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Título: Houdini: o mestre em

ilusionismo e escapada
ou
O amor reinventado

Autor: Lucas Desidério Shiniglia

Sertãozinho, 24 de dezembro de 2014.

Sumário
Título: Houdini: o mestre em ilusionismo e escapada..........................................3
ou..........................................................................................................................3
O amor reinventado..............................................................................................3
Introdução.............................................................................................................7
Do conhecimento à arte........................................................................................9
O absurdo que é a nossa existência..................................................................13
A região desértica da nossa existência e o desespero existencial....................17
Os iludidos..........................................................................................................22
A literatura é relativamente boa e útil.................................................................26
Pedantismo.........................................................................................................31
Dor sem fim.........................................................................................................32
Ampliando a consciência....................................................................................36
A realidade líquida..............................................................................................40
O eterno processo de individuação....................................................................44
O Eu fragmentado..............................................................................................47
O espírito e o desespero....................................................................................51
A estrutura da nossa mente................................................................................53
Ser humano, sociedade e amor.........................................................................59
A cultura e as coisas...........................................................................................63
Definindo as coisas.............................................................................................67
Aula técnica........................................................................................................71
Nós seguimos os mais confiantes......................................................................77
A estupidez.........................................................................................................80
O que nos consideram é o que somos?.............................................................83
Jogos sociais......................................................................................................87
O que quero ver..................................................................................................89
O ser humano DEVE destruir seus ideais..........................................................92
Sobre a personalidade contemporânea.............................................................95
Nossa cultura ridícula.......................................................................................101
O ser incomum.................................................................................................106
Os estranhos.....................................................................................................111

O desenvolvimento inconsciente das impressões............................................115
Sobre a melancolia...........................................................................................122
Do nirvana ao “homem sem qualidades”.........................................................128
Sobre a natureza..............................................................................................131
Q.I. – Que isso?................................................................................................133
Escrever para melhor definir as experiências..................................................137
A mente no estado de Buda.............................................................................139
Breve introdução ao amor reinventado............................................................143
Enxergando como um ser social......................................................................148
Egoísmo, a norma social..................................................................................152
Não confie em ninguém....................................................................................155
Nossas relações insinceras..............................................................................162
A aparência que não agrada de verdade.........................................................164
Você não fica animado quando descobre uma coisa rara?.............................169
O amor reinventado..........................................................................................172
Quem nos permitimos ser?..............................................................................180
Muita imaginação = Grande problema.............................................................185
Sobre a sensibilidade.......................................................................................191
E dizem que ser inteligente é ser capaz de memorizar alguns conceitos.......194
Precisamos de ideias para suportarmos a vida...............................................197
Recordação.......................................................................................................200
Para além do misticismo que envolve o amor..................................................203
Nossas necessidades e motivos ocultos..........................................................207
Do príncipe da Dinamarca................................................................................212
Uma filosofia do futuro......................................................................................215
A consciência ampla.........................................................................................223
As pessoas incomuns.......................................................................................227
Um sentido à mais............................................................................................231
Alguns aspectos da sensibilidade....................................................................247
A burrice coletiva..............................................................................................259
Aula de história.................................................................................................261
A mente se estrutura na forma de linguagem..................................................264
A realidade destrói tudo?..................................................................................267

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Um relato nada mundano.................................................................................270
Bibliografia........................................................................................................279

Introdução
Após a publicação do livro: “O diário, as primeiras impressões sobre a
vida” — que continha passagens escritas em um diário que recebi de presente
de um dos meus tios —, retorno ao referido diário para transmitir uma parte
mais conceitual do mesmo. Através de uma análise filosófica, digna de um
exímio observador, o autor desconhecido define novos parâmetros com relação
à interação entre as coisas. Mais uma vez o texto se faz inovador e, até certo
ponto, inusitado, convidando-nos a considerar e analisar uma nova perspectiva
sobre os assuntos que a humanidade parece nunca se cansar de abordar.
Durante uma das passagens do primeiro livro — que toma como base o
diário que ganhei de presente — o autor desconhecido diz: “Eu escrevia sobre
todas as coisas, e sobre todas as minhas impressões — que não eram poucas
—, eu criava novos mundos, novos valores, novos idiomas e novas cores”.
Para alguns, essa expressão pode ter parecido exagerada e infundada, digna
de um arroubo juvenil que em toda sua petulância diz ter encontrado um
modelo que melhor explique todas as coisas, mas eu posso garantir que não, e
as próximas páginas — do referido texto — irão provar que os acontecimentos
realmente ocorrem de maneira diferente e mais evidente, na complexa mente
do nosso querido autor desconhecido.
Não me faço grandiloquente, quando afirmo que esse é um dos textos
que possui potencial para contribuir com um verso, no deslocamento poderoso
da grande máquina.

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“Camus faz com que o absurdo que é nossa existência se torne uma
informação satisfatória e agradável — com a qual podemos conviver
tranquilamente—, quando, na verdade, o vazio sempre atormentou a todos,
chegando até mesmo a fazer Dostoiévski dizer que no futuro o homem nascerá
de uma ideia, dessa forma não tendo a infelicidade de presenciar o desespero
que está presente no vazio da existência; ao mesmo tempo, Freud afirma que,
no futuro, a humanidade ampliará, ainda mais, sua alma, seus mecanismos de
proteção e deslocamentos, passando a aceitar, prontamente, os parâmetros
existenciais que nos são impostos. Além dessas declarações, muitos outros
autores se depararam com o mesmo desespero, que sempre incomodou a
humanidade. No entanto, Camus apresenta sua proposta para a existência, e a
faz parecer simples, de fácil aplicação, proposição essa que a literatura e as
nossas experiências refutam facilmente. Mas, mesmo com a distância entre o
que é exposto por Camus e a realidade e as nossas projeções — que muitas
vezes nos atrapalham —, os argumentos expostos no livro são válidos e muito
interessantes; a vida, de acordo com os parâmetros de Camus, seria realmente
incrível, realmente consciente e evoluída. É preciso que nos arrisquemos, com
o intuito de adquirirmos uma existência consciente e evoluída, nem que para
isso seja necessário enlouquecermos; é preciso que exploremos a vida e que
consigamos viver na realidade, o futuro da humanidade não pode, em hipótese
alguma, ser a cegueira.”
Autor desconhecido

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destaca-se nessa difícil tarefa. essa estrutura é instável. eles serão utilizados como base para determinar o nosso comportamento frente o que nos apresenta os sentidos. Localizada em meio ao espaço livre de fenômenos. a única forma de adquirirmos conhecimento consiste na elaboração conceitual a partir da intuição pura. esses conceitos irão nos direcionar pela vida. cada pessoa possui uma representação específica do ambiente à sua volta. que determinam o comportamento dos indivíduos. Além de possuirmos uma mente com conceitos instáveis.Do conhecimento à arte Desde sempre. Com o passar do tempo vamos estruturando os conceitos na nossa mente. que cada indivíduo possui um mundo particular. a intuição pura possui possibilidades infinitas. podem ser alterados a qualquer momento. ou possuem uma relação exata. Kant. que contém possibilidades infinitas de associações. esses mesmos conceitos não são universais. Nunca é demais lembrarmos que as estruturas conceituais são extremamente variáveis e relativas. além dos sentimentos. Tomando como base essas exposições. Aquilo que percebemos através dos sentidos é definido de maneira intelectual. grandes pensadores buscam definir com precisão as bases do intelecto e do conhecimento. encontramo-nos primeiramente como seres destituídos de qualquer tipo de arranjo das coisas. Servindo como base para essa estrutura conceitual. podendo ser alterada a qualquer momento. Em meio ao espaço infinito. que se encontra situada além dos conceitos sintéticos. nela somos capazes de fazer qualquer tipo de associação. proporcionando-nos uma concepção do ambiente à nossa volta e fazendo com que a psique se estruture em função daquilo que somos direcionados a enxergar. o que a faz enxergar e agir de determinado modo. possuímos a intuição pura. Além disso. segundo ele. melhor do que muitos outros. sem receio. 8 . podemos definir. nunca é demais relembrarmos. os conceitos.

e define a maior parte daquilo que somos. por causa disso. estrutura arquétipos. Deparados com a impotência humana perante o que está estruturado em nossas mentes. desse modo sendo permitido que avancemos em nossas investigações sobre o intelecto. percebemos o quanto alguns conceitos são diferentes daquilo com o que estamos acostumados. à deriva dos pensamentos. passando a analisar uma pergunta que intriga os estudiosos da mente humana: Seremos nós capazes de definirmos exatamente aquilo que devemos valorizar ou não? Repetindo a pergunta em termos mais claros: Seremos nós capazes de controlar as estruturas conceituais da nossa mente? Para aqueles que pensam. percebemos o quanto os nossos conhecimentos sobre o intelecto são vagos e imprecisos. ela faz associações. permanecemos à deriva dos acontecimentos. Em relação a essa forma de aprendizado. 9 . Após o sacrifício de muitos gênios. ficamos impressionados com a rapidez com que aprendemos a uma nova perspectiva sobre o funcionamento dos elementos que constituem o mundo. Possuímos um mundo grandioso em nossas mentes. podemos definir com clareza a forma como os conceitos são estruturados na nossa mente. sendo ela um categórico Não. nem que seja um pouco. O funcionamento da mente foge ao nosso controle. todos esses acontecimentos acorrem longe da nossa percepção. torna o aprendizado difícil. sobre si mesmos. que exige um desligamento praticamente completo dos nossos conceitos anteriores. Sem termos conhecimento do motivo e a maneira como algumas coisas são definidas na nossa mente. a resposta é clara. essa discrepância. Quando nos desvencilhamos das nossas concepções e analisamos uma nova proposição. utilizando apenas a intuição pura. faz transferências. ele é restrito e imperscrutável. muitas relações inovadoras e complexas permanecem misteriosas e esdrúxulas para a maioria das pessoas. São poucas as pessoas que possuem uma capacidade elevada de se desprender dos conceitos que estruturam a mente. e daquilo que queremos ser. a humanidade ainda não encontrou a real forma de funcionamento da psique.O aprendizado de relações novas entre as coisas é muito mais rápido e eficiente para aqueles que não possuem conceitos fixos e imutáveis.

onde todas as obras rasas e ruins foram esquecidas. 10 . do passado. logo de cara. em seus conceitos. Quase sempre. as nossas sensações. Talvez essa nossa sensação. após essas grandes obras. Nos dias atuais ainda nos deparamos com os verdadeiros artistas. arriscando qualquer coisa que possuam de concreto para mergulharem profundamente em suas mentes. Quando nos deparamos com as obras desses gênios corajosos.Muitos se propuseram a mergulhar no intelecto para tentar explicar as nossas atitudes. abdicaram de todas as coisas pela humanidade. infelizmente. esse estilo de vida lhes proporcionou mortes prematuras. sentimo-nos mais sábios. ainda existem pessoas arriscando tudo pelo conhecimento. muita sabedoria e obras imortais. para que possamos encontrar algo que nos seja permitido caracterizar como sendo uma verdadeira obra artística. a presença de uma expressão visceral e sincera. arriscando tudo pela humanidade. É preciso que garimpemos as obras que são lançadas diariamente. Essas almas raras arriscaram tudo pelo conhecimento. o mundo parece repousar sobre bases mais sólidas e nós nos sentimos mais seguros e confiantes. esses gênios são ofuscados por muitos farsantes e aproveitadores. Por mais que só enxerguemos charlatões. que arriscam tudo na intenção de desvendar os mistérios humanos. as verdadeiras obras de arte ainda sobrevivem. abandonadas. sentimos. Esses artistas corajosos habitaram regiões inóspitas da existência. na maioria das vezes. Consideramos que essas vozes geniais provêm. mais esclarecidos. ocorra por causa da filtragem que foi feita ao longo do tempo. de que as grandes almas existiram apenas no passado. Em meio ao interminável amontoado de obras insossas e fúteis. eles buscaram o esclarecimento através de experiências intensas e destrutivas.

de forma violenta. bem no meio da cara!” Albert Camus 11 .“Em qualquer esquina o sentimento de absurdo pode atingir a todos.

um questionamento profundo dos ideais que iludem a existência. mensurável. que podemos caracterizar como a base do intelecto. será defendido de forma voraz. talvez seja o principal tormento humano. contra ele será direcionado o ódio mais irracional.O absurdo que é a nossa existência A região desértica da existência é um local que assusta todas as pessoas. muitas vezes. acabamos por criar uma unidade das coisas. afinal. Como principal sustentáculo do suicídio filosófico encontramos a ideia da deidade. criando um mundo compreensível. Essa localidade inóspita. mais selvagem. O absurdo. da incerteza e da fragilidade de nossas vidas. as pessoas. é desesperador. que nos posiciona. que é a existência. Nessa luta incansável em busca de motivos nos quais possamos nos segurar. além de ilusões que amenizam o fardo que é a vida. Esse tipo de construção deturpa a realidade. Esse arranjo. todos os acontecimentos. que elimina o nosso maior desespero. sempre tendendo a satisfazer aquilo em que o indivíduo quer acreditar. Nessas mentes comuns. adequando-a a uma maneira pré-determinada de enxergar o mundo. encontramos a edificação compulsiva dos conceitos. fazendo com que criemos ilusões que nos afastem do vazio. nem que seja sem a intenção. que constantemente fogem do absurdo. uma existência saudável depende da manutenção dessa ordenação específica das coisas. quando deparadas com a falta de sentido e a impossibilidade de uma compreensão exata das coisas à nossa volta. recorrem ao suicídio filosófico. mesmo que para isso abdiquemos da realidade e da nossa capacidade de pensarmos de acordo com aquilo que percebemos. que nos permita o entendimento e o sentimento de pertencimento. aquilo que sentimos. de maneira satisfatória. são classificados de forma capciosa. Coitado daquele que incite. no mundo. Todos os fenômenos. 12 . que tem como função central amenizar as dores e a incerteza existencial. esse é um preço que a maioria das pessoas não hesita em pagar.

esse tipo flutuante de existência não carece de estruturação. priorizando os motivos que melhor expliquem o verdadeiro funcionamento das coisas. 13 . não mais perdendo tempo com quimeras longínquas e inverificáveis. em detrimento de sonhos alucinados. parâmetros. um pensamento profundamente superficial. que o permite alterar a maneira de se portar. a inteligência se torna evoluída a ponto de encarar cada fenômeno como sendo único. o conhecimento não será estruturado de uma única forma. Vivendo o presente. cabendo a esse indivíduo a característica flutuante. A falta de sentido da vida é recompensada pela multiplicidade de caminhos a serem seguidos. diferentes perspectivas. explicações e objetivos. adquirindo. um eterno arriscar. mas sim possuirá possibilidades múltiplas. por causa das múltiplas interpretações dos acontecimentos. Nesse tipo de mentalidade. De forma indiferente. que se preocupa com a investigação de assuntos que estão muito além da nossa capacidade de observação — e muito à frente do presente se torna inútil.Em uma mentalidade que aceita o absurdo. Nessa condição primordial o pensamento profundo — a ponto de ponderar sobre o multiverso ou sobre a possibilidade de vida além-túmulo. O homem que se propõe a viver em meio ao absurdo que é a existência. diferentemente da estruturação capciosa e direcionada a algo. encarando de frente todos os aspectos da vida. por eterno iniciar. nele. dependendo das condições externas que lhe são apresentadas. No entanto. sem influências conceituais. sem ser direcionada a uma crença. sem se refugiar em ideais e ilusões. o indivíduo formula suas concepções sobre a vida. o que garante uma maior realidade de seus conceitos. torna-se impossível ser estabelecido algo de concreto. o mundo. um eterno experimentar. dessa forma. a construção dos conceitos estará relacionada à maneira como a psique funciona e como os fenômenos realmente ocorrem. o homem absurdo direciona seu pensamento para coisas realmente palpáveis. A depressão e o fracasso são substituídos por uma renovação constante. assim enxergando. Nesse caso. independentemente desse conceito ser nocivo aos conceitos presentes no intelecto. vê um mundo vasto em possibilidades se abrir para ele. que prioriza assuntos realistas e palpáveis.

que se permitiram possuir uma constituição rara. De alma múltipla. Essa característica despreocupada nos permite arriscar desenfreadamente. onde nossa principal preocupação é arriscar e experimentar o máximo possível — para que ampliemos. sem objetivos. O ator compulsivo. que pode ser o motivo de nosso desespero. esses indivíduos raros e corajosos se permitem experimentar tudo o que a vida tem a lhes oferecer. Um estilo de vida ousado. Talvez. Todas essas características covardes criam uma população sem senso crítico apurado. muito poucos. nunca nos sentindo cansados ou envergonhados. parece ser uma atitude reservada a poucos. cada vez mais. adquiri para si muitas possibilidades de se portar perante os mais variados cenários que a vida pode lhe apresentar. que devemos enxergar o mundo de uma forma pré-determinada e imutável. Essa sentença. 14 . em três horas. do que atores. que almejam apenas se tornarem os melhores jogadores possíveis. nem nos esgotarmos. que se permite vivenciar todos os acontecimentos. essas pessoas. pelo nosso ímpeto e vontade desenfreada. que não devemos arriscar muito. As filosofias covardes estão por toda parte e preconizam que nossa existência terrena não importa. experimentar. Quando passamos a encarar a vida de forma indiferente.A vida é inútil e sem sentido. vivenciem acontecimentos que um homem comum precisaria de uma vida inteira para conseguir experimentar. permitir-se vivenciar os acontecimentos mais variados. tornamo-nos jogadores despreocupados. etc. também pode ser a principal responsável pela nossa libertação. e possuindo uma indiferença evidente. mesmo ele sendo completamente abjeto e incoerente. tornamo-nos livres. que permite a manutenção do status quo. Jogar. Uma existência sem esperança. nosso conhecimento e a potência da nossa existência — é uma condição a ser almejada. em todos os aspectos. que somos diminutos e impotentes. onde não somos nada além do que jogadores. mas sim sempre desejando o nosso aprimoramento. doar-se por completo à vida e todas as suas possibilidades. foi e sempre será desestimulado por aqueles que pretendem domesticar e enjaular o ser humano.

Em cada acontecimento eles aprendem uma nova lição. os jogadores compulsivos da existência vão experimentando a vida sem limitações. de forma abrangente. até que se potencializem ao máximo. até que esses atores obtenham todo o conhecimento possível. com cada experiência eles aprimoram seus corpos e suas mentes. e esse ciclo ocorre desenfreadamente. até que eles se tornem os jogadores perfeitos. esgotando a si mesmos e explorando todas as possibilidades. 15 .Possuidores de uma curiosidade louca.

que abarque tudo aquilo que sentimos. uma análise pormenorizada de nossas sensações. e que apresentam uma lógico perfeita e irrefutável. unindo nossos sentimentos mais profundos à maneira como classificamos e definimos o funcionamento da nossa mente. pelos leitores. para que. podemos tratar com mais precisão a forma como que cada conceito foi elaborado. tomando como base conceitos empíricos. através disso. é de suma importância para uma definição e elaboração mais aprimorada dos conceitos aqui propostos. é preciso que seja feita uma análise pormenorizada do funcionamento do intelecto. permaneçam. destemida. moderna. o funcionamento do nosso intelecto. que determinam. seja possível a criação de um modelo exato. cheia de ceticismo e senso crítico. Primeiramente. A tentativa de implementação e análise dos conceitos aqui propostos. feitas por um observador indiferente e despretensioso. após a determinação de condições profundas. pois não passam de investigações exaustivas. Antes que a explanação sobre o desespero existencial continue. é preciso que seja salientado a concepção relativística das tentativas de elaboração conceitual que serão apresentadas. sentimentos e estados de espírito. 16 . e é isso que cada escrito que é publicado espera do leitor: uma análise pormenorizada. para que assim seja possível identificarmos o quanto cada proposição é relativa e deve ser pormenorizadamente analisada. nenhuma delas pode adquirir a condição de verdade absoluta.A região desértica da nossa existência e o desespero existencial Parece ser característica referente estritamente aos seres humanos de constituição forte. realizando. para que apenas as determinações mais exatas. Após apresentada a condição ideal de posicionamento e reação perante os textos que se seguem. a permanência em condições complexas da existência. tomando como base para tais associações uma concepção única.

Nesse mundo vasto. por mais que potencializemos esse nosso segundo mundo. Nesse caso podemos salientar o quanto é necessário que nos atentemos aos acontecimentos à nossa volta.Os dois mundos: Podemos perceber a existência de dois mundos dentro de nós. podemos dizer que elas ocorrem naturalmente. para que sejamos capazes de identificar os 17 . aquilo que desejamos. que são incrivelmente difíceis de serem alteradas. Um deles. e exige que tenhamos um segundo mundo muito bem estruturado e abrangente. involuntariamente. daquilo que queremos alterar. No entanto. permanecem obscuros. sem que consigamos defini-los e transportálos para nosso segundo mundo. presente dentro de nós. é preciso que tenhamos a capacidade de atacar os conceitos do primeiro mundo em todas as suas frentes. sendo sua elaboração uma característica estrutural imprescindível para nossa mente. muitos acontecimentos permanecem inexplicáveis para nós. Referente a essas construções profundas. a sobrevivência. não possibilitando a presença de nenhuma parte do mesmo que não consiga ser refutada veementemente. Nesse caso. pois um resquício que seja. não nos tornamos capazes de alterar os nossos conteúdos profundos. Entretanto. o maior. onde tudo é mais claro e coerente. para que possamos driblar essa resistência intrínseca. assim como o funcionamento da mente permanece escondido para nós. Sem executarmos uma desconstrução nesses parâmetros. nossas concepções permanecem distantes do nosso alcance. onde os acontecimentos e nossas reações parecem adquirir proporções que nos permite entendê-los. podemos alterar os conteúdos que permanecem nas profundezas da nossa mente. é um ambiente mensurável. O segundo mundo. Com o auxílio do nosso segundo mundo. essas características são necessárias pois nossa mente almeja. será o responsável por permitir a manutenção. manter nossas concepções e objetivos. essa é uma tarefa complexa. parece conter as informações mais valiosas sobre aquilo que somos. aquilo que tememos. do qual não temos controle. que alimente concepções anteriormente estruturadas. controla-los.

Dessa forma. podemos definir os seguintes textos. etc. se torne mais fácil e prática. como sendo de cunho estritamente psicológico. fazendo com que o mesmo seja capaz de possuir um modelo exato de como as coisas funcionam. sendo eles oriundos de conceitos previamente elaborados pelo nosso intelecto. e o segundo mundo o nome de consciente. ele seja capaz de dominar seus desejos mais profundos. como o intelecto funciona. Nesse caso. seus ideais descabidos. torna-se ainda mais difícil encontrarmos os verdadeiros motivos e combatermos. presentes no livro. após realizadas as distinções pertinentes a duas estruturas psíquicas muito presentes ao longo do texto. apenas assim. e. 18 . como sendo uma proposição que visa tornar o ser humano ainda mais racional. sem a necessidade da participação do nosso segundo mundo para que fossem definidos. torna-se mais fácil muitos desenvolvimentos e explicações. alterarmos. Desejando estabelecer uma definição para cada um dos mundos descritos no texto acima. Tomando como base essa nossa característica intrínseca. acontecimentos que determinaram a nossa forma de ser. será definido que o primeiro mundo receberá o nome de inconsciente.conteúdos que são absorvidos pela nossa mente e que se tornam incrivelmente influentes sobre nós. seria necessário que o indivíduo possuísse uma memória incomum para que ele se tornasse capaz de identificar. Sem uma memória diferenciada. seus vícios. seus medos mais aterrorizantes. torna-se difícil estruturarmos e definirmos as nossas sensações. sem isso. para que. no segundo mundo. Nossos atos possuem relação com as estruturas do nosso primeiro mundo. para que a apresentação dos mesmos. nossos conceitos profundos. ao longo dos textos. Essas estruturas profundas e inconscientes são construídas desde tenra idade.

que impedem que desenvolvamos conceitos que irão fazer com que deparemos com o desespero existencial. Longe da percepção da maioria das pessoas. tudo em função de um medo descabido. Esse aspecto não é facilmente detectado e reside nas profundezas do nosso intelecto. grande parte de nossas ações têm relação com esse desespero profundo. sendo desvendados apenas por aqueles que se preocupam em desenvolver sua consciência e definir conceitos exatos para muitas de nossas sensações e ações. o temor mais aterrorizante. após as devidas definições iniciais. podemos agora iniciar a classificação. Em meio a pequenas alterações. desenvolvido pelo nosso inconsciente e sua sensibilidade nervosa descabida. os mecanismos de proteção vão moldando a nossa forma de enxergar o mundo.Sem que percamos o foco do assunto principal do texto. que supera até mesmo a morte. Esses mecanismos permanecem ocultos para a maioria das pessoas. nossa mente se preocupa em manter muitos de nossos conceitos. utilizando de mecanismos de proteção. que nos incomoda em proporções absurdas. sendo necessária uma análise profunda e uma elaboração delicada e minuciosa para que essa condição seja trazida para a luz. talvez grande parte dos nossos atos seja uma fuga desesperada desse cenário conturbado. 19 . fazendo com o indivíduo sinta a dor mais lancinante. do nosso medo mais profundo. Visando impedir esse nosso desarranjo aterrorizante. para a nossa consciência. que muito nos incomodam. desse medo paralisante e lancinante. Direcionados por esses mecanismos de proteção. que percorrem a nossa mente e se tornam grandes desastres que nos transportam para uma região obscura e desesperada. Definido aqui como desespero existencial essa confusão profunda. podemos perceber o quanto facilmente podemos nos deparar com esses estados de desespero profundo. Provavelmente. vamos adquirindo. uma concepção limitada e estritamente direcionada rumo a uma estrutura específica da nossa mente. com o medo profundo. onde a mente se encontra em completo desarranjo. com o passar do tempo. sendo ele pior do que a morte.

20 .

“Quando a necessidade e as metas se encontram e emergem. mesmo distante. começou a se tornar um sonâmbulo. quando os sonhos começam a ocultar os grandes momentos e as crises da vida. sonha com sua esposa. O homem que. que anda sonhando. ” Hermann Broch 21 .. e o desesperador sonho da morte desaparece da mente do homem. ou com o local onde passou sua infância.. a estrada torna-se estreita e obscura. em seu sono profundo.

a vida. nossos desejos e medos. torna-se comum nos espantarmos ao perceber que um acontecimento. 22 . nas profundezas do nosso ser. inerente aos seres vivos. tornando a realidade em um cenário insosso e doloroso. insegurança e mutabilidade. que tanto nos incomoda. tornando-a estreita e ilusória. de uma forma intensa. inconscientemente. adquiriu proporções absurdas. ou por causa de uma alegria intensa. que passa a necessitar de uma ilusão que nos afaste de tal sentimento. vamos desenvolvendo. O nascimento dos nossos ideais é um fenômeno inato. que. quando não mais se faz presente em nossas vidas. nossas reações. onde nossos pensamentos e impressões são intensamente irreais e discrepantes. fazendo com que o indivíduo não mais seja capaz de suportar a realidade sem antes recorrer a uma série de lembranças profundas. onde a realidade é abandonada em função de sonhos alucinados que nos fazem sentir muito bem em um ambiente ausente de toda a complexidade. ocorre por causa da presença de um desespero profundo e destruidor. pelo o resto das nossas vidas. Dotados de tal mentalidade. que afastam a dor e o medo. Esse acontecimento. quando não destruída pela nossa consciência. transmuta todas as coisas. apenas esperando por algum acontecimento que possa saciar sua necessidade. após nossos desenvolvimentos inconscientes. passando a definir nosso comportamento.Os iludidos Parece ser uma característica inata. que permanece oculta. tornando-se uma característica essencial. transformando. que foge ao nosso controle consciente — quando não somos capazes de identifica-los e estabelecer proporções reais para aquilo que é exagerado em nossa mente. que. que pode surgir em função de um acontecimento que muito nos incomoda. irá nos influenciar. dessa maneira. que possa servir de parâmetro para tal vontade. Na nossa mente. tudo aquilo que vivenciamos. anteriormente irrelevante para nós. quando comparados com as verdadeiras proporções dos acontecimentos.

Em um mundo que nos permite a criação de infinitas interpretações. incita uma condição desesperadora que faz fluir uma energia profunda. Cada nova situação. desenvolvemos nossa vida interior — alguns desenvolvendo-a muito melhor do que os outros —. a dor. seja direcionada para atividades e empreitadas inconsequentes — tudo isso com a intenção de sanar o nosso desequilíbrio profundo. adquirindo profundidade. que nos afasta da realidade e afugenta o desespero.O desespero está presente em praticamente todos os momentos da nossa vida. torna-se óbvia a presença de uma realidade virtual. causada pelo desespero. pronta para ser direcionada rumo aos parâmetros e condições que nos afligem. originalmente delgado. é assim que no homem cresce o que depois se denomina sua ‘alma’. Entretanto. como que comprimido entre duas membranas. sendo o primeiro passo dessa interiorização a criação de um ideal. Desse modo. que contém inúmeros parâmetros novos e misteriosos para nós. largura e altura. desrespeitando nossa própria existência. tendo como principal meta a alteração dos reflexos virtuais da realidade que nos atormentam. onde todas as coisas são um amontoado completamente desconexo. foi se expandindo e se estendendo. “Toda força que não se descarrega para fora volta-se para dentro — isto é o que chamo de interiorização do homem. que a descarga intensa de energia. ” Como nosso corpo não suporta. que o ser humano é o responsável por estabelecer o entendimento do ambiente em que está inserido. intensamente assustadora e muito superior àquilo que nossa constituição física-psicológica é capaz de suportar. existente em nossa mente 23 . podemos dizer. Todo o mundo interior. algumas pessoas têm a audácia de dizer que nosso instinto mais profundo é a manutenção da espécie —. mesmo deparados com tais características. essa energia gerada pelo desespero é ilimitada. ininterruptamente. sem sombra de dúvidas. na medida em que o homem foi inibido de sua descarga para fora.

Nesse contexto virtual. o desespero. podemos dizer que não existe diferença entre imaginação e realidade. primeiramente. que nossa constituição não é capaz de suportar e é transformada. constantemente. por definir nossos conceitos e determinar aquilo que somos capazes de perceber. ou por causa da identificação de algum elemento que nos faz recordar de uma situação que nos incomoda ou nos agrada. sentimos. Em um mundo que é construído por nós.e sendo a responsável por determinar aquilo em que acreditamos. definem ela. em ideais. podendo alterar nosso estado de espírito por causa da percepção de algum fator novo. que incita o surgimento de uma força profunda e ilimitada. que amenizam nossas dores. Nossos pensamentos transformam a realidade. 24 . alterando a nossa realidade virtual.

“Muitas vezes.” James Joyce 25 . podemos muito bem fazer uso de muitos textos para solucionar os nossos problemas na imaginação. a leitura de um livro não é necessariamente apenas um entretenimento.

sem ser influenciado por ninguém.” “Geralmente. constantemente. ainda vã. capazes. a imaginação nunca permanece a mesma. muito mais útil do que. Você tem de estar disposto a permanecer absolutamente sozinho. filosofia. consequências e vivências. o quanto são ferramentas poderosas. podem trazer à tona aspectos existenciais muitas vezes desesperadores. de realmente sentirem e. por onde passa. até certo ponto. sendo. um professor de boxe francês executa um trabalho. é um caminho perigoso. através da aquisição de novas perspectivas. ninguém mesmo. que possuem a capacidade de realmente digerirem um livro. até mesmo insuportável. é preciso desenvolver suas impressões até o ponto de não mais conseguir se identificar com ninguém. muitas vezes indesejáveis. de causarem impactos grandiosos e duradouros nas vidas das pessoas. Para esses indivíduos. vivenciarem experiências alheias. sem pátria. um tanto raros. sem ter ninguém em quem se refugiar. por exemplo. amplia-se a capacidade de objeção a crenças tidas como sendo inquestionáveis. Ao mesmo tempo em que se amplia a capacidade de observação sob diferentes pontos de vista. muitos que se arriscam nunca mais voltam. alguém que possa fazer com que você não presencie o desespero profundo e desolador. não mais possuindo a possibilidade de encontrar alguém com quem compartilhar seus pensamentos e experiências. Uma existência sem subterfúgios. sem ilusões. ampliada. “Você deve tomar cuidado com a literatura. ainda é um fardo muito pesado. para o ser humano e sai. em meio a mais absoluta liberdade. um tipo como Rousseau. sim. a condutas e sensações tidas como indispensáveis. que 26 . Essas consequências.A literatura é relativamente boa e útil Algumas poucas pessoas têm realmente a capacidade de compreender o quanto os livros são importantes.

mais contida. são. pelo menos na minha opinião. até mesmo. principalmente pseudointelectuais. estupidez e covardia àqueles que dizem ser interessados em livros. Esses “defensores” da literatura mantêm e divulgam os livros. absurdamente equivocada. por aí. a literatura. de tal atividade. em muitos momentos de suas vidas. a falta de capacidade de terem opiniões próprias. mas a um preço muito caro. daquilo que leem. sua estupidez. de abandonarem o pedantismo insuportável. O cenário acima descrito. e relacionados a suas próprias experiências. tornando a valorização. Essa característica faz com que os verdadeiros leitores — aqueles que realmente vivenciam e adentram as histórias — deixem de indicar e valorizar sobremaneira. e dão uma conotação. para todos os casos. aplicando. aqueles incapazes de extrair aprendizados profundos. demoli tudo!” Os leitores mais sensíveis têm conhecimento de tais riscos. sendo ele a transformação dos mesmos em uma piada infame e totalmente desnecessária. etc. pelo menos na minha humilde opinião. seus preconceitos. suprimida por completo em muitos casos. como é o caso de muitas pessoas.em qualquer localidade onde se instala não deixa pedra sobre pedra. os livros como remédio. Os “defensores” assíduos da literatura. que é facilmente encontrado. com certo receio. sobe a importância dos livros. algumas vezes. Mesmo conhecendo agentes transformadores poderosos. Tais “defensores” mancham a literatura. de egocentrismo. afastando aqueles que realmente poderiam tirar algum proveito dos livros. que a todo o momento divagam sobre a necessidade de ler constantemente. e sem qualquer tipo de distinção. faz com que questionemos a capacidade das pessoas de aproveitarem e assimilarem as impressões que muitos autores compartilham 27 . aspecto esse que os fazem olhar para a literatura. esses “defensores” são incapazes de questionarem suas crenças profundas. deixem de recomendá-la para todos os casos e para todas os mais variados indivíduos e personalidades. sendo.

Casos como esses. podem ser observados já nas primeiras leituras de tais indivíduos. A leitura é uma atividade realmente emocionante. consequentemente. de sensibilidade. alguns livros se tornam restritos por si só. Realmente. tornando-se impossibilitados de possuírem nem meia dúzia de leitores capazes de imaginarem muitos aspectos propostos pelos autores.ao longo dos tempos. que nos transporta para as localidades mais interessantes. que vivencio nos livros. atributos esses que mais complicam do que favorecem uma existência saudável. Após essa personificação. talvez iriam requerer. gosto muito mesmo. sendo que. para poder adentrar tais aventuras. fazendo com que eu consiga me identificar com. fazendo com que eu sinta o peso de cada uma delas como sendo verdadeiras. preciso apenas pegar emprestado. pelo menos. que são um tanto raros. Algumas pessoas possuem um dom natural. Esses acontecimentos. uma vida inteira para que fossem realmente experimentados por mim. até mesmo podendo ser considerada uma dependência. para a literatura..” “O autor faz uma descrição minuciosa do personagem.” 28 .. que nos faz vivenciar as experiências mais intensas e incríveis. “Gosto de ler. dando-lhe as mais variadas características. Para o ódio dos leitores estúpidos e egocêntricos. de graça. reais. se eu tivesse sorte. o autor conduz o personagem através das situações mais inusitadas e intensas. essa característica demonstra a presença de uma imaginação vasta e. um livro em uma biblioteca. sendo isso o suficiente para que eu consiga me enxergar como sendo tal personagem. algumas pessoas compreendem ideias complexas e incomuns com uma facilidade espantosa. algumas delas.

” 29 . a literatura se torna indispensável. cheias de espírito. “Que Deus ajude a mente desse garoto. As pessoas cheias de imaginação.Nesses casos. que poderão ser solucionados com o auxílio da literatura. ele sabe muito mais do que você já esqueceu. constantemente vão se deparar com problemas complexos.

estou entediado!” Autor desconhecido 30 .“Você não acha entediante ouvir as pessoas falarem? Elas sempre estão tentando parecer inteligentes com suas palavras.

Não é exagero quando se diz que estamos isolados e 31 . que. que almejam subjugar e rebaixar os interlocutores. dando um tom de segurança a expressões que elas são incapazes de compreender. sem nenhuma relação mais profunda. uma guerra de egos. Como muitas outras coisas presentes em nossas vidas. são encontrados aos montes por aí. ao indivíduo que faz uso desses subterfúgios. de segurança. confundindo e subjugando aqueles que ouvem seus discursos enfadonhos e superficiais. que mascaram os verdadeiros sentimentos e proporcionam. os prepotentes sanam sua insegurança. a todo custo. uma falsa satisfação. para criar uma falsa sensação de superioridade. Tudo é uma grande competição. Essa estrutura intrínseca é percebida por nós. quase ninguém é sincero. uns contra os outros. poucos são os que têm coragem de dizer aquilo que sentem. sem um entendimento abrangente. Por que as pessoas não podem ser realmente sinceras? Por que são raros aqueles que expressam o que realmente se passa em suas mentes? Aquela que deveria ser a nossa conduta mais comum é a mais rara. o verdadeiro motivo de tanta falácia permanece oculto. de expressões exaustivamente memorizadas. para essas pessoas. quando nos deparamos com discursos prepotentes e vazios. onde todos devem permanecer isolados.Pedantismo É incalculável a quantidade de pessoas intelectualmente inseguras que tentam. sanar suas incertezas e fraquezas através da exposição exaustiva de sentenças decoradas. resguardando os verdadeiros sentimentos e competindo sem parar. as metralhadoras de decorebas estão por toda parte. Através da reprodução de frases daqueles que são considerados geniais. sendo substituído por discursos infinitamente entediantes. infelizmente. ao invés de expressões verdadeiras deparamo-nos com discursos prepotentes.

entediados em meio àqueles que falam de forma veemente e escandalosa. exprimindo absolutamente nada. 32 .

minha única pretensão. Em um êxtase sem fim. E que trazia a satisfação invulgar. assim. E me sentindo potente. Intrínseca. Sentindo meu espírito ansioso A pulsar. Com espantosa insistência. Fazendo meu corpo dançar Em uma harmonia sublime Inspirando o aclive. em plena potência. Que me parece a melhor opção. quanta satisfação! Sentindo-me expandido. Decido o meu ideal pulverizar. Ah. Uma onda selvagem parecia jorrar. Proponho-me uma resolução. Que minha alma sempre esteve a desejar.Dor sem fim Acordei corajoso. Sedento de vida. Para que a plenitude da vida 33 . Satisfazendo.

Repleta de riscos e desespero. Mas a isso decido ignorar. A vida quero enxergar. Em todas as suas nuances. Está na hora de a vida enxergar! Repleto de êxtase começo o que me propus fazer. Implorando pelo retorno Daquele mundo que me fugiu. Então isso começo a fazer. As informações flutuam intensamente.Eu possa enxergar. Ah. 34 . Minha estrutura principal elimino sem dó. situação cruel. Sei que é uma tarefa perigosa. Percebendo todas as variantes. Agora que me sinto forte. Meu espírito antes imponente Agora se retraiu. E eu me viro entusiasmado Para olhar o novo cenário. Dela só resta pó. Agora que sou forte e não preciso de você.

desespero! Ó. Elucidar. ou simplificar. Ó. É muito mais do que aquilo que pensei eu Ser capaz de lidar.Trazendo o caos à minha mente. E nem para o antigo consigo voltar. Nada! Tento retornar. Minha mente está inundada E não consigo conectar nada. desesperadamente. Mas nem isso sou capaz de realizar. nada. A vida se expandiu. proposição infeliz! Maléfica! 35 . E nesse novo mundo não consigo ficar.

“Ele provavelmente não adivinhava. a fim de diminuir a minha sensibilidade nervosa e fortalecer minha vontade. até então. pois desejavam que eu aprendesse a dominá-lo.” Marcel Proust 36 . mas elas me amavam o bastante para não consentir que me poupassem o sofrimento. o que minha mãe e a minha avó sabiam muito bem. o quanto eu me sentia infeliz todas as noites.

os nossos objetivos. ou absurdamente satisfatória. ou de parâmetros e consequências realmente plausíveis. ininteligíveis e incompreensíveis vamos sendo direcionados pela vida. no entanto. adquirimos a nossa intuição. prontos para deturparem todos os aspectos da realidade em prol da nossa sanidade. sempre fazendo construções exageradas e irreais. nossa mente vai desenvolvendo as nossas impressões. irracionalmente. Amor ou ódio. Até mesmo um pequeno detalhe pode suscitar uma perspectiva desesperadora. Esse acontecimento intrínseco. que possui numerosos mecanismos de proteção. esses medos são eliminados pelo próprio intelecto. Em nossa mente os acontecimentos são desenvolvidos longe do nosso controle. podemos nos assustar com a constatação de que nossa mentalidade é muito mais instável do que nos parece. selvagem. de acordo com essas construções. Deparados com essas nossas características profundas. assim como podemos passar a temer qualquer pequeno acontecimento. redenção ou aniquilação. que possui potencial para se tornar o responsável por um colapso mental. as nossas sensações. ou de possibilidades que se aproximem da realidade. que ocorre independentemente da nossa vontade racional. apresentando-nos cenários que contêm a satisfação mais incrivelmente perfeita ou cenários que contêm as características mais abjetas e desesperadoras. adquirindo proporções incrivelmente exageradas. Longe de verificações mensuráveis. e. arquétipo ou sombra.Ampliando a consciência Cada nova impressão percorre nossa mente com uma intensidade assustadora. 37 . através dessas elaborações profundamente obscuras. essa é a maior característica do nosso intelecto. termina por determinar aquilo que nos é mais valioso. os nossos medos. sendo essas possíveis construções carentes de meio-termo.

em uma mentalidade flutuante. Alternando a todo instante os conteúdos e os motivos. o humor muda constantemente. constantemente criando novos cenários. deturpar as nossas impressões. nos seres sensíveis esses aspectos psíquicos são diferentes. desesperadoras. em evidente formação intelectual. esses mecanismos são estabelecidos e adquirem um conteúdo. o chiste que gera tensão. e sem alma. essa é uma característica um tanto rara. estão presentes em muitos adolescentes. e a todo momento. uma alma não é capaz de se estabelecer. Neles. Entretanto. a mente possui parâmetros a serem preenchidos. O desespero assustador. e. sem uma consciência abrangente e desenvolvida. A perspectiva mais satisfatória que ao mesmo tempo é a mais nociva e algo irrelevante. dignas de uma constituição em formação e sem consciência. a felicidade alucinada. as estruturas do intelecto vagam descontroladas e incertas. tudo é mutável. Nesse caso. a alegria de um momento se tornou a tristeza da hora seguinte e a informação irrelevante do dia seguinte. a maioria das pessoas realmente nasce póstuma. nós utilizamos diversos mecanismos de proteção. 38 . impedindo que o intelecto se depare com uma informação que possa suscitar uma interpretação assustadora. até mesmo em uma simples conversa.Estima-se que. longe de qualquer tipo de controle. o espírito está fresco e em sua potência máxima. alternando constantemente os cenários e a forma do indivíduo de se interpretar perante as constantes construções. sem direcionamento e conteúdos pré-determinados. todas essas características. Os esforços do intelecto são ininterruptos. até mesmo. que enxergam demais e não são capazes de estabelecer uma estrutura exata dos conceitos. até mesmo nessas pessoas. todo acontecimento chega sem filtros ou deslocamentos ao intelecto. uma relação exata entre suas numerosas percepções. os mecanismos de proteção deixam de existir. que é dissipada com uma risada selvagem. novas interpretações exageradas. sendo eles responsáveis por amenizar ou. é dessa forma incerta e múltipla que o intelecto se estrutura enquanto não encontra seus conteúdos exatos.

veem com satisfação a existência de uma estrutura exata de mundo. que se desvencilhem da incerteza agonizante e controlem suas impressões exageradas. vão se tornando indivíduos evoluídos. Ampliando sua imaginação mensurável. para que não incitem atos desesperados. que permitem a existência de mecanismos de proteção. decidem encarar a vida e os sentimentos de frente. capazes de entender e controlar todos os aspectos da psique. da sua raça. avidamente. 39 . esses aspectos exigem uma vontade descomunal para que sejam controlados. esses seres. na oficina que é a mente. desse modo. No entanto. que possuem uma constituição forte. que prometem sanar todos os desejos da existência. que os permite eliminar todas as possibilidades discrepantes e criar uma alma e um espírito imutáveis. ainda não criada. Eles buscam. a consciência. nos casos comuns. que pode ser analisada e direcionada (consciência). de forma racional. assim como se deparam com aspectos que aparentam aniquilar tudo o que existe.Com pouca consciência e sem mecanismos de proteção. alguns seres destemidos. em casos raros. característica essa que os torna irracionais para sempre. Angustiados em meio a sensações e estruturas intensas e muito longe que qualquer tipo de controle. situado muito além da realidade — o que não lhes permite a possibilidade de que a constatação de tais parâmetros os destrua e faça com o indivíduo se depare com o desespero paralisante —. todos os seus sentimentos e impressões. essas pessoas se deparam com paixões intensas. todos os tipos de experiências para que possam forjar. permitindo-os. esses seres vão estruturando. que lhes proporciona um conteúdo inconsciente comum e exato. constatável.

muitas vezes.” Autor desconhecido 40 .“Esteja preparado para mudar rapidamente.

Nele. como fazendo parte de um rio ininterrupto. tornamo-nos capazes de capturar e definir com exatidão a essência daquilo que nos propomos a definir. indiferentes. encontramo-nos perante a vida e seu fluxo ininterrupto e alucinante. obtemos sucesso. Durante essa segunda tentativa. aproximamo-nos da liquidez das coisas e nos esforçamos para classificá-las. não conseguimos mais sentir aquilo que classificamos. como. os elementos com os quais nos deparamos podem ser considerados como sendo líquidos. mas. fazendo com que a falta de definição das coisas seja uma característica insuportável para nós. sem nada. Após observar essa primeira tentativa ineficiente de classificação. sempre muda. como em um rio. ininterruptas. Essa nossa tarefa constante logo se mostra ineficiente. Em nossa vida. que sempre está em movimento. um pote de vidro. mantendoas unidas em formato de uma concha. até que olhamos para nossas mãos e a encontramos vazia. nesse contexto. por exemplo. arriscamo-nos para tentar definir aquilo com o que mantemos contato.A realidade líquida Em meio ao ambiente completamente mutável em que vivemos. o que nos faz permanecer distantes. e capturamos o máximo que podemos da liquidez. quando colocamos as mãos na água. sentimos o conteúdo líquido tocar as nossas mãos. armamo-nos com algum elemento que nos ajude a capturar o conteúdo que se encontra à nossa frente. contínuo. Tendo em vista essa nossa necessidade profunda. no entanto. Absortos nessas complicações iniciais de classificação das coisas. sentimos esse conteúdo escapar por entre nossos dedos. é imprescindível estarmos preparados para mudanças constantes. as coisas se movimentam e se alteram de 41 . e nos sentimos profundamente frustrados com isso. Quando nos aproximamos das coisas e tentamos classificá-las percebemos o quanto essa nossa tarefa é ineficiente. em relação àquilo que definimos. deparamo-nos com uma última e ainda mais complexa condição do ambiente em que nos encontramos. principalmente porque a mentalidade humana exige respostas imediatas e claras para as coisas com as quais ela se depara.

quanto mais se aproxima da natureza. Quando pensamos finalmente ter definido algo que tanto absorveu nosso tempo. obsoletas. e absolutamente necessária para o melhor aproveitamento das condições que o ambiente nos apresenta. governos. para que essas se adaptem ao ambiente. mais eficiente se torna. olhamos felizes para o exterior. que foram anteriormente citadas. percebemos que nossas classificações. constante. Nesse cenário as pessoas e as companhias vão tomando decisões.maneira ininterrupta. completamente discrepante aos conceitos que os guiam. como sendo um grande organismo vivo. companhias. que tanto se esforçou para definir aquilo que parecia ser essencial para nós. o fluxo contínuo do rio alterou por completo o nosso elemento de análise. por causa da constatação de que o ambiente externo se encontra completamente diferente. qualquer uma das organizações. ao arranjo das coisas. como deve ser aplicada a todas as instituições. constantemente se veem obrigados a alterar seus conceitos.. são inúteis. exaustivamente construídas. é uma tarefa ininterrupta. um ser vivo. pois. que quanto mais se aproxima da verdadeira essência das coisas. vão elaborando suas concepções e estratégias.” Após a descrição do cenário no qual estamos inseridos. Esse nosso exercício constante de redefinição de ideais e metas. mudamos o que fazemos. Aqueles que são mais inteligentes e perceptivos. e agora nos deparamos com um cenário completamente novo. onde nossas explicações e objetivos são inúteis. Essa condição existencial não só pode. etc. para fora da nossa mente reflexiva. “Quando mudamos aquilo em que acreditamos. percebemos o quanto é necessário que constantemente alteremos nossas crenças e classificações. irreais. pode ser considerada. todas as coisas se transmutaram. mudamos quem somos. que os direcionam pela vida. Constantemente nos vemos 42 . sem exceção. e quando analisamos o novo arranjo das coisas. com o qual nos deparamos. afinal.

vamos adquirindo informações que melhor relacionam as coisas. por fim. nesse processo contínuo vamos aprimorando nossos conceitos. alterando nossas concepções. Esse processo de correção e aprimoramento sempre ocorrerá em nossas vidas. 43 . aos vermes. entregamos nossa melhor versão. de graça.mergulhados em nossas memórias. atributo esse que nos permite possuir uma versão mais precisa e eficiente de nós mesmos. até que. alterando nossos parâmetros e a nossa interpretação das coisas.

ela nos diferencia de todos os outros seres vivos que existem. essa entidade ainda tem muito o que evoluir para que possamos considerá-la eficiente. Infelizmente. no futuro da humanidade. podemos perceber pequenos acontecimentos que nutrem um resquício de esperança de que essa entidade se tornará.” Autor desconhecido 44 . mas sim definirmos aquilo que somos. ou como somos? A consciência ainda é uma entidade germinal. diminuta. fazendo com que o ser humano finalmente seja superado e que nós nos tornemos deuses. Mesmo em sua ineficiência constantemente comprovada.“Será que realmente sabemos aquilo que somos. independente do ambiente. permitindo-nos não mais sermos definidos pelo ambiente. abrangente e eficiente.

permite que corrijamos aquilo que não queremos ser e possibilita a definição de novos parâmetros. Nós nos reconhecemos como indivíduos? Nós compreendemos nossas vontades e tendências mais profundas? É preciso que ampliemos a nossa percepção para que sejamos capazes de nos investigar profundamente. É uma descoberta do Eu. e de arranjo único. mas agindo da forma que lhe é mais conveniente. em meio a tudo aquilo que nos cerca. como sendo um microcosmo particular. com sua consciência evoluída. teimosamente. insiste em construir. tornando-nos conscientes das nossas tendências e desejos. essa investigação profunda nos permitirá compreender aquilo que define as nossas características psicológicas. característica essa que tem relação com uma espécie de bloqueio das influências externas. uma tentativa de nos definir como indivíduos. dessa forma não sucumbindo a projeções. que a mente. abrigadas no inconsciente. A consciência é a melhor forma de alterar os conteúdos inconscientes. mas o indivíduo maduro não permite que essas influências alterem seu comportamento. Um Eu maduro. assim como uma personalidade sólida e bem estabelecida é capaz de impedir o surgimento de outros traços pessoais. é uma descoberta que expõe a nossa alma. Esse processo — que é caracterizado como individuação — permite que desvendemos aquilo que somos. o ambiente à sua volta continua incitando comportamentos latentes. forte e bem definido é capaz de se proteger dos arroubos provenientes de nossos processos inconscientes. é capaz de conter as interpretações inconscientes exageradas.O eterno processo de individuação O processo de individuação é um processo de descoberta das nossas características pessoais. O indivíduo maduro também é capaz de se desvencilhar de um arquétipo que surge de forma potente e ameaça as características individuais. dessa maneira percebendo as influências externas . no indivíduo de personalidade fortemente estruturada. ele. 45 . que permite a nossa identificação como sujeitos possuidores de características inimitáveis perante o todo.

senti-la. como que um objeto que não pode ser nada além daquilo que ele é. As pessoas ultrassensíveis são suscetíveis aos acontecimentos externos a elas. um tanto quanto incomum. presentes em sua mente. por mais confuso que possa parecer. se quisermos enxergar um ambiente externo a nós que se aproxime daquilo que ele realmente é. e. sentimentos. característica essa que pode ser designada como em-si-para-si. Possuímos almas múltiplas. e é capaz de estabelecer uma nova ordenação para sua personalidade. proveniente das nossas próprias experiências de vida. sem que esse possua controle sobre aquilo que ele se sente impelido a fazer. determina a nossa personalidade. e que é caracterizado como espírito. aquilo que acontece em volta dessas pessoas incita uma maneira de ser. o indivíduo é capaz de identificar os conteúdos. A síntese desse caos. experiências. Essa nossa forma de enxergarmos as coisas à nossa volta não é absolutamente exata. incita um arranjo específico da personalidade. deparamo-nos com um grande caos. experimentá-la. aquilo que sentimos não é realmente a verdadeira essência daquilo que observamos. o conteúdo inconsciente irá determinar as ações e reações do indivíduo. sem termos medo de refutar e reconstruir nossas interpretações do mundo e nossas ideias. Nesse caso. de algum modo. memórias. sombras. O processo de 46 . que sentimos. arriscar. Em uma pessoa de consciência diminuta..Quando investigamos mais profundamente os conteúdos da nossa mente. investigar. nesse caso a pessoa pode ser considerada como sendo apenas algo em-si. Perceber uma característica de alguém à nossa volta é. Uma pessoa dotada de uma percepção mais abrangente pode desvendar e determinar o seu em-si. Experimentar. ou. etc. diferentes maneiras de nos definirmos como indivíduo perante tudo aquilo que percebemos. como uma caneta que é simplesmente uma caneta. aquilo que percebemos é uma inferência capciosa. arquétipos. tornando-se a pessoa que ele realmente deseja ser. Cabe a nós analisarmos tudo pormenorizadamente. testar. melhor dizendo. pela falta de consciência sobre sua condição. são tarefas indispensáveis para a instauração de uma personalidade que seja mais condizente com aquilo que as coisas realmente são. jogar. não pode alterar aquilo que ela é. para ser mais exato. uma variedade interminável de sensações.

47 . e definindo aquilo que somos. determinando o ambiente à nossa volta. nós sempre estamos nos descobrindo.individuação é eterno.

a vida de um fantasma.“Acordei com o sol rubro do fim da tarde. o mais bizarro de todos. e aquele foi um momento marcante em minha vida. e o ranger das madeiras do hotel. ouvindo o silvo das locomotivas. Não fiquei apavorado. e todos aqueles sons melancólicos.” Jack Kerouac “Meu espírito se agitava para procurar saber onde eu estava. assombrado e fatigado pela viagem. num quarto de hotel barato que nunca vira antes. e passos ressoando no andar de cima. e toda a minha existência era uma vida mal-assombrada. e olhei para o teto rachado e por quinze estranhos segundos realmente não soube quem eu era.” Marcel Proust 48 . um estranho. eu simplesmente era outra pessoa. quando não soube quem eu era – estava longe de casa.

entre as pessoas. Na literatura. e intrínseca. que. uma infinidade de modelos plausíveis. essa entidade é a estrutura de mundo que formamos. qualquer tipo de construção conceitual. consequências e possibilidades. sendo caracterizado por inconsciente suprapessoal (Jung) e superego (Freud). Após uma breve apresentação. são os responsáveis por nos fornecer informações para que determinemos o entendimento do meio em que estamos inseridos. deveria suscitar uma afirmativa confiante. aquilo que percebemos e aquilo que nos ensinam. o mundo é a nossa representação. talvez uma pergunta possa ter surgido na mente dos leitores: “Nós. percebemos o quanto é 49 . e esperar uma representação exatamente idêntica. Essa base. pela lógica. é um absurdo. que estamos situados em um ambiente que é uma referência em comum para todas as pessoas que existem. Cada um de nós é responsável pela construção de seus conceitos. essa nossa construção primordial. para suas interpretações. é conhecida como espírito. cada um de nós estrutura o próprio espírito (o ambiente à nossa volta). Referente aos conceitos que são construídos por nós — em um ambiente que nos permite infinitas interpretações —. que nos permite qualquer tipo de associação. quando comparados a outras pessoas. No que concerne à psicanálise. geralmente. foi caracterizada por Kant como sendo a intuição pura.O Eu fragmentado O mundo. esse entendimento profundo também é abordado. qualquer tipo de arranjo do espírito. Em meio a possibilidades infinitas de construção vamos classificando e estruturando as nossas impressões. uma infinidade de ramificações. a resposta é um categórico Não! O ambiente em que estamos inseridos nos permite uma infinidade de inferências. um espírito semelhante. ela utiliza como base. ou até mesmo da mesma pessoa em diferentes momentos de sua vida. não é mesmo?” Para essa pergunta. devemos possuir um conteúdo inconsciente semelhante. as nossas sensações. o ambiente à nossa volta. as nossas impressões.

o que evidencia a falta de necessidade da presença da consciência para que essas construções ocorram. que a todo o memento assimila novas informações e cria um novo arranjo das coisas. mas. essa multiplicidade de formas de nos portarmos perante aquilo que interpretamos como sendo o ambiente à nossa volta. Possuindo uma tábula rasa. O cenário psíquico que nos parece mais comum. provavelmente possuirá uma gama variada de possibilidades do Eu. esse tipo de concepção limitada só pode ser resultado de uma percepção diminuta. de acordo com a melhor forma de nos situarmos perante a nossa representação de mundo. ou da falta de experiências. construindo a interpretação do ambiente em que está inserido e a forma como ele se relaciona com esse ambiente criado por ele. mesmo sendo essa o principal enfoque do texto. o ser humano vai. sendo ele a multiplicidade de interpretações do mundo. sendo que cada uma dessas possibilidades foi estruturada de acordo com o ambiente e as informações assimiladas pelo observador. No entanto. é preciso que façamos uma pequena pausa para analisarmos uma de nossas entidades psíquicas mais importantes. ou com resquícios de possibilidades do Eu muito reprimidos e ignorados. Essa ramificação individual. provavelmente os animais possuem a mesma estrutura psicológica. de muitos deslocamentos. deveria ser mais comum. Nunca é demais lembrarmos que essas construções conceituais fogem do nosso controle consciente. enquanto na psicanálise é nomeada por Ego ou Eu (Freud) e por inconsciente pessoal (Jung). 50 . determinando nossas características. Um observador atento. ou inconsciente suprapessoal). ao longo da vida. O Eu (ou alma.incoerente possuirmos apenas um único modelo de mundo. é a principal característica da fragmentação do Eu. Ego) sem ramificações. que na literatura recebe o nome de alma. Após a apresentação de nossas estruturas psíquicas. ou inconsciente pessoal) é aquilo que nos delimita em meio ao espírito (ou superego. é comum encontrarmos pessoas que apresentem uma alma (Eu. que permite qualquer tipo de associação. a explicação do surgimento de um Eu fragmentado se torna mais simples.

e o quanto um Eu fixo e imutável é retrógrado e ineficiente. Vivermos eternamente na incerteza. A fragmentação do Eu. eternamente definindo o ambiente à nossa volta e nossa posição em meio a esse ambiente. mas após percebermos o quanto as condições à nossa volta estão constantemente se alterando. 51 . eternamente observando atentamente. de forma espantosa. fruto daquilo que podemos caracterizar como construções flutuantes.Um exemplo totalmente contrário à mentalidade comum é o de Fernando Pessoa. que se permitiu possuir uma constituição rara. são funções que nos amedrontam. e exigem demais de nós. assusta. esse indivíduo incomum. foi capaz de desenvolver. diferentes arranjos do Eu. não mais nos será tão complicado encarar todas as múltiplas possibilidades e as incertezas da vida. o que lhe permitia se situar de formas variadas no ambiente em que ele se encontrava. a princípio. é uma característica que.

sem parâmetros fixos. ela é múltipla. sendo refutados’ — Após analisar esse sujeito incomum.“A constituição dele muito me impressiona. eles não temem a morte. apenas assim. enxergar as coisas sob uma nova perspectiva? Quantas vezes ele não teve a sensação de ver o cenário formado pela sua mente se tornar obscuro. eles não temem nada.” Autor desconhecido 52 . Quando o analiso fico imaginando: ‘Quantas vezes ele não teve de pulverizar suas estruturas mais profundas para que pudesse. não temem a desconstrução dos conceitos que traz o desespero insuportável. de uma coisa passei a ter certeza. plural. pois sei bem o quanto é assustador ver um de meus conceitos profundos sendo questionados. aqueles que são dotados de pensamento múltiplo não temem a dor. insuportável? Tenho certeza de que foram muitas vezes.

desse modo fazendo com que nos sintamos mais satisfeitos. novamente. sendo ele incitado por algum acontecimento. Durante a interação sexual. que é desesperador para nós. a novamente executarmos ações que façam com que transformemos nosso espírito. nossa satisfação geralmente dura pouco. fazendo com que nossa alma abandone o cenário anteriormente desesperador e aumente sua potência em um cenário menos opressor. restando a nós apenas ações impulsivas. onde nos sentimos oprimidos perante as características do mundo à nossa volta. Perante essa nossa estrutura desesperadora. nosso espírito adquiri novas nuances. por nos proporcionar o nirvana. desse modo oferecendo um cenário mais aconchegante. que façam com que. mais tranquilo. no qual estamos inseridos (espírito). Esse ciclo pode ser considerado como sendo eterno nos animais e na maioria das pessoas. faz com que desenvolvamos um cenário obscuro e desesperador na nossa mente. que incitam a construção de um ambiente. ou podendo ocorrer de forma espontânea. logo nos vemos novamente deparados com os agentes que incitam pensamentos penosos. Nesse contexto. sanados. talvez a sexualidade seja a nossa atitude mais primitiva. ao gênero que estruturamos em nossa mente como sendo o responsável por nos proporcionar o único objetivo da nossa existência. em função do cenário opressor que se forma na nossa mente. Novamente. 53 . sendo elas satisfatórias. No entanto.O espírito e o desespero De repente algum pensamento. a fazer algo que altere. o tornemos um cenário satisfatório. tendo como intuito amenizar o cenário desesperados com o qual muitas vezes nos deparamos. que somente nos fornecem soluções provisórias para os verdadeiros problemas. Na nossa vida os verdadeiros agentes que nos incomodam nunca serão pormenorizadamente investigados. Nesses casos. sentimo-nos impelidos a agir. sentimo-nos impelidos ao gênero que mais nos agrada. que substitua nosso espírito desesperador. por nos proporcionar a potência máxima. sentimo-nos impelidos a agir de novo.

54 . podemos observar a substituição do sexo por outra atividade que adquiri o poder de proporcionar parâmetros espirituais satisfatórios. alguns seres humanos adquirem um conhecimento e um poder de controle sobre a mente que impressionam. suas ações. gerado por uma construção espiritual abjeta. sendo ela totalmente desnecessária. que. mas. Entretanto. racionalmente. em suas mentes. alcançar conceitos profundos e estruturar uma consciência abrangente são tarefas perigosíssimas. e nossa consciência pode se tornar tão abrangente e eficiente. sendo ela coerente apenas aos teimosos destemidos. que não possuem nenhuma consideração pela vida. diferentemente da maioria das pessoas. assim como são capazes de estruturar cenários. a princípio. esses seres raros são capazes de sanar o desespero. a mente é tão vasta. alcançar. de forma racional. De posse dessas informações preciosas. Eles se tornam capazes de mensurar as profundezas do intelecto.No entanto. Em um número relativamente alto de seres humanos. exigem que o indivíduo suporte uma dor insuportável. para a infelicidade da maioria das pessoas. que os permitam direcionar toda a sua força rumo a objetivos que eles almejam. assim como são capazes de entender a maneira como seus conceitos estão estruturados em suas mentes. apenas com a sua imaginação. Ah. o ser raro se diferencia dessas pessoas por ser capaz de direcionar.

não carecem de lógica. perante um mundo onde todos os conceitos estão previamente estruturados para as pessoas. não carecem de definições que podem ser confirmadas de acordo com aquilo que definimos ser o funcionamento da mente. louco.A estrutura da nossa mente É espantosa as múltiplas interpretações adquiridas pelas pessoas ao longo de suas vidas. onde o homem consciente e de pensamento profundo é taxado como sendo insensível. assim como a inutilidade da mesma. que nos impedem de transformar o nosso espírito em um cenário assustador. capaz de atormentar qualquer um. que coordena nossas construções intelectuais. Para além da definição de conceitos fixos. é preciso que salientemos a dificuldade de tal tarefa. possamos definir um modelo que possa abarcar todas as múltiplas interpretações que encontramos quando interagimos com pessoas que possuem com diferentes experiências. mesmo sendo a definição das estruturas humanas profundas uma tarefa de suma importância para o entendimento do ser humano e de suas crenças e condutas. apenas assim. Após estabelecida uma estrutura exata. para que. essa característica torna limitada e ineficiente uma classificação mais generalizada dos conceitos. de ser realizada. psicopata. diferentes formações culturais. que. senão a mais difícil. Quanto mais mergulhamos no intelecto. quando comparados entre si. mais vamos desestruturando nossas crenças que nos impedem de mergulhar em meio ao desespero paralisante. cada objetivo. é preciso que investigamos a forma como se estrutura o intelecto. é preciso que identifiquemos nossas necessidades e medos profundos. cada medo. Entretanto. Tendo essa característica em vista. de ser explorada. 55 . essa é uma das tarefas mais difíceis. das metas e dos medos de cada pessoa. que podem ser adotados por todos. fica mais fácil analisarmos cada crença.

é preciso que relembremos a análise exaustiva e pormenoriza que envolve cada definição. Sem mais delongas. é preciso que mergulhemos em um novo modo de enxergarmos as coisas. A relatividade de cada interpretação. percebemos uma mudança drástica no modo como enxergamos as coisas. é preciso que salientemos. nos situa em meio às coisas. que proporcionará o controle absoluto da mente. A vontade de potência. Os escritos dessas pessoas raras e corajosas nos proporciona definições muito precisas. tornou-se parâmetro essencial para que analisemos. perante os acontecimentos. algumas pessoas se arriscam em busca de realizarem essa proeza que resultará em benefícios incalculáveis para os seres humanos. que fará com que o ser humano seja. determinadas atitudes e definições. Primeiramente. superado e se torne senhor de si. sendo ela uma concepção absolutamente virtual do mundo. com precisão. o desespero e outras características da nossa mente: Sendo essa uma das definições mais complexas. que resultará no fim de guerras ideológicas. não passa de um reflexo da realidade tornou-se um conceito preponderante em nossas análises. de cada forma de perceber. Desde que a ideia de que aquilo enxergamos.Mesmo com todas essas dificuldades. desde já. o caráter especulativo das seguintes definições. é preciso que seja estabelecida a forma mais precisa como enxergamos as coisas. No entanto. finalmente. A imagem virtual do mundo. sendo ela particular e única. os ideais. cada proposição. sendo essa nova interpretação talvez muito mais próxima da realidade do que qualquer outra suposição previamente elaborada. das coisas à nossa volta. que percebemos. 56 . dono de suas concepções e de seus atos. como interpretamos nossos conceitos e como consideramos conceitos alheios aos nossos. que podem ser definidas como sendo nossas estruturas intrínsecas.

apenas interpretações. Apenas esse fato de pensar já é responsável por criar uma interpretação exagerada. enxergamos um mundo completamente diferente em nosso reflexo da realidade. muitas de nossas interpretações permanecem intocadas. mesmo sendo suas definições completamente equivocadas. que têm como base uma concepção particular e virtual das coisas. assim como a afirmação das mesmas faz com que o indivíduo deturpe a realidade. Nesse contexto virtual. podemos perceber o quanto a nossa mente é responsável por criar o cenário no qual estamos inseridos. desde o surgimento de tal pensamento. nele. não é nenhum exagero quando dizemos que o sujeito que sente como que se fosse cair em um precipício já. dessa forma. Longe da realidade e das verdadeiras consequências e comportamento das coisas. Como dito anteriormente. Mesmo nos deparando com muitas interpretações e sentimentos absurdos. a reconstrução de nossos conceitos exige uma força descomunal. tudo isso para que não presenciamos o 57 . Nesse caso. cada acontecimento adquiri proporções absurdamente exageradas. Dessa forma. podemos encarar cada acontecimento como sendo estritamente particular. para que essa apresente fatores que validem suas crenças profundas. já se coloca como que se estivesse perante tal cenário.Após essa definição inicial. e exigindo. inalteradas para sempre.”. sendo ele responsável por suscitar diferentes interpretações e reações em cada espectador. e irreais. possíveis. permanecemos alheios a essas nossas construções. O mundo considerado real por nós é aquele que imaginamos. que não condizem com parâmetros plausíveis. uma reclassificação urgente. Considerando como axioma a seguinte proposição: “Não existem fatos. podemos aprofundar as nossas definições. permanecem intocadas. que. muitas vezes. por suscitar uma grande quantidade de sentimentos. uma resistência super-humana contra o cenário desesperador que se forma em nossa mente cada vez que desestruturamos nossos conceitos e crenças profundas. Cada uma de nossas definições profundas têm como cenário a nossa imagem virtual do mundo. imagina o acontecimento.

ou domínio de outras pessoas. o indivíduo. cria aquilo que vem a ser conhecido como sendo o arquétipo. mesmo com todos os nossos mecanismos de proteção que nos afastam do medo paralisante e das construções que tanto tememos. superar esse cenário que insiste em se formar em sua mente. nada melhor do que contar com as palavras do mais profundo dos homens: “Não existe busca pela felicidade. mais suportável. mas sim por potência. Após muito esforço e tentativas intensas.desespero presente em cada uma de nossas desconstruções. de seu único e primordial instinto: A eliminação da alma. sendo ele inerente a uma mentalidade que é incapaz de se posicionar perante as coisas. Para a definição daquela que é a nossa estrutura mais profunda. a vontade de potência se trata da aproximação do desejo mais profundo dos seres humanos. incapaz de afugentar o cenário que tanto o incomoda. estrutura essa que é responsável por transcender a imagem virtual que tanto incomoda. Perante essas nossas estruturas intrínsecas. para que indivíduo se torne apenas espírito (nirvana). aproximação das dimensões do espírito. fazendo com que o indivíduo crie um cenário fictício onde o mundo parece se tornar mais ameno. característica essa que faz com que percamos a potência de nossos atos. Sendo conhecido como nirvana. seu ideal. presenciado por muitas pessoas. a todo o momento. 58 . e a satisfação (felicidade) e a insatisfação estão estritamente ligadas a essa potencialização. ainda nos deparamos com o desespero existencial. A potência não se trata de status social. ou à redução da potência. essa é a nossa vontade mais profunda. em um sentido estritamente intelectual.” Essa definição parecerá esdrúxula e incoerente para aqueles que são incapazes de entender o verdadeiro sentido de potência acima descrito. é algo que gera uma energia descomunal. é preciso que sejamos capazes de estabelecer aspectos profundos que são os responsáveis por gerar satisfação e desespero em nós. Entretanto. Esse medo profundo. mais confortável. que faz com o que o indivíduo busque. aspecto esse que é desenvolvido pela nossa mente de forma absurda. fazendo com que desenvolvamos o cenário mais desesperador em nossa mente.

como sendo o instinto de morte. Definindo de forma mais sistematizada e limitada. É até mesmo engraçado ouvirmos os tão comuns pseudointelectuais falando sobre aumentarmos as nossas possibilidades. costumamos definir nossas possibilidades de forma exagerada. precisamos estabelecer todos os conceitos que derivam dessa nossa estrutura intrínseca. onde os parâmetros são desenvolvidos em um ambiente particular. percebemos o quanto a realidade é plural e complexa. Sendo ela nossa característica mais profunda. e os conceitos são estruturados e definidos sem que esses possuam uma relação exata com a realidade das coisas. uma lógica mais precisa de nossas sensações não poderia ser obtida sem tal proposição. quando ele possui interpretações variadas e discrepantes entre si. relativo. sempre se encontrará perante o desespero e a dor. Mesmo perante essas características. que é muito diferente daquilo que estamos acostumados a interpretar sobre nós mesmos. que precisam ser aprimorados. podemos salientar nosso desejo profundo de estabelecer uma concepção imutável e direcionada estritamente a algum conceito específico. Suas interpretações. Os cenários exagerados nos influenciam. são completamente equivocadas. como sempre.Essa definição ousada. A mente plural. o retorno ao estado inorgânico. como descrita por Freud. elas são nocivas e desesperadoras. que encara muitos parâmetros e possibilidades sempre será mais miserável. por mais que existam apenas na nossa mente. Primeiramente. As nossas possibilidades nos oprimem. Essa característica do nosso intelecto é absurdamente opressiva quando o indivíduo possui múltiplas possibilidades. Sem um espírito vasto. parece ser a única explicação plausível para muitos de nossos sentimentos. Em nossa mente. sendo esse nosso sentimento e desejo profundo um de nossos defeitos gritantes. podemos considerá-la. sem 59 . esses parâmetros são absurdamente influentes em nossas decisões e estados de espírito.

de vivenciá-los. até que uma de suas possibilidades seja definida como sendo a direção para onde o indivíduo deve seguir. proporcionando-nos resultados muito menores do que aqueles que esperávamos. nos aterroriza. que enxergam as coisas com perspectivas discrepantes entre si. é com isso que os seres cheios de espírito devem se acostumar. que passaram a ser ainda mais importantes para nós. Quando o intelecto do indivíduo começa a se restringir em função de uma possibilidade em particular. são os únicos capazes de explicar com precisão o efeito que o aumento das possibilidades causa em nós. adquirindo proporções ainda mais desesperadoras. Nosso espírito se torna um 60 . os seres cheios de espírito permanecem tranquilos. todas as outras possibilidades se tornam opressivas. Aqueles que possuem um espírito vasto. aterrorizando o indivíduo até que esse se sinta desesperado. a princípio. A decisão.conceitos múltiplos. ainda apresentando os aspectos mais incríveis e satisfatórios. Detentores de possibilidades variadas. nossas mais variadas possibilidades fazem com que nos amedrontemos com os aspectos que a realidade passa a nos apresentar. Esse aspecto negativo penetra na nossa mente. Ao mesmo tempo que nos frustramos com a nossa decisão. Funcionando como um ideal opressivo. todas as nossas outras possibilidades — que permanecem intactas na nossa mente. O desespero sufocante e aterrador. Com a definição de uma das possibilidades. que anteriormente nos parecia ser tão correta. agora apenas nos oprime. serenos. os pseudointelectuais apenas repetem conceitos. sem serem capazes de compreendê-los. que só existem nas profundezas do intelecto — nos atormentam sobremaneira. ainda mais essenciais. que torna a realidade insuportável. aquilo que imaginávamos que essa possibilidade nos proporcionaria acaba por se perder em meio à realidade. fazendo com que nos sintamos ainda mais frustrados com a decisão que restringe as outras possibilidades.

fazendo com que sintamos uma dor profunda. e incapaz de encarar as verdadeiras proporções e aspectos da realidade. Retornando à condição anterior de ausência de definições. percebemos o quanto o ser humano ainda é limitado. o espírito volta a apresentar um cenário satisfatório. mais ampla. O desespero impele o indivíduo a abandonar a decisão anteriormente definida. fazendo com que as possibilidades opressivas voltem a se tornar possíveis. sabem que “o homem é algo a ser superado.cenário completamente desolador. Ele é uma ponte. aqueles que se arriscam. Perante essa nossa característica que nos conduz apenas à apatia ou a estruturação definitiva e limitada de uma concepção sobre as coisas. fazendo com que o indivíduo se sinta satisfeito. Mais do que nunca. não o objetivo final. característica essa que a aproxima das dimensões do espírito.” 61 . para identificar conceitos profundos. dessa forma deixando de causar dor. como que se o mundo estivesse desmoronando. fazendo com que a alma se torne mais potente.

sociedade e amor Parece ser do feitio humano a criação de imagens fixas. e que chamamos de ego. Essa assustadora destruição do nosso ideal pode ocorrer por causa de uma verificação do mesmo. não mais conseguindo nos iludir com aquilo que era projetado pela nossa mente. relatada em muitas obras artísticas. possuímos a religião. os deuses. que amenizam a impotência humana. A nossa particularidade diminuta. que nos delimita e nos situa perante o mundo. pode ser direcionado para o aprimoramento dos meios de produção. torna-se absurdamente impotente. não nos sendo permitido desconstruí-los através da experiência e da percepção. Essa experiência desesperadora. diferente da religião. para que esses permaneçam intocáveis em nossas mentes. fazendo com que encaremos o fluxo louco da vida. às vezes esses ideais podem ser destruídos. fazendo com que a discrepância entre o ego e o espírito nos incomode ao ponto de presenciarmos o desespero existencial. mais suportável. Acompanhando a evolução social da humanidade. sem qualquer tipo de subterfúgio. Tendo em vista a criação de imagens fixas inverificáveis.Ser humano. o conhecimento foi capaz de identificar um novo ideal longínquo. ao alcançarmos e realmente experimentarmos a ideia que nos iludia. de ideias que. inverificáveis. sem um ideal que a fortaleça. Nesse momento de desconstrução — onde obtemos muito menos do que aquilo que esperávamos ser capaz de sanar todas as nossas carências — somos atingidos. faz com que nos lembremos da importância de estabelecermos ideais inalcançáveis. com todas as suas variantes incalculáveis. que. que acompanham o ser humano desde quando esse se deparou com o primeiro resquício de percepção da sua condição existencial. tornam a existência mais fácil. No entanto. suas incertezas e sua velocidade alucinante. e amenizava o nosso sentimento de pequenez perante a vastidão do mundo. de alguma forma. fazendo com que a nossa pequenez e impotência se tornem ainda mais evidentes e desesperadoras. acabamos por classificá-la de forma racional. sendo esse 62 . pelo fluxo alucinante que é a vida.

é almejado de forma absurdamente voraz pelos seres humanos. o que nos proporciona ideais inatingíveis.ideal o dinheiro. Mesmo com a proibição do altruísmo. pois eliminaria a principal estrutura humana que incita o desespero. Na nossa estrutura social antinatural a ausência do ego não nos é permitida. cada moeda. um novo arranjo de mundo se tornou evidente para mim. nosso novo Deus. o desejo. a completude. toda a energia que gastamos protegendo um ideal que. por falta de senso crítico e de pensamento autônomo. o ser humano ainda se depara com um estado de espírito que lhe mostra a verdadeira essência da existência. por causa 63 . A nossa constituição psicológica permite a construção de qualquer meta. qualquer objetivo. toda a nossa existência para onde outras pessoas querem. Existem muitos relatos que nos mostram a ausência do ego em ascetas e em monges. “Talvez eu odeie tudo isso porque um dia amei. a supressão do indivíduo. Em meio às profundezas do meu ser. Nossa estrutura psicológica é formulada em função do ego e almeja alcançar apenas um único objetivo. terminamos por nos adequar àquilo que é imposto para nós. de um estado. são consequências de apenas um único motivo: o ego. e da ausência do egoísmo. a riqueza. Toda essa nossa luta cega. com o capital nunca conseguimos obter o suficiente. o ideal e a vontade. direcionando toda a nossa vontade. Essa é a nossa nova religião. possibilitando-lhes experimentar as sensações mais surpreendentes e satisfatórias. no fundo. dessa forma podemos nos caracterizar como uma pequena engrenagem que possibilita o funcionamento de um grande sistema. no entanto. mesmo com a intensa imposição da valorização do ego. nunca estamos satisfeitos. que tem valor de mercado. que nos resguardam do desespero. sabemos ser irrelevante. sendo essa condição incomum — e desvalorizada pelos mecanismos de imposição do poder — o amor. Cada pedaço de papel.

com todas as suas vontades descabidas e ilusões entorpecedoras. que antes era valorizado por mim. que essa experiência rara me proporcionou. tudo. felizmente. a realidade e a minha consciência o destruíram. Essa experiência. às vezes olho para as pessoas à minha volta. e para mim. sendo ela abrangente e preenchida pelo mais puro e caloroso êxtase. o que me permitiu contemplar o mundo sob uma nova perspectiva. por ter sentido a verdadeira satisfação da existência. esse abandono não durou muito tempo. desnecessário. passou a me parecer insosso. O amor chegou ao fim. Mesmo com todo o conhecimento.” “A ausência de si mesmo é perigosa. fez com que me afastasse cada vez mais da sociedade e de todo o seu materialismo. mas esse fim não veio sem sequelas. intragável.” 64 .do meu fascínio absurdo por outrem perdi as fronteiras que me delimitavam como indivíduo. que me transmutou por completo. e metade de mim sente vontade de ser como elas.

” relação. a representação pode se dar como pura Michel Foucault 65 .“Livre de apresentação.

em um meio onde tudo é mutável. entendimento. os deslocamentos e o ódio. sempre fazendo construções conceituais capciosas. Quando eliminado o pintor que representa. que almejam apenas manter a estrutura que nos impede de mergulhar na assustadora multiplicidade presente na pura apresentação das coisas. a todo o momento. Nesse contexto. todo o vazio por trás dos conceitos. particular dos fenômenos e dos elementos que são percebidos pelo artista. é incoerente e ineficiente. criamos os mais variados mecanismos de proteção. encará-lo como pura apresentação. finalmente. Essa nossa característica mais profunda tem como objetivo afugentar a incrivelmente perigosa multiplicidade e mutabilidade que a realidade nos apresenta. estabelecer uma representação exata para as coisas que percebemos. e deixando que o quadro represente toda a infinidade de interpretações possíveis. podemos. A percepção seletiva. Entretanto. agindo sobre nós sem que nem ao menos sejamos capazes de perceber suas ações. abandonando padrões pré-estabelecidos e perspectivas específicas. Afastados do vazio existencial. desde sempre sabemos que estabelecer uma ordem fica. são apenas alguns de nossos mais variados mecanismos de proteção. graças aos nossos mecanismos de proteção que mantêm firmes as nossas crenças. que afastam qualquer tipo de parâmetro que questione nossas crenças mais profundas. dessa forma.A cultura e as coisas Um pintor transmite em seu quadro uma representação. transmitindo uma representação que tem como base uma definição. abandonando suas particularidades e pontos de vista. vamos vivendo. ele analisa o ambiente e assimila as coisas através de uma associação aos seus conceitos e motivos. É do feitio humano buscar. contra aquilo que não reforça nossos conceitos. fazendo com que nos sintamos mais satisfeitos perante uma interpretação imutável das coisas. os seres humanos 66 . Tendo em vista nossa necessidade intrínseca de mantermos nossas interpretações exatas em um mundo mutável. que existem independentemente da nossa vontade consciente.

pois sem isso eu não seria capaz de suportar a vida”. e aqueles que eram detentores do poder de elaboração dos conceitos se tornaram os primeiros déspotas. “Partindo de uma liberdade ilimitada chega-se a um despotismo sem limites. muitas vezes passam por alterações drásticas. 67 . as atitudes do herói fazem com que ele seja considerado como sendo louco. que não mais é condizente com a forma de encarar e se portar perante as coisas. de definição das coisas à nossa volta. quando comparada com o verdadeiro comportamento das coisas. No entanto. A antirrealidade.desprezam a verdade em prol daquilo que mantém suas crenças. No livro Dom Quixote. pode ser caracterizada como uma elaboração conceitual muitas vezes infundada e limitada.” Até mesmo as constituições mais fortes. é descrito um exemplo de representação obsoleta. para que. e que guiam as condutas humanas. são definidas como sendo a cultura. Dotado de uma concepção ultrapassada. exigindo que as pessoas se adequem às novas formas de enxergarmos as coisas. nossos conceitos culturais.”. que vêm sendo elaborados e incrementados desde o início da humanidade. insuportável. Essas tentativas de elaboração de conceitos imutáveis. que os mantivessem distantes do desespero perante nossa verdadeira condição existencial. quando se depararam com o vazio existencial e a incrivelmente alucinante infinidade de possíveis interpretações. visando não sucumbirem à pluralidade das coisas. se adequaram às condições impostas pelos déspotas. eles pudessem adquirir uma existência que não fosse desesperadora. por causa de seu intelecto avançado. apenas assim. “Acredito em Deus não porque Ele exista. Todos os seres humanos. mas porque ele é útil. buscaram estabelecer conceitos fixos e imutáveis. o herói vive aventuras incoerente. que não mais têm relação com a forma vigente das condutas humanas e da forma com a qual as pessoas devem enxergar as coisas. que permitiu a manutenção de uma espécie que possui a capacidade de sucumbir por si própria. Essa nossa característica profunda muitas vezes pode ser encontrada na literatura: “A alma tem que ser eterna.

para que pudesse. incoerentes. Despi-me de qualquer tipo de identidade sociocultural. ambos estão situados no limiar entre conceitos profundos.Distantes das formas vigentes de se enxergar as coisas. “Afastei-me de toda a cultura. analisar de forma imparcial as coisas. de refutar os dogmas incoerentes. que relatam a verdadeira essência das coisas. desprezei as condutas pré-concebidas e aboli a linguagem. finalmente. o gênio se encontra muito próximo ao louco. de estabelecer conceitos que se aproximem da realidade das coisas.” 68 . e conceitos infundados. eles perscrutam além das condições e das crenças que nos são impostas. que continha relações capciosas com as coisas. apenas eles são capazes de criar o novo.

atributo esse que permite a existência de infinitas perspectivas capazes de classificar.“A realidade que se apresenta. não pode ser mensurada com precisão. as coisas e os acontecimentos. a nós.” Ludwig Wittigenstein 69 . e determinar.

tudo aquilo que incita incertezas nos amedronta e será odiado e desprezado por nós. Essa nossa constituição primitiva é absurdamente ignorante. capciosa. que somente existem em nosso espírito e são provenientes de elaborações que não admitem. definir o mundo e as coisas nele presentes. a elaboração de um sistema que pode ser considerado mais verdadeiro. Perante esse ambiente misterioso e complexo nossa mente estrutura conceitos e modelos. para a execução dessa tarefa. não admitindo lacunas e incertezas. dessa forma. com o quanto nossas impressões sobre as coisas são imprecisas. constantemente. Tudo o que percebemos é desenvolvido por nós. é preciso que utilizemos a lógica e a imaginação. situando-se nas profundezas do nosso ser e definindo aquilo que somos. cabe apenas a nós. podemos perceber conexões absurdas e distantes. mais abrangente. tudo aquilo que nos apresenta perspectivas discrepantes será refutado de imediato. assim como nos espantamos com o exagero e a incoerência de nossos sentimentos.Definindo as coisas “Possuindo esse aspecto impenetrável e incerto. em hipótese alguma. Para a realização dessa tarefa. definir aquilo que observamos. De posse de uma constituição desse tipo. Interpretando as coisas tendo como referência parâmetros irracionais e discrepantes. vamos estabelecendo interpretações exageradas. Sendo uma necessidade inconsciente intrínseca. caracterizando. que incitam sentimentos desesperados e atitudes ultraviolentas e incoerentes. da presença de uma elaboração consciente. a presença de elementos indefinidos ou incertos. sendo tais construções inconscientes. observadores. quando comparados com a verdadeira proporção daquilo que analisamos.” Deparados com um mundo incompreensível e desconexo. incoerente e irreal. nos surpreendemos. 70 . não necessitando. com o objetivo de criar modelos e explicações que possuam uma correlação abrangente. a definição precisa de tudo aquilo que percebemos.

que existem apenas na nossa mente. com a realidade. Surgindo como ferramentas que nos permitem nos desvencilharmos dessa nossa condição existencial primordial. ele fez uso da religião para explicar o mundo em que estava inserido. desse modo definindo o momento da ocorrência dos eventos sem definir o modo como tais eventos ocorrem. que têm como principal objetivo estabelecer um ambiente coerente e mensurável. encontramos a linguagem e a matemática. uma vez que reconheciam um limite claro. desde sempre. posteriormente.” 71 . sendo estimulados por impressões irreais. Ambos têm e não têm razão. a religião reconhece sua limitação perante os mais variados fenômenos. fez uso da ciência.” Almejando estabelecer conceitos virtuais lógicos. que determina os elementos estudados através de similitude (semelhança) e repetição de resultados. não encontramos em nossas interpretações particulares e profundas. Primeiramente. enquanto que no novo sistema se tem que dar a aparência de estar tudo esclarecido. “A concepção moderna do mundo fundamenta-se na ilusão de que as chamadas leis da natureza são a explicação dos fenômenos da natureza. o que. se esforçou em busca de explicações. evidente. enquanto a ciência possui a característica errônea de se considerar capaz de capturar a essência e determinar tudo com precisão. como os antigos ficavam diante de Deus e do Destino. podemos dizer que. De posse dessas duas formas de determinar o mundo. muitas vezes.vamos agindo inconsequentemente. que nos permite analisar o mundo e nossas impressões através de parâmetros que foram testados e possuem relação. o ser humano. A ideia dos antigos era mais clara. pelos menos. que determinam as coisas e os acontecimentos.” “Hoje fica-se pelas leis da natureza como algo intocável. “A filosofia é uma batalha contra a incoerência da nossa inteligência através da linguagem. e.

em se tratando de elaborar uma definição precisa e irrefutável para aquilo que percebemos. que determinam aquilo que percebemos e estabelecem um mundo fixo e imutável onde existe apenas elementos múltiplos e mutáveis. aspecto esse que não nos permite possuirmos uma linguagem. Utilizando um exemplo menos exagerado. tão essencial para a humanidade. é dever dos pensadores perscrutarem profundamente tudo à sua volta. expressa em suas palavras. a definição racional dos fenômenos ainda permanece exageradamente capciosa e. por si só desesperadoras. é totalmente desconhecida por nós. pois a forma como ele interpreta as coisas. formas de enxergar. para que o nosso mundo conceitual possa ser ampliado. não nos permite possuirmos imagens e modelos lógicos. poderíamos dizer que um leão. diferentes. Além de todos esses problemas de comunicação. seria incompreensível para nós. Identificando essas limitações. essa tarefa. abrangendo ainda mais coisas e acontecimentos. é permeada por aspectos atormentantes e perigosos. No entanto. para tais elementos. eles ainda se 72 . mesmo que sendo ele capaz de falar o nosso idioma. esses desbravadores se deparam com o desespero que a falta de determinação e de explicações nos causa. Despidos de conceitos fixos. Além dessas características. ainda nos deparamos com a falta de entendimento e de explicações coerentes para a maioria das coisas. podemos perceber a mesma falta de entendimento quando comparamos a interação entre pessoas de culturas. e de expressarmos o modo como enxergamos o mundo (linguagem). Essa incerteza em relação a tudo abre espaço para uma quantidade infinita de formas de enxergarmos o mundo (culturas). característica essa que nos mantém incapazes de compreender aquilo que foi dito. permitindo a existência de infinitas interpretações e modelos plausíveis. muitas vezes. Em meio à falta de explicação dos acontecimentos e dos objetos.Possuindo ferramentas — que nos auxiliam a determinar o nosso mundo — ineficientes. atributo esse que não nos permite analisar as coisas da forma como ele analisa. imprecisa.

“Sobre aquilo que não somos capazes de falar. desconexo e incompreensível lhes apresenta. Em um mundo onde a linguagem estabelece e preenche as dimensões do ambiente em que estamos inseridos. é impossível estabelecermos conceitos irrefutáveis para o mundo. que. que não é capaz de possuir um modo de verificação de conceitos que analise as proposições através de uma perspectiva distante e imparcial. Perante tal incapacidade. Nós não somos capazes de definir. Tentando se desvencilhar de tais perigos. se deparam com a dor que um mundo incerto. aqueles que perscrutam as coisas profundamente. com exatidão. ainda são a maioria. infelizmente. sem nunca poderem fugir de tal sentimento. que analisam sem fazer uso do modelo lógico construído e vigente (cultura). atitude essa que permite que a concepção de mundo não se torne dolorosa por causa de fatores misteriosos e incompreensíveis. a maioria das coisas.deparam com a incapacidade de identificar a eficácia e a relação de suas elaborações com a realidade. devemos nos calar. a linguagem ignora questões complexas.” 73 . que não é previamente direcionada a interpretar as coisas de uma forma préestabelecida. pois possuímos uma interpretação capciosa. contornando-as e classificando-as como ilusões falsas.

É. pois quando forem fazer alguma inspeção em campo. outros sobre política. que. — Há Há. por causa do telhado de zinco. sendo que algumas vezes o calor é até pior do que hoje. em volta da peça que havia sido inspecionada. mas tenho que avisar que essa é uma coisa que vocês vão ter que lidar nessa profissão — com um ar de superioridade.Aula técnica Após a demonstração de uma inspeção de soldagem por líquido penetrante. Aproximando-se do meio-dia. o instrutor interrompeu as conversas paralelas e. Alguns conversavam sobre futebol. que formavam uma turma de em torno de dez pessoas. característica essa que salientava o quanto o grupo estava disperso. apresentava proporções exageradas. nelas os mais variados assuntos eram abordados. Há Há. Algumas conversas descentralizadas podiam ser ouvidas. ein. chamando toda a atenção para si. outros relembravam as técnicas utilizadas para a inspeção da peça. após ouvir algumas pessoas reclamando do calor ele decidiu dizer algumas palavras a respeito disso. o instrutor reuniu seus alunos. — Vocês devem se acostumar. fez um comentário cômico: — Olha a profissão que fomos escolher. Percebendo o desconforto que o calor estava causando nas pessoas à sua volta. não será diferente. e alguns reclamavam do calor do ambiente. o horário também contribuía para com a sensação desconfortável que o calor em demasia causava naqueles que estavam inseridos naquele ambiente fabril. o sol irradiava diretamente o telhado do barracão. mantendo seu discurso com ares de importância — mas essa profissão é muito 74 . começou a fazer um discurso: — Pessoal. essa é uma das partes ruins — disse o instrutor. Pessoal! Eu sei que o calor está incomodando. Um dos alunos. percebendo que o instrutor havia terminado seu breve discurso. o instrutor sempre tentava identificar situações que poderiam incitar algum ensinamento para os alunos.

aquelas palavras reforçavam escolhas pessoais. onde a cada dia temos experiências novas. Os pensamentos se propagavam incessantemente em tais cabeças. O discurso breve. um dos alunos disse com veemência: — Eu não suportaria trabalhar em um escritório o dia inteiro. e sempre. suas inseguranças. fazendo com que o ambiente voltasse a adquirir proporções inquestionáveis. conhecemos pessoas novas. passando a demonstrarem maior satisfação. convictas e satisfatórias. fazendo com que qualquer outra possibilidade discrepante de profissão se tornasse absurda. 75 . parado no mesmo lugar. fez com que o aluno se tornasse capaz de afugentar a possibilidade que tanto o incomodava e tornava sua realidade dolorosa. de muitos anos. que agradava a todos. Percebendo seu direcionamento profissional. O conforto de um escritório climatizado. que parecia tão satisfatório em mentes. Passando a imaginar o quanto a profissão de inspetor de soldagem era muito superior a todas as outras. A menção de um trabalho mais tranquilo e delicado. substituindo-as por semblantes animados e satisfeitos. No entanto. sendo desconstruído. Vocês irão conhecer muitos lugares. e sempre. direcionamentos ao longo da vida. fazendo com que ele voltasse a se sentir satisfeito. que ali se encontravam. fez com que elas aumentassem. fazendo com que uma dor profunda e inconsciente começasse a surgir. Eu não me vejo em outro lugar que não fosse na área de inspeção. Na mente de quase todos.satisfatória. muitas pessoas. fazendo as mesmas tarefas monótonas e repetitivas sempre. e não terão uma rotina chata como as pessoas do escritório. que surgiu como uma rajada inconsciente violenta. incoerente. algumas pessoas ainda se sentiam inseguras em relação à carreira que estavam decidindo seguir. ainda mais. Muitos dos alunos concordaram. tornava a realidade efetiva em algo doloroso. muitos dos alunos alteraram suas expressões fatigadas pelo calor. onde o calor não seria um problema.

tudo aquilo que devemos fazer. Eles não se importam com a qualidade da inspeção. o que fazia com que todos ali presentes ficassem em silêncio. muitas vezes. se não 76 . os inspetores devem ter muita paciência. o inspetor deve ser capaz de dizer não. devemos aceitar sua vontade e sermos aquilo que Deus que que sejamos. que determina tudo aquilo que somos. novamente. fazendo com passasse a se sentir muito mal e frustrado novamente. por um breve momento. todos se sentiram satisfeitos com aquelas palavras. Sentindo a dor retornar. a culpa recaíra.. — Eu acredito que nossos destinos e ações já foram traçados por Deus. que deram um novo rumo ao discurso do instrutor.A convicção intrínseca incitava pensamentos satisfatórios. de novo. — Sabe. Essas palavras incitaram.. Por mais que suas palavras parecessem não possuir relação com o assunto que era abordado pelo instrutor. para que o equipamento que está sendo inspecionado volte a funcionar. nos deparamos com gerentes de produção que querem fazer de tudo para que o serviço de vocês seja executado o mais brevemente possível. o instrutor voltou a falar sobre as atividades executadas pelos inspetores: — Além do calor. deve impor seus prazos estimados de inspeção e não sucumbir à pressão. se ficarmos parados. se não nos esforçarmos. É nessas ocasiões que vocês têm de se impor. perdidos em suas ilusões particulares. pois se o equipamento for danificado. com certeza. que fazia com que ele afugentasse a dor e o desespero. Nós não devemos lutar contra a força divina. mas. ele disparou. ao longo da vida. Aquele que anteriormente havia se manifestado foi o que se sentiu mais inseguro. por conta de ruptura em algum de seus componentes. um discurso que afirmava a profissão que ele havia escolhido e que o definia. nós. Acho que o livre arbítrio não existe. a insegurança na mente de alguns dos alunos. que criava uma estrutura exata e bem direcionada. Por mais que isso gere conflito. sobre o inspetor. Percebendo aquele silêncio inusitado. só querem que tudo seja rápido. vamos sendo direcionados por Deus. pois. ao mesmo tempo.

cabendo apenas nos esforçarmos em busca de obter tais destinos. enquanto ele esperava pela ação de Deus. ainda mais para com ele. mas cabe a nós nos esforçarmos para alcançá-los. para que eles alcançassem aquilo que havia sido designado para eles. não vamos alcançar a vida que foi traçada para nós. o cara sabe das coisas. outro barco parou ao seu lado e lhe ofereceu ajuda. um barco parou próximo a ele e ofereceu ajuda. Sem se sentir influenciado pela decepção do homem. o quanto Ele nos oferece possibilidades e meios para que sigamos nossos destinos. quase se afogando. Sem se sentir satisfeito com seu discurso inicial. ele acreditava que Deus iria ajudá-lo. Por fim. acerca de situações onde Deus lhes exigiu esforço para que eles obtivessem seus destinos. chegando ao céu ele perguntou a Deus o motivo de sua omissão. ele tentou complementar aquilo que havia falado. que havia sido um homem correto e fiel em toda a sua vida. — Existe uma história que explica isso que falei: Um homem estava no mar. quando o homem já estava com câimbras e não aguentava mais se manter na superfície. As conversas novamente se tornaram dispersas. o homem recusou a ajuda. por não ter aceitado e aproveitado tais oportunidades de salvação — todos ouviram atentamente a história. mantendo-se tranquilo. que foram prescritos para nós. entre si próprios. sentindo-se estimulado por tal atenção geral devota. Após um longo período. do contrário. Deus respondeu que mandou a salvação. e. 77 . o instrutor terminou seu discurso com sua interpretação da história. Há Há — disse um dos alunos. — E não é à toa que você coordena esse curso. Os alunos dialogavam. — Esse conto mostra o quanto Deus nos oferece oportunidades. que obteve o consentimento de todos com suas palavras. permanecendo onde estava. pois. que também foi recusada. Então. Nesse caso. eu acredito que Deus traça nossos caminhos e objetivos. duas vezes. mas foi o homem o principal responsável por sua morte.nos empenharmos em busca de alguma coisa. não iremos obter a vida que foi definida para nós — o instrutor parecia não ser capaz de controlar e definir com exatidão o assunto que estava abordando. que estava escrito para eles. o homem morreu afogado. pois dizia a si mesmo que Deus iria salvá-lo.

e cada um seguiu seu caminho. Como que despertos de um transe. onde o calor era menos severo. todos se dirigiram para a pequena porta do barracão. um dos alunos olhou para o relógio e disse em voz alta: — O papo está bom.Enquanto todos conversavam entre si. mas já são meio-dia e eu preciso it. 78 . alcançaram a rua. tenho que passar no banco.

mas sim os mais confiantes.” Autor desconhecido 79 .“Nós não seguimos os mais inteligentes.

deparamo-nos com a multiplicidade das interpretações. a um conceito. Essa nossa incerteza profunda pode ser observada toda vez que propomos. algumas pessoas apresentam uma estrutura conceitual veemente. Influenciadas por esses indivíduos que deixam transparecer conceitos exatos e irrefutáveis. Entretanto. 80 . ou uma determinada definição das coisas. As pessoas não seguem os mais inteligentes. Em meio a essa relação inexata e múltipla entre os conceitos que nos situam perante o mundo. nos olhos de outrem. não são todas as pessoas que possuem essa incerteza profunda.Nós seguimos os mais confiantes Cada pessoa possui uma forma própria de interpretar os acontecimentos. que está presente em todas as atitudes — que não mais aparentam ser inseguras. deparamo-nos com uma incerteza que se torna intrínseca em nós. característica essa que evidencia o quanto os nossos conceitos são incertos e não possuem uma referência exata. que proporciona a elas uma característica sedutora. E essa é a principal característica dos líderes: uma construção conceitual veemente. impotentes. aspecto esse que se espalha por todo o corpo. de enxergar as coisas. exata e sem incertezas. uma determinada resolução. que são responsáveis por classificar e determinar aquilo que percebemos. a nós mesmos. independentemente da necessidade de que aquilo que é proposto seja realmente melhor. que nos faz refutar nossas crenças incertas para que adotemos aquilo que se tornou tão irrefutável. incerteza. dando-lhes um aspecto de insegurança. tão exato. as pessoas se sentem tentadas a seguir aquilo que é proposto por essas personalidades convictas. mas sim os mais confiantes. Em um ambiente que nos permite uma infinidade de construções conceituais plausíveis. pois nossas múltiplas interpretações sempre irão colocar nossas definições sob suspeita. como que se não possuíssem conceitos antagônicos que impedem o indivíduo de direcionar toda a sua energia ruma a algo. de uma segurança sedutora. que se aloja nas profundezas do nosso ser e sempre nos impede que direcionemos toda a nossa energia rumo a um parâmetro.

Essa nova informação nos permite refutar. consequentemente. Quando nos permitimos observar as coisas sob diferentes perspectivas. a valorizarmos nossas próprias impressões e conceitos. e que são adotados pela grande maioria das pessoas — assim determinando sua personalidade. cego. sua forma de enxergar. vamos nos tornando exatamente aquilo que outras pessoas querem que nos tornemos. a falta de sensibilidade e a falta de inteligência que torna a maioria de nossos líderes tão veementes e. desde cedo. mais facilmente. Direcionados por essa nova forma de perceber as coisas. cheias de dúvidas e de múltiplas interpretações — sendo elas completamente discrepantes entre si —. vamos. quando é ainda mais trabalhado e analisado. Infelizmente. não as permitindo possuir uma personalidade convicta. parecem não resistir a uma análise mais pormenorizada. e até a idade adulta a maioria das pessoas já não mais possui a capacidade de pensar por si própria.Possuidores dessas características profundas. Desestimulados. profunda e abrangente. abrindo mão dos nossos conceitos para passar a interpretar as coisas de acordo com aquilo que outras pessoas nos ensinam. atrativos. para que os conceitos veementes e exatos existam. a estupidez. tornamo-nos capazes de identificar. revelando-nos. 81 . as pessoas realmente inteligentes e perceptivas — que enxergam as mais variadas possibilidades. dessa forma. percebemos o quanto um pensamento veemente é limitado. ao longo da vida. mais facilmente. A imposição dos conceitos começa desde cedo. vamos assimilando apenas aquilo que nos permitem compreender. Toda a veemência e os conceitos tidos como irrefutáveis. não as permitindo serem aceitas como líderes. Esse aspecto. de interpretar as coisas —. os mais variados conceitos existentes à nossa volta — estão por aí. que fazem parte da natureza e dos desejos primordiais do nosso ser. nos mostra a necessidade intrínseca de ausência de parâmetros diversos e de uma percepção abrangente. a fragilidade dos pilares que server de base para que se instaurem as sociedades. tudo aquilo que nos é imposto como sendo real. em algum canto.

“O mundo dos astros é menos difícil de conhecer do que as ações reais dos seres. fortificados que são contra nossa dúvida por fábulas destinadas a protegê-los.” Marcel Proust 82 . sobretudo dos seres que amamos.

e só mais tarde percebi a arte encantadora que ela possuía de mentir com simplicidade. até mesmo. O que ela dizia. ou. nos deixa ainda mais confusos. que. considerar o quanto a linguagem muitas vezes é ineficiente e incapaz de expressar. podemos considerar que as pessoas alteram suas concepções ao longo da vida. de tal forma. O acréscimo desses parâmetros torna qualquer tipo de definição uma tarefa praticamente impossível. em cada indivíduo. podemos. a natureza mais profunda 83 . atrelado a esses novos aspectos. porque ela havia contado aquilo de modo tão natural. o que confessava. Esse breve exemplo de pluralidade conceitual torna incrivelmente complexa — até mesmo para as pessoas mais estúpidas.A estupidez “Porém. Além disso. que têm lugar nas profundezas obscuras e misteriosas. elaborada por mim. haveria muito a discutir sobre essa palavra falsidade. com precisão. possuía. nossos sentimentos. quase sempre. possuem várias interpretações para um único acontecimento. do que aprendemos de maneira irrefutável — que ela semeava. O universo é real para nós todos e dissemelhante para cada um. assim como cada reação idêntica pode ser instigada por sentimentos completamente diferentes. ainda assim me sentia incapaz de defini-la com precisão. Cada nova interpretação. fazendo com que recorramos a uma interpretação estritamente relacionada às reações e atitudes daqueles que observamos. assim. “Por mais que a visse todos os dias. no momento não suspeitara de nada. Aliás. capaz de revelar. com precisão. única e discrepante.” Cada acontecimento pode ser interpretado de uma forma completamente particular. por não sermos capazes de identificar os pensamentos que incitam aquilo que percebemos. ignorantes e convictas — a tentativa de interpretar com exatidão as palavras e as atitudes das pessoas. as mesmas características das coisas evidentes — do que vemos. ainda. finalmente. nos intervalos da vida os episódios de uma outra vida de cuja falsidade então eu ainda não desconfiava. que parecia. por cada uma das pessoas que o presenciou.

novamente. ainda mais. fazendo com que. mas. receosos perante nossas escolhas e decisões.” Ampliando nossas perspectivas e possibilidades. desde muito cedo. Para essas pessoas. que é. característica essa que aumenta a chance de escolha de uma interpretação realmente condizente com aquilo que vivenciamos. Presas em seus mundos para sempre conhecidos e nunca mutáveis. eu me deparasse com um ser completamente misterioso para mim. expressas de forma receosa e incerta. atitude essa que não os permitiu interpretar os acontecimentos de forma variada. ao mesmo tempo. ou incertos. qualquer tipo de situação. as interpretações limitadas das pessoas estúpidas. que quase utilizam sempre algumas características conhecidas para determinar. que são a maioria. Essas condições são completamente desconhecidas pelas pessoas estúpidas. através de associação a uma memória pré-existente e exata. que possuem interpretações exatas sobre as coisas. uma concepção específica. múltipla. expressas veementemente. 84 . permitindo-nos analisar uma situação sob diferentes perspectivas.dela. constantemente. quase sempre são mais valorizadas do que as análises sensíveis e abrangentes. nossa capacidade de tomar decisões e de definir com precisão as pessoas. o que nos causa dor. a incerteza é um fardo demasiado pesado. era pulverizada e tornava-se obsoleta após uma breve verificação. Deparados com as mais variadas interpretações. Essa característica nos torna indecisos. absurdamente substituído preconceituosos e por pensamentos incoerentes. percebemos o quanto muitas perspectivas concomitantes e simultâneas são completamente plausíveis e podem definir aquilo que estamos analisando. perdia-se ao menor contato com a realidade. que defenderam. dificultamos. nos torna sensíveis às mais variadas possibilidades.

” Victor Hugo 85 . geralmente.“Aquilo que é dito sobre uma pessoa. tem mais influência em seu futuro do que aquilo que ela realmente é.

O que nos consideram é o que somos? Uma pessoa é um gigantesco aglomerado de experiências. Enxergar outra pessoa como um sujeito múltiplo. aquilo que parecemos ser e querer. por fim. Enxergando-nos com um olhar subjetivo e profundo. de objetivos. assim como nos enxergamos. No entanto. para que passemos a encarar cada pessoa à nossa volta como sendo um indivíduo igual a nós. e muito. que possui muitas possibilidades. é um ato de igualdade e compreensão. muitas reações prováveis e muitos objetivos. desejos. o quanto aquilo que fazemos. de sensações. elimina interpretações pré-concebidas e imutáveis. essa atitude sensata para com o próximo. os julgamentos são frutos de um ego que se sente. Nosso dia-a-dia é permeado por ignorância e julgamentos absurdos e preconceituosos. ameaçado. Após essa simplória introspecção particular. seja desvalorizado. é uma atitude que elimina preconceitos. percebemos o quanto nossas ações não são definitivas. Todos os julgamentos minimalistas são afirmados a título de verdades absolutas e imutáveis. todos nós. Tendo. necessitando que aquilo que o intimida seja rebaixado. de algum modo. de medos. Em muitos casos. mas muito mais outras coisas. acabamos por nos encarar como um sujeito múltiplo. podemos aplicar aquilo que aprendemos. um pano de fundo amplamente vasto. onde concepções discrepantes ocasionalmente se chocam e onde a cada dia nos vemos completamente renovados — quando comparados aos dias anteriores —. de desejos. está absolutamente ausente do nosso cotidiano. mesmo que para tanto seja necessário inventar uma característica que nunca poderia ser inferida sobre o outro. cheio de incertezas. quando tomamos como base os pequenos gestos abstratos que nos servem como referência para a nossa construção conceitual. medos e possibilidades. Um 86 . fica difícil estabelecermos uma personalidade fixa para nós mesmos. o quanto as condições externas a nós são influentes em nossas tomadas de decisão e. Desse modo. que nos parece tão simples quando escrita. com nós mesmos. não é o que realmente somos.

de acordo com a frase que diz: “tudo que enxergamos nos outros é aquilo que de algum modo enxergamos em nós mesmos”. tudo aquilo que constitui um julgamento precipitado e preconceituoso é incoerente. Mesmo em meio a esse ambiente limitado e preconceituoso. por se sentirem incapazes de unir todas as suas vastas impressões. A ignorância. Parece que os julgamentos provêm apenas daqueles que são limitados e insensíveis.pequeno ato espontâneo pode ser responsável pela criação de uma personagem totalmente diferente daquilo que somos. podemos utilizar certas ferramentas a nosso favor. com relação a elas mesmas e aos outros. o que caracteriza o primeiro aspecto da sabedoria. mais facilmente. o culto ao ego e os julgamentos preconceituosos estão presentes em todos os lugares. o que é um absurdo. parece que a maioria das pessoas se sente impelida a definir um estereótipo para qualquer pessoa que cruze o seu caminho. enquanto as pessoas realmente sensitivas permanecem ausentes de qualquer interpretação definitiva. limitadas. que possibilita qualquer interpretação por parte das pessoas à nossa volta. perceber aquilo que mais se aproxima de ser a personalidade preponderante daqueles com quem convivemos. que quase sempre nos frustra. Toda definição exata provém daqueles que aparentam ser os mais ignorantes e. A mais eficiente é a passividade. Mesmo que os julgamentos e interpretações sobre nós pareçam infundados e preconceituosos. esses julgamentos determinam a forma como as pessoas nos enxergam e nos tratam. pois. 87 . seu conhecimento e percepções. sempre são mesquinhas. e nos importarmos com esses julgamentos é ainda mais incoerente e absurdo. infelizmente. E é a realidade. de não possuirmos uma atitude exata. permite que aparentemos uma forma de vazio. E. Nesse nosso mundo de rótulos redutores e pejorativos. Dessa forma podemos. a habilidade de nos manter ausentes. ampliamos ainda mais a nossa insegurança. a cada nova interpretação alheia incoerente. o que as fazem ficar sempre em dúvida. não adianta negarmos ela. vemo-nos obrigados a lidar com eles. sentimo-nos frustrados.

Em meio a tantos julgamentos limitados. reza a lenda que existem pessoas magnânimas. para sempre. sábias e originais. Olhando para a nossa sociedade e suas condutas “normais”. 88 . e egos inflamados. onde uma atitude define. aquilo que somos. sempre nos classificando com a pior das possibilidades. provavelmente elas se escondem. não é difícil entender o porquê.

necessite disso. assim será.” Autor desconhecido 89 . por mais estúpido que pareça ser. de algum modo para mim misterioso. Talvez eu. sei muito bem.“Aquilo que sua aparência me faz pensar vai ficar para sempre imutável e potente na minha mente...

os desejos. nós mantínhamos um semblante vazio. nos mínimos detalhes.” Chega a ser assustadoramente engraçado o quanto uma mera impressão. utilizávamos daquilo 90 . observávamos aquilo que as pessoas construíam a nosso respeito. diga-se de passagem. para isso. fazendo com que fugíssemos do tédio desesperador que sempre era despertado em função de conversas dissimuladas e insossas. Para falar a verdade. através da relação daquilo que observavam com suas memórias. principalmente para nós. estavam me julgando. minha e de minha mãe. atitudes. Utilizando daquilo que observaram em mim. muitas vezes perigosos. elas definiam rapidamente. medos. reações e preferências daquilo que observam. aquilo que eu era. Tal atitude. ou frases eruditas. característica é a responsável por fazer com que uma pessoa construa. e nunca foi. percebi que. ao mesmo tempo. sem possibilidade de reavaliação. uma singela e despretensiosa.Jogos sociais “Quando entrei naquela sala. encontrar constituições que realmente me agradam. que permitiam as mais variadas interpretações. elas faziam associações a conceitos e vivências antigas. e incrivelmente capciosa. toda a personalidade. surpresa para mim. Essa sempre foi nossa brincadeira predileta. na maioria das vezes. que por si só é preconceituosa. utilizando-as para identificar aspectos profundos das pessoas com quem convivo. lançávamos aquilo que chamávamos de ‘iscas’. as pessoas. desde o momento em que me viram. através de meus testes. permanentes e estabelecem. sendo elas lampejos de olhares profundo e concentrados. acompanhado de atitudes sem qualquer tipo de intenção. com uma convicção espantosa. era o de encontrar mentalidades raras. Nosso principal objetivo com esses jogos. e. ali presentes. ou pretensiosa. eu até mesmo fazia uso dessas atitudes.” “Na fase inicial de nossos jogos. complexas e completamente destituídas de ego. muito comum. Após a primeira fase. aquilo que algo ou alguém representa para outrem. podendo. “Esse julgamento inescrupuloso não era. torna-se ainda mais impressionante quanto constatamos que esses julgamentos são.

e sendo destituídos de um ego que exige proteção. salvo raríssimas exceções. não nos permitindo possuir experiências posteriores a esse estágio. sem que essas estruturas fossem alteradas ou barradas pela nossa vontade. sem que tais formas fossem deturpadas ou alteradas em função da necessidade de proteger nosso ego.” “É meio redundante dizer que nunca ninguém passou da segunda fase dos nossos testes. Como éramos seres abrangentes e múltiplos. para desconstruirmos qualquer tipo de boa impressão. a reavaliar os atributos da nossa metodologia que. sendo quase sempre apenas impressões e atitudes deploráveis. Muitas vezes. eliminávamos quase todos os participantes dos nossos jogos. sendo direcionados por atitudes alheias. De posse dessas características raras. em função dos fracassos constantes. um lixo!” 91 .que minha mãe chamava de ‘folha ao vento’. onde nos esforçávamos. por mais que eu perscrute. não muito. Durante essa etapa. atributo esse que nos permitia possuir conceitos que se aproximavam da realidade. espantávamo-nos com o quanto éramos capazes de nos deixarmos ser. nos incitava. desse modo nos tornando uma nova pessoa a cada momento. que acidentalmente se encanta por algo que a faz desprezar seu enfoque egoísta. podíamos contemplar as mais variadas formas possíveis de se enxergar as coisas. vime forçado. assumindo uma nova constituição e direção. de conservar um mundo centrado apenas em nós mesmos. Os poucos que restavam eram submetidos à segunda fase. exatamente como folhas ao vento. cabendo a mim apenas a conclusão de que santos não existem e que as pessoas são. cabendo as possibilidades de continuidade apenas à nossa imaginação. que ditavam aquilo que passávamos a ser. em relação a nós. não me permite encontrar falhas. que a princípio causa dor e é afugentada a todo custo. possuindo os mais variados conceitos e interpretações em nossas mentes. ficávamos espantados com aquilo que a atitude das pessoas. que quase sempre eram negativas — mesmo quando apresentávamos uma constituição vazia e suscetível a muitas interpretações —. tendo como intuito facilitar a desconstrução natural de uma pessoa cheia de ego.” “De acordo com aquilo que identificávamos como sendo a interpretação das pessoas com relação a nós. que sempre foram encerrados nesse ponto.

que.O que quero ver É isso o que quero ver. o rosto de uma pessoa que não se importa com nada. O aspecto de quem é capaz de controlar seus sentimentos e desejos. Eu almejo encontrar indivíduos capazes de escolher ter uma concepção satisfatória e empolgante acerca de tudo com o que se deparam. e que. que é possuidor de uma força profunda e selvagem. a todo o momento. não por causa de sua frieza. deixaram de ser misteriosos e intensamente incontroláveis. A face de alguém que sabe muito. quando comparadas. sendo elas totalmente discrepantes. foram racionalizados com precisão. que conseguem aproveitar todos os momentos de suas vidas e fazer com que todos as experiências se tornem significativas. Quero ver os despreocupados. 92 . por isso. que possuem múltiplas perspectivas. estupidez ou incapacidade de compreensão. cheios de mágoas e tristeza. tem pensamentos profundos e não mais possui ilusões. A característica que está relacionada com aqueles que passeiam facilmente pela vida. e que são capazes de fazer piadas e rir de tudo. quero estar próximo daqueles que não mais possuem uma alma centralizada neles mesmos e conseguem ver as coisas e criar conceitos e desejos que estão além de vontades puramente corporais. no entanto. como a maioria das pessoas. que vem do subsolo e pode ser direcionada para qualquer objetivo definido por essa pessoa rara. Que mantêm um semblante indiferente. sem preocupações. que são capazes de criar suas próprias interpretações com relação ao mundo. ao invés de viverem rancorosos. indispensáveis e especiais. mas sim por causa de uma sensibilidade exacerbada que oferece sentimentos avassaladores.

são capazes de gastar toda a sua energia se empenhando na realização de tais objetivos. para que possam aprender mais. a exaustão com suas tentativas. mais sábios e melhores jogadores. alcançando. mas. são capazes de direcionar todas as suas forças em direção a uma meta definida por eles. mesmo assim. cheios das mais variadas perspectivas. tornarem-se mais experientes. mas. E é isso o que quero ver! 93 . apenas agem de forma intensa e selvagem para que possam explorar mais amplamente a vida. conscientemente. mutáveis e livres. não porque eles realmente acreditam em recompensas para aquilo que se propõem a fazer ou têm ilusões em relação ao que poderão obter. diferentemente das demais pessoas.Tento encontrar os possuidores de espíritos vastos. muitas vezes. que não se importam com absolutamente nada.

com o intuito de destruir qualquer tipo de ideal. por todas as sensações e impressões.“É do feitio dos indivíduos mais inteligentes e diferenciados a busca incessante por todos os tipos de experiência. para que a mentalidade se aproxime. da verdadeira proporção dos acontecimentos. qualquer resquício de interpretação exagerada e irreal sobre as coisas.” Autor desconhecido 94 . cada vez mais. da realidade.

ele não foge da vida. Afastados. diferente de tudo o que já vi. 95 . alimentando ilusões. ele constantemente se enfurecia comigo. do vazio sem sentido que é a vida. fazendo com que estruturemos toda uma existência em função desses desejos profundos.O ser humano DEVE destruir seus ideais “Meu amigo incomum possuía um olhar frio e inalterável. ampliando sonhos e desejos. Talvez ele possua segredos capazes de alterar. e senhor de si. a todo o momento. Essa sua forma peculiar de enxergar as coisas fez com que eu o seguisse. ele representa uma ameaça incontestável à sociedade e aos valores vigentes. Ele acreditava que o indivíduo realmente consciente. a existência humana. comigo. a felicidade inabalável. mesmo com toda minha devoção. por causa de nossos ideais. vamos. a condição humana ideal é caracterizada por um alheamento completo a todas as coisas. por completo. e isso me intriga. mas.” Parece ser pertencente à natureza humana a necessidade intrínseca de ideais. ao mesmo tempo em que desprezamos e invalidamos tudo aquilo que nos faça questionar e desconstruir tais ideais. era aquele capaz de afugentar suas paixões e desejos mais profundos. são elas as responsáveis por definir aquilo que somos. não foge das sensações mais atormentadoras e desesperadoras. etc. de sonhos alucinados — que nos transportam para uma condição existencial mais satisfatória e suportável — responsáveis por eliminar a dor que a realidade nos apresenta. para ele. ele não é humano! Era comum ouvi-lo dizer que nunca trocaria seu vazio pelo estupor das pessoas comuns. que em nossa mente serão os responsáveis por proporcionar a satisfação mais sublime. Ele constantemente zombava de mim. a supressão de todas as nossas carências. pobre alma! O demônio. quando me via emocionado por causa de algum acontecimento que me encantava. por mais que elas nos afastem da realidade e da verdadeira proporção das coisas. Por mais que nossas alucinações tenham sido desenvolvidas apenas por nossa imaginação.

aspecto esse que altera. Ao mesmo tempo. as pessoas iludidas desprezam. por mais que seja repudiada pela maioria das pessoas. se aproxima da realidade. Uma vez destituído de qualquer tipo de ideal e lidando com as dores da existência apenas com sua consciência. Adaptados a um mundo completamente variável. deixamos de sentir medo de mudanças abruptas e abrangentes. que as afastam da realidade e tornam a existência mais suportável. apresentando condições que algumas pessoas almejam. Não mais perdemos tempo com sonhos alucinados que nos afastam da realidade. a vida sofre uma grande reviravolta. A incapacidade de mudança. construídos para além da realidade. mas não são capazes de alcançar. até mesmo algumas pessoas iludidas percebem o quanto suas crenças são infundadas. e. para essas pessoas. Tal condição indiferente é realmente especial. as condições existenciais. que exigia a criação de uma existência além-túmulo e reencarnações para que não nos sentíssemos desesperados perante a desconstrução de nossos ideais. por completo. No entanto.Mesmo que tenhamos conhecimento do quão inverossímeis são nossas expectativas. Não mais nos sentimos magoados perante acontecimentos passados que tanto nos atormentavam. dá lugar à ideia. Atraídos apenas por aquilo que reforce seus ideais. mas sim alguém a ser admirado. 96 . Na existência desiludida os valores são alterados quase que completamente. ainda assim somente nos envolvemos e valorizamos as opiniões daqueles que alimentam as nossas crenças entorpecedoras. não mais nos sentimos desesperados perante possibilidades variadas e concorrentes entre si. estimado. que não mais nos incomoda. qualquer indivíduo ou coisa que as faça questionarem suas crenças infundadas. de que a vida é única e de que nós simplesmente deixamos de existir após a morte. A impossibilidade de mudar dá lugar a uma capacidade incrivelmente abrangente de mudança. da verdadeira proporção das coisas. os desiludidos se tornam objetos de admiração em tais casos. uma pessoa alheia a qualquer ideal passará não mais a representar alguém a ser repudiado e odiado. ainda assim não somos capazes de abandonar nossos ideais. com todas as suas forças. Mesmo que estejamos cientes dos exageros irreais.

por mais que a destruição de nossos ideais pareça ser o acontecimento mais desesperador de nossas vidas. 97 .Por mais que tenhamos medo. Esses relatos nos mostram uma vida rica. sempre nos surpreendemos com os relatos incrivelmente satisfatórios dos seres destemidos que foram capazes de destruir aquilo que estruturava suas vidas. cheia de possibilidades e de conceitos que estão próximos à verdadeira essência das coisas.

nada restringe a nossa capacidade de observação. Nessa nova era nossos desejos são explorados. em todas as suas novas possibilidades.” É de se espantar ainda nos depararmos com julgamentos precisos e imutáveis. não mais sendo desenvolvidos de maneira exagerada pela nossa imaginação — o que sempre acabava por nos afastar da realidade. é de se espantar que nos fixemos em conceitos imutáveis. tudo se locomove com uma velocidade absurda. Nessa nova vida. em nossas 98 . fazendo-me mais específico: Tornou-se antinatural nos fixarmos a conceitos imutáveis. de maneira eficiente. não mais permanecendo por longos períodos.Sobre a personalidade contemporânea “Posicionados em meio a um novo arranjo das coisas. o que nos permite enxergar todos os caminhos. Em meio a esse fluxo louco. Aqueles que se deixaram levar pelo superfluxo observam espantados as teimosas ilhas fixas. no mundo atual. A maioria das pessoas se mostra obsoleta e carente de percepção. Dotados de pensamento veloz e possuindo conceitos flutuantes. que ainda insistem em conservar conceitos que se mostraram falhos e incompletos. que. cheio de possibilidades e oportunidades. sem parâmetros. a vida em toda a sua nova amplitude. o fluxo da vida e o das informações se tornaram incrivelmente acelerados. é preciso que sejamos capazes de desenvolver um novo comportamento que nos permita usufruir. acabava por nos impedir de enxergar a realidade —. não mais permanecemos distraídos por causa de um objetivo longínquo. possuem uma volatilidade alucinante. não possuímos nada definido. pois até mesmo o observador menos atento é capaz de perceber que os conceitos. fazendo com que as concepções sobre o mundo sejam incrementadas e alteradas a todo o momento. os integrantes da nova era se deparam com um mundo de dimensões vastas.

No vazio. o fim do sentimento.mentes. se tornou exageradamente incoerente. deparamo-nos com o perfeito indivíduo contemporâneo. 99 . qualquer associação pode ser feita. as nossas experiências nos permitem estabelecer conceitos mais próximos à realidade. Todas essas novas condições nos permitiram encarar o vazio existencial. destituídos do nosso ego. presenciamos o fim do querer. que não mais é opressiva. nele o mundo simplesmente se expande e. que sente as coisas da maneira mais próxima à realidade e possui a capacidade de definir os rumos mais evoluídos. Quando alcançamos o Nada. O microcosmo da existência humana nunca antes foi tão plural e relativo. talvez. ele é absolutamente incrível. A mentalidade contemporânea é extremamente mutável e extremamente impressionante. deparamo-nos com a liberdade absoluta. diferentemente do que a maioria das filosofias anteriores preconizaram. A nossa era é totalmente diferente de todas as anteriores. e os objetivos foram abandonados. todos os caminhos podem ser seguidos. essas novas condições permitam que o ser humano progrida em proporções nunca antes imaginadas. tudo o que é sólido tornou-se incoerente. e. Quando essa base infinita se alicia à imaginação. assim como impede que estruturemos toda a psique em função de um desejo que não foi realizado.

deparado com a força descomunal que não consegue encontrar.” Autor desconhecido “Ele chegou a casa amargurado. Talvez eu possa achar Algo de que venha a gostar. Só quero dar uma olhada no lado de lá E ver o que posso encontrar. E que amenize o desespero Que me incomoda sem cessar.“Não desrespeito os milhares de anos De construções conceituais.” Robert Musil 100 . E não titubeio em procurar Um sentido que essa sociedade Não é capaz de me dar. nem ao menos. Assim espero. Quero explorar e experimentar. uma singela atividade que lhe permita expressar sua oposição à perfeita inadequação do mundo.

até mesmo. Afinal. da nossa luta 101 . não é de se impressionar que a família Samsa tenha se tornado tão famosa. incapazes de fazerem uma interpretação particular das coisas à sua volta. governado por homens lunáticos e egoístas. que podem. são essas as características mais evidentes em um ser social. Em contrapartida a todo esse discurso revelador sobre a nossa condição existencial. por mais que eles pareçam retrógrados a um observador lúcido. As pessoas abandonam toda sua originalidade para que se tornem exímios repetidores superficiais. adaptando nossa percepção e o nosso pensamento para que assimilemos por completo o mundo. qualquer tipo de interpretação. Em meio a construções conceituais capciosas. por causa de uma consciência pesada que não se sente confortável em fazer parte de um estado tirânico. da forma como outras pessoas querem que enxerguemos ele. ela é uma síntese crua e evidente da nossa condição existencial. por adequação aos valores vigentes. A única coisa que consigo perceber à minha volta é uma busca desenfreada por adaptação. nós vamos. carecer de lógica e referencias palpáveis. em detrimento de qualquer tipo de interpretação particular. desde muito cedo. sendo essas estruturas capazes de adquirir qualquer tipo de conteúdo. Por fim. Aqueles que preconizam que cada indivíduo determina a sua representação de mundo estão completamente equivocados. Uma observação despretensiosa é capaz de tornar evidente esse aspecto da nossa existência. Sem senso crítico e sem imaginação. percebemos o quanto é improvável que não nos limitemos e nos adaptemos aos conceitos sociais. a nossa existência é hiper-relevante e essencial para que possamos abrir mão dela por causa de um conflito ideológico. características essas que não impedem que uma determinada interpretação se torne uma verdade absoluta e inquestionável. os inconformados A mente possui estruturas a serem preenchidas.Nós.

que a interpretação mais elevada de amor é se casar com uma mulher bela e rica. várias possibilidades se tornam plausíveis. abri meus olhos e vi o verdadeiro mundo. que não sucumbiu à alienação e à imposição dos valores vigentes. insossa e incoerente.desmedida pela sobrevivência. que não concorda com aqueles que determinam a nossa forma de ser. por mais que eles fossem estimados por todos. que se adequa a qualquer condição que nos é imposta. e então eu comecei a rir. Sem se submeterem a conceitos pré-estabelecidos ou a juízos sintéticos. sua própria forma de ser. que coragem é nos arriscarmos com o intuito de ganhar uns trocados. até mesmo. a verdadeira forma como a vida se apresentava para mim. cada vez mais. e não parei desde então. que cordialidade é dizer belas palavras a uma pessoa. coerentes. individual. que muitos filósofos não se cansam de retratar em seus escritos: “Conforme fui crescendo. Nessas mentalidades cheias de senso crítico e de imaginação. e é por causa disso que rio desde então. Eu percebi que o sentido da vida é ter uma bela casa. desenvolvemos mecanismos para afugentar a presença de uma consciência pesada. acabando. onde a grande maioria das pessoas são acometidas pela síndrome de Estocolmo — que as permite possuir uma existência saudável —. tornando-se um motivo de escárnio. por fim. que o maior objetivo é ter um emprego rentável. fazendo com que a razão prática torne-se. foi isso o que vi. Nossa sobrevivência é tão importante que. esses seres raros vão estruturando a sua mentalidade. podemos considerar um fenômeno extremamente raro a existência de pessoas que possuem uma mentalidade desenvolvida de forma particular.” 102 . que sabedoria é dizer aquilo que a maioria pensa. Em nosso mundo. que tem como referência nada além do que suas percepções e sensações. que paixão é falar de forma fervorosa sobre algo.

um desses seres ‘super-educados’ disse que leu um livro de Freud. e isso fazia com que elas se dedicassem a seus trabalhos. pelas suas reações. Em uma outra situação. em um parâmetro fundamental de uma empresa. não aprovavam essa minha atitude. e melhores.’ Aquele que havia ido à igreja pensou por um momento e disse. que era tipo um itinerário. todos do seu setor ficaram curiosos e o consideraram como sendo um dos poucos homens que havia lido aquilo que consideravam como sendo uma espécie de ‘bíblia contemporânea’. pois pensavam que promoções e aumentos lhes proporcionariam mais. o mesmo homem que havia definido aquele local como sendo um clube do livro disse: ‘E ainda dizem que a literatura está em baixa hoje em dia. era explicita naqueles que eram chamados de ‘peões’ e implícita. percebi que as pessoas. Aqueles que conseguiam disfarçar bem sua sexualidade exagerada e doentia eram tidos como sendo educados e inteligentes.’ Todos acharam aquilo interessante. floreada e disfarçada. A palavra Deus era usada por todos. em pessoas que ocupavam cargos que exigiam maior esforço intelectual.” Autor desconhecido 103 . trazia conforto e satisfação quando pronunciada. e todos valorizavam isso acima de tudo. um homem disse que havia ido na igreja.’ Todos riram e voltaram aos seus afazeres. com músicas e textos. sem exceções. logo em seguida: ‘Você tem razão. então alguém falou: ‘Esse local pode ser considerado como sendo um de clube do livro. constantemente. todos os colaboradores seguiam normas que eram compartilhadas por todos. sem que ninguém se preocupasse em defini-la ou regulá-la com precisão. Um dia. Um homem com uma roupa esquisita ficava lendo um livro para as pessoas. chegando lá peguei um papel na porta. é exatamente isso. a cultura organizacional era quase que absolutamente informal. assiduamente. essas mesmas pessoas associavam o acúmulo de capital a oportunidades de transarem com pessoas melhores. Um grandioso clube do livro. sendo eles incapazes de definir com precisão o que aquilo queria dizer. mas quando tentei andar pelo local. de alguma forma. ninguém entendeu o que queria dizer aquilo. eu fui por curiosidade. mesmo com essa ausência de controle. no entanto. Entretanto.’ Tudo mundo continuou olhando. oportunidades de sexo. meio sem entenderem nada. para vê-las melhor e mais de perto. que era seguida por todos. mas que. então retornei ao lugar onde estava sentado e fiquei imitando o que todos à minha volta faziam.“Na última organização onde trabalhei. Essa mentalidade básica. então o homem tentou explicar o que era: ‘Ah. achei que era uma espécie de museu. Lá dentro pude ver umas imagens e estátuas legais. As pessoas tinham como principal objetivo o sexo.

onde as pessoas possuem informações que as permitem refutar qualquer coisa. não é 104 . Esses atributos do nosso entorno atual são suficientes para nos fazer enxergar as pessoas. que facilitam. que permanecia.Nossa cultura ridícula “— Ele tem um rosto diferente. de serem escravas de ilusões completamente inverificáveis e tidas como. a maravilhosa rede de computadores que nos possibilita conhecer tudo aquilo que quisermos saber a respeito de qualquer coisa. anteriormente. No entanto. desse modo. cheios de belas expectativas. e suas atitudes e mentalidades. que me faz sentir alguma coisa legal. praticamente sem fronteiras. são completamente pulverizadas desde os primeiros momentos que dedicamos à observação das pessoas com as quais convivemos. para sempre como uma ilusão longínqua — capaz de fornecer tudo aquilo que necessitamos. permitindo-nos desconstruir. todas as nossas tarefas diárias. permitindo-nos realmente vivenciar aquilo que antes nos iludia. que nos permite vencer distâncias e desbravar aquilo que antes nos era improvável e restrito. anteriormente. Ah. nosso mundo contemporâneo. apenas com alguns cliques. a internet. e muito. todo o conhecimento e as experiências necessárias para fazer com que finalmente deixemos de nos sentir incompletos —. assim. muito tempo livre. que. que pode ser utilizado para o desenvolvimento de atividades realmente relevantes.” Ah. infelizmente. Ele deve ser muito rico. atualmente não mais é uma experiência improvável ou absurdamente dispendiosa. em função da verdadeira proporção daquilo que antes era desenvolvido e mensurado apenas pela nossa imaginação. Ah. libertando-as. inquestionáveis e intocáveis. nossas máquinas supereficientes. limitando-as e iludindo-as por toda sua existência. Ah. uma viagem. qualquer tipo de ilusão descabida com relação ao contato com uma cultura estrangeira ou à visita de algum ponto turístico. fazendo-as ficarem presas a uma única ideia. os tempos modernos. Ah. o nosso mundo conectado. Em nosso mundo conectado. proporcionando-nos. direcionando-as.

nossas particularidades e idiossincrasias. cada nova viagem frustrada. direcionandoas para objetivos em comum. mas muito pelo contrário. mesmo perante o contato com a realidade destruidora. tornando-as ainda mais patéticas do que as pessoas pobres. das mentalidades. essas características não chegam nem perto daquilo que realmente observamos. burras e estúpidas. ao mesmo tempo. mas muito pelo contrário. a responsável por fornecer tudo aquilo que sentimos falta em nós. que parece ser muito legal de colocar no facebook ou muito interessante em uma conversa entre amigos. que por causa da falta de dinheiro direcionam toda a sua existência em função de suas ilusões de riqueza e bonança. de aprofundar. para suas ilusões entorpecedoras e profundas. Essa ferramenta poderosa é capaz de fornecer material que nos permite desenvolvermos. tudo em função de uma miragem específica — perdoado quando constatamos a incapacidade de tais pessoas adquirirem perspectivas reais. logo de cara. cada vez mais eficiente. que ampliam os nossos horizontes e nos permitem desenvolver trabalhos complexos e exaustivos. introduzindo conceitos semelhantes e destruindo qualquer tipo de particularidade ou perspectiva discrepante e complexa. ainda mais e melhor. Quando nos concentramos em analisar as coisas à nossa volta. uma nova ilusão. podemos observar apenas a homogeneização. podemos. e. não sana nossa necessidade profunda e essencial. sendo. Ao mesmo tempo. que faz com que estimemos uma nova empreitada. Entretanto. realmente vivenciadas. o imediatismo e o menor esforço se tornam dogmas vivamente 105 . novamente. A manutenção de tais ideais faz com que essas pessoas sejam consideradas duplamente bobas. Eliminando esse primeiro atributo. Após perceber a resistência das ilusões. uma nova viagem.isso o que ocorre. deixando apenas um gosto de desilusão. podemos nos concentrar em como a internet é importante quando se trata de fornecer informações referentes àquilo que gostaríamos de desenvolver melhor. é também capaz de proporcionar informações importantes. essa sim. descartar o grande potencial da internet em desiludir. sendo esse direcionamento estúpido e intenso — que altera comportamentos e pensamentos.

” “Em se tratando de ganhar dinheiro eu poderia desmatar uma floresta inteira. Matando a individualidade e as perspectivas inovadora e sensíveis. tendo como referência modelos limitados. Eu seria capaz de fazer qualquer coisa. podemos perceber a internet como um meio que propaga os conceitos estúpidos. provavelmente está assim por pensar não ter tanto dinheiro quanto gostaria. complexos e inovadores. no final todos os sentimentos e sensações têm como referência o ato sexual.” “Ela parece meio triste.” “Aquela menina deve ser muito ridícula. possui uma bela casa. e a impossibilidade de destruição das ilusões. ainda mais inquestionáveis e intocáveis.” “Ele é muito feliz e bem sucedido. faz com que o tempo livre do homem contemporâneo seja 106 . reflexiva. sendo eles valorizados e estimados pela maioria das pessoas. só sai com gente pobre. superficiais e estúpidos: “Tudo pode ser explicado através de conceitos simples. a possibilidade de criação de trabalhos abrangentes. uma bela esposa e uma caminhonete. podemos ouvir mantras estúpidos a todo o momento. etc. que apenas são capazes de enxergar. acho que preciso transar com ela.” A potencialização da alienação. só pode ser gay. portanto. as coisas à sua volta. não consegue agradar ninguém que seja rico. fazendo-os se tornarem ainda mais influentes. meio deprimida. Em nossa sociedade materialista e pervertida.influentes nas vidas das pessoas. muito mais atrativa. em qualquer lugar.” “Acho que estou sentindo alguma coisa por aquela pessoa. eliminando. dessa forma. todas as coisas possuem uma constituição simples.” “Aquela pessoa é meio introspectiva. roubar.” “Quando uma pessoa é rica ela é muito mais bonita. matar. ainda mais pragmáticos.

no fundo. ilusórios e completamente desimportantes. em uma pequeníssima quantidade de livros.” 107 . ele expressa algo completamente novo. Indiferente até não poder mais. com precisão. Pessoas assim tornam evidente a presença de ideias que definem cada coisa ou pessoa que conhecemos. Inabalável e desiludido. Criando. mais amplamente. e. as mesmas ilusões são constantemente evocadas. superficiais e falsos. tem referência a nada além do que ideias e interpretações. Em nosso mundo cada vez mais cego e conformista. ainda assim. a preguiça. capaz de incitar a curiosidade de qualquer um. a estupidez e a artificialidade. nunca antes visto por mim. como que alheio a tudo à sua volta. fazendo com que as pessoas vivam em locais completamente irreais. sendo eles estimados pela grande maioria das pessoas. não consigo deixar de me ver influenciada por tais paixões. fazendo com que finalmente nos tornemos capazes de entender um aspecto que se torna para sempre claro na nossa mente: Tudo o que percebemos. que por mais que eu saiba serem. a burrice. que possuem o potencial de fazer com que a cultura e as pessoas evoluam rapidamente. sempre despreocupado. As perspectivas inovadoras. na maioria das vezes. sem relação nenhuma com a verdadeira proporção das coisas. imune às paixões e desejos mais selvagens. e sentimos. uma massa amorfa e completamente incapaz de possuir sentimentos intensos e genuínos. de novo e de novo e de novo. não passando de um tempo irrelevante. apenas nos livros.absolutamente infrutífero. “— Ele tem um rosto imponente. onde os acontecimentos são sempre observados sob as mesmas perspectivas. servem somente para aprimorar e propagar. profundas e sinceras existem. as maravilhosas inovações tecnológicas. infelizmente. A vida contemporânea está repleta de conceitos vulgares.

sem se importar com o impacto que suas palavras causariam nas pessoas com que ele interagia. ele se permitia externar sua verdadeira essência. por mais irracional e inconsequente que parecesse a um observador externo.” Autor desconhecido 108 . permitia-se expressar seus pensamentos e opiniões mais profundas. sem fazer uso de filtros. provinha de uma opção minuciosamente elaborada e almejada. ele apenas expressava aquilo que vinha à sua mente. que constantemente faziam com que as pessoas questionassem as ilusões que as afastavam de seus tormentos e fraquezas. Sentindo-se como sendo um indivíduo destituído de qualquer resquício de egoísmo. ele era odiado por todos. destituído de necessidade de companhia. Sua sinceridade crua e ininterrupta.“Sem medir suas palavras. por fazer com que as pessoas se sentissem desiludidas. que não possuía mecanismos de proteção e nem receios.

O ser incomum O ambiente não era diferente do comum. para que isso não ocorresse dentro da empresa. com intenção. Mesmo deparados com uma instabilidade constante. estavam prontas para odiar. assim como nas paredes. que frequentavam o refeitório. pois as obrigava a pensarem por si próprias. o ambiente era e impecável. Para aquelas pessoas o intervalo era o pior momento do dia. de forma que não incitasse o aparecimento de algumas dessas sensações destrutivas. que conseguiam julgar apenas através da aparência das coisas. as pessoas de davam bem entre si. e isso incomodava todos aqueles que se encontravam no refeitório. durante o intervalo. na 109 . O refeitório sempre estava impecavelmente organizado. todas elas cheias de frustrações e ódio. limpeza. era preciso que o ambiente fosse o mais aconchegante possível. todas as suas frustrações. em outrem. todos os utensílios estavam postados em seus devidos lugares. perambulavam sem rumo. a transmissão de um ar de harmonia. toda a organização. Para aquelas pessoas ali presentes. várias pessoas. que estavam presentes em excesso na maioria dos funcionários da empresa. Todas aquelas pessoas. obrigava-as a agirem por livre e espontânea vontade. de forma sucinta: toda a preocupação com a aparência dos ambientes da empresa eram intrinsicamente necessárias. onde o ódio se mostrava sempre pronto para emergir. prontas para despejarem. capazes de ofuscar a vista de quem se atrevesse a fixar seu olhar por muito tempo nelas. sem terem de obedecer a alguma ordem. e expressava as qualidades inquestionáveis que a empresa possuía. e. por causa da boa iluminação do recinto. harmonia. no chão não se encontrava sequer uma mancha. Além de transmitir uma imagem superficial e de fácil compreensão para a mentalidade superficial dos funcionários. que eram brancas e. proporcionando.

algo para transferir todos os seus sentimentos de impotência. a semelhança dos ideais e o direcionamento do ódio para objetos longínquos propiciam uma atmosfera sem sobressaltos. e que eram utilizados como subterfúgio para afugentar as verdades desoladoras da vida. um objeto 110 . Constantemente aquelas pessoas se revoltavam com a política. valorizavam a si mesmas acima de tudo e sempre mascaravam seus verdadeiros sentimentos. ameaçava todos os ideais que eram mantidos cegamente. Ele. assim como evitavam o desespero. que encontraram nesse homem incomum uma mentalidade que. todo o ódio e as frustrações não deixavam de ser externados. em muito tempo. mais próximos. referente aos valores vigentes e almejados pela grande maioria dos funcionários. Todas elas possuíam a mesma visão de mundo. mesmo no paraíso fixo das almas egocêntricas as coisas correm o risco de sofrerem uma mudança abrupta. e foi isso que ocorreu com o ambiente sereno daquela empresa. incomodava a todos.. de alguma forma. e tudo mudou. com alguma celebridade. nutriam os mesmos ideais. praticamente imutável. O jeito despojado e feliz de levar a vida. Essa compatibilidade impecável fazia com que todos se sentissem. Entretanto. mais parecidos. serena e. Após essa breve análise. e a ameaça aos ideais que todos mantinham inquestionáveis em suas mentes. que possuía um semblante despreocupado. Sua atitude tranquila e cínica. como companheiros que estimulavam os conceitos e o ideais mais profundos. por ser diferente. No entanto. um ser incomum foi inserido naquele ambiente. Pela primeira vez. e que evitavam a falta de sentido. fez com que todas as pessoas odiassem o novo funcionário. comum em demasia. que não eram poucos. para a alegria de todas aquelas pessoas dotadas de uma percepção lenta.medida do possível. de desespero e de mediocridade. etc. estável. o que permitia que todos fossem capazes de evitar encarar de frente suas existências mal resolvidas e medíocres. andava de maneira magnânima pelos corredores da empresa. o que os impedia de externarem todo o seu ódio. eles sempre encontravam algo para desprezar. onde um ambiente aconchegante. com algum time de futebol. pois consideravam todos ao redor como semelhantes. podemos classificar a empresa como sendo tranquila.

mais bizarros e malévolos. todos os gestos eram deturpados para que as pessoas conseguissem enxergar aquilo que elas gostariam de enxergar. Com o passar do tempo a situação se tornou ainda mais catastrófica. até mesmo a forma como o ser incomum bebia água era utilizada como base para a elaboração de uma característica pessoal que demonstrava uma maldade sem fim. E foi esse o caso. Todas as frustrações. Em apenas dois meses como funcionário. sem possuírem um único motivo para tanto. Ao fim do terceiro mês o ser incomum já havia recebido um apelido. o motivo de toda essas deturpações era o questionamento que o ser incomum incitava nas pessoas à sua volta. essas pessoas se apressavam e não hesitavam em tentar desmerecer e rebaixar aquele que incitava o questionamento. Todo mundo tentava estruturar o caráter do ser incomum. Constantemente ele se via obrigado a se livrar de agressores. Por fim. e isso era confirmado em coro. pasmem. Ele se tornou o responsável por todos os acontecimentos ruins. até que ele não mais fosse valorizado a ponto de causar um mal-estar conceitual. tanto verbais 111 . todos os problemas. encontrava-se precisamente ao lado. tornando-o o alvo perfeito para o ódio ilimitado e para as transferências que protegiam o ego de se sentir impotente.para onde seria direcionado todo o ódio se encontrava próximo. Vendo seus valores absolutos sendo testados. o homem incomum havia causado um rebuliço inimaginável. a desvalorização era tão absurda que criava um indivíduo digno de ser responsável por todas as frustrações. ao alcance da violência mais irracional e descabida. as pessoas relatavam um sentimento ruim. à nota baixa do filho de um dos funcionários. por todos que tinham contato com ele. No entanto. Para se ter uma ideia. ambas características presentes na maioria dos funcionários. ao alcance de um soco. uma espécie de “ambiente pesado”. ele era conhecido por todos como sendo o monstro. e sempre construíam os personagens mais esdrúxulos. Toda vez que o ser incomum adentrava alguma repartição. que iam desde o café que foi derramado no chão até. eram atribuídos a ele. As demonstrações de desprezo contra ele se tornavam cada vez mais explicitas.

de fato. deixou cair sua bandeja. chegou. seu monstro! Todos te odeiam. que se propõe a acreditar. A sua atitude de indivíduo intocável irritou ainda mais o funcionário exaltado. assim como se via obrigado a ignorar insultos gratuitos. um funcionário. sem se preocupar em limpar toda aquela comida que estava no chão. esparramando uma grande quantidade de comida pelo chão. “Você é o culpado de tudo isso. O acontecimento repercutiu quase que instantaneamente. deixando transparecer toda a sua vivacidade. Incapaz de odiar. feita pelos funcionários. transbordando de raiva. o funcionário se dirigiu. o ser incomum se mostrava inabalável. Durante o almoço. cheio de ódio. entre ele e o funcionário 112 . você é o mal da humanidade. e. você é um monstro do mal. ele possuía um sorriso fraternal. que eram pronunciados por todos. A construção conceitual incoerente. mostrava o quanto o ser humano é capaz de acreditar em qualquer coisa que deseja. Todos diziam que o ser incomum era o culpado. até a mesa do ser incomum. mas foi interrompido por outros funcionários. finalmente. que era interpretado por todos os funcionários como sendo o sorriso de um demônio. Judas!” O ser incomum olhou de forma indiferente para aquele interlocutor exaltado. seu merda. e após uma interrupção de em torno de 5 segundos. Mesmo com um ambiente completamente hostil à sua volta. toda a sua alegria pura e sincera. que estava impecavelmente limpo. ao fim. voltou a se alimentar despreocupadamente. começou a xingar à plena voz. que tentou partir para cima do ser incomum. que já vinha sendo direcionada para uma estada curta. A permanência do ser incomum naquela empresa. sentado a três mesas de distância do ser incomum. explicando que isso foi demonstrado pela maneira como ele se portou perante o confronto. por causa daquilo que sua constituição incomum causava nas pessoas à sua volta.como físicos. Aquele que era considerado o pior ser humano do mundo parecia um santo quando analisado por alguém que possuísse uma interpretação imparcial.

que culpa o ser incomum tinha ninguém sabia. uma imagem abjeta e permanente. 113 . por mais incoerente que possa parecer. A diretoria. era culpado. uma imagem responsável. as coisas voltaram a ser como eram.prejudicado por ele. era digno de alguém que. decidiu demitir o funcionário que foi acusado por todas as pessoas que presenciaram a confusão. para sempre. Após quatro meses a empresa recuperou sua atmosfera habitual. durante uma discussão. sofrendo apenas uma única mudança. por todos os acontecimentos ruins. que se incumbiu de cuidar do caso. com certeza. para muitos. Todos diziam que aquele semblante sereno e indiferente. para onde era direcionado todo o ódio. mas todos o julgaram culpado. Entretanto. o ser incomum ser tornou. e essa afirmação foi defendida por todos.

” Albert Camus 114 . Para tudo ser consumado.“Eu senti que tinha sido feliz e que era feliz novamente. e que eles me recebessem com gritos de ódio. eu tinha apenas que desejar a presença de um grande público no dia da minha execução. para me sentir mais satisfeito.

por não esconder seus sentimentos e não se importar com a forma como as pessoas o enxergavam. semelhantes e alienadas. dizia apenas aquilo que realmente sentia.” Somente nos momentos em que tentamos encontrar uma personalidade original. mal elaborados.Os estranhos “Ele se recusava a mentir. como um elemento capaz de demolir qualquer tipo de ilusão. qualquer tipo de artifício responsável por tornar a vida mais fácil e entorpecida. logo nos decepcionamos com os indivíduos que encontramos regularmente. muitas vezes. trazendo dor e agonia. cheia de perspectivas únicas. incoerentes. percebemos o quanto as pessoas são artificiais. diminutos e. Dessa forma. ignorantes e cegos. ele era visto como uma ameaça. aquilo que realmente pensava. para afugentar qualquer tipo de sensação e interpretação diferente daquelas que lhes são impostas. os indivíduos não possuem ferramentas que os permitam impedir que se tornem burros. contendo arranjos abrangentes e possuindo uma conexão lógica impecável e irrefutável. completamente alheios a uma verificação e interpretação estritamente pessoal. incapazes de imaginar consequências e diferentes perspectivas. que percebemos o quanto as pessoas possuem conceitos incoerentes. sem possuírem a capacidade de fazer uma análise crítica. Em um mundo onde desde cedo somos ensinados a rejeitar nossas sensações e a desvalorizar nossa capacidade própria de elaborar conceitos. O mundo interpretado através de conceitos limitados valoriza e almeja definir conceitos que permitam a existência das mais variadas falhas e aspectos que os seres humanos deveriam se empenhar para alterar. desde sempre. Não possuindo a capacidade de pensar por si próprias. a grande maioria das pessoas se esforça. Por ser assim. Em um mundo onde a burrice e a ignorância não mais são preconizadas por templos 115 . as pessoas precisam contar com definições alheias para que possam determinar aquilo que são.

os remédios substituem a religião. Há. novas interpretações. mas. Perante novos conceitos. por mais que me esforce. São essas as minhas crenças racionais e reais. — Eu entendo o seu ponto de vista. e prática.suntuosos e padres convictos — que desprezam qualquer tipo de desejo e sensação —.” Tornou-se. Por sorte. não consigo entender o que te torna tão mais ‘evoluído’ do que alguém que acredita em Deus. continua possuindo e sendo direcionado por ilusões. afastando as pessoas da dor e de questões mal resolvidas. mas sim por torres de marfim e cientistas ignorantes. a única diferença consiste na meta estipulada por você.” Em um mundo onde questões complexas continuam sendo desviadas e tratadas como se fossem anomalias. nos dias atuais: “O ópio é a religião das massas. — Interessante. não tem força suficiente para enxergar as coisas como eu enxergo. você. — Há. para o materialismo. No entanto.” “— Eu não acredito em Deus! Sou um ser evoluído e muito inteligente. “A religião é o ópio das massas. do que a religião. aqueles que começam a adquirir 116 .” Atualmente. “A medicação é muito mais eficiente. a meu ver. tangíveis. não é mesmo? — Claro. para a realpolitik e para o egoísmo racional. apenas com algumas pílulas. não dou ouvidos a seus argumentos impensados e fúteis. é um cristianismo sem lágrimas. adquirindo novas conotações. você acredita em dinheiro e amor. pelo que ouço você falar. os dez mandamentos perderam espaço para a lei do menor esforço. para a manutenção das espécies. a ignorância e as carências humanas são mantidas e valorizadas. Você é incapaz de me compreender. que não mais necessita de uma ilusão para suportar a existência. Adeus.

fazendo com que continuemos sendo direcionados por conceitos ineficientes. O esforço desenfreado em busca de afugentar acontecimentos e mudanças que causam dor. são marginalizados e tratados como se fossem doentes. 117 . muito bem. e de interpretações infinitas. a desconstrução de ilusões e estruturas que nos direcionam durante nossa existência. Assim sendo. o que os permite enxergar várias possibilidades. incessantemente. A presença desse medo irracional faz com que continuemos a valorizar conceitos que apenas nos deixam desesperados e que sabemos. é enxergar um mundo extremamente mutável. sendo afastadas por remédios. uma grande quantidade de proposições. que apenas serão considerados saudáveis ao adquirirem. que não determinam com precisão aquilo que vivenciamos. A incapacidade de valorizarmos nossas próprias interpretações também contribui para o nosso aprisionamento. assim como é o pré-requisito para a desgraça. incondicionalmente.concepções discrepantes entre si. que. a regra primordial é ser ignorante. não temos a capacidade de refutar e substituir. novamente. e tentemos fugir. por distrações e por definições conceituais. “Podemos dizer que os indivíduos que possuem um espírito vasto são capazes de interpretar as coisas de formas variadas. atributo esse que faz com que eles sejam capazes de compreender. as pessoas são incapazes de explorar e delimitar. como possuindo apenas uma definição exata e irrefutável.” Distantes de qualquer possibilidade de definições variadas. uma concepção única e inquestionável para as coisas. fazendo com que temamos. aqueles passam a enxergar possibilidades variadas nos acontecimentos. faz com que o ser humano mantenha uma constituição burra e ignorante. de aplicar a suas interpretações das coisas. por mais que nos incomodem. mais racionalmente. de qualquer acontecimento que nos faça questionar e desconstruir nossos direcionamentos mais profundos. Aspecto esse que é o pré-requisito essencial para quando desejamos analisar se uma pessoa é inteligente ou não.

118 . fazendo com que sejam odiadas. onde as pessoas realmente evoluídas incitam perspectivas novas. criam um mundo onde nossa condição normal é sermos burros e ignorantes. que servem como base para a construção conceitual vigente. e causam dor. que estimulam desconstruções.As carências e os defeitos humanos.

nas profundezas do nosso intelecto. nesse caso. em questão de centésimos de segundo. através dessa interpretação. Partindo da premissa de que esse desenvolvimento inconsciente realmente ocorra. relações que somos incapazes de imaginar. em seu livro: A interpretação dos sonhos. a sensação. o quanto nossos desenvolvimentos inconscientes flutuam de forma acelerada. para identificarmos a realização de um desejo durante o sono. deslocamentos dos desejos mais profundos. e interpretações aquém da nossa capacidade de identificação consciente. ainda assim são feitas transferências. várias análises e verificações dessa função psíquica foram elaboradas. para expressar aquilo que o inconsciente interpreta sobre a impressão. podemos verificar o quanto nossos conceitos permanecem ocultos para nós. que está sendo desenvolvida. Jung apresenta uma visão completamente diferente.O desenvolvimento inconsciente das impressões Desde quando essa característica inconsciente foi pormenorizadamente identificada por Freud. cada nova impressão. em questão de 119 . conseguimos notar o quanto nossa mente é veloz. Ao mesmo tempo que percebemos a grande disparidade entre nosso imaginário e aquilo que observamos. pode suscitar uma imagem diferente em nossa mente. Então. pulando de um planeta para o outro. cogitadas e experimentadas. sendo-nos desvelado o desejo em si. evitando que o desenvolvimento seja reprimido por causa de um parâmetro que a mente não aceita. fazendo com que percorramos as localidades mais distantes. O desenvolvimento inconsciente como a realização de um desejo: Freud deixa claro que a função do sonho é a realização de um desejo. que acontecem através de metáforas. Na maioria das vezes o sonho tem que ser interpretado. percepção. adquirindo. pois mesmo com a redução das resistências psíquicas durante o sono. utilizando de memórias. irei analisar esse assunto. atentando para a relação dos acontecimentos do sonho com um significado que tenta ser expresso da maneira mais clara possível. temos de interpretar as transferências.

pois a psique é uma grande cadeia de significantes que nunca realmente demonstram o seu significado. Essa perspectiva pode definir nossa mente como uma espécie de conector. nesse caso. expressos por metáforas. Essas imagens aleatórias. Essa elaboração rápida e ininterrupta de imagens. relações e interpretações pode acabar por desenvolver parâmetros e interpretações discrepantes. mas sim o designando como um desejo de manutenção da espécie. cabendo a nós tentarmos interpretar esses significantes e encontrarmos os pontos de ligação. como Freud pode identificar uma necessidade profunda da psique. que de tão arraigado na psique.segundos. mas não o atribuindo a uma perspectiva vulgar e lasciva. Segundo Lacan. fazendo com que por mais que tenhamos interpretações diferentes. sendo que cada indivíduo possui uma relação estrutural do significante diferente quando relacionada ao significado. e define como base do desejo a sensualidade. que justifique os sonhos? Ele toma como base seus pacientes e seu conhecimento adquirido. e abre espaço para muitas dúvidas. Primeiramente. ainda assim sejamos capazes de possuir um imaginário coeso e bem direcionado. por causa da ineficiência em abarcar um grande número de fatores. A visão freudiana do sonho (que podemos denominar como desenvolvimento inconsciente) não é totalmente abrangente. especulativa. Ignorando essas classificações de Lacan — que são posteriores a Freud e ampliam as complicações que envolvem a interpretação dos sonhos. já se tornou primordial. que remetem ao significado que permanece oculto para nós. Com certeza. aparando pontas. dão a impressão de uma duração gigantesca. integrando conceitos estruturalistas ao conteúdo manifesto dos mesmos — a 120 . para algo que não dura mais do que centésimos de segundo. essa definição de Freud é puramente interpretativa. com relação àquilo que está estruturado em nossa mente. elementos desconexos e incoerências. quando conectadas e interpretadas por nós. uma vontade em comum não pode ser especificada. que relaciona nossas impressões entre si. nosso inconsciente é responsável por fazer uma nova síntese que relacione essas informações discrepantes entre aquilo que foi percebido e aquilo previamente presente no intelecto. o ato sexual.

mas não exatamente ‘apetitosas’. durante a interpretação dos sonhos. ‘estava gostoso?’ ‘Não’. Ao ver-se novamente a sós com sua mulher. ‘você consegue!’. ‘E então’. respondeu um deles. Freud remete todas as metáforas à realização de desejos sexuais profundos. ‘não suporto ver isso. ele reclamou da insistência da vizinha e também da qualidade da comida. Criando um objetivo e utilizando de artimanhas que conduzam a esse objetivo. ele foi obrigado a provar e a cumprimentou pela ceia. Estabelecendo a sexualidade como base. que também no sonho não chegou a emergir como uma fala em sentido 121 . essa é a característica que enxergo na interpretação freudiana dos sonhos. dizendo: ‘Estava muito gostoso’. O sonhador e sua mulher. Um exímio trabalho de lógica e distorção. essa metodologia proporciona uma análise extremamente complexa e cheia de ramificações. ‘Vou embora!’ disse ele. é possível determinar uma realização de desejo para todas as coisas.’ (Isso não era claramente uma fala). que eram pessoas excelentes. Encontrou-se então com os dois aprendizes de açougueiro. recorrendo às mais variadas séries de relações absurdas. O pensamento ‘Não suporto ver isso’. depois do jantar.interpretação freudiana dos sonhos remete estritamente a parâmetros sexuais e lembranças da infância. Assim. retrucou ela. A seguir Freud define o conteúdo latente do sonho: “O pretexto inocente do sonho era o seguinte. dizendo não ter mais nenhum apetite: ‘Vamos’. Uma situação desse tipo é possível de ser identificada na interpretação do sonho de um paciente. Freud sempre consegue definir um desejo sexual como base do sonho. e que foi descrita no livro A interpretação dos sonhos: “O sonhador se encontrava num grande pátio onde alguns cadáveres estavam sendo queimados. feita por Freud. tinham feito uma visita a seus vizinhos. A idosa e hospitaleira senhora estava justamente ceando e tentando forçá-lo (existe uma expressão de sentido sexual que é jocosamente empregada entre os homens para expressar esta ideia) a provar um pouco. ‘nem um pouquinho’ — como se tivesse sido carne humana”. Ele recusou. todas mesmo. perguntou. relacionadas ao início da sexualidade. ou alguma coisa nesse sentido.

Tentando incorporar essa metodologia de identificação do desejo na pluralidade estrutural de Lacan. Cada impressão adquirida ou parâmetro carente de exploração incomoda a psique. tenta relacionar todas as coisas que vivencia a uma força profunda. e deve ser entendido como uma afirmação de que ele não tinha nenhum desejo de olhá-los”. por que algumas impressões foram desenvolvidas de maneira pungente para a psique? Na defesa das teorias psicanalíticas de base. a base do intelecto. inconclusivo e muitas vezes imputado. a definição do sonho como sendo uma associação inconsciente que relaciona a impressão a memórias anteriores. com recursos exagerados e fantasiosos. proporcionada pelos sonhos. que são ruins para mim? A realização do desejo é algo bom. Mesmo assim. Essa interpretação capciosa e duvidosa ergue uma série de dúvidas e desconfianças. era uma alusão aos encantos físicos da senhora de quem partira o convite. 122 . com relação às afirmações de Freud sobre o sonho. essa proposição faz muito mais sentido. além da sexualidade. Freud define uma característica dualista dos instintos. nesses parâmetros novos. a estruturas e relações anteriores. fazendo com que os sonhos possam se relacionar a algo novo. Não se faz muito mais coerente e lógico. então. no intuito de manter essa frágil teoria da realização dos desejos. ainda nos deparamos com um resultado capcioso. a realização de desejos. que nos satisfaz.estrito. por que eu não me sinto satisfeito com todas as impressões que adquiri durante a vida? Por que algumas impressões se tornaram memórias que me repugnam. Em seus escritos posteriores. A psique é dotada de uma curiosidade profunda. faz-se capciosa e extremamente interpretativa. separando-os em instinto sexual (reprodução. é muito mais coerente e plausível. sendo que essa metodologia não consegue responder de maneira satisfatória a questionamentos simples: Se o sonho (desenvolvimento inconsciente) é a realização de um desejo. manutenção da espécie) e instinto de morte (retorno ao estado inorgânico). assim desenvolvendo e classificando as impressões em nossa mente? Para mim. a interpretação dos sonhos pode assumir uma nova possibilidade de objetivos. essas perguntas poderiam ser desenvolvidas das mais variadas formas.

e não necessariamente é a realização de um desejo. a um ideal específico. A curiosidade é uma das características mais marcantes da nossa psique. diminuído e repreendido pela mente. tudo ocorrendo de forma inconsciente. por nós. dando conteúdos a tais elementos intrínsecos. de classificação das coisas com o seu significado profundo. que se aloja nas profundezas da nossa mente e muitas vezes nem mesmo é percebida. de forma consciente. podendo essa classificação ser boa ou ruim. Todo esse processo é executado de maneira inconsciente. almeja explorar esse parâmetro e classificá-lo. a mente tenta definir essa impressão. Toda interpretação inconsciente está relacionada a estruturas profundas do nosso intelecto. será que são iguais? Acho que vou relacionar algumas memórias com a impressão e defini-la. fazendo com que as interpretações se tornem conceitos relacionados às nossas crenças e conteúdos profundos. No entanto. eu não posso ficar sem saber o que ela é. de exploração das impressões. mas sim um ato de curiosidade. longe do nosso controle e direcionamento.. “O que é isso? Será que isso é a resposta para esse meu desejo mais profundo? Eu preciso descobrir o que é isso. no intuito de compará-las a memórias antigas e defini-las com relação às estruturas da nossa mente. ou à fuga de qualquer coisa que nos cause dor. os sonhos realmente podem adquirir alguns aspectos que os relacionam à realização de um desejo. Nossos mecanismos de proteção. assim como aquilo que incomoda e ameaça tais ideais pode ser desprezado. de jeito nenhum!”.que em sua vontade descontrolada de definição. fazendo com que muitos desenvolvimentos adquiram interpretações capciosas e direcionadas rumo a uma meta específica. 123 . eu preciso descobrir. Sabe. de qualquer jeito. Acho que já vi algumas partes dessa impressão em uma memória antiga. transformam cada desenvolvimento. visando afugentar o desespero existencial.. durante o sono ou até mesmo durante a vigília. Talvez a mente funcione de acordo com a maneira descrita a seguir: Adquirimos uma impressão. dando um significado capcioso a tudo aquilo que é desenvolvido por nós.

124 . que está mais relacionada com um medo profundo do que a uma característica intrínseca em nós.Essa nossa característica. muitas vezes não é percebida em todas as pessoas. que visam estabelecer conceitos que melhor abarquem as nossas impressões. os sonhos se tornam simplesmente classificações espontâneas. rumo à manutenção de um ideal específico. Nesse contexto. sem que as mesmas sejam direcionadas rumo a uma estrutura específica. Algumas delas possuem uma constituição plural. que as fazem possuir múltiplas interpretações sobre as coisas.

um exemplo desse subterfúgio é o conceito de vida após a morte —. os conceitos são esvaziados e a mente se vê livre e pronta para encontrar um novo objeto — mesmo nesses casos. que podemos caracterizar como espírito. A melancolia se aproxima do luto. a mente encontra subterfúgios que lhe permite a manutenção de estruturas ultrapassadas. A base da psique se transforma em vontade de potência nos seres vivos”. essa reestruturação ocorre de uma forma mais complicada. sendo que no segundo caso a reestruturação é irremediável. que induz o indivíduo a uma restruturação de seus parâmetros psíquicos. é transmitido para o organismo na forma de parâmetro máximo. o objeto ainda existe. sendo necessário o aprimoramento existencial para que isso — que se tornou uma necessidade profunda — sinta-se em parte satisfeito. a melancolia se dá como a desvalorização do objeto¹ através de uma decepção. o indivíduo não tem nenhuma opção a não ser excluir o objeto que não mais existe.“Esse cenário que abarca todas as nossas sensações e impressões. no caso da melancolia. mas por causa de alguma conduta 125 . substituindo o objeto que é valorizado. Autor desconhecido Sobre a melancolia Segundo a teoria freudiana.

desde sempre. que para tanto precisa mergulhar em uma condição de dúvidas e de ausência de parâmetros. na maioria das vezes. Em alguns casos. onde até mesmo o luto não é capaz de alterar os conteúdos psíquicos. torna-se uma decepção com nós mesmos. sendo esse um aspecto aterrador. Entretanto. a desconstrução exige uma força imensurável do indivíduo. tornamo-nos absurdamente sensíveis a qualquer tipo de alteração que possa ocorrer a tais objetos. Quando amamos o objeto. induzindo a mente a um questionamento profundo sobre a conduta observada. aceitável. é a responsável pelo aparecimento da má consciência no indivíduo. Essa é uma de nossas características profundas. fazendo com que. induzindo-nos a um estado de autoanálise: “Será que essa característica que encontro no objeto está presente em mim também? Provavelmente está. Nesse caso. que nossa mente busca fugir. mantendo as estruturas profundas inalteradas. a mente busca manter vivas as construções previamente elaboradas. como sendo ele. como que se seus conceitos estivessem sob uma análise pormenorizada. eu sou tão ruim quanto o objeto”. induzida por um agente externo. fazendo com que a mente desenvolva essa pequena discrepância de um modo absurdo. passando a se interpretar. passamos a encará-lo como sendo nosso ideal direcionador. Dessa forma. o indivíduo pode passar a se enxergar como possuidor das características do objeto. a decepção com o objeto. Ele passa a se sentir discrepante àquilo que considera como sendo satisfatório. Além do duelo da manutenção e da desconstrução do objeto. o indivíduo se vê questionado. essa autoanálise em excesso. dessa maneira induzindo o duelo entre se desfazer do objeto ou mantê-lo. a desvalorização do objeto. interpretamo-lo como sendo o responsável por nossas alegrias e tristezas. mesmo com o luto. em muitos casos.considerada absurda pelo indivíduo ele não mais agrada como antes. a desconstrução dos objetivos se torna tarefa das mais difíceis. que faz com que o espírito adquira cenários absurdamente desesperadores. Como dito anteriormente. o indivíduo apenas altere alguns parâmetros. podemos dizer que a melancolia também é ineficiente na tarefa de alterar os conteúdos profundos presentes na mente. Nesses casos. exagerando o verdadeiro sentido e consequência dos 126 . Esse questionamento.

define o instinto como possuindo duas vertentes (instinto sexual e o instinto de morte) que são discrepantes entre si. Essa definição de Freud deixa muitas dúvidas. faço uso dos conhecimentos budistas. o instinto sexual não mais é capaz de se sobrepor ao instinto de morte. faz-se muito mais coerente e plausível para mim. que parecem elucidar essas questões. clama pela aniquilação do indivíduo. ou segundo Freud: “nota-se o aparecimento de algum tipo de instinto de morte. Segundo ele. Diferente do objeto que pode ser considerado como a antítese do que seria o sujeito.” Freud. Nesse ponto. 127 . um novo modelo para esses acontecimentos pode ser elaborado. um luta com o outro. Mas o que seria essa vontade de retorno? Seria ela regida por uma lembrança ou possui outra característica? Nesse caso. que me parece estranha. uma nova característica psíquica toma parte nos atos do indivíduo: o desprezo em excesso do Eu quando analisado em relação ao todo. O indivíduo se sente como que reduzido. quando a vida deixa de ser prazerosa — por qualquer motivo que possa incomodar o indivíduo —. A vontade de potência (retorno ao estado inorgânico) como sendo o único instinto na psique: A teoria da manutenção das espécies me parece um conceito complicado para estar na base da psique. Grande parte das nossas atitudes seriam derivadas de um desejo de retornar ao estado inorgânico. ¹ A maneira como o autor emprega o termo objeto não remete ao significado filosófico em si. que clama pelo retorno ao estado inorgânico. grande parte dessas dúvidas se situa na possível luta entre esses dois instintos.acontecimentos. sensação essa que ocorre de maneira oculta em nossa mente. sendo que a proposição de que a reprodução derive de um instinto ainda mais profundo e simples. de tornar o Eu tão grandioso e potente quanto o cenário que possuímos na nossa mente (espírito). em seus escritos posteriores. incapaz e ruim para o todo. o presente livro relaciona o objeto a simplesmente algo externo ao indivíduo.

de repente nos sentimos como se estivéssemos maiores do que nunca. De acordo com as minhas experiências. encarando a si próprio como sendo o todo. quero salientar que o estado melancólico não é algo que ocorre a todas as pessoas. esse estado de potência elevada. definindo novamente os limites do indivíduo e barrando essa interação abrangente com tudo aquilo que percebemos. Nosso corpo perde todas as suas delimitações. que fazem projeções. que já fui praticante assíduo do budismo.. o que eu atribuo à minha mente. que nos permite identificar o funcionamento da mente. diferente de quem afirma que a base da psique é caracterizada pela manutenção da espécie. parcialmente. dessa forma. que ainda é dotado de um narcisismo exagerado. onde o espírito é o indivíduo. desde sempre. e que não é capaz de fazer a diferenciação entre o indivíduo e o todo. e a sensação é realmente impressionante. sentindo um fluxo intenso de energia que percorre todo o nosso corpo. permaneço ultrarrealista. de acordo com as minhas experiências. como que se o mundo existisse apenas em função de si mesmo. Retornando à melancolia. posso dizer que o impulso mais profundo da psique é essa ligação com todas as coisas. encarando-se como sendo o centro das coisas. Eu. consegui atingir o nirvana algumas vezes. passando a estar em contato com a base da psique. que eu considero como sendo o tipo de mentalidade que rege a atitude da maioria das pessoas. parece que finalmente entramos em contato com todas as coisas.O estado de espírito mais revelador. De acordo com Schopenhauer. que voltou a funcionar normalmente. quem se identifica nesse estado pode se considerar como alguém que se encontra em um estágio de desenvolvimento que vai além do ser humano comum atual. seus ideais e direcionamentos profundos. No nirvana o indivíduo passa por um completo desligamento das funções mentais que definem o indivíduo. Nessa condição de narcisismo exagerado. o próprio Eu é definido como sendo o todo. um ideal específico. nós 128 . Faço essas afirmações e. podemos integrar à sua análise essa nova forma de encarar a psique humana. essa sensação não durou muito tempo. que possui. etc. Primeiramente. é o nirvana. não se tornando possível distanciar-se muito da concepção psíquica do animal primitivo. assim como é incapaz de nem ao menos tocar. No meu caso.

mas sim como sendo o todo. No caso do narcisismo exagerado. e do culto exagerado ao egoísmo. sendo que a única coisa que pode ser obtida com a destruição dos ideais é o desespero existencial. Na mente narcisista essa característica é evidente. se esse indivíduo deixa de existir o todo também desaparece. e possuem relação estritamente para com ele. Ele não se vê como sendo parte do todo. que a transportam para um cenário absurdamente opressor. a pessoa se sente profundamente desesperada. pois na mente primitiva o mundo não existe para além do indivíduo. sendo eles voltados apenas para o mundo exterior. sendo impossível que alguma coisa suscite questionamentos sobre a sua maneira de ser. o indivíduo narcisista não consegue possuir uma alma que leva em consideração parâmetros que vão para além de si mesmo. que protege desde sempre seus ideais. relacionando essa valoração à vontade de potência que almeja alcançar a amplitude inorgânica. e um motivo para o repúdio do suicídio é a perda desse mundo. voltados para o seu limitado não-eu. Nesse tipo de constituição psíquica. fazendo com que o indivíduo classifique o mundo externo em coisas que devem ser aniquiladas e coisas que devem existir. as decisões não fogem muito dessa análise extrema. todas as representações. desesperador. e classifica as coisas em apenas boas ou ruins. Por causa do excesso de narcisismo. dessa maneira. a alma nunca atingirá as 129 . o sentimento de interação com todas as coisas (vamos chamar de nirvana) não pode ser alcançado. que é valorizado de acordo com as necessidades particulares e nada além. pois não é capaz de questionar. sem meio termo. todas as coisas acontecem em função dele e nada além. sua pequenez. o desaparecimento do indivíduo que define o mundo. onde. todos os acontecimentos e coisas acontecem em função dele. o aparecimento da melancolia se torna praticamente impossível de acontecer. Como as profundezas do nosso intelecto é extremista. O narcisista faz juízos de valores. o mundo é o indivíduo. nada. não é capaz de se colocar além de si. sem ideais que amenizem a impotência do indivíduo. por causa das projeções da mente. assim como ele.criamos um modelo de mundo em nossa mente. não irá passar por uma fase de autoquestionamento profundo incitada por um objeto externo. vontade essa que rege todas as funções do indivíduo. profundamente. que praticamente o cria.

Essas construções negativas são raras por causa da dor que elas suscitam. a preocupação excessiva com a capacidade própria de executar alguma tarefa. o indivíduo não faz juízos de valor com relação apenas ao mundo exterior. um acontecimento que faz com que o indivíduo se sinta diminuto e insignificante. até mesmo chegando a cometer o suicídio. tornando o desejo alheio mais importante do que o seu próprio.proporções do espírito no indivíduo narcisista. esse narcisismo. esse indivíduo. Em casos extremos. Na pessoa que é capaz de se sentir melancólica. definindo-se como algo a ser aniquilado ou conservado.. mas sim parte do todo. fazendo com que a alma seja construída levando em consideração parâmetros que vão além das próprias dimensões físicas do indivíduo. adquire um estado de má consciência. etc. tudo que suscite um estado de má consciência. muitas vezes sendo quase que inteiramente suprapessoal. Desse modo. nunca se sinta próximo dessa sensação de interação com todas as coisas. apartando cada vez mais a alma da expansão até as dimensões do espírito. podemos notar que ele irá valorizar a todos. no indivíduo pode ser considerado como um agente melancólico. o indivíduo não mais se considera como sendo o todo. como a própria autocrítica. muitas vezes. ele também se analisa e define-se como sendo bom ou ruim para o todo. boa. Essa maneira de se enxergar se aproxima do que é o espírito. pode repudiar sua interação com todas as coisas. No narcisismo exagerado. sobrepondo-os a si mesmo. que se enxerga como sendo retrógrado com relação ao todo. Quando esse indivíduo. que impedem que sintamos qualquer tipo de sensação que não seja satisfatória. alheia a si mesmo. as barreiras do indivíduo são muito intensas. Diferente do narcisismo exagerado. Além de um objeto externo. se encontra diminuído. fazendo com que ele nunca se sinta profundamente satisfeito. a maioria das pessoas se volta contra 130 . de impotência. que é capaz de questionar a própria existência. característica essa que é totalmente impossibilitada de ser alcançada por causa da excessiva valorização individual. permitindo que o indivíduo possua uma forma de construção da sua alma que é mais refinada. de diminuição. e que muitas vezes é bloqueada por nossos mecanismos de proteção profundos. muitas coisas podem suscitar um estado melancólico.

sendo ela o nirvana. alcançaram um estado de paz absoluta. Essa condição humana. passemos agora a analisar tudo aquilo que se estrutura sobre essa completude. Uma vez definida as dimensões do nosso Eu. Sobre esse todo é estruturado e definido o indivíduo. Eu perante o mundo. elas pararam todos os seus pensamentos e bloquearam os sentidos. por causa dessas condições. por 131 . um mundo interior. Essa restrição das nossas dimensões não segue sem efeitos colaterais. restringimos a nossa interação com o todo. prontamente. passando a encarar as coisas em relação a esse Eu estabelecido. Eu perante aquilo. e já foi comentada exaustivamente ao longo dos anos. onde a nossa vontade de potência se sente satisfeita. pois não possuem força e coragem suficiente para tanto. utilizando-se de atos impulsivos para que os cenários deploráveis. A despeito das várias expressões que caracterizam essa condição especial. Tomando como base esse estado de paz celestial e absoluta.o mundo exterior. Do nirvana ao “homem sem qualidades” Vemo-nos deparados com notícias sobre pessoas que conseguiram se ausentar por completo de seus corpos. não é nova. que possui suas delimitações estabelecidas através das informações adquiridas pelos sentidos. que se assemelha com a morte. variando de acordo com a doutrina daqueles que tentam explicar o assunto. iremos caracterizá-la com sua denominação mais comum. possuindo várias explicações diferentes. Nossa mente passa a trabalhar da seguinte maneira: Eu perante isso. o máximo de desespero que irão encarar será o aparecimento de agentes que causam construções indesejáveis e atitudes impulsivas e impensadas que eliminam. que estão se formando. sejam imediatamente alterados. e. Para elas. esses cenários desesperadores. sobre isso que podemos considerar como sendo o puro espírito. pelo menos a meu ver. de harmonia absoluta. Esses agentes impulsivos nunca serão capazes de construir uma vida interior. ou esquecidos.

acumulando-a para utilizá-la apenas quando uma direção. seremos o todo. tentamos. todos nós nos arriscamos. que não é meticulosamente analisada. deixado pelo primeiro tipo de indivíduo. mas sim. tentamos. Todas as pessoas se sentem desesperadamente motivadas a agir em função da ampliação desse Eu diminuto. não mais possuindo esse véu. condizente com tudo o que foi analisado. consequentemente. seus méritos e 132 . de ações impulsivas e pouco elaboradas. onde não mais enxergamos o mundo através do véu que delimita o indivíduo. esse agir se tornará empreendimentos. que é a de ampliar o Eu até que esse possua a mesma dimensão que o não-eu. Com relação à vontade proveniente dessa tensão intrínseca à existência dos seres vivos. de maneira imprecisa e generalizada. poderíamos perceber o imenso rastro. Todas as nossas ações e sentimentos têm relação com essa nossa constituição psíquica. em ação. entre aquilo que somos e aquilo que poderíamos ser. a nos sentir desesperados com o nosso Eu limitado perante o grandioso não-eu. que o espírito puro. e essa discrepância. ao mesmo tempo. de maneira inconsciente. com a intenção de alcançarmos o espírito puro. poderíamos citar com precisão suas qualidades. No segundo caso. Situando-nos como um observador externo. seremos o mundo. dessa forma resguardando grande parte da sua vontade. for definida. passamos. que analisa essas duas possibilidades de indivíduo. gera uma tensão que preenche o indivíduo com energia. que raramente são previamente analisadas e estudadas. o indivíduo irá ponderar. assim como a energia utilizada na execução dessas ações não é acumulada e conscientemente direcionada para uma direção específica. em excesso.causa da restrição daquilo que enxergamos como sendo nós. dessa maneira suprindo a nossa necessidade mais profunda. todas as suas possibilidades. tentativas. sendo essa ação estritamente reativa. jogamos e jogamos. encarando-nos como um indivíduo diminuto. Toda essa vontade se transforma em sentimento e. podemos classificar. dois tipos de constituições humanas: No primeiro caso o indivíduo transformará toda essa vontade em ação. preenche-o com vontade. mas sim executada impulsivamente e precipitadamente. todas as consequências e os motivos dos seus possíveis atos.

não nos permitindo uma dedução precisa. poderíamos definir com precisão aquilo que o primeiro indivíduo é. 133 .suas fraquezas. perante o mundo. por um observador externo. seu posicionamento contemplativo. como “um homem sem qualidades”. enquanto o segundo indivíduo permanece oculto. e a ausência de parâmetros que possam defini-lo o transformaram em alguém que poderia ser classificado.

Essa consideração descabida cria uma espécie de inferioridade para a humanidade. como o caminho mais potencialização da vida. 134 . é sensato considerar que ela possui sua forma e fenômenos derivados de nada além a interação pura entre as coisas. interação essa que abarca todas as influências e que define a forma mais eficiente e harmoniosa de existência do todo. coerente para a Autor desconhecido Sobre a natureza É um erro. impecável e absoluta em todas as suas formas e fenômenos. é uma atitude anti-humanista”. e que não compartilha da perfeição do meio. e dos mais absurdos.“Escolher a morte. à parte. encarando-a como uma entidade esdrúxula. considerar a natureza como sendo perfeita. de disputas incessantes. Diferente do que é e o que foi preconizado por todo misticismo que envolve a natureza.

que o ser humano ainda não é capaz de identificar. não passa de acasos. Mesmo a natureza sendo uma interação desgovernada e sem sentido. Inseridos nesse meio se encontram os seres humanos. e as utilizam na implementação de tecnologias e modelos existenciais mais evoluídos. fazendo com que suas formas permaneçam mais harmoniosas e eficientes. em toda a sua extensão. 135 .A natureza. que dotados de inteligência são capazes de se adaptarem aos acasos e manipular as variáveis para que as coisas possuam um arranjo melhor. bem direcionado. as influencias e interações entre as coisas. No entanto. em comparação com aquilo que é manipulado e identificado pelos seres humanos. devido aos avanços humanos em áreas que vão desde a física até a filosofia. já nos é possível imaginar um horizonte onde os homens desvendaram e dominaram todas as forças da natureza. O amor à humanidade é algo que vale a pena nutrir. sem objetivo algum. ela tem suas características definidas por parâmetros muito vastos e complexos. e mais eficiente. de interações entre as coisas.

tudo mesmo. até mesmo Deus!” Liev Tolstói 136 . Se você ficar analisando tudo pormenorizadamente e constantemente. irá desconstruir tudo.“Você deve parar de pensar tanto sobre as coisas.

sendo que é praticamente impossível determinarmos aquilo que essas análises realmente analisam. Um conjunto de testes pré-elaborados são os responsáveis por determinar. Atrelada a uma capacidade de imaginação e estruturação lógica anormais. sentimentos e acontecimentos. – Que isso? Hoje em dia. podemos encontrar a frieza. criando conceitos que possuem uma relação lógica impecável. em nosso mundo prático e de respostas rápidas. estão intrinsecamente relacionados. A inteligência emocional (I. sendo ela a capacidade do indivíduo de ser capaz de elaborar uma definição consciente para suas emoções. irrefutável.E. tanto emocionais quanto intelectuais. de imaginar.. que são parâmetros responsáveis por determinar as aptidões das pessoas. o que elas realmente apontam como sendo o comportamento humano e a constituição intelectual mais satisfatória. de forma generalizada. é a capacidade do indivíduo de utilizar sua imaginação. conceitos e perspectivas. nesses testes.I. que não nos permite manter dúvidas ou conceitos em aberto. a acuidade mental de pessoas que possuem vivências. completamente diferentes das suas. em função do aprimoramento da nossa 137 .I. aquilo que é analisado no teste de Q. em um modelo exato e abrangente. A despeito de resultados que têm como base o número de respostas certas.. É um fato incontestável a perca da nossa capacidade de sentir.) está conectada ao Q.Q. nos deparamos com metodologias para a medição e definição das capacidades intelectuais das pessoas. Mesmo pesquisando até a exaustão. percepções e objetivos completamente diferentes. sendo imprescindível que o indivíduo possua uma capacidade de elaboração conceitual absurdamente elevada para que ele seja capaz de estruturar as mais variadas interpretações sobre as coisas. Esses indicadores. Essa capacidade tem relação direta com o Q. quando comparadas entre si. culturas. de conseguir imaginarse com sendo um outro indivíduo. a verdadeira análise feita por tais testes ainda permanece um mistério para nós.I.I. um ambiente. de ser capaz de estruturar.

facilmente observável. seria de se esperar que um indivíduo com um Q. que ditam a forma como nos comportamos. deixando de ser impressões imprecisas e absurdamente exageradas. incomum fosse uma pessoa fria. por mais que tentemos alterá-los. Essa característica faz com que nos sintamos completamente frustrados perante aspectos que sabemos ser nocivos. faz com que mantenhamos necessidades. No entanto. quando exploradas e definidas com precisão. mas. mas me vejo 138 . fazendo com que ainda não sejamos capazes de imaginar o verdadeiro funcionamento da nossa mente. a ponto de mensurarmos com precisão a realidade. que foram reestruturados. faz com que constatemos que os acontecimentos e pessoas que nos incitam sensações intensas não passam de interpretações profundas e inconscientes. continuam sendo absurdamente influentes em nossas vidas. sem qualquer tipo de sentimento. faz com que passemos a repensar nossos sentimentos e aquilo que eles realmente representam. com precisão. por mais inútil que pareça ser. “Isso realmente me incomoda muito. A nossa incapacidade de imaginarmos tudo. escravos de nossos sentimentos. a vastidão de elementos que determinam a realidade. de controlar e alterar as características particulares que não as agradam. de acordo com a verdadeira proporção das coisas. são incapazes de determinar com precisão. ao mesmo tempo. mas que. atributos esses que fazem com que continuemos. Essa característica. Nesse caso.capacidade de imaginar e estruturar nossos sentimentos mais intensos. cheias de exageros irreais. incoerentes. as pessoas dotadas de uma capacidade de imaginação mais avançada tornar-se-ão as mais infelizes. que. assim como não nos permite reproduzir em nossa mente. elas possuem a capacidade de enxergarem e estruturarem mais profundamente seus conceitos e impressões. tento reproduzir em minha mente os acontecimentos que me proporcionam sentimentos intensos. assim como determinam nossas reações e interpretações. Nesse caso. e perderam todo o seu conteúdo desenvolvido estritamente pelo nosso inconsciente.I. da realidade. a capacidade de imaginação das pessoas ainda é subdesenvolvida. se tornam nada além do que conceitos irrelevantes.

aos olhos de um pervertido. eu possa analisá-los novamente. de investigar tudo o que pretendo. assim como uma pessoa estúpida e ignorante pode obter um resultado elevado 139 . Entretanto. isso me irrita. analisar desse jeito muitas vezes é insuficiente para mim. e isso é um grande problema. para que. quando na realidade apenas é capaz de imaginar situações simples e que não exigem uma conexão lógica muito vasta. que nos prometem recompensas incríveis. Constantemente vejo essa minha curiosidade sendo direcionada a pessoas aleatórias. no entanto. Como sou curioso. mesmo com essas definições. apenas com minha imaginação. não me permitindo explorar tudo aquilo que gostaria. em hipótese alguma. que determinam as qualidades que todo homem deve almejar. Mas. uma pessoa pode ser considerada um gênio. perde todo o interesse após o ato sexual. sobremaneira. fornecendo respostas que não definem com precisão as verdadeiras capacidades dos analisados. fazendo com que eu me torne alguém insosso e entediante. deve possuir. tornar-se um empecilho a tentativas de aprimoramento da imaginação e estruturação lógica humana — da consciência humana. tais testes são muitas vezes falhos. que incitam e trazem à tona memórias profundas. incapaz de oferecer algo mais.. nesse caso. fruto de uma capacidade de imaginação que ainda precisa ser aprimorada.incapaz de suscitar. vejo-me sempre perseguindo tais acontecimentos.. Esse aspecto faz com que eu me interesse muito por alguém. Nós valorizamos apenas aquilo que não temos. Nesses casos comuns. Essa característica faz com que eu tente analisar as coisas meio que a uma distância segura. já possuíssem toda a devoção e o que tenho a oferecer. Ah. Muitas vezes vejo-me como uma pessoa que. não deve. somente assim. aquilo que sinto quando me deparo com algumas situações ou pessoas. aquilo que incita nossas impressões inconscientes irreais e faz com que tenhamos interpretações absurdamente exageradas. meu interesse intenso por alguém faz com que as pessoas sintam como que se já tivessem obtido tudo o que podiam de mim. onde a falta de interesse forjada me permite ainda ter as pessoas que me interessam por perto. tentando vivenciá-los novamente. que merda!” Esse fracasso inicial. para que eu possa extrair um significado profundo e misterioso. que parecem ser importantíssimas para mim.

O comportamento humano. que nos afastem da dor. ainda precisamos possuir conceitos exatos. na verdade. que afugentem incertezas. Mas. 140 . assim como o intelecto humano. que conceitos imprecisos e misteriosos nos apresentam. nossa nova religião. mas que sana nossa necessidade profunda de possuir explicações exatas. mesmo com tais limitações evidentes. ela simplesmente treinou e reproduziu respostas que. Mesmo com as limitações e incoerências evidentes desses testes. iriam fazer com que ela tirasse uma nota mais alta. sem que para isso ela possua as qualidades que o teste procura encontrar. Essa é o papel da psicologia. sendo impossível de ser definido com um simples teste. desse modo elaborando uma concepção que nos afasta da realidade. é absurdamente complexo. sendo que.em um teste de IE. ainda assim é preciso que eles sejam considerados e utilizados na análise das pessoas. em sua concepção.

Escrever para melhor definir as experiências
Reservo um breve momento do dia de hoje para transmitir alguns de
meus pensamentos para o papel, para dar forma às minhas percepções, para
transferi-los, para expressá-los, desse modo tirando-os das profundezas
obscuras e desconhecidas da minha mente, onde tudo é exagerado e intenso,
e os desenvolvendo em um ambiente racional, palpável, que me permite
fornecer uma dimensão real — ou, pelo menos, que se aproxime da realidade
— para tudo aquilo que percebo e que sinto.
Todas as minhas numerosas impressões, que percorrem minha mente
com um ritmo alucinado, são desenvolvidas quase que inteiramente através de
pensamentos irracionais, que estabelecem conexões absurdas, exageradas e
muito, mas muito mesmo, aquém da realidade. Tendo como base esses
pensamentos irreais, que me acompanham desde sempre, sinto, quase que
constantemente, uma vontade impulsiva de falar sobre os aspectos que me
amedrontam, que entorpecem minha mente e deixam meu corpo em estado de
alerta, fazendo jorrar o medo mais assustador, por todos os meus órgãos. Essa
necessidade descontrolada de falar, está relacionada com a vontade de
estabelecer uma perspectiva mais realista para tudo aquilo que sinto, dessa
maneira estabelecendo uma interpretação mais condizente com o verdadeiro
aspecto das coisas, fazendo com que todas as minhas interpretações errôneas
sejam reestruturadas, fazendo com que o pensamento racional altere todos os
pensamentos incrivelmente absurdos, que minha mente sempre se mostrou
exímia em criar.
Entretanto, é muito raro encontrarmos alguém com quem possamos
conversar sobre nossos pensamentos mais profundos, é incrivelmente raro
encontrarmos pessoas que são de confiança e que nos permitirão expressar
tudo aquilo que se passa na nossa mente.
Tendo em vista essa impossibilidade de comunicação, esforço-me para
encontrar outras formas de racionalização de minhas impressões, sendo elas
solitárias e não dependendo da presença de outrem. Após algumas tentativas
141

infrutíferas, finalmente fui capaz de encontrar a forma de racionalização que
melhor me permite relacionar e externar minhas impressões; essa atividade,
que se tornou de suma importância para mim, é a escrita.
Almejando estabelecer uma interpretação coerente e racional para os
meus desenvolvimentos inconscientes, fico, pelo menos uma hora por dia,
escrevendo sobre minhas experiências, fico corrigindo minhas interpretações e
tornando-as mais reais, mais condizentes com a realidade.
Essa tarefa constante, e extremamente satisfatória, proporciona
satisfações que antes me eram inimagináveis. Ultimamente, posso dizer que
meu espírito se aproximou, e muito, da realidade das coisas, equiparando-se a
fenômenos e situações que observo, dessa forma fazendo com que eu possua
uma intuição muito realista, permitindo-me utilizar meu intelecto como uma
oficina, como um laboratório, onde analiso as mais variadas perspectivas,
desenvolvendo-as em todos os seus aspectos, característica essa que acelera
minha definição de conceitos, que potencializa minhas experiências, e me
permite possuir uma imaginação empírica, bem próxima da realidade, onde
posso analisar qualquer parâmetro, ou aspecto, da minha vida.

142

A mente no estado de Buda
Caracterizado como o estado existencial supremo, que um ser humano é
capaz de alcançar, o estado de Buda não é reservado para pessoas especiais,
ele pode ser alcançado por todos que se dediquem a essa realização. Nessa
condição existencial o desenvolvimento inconsciente se encontra reduzido,
quase que totalmente controlado pela consciência; os sonhos passam a ter seu
conteúdo facilmente identificado, mesmo em se tratando de associações que
parecem totalmente descabidas, e somos dotados de um conhecimento
abrangente, que explorou todas as possibilidades e estrutura seus conceitos
sobre bases inabaláveis; a mente já explorou todas as possibilidades em
relação àquilo que ela é capaz de perceber; por causa disso, nenhum
parâmetro permanece mal desenvolvido no intelecto, as emoções, que são
provenientes do desenvolvimento inconsciente exagerado de determinados
acontecimentos, deixam de existir, pois tudo é analisado pela razão, todas as
memórias passam a ser condizentes com aquilo que a pessoa deseja que elas
signifiquem; a pessoa não mais se surpreende com nada, não mais sente o
exagero das emoções impelindo-a a fazer algo, e não mais vê sua atenção
sendo direcionada, meio que inconscientemente, para algum acontecimento,
pois tudo já foi desenvolvido, de maneira racional, no intelecto, que não mais
contém interpretações exageradas, que proporcionam emoções exageradas.
Ao mesmo tempo em que os conceitos repousam sobre bases sólidas, o
mundo continua a ser extremamente variável, podendo apresentar novos
parâmetros que irão intrigar a mente e incitar um novo desenvolvimento
inconsciente de informações; nesse caso, o indivíduo já possui uma
consciência ampla e madura, a ponto de possuir conhecimento suficiente para
controlar possíveis arroubos e interpretações inconscientes descabidas.
A identificação dos sonhos torna-se precisa, identificando qualquer tipo
de associação e dando uma significação consciente exata, para tais
associações, que pode ser percebida pela conexão precisa entre os
desenvolvimentos inconscientes e as definições conscientes. Nessa condição,
as pessoas passam a perceber o quanto nossa mentalidade é incansável, e
143

não para em nenhum momento, desenvolvendo impressões, interpretando,
qualquer coisa que se apresenta para nós. Ao mesmo tempo em que o
indivíduo nota esses desenvolvimentos incessantes e inconscientes, ele
percebe o quanto aquilo que se estrutura nas profundezas de sua mente é
diferente da realidade que se apresenta a ele; essa característica o permite
identificar, sem surpresa, relações e interpretações, que poderiam parecer
impossíveis, entre aquilo que está estruturado em nossa mente e a realidade.
Nesse caso, os sonhos que pareciam mais absurdos e incoerentes, passam a
ser identificados com facilidade e precisão, atributo esse que lhes permitem
racionalizar com exatidão aquilo que lhes influencia e que está construído em
suas mentes. A descoberta dessa riqueza conceitual faz com que o indivíduo
não mais consiga acreditar em vidas passadas e coisas do tipo; investigando
suas memórias, ele percebe o quanto cada nova situação incita novas
interpretações e posicionamentos, que são responsáveis por criar novas
personalidades

e

possibilidades,

que

permanecem

escondidas

nas

profundezas do nosso ser, podendo vir à tona quando o indivíduo reencontra
cenários,

ou

situações,

desenvolvimento

específicas.

conceitual

Essa

inesgotável

e

pluralidade

profunda,

ininterrupto,

faz

com

esse
que

percebamos a sensatez em sentenças como: “Um homem que viveu apenas
um dia, é capaz de permanecer por cem anos apenas imaginando sobre esse
dia”. Referente a essa afirmação, que não considero exagerada, o estado de
Buda se mostra ainda mais surpreendente, revelando a necessidade de uma
inteligência elevada, que seja capaz de analisar uma quantidade imensurável
de informações, de desenvolvê-las e de definir conceitos a partir delas. Uma
memória superdesenvolvida também se faz necessária para a obtenção desse
estado existencial, assim como uma diminuição do senso crítico, para que
alguns parâmetros sejam aceitos como conceitos inabaláveis, fazendo com que
exploremos apenas aquilo em que acreditamos. Iremos armazenar linhas de
pensamento em nossa mente, não mais perdendo tempo em desenvolver
maneiras diferentes e recorrentes de pensar.
Mesmo com todas essas explicações, o estado de Buda parece estar
relacionado a algum tipo de estupor ou limitação dos parâmetros a serem
analisados pela mente; por isso que enxergo os seres iluminados como

144

pessoas isoladas de toda a complexidade social, possuindo uma vida simples,
o mais simples possível, desse modo limitando os parâmetros a serem
analisados, fazendo com que sejam capazes de desenvolver conceitos
inabaláveis, pois não possuem inputs excessivos, que a inteligência humana
ainda não é capaz de explicar e desenvolver por completo.
Possuidores de uma concepção única e inabalável das coisas à sua
volta, e de seus desejos, objetivos e medos, esses seres adquirem uma
condição rara, que os permitem se sentir muito satisfeitos, potencializando-os,
fazendo com que se sintam mais potentes do que nunca. Podemos caracterizar
essa condição rara como sendo a paixão. Nela, a mente possui uma estrutura
fixa e bem direcionada, que eliminou parâmetros concorrentes, fazendo com
que o indivíduo viva em meio a um estado exato e sem cenários concorrentes,
aumentando, dessa forma, sua potência e, consequentemente, sua satisfação.

“É preciso reinventar o amor, toda a gente sabe disso.”
Arthur Rimbaud

145

a nutrir perspectivas ilusórias. provavelmente. em sua mente. ele pode viver em um estado de completa introspecção. característica essa que o permite. o indivíduo tem suas necessidades supridas por si próprio. fazendo com que ele seja incapaz de interpretar múltiplas possibilidades com relação àquilo que ele vivencia. A princípio. Infelizmente. Se. o indivíduo adquire uma interpretação estreita e bem direcionada sobre o ambiente e os acontecimentos. a pessoa acaba por se tornar megalomaníaca e patologicamente egoísta. desde sempre. o indivíduo não direciona sua necessidade para algo externo. Os efeitos dessa aniquilação momentânea da alma deixo para serem desenvolvidos posteriormente. não enxergando nada além de si mesmo. como sendo o amor: é uma condição psíquica que permite ao indivíduo possuir uma concepção exata das coisas. nada além do que aquilo que ele pensa e acredita. da relação entre o indivíduo e o seu ideal. a presença de algo como que um narcisismo excessivo presente nos seres vivos. desse modo perdendo o contato com a realidade. sobre o meio. nesse caso. que foram defendidos e conservados. o ser humano não está focado em algum objeto. chegando. sendo incapaz de levar em consideração sentimentos alheios ou de se esforçar para reestruturar suas crenças. fazendo com que ele satisfaça sua necessidade mais profunda. após algumas observações simplórias. nos seres humanos essa característica não é diferente. por enquanto. tratando.Breve introdução ao amor reinventado Sem titubear ou utilizar de um prolongamento desnecessário. algo além dele mesmo. o alcance da aniquilação da alma (nirvana). deixo claro o que enxergo como sendo as experiências e sensações que são definidas. essa constituição é muito comum ultimamente. mas sim tem as suas necessidades suprimidas pelo próprio indivíduo. sempre será. algo externo. e totalmente incoerentes. desprezando o mundo externo. quando destruído tal ideal que direciona o indivíduo ao longo de sua vida. por mim. Nesse estado de introspecção extrema. De posse dessa mentalidade diminuta e que possui conceitos antigos. um ideal preciso e muito bem direcionado. Podemos tomar como conceito. 146 . pela sua própria imaginação. acho que sempre foi e. com o passar do tempo.

No desenvolvimento mais racional e plural da personalidade. o indivíduo pode reduzir todas as suas projeções e expectativas para o Eu. destruir tudo aquilo que está estruturado em nossas mentes. englobar. derivadas de desenvolvimentos psíquicos profundos. mantendo uma relação de independência. que realmente têm relação com o objeto externo. aquilo que amamos nos dá vontade de adquirir. passamos para além da autossupressão de nossas necessidades — conforme crescemos — e absorvemos estímulos do mundo externo. instaurados pelos homens. no intuito de se adequar às expectativas externas. às imposições sociais. Aquilo que odiamos nos dá vontade de destruir. tornar nosso. desse modo adquirindo parâmetros. o objeto que valorizamos adquiri uma interação profunda conosco. em nossa mente os conceitos odiados têm a capacidade de aniquilar a vida. Nessa relação com o mundo externo. realizados em ambientes que não têm relação com a realidade das coisas — e tornando possível a vida civilizada. que não será influenciado por interações retrógradas 147 . ou o indivíduo pode manter um estado de preservação de suas interpretações. que. elas são capazes de explorar aquilo que amam. controlando o egoísmo — controlando nossas atitudes exageradas. Não devemos esquecer de que os conceitos morais. não possuem uma interpretação absolutamente egoísta sobre seus ideais. classificando-os como bons (amor) ou ruins (ódio). com relação ao seu ideal. estritamente construído pelo indivíduo. aniquilar. de conservação das qualidades e de todas as características particulares do indivíduo. As pessoas realmente capazes de amar. visam controlar esses impulsos dualistas profundos. que muito nos incomoda. Toda essa interpretação dos objetos externos remete a mecanismos e necessidades mais profundas da nossa psique. por fim. eles induzem a construção de um cenário doloroso e abjeto. aspecto esse que nos fazem tentar aniquilar tudo aquilo que suscita isso em nós. não apresenta nenhuma semelhança quando comparado o ideal construído em sua mente e o objeto. fazendo com que nos sintamos mais impotentes e diminutos do que nunca. de distanciamento com relação à realidade imposta (condutas sociais). e ele faz com que nutramos expectativas de que aquilo que almejamos irá nos proporcionar a supressão da nossa necessidade profunda. o que as difere de um ideal egoísta.

desde sempre. Em dado momento de nossa vida absorvemos um parâmetro externo a nós. desde sempre. não necessitando de interações para que permaneça satisfeito. sendo essa influência responsável por direcionar nossas construções conceituais. por causa de sua segurança e da independência em relação a suas crenças e condutas. por todos à nossa volta. mantém conceitos precisos. que sempre é dolorosa e que sempre é evitada por nós. ao mesmo tempo. que será responsável por nos afastar do desespero existencial. do narcisismo patológico. pois o indivíduo mantém uma relação saudável. limitada. muitas vezes. e muito. de nos proporcionar um objetivo específico para as nossas forças. também podemos dizer que somos influenciados. que. característica essa que faz com que mantenhamos muitas crenças. muitas vezes. discordando de maneira sensata e lógica — na maioria das vezes possuindo uma coerência conceitual que supera os parâmetros cotidianos —. constantemente. descabidas. para as coisas e acontecimentos. muitas vezes nos deparamos com conceitos socioculturais egoístas. possuem uma maior semelhança com a realidade do que muitas de suas imposições sociais. preconceituosa e capciosa. sendo esse ideal o responsável. Podemos dizer que nascemos egocêntricos. A mudança. pelo menos na nossa 148 . esse caso difere. apenas optando por não englobar valores dos quais não concorda. de uma forma pré-estabelecida. e o transformamos em nosso ideal do Eu. e muitas vezes mais real. que prezam a valorização e a manutenção de uma alma diminuta e focada estritamente nas nossas necessidades particulares. com o mundo exterior (não-eu). características e objetivos que adquirimos quando muito novos. Esse direcionamento faz com que os indivíduos possuam uma essência. aspecto esse que dificulta ainda mais a estruturação de uma alma mais vasta e que leva em consideração parâmetros que não estão diretamente relacionados os indivíduo. algo a ser evitado. ao mesmo tempo. esse segundo tipo de indivíduo é autossuficiente. assim como podemos dizer que vamos interpretando e dando significado àquilo com o que nos deparamos. que vão sendo classificados. de uma construção capciosa e pretensiosa. ao longo da vida. um significado. sendo invejado pelas outras pessoas. se apresenta como um empecilho. Além dessa nossa característica egoísta inicial.e. presente desde os primórdios de nossa existência. e.

que. A princípio. que. por suprir a nossa necessidade mais profundas. como sendo possuidores da capacidade de suprir nossa necessidade profunda. e. tornando-se algo absurdamente doloroso e infinitamente triste. assim como iremos definir parâmetros que serão os responsáveis por aniquilar tudo e trazer o desespero. De acordo com a estrutura da nossa mente. pode.imaginação. o ideal acaba por fazer com que o indivíduo passe a se encontrar em desarranjo. possuindo o seu desprezo e sua desvalorização dirigida à manutenção do estado econômico da mente. “— Por que você está se sentindo triste? — Sinto-me dessa forma porque minha imaginação me apresenta algo muito grandioso e satisfatório. que ocorre apenas na mente. essa. o indivíduo pode adquirir. que está muito além daquilo que realmente encontro.” Entretanto. que parece ser uma pequena decepção. ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo. o torna um completo estranho perante uma constituição comum. uma constituição mais altruísta. vai se desenvolvendo em minha mente. afastando. tudo de acordo com as estruturas que possuímos dentro de nós mesmos. onde os acontecimentos são atenuados e não são tão intensos e dolorosos. e que lhe permite adquirir uma elaboração de ideológica que não seja estritamente relacionada com o próprio indivíduo. a relação de afeto é ambivalente. alternando entre a valorização e o repúdio. ao ideal. vamos identificar objetos a serem definidos por nós como sendo nossos ideais. assim. almejando a manutenção da constituição presento do indivíduo. insuportável. faz com que a realidade se torne dolorosa. 149 . ele é a recusa aos estímulos externos. a definição de uma valorização que faz com que a pessoa se torne vulnerável e influenciável por algum objeto externo. O afeto é posterior à capacidade do Eu de autossuprir suas necessidades. por si só. ao longo de sua vida. adquirindo parâmetros gigantescos. destruir a pessoa por completo. onde a imagem de uma condição muito satisfatória. O repúdio surge antes da valorização. fazendo com que me sinta triste perante tal realidade diminuta e insuficiente para mim. que estão além da minha capacidade de controle de tais construções misteriosas. muitas vezes. mesmo que possa fazer muito bem.

Enxergando como um ser social O pai comprimia. o rabo de um pequeno rato. as pessoas podem apresentar diferentes constituições do Eu (alma). quando se debatia sobre o piso branco. quanto mais desenvolvemos nossa consciência.De acordo com suas experiências e influencias. essa discrepância nociva. que. se tornava ainda mais evidente. observando apreensivo à cena. sendo. permanecia imóvel e assustado. cabendo a nós a tarefa de transferir. O ambiente onde ocorria esse acontecimento havia se tornado desimportante. encontrando-se praticamente ausente. com relação aos parâmetros que nossa reflexão identifica como sendo a nossa realidade. de idade em torno de 11 anos. Próximo ao rato. nós estabelecemos o ideal do Eu. esse único detalhe perceptível apenas era possível por causa do rato. uma entidade psíquica que nos analisa como se estivéssemos de fora. que se debatia desesperadamente. de cor cinza escuro. como sendo o certo. que almeja alcançar o estado de plenitude e a potência inorgânica. que analisa as coisas em relação ao conhecimento e os parâmetros que possuímos. dotadas de um egoísmo exacerbado e em outros casos possuindo um altruísmo ímpar. de algum modo. e oprime muitos de nossos desejos. A reflexão pode ser considerada como uma entidade reguladora. mais somos capazes de nos analisar de forma imparcial. Perante o mundo que enxergamos. ou de desconstruir. algumas vezes esse ideal do Eu é anómalo. que pareciam ser de uma cozinha. Como mediador entre a alma e o espírito possuímos a reflexão. com o pé. como referência. um garoto. pressentindo a iminência de sua morte. 150 . apenas os pisos brancos. em alguns casos. para que nos livremos da má consciência e da repressão. fazendo com que alcancemos as dimensões do espírito. restando.

que deixe fluir sua imaginação. todo o resto. O mundo existe em função apenas de ti. é referente a você. por sinal. e faça tudo o que eu disser. havia se transmutado por completo. com a cabeça. fazendo com que consentisse. você é o único ser de verdade nesse mundo. olhe para mim — disse com um tom de voz autoritário — Hoje irei lhe ensinar uma valiosa lição. — Olhe para mim. Nada além de ti tem sentimentos. ou uma personalidade. sem você nada disso existiria. meu filho. Essa lição é de suma importância. é formidável. O garoto se sentiu mais confiante com as palavras obstinadas do pai. que. Imagine-se como um ser único no mundo. — Agora feche os olhos. e capaz de construir cenários e personalidades complexas. tudo ocorre em função de você. sem restrições. isso eu posso lhe garantir. A expressão do filho. Quero que você estruture seus conceitos de acordo com essas características que citei para você. então. tentando pronunciar as palavras que insistiam em permanecer ocultas.Ignorando o olhar assustado do garoto. agora 151 . medos. uma ilusão. o filho foi incapaz de responder. Agora lhe peço que continue a imaginar que você é uma pessoa desse tipo. passando a direcionar seus pensamentos e coordenar seus atos. olhando aterrorizado para o pai. tudo o que existe está presente apenas em função de você. Quero que você permita que que essa possibilidade de ser se aproprie de ti. ou objetivos. filho. externo a ti. é inanimado.. gesto esse que agradou o pai. O par. — Abra os olhos. e nada mais. É preciso que se concentre. o mundo não existiria se não fosse por sua causa — disse o pai com sua voz convicta. e será muito útil em sua vida. o pai se inclinou até ele e o aproximou ainda mais do rato. — Não tenha medo. que prosseguiu com a experiência que estava disposto a proporcionar ao filho. continuou a falar. Tudo bem? Ainda assustado. Os dois permaneceram em silêncio por um breve momento. sem hesitação — Consegue se imaginar como sendo um ser desses? O garoto consentiu com a cabeça. anteriormente assustada. etc.

esmague esse rato. egoístas e abjetas das pessoas. ou parâmetros primitivos e animalescos. externamente. mas também a perversidade. no rato. violentamente. sem dó. Seu olhar anteriormente passivo e analítico. que demonstrava a presença de uma interpretação específica para as coisas. ainda mantendo o rato preso pelo rabo. não só a bondade. Ele não é nada. de algum modo. O garoto direcionou um olhar indiferente ao rato. o vê. que não mais demonstrava toda a sua insegurança anterior. No entanto. só você existe. sorriu satisfeito. é preciso que você consiga produzir. presente dentro de nós. quando percebeu a rápida assimilação daquilo que ensinava ao garoto. situando-nos em um patamar onde não existe qualquer tipo de mesquinharia. agora era tomado por um direcionamento convicto. não quero ser eu o responsável por criar um bobo. afinal.ele possuía uma feição imponente. a fim de você seja capaz de identificá-la nas pessoas com quem você irá se relacionar ao longo de sua vida. convicta. O pai. de forma abrangente e profunda. alojando-as em sua mente. o medo de alguns momentos antes. O filho absorveu cada palavra daquele discurso. por causa da inexistência de aspectos egoístas em sua mente. — Meu filho — disse o pai se ajoelhando. 152 . e continuou com a lição que pretendia ensinar ao filho. Eu fiz isso não para que você adquira uma perspectiva igual a essa. Nós somos seres evoluídos. que era aplicada independentemente daquilo que era observado. — Ainda mantendo essa personalidade recém-criada. mas muito pelo contrário. e dos animais. que. em seu espírito. ergueu o máximo que pôde sua perna direita e pisou. três vezes. e se aproximando ainda mais do filho — Eu lhe forneci informações que agora lhe permitem enxergar o mundo da maneira que a maioria das pessoas. não consegue enxergar as ações mesquinhas. aquilo que se apresentava. inabalável. nós apenas identificamos aquilo que esteja.

todo o conhecimento. todas as normas de conduta e todos os governos são embasados no egoísmo.“Por fim. são loucos!” Autor desconhecido 153 . Aqueles que não são egoístas. toda cultura.

deparamo-nos. todos os indivíduos se veem impelidos a agir de determinado modo.” Até mesmo o imperativo categórico tem como base o egoísmo e visa estabelecer um egoísmo racional. 154 . que aprimorassem a interação humana. o que lhes permitiu avançar na hierarquia social. punida e excluída pelos demais integrantes da sociedade. Esse tipo de premissa é imprescindível para a coexistência humana. desses egoístas patológicos. No extremo oposto. a todo o momento. sendo ela a constituição altruísta. com os egocêntricos inconsequentes que. a norma social “Age de tal maneira. que possui uma alma vasta e que não cultua o ego. desprezam tudo aquilo que é externo ao indivíduo. Almejando o aprimoramento das interações entre as pessoas e o aprimoramento das sociedades. Esse tipo de personalidade será reprimida. após se mostrarem indivíduos exemplares. a alma de todas as pessoas será diminuta. em um mundo onde o egocentrismo é lei. em sua sede insaciável de promoção pessoal. alguns seres egoístas ficaram incumbidos de elaborar códigos de conduta. Esses legisladores obtiveram o poder de estabelecer normas sociais após se mostrarem exímios indivíduos egocêntricos. Tendo como base essas almas diminutas. irá almejar apenas o benefício particular e não enxergará nada que não agrade ao ego. também serão desprezados e excluídos pelos demais integrantes da sociedade. que seguiram à risca as normas egoístas vigentes. Dessa maneira um ciclo vicioso é estabelecido. até o patamar de regentes das condutas sociais. encontramos a constituição mais rara da psique. Em meio a essa fórmula social simples. que permita a convivência das pessoas em sociedade. por não se enquadrarem nos parâmetros sociais. que aquilo que você definiu como máxima possa ser utilizado como parâmetro para as condutas de todas as outras pessoas. esses indivíduos.Egoísmo. é preciso estabelecermos limites que impeçam que o culto ao ego destrua tudo.

mas infelizmente o faço com inclinação. o que lhes permitem enxergar um mundo mais real e mais amplo do que aquele com o qual se deparam os indivíduos egocêntricos. suas ações são sempre virtuosas e almejam sempre a melhor condição para o todo. corrói-me o interior. Eles. para eles a seguinte afirmação sempre lhes será evidente: “De bom grado sirvo aos amigos. os códigos morais são inúteis. visto que não sou virtuoso. Essa característica é gritante à percepção das pessoas e não foge da percepção do próprio executor das ações. Além disso. não possuem mecanismos de proteção e deslocamentos.” 155 . e então.Para esses indivíduos de constituição rara. por si só. por serem destituídos de ego. Após descrevermos como se porta uma personalidade rara. repousam no solo da virtude. podemos perceber o quanto as ações “benevolentes” dos seres egoístas são insossas e visam apenas o bem próprio. amiúde.

"O meu maior medo é que os outros me vejam como eu os vejo." Athur Rimbaud 156 .

A única esperança consistia na entrada de um grande serviço. novos projetos. com diferentes empresas. Entretanto. que reduzia em larga escala o tempo de realização dos serviços. racionamentos e reengenharia de processos. que. Os setores de programação e hardware se preparavam para uma apresentação conjunta. O possível cliente. que incluíram demissões. a empresa não conseguiria se manter viva por muito tempo. Mesmo com a redução dos gastos. havia reduzido drasticamente o caixa. a companhia não conseguia atrair novos clientes. reduções de cargas horárias. sendo elas as principais responsáveis por determinar quem iria produzir o serviço grandioso. A ampliação de um dos setores. 157 .Não confie em ninguém A empresa Oleto se preparava para um momento crucial de sua breve existência. que foi fundada há 7 anos e era especializada em processos de automação inovadores — sendo a logística ousada. por si só. deixava clara a realização de múltiplos orçamentos. durante um momento econômico de recessão prolongada. de acordo com os representantes da multinacional. para agravar ainda mais o estresse que a situação gerava. atrelado a essa redução exagerada. A sociedade limitada. Mesmo com essa vantagem comercial gritante. de extrema importância. Esse fator aumentava. seria a etapa decisiva em se tratando da escolha do fornecedor. que integrava vários setores da empresa. fazendo com que os fluxos de caixa se tornassem cada vez menores. que estava sendo orçado e exigia muito esforço por parte da reduzida equipe da Oleto. o nível de exigência requerido aos funcionários. obrigando os dirigentes a realizarem massivos cortes de gastos. a empresa vivenciava um momento tenebroso. que era uma multinacional de destaque. o principal diferencial. o possível cliente exigia a realização de tarefas e apresentações periódicas.

onde a situação econômica fosse melhor.O setor de programação possuía dois funcionários: 1 dirigente e 1 engenheiro elétrico. Ele mantinha tais relações com muita habilidade. o que permitia a manutenção da estima dos dirigentes. Os dois desprezavam o dirigente do setor de hardware. que. em sua mente. fazendo com que ele se conformasse com seu papel inferior. ele se sentia muito mal e reduzido. A todo o momento em que isso ocorria. O único funcionário remanescente era alguém que compartilhava das crenças e pontos de vista do seu superior imediato. ele constantemente se imaginava como possuidor de oportunidades similares. para o cargo de diretor de processos. nada além do que melhores oportunidades dentro da empresa. logicamente — de Rodrigo se restringia apenas aos dirigentes. admitia a superioridade hierárquica de seus dirigentes. se tornasse superior a todos os dirigentes. não era obtida por ninguém. até certo ponto. de suas aflições e ódios. muitos dos trabalhadores do setor tinham sido demitidos. poderiam ser muito melhores. fazendo uso de expressões completamente artificiais que poderiam ser identificadas facilmente através de uma observação um pouco mais aprofundada. as posições de seus superiores. em função de atitudes falsas e calculadas. as quais ele não teve. Apesar desse desprezo oculto. fazendo com que se esforçasse ao máximo para desvalorizar aquilo 158 . que visavam nada além do que a autopromoção. o que fazia com que. no entanto. o dirigente do setor de programação. Ele atribuía essa superioridade a oportunidades de estudos. por mais simples que possa parecer. sem que ninguém desconfiasse dos motivos egoístas de suas ações. ele não admitia se enxergar como sendo inferior. que estava vago e poderia ser preenchido em um momento futuro. As pessoas nunca prestam atenção em nada! A subordinação e aceitação de inferioridade — com muitos deslocamentos. fazendo com que desprezasse. sendo esse desprezo agravado em função da possibilidade de promoção. Rodrigo. Em relação aos outros funcionários. Os primeiros dispensados do setor foram aqueles que não compartilhavam das ideias do dirigente. em sua imaginação. todos sendo indicados pelo dirigente. Rodrigo era solicito e sempre procurava agradar aos chefes. Essa constatação.

mas deu ocupado. nesse momento. continue com o que queria me falar. muito obrigado. Tenho medo de que não consiga voltar a tempo para a apresentação.” “Bem que eu queria. Você poderia me fazer um grande favor?” “Claro! É só falar. a cor é muito bonita..que lhe causava dor. ele era exímio na tarefa de reduzir e desprezar os feitos alheios. além disso.. Onde comprou?” “Obrigado! Comprei em uma loja no shopping. depois te passo o nome dela. mas vejo que me enganei em pensar dessa forma. E. claro. não pude evitar deixar de fazer tal observação de algo que me agradou bastante. Por favor. que preciso.” “Oh. gostei muito da sua camisa. para a preparação da apresentação via videoconferência. E me desculpe pela interrupção. que sofria com problemas de saúde. Tentei até mesmo ligar para um deles. Sinto. havia desgastado João. ir ao médico. Gostaria de informar a algum dos dirigentes sobre essa situação. e os detalhes são harmoniosos. mas nenhum deles se encontra presente no momento. acho que eles também estão se preparando para a apresentação. Ele chamou Rodrigo em particular e lhe pediu um favor: “Oh.” 159 . urgentemente. Eu pensei que poderia aguentar até a apresentação. estou me sentindo muito mal. ela parece ser muito confortável. por sinal.” “Ah. Seria muita gentileza de sua parte...” “Você tem certeza que não consegue aguentar até a apresentação? Você não me parece tão mal. não estou me aguentando em pé. De posse dessa característica intrínseca. mas é impossível. O trabalho excessivo. Essa debilidade inesperada fez com que ele tomasse uma medida drástica. e sei que é forte e pode aguentar até lá.

Essa minha tentativa me deixou ainda pior. o que fazia com que os aspectos mais chamativos e perigosos permanecessem incógnitos. na videoconferência de hoje. fazendo com que eu não mais seja capaz de aguentar nada. Você poderia avisar aos dirigentes sobre isso? Você acha que pode realizar a minha apresentação? Ela é de suma importância para o. amigo. mas não pôde ser percebida por João. você poderia fazer a minha apresentação? Sei que é pedir demais. estou muito mal. fechar o serviço. 160 .“Isso é uma pena! Em relação aos dirigentes. fui informado que eles estão em uma reunião particular. que era incapaz de relacionar algumas características a determinados pensamentos e possibilidades.” A expressão maliciosa de Rodrigo era gritante. Acho que você não deveria incomodá-los. e que essa foi uma péssima ideia.. você é o único a ser informado sobre isso. trabalhamos muito tempo.. Assim como também gostaria de saber se sou o único a ser informado dessa sua partida inesperada. gostaria de saber se preparou algumas referências impressas para a apresentação. E sim. Se eu não voltar a tempo.” “Entendo.” “Não se preocupe. Acho que você tem razão. mas vejo agora que não consigo. “Oh. e.” Rodrigo o interrompeu e disse com convicção: “Pode deixar comigo. elaborando algumas estratégias para conseguirem. meu amigo. disse: “Meu amigo. Muito obrigado. mas a situação é urgente. Além disso.” Ele olhou receoso para Rodrigo. após um breve momento de hesitação. que fez com que eu me desgastasse ainda mais. tentei aguentar até a apresentação... eu realmente preciso ir ao médico. João. Antes. Conheço o suficiente sobre o seu setor para ser capaz de realizar a apresentação. Farei isso por você. preciso urgentemente ir ao médico. muito obrigado mesmo! Eu separei algumas folhas que estão na minha mesa e deverão ser utilizadas como referência para a apresentação.

Ele iria fingir-se surpreso. Rodrigo se sentiu confiante. Em sua mente uma linha de pensamento o encantava: “Muitos funcionários foram demitidos sem nenhuma falta grave. acho que você deveria ir. O plano inescrupuloso deveria ser muito bem executado. assim como todos os presentes na apresentação. Rodrigo. pois qualquer falha poderia fazer com que tudo aquilo se voltasse contra ele. e encarava aquela situação como sendo a oportunidade perfeita. absorto em pensamentos intermináveis. característica essa que ele iria se esforçar para mostrar que o outro dirigente. e única. Em sua mente. não possuía. realmente. aspecto esse que me permite apresentar o seu trabalho. nesse momento delicado pelo qual passamos. que se ausentou. você parece estar muito mal. enquanto Rodrigo permanecia imóvel. Vou imediatamente ao médico. muito obrigado. Nem ao menos consigo me aguentar de pé. Pode deixar que avisarei a todos sobre sua ausência” “Você tem razão. A época tenebrosa pela qual passava a empresa não descartava tal possibilidade. E. com a qual ele sempre sonhara. Ao mesmo tempo. com a ausência de João.conjuntamente. Sinto muito em dizer isso. assim como lhe permitiria apresentar o meu.” “Isso é verdade. ele se deparava com a oportunidade ideal para desmoralizar João e torna-lo um personagem secundário na disputa pelo cargo de diretor de processos. em nossas apresentações. mais uma vez. ao médico. ele planejava tentar realizar a apresentação alheia. “Agora que já resolvemos esse assunto importante. imediatamente. com um funcionário que comete uma falta grave. mas. ainda 161 . podendo até mesmo resultar na demissão de João. imagine o que ocorrerá. com isso mostrando comprometimento para com o projeto. Mesmo com uma grande possibilidade de erro. Aquilo que se desenhava à sua frente parecia ser a situação ideal. Ele já havia imaginado todos os aspectos que o beneficiariam.” Respondeu João.” João saiu apressado. mais aliviado. até mais.

se sentissem ainda mais inconformados com aquela ausência inesperada. a mentalidade dos dirigentes já estava decidida. ainda mais. Esses pensamentos percorriam. Essa característica fez com que a ausência de João fosse agravada ainda mais. a possibilidade de realização de negócios. A todo o momento ele salientava o fato. durante a videoconferência. se tornou absurdamente abjeta. João foi demitido e o seu setor foi integrado ao setor de programação. que estavam presentes na apresentação. sendo essas suspeitas suficientes para abalar a confiança e. que. considerando-a como uma falta de comprometimento imperdoável. fazendo com que os dirigentes. Rodrigo apresentou sua parte do projeto e tentou apresentar a parte de João. Os representantes da multinacional se sentiram incomodados com a ausência. Rodrigo se esforçava para deteriorar. que colocava em dúvida a capacidade da Oleto em cumprir as tarefas que deveria executar para a realização do grandioso serviço. consequentemente. 162 . Em função daquilo que consideravam ser uma ausência sem aviso prévio. sempre salientando a falta de respeito do colega em não o avisar sobre sua ausência. a imagem do colega. a sua mente.mais relacionada com o projeto mais importante da existência dessa empresa. incessantemente. após retornar à empresa depois de alguns dias internado com pneumonia. Mesmo com suas tentativas esforçadas de defesa. e que comprometeu um projeto importante. em um momento de extrema importância para a empresa. sem qualquer tipo de comunicação a quem quer que fosse. Ao mesmo tempo que a Oleto perdia sua principal chance de salvação. Com certeza ele será demitido e eu não mais terei concorrentes para a posição de diretor de processos”. Naquela noite.

apenas para mim. longe das aparências pormenorizadamente elaboradas e executadas. No entanto. e participo de cada nova experiência com uma confiança inabalável.“Ando pelas ruas com um olhar imponente. cada nova situação me aterroriza e torna evidente. que nunca irei demonstrar.” Arthur Rimbaud 163 . uma inocência profunda. deparo-me com toda a insegurança e com o medo. a ninguém! A vida é uma farsa a ser levada por todos.

uma palavra bela e encantadora. escondido em um elogio exagerado — sendo essa a característica inerente às palavras superficiais e falsas. esse tipo de sentença é desenvolvida apenas nas profundezas da mente. Cada sentença. onde tudo é exagerado e onde os pensamentos muitas vezes contêm aspectos que não se aproximam da realidade.” A falta de atenção faz com que deixemos de perceber um traço gritante de inimizade. A avidez em se tornar estimada e bem valorizada. Uma singela característica pode ser responsável por estimular os elogios mais incrivelmente exagerados e completamente inverossímeis. analisando características 164 . não importando que essa valoração seja embasada em palavras insinceras e previamente calculadas. que gritam aos ouvidos mais sensitivos. faz com que as pessoas encontrem qualquer tipo de característica que lhes possa ser utilizada para elaborar um elogio. é previamente elaborada.Nossas relações insinceras É impressionante como grande parte daquilo que é dito pelas pessoas simplesmente não possui relação nenhuma com sentimentos verdadeiros. Deparados com expressões dúbias. agradar. que possuem elementos escondidos e silenciosos. inúteis adquirindo características completamente opostas do que aquelas desejadas por quem tenta. apenas constatado quando observados com atenção. tais expressões sempre parecerão insossas. tendo como intuito externar elogios que visam nada além do que fazer com que o interlocutor simpatize com a pessoa com quem está interagindo. com relação aos discursos falsos. as pessoas observadoras desenvolvam suas impressões deploráveis. com sensações e impressões profundas. que foi realmente percebida ou realmente sentida. falsamente. “Muitos dos elogios mais polidos e eloquentes contêm um desprezo profundo. cada expressão. dessa forma estimando e adquirindo uma concepção satisfatória com relação àquele que vos fala. A insinceridade e as expressões irreais fazem com que as pessoas mais sensíveis se sintam incomodadas. Para uma pessoa atenta. somente de forma imaginária. não sendo uma expressão real.

que serão definidas como parâmetros para determinar o quão boa e sensível uma pessoa é. um desprezo paralisante. mesmo deparados com toda a inverdade dos elogios superficiais. Entretanto. que falam apenas aquilo que realmente sentem e pensam. as pessoas sinceras. em expressões que devem servir como referência de boa educação.incógnitas apenas nas profundezas de suas mentes. enquanto os falsos são valorizados. muitas pessoas ignoram qualquer tipo de interpretação que torne inválida tais expressões. enquanto as ruins são estimadas. A necessidade descontrolada de se sentirem satisfeitos faz com que os indivíduos se tornem cegos. muitas vezes. Suas expressões reais. que o senso comum define como sendo reais e profundas. desse modo adquirindo um nojo profundo. tornemse estimados por quase todas as pessoas. egoístas e irreais. muitas vezes são desvalorizadas por não possuírem o exagero irreal que as expressões falsas. egoístas e toscas. a verdade e a sinceridade se tornam absurdas e incoerentes. devem possuir. desprezadas por não se adequarem aos parâmetros incoerentes que determinam o quanto alguém é espirituoso e bom. Distantes dessas valorizações descabidas e incoerentes. enquanto a falsidade se torna lei. que se atêm e valorizam os discursos mais falsos. que idolatram as pessoas mais ridículas. para com pessoas que agem de tal maneira. a necessidade de alimentar o ego. são. 165 . os elogios verdadeiros são desprezados. que possuem relação direta com verdadeiros sentimentos e sensações. Nesse contexto onde os valores são completamente equivocados. as pessoas realmente boas são desvalorizadas. de aumentar a autoestima. faz com que tais discursos. que estimam os comentários mais superficiais e incoerentes. ou que ignore e despreze a opinião falsa das pessoas. por mais que sejam irreais e cheios de impressões ocultas. desse modo tornando as palavras de tais seres deploráveis em lei.

por causa de nossas reações pré-estabelecidas. todos os conceitos. aprendendo a interpretar aquilo que percebemos. os hobbies. Às vezes. A nossa cultura do consumo e da aparência nos deixa. infelizmente. ” Nós. constantemente julgamos errado. tudo é utilizado como base para que determinemos a imagem que formaremos da pessoa à nossa frente. frustrados. suposições e objetivos estão situados em uma realidade aparente. a todo o momento. Esse nosso estilo grosseiro de construção conceitual é extremamente capcioso e limitado. interpretá-la errado. a verdadeira essência da vida há muito foi abandonada. interpretá-la errado novamente. não nos permite tentar estabelecer uma 166 . as coisas à nossa volta. podem ser os responsáveis por uma interpretação completamente errônea. em seguida. que interpreta e determina. A velocidade alucinante da vida na sociedade também é um empecilho. A imagem que formamos irá direcionar e determinar nossa interação com as pessoas que encontramos durante a vida. a frustração se acumula em nós e parece gerar uma força que almeja a alteração daquilo que nos oprime. Desde muito já diziam: “Julgar uma pessoa é interpretá-la errado. de maneira limitada.A aparência que não agrada de verdade No mundo atual. durante a noite. um gesto mal interpretado. Permeados por esse ambiente limitado. o jeito de andar. Os sentimentos e sensações genuínas foram extintos. nele. e vivemos em um mundo em suspenso. interpretá-la errado.. em diversões que não divertem nada. desde cedo. vamos. uma atitude mal explicada. longe de nos abstermos dos erros conceituais. A maneira de falar. ela não nos permite tentar entender alguém a fundo. gastamos essa energia. Mesmo que estejamos cientes da carência de nossas interpretações. fazer uma pequena reconsideração e. etc. que nos parece superficial. a aparência passou a ser muito mais importante do que o conteúdo. a forma de se vestir. as reações. o que podemos nós fazer? A sociedade é estruturada dessa forma e precisamos nos adequar a ela para sobreviver. Em nosso habitat prático e superficial.

para que possamos nos adequar ao nosso habitat. ainda nutrem as verdadeiras características humanas e a esperança de encontrar uma personalidade semelhante. Por fim. para conseguirmos executar as tarefas às quais somos designados. procuramos alguém com quem possamos estabelecer uma relação profunda e verdadeira. mesmo ele sendo completamente antinatural. 167 . e. todos vivem isolados. em uma cidade superpopulosa. realmente alimenta a nossa existência. que seja mais grandiosa do que os nossos conceitos vigentes fúteis. constantemente. por exemplo. Sabemos o quanto o corpo do nosso espírito não transmite as nossas verdadeiras ideias. onde. é preciso que sejamos resilientes e que ignoremos qualquer sentimento. É preciso que moldemos a nossa percepção. somos incentivados a não confiar em ninguém. intuições e planos. Algumas pessoas raras. constantemente procuramos por aquilo que. para além das aparências. a duvidar e desconfiar de tudo e de todos. qualquer situação que nos convide a uma reflexão mais profunda e demorada.imagem que seja mais condizente às pessoas com as quais interagimos. em nosso mundo supérfluo. mesmo se adaptando às regras sociais. essa característica social cria um ambiente onde todos vivem encerrados dentro de si.

e assim por diante. percebemos o quanto confundíamos alguns acontecimentos. Nesses casos. assim como é importante a necessidade de que se explique o quanto as pessoas confundem e cometem erros grotescos quando expressam suas opiniões sobre esse assunto complexo. Quando nos propomos a investigação de um assunto. que impede a estruturação mais virtual da alma. quando comparadas. Muitas delas confundem meras ilusões egoístas com amor. amar se trata da interação com alguém que transforme seu espírito. essas pessoas atribuem explanações absurdas para suas experiências. tendo como objetivo a melhor estruturação daquilo que analisamos. é preciso que façamos uma análise mais meticulosa e profunda. Sem possuírem a característica mais importante para que possa existir o amor e para que esse revele o funcionamento da mente. descobrimos que utilizamos a mesma palavra para designar sensações completamente diferentes. que impede uma construção de ama que envolva parâmetros que estão além do próprio indivíduo.A concepção cotidiana sobre o amor É importante que eu ressalte o quanto o amor é raro. são poucos aqueles que venceram o egoísmo primitivo. Primeiramente. Para fugirmos desses erros comuns. Ambas as classificações não se encontram muitos distantes. tendo impressões equivocadas sobre eles. exigindo um mergulho sem fim. permitindo que uma melhor classificação sobre tais possibilidades possa ser construída. mas elas possuem características que são muito diferentes. são pouquíssimas as pessoas que possuem a capacidade de amar. descobrimos o quanto um mero fato possui relações extensas e complicadas. Para elas. alguém que 168 . assim. que acaba por nos revelar o quanto cometíamos equívocos em relação àquilo que acreditávamos compreender. percebemos o quanto aquilo que analisamos é profundamente complexo. tendo interpretações equivocadas sobre eles. que impede a valorização de algo além do próprio indivíduo.

simplesmente as façam se sentir melhores. Para essas pessoas. por fim. que existem estritamente em suas mentes e não possuem muita relação com a realidade. todos os sentimentos para com outrem não passam de condutas egoístas. possuidoras de uma alma estreita e centrada apenas nelas mesmas e em seus ideais. sem que a atitude vise. para elas. 169 . tais pessoas nem realmente conhecem o objeto que dizem amar. Nessa concepção. que visam nada além do que o benefício próprio. alcançado em função de um ideal que direciona com precisão a mentalidade. o bem-estar e a satisfação do outro. prioritariamente. o amor não passaria de um aumento de potência. E é essa concepção absurda e limitada que vejo sendo considerada amor. sem que essa interação cause qualquer tipo de interação mais profunda. mais elementar e impactante. esses objetos não passam de construções capciosas e muito cegas. cada atitude tem como intenção fazer com que aquele que proporciona satisfação apenas continue proporcionando isso. Dessa forma. mais satisfeitas.

” Autor desconhecido 170 . que muito me encantou. ocultado por várias máscaras.“E naquele momento percebi que não conhecia aquela pessoa de forma abrangente. mas que parece estar muito bem escondido. que apenas agora não foram capazes de resguardar tanta beleza. Aquele gesto seu tornou evidente um conteúdo raro.

e que tanto nos incomoda. fazendo com que todos se pareçam robôs previamente programados. Nesse ponto. cada movimento espontâneo. 171 . daquilo que nos aparenta ser tão incomum. acabamos por criar uma imagem daquilo que irá nos agradar. alteram a antiga realidade. menos discrepante e opressor. Entretanto. ausentando-se graciosamente do marasmo comum e nos apresentando aspectos inusitados e raros. e a reestruturação de ideais. que tanto nos incomodava. reduzi-lo. desse modo. a princípio. que esconde o desprezo mais intenso. que irá proporcionar características satisfatórias para tudo o que encontramos. cada reação inusitada e graciosa. vamos. que irá iluminar os nossos dias. que vamos vivendo. até que alguma coisa perece deixar de seguir o caminho habitual. percebemos o quanto nosso ideal se tornou nocivo e nos esforçamos para alterá-lo. criadas com tanta convicção pela nossa mente. a constatação da discrepância entre nosso ideal e a nossa realidade faz com que comecemos a nos sentir cada vez mais frustrados com o nosso cotidiano. a mesma mediocridade de sempre. e torna-lo mais compatível com a realidade. E é em meio à banalidade. Quando o marasmo começa a entorpecer nosso corpo. deixa uma sensação da satisfação mais profunda e sincera. tão superior. Nutridos por nossas ilusões. nossas imagens ideais de mundo. tão puro.Você não fica animado quando descobre uma coisa rara? Os dias passam de uma forma tão banal. e. nos sentindo novamente satisfeitos. a mesma polidez insossa. formulando novos aspectos e interpretações para as coisas à nossa volta. a princípio. mais realizável. tão entediante. Nas ruas encontramos apenas as mesmas expressões nos rostos das pessoas. A beleza das impressões raras sempre nos deixa fascinados. que não se cansa de enxergar apenas aspectos negativos em todas as coisas. as mesmas atitudes e reações. que são incapazes de determinarem o que quer que seja por si próprios. fazendo com que nos sintamos sufocados e desiludidos.

nosso corpo parece ser abastecido por um fluxo agradável. falando sobre tudo. para sermos capazes de enxergar as possibilidades mais belas e raras. até se tornar real. cada reação daquilo que se tornou incrivelmente agradável para nós. antes que essas desapareçam do nosso alcance. Desejamos conversar. A necessidade de estarmos perto daquilo que nos fascina é intrínseca. Desejamos observar cada ação. que sempre permaneceu escondido. Longe daquilo que nos encanta. que nos deixa entusiasmados. sobre os sentimentos mais profundos e as experiências mais incomuns. palpável. existindo apenas nas profundezas da mente. A satisfação mais confortante. sobre todos. por isso é preciso que estejamos sempre atentos. e as horas dias. esperançosos e animados com todos os aspectos da vida. que se transmutam por completo durante essas descobertas raras. Os momentos que nos fascinam são raros. para que possamos encontrar as almas mais lindas e inimitáveis. sem nunca nos mostrarem suas qualidades exóticas e evoluídas. sempre despertos. o tempo inteiro. os minutos parecem se tornar horas. e se tornam plenos em todos os sentidos e nuances. como que repondo anos de conversa com nosso confidente mais perfeito.Tendo em vista esse novo arranjo. as impressões mais empolgantes. como é bom descobrir uma coisa rara! 172 . Ah. distante. com nosso amigo inimitável.

e que foi ensinada na imensa e suave nuvem da Via Láctea inumeráveis mundos atrás e nunca mais depois disso. residindo em nossas mentes sem que tenhamos uma percepção consciente deles —. É tudo como um sonho. podemos definir o ser humano atual como dotado de um narcisismo exacerbado. e que serve como meta para que a psique estruture todos os seus desejos e objetivos. que beira a patologia. Nós só não sabemos disso por causa de nossas mentes pensantes.“Nada nunca acontece. Mas em nossa verdadeira essência da mente sabemos que tudo está certo lá dentro. fazendo com que os 173 . Eu a chamo de eternidade dourada. então não se preocupe. e você se lembrará da lição que esqueceu. contidas nesse livro. Tudo é êxtase. também podemos definir que a base do intelecto (o espírito) é constituída pela definição e relação entre tudo aquilo que sentimos e percebemos — sendo esses conteúdos muitas vezes ocultos para nós.” Jack Kerouac O amor reinventado Através das observações anteriores. Tudo é só uma coisa desperta. no interior. Escute o silêncio que está por trás da ilusão do mundo. É perfeita. contendo um tipo intenso de egoísmo.

O ato sexual passa a ser encarado como o ato primordial. e com isso é capaz de curar muitos pacientes. um filho. podemos classificar todas as ações dos seres vivos como sendo condizentes ao retorno ao estado inorgânico. O papel da sexualidade na vida dos seres vivos é inegável. é o nosso desejo mais profundo. Freud define que a base da psique é a libido sexual. o ato sexual adquiriu proporções gigantescas. mas ela não é a base da psique. Tomando como base a vontade de potência. também é associado à obtenção das características alheias. a mais mecânica e a que mais satisfaz a vontade de potência. com a sexualidade. o retorno ao estado inorgânico. inconscientemente. toda a náusea existencial é eliminada através da projeção de um redentor da vida. onde se comia a carne de seres corajosos e distintos no intuito de que isso iria fornecer as características alheias que eram admiradas. Por causa da nossa constituição física. mesmo com as suas limitações físicas. essa plenitude se torna praticamente inalcançável. cabendo à psique se deparar com a tensão entre o espírito e a alma. assim se aproximando dessa plenitude que reina inalcançável nas profundezas do intelecto. isso é evidente.seres humanos se sintam satisfeitos quando se aproximam ou até mesmo conseguem atingir essa condição de ligação pura entre as coisas. sendo associado ao conhecimento e a interação mais intensa e abrangente que uma pessoa pode ter com outra. que é transformada em uma necessidade ilimitada de expansão do indivíduo. 174 . podemos classificar a sexualidade como sendo a ramificação mais próxima. que tanto nos atraem no objeto. que supre a vontade exacerbada de potência. Dentre todas as características ligadas à vontade de potência. onde o organismo. procura potencializar-se ao máximo. interação essa que não é capaz de se aproximar da condição de contato com o todo que é a base da psique. que irá suprir todas as carências e frustrações que se dão na relação entre o indivíduo limitado e o espírito pleno. A sexualidade está arraigada nos seres vivos. na nossa cultura atual de mundo. como relação entre o espírito e o indivíduo. é apenas a ramificação mais próxima à obtenção daquilo que almejamos profundamente. analogia essa que nos lembra de algo como que um canibalismo primitivo.

Essas duas possibilidades de reencontro com o estado inorgânico (espírito). Esse indivíduo realmente se tornou dual. nesse tipo de mente. podemos identificar a primeira forma de supressão dessa nossa vontade intrínseca. Tomando como base essa característica do indivíduo reflexivo — que não mais se enxerga como sendo o todo —. e não como sendo o todo. O indivíduo que se enxerga como sendo parte do todo. só podem ser identificados e almejados por seres que.Não podemos negar que a reprodução é a supressão mais potente da vontade de potência nos animais irracionais. e o indivíduo consegue identificar a maneira de suprimir esse impulso profundo. essas pessoas se enxergam como sendo parte do todo. ele se enxerga como indivíduo. Uma mente mais sensitiva é capaz de notar a relação do instinto sexual com o ser. permitindo ao indivíduo identificar aquilo que se aproxima da verdadeira proporção das coisas e dos acontecimentos. mas ao mesmo tempo interpreta o todo de forma imparcial e ausente de si mesmo. sendo o caminho do amor e o do conhecimento os dois caminhos possíveis para a verdadeira supressão dessa vontade profunda. Essa característica em particular irá criar uma instância primordial na psique do indivíduo evoluído. que envolve muitos parâmetros. A todo o momento esse indivíduo reflete e analisa o Eu e a sua influência no todo. transferindo toda a sua expectativa e vontade para a procriação. às coisas. analisa sua própria existência. sendo essa uma maneira muito mais simples de retorno à interação com todas as coisas. o ato sexual passa a ser encarado como secundário. quando comparada com a redenção do espírito através do conhecimento. relacionando-a ao mundo. caracterizada como possuidora de uma capacidade de reflexão abrangente. não mais possuem um narcisismo exacerbado. Essa forma inicial de plenitude existencial é o amor. 175 . Nesse caso. os sentidos são mais apurados. que dotados de um narcisismo exacerbado não são capazes de se aproximarem daquilo que realmente almeja o espírito. de algum modo. tanto externos como internos.

irá eliminar as incertezas.O indivíduo capaz de amar. causadas pelo ideal. capaz de sentir o nirvana através da desconstrução de um ideal. Essa proximidade da satisfação plena. isso ocorre porque o indivíduo foi cegado por um ideal potente. etc. fazendo com que. por exemplo. que ao mesmo 176 . o indivíduo não mede esforços para a obtenção daquilo que lhe promete muito. assim como a influência do indivíduo sobre o todo.. esse indivíduo é capaz de abranger aspectos exteriores a si mesmo. tais sensações. fazendo com que o intelecto tente evitar. tendo em vista a obtenção daquilo que ele deseja acima de tudo. atitude essa que causa medo. podendo. englobe. possuirá. fazem com que a mente abandone aquilo que poderíamos chamar de um estado econômico. estresse e dor. possuidor de um ideal. as sensações intensas. nesse caso. Diferentemente de uma pessoa egoísta. estruturar uma alma que envolva. como. sendo elas tanto de satisfação quanto de insatisfação. um ideal forte. a todo custo. aos olhos de um observador externo. no amor. que afugenta impressões e associações dolorosas. ele pareça abandonar qualquer benefício próprio em prol de uma causa. Aquele capaz de amar. amenizando e diminuindo a força das impressões. esse direcionamento irá tornar a vida mais potente. tendo em vista a obtenção de seu ideal. Ao mesmo tempo que a pessoa se sente mais satisfeita. a morte e outra situações traumatizantes. incapaz de estruturar uma alma que não seja focada em si mesma. passa a se sentir mais potente. percorrendo nossa mente incessantemente. possuidor de uma definição precisa. o que o permite agir de forma intensa e despretensiosa em função de um objeto externo. parâmetros externos. inconsequentemente. que o permitem experimentar sensações incomuns. o que faz com que aproxime sua alma da dimensão do espírito. que direciona sua existência. em seus devaneios mais inconscientes. aproximando o indivíduo da realização da necessidade mais profunda do intelecto. Nessa condição. O amante. pertencentes apenas àqueles possuidores desses atributos. o ideal. possui características únicas. em sua mente. desse modo fazendo com que ele se sinta mais satisfeito. faz com que a pessoa aja intensamente. afugentará a náusea existencial e as sensações inquietantes e dolorosas com relações a muitas coisas. ou de alguém. os sentimentos surgem de forma intensa. fazendo com que ele não enxergue nada além do que o objeto idealizado.

a maneira mais evoluída de existir. com a possibilidade da satisfação mais sublime e da destruição mais desesperadora e insuportável. Quando identificamos outrem como sendo detentor de todas as características que definimos como sendo o ideal do Eu. do nosso ideal. tudo é questão de momento e de ser aquilo que o outro sente absoluta necessidade de ser. é a função que melhor direciona a alma. sem a possibilidade de satisfação sublime. que o outro valoriza. para que ele possa voltar possuir uma vida sem sobressaltos. estando eles situados em nosso inconsciente. sendo essa valorização. que a mente interpreta como a melhor maneira de ser no mundo. sem desespero e dor. que melhor afugenta as incertezas e que mais aumenta a potência do indivíduo. fazendo com que o indivíduo passe a desejar a destruição de tal ideal. instaurando que sua origem derive de nossas vivências. totalmente inconsciente. aspecto esse que irá nos incomodar mais do que qualquer coisa. é totalmente relativa e aleatória. constantemente. sem que possamos entender a forma como são estruturados. sendo ele diferente. onde nos deparamos. fazendo com que sua alma se aproxime da dimensão do espírito. a maneira mais potente e melhor condizente com o todo. cabendo a nós apenas uma suposição hipotética sobre esse ideal. sendo que cada pessoa possuirá um ideal particular e totalmente diferente quando comparado com o ideal de outra pessoa. possuindo um conjunto de fatores que determinam aquilo que valorizamos em demasia. passamos a valorizar 177 . tornando-se muito complexa a tarefa de definir o que determina as características desse ideal. Não existe algo como duas almas premeditadas a estarem juntas. ensinamentos e experiências. quando comparado entre as pessoas. ele se torna uma instância psíquica praticamente impossível de ser investigada. faz com que nos deparemos com uma condição absurdamente instável. muitas vezes. extremamente relativo. sem que possamos identifica-los. A determinação de um objeto que amamos. é uma idealização do Eu.tempo direciona nossas vidas e torna a existência suportável. Essa valorização profunda. Aquilo que define a maneira como será determinado o ideal do Eu caracteriza-se como uma interação abrangente entre os mais variados parâmetros. qualidades e carências. Esse ideal do Eu é particular. ao longo da vida.

178 . alguns que eu consigo identificar são: — O ideal mal explorado: Nesse caso. faz com que mantenhamos expectativas exageradas em relação ao objeto. feita pelos amantes. colocamo-nos para além do indivíduo. Essa interpretação exagerada. O amor não é eterno. nos influenciando. causando as sensações mais intensas quando identificamos. o objeto foi explorado em todas as suas possibilidades.essa pessoa de maneira exacerbada. e. fazendo com que estabeleçamos uma concepção exata. Identificamos a influência do objeto no todo como sendo mais importante que a nossa. encarando-nos como sendo ele. que tanto nos incomodam e fazem com que percamos a nossa potência e nos sintamos confusos e desesperados. no mundo externo. Deparados com esse fato. Sartre afirma que a condição primordial para o amor é o isolamentos dos indivíduos apaixonados. Os resultados do fim do relacionamento de supervalorização são os mais variados. ficará para sempre em nossa mente. alguma característica que nos lembre do objeto que. fazendo com que. ele é interpretado como uma lembrança que promete retornos exageradamente satisfatórios. almejando obter as características que ela possui. Essa desvalorização do objeto pode ocorrer por causa de uma alteração de parâmetros no próprio indivíduo. onde a supervalorização está alheia a uma observação externa que é capaz de desiludir e reverter uma possível interpretação exagerada. em alguns casos. ou por causa da descoberta de que os parâmetros imaginados eram irreais. fazendo com que valorizemos essa pessoa mais do que a nós mesmos. que elimina as concepções concorrentes entre si. — O ideal que chega naturalmente ao fim: Nesse caso. por não ser desenvolvido racionalmente. o objeto não foi explorado de maneira racional pelo indivíduo. nos transferindo por completo para o objeto. quando nos deparamos com algo que incite essa lembrança. como se estivéssemos de frente com o redentor do espírito. fazendo com o objeto seja desenvolvido quase que completamente por associações inconscientes. ele acaba. nos sintamos absurdamente emocionados. digna do inconsciente. fazendo com que o indivíduo almeje algo novo.

Ao invés de simplesmente desvalorizar o objeto. das fronteiras do Eu. ele próprio é 179 . assim como da sua capacidade de imaginação e direcionamento. esse indivíduo já explorou sua interação com o todo. um agente externo faz com que o indivíduo possua uma constituição exata e bem direcionada. passa por uma autoanálise abrangente. sendo seguida por um treinamento exaustivo das características individuais. como que diluídos no mundo.— O amor melancólico: Nesse caso. No amor. para adequar seu Eu ao que ele considera como sendo a essência da vida. fazendo com que ele possa adquirir um estado de má consciência. que se enxerga como sendo o objeto. Nessas condições. o indivíduo não precisa de um objeto externo para se sentir pleno. e definiu parâmetros considerados por ele como sendo construtivos e harmoniosos. o indivíduo não necessita de um objeto em específico para se sentir pleno. que eu irei chamar de redenção da vida através do conhecimento. dependendo da relação entre o indivíduo e o objeto. executada pelo próprio indivíduo. ele. pois o indivíduo. irá interpretar essa característica alheia como sendo sua. ao mesmo tempo. fazendo com que o indivíduo encontre a satisfação de maneira mais rápida. por si só. existe outra maneira de alcançar a relação com o todo. que pare ele é inadmissível. Essa segunda maneira de redenção da vida classifico como sendo conhecimento. sendo essa plenitude instável. tornando-se um ser que proporcionou a plenitude do espírito por si só. fazendo com que os apaixonados se sintam muito satisfeitos. ele. Além do amor. podendo desaparecer a qualquer momento. mais próximos de alcançarem seu desejo mais profundo. o indivíduo percebe um defeito no objeto. No caso da redenção através do conhecimento. desse modo eliminando os fatores concorrentes que anteriormente confundiam e faziam com que o indivíduo se sentisse impotente. e esse modo alternativo ocorre através da destruição. criou uma concepção exata e bem direcionada das coisas e de suas sensações.

o objeto que ele desejar. o amor e o conhecimento são duas maneiras de se obter aquilo que é o nosso desejo mais profundo. em sua mente. 180 . Para além do instinto sexual. de criar.capaz de se autoinduzir essa plenitude. que ele bem entender.

“Quais são as características que valorizamos? Por que nos incomodamos com aquilo que os outros suscitam em nós? Que tipo de pessoas permitimos que nos influencie?” Autor desconhecido 181 .

construir. olhamos minuciosamente para nós mesmos e enxergamos um indivíduo completamente diferente daquele com o qual estamos acostumados. ampliando. são raras as interpretações que deixamos que nos influenciem. Essa nossa seleção rigorosa não é de todo boa. criando. nele estabelecemos a forma como enxergamos a pessoa com a qual interagimos. um personagem relacionado a um ser real. fazendo com que nos assustemos. obtemos uma imagem que irá determinar aquilo que outrem significa para nós. pois ele não é real. após o desenvolvimento do personagem. quando. nossa percepção captura alguns momentos da pessoa que queremos entender. O duplo é caracterizado como personagem. na melhor das hipóteses. representa um milésimo daquilo que a pessoa observada realmente é. eles vão se desenvolvendo. mas que. por nós. Esses personagens são absurdamente influentes dentro de nós. exata. vamos sendo influenciados por nossas próprias construções. e que. de criações constantes de duplos. são raros os duplos que permitimos se desenvolverem por completo. não é todo duplo que tem influência sobre nós. tomando o lugar de nossas interpretações anteriormente estruturadas. faz com que passemos a agir de modo diferente perante um acontecimento que sempre nos influenciou de uma forma específica. como resultado. violentamente. Qualquer acontecimento que nos lembre de um duplo que nos assusta — que não queremos para nós. por causa desse temor. ela nos priva de enxergarmos a vida sob os mais variados parâmetros e perspectivas. restringindo-nos a uma pequena gama de possibilidades que nos permitimos desenvolver. Felizmente. assim 182 . Tudo aquilo que não nos permitimos enxergar. Uma nova interpretação faz com que nos alteremos.Quem nos permitimos ser? Para cada pessoa que conhecemos criamos um duplo em nossa mente. elaborar. esses poucos momentos são interpretados. e. dessa maneira. é reprimido. Nesse contexto. até que nos transformam por completo. não nos permitimos desenvolvê-lo — irá causar pavor. mas muito pelo contrário. tomando como base nossas próprias concepções.

na realidade. e que queremos para nós. que é rara. O preconceito exagerado e despudorado é uma das atitudes extremas dessa nossa maneira de defendermos aquilo que queremos ser. ou. que desejamos que nos influenciem. até mesmo. 183 . permitimos que uma interpretação alternativa se desenvolva dentro de nós. O maior desejo de uma pessoa preconceituosa é o desaparecimento de tudo aquilo que incite o personagem latente (que ele tanto despreza) presente dentro do indivíduo. No extremo oposto ao desprezo e ao preconceito. podemos nos questionar: quem são as pessoas que permitimos nos influenciar? O que enxergamos e o que valorizamos nelas? Essas perguntas complicadas são imprescindíveis para entendermos aquilo que valorizamos. a negação violenta é. e que estão presentes dentro de nós. somos nós que determinamos os nossos duplos. mas que assusta. um medo incontrolável perante aquilo que se pode ser.como evidenciará uma necessidade incontrolável de nos afastarmos. É sob essa condição que determinamos as pessoas que almejamos ter por perto. vamos eliminando nossos mecanismos de proteção e. aquilo que valorizamos nos personagens nada mais é do que aquilo que desde sempre valorizamos e queremos ter para nós mesmos. até que ela adquira proporções absurdas. eliminando aquilo que costumávamos ser. Perante essa construção que nos satisfaz. eliminar aquilo que incita o aparecimento das características que desprezamos. aquilo que queremos ser. Referente a essa permissão e alteração profunda. cada vez mais. encontramos a valorização absurda daquilo que incita um duplo que admiramos em demasia. utilizando um indivíduo real apenas como referência. um ato desesperado. afinal — como dito no início do texto —.

um aumento da potência. o objeto que tanto estimamos apenas pode nos influenciar quando se encontra à distância. A partir do momento em que conseguimos entender e perscrutar pormenorizadamente o objeto que tanto estimamos. sendo a obtenção dessa algo um acontecimento aterrorizante. para que não paremos. que nossos ideais são completamente absurdos e nunca nos levam a nada. podemos nos considerar como sendo perseguidores de ideais. o nosso humor. que refutam tudo aquilo que havíamos imaginado que aquele objeto poderia nos proporcionar. uma redução da potência. vamos percebendo o quanto nossa alma apenas almeja desejar. não suscitando nada de especial. podemos nos considerar como ciclistas. desesperador. para ser mais exato. Nesses casos. a vida começa a se assemelhar a um sonho. irrelevantes. Entretanto. No entanto. às vezes nos deparamos com algum elemento que ultrapassa a nossa indiferença e frieza perante as coisas e parece nos atingir violentamente. esse simplesmente é desconstruído. passa a influenciar diretamente o nosso estado de espírito. cada separação forçada. mesmo com a nossa necessidade intrínseca de movimento. 184 . Esse objeto. de nos influenciar de forma intensa. a um acontecimento distante e sem relação conosco. perde-se em meio a uma definição embasada em proporções realistas. ser direcionada a algo. Cada vez que esse elemento se afasta. onde nada mais tem a capacidade de se tornar um ideal. nos fará cair. em direção a algo. Mas. Então. em nós. de ideais. adquirindo um poder descomunal sobre nós. de desconstrução intelectual profunda. que se torna um elemento de suma importância. às vezes algumas pessoas obtêm um nível intelectual que não as permitem se desvencilhar da dolorosa constatação de que a vida é totalmente inútil.O amor e a mente As coisas à nossa volta parecem ser inertes. que precisam estar em movimento. faz-nos sentir uma tristeza profunda. quando permanece intocável e inverificável. assim como cada aproximação do objeto é responsável por uma alegria reconfortante e satisfatória. atitude essa que muito provavelmente nos fará perder o equilíbrio. Após a nossa desilusão inicial. ou diferente.

Esse aspecto raro e perigoso. A capacidade de amar desses seres raros faz com que eles obtenham uma condição parcialmente exata da maneira como as coisas devem ser. Essa característica permite que esses indivíduos se sintam completamente seguros de si e de suas ideias e atitudes. nosso jeito de ser e de nos portarmos perante as coisas. o intelecto perde por completo a possibilidade de elaborar objetivos inconscientes. a todo custo. por não mais permitir a construção de qualquer tipo de ideal. essa característica. os seres intelectualmente desenvolvidos passam a desprezar as suas atitudes e esforços. a princípio. que atingiu essas condições psíquicas. incomoda sobre maneira. A vida e todos os seus aspectos passam a ser insuportáveis. Dotada de uma elaboração que se tornou completamente virtual e desprendida dos aspectos corporais. Esse cenário de admiração profunda por algo restringe as múltiplas possibilidades que constantemente estão competindo para influenciar nossas ações. por não mais suportar as condições que a vida lhe apresenta. No auge do desespero. precisas. a alma não mais consegue adotar parâmetros limitados. torna-se capaz de valorizar algo externo a ele de forma muito mais intensa do que o modo como valoriza a si próprio. mesmo sendo essas elaborações inconscientes e equivocadas. que para eles passam a ser considerados como sendo desnecessários. apenas incomoda. Após essa mudança drástica. o ser racional quer. que tenham relação apenas com o próprio indivíduo.Incrivelmente apáticos e desiludidos. é o responsável por causar a mais sensível e profunda das mudanças. torna-se capaz de amar. por não mais se suportar. a ausência de múltiplas possibilidades torna as ações muito mais potentes. Esse ser racional e evoluído. o indivíduo se torna capaz de formular sua alma tendo como base parâmetros que não possuem relação direta com o próprio indivíduo e seu corpo. cabendo apenas à analise consciente do indivíduo a tarefa de elaborar e se posicionar perante as coisas. de meta. e adquira uma definição mais refinada e evoluída para os aspectos referentes à sua alma. Durante essa paixão profunda dos seres evoluídos. fazendo com que o indivíduo perca sua capacidade primordial e primitiva de formular sua alma. torna a 185 . Cada novo acontecimento apenas entristece. fugir de si mesmo.

vida mais bem direcionada, mais precisa, mais fácil. A mente não mais se
depara com parâmetros múltiplos a serem desenvolvidos, analisados e
ponderados, aspecto esse que proporciona uma maior capacidade de
concentração e uma calma profunda à mente.
Entretanto, o ser de raciocínio evoluído acaba por desconstruir o objeto
que tanto o encantou, que lhe direcionou e que proporcionou tanta satisfação.
Ainda possuindo sua estrutura apaixonada e bem direcionada, o indivíduo raro
vai desconstruindo o objeto amado. Em sua mente bem direcionada e que não
mais possui parâmetros múltiplos e concorrentes, que incitam avaliações e
proposições imensuráveis, a desconstrução permite que o indivíduo se depare
com o nirvana, com a ausência da alma.
A sensação de êxtase absoluto, de satisfação absoluta, do fim da
vontade, da potência máxima, nunca dura muito tempo. A mente se propõe, de
imediato, nesses casos, a reconstruir a alma, a posicionar-se perante o
espírito.
O retorno dessa experiência rara é sempre transformador. Após
conhecer a necessidade mais profunda e primordial do intelecto, da nossa
existência, o indivíduo adquiri uma informação que irá fazer com que ele altere,
por completo, a forma de analisar e de se posicionar perante as coisas.

186

Muita imaginação = Grande problema
Em se tratando de imagem, de acordo com Sartre, podemos defini-la
como sendo uma representação; essa representação tem referência a objetos
externos, ou a elementos criados, e pode ser considerada como sendo o
conteúdo de nossas sensações sensoriais (percepção). Nesse contexto,
podemos considerar nossas imagens como sendo puramente virtuais, tendo
como conexão aos objetos materiais apenas perspectivas capciosas e muito
limitadas, que serão responsáveis por fornecer características facilmente
identificáveis, que, por assimilação, incitarão o surgimento das imagens que
tais parâmetros representam em nossas mentes.
Essa definição primordial da imagem possibilita o surgimento de duas
interpretações discrepantes, sendo a primeira mais materialista — relacionando
nossas imagens a sensações físicas, designando as imagens como sendo
derivadas de sensações (como, por exemplo, o surgimento de memórias
antigas através de excitamento de determinadas regiões do cérebro) — e a
segunda mais intelectual — relacionando nossas sensações a imagens, que
podem surgir espontaneamente em nossas mentes, incitando sensações e
ações (tive um pensamento triste; em meio ao cenário obscuro, que se formou
na minha mente, senti-me indisposto). Sartre, sendo ele um autor que muito
admiro, deixa clara sua preferência pela interpretação mais intelectual das
imagens, em detrimento de uma interpretação materialista.
Ao mesmo tempo em que explicitamos o caminho que foi escolhido por
Sartre, tomamos conhecimento da perspectiva conceitual de vazio que o
mesmo adota, sendo ela explicitada em algumas frases célebres: “Se
investigarmos todos os nossos conceitos profundamente, acabaremos por
percebê-los como sendo construídos sobre o nada.” “Nossos conceitos não
existem, desde sempre, dentro de nós, eles são formulados ao longo do
tempo.” Essa perspectiva faz com que encaremos a vida como sendo vazia,
sem significado ou conceitos pré-estabelecidos, cabendo a nós definirmos a
forma como interpretamos as coisas.

187

Essa perspectiva libertária, que deposita um enorme peso sobre as
pessoas, ao entregar-lhes a difícil tarefa de determinarem tudo à sua volta,
pode ser rapidamente contestada. Desde sempre, somos direcionados a
enxergar nossas sensações, coisas e acontecimentos de uma forma
sistematizada e em comum; essa imposição, de ordem social, direciona nossas
perspectivas, fornecendo elementos específicos de assimilação, que irão
representar imagens específicas.
Essas definições, do funcionamento da nossa mente, se restringem ao
nosso inconsciente, a uma localidade até certo ponto inacessível da nossa
mente. Desse modo, podemos dizer que nosso saber, nossos direcionamentos
e interpretações, foram construídos antes mesmo que pudéssemos analisa-los
conscientemente. A inserção da consciência, na estruturação do intelecto,
complica ainda mais as já complexas explicações; a consciência permanece
como sendo um mistério, no entanto, podemos arriscar uma definição;
podemos apresentar essa entidade como sendo um modelo, um esquema, que
de posse de conceitos — símbolos, palavras, modelos matemáticos — busca
determinar,

mensurar,

com

precisão,

nossas

imagens

profundas

e

inconscientes. Essa nossa tentativa de definição do inconsciente é, segundo
Sartre, sempre limitada, não avançando mais do que a simples definição de
algumas imagens, e, mesmo tais definições diminutas, não podem ser
consideradas como sendo absolutamente corretas, atributos esses que
evidenciam uma grande distância entre nossas estruturações conscientes e
nosso inconsciente. Ao mesmo tempo, podemos salientar a forma capciosa
como enxergamos as coisas, mesmo inconscientemente, aspecto esse que
evidencia a grande distância entre nosso saber profundo, nossos conceitos
inconscientes, e a realidade.
Essa dupla distância é suficiente para que não mais nos sintamos
satisfeitos com aquilo que pensamos conhecer, e nos impulsiona rumo a uma
jornada complexa, rumo a testes incansáveis, rumo à adoração da matemática
e da linguagem, que têm por intuito questionarem todas as nossas crenças e
conceitos, ao mesmo tempo que os testam através das mais variadas
experiências.

188

Logo no princípio, percebemos ser a reestruturação de nossos conceitos
uma tarefa muito difícil, capaz de pulverizar todas as nossas ilusões
entorpecedoras e fazer com que nos sintamos menores e mais impotentes do
que nunca, imagem essa que traz, sempre, o desespero mais insuportável.
Após essa sensação, a valorização de ilusões pode passar a ser
imprescindível, fazendo com que o antigo explorados destemido estrutures
todos os seus conceitos em função da manutenção de ideais que afugentam
uma dor profundamente desesperadora.
Esse acontecimento, capaz, por si só, de fazer com que muitos deixem
de se aventurar através de suas mentes e conceitos, é, em todo caso, raro e
pode ocorrer apenas em pessoas dotadas de uma consciência um tanto
desenvolvida.

Para ser mais preciso, é necessário salientarmos o quanto

nossos esquemas estão distantes, muitas vezes, dos nossos conceitos
profundos; essa característica se dá pelo fato de que nossas imagens são
vastas, englobando muitos elementos, que nossa consciência — vamos
chamar de imaginação — não é capaz de reproduzir com precisão. No entanto,
em algumas pessoas dotadas de uma capacidade intelectual ímpar, nesse
caso sendo ela uma imaginação muito potente, esses conceitos profundos
podem ser mensurados com precisão, podem ser “traduzidos” “trazidos à tona”,
vivenciados — como determinamos as coisas como sendo imagens em nossa
mente, definimos, dessa forma, uma característica virtual para os nossos
pensamentos, para aquilo que acreditamos ser a realidade, atributo esse que
torna aquilo que imaginamos ser, também, uma realidade, podendo essa
característica ser classificada como uma realidade induzida —, e aí, meu
amigo, só tenho uma coisa a dizer: Deu ruim!
Imagine você, com um ideal, que te motiva e te direciona através da
vida, fazendo com que possua uma perspectiva bem definida, que lhe fornece
impressões precisas, nada ambíguas ou múltiplas, somente precisas e diretas.
A perca de tal ideal assusta, mas a maioria das pessoas podem se sentir
tranquilas com relação a isso. Aquilo que pensamos ser a realidade não passa
de pensamentos; assim, a mentalidade comum não possui imaginação
suficiente para reproduzir com precisão tais ideais, para realmente vivenciá-los.
Como camundongos correndo em uma roda sem fim, essas pessoas
189

perseguem seus ideais, sem nunca serem capazes de vivenciá-los. Nas
pessoas cheias de imaginação, essa característica está ausente; a imaginação
delas constantemente lhes fornece seus ideais, apresenta a verdadeira
proporção dos ideais e os destrói, dilacera, constantemente o norte, fazendo
com que o indivíduo recorrentemente se depare com um mundo sem
ordenação pré-estabelecida, cheio de possibilidades. Essas construções e
demolições constantes fazem com que os seres cheios de imaginação sejam
possuidores de múltiplas perspectivas sobre as coisas e acontecimentos.
Nesse contexto, os acontecimentos poderão ser interpretados de
diferentes formas, simultaneamente. Imagine-se em meio a um acontecimento
que gera prazer, dor e indiferença, ao mesmo tempo; “É...Você está certo, deu
ruim!”
Em um mundo que passou a ter múltiplas possibilidades, cada escolha,
cada direcionamento, terá um sabor insuportável. Em nossas mentes, onde
tudo está sendo desenvolvido a todo o momento, sem que percebamos tais
desenvolvimentos, nossas impressões e possibilidades vão sendo definidas;
em um mundo imaginário inconsciente, distante da realidade e suas restrições,
adquirimos interpretações exageradas e impossíveis para

as nossas

impressões. Dessa forma, uma mente múltipla será sempre atormentada pela
realidade insossa de suas escolhas, que sempre estarão absolutamente
distantes das expectativas inconscientes.
Nesse contexto, em meio a um ininterrupto paradoxo da escolha,
qualquer decisão irá causar dor, atributo esse que transformará em lei a apatia.
Essas características, por mais banais que pareçam ser, estão presentes, a
princípio, de uma forma imperceptível, muito distantes de qualquer identificação
consciente. Ao mesmo tempo que a ausência de consciência sobre o problema
impede que o mesmo seja sanado, o indivíduo se vê constantemente
desesperado, perante interpretações discrepantes, que, por serem vastas e
variadas, muitas vezes ainda não adquiriram mecanismos de proteção, o que
faz com que algumas perspectivas sejam desenvolvidas, sem qualquer tipo de
interrupção. O aparecimento do cenário mais satisfatório ou o aparecimento do
cenário mais tenebroso, não importa, as duas possibilidades são simplesmente

190

exaustivas, desesperadoras. Só aqueles que convivem com tais extremos
sabem o quanto eles devem ser reduzidos pelo nosso intelecto, a qualquer
custo.
Tais reduções, presentes nas mentes mais saudáveis e bem
direcionadas, afugentam alegrias e dores extremas, fazendo com que o
indivíduo nunca vivencie tais sensações, que, por mais que sejam afugentadas,
podem surgir. Nessas mentes inexploradas, situações extremas nunca são
imaginadas, nem mesmo são desenvolvidas inconscientemente, sendo, desde
sempre, abandonadas, em uma debandada instantânea, ao menor princípio de
surgimento. Tal atributo, faz com que essas possibilidades contenham as
expectativas

mais

exageradamente

absurdas,

que

pela

falta

de

desenvolvimento, pela fuga constante, permanecem como possibilidades
atormentadoras. Essas pessoas podem, na vida real, se depararem com essas
possibilidades dolorosas e obscuras; sem terem desenvolvido possíveis
consequências e desenvolvimentos dessas situações, essas pessoas acabam
por encararem, despreparadas, impressões atormentadoras, que farão com
que o indivíduo se sinta desesperado e impossibilitado de agir coerentemente
nesses cenários.
Uma pessoa corajosa é aquela que se permite desenvolver as situações
mais amedrontadoras, que explora pormenorizadamente as possibilidades e
consequências nesses cenários; essa atividade dolorosa não é em vão, no
momento extremo, enquanto muitos estão amedrontados e paralisados, essas
pessoas previamente destemidas poderão continuar a agir friamente,
mantendo-se serenas em meio a ameaças extremas ou inabaláveis em meio a
execução de atrocidades.

191

“Por causa da minha sensibilidade exacerbada eu perdi a vida.”
Arthur Rimbaud

192

Sobre a sensibilidade
“Desde pequeno eu sabia que não era igual às pessoas com as quais
convivia; distante dos discursos vazios e dos olhares limitados, eu sentia
alguma merda acontecendo dentro de mim.” A expressão de Bukowski é
impactante e evidencia toda a sua discrepância, quando comparado às
pessoas ditas “normais”, que pode ser observada em todos os seus escritos.
Nesse contexto de constituições raras e inteligências muito acima da
média, temos registradas, felizmente, as percepções daqueles que são
considerados “anormais”, “esquisitos”. Ideias complexas e interpretações
inovadoras estão documentadas em obras de arte, que, por evidenciarem
conceitos que se aproximam da realidade ou, até mesmo, do ideal, se tornam
imortais. Os indivíduos sensíveis enxergam mais e melhor — isso é fato —;
entretanto, é preciso que questionemos o que permite a certas pessoas
enxergarem e sentirem mais, é preciso que desvendemos os motivos que
fazem com que esses indivíduos sejam considerados fenômenos incrivelmente
incomuns.
Primeiramente, a raridade dos seres sensíveis se dá por conta da
mentalidade que é preciso ser mantida para permitir a existência de uma
percepção abrangente e de insights inovadores. Dotados de uma constituição
sem ideais ou parâmetros pré-estabelecidos, os seres sensíveis se tornam
capazes de desenvolver as mais variadas interpretações para aquilo que
observam, que sentem; sem ideais ou objetivos, a percepção dos incomuns
não é restringida, não é direcionada, permitindo-lhes enxergar qualquer coisa,
possibilitando a construção de qualquer tipo de conceito.
A ausência de ideais os permitem enxergar demais, e esse enxergar
demais os tornam empatas, faz com que se desprezem e suprimam a
valorização do ego, de si próprio, perante a imensidão de possibilidades e a
presença de parâmetros muito mais relevantes do que si mesmos.

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onde precisamos de toda a nossa fé. e a ausência do ego. pobre alma. O demônio! Ele é um demônio. alguns seres sensíveis nos descreveram seus dias no inferno: “Enquanto espero pelas minhas realizações covardes. A infinidade de possibilidades é acompanhada da impossibilidade desses seres se posicionarem. tive que fazer isso. não é humano. mais do 194 . apáticos. Constantemente ele se enfurecia comigo. à noite. escrevo para vocês. comigo.” “Nenhuma outra alma teria força suficiente para suportar o desespero. e ao sol e sempre.” “Farto de ver. Perdidos nas profundezas da existência. a verdadeira vida está ausente.” “Tortura insuportável. de poderes super-humanos. O ruído das cidades. que valorizam uma escrita com falta de descrição e gramática. mostro algumas páginas do meu hediondo diário de uma alma condenada. A alma dele era como um palácio. Farto de ouvir. entre os homens! —.As múltiplas possibilidades que são desenvolvidas pelos seres sensíveis. vazia a ponto de não ser possível encontrar um ego. o amaldiçoado — e o sábio supremo. Que vida! Nós não estávamos nesse mundo. porque perscrutamos o desconhecido! Porque cultivamos nossa alma. As paradas da vida — Ó ruídos e visões! Partir para afetos e rumores novos. A visão que se reencontra em toda parte. Farto de saber. que nos permite ser o mais paciente. eles se tornam indiferentes a todas as possibilidades e absurdamente agoniados por causa dessa característica. desde sempre rica. Eu o segui. perante algum acontecimento. de forma exata. faz com que eles se deparem com o fim dos sentimentos. o grande criminoso. por serem sensíveis demais os seres incomuns se tornam indiferentes. Esqueci minhas tarefas humanas e o segui. Deparados com parâmetros e incertezas sem fim.” “Sua sensibilidade misteriosa me seduziu.

Qual numa furna cuja boca jaz selada. ela continuará viva em nossas obras. propagando as sensações inalteráveis e inomináveis. iniciando seus trabalhos de onde outros. ainda encontramos falastrões ridículos. e há muito não sei mais como rezar. querendo pregar sobre a sensibilidade. Quando ia ao campo sem saber nem sequer quem era. Imundo. egoístas e ignorantes. Sem distinguir entre o verão e a primavera. O caos se lhe instalou então na inteligência. castigo do orgulhoso. ocioso e feio como coisa usada. terminamos perdendo a sabedoria de nossas visões. permaneço em silêncio. antes deles. Olhando seus rostos imaculados. e os imaginando como personagens do poema. ouvindo calado a suas falácias sem sentido. A flama deste sol de negro se tingiu.que os outros! Alcançamos o desconhecido.” “Estou em um abismo profundo.” 195 . escrito por Baudelaire: “Sua razão de pronto a pó se reduziu. Sob cujos tetos tanto fausto resplendia E nele floresceram a noite e a agonia. semelhante aos animais de estrada. Fazia riso e a diversão da meninada. Templo antes vivo. que nunca presenciaram o abismo da nossa existência. falharam. loucos. Desde então. e quando. para que outros trabalhadores destemidos as utilizem.” Mesmo perante todos os perigos de uma constituição sensível. Por experiência própria posso dizer que aqueles que fazem discursos fervorosos sobre os sentimentos são os indivíduos mais insensíveis. pleno de ordem e opulência.

196 .

197 . que visam. metas.. sucumbindo a um novo arranjo que nos mostra o quanto aquilo em que acreditávamos era incoerente. constantemente nos sentimos irremediavelmente desesperados. inquestionável e irrefutável. podemos adquirir uma perspectiva completamente nova. ou quando olhamos desatentamente para algo previamente bem elaborado na nossa mente — analisando-o sob novas perspectivas e designando novas possibilidades àquilo que antes era exato e único –. e nos ajudavam a possuir uma perspectiva exata sobre as coisas. não impede que nossa imaginação crie os cenários mais deploráveis. alterando nossos desejos. irreal. sendo mais específico: alterando-nos por completo. impedir que nos deparemos com tais momentos obscuros e dolorosos. resoluções violentas. insuportavelmente assustadores — que percebemos o quanto são indispensáveis nossas ilusões e interpretações capciosas. fazendo com que desconstruamos aquilo que anteriormente era considerado como sendo exato. falha e mal estruturada. Sempre iremos nos sentir atormentados quando os parâmetros que nos guiavam... e. quando não estamos devidamente protegidos. a todo custo. simplesmente são pulverizados. comportamento. obrigando-nos a alterar nossa estrutura particular e subjetiva.. consequentemente. reações. aspecto esse que incita atitudes intensas. Durante os períodos de mudança. A mudança é sempre dolorosa e exige demais de nós. que nos mostra aspectos muito mais coerentes do que nossas crenças anteriores.E dizem que ser inteligente é ser capaz de memorizar alguns conceitos. preferências. obrigando-nos a adquirir uma nova interpretação para as coisas. apenas nos momentos mais sombrios e desesperadores — onde uma nova concepção. Entretanto. É somente nesses períodos de mudança que percebemos o quanto nossos mecanismos de proteção são importantes. onde uma alteração conceitual faz com que passemos a observar as coisas de uma forma completamente diferente — fazendo com que o mundo adquira nuances nunca antes imaginadas por nós —.

aquilo que nos guiava seja destruído. desse modo. incitando. um momento de salvação perante o desespero sem fim de um mundo desconexo. e incessantemente. daquilo que percebemos. mesmo essa única solução pode gerar ainda mais dor. torna-se evidente o quanto eram incoerentes e insuficientes as relações que nos pareciam inquestionáveis. Após um breve momento. antes tão exato. a mente. Um arranjo. ridículo. Mas. Ao se propor a executar a única solução satisfatória. mas nossa consciência não nos permite isso. o desejo de que a dor dilacerante se encerre com o suicídio. sendo. que. desconstruído. através de aspectos discrepantes. a única saída possível para o desespero sem fim. relação com parâmetros bem definidos. provido por nossa imaginação. vagam profundamente. não mais proporcionando associações descontroladas e exageradas... Concomitantemente com a perda de nossas estruturas exatas. Essa alternativa é intrínseca a uma mentalidade exímia em desconstruir. cada hora de sono é vista como sendo um alívio abrangente. Despidas do exagero. muitas vezes. sendo. mais potentes. cada acontecimento passa a ter. os parâmetros bem estruturados durante o sono são novamente questionados através de novas perspectivas. uma correlação irrefutável. bem delimitados. Ao acordar. volta a possuir múltiplas interpretações. nossos pensamentos e conceitos estão bem estruturados e definidos. novamente. fazendo com que. Essa serenidade reconfortante faz com que nos sintamos mais satisfeitos. somos acometidos por pensamentos assustadores. Os cenários com os quais nos deparamos. na ausência de estruturas exatas e mecanismos de proteção. que foram analisados pela nossa imaginação. que desenvolve cenários e consequências em lugares situados muito além do nosso controle e 198 .Em meio aos destroços de uma mentalidade anteriormente bem definida. tudo aquilo que nos motivava e dava sentido torna-se insosso. Ao mesmo tempo que percebemos isso. nosso desejo mais profundo seria a manutenção de tal estado. notamos o quanto nosso inconsciente se esforça para estabelecer uma estrutura exata. novamente. parecem ser milhões de vezes mais dolorosos do que a morte. pela nossa mente. Durante os primeiros dias de desconstrução.

qualquer tipo de conceito ou questionamento que destrua suas crenças. que considerar como uma válvula de escape. Isso. Todo esse conflito interno. seus conteúdos bem definidos que as direcionam durante a vida. 199 . toda essa dor. não é de se espantar que as pessoas afugentem. com todas as suas forças. incita todo tipo possível solução que promete amenizar e afugentar aquilo que nos atormenta.consciência. Após essa breve análise sobre a desconstrução de nossos ideais. elabora consequências para esse ato que nos deparemos com cenários mais dolorosos e desesperadores do que aqueles que nos incomodavam anteriormente. não sendo essa. geralmente é direcionado para a sexualidade. necessariamente. a única alternativa para que façamos com que o cenário em nossa mente se torne menos assustador.

se esfaqueia e corre até uma pessoa inocente que está no mesmo local onde se encontra a sua alucinação — No amor esse louco é considerado como sendo normal!” Quando amamos nos apaixonamos por uma alucinação. satisfatória. por incrível que pareça. podemos analisar as afirmações de Schopenhauer sobre o amor. na melhor das hipóteses. Buscando uma explicação mais profunda com relação a esse estado de espírito tão especial e revigorante. que antes incomodavam muito. que está em desarranjo. nada além do que reprodução e sexualidade. não foi um empecilho que impediu a determinação de conceitos e condutas. que se mostra ineficiente (em muitos aspectos) e inverificável. Mesmo nos apaixonando por uma alucinação. que se alterou de dentro para fora. Nessa concepção o amor não seria nada além do que eros. tudo passa a conter beleza e ser harmonioso. que o classifica como uma artimanha da natureza. apesar do egoísmo e da individualidade excessiva de cada uma. classificação essa que é adorada pelos psicanalistas. incitados por essas sensações incomuns. sendo ela. por um personagem que imaginamos e que. agora possuem uma nova interpretação. possui um doze avos daquela pessoa que serve como base para a nossa figura imaginada. os dias são mais excitantes. imputando 200 . que não são capazes de explicar muitas de nossas sensações e experiências. o que faz com que os parâmetros se baseiem em afirmações capciosas e inverificáveis. as situações. o passar do tempo nos mostrou as limitações das teorias psicanalíticas. e não conseguem estabelecer interpretações mais abrangentes e sensíveis. podendo caracterizá-lo como um estado de espírito que beira uma existência completamente preenchida e satisfeita. sentimos um mundo de sensações indescritíveis. essa metodologia de análise. No entanto. enxergamos um mundo transmutado.Precisamos de ideias para suportarmos a vida “O amor é supervalorizado! O homem louco. que tem por objetivo unir duas pessoas. com o intuito de que a espécie se propague e continue a existir.

que se sente muito mais feliz em meio ao seu mundo imaginário. uma lembrança. tudo em prol da conservação e da satisfação do indivíduo. um amuleto. e nunca como um conceito inquestionável. Nesse caso. mas. negligenciados. sendo propagados e popularizados como dogmas inquestionáveis. entorpecendo por completo sua vida. essa renovação acorre em detrimento do mundo real. em um mundo criado pela mente. dessa maneira eliminando as insatisfações que a incomodam. pode assustar a qualquer um. sendo esse objeto um animal de estimação. dos acontecimentos externos. Dentro desse mundo irreal a pessoa recupera suas forças e o ânimo de viver. sente-se como que distraída e esquece seus aborrecimentos e frustrações. sendo necessária uma ilha imóvel. Essa pessoa que cria um objeto amado. uma lembrança imóvel.valores e comportamentos. Essa característica extremamente volátil e mutável. e ainda mantendo uma classificação metafísica sobre o assunto. é possível estabelecermos uma nova visão para o tema.. uma bela imagem fixa. que elimine o fardo. ao mesmo tempo. que é extremamente polêmico e controverso. que se encontram em tal estado de desespero e insatisfação que necessitam de uma ilusão satisfatória. a volatilidade e a incerteza que é a vida. que atualmente são considerados como verdades absolutas. etc. Partindo da análise do amor por parte de alguém que é mais sensível. Para começar a nossa nova classificação nos concentraremos naquelas pessoas solitárias e desiludidas com a vida. o que faz com que caracterizemos qualquer nova interpretação apenas com a estirpe de uma condição plausível. praticamente se retirando dela e vivendo em uma ilusão. Essa é a religião da nova era. uma paisagem. que passam a ser praticamente ignorados. mesmo ele não sendo coerente e condizente com a realidade. mergulhando em uma alucinação criada pela sua mente. que suscite sentimentos poderosos e 201 . que dizem elucidar os acontecimentos da vida e as profundezas da existência. que é inerente à nossa existência. o amor se mostra como a artimanha dos desiludidos. que não suportam mais a vida e precisam de um estimulo poderoso que os mantenham vivos e os impeçam de se frustrar com o fluxo incerto e ininterrupto que é a vida.

mas sendo essa manutenção algo totalmente diferente do que foi anteriormente proposto por Schopenhauer (que preconizava a manutenção da espécie através da reprodução). a busca por uma condição estável. por esportes. por lembranças. parece. Essa explicação. presente em nós. a todo o momento. fazendo com que nos sintamos felizes. por ideias. segura. etc. força e conforto. que transforma o mundo por completo. referente ao amor. Parece que é um desejo poderoso. e. dessa maneira. plausível. seres humanos. 202 . tornando a vida suportável. o amor por animais de estimação. assim renovando as nossas esperanças com relação a todas as coisas. pelo menos para mim.. Segundo essa nova concepção poderíamos justificar o amor entre pessoas do mesmo sexo. anestésicos que possam facilitar a existência. e nós procuramos. mesmo essa condição não sendo condizente com a realidade.que nos permita suportar a existência. impedindo-nos de sucumbir ao desespero e à aniquilação da existência. A existência em meio a realidade ainda é um fardo demasiado pesado. o amor continuaria sendo um sentimento que tem relação com a manutenção da espécie. satisfeitos e completos. De acordo com essa nova hipótese. Um sentimento intensamente potente. por determinados objetos. proporcionandonos satisfação.

um gosto de quero mais. era ela! Inconsequentemente tento alcançar. com as raras pessoas que faziam o meu coração vibrar. um ideal consegui encontrar. e que me guia. resgatando memórias e revivendo as situações mais variadas. refiz passeios maravilhosos e conversei. tudo. o ritmo acelerado das relações cotidianas e mergulhei em mim mesmo. o retorno dessas recordações é sempre frustrante. o retorno dessas recordações é sempre frustrante. a satisfação. toda vez. uma vontade de retornar. tentando reencontrar as memórias que tanto me encantam. Após minhas memórias investigar. uma vontade de retornar. que em nossa imaginação desenfreada adquiriram a proporção de parâmetros absolutos que prometem trazer toda a felicidade. aquilo que percebi a mim guiar. de realmente reviver os momentos que nos marcaram. por um tempo. decidi identificar tudo que é realmente importante para mim. almejando reencontrar situações antigas. deixa. Nós corremos afoitamente pela vida. novamente. Reencontrei antigos amigos. um gosto de quero mais. saio por aí. de sermos felizes. de alterar algumas partes.Recordação “Olhei nostálgico ao meu redor. a paz. faziam a vida se tornar bela e cheia de significado. Abandonei. Olhei nostálgico ao meu redor. Sedento por sentir a magia que se esconde nas profundezas da minha mente. deixa. de realmente reviver os momentos que nos marcaram. que há muito não vejo mais. toda vez. É você! Agora sou capaz de identificar. 203 .” Parei para pensar esses dias. assim como em nossas lembranças gloriosas.

que é você tudo o que eu quero ser. Consegui só agora perceber. Infelizmente. mais fortes e felizes do que nunca. mas não entes de uma promessa fazer: Serei seu confidente mais fiel. e sentimentos compartilhados. sem seu olhar que fascina. é o sentido da vida. Temo nunca mais te encontrar. que quero ter. que ilumina mais do que o sol.Lamento não ter enxergado antes aquilo que a vida acelerada em mim fez ocultar. seu amigo. Em nossas vidas. mas isso coerência não consigo encontrar. que descobri aquela que estimo. aquilo que você é. Nos seus braços quero repousar. aquela que me fará absolutamente feliz. adormecer. 204 . seu companheiro. e que faz sonhar mais do que o luar. Intragável é a vida sem sua luz que ilumina. e para mim só aparece em sonhos. longe de você estou. Olhar ávido. nos tornaremos um. é a resposta para tudo. Estimo tudo aquilo que representa para mim. Entendo que talvez a distância tenha me feito exagerar.Nefasta é a realidade sem você. Sua lembrança faz meu coração vibrar de forma incomum. retira-me da mediocridade e me transporta para um local de belezas imensuráveis e inomináveis. ou te ver com outro alguém. Nós. agora que conheço o meu ideal. Conjuntamente imponentes. encarando nossas inseguranças de frente.

desse modo adquirindo uma concepção exata. com isso fazendo com ele se sinta mais potente. que agrada sobremaneira a mente. nem mesmo é único e insubstituível. quando não explorado de maneira consciente.“Mantenha o seu semblante misterioso e cale a boca. e passando a possuir uma constituição psicológica que aproxime o indivíduo da realização da necessidade profunda da vida. para que eu consiga idealizar-te. assim como todas as coisas que existem. mais satisfeito. O amor nasce. É preciso que o indivíduo idealize o objeto. passando a desejar sua obtenção de maneira absurda. Para que o amor ocorra é preciso o tempo certo. esse objeto é 205 . não passa despercebido pela mente do apaixonado. as circunstâncias certas. O objeto que proporciona isso ao indivíduo.” Autor desconhecido Para além do misticismo que envolve o amor O amor é algo que simplesmente acontece. não possui relação com nenhum misticismo infundado — que as pessoas tanto gostam de designar para ele —. morre e se renova.

que é gerada por um conceito absurdo. Podemos associar uma pessoa a alguma memória satisfatória. sendo o motivo dessa disfunção corporal o acionamento da memória onde o objeto é capaz de suprir todas as necessidades existenciais. nesse caso a idealização é mais demorada. passando a valorizá-la. aquele que valoriza essas impressões inconscientes em demasia está fadado a fazer julgamentos muitas vezes equivocados e embasados em parâmetros anteriores. Essa emoção exagerada. a construção desses cenários que são profundamente influentes sobre nós. irão impedir que a mente crie obstáculos para a profunda valorização e do direcionamento das forças do indivíduo rumo ao objeto. capaz de incitar as emoções mais exageradas no indivíduo. cada aparição que lembre. e permanece na mente como uma lembrança absurdamente irracional. talvez essa seja a maneira como um afeto instantâneo ocorre. Independentemente de ser objeto amado ou não. interpretação essa que é desenvolvida longe de qualquer tipo de controle que podemos exercer sobre a mente. O objeto pode se tornar um arquétipo poderoso que foi desenvolvido a partir do próprio objeto. ou apresentando-se como algo que possui a capacidade de destruir a vida por completo. 206 . O amor à primeira vista. quando o mundo externo nos oferece parâmetros que incitem. qualquer lembrança tem potencial para ser desenvolvida de maneira exagerada pelo inconsciente. se atendidos satisfatoriamente. fazendo com que o indivíduo se sinta extasiado perante o possível redentor da vida. revela-nos seus verdadeiros e profundos referenciais. de alguma forma. é derivada de uma interpretação errônea por parte do intelecto. apresentando-se como algo que possui a capacidade de potencializar a vida em parâmetros inimagináveis.desenvolvido estritamente de uma forma inconsciente e longe de qualquer definição sensata. quando investigado pormenorizadamente. que não são capazes de traduzir com exatidão as situações atuais com as quais ele se depara. de alguma forma. tudo muito dual e sem meios termos. o que caracteriza uma forma profunda de definir o mundo e suas situações. tomando proporções absurdas. incita os sentimentos mais intensos. que. chamando-nos a atenção quando a percebemos de alguma forma. e necessita da satisfação de uma série de fatores. o objeto amado.

o amor pode ocorrer várias vezes. Considerando todas essas probabilidades. Não devemos esquecer de que o amor não é estabelecido especificamente em relação a uma pessoa. Para tanto. eliminando qualquer possibilidade de um novo amor. o indivíduo deve ser dotado de uma memória ímpar. fica difícil definir o que influencia o que. e a teimosia do indivíduo em valorizar em demasia os primeiros sentimentos. A elucidação da maneira como ocorreram o armazenamento das memórias e a sua influência sobre nossa personalidade.Levando em consideração a explicação anterior. apenas assim ele é capaz de identificar com precisão a forma como sua mente estruturou seus conceitos. Cada acontecimento irá proporcionar uma interpretação particular. ele pode ter como objeto alguma coisa inanimada. dependendo apenas da relação que o objeto vai estabelecer com a psique do indivíduo. praticamente único e insubstituível é a carência de seres que possamos idealizar como capazes de suprir nossa necessidade mais profunda. sendo essa tarefa apenas mais complexa e exigindo uma dedicação incomum na busca da identificação dos cenários e dos elementos que as influenciam. pode ser a resposta que nos permitirá elucidar muitos aspectos da nossa vida. Entretanto. não sendo apenas a fisiologia e as memórias os elementos determinantes na construção do Eu. quando comparada entre as pessoas. que o permite identificar aspectos que o influenciaram desde a sua mais tenra idade. quando analisamos os diferentes gostos e opções sexuais que as pessoas possuem. algum animal ou até mesmo uma situação específica. irá gerar um conceito particular. 207 . mesmo pessoas sem uma memória impressionante são capazes de descobrir aquilo que as influencia. além disso. no estabelecimento do ideal do Eu. o ser humano difere de todos os outros seres vivos por ser capaz de definir aquilo que ele almeja vir a ser. por causa da comparação a um objeto antigo. não permitindo a possibilidade de que um novo objeto seja idealizado. A maneira como são interpretadas as experiências é extremamente particular e variável. Aquilo que torna um primeiro objeto amado. e consequentemente do objeto a ser valorizado. incluindo um novo elemento determinante da personalidade.

208 .

“E é assim vamos agindo no mundo externo. sendo influenciados pelas nossas carências e necessidades mais profundas.” Autor desconhecido 209 .

Nossas necessidades e motivos ocultos Quando uma necessidade adquire um conteúdo. relacionados à nossa necessidade profunda. não somos capazes de encontrar o que realmente nos influencia. encontramos os motivos que nos impulsionam profundamente. Algumas vezes. nesse caso. ou de um telefonema. sem que possamos encontrar uma atividade ou alguém que nos ajude a saná-los. solitários. por sorte. assim como somos ineficientes em entender aquilo que nossos sentimentos. contra mim?” Talvez sozinhos podemos ser capazes de invadir a humanidade. Mas. realmente significam. Mesmo tendo a possibilidade de executar as mais variadas tarefas e a oportunidade de conhecer milhares de pessoas. ou talvez possamos realizar tais feitos complexos apenas acompanhados. vemo-nos incapazes de compreender o modo como tais motivos estão relacionados conosco. por mais que tentemos compreender aquilo que está em desarranjo. relacionado a algo externo a nós. ou de uma ligação no Skype. mas. sem usá-los. que nos estimula e nos entristece. ou um chat. Isso ocorre não pela falta de oportunidades. mas. ainda assim nos sentimos atormentados. posteriormente. que muitas vezes nos atormentam incessantemente. será que existe uma conexão profunda entre pessoas apenas através contato físico. flutuam dolorosamente em nossas mentes. elas sempre 210 . em função de fatos e questionamentos muito bem conhecidos por nós: “Quem será capaz de entender aquilo que sinto?” “Existe alguém capaz de realmente compreender esse emaranhado desconexo e complexo dentro de mim?” “Será que posso encontrar ao menos uma pessoa que escute meus pensamentos mais profundos. acompanhado ao êxito de nossa descoberta importante. capaz de nos permitir sentir profunda e verdadeiramente conectados a uma outra pessoa? Independentemente da forma como ocorrem nossas interações. sem ninguém com quem sejamos capazes de compartilhar nossos pensamentos mais profundos. Esses questionamentos profundos. investigar nossos sentimentos. de forma receptiva. muito pelo contrário.

Essa sensação pode ocorrer para ambas as partes. nos primeiros momentos de nossas desilusões. essencial.no parque. não mais possui força suficiente ou nos faz sentir facilmente decepcionados quando tentamos pensar naquilo que sentíamos. nossas sensações podem se tornar apenas amarguradas. que nos impulsiona a tentar recuperar aquele sentimento.. mas..Ah.” “Talvez as pessoas mudem de um jeito mais abrupto e mais abrangente do que imaginamos.serão significativas quando a relação é naturalmente amigável. sentimos uma dor profunda. muitas vezes.” Muitas vezes. Dessa forma. alguém em quem podemos confiar. sem qualquer tipo de esforço. aquele foi um momento memorável. Todos os nossos pensamentos passam a ter relações com tal desconstrução. acho que não. deparamo-nos com o questionamento. no meio de junho. aquilo que era importante para nós simplesmente explode. o que não me permitiu enxergar a verdadeira proporção daquilo com o que interagia. Nesses casos raros. podemos nos perceber receosos perante questões recorrentes: “Como posso ter certeza do que sinto?” “Como posso saber o que é correto e o que é equivocado em relação à pessoa que me encanta?” “Como uma mesma pessoa é capaz de incitar a satisfação mais incrível e a dor mais desesperadora?” Às vezes.” Então. ao mesmo tempo. “Tem uma dor que existe apenas na nossa mente. talvez nós.. com a dúvida. A dor mais desesperadora na vida de alguém ocorre quando assistimos todo o nosso 211 . desse modo incitando novos pensamentos: “Quando a satisfação tornou-se nada além do que dor e nojo?” “Talvez eu tenha tido uma interpretação equivocada ou talvez tenha esperado demais de uma outra pessoa.. almejando a manutenção daquilo que está desaparecendo: “Ei. em relação àquilo que começa a se alojar profundamente em nós. podemos pensar que finalmente encontramos alguém que nos compreende. morre. conectados.naquele campo. uma nostalgia intensa. destruir os traços e aspectos que nos faziam sentir. fluindo facilmente. como se tudo não fosse nada além do que um sonho. podendo. com relação à pessoa que antes nos encantava.. de alguma forma misteriosa..

” Às vezes. nelas sentimos que cada momento e pensamento possuem um gosto 212 . Esse fascínio faz com que se torne difícil esquecer determinadas pessoas. ainda assim podemos sentir a presença de semelhanças profundas. em função de nossas tarefas mundanas e compromissos. sendo esses casos incrivelmente raros. que possuem uma sensibilidade exacerbada e nos convidam com tanta beleza. E você encontra. Aqueles. alguma coisa em nós exige uma mudança: “É tempo de mudar algo..” Essas empreitadas são sempre difíceis. também. ou quando. infelizmente. que alteram tudo. ou como. ou onde. que serão sempre satisfatórios quando aquilo que analisamos se aproxima dessas satisfações ocultas e essenciais para nós. um semblante que externa as mesmas questões e sentimentos que te incomodam. sendo esse um parâmetro importante quando desejamos descobrir o quanto uma pessoa significa para nós. Nesses momentos. essas relações acabam. Assim as pessoas passam pelas nossas vidas. por aí.mundo desmoronar e tudo o que podemos fazer é observar. desaparecendo. Mesmo quando essas pessoas utilizam palavras com as quais não nos relacionamos. o quanto ela nos influencia. Essas pessoas tocam e ficam alojadas no coração dos nossos pensamentos. que passam a existir somente na nossa memória. atônitos. alguém pode ser capaz de nos conhecer melhor do que nós mesmos.. Esses fenômenos raríssimos se alojam nas profundezas da nossa mente. assim como não podemos acreditar nos momentos mágicos que vivenciamos com elas. sentimos uma dor profunda. onde aquilo que nos encanta morreu. mas não sei muito bem o quê. de uma separação inevitável. que somos incapazes de acreditar na existência de dessas pessoas. Mas. passando a influenciar nossos julgamentos futuros. Mesmo nesses momentos. que imploram para serem desvendados. e novas chegam. algumas vezes passamos por mudanças. Entretanto. dizimando nossas belas construções... sem piscar.

e sabemos muito bem o motivo dessa sensação: perdemos o nosso centro. sentindo. causada por esses momentos. muitas questões emergem: “Uma nova fase?” “Eu tenho que passar por isso para amadurecer?” “Eu deixo muitas coisas para trás e esse é o motivo pelo qual passo por fases de reestruturação.insípido. para que. restando-nos apenas arriscar. dormimos menos. Após essa constatação. Os 213 . sendo que tudo isso se perde. que alteram tudo aquilo que sou e o que é importante para mim?” A dor alucinante. de alguém que nos complete e seja essencial para nós. explorar. aquilo que tornava nossa vida mais satisfatória. minha mente tenta fazer uma brincadeira. apenas um impulso carnal?” “Será que. novamente. possamos recuperar a beleza e a harmonia. tenta me enganar?” “Será que essa nova necessidade intensa tornar-se-á uma referência profunda para o resto da minha vida. faz com que nos empenhemos em obter. tentar. uma nova constituição psicológica. a ausência de algo essencial em nós. e pior. para que possamos recuperar a imagem que alimenta a nossa alma e que fornece um sentimento sagrado. onde me deparo com perdas. percebemos o quão fácil e estimulante é a vida quando possuímos metas e desejos. que. somente assim. Decidir de forma consciente sobre esses acontecimentos é muito improvável. da mesma forma abrupta como morreu pode ressurgir. como um evento marcante que ficará para sempre. na nossa memória?” Nesses períodos soturnos. influenciandonos. corremos de forma alucinante em busca daquilo que nos agradava. de novo. de repente. E. em um oceano de desespero e dor. fazendo com que passemos a ter um novo centro. a todo o momento. novamente. em busca de novos ideais. Desse modo. fazendo com que nos perguntemos: “Será que realmente precisamos disso ou é apenas puro desejo. por causa da grande quantidade de novas interações. vamos em busca de alguém em quem confiar. Então. de novas pessoas. responsáveis por nos fornecer uma existência suportável e estável. quando não mais somos direcionados pelos nossos ideais.

triunfar. 214 . arriscar e arriscar e recriar a vida! Um anjo intenso que insiste em aparecer para nós. representando tudo que há de mais belo. E de novo e de novo e de novo.olhos dessa imagem nos chamam à vida. para cair. um envio de terras sagradas para proporcionar instantes de êxtase e tornar evidente a razão de todos os erros e glórias.

Quero retribuir esse seu olhar.. Infelizmente. só com você é plena. Onde todo homem é moribundo. Nem sou capaz das palavras encontrar. E uma dúvida ela em mim faz brotar: 215 . Deve ser minha inexperiência. Mas termino por nada encontrar. e tocar no fundo da sua alma. escravo do que acha que deve ser. tenho muita consciência. Que possam definir tanta beleza.Do príncipe da Dinamarca Oh! Tão estimada Ofélia. a falta de vivência Que não me permite interagir com o ser mais perfeito. Mas sim sua beleza extasiante. Sob essa luz crepuscular. Seus olhos chegam a perscrutar meu recanto mais profundo. Tarefa que me esforço para conseguir. Minha alma tão indecisa e diminuta. Faça de mim seu amante! O mundo quero lhe dar. Minha mente já se perdeu. tanta harmonia.. E o culpado não sou eu. Faça de mim seu amor! E viverei em eterno êxtase.

a ti tudo falar. Até mesmo uma vida ulterior irei criar. Chegar a duvidar de sua perfeição. até mesmo por apenas pensar. Para nunca mais te abandonar. que se esconde com primazia. Que tudo questiona. destituído de tudo Que torna o homem grande? Desculpe-me por chegar a pensar assim. Deve ser a joia mais rara. Entregando-se apenas ao mais valente.. Ou o olhar do ser inferior. Recuso-me a falar! Mil vezes abjeto. Entregar-me-ei por inteiro. mais imponente e digno. E esse eu prometo ser. E uma dúvida me faz questionar Esse seu olhar vazio: Será a expressão de quem muito sabe. Prometi. a todos indaga.. A culpa é dessa consciência dentro de mim.Será você. 216 . de corpo e alma. Farei de tudo por você! Prometo falar-te tudo que está em minha mente.

nunca para! A uma pergunta ela não me deixa escapar: Será você. tudo aquilo que me faz pensar? 217 .Que nunca se contenta.

e para chegar a essa mesma conclusão não é preciso ser um exímio observador. que 218 . Ao longo do meu diário.Uma filosofia do futuro Caracterizei a constituição psíquica atual dos seres humanos como sendo narcisista. com certeza elas seriam refutadas e abandonadas. No fim. e provavelmente essa existência se faz antiga. Atrelado a essa característica intrínseca dos seres humanos. parâmetro esse que nos é vedado por causa de uma alma fixa. todo sistema de poder é ao mesmo tempo patrão e servo. da ampliação da capacidade e da força do indivíduo. as religiões e os governos se desenvolveram. já existem entre nós. Uma constituição que nos agrada mais pode ser considerada como sendo aquela mais se aproxima dessa vontade profunda. Como sendo entidades destinadas à interação dos seres humanos com a parte conceitual. e a parte material das coisas. Esse aspecto pode ser encontrado no gênio. cheia de conceitos concorrente e centrada apenas no próprio indivíduo. expressei que o móbil mais profundo dos seres vivos é a expansão da alma até que essa atinja as dimensões do espírito. sendo ela destituída de qualquer perspectiva particular. o culto ao ego é evidente em grande parte das ações que observamos. mesmo sendo essa ampliação restrita a conceitos inteiramente conceituais. Os seres humanos que possuem características individuais relacionadas a parâmetros mais amplos do que o próprio indivíduo. Através dessa característica que relaciona o indivíduo ao espírito. que possui uma constituição psíquica muito diferente das demais pessoas. podemos determinar a evolução humana como possuindo direções referentes à ampliação das fronteiras do indivíduo com relação ao espírito. desse contato com todas as coisas. diminuta. e à destituição do egoísmo exacerbado na psique humana. pois estando essas entidades muito distantes das vontades humanas. essas duas entidades não podem estar separadas daquilo que é a constituição e as necessidades humanas. egoísta em excesso. intelectual. dessa potência exacerbada.

por mais esdrúxulos que pareçam ser — quando observados por pessoas possuidoras de perspectivas e direcionamentos diferentes —. podemos. que permitirá a existência de determinados conceitos. passando a interpretarmos os acontecimentos de uma maneira capciosa. poderá tornar-se mais lógico e condizente com aquilo que observamos. quando observado sob outras perspectivas. Um caso gritante de deturpação conceitual está evidente no conceito de reencarnação. É evidente que quando acreditamos piamente em algo. podemos analisar tal conceito sob a ótica budista. vendo-nos. Infelizmente. depararmo-nos com o puro conhecimento com o puro conceito. quando observadas dentro de suas definições lógicas e conceituais. direcionando nossas interpretações rumo a uma perspectiva específica.visa apenas o benefício do próprio indivíduo. possivelmente. que. finalmente. 219 . as descobertas desses raros gênios são. Nesse caso. praticamente sempre. adotado pela doutrina budista. possuindo como base a doutrina budista. em um modelo diferente. com a realidade. analisando possíveis deturpações — que podem ter sido inseridas até a condição de satisfazer a necessidade humana — e dando um novo significado e direcionamento. para que possamos compreender verdadeiramente um conceito. seu modelo particular. passamos a ser capazes de enxergar aquilo em que acreditamos. nos parecem ser absolutamente plausíveis e verdadeiras. podemos eliminar toda a fraqueza e os interesses particulares. temos que fazer uma indução reversa. menos protetores e preconceituosos. livres de toda a falácia e dos parâmetros irreais. toda crença irá construir sua própria lógica. deturpadas pelos homens comuns. parâmetro esse que faz com que essas pessoas se permitam construir conceitos mais amplos. no intuito de eliminarmos todos os parâmetros que foram deturpados. que. utilizando da indução reversa. enfim. mas. esse aspecto interessante e plural faz com que deixemos de nos surpreender com as mais variadas possíveis e plausíveis interpretações das coisas. Na maioria das vezes. podemos dizer que o conceito de reencarnação pode ser ilógico. Tal arranjo individual permite que a definição de conceitos não seja focada em si próprios.

concepção essa que abarca tudo aquilo que percebemos e sentimos. ou. aquilo que está presente nas profundezas do nosso. mas possuo algumas objeções e uma nova teoria sobre a evolução espiritual. o nirvana e o Buda. através de conceitos e modelos. incapaz de 220 . e nessa tarefa dispendiosa tomo como base o conceito de retorno ao estado inorgânico (nirvana). Além do nosso espírito. pode ser caracterizado por um animal irracional. esse modelo. com a qual tenho mais afinidade e admiração. que irei apresentar. adquirimos conteúdos que preenchem as estruturas da nossa mente. Buda). Primeiramente. então tentarei explicar minha tese da forma mais clara e objetiva possível. e é a essência mais profunda da constituição fisiológica. em função desse preenchimento adquirimos representações que. que está oculto para o indivíduo. Para a continuação da teoria.Desmistificando a reencarnação dos espíritos: Irei direcionar essa minha análise à doutrina budista. O espírito está presente em todos os seres vivos. fazendo com que reajamos de forma exagerada a alguns acontecimentos que nos fazem construir cenários previamente elaborados e que são incrivelmente influentes sobre nós. rege muitas de nossas ações. de algum modo. que busca definir. que somos direcionados a perceber e sentir. possivelmente sendo a responsável por determinar todas elas. vamos definir três estados de existência: O primitivo. essa vontade exagerada e inconsciente. de acordo com o mundo que está construído em seu espírito e seus ideais. Quero ser sucinto. sendo ele revelado apenas pela consciência. melhor dizendo. ele é a concepção do ambiente no qual estamos inseridos. Um exemplo de ser vivo que se encontra no primeiro estado. Nossos juízos de valores são elaborados com referência à potencialização que as coisas proporcionam ao indivíduo. Essa característica profunda. estão relacionadas com desejos e medos profundos. gerando os sentimentos mais variados. Identifico a vida humana nos graus de iluminação do espírito (nirvana. vou tentar explicar o alcance dessas condições existenciais — sendo eles o nirvana e o Buda —. o indivíduo busca o alcance do estado inorgânico de acordo com os seus próprios meios. imaginação.

a roda do carma não está estabilizada. que tanto o motiva e amplia sua alma diminuta. Nesse ponto o ser não sente uma necessidade absoluta de procriar. a alma desaparece. que ele é incapaz de compreender. se alguma mudança exterior acontecer. é capaz de suprir os desejos referentes ao alcance das dimensões do espírito. o indivíduo pode voltar a algum estado anterior a esse. que sua alma tanto almeja. por causa da ausência de intelecto. em seu filho. Voltando a me referir à doutrina budista. desse modo entendendo o móbil mais profundo da vida. ele vive em êxtase. fazendo com que ele se aproxime de seu ideal. plena e com ausência de dúvidas existenciais. o indivíduo vive de maneira potente. Esse direcionamento intenso faz com que nada mais possa ser observado. e sendo influenciado por agentes externos. e não mais se sentindo estritamente impelido a se dedicar loucamente por seu ideal. que seu inconsciente almeja. Ele transfere essa necessidade. ele alcançou a evolução plena. o estado de espírito — no nirvana — é incitado por agentes externos. enquanto dura a interação entre aquilo que o motiva profundamente.uma concepção abrangente sobre seus atributos interiores. um estado onde. e. que é focado em sua reprodução. através dessa interação. fazendo com que o indivíduo consiga sentir a plenitude da vida. com o intuito de que ela será a responsável por sanar sua necessidade mais profunda. de identificar. fazendo com que tudo que o indivíduo elabore não passe de conceitos que possuam relação com tal ideal. sendo ele incapaz de possuir uma vida interior. esse animal não é capaz de desconstruir um único e potente ideal. o ato sexual é o momento mais elevado que esse ser primitivo pode atingir. Infelizmente. os quais o indivíduo ainda não é capaz de imaginar. e não pela própria consciência do indivíduo. ou a direcionar todo sua força rumo a procriação. que faz com que ele direcione suas forças estritamente rumo a essa atividade. Um indivíduo de mentalidade mais evoluída é capaz de atingir o nirvana. Fazendo 221 . sendo assim. essa característica passa a ser uma atitude mecanicista e impulsiva. por algum tempo. enquanto dura o contato com os agentes externos que permitem o surgimento dessas sensações reveladoras. e o ser ainda precisa reencarnar. e deposita toda a sua esperança em sua reprodução. por causa da falta de imaginação.

uma pessoa que precisa encarar a morte de alguém muito querido e estimado. e manter uma condição existencial abrangente. ele alcançou o estado de Buda. pois esse desde o começo da existência foi estável. causada pela ausência daquele que é estimado em demasia. e criações conceituais inconscientes. que. desse modo não tendo que lidar com a mudança dolorosa. responsável por alterar as coisas sempre em direção a arranjos melhores. todas as ações do indivíduo são racionais. ou no encerramento das reencarnações. tornou-se um ser que direciona sua força exatamente para onde deseja. em outras vidas. em uma existência eterna. é um ser especial. ele definiu seus parâmetros e cria sua própria história. por si só. em meio a um mundo onde tudo parece estar mudando. esses são apenas alguns motivos dentre vários.uma comparação com o budismo: nesse estado o ser se encontra em harmonia com o universo e o ciclo de reencarnações cessa. a possibilidade de cometer algum crime. e ela vem na forma de uma vida ulterior melhor. Podemos ver como um arranjo realista recebe alguns retoques absurdos para se tornar algo que alimenta o egoísmo a fraqueza humana. de acordo com ideias religiosas. definir com precisão e controlar seus impulsos. ainda mais. Ele nunca precisou balancear o seu carma. ele existe para melhorar as coisas. a instauração de uma vida ulterior pode fazer com que um possível criminoso questione. onde a pessoa estimada ainda continue a existir. define sua interação com as coisas a todo o momento. ele é capaz de definir concepções exata. que fazem com que tal concepção se torne cada 222 . o ser atingiu o máximo da evolução. pode recorrer à ideia de uma outra vida. pelo ethos. da mesma forma. permanecendo constantemente em êxtase. e possui conhecimento suficiente para contestar. seu inconsciente não mais o impele a ações impensadas. Quando o indivíduo possui uma mentalidade abrangente e evoluída. o indivíduo não mais é influenciado pela história. O monge que abdicou a todos os prazeres mundanos necessita de uma recompensa. Comparando com o budismo. poderia fazer com que ele sofresse muito mais. em qualquer situação. Nesse caso. e cabe a ele decidir a maneira como irá proceder perante as mais variadas questões. em outro caso. e que não possuem parâmetros concomitantes. ou por pensamentos dos quais ele não tem controle.

quantas pessoas se sentiriam livres para cometer as maiores atrocidades. que é estritamente direcionado ao egocentrismo. devemos desconfiar de seus objetivos. ou se sentem menos desesperadas. na doutrina budista. Essa maneira de enxergar as interações humanas adequa-se à necessidade narcisista atual. Se nem com esse argumento fantasioso as pessoas decidem se dedicar à pratica dos ensinamentos budistas. sem a crença em uma outra vida. quantas pessoas estariam enfrentando o desespero esmagador causado pela alteração do mundo onde estão inseridas. e quando alguém expressa que se dedica a algo. sendo o capitalismo o expoente que mais condiz com essa constituição psicológica. Podemos analisar o nosso modelo político e econômico.vez mais importante e presente em nossas vidas. necessidade essa que está presente na grande maioria das pessoas. Quanto tempo irá levar para que as pessoas aceitem. possuindo metas coletivas. imagine sem. que ainda são fracos. Imaginem quantos adeptos a menos essa doutrina teria. vejo isso como sendo propósitos mais do que suficientes para a manutenção da crença na reencarnação. feita no intuito de adequar algumas coisas à constituição psíquica atual. egoístas e ignorantes. sem nenhuma possibilidade ulterior? Considero a perspectiva atual da reencarnação budista como sendo um exemplo gritante da deturpação conceitual. Infelizmente a verdade ainda é um fardo demasiado pesado para a maioria dos seres humanos atuais. sem se sentirem livres para cometerem atrocidades. que a vida é fugaz e existe apenas agora. sem se sentirem completamente desesperadas. ou se sentem incapazes de cometerem atrocidades. Adam Smith define que a base de todas as coisas é a necessidade particular. às necessidades atuais. ele se tornou o sistema econômico mais eficiente no mundo contemporâneo. 223 . que ainda possuem conceitos incapazes de abarcar toda a complexidade presente em nossas vidas. de bom grado.

o comunismo é uma ideia que deve ser guardada com carinho. nos dias atuais. de acordo com a constituição psíquica atual. por causa das mais variadas campanhas que o repudiam. “Será que realmente sabemos aquilo que somos. permitindo-nos não mais sermos definidos pelo ambiente. mas sim definirmos aquilo que somos. independentemente do ambiente. sendo esse novo modelo nomeado com a palavra comunismo. essa entidade ainda tem muito o que evoluir para que possamos considerá-la eficiente. Essa propaganda negativa é direcionada aos seres humanos limitados e sem imaginação. quando a constituição psíquica humana tiver evoluído e o modelo capitalista não mais se mostrar tão eficiente. é o modelo mais eficiente. Atualmente. Mesmo em sua 224 . nós possamos instaurar um modelo que supra as novas necessidades humanas. é indiscutivelmente mais eficiente. diminuta. Discutir sobre o comunismo. nome esse que já se tornou pejorativo. o capitalismo. ou como somos? A consciência ainda é uma entidade germinal. Infelizmente. sendo que. a constituição psíquica dos seres humanos não está preparada para esse tipo de arranjo das coisas. que não possuem a capacidade de pensar de forma abrangente. um modelo econômico parece surgir para suprir as necessidades do ser humano do futuro. impedindo-a de ser deturpada pelas pessoas comuns. ela nos diferencia de todos os outros seres vivos que existem.Em meio a tudo isso. e a sete chaves. é uma grande perda de tempo. que não mais é extremamente egoísta.

ineficiência constantemente comprovada.” Autor desconhecido 225 . no futuro da humanidade. abrangente e eficiente. podemos perceber pequenos acontecimentos que nutrem um resquício de esperança de que essa entidade se tornará. fazendo com que o ser humano finalmente seja superado e que nós nos tornemos deuses.

Tomando como base esse exemplo.A consciência ampla A nuvem que é interpretada por Polônio. Essas nossas construções variáveis. sendo eles os responsáveis por nos situarem perante aquilo que percebemos. Essa mudança de conceitos. faz com que alteremos. Um exemplo banal. com a alteração dos conceitos. de conceitos e de cenários. sinceramente. A princípio essa característica transmitia a ideia de deselegância. plausíveis e lógicas. já está construído na nossa mente. dependendo apenas da maneira como olhamos para essas coisas e a associação que fazemos daquilo que enxergamos. fragilidade. o quanto as coisas possuem interpretações múltiplas. que é frequente para aqueles que são muito racionais. assim como nos mostra o quanto são importantes e relevantes os conceitos pré-estabelecidos na nossa mente. nossas impressões e sentimentos. toda vez que Hamlet desenvolvia uma nova perspectiva sobre a nuvem. e constantes. por completo. podemos perceber o quanto nossas impressões variam. evidencia o quanto a realidade que percebemos é virtual. fazendo com que enxergássemos a mesma situação com uma concepção completamente diferente. imponência. por uma concepção 226 . Só iremos ter sentimentos por aquilo que. talvez aquela nuvem pudesse ser interpretada de várias formas discrepantes entre si. faz com que nos portemos diferentemente perante situações similares. estupidez. Essa característica intrínseca de tudo à nossa volta faz com que enxerguemos um novo arranjo das coisas. e que adquiri novas formas quando Hamlet externa suas impressões. com o passar do tempo. sendo que. é a concepção que se tinha de mulheres que usavam óculos. essa mesma imagem passou a suscitar uma ideia de empreendedorismo. talvez não tenha sido definida com diferentes formas apenas para que o príncipe da Dinamarca se sentisse satisfeito por possuir alguém que concordasse com suas suposições. que ilustra essa nossa característica profunda. atributo esse que permitiu que Polônio mudasse sua opinião. força. de alguma forma.

Nesse caso. na verdade. situando-se nas profundezas do intelecto. 227 . por não possuírem uma paixão irracional quando expressam suas opiniões e desejos. na maioria das vezes. por causa da presença de parâmetros que nunca observamos. que têm relação com concepções exageradas. tornamo-nos capazes de enxergar as coisas sob as mais variadas perspectivas. sem que possamos percebê-lo conscientemente —. o novo nunca suscitará nada em nós. e com o aprimoramento das nossas interpretações. o amor também é abolido. Dotados de uma frieza e de uma indiferença sem limites. eles são incrivelmente sensíveis. que não possuem relação com a realidade. quando. os seres possuidores de uma consciência vasta são acusados. porque. como sendo falastrões. inconsciente. encontrarmos alguém que possua alguma coisa em comum conosco se torna uma tarefa simples. sendo eles apenas reações nervosas. por causa da pluralidade conceitual que faz com que o ser consciente possua vários aspectos. após passar por uma análise estritamente racional. não sabemos como nos portar perante esse novo cenário que encontramos. pelas pessoas comuns. ultrassensíveis.previamente verificada e desenvolvida — sendo esse desenvolvimento. As mesmas pessoas comuns afirmam que os seres cheios de consciência são insensíveis. A ampliação do raciocínio destrói os sentimentos. várias interpretações das coisas. Com o desenvolvimento da nossa consciência. Assim como os sentimentos.

provavelmente essa assimilação será lenta. Esses seres possuem um olhar limitado. os seres dotados da capacidade de imaginar as coisas e estabelecer conceitos. aspecto esse que incomoda. por um Deus. Por causa da ausência de parâmetros múltiplos. que não transmitem. garantindo que suas ações estejam sempre de acordo com os conceitos morais. Por causa da falta de imaginação. com as coisas. assim como exigirá que os conceitos. os seres sem imaginação se adaptam facilmente àquilo que é imposto a eles. os seres intelectualmente limitados são a maioria. A lentidão e a restrição do aprendizado são compensadas pela ausência da criação de concepções múltiplas. os conceitos morais são tratados como dogmas. em suas mentes. ou. não contendo relações complexas e inovadoras. pois não possui uma característica que torna a vida ainda mais complexa. e estabelecendo relações. que apenas enxerga as concepções limitadas que eles possuem. sejam simples e não muito diferentes daquilo que estão costumados a enxergar. o real funcionamento. sendo essa ordenação criada por um líder. desse modo permitindo a assimilação dos mesmos por um ser intelectualmente limitado. e implementam e obrigam todas as pessoas a aderirem às suas concepções limitadas sobre o mundo e os acontecimentos. Infelizmente. pelos indivíduos intelectualmente limitados.Eles ainda são melhores. Incapaz de fazer associações próprias. 228 . que evidencia a incapacidade dessas pessoas de criarem e analisarem conceitos por si próprios. dessa maneira restringindo a multiplicidade de conceitos e de causas que determinam as coisas. Esse aspecto. faz com que exista a necessidade de uma ordenação superior das coisas. e muito. até mesmo. daquilo que observam. ainda mais difícil. a serem assimilados. a verdadeira dimensão. não englobam. por enquanto O homem sem imaginação deve se sentir feliz.

” James Joyce 229 . aparece como que traduzido em minha mente. aparece apenas como uma casa com um céu azul ao fundo. ou uma mulher. que incita sentimentos profundos — fazendo com que você passe a desejar. esses cenários na sua mente —. é capaz de eliminar qualquer tipo de sentimento. Aquilo que é imprescindível. o arranjo que incita sentimentos. Essa tradução exata daquilo que vejo. Enquanto você vê um determinado arranjo de elementos. sem que eu me esforce ou intencione realizar essa atividade. fazendo com que sinta um turbilhão interminável de sentimentos quando algumas características incitam. para muitos. um arranjo das coisas que parece ideal. etc. qualquer tipo de exagero incoerente. por mais que pareça irrelevante e banal. o cenário ideal. por similitude. um cenário com objetos que parecem estar em harmonia. ou um carro.“Minha mente não funciona como a sua. qualquer tipo de ilusão. eu simplesmente enxergo além dessas sensações obscuras. a obtenção daquilo te cativou e que se alojou nas profundezas da sua mente. intensamente.

Infelizmente. são sentimentos completamente discrepantes. causas e consequências que. determinando motivos. que incitam pensamentos semelhantes. os acontecimentos podem obter designações racionais. Entretanto. que não possuem qualquer tipo de semelhança. uma projeção. absurdamente exagerada. Muitas pessoas são exímias em tais tarefas complexas. muitas vezes. se torne capaz de definir. Assim. não se adequam às 230 . sem que sejamos capazes de identificar as causas e motivos desse mal-estar. fazendo com que o indivíduo deixe de sentir aquilo que sentia ao se deparar com alguns de seus pensamentos. elas adquirem um mundo lógico acurado e uma imaginação mais vasta. que caracterizam uma relação aparente. que incita sentimentos e reações exageradas. dependendo da pessoa. Nesses casos. quase sempre. essas investigações são complexas e. quase sempre. que faz com que eles sejam capazes de classificar as coisas conscientemente. dolorosas. podemos dizer que a sensação de medo. para que. é proveniente de uma interpretação. caracterizamos algumas de nossas sensações com nomes similares entre si. mal trabalhada. atributos esses que impedem que muitas pessoas perscrutem profundamente seus conceitos. ou de satisfação intensa. que os tornam menos assustadores. cabe ao observador investigar suas sensações e definições. somente assim. que nos incite tal lembrança. permitindo-lhes que se desvencilhem de impressões irreais e exageradas. fazendo com que nos sintamos muito mal ao pensarmos nele ou ao nos depararmos com algum objeto. incoerentes. suas experiências e a forma como ela pensa. que incitam sensações descabidas. Estendendo esse exemplo. quando. cheia de preconceitos e conceitos infundados. na verdade. podemos dizer que a forma como a maioria das pessoas interpreta as coisas é absurdamente capciosa. após um período longo ou curto. aquilo que acontece com ele. ou situação. com precisão.As pessoas incomuns Um acontecimento pode se tornar muito dolorosa para nós. Muitas vezes.

que nos permite possuir qualquer tipo de interpretação. fazendo com que um simples arranjo seja o responsável por incitar memórias que nos situam perante os acontecimentos. Para que sejamos capazes de possuir conceitos mais próximos da realidade. que. trazendo dor e desespero. da verdadeira proporção daquilo que analisamos. Percebendo a grande quantidade de possíveis definições para os acontecimentos e as coisas. ainda. que são muito mais complexos e mutáveis do que aquilo que acreditamos que eles sejam. capazes de destruir nossas crenças. capazes de eliminar a exatidão dos nossos conceitos. “Não procure analisar a experiência em ti próprio!” Possuindo conceitos surpreendemos quando pré-estabelecidos realmente para as experimentamos aquilo coisas. criamos conceitos que nos direcionam. possibilitando-nos imaginar os acontecimentos e objetos como possuindo várias possibilidades e explicações. nossas definições. que designam formatos exatos para as coisas. constantemente. assumem uma terceira definição. essa experiência nos remete à necessidade de reestruturação dos nossos conceitos. Tendo como base um mundo completamente em aberto. podemos adquirir interpretações novas. diferente da nossa estruturação anterior e diferente. Quando observamos com imparcialidade para o mundo. por causa da impenetrabilidade da realidade.verdadeiras proporções dos fenômenos. que nos estava firmemente construído no nosso intelecto. é preciso que experimentemos e questionemos. Essa nossa característica nos permite identificar a discrepância gigantesca entre pensamento e realidade. descobrimos o quanto os conceitos são incertos. necessitando de proteções e imposições rigorosas para que permaneçam exatos e influentes na mentalidade das pessoas. 231 . a princípio. Essa atitude nos permite sermos capazes de enxergar as coisas sob diferentes perspectivas.

uma elaboração mais profunda e abrangente. os conceitos preconizados dentro de tais modelos. Assim como algumas pessoas possuem um ouvido musical. permanecerão atônitas e serão incapazes de compreender interpretações que são completamente sem sentido para elas. pelo maior número possível de pessoas. que lhes permitem sentir e perceber os tons musicais de uma maneira diferente do que as pessoas sem esse dom. a forma de classificar as coisas nessas sociedades. não se tornando uma vivencia. algumas pessoas possuem uma constituição psíquica que não as permite vivenciar algumas experiências profundas e raras. da definição.Muitas vezes. Se as sociedades são elaboradas com o intuito de criar um ambiente que permita a existência das pessoas. vivencias bem estruturadas. provenientes da elaboração. são incapazes de enxergar as coisas como as pessoas raras enxergam. como que sem uma correlação mais profunda com nosso comportamento e com nossa intuição. nesse caso. que são completamente discrepantes quando comparadas às suas definições particulares. tornando-se. que. que possam ser entendidos. superficiais e sem aplicação. permanecerão apenas como teorias que se mantêm rasas. muitos conceitos. nossos conceitos permanecem como que suspensos dentro de nós. por mais que tenham sido lidos e decorados até a exaustão. aspecto esse que os torna incompreensíveis para as demais pessoas. precisa contem dimensões que permitam a compreensão. são incapazes de compreendê-los. alguns indivíduos possuem uma constituição que lhes permitem enxergar e sentir as coisas de uma forma diferente. por não possuírem uma constituição incomum. após um tempo e algumas constatações. 232 . de sensações que as pessoas comuns são incapazes de vivenciar. as pessoas intelectualmente superdotadas permanecerão às margens das sociedades. No entanto. Nesse contexto.

Quando as pessoas vão finalmente entender que o ser humano é algo a ser superado?” Autor desconhecido “De tudo que me encanta eu almejo me afastar. as análises complexas e demoradas se tornam rápidas e práticas. dessa forma transformando em leis obrigatórias as características humanas mais deploráveis e primitivas.” Autor desconhecido 233 . Se Kant identifica a lei do menor esforço como sendo uma característica intrínseca em nós. as interações humanas ocorrem apenas quando alguma das partes nota a presença de algo que lhe possa beneficiar. Com ele nossos principais defeitos se tornam virtudes.“As proposições materialistas parecem possuir um conteúdo quase que estritamente irracional. as relações humanas. os sentimentos e a moralidade foram abandonados. sistemático. cedendo espaço para avaliações que têm como base o capital. Após a invenção do dinheiro. e a interação entre as pessoas se torna simples e bem direcionada. O materialismo simplificou. aprimorada. podemos considerar o materialismo como sendo aquilo que mais nos agrada. e esse entender-se e controlar-se deve ocorrer sempre e sempre e sempre! Ser humano nunca foi o suficiente para mim. as coisas e as pessoas adquiriram um novo modo de serem analisadas. de tudo que me repugna eu anseio me aproximar. A mente deve ser treinada. Baseadas em interesses particulares. ainda mais. Nesse contexto inteiramente monetário e materialista.

é isso que se pode dizer. quando comparados com a maioria das pessoas. novas percepções e reações. não está presente no indivíduo sem causar problemas complexos. o ser consciente é capaz de apagar qualquer afeto. A consciência exacerbada desses seres é um aspecto puramente intelectual. A presença desse sentido raro desencadeia uma série de novos sentimentos. qualquer construção inconsciente é facilmente refutada. que são dificilmente construídas. diferentemente das pessoas comuns. dependendo apenas da sua vontade para que isso ocorra. da maneira como os seres conscientes entendem. os seres de intelecto avançado são desprezados por todos. a verdadeira necessidade por trás de seus desejos. característica essa que o torna absurdamente indiferente aos acontecimentos referentes a suas vontades. Profundamente apáticos e indiferentes. que tornam esses seres absurdamente discrepantes. muito acima do normal. o ser consciente é capaz de identificar a verdadeira proporção. qualquer desejo. no mínimo. incapazes de compreender as coisas e a mente. Na mente do ser consciente.Um sentido à mais São dotados de um sentido a mais. que exigem uma força de vontade incomum. 234 . as estruturas da mente não são facilmente preenchidas. Todos os algozes dos homens geniais são seres limitados. No entanto. Além disso. como sendo indivíduos abjetos e insensíveis. que faz com que eles possuam uma interpretação estritamente racional das coisas. são denominados como sendo monstros. aspecto esse que torna os seres conscientes pessoas destituídas de qualquer tipo de conteúdo intelectual. Sabendo como as coisas se estruturam na sua mente. Nesse tipo raro de mente. esse atributo que é estimado por muitos. fazendo com que o indivíduo não possua qualquer tipo de definição exata sobre as coisas. dos seres conscientes.

Dotados de conhecimentos reservados para poucos. seus medos e assim como os permitem se desvencilharem dos cenários absurdos e incoerente que nossa mente é exímia em elaborar. Perante um universo obscuro traduzido para parâmetros palpáveis. descabidos. O ser consciente. quando não pratica sua acuidade mental diferenciada. enquanto os seres de intelecto avançado já o superaram.Os seres limitados prezam o amor. Essa definição exata os permitem controlar todas as suas reações. o caminho dos seres conscientes é muito complexo e tortuoso. sem que com isso se sintam angustiados. Neles. capaz de desvelar nossos segredos mais profundos. pode sofrer por causa da forma peculiar como sua mente trabalha. Cheios de imaginação e possuidores de uma memória incomum. até mesmo. desse modo possuindo a capacidade de identificar e verificar a verdadeira proporção de suas construções inconscientes. os seres raros conseguem transformar suas sensações profundas e misteriosas em parâmetros palpáveis e verificáveis. O intelecto avançado é o responsável por propiciar todas essas habilidades que os seres comuns são incapazes. Entretanto. que é acompanhada pela impossibilidade que alguma 235 . Os seres limitados prezam a sensibilidade nervosa e os impulsos involuntários exagerados. enquanto os seres incomuns já os entenderam e os controlam. a quantidade absurda de perspectivas desenvolvidas faz com que sintam uma angústia profunda. capaz de solucionar nossos questionamentos mais complexos. Na maioria das vezes eles não são capazes de atingir uma condição incrivelmente eficiente. os seres conscientes possuem parâmetros e cenários múltiplos em sua mente. sendo mais comumente encontrado a destruição do gênio e o aparecimento dos mais variados problemas psicológicos. de imaginar. o indivíduo adquiri interpretações capazes de o tornarem um grande artista. A imaginação incomum os permite definirem com precisão todas as nuances dos processos inconscientes.

após algumas tentativas e experiências. seja completamente abandonada. 236 . costumava lhe causar. A realidade não é capaz de conter todas as magníficas possibilidades que existem nas profundezas da nossa mente. o ser consciente aprende a lição mais valiosa sobre a vida: Nada importa. desse modo deixando de serem absurdamente opressivas. tudo é irrelevante. Mas. a indiferença faz com que a capacidade de se esforçar em busca da realização de um objetivo seja reduzida. não mais sendo incomodado por nenhum de seus desenvolvimentos inconscientes. ou. o indivíduo consciente tenta estipular um conceito exato a ser seguido. todas as possibilidades que abandonamos. a ponto de obrigar o indivíduo a abandonar sua decisão para que esse retorne a um estado onde todas as possibilidades ainda são possíveis. Percebendo a irrelevância de cada uma de suas proposições.dessas possibilidades se torne exata e irrefutável. junto com a capacidade de direcionar sua força rumo àquilo que a pessoa racionalmente desejar. No entanto. Na nossa mente. para que suas atitudes se tornem eficientes. Não mais se importando com nada. qualquer parâmetro por ele definido. o indivíduo consciente não mais se preocupa com a angústia que a escolha. no entanto. em prol de uma em específico. de um parâmetro a ser seguido. Qualquer uma das escolhas dos seres conscientes irá lhes proporcionar esse sentimento profundo de angústia. em alguns casos. Todos os resultados de suas ações o conduzem a essa conclusão que transmuta por completo a forma que o indivíduo pensa sobre as cosias. que alguma dessas possibilidades seja capaz de direcionar o indivíduo. o ser consciente torna-se capaz de direcionar sua vontade para qualquer tipo de coisa. de dor. Perante a necessidade de definição. a mente plural desse indivíduo faz com que ele se sinta oprimido pelas demais possibilidades que foram abandonadas em função de uma ideia específica. se tornam absurdamente opressivas. onde as ideias são desenvolvidas em um cenário à parte da realidade. até mesmo.

esse cenário. que nos aproximam daquilo que realmente queremos. que tanto nos encanta. tornando-as ainda mais eficientes. não sendo elas responsáveis por proporcionar. A todo o momento não poupamos esforços para que sejamos capazes de atingir esse estado. torna-se incoerente para com as atitudes das pessoas. irrelevante. é almejado de forma intensa por nós. ao longo de nossas vidas. até certo ponto. muitas vezes. um cenário que ameniza o desconforto causado pela realidade e que nos transporta para um cenário mais satisfatório e aconchegante. aquilo que desejamos desesperadamente. que nos impede de sucumbir ao desespero e nos apresenta um cenário que promete sanar todas as nossas necessidades mais profundas. por si só. que nos faz sentirmos mais satisfeitos. Sem darmos muita importância a essa conduta secundária. Nesse caso. para que possamos economizar energia em uma tarefa. e que faz com que tentemos e arrisquemos as mais 237 . Nas profundezas da mente a maioria das pessoas possuem um ideal. e pode ser verificado quando analisamos as profundezas do nosso ser. elas apenas são ações secundárias. a lei do menor esforço é exata e traduz exatamente o modo como agimos. que tanto nos agrada.Nesse caso. mas sim com atitudes e ações responsáveis por nos aproximar daquilo que realmente almejamos. em si. mas não nos fornecem o desejo em si. Essas definições secundárias não são absurdamente relevantes para nós. Essa força selvagem e profunda. podemos relacionar a brilhante descoberta de Kant com relação às nossas ações. tentamos. mesmo com essa suposição previamente comprovada. que exijam o mínimo de esforça da nossa parte. a proposição do menor esforço se torna obsoleta. podemos fazer um adendo a tais definições. dessa forma fazendo com que armazenemos energia para ser utilizada com atitudes que realmente poderão proporcionar aquilo que desejamos profundamente. Mas. encontrarmos atitudes mais econômicas. Para esse grande pensador as nossas atitudes têm relação com a com o menor esforço. atributo esse que é correto. Entretanto. Esse ideal profundo. que é gerada em função do desespero e dos nossos ideais. não nos deparamos com a presença do cenário. Nesse caso. a todo o momento.

variadas coisas. algumas vezes as histórias são resgatadas com resoluções ainda mais descabidas e limitadas. Defensores da ação e da indiferença. assim como as 238 . da mesma forma. Perante questionamentos covardes e desnecessários. Sartre e Thomas Mann são os expoentes famosos desse tipo de mentalidade semievoluída. em um caso específico e famoso. até certo ponto. onde. Em seus livros podemos perceber a presença da falta de percepções profundas e mais condizentes com a realidade das coisas. não se desvencilhando daquilo que uma imposição alheia teria feito. assim como defendem uma atitude reflexiva em excesso que não os conduzem a lugar algum. de sua vida para que o mesmo fosse o responsável por criar uma concepção limitada sobre as coisas. limitados encontramos Musil. o personagem defini uma estrutura específica em sua mente. de posse de uma concepção um tanto quanto limitada. A mente superdesenvolvida desconstrói qualquer tipo de ideal profundo. Nietzsche e Camus. não está presente nos seres de intelecto avançado. Deparados com as construções mais realistas e racionais desses autores. dos desenvolvimentos inconscientes e da definição exata e limitada das coisas. Esses autores parecem não ter adquirido conhecimentos mais profundos e relevantes. É engraçado quando vemos autores dotados de um intelecto diferenciado tentarem procurar uma definição exata para seus ideais. que evidenciam a inexistência de uma consciência profunda e reveladora. incomuns e muito conscientes. assim como afugenta os medos e os cenários desesperadores. que sempre nos fornecem perspectivas irreais e ineficientes. Na contramão desses autores. nos apresentam parâmetros que se aproximam da realidade das coisas. e nos fornecem ferramentas que nos permitem nos desvencilharmos da sensibilidade nervosa. vemos o quanto nossas ações são irrelevantes. A não ação dos heróis dos livros desses autores apresentam aspectos e pensamentos limitados. são eles os responsáveis por defender a não ação. a consciência primitiva do personagem apenas fez com que ele se desvencilhasse de uma definição. esses escritores. para a forma de ser e seus objetivos. alheia a ele. e.

sem nos importarmos com aquilo que nosso inconsciente assume para tais definições. de viver. desse modo criando uma necessidade intensa que seja controlada pelo indivíduo. pois a muito eles já entenderam e não mais se importam com ela. a falta de conceitos definidos com precisão. Nos indivíduos conscientes. 239 . ausência essa que os impede de possuírem uma vontade selvagem e inconsciente. de arriscar. mas pura e simplesmente por vontade de jogar. E é nesse mundo indiferente que passamos a mensurar nossas atitudes. nele definimos qualquer tipo de ideal e de construção profunda. que conta apenas com aspectos estritamente racionais.consequências das mesmas. pode ser substituída por uma estruturação constante e indiferente. de experimentar. A cada momento esses seres incomuns são capazes de estruturar seus ideais. de brincar. se arriscam incansavelmente. não em busca de uma necessidade profunda e misteriosa que nos move.

Os arquétipos e a consciência

Desde sempre o espírito é um mistério; investiga-lo é impossível,
restando a nós apenas suposições inverificáveis, que por mais que tentemos
validá-las, nunca conseguimos considera-las como sendo 100% verdadeiras.
Considerado como sendo a parte mais profunda e essencial do intelecto, o
espírito foi classificado como o propulsor da vida, da ação; dizem que ele está
em contato com todas as coisas e possui desejos que não podem ser
desvendados por nós. Como entidade mais próxima ao espírito, encontramos o
arquétipo, que é considerado uma transferência do desejo descontrolado e sem
formato do espírito para uma imagem externa, uma possibilidade que promete
sanar os nossos desejos profundos e imperscrutáveis.
Nos sonhos deparamo-nos com símbolos que representam os
arquétipos e os conteúdos inconscientes da nossa mente. As profundezas do
intelecto são identificadas como sendo ambíguas, variando entre o bem e o
mal, variando entre dois extremos. Em meio a esses extremos, de plenitude e
de completa aniquilação, são feitas associações espontâneas e inconscientes;
essas associações fogem ao nosso controle consciente, e raramente são
identificadas. Todas as situações que vivenciamos são desenvolvidas pelo
inconsciente, ele faz associações a memórias, assim definindo uma
interpretação para a situação com a qual nos deparamos, que se enquadra em
apenas duas possibilidades: redentoras ou destruidoras da vida. As
profundezas do intelecto operam apenas através do tudo ou nada, sem meio
termo.
Mesmo deparados com o extremismo da nossa mente, não nos
sentimos impotentes perante as construções conceituais inconscientes. Ao
longo da vida conseguimos verificar o quanto nossos conceitos são infundados;
essa discrepância, entre aquilo que a mente define e a realidade, leva-nos à
desconstrução e à diminuição da intensidade de muitos de nossos conceitos.
Essa

reestruturação

consciente

elimina

os

exageros

conceituais,

proporcionando uma base conceitual mais coerente e real.
240

No entanto, muitos de nossos arquétipos e interpretações exageradas
permanecem longe de nossa percepção, influenciando-nos em todas as nossas
ações, causando desconforto e desespero, sem que possamos fazer nada para
alterar esses exageros, pois não conseguimos identifica-los, o que não nos
permite reestruturar esses conceitos de maneira consciente e condizente com
a realidade.
Para conseguirmos identificar os nossos motivos profundos é preciso
que ampliemos a nossa percepção, tornando-a capaz de enxergar mais
profundamente. Uma pessoa dotada de uma percepção abrangente é capaz de
identificar os agentes externos que lhe incitam sensações, assim como é capaz
de perceber a maneira como são estruturados os seus conceitos.
As características mais marcantes dos indivíduos dotados de uma consciência
avantajada são o olhar vazio e a ausência de sentimentos. A consciência ampla
é uma habilidade raríssima, e permite a desconstrução de qualquer arquétipo,
de qualquer conceito. Infelizmente, a desconstrução de qualquer estrutura da
mente pode conduzir a um estado de apatia extrema, uma condição de não
agir, que é almejada pelo indivíduo. Em uma consciência de senso crítico
afiado e percepção profunda, a construção de um objetivo torna-se uma tarefa
dificílima.
O último estágio da consciência humana é denominado o controle
absoluto, onde a pessoa é capaz de desconstruir e construir aquilo que ela
quiser. Essa condição psíquica é ainda mais rara; nela, o indivíduo torna-se
capaz de enganar a si próprio, estabelecendo conceitos e condições
imaginárias, que o permitem alcançar o modelo existencial que foi proposto de
forma racional.

241

“E durante mais uma de minhas caminhadas matinais sem rumo, um
acontecimento, totalmente diferente de qualquer outro que vivenciei durante
essas caminhadas irrelevantes, me influenciou de forma violenta. Vi um
verdadeiro ser humano, ele estava acordado e parecia capaz de controlar
todos os seus movimentos, todas as suas reações; seu olhar chegava a ser
assustador, era profundo e parecia enxergar tudo à sua volta.”
Autor desconhecido

242

Escrito aleatório
Sinto que estou próximo a mais um daqueles momentos onde minha
mente parece transbordar e é preciso encontrar uma válvula de escape para
dispersar todo esse turbilhão, que, se não direcionado a algo, pode acabar por
incomodar ainda mais. No entanto, não me incomodo com esse ímpeto
profundo, que sempre se acumula em mim e exige um ato que prometa sanar
alguma carência profunda da nossa mentalidade, muito pelo contrário, gosto
dele; ele impulsiona tentativas, jogos, decisões, e isso é bom, satisfazer a
necessidade mais profunda da existência não é o suficiente para mim.
Por fim, deixo-me enganar; crio uma alma para mim, e jogo, e brinco, e
me divirto, e experimento, e arrisco, geralmente faço todas essas coisas ao
mesmo

tempo,

é

interessante.

Mas,

mesmo

nesse

meu

ambiente

extremamente consciente, às vezes me surpreendo; quase sempre essa
surpresa ocorre pelo fato de eu ver alguém realmente levando algo a sério;
quando me deparo com isso, fico me perguntando: “ Será que essa pessoa não
conhece as coisas de verdade?” “Por que ela leva tudo tão a sério?” Não perco
muito tempo com esses pensamentos, uma breve observação torna evidente o
quanto essas pessoas, que me assustam, são ignorantes e cegas; sem
possuírem a capacidade de pensar por si próprias elas perseguem ideais
inalcançáveis, elas estão sempre se distraindo, correndo atrás de algo e
evitando, a todo custo, qualquer momento de reflexão, por menor que seja.
Sem questionarem nada, sem realmente entender nada, essas pessoas vagam
cegas pela vida, criando almas diminutas, imutáveis e inquestionáveis, o que
faz com que o verdadeiro desejo da mente permaneça ainda mais distante,
ainda mais inalcançável. Essa distância absurda, entre aquilo que somos e
aquilo que realmente queremos, faz com que as pessoas se sintam
extremamente impulsionadas a fazer algo para alterar essa sua condição, faz
com que elas se sintam cheias de energia, e prontas para direcionarem essa
energia para alguma atividade, para alguma válvula de escape que prometa
sanar o nosso desejo mais profundo. Ver essas pessoas traçarem objetivos e
se arriscarem em empreitadas e tentativas intermináveis me incomoda; uma
vida inexplorada e em completa ignorância sempre me incomodou, e muito.

243

Entretanto, não me revolto por completo com essas pessoas, que
infelizmente são a maioria daqueles que encontro no dia-a-dia, pois, até
mesmo eu, com o auxílio de todo o meu conhecimento, às vezes não consigo
estabelecer uma meta que me incentive a agir. Meu mundo despreocupado é
perfeito, ele se aproxima da realidade, mas não quero viver como um asceta,
que abandona o mundo estruturado pelos seres humanos e vive encerrado em
meio ao seu êxtase absoluto, em meio ao seu conhecimento perfeito e
abrangente; esse tipo de existência asceta é absurdamente apática, é
absurdamente estática. Eu sei que nada realmente importa, mas é preciso que
ampliemos o nosso conhecimento, ampliemos nossas experiências, e para que
isso ocorra é preciso que arrisquemos de verdade, e para arriscarmos de
verdade é preciso que nos iludamos, é preciso que acreditemos que aquilo a
que nos propomos fazer irá realmente proporcionar o que a nossa mente
realmente almeja. É nesse tipo de ilusão construtiva que me proponho a brincar
de vez em quando, mas que às vezes não sou capaz.
Não sei ao certo qual é o motivo dessa minha incapacidade; sei que não
é preguiça, nem medo de perder tempo com algo — a muito já deixei de sentir
isso, e foi uma longa jornada até que eu me desvencilhasse desse medo de
perder tempo e do afunilamento da vida —; o que ocorre é um pouco mais
complexo: a minha imaginação, por mais poderosa que me pareça ser, às
vezes não consegue instaurar os motivos certos, que me incitem a dedicar-me
a alguma tarefa em específico.
Não é sempre que essa incapacidade ocorre, para falar a verdade, ela é
um tanto incomum. Antigamente, a incapacidade de me dedicar a um ideal
criado por mim era ainda mais recorrente, sendo praticamente constante;
naquela época eu poderia me surpreender se me dedicasse a alguma atividade
que eu realmente desejasse. Felizmente, tudo mudou quando consegui
identificar uma estrutura psíquica destrutiva, que me incitava a agir, quase que
desesperadamente. Talvez, essa minha classificação pareça estranha, mas ela
é mais simples do que parece; Jung caracteriza-a como sendo a sombra, como
sendo uma condição absurda que proporciona uma quantidade absurda de
ímpeto e energia; a sombra pode ser considerada um momento de desespero
extremo, onde aquilo que mais importa para nós está prestes a ser aniquilado,
e, perante a destruição da nossa representação do mundo, arriscamo-nos sem
244

Após identificar a minha sombra. de uma forma de me posicionar perante o mundo. sem que me sentisse oprimido perante tantas possibilidades. tantas impressões. Outro aspecto que facilitava a definição de qualquer objetivo era a ausência de arquétipos. muito mesmo.pudor. conquistado com muito sangue e suor. tarefa que exigiria muito. por causa de sua potência e a falta de um ideal que amenizasse toda essa potência violenta —. sem receios. de mim. para que possamos salvar aquilo que para nós é importante. Todas essas características me proporcionaram habilidades incríveis. mas após realizada nosso conhecimento e controle sobre o intelecto se tornam absurdamente desenvolvidos. cheio de vontade — em alguns momentos essa vontade chegava a ser assustadora. todo o meu conhecimento. eu me sentia cheio de energia. desvencilharmo-nos de um arquétipo seja uma das tarefas mais complicadas que existem. sem que para isso fosse preciso me desvencilhar de uma estrutura. Talvez. por não possuir um ideal. tanto vazio. tantas dúvidas. passei a utilizá-la constantemente. permitia que eu enxergasse o mundo e a vida de forma abrangente. da forma mais próxima daquilo que as coisas realmente são. 245 . com o intuito de me dedicar aos objetivos que eu propunha para mim. tornei-me capaz de direcionar minha vontade para onde eu bem entendesse. sem objetivos pré-estabelecidos.

caso contrário. com a incerteza dos nossos conceitos e com nossos desenvolvimentos inconscientes incoerentes. Todos esses aspectos primitivos devem ser superados!” Autor desconhecido 246 . sem suportarmos as consequências da falta de definição das coisas à nossa volta. que tanto nos incomodam. que nos faria sentir como se fossemos culpados por muitos dos acontecimentos ruins. desse modo eliminando a culpa que. com a fragilidade do nosso intelecto. fugimos loucamente da falta de precisão. criamos as mais variadas explicações preconceituosas e infundadas. recairia sobre nós. Todas essas características têm relação com a fragilidade humana. Além dessa autoproteção natural. de acontecimentos. colocando a responsabilidade daquilo que consideramos como sendo tragédias cotidianas sobre qualquer coisa que não seja nós mesmos. quando se trata da definição de fenômenos.“Nós sempre estamos culpando outras pessoas.

não me sinto cansado. hoje me sinto completamente separado de uma concepção individual primitiva. e hoje posso considerá-lo forte. com minha alma se tornando diminuta e insegura. sinto-me capaz de estruturar qualquer tipo de arranjo da alma. que exigem uma construção conceitual quase que completa. Quando um arranjo de alma não mais me é necessário. por um curtíssimo período de tempo. daquele indivíduo que eu era há. sem levar em consideração parâmetros exteriores a mim. e direcionados estritamente às minhas particularidades. a ponto de introduzir em minha mente o desespero profundo e insuportável. Em cada nova tarefa. em cada novo ambiente ou situação. eu simplesmente o abandono. a uma tarefa que prometia. desde sempre me esforcei para fortalecer o meu espírito. anteriormente primordial e inquestionável. com violência. que considero evoluído. imponente. que não mais estão presentes em minha vida. deleto. mais perfeita. e. antes tão comuns. por completo. aterrorizado. sinto a satisfação mais sublime. até que essa atingisse as dimensões do espírito. sinto-me ocupando toda a dimensão do espírito. tornaram-se parâmetros longínquos. Desde que adquiri esse arranjo psíquico. sinto-me pleno. a realização do desejo primordial do intelecto. em minhas atitudes. ou impotente. dessa forma sanando meu desejo primordial. o que passou a ser. ao menos em minha mente. muito tempo atrás. abrangentes e ininterruptas. que impunha concepções pré-determinadas à minha alma. torneime capaz de sentir aquilo que muitos classificam como sendo o nirvana. inabalável e incansável. possuindo a máxima potência possível. tornando-a maleável e independente de aspectos físicos. e que era direcionada. que abastecia meu corpo com uma energia proveniente das profundezas do intelecto.Um ambiente complexo exige um ser complexo Minhas análises são complexas. Mas esse acontecimento dura muito 247 . acuado. Sem um direcionamento fisiológico e limitado. expandir minha alma. em êxtase. Diferenciando-me. Essas características.

não mais seja penoso para mim. no qual estou inserido. fazendo com que o cenário complexo e múltiplo da existência. que sinto. desnecessariamente. encontro-me atarefado. na maior parte do tempo. 248 . adquiri uma interpretação completamente diferente daquela que anteriormente direcionava e ocupava a minha mente.pouco. que se aproxima da realidade. o ambiente. desse modo. vai sendo reconstruído. tarefa essa que exige uma construção contínua. em toda sua intensidade exacerbada. que me permitem tornar-me mais eficiente e abrangente. sem deslocamentos. Tendo consciência desse arranjo abrangente. uma estrutura que eu não gostaria de abandonar tão facilmente. em sentir o nirvana. Durante o retorno do nirvana. logo minha mente estrutura um novo arranjo de alma e me vejo apartado da satisfação mais sublime. pois. acumulativa. e. às vezes. empenho-me. preocupado em estruturar uma alma e um espírito que melhor me situem em meio ao ambiente e aos meus objetivos. considero-me detentor de habilidades e de conhecimentos raros. tornando-a. Após a elaboração e a implementação de todos esses conceitos. e que foi percebido por mim sem filtros. melhor dizendo. ou. que considero incrivelmente condizentes com tudo aquilo que percebo. muito raramente.

” Autor desconhecido 249 .“— Suas impressões são precisas. Suas interpretações — por mais que eu tente refutar e enxergar como erradas. pois você possui uma constituição que muito me impressiona. a uma meta. a realidade e a natureza das pessoas. com precisão espantosa. Ulrich. enxergo aspectos que contêm uma lógica muito aquém da minha capacidade de observar e classificar as coisas. Fico impressionado quando tento constatar a veracidade de suas interpretações. e que me faz sentir receoso perante minhas crenças e características mais profundas — relatam. utilizando-as como base para minhas análises. mas você é incapaz de direcioná-las a um objetivo.

que a mente é exímia em elaborar. cansativo. onde uma grande quantidade de acontecimentos ocorriam ao mesmo tempo. até mesmo. e que faziam com que ele se sentisse constantemente desesperado ou absurdamente satisfeito. constantemente. ele se sentia como que “pensado”. ou. fazendo com que seu cérebro chegasse. em alguns casos não tão raros. a doer. pois a construção do cenário à nossa volta é sempre cansativa. mas sim da compaixão mais profunda e sincera. pois habitualmente nos deparamos com a nossa constante recusa em reestruturarmos nossos conceitos. mentalmente exausto. entretanto. todos os desenvolvimentos sem fim. Esse acontecimento era exaustivo. era um 250 . desesperados. As mais variadas impressões — que o ambiente agitado lhe suscitara — vagavam descontroladas pela sua mente. Seu espírito era impelido a reconstruir. Esse aspecto. tornandoa digna não apenas de condolências. atônito. aquilo que vinha junto com essas mudanças abruptas e contínuas eram interpretações exageradas. extremistas. observando. Longe de qualquer tipo de controle mais efetivo de seus pensamentos. por si só. ininterrupta. ele se deitou. característica essa que agravava ainda mais a situação. suas construções conceituais. dor essa que era facilmente justificada. na cama. imagine uma mudança constante. em função das situações que eram desenvolvidas por ele. já exaustiva. possuidor de um dom que mais parece uma maldição. é digno de condolência. Se uma pequena mudança é capaz de deixar qualquer um cansado. permitindo o desenvolvimento de uma infinidade de linhas de pensamento — característica essa que poderia incomodar uma mentalidade que não possui um arranjo exato e cegamente direcionado a algo —.Alguns aspectos da sensibilidade Após retornar de um ambiente agitado. exigindo um esforço intelectual incomum. Esse homem complexo — que agora se encontrava esparramado pela cama —.

que a realidade é extremamente eficiente quando se trata de desconstruir ideais. por muito tempo. como a dele. Mesmo possuindo a habilidade de estabelecer ideais para si. permitindolhe manter. os ideais longínquos e inverificáveis eram impossíveis de ser construídos. Ainda deitado na cama. afastando-se daquilo que primeiramente lhe encantava e fornecia conceitos muito úteis para a construção de um ideal. lógico. característica essa que. Após várias tentativas ele havia se tornado um habilidoso construtor de ideais. que se encontrassem distantes de uma verificação minuciosa. ele. plausível. conceitos que limitavam as suas impressões. se preocupava em fortalecer sua mente. Preocupando-se em não manter contato com os ideais que eram tão arduamente construídos. desde sempre. Tendo em vista esses parâmetros. ele incitava a lembrança de seu ideal mais habilmente construído. para uma mentalidade cética. para depois. que ele esperava não ser muito distante. por causa da proximidade.combatente à altura das condições que a vida lhe apresentava. abrangente e de senso crítico apurado. ele se esforçava para observar qualidades sublimes nas coisas. 251 . pois ele sabia. desenvolver em sua mente. sem ideais. com o intuito de que eles iriam eliminar a hiperatividade da mente e restringir a quantidade imensurável de informações que a realidade nos apresenta. que sempre exagerava. fazia com que qualquer ideal fosse de difícil manutenção. restando-lhe apenas um tipo de construção de ideal. para que em um futuro. organizando seu espírito em função dessa lembrança e fugindo das inumeráveis impressões que tanto o atormentavam. em sua incrivelmente alucinante multiplicidade. ele conseguia evitar que a realidade desconstruísse suas construções. ainda assim. próximo. ele se esforçava para estabelecer ideais longínquos. sendo ele mais verificável. Ele constantemente tentava criar ideais. o ideal que passava a preencher e direcionar sua existência. sua mente adquirisse a sabedoria e a força necessária para que ele se tornasse capaz de encarar a realidade sem subterfúgios. seu espírito. No entanto.

faz com que meu desespero aumente. assim como não possuía conhecimento suficiente para que me tornasse vitorioso. eu me concentro para ser capaz de definir. O cenário que se formava em minha mente era o mais desesperador. Em meio a minhas vertigens. Minha primeira lembrança ocorreu quando eu tinha apenas 3 anos. a minha condição já delicada. aquilo que procuro. fiquei petrificado perante o cenário que era construído pela minha mente. de maneira ininterrupta. o mundo à minha volta começou a apresentar aspectos incomuns. que se distanciavam da realidade com a qual eu sempre estive acostumado. sendo ele 252 . junto com ela. Essa tarefa de classificação não dura mais do que um breve período. fazendo com tudo à minha volta apresentasse proporções exageradas e irreais. provenientes de um medo incomum. pelo meu rosto. procurando pela minha família que deveria se encontrar em algum lugar por ali. andando desesperado. e. eu não era capaz de desconstruir minhas impressões e objetivos inconscientes.Escrito experimental Antigamente. o lugar onde pertenço. as pessoas com quem eu deveria estar. com exatidão. ainda mais. Em minha primeira lembrança eu estou perdido em uma praia. sem obter sucesso. no entanto. eu paro por um instante. que se alastrou rapidamente pela minha mente. Desde pequeno eu possuía pensamentos incomuns. em busca da obtenção do controle absoluto dos meus pensamentos. Esta constatação agravou ainda mais. em minha empreitada corajosa. o mais absurdamente assustador e obscuro. Naquela época eu ainda não possuía a profundidade de pensamento que possuo atualmente. vi-me inundado por reflexões complexas. No auge do meu desespero. em meio a essa procura intensa. e que verifico não ser a minha família. com precisão. percebendo a minha falta de parâmetros para descrever aquilo que seriam meus parentes. eu me senti ainda mais desesperado. Cada novo grupo de pessoas que encontro. fazendo com que as lágrimas começassem a deslizar. percebendo que não possuía qualquer tipo de parâmetro que definisse o lugar onde eu deveria estar. para estabelecer.

fizeram com que eu pesasse a refletir mais pormenorizadamente sobre o local onde eu pertencia. Uma de minhas tias se encontrava nas proximidades do quiosque e me reconheceu. Quando nos lembramos de algo. e foi desse modo que enxerguei o acontecimento na praia enquanto o narrava. sempre que tento descrever essa experiência a narro como se ela se encontrasse no presente. olhei para as pessoas à minha volta. onde eu pertencia. eu não senti aquilo que esperava sentir. Essa minha primeira lembrança é um cenário que sempre esteve presente em minha vida. que poderiam deturpar a minha experiência original. eu me senti ainda mais confuso. fazemos com que ele se torne real novamente. Meus momentos desesperadores. enquanto eu estava perdido na praia. eu me dirigi até uma família que me pareceu ser receptiva. que eu me policio sobre maneira para não reconstruir. e. Entretanto. carecendo de referências e de aspectos mais abrangentes. a conservação das características do acontecimento original. Como naquela época minha percepção ainda era diminuta. para o lugar onde eu deveria pertencer. que mudou minha vida para sempre. Novamente me vi percorrendo aquele local aterrorizante. sem contaminá-lo com interpretações e conhecimentos posteriores. Ela agradeceu à família que havia me encontrado e me levou de volta ao lugar onde eu deveria estar. Ainda mantendo essa minha forma recém adquirida de analisar. eles logo perceberam a minha situação e me levaram até um quiosque. onde fui anunciado por dois cantores que estavam tocando lá. muito aquém de qualquer tipo de controle que poderia ser exercido por mim. pois é dessa forma que a memória funciona. fazemos com que ele se torne o nosso presente. com essa não construção.muito aquém de qualquer possibilidade real. Ao chegar. o cenário onde essa situação ocorreu é escasso em minha mente. eu mal conseguia pronunciar qualquer tipo de sentença coerente. Não aguentando mais o desespero. Felizmente. não consegui encontrar nenhuma característica que me fizesse sentir pertencente àquele lugar. 253 . tendo como objetivo. mas muito pelo contrário. por mais que eu me esforçasse.

a minha forma de enxergar as coisas. E. que são frequentes. quando eles viam suas proposições absurdas e irreais se perdendo e não mais sendo capazes de esconder o vazio doloroso. Desde muito cedo eu enxergava as coisas dessa forma. eles se voltavam contra aquele que incitou esses acontecimentos deploráveis. completamente diferente daquilo com o que estávamos acostumados a enxergar. são discrepantes. ainda mais. para que minhas opiniões fossem consideradas absurdas e provenientes de alguém sem razão.Essas lembranças. que os iludia e tornava a existência suportável. desde sempre. as interpretações precisas das pessoas. que possuía respostas exatas e imutáveis para todos os questionamentos. fazendo com que aquilo que enxergamos seja extremamente relativo. Quando eles sentiam seus serem refutados. Com o tempo minha discrepância passou a incomodar todas as pessoas com as quais eu convivia. Para todos os iludidos eu representava a pior das ameaças. sem 254 . que serve como base para a elaboração dessas concepções. retornando à falta de pertencimento que passei a sentir quando me encontrava junto à minha família. Desde pequeno. bastando apenas uma pequena mudança de perspectiva para que criemos um cenário.em meio à infinidade de aspectos que possui a realidade — e o mundo virtual que nossa mente criava para definir a realidade. dessa forma todos eles se voltavam contra mim. sentia-me sempre impressionado em meu ambiente familiar. Minha pluralidade e a falta de parâmetros específicos era nociva para todos aqueles que cultivavam. que encaravam a realidade como sendo exatamente aquilo que elas pensavam ser. uma interpretação da realidade. e desde muito cedo eu ficava impressionado com as resoluções exatas. meu jeito os fazia questionarem seus ideais mais profundos e entorpecedores. Junto com essas interpretações eu percebia o quanto nossas impressões sobre as coisas eram mutáveis. me mostram o quanto nossas interpretações e o mundo. característica essa que me fez sentir. virtual. a minha personalidade. tomando como base os poucos aspectos percebidos por nós. como se eu fosse um estrangeiro. algumas características percebidas por nós . um ideal. após analisar algumas das minhas memórias. uma meta. eu percebia que havia a realidade. Todos almejavam me rebaixar. todos eles queriam rebaixar e desmerecer as minhas opiniões.

que provavelmente me entenderia. e vivendo completamente isolado de tudo e de todos. às vezes me fazia questionar minha maneira incomum de ser. e. que percebi nunca ter possuído. por ser incapaz de encontrar alguém com quem me sentisse seguro para me relacionar. Minha busca teve como resultado um autor com quem eu passei a me identificar de modo incomum. assim como a minha busca incessante por uma família. cada vez mais desprezado por todos. tornei-me ainda mais reservado e recluso. sempre me sentia incapaz de encontrar um raciocínio lógico irrefutável nos parâmetros tão essenciais e inquestionáveis das pessoas à minha volta.coerência. desde a primeira página. finalmente. que talvez poderiam me fazer companhia. 255 . Sem nunca conseguir concordar com nada que me era apresentado. rumo às constituições raríssimas. eu comecei a achar que possuía uma constituição que me diferenciava de todas as outras pessoas. Fiquei fascinado com o livro. eu nunca conseguia me submeter aos conceitos daqueles que tanto me odiavam. finalmente foi recompensada. no entanto. encontrou algo incapaz de ser profundamente desprezado. dessa maneira sendo eles capazes de afugentar e ignorar aquilo que ameaçava seus ideais. sendo ele o filósofo Friedrich Nietzsche. Toda a hostilidade que havia contra mim. alguém que se parecesse comigo. Meu senso crítico apurado. Como eu não concordava com nada. Cada vez mais isolado. Por mais que eu me concentrasse para elaborar análises pormenorizadas e extensas. entrei em um site de busca e iniciei minha procura por pessoas com as quais eu poderia me identificar com a seguinte frase: Autores que não concordam com nada. finalmente eu havia encontrado algo com o que poderia me relacionar. O primeiro livro dele que li foi: Para além do bem e do mal. tomei a decisão de tentar intensificar minhas buscas para encontrar alguém que se parecesse comigo. Direcionei essa minha empreitada rumo aos livros. cada vez mais discrepante.

eu saía por aí. As proposições com as quais me identifiquei nos livros de Nietzsche foram suas críticas ao cristianismo. enxergando em demasia e destruindo qualquer ideal que as pessoas tentavam impor a mim. fiquei fascinado com a definição do autor daquilo que seria o nosso impulso mais profundo e essencial. tentando. como um Sócrates contemporâneo. Essas foram apenas algumas das ideias que mais me agradaram. em algum canto da minha casa. enxergava e classificava as coisas. isolando-me em mim mesmo. ainda mais nocivo às ilusões que todos nutriam. Muitas vezes eu permanecia imóvel. meu conhecimento fez com que me tornasse ainda mais discrepante. Infelizmente. pois tudo em seus livros era mágico. não mais conseguia me enxergar como não possuindo um pensamento refinado e uma constituição conceitual múltipla. filósofos que me vi obrigado a conhecer. tranquei-me 256 . sempre quando possível eu tentava ler alguma passagem de seus livros geniais. sua crítica à moral – à definição inquestionável. Mesmo com a minha falta de erudição. mas não menos importante. tornei-me recluso. não me desvencilhava da tarefa de entender tudo o que os seus livros propunham. Após vários livros.Meu novo amigo passou a me acompanhar em todos os lugares. ainda mais incomum. por causa da minha falta de conhecimento daqueles que eram criticados. de uma forma exaustiva. pensando sobre as mais variadas informações contidas nos livros. tornei-me incapaz de me imaginar antes de absorver todo aquele conhecimento. Sentindo que ninguém tinha nada de relevante a dizer. transformador. o jeito como eu pensava. dogmática. sendo ele a vontade de potência. sem rumo. Não demorou muito para que as conversas das pessoas à minha volta se tornassem insuportáveis para mim. Tenho de admitir que muitas críticas contidas em seus livros me passavam despercebidas. aprimorar. Constantemente me via em meio a pesquisas intermináveis sobre Immanuel Kant e Arthur Schopenhauer. por serem constantemente citados nos livros. daquilo que seria o bem e o mal – e por último. mais me impressionaram. o máximo possível.

como sendo quase que completamente inconscientes e incapazes de realmente enxergar algo. eram miseráveis. Infelizmente. assim como careciam de imaginação e conceitos próprios. Às vezes. Infelizmente. que frequentavam e estimavam as instituições de ensino que tanto me enojavam. Todos eles acabavam 257 . Para mim. todos os pseudointelectuais. em instituições de ensino. todas essas pessoas realmente interessantes. sem nunca terem a capacidade de realmente verificarem aquilo que falavam com tanta convicção. cheia de mecanismos de proteção. considerava-os nada além do que exímios repetidores de conceitos. como possuindo uma alma exata e única. comecei a aprofundar ainda mais meus conhecimentos sobre o espírito. assustadoramente miseráveis e destruídas pelas profundezas do intelecto. inflexíveis. careciam de um espírito amplo e múltiplo. Eu nunca conseguia manter contato por muito tempo com esses que caracterizei como sendo meus verdadeiros professores. por mais que eu tentasse. por mais que eu não desejasse isso. Essas características fizeram com que eu me tornasse um explorador solitário.em minha mente e decidi aprofundar ainda mais meus conhecimentos sobre a psique. por fim. Em contraposição àqueles que se autointitulavam pesquisadores da psique. que lidavam com emoções avassaladoras e conceitos complexos. eu realmente analisava e sentia as informações e parâmetros aos quais me empenhava para desvendar e compreender. que realmente poderia me ajudar em minhas investigações. nunca consegui refutar essas minhas impressões. eu me deparava com pessoas que realmente possuíam algum aspecto interessante. Os poucos leitores e professores que conheci fizeram com que eu passasse a desprezar o conhecimento adquirido em universidades. tomando como referência minhas próprias experiências e alguns livros. Descobri que a interpretação que eu fazia do ambiente à minha volta era classificada como sendo o espírito. Desde o princípio percebi que a tarefa à qual me propunha seria extremamente complexa e perigosa. Possuindo uma definição mais precisa para um dos assuntos que tanto me interessavam. Passei a considerar os universitários como sendo pessoas que possuíam espíritos duros.

ou eram diagnosticados como possuindo os mais variados problemas. o quão facilmente ela pode destruir uma pessoa. restando apenas o rosto apagado daquilo que um dia foi um verdadeiro ser humano. No entanto. sem qualquer tipo de sentimento ou relação profunda. todos eles perdiam por completo suas características profundas. abandonados. sem se arriscarem em demasia. às vezes me perguntava: quanto de verdade serei eu capaz de encarar sem que me destrua. a busca pela verdade passou a ser meu objetivo mais profundo. fazendo com que as questões complexas e os sentimentos avassaladores fossem abandonados de imediato. desvendando tudo o que tinha para ser descoberto. Em meio à minha mais recente resolução. Percebi o quanto é perigosa a verdade. nunca demorava muito para que eles se perdessem por completo. tentava absorver o máximo de conhecimento possível. ou se suicidavam. não consegui suportar os universitários fazendo discursos sobre o certo e o errado. Sempre que encontrava essas pessoas raras e passageiras. Por um momento eu valorizei a moral. que lhes rendiam receitas médicas intermináveis. Percebendo a fragilidade da nossa mente. não mais repudiei os intelectuais universitários em demasia. não conseguia suportar os conceitos morais e as teorias que tinham muito pouca relação com a realidade. Logo após um breve período. nada além do que regras sem relação nenhuma com a existência. lindas e incomuns. de forma acelerada e ininterrupta. decidi não possuir uma existência falsa e superficial. por mais que sentisse medo de mergulhar no intelecto. assim como um de meus verdadeiros professores? 258 . pois meu tempo com esses seres raros era sempre limitado. fazendo com que os remédios os tornassem zumbis. mesmo sendo essa pessoa a mais forte de todas.por adquirir algum vício – sendo esse vício tanto químico quanto comportamental. para que em seu lugar surgisse uma condição superficial e aceitável de existência -. artifício esse que permitia os homens se manterem na superfície do intelecto. escasso. como se esses conceitos fossem a mesma coisa. tentava me aproximar delas da forma mais abrangente e sincera. Por mais que eu sentisse medo. nos dois casos os verdadeiros problemas eram simplesmente ignorados.

mas. sei que a denominação de uma lógica superior para os meus escritos é quase que um pleonasmo. de definir aquilo que percebemos. Este adendo. toda vez que releio. Quase sempre nossos escritos nos parecerão possuidores de uma lógica superior. ainda assim me preocupo em transmitir. a necessidade de que cada um desenvolva suas próprias crenças e modelos para as coisas. onde nós mesmos somos os autores mais habilitados na tarefa de criar sentido.Será que alguém é capaz de enxergar como eu? Mesmo sendo esse um conjunto de escritos despretensiosos. não conto com amigos e colaboradores. talvez tenha confundido ainda mais o leitor. que sentimos. Por causa disso permaneço meio receoso com relação àquilo que minhas palavras irão suscitar na mente das pessoas. minhas impressões para os leitores. sem exceção. talvez algumas sejam incapazes de enxergar aquilo que pretendo expressar. tentando transmitir minhas ideias discrepantes. para que possa transmitir minhas ideias de uma forma que será compreendida por todas as pessoas. Posso afirmar que essa não foi uma incoerência. ainda mais. mas 259 . interpretar meus escritos com uma nova mentalidade. de algumas ideias que tento colocar no papel. de fazer com que as pessoas enxerguem as coisas através da minha forma de vê-las. cada construção. cada passagem. Infelizmente. sobre a melhor pessoa para definir nossas impressões. constantemente. que talvez tenha questionado minha vontade absurda de fazer com que meus textos se tornem compreensíveis. tentando. pois eles abarcam exatamente aquilo que percebemos. que poderiam me ajudar a desenvolver o conteúdo e a apresentação de algumas passagens. Entretanto. Essa característica reforça. mesmo assim. Essa característica faz com que eu releia. com precisão. que possuem uma lógica muito mais abrangente do que muitos outros modelos previamente analisados por mim. e nesse caso me sinto como sendo o principal culpado. pois cada mente é um universo particular. Sei que não irei obter sucesso nessa minha empreitada. uma repetição desnecessária. faço o meu melhor.

quando comparados a suas concepções anteriores. sendo que só me sentirei satisfeito se os conceitos forem adotados. apenas assim. almejo me fazer ser entendido por todos. E. por causa da presença de parâmetros que contêm uma lógica ainda mais abrangente e exata. no entanto. alterarem alguma concepção que não mais consideram exata. 260 . nesse caso. pormenorizadamente. após uma análise pormenorizada. irrefutável. o leitor considerou algumas de minhas concepções dignas de serem absorvidas por ele. pelos meus possíveis leitores. onde. todos os escritos contidos nesse diário visam proporcionar uma nova forma de se enxergar as coisas. essa forma não deve consistir em uma aceitação cega e irrefutável. minhas ideias e. mas sim em uma aceitação cheia de testes pessoais e senso crítico.muito pelo contrário. apenas após isso. para que todos possam analisar.

que cada uma é. com um Dostoiévski. A única viagem verdadeira. ver os cem universos que cada uma delas vê. Pois.” Autor desconhecido 261 . seria não partir em busca de novas paragens. ver o universo com os olhos de outra pessoa. e isso podemos consegui-lo com um James Joyce. um outro aparelho respiratório. e tudo isso não nos serviria para nada. assim como poderíamos dominar tecnologias que nos permitissem nos deslocar através do universo mais rapidamente.“Poderíamos possuir asas. com seus pares verdadeiramente voamos de estrela em estrela. de cem outras. se fossemos a Marte e a Vênus conservando os mesmos conceitos e perspectivas. eles revestiriam do mesmo aspecto que as coisas da Terra tudo aquilo que pudéssemos ver. mas ter outros olhos.

um conflito entre mentalidades é inevitável. perante um mundo indecifrável. de crenças exacerbadas. toda a complexidade e a multiplicidade que a vida nos apresenta -. Mas. que regem a construção do inconsciente coletivo. tornando a existência insuportável. mas nunca sendo capazes de identificar 262 . onde a falta de certezas dá espaço para que nossa imaginação desenvolva os cenários mais pessimistas e assustadores. No entanto. alguns ignorantes escrevem sobre tais crenças. a emburrecer para se adaptarem ao ambiente em que estão inseridos. e culturas. Cada cultura despreza aquilo que desafia suas crenças. são incapazes de determinar com precisão todos os acontecimentos com os quais nos deparamos. dessa forma. pré-estabelecidas e exatas para o comportamento humano. quando comparados com a realidade. Nesse ambiente burro. que mata qualquer resquício de inteligência.A burrice coletiva É um absurdo estabelecermos condições imutáveis. abraçamos os preceitos morais. exista. podemos perceber as pessoas como possuindo um inconsciente coletivo. Fugindo dessa condição existencial. irreais e intensas. aperfeiçoando-as. mesmo não sendo capazes de assimilar toda a complexidade humana. desde a mais tenra idade. infelizmente. sem tais conceitos irreais e completamente discrepantes – incapazes de identificar e incluir. em suas análises. onde todos são obrigados. tais preceitos morais. aspecto esse que faz com que uma quantidade incrivelmente gigantesca de interpretações. suportável e homogênea. isso é imprescindível para que possamos criar definições para muitos dos acontecimentos com os quais nos deparamos ao longo de nossas vidas. que se tornam absolutamente necessários. mas garante uma vida segura. Nesse contexto. sofreríamos com sentimentos ainda mais desesperadores. característica essa que seria capaz de nos destruir facilmente.

sejam simplesmente desacreditados. mas que simplesmente permitem que mantenhamos nossas crenças entorpecedoras. que o ser humano seja capaz de suportar a existência sem recorrer a conceitos irreais e ridículos. É dessa forma que estabelecemos nossos conceitos. sendo usurpados pelos estúpidos. que faz uso de Dostoiévski e de Schopenhauer. A sociedade é estruturada para permitir a existência da humanidade. adotando parâmetros que sabemos ser irreais. inútil e perigosa. vamos avaliando todas as pessoas e os acontecimentos com os quais nos deparamos. Os verdadeiros grandes pensadores permanecem indecifráveis para a maioria das pessoas. que os tomam como referência. que ameaça tais valores vigentes. após tantas ilusões e conceitos irrefutáveis. estabelecendo perspectivas profundas. ainda mais. alguns grandes pensadores dão um sopro de vida para as pessoas. Um grande exemplo disso é Freud. odiados e excluídos. com seus escritos e proposições.e escrever sobre a verdadeira proporção das coisas. que apresentam soluções capazes de eliminar a necessidade de uma existência burra. essa característica dos nossos julgamentos tem de ser mantida. para propagarem suas ideias limitadas e artificiais. Infelizmente. até certo ponto. sempre com uma concepção limitada e burra. 263 . permitindo. que reforçam ilusões e afastam. criando uma antirrealidade que permite a manutenção da vida. que nos afastam do desespero. transmutando a ideia de grandes pensadores para estabelecer teorias limitadas. que não se aproxima da realidade. cheia de ilusões entorpecedoras — onde o homem tem de abandonar sua humanidade para se tornar um autômato —. Assim. fazendo com que aqueles que possuam uma concepção discrepante. que não se aproxima da verdadeira proporção das coisas. Alguns poucos tomam conhecimento da nossa razão prática. o ser humano de sua verdadeira constituição. Mas essa característica é. e estimulada. ou sobre parâmetros mais profundos que servem como base para a definição de qualquer tipo de comportamento e crença. mesmo em meio a esse cenário limitado onde nos sentimos impotentes. Mas. que se torna irreal e limitada.

permitiu que eu adquirisse uma perspectiva importantíssima. finalmente. sem tentarem entendê-la em todas as suas nuances. e as expõem aos alunos como sendo verdades absolutas. para atrair os franceses para o 264 . o livro me mostrou que os professores simplesmente decoram algumas informações.Aula de história Considero-me muito sortudo por ter lido o livro Guerra e paz em tenra idade. Recém-saído da universidade. que antes eram indecifráveis para mim. auxiliado às condições climáticas rigorosas da região. com relação a muitas coisas com as quais eu me deparava na minha vida. toda vez que repetia as palavras: “terra arrasada”. — Os russos aproveitaram a extensão do seu território. Ele era um professor novo. exigindo que os mesmos absorvam aqueles conceitos infundados. ele me mostrou o quanto os professores não estudaram e não entendem os assuntos que estão expondo aos alunos. ele expunha com convicção seus conhecimentos adquiridos naquela instituição. que se tratava das guerras napoleônicas. e os reprovando se não são capazes de enxergarem o mundo dessa forma limitada e pré-concebida. dando ênfase à “estratégia russa” de combate. tanto em idade quanto em tempo em que exercia a profissão. que foi estabelecida após uma aula de história. sendo essa incompreensão extremamente pungente. O conhecimento que o livro me proporcionou. acima de tudo. sem as relacionar a nada. Esse livro me proporcionou uma perspectiva mais coerente. e que descreveu toda a campanha francesa em território russo. fazendo com que eu. fosse capaz de compreender algumas coisas. classificando-a como um grande trunfo da inteligência russa. e que o professor falava com orgulho. que era uma das mais renomadas do país. ficava entusiasmado. o livro me permitiu perceber o quão ineficiente e limitado é o ensino escolar. com suas palavras simples e certeiras. Liev Tolstói me permitiu perceber tudo isso. Mas.

arraigada pela religião ortodoxa que incutiu na mente dos russos a relação de Napoleão com algo como que um anticristo — foi simplesmente ignorado pelo professor. onde os franceses. na guerra contra Napoleão. Eu me contive perante a essa explanação simplificada e errônea. eu odiava ouvir aquele imbecil falar.F. Aquilo foi demais para mim. que era constituída.. Fiquei triste por ver que o verdadeiro herói russo. preferiam queimar e destruir todos os seus pertences — mesmo com as represálias das autoridades — do que entrega-los a esse ser que era visto como sendo um demônio. foi esquecido. Fiquei espantado em não ouvir o professor mencionar as represálias do governo russo ao recuo do exército. Minha indignação beirou o absurdo quando um C. acreditou em sua percepção e estratégia. Fiquei calado e indignado. 265 . queimando todas as cidades e provisões. Comecei a pensar em como seria a reação de Tolstói se assistisse a essa aula. em grande parte. Kutuzov foi um general corajoso. que era suscitado pelo medo ao exército de Napoleão. babaca elogiou os russos. proveniente do desespero da população russa. pois tinha visto uma matéria que falava sobre um robô que foi construído para identificar indícios de vida em outros planetas. que parecia ser invencível. Era insuportável ouvir o meu professor. com isso enfraquecendo o exército francês. deixasse de ser um exército e se transformasse em um bando de saqueadores. ele questionou a existência da vida na terra. que ele considerou como sendo o exército francês após a grande batalha de Borodino.. sucumbiram de maneira vexaminosa. que por enxergarem Napoleão como um anticristo.D. sobre a campanha de Napoleão em território russo. o que possibilitou uma vitória esmagadora do exército russo em um combate posterior. que por si só incendiou a grande Moscou. pensando nos verdadeiros motivos da derrota francesa. e deixou que o “animal ferido”. por serem capazes de bolarem essa estratégia. que foram apresentados de maneira abrangente e direta no livro Guerra e paz. por edifícios de madeira.interior do país. que se encontravam em condições deploráveis. pois ela é um ótimo isolante térmico. que enfrentou o desprezo de grande parte do exército russo. sabendo que aquilo que ele chamava de “estratégia da terra arrasada” na verdade era uma consequência menos organizada e despretensiosa. Pensei em como o grande responsável pela vitória russa — que o livro deixava claro como sendo a ideologia russa. um dia.

em um dos bancos de concreto no pátio. e que eu nunca seria capaz de me permitir ser. eu não me deixei emburrecer. talvez ele tenha se tornado o tipo de burro idiota que a escola almeja criar. eu ficava sentado no fundo da sala. eu tinha que me deparar com esses tipos de comentários. que deturpa todo o conhecimento e dá formatos absurdos para tudo? Pior que os seus comentários eram valorizados em demasia. Depois daquele dia eu nunca mais prestei atenção a nenhuma aula.mas que quando testado no planeta Terra não indicou a presença de vida. e fiquei sentado pensando. No final. 266 . Fui abrigado a me retirar daquela sessão emburrecedora. fazendo qualquer coisa que não fosse prestar atenção às merdas que eram pronunciadas por todos. quanto de estupor é necessário para que uma mente se tornasse aquela porcaria. eu me tornei muito melhor do que todos eles.

O estudo da linguagem normatiza essas associações geradas pelos símbolos. Eles são o elemento 267 . que podem ser assimilados pelas pessoas. os conceitos e parâmetros eram regidos através desses símbolos insondáveis. já sentimos. possamos expressar todas as coisas de forma clara e precisa. do nosso conhecimento. a gramática existe para que as pessoas possam se comunicar. que têm como elemento mais profundo a necessidade.A mente se estrutura na forma de linguagem Antigamente. A linguagem permite que as pessoas expressem o que sentem. denominando parâmetros naturais e que poderiam ser analisados. de alguma forma. nossa percepção parece apenas notar e assimilar àquilo que esteja. não mais dando possibilidade para que se façam críticas e comentários sobre as palavras utilizadas para que fosse transmitida uma ideia. ela também compara as linguagens. A gramática geral estuda as relações das linguagens com as coisas e sua identidade em relação aos idiomas primordiais. conseguindo expressar e suscitar sua subjetividade em outrem. No classicismo. A evolução da linguagem nos permite elaborar discursos mais precisos. podemos estudar a evolução das ciências e da interação do homem com o meio. esses símbolos tornaram-se determináveis. proporcionando o entendimento de expressões por intermédio da associação do que é dito com o que já vivenciamos. Através da linguagem. os símbolos definiam coisas divinas. um dia. Os conceitos se formam em torno desses símbolos. Os símbolos (as palavras) têm uma relação de semelhança na mente das pessoas. assim como o dinheiro normatiza as trocas. relacionado a um símbolo pré-estabelecido. já percebemos. fazendo emergir conceitos profundos. Quem sabe. A comunicação só é possível através dos verbos. uma com as outras. O verbo expressa condições de tempo e a condição que a pessoa se encontra. onde antes — por causa da falta de clareza no discurso — apenas havia o comentário. permitindo-as a função crítica. eles nos possibilitam expressar o que sentimos nas profundezas do ser. que se situavam para além da nossa percepção.

para evitar esse problema. que complicaria muito a expressão do que sentimos. possibilita-nos a comunicação. Não podemos negar que toda a linguagem tenta se aproximar. etc.principal da linguagem. remetem. utiliza suas construções como referências relacionadas a esses primeiros modos de comunicação. quando articulados e utilizados no discurso. mas se ela fosse constituída somente por verbos. quando não se aproxima. foram instituídos os sujeitos. Uma linguagem mais primitiva como o hebraico. ainda estaríamos urrando palavras que não expressam nada. de ser. cada vogal é capaz de conter uma imensa linha de ligações ocultas. o máximo possível. O modo como as palavras foram criadas. Nos primórdios da linguagem. Gritos de dor. teríamos um vocabulário gigantesco. da natureza das coisas. os acontecimentos eram utilizados como comunicação. riso. ao que querem dizer. em grande parte. choro. 268 . rumo aos primórdios da linguagem. os adjetivos. e vários outros elementos da linguagem. podemos constatar isso quando feita uma indução reversa. O verbo é o principal elemento da linguagem. tem as suas palavras diretamente extraídas das situações cotidianas. A linguagem toma como base esses elementos de comunicação primitivos. que. ao que realmente expressam. eliminam a necessidade do uso de um verbo em particular para designar determinada maneira de sentir. torna-se ineficiente. sem eles.

quando não mais nos deparamos com a desilusão.“De uma forma estranha. mas. nós desvalorizamos nossos pensamentos assim que os experimentamos. Nós acreditamos ter alcançado a verdadeira proporção dos nossos conceitos profundos. mesmo assim. esses conceitos voltam a nos influenciar e a ser imprescindíveis para nós. permanecendo inalteráveis na escuridão.” Autor desconhecido 269 . que a realidade nos oferece.

270 . faz com que tenhamos uma concepção limitada e capciosa das coisas e dos nossos sentimentos. Por mais que nos esforcemos. quando comparado com a verdadeira consequência dos acontecimentos. nós possuímos interpretações. Esses parâmetros. em uma condição onde nossas concepções não são exatas e irrefutáveis. fazendo com que nosso cenário virtual se torne ainda mais exagerado e irreal. que irão nos direcionar ao longo de nossa existência. preconceituosas. onde os conceitos sempre são limitados e insuficientes. que afugenta os efeitos nocivos que uma concepção indefinida pode nos causar. Cada novo acontecimento. que. cada novo arranjo ou sensação. estão situados para além da realidade efetiva. com os quais nos deparamos ao longo de nossa vida. é rapidamente definido em nossa mente. conceitos. Nesse ambiente. fazendo com que nos ausentemos ainda mais da realidade. que definem as coisas à nossa volta e nos orientam perante tudo aquilo que percebemos. vamos implementando interpretações capciosas para aquilo que não nos apresenta uma resposta imediata e exata. ao longo de nossa vida. sem nunca mantermos um conceito em aberto. Essa nossa característica intrínseca. Deparados com o quanto a maioria das coisas e dos acontecimentos são misteriosos e inexplicáveis. que têm relação direta com nossos conceitos anteriormente estruturados.A realidade destrói tudo? Nas profundezas da nossa mente. percebemos o quanto. que cria interpretações instantâneas. vamos criando motivos e interpretações para muitas das coisas com as quais nos deparamos. em um cenário virtual. a nossa concepção virtual da realidade permanece completamente discrepante e incapaz de elucidar. capciosas e completamente relativas. por mais que seja abrangente e englobe fatores complexos. nunca irá deixar de ser nada além do que um reflexo da realidade. muitas de nossas sensações e dos acontecimentos com os quais nos deparamos. com precisão.

Perante o cenário mutável. fazendo com que nos deparemos com condições existenciais que muito nos assustam. fazendo com que não nos deparemos com condições que desagradam demais. inconscientemente. de alguma forma. Nesse cenário. Em nossa mente. desenvolvendo e dando significado para todas as nossas experiências. que iria eliminar os conceitos exatos. desde sempre. tudo aquilo que acontece conosco. que apenas validem nossas crenças e nos impeçam de nos depararmos com a possibilidade de uma desconstrução conceitual. vamos nos atentando a aspectos. assim como um acontecimento satisfatório pode ser o responsável por criar um cenário estimulante e aconchegante para o ambiente em que estamos. assim como nos impede de que sejamos capazes de abandonar conceitos e direcionarmos nossa vontade para onde bem entendermos. Essa nossa fuga inconsciente faz com que estimemos e experimentemos apenas aquilo que. que define aquilo que percebemos e que somos. O medo paralisante. vamos interpretando. e das quais fugimos desesperadamente. percebemos o quanto um pequeno acontecimento que nos desagrada pode ser o responsável por criar um cenário deplorável e assustador para o ambiente no qual estamos inseridos. 271 . cada pensamento tem o poder de determinar a forma como se estrutura o ambiente à nossa volta. que sentimos perante nossas construções virtuais desesperadoras. que sentimos. já está bem estruturado e definido na nossa mente. onde nada permanece inexplorado e onde nossos pensamentos flutuam incessantemente. faz com que deixemos de desconstruir conceitos. faz com que deixemos de possuir novas perspectivas e interpretações para as coisas. nossas incertezas são constantemente contornadas. pessoas e perspectivas que apenas reforcem aquilo em que acreditamos. que eliminam a pluralidade e a indefinição das coisas. Incitando um cenário perturbador e desagradável.Guiados por nossas crenças exatas.

. incitando um turbilhão de memórias e sensações.. por mais que você tente alterar tais definições preconceituosas.“Sabe aquela sensação. Você não percebe que tudo isso é inútil? Eles já criaram uma concepção embasada na cor da sua pele.” Autor desconhecido "Não sei o motivo que faz com que você insista em tentar falar. em tentar se explicar. e tudo o que queremos fazer é desenhar um retrato. em algumas de suas reações. ou escrever o nome de uma pessoa. e. nas ideias anteriormente elaboradas em relação a pessoas que eles consideram ser iguais a você. quando você é criança e o vento toca o rosto. você não pode fazer nada para alterar tais concepções!" Autor desconhecido 272 .

fazendo com que ela encarasse a realidade sem ilusões ou ideais. uma incrível habilidade de fornecer uma interpretação racional para muitos de seus sentimentos e impressões. mutável. exalando uma energia intensa. Em seu semblante era possível perceber que ela era incapaz de se controlar. atributo esse que fazia com que ela desconstruísse qualquer tipo de estrutura bem direcionada. para definir seu caráter.Um relato nada mundano Ela sempre foi uma garota incomum. de ilusões e mecanismos que tornavam as impressões menos intensas. Esse aspecto fazia com que ela se tornasse extremamente inconsistente. com certeza. em que estava inserida. profunda e selvagem. era possível identificar um trauma profundo. Com esse aspecto mutável de sua constituição. que tornavam qualquer acontecimento menos intenso e mais fácil de lidar. de tanta vontade. em todas as direções. Parecia que ela possuía uma habilidade rara. obscura. para um observador mais atento. ou conceito inconsciente exato e inquestionável. sendo ela dependente do ambiente. por memórias 273 . ela constantemente sentia como se o seu mundo estivesse esvanecendo. sua mente tinha uma capacidade incomum de imaginação. que eu nunca vira antes. o que incitava uma força descomunal. ou um objetivo. Toda aquela força era de dar inveja. tornando-se uma pessoa completamente nova em função de cada situação que vivenciava. A falta de ilusões ou uma estrutura exata. a ausência de estruturas e conceitos exatos. no entanto. essa constatação era acompanhada da marcante impressão de uma pessoa que transbordava. como sendo o motivo de tanto ímpeto. ou uma desconstrução que eliminava suas estruturas fracas. por causa de suas ilusões e interpretações exatas e inquestionáveis. faziam com que ela se tornasse capaz de enxergar muitos aspectos que permaneciam escondidos para as outras pessoas. faziam-na sentir uma força intensa. misteriosa e imprevisível. seus conceitos mutáveis. toda vez quando ela encarava uma situação nova. que tinha por objetivo alterar aquilo que se desenhava em sua mente. uma constituição mental incomum. Toda a sua energia era gerada por cenários assustadores. proveniente das profundezas de sua mente. fazendo com que ela se sentisse amedrontada perante cenário desesperadores.

sendo assim.dolorosas. quase tudo. cada nova tentativa. não conseguia ser definida com precisão. aquilo que incitava tal estado deplorável. um encanto profundo. por incrível que pareça — para uma garota que adorava ficar sozinha e que afastava. Uma parte de suas cicatrizes e hematomas não era proveniente apenas de sua vontade indomável. constantemente a via cheia de cortes. em função da falta de referências análogas que poderiam servir como base para uma possível classificação. Eu nunca vi alguém ser tão odiado. como uma chance de salvação. Em outras pessoas. fazendo com que desprezassem. nem capacidade lógica. seu jeito incomum estimulava uma curiosidade intensa. motivados pelos seus aspectos especiais e raros que na mente daqueles que se sentiam atraídos faziam com que se enxergassem como possuidores de tais atributos. fazendo com que agissem em função desses sentimentos e interpretações inconscientes. intensamente. Todos deveriam ter a oportunidade de vê-la. queimaduras e lesões. para retirar da escuridão e trazer para localidades mais iluminadas de suas mentes. capaz de pulverizar qualquer ideal ou conceito exato. ela 274 . ou. que ao menor toque de dúvida já fazia com que ficassem desesperados. e os motivos para tanto eram vastos e variados. ela. Cada nova atividade. sua capacidade de se esforçar era sobre-humana. uma boa parte das suas marcas expressivas foram causadas pelas pessoas que conviviam com ela. melhor dizendo. hematomas. para definir com precisão. por ela. todos aqueles que tentavam se aproximar. que apresentava uma constituição completamente nova. transformar os cenários dolorosos. Quando ela entrava em qualquer recinto. as sensações de desprezo intenso surgiam como algo profundo e misterioso. ela era odiada quase que inconscientemente pelas pessoas. Primeiramente. era vista. como um sentimento forte que essas pessoas não possuíam imaginação suficiente. é sério. sabiamente e cuidadosamente. controlar e alterar tais impressões. tudo em função de suas tentativas intensas. parecia ser uma espécie de demolidora. apenas com seu jeito intenso e único ela fazia com que todos passassem a questionar suas ilusões mais profundas. por ninguém. e tinha como objetivo alterar tudo aquilo que a incomodava. sem serem capazes de mensurar. de alteração de tudo que a atormentava. fazendo com que se sentissem mais fortes e potentes do que nunca antes —.

desconstruir a imagem tão adorada. como se fossem verdades incontestáveis. nas profundezas das mentes de muitas pessoas. ela causava danos aos egos inflamados dos admiradores. faziam com que muitas pessoas percebessem o quanto eram limitadas. Essa depreciação era exercida com primazia. e ainda as pessoas têm a coragem. Para ser mais exato. sendo necessário. Esse motivo. fazendo com que se tornassem pessoas estimadas. e. todo aquele ímpeto incomum. por reforçarem e confirmarem conceitos inseguros. referentes a pessoas com as quais nunca realmente interagiram. tais pessoas ridículas davam uma conotação de certeza e verdade a declarações dolorosas e inseguras dos admiradores. fazendo com que tivessem uma mentalidade diminuta.. por estarem de frente a algo inalcançável. que apenas parece estar muito longe do ódio. a falta de imaginação fazia com que se tornassem suscetíveis àquilo que era dito pelas pessoas como sendo a verdade com relação à realidade. toda a beleza e a intensidade daquela pessoa incrível. 275 . que apenas possuía interpretações superficiais. sentimento esse que era abandonado em função da depreciação e do ódio contra aquilo que incitava tais sentimentos. Mesmo a rejeição sendo sempre a mais educada possível. tornandose um símbolo intenso e lindo. O motivo para tais rejeições era óbvio: aquelas pessoas eram limitadas e não poderiam proporcionar nada a uma pessoa como ela. que os diminuía e causava mal-estar. e alheadas. que todos nós sabemos serem. as pessoas cegas. essa característica fazia com que eles não se investigassem de forma mais profunda e múltipla. por causa de seus conceitos bem direcionados. estúpidas e suscetíveis absorviam todas as palavras proferidas por egos feridos. que apenas eram capazes de enxergar as coisas com uma conotação sexual e nada mais. eles sempre tinham a sexualidade como sendo a motivação e o sentido de todas as suas ações e sentimentos. mas não menos importante. por muitos. de dizer que a beleza não passa de uma simetria facial. esses admiradores se sentiam reduzidos. irreais e exageradas. Por fim. sobre as coisas e os sentimentos.. a ignorância. ou um corpo da moda. que. prontamente.era desenvolvida apenas por interpretações inconscientes. a todo custo. impulsionava muitas pessoas até ela. que prometia recompensas inimagináveis. consequentemente. eram rejeitadas. na grande maioria das vezes.. nesse aspecto. muito aquém daquilo que eram.

com certeza. que me obrigava a manter interpretações distorcidas da realidade. de uma vontade intensa de saber como as coisas realmente são. esperando que com isso eu seria capaz de fazer uma descoberta profunda e essencial. sendo extremamente bem desenvolvida. vinda. era incrível.A união desses motivos criava um ódio generalizado. da culpa. Relembrando alguns momentos. criando uma má interpretação para todos os seus atos. e. de explorar a vida através de acontecimentos. uma das únicas pessoas realmente capazes de perceber toda a raridade e toda a perfeição contida naquela garota. uma conotação egoisticamente ruim para qualquer coisa que quisessem enxergar como sendo ruim. mesmo após ter sido esfaqueada. dotado dessa vontade profunda. ela desmaiou três das agressoras e fez com que duas outras fugissem. que sempre fugiram de sentimentos intensos. muitas vezes até mesmo criandoas. muitos aspectos e motivações abjetas para qualquer coisa. para aqueles que faziam com que eles se sentissem mal com relação a si mesmos. e dando significado para tais experiências com a minha imaginação e minha capacidade de raciocínio lógico. rapidamente. mas isso eu me sentia incapaz de fazer. Nessa época eu era jovem e esperançoso. Sei que esse último relato foi esquisito e exigia uma intervenção. de mim. sendo essas péssimas interpretações criadas pelas piores coisas que as pessoas que a desprezavam podiam imaginar. de sensações. criando. fazendo com que o ato de odiar alguém ou alguma ideia se tornasse ainda mais intenso e perigoso para as pessoas que eles não gostavam. Nessas mentes inconscientes esse ato de autoproteção era interpretado de forma selvagem. impressiono-me em vê-la ainda viva. fúteis e malévolas. desse modo. e achava que possuía 276 . a capacidade de ter sentimento ruins. Essa incapacidade não era proveniente de covardia ou qualquer coisa do tipo. que constantemente fazia com que todas as ações da garota incomum fossem interpretadas como sendo deploráveis. Nessas mentes. com relação a outras pessoas ou acontecimentos ou coisas. primeiramente eu destruí meu ego. em seguida. mas sim de uma curiosidade alucinada. adquirindo proporções gigantescas e irreais. fazendo com que se tornassem capazes de imaginar. nunca vou me esquecer de quando cinco meninas vieram bater nela e. me emprenhei em vivenciar situações incomuns e intensas.

que envolviam apenas aquilo que eles haviam sentido no momento do incidente. cada depoimento envolvia aspectos diferentes.. muitos alunos não conseguiam descrever mais do que sensações próprias. até mesmo. e ao modo como essas vestes ficaram rasgadas e cheias de sangue ao final de tudo aquilo que ocorrera. Após visitar algumas casas e. nem mesmo as testemunhas eram capazes de determinar algo.. Procurando. em busca de uma explicação que determinasse com precisão aquilo que ocorrera. que. definições precisas para o ocorrido. ficaram deformados. alguns alunos davam ênfase às roupas usadas pelos participantes da briga.um cérebro poderoso. mais um acontecimento inútil. ela obteve. incansavelmente. estava começando a incomodá- 277 . em alguns casos. a mais penalizada dentre as garotas envolvidas na briga. a diretora não conseguia compreender os motivos que incitaram o acontecimento desastroso. sendo essas deformações cortes e inchaços. um dos hospitais da cidade. capaz de interpretar. de imaginar. Ah. Mesmo estando em posse de descrições ricas em detalhes.. quando comparados. doce ilusão. aspecto esse que fazia com que o ocorrido permanecesse um grande mistério. se tornou a maior culpada. a diretora suspendeu. A pessoa mais inocente foi a que. até que pudesse averiguar melhor os fatos e definir a punição para o verdadeiro culpado por tudo aquilo. que não me revelou nada e quase custou a vida da pessoa que eu mais admirava. Mesmo não obtendo respostas exatas. A tímida investigação conduzida pela diretora da escola coletou os relatos mais variados em relação ao incidente. que. alguns concentravam seus relatos nas reações das pessoas que observaram o ocorrido. por incrível que pareça. por uma definição precisa. por causa da falta de respostas. a verdadeira proporção das coisas. Aquela briga foi apenas mais um acontecimento que eu não soube mensurar com precisão. ela possuía. finalmente. todos os envolvidos na briga. as descrições dos envolvidos no acontecimento. O aspecto indefinido do ocorrido fez com que a diretora se empenhasse ainda mais em busca de respostas.. por três dias. outras pessoas focavam nos rostos das garotas. pessoalmente.

Ao fim de nossa conversa fiquei ainda mais surpreso quando ela insistiu que eu agia como uma pessoa que estava nervosa. sendo essas construções inconscientes muito assustadoras. Esse acontecimento parece lhe incomodar muito.la muito. que ainda estavam indecisos em relação ao que deviam pensar sobre o ocorrido. as causas e consequências daquilo que ocorrera. a diretora. valorizando aquilo em que elas acreditavam. ou como olha para um ponto 278 . por si própria. A falta de definições precisas dava espaço para que sua imaginação desenvolvesse. As perguntas. a inveja. a interpretarem os fatos de acordo com aquilo em que acreditava a diretora. faziam mais do que confirmar as impressões da diretora. fizeram com que a interpretação dos fatos fosse favorável às garotas que possuíam definições precisas. em detrimento do depoimento inseguro — que envolvia muitas possibilidades. as testemunhas mais relevantes foram chamadas para depor novamente. que eram extremamente dolorosos para ela. que. “Oh. elas induziam os alunos. meu querido. fato esse que não me permitia definir com precisão aquilo que vira. que eram os verdadeiros motivos por trás da briga. e possíveis definições. em posse dos depoimentos do envolvidos no caso. Posso ver o jeito como cruza seus braços. O meu relato foi o único que não se deixou influenciar por crenças alheias. direcionou suas perguntas. No outro dia. Mesmo com minha voz firme e minha atitude segura perante aquilo que era descrito por mim. por serem vastas e complexas. que passaram a ser capciosas. fazendo com que fosse conduzida a cenários e possíveis acontecimentos — sentidos como se estivessem ocorrendo ao mesmo tempo em que eram imaginados —. faziam com que nada pudesse ser definido com exatidão — daquela que passou a ser considerada pela diretora como sendo uma “garota esquisita”. tendo como referência sua interpretação daquilo que ouviu das garotas. toda a injustiça. aquilo que elas diziam ser a verdade. Dessa vez. a diretora insistia em tentar me convencer de que minhas crenças e opiniões eram infundadas. que havia passado por um estresse intenso durante o ocorrido. As descrições exatas e bem direcionadas das agressoras. eu expliquei tudo aquilo que tinha visto.

longínquo. dirigi-me até a recepção. muito tranquilo e relaxado. você é tão corajoso tentando admitir o contrário daquilo que posso ver claramente. o quanto me desgastava. mas é preciso que investiguemos os fatos. ao invés de olhar diretamente para mim. Essa informação fez com que eu 279 . aproveitei minha folga forçada para visitar a única pessoa capaz de despertar sensações intensas em mim. punirmos os verdadeiros culpados de uma das piores tragédias dessa escola. fui informado pela sua mãe de que ela não iria receber ninguém. somente assim. você deve descansar!” “Mas eu insisto. Naquele dia. O caminho que deveria ser percorrido até sua casa era muito longo. meu querido. Tudo aquilo que eu disse antes é o que realmente penso e vejo.. Eu sei o que você está passando. Chegando à casa dela. Irei ligar para seus pais. o melhor a fazer é descansar e evitar voltar a estar em contato com aquilo que lhe marcou profundamente. fazendo com que deixasse de notar muitas coisas à minha volta. um grande equívoco está.. que o faz incapaz de poder me explicar com precisão suas ideias. Quero que você descanse e não se estresse ainda mais. e esperei pela minha mãe.” Percebendo a impotência da minha voz perante aquela mentalidade já definida. ou as mais variadas pessoas com as quais me deparei ao longo do percurso. é preciso que não nos atenhamos a preconceitos e definições infundadas.” “Ah. que não tardou a vir até a escola. para que possamos. isso pode fazer mal para uma criança da sua idade. Minha mente estava focada em algo específico. Eu me sinto muito bem. mas não percebi os incontáveis passos... enquanto isso você ficará na recepção esperando por seus pais. Sei que o ocorrido foi doloroso. fazendo com que eu nem ao menos notasse o quanto me esforçava. irei ligar para seus pais e pedir que venham lhe buscar. quando conversamos.” “Não preciso de nada disso. sei que fazê-lo se lembrar disso o incomoda. para encontrar aquilo que me encantava. Por ver esse seu abalo emocional. sem dizer mais nada.” “Um funcionário irá buscar seus materiais. Posso dizer que.

Então levantei-me rapidamente e andei. por um momento. minhas lágrimas dolorosas. Destituído de um ideal que antes me guiava. um pensamento fez com que as lágrimas escorressem pelo meu rosto. que ardia. absurdamente múltiplo. no entanto. a diretora adentrou a sala de aula e pediu que todos prestassem atenção naquilo que ela tinha para falar. vi-me em um mundo onde ela não mais estava presente. algumas pessoas que se autointitulavam sensíveis — mas que cometiam o grave erro de confundir sensações incitadas por determinações morais-culturais com sensibilidade —. os raios solares intensos. haviam queimado a minha pele. mutável e agitado. em meus pés haviam se formado bolhas e o ambiente à minha volta tornou-se. Percebendo-me em um estado desolado. e pior. em frente à casa dela. 280 . alguns rostos inchados faziam com que a sala se tornasse ainda mais feia e a carteira vazia da minha amiga fazia com que tudo aquilo se tornasse praticamente insuportável. naquilo que tanto me agradava. sempre pensando na pessoa que ali morava. havia desaparecido. que a cada momento parecia tornar-se ainda pior. por mais que tudo à volta deles se alterasse por completo —. novamente. fazendo com que eu sentisse uma dor profunda e atormentadora. Todos os alunos abandonaram suas tarefas e olharam atentamente para ela. quase tudo estava igual ao que sempre fora. De repente. da metade do dia. fiquei receoso de que alguém ali me visse daquela forma. mas. alguns colegas que pareciam possuir o mesmo semblante de sempre — sem nunca alterarem o que quer que fosse em si mesmos.deixasse de pensar. Sentei-me na sarjeta. o ambiente e as pessoas ali presentes ainda me enojavam. quase que involuntariamente. Tudo aquilo que me motivava. que embelezava a minha vida. Contemplei os muros e as janelas da casa. Olhando despretensiosamente para os meus colegas pude identificar as cinco agressoras. pude perceber o quanto estava cansado. e pior. algumas poucas diferenças faziam toda a diferença. novamente. que estimulava. e isso foi muito doloroso. Três dias após o incidente. fazendo com que eu mergulhasse em um oceano de tristeza e desespero. o longo caminho até a minha casa.

sozinho. Quero salientar que atos de violência sempre serão punidos severamente aqui nesta escola. profundamente.“Bom dia. 281 . Ela permanecerá suspensa por uma semana. com o olhar. que os entendam e os ajudem a lidar com suas dores mais profundas. meus queridos. Para aqueles que ainda estão muito abalados.” A diretora interrompeu seu discurso por um breve momento. Gostaria que ninguém se sentisse acanhado em se tratando de conversar sobre aquilo que os incomoda. Obrigada pela atenção. Após uma análise pormenorizada da situação. punimos a verdadeira culpada de toda essa situação lastimável. “Sei que o que ocorreu causou impactos profundos em muitas pessoas. Ela procurou alguém pela sala. nesse período irei me reunir com pais e professores para decidir sobre a possibilidade de uma expulsão definitiva. gostaria de agradecer a colaboração de todos que ajudaram a desvendar os verdadeiros motivos que incitaram uma atitude incoerente e perigosa. e quando me encontrou sua fisionomia se alterou. deixando de ser austera e severa para se tornar tristonha e compassiva. Ao mesmo tempo que externo minha indignação. A presença dela me fez sentir como se estivesse absolutamente. posso garantir que a escola irá fornecer todo o apoio moral nesse momento estressante e delicado.” Ela se retirou e isso me fez muito bem. Quero lhes informar que tomamos medidas severas em relação ao acontecimento deplorável que ocorreu aqui nessa escola na segunda-feira. vocês sempre poderão contar comigo quando quiserem encontrar alguém que os escutem.

Immanuel Kant. .Fiódor Dostoiévski.Friedrich Nietzsche. pela possibilidade de possíveis lacunas em relação ao conteúdo do livro e as obras de referência. Alguns dos livros. . O eu e o id.Sigmund Freud. .Hermann Broch. 282 .Sigmund Freud. Os sonâmbulos. fica difícil especificar quais livros foram utilizados como referência para a produção desse texto. talvez eu nem conheça. Crítica da razão pura. Introdução ao narcisismo. Ulysses.Sigmund Freud. . Psicologia das massas e análise do eu.Sigmund Freud. . O conceito de angústia. .Immanuel Kant. Luto e melancolia.Bibliografia Como mero editor. desde já. . O mundo como vontade e como representação. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. . . . que o autor usou. Notas do subsolo. Metafísica do amor. Mesmo deparado com essa restrição. .Arthur Schopenhauer. desculpando-me.Soren Kierkegaard. irei especificar as obras que consegui identificar no livro.James Joyce. . .Sigmund Freud. Vontade de potência. Crítica da razão prática.Carl Jung.Sigmund Freud.Arthur Schopenhauer. . tornando-se impossível a tarefa de fazer a devida referência à obra. A interpretação dos sonhos. . . O mal-estar na civilização.

.Arthur Rimbaud. . .Jean-Paul Sartre. O capital – livro 1. Investigações filosóficas.Jean-Paul Sartre.Marcel Proust. 283 . O homem sem qualidades. Young Törless .Ludwig Wittgenstein. O existencialismo é um humanismo. A riqueza das nações.Albert Camus.Albert Camus.Adam Smith.Karl Marx. . . . O homem sem qualidades. . . .Liev Tolstói.James Joyce. . .Thomas Mann. Guerra e paz. . O imaginário. O mito de Sísifo. . O jovem Törless. O retrato do artista quando jovem. O ser e o nada.Robert Musil.Jean-Paul Sartre.Albert Camus. Autobiografia de um iogue. A imaginação.Charles Darwin. .Paramahansa Yogananda. . .Karl Marx. .. . O estrangeiro. Em busca do tempo perdido. A montanha mágica. Arthur Rimbaud: Poesia completa.Robert Musil. Formações econômicas pré-capitalistas.Jean-Paul Sartre.Robert Musil. .Jack Kerouac.Robert Musil. A origem das espécies. . . A queda. Carta: A eternidade dourada.

As palavras e as coisas . 284 .Michel Foucault. ..Michel Foucault. Os miseráveis.Victor Hugo. Microfísica do poder.