde comprou?”
“Obrigado! Comprei em uma loja no shopping, depois te passo o nome
dela.”
“Ah, muito obrigado. Seria muita gentileza de sua parte. E me desculpe
pela interrupção, não pude evitar deixar de fazer tal observação de algo que
me agradou bastante. Por favor, continue com o que queria me falar.”
“Oh, claro... Eu pensei que poderia aguentar até a apresentação, mas
vejo que me enganei em pensar dessa forma. Sinto, nesse momento, que
preciso, urgentemente, ir ao médico. Tenho medo de que não consiga voltar a
tempo para a apresentação. Gostaria de informar a algum dos dirigentes sobre
essa situação, mas nenhum deles se encontra presente no momento. Tentei
até mesmo ligar para um deles, mas deu ocupado, acho que eles também
estão se preparando para a apresentação...”
“Você tem certeza que não consegue aguentar até a apresentação?
Você não me parece tão mal, e sei que é forte e pode aguentar até lá.”
“Bem que eu queria, mas é impossível, não estou me aguentando em
pé.”

159

“Isso é uma pena! Em relação aos dirigentes, fui informado que eles
estão em uma reunião particular, elaborando algumas estratégias para
conseguirem, na videoconferência de hoje, fechar o serviço. Acho que você
não deveria incomodá-los.”
“Entendo... Acho que você tem razão.”
Ele olhou receoso para Rodrigo, e, após um breve momento de
hesitação, disse:
“Meu amigo, eu realmente preciso ir ao médico. Se eu não voltar a
tempo, você poderia fazer a minha apresentação? Sei que é pedir demais, mas
a situação é urgente.”
“Não se preocupe, amigo. Farei isso por você. Antes, gostaria de saber
se preparou algumas referências impressas para a apresentação, Assim como
também gostaria de saber se sou o único a ser informado dessa sua partida
inesperada.”
A expressão maliciosa de Rodrigo era gritante, mas não pôde ser
percebida por João, que era incapaz de relacionar algumas características a
determinados pensamentos e possibilidades, o que fazia com que os aspectos
mais chamativos e perigosos permanecessem incógnitos.
“Oh, meu amigo. Muito obrigado, muito obrigado mesmo! Eu separei
algumas folhas que estão na minha mesa e deverão ser utilizadas como
referência para a apresentação. E sim, você é o único a ser informado sobre
isso; tentei aguentar até a apresentação, mas vejo agora que não consigo, e
que essa foi uma péssima ideia, que fez com que eu me desgastasse ainda
mais. Essa minha tentativa me deixou ainda pior, fazendo com que eu não mais
seja capaz de aguentar nada, estou muito mal, preciso urgentemente ir ao
médico. Você poderia avisar aos dirigentes sobre isso? Você acha que pode
realizar a minha apresentação? Ela é de suma importância para o...”
Rodrigo o interrompeu e disse com convicção:
“Pode deixar comigo, João. Conheço o suficiente sobre o seu setor para
ser capaz de realizar a apresentação. Além disso, trabalhamos muito tempo,
160

conjuntamente, em nossas apresentações, aspecto esse que me permite
apresentar o seu trabalho, assim como lhe permitiria apresentar o meu.”
“Isso é verdade.”
Respondeu João, mais aliviado.
“Agora que já resolvemos esse assunto importante, acho que você
deveria ir, imediatamente, ao médico. Sinto muito em dizer isso, mas,
realmente, você parece estar muito mal. Pode deixar que avisarei a todos
sobre sua ausência”
“Você tem razão, Rodrigo. Nem ao menos consigo me aguentar de pé.
Vou imediatamente ao médico, até mais. E, mais uma vez, muito obrigado.”
João saiu apressado, enquanto Rodrigo permanecia imóvel, absorto em
pensamentos intermináveis. Aquilo que se desenhava à sua frente parecia ser
a situação ideal, com a qual ele sempre sonhara. Em sua mente, ele se
deparava com a oportunidade ideal para desmoralizar João e torna-lo um
personagem secundário na disputa pelo cargo de diretor de processos.
Ele já havia imaginado todos os aspectos que o beneficiariam. Ele iria
fingir-se surpreso, assim como todos os presentes na apresentação, com a
ausência de João. Ao mesmo tempo, ele planejava tentar realizar a
apresentação alheia, com isso mostrando comprometimento para com o
projeto, característica essa que ele iria se esforçar para mostrar que o outro
dirigente, que se ausentou, não possuía.
O plano inescrupuloso deveria ser muito bem executado, pois qualquer
falha poderia fazer com que tudo aquilo se voltasse contra ele.
Mesmo com uma grande possibilidade de erro, Rodrigo se sentiu
confiante, e encarava aquela situação como sendo a oportunidade perfeita, e
única, podendo até mesmo resultar na demissão de João. A época tenebrosa
pela qual passava a empresa não descartava tal possibilidade. Em sua mente
uma linha de pensamento o encantava: “Muitos funcionários foram demitidos
sem nenhuma falta grave, imagine o que ocorrerá, nesse momento delicado
pelo qual passamos, com um funcionário que comete uma falta grave, ainda
161

mais relacionada com o projeto mais importante da existência dessa empresa.
Com certeza ele será demitido e eu não mais terei concorrentes para a posição
de diretor de processos”.
Esses pensamentos percorriam, incessantemente, a sua mente.

Naquela noite, durante a videoconferência, Rodrigo apresentou sua
parte do projeto e tentou apresentar a parte de João, sempre salientando a
falta de respeito do colega em não o avisar sobre sua ausência. A todo o
momento ele salientava o fato, fazendo com que os dirigentes, que estavam
presentes na apresentação, se sentissem ainda mais inconformados com
aquela ausência inesperada.
Os representantes da multinacional se sentiram incomodados com a
ausência, considerando-a como uma falta de comprometimento imperdoável,
que colocava em dúvida a capacidade da Oleto em cumprir as tarefas que
deveria executar para a realização do grandioso serviço, sendo essas
suspeitas suficientes para abalar a confiança e, consequentemente, a
possibilidade de realização de negócios.
Essa característica fez com que a ausência de João fosse agravada ainda
mais.
Ao mesmo tempo que a Oleto perdia sua principal chance de salvação,
Rodrigo se esforçava para deteriorar, ainda mais, a imagem do colega, que,
após retornar à empresa depois de alguns dias internado com pneumonia, se
tornou absurdamente abjeta.
Mesmo com suas tentativas esforçadas de defesa, a mentalidade dos
dirigentes já estava decidida. Em função daquilo que consideravam ser uma
ausência sem aviso prévio, sem qualquer tipo de comunicação a quem quer
que fosse, em um momento de extrema importância para a empresa, e que
comprometeu um projeto importante, João foi demitido e o seu setor foi
integrado ao setor de programação.

162

“Ando pelas ruas com um olhar imponente, e participo de cada nova
experiência com uma confiança inabalável. No entanto, longe das aparências
pormenorizadamente elaboradas e executadas, deparo-me com toda a
insegurança e com o medo; cada nova situação me aterroriza e torna evidente,
apenas para mim, uma inocência profunda, que nunca irei demonstrar, a
ninguém! A vida é uma farsa a ser levada por todos.”
Arthur Rimbaud

163

Nossas relações insinceras
É impressionante como grande parte daquilo que é dito pelas pessoas
simplesmente não possui relação nenhuma com sentimentos verdadeiros, com
sensações e impressões profundas. Cada sentença, cada expressão, é
previamente elaborada, tendo como intuito externar elogios que visam nada
além do que fazer com que o interlocutor simpatize com a pessoa com quem
está interagindo, dessa forma estimando e adquirindo uma concepção
satisfatória com relação àquele que vos fala, não importando que essa
valoração seja embasada em palavras insinceras e previamente calculadas.
“Muitos dos elogios mais polidos e eloquentes contêm um desprezo
profundo, apenas constatado quando observados com atenção.”
A falta de atenção faz com que deixemos de perceber um traço gritante
de inimizade, escondido em um elogio exagerado — sendo essa a
característica inerente às palavras superficiais e falsas. A avidez em se tornar
estimada e bem valorizada, faz com que as pessoas encontrem qualquer tipo
de característica que lhes possa ser utilizada para elaborar um elogio, uma
palavra bela e encantadora, não sendo uma expressão real, que foi realmente
percebida ou realmente sentida, esse tipo de sentença é desenvolvida apenas
nas profundezas da mente, onde tudo é exagerado e onde os pensamentos
muitas vezes contêm aspectos que não se aproximam da realidade. Uma
singela característica pode ser responsável por estimular os elogios mais
incrivelmente exagerados e completamente inverossímeis.
Para uma pessoa atenta, tais expressões sempre parecerão insossas,
inúteis adquirindo características completamente opostas do que aquelas
desejadas por quem tenta, falsamente, agradar. A insinceridade e as
expressões irreais fazem com que as pessoas mais sensíveis se sintam
incomodadas. Deparados com expressões dúbias, que possuem elementos
escondidos e silenciosos, que gritam aos ouvidos mais sensitivos, as pessoas
observadoras desenvolvam suas impressões deploráveis, com relação aos
discursos falsos, somente de forma imaginária, analisando características

164

incógnitas apenas nas profundezas de suas mentes, desse modo adquirindo
um nojo profundo, um desprezo paralisante, para com pessoas que agem de
tal maneira.
Entretanto, mesmo deparados com toda a inverdade dos elogios
superficiais, muitas pessoas ignoram qualquer tipo de interpretação que torne
inválida tais expressões, ou que ignore e despreze a opinião falsa das pessoas;
a necessidade de alimentar o ego, de aumentar a autoestima, faz com que tais
discursos, por mais que sejam irreais e cheios de impressões ocultas, tornemse estimados por quase todas as pessoas.
A necessidade descontrolada de se sentirem satisfeitos faz com que os
indivíduos se tornem cegos, que se atêm e valorizam os discursos mais falsos,
egoístas e irreais, que estimam os comentários mais superficiais e incoerentes,
que idolatram as pessoas mais ridículas, egoístas e toscas, desse modo
tornando as palavras de tais seres deploráveis em lei, em expressões que
devem servir como referência de boa educação, que serão definidas como
parâmetros para determinar o quão boa e sensível uma pessoa é.
Distantes dessas valorizações descabidas e incoerentes, as pessoas
sinceras, que falam apenas aquilo que realmente sentem e pensam, são,
muitas vezes, desprezadas por não se adequarem aos parâmetros incoerentes
que determinam o quanto alguém é espirituoso e bom. Suas expressões reais,
que possuem relação direta com verdadeiros sentimentos e sensações, muitas
vezes são desvalorizadas por não possuírem o exagero irreal que as
expressões falsas, que o senso comum define como sendo reais e profundas,
devem possuir.
Nesse contexto onde os valores são completamente equivocados, os
elogios verdadeiros são desprezados, enquanto os falsos são valorizados; as
pessoas realmente boas são desvalorizadas, enquanto as ruins são estimadas;
a verdade e a sinceridade se tornam absurdas e incoerentes, enquanto a
falsidade se torna lei.

165

A aparência que não agrada de verdade
No mundo atual, todos os conceitos, suposições e objetivos estão
situados em uma realidade aparente, que nos parece superficial. Os
sentimentos e sensações genuínas foram extintos, a verdadeira essência da
vida há muito foi abandonada, e vivemos em um mundo em suspenso, que
interpreta e determina, as coisas à nossa volta, de maneira limitada. Em nosso
habitat prático e superficial, a aparência passou a ser muito mais importante do
que o conteúdo.
Permeados por esse ambiente limitado, vamos, desde cedo, aprendendo
a interpretar aquilo que percebemos. A maneira de falar, a forma de se vestir,
os hobbies, o jeito de andar, as reações, etc.; tudo é utilizado como base para
que determinemos a imagem que formaremos da pessoa à nossa frente. A
imagem que formamos irá direcionar e determinar nossa interação com as
pessoas que encontramos durante a vida.
Esse nosso estilo grosseiro de construção conceitual é extremamente
capcioso e limitado; nele, um gesto mal interpretado, uma atitude mal
explicada, podem ser os responsáveis por uma interpretação completamente
errônea. Desde muito já diziam: “Julgar uma pessoa é interpretá-la errado,
interpretá-la errado, interpretá-la errado, fazer uma pequena reconsideração e,
em seguida, interpretá-la errado novamente. ” Nós, longe de nos abstermos
dos erros conceituais, constantemente julgamos errado.
Mesmo que estejamos cientes da carência de nossas interpretações, o
que podemos nós fazer? A sociedade é estruturada dessa forma e precisamos
nos adequar a ela para sobreviver. A nossa cultura do consumo e da aparência
nos deixa, a todo o momento, frustrados. Às vezes, a frustração se acumula em
nós e parece gerar uma força que almeja a alteração daquilo que nos oprime;
infelizmente, por causa de nossas reações pré-estabelecidas, gastamos essa
energia, durante a noite, em diversões que não divertem nada. A velocidade
alucinante da vida na sociedade também é um empecilho, ela não nos permite
tentar entender alguém a fundo, não nos permite tentar estabelecer uma
166

imagem que seja mais condizente às pessoas com as quais interagimos; para
conseguirmos executar as tarefas às quais somos designados, é preciso que
sejamos resilientes e que ignoremos qualquer sentimento, qualquer situação
que nos convide a uma reflexão mais profunda e demorada. Por fim, em nosso
mundo supérfluo, somos incentivados a não confiar em ninguém, a duvidar e
desconfiar de tudo e de todos; essa característica social cria um ambiente onde
todos vivem encerrados dentro de si, onde, em uma cidade superpopulosa, por
exemplo, todos vivem isolados.
É preciso que moldemos a nossa percepção, para que possamos nos
adequar ao nosso habitat, mesmo ele sendo completamente antinatural.
Algumas pessoas raras, mesmo se adaptando às regras sociais, ainda nutrem
as verdadeiras características humanas e a esperança de encontrar uma
personalidade semelhante, que seja mais grandiosa do que os nossos
conceitos vigentes fúteis. Sabemos o quanto o corpo do nosso espírito não
transmite as nossas verdadeiras ideias, intuições e planos, e, constantemente,
procuramos alguém com quem possamos estabelecer uma relação profunda e
verdadeira; constantemente procuramos por aquilo que, para além das
aparências, realmente alimenta a nossa existência.

167

A concepção cotidiana sobre o amor

É importante que eu ressalte o quanto o amor é raro, assim como é
importante a necessidade de que se explique o quanto as pessoas confundem
e cometem erros grotescos quando expressam suas opiniões sobre esse
assunto complexo. Muitas delas confundem meras ilusões egoístas com amor.
Ambas as classificações não se encontram muitos distantes, quando
comparadas, mas elas possuem características que são muito diferentes,
assim, permitindo que uma melhor classificação sobre tais possibilidades possa
ser construída.
Quando nos propomos a investigação de um assunto, percebemos o
quanto aquilo que analisamos é profundamente complexo, exigindo um
mergulho sem fim, que acaba por nos revelar o quanto cometíamos equívocos
em

relação

àquilo

que

acreditávamos

compreender.

Nesses

casos,

descobrimos que utilizamos a mesma palavra para designar sensações
completamente diferentes, descobrimos o quanto um mero fato possui relações
extensas e complicadas, percebemos o quanto confundíamos alguns
acontecimentos,

tendo

interpretações

equivocadas

sobre

eles,

tendo

impressões equivocadas sobre eles, e assim por diante.
Para fugirmos desses erros comuns, é preciso que façamos uma análise
mais meticulosa e profunda, tendo como objetivo a melhor estruturação daquilo
que analisamos.
Primeiramente, são pouquíssimas as pessoas que possuem a
capacidade de amar, são poucos aqueles que venceram o egoísmo primitivo,
que impede a valorização de algo além do próprio indivíduo, que impede a
estruturação mais virtual da alma, que impede uma construção de ama que
envolva parâmetros que estão além do próprio indivíduo.
Sem possuírem a característica mais importante para que possa existir o
amor e para que esse revele o funcionamento da mente, essas pessoas
atribuem explanações absurdas para suas experiências. Para elas, amar se
trata da interação com alguém que transforme seu espírito, alguém que
168

simplesmente as façam se sentir melhores, mais satisfeitas, sem que essa
interação cause qualquer tipo de interação mais profunda, mais elementar e
impactante. Nessa concepção, o amor não passaria de um aumento de
potência, alcançado em função de um ideal que direciona com precisão a
mentalidade.
Para essas pessoas, possuidoras de uma alma estreita e centrada
apenas nelas mesmas e em seus ideais, todos os sentimentos para com
outrem não passam de condutas egoístas, que visam nada além do que o
benefício próprio; por fim, tais pessoas nem realmente conhecem o objeto que
dizem amar, para elas, esses objetos não passam de construções capciosas e
muito cegas, que existem estritamente em suas mentes e não possuem muita
relação com a realidade. Dessa forma, cada atitude tem como intenção fazer
com que aquele que proporciona satisfação apenas continue proporcionando
isso, sem que a atitude vise, prioritariamente, o bem-estar e a satisfação do
outro.
E é essa concepção absurda e limitada que vejo sendo considerada
amor.

169

“E naquele momento percebi que não conhecia aquela pessoa de forma
abrangente. Aquele gesto seu tornou evidente um conteúdo raro, que muito me
encantou, mas que parece estar muito bem escondido, ocultado por várias
máscaras, que apenas agora não foram capazes de resguardar tanta beleza.”
Autor desconhecido

170

Você não fica animado quando descobre uma coisa rara?
Os dias passam de uma forma tão banal, tão entediante. Nas ruas
encontramos apenas as mesmas expressões nos rostos das pessoas, as
mesmas atitudes e reações, fazendo com que todos se pareçam robôs
previamente programados, que são incapazes de determinarem o que quer que
seja por si próprios; a mesma polidez insossa, que esconde o desprezo mais
intenso; a mesma mediocridade de sempre, que não se cansa de enxergar
apenas aspectos negativos em todas as coisas.
Quando o marasmo começa a entorpecer nosso corpo, fazendo com que
nos sintamos sufocados e desiludidos, acabamos por criar uma imagem
daquilo que irá nos agradar, que irá iluminar os nossos dias, que irá
proporcionar características satisfatórias para tudo o que encontramos, e que
tanto nos incomoda.
Nutridos por nossas ilusões, vamos, a princípio, nos sentindo novamente
satisfeitos; nossas imagens ideais de mundo, criadas com tanta convicção pela
nossa mente, alteram a antiga realidade, que tanto nos incomodava,
formulando novos aspectos e interpretações para as coisas à nossa volta.
Entretanto, a constatação da discrepância entre nosso ideal e a nossa
realidade faz com que comecemos a nos sentir cada vez mais frustrados com o
nosso cotidiano. Nesse ponto, percebemos o quanto nosso ideal se tornou
nocivo e nos esforçamos para alterá-lo, reduzi-lo, e torna-lo mais compatível
com a realidade, mais realizável, e, desse modo, menos discrepante e
opressor.
E é em meio à banalidade, e a reestruturação de ideais, que vamos
vivendo; até que alguma coisa perece deixar de seguir o caminho habitual,
ausentando-se graciosamente do marasmo comum e nos apresentando
aspectos inusitados e raros. A beleza das impressões raras sempre nos deixa
fascinados, a princípio; cada movimento espontâneo, daquilo que nos aparenta
ser tão incomum, tão puro, tão superior, cada reação inusitada e graciosa,
deixa uma sensação da satisfação mais profunda e sincera.

171

Tendo em vista esse novo arranjo, nosso corpo parece ser abastecido
por um fluxo agradável, que nos deixa entusiasmados, esperançosos e
animados com todos os aspectos da vida, que se transmutam por completo
durante essas descobertas raras, e se tornam plenos em todos os sentidos e
nuances.
Os momentos que nos fascinam são raros, por isso é preciso que
estejamos sempre atentos, sempre despertos, para sermos capazes de
enxergar as possibilidades mais belas e raras, para que possamos encontrar
as almas mais lindas e inimitáveis, antes que essas desapareçam do nosso
alcance, sem nunca nos mostrarem suas qualidades exóticas e evoluídas.
Longe daquilo que nos encanta, os minutos parecem se tornar horas, e
as horas dias. A necessidade de estarmos perto daquilo que nos fascina é
intrínseca. Desejamos observar cada ação, cada reação daquilo que se tornou
incrivelmente agradável para nós. Desejamos conversar, o tempo inteiro, com
nosso amigo inimitável, falando sobre tudo, sobre todos, sobre os sentimentos
mais profundos e as experiências mais incomuns, como que repondo anos de
conversa com nosso confidente mais perfeito, que sempre permaneceu
escondido, distante, existindo apenas nas profundezas da mente, até se tornar
real, palpável.
A satisfação mais confortante, as impressões mais empolgantes. Ah,
como é bom descobrir uma coisa rara!

172

“Nada nunca acontece, então não se preocupe. É tudo como um sonho.
Tudo é êxtase, no interior. Nós só não sabemos disso por causa de nossas
mentes pensantes. Mas em nossa verdadeira essência da mente sabemos que
tudo está certo lá dentro. Escute o silêncio que está por trás da ilusão do
mundo, e você se lembrará da lição que esqueceu, e que foi ensinada na
imensa e suave nuvem da Via Láctea inumeráveis mundos atrás e nunca mais
depois disso. Tudo é só uma coisa desperta. Eu a chamo de eternidade
dourada. É perfeita.”
Jack Kerouac

O amor reinventado
Através das observações anteriores, contidas nesse livro, podemos
definir o ser humano atual como dotado de um narcisismo exacerbado,
contendo um tipo intenso de egoísmo, que beira a patologia; também podemos
definir que a base do intelecto (o espírito) é constituída pela definição e relação
entre tudo aquilo que sentimos e percebemos — sendo esses conteúdos
muitas vezes ocultos para nós, residindo em nossas mentes sem que
tenhamos uma percepção consciente deles —, e que serve como meta para
que a psique estruture todos os seus desejos e objetivos, fazendo com que os
173

seres humanos se sintam satisfeitos quando se aproximam ou até mesmo
conseguem atingir essa condição de ligação pura entre as coisas; é o nosso
desejo mais profundo, o retorno ao estado inorgânico. Por causa da nossa
constituição física, essa plenitude se torna praticamente inalcançável, cabendo
à psique se deparar com a tensão entre o espírito e a alma, que é transformada
em uma necessidade ilimitada de expansão do indivíduo, onde o organismo,
mesmo com as suas limitações físicas, procura potencializar-se ao máximo,
assim se aproximando dessa plenitude que reina inalcançável nas profundezas
do intelecto.
Tomando como base a vontade de potência, como relação entre o
espírito e o indivíduo, podemos classificar todas as ações dos seres vivos
como sendo condizentes ao retorno ao estado inorgânico. Dentre todas as
características ligadas à vontade de potência, podemos classificar a
sexualidade como sendo a ramificação mais próxima, a mais mecânica e a que
mais satisfaz a vontade de potência; com a sexualidade, toda a náusea
existencial é eliminada através da projeção de um redentor da vida, um filho,
que irá suprir todas as carências e frustrações que se dão na relação entre o
indivíduo limitado e o espírito pleno, interação essa que não é capaz de se
aproximar da condição de contato com o todo que é a base da psique.
A sexualidade está arraigada nos seres vivos, isso é evidente. Freud
define que a base da psique é a libido sexual, e com isso é capaz de curar
muitos pacientes. O papel da sexualidade na vida dos seres vivos é inegável,
mas ela não é a base da psique, é apenas a ramificação mais próxima à
obtenção daquilo que almejamos profundamente, inconscientemente.
O ato sexual passa a ser encarado como o ato primordial, que supre a
vontade exacerbada de potência; na nossa cultura atual de mundo, o ato
sexual adquiriu proporções gigantescas, sendo associado ao conhecimento e a
interação mais intensa e abrangente que uma pessoa pode ter com outra;
também é associado à obtenção das características alheias, que tanto nos
atraem no objeto, analogia essa que nos lembra de algo como que um
canibalismo primitivo, onde se comia a carne de seres corajosos e distintos no
intuito de que isso iria fornecer as características alheias que eram admiradas.

174

Não podemos negar que a reprodução é a supressão mais potente da vontade
de potência nos animais irracionais, que dotados de um narcisismo exacerbado
não são capazes de se aproximarem daquilo que realmente almeja o espírito,
transferindo toda a sua expectativa e vontade para a procriação.
Uma mente mais sensitiva é capaz de notar a relação do instinto sexual
com o ser; nesse tipo de mente, os sentidos são mais apurados, permitindo ao
indivíduo identificar aquilo que se aproxima da verdadeira proporção das coisas
e dos acontecimentos. Nesse caso, o ato sexual passa a ser encarado como
secundário, e o indivíduo consegue identificar a maneira de suprimir esse
impulso profundo, sendo o caminho do amor e o do conhecimento os dois
caminhos possíveis para a verdadeira supressão dessa vontade profunda.
Essas duas possibilidades de reencontro com o estado inorgânico
(espírito), só podem ser identificados e almejados por seres que, de algum
modo, não mais possuem um narcisismo exacerbado; essas pessoas se
enxergam como sendo parte do todo, e não como sendo o todo. Essa
característica em particular irá criar uma instância primordial na psique do
indivíduo evoluído, caracterizada como possuidora de uma capacidade de
reflexão abrangente, que envolve muitos parâmetros, tanto externos como
internos.
O indivíduo que se enxerga como sendo parte do todo, analisa sua
própria existência, relacionando-a ao mundo, às coisas. Esse indivíduo
realmente se tornou dual, ele se enxerga como indivíduo, mas ao mesmo
tempo interpreta o todo de forma imparcial e ausente de si mesmo. A todo o
momento esse indivíduo reflete e analisa o Eu e a sua influência no todo.
Tomando como base essa característica do indivíduo reflexivo — que
não mais se enxerga como sendo o todo —, podemos identificar a primeira
forma de supressão dessa nossa vontade intrínseca. Essa forma inicial de
plenitude existencial é o amor, sendo essa uma maneira muito mais simples de
retorno à interação com todas as coisas, quando comparada com a redenção
do espírito através do conhecimento.

175

O indivíduo capaz de amar, possui características únicas, que o
permitem experimentar sensações incomuns, pertencentes apenas àqueles
possuidores desses atributos. Aquele capaz de amar, capaz de sentir o nirvana
através da desconstrução de um ideal, possuirá, no amor, um ideal forte, que
direciona sua existência; esse direcionamento irá tornar a vida mais potente, irá
eliminar as incertezas, afugentará a náusea existencial e as sensações
inquietantes e dolorosas com relações a muitas coisas, como, por exemplo, a
morte e outra situações traumatizantes, assim como a influência do indivíduo
sobre o todo; isso ocorre porque o indivíduo foi cegado por um ideal potente,
que afugenta impressões e associações dolorosas, fazendo com que ele não
enxergue nada além do que o objeto idealizado. Diferentemente de uma
pessoa egoísta, incapaz de estruturar uma alma que não seja focada em si
mesma, esse indivíduo é capaz de abranger aspectos exteriores a si mesmo,
podendo, em sua mente, estruturar uma alma que envolva, englobe,
parâmetros externos, o que o permite agir de forma intensa e despretensiosa
em função de um objeto externo, fazendo com que, aos olhos de um
observador externo, ele pareça abandonar qualquer benefício próprio em prol
de uma causa, ou de alguém, etc.; nesse caso, tendo em vista a obtenção de
seu ideal, tendo em vista a obtenção daquilo que ele deseja acima de tudo, o
indivíduo não mede esforços para a obtenção daquilo que lhe promete muito,
em seus devaneios mais inconscientes. Essa proximidade da satisfação plena,
faz com que a pessoa aja intensamente, inconsequentemente, atitude essa que
causa medo, estresse e dor, fazendo com que o intelecto tente evitar, a todo
custo, tais sensações, amenizando e diminuindo a força das impressões. O
amante, possuidor de um ideal, passa a se sentir mais potente, possuidor de
uma definição precisa, o que faz com que aproxime sua alma da dimensão do
espírito, aproximando o indivíduo da realização da necessidade mais profunda
do intelecto, desse modo fazendo com que ele se sinta mais satisfeito.
Ao mesmo tempo que a pessoa se sente mais satisfeita, as sensações
intensas, causadas pelo ideal, sendo elas tanto de satisfação quanto de
insatisfação, fazem com que a mente abandone aquilo que poderíamos chamar
de um estado econômico. Nessa condição, os sentimentos surgem de forma
intensa, percorrendo nossa mente incessantemente; o ideal, que ao mesmo

176

tempo direciona nossas vidas e torna a existência suportável, faz com que nos
deparemos com uma condição absurdamente instável, onde nos deparamos,
constantemente, com a possibilidade da satisfação mais sublime e da
destruição mais desesperadora e insuportável, aspecto esse que irá nos
incomodar mais do que qualquer coisa, fazendo com que o indivíduo passe a
desejar a destruição de tal ideal, para que ele possa voltar possuir uma vida
sem sobressaltos, sem desespero e dor, sem a possibilidade de satisfação
sublime. A determinação de um objeto que amamos, do nosso ideal, é
totalmente relativa e aleatória, possuindo um conjunto de fatores que
determinam aquilo que valorizamos em demasia, estando eles situados em
nosso inconsciente, sem que possamos identifica-los, sem que possamos
entender a forma como são estruturados. Não existe algo como duas almas
premeditadas a estarem juntas, tudo é questão de momento e de ser aquilo
que o outro sente absoluta necessidade de ser, que o outro valoriza, sendo
essa valorização, muitas vezes, totalmente inconsciente.
Essa valorização profunda, é a função que melhor direciona a alma, que
melhor afugenta as incertezas e que mais aumenta a potência do indivíduo,
fazendo com que sua alma se aproxime da dimensão do espírito; é uma
idealização do Eu, que a mente interpreta como a melhor maneira de ser no
mundo, a maneira mais evoluída de existir, a maneira mais potente e melhor
condizente com o todo. Esse ideal do Eu é particular, extremamente relativo,
sendo ele diferente, quando comparado entre as pessoas. Aquilo que define a
maneira como será determinado o ideal do Eu caracteriza-se como uma
interação abrangente entre os mais variados parâmetros, ensinamentos e
experiências, ao longo da vida; tornando-se muito complexa a tarefa de definir
o que determina as características desse ideal, ele se torna uma instância
psíquica praticamente impossível de ser investigada, cabendo a nós apenas
uma suposição hipotética sobre esse ideal, instaurando que sua origem derive
de nossas vivências, qualidades e carências, sendo que cada pessoa possuirá
um ideal particular e totalmente diferente quando comparado com o ideal de
outra pessoa.
Quando identificamos outrem como sendo detentor de todas as
características que definimos como sendo o ideal do Eu, passamos a valorizar
177

essa pessoa de maneira exacerbada, almejando obter as características que
ela possui, e, em alguns casos, nos transferindo por completo para o objeto,
encarando-nos como sendo ele. Identificamos a influência do objeto no todo
como sendo mais importante que a nossa, fazendo com que valorizemos essa
pessoa mais do que a nós mesmos. Deparados com esse fato, colocamo-nos
para além do indivíduo, fazendo com que estabeleçamos uma concepção
exata, que elimina as concepções concorrentes entre si, que tanto nos
incomodam e fazem com que percamos a nossa potência e nos sintamos
confusos e desesperados.
O amor não é eterno, ele acaba. Sartre afirma que a condição primordial
para o amor é o isolamentos dos indivíduos apaixonados, onde a
supervalorização está alheia a uma observação externa que é capaz de
desiludir e reverter uma possível interpretação exagerada, feita pelos amantes.
Os resultados do fim do relacionamento de supervalorização são os mais
variados; alguns que eu consigo identificar são:
— O ideal mal explorado: Nesse caso, o objeto não foi explorado de
maneira racional pelo indivíduo, fazendo com o objeto seja desenvolvido quase
que completamente por associações inconscientes, causando as sensações
mais intensas quando identificamos, no mundo externo, alguma característica
que nos lembre do objeto que, por não ser desenvolvido racionalmente, ficará
para sempre em nossa mente, nos influenciando. Essa interpretação
exagerada, digna do inconsciente, faz com que mantenhamos expectativas
exageradas em relação ao objeto; ele é interpretado como uma lembrança que
promete retornos exageradamente satisfatórios, fazendo com que, quando nos
deparamos com algo que incite essa lembrança, nos sintamos absurdamente
emocionados, como se estivéssemos de frente com o redentor do espírito.

— O ideal que chega naturalmente ao fim: Nesse caso, o objeto foi
explorado em todas as suas possibilidades, fazendo com que o indivíduo
almeje algo novo. Essa desvalorização do objeto pode ocorrer por causa de
uma alteração de parâmetros no próprio indivíduo, ou por causa da descoberta
de que os parâmetros imaginados eram irreais.
178

— O amor melancólico: Nesse caso, o indivíduo percebe um defeito no
objeto, que pare ele é inadmissível. Ao invés de simplesmente desvalorizar o
objeto, ele, que se enxerga como sendo o objeto, irá interpretar essa
característica alheia como sendo sua, fazendo com que ele possa adquirir um
estado de má consciência.

Além do amor, existe outra maneira de alcançar a relação com o todo, e
esse modo alternativo ocorre através da destruição, executada pelo próprio
indivíduo, das fronteiras do Eu, que eu irei chamar de redenção da vida através
do conhecimento.
No amor, um agente externo faz com que o indivíduo possua uma
constituição exata e bem direcionada, fazendo com que os apaixonados se
sintam muito satisfeitos, como que diluídos no mundo, mais próximos de
alcançarem seu desejo mais profundo, desse modo eliminando os fatores
concorrentes que anteriormente confundiam e faziam com que o indivíduo se
sentisse impotente, fazendo com que o indivíduo encontre a satisfação de
maneira mais rápida, sendo essa plenitude instável, podendo desaparecer a
qualquer momento, dependendo da relação entre o indivíduo e o objeto. No
caso da redenção através do conhecimento, o indivíduo não necessita de um
objeto em específico para se sentir pleno; esse indivíduo já explorou sua
interação com o todo, e definiu parâmetros considerados por ele como sendo
construtivos e harmoniosos; ao mesmo tempo, ele, por si só, criou uma
concepção exata e bem direcionada das coisas e de suas sensações,
tornando-se um ser que proporcionou a plenitude do espírito por si só.
Essa segunda maneira de redenção da vida classifico como sendo
conhecimento, pois o indivíduo, para adequar seu Eu ao que ele considera
como sendo a essência da vida, passa por uma autoanálise abrangente, sendo
seguida por um treinamento exaustivo das características individuais, assim
como da sua capacidade de imaginação e direcionamento. Nessas condições,
o indivíduo não precisa de um objeto externo para se sentir pleno, ele próprio é

179

capaz de se autoinduzir essa plenitude, de criar, em sua mente, o objeto que
ele desejar, que ele bem entender.
Para além do instinto sexual, o amor e o conhecimento são duas
maneiras de se obter aquilo que é o nosso desejo mais profundo.

180

“Quais

são

as

características

que

valorizamos?

Por

que

nos

incomodamos com aquilo que os outros suscitam em nós? Que tipo de
pessoas permitimos que nos influencie?”
Autor desconhecido

181

Quem nos permitimos ser?
Para cada pessoa que conhecemos criamos um duplo em nossa mente,
nele estabelecemos a forma como enxergamos a pessoa com a qual
interagimos, criando, dessa maneira, um personagem relacionado a um ser
real. O duplo é caracterizado como personagem, pois ele não é real; nossa
percepção captura alguns momentos da pessoa que queremos entender, esses
poucos momentos são interpretados, tomando como base nossas próprias
concepções, e, como resultado, obtemos uma imagem que irá determinar
aquilo que outrem significa para nós, mas que, na melhor das hipóteses,
representa um milésimo daquilo que a pessoa observada realmente é.
Nesse contexto, de criações constantes de duplos, vamos sendo
influenciados por nossas próprias construções. Uma nova interpretação faz
com que nos alteremos, faz com que passemos a agir de modo diferente
perante um acontecimento que sempre nos influenciou de uma forma
específica, exata. Esses personagens são absurdamente influentes dentro de
nós; eles vão se desenvolvendo, ampliando, tomando o lugar de nossas
interpretações anteriormente estruturadas, até que nos transformam por
completo, fazendo com que nos assustemos, quando, após o desenvolvimento
do personagem, olhamos minuciosamente para nós mesmos e enxergamos um
indivíduo completamente diferente daquele com o qual estamos acostumados.
Felizmente, não é todo duplo que tem influência sobre nós, mas muito
pelo contrário, são raros os duplos que permitimos se desenvolverem por
completo, são raras as interpretações que deixamos que nos influenciem. Essa
nossa seleção rigorosa não é de todo boa; ela nos priva de enxergarmos a vida
sob os mais variados parâmetros e perspectivas, restringindo-nos a uma
pequena gama de possibilidades que nos permitimos desenvolver.
Tudo aquilo que não nos permitimos enxergar, elaborar, construir, é
reprimido, por nós, violentamente. Qualquer acontecimento que nos lembre de
um duplo que nos assusta — que não queremos para nós, e que, por causa
desse temor, não nos permitimos desenvolvê-lo — irá causar pavor, assim
182

como evidenciará uma necessidade incontrolável de nos afastarmos, ou, até
mesmo, eliminar aquilo que incita o aparecimento das características que
desprezamos, e que estão presentes dentro de nós. O preconceito exagerado
e despudorado é uma das atitudes extremas dessa nossa maneira de
defendermos aquilo que queremos ser. O maior desejo de uma pessoa
preconceituosa é o desaparecimento de tudo aquilo que incite o personagem
latente (que ele tanto despreza) presente dentro do indivíduo; a negação
violenta é, na realidade, um ato desesperado, um medo incontrolável perante
aquilo que se pode ser, mas que assusta.
No extremo oposto ao desprezo e ao preconceito, encontramos a
valorização absurda daquilo que incita um duplo que admiramos em demasia, e
que queremos para nós. É sob essa condição que determinamos as pessoas
que almejamos ter por perto, que desejamos que nos influenciem. Perante
essa construção que nos satisfaz, vamos eliminando nossos mecanismos de
proteção e, cada vez mais, permitimos que uma interpretação alternativa se
desenvolva dentro de nós, até que ela adquira proporções absurdas,
eliminando aquilo que costumávamos ser.
Referente a essa permissão e alteração profunda, que é rara, podemos
nos questionar: quem são as pessoas que permitimos nos influenciar? O que
enxergamos e o que valorizamos nelas? Essas perguntas complicadas são
imprescindíveis para entendermos aquilo que valorizamos, aquilo que
queremos ser, afinal — como dito no início do texto —, somos nós que
determinamos os nossos duplos, utilizando um indivíduo real apenas como
referência; aquilo que valorizamos nos personagens nada mais é do que aquilo
que desde sempre valorizamos e queremos ter para nós mesmos.

183

O amor e a mente
As coisas à nossa volta parecem ser inertes, irrelevantes, não
suscitando nada de especial, ou diferente, em nós. No entanto, às vezes nos
deparamos com algum elemento que ultrapassa a nossa indiferença e frieza
perante as coisas e parece nos atingir violentamente, adquirindo um poder
descomunal sobre nós. Esse objeto, que se torna um elemento de suma
importância, passa a influenciar diretamente o nosso estado de espírito, o
nosso humor. Cada vez que esse elemento se afasta, cada separação forçada,
faz-nos sentir uma tristeza profunda, uma redução da potência; assim como
cada aproximação do objeto é responsável por uma alegria reconfortante e
satisfatória, um aumento da potência.
Entretanto, o objeto que tanto estimamos apenas pode nos influenciar
quando se encontra à distância, quando permanece intocável e inverificável. A
partir

do

momento

em

que

conseguimos

entender

e

perscrutar

pormenorizadamente o objeto que tanto estimamos, esse simplesmente é
desconstruído, perde-se em meio a uma definição embasada em proporções
realistas, que refutam tudo aquilo que havíamos imaginado que aquele objeto
poderia nos proporcionar.
Após a nossa desilusão inicial, vamos percebendo o quanto nossa alma
apenas almeja desejar, ser direcionada a algo, sendo a obtenção dessa algo
um acontecimento aterrorizante, desesperador. Então, podemos nos considerar
como sendo perseguidores de ideais; para ser mais exato, podemos nos
considerar como ciclistas, que precisam estar em movimento, em direção a
algo, para que não paremos, atitude essa que muito provavelmente nos fará
perder o equilíbrio, nos fará cair.
Mas, mesmo com a nossa necessidade intrínseca de movimento, de
ideais, às vezes algumas pessoas obtêm um nível intelectual que não as
permitem se desvencilhar da dolorosa constatação de que a vida é totalmente
inútil, que nossos ideais são completamente absurdos e nunca nos levam a
nada. Nesses casos, de desconstrução intelectual profunda, a vida começa a
se assemelhar a um sonho, a um acontecimento distante e sem relação
conosco, onde nada mais tem a capacidade de se tornar um ideal, de nos
influenciar de forma intensa.

184

Incrivelmente

apáticos

e

desiludidos,

os

seres

intelectualmente

desenvolvidos passam a desprezar as suas atitudes e esforços, que para eles
passam a ser considerados como sendo desnecessários. A vida e todos os
seus aspectos passam a ser insuportáveis; o intelecto perde por completo a
possibilidade de elaborar objetivos inconscientes, cabendo apenas à analise
consciente do indivíduo a tarefa de elaborar e se posicionar perante as coisas;
essa característica, a princípio, incomoda sobre maneira, por não mais permitir
a construção de qualquer tipo de ideal, de meta, mesmo sendo essas
elaborações inconscientes e equivocadas. Cada novo acontecimento apenas
entristece, apenas incomoda. No auge do desespero, o ser racional quer, a
todo custo, fugir de si mesmo, por não mais se suportar, por não mais suportar
as condições que a vida lhe apresenta.
Esse aspecto raro e perigoso, é o responsável por causar a mais
sensível e profunda das mudanças, fazendo com que o indivíduo perca sua
capacidade primordial e primitiva de formular sua alma, e adquira uma
definição mais refinada e evoluída para os aspectos referentes à sua alma.
Após essa mudança drástica, o indivíduo se torna capaz de formular sua
alma tendo como base parâmetros que não possuem relação direta com o
próprio indivíduo e seu corpo. Dotada de uma elaboração que se tornou
completamente virtual e desprendida dos aspectos corporais, a alma não mais
consegue adotar parâmetros limitados, que tenham relação apenas com o
próprio indivíduo.
Esse ser racional e evoluído, que atingiu essas condições psíquicas,
torna-se capaz de amar, torna-se capaz de valorizar algo externo a ele de
forma muito mais intensa do que o modo como valoriza a si próprio.
A capacidade de amar desses seres raros faz com que eles obtenham
uma condição parcialmente exata da maneira como as coisas devem ser. Esse
cenário de admiração profunda por algo restringe as múltiplas possibilidades
que constantemente estão competindo para influenciar nossas ações, nosso
jeito de ser e de nos portarmos perante as coisas. Essa característica permite
que esses indivíduos se sintam completamente seguros de si e de suas ideias
e atitudes.
Durante essa paixão profunda dos seres evoluídos, a ausência de
múltiplas possibilidades torna as ações muito mais potentes, precisas; torna a
185

vida mais bem direcionada, mais precisa, mais fácil. A mente não mais se
depara com parâmetros múltiplos a serem desenvolvidos, analisados e
ponderados, aspecto esse que proporciona uma maior capacidade de
concentração e uma calma profunda à mente.
Entretanto, o ser de raciocínio evoluído acaba por desconstruir o objeto
que tanto o encantou, que lhe direcionou e que proporcionou tanta satisfação.
Ainda possuindo sua estrutura apaixonada e bem direcionada, o indivíduo raro
vai desconstruindo o objeto amado. Em sua mente bem direcionada e que não
mais possui parâmetros múltiplos e concorrentes, que incitam avaliações e
proposições imensuráveis, a desconstrução permite que o indivíduo se depare
com o nirvana, com a ausência da alma.
A sensação de êxtase absoluto, de satisfação absoluta, do fim da
vontade, da potência máxima, nunca dura muito tempo. A mente se propõe, de
imediato, nesses casos, a reconstruir a alma, a posicionar-se perante o
espírito.
O retorno dessa experiência rara é sempre transformador. Após
conhecer a necessidade mais profunda e primordial do intelecto, da nossa
existência, o indivíduo adquiri uma informação que irá fazer com que ele altere,
por completo, a forma de analisar e de se posicionar perante as coisas.

186

Muita imaginação = Grande problema
Em se tratando de imagem, de acordo com Sartre, podemos defini-la
como sendo uma representação; essa representação tem referência a objetos
externos, ou a elementos criados, e pode ser considerada como sendo o
conteúdo de nossas sensações sensoriais (percepção). Nesse contexto,
podemos considerar nossas imagens como sendo puramente virtuais, tendo
como conexão aos objetos materiais apenas perspectivas capciosas e muito
limitadas, que serão responsáveis por fornecer características facilmente
identificáveis, que, por assimilação, incitarão o surgimento das imagens que
tais parâmetros representam em nossas mentes.
Essa definição primordial da imagem possibilita o surgimento de duas
interpretações discrepantes, sendo a primeira mais materialista — relacionando
nossas imagens a sensações físicas, designando as imagens como sendo
derivadas de sensações (como, por exemplo, o surgimento de memórias
antigas através de excitamento de determinadas regiões do cérebro) — e a
segunda mais intelectual — relacionando nossas sensações a imagens, que
podem surgir espontaneamente em nossas mentes, incitando sensações e
ações (tive um pensamento triste; em meio ao cenário obscuro, que se formou
na minha mente, senti-me indisposto). Sartre, sendo ele um autor que muito
admiro, deixa clara sua preferência pela interpretação mais intelectual das
imagens, em detrimento de uma interpretação materialista.
Ao mesmo tempo em que explicitamos o caminho que foi escolhido por
Sartre, tomamos conhecimento da perspectiva conceitual de vazio que o
mesmo adota, sendo ela explicitada em algumas frases célebres: “Se
investigarmos todos os nossos conceitos profundamente, acabaremos por
percebê-los como sendo construídos sobre o nada.” “Nossos conceitos não
existem, desde sempre, dentro de nós, eles são formulados ao longo do
tempo.” Essa perspectiva faz com que encaremos a vida como sendo vazia,
sem significado ou conceitos pré-estabelecidos, cabendo a nós definirmos a
forma como interpretamos as coisas.

187

Essa perspectiva libertária, que deposita um enorme peso sobre as
pessoas, ao entregar-lhes a difícil tarefa de determinarem tudo à sua volta,
pode ser rapidamente contestada. Desde sempre, somos direcionados a
enxergar nossas sensações, coisas e acontecimentos de uma forma
sistematizada e em comum; essa imposição, de ordem social, direciona nossas
perspectivas, fornecendo elementos específicos de assimilação, que irão
representar imagens específicas.
Essas definições, do funcionamento da nossa mente, se restringem ao
nosso inconsciente, a uma localidade até certo ponto inacessível da nossa
mente. Desse modo, podemos dizer que nosso saber, nossos direcionamentos
e interpretações, foram construídos antes mesmo que pudéssemos analisa-los
conscientemente. A inserção da consciência, na estruturação do intelecto,
complica ainda mais as já complexas explicações; a consciência permanece
como sendo um mistério, no entanto, podemos arriscar uma definição;
podemos apresentar essa entidade como sendo um modelo, um esquema, que
de posse de conceitos — símbolos, palavras, modelos matemáticos — busca
determinar,

mensurar,

com

precisão,

nossas

imagens

profundas

e

inconscientes. Essa nossa tentativa de definição do inconsciente é, segundo
Sartre, sempre limitada, não avançando mais do que a simples definição de
algumas imagens, e, mesmo tais definições diminutas, não podem ser
consideradas como sendo absolutamente corretas, atributos esses que
evidenciam uma grande distância entre nossas estruturações conscientes e
nosso inconsciente. Ao mesmo tempo, podemos salientar a forma capciosa
como enxergamos as coisas, mesmo inconscientemente, aspecto esse que
evidencia a grande distância entre nosso saber profundo, nossos conceitos
inconscientes, e a realidade.
Essa dupla distância é suficiente para que não mais nos sintamos
satisfeitos com aquilo que pensamos conhecer, e nos impulsiona rumo a uma
jornada complexa, rumo a testes incansáveis, rumo à adoração da matemática
e da linguagem, que têm por intuito questionarem todas as nossas crenças e
conceitos, ao mesmo tempo que os testam através das mais variadas
experiências.

188

Logo no princípio, percebemos ser a reestruturação de nossos conceitos
uma tarefa muito difícil, capaz de pulverizar todas as nossas ilusões
entorpecedoras e fazer com que nos sintamos menores e mais impotentes do
que nunca, imagem essa que traz, sempre, o desespero mais insuportável.
Após essa sensação, a valorização de ilusões pode passar a ser
imprescindível, fazendo com que o antigo explorados destemido estrutures
todos os seus conceitos em função da manutenção de ideais que afugentam
uma dor profundamente desesperadora.
Esse acontecimento, capaz, por si só, de fazer com que muitos deixem
de se aventurar através de suas mentes e conceitos, é, em todo caso, raro e
pode ocorrer apenas em pessoas dotadas de uma consciência um tanto
desenvolvida.

Para ser mais preciso, é necessário salientarmos o quanto

nossos esquemas estão distantes, muitas vezes, dos nossos conceitos
profundos; essa característica se dá pelo fato de que nossas imagens são
vastas, englobando muitos elementos, que nossa consciência — vamos
chamar de imaginação — não é capaz de reproduzir com precisão. No entanto,
em algumas pessoas dotadas de uma capacidade intelectual ímpar, nesse
caso sendo ela uma imaginação muito potente, esses conceitos profundos
podem ser mensurados com precisão, podem ser “traduzidos” “trazidos à tona”,
vivenciados — como determinamos as coisas como sendo imagens em nossa
mente, definimos, dessa forma, uma característica virtual para os nossos
pensamentos, para aquilo que acreditamos ser a realidade, atributo esse que
torna aquilo que imaginamos ser, também, uma realidade, podendo essa
característica ser classificada como uma realidade induzida —, e aí, meu
amigo, só tenho uma coisa a dizer: Deu ruim!
Imagine você, com um ideal, que te motiva e te direciona através da
vida, fazendo com que possua uma perspectiva bem definida, que lhe fornece
impressões precisas, nada ambíguas ou múltiplas, somente precisas e diretas.
A perca de tal ideal assusta, mas a maioria das pessoas podem se sentir
tranquilas com relação a isso. Aquilo que pensamos ser a realidade não passa
de pensamentos; assim, a mentalidade comum não possui imaginação
suficiente para reproduzir com precisão tais ideais, para realmente vivenciá-los.
Como camundongos correndo em uma roda sem fim, essas pessoas
189

perseguem seus ideais, sem nunca serem capazes de vivenciá-los. Nas
pessoas cheias de imaginação, essa característica está ausente; a imaginação
delas constantemente lhes fornece seus ideais, apresenta a verdadeira
proporção dos ideais e os destrói, dilacera, constantemente o norte, fazendo
com que o indivíduo recorrentemente se depare com um mundo sem
ordenação pré-estabelecida, cheio de possibilidades. Essas construções e
demolições constantes fazem com que os seres cheios de imaginação sejam
possuidores de múltiplas perspectivas sobre as coisas e acontecimentos.
Nesse contexto, os acontecimentos poderão ser interpretados de
diferentes formas, simultaneamente. Imagine-se em meio a um acontecimento
que gera prazer, dor e indiferença, ao mesmo tempo; “É...Você está certo, deu
ruim!”
Em um mundo que passou a ter múltiplas possibilidades, cada escolha,
cada direcionamento, terá um sabor insuportável. Em nossas mentes, onde
tudo está sendo desenvolvido a todo o momento, sem que percebamos tais
desenvolvimentos, nossas impressões e possibilidades vão sendo definidas;
em um mundo imaginário inconsciente, distante da realidade e suas restrições,
adquirimos interpretações exageradas e impossíveis para

as nossas

impressões. Dessa forma, uma mente múltipla será sempre atormentada pela
realidade insossa de suas escolhas, que sempre estarão absolutamente
distantes das expectativas inconscientes.
Nesse contexto, em meio a um ininterrupto paradoxo da escolha,
qualquer decisão irá causar dor, atributo esse que transformará em lei a apatia.
Essas características, por mais banais que pareçam ser, estão presentes, a
princípio, de uma forma imperceptível, muito distantes de qualquer identificação
consciente. Ao mesmo tempo que a ausência de consciência sobre o problema
impede que o mesmo seja sanado, o indivíduo se vê constantemente
desesperado, perante interpretações discrepantes, que, por serem vastas e
variadas, muitas vezes ainda não adquiriram mecanismos de proteção, o que
faz com que algumas perspectivas sejam desenvolvidas, sem qualquer tipo de
interrupção. O aparecimento do cenário mais satisfatório ou o aparecimento do
cenário mais tenebroso, não importa, as duas possibilidades são simplesmente

190

exaustivas, desesperadoras. Só aqueles que convivem com tais extremos
sabem o quanto eles devem ser reduzidos pelo nosso intelecto, a qualquer
custo.
Tais reduções, presentes nas mentes mais saudáveis e bem
direcionadas, afugentam alegrias e dores extremas, fazendo com que o
indivíduo nunca vivencie tais sensações, que, por mais que sejam afugentadas,
podem surgir. Nessas mentes inexploradas, situações extremas nunca são
imaginadas, nem mesmo são desenvolvidas inconscientemente, sendo, desde
sempre, abandonadas, em uma debandada instantânea, ao menor princípio de
surgimento. Tal atributo, faz com que essas possibilidades contenham as
expectativas

mais

exageradamente

absurdas,

que

pela

falta

de

desenvolvimento, pela fuga constante, permanecem como possibilidades
atormentadoras. Essas pessoas podem, na vida real, se depararem com essas
possibilidades dolorosas e obscuras; sem terem desenvolvido possíveis
consequências e desenvolvimentos dessas situações, essas pessoas acabam
por encararem, despreparadas, impressões atormentadoras, que farão com
que o indivíduo se sinta desesperado e impossibilitado de agir coerentemente
nesses cenários.
Uma pessoa corajosa é aquela que se permite desenvolver as situações
mais amedrontadoras, que explora pormenorizadamente as possibilidades e
consequências nesses cenários; essa atividade dolorosa não é em vão, no
momento extremo, enquanto muitos estão amedrontados e paralisados, essas
pessoas previamente destemidas poderão continuar a agir friamente,
mantendo-se serenas em meio a ameaças extremas ou inabaláveis em meio a
execução de atrocidades.

191

“Por causa da minha sensibilidade exacerbada eu perdi a vida.”
Arthur Rimbaud

192

Sobre a sensibilidade
“Desde pequeno eu sabia que não era igual às pessoas com as quais
convivia; distante dos discursos vazios e dos olhares limitados, eu sentia
alguma merda acontecendo dentro de mim.” A expressão de Bukowski é
impactante e evidencia toda a sua discrepância, quando comparado às
pessoas ditas “normais”, que pode ser observada em todos os seus escritos.
Nesse contexto de constituições raras e inteligências muito acima da
média, temos registradas, felizmente, as percepções daqueles que são
considerados “anormais”, “esquisitos”. Ideias complexas e interpretações
inovadoras estão documentadas em obras de arte, que, por evidenciarem
conceitos que se aproximam da realidade ou, até mesmo, do ideal, se tornam
imortais. Os indivíduos sensíveis enxergam mais e melhor — isso é fato —;
entretanto, é preciso que questionemos o que permite a certas pessoas
enxergarem e sentirem mais, é preciso que desvendemos os motivos que
fazem com que esses indivíduos sejam considerados fenômenos incrivelmente
incomuns.
Primeiramente, a raridade dos seres sensíveis se dá por conta da
mentalidade que é preciso ser mantida para permitir a existência de uma
percepção abrangente e de insights inovadores. Dotados de uma constituição
sem ideais ou parâmetros pré-estabelecidos, os seres sensíveis se tornam
capazes de desenvolver as mais variadas interpretações para aquilo que
observam, que sentem; sem ideais ou objetivos, a percepção dos incomuns
não é restringida, não é direcionada, permitindo-lhes enxergar qualquer coisa,
possibilitando a construção de qualquer tipo de conceito.
A ausência de ideais os permitem enxergar demais, e esse enxergar
demais os tornam empatas, faz com que se desprezem e suprimam a
valorização do ego, de si próprio, perante a imensidão de possibilidades e a
presença de parâmetros muito mais relevantes do que si mesmos.

193

As múltiplas possibilidades que são desenvolvidas pelos seres
sensíveis, e a ausência do ego, faz com que eles se deparem com o fim dos
sentimentos. A infinidade de possibilidades é acompanhada da impossibilidade
desses seres se posicionarem, de forma exata, perante algum acontecimento.
Deparados com parâmetros e incertezas sem fim, eles se tornam indiferentes a
todas as possibilidades e absurdamente agoniados por causa dessa
característica; por serem sensíveis demais os seres incomuns se tornam
indiferentes, apáticos.
Perdidos nas profundezas da existência, alguns seres sensíveis nos
descreveram seus dias no inferno:
“Enquanto espero pelas minhas realizações covardes, escrevo para
vocês, que valorizam uma escrita com falta de descrição e gramática, mostro
algumas páginas do meu hediondo diário de uma alma condenada.”
“Farto de ver. A visão que se reencontra em toda parte.
Farto de ouvir. O ruído das cidades, à noite, e ao sol e sempre.
Farto de saber. As paradas da vida — Ó ruídos e visões!
Partir para afetos e rumores novos.”
“Sua sensibilidade misteriosa me seduziu. Esqueci minhas tarefas
humanas e o segui. Que vida! Nós não estávamos nesse mundo, a verdadeira
vida está ausente. Eu o segui, tive que fazer isso. Constantemente ele se
enfurecia comigo, comigo, pobre alma. O demônio! Ele é um demônio, não é
humano.”
“Nenhuma outra alma teria força suficiente para suportar o desespero. A
alma dele era como um palácio, vazia a ponto de não ser possível encontrar
um ego.”
“Tortura insuportável, onde precisamos de toda a nossa fé, de poderes
super-humanos, que nos permite ser o mais paciente, o grande criminoso, o
amaldiçoado — e o sábio supremo, entre os homens! —, porque perscrutamos
o desconhecido! Porque cultivamos nossa alma, desde sempre rica, mais do

194

que os outros! Alcançamos o desconhecido, e quando, loucos, terminamos
perdendo a sabedoria de nossas visões, ela continuará viva em nossas obras,
propagando as sensações inalteráveis e inomináveis, para que outros
trabalhadores destemidos as utilizem, iniciando seus trabalhos de onde outros,
antes deles, falharam.”
“Estou em um abismo profundo, e há muito não sei mais como rezar.”
Mesmo perante todos os perigos de uma constituição sensível, ainda
encontramos falastrões ridículos, querendo pregar sobre a sensibilidade. Por
experiência própria posso dizer que aqueles que fazem discursos fervorosos
sobre os sentimentos são os indivíduos mais insensíveis, egoístas e
ignorantes. Olhando seus rostos imaculados, que nunca presenciaram o
abismo da nossa existência, permaneço em silêncio, ouvindo calado a suas
falácias sem sentido, e os imaginando como personagens do poema, castigo
do orgulhoso, escrito por Baudelaire:
“Sua razão de pronto a pó se reduziu.
A flama deste sol de negro se tingiu;
O caos se lhe instalou então na inteligência,
Templo antes vivo, pleno de ordem e opulência,
Sob cujos tetos tanto fausto resplendia
E nele floresceram a noite e a agonia,
Qual numa furna cuja boca jaz selada.
Desde então, semelhante aos animais de estrada,
Quando ia ao campo sem saber nem sequer quem era,
Sem distinguir entre o verão e a primavera,
Imundo, ocioso e feio como coisa usada,
Fazia riso e a diversão da meninada.”

195

196

E dizem que ser inteligente é ser capaz de memorizar alguns
conceitos...
A mudança é sempre dolorosa e exige demais de nós. Sempre iremos
nos sentir atormentados quando os parâmetros que nos guiavam, e nos
ajudavam a possuir uma perspectiva exata sobre as coisas, simplesmente são
pulverizados, sucumbindo a um novo arranjo que nos mostra o quanto aquilo
em que acreditávamos era incoerente, irreal, obrigando-nos a adquirir uma
nova interpretação para as coisas, obrigando-nos a alterar nossa estrutura
particular e subjetiva, e, consequentemente, alterando nossos desejos, metas,
preferências, reações, comportamento... sendo mais específico: alterando-nos
por completo.
Durante os períodos de mudança, onde uma alteração conceitual faz
com que passemos a observar as coisas de uma forma completamente
diferente — fazendo com que o mundo adquira nuances nunca antes
imaginadas por nós —, constantemente nos sentimos irremediavelmente
desesperados, aspecto esse que incita atitudes intensas, resoluções violentas.
É somente nesses períodos de mudança que percebemos o quanto nossos
mecanismos de proteção são importantes; apenas nos momentos mais
sombrios e desesperadores — onde uma nova concepção, falha e mal
estruturada, não impede que nossa imaginação crie os cenários mais
deploráveis, insuportavelmente assustadores — que percebemos o quanto são
indispensáveis nossas ilusões e interpretações capciosas, que visam, a todo
custo, impedir que nos deparemos com tais momentos obscuros e dolorosos.
Entretanto, quando não estamos devidamente protegidos, ou quando
olhamos desatentamente para algo previamente bem elaborado na nossa
mente — analisando-o sob novas perspectivas e designando novas
possibilidades àquilo que antes era exato e único –, podemos adquirir uma
perspectiva completamente nova, que nos mostra aspectos muito mais
coerentes

do

que

nossas

crenças

anteriores,

fazendo

com

que

desconstruamos aquilo que anteriormente era considerado como sendo exato,
inquestionável e irrefutável.
197

Em meio aos destroços de uma mentalidade anteriormente bem
definida, torna-se evidente o quanto eram incoerentes e insuficientes as
relações que nos pareciam inquestionáveis. Despidas do exagero, provido por
nossa imaginação, tudo aquilo que nos motivava e dava sentido torna-se
insosso, ridículo. Ao mesmo tempo que percebemos isso, notamos o quanto
nosso inconsciente se esforça para estabelecer uma estrutura exata, uma
correlação irrefutável, daquilo que percebemos.
Durante os primeiros dias de desconstrução, cada hora de sono é vista
como sendo um alívio abrangente, um momento de salvação perante o
desespero sem fim de um mundo desconexo. Ao acordar, nossos pensamentos
e conceitos estão bem estruturados e definidos, cada acontecimento passa a
ter, novamente, relação com parâmetros bem definidos, bem delimitados, não
mais proporcionando associações descontroladas e exageradas. Essa
serenidade reconfortante faz com que nos sintamos mais satisfeitos, mais
potentes; nosso desejo mais profundo seria a manutenção de tal estado, mas
nossa consciência não nos permite isso. Após um breve momento, os
parâmetros bem estruturados durante o sono são novamente questionados
através de novas perspectivas, fazendo com que, novamente, aquilo que nos
guiava seja destruído.
Um arranjo, antes tão exato, volta a possuir múltiplas interpretações,
sendo, através de aspectos discrepantes, desconstruído. Concomitantemente
com a perda de nossas estruturas exatas, somos acometidos por pensamentos
assustadores, que, na ausência de estruturas exatas e mecanismos de
proteção, vagam profundamente, e incessantemente, pela nossa mente.
Os cenários com os quais nos deparamos, que foram analisados pela
nossa imaginação, parecem ser milhões de vezes mais dolorosos do que a
morte, incitando, desse modo, o desejo de que a dor dilacerante se encerre
com o suicídio. Essa alternativa é intrínseca a uma mentalidade exímia em
desconstruir, sendo, muitas vezes, a única saída possível para o desespero
sem fim. Mas, mesmo essa única solução pode gerar ainda mais dor... Ao se
propor a executar a única solução satisfatória, a mente, que desenvolve
cenários e consequências em lugares situados muito além do nosso controle e

198

consciência, elabora consequências para esse ato que nos deparemos com
cenários mais dolorosos e desesperadores do que aqueles que nos
incomodavam anteriormente.
Todo esse conflito interno, toda essa dor, incita todo tipo possível
solução que promete amenizar e afugentar aquilo que nos atormenta. Isso, que
considerar como uma válvula de escape, geralmente é direcionado para a
sexualidade, não sendo essa, necessariamente, a única alternativa para que
façamos com que o cenário em nossa mente se torne menos assustador.
Após essa breve análise sobre a desconstrução de nossos ideais, não é
de se espantar que as pessoas afugentem, com todas as suas forças, qualquer
tipo de conceito ou questionamento que destrua suas crenças, seus conteúdos
bem definidos que as direcionam durante a vida.

199

Precisamos de ideias para suportarmos a vida
“O amor é supervalorizado! O homem louco, que está em desarranjo, se
esfaqueia e corre até uma pessoa inocente que está no mesmo local onde se
encontra a sua alucinação — No amor esse louco é considerado como sendo
normal!”
Quando amamos nos apaixonamos por uma alucinação, por um
personagem que imaginamos e que, na melhor das hipóteses, possui um doze
avos daquela pessoa que serve como base para a nossa figura imaginada.
Mesmo nos apaixonando por uma alucinação, sentimos um mundo de
sensações indescritíveis, podendo caracterizá-lo como um estado de espírito
que beira uma existência completamente preenchida e satisfeita; incitados por
essas sensações incomuns, enxergamos um mundo transmutado, que se
alterou de dentro para fora; tudo passa a conter beleza e ser harmonioso, os
dias são mais excitantes, as situações, que antes incomodavam muito, agora
possuem uma nova interpretação, sendo ela, por incrível que pareça,
satisfatória.
Buscando uma explicação mais profunda com relação a esse estado de
espírito tão especial e revigorante, podemos analisar as afirmações de
Schopenhauer sobre o amor, que o classifica como uma artimanha da
natureza, que tem por objetivo unir duas pessoas, apesar do egoísmo e da
individualidade excessiva de cada uma, com o intuito de que a espécie se
propague e continue a existir. Nessa concepção o amor não seria nada além do
que eros, nada além do que reprodução e sexualidade; classificação essa que
é adorada pelos psicanalistas. No entanto, o passar do tempo nos mostrou as
limitações das teorias psicanalíticas, que não são capazes de explicar muitas
de nossas sensações e experiências, e não conseguem estabelecer
interpretações mais abrangentes e sensíveis, o que faz com que os parâmetros
se baseiem em afirmações capciosas e inverificáveis; essa metodologia de
análise, que se mostra ineficiente (em muitos aspectos) e inverificável, não foi
um empecilho que impediu a determinação de conceitos e condutas, imputando

200

valores e comportamentos, que atualmente são considerados como verdades
absolutas, sendo propagados e popularizados como dogmas inquestionáveis,
que dizem elucidar os acontecimentos da vida e as profundezas da existência.
Essa é a religião da nova era.
Partindo da análise do amor por parte de alguém que é mais sensível, e
ainda mantendo uma classificação metafísica sobre o assunto, é possível
estabelecermos uma nova visão para o tema, que é extremamente polêmico e
controverso, o que faz com que caracterizemos qualquer nova interpretação
apenas com a estirpe de uma condição plausível, e nunca como um conceito
inquestionável.
Para começar a nossa nova classificação nos concentraremos naquelas
pessoas solitárias e desiludidas com a vida, que se encontram em tal estado de
desespero e insatisfação que necessitam de uma ilusão satisfatória, uma bela
imagem fixa, que elimine o fardo, a volatilidade e a incerteza que é a vida. Essa
pessoa que cria um objeto amado, sendo esse objeto um animal de estimação,
um amuleto, uma paisagem, uma lembrança, etc., sente-se como que distraída
e esquece seus aborrecimentos e frustrações, mergulhando em uma
alucinação criada pela sua mente, dessa maneira eliminando as insatisfações
que a incomodam, mas, ao mesmo tempo, entorpecendo por completo sua
vida, praticamente se retirando dela e vivendo em uma ilusão, em um mundo
criado pela mente. Dentro desse mundo irreal a pessoa recupera suas forças e
o ânimo de viver, essa renovação acorre em detrimento do mundo real, dos
acontecimentos externos, que passam a ser praticamente ignorados,
negligenciados, tudo em prol da conservação e da satisfação do indivíduo, que
se sente muito mais feliz em meio ao seu mundo imaginário, mesmo ele não
sendo coerente e condizente com a realidade.
Nesse caso, o amor se mostra como a artimanha dos desiludidos, que
não suportam mais a vida e precisam de um estimulo poderoso que os
mantenham vivos e os impeçam de se frustrar com o fluxo incerto e ininterrupto
que é a vida. Essa característica extremamente volátil e mutável, que é
inerente à nossa existência, pode assustar a qualquer um, sendo necessária
uma ilha imóvel, uma lembrança imóvel, que suscite sentimentos poderosos e

201

que nos permita suportar a existência. Parece que é um desejo poderoso,
presente em nós, seres humanos, a busca por uma condição estável, segura,
mesmo essa condição não sendo condizente com a realidade. A existência em
meio a realidade ainda é um fardo demasiado pesado, e nós procuramos, a
todo o momento, anestésicos que possam facilitar a existência.
De acordo com essa nova hipótese, o amor continuaria sendo um
sentimento que tem relação com a manutenção da espécie, mas sendo essa
manutenção algo totalmente diferente do que foi anteriormente proposto por
Schopenhauer (que preconizava a manutenção da espécie através da
reprodução). Segundo essa nova concepção poderíamos justificar o amor entre
pessoas do mesmo sexo, o amor por animais de estimação, por ideias, por
lembranças, por esportes, por determinados objetos, etc.. Um sentimento
intensamente potente, que transforma o mundo por completo, proporcionandonos satisfação, força e conforto, assim renovando as nossas esperanças com
relação a todas as coisas, fazendo com que nos sintamos felizes, satisfeitos e
completos; e, dessa maneira, tornando a vida suportável, impedindo-nos de
sucumbir ao desespero e à aniquilação da existência. Essa explicação,
referente ao amor, parece, pelo menos para mim, plausível.

202

Recordação
“Olhei nostálgico ao meu redor, o retorno dessas recordações é sempre
frustrante, deixa, toda vez, um gosto de quero mais, uma vontade de retornar,
de realmente reviver os momentos que nos marcaram.”

Parei para pensar esses dias; decidi identificar tudo que é realmente
importante para mim. Abandonei, por um tempo, o ritmo acelerado das relações
cotidianas e mergulhei em mim mesmo, resgatando memórias e revivendo as
situações mais variadas.
Reencontrei antigos amigos, que há muito não vejo mais; refiz passeios
maravilhosos e conversei, novamente, com as raras pessoas que faziam o meu
coração vibrar, faziam a vida se tornar bela e cheia de significado.
Olhei nostálgico ao meu redor, o retorno dessas recordações é sempre
frustrante, deixa, toda vez, um gosto de quero mais, uma vontade de retornar,
de realmente reviver os momentos que nos marcaram, de alterar algumas
partes, de sermos felizes, assim como em nossas lembranças gloriosas.
Sedento por sentir a magia que se esconde nas profundezas da minha
mente, e que me guia, saio por aí, tentando reencontrar as memórias que tanto
me encantam. Nós corremos afoitamente pela vida, almejando reencontrar
situações antigas, que em nossa imaginação desenfreada adquiriram a
proporção de parâmetros absolutos que prometem trazer toda a felicidade, a
paz, a satisfação, tudo. Após minhas memórias investigar, um ideal consegui
encontrar, era ela!

Inconsequentemente tento alcançar, aquilo que percebi a mim guiar. É
você! Agora sou capaz de identificar.

203

Nefasta é a realidade sem você. Intragável é a vida sem sua luz que
ilumina, sem seu olhar que fascina.
Consegui só agora perceber, que é você tudo o que eu quero ser, que
quero ter.
Olhar ávido, agora que conheço o meu ideal, que descobri aquela que
estimo, aquela que me fará absolutamente feliz.
Nos seus braços quero repousar, adormecer, mas não entes de uma
promessa fazer:
Serei seu confidente mais fiel, seu amigo, seu companheiro. Em nossas
vidas, e sentimentos compartilhados, nos tornaremos um.
Conjuntamente imponentes, encarando nossas inseguranças de frente,
mais fortes e felizes do que nunca.
Infelizmente, longe de você estou, e para mim só aparece em sonhos.
Entendo que talvez a distância tenha me feito exagerar, mas isso
coerência não consigo encontrar.
Nós, é a resposta para tudo, é o sentido da vida, que ilumina mais do
que o sol, e que faz sonhar mais do que o luar.
Temo nunca mais te encontrar, ou te ver com outro alguém.Lamento não
ter enxergado antes aquilo que a vida acelerada em mim fez ocultar.
Estimo tudo aquilo que representa para mim, aquilo que você é.
Sua lembrança faz meu coração vibrar de forma incomum, retira-me da
mediocridade e me transporta para um local de belezas imensuráveis e
inomináveis.

204

“Mantenha o seu semblante misterioso e cale a boca, para que eu
consiga idealizar-te.”
Autor desconhecido

Para além do misticismo que envolve o amor
O amor é algo que simplesmente acontece; não possui relação com
nenhum misticismo infundado — que as pessoas tanto gostam de designar
para ele —, nem mesmo é único e insubstituível. O amor nasce, morre e se
renova, assim como todas as coisas que existem.
Para que o amor ocorra é preciso o tempo certo, as circunstâncias
certas. É preciso que o indivíduo idealize o objeto, passando a desejar sua
obtenção de maneira absurda, desse modo adquirindo uma concepção exata,
que agrada sobremaneira a mente, e passando a possuir uma constituição
psicológica que aproxime o indivíduo da realização da necessidade profunda
da vida, com isso fazendo com ele se sinta mais potente, mais satisfeito. O
objeto que proporciona isso ao indivíduo, não passa despercebido pela mente
do apaixonado; quando não explorado de maneira consciente, esse objeto é
205

desenvolvido estritamente de uma forma inconsciente e longe de qualquer
definição sensata, tomando proporções absurdas, e permanece na mente
como uma lembrança absurdamente irracional, capaz de incitar as emoções
mais exageradas no indivíduo; cada aparição que lembre, de alguma forma, o
objeto amado, incita os sentimentos mais intensos, sendo o motivo dessa
disfunção corporal o acionamento da memória onde o objeto é capaz de suprir
todas as necessidades existenciais, fazendo com que o indivíduo se sinta
extasiado perante o possível redentor da vida.
Independentemente de ser objeto amado ou não, qualquer lembrança
tem potencial para ser desenvolvida de maneira exagerada pelo inconsciente,
chamando-nos a atenção quando a percebemos de alguma forma, quando o
mundo externo nos oferece parâmetros que incitem, de alguma forma, a
construção desses cenários que são profundamente influentes sobre nós. Essa
emoção exagerada, que é gerada por um conceito absurdo, é derivada de uma
interpretação errônea por parte do intelecto, interpretação essa que é
desenvolvida longe de qualquer tipo de controle que podemos exercer sobre a
mente, apresentando-se como algo que possui a capacidade de potencializar a
vida em parâmetros inimagináveis, ou apresentando-se como algo que possui
a capacidade de destruir a vida por completo, tudo muito dual e sem meios
termos, o que caracteriza uma forma profunda de definir o mundo e suas
situações. Podemos associar uma pessoa a alguma memória satisfatória,
passando a valorizá-la, talvez essa seja a maneira como um afeto instantâneo
ocorre; aquele que valoriza essas impressões inconscientes em demasia está
fadado a fazer julgamentos muitas vezes equivocados e embasados em
parâmetros anteriores, que não são capazes de traduzir com exatidão as
situações atuais com as quais ele se depara. O objeto pode se tornar um
arquétipo poderoso que foi desenvolvido a partir do próprio objeto; nesse caso
a idealização é mais demorada, e necessita da satisfação de uma série de
fatores, que, se atendidos satisfatoriamente, irão impedir que a mente crie
obstáculos para a profunda valorização e do direcionamento das forças do
indivíduo rumo ao objeto. O amor à primeira vista, quando investigado
pormenorizadamente, revela-nos seus verdadeiros e profundos referenciais.

206

Levando em consideração a explicação anterior, o amor pode ocorrer
várias vezes, dependendo apenas da relação que o objeto vai estabelecer com
a psique do indivíduo. Aquilo que torna um primeiro objeto amado,
praticamente único e insubstituível é a carência de seres que possamos
idealizar como capazes de suprir nossa necessidade mais profunda, e a
teimosia do indivíduo em valorizar em demasia os primeiros sentimentos,
eliminando qualquer possibilidade de um novo amor, por causa da comparação
a um objeto antigo, não permitindo a possibilidade de que um novo objeto seja
idealizado. Não devemos esquecer de que o amor não é estabelecido
especificamente em relação a uma pessoa, ele pode ter como objeto alguma
coisa inanimada, algum animal ou até mesmo uma situação específica.
A maneira como são interpretadas as experiências é extremamente
particular

e

variável,

quando

comparada

entre

as

pessoas.

Cada

acontecimento irá proporcionar uma interpretação particular, irá gerar um
conceito particular; além disso, o ser humano difere de todos os outros seres
vivos por ser capaz de definir aquilo que ele almeja vir a ser, incluindo um novo
elemento determinante da personalidade, não sendo apenas a fisiologia e as
memórias os elementos determinantes na construção do Eu.
Considerando todas essas probabilidades, no estabelecimento do ideal
do Eu, e consequentemente do objeto a ser valorizado, fica difícil definir o que
influencia o que, quando analisamos os diferentes gostos e opções sexuais que
as pessoas possuem.
A elucidação da maneira como ocorreram o armazenamento das
memórias e a sua influência sobre nossa personalidade, pode ser a resposta
que nos permitirá elucidar muitos aspectos da nossa vida. Para tanto, o
indivíduo deve ser dotado de uma memória ímpar, que o permite identificar
aspectos que o influenciaram desde a sua mais tenra idade, apenas assim ele
é capaz de identificar com precisão a forma como sua mente estruturou seus
conceitos. Entretanto, mesmo pessoas sem uma memória impressionante são
capazes de descobrir aquilo que as influencia, sendo essa tarefa apenas mais
complexa e exigindo uma dedicação incomum na busca da identificação dos
cenários e dos elementos que as influenciam.

207

208

“E é assim vamos agindo no mundo externo, sendo influenciados pelas
nossas carências e necessidades mais profundas.”
Autor desconhecido

209

Nossas necessidades e motivos ocultos
Quando uma necessidade adquire um conteúdo, relacionado a algo
externo a nós, por mais que tentemos compreender aquilo que está em
desarranjo, que nos estimula e nos entristece, não somos capazes de
encontrar o que realmente nos influencia. Algumas vezes, por sorte,
encontramos

os

motivos

que

nos

impulsionam

profundamente,

mas,

acompanhado ao êxito de nossa descoberta importante, vemo-nos incapazes
de compreender o modo como tais motivos estão relacionados conosco, assim
como somos ineficientes em entender aquilo que nossos sentimentos,
relacionados à nossa necessidade profunda, realmente significam.
Esses questionamentos profundos, que muitas vezes nos atormentam
incessantemente, flutuam dolorosamente em nossas mentes, sem que
possamos encontrar uma atividade ou alguém que nos ajude a saná-los.
Mesmo tendo a possibilidade de executar as mais variadas tarefas e a
oportunidade de conhecer milhares de pessoas, ainda assim nos sentimos
atormentados, solitários, sem ninguém com quem sejamos capazes de
compartilhar nossos pensamentos mais profundos. Isso ocorre não pela falta
de oportunidades, mas, muito pelo contrário, em função de fatos e
questionamentos muito bem conhecidos por nós: “Quem será capaz de
entender aquilo que sinto?” “Existe alguém capaz de realmente compreender
esse emaranhado desconexo e complexo dentro de mim?” “Será que posso
encontrar ao menos uma pessoa que escute meus pensamentos mais
profundos, de forma receptiva, sem usá-los, posteriormente, contra mim?”
Talvez sozinhos podemos ser capazes de invadir a humanidade,
investigar nossos sentimentos, ou talvez possamos realizar tais feitos
complexos apenas acompanhados. Mas, nesse caso, será que existe uma
conexão profunda entre pessoas apenas através contato físico, ou de um
telefonema, ou de uma ligação no Skype, ou um chat, capaz de nos permitir
sentir profunda e verdadeiramente conectados a uma outra pessoa?
Independentemente da forma como ocorrem nossas interações, elas sempre

210

serão significativas quando a relação é naturalmente amigável, fluindo
facilmente, sem qualquer tipo de esforço. Nesses casos raros, podemos pensar
que finalmente encontramos alguém que nos compreende, alguém em quem
podemos

confiar;

mas,

ao

mesmo

tempo,

deparamo-nos

com

o

questionamento, com a dúvida, em relação àquilo que começa a se alojar
profundamente em nós. Dessa forma, podemos nos perceber receosos perante
questões recorrentes: “Como posso ter certeza do que sinto?” “Como posso
saber o que é correto e o que é equivocado em relação à pessoa que me
encanta?” “Como uma mesma pessoa é capaz de incitar a satisfação mais
incrível e a dor mais desesperadora?”
Às vezes, nossas sensações podem se tornar apenas amarguradas,
com relação à pessoa que antes nos encantava, desse modo incitando novos
pensamentos: “Quando a satisfação tornou-se nada além do que dor e nojo?”
“Talvez eu tenha tido uma interpretação equivocada ou talvez tenha esperado
demais de uma outra pessoa, o que não me permitiu enxergar a verdadeira
proporção daquilo com o que interagia.” “Talvez as pessoas mudem de um jeito
mais abrupto e mais abrangente do que imaginamos, podendo, muitas vezes,
destruir os traços e aspectos que nos faziam sentir, de alguma forma
misteriosa, conectados.”
Muitas vezes, nos primeiros momentos de nossas desilusões, sentimos
uma dor profunda, uma nostalgia intensa, que nos impulsiona a tentar
recuperar aquele sentimento. Todos os nossos pensamentos passam a ter
relações com tal desconstrução, almejando a manutenção daquilo que está
desaparecendo: “Ei, talvez nós...naquele campo...no parque, no meio de junho,
aquele foi um momento memorável, essencial...Ah, acho que não.”
Então, como se tudo não fosse nada além do que um sonho, aquilo que
era importante para nós simplesmente explode, morre; não mais possui força
suficiente ou nos faz sentir facilmente decepcionados quando tentamos pensar
naquilo que sentíamos. Essa sensação pode ocorrer para ambas as partes.
“Tem uma dor que existe apenas na nossa mente. A dor mais
desesperadora na vida de alguém ocorre quando assistimos todo o nosso

211

mundo desmoronar e tudo o que podemos fazer é observar, atônitos, sem
piscar.”
Às vezes, sendo esses casos incrivelmente raros, alguém pode ser
capaz de nos conhecer melhor do que nós mesmos. Mas, infelizmente, essas
relações acabam, também, desaparecendo, em função de nossas tarefas
mundanas e compromissos.
Aqueles, que possuem uma sensibilidade exacerbada e nos convidam
com tanta beleza, que somos incapazes de acreditar na existência de dessas
pessoas, assim como não podemos acreditar nos momentos mágicos que
vivenciamos com elas.
Assim as pessoas passam pelas nossas vidas... e novas chegam. E
você encontra, por aí, um semblante que externa as mesmas questões e
sentimentos que te incomodam, que imploram para serem desvendados.
Mesmo quando essas pessoas utilizam palavras com as quais não nos
relacionamos, ainda assim podemos sentir a presença de semelhanças
profundas. Essas pessoas tocam e ficam alojadas no coração dos nossos
pensamentos.
Esses fenômenos raríssimos se alojam nas profundezas da nossa
mente, passando a influenciar nossos julgamentos futuros, que serão sempre
satisfatórios quando aquilo que analisamos se aproxima dessas satisfações
ocultas e essenciais para nós. Esse fascínio faz com que se torne difícil
esquecer determinadas pessoas.
Entretanto, algumas vezes passamos por mudanças, que alteram tudo,
dizimando nossas belas construções, que passam a existir somente na nossa
memória. Mesmo nesses momentos, de uma separação inevitável, sentimos
uma dor profunda, sendo esse um parâmetro importante quando desejamos
descobrir o quanto uma pessoa significa para nós, o quanto ela nos influencia.
Nesses momentos, onde aquilo que nos encanta morreu, alguma coisa
em nós exige uma mudança: “É tempo de mudar algo, mas não sei muito bem
o quê, ou quando, ou como, ou onde...” Essas empreitadas são sempre
difíceis; nelas sentimos que cada momento e pensamento possuem um gosto
212

insípido, e sabemos muito bem o motivo dessa sensação: perdemos o nosso
centro. Após essa constatação, percebemos o quão fácil e estimulante é a vida
quando possuímos metas e desejos, sendo que tudo isso se perde, em um
oceano de desespero e dor, quando não mais somos direcionados pelos
nossos ideais.
Então, novamente, muitas questões emergem: “Uma nova fase?” “Eu
tenho que passar por isso para amadurecer?” “Eu deixo muitas coisas para trás
e esse é o motivo pelo qual passo por fases de reestruturação, onde me
deparo com perdas, que alteram tudo aquilo que sou e o que é importante para
mim?”
A dor alucinante, causada por esses momentos, faz com que nos
empenhemos em obter, de novo, aquilo que tornava nossa vida mais
satisfatória. Desse modo, corremos de forma alucinante em busca daquilo que
nos agradava, fazendo com que nos perguntemos: “Será que realmente
precisamos disso ou é apenas puro desejo, apenas um impulso carnal?” “Será
que, por causa da grande quantidade de novas interações, de novas pessoas,
minha mente tenta fazer uma brincadeira, tenta me enganar?” “Será que essa
nova necessidade intensa tornar-se-á uma referência profunda para o resto da
minha vida, como um evento marcante que ficará para sempre, influenciandonos, na nossa memória?”
Nesses períodos soturnos, dormimos menos, e pior, sentindo, a todo o
momento, a ausência de algo essencial em nós, que, de repente, da mesma
forma abrupta como morreu pode ressurgir, fazendo com que passemos a ter
um novo centro, uma nova constituição psicológica.
Decidir de forma consciente sobre esses acontecimentos é muito
improvável, restando-nos apenas arriscar, tentar, explorar, em busca de novos
ideais, responsáveis por nos fornecer uma existência suportável e estável.
E, novamente, vamos em busca de alguém em quem confiar, de alguém
que nos complete e seja essencial para nós, para que, somente assim,
possamos recuperar a beleza e a harmonia, para que possamos recuperar a
imagem que alimenta a nossa alma e que fornece um sentimento sagrado. Os

213

olhos dessa imagem nos chamam à vida, para cair, triunfar, arriscar e arriscar e
recriar a vida! Um anjo intenso que insiste em aparecer para nós,
representando tudo que há de mais belo; um envio de terras sagradas para
proporcionar instantes de êxtase e tornar evidente a razão de todos os erros e
glórias. E de novo e de novo e de novo.

214

Do príncipe da Dinamarca
Oh! Tão estimada Ofélia. Sob essa luz crepuscular,
Nem sou capaz das palavras encontrar,
Que possam definir tanta beleza, tanta harmonia.
Minha mente já se perdeu,
E o culpado não sou eu...
Mas sim sua beleza extasiante.
Faça de mim seu amante!
O mundo quero lhe dar.
Faça de mim seu amor!
E viverei em eterno êxtase.

Minha alma tão indecisa e diminuta, só com você é plena.
Seus olhos chegam a perscrutar meu recanto mais profundo,
Onde todo homem é moribundo, escravo do que acha que deve ser.

Quero retribuir esse seu olhar, e tocar no fundo da sua alma.
Tarefa que me esforço para conseguir,
Mas termino por nada encontrar.
Deve ser minha inexperiência, a falta de vivência
Que não me permite interagir com o ser mais perfeito.
Infelizmente, tenho muita consciência,
E uma dúvida ela em mim faz brotar:
215

Será você...
Recuso-me a falar!
Mil vezes abjeto, até mesmo por apenas pensar,
Chegar a duvidar de sua perfeição.
Deve ser a joia mais rara, que se esconde com primazia,
Entregando-se apenas ao mais valente, mais imponente e digno.
E esse eu prometo ser,
Farei de tudo por você!

Prometo falar-te tudo que está em minha mente.
Entregar-me-ei por inteiro, de corpo e alma,
Até mesmo uma vida ulterior irei criar,
Para nunca mais te abandonar.

Prometi, a ti tudo falar,
E uma dúvida me faz questionar
Esse seu olhar vazio:
Será a expressão de quem muito sabe,
Ou o olhar do ser inferior, destituído de tudo
Que torna o homem grande?

Desculpe-me por chegar a pensar assim,
A culpa é dessa consciência dentro de mim,
Que tudo questiona, a todos indaga,

216

Que nunca se contenta, nunca para!
A uma pergunta ela não me deixa escapar:
Será você, tudo aquilo que me faz pensar?

217

Uma filosofia do futuro
Caracterizei a constituição psíquica atual dos seres humanos como
sendo narcisista, egoísta em excesso, e para chegar a essa mesma conclusão
não é preciso ser um exímio observador; o culto ao ego é evidente em grande
parte das ações que observamos.
Atrelado a essa característica intrínseca dos seres humanos, as religiões
e os governos se desenvolveram. Como sendo entidades destinadas à
interação dos seres humanos com a parte conceitual, intelectual, e a parte
material das coisas, essas duas entidades não podem estar separadas daquilo
que é a constituição e as necessidades humanas, pois estando essas
entidades muito distantes das vontades humanas, com certeza elas seriam
refutadas e abandonadas. No fim, todo sistema de poder é ao mesmo tempo
patrão e servo.
Ao longo do meu diário, expressei que o móbil mais profundo dos seres
vivos é a expansão da alma até que essa atinja as dimensões do espírito,
parâmetro esse que nos é vedado por causa de uma alma fixa, diminuta, cheia
de conceitos concorrente e centrada apenas no próprio indivíduo. Uma
constituição que nos agrada mais pode ser considerada como sendo aquela
mais se aproxima dessa vontade profunda, desse contato com todas as coisas,
dessa potência exacerbada, da ampliação da capacidade e da força do
indivíduo, mesmo sendo essa ampliação restrita a conceitos inteiramente
conceituais. Através dessa característica que relaciona o indivíduo ao espírito,
podemos determinar a evolução humana como possuindo direções referentes à
ampliação das fronteiras do indivíduo com relação ao espírito, e à destituição
do egoísmo exacerbado na psique humana.
Os seres humanos que possuem características individuais relacionadas
a parâmetros mais amplos do que o próprio indivíduo, já existem entre nós, e
provavelmente essa existência se faz antiga. Esse aspecto pode ser
encontrado no gênio, que possui uma constituição psíquica muito diferente das
demais pessoas, sendo ela destituída de qualquer perspectiva particular, que

218

visa apenas o benefício do próprio indivíduo. Tal arranjo individual permite que
a definição de conceitos não seja focada em si próprios, parâmetro esse que
faz com que essas pessoas se permitam construir conceitos mais amplos,
menos protetores e preconceituosos.
Infelizmente, as descobertas desses raros gênios são, praticamente
sempre, deturpadas pelos homens comuns. Na maioria das vezes, temos que
fazer uma indução reversa, no intuito de eliminarmos todos os parâmetros que
foram deturpados, para que possamos compreender verdadeiramente um
conceito; utilizando da indução reversa, podemos eliminar toda a fraqueza e os
interesses particulares; vendo-nos, finalmente, livres de toda a falácia e dos
parâmetros irreais, podemos, enfim, depararmo-nos com o puro conhecimento
com o puro conceito.
Um caso gritante de deturpação conceitual está evidente no conceito de
reencarnação, adotado pela doutrina budista. É evidente que quando
acreditamos piamente em algo, passamos a ser capazes de enxergar aquilo
em que acreditamos, passando a interpretarmos os acontecimentos de uma
maneira capciosa, direcionando nossas interpretações rumo a uma perspectiva
específica; toda crença irá construir sua própria lógica, seu modelo particular,
que permitirá a existência de determinados conceitos, por mais esdrúxulos que
pareçam ser — quando observados por pessoas possuidoras de perspectivas e
direcionamentos diferentes —; esse aspecto interessante e plural faz com que
deixemos de nos surpreender com as mais variadas possíveis e plausíveis
interpretações das coisas, que, quando observadas dentro de suas definições
lógicas e conceituais, nos parecem ser absolutamente plausíveis e verdadeiras.
Nesse caso, podemos dizer que o conceito de reencarnação pode ser ilógico,
quando observado sob outras perspectivas, em um modelo diferente; mas,
possuindo como base a doutrina budista, podemos analisar tal conceito sob a
ótica budista, analisando possíveis deturpações — que podem ter sido
inseridas até a condição de satisfazer a necessidade humana — e dando um
novo significado e direcionamento, que, possivelmente, poderá tornar-se mais
lógico e condizente com aquilo que observamos, com a realidade.

219

Desmistificando a reencarnação dos espíritos: Irei direcionar essa
minha análise à doutrina budista, com a qual tenho mais afinidade e admiração.
Identifico a vida humana nos graus de iluminação do espírito (nirvana, Buda),
mas possuo algumas objeções e uma nova teoria sobre a evolução espiritual,
que irei apresentar.
Quero ser sucinto, então tentarei explicar minha tese da forma mais
clara e objetiva possível. Primeiramente, vou tentar explicar o alcance dessas
condições existenciais — sendo eles o nirvana e o Buda —, e nessa tarefa
dispendiosa tomo como base o conceito de retorno ao estado inorgânico
(nirvana).
O espírito está presente em todos os seres vivos, e é a essência mais
profunda da constituição fisiológica; ele é a concepção do ambiente no qual
estamos inseridos, concepção essa que abarca tudo aquilo que percebemos e
sentimos, ou, melhor dizendo, que somos direcionados a perceber e sentir;
esse modelo, que está oculto para o indivíduo, sendo ele revelado apenas pela
consciência, imaginação, que busca definir, através de conceitos e modelos,
aquilo que está presente nas profundezas do nosso. Além do nosso espírito,
adquirimos conteúdos que preenchem as estruturas da nossa mente; em
função desse preenchimento adquirimos representações que, de algum modo,
estão relacionadas com desejos e medos profundos, fazendo com que
reajamos de forma exagerada a alguns acontecimentos que nos fazem
construir cenários previamente elaborados e que são incrivelmente influentes
sobre nós, gerando os sentimentos mais variados. Nossos juízos de valores
são elaborados com referência à potencialização que as coisas proporcionam
ao indivíduo; o indivíduo busca o alcance do estado inorgânico de acordo com
os seus próprios meios, de acordo com o mundo que está construído em seu
espírito e seus ideais. Essa característica profunda, essa vontade exagerada e
inconsciente, rege muitas de nossas ações, possivelmente sendo a
responsável por determinar todas elas.
Para a continuação da teoria, vamos definir três estados de existência: O
primitivo, o nirvana e o Buda. Um exemplo de ser vivo que se encontra no
primeiro estado, pode ser caracterizado por um animal irracional; incapaz de

220

uma concepção abrangente sobre seus atributos interiores, sendo ele incapaz
de possuir uma vida interior; por causa da ausência de intelecto, esse animal
não é capaz de desconstruir um único e potente ideal, que é focado em sua
reprodução; essa característica passa a ser uma atitude mecanicista e
impulsiva, que faz com que ele direcione suas forças estritamente rumo a essa
atividade, com o intuito de que ela será a responsável por sanar sua
necessidade mais profunda, que ele é incapaz de compreender, de identificar,
por causa da falta de imaginação. Esse direcionamento intenso faz com que
nada mais possa ser observado, fazendo com que tudo que o indivíduo elabore
não passe de conceitos que possuam relação com tal ideal. Ele transfere essa
necessidade, que seu inconsciente almeja, e deposita toda a sua esperança
em sua reprodução, em seu filho; o ato sexual é o momento mais elevado que
esse ser primitivo pode atingir, fazendo com que ele se aproxime de seu ideal,
que tanto o motiva e amplia sua alma diminuta. Voltando a me referir à doutrina
budista, a roda do carma não está estabilizada, e o ser ainda precisa
reencarnar.
Um indivíduo de mentalidade mais evoluída é capaz de atingir o nirvana,
um estado onde, por algum tempo, e sendo influenciado por agentes externos,
a alma desaparece, fazendo com que o indivíduo consiga sentir a plenitude da
vida, e, através dessa interação, é capaz de suprir os desejos referentes ao
alcance das dimensões do espírito, desse modo entendendo o móbil mais
profundo da vida, e não mais se sentindo estritamente impelido a se dedicar
loucamente por seu ideal, ou a direcionar todo sua força rumo a procriação;
enquanto dura o contato com os agentes externos que permitem o surgimento
dessas sensações reveladoras, enquanto dura a interação entre aquilo que o
motiva profundamente, o indivíduo vive de maneira potente, plena e com
ausência de dúvidas existenciais; ele vive em êxtase. Nesse ponto o ser não
sente uma necessidade absoluta de procriar, ele alcançou a evolução plena,
que sua alma tanto almeja.
Infelizmente, o estado de espírito — no nirvana — é incitado por agentes
externos, os quais o indivíduo ainda não é capaz de imaginar, e não pela
própria consciência do indivíduo, sendo assim, se alguma mudança exterior
acontecer, o indivíduo pode voltar a algum estado anterior a esse. Fazendo
221

uma comparação com o budismo: nesse estado o ser se encontra em harmonia
com o universo e o ciclo de reencarnações cessa.
Quando o indivíduo possui uma mentalidade abrangente e evoluída, ele
é capaz de definir concepções exata, e que não possuem parâmetros
concomitantes, por si só, e possui conhecimento suficiente para contestar,
definir com precisão e controlar seus impulsos, e criações conceituais
inconscientes, e manter uma condição existencial abrangente, permanecendo
constantemente em êxtase, em qualquer situação; ele alcançou o estado de
Buda, tornou-se um ser que direciona sua força exatamente para onde deseja;
o indivíduo não mais é influenciado pela história, pelo ethos, ou por
pensamentos dos quais ele não tem controle, ele definiu seus parâmetros e
cria sua própria história, define sua interação com as coisas a todo o momento.
Nesse caso, todas as ações do indivíduo são racionais, e cabe a ele decidir a
maneira como irá proceder perante as mais variadas questões; seu
inconsciente não mais o impele a ações impensadas. Comparando com o
budismo, o ser atingiu o máximo da evolução, é um ser especial, responsável
por alterar as coisas sempre em direção a arranjos melhores. Ele nunca
precisou balancear o seu carma, pois esse desde o começo da existência foi
estável, ele existe para melhorar as coisas.
Podemos ver como um arranjo realista recebe alguns retoques absurdos
para se tornar algo que alimenta o egoísmo a fraqueza humana. O monge que
abdicou a todos os prazeres mundanos necessita de uma recompensa, e ela
vem na forma de uma vida ulterior melhor, ou no encerramento das
reencarnações; da mesma forma, uma pessoa que precisa encarar a morte de
alguém muito querido e estimado, em meio a um mundo onde tudo parece
estar mudando, pode recorrer à ideia de uma outra vida, onde a pessoa
estimada ainda continue a existir, desse modo não tendo que lidar com a
mudança dolorosa, causada pela ausência daquele que é estimado em
demasia; em outro caso, a instauração de uma vida ulterior pode fazer com que
um possível criminoso questione, ainda mais, a possibilidade de cometer algum
crime, que, de acordo com ideias religiosas, poderia fazer com que ele sofresse
muito mais, em uma existência eterna, em outras vidas; esses são apenas
alguns motivos dentre vários, que fazem com que tal concepção se torne cada
222

vez mais importante e presente em nossas vidas, vejo isso como sendo
propósitos mais do que suficientes para a manutenção da crença na
reencarnação, na doutrina budista. Imaginem quantos adeptos a menos essa
doutrina teria, quantas pessoas estariam enfrentando o desespero esmagador
causado pela alteração do mundo onde estão inseridas, quantas pessoas se
sentiriam livres para cometer as maiores atrocidades, sem a crença em uma
outra vida. Se nem com esse argumento fantasioso as pessoas decidem se
dedicar à pratica dos ensinamentos budistas, ou se sentem menos
desesperadas, ou se sentem incapazes de cometerem atrocidades, imagine
sem. Infelizmente a verdade ainda é um fardo demasiado pesado para a
maioria dos seres humanos atuais, que ainda são fracos, egoístas e
ignorantes, que ainda possuem conceitos incapazes de abarcar toda a
complexidade presente em nossas vidas.
Quanto tempo irá levar para que as pessoas aceitem, de bom grado,
sem se sentirem completamente desesperadas, sem se sentirem livres para
cometerem atrocidades, que a vida é fugaz e existe apenas agora, sem
nenhuma possibilidade ulterior?

Considero a perspectiva atual da reencarnação budista como sendo um
exemplo gritante da deturpação conceitual, feita no intuito de adequar algumas
coisas à constituição psíquica atual, às necessidades atuais.
Podemos analisar o nosso modelo político e econômico, que é
estritamente direcionado ao egocentrismo. Adam Smith define que a base de
todas as coisas é a necessidade particular, e quando alguém expressa que se
dedica a algo, possuindo metas coletivas, devemos desconfiar de seus
objetivos. Essa maneira de enxergar as interações humanas adequa-se à
necessidade narcisista atual, necessidade essa que está presente na grande
maioria das pessoas; sendo o capitalismo o expoente que mais condiz com
essa constituição psicológica, ele se tornou o sistema econômico mais eficiente
no mundo contemporâneo.

223

Em meio a tudo isso, um modelo econômico parece surgir para suprir as
necessidades do ser humano do futuro, que não mais é extremamente egoísta,
sendo esse novo modelo nomeado com a palavra comunismo, nome esse que
já se tornou pejorativo, por causa das mais variadas campanhas que o
repudiam. Essa propaganda negativa é direcionada aos seres humanos
limitados e sem imaginação, que não possuem a capacidade de pensar de
forma abrangente. Atualmente, o capitalismo, de acordo com a constituição
psíquica atual, é o modelo mais eficiente, é indiscutivelmente mais eficiente.
Discutir sobre o comunismo, nos dias atuais, é uma grande perda de tempo; a
constituição psíquica dos seres humanos não está preparada para esse tipo de
arranjo das coisas; o comunismo é uma ideia que deve ser guardada com
carinho, e a sete chaves, impedindo-a de ser deturpada pelas pessoas
comuns, sendo que, quando a constituição psíquica humana tiver evoluído e o
modelo capitalista não mais se mostrar tão eficiente, nós possamos instaurar
um modelo que supra as novas necessidades humanas.

“Será que realmente sabemos aquilo que somos, ou como somos? A
consciência ainda é uma entidade germinal, diminuta; ela nos diferencia de
todos os outros seres vivos que existem, permitindo-nos não mais sermos
definidos

pelo

ambiente,

mas

sim

definirmos

aquilo

que

somos,

independentemente do ambiente. Infelizmente, essa entidade ainda tem muito
o que evoluir para que possamos considerá-la eficiente. Mesmo em sua

224

ineficiência

constantemente

comprovada,

podemos

perceber

pequenos

acontecimentos que nutrem um resquício de esperança de que essa entidade
se tornará, no futuro da humanidade, abrangente e eficiente, fazendo com que
o ser humano finalmente seja superado e que nós nos tornemos deuses.”
Autor desconhecido

225

A consciência ampla
A nuvem que é interpretada por Polônio, e que adquiri novas formas
quando Hamlet externa suas impressões, talvez não tenha sido definida com
diferentes formas apenas para que o príncipe da Dinamarca se sentisse
satisfeito por possuir alguém que concordasse com suas suposições, talvez
aquela nuvem pudesse ser interpretada de várias formas discrepantes entre si,
atributo esse que permitiu que Polônio mudasse sua opinião, sinceramente,
toda vez que Hamlet desenvolvia uma nova perspectiva sobre a nuvem.
Tomando como base esse exemplo, podemos perceber o quanto nossas
impressões variam, o quanto as coisas possuem interpretações múltiplas,
plausíveis e lógicas. Essa característica intrínseca de tudo à nossa volta faz
com que enxerguemos um novo arranjo das coisas, dependendo apenas da
maneira como olhamos para essas coisas e a associação que fazemos daquilo
que enxergamos.
Essas nossas construções variáveis, e constantes, de conceitos e de
cenários, faz com que nos portemos diferentemente perante situações
similares, faz com que alteremos, por completo, nossas impressões e
sentimentos.
Um exemplo banal, que ilustra essa nossa característica profunda, é a
concepção que se tinha de mulheres que usavam óculos. A princípio essa
característica transmitia a ideia de deselegância, estupidez, fragilidade, sendo
que, com o passar do tempo, com a alteração dos conceitos, essa mesma
imagem passou a suscitar uma ideia de empreendedorismo, imponência, força;
fazendo com que enxergássemos a mesma situação com uma concepção
completamente diferente.
Essa mudança de conceitos, que é frequente para aqueles que são
muito racionais, evidencia o quanto a realidade que percebemos é virtual,
assim como nos mostra o quanto são importantes e relevantes os conceitos
pré-estabelecidos na nossa mente, sendo eles os responsáveis por nos
situarem perante aquilo que percebemos. Só iremos ter sentimentos por aquilo
que, de alguma forma, já está construído na nossa mente, por uma concepção

226

previamente verificada e desenvolvida — sendo esse desenvolvimento, na
maioria das vezes, inconsciente, situando-se nas profundezas do intelecto, sem
que possamos percebê-lo conscientemente —; o novo nunca suscitará nada
em nós, porque, por causa da presença de parâmetros que nunca observamos,
não sabemos como nos portar perante esse novo cenário que encontramos.
Com o desenvolvimento da nossa consciência, e com o aprimoramento
das nossas interpretações, tornamo-nos capazes de enxergar as coisas sob as
mais variadas perspectivas. Nesse caso, encontrarmos alguém que possua
alguma coisa em comum conosco se torna uma tarefa simples, por causa da
pluralidade conceitual que faz com que o ser consciente possua vários
aspectos, várias interpretações das coisas.
A ampliação do raciocínio destrói os sentimentos, sendo eles apenas
reações nervosas, que têm relação com concepções exageradas, que não
possuem relação com a realidade. Assim como os sentimentos, o amor
também é abolido, após passar por uma análise estritamente racional.
Dotados de uma frieza e de uma indiferença sem limites, os seres
possuidores de uma consciência vasta são acusados, pelas pessoas comuns,
como sendo falastrões, por não possuírem uma paixão irracional quando
expressam suas opiniões e desejos. As mesmas pessoas comuns afirmam que
os seres cheios de consciência são insensíveis, quando, na verdade, eles são
incrivelmente sensíveis, ultrassensíveis.

227

Eles ainda são melhores, por enquanto
O homem sem imaginação deve se sentir feliz, pois não possui uma
característica que torna a vida ainda mais complexa, ainda mais difícil.
Incapaz de fazer associações próprias, os seres sem imaginação se
adaptam facilmente àquilo que é imposto a eles. Por causa da falta de
imaginação, provavelmente essa assimilação será lenta, assim como exigirá
que os conceitos, a serem assimilados, sejam simples e não muito diferentes
daquilo que estão costumados a enxergar, não contendo relações complexas e
inovadoras, desse modo permitindo a assimilação dos mesmos por um ser
intelectualmente limitado. A lentidão e a restrição do aprendizado são
compensadas pela ausência da criação de concepções múltiplas, aspecto esse
que incomoda, e muito, os seres dotados da capacidade de imaginar as coisas
e estabelecer conceitos.
Por causa da ausência de parâmetros múltiplos, em suas mentes, os
conceitos morais são tratados como dogmas, pelos indivíduos intelectualmente
limitados, garantindo que suas ações estejam sempre de acordo com os
conceitos morais. Esse aspecto, que evidencia a incapacidade dessas pessoas
de criarem e analisarem conceitos por si próprios, faz com que exista a
necessidade de uma ordenação superior das coisas, sendo essa ordenação
criada por um líder, ou, até mesmo, por um Deus.
Esses seres possuem um olhar limitado, que apenas enxerga as
concepções limitadas que eles possuem, dessa maneira restringindo a
multiplicidade de conceitos e de causas que determinam as coisas, e
estabelecendo relações, com as coisas, que não transmitem, não englobam, o
real funcionamento, a verdadeira dimensão, daquilo que observam.
Infelizmente, os seres intelectualmente limitados são a maioria, e
implementam e obrigam todas as pessoas a aderirem às suas concepções
limitadas sobre o mundo e os acontecimentos.

228

“Minha mente não funciona como a sua. Enquanto você vê um
determinado arranjo de elementos, um cenário com objetos que parecem estar
em harmonia, um arranjo das coisas que parece ideal, que incita sentimentos
profundos — fazendo com que você passe a desejar, intensamente, a obtenção
daquilo te cativou e que se alojou nas profundezas da sua mente, fazendo com
que sinta um turbilhão interminável de sentimentos quando algumas
características incitam, por similitude, esses cenários na sua mente —, eu
simplesmente enxergo além dessas sensações obscuras. Aquilo que é
imprescindível, para muitos, aparece como que traduzido em minha mente,
sem que eu me esforce ou intencione realizar essa atividade; o cenário ideal, o
arranjo que incita sentimentos, aparece apenas como uma casa com um céu
azul ao fundo, ou um carro, ou uma mulher, etc. Essa tradução exata daquilo
que vejo, por mais que pareça irrelevante e banal, é capaz de eliminar qualquer
tipo de sentimento, qualquer tipo de exagero incoerente, qualquer tipo de
ilusão.”
James Joyce

229

As pessoas incomuns
Um acontecimento pode se tornar muito dolorosa para nós, fazendo com
que nos sintamos muito mal ao pensarmos nele ou ao nos depararmos com
algum objeto, ou situação, que nos incite tal lembrança. Entretanto, muitas
vezes, após um período longo ou curto, dependendo da pessoa, suas
experiências e a forma como ela pensa, os acontecimentos podem obter
designações racionais, que os tornam menos assustadores, fazendo com que o
indivíduo deixe de sentir aquilo que sentia ao se deparar com alguns de seus
pensamentos.
Estendendo esse exemplo, podemos dizer que a sensação de medo, ou
de satisfação intensa, é proveniente de uma interpretação, uma projeção,
absurdamente exagerada, que incita sentimentos e reações exageradas, sem
que sejamos capazes de identificar as causas e motivos desse mal-estar.
Muitas vezes, caracterizamos algumas de nossas sensações com nomes
similares entre si, que caracterizam uma relação aparente, que incitam
pensamentos

semelhantes,

quando,

na

verdade,

são

sentimentos

completamente discrepantes, que não possuem qualquer tipo de semelhança.
Nesses casos, cabe ao observador investigar suas sensações e
definições, para que, somente assim, se torne capaz de definir, com precisão,
aquilo que acontece com ele. Muitas pessoas são exímias em tais tarefas
complexas; elas adquirem um mundo lógico acurado e uma imaginação mais
vasta, que faz com que eles sejam capazes de classificar as coisas
conscientemente, permitindo-lhes que se desvencilhem de impressões irreais e
exageradas, que incitam sensações descabidas, incoerentes.
Infelizmente, essas investigações são complexas e, quase sempre,
dolorosas, atributos esses que impedem que muitas pessoas perscrutem
profundamente seus conceitos. Assim, podemos dizer que a forma como a
maioria das pessoas interpreta as coisas é absurdamente capciosa, mal
trabalhada, cheia de preconceitos e conceitos infundados, determinando
motivos, causas e consequências que, quase sempre, não se adequam às

230

verdadeiras proporções dos fenômenos, que são muito mais complexos e
mutáveis do que aquilo que acreditamos que eles sejam.
Percebendo a grande quantidade de possíveis definições para os
acontecimentos e as coisas, descobrimos o quanto os conceitos são incertos,
necessitando de proteções e imposições rigorosas para que permaneçam
exatos e influentes na mentalidade das pessoas. Quando observamos com
imparcialidade para o mundo, podemos adquirir interpretações novas, capazes
de destruir nossas crenças, capazes de eliminar a exatidão dos nossos
conceitos, trazendo dor e desespero, a princípio.
Tendo como base um mundo completamente em aberto, que nos
permite possuir qualquer tipo de interpretação, criamos conceitos que nos
direcionam, que designam formatos exatos para as coisas, fazendo com que
um simples arranjo seja o responsável por incitar memórias que nos situam
perante os acontecimentos. Essa nossa característica nos permite identificar a
discrepância gigantesca entre pensamento e realidade.

“Não procure analisar a experiência em ti próprio!”

Possuindo

conceitos

surpreendemos quando

pré-estabelecidos

realmente

para

as

experimentamos aquilo

coisas,
que

nos

estava

firmemente construído no nosso intelecto; essa experiência nos remete à
necessidade de reestruturação dos nossos conceitos, que, por causa da
impenetrabilidade da realidade, assumem uma terceira definição, diferente da
nossa estruturação anterior e diferente, ainda, da verdadeira proporção daquilo
que analisamos.
Para que sejamos capazes de possuir conceitos mais próximos da
realidade, é preciso que experimentemos e questionemos, constantemente,
nossas definições. Essa atitude nos permite sermos capazes de enxergar as
coisas

sob

diferentes

perspectivas,

possibilitando-nos

imaginar

os

acontecimentos e objetos como possuindo várias possibilidades e explicações.

231

Muitas vezes, nossos conceitos permanecem como que suspensos dentro de
nós, como que sem uma correlação mais profunda com nosso comportamento
e com nossa intuição, tornando-se, após um tempo e algumas constatações,
vivencias bem estruturadas.
No entanto, algumas pessoas possuem uma constituição psíquica que
não as permite vivenciar algumas experiências profundas e raras; nesse caso,
muitos conceitos, por mais que tenham sido lidos e decorados até a exaustão,
permanecerão apenas como teorias que se mantêm rasas, superficiais e sem
aplicação, não se tornando uma vivencia, uma elaboração mais profunda e
abrangente.
Assim como algumas pessoas possuem um ouvido musical, que lhes
permitem sentir e perceber os tons musicais de uma maneira diferente do que
as pessoas sem esse dom, alguns indivíduos possuem uma constituição que
lhes permitem enxergar e sentir as coisas de uma forma diferente, aspecto
esse que os torna incompreensíveis para as demais pessoas, que, por não
possuírem uma constituição incomum, são incapazes de enxergar as coisas
como as pessoas raras enxergam, são incapazes de compreendê-los.
Se as sociedades são elaboradas com o intuito de criar um ambiente
que permita a existência das pessoas, os conceitos preconizados dentro de tais
modelos, a forma de classificar as coisas nessas sociedades, precisa contem
dimensões que permitam a compreensão, que possam ser entendidos, pelo
maior

número

possível

de

pessoas.

Nesse

contexto,

as

pessoas

intelectualmente superdotadas permanecerão às margens das sociedades,
permanecerão atônitas e serão incapazes de compreender interpretações que
são completamente sem sentido para elas, que são completamente
discrepantes quando comparadas às suas definições particulares, provenientes
da elaboração, da definição, de sensações que as pessoas comuns são
incapazes de vivenciar.

232

“As proposições materialistas parecem possuir um conteúdo quase que
estritamente irracional, sistemático, dessa forma transformando em leis
obrigatórias as características humanas mais deploráveis e primitivas.
Após a invenção do dinheiro, as coisas e as pessoas adquiriram um
novo modo de serem analisadas. Nesse contexto inteiramente monetário e
materialista, os sentimentos e a moralidade foram abandonados, cedendo
espaço para avaliações que têm como base o capital.
O materialismo simplificou, ainda mais, as relações humanas. Baseadas
em interesses particulares, as interações humanas ocorrem apenas quando
alguma das partes nota a presença de algo que lhe possa beneficiar.
Se Kant identifica a lei do menor esforço como sendo uma característica
intrínseca em nós, podemos considerar o materialismo como sendo aquilo que
mais nos agrada. Com ele nossos principais defeitos se tornam virtudes, as
análises complexas e demoradas se tornam rápidas e práticas, e a interação
entre as pessoas se torna simples e bem direcionada.
Quando as pessoas vão finalmente entender que o ser humano é algo a
ser superado?”
Autor desconhecido

“De tudo que me encanta eu almejo me afastar; de tudo que me repugna
eu anseio me aproximar. A mente deve ser treinada, aprimorada, e esse
entender-se e controlar-se deve ocorrer sempre e sempre e sempre! Ser
humano nunca foi o suficiente para mim.”
Autor desconhecido

233

Um sentido à mais
São dotados de um sentido a mais; é isso que se pode dizer, no mínimo, dos
seres conscientes. A presença desse sentido raro desencadeia uma série de
novos sentimentos, novas percepções e reações, que tornam esses seres
absurdamente discrepantes, quando comparados com a maioria das pessoas.
A consciência exacerbada desses seres é um aspecto puramente
intelectual, que faz com que eles possuam uma interpretação estritamente
racional das coisas. No entanto, esse atributo que é estimado por muitos, não
está presente no indivíduo sem causar problemas complexos, que exigem uma
força de vontade incomum, muito acima do normal.
Na mente do ser consciente, diferentemente das pessoas comuns, as
estruturas da mente não são facilmente preenchidas, aspecto esse que torna
os seres conscientes pessoas destituídas de qualquer tipo de conteúdo
intelectual. Nesse tipo raro de mente, qualquer construção inconsciente é
facilmente refutada, fazendo com que o indivíduo não possua qualquer tipo de
definição exata sobre as coisas.
Além disso, o ser consciente é capaz de identificar a verdadeira
proporção, a verdadeira necessidade por trás de seus desejos, característica
essa que o torna absurdamente indiferente aos acontecimentos referentes a
suas vontades, que são dificilmente construídas.
Sabendo como as coisas se estruturam na sua mente, o ser consciente
é capaz de apagar qualquer afeto, qualquer desejo, dependendo apenas da
sua vontade para que isso ocorra.
Profundamente apáticos e indiferentes, os seres de intelecto avançado
são desprezados por todos, são denominados como sendo monstros, como
sendo indivíduos abjetos e insensíveis. Todos os algozes dos homens geniais
são seres limitados, incapazes de compreender as coisas e a mente, da
maneira como os seres conscientes entendem.

234

Os seres limitados prezam o amor, enquanto os seres de intelecto
avançado já o superaram. Os seres limitados prezam a sensibilidade nervosa e
os impulsos involuntários exagerados, descabidos, enquanto os seres
incomuns já os entenderam e os controlam.
O intelecto avançado é o responsável por propiciar todas essas
habilidades que os seres comuns são incapazes, até mesmo, de imaginar.
Cheios de imaginação e possuidores de uma memória incomum, os seres raros
conseguem transformar suas sensações profundas e misteriosas em
parâmetros palpáveis e verificáveis, desse modo possuindo a capacidade de
identificar

e

verificar

a

verdadeira

proporção

de

suas

construções

inconscientes.
Dotados de conhecimentos reservados para poucos, os seres
conscientes possuem parâmetros e cenários múltiplos em sua mente, sem que
com isso se sintam angustiados. A imaginação incomum os permite definirem
com precisão todas as nuances dos processos inconscientes. Essa definição
exata os permitem controlar todas as suas reações, seus medos e assim como
os permitem se desvencilharem dos cenários absurdos e incoerente que nossa
mente é exímia em elaborar.
Perante um universo obscuro traduzido para parâmetros palpáveis, o
indivíduo adquiri interpretações capazes de o tornarem um grande artista,
capaz de desvelar nossos segredos mais profundos, capaz de solucionar
nossos questionamentos mais complexos.
Entretanto, o caminho dos seres conscientes é muito complexo e
tortuoso. Na maioria das vezes eles não são capazes de atingir uma condição
incrivelmente eficiente, sendo mais comumente encontrado a destruição do
gênio e o aparecimento dos mais variados problemas psicológicos.
O ser consciente, quando não pratica sua acuidade mental diferenciada,
pode sofrer por causa da forma peculiar como sua mente trabalha. Neles, a
quantidade absurda de perspectivas desenvolvidas faz com que sintam uma
angústia profunda, que é acompanhada pela impossibilidade que alguma

235

dessas possibilidades se torne exata e irrefutável, que alguma dessas
possibilidades seja capaz de direcionar o indivíduo.
Perante a necessidade de definição, para que suas atitudes se tornem
eficientes, o indivíduo consciente tenta estipular um conceito exato a ser
seguido; no entanto, a mente plural desse indivíduo faz com que ele se sinta
oprimido pelas demais possibilidades que foram abandonadas em função de
uma ideia específica. Na nossa mente, onde as ideias são desenvolvidas em
um cenário à parte da realidade, todas as possibilidades que abandonamos,
em prol de uma em específico, se tornam absurdamente opressivas, a ponto de
obrigar o indivíduo a abandonar sua decisão para que esse retorne a um
estado onde todas as possibilidades ainda são possíveis, desse modo
deixando de serem absurdamente opressivas.
Qualquer uma das escolhas dos seres conscientes irá lhes proporcionar
esse sentimento profundo de angústia, de dor. A realidade não é capaz de
conter todas as magníficas possibilidades que existem nas profundezas da
nossa mente.
No entanto, após algumas tentativas e experiências, o ser consciente
aprende a lição mais valiosa sobre a vida: Nada importa, tudo é irrelevante.
Todos os resultados de suas ações o conduzem a essa conclusão que
transmuta por completo a forma que o indivíduo pensa sobre as cosias.
Percebendo a irrelevância de cada uma de suas proposições, o
indivíduo consciente não mais se preocupa com a angústia que a escolha, de
um parâmetro a ser seguido, costumava lhe causar. Não mais se importando
com nada, não mais sendo incomodado por nenhum de seus desenvolvimentos
inconscientes, o ser consciente torna-se capaz de direcionar sua vontade para
qualquer tipo de coisa, qualquer parâmetro por ele definido.
Mas, junto com a capacidade de direcionar sua força rumo àquilo que a
pessoa racionalmente desejar, a indiferença faz com que a capacidade de se
esforçar em busca da realização de um objetivo seja reduzida, ou, até mesmo,
em alguns casos, seja completamente abandonada.

236

Nesse caso, podemos relacionar a brilhante descoberta de Kant com
relação às nossas ações. Para esse grande pensador as nossas atitudes têm
relação com a com o menor esforço, atributo esse que é correto, e pode ser
verificado quando analisamos as profundezas do nosso ser. Mas, mesmo com
essa suposição previamente comprovada, podemos fazer um adendo a tais
definições, tornando-as ainda mais eficientes.
Nas profundezas da mente a maioria das pessoas possuem um ideal,
um cenário que ameniza o desconforto causado pela realidade e que nos
transporta para um cenário mais satisfatório e aconchegante, que nos faz
sentirmos mais satisfeitos. Esse ideal profundo, que nos impede de sucumbir
ao desespero e nos apresenta um cenário que promete sanar todas as nossas
necessidades mais profundas, é almejado de forma intensa por nós. A todo o
momento não poupamos esforços para que sejamos capazes de atingir esse
estado, esse cenário, que tanto nos encanta. Nesse caso, a proposição do
menor esforço se torna obsoleta, torna-se incoerente para com as atitudes das
pessoas.
Entretanto, muitas vezes, ao longo de nossas vidas, não nos deparamos
com a presença do cenário, que tanto nos agrada, em si, mas sim com atitudes
e ações responsáveis por nos aproximar daquilo que realmente almejamos,
não sendo elas responsáveis por proporcionar, por si só, aquilo que desejamos
desesperadamente. Essas definições secundárias não são absurdamente
relevantes para nós, elas apenas são ações secundárias, que nos aproximam
daquilo que realmente queremos, mas não nos fornecem o desejo em si.
Nesse caso, a lei do menor esforço é exata e traduz exatamente o modo
como agimos. Sem darmos muita importância a essa conduta secundária,
tentamos, a todo o momento, encontrarmos atitudes mais econômicas, que
exijam o mínimo de esforça da nossa parte, para que possamos economizar
energia em uma tarefa, até certo ponto, irrelevante, dessa forma fazendo com
que armazenemos energia para ser utilizada com atitudes que realmente
poderão proporcionar aquilo que desejamos profundamente.
Essa força selvagem e profunda, que é gerada em função do desespero
e dos nossos ideais, e que faz com que tentemos e arrisquemos as mais
237

variadas coisas, não está presente nos seres de intelecto avançado. A mente
superdesenvolvida desconstrói qualquer tipo de ideal profundo, assim como
afugenta os medos e os cenários desesperadores.
É engraçado quando vemos autores dotados de um intelecto
diferenciado tentarem procurar uma definição exata para seus ideais, para a
forma de ser e seus objetivos. Esses autores parecem não ter adquirido
conhecimentos mais profundos e relevantes, e, de posse de uma concepção
um tanto quanto limitada, são eles os responsáveis por defender a não ação,
assim como defendem uma atitude reflexiva em excesso que não os conduzem
a lugar algum.
Sartre e Thomas Mann são os expoentes famosos desse tipo de
mentalidade semievoluída. Em seus livros podemos perceber a presença da
falta de percepções profundas e mais condizentes com a realidade das coisas.
A não ação dos heróis dos livros desses autores apresentam aspectos e
pensamentos limitados, que evidenciam a inexistência de uma consciência
profunda e reveladora. Perante questionamentos covardes e desnecessários,
algumas vezes as histórias são resgatadas com resoluções ainda mais
descabidas e limitadas, onde, em um caso específico e famoso, o personagem
defini uma estrutura específica em sua mente, não se desvencilhando daquilo
que uma imposição alheia teria feito, da mesma forma; a consciência primitiva
do personagem apenas fez com que ele se desvencilhasse de uma definição,
alheia a ele, de sua vida para que o mesmo fosse o responsável por criar uma
concepção limitada sobre as coisas.
Na contramão desses autores, até certo ponto, limitados encontramos
Musil, Nietzsche e Camus. Defensores da ação e da indiferença, esses
escritores, incomuns e muito conscientes, nos apresentam parâmetros que se
aproximam da realidade das coisas, e nos fornecem ferramentas que nos
permitem

nos

desvencilharmos

da

sensibilidade

nervosa,

dos

desenvolvimentos inconscientes e da definição exata e limitada das coisas, que
sempre nos fornecem perspectivas irreais e ineficientes.
Deparados com as construções mais realistas e racionais desses
autores, vemos o quanto nossas ações são irrelevantes, assim como as
238

consequências das mesmas. E é nesse mundo indiferente que passamos a
mensurar nossas atitudes; nele definimos qualquer tipo de ideal e de
construção profunda, sem nos importarmos com aquilo que nosso inconsciente
assume para tais definições.
Nos indivíduos conscientes, a falta de conceitos definidos com precisão,
ausência essa que os impede de possuírem uma vontade selvagem e
inconsciente, pode ser substituída por uma estruturação constante e
indiferente, que conta apenas com aspectos estritamente racionais, desse
modo criando uma necessidade intensa que seja controlada pelo indivíduo. A
cada momento esses seres incomuns são capazes de estruturar seus ideais,
se arriscam incansavelmente; não em busca de uma necessidade profunda e
misteriosa que nos move, pois a muito eles já entenderam e não mais se
importam com ela, mas pura e simplesmente por vontade de jogar, de brincar,
de arriscar, de experimentar, de viver.

239

Os arquétipos e a consciência

Desde sempre o espírito é um mistério; investiga-lo é impossível,
restando a nós apenas suposições inverificáveis, que por mais que tentemos
validá-las, nunca conseguimos considera-las como sendo 100% verdadeiras.
Considerado como sendo a parte mais profunda e essencial do intelecto, o
espírito foi classificado como o propulsor da vida, da ação; dizem que ele está
em contato com todas as coisas e possui desejos que não podem ser
desvendados por nós. Como entidade mais próxima ao espírito, encontramos o
arquétipo, que é considerado uma transferência do desejo descontrolado e sem
formato do espírito para uma imagem externa, uma possibilidade que promete
sanar os nossos desejos profundos e imperscrutáveis.
Nos sonhos deparamo-nos com símbolos que representam os
arquétipos e os conteúdos inconscientes da nossa mente. As profundezas do
intelecto são identificadas como sendo ambíguas, variando entre o bem e o
mal, variando entre dois extremos. Em meio a esses extremos, de plenitude e
de completa aniquilação, são feitas associações espontâneas e inconscientes;
essas associações fogem ao nosso controle consciente, e raramente são
identificadas. Todas as situações que vivenciamos são desenvolvidas pelo
inconsciente, ele faz associações a memórias, assim definindo uma
interpretação para a situação com a qual nos deparamos, que se enquadra em
apenas duas possibilidades: redentoras ou destruidoras da vida. As
profundezas do intelecto operam apenas através do tudo ou nada, sem meio
termo.
Mesmo deparados com o extremismo da nossa mente, não nos
sentimos impotentes perante as construções conceituais inconscientes. Ao
longo da vida conseguimos verificar o quanto nossos conceitos são infundados;
essa discrepância, entre aquilo que a mente define e a realidade, leva-nos à
desconstrução e à diminuição da intensidade de muitos de nossos conceitos.
Essa

reestruturação

consciente

elimina

os

exageros

conceituais,

proporcionando uma base conceitual mais coerente e real.
240

No entanto, muitos de nossos arquétipos e interpretações exageradas
permanecem longe de nossa percepção, influenciando-nos em todas as nossas
ações, causando desconforto e desespero, sem que possamos fazer nada para
alterar esses exageros, pois não conseguimos identifica-los, o que não nos
permite reestruturar esses conceitos de maneira consciente e condizente com
a realidade.
Para conseguirmos identificar os nossos motivos profundos é preciso
que ampliemos a nossa percepção, tornando-a capaz de enxergar mais
profundamente. Uma pessoa dotada de uma percepção abrangente é capaz de
identificar os agentes externos que lhe incitam sensações, assim como é capaz
de perceber a maneira como são estruturados os seus conceitos.
As características mais marcantes dos indivíduos dotados de uma consciência
avantajada são o olhar vazio e a ausência de sentimentos. A consciência ampla
é uma habilidade raríssima, e permite a desconstrução de qualquer arquétipo,
de qualquer conceito. Infelizmente, a desconstrução de qualquer estrutura da
mente pode conduzir a um estado de apatia extrema, uma condição de não
agir, que é almejada pelo indivíduo. Em uma consciência de senso crítico
afiado e percepção profunda, a construção de um objetivo torna-se uma tarefa
dificílima.
O último estágio da consciência humana é denominado o controle
absoluto, onde a pessoa é capaz de desconstruir e construir aquilo que ela
quiser. Essa condição psíquica é ainda mais rara; nela, o indivíduo torna-se
capaz de enganar a si próprio, estabelecendo conceitos e condições
imaginárias, que o permitem alcançar o modelo existencial que foi proposto de
forma racional.

241

“E durante mais uma de minhas caminhadas matinais sem rumo, um
acontecimento, totalmente diferente de qualquer outro que vivenciei durante
essas caminhadas irrelevantes, me influenciou de forma violenta. Vi um
verdadeiro ser humano, ele estava acordado e parecia capaz de controlar
todos os seus movimentos, todas as suas reações; seu olhar chegava a ser
assustador, era profundo e parecia enxergar tudo à sua volta.”
Autor desconhecido

242

Escrito aleatório
Sinto que estou próximo a mais um daqueles momentos onde minha
mente parece transbordar e é preciso encontrar uma válvula de escape para
dispersar todo esse turbilhão, que, se não direcionado a algo, pode acabar por
incomodar ainda mais. No entanto, não me incomodo com esse ímpeto
profundo, que sempre se acumula em mim e exige um ato que prometa sanar
alguma carência profunda da nossa mentalidade, muito pelo contrário, gosto
dele; ele impulsiona tentativas, jogos, decisões, e isso é bom, satisfazer a
necessidade mais profunda da existência não é o suficiente para mim.
Por fim, deixo-me enganar; crio uma alma para mim, e jogo, e brinco, e
me divirto, e experimento, e arrisco, geralmente faço todas essas coisas ao
mesmo

tempo,

é

interessante.

Mas,

mesmo

nesse

meu

ambiente

extremamente consciente, às vezes me surpreendo; quase sempre essa
surpresa ocorre pelo fato de eu ver alguém realmente levando algo a sério;
quando me deparo com isso, fico me perguntando: “ Será que essa pessoa não
conhece as coisas de verdade?” “Por que ela leva tudo tão a sério?” Não perco
muito tempo com esses pensamentos, uma breve observação torna evidente o
quanto essas pessoas, que me assustam, são ignorantes e cegas; sem
possuírem a capacidade de pensar por si próprias elas perseguem ideais
inalcançáveis, elas estão sempre se distraindo, correndo atrás de algo e
evitando, a todo custo, qualquer momento de reflexão, por menor que seja.
Sem questionarem nada, sem realmente entender nada, essas pessoas vagam
cegas pela vida, criando almas diminutas, imutáveis e inquestionáveis, o que
faz com que o verdadeiro desejo da mente permaneça ainda mais distante,
ainda mais inalcançável. Essa distância absurda, entre aquilo que somos e
aquilo que realmente queremos, faz com que as pessoas se sintam
extremamente impulsionadas a fazer algo para alterar essa sua condição, faz
com que elas se sintam cheias de energia, e prontas para direcionarem essa
energia para alguma atividade, para alguma válvula de escape que prometa
sanar o nosso desejo mais profundo. Ver essas pessoas traçarem objetivos e
se arriscarem em empreitadas e tentativas intermináveis me incomoda; uma
vida inexplorada e em completa ignorância sempre me incomodou, e muito.

243

Entretanto, não me revolto por completo com essas pessoas, que
infelizmente são a maioria daqueles que encontro no dia-a-dia, pois, até
mesmo eu, com o auxílio de todo o meu conhecimento, às vezes não consigo
estabelecer uma meta que me incentive a agir. Meu mundo despreocupado é
perfeito, ele se aproxima da realidade, mas não quero viver como um asceta,
que abandona o mundo estruturado pelos seres humanos e vive encerrado em
meio ao seu êxtase absoluto, em meio ao seu conhecimento perfeito e
abrangente; esse tipo de existência asceta é absurdamente apática, é
absurdamente estática. Eu sei que nada realmente importa, mas é preciso que
ampliemos o nosso conhecimento, ampliemos nossas experiências, e para que
isso ocorra é preciso que arrisquemos de verdade, e para arriscarmos de
verdade é preciso que nos iludamos, é preciso que acreditemos que aquilo a
que nos propomos fazer irá realmente proporcionar o que a nossa mente
realmente almeja. É nesse tipo de ilusão construtiva que me proponho a brincar
de vez em quando, mas que às vezes não sou capaz.
Não sei ao certo qual é o motivo dessa minha incapacidade; sei que não
é preguiça, nem medo de perder tempo com algo — a muito já deixei de sentir
isso, e foi uma longa jornada até que eu me desvencilhasse desse medo de
perder tempo e do afunilamento da vida —; o que ocorre é um pouco mais
complexo: a minha imaginação, por mais poderosa que me pareça ser, às
vezes não consegue instaurar os motivos certos, que me incitem a dedicar-me
a alguma tarefa em específico.
Não é sempre que essa incapacidade ocorre, para falar a verdade, ela é
um tanto incomum. Antigamente, a incapacidade de me dedicar a um ideal
criado por mim era ainda mais recorrente, sendo praticamente constante;
naquela época eu poderia me surpreender se me dedicasse a alguma atividade
que eu realmente desejasse. Felizmente, tudo mudou quando consegui
identificar uma estrutura psíquica destrutiva, que me incitava a agir, quase que
desesperadamente. Talvez, essa minha classificação pareça estranha, mas ela
é mais simples do que parece; Jung caracteriza-a como sendo a sombra, como
sendo uma condição absurda que proporciona uma quantidade absurda de
ímpeto e energia; a sombra pode ser considerada um momento de desespero
extremo, onde aquilo que mais importa para nós está prestes a ser aniquilado,
e, perante a destruição da nossa representação do mundo, arriscamo-nos sem
244

pudor, sem receios, para que possamos salvar aquilo que para nós é
importante. Após identificar a minha sombra, passei a utilizá-la constantemente,
com o intuito de me dedicar aos objetivos que eu propunha para mim.
Outro aspecto que facilitava a definição de qualquer objetivo era a
ausência de arquétipos; por não possuir um ideal, eu me sentia cheio de
energia, cheio de vontade — em alguns momentos essa vontade chegava a ser
assustadora, por causa de sua potência e a falta de um ideal que amenizasse
toda essa potência violenta —; sem objetivos pré-estabelecidos, tornei-me
capaz de direcionar minha vontade para onde eu bem entendesse, sem que
para isso fosse preciso me desvencilhar de uma estrutura, de uma forma de me
posicionar perante o mundo, tarefa que exigiria muito, muito mesmo, de mim.
Talvez, desvencilharmo-nos de um arquétipo seja uma das tarefas mais
complicadas que existem, mas após realizada nosso conhecimento e controle
sobre o intelecto se tornam absurdamente desenvolvidos.
Todas essas características me proporcionaram habilidades incríveis;
todo o meu conhecimento, conquistado com muito sangue e suor, permitia que
eu enxergasse o mundo e a vida de forma abrangente, da forma mais próxima
daquilo que as coisas realmente são, sem que me sentisse oprimido perante
tantas possibilidades, tanto vazio, tantas dúvidas, tantas impressões.

245

“Nós

sempre

estamos

culpando

outras

pessoas,

colocando

a

responsabilidade daquilo que consideramos como sendo tragédias cotidianas
sobre qualquer coisa que não seja nós mesmos, desse modo eliminando a
culpa que, caso contrário, recairia sobre nós, que nos faria sentir como se
fossemos culpados por muitos dos acontecimentos ruins, que tanto nos
incomodam. Além dessa autoproteção natural, fugimos loucamente da falta de
precisão, quando se trata da definição de fenômenos, de acontecimentos; sem
suportarmos as consequências da falta de definição das coisas à nossa volta,
criamos as mais variadas explicações preconceituosas e infundadas.
Todas essas características têm relação com a fragilidade humana, com
a fragilidade do nosso intelecto, com a incerteza dos nossos conceitos e com
nossos desenvolvimentos inconscientes incoerentes. Todos esses aspectos
primitivos devem ser superados!”
Autor desconhecido

246

Um ambiente complexo exige um ser complexo

Minhas análises são complexas, abrangentes e ininterruptas; desde
sempre me esforcei para fortalecer o meu espírito, e hoje posso considerá-lo
forte, imponente, inabalável e incansável.
Em cada nova tarefa, em cada novo ambiente ou situação, que exigem
uma construção conceitual quase que completa, não me sinto cansado,
aterrorizado, ou impotente, acuado, com minha alma se tornando diminuta e
insegura, a ponto de introduzir em minha mente o desespero profundo e
insuportável, que abastecia meu corpo com uma energia proveniente das
profundezas do intelecto, e que era direcionada, com violência, a uma tarefa
que prometia, ao menos em minha mente, expandir minha alma, até que essa
atingisse as dimensões do espírito, dessa forma sanando meu desejo
primordial. Essas características, antes tão comuns, tornaram-se parâmetros
longínquos, que não mais estão presentes em minha vida, em minhas atitudes.
Diferenciando-me, por completo, daquele indivíduo que eu era há, o que
passou a ser, muito tempo atrás, hoje me sinto completamente separado de
uma concepção individual primitiva, anteriormente primordial e inquestionável,
que impunha concepções pré-determinadas à minha alma. Sem um
direcionamento fisiológico e limitado, sinto-me capaz de estruturar qualquer tipo
de arranjo da alma, tornando-a maleável e independente de aspectos físicos, e
direcionados

estritamente

às

minhas

particularidades,

sem

levar

em

consideração parâmetros exteriores a mim.
Desde que adquiri esse arranjo psíquico, que considero evoluído, torneime capaz de sentir aquilo que muitos classificam como sendo o nirvana, a
realização do desejo primordial do intelecto. Quando um arranjo de alma não
mais me é necessário, eu simplesmente o abandono, deleto, e, por um
curtíssimo período de tempo, sinto a satisfação mais sublime, mais perfeita;
possuindo a máxima potência possível, sinto-me ocupando toda a dimensão do
espírito, sinto-me pleno, em êxtase. Mas esse acontecimento dura muito

247

pouco, logo minha mente estrutura um novo arranjo de alma e me vejo
apartado da satisfação mais sublime.
Durante o retorno do nirvana, o ambiente, no qual estou inserido, e que
foi percebido por mim sem filtros, sem deslocamentos, em toda sua intensidade
exacerbada, vai sendo reconstruído, e, às vezes, adquiri uma interpretação
completamente diferente daquela que anteriormente direcionava e ocupava a
minha mente.
Tendo consciência desse arranjo abrangente, empenho-me, muito
raramente, em sentir o nirvana, pois, na maior parte do tempo, encontro-me
atarefado, preocupado em estruturar uma alma e um espírito que melhor me
situem em meio ao ambiente e aos meus objetivos, tarefa essa que exige uma
construção contínua, acumulativa, tornando-a, desse modo, uma estrutura que
eu não gostaria de abandonar tão facilmente, ou, melhor dizendo,
desnecessariamente.
Após a elaboração e a implementação de todos esses conceitos, que
considero incrivelmente condizentes com tudo aquilo que percebo, que sinto,
considero-me detentor de habilidades e de conhecimentos raros, que me
permitem tornar-me mais eficiente e abrangente, fazendo com que o cenário
complexo e múltiplo da existência, que se aproxima da realidade, não mais seja
penoso para mim.

248

“— Suas impressões são precisas, Ulrich, mas você é incapaz de
direcioná-las a um objetivo, a uma meta. Suas interpretações — por mais que
eu tente refutar e enxergar como erradas, pois você possui uma constituição
que muito me impressiona, e que me faz sentir receoso perante minhas
crenças e características mais profundas — relatam, com precisão espantosa,
a realidade e a natureza das pessoas. Fico impressionado quando tento
constatar a veracidade de suas interpretações; utilizando-as como base para
minhas análises, enxergo aspectos que contêm uma lógica muito aquém da
minha capacidade de observar e classificar as coisas.”
Autor desconhecido

249

Alguns aspectos da sensibilidade

Após retornar de um ambiente agitado, onde uma grande quantidade de
acontecimentos ocorriam ao mesmo tempo, permitindo o desenvolvimento de
uma infinidade de linhas de pensamento — característica essa que poderia
incomodar uma mentalidade que não possui um arranjo exato e cegamente
direcionado a algo —, ele se deitou, mentalmente exausto, na cama. As mais
variadas impressões — que o ambiente agitado lhe suscitara — vagavam
descontroladas pela sua mente. Longe de qualquer tipo de controle mais
efetivo de seus pensamentos, ele se sentia como que “pensado”, observando,
atônito, todos os desenvolvimentos sem fim.
Seu

espírito

era

impelido

a

reconstruir,

constantemente,

suas

construções conceituais, em função das situações que eram desenvolvidas por
ele. Esse acontecimento era exaustivo, fazendo com que seu cérebro
chegasse, até mesmo, a doer; dor essa que era facilmente justificada, pois
habitualmente

nos

deparamos

com

a

nossa

constante

recusa

em

reestruturarmos nossos conceitos, pois a construção do cenário à nossa volta é
sempre cansativa, exigindo um esforço intelectual incomum, cansativo. Se uma
pequena mudança é capaz de deixar qualquer um cansado, ou, em alguns
casos não tão raros, desesperados, imagine uma mudança constante,
ininterrupta.
Esse aspecto, por si só, é digno de condolência, entretanto, aquilo que
vinha junto com essas mudanças abruptas e contínuas eram interpretações
exageradas, extremistas, que a mente é exímia em elaborar, e que faziam com
que ele se sentisse constantemente desesperado ou absurdamente satisfeito,
característica essa que agravava ainda mais a situação, já exaustiva, tornandoa digna não apenas de condolências, mas sim da compaixão mais profunda e
sincera.
Esse homem complexo — que agora se encontrava esparramado pela
cama —, possuidor de um dom que mais parece uma maldição, era um

250

combatente à altura das condições que a vida lhe apresentava. Ele
constantemente tentava criar ideais, com o intuito de que eles iriam eliminar a
hiperatividade da mente e restringir a quantidade imensurável de informações
que a realidade nos apresenta. Após várias tentativas ele havia se tornado um
habilidoso construtor de ideais; ele se esforçava para estabelecer ideais
longínquos, que se encontrassem distantes de uma verificação minuciosa, pois
ele sabia, desde sempre, que a realidade é extremamente eficiente quando se
trata de desconstruir ideais. No entanto, para uma mentalidade cética,
abrangente e de senso crítico apurado, como a dele, os ideais longínquos e
inverificáveis eram impossíveis de ser construídos, restando-lhe apenas um
tipo de construção de ideal, sendo ele mais verificável, próximo, plausível,
lógico; característica essa que, por causa da proximidade, fazia com que
qualquer ideal fosse de difícil manutenção.
Tendo em vista esses parâmetros, ele se esforçava para observar
qualidades sublimes nas coisas, para depois, afastando-se daquilo que
primeiramente lhe encantava e fornecia conceitos muito úteis para a
construção de um ideal, desenvolver em sua mente, que sempre exagerava, o
ideal que passava a preencher e direcionar sua existência. Preocupando-se em
não manter contato com os ideais que eram tão arduamente construídos, ele
conseguia evitar que a realidade desconstruísse suas construções, permitindolhe manter, por muito tempo, conceitos que limitavam as suas impressões.
Ainda deitado na cama, ele incitava a lembrança de seu ideal mais
habilmente construído, organizando seu espírito em função dessa lembrança e
fugindo das inumeráveis impressões que tanto o atormentavam. Mesmo
possuindo a habilidade de estabelecer ideais para si, ele, ainda assim, se
preocupava em fortalecer sua mente, seu espírito, para que em um futuro, que
ele esperava não ser muito distante, sua mente adquirisse a sabedoria e a
força necessária para que ele se tornasse capaz de encarar a realidade sem
subterfúgios, sem ideais, em sua incrivelmente alucinante multiplicidade.

251

Escrito experimental

Antigamente, eu não era capaz de desconstruir minhas impressões e
objetivos inconscientes. Naquela época eu ainda não possuía a profundidade
de

pensamento

que

possuo

atualmente,

assim

como

não

possuía

conhecimento suficiente para que me tornasse vitorioso, em minha empreitada
corajosa, em busca da obtenção do controle absoluto dos meus pensamentos.
Desde pequeno eu possuía pensamentos incomuns. Minha primeira
lembrança ocorreu quando eu tinha apenas 3 anos, e, junto com ela, vi-me
inundado por reflexões complexas. Em minha primeira lembrança eu estou
perdido em uma praia, andando desesperado, procurando pela minha família
que deveria se encontrar em algum lugar por ali. Cada novo grupo de pessoas
que encontro, e que verifico não ser a minha família, faz com que meu
desespero aumente; no entanto, em meio a essa procura intensa, eu paro por
um instante; percebendo a minha falta de parâmetros para descrever aquilo
que seriam meus parentes; eu me concentro para ser capaz de definir, com
precisão, aquilo que procuro, para estabelecer, com exatidão, o lugar onde
pertenço. Essa tarefa de classificação não dura mais do que um breve período;
sem obter sucesso, eu me senti ainda mais desesperado, percebendo que não
possuía qualquer tipo de parâmetro que definisse o lugar onde eu deveria
estar, as pessoas com quem eu deveria estar. Esta constatação agravou ainda
mais, ainda mais, a minha condição já delicada, fazendo com que as lágrimas
começassem a deslizar, de maneira ininterrupta, pelo meu rosto. O cenário que
se formava em minha mente era o mais desesperador, o mais absurdamente
assustador e obscuro.
No auge do meu desespero, o mundo à minha volta começou a
apresentar aspectos incomuns, que se distanciavam da realidade com a qual
eu sempre estive acostumado. Em meio a minhas vertigens, provenientes de
um medo incomum, que se alastrou rapidamente pela minha mente, fazendo
com tudo à minha volta apresentasse proporções exageradas e irreais, fiquei
petrificado perante o cenário que era construído pela minha mente, sendo ele

252

muito aquém de qualquer possibilidade real, muito aquém de qualquer tipo de
controle que poderia ser exercido por mim.
Não aguentando mais o desespero, eu me dirigi até uma família que me
pareceu ser receptiva. Ao chegar, eu mal conseguia pronunciar qualquer tipo
de sentença coerente. Felizmente, eles logo perceberam a minha situação e
me levaram até um quiosque, onde fui anunciado por dois cantores que
estavam tocando lá. Uma de minhas tias se encontrava nas proximidades do
quiosque e me reconheceu. Ela agradeceu à família que havia me encontrado
e me levou de volta ao lugar onde eu deveria estar, onde eu pertencia.
Entretanto, eu não senti aquilo que esperava sentir, mas muito pelo contrário,
eu me senti ainda mais confuso.
Meus momentos desesperadores, enquanto eu estava perdido na praia,
fizeram com que eu pesasse a refletir mais pormenorizadamente sobre o local
onde eu pertencia. Ainda mantendo essa minha forma recém adquirida de
analisar, olhei para as pessoas à minha volta, para o lugar onde eu deveria
pertencer, e, por mais que eu me esforçasse, não consegui encontrar nenhuma
característica que me fizesse sentir pertencente àquele lugar.
Essa minha primeira lembrança é um cenário que sempre esteve
presente em minha vida; sempre que tento descrever essa experiência a narro
como se ela se encontrasse no presente, pois é dessa forma que a memória
funciona. Quando nos lembramos de algo, fazemos com que ele se torne real
novamente, fazemos com que ele se torne o nosso presente, e foi desse modo
que enxerguei o acontecimento na praia enquanto o narrava. Novamente me vi
percorrendo aquele local aterrorizante, que mudou minha vida para sempre.
Como naquela época minha percepção ainda era diminuta, o cenário onde
essa situação ocorreu é escasso em minha mente, carecendo de referências e
de aspectos mais abrangentes, que eu me policio sobre maneira para não
reconstruir, tendo como objetivo, com essa não construção, a conservação das
características do acontecimento original, sem contaminá-lo com interpretações
e conhecimentos posteriores, que poderiam deturpar a minha experiência
original.

253

Essas lembranças, que são frequentes, me mostram o quanto nossas
interpretações e o mundo, que serve como base para a elaboração dessas
concepções, são discrepantes, fazendo com que aquilo que enxergamos seja
extremamente relativo, virtual. Desde pequeno, após analisar algumas das
minhas memórias, eu percebia que havia a realidade, algumas características
percebidas por nós - em meio à infinidade de aspectos que possui a realidade
— e o mundo virtual que nossa mente criava para definir a realidade, tomando
como base os poucos aspectos percebidos por nós. Junto com essas
interpretações eu percebia o quanto nossas impressões sobre as coisas eram
mutáveis, bastando apenas uma pequena mudança de perspectiva para que
criemos um cenário, uma interpretação da realidade, completamente diferente
daquilo com o que estávamos acostumados a enxergar.
Desde muito cedo eu enxergava as coisas dessa forma, e desde muito
cedo eu ficava impressionado com as resoluções exatas, as interpretações
precisas das pessoas, que encaravam a realidade como sendo exatamente
aquilo que elas pensavam ser. E, retornando à falta de pertencimento que
passei a sentir quando me encontrava junto à minha família, sentia-me sempre
impressionado em meu ambiente familiar, que possuía respostas exatas e
imutáveis para todos os questionamentos, característica essa que me fez
sentir, ainda mais, como se eu fosse um estrangeiro.
Com o tempo minha discrepância passou a incomodar todas as pessoas
com as quais eu convivia. Minha pluralidade e a falta de parâmetros
específicos era nociva para todos aqueles que cultivavam, desde sempre, um
ideal, uma meta, que os iludia e tornava a existência suportável. Para todos os
iludidos eu representava a pior das ameaças; meu jeito os fazia questionarem
seus ideais mais profundos e entorpecedores. Quando eles sentiam seus
serem refutados, quando eles viam suas proposições absurdas e irreais se
perdendo e não mais sendo capazes de esconder o vazio doloroso, eles se
voltavam contra aquele que incitou esses acontecimentos deploráveis; dessa
forma todos eles se voltavam contra mim, todos eles queriam rebaixar e
desmerecer as minhas opiniões, a minha personalidade, a minha forma de
enxergar as coisas. Todos almejavam me rebaixar, para que minhas opiniões
fossem consideradas absurdas e provenientes de alguém sem razão, sem
254

coerência, dessa maneira sendo eles capazes de afugentar e ignorar aquilo
que ameaçava seus ideais.
Toda a hostilidade que havia contra mim, às vezes me fazia questionar
minha maneira incomum de ser; no entanto, eu nunca conseguia me submeter
aos conceitos daqueles que tanto me odiavam. Por mais que eu me
concentrasse para elaborar análises pormenorizadas e extensas, sempre me
sentia incapaz de encontrar um raciocínio lógico irrefutável nos parâmetros tão
essenciais e inquestionáveis das pessoas à minha volta.
Cada vez mais isolado, cada vez mais discrepante, cada vez mais
desprezado por todos, eu comecei a achar que possuía uma constituição que
me diferenciava de todas as outras pessoas, e, por ser incapaz de encontrar
alguém com quem me sentisse seguro para me relacionar, alguém que se
parecesse comigo, que provavelmente me entenderia, tornei-me ainda mais
reservado e recluso.
Sem nunca conseguir concordar com nada que me era apresentado, e
vivendo completamente isolado de tudo e de todos, tomei a decisão de tentar
intensificar minhas buscas para encontrar alguém que se parecesse comigo.
Direcionei essa minha empreitada rumo aos livros, rumo às constituições
raríssimas, que talvez poderiam me fazer companhia. Como eu não
concordava com nada, entrei em um site de busca e iniciei minha procura por
pessoas com as quais eu poderia me identificar com a seguinte frase: Autores
que não concordam com nada. Minha busca teve como resultado um autor com
quem eu passei a me identificar de modo incomum, sendo ele o filósofo
Friedrich Nietzsche.
O primeiro livro dele que li foi: Para além do bem e do mal. Fiquei
fascinado com o livro, desde a primeira página. Meu senso crítico apurado,
finalmente, encontrou algo incapaz de ser profundamente desprezado, assim
como a minha busca incessante por uma família, que percebi nunca ter
possuído, finalmente foi recompensada, finalmente eu havia encontrado algo
com o que poderia me relacionar.

255

Meu novo amigo passou a me acompanhar em todos os lugares; sempre
quando possível eu tentava ler alguma passagem de seus livros geniais. Muitas
vezes eu permanecia imóvel, em algum canto da minha casa, pensando sobre
as mais variadas informações contidas nos livros, tentando, de uma forma
exaustiva, aprimorar, o máximo possível, o jeito como eu pensava, enxergava e
classificava as coisas.
As proposições com as quais me identifiquei nos livros de Nietzsche
foram suas críticas ao cristianismo, sua crítica à moral – à definição
inquestionável, dogmática, daquilo que seria o bem e o mal – e por último, mas
não menos importante, fiquei fascinado com a definição do autor daquilo que
seria o nosso impulso mais profundo e essencial, sendo ele a vontade de
potência. Essas foram apenas algumas das ideias que mais me agradaram,
mais me impressionaram, pois tudo em seus livros era mágico, transformador.
Tenho de admitir que muitas críticas contidas em seus livros me
passavam despercebidas, por causa da minha falta de conhecimento daqueles
que eram criticados. Mesmo com a minha falta de erudição, não me
desvencilhava da tarefa de entender tudo o que os seus livros propunham.
Constantemente me via em meio a pesquisas intermináveis sobre Immanuel
Kant e Arthur Schopenhauer, filósofos que me vi obrigado a conhecer, por
serem constantemente citados nos livros.
Após vários livros, tornei-me incapaz de me imaginar antes de absorver
todo aquele conhecimento, não mais conseguia me enxergar como não
possuindo um pensamento refinado e uma constituição conceitual múltipla.
Infelizmente, meu conhecimento fez com que me tornasse ainda mais
discrepante, ainda mais incomum, ainda mais nocivo às ilusões que todos
nutriam; como um Sócrates contemporâneo, eu saía por aí, sem rumo,
enxergando em demasia e destruindo qualquer ideal que as pessoas tentavam
impor a mim.
Não demorou muito para que as conversas das pessoas à minha volta
se tornassem insuportáveis para mim. Sentindo que ninguém tinha nada de
relevante a dizer, tornei-me recluso, isolando-me em mim mesmo; tranquei-me

256

em minha mente e decidi aprofundar ainda mais meus conhecimentos sobre a
psique.
Descobri que a interpretação que eu fazia do ambiente à minha volta era
classificada como sendo o espírito. Possuindo uma definição mais precisa para
um dos assuntos que tanto me interessavam, comecei a aprofundar ainda mais
meus conhecimentos sobre o espírito, tomando como referência minhas
próprias experiências e alguns livros. Desde o princípio percebi que a tarefa à
qual me propunha seria extremamente complexa e perigosa. Em contraposição
àqueles que se autointitulavam pesquisadores da psique, eu realmente
analisava e sentia as informações e parâmetros aos quais me empenhava para
desvendar e compreender. Os poucos leitores e professores que conheci
fizeram com que eu passasse a desprezar o conhecimento adquirido em
universidades,

em

instituições

de

ensino.

Para

mim,

todos

os

pseudointelectuais, que frequentavam e estimavam as instituições de ensino
que tanto me enojavam, careciam de um espírito amplo e múltiplo, assim como
careciam de imaginação e conceitos próprios. Passei a considerar os
universitários como sendo pessoas que possuíam espíritos duros, inflexíveis;
como possuindo uma alma exata e única, cheia de mecanismos de proteção;
como sendo quase que completamente inconscientes e incapazes de
realmente enxergar algo; por fim, considerava-os nada além do que exímios
repetidores de conceitos, sem nunca terem a capacidade de realmente
verificarem aquilo que falavam com tanta convicção. Infelizmente, por mais que
eu tentasse, nunca consegui refutar essas minhas impressões. Essas
características fizeram com que eu me tornasse um explorador solitário, por
mais que eu não desejasse isso.
Às vezes, eu me deparava com pessoas que realmente possuíam algum
aspecto interessante, que

realmente

poderia me ajudar em minhas

investigações. Infelizmente, todas essas pessoas realmente interessantes, que
lidavam com emoções avassaladoras e conceitos complexos, eram miseráveis,
assustadoramente miseráveis e destruídas pelas profundezas do intelecto.
Eu nunca conseguia manter contato por muito tempo com esses que
caracterizei como sendo meus verdadeiros professores. Todos eles acabavam

257

por adquirir algum vício – sendo esse vício tanto químico quanto
comportamental, nos dois casos os verdadeiros problemas eram simplesmente
ignorados, abandonados, para que em seu lugar surgisse uma condição
superficial e aceitável de existência -, ou se suicidavam, ou eram
diagnosticados como possuindo os mais variados problemas, que lhes rendiam
receitas médicas intermináveis, fazendo com que os remédios os tornassem
zumbis, fazendo com que as questões complexas e os sentimentos
avassaladores fossem abandonados de imediato. Logo após um breve período,
todos eles perdiam por completo suas características profundas, lindas e
incomuns, restando apenas o rosto apagado daquilo que um dia foi um
verdadeiro ser humano. Sempre que encontrava essas pessoas raras e
passageiras, tentava absorver o máximo de conhecimento possível, tentava me
aproximar delas da forma mais abrangente e sincera, desvendando tudo o que
tinha para ser descoberto, de forma acelerada e ininterrupta, pois meu tempo
com esses seres raros era sempre limitado, escasso, nunca demorava muito
para que eles se perdessem por completo.
Percebendo a fragilidade da nossa mente, não mais repudiei os
intelectuais universitários em demasia. Percebi o quanto é perigosa a verdade,
o quão facilmente ela pode destruir uma pessoa, mesmo sendo essa pessoa a
mais forte de todas. Por um momento eu valorizei a moral, artifício esse que
permitia os homens se manterem na superfície do intelecto, sem se arriscarem
em demasia. No entanto, por mais que sentisse medo de mergulhar no
intelecto, não conseguia suportar os conceitos morais e as teorias que tinham
muito pouca relação com a realidade; não consegui suportar os universitários
fazendo discursos sobre o certo e o errado, sem qualquer tipo de sentimento
ou relação profunda, como se esses conceitos fossem a mesma coisa, nada
além do que regras sem relação nenhuma com a existência. Por mais que eu
sentisse medo, decidi não possuir uma existência falsa e superficial; a busca
pela verdade passou a ser meu objetivo mais profundo.
Em meio à minha mais recente resolução, às vezes me perguntava:
quanto de verdade serei eu capaz de encarar sem que me destrua, assim
como um de meus verdadeiros professores?

258

Será que alguém é capaz de enxergar como eu?

Mesmo sendo esse um conjunto de escritos despretensiosos, ainda
assim me preocupo em transmitir, com precisão, minhas impressões para os
leitores. Infelizmente, não conto com amigos e colaboradores, que poderiam
me ajudar a desenvolver o conteúdo e a apresentação de algumas passagens,
de algumas ideias que tento colocar no papel. Por causa disso permaneço
meio receoso com relação àquilo que minhas palavras irão suscitar na mente
das pessoas; talvez algumas sejam incapazes de enxergar aquilo que pretendo
expressar, e nesse caso me sinto como sendo o principal culpado. Essa
característica faz com que eu releia, constantemente, cada passagem, cada
construção, tentando, toda vez que releio, interpretar meus escritos com uma
nova mentalidade, para que possa transmitir minhas ideias de uma forma que
será compreendida por todas as pessoas, sem exceção.
Sei que não irei obter sucesso nessa minha empreitada, mas, mesmo
assim, faço o meu melhor, tentando transmitir minhas ideias discrepantes, que
possuem uma lógica muito mais abrangente do que muitos outros modelos
previamente analisados por mim.
Entretanto, sei que a denominação de uma lógica superior para os meus
escritos é quase que um pleonasmo, uma repetição desnecessária. Quase
sempre nossos escritos nos parecerão possuidores de uma lógica superior,
pois eles abarcam exatamente aquilo que percebemos, que sentimos. Essa
característica reforça, ainda mais, a necessidade de que cada um desenvolva
suas próprias crenças e modelos para as coisas, pois cada mente é um
universo particular, onde nós mesmos somos os autores mais habilitados na
tarefa de criar sentido, de definir aquilo que percebemos.
Este adendo, sobre a melhor pessoa para definir nossas impressões,
talvez tenha confundido ainda mais o leitor, que talvez tenha questionado
minha vontade absurda de fazer com que meus textos se tornem
compreensíveis, de fazer com que as pessoas enxerguem as coisas através da
minha forma de vê-las. Posso afirmar que essa não foi uma incoerência, mas

259

muito pelo contrário; todos os escritos contidos nesse diário visam proporcionar
uma nova forma de se enxergar as coisas; no entanto, essa forma não deve
consistir em uma aceitação cega e irrefutável, mas sim em uma aceitação
cheia de testes pessoais e senso crítico, sendo que só me sentirei satisfeito se
os conceitos forem adotados, pelos meus possíveis leitores, após uma análise
pormenorizada, onde, apenas após isso, o leitor considerou algumas de
minhas concepções dignas de serem absorvidas por ele. E, nesse caso, almejo
me fazer ser entendido por todos, para que todos possam analisar,
pormenorizadamente, minhas ideias e, apenas assim, alterarem alguma
concepção que não mais consideram exata, irrefutável, por causa da presença
de parâmetros que contêm uma lógica ainda mais abrangente e exata, quando
comparados a suas concepções anteriores.

260

“Poderíamos possuir asas, um outro aparelho respiratório, assim como
poderíamos dominar tecnologias que nos permitissem nos deslocar através do
universo mais rapidamente, e tudo isso não nos serviria para nada. Pois, se
fossemos a Marte e a Vênus conservando os mesmos conceitos e
perspectivas, eles revestiriam do mesmo aspecto que as coisas da Terra tudo
aquilo que pudéssemos ver. A única viagem verdadeira, seria não partir em
busca de novas paragens, mas ter outros olhos, ver o universo com os olhos
de outra pessoa, de cem outras, ver os cem universos que cada uma delas vê,
que cada uma é; e isso podemos consegui-lo com um James Joyce, com um
Dostoiévski; com seus pares verdadeiramente voamos de estrela em estrela.”
Autor desconhecido

261

A burrice coletiva

É um absurdo estabelecermos condições imutáveis, pré-estabelecidas e
exatas para o comportamento humano. No entanto, isso é imprescindível para
que possamos criar definições para muitos dos acontecimentos com os quais
nos deparamos ao longo de nossas vidas; sem tais conceitos irreais e
completamente discrepantes – incapazes de identificar e incluir, em suas
análises, toda a complexidade e a multiplicidade que a vida nos apresenta -,
quando comparados com a realidade, sofreríamos com sentimentos ainda mais
desesperadores, perante um mundo indecifrável, onde a falta de certezas dá
espaço para que nossa imaginação desenvolva os cenários mais pessimistas e
assustadores, característica essa que seria capaz de nos destruir facilmente,
tornando a existência insuportável.
Fugindo dessa condição existencial, abraçamos os preceitos morais, que
se tornam absolutamente necessários, mesmo não sendo capazes de assimilar
toda a complexidade humana.
Nesse contexto, podemos perceber as pessoas como possuindo um
inconsciente coletivo, que mata qualquer resquício de inteligência, mas garante
uma vida segura, suportável e homogênea. Mas, infelizmente, tais preceitos
morais, que regem a construção do inconsciente coletivo, são incapazes de
determinar com precisão todos os acontecimentos com os quais nos
deparamos, aspecto esse que faz com que uma quantidade incrivelmente
gigantesca de interpretações, e culturas, exista. Cada cultura despreza aquilo
que desafia suas crenças; dessa forma, um conflito entre mentalidades é
inevitável.
Nesse ambiente burro, de crenças exacerbadas, irreais e intensas, onde
todos são obrigados, desde a mais tenra idade, a emburrecer para se
adaptarem ao ambiente em que estão inseridos, alguns ignorantes escrevem
sobre tais crenças, aperfeiçoando-as, mas nunca sendo capazes de identificar

262

e escrever sobre a verdadeira proporção das coisas, ou sobre parâmetros mais
profundos que servem como base para a definição de qualquer tipo de
comportamento e crença. Os verdadeiros grandes pensadores permanecem
indecifráveis para a maioria das pessoas, sendo usurpados pelos estúpidos,
que os tomam como referência, para propagarem suas ideias limitadas e
artificiais. Um grande exemplo disso é Freud, que faz uso de Dostoiévski e de
Schopenhauer, transmutando a ideia de grandes pensadores para estabelecer
teorias limitadas, que reforçam ilusões e afastam, ainda mais, o ser humano de
sua verdadeira constituição.
Alguns poucos tomam conhecimento da nossa razão prática, que não se
aproxima da verdadeira proporção das coisas. Mas essa característica é, até
certo ponto, inútil e perigosa. A sociedade é estruturada para permitir a
existência da humanidade, criando uma antirrealidade que permite a
manutenção da vida, que se torna irreal e limitada, após tantas ilusões e
conceitos irrefutáveis, fazendo com que aqueles que possuam uma concepção
discrepante,

que

ameaça

tais

valores

vigentes,

sejam

simplesmente

desacreditados, odiados e excluídos.
É dessa forma que estabelecemos nossos conceitos, adotando
parâmetros que sabemos ser irreais, mas que simplesmente permitem que
mantenhamos nossas crenças entorpecedoras, que nos afastam do desespero.
Assim, vamos avaliando todas as pessoas e os acontecimentos com os quais
nos deparamos, sempre com uma concepção limitada e burra, que não se
aproxima da realidade.
Infelizmente, essa característica dos nossos julgamentos tem de ser
mantida, e estimulada. Mas, mesmo em meio a esse cenário limitado onde nos
sentimos impotentes, alguns grandes pensadores dão um sopro de vida para
as pessoas, estabelecendo perspectivas profundas, que apresentam soluções
capazes de eliminar a necessidade de uma existência burra, cheia de ilusões
entorpecedoras — onde o homem tem de abandonar sua humanidade para se
tornar um autômato —, permitindo, com seus escritos e proposições, que o ser
humano seja capaz de suportar a existência sem recorrer a conceitos irreais e
ridículos.
263

Aula de história
Considero-me muito sortudo por ter lido o livro Guerra e paz em tenra
idade. Esse livro me proporcionou uma perspectiva mais coerente, com relação
a muitas coisas com as quais eu me deparava na minha vida, fazendo com que
eu, finalmente, fosse capaz de compreender algumas coisas, que antes eram
indecifráveis para mim, sendo essa incompreensão extremamente pungente.
Mas, acima de tudo, o livro me permitiu perceber o quão ineficiente e limitado é
o ensino escolar, ele me mostrou o quanto os professores não estudaram e não
entendem os assuntos que estão expondo aos alunos; o livro me mostrou que
os professores simplesmente decoram algumas informações, sem as relacionar
a nada, sem tentarem entendê-la em todas as suas nuances, e as expõem aos
alunos como sendo verdades absolutas, exigindo que os mesmos absorvam
aqueles conceitos infundados, e os reprovando se não são capazes de
enxergarem o mundo dessa forma limitada e pré-concebida. Liev Tolstói me
permitiu perceber tudo isso, com suas palavras simples e certeiras. O
conhecimento que o livro me proporcionou, permitiu que eu adquirisse uma
perspectiva importantíssima, que foi estabelecida após uma aula de história,
que se tratava das guerras napoleônicas, e que descreveu toda a campanha
francesa em território russo, dando ênfase à “estratégia russa” de combate, e
que o professor falava com orgulho, classificando-a como um grande trunfo da
inteligência russa; toda vez que repetia as palavras: “terra arrasada”, ficava
entusiasmado.
Ele era um professor novo, tanto em idade quanto em tempo em que
exercia a profissão. Recém-saído da universidade, que era uma das mais
renomadas do país, ele expunha com convicção seus conhecimentos
adquiridos naquela instituição.
— Os russos aproveitaram a extensão do seu território, auxiliado às
condições climáticas rigorosas da região, para atrair os franceses para o

264

interior do país, queimando todas as cidades e provisões, com isso
enfraquecendo o exército francês, o que possibilitou uma vitória esmagadora
do exército russo em um combate posterior, onde os franceses, que se
encontravam em condições deploráveis, sucumbiram de maneira vexaminosa...
Eu me contive perante a essa explanação simplificada e errônea, sobre
a campanha de Napoleão em território russo. Fiquei calado e indignado,
pensando

nos

verdadeiros

motivos

da

derrota

francesa,

que

foram

apresentados de maneira abrangente e direta no livro Guerra e paz. Comecei a
pensar em como seria a reação de Tolstói se assistisse a essa aula. Pensei em
como o grande responsável pela vitória russa — que o livro deixava claro como
sendo a ideologia russa, arraigada pela religião ortodoxa que incutiu na mente
dos russos a relação de Napoleão com algo como que um anticristo — foi
simplesmente ignorado pelo professor. Fiquei espantado em não ouvir o
professor mencionar as represálias do governo russo ao recuo do exército, que
era suscitado pelo medo ao exército de Napoleão, que parecia ser invencível.
Era insuportável ouvir o meu professor, sabendo que aquilo que ele chamava
de “estratégia da terra arrasada” na verdade era uma consequência menos
organizada e despretensiosa, proveniente do desespero da população russa,
que por enxergarem Napoleão como um anticristo, preferiam queimar e destruir
todos os seus pertences — mesmo com as represálias das autoridades — do
que entrega-los a esse ser que era visto como sendo um demônio. Fiquei triste
por ver que o verdadeiro herói russo, na guerra contra Napoleão, foi esquecido.
Kutuzov foi um general corajoso, que enfrentou o desprezo de grande parte do
exército russo, acreditou em sua percepção e estratégia, e deixou que o
“animal ferido”, que ele considerou como sendo o exército francês após a
grande batalha de Borodino, deixasse de ser um exército e se transformasse
em um bando de saqueadores, que por si só incendiou a grande Moscou, que
era constituída, em grande parte, por edifícios de madeira, pois ela é um ótimo
isolante térmico. Minha indignação beirou o absurdo quando um C.D.F. babaca
elogiou os russos, por serem capazes de bolarem essa estratégia. Aquilo foi
demais para mim, eu odiava ouvir aquele imbecil falar; um dia, ele questionou a
existência da vida na terra, pois tinha visto uma matéria que falava sobre um
robô que foi construído para identificar indícios de vida em outros planetas,

265

mas que quando testado no planeta Terra não indicou a presença de vida; eu
tinha que me deparar com esses tipos de comentários; quanto de estupor é
necessário para que uma mente se tornasse aquela porcaria, que deturpa todo
o conhecimento e dá formatos absurdos para tudo? Pior que os seus
comentários eram valorizados em demasia; talvez ele tenha se tornado o tipo
de burro idiota que a escola almeja criar, e que eu nunca seria capaz de me
permitir ser.
Fui abrigado a me retirar daquela sessão emburrecedora, e fiquei
sentado pensando, em um dos bancos de concreto no pátio. Depois daquele
dia eu nunca mais prestei atenção a nenhuma aula, eu ficava sentado no fundo
da sala, fazendo qualquer coisa que não fosse prestar atenção às merdas que
eram pronunciadas por todos. No final, eu me tornei muito melhor do que todos
eles, eu não me deixei emburrecer.

266

A mente se estrutura na forma de linguagem
Antigamente, os símbolos definiam coisas divinas, que se situavam para
além da nossa percepção, do nosso conhecimento; os conceitos e parâmetros
eram regidos através desses símbolos insondáveis. No classicismo, esses
símbolos tornaram-se determináveis, denominando parâmetros naturais e que
poderiam ser analisados. Os conceitos se formam em torno desses símbolos;
nossa percepção parece apenas notar e assimilar àquilo que esteja, de alguma
forma, relacionado a um símbolo pré-estabelecido.
Os símbolos (as palavras) têm uma relação de semelhança na mente
das pessoas, fazendo emergir conceitos profundos, proporcionando o
entendimento de expressões por intermédio da associação do que é dito com o
que já vivenciamos, já sentimos, já percebemos. O estudo da linguagem
normatiza essas associações geradas pelos símbolos, assim como o dinheiro
normatiza as trocas, que têm como elemento mais profundo a necessidade.
A evolução da linguagem nos permite elaborar discursos mais precisos,
que podem ser assimilados pelas pessoas, permitindo-as a função crítica, onde
antes — por causa da falta de clareza no discurso — apenas havia o
comentário. Quem sabe, um dia, possamos expressar todas as coisas de forma
clara e precisa, não mais dando possibilidade para que se façam críticas e
comentários sobre as palavras utilizadas para que fosse transmitida uma ideia.
A linguagem permite que as pessoas expressem o que sentem; a
gramática existe para que as pessoas possam se comunicar, conseguindo
expressar e suscitar sua subjetividade em outrem. Através da linguagem,
podemos estudar a evolução das ciências e da interação do homem com o
meio. A gramática geral estuda as relações das linguagens com as coisas e
sua identidade em relação aos idiomas primordiais; ela também compara as
linguagens, uma com as outras.
A comunicação só é possível através dos verbos, eles nos possibilitam
expressar o que sentimos nas profundezas do ser. O verbo expressa condições
de tempo e a condição que a pessoa se encontra. Eles são o elemento

267

principal da linguagem, possibilita-nos a comunicação; sem eles, ainda
estaríamos urrando palavras que não expressam nada.
O verbo é o principal elemento da linguagem, mas se ela fosse
constituída somente por verbos, teríamos um vocabulário gigantesco, que
complicaria muito a expressão do que sentimos; para evitar esse problema,
foram instituídos os sujeitos, os adjetivos, e vários outros elementos da
linguagem, que, quando articulados e utilizados no discurso, eliminam a
necessidade do uso de um verbo em particular para designar determinada
maneira de sentir, de ser. O modo como as palavras foram criadas, remetem,
em grande parte, ao que querem dizer, ao que realmente expressam; cada
vogal é capaz de conter uma imensa linha de ligações ocultas; podemos
constatar isso quando feita uma indução reversa, rumo aos primórdios da
linguagem.
Nos primórdios da linguagem, os acontecimentos eram utilizados como
comunicação. Gritos de dor, choro, riso, etc. A linguagem toma como base
esses elementos de comunicação primitivos, utiliza suas construções como
referências relacionadas a esses primeiros modos de comunicação. Uma
linguagem mais primitiva como o hebraico, tem as suas palavras diretamente
extraídas das situações cotidianas. Não podemos negar que toda a linguagem
tenta se aproximar, o máximo possível, da natureza das coisas; quando não se
aproxima, torna-se ineficiente.

268

“De uma forma estranha, nós desvalorizamos nossos pensamentos
assim que os experimentamos. Nós acreditamos ter alcançado a verdadeira
proporção dos nossos conceitos profundos, mas, mesmo assim, quando não
mais nos deparamos com a desilusão, que a realidade nos oferece, esses
conceitos voltam a nos influenciar e a ser imprescindíveis para nós,
permanecendo inalteráveis na escuridão.”
Autor desconhecido

269

A realidade destrói tudo?
Nas profundezas da nossa mente, nós possuímos interpretações,
conceitos, que definem as coisas à nossa volta e nos orientam perante tudo
aquilo que percebemos. Esses parâmetros, que irão nos direcionar ao longo de
nossa existência, estão situados para além da realidade efetiva, em um cenário
virtual, que, por mais que seja abrangente e englobe fatores complexos, nunca
irá deixar de ser nada além do que um reflexo da realidade.
Por mais que nos esforcemos, a nossa concepção virtual da realidade
permanece completamente discrepante e incapaz de elucidar, com precisão,
muitas de nossas sensações e dos acontecimentos com os quais nos
deparamos. Nesse ambiente, onde os conceitos sempre são limitados e
insuficientes, vamos implementando interpretações capciosas para aquilo que
não nos apresenta uma resposta imediata e exata.
Deparados com o quanto a maioria das coisas e dos acontecimentos
são misteriosos e inexplicáveis, percebemos o quanto, ao longo de nossa vida,
vamos criando motivos e interpretações para muitas das coisas com as quais
nos deparamos, sem nunca mantermos um conceito em aberto, em uma
condição onde nossas concepções não são exatas e irrefutáveis.
Cada novo acontecimento, cada novo arranjo ou sensação, é
rapidamente definido em nossa mente, que cria interpretações instantâneas,
preconceituosas, capciosas e completamente relativas, que têm relação direta
com nossos conceitos anteriormente estruturados.
Essa nossa característica intrínseca, que afugenta os efeitos nocivos
que uma concepção indefinida pode nos causar, faz com que tenhamos uma
concepção limitada e capciosa das coisas e dos nossos sentimentos, fazendo
com que nos ausentemos ainda mais da realidade, fazendo com que nosso
cenário virtual se torne ainda mais exagerado e irreal, quando comparado com
a verdadeira consequência dos acontecimentos, com os quais nos deparamos
ao longo de nossa vida.

270

Guiados por nossas crenças exatas, que eliminam a pluralidade e a
indefinição das coisas, vamos nos atentando a aspectos, pessoas e
perspectivas que apenas reforcem aquilo em que acreditamos, que apenas
validem nossas crenças e nos impeçam de nos depararmos com a
possibilidade de uma desconstrução conceitual, que iria eliminar os conceitos
exatos, fazendo com que nos deparemos com condições existenciais que muito
nos assustam, e das quais fugimos desesperadamente, desde sempre.
Em nossa mente, onde nada permanece inexplorado e onde nossos
pensamentos flutuam incessantemente, desenvolvendo e dando significado
para todas as nossas experiências, vamos interpretando, inconscientemente,
tudo aquilo que acontece conosco, que sentimos. Nesse cenário, que define
aquilo que percebemos e que somos, cada pensamento tem o poder de
determinar a forma como se estrutura o ambiente à nossa volta.
Perante o cenário mutável, percebemos o quanto um pequeno
acontecimento que nos desagrada pode ser o responsável por criar um cenário
deplorável e assustador para o ambiente no qual estamos inseridos, assim
como um acontecimento satisfatório pode ser o responsável por criar um
cenário estimulante e aconchegante para o ambiente em que estamos.
Incitando um cenário perturbador e desagradável, nossas incertezas são
constantemente contornadas, fazendo com que não nos deparemos com
condições que desagradam demais. Essa nossa fuga inconsciente faz com que
estimemos e experimentemos apenas aquilo que, de alguma forma, já está
bem estruturado e definido na nossa mente.
O medo paralisante, que sentimos perante nossas construções virtuais
desesperadoras, faz com que deixemos de desconstruir conceitos, faz com que
deixemos de possuir novas perspectivas e interpretações para as coisas, assim
como nos impede de que sejamos capazes de abandonar conceitos e
direcionarmos nossa vontade para onde bem entendermos.

271

“Sabe aquela sensação, quando você é criança e o vento toca o rosto,
incitando um turbilhão de memórias e sensações, e tudo o que queremos fazer
é desenhar um retrato, ou escrever o nome de uma pessoa...”
Autor desconhecido

"Não sei o motivo que faz com que você insista em tentar falar, em tentar
se explicar. Você não percebe que tudo isso é inútil? Eles já criaram uma
concepção embasada na cor da sua pele, em algumas de suas reações, nas
ideias anteriormente elaboradas em relação a pessoas que eles consideram
ser iguais a você, e, por mais que você tente alterar tais definições
preconceituosas, você não pode fazer nada para alterar tais concepções!"
Autor desconhecido

272

Um relato nada mundano
Ela sempre foi uma garota incomum, obscura. Em seu semblante era
possível perceber que ela era incapaz de se controlar; essa constatação era
acompanhada da marcante impressão de uma pessoa que transbordava,
exalando uma energia intensa, profunda e selvagem, em todas as direções. A
falta de ilusões ou uma estrutura exata, ou um objetivo, faziam com que ela se
tornasse capaz de enxergar muitos aspectos que permaneciam escondidos
para as outras pessoas, por causa de suas ilusões e interpretações exatas e
inquestionáveis. Esse aspecto fazia com que ela se tornasse extremamente
inconsistente, mutável, misteriosa e imprevisível, sendo ela dependente do
ambiente, em que estava inserida, para definir seu caráter, tornando-se uma
pessoa completamente nova em função de cada situação que vivenciava. Com
esse aspecto mutável de sua constituição, ela constantemente sentia como se
o seu mundo estivesse esvanecendo; a ausência de estruturas e conceitos
exatos, de ilusões e mecanismos que tornavam as impressões menos intensas,
faziam-na sentir uma força intensa, proveniente das profundezas de sua mente,
toda vez quando ela encarava uma situação nova, ou uma desconstrução que
eliminava suas estruturas fracas, seus conceitos mutáveis, fazendo com que
ela se sentisse amedrontada perante cenário desesperadores, o que incitava
uma força descomunal, que tinha por objetivo alterar aquilo que se desenhava
em sua mente. Toda aquela força era de dar inveja, com certeza; no entanto,
para um observador mais atento, era possível identificar um trauma profundo,
uma constituição mental incomum, como sendo o motivo de tanto ímpeto, de
tanta vontade. Parecia que ela possuía uma habilidade rara, que eu nunca vira
antes; sua mente tinha uma capacidade incomum de imaginação, uma incrível
habilidade de fornecer uma interpretação racional para muitos de seus
sentimentos e impressões, atributo esse que fazia com que ela desconstruísse
qualquer tipo de estrutura bem direcionada, ou conceito inconsciente exato e
inquestionável, fazendo com que ela encarasse a realidade sem ilusões ou
ideais, que tornavam qualquer acontecimento menos intenso e mais fácil de
lidar. Toda a sua energia era gerada por cenários assustadores, por memórias

273

dolorosas, e tinha como objetivo alterar tudo aquilo que a incomodava,
transformar os cenários dolorosos. Cada nova atividade, cada nova tentativa,
era vista, por ela, como uma chance de salvação, de alteração de tudo que a
atormentava. Todos deveriam ter a oportunidade de vê-la, sua capacidade de
se esforçar era sobre-humana; constantemente a via cheia de cortes,
hematomas, queimaduras e lesões, tudo em função de suas tentativas
intensas, ou, melhor dizendo, quase tudo.
Uma parte de suas cicatrizes e hematomas não era proveniente apenas
de sua vontade indomável; por incrível que pareça — para uma garota que
adorava ficar sozinha e que afastava, sabiamente e cuidadosamente, todos
aqueles que tentavam se aproximar, motivados pelos seus aspectos especiais
e raros que na mente daqueles que se sentiam atraídos faziam com que se
enxergassem como possuidores de tais atributos, fazendo com que se
sentissem mais fortes e potentes do que nunca antes —, uma boa parte das
suas marcas expressivas foram causadas pelas pessoas que conviviam com
ela. Eu nunca vi alguém ser tão odiado, é sério, e os motivos para tanto eram
vastos e variados. Primeiramente, ela era odiada quase que inconscientemente
pelas pessoas, as sensações de desprezo intenso surgiam como algo profundo
e misterioso, como um sentimento forte que essas pessoas não possuíam
imaginação suficiente, nem capacidade lógica, para definir com precisão, para
retirar da escuridão e trazer para localidades mais iluminadas de suas mentes,
fazendo com que agissem em função desses sentimentos e interpretações
inconscientes, sem serem capazes de mensurar, controlar e alterar tais
impressões. Quando ela entrava em qualquer recinto, parecia ser uma espécie
de demolidora, capaz de pulverizar qualquer ideal ou conceito exato; apenas
com seu jeito intenso e único ela fazia com que todos passassem a questionar
suas ilusões mais profundas, que ao menor toque de dúvida já fazia com que
ficassem desesperados, fazendo com que desprezassem, intensamente, aquilo
que incitava tal estado deplorável. Em outras pessoas, seu jeito incomum
estimulava uma curiosidade intensa, um encanto profundo; ela, que
apresentava uma constituição completamente nova, não conseguia ser definida
com precisão, por ninguém, em função da falta de referências análogas que
poderiam servir como base para uma possível classificação, sendo assim, ela

274

era desenvolvida apenas por interpretações inconscientes, que todos nós
sabemos serem, na grande maioria das vezes, irreais e exageradas, tornandose um símbolo intenso e lindo, que prometia recompensas inimagináveis, nas
profundezas das mentes de muitas pessoas; e ainda as pessoas têm a
coragem, a ignorância, de dizer que a beleza não passa de uma simetria facial,
ou um corpo da moda.... Esse motivo, que apenas parece estar muito longe do
ódio, impulsionava muitas pessoas até ela, que, prontamente, eram rejeitadas.
O motivo para tais rejeições era óbvio: aquelas pessoas eram limitadas e não
poderiam proporcionar nada a uma pessoa como ela; a falta de imaginação
fazia com que se tornassem suscetíveis àquilo que era dito pelas pessoas
como sendo a verdade com relação à realidade, fazendo com que tivessem
uma mentalidade diminuta, que apenas possuía interpretações superficiais, e
alheadas, sobre as coisas e os sentimentos; nesse aspecto, eles sempre
tinham a sexualidade como sendo a motivação e o sentido de todas as suas
ações e sentimentos, essa característica fazia com que eles não se
investigassem de forma mais profunda e múltipla, por causa de seus conceitos
bem direcionados, que apenas eram capazes de enxergar as coisas com uma
conotação sexual e nada mais. Mesmo a rejeição sendo sempre a mais
educada possível, ela causava danos aos egos inflamados dos admiradores;
por estarem de frente a algo inalcançável, muito aquém daquilo que eram,
esses admiradores se sentiam reduzidos, sendo necessário, a todo custo,
desconstruir a imagem tão adorada, que os diminuía e causava mal-estar. Essa
depreciação era exercida com primazia, por muitos, e, consequentemente, as
pessoas cegas, estúpidas e suscetíveis absorviam todas as palavras proferidas
por egos feridos, como se fossem verdades incontestáveis. Para ser mais
exato, tais pessoas ridículas davam uma conotação de certeza e verdade a
declarações dolorosas e inseguras dos admiradores, fazendo com que se
tornassem pessoas estimadas, por reforçarem e confirmarem conceitos
inseguros, referentes a pessoas com as quais nunca realmente interagiram.
Por fim, mas não menos importante, todo aquele ímpeto incomum, toda a
beleza e a intensidade daquela pessoa incrível, faziam com que muitas
pessoas percebessem o quanto eram limitadas, sentimento esse que era
abandonado em função da depreciação e do ódio contra aquilo que incitava
tais sentimentos.
275

A

união

desses

motivos

criava

um

ódio

generalizado,

que

constantemente fazia com que todas as ações da garota incomum fossem
interpretadas como sendo deploráveis, fúteis e malévolas, criando uma má
interpretação para todos os seus atos, sendo essas péssimas interpretações
criadas pelas piores coisas que as pessoas que a desprezavam podiam
imaginar. Nessas mentes, que sempre fugiram de sentimentos intensos, da
culpa, a capacidade de ter sentimento ruins, com relação a outras pessoas ou
acontecimentos

ou

coisas,

era

incrível,

sendo

extremamente

bem

desenvolvida, fazendo com que se tornassem capazes de imaginar,
rapidamente, muitos aspectos e motivações abjetas para qualquer coisa,
criando, desse modo, uma conotação egoisticamente ruim para qualquer coisa
que quisessem enxergar como sendo ruim. Nessas mentes inconscientes esse
ato de autoproteção era interpretado de forma selvagem, adquirindo
proporções gigantescas e irreais, fazendo com que o ato de odiar alguém ou
alguma ideia se tornasse ainda mais intenso e perigoso para as pessoas que
eles não gostavam, para aqueles que faziam com que eles se sentissem mal
com relação a si mesmos. Relembrando alguns momentos, impressiono-me em
vê-la ainda viva; nunca vou me esquecer de quando cinco meninas vieram
bater nela e, mesmo após ter sido esfaqueada, ela desmaiou três das
agressoras e fez com que duas outras fugissem.
Sei que esse último relato foi esquisito e exigia uma intervenção, vinda,
com certeza, de mim, uma das únicas pessoas realmente capazes de perceber
toda a raridade e toda a perfeição contida naquela garota, mas isso eu me
sentia incapaz de fazer. Essa incapacidade não era proveniente de covardia ou
qualquer coisa do tipo, mas sim de uma curiosidade alucinada, de uma vontade
intensa de saber como as coisas realmente são, de explorar a vida através de
acontecimentos, de sensações, e dando significado para tais experiências com
a minha imaginação e minha capacidade de raciocínio lógico; dotado dessa
vontade profunda, primeiramente eu destruí meu ego, que me obrigava a
manter interpretações distorcidas da realidade, e, em seguida, me emprenhei
em vivenciar situações incomuns e intensas, muitas vezes até mesmo criandoas, esperando que com isso eu seria capaz de fazer uma descoberta profunda
e essencial. Nessa época eu era jovem e esperançoso, e achava que possuía

276

um cérebro poderoso, capaz de interpretar, de imaginar, a verdadeira
proporção das coisas... Ah, doce ilusão. Aquela briga foi apenas mais um
acontecimento que eu não soube mensurar com precisão, mais um
acontecimento inútil, que não me revelou nada e quase custou a vida da
pessoa que eu mais admirava...

A pessoa mais inocente foi a que, por incrível que pareça, se tornou a
maior culpada, a mais penalizada dentre as garotas envolvidas na briga. A
tímida investigação conduzida pela diretora da escola coletou os relatos mais
variados em relação ao incidente; cada depoimento envolvia aspectos
diferentes, quando comparados; alguns alunos davam ênfase às roupas
usadas pelos participantes da briga, e ao modo como essas vestes ficaram
rasgadas e cheias de sangue ao final de tudo aquilo que ocorrera; outras
pessoas focavam nos rostos das garotas, que, em alguns casos, ficaram
deformados, sendo essas deformações cortes e inchaços; muitos alunos não
conseguiam descrever mais do que sensações próprias, que envolviam apenas
aquilo que eles haviam sentido no momento do incidente; alguns concentravam
seus relatos nas reações das pessoas que observaram o ocorrido. Mesmo
estando em posse de descrições ricas em detalhes, a diretora não conseguia
compreender os motivos que incitaram o acontecimento desastroso; nem
mesmo as testemunhas eram capazes de determinar algo, aspecto esse que
fazia com que o ocorrido permanecesse um grande mistério. Mesmo não
obtendo respostas exatas, a diretora suspendeu, por três dias, todos os
envolvidos na briga, até que pudesse averiguar melhor os fatos e definir a
punição para o verdadeiro culpado por tudo aquilo.
O aspecto indefinido do ocorrido fez com que a diretora se empenhasse
ainda mais em busca de respostas, em busca de uma explicação que
determinasse com precisão aquilo que ocorrera. Procurando, incansavelmente,
por uma definição precisa, ela obteve, pessoalmente, as descrições dos
envolvidos no acontecimento. Após visitar algumas casas e, até mesmo, um
dos hospitais da cidade, ela possuía, finalmente, definições precisas para o
ocorrido, que, por causa da falta de respostas, estava começando a incomodá-

277

la muito. A falta de definições precisas dava espaço para que sua imaginação
desenvolvesse, por si própria, as causas e consequências daquilo que
ocorrera, sendo essas construções inconscientes muito assustadoras, fazendo
com que fosse conduzida a cenários e possíveis acontecimentos — sentidos
como se estivessem ocorrendo ao mesmo tempo em que eram imaginados —,
que eram extremamente dolorosos para ela.
No outro dia, as testemunhas mais relevantes foram chamadas para
depor novamente. Dessa vez, a diretora, em posse dos depoimentos do
envolvidos no caso, direcionou suas perguntas, tendo como referência sua
interpretação daquilo que ouviu das garotas. As descrições exatas e bem
direcionadas das agressoras, em detrimento do depoimento inseguro — que
envolvia muitas possibilidades, e possíveis definições, que, por serem vastas e
complexas, faziam com que nada pudesse ser definido com exatidão —
daquela que passou a ser considerada pela diretora como sendo uma “garota
esquisita”, fizeram com que a interpretação dos fatos fosse favorável às
garotas que possuíam definições precisas, valorizando aquilo em que elas
acreditavam, aquilo que elas diziam ser a verdade.
As perguntas, que passaram a ser capciosas, faziam mais do que
confirmar as impressões da diretora, elas induziam os alunos, que ainda
estavam indecisos em relação ao que deviam pensar sobre o ocorrido, a
interpretarem os fatos de acordo com aquilo em que acreditava a diretora. O
meu relato foi o único que não se deixou influenciar por crenças alheias; eu
expliquei tudo aquilo que tinha visto, toda a injustiça, a inveja, que eram os
verdadeiros motivos por trás da briga. Mesmo com minha voz firme e minha
atitude segura perante aquilo que era descrito por mim, a diretora insistia em
tentar me convencer de que minhas crenças e opiniões eram infundadas. Ao
fim de nossa conversa fiquei ainda mais surpreso quando ela insistiu que eu
agia como uma pessoa que estava nervosa, que havia passado por um
estresse intenso durante o ocorrido, fato esse que não me permitia definir com
precisão aquilo que vira.
“Oh, meu querido. Esse acontecimento parece lhe incomodar muito.
Posso ver o jeito como cruza seus braços, ou como olha para um ponto

278

longínquo, ao invés de olhar diretamente para mim, quando conversamos. Sei
que o ocorrido foi doloroso, sei que fazê-lo se lembrar disso o incomoda, mas é
preciso que investiguemos os fatos, é preciso que não nos atenhamos a
preconceitos e definições infundadas, para que possamos, somente assim,
punirmos os verdadeiros culpados de uma das piores tragédias dessa escola.
Por ver esse seu abalo emocional, que o faz incapaz de poder me explicar com
precisão suas ideias, irei ligar para seus pais e pedir que venham lhe buscar.
Quero que você descanse e não se estresse ainda mais, isso pode fazer mal
para uma criança da sua idade.”
“Não preciso de nada disso. Eu me sinto muito bem, muito tranquilo e
relaxado. Tudo aquilo que eu disse antes é o que realmente penso e vejo.
Posso dizer que...”
“Ah, meu querido, você é tão corajoso tentando admitir o contrário
daquilo que posso ver claramente. Eu sei o que você está passando, o melhor
a fazer é descansar e evitar voltar a estar em contato com aquilo que lhe
marcou profundamente. Irei ligar para seus pais, você deve descansar!”
“Mas eu insisto, um grande equívoco está...”
“Um funcionário irá buscar seus materiais, enquanto isso você ficará na
recepção esperando por seus pais.”
Percebendo a impotência da minha voz perante aquela mentalidade já
definida, dirigi-me até a recepção, sem dizer mais nada, e esperei pela minha
mãe, que não tardou a vir até a escola.
Naquele dia, aproveitei minha folga forçada para visitar a única pessoa
capaz de despertar sensações intensas em mim. O caminho que deveria ser
percorrido até sua casa era muito longo, mas não percebi os incontáveis
passos, ou as mais variadas pessoas com as quais me deparei ao longo do
percurso. Minha mente estava focada em algo específico, fazendo com que
deixasse de notar muitas coisas à minha volta, fazendo com que eu nem ao
menos notasse o quanto me esforçava, o quanto me desgastava, para
encontrar aquilo que me encantava. Chegando à casa dela, fui informado pela
sua mãe de que ela não iria receber ninguém. Essa informação fez com que eu
279

deixasse de pensar, por um momento, naquilo que tanto me agradava.
Destituído de um ideal que antes me guiava, pude perceber o quanto estava
cansado; os raios solares intensos, da metade do dia, haviam queimado a
minha pele, que ardia; em meus pés haviam se formado bolhas e o ambiente à
minha volta tornou-se, novamente, absurdamente múltiplo, mutável e agitado.
Sentei-me na sarjeta, em frente à casa dela. Contemplei os muros e as janelas
da casa, sempre pensando na pessoa que ali morava. De repente, um
pensamento fez com que as lágrimas escorressem pelo meu rosto; vi-me em
um mundo onde ela não mais estava presente, e isso foi muito doloroso. Tudo
aquilo que me motivava, que embelezava a minha vida, havia desaparecido,
fazendo com que eu mergulhasse em um oceano de tristeza e desespero, que
a cada momento parecia tornar-se ainda pior, e pior, e pior, fazendo com que
eu sentisse uma dor profunda e atormentadora, que estimulava, quase que
involuntariamente, minhas lágrimas dolorosas.
Percebendo-me em um estado desolado, fiquei receoso de que alguém
ali me visse daquela forma. Então levantei-me rapidamente e andei,
novamente, o longo caminho até a minha casa.
Três dias após o incidente, a diretora adentrou a sala de aula e pediu
que todos prestassem atenção naquilo que ela tinha para falar. Todos os alunos
abandonaram suas tarefas e olharam atentamente para ela. Olhando
despretensiosamente para os meus colegas pude identificar as cinco
agressoras, alguns colegas que pareciam possuir o mesmo semblante de
sempre — sem nunca alterarem o que quer que fosse em si mesmos, por mais
que tudo à volta deles se alterasse por completo —, algumas pessoas que se
autointitulavam sensíveis — mas que cometiam o grave erro de confundir
sensações incitadas por determinações morais-culturais com sensibilidade —,
quase tudo estava igual ao que sempre fora, o ambiente e as pessoas ali
presentes ainda me enojavam, mas, no entanto, algumas poucas diferenças
faziam toda a diferença; alguns rostos inchados faziam com que a sala se
tornasse ainda mais feia e a carteira vazia da minha amiga fazia com que tudo
aquilo se tornasse praticamente insuportável.

280

“Bom dia, meus queridos. Quero lhes informar que tomamos medidas
severas em relação ao acontecimento deplorável que ocorreu aqui nessa
escola na segunda-feira. Após uma análise pormenorizada da situação,
punimos a verdadeira culpada de toda essa situação lastimável. Ela
permanecerá suspensa por uma semana; nesse período irei me reunir com
pais e professores para decidir sobre a possibilidade de uma expulsão
definitiva. Quero salientar que atos de violência sempre serão punidos
severamente aqui nesta escola. Ao mesmo tempo que externo minha
indignação, gostaria de agradecer a colaboração de todos que ajudaram a
desvendar os verdadeiros motivos que incitaram uma atitude incoerente e
perigosa.”
A diretora interrompeu seu discurso por um breve momento. Ela
procurou alguém pela sala, com o olhar, e quando me encontrou sua fisionomia
se alterou, deixando de ser austera e severa para se tornar tristonha e
compassiva.
“Sei que o que ocorreu causou impactos profundos em muitas pessoas.
Para aqueles que ainda estão muito abalados, posso garantir que a escola irá
fornecer todo o apoio moral nesse momento estressante e delicado. Gostaria
que ninguém se sentisse acanhado em se tratando de conversar sobre aquilo
que os incomoda; vocês sempre poderão contar comigo quando quiserem
encontrar alguém que os escutem, que os entendam e os ajudem a lidar com
suas dores mais profundas. Obrigada pela atenção,”
Ela se retirou e isso me fez muito bem. A presença dela me fez sentir
como se estivesse absolutamente, profundamente, sozinho.

281

Bibliografia
Como mero editor, fica difícil especificar quais livros foram utilizados
como referência para a produção desse texto. Alguns dos livros, que o autor
usou, talvez eu nem conheça, tornando-se impossível a tarefa de fazer a
devida referência à obra. Mesmo deparado com essa restrição, irei especificar
as obras que consegui identificar no livro, desculpando-me, desde já, pela
possibilidade de possíveis lacunas em relação ao conteúdo do livro e as obras
de referência.
- Sigmund Freud, A interpretação dos sonhos.
- Immanuel Kant, Crítica da razão pura.
- Immanuel Kant, Crítica da razão prática.
- Friedrich Nietzsche, Vontade de potência.
- Arthur Schopenhauer, O mundo como vontade e como representação.
- Arthur Schopenhauer, Metafísica do amor.
- Carl Jung, Os arquétipos e o inconsciente coletivo.
- Sigmund Freud, Introdução ao narcisismo.
- Sigmund Freud, O eu e o id.
- Sigmund Freud, Luto e melancolia.
- Sigmund Freud, O mal-estar na civilização.
- Sigmund Freud, Psicologia das massas e análise do eu.
- Soren Kierkegaard, O conceito de angústia.
- Fiódor Dostoiévski, Notas do subsolo.
- Hermann Broch, Os sonâmbulos.
- James Joyce, Ulysses.
282

- James Joyce, O retrato do artista quando jovem.
- Jean-Paul Sartre, O ser e o nada.
- Jean-Paul Sartre, A imaginação.
- Jean-Paul Sartre, O imaginário.
- Jean-Paul Sartre, O existencialismo é um humanismo.
- Liev Tolstói, Guerra e paz.
- Ludwig Wittgenstein, Investigações filosóficas.
- Thomas Mann, A montanha mágica.
- Robert Musil, O homem sem qualidades.
- Robert Musil, Young Törless
- Albert Camus, O estrangeiro.
- Albert Camus, O mito de Sísifo.
- Albert Camus, A queda.
- Marcel Proust, Em busca do tempo perdido.
- Jack Kerouac, Carta: A eternidade dourada.
- Arthur Rimbaud, Arthur Rimbaud: Poesia completa.
- Paramahansa Yogananda, Autobiografia de um iogue.
- Robert Musil, O homem sem qualidades.
- Robert Musil, O jovem Törless.
- Adam Smith, A riqueza das nações.
- Charles Darwin, A origem das espécies.
- Karl Marx, Formações econômicas pré-capitalistas.
- Karl Marx, O capital – livro 1.

283

- Michel Foucault, Microfísica do poder.
- Michel Foucault, As palavras e as coisas
- Victor Hugo, Os miseráveis.

284

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