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O OPERADOR ARGUMENTATIVO NO CONTO SARAPALHA

Ivana Alencar Peixoto Lianza da Franca

RESUMO:

O paradigma da gramaticalização vem se projetando de forma bastante significativa em estudos realizados em vários centros de pesquisa, inclusive no Brasil, o que tem contribuído para a consolidação da linguística funcional no meio acadêmico. Essa corrente linguística tem explorado espaços que o estruturalismo e o gerativismo não conseguiram adentrar, pois seu interesse de investigação linguística vai além da estrutura gramatical, ao se preocupar em estudar a relação entre a estrutura gramatical das línguas e os diferentes contextos comunicativos em que elas são usadas. Motivados por tal panorama, decidimos investigar, neste estudo, os usos do operador argumentativo no conto Sarapalha, do livro Sagarana de João Guimarães Rosa, de 1946, numa tentativa de verificar as ocorrências desse operador argumentativo nessa obra, para então constatar se os diferentes usos desse operador argumentativo são observados no conto.

1 Introdução

O objetivo deste trabalho é investigar as ocorrências do operador argumentativo no conto Sarapalha, de João Guimarães Rosa. Primeiro serão apresentadas algumas notas sobre o paradigma da gramaticalização, em seguida será esboçada a trajetória de gramaticalização que caracteriza o operador argumentativo e finalmente serão analisados os usos desse elemento em Sarapalha.

2 O paradigma da gramaticalização

Gramaticalização é um “processo unidirecional segundo o qual itens lexicais e construções sintáticas, em determinados contextos, passam a assumir funções gramaticais e, uma vez gramaticalizados, continuam a desenvolver novas funções gramaticais” (MARTELOTTA, 1996, p.46). Esse processo de mudança unidirecional se caracteriza por seguir o seguinte padrão de regularidade: descategorização, perda da liberdade sintática, subjetivação, redução fonológica e trajetórias do tipo +concreto > –concreto e espaço > (tempo) > texto. Essa mudança se dá por mecanismos de base metafórica e metonímica. Nessa perspectiva, os diferentes usos dos operadores argumentativos são provenientes de circunstanciadores espaciais, após sofrerem um processo de gramaticalização do tipo:

espaço > (tempo) > texto. Segundo Heine et alii (apud MARTELOTTA, 1996, p.192) “quando se quer arranjar rótulos para novos conceitos, uma das estratégias possíveis é utilizar formas já existentes na língua, estendendo seu uso à expressão desses conceitos novos.” Nessa estratégia os conceitos concretos são utilizados para descrever conceitos menos concretos e mais difíceis de serem conceptualizados, de acordo com a seguinte escala: pessoa > objeto > atividade > espaço > tempo > qualidade. Seguindo essa escala de abstração crescente, o item lexical pode transcender o mundo do espaço e do tempo e passar a domínios mais abstratos, tornando-se, desse modo, um elemento de função argumentativa e entrando definitivamente na gramática. Portanto, a “gramaticalização leva

o item lexical a funcionar como operador argumentativo, assumindo funções referentes à organização interna do texto”. (MARTELOTTA, 2004, p.82)

3 Operadores argumentativos

Os operadores argumentativos são elementos que não só desempenham funções

gramaticais, mas também dão uma orientação argumentativa ao discurso. Eles são elementos mais fixos na cláusula e apresentam a função básica de organizar internamente o uso da língua e não fazer referência a fatos do universo biossocial. Os operadores argumentativos podem desempenhar várias funções, entre elas: fazer alusão a dados do texto já mencionados ou por mencionar (função de elementos anafóricos ou catafóricos);

ligar partes do texto, dando-lhes uma orientação lógica (função de conectivos); operar estratégias argumentativas, chamando a atenção do ouvinte para elas. Segundo Martelotta (2004, p.84) o ponto de partida dos operadores argumentativos geralmente se identifica com advérbios, que vão passando sucessivamente a apresentar novas funções de caráter gramatical; são, também, elementos cujos usos apresentam maior regularidade. O mais importante mecanismo de mudança envolvendo o surgimento de operadores argumentativos é a pressão de informatividade. Nesse mecanismo de mudança o elemento linguístico passa a assumir um novo valor, que emerge de determinados contextos em que

esse sentido novo pode ser inferido do sentido primeiro. Esse mecanismo de mudança explica a passagem de (marcador de contra- expectativa) > (comparativo). O trecho a seguir exemplifica o caso de como marcador de contra-expectativa:

Ex.1: Foi num vestido azul que ele a viu pela segunda vez, no terço de São

Sebastião

(Sarapalha, p.153) Nesse exemplo, o além de expressar noção temporal, apresenta uma característica típica dos marcadores de contra-expectativa, pois ocorre em cláusulas que expressam situações contrastivas em relação às informações anteriores. Ou seja, as cláusulas

gostava dela e já lhe tinha amor são contrastivas em relação ao fato de só tê-la visto pela segunda vez, que suscita uma expectativa contrária. Em alguns contextos, pode-se inferir desse uso de como marca de contra- expectativa um valor comparativo. Ou seja, há ocorrências de cláusulas marcadas por admitindo duas leituras: (= anteriormente, desde o princípio), onde o , mantendo sua marca temporal, funciona como marcador de contra-expectativa; e (= por outro lado), onde apresenta valor comparativo e ao mesmo tempo confrontativo ou contrastivo, uma vez que o elemento , nesses casos, não tem valor de igualmente, e sim de por outro lado. Mas tal ocorrência não foi observada em Sarapalha.

O elemento tem origem no latim (adv.lat.jam) significando já, agora;

imediatamente (hist. sXIII ia, sXIV ya) e atualmente apresenta as seguintes acepções:

Datação sXIII cf. FichIVPM Acepções advérbio

a partir de determinado instante presente, passado ou futuro

1 de imediato, prontamente, incontinente Ex.: saia já daqui

Mas, quando a viu, acompanhando o terço, gostava dela, lhe tinha amor

2

desde logo, então

Ex.: se chover, já ficam desculpados por não vir

3 neste instante, agora

Ex.: já consigo vê-la ao longe

4 logo, em pouco tempo, num instante

Ex.: saiu dizendo que voltava já

5 antes, anteriormente; antecipadamente

Ex.: <uma cena já vista> <a promoção já lhe estava assegurada>

6 no passado, outrora, noutros tempos

Ex.: São Paulo já foi uma cidade tranqüila

7 indica um grau relativo; em todo caso; em parte; até

Ex.: se conseguirmos vencer alguns obstáculos já estamos fazendo muito

7.1 a esta altura, neste momento

Ex.: <já não se importava de ser demitido> <já admite coisas que nunca pensei fosse aceitar>

(http://houaiss.uol.com.br/busca)

4 O operador argumentaivo em Sarapalha

No conto Sarapalha de João Guimarães Rosa, a ocorrência do elemento foi observada em 13 cláusulas, e em todas elas a marca temporal, sua marca fundante, foi mantida. Destacaremos os exemplos que ilustram as diferentes ocorrências desse operador argumentativo no conto:

Ex.1: Tapera de Arraial. Ali, na beira do rio Pará, deixaram largado um povoado

e a rua, sozinha e comprida, que agora nem mais é uma estrada, de tanto

que o mato a entupiu.[ ] E o lugar esteve nos mapas, muito antes da malária chegar. (p.133) No primeiro exemplo acima, esse operador argumentativo expressa noção temporal e significado equivalente a no passado, outrora, noutros tempos.

Ex.2: É aqui, perto do vau da Sarapalha: tem uma fazenda, denegrida e desmantelada;

um cedro alto, na frente da casa; e, lá dentro, uma negra, velha, que capina e cozinha o feijão. (p. 135) Nesse segundo exemplo, também expressa noção temporal e significa neste instante, agora.

Mas, agora, estou

inteiro: [

];

[

]

Ex.3: – P’ra ver!

Esta

carcaça bem que está aguentando

vendo o meu descanso, que está chega-não-chega, na horinha de chegar

(p. 140)

Nesse exemplo, o além de expressar noção temporal, apresenta uma característica típica dos marcadores de contra-expectativa, pois ocorre em cláusula que expressa situação contrastiva em relação à informações anteriores. Ou seja, a cláusula já estou vendo o meu descanso é contrastiva em relação ao passado, quando o personagem se considerava saudável e forte, o que se configura uma expectativa contrária ao presente, marcada por sua doença. Esse marcador também expressa situação contrastiva em relação à cláusula anterior: Esta carcaça bem que está aguentando, ou seja, apesar do físico ainda estar relativamente forte, ele percebe que sua morte se aproxima.

Ex.4: – É de ficar com a cabeça abaixada. Já, já, passa. (p. 143) Nesse exemplo, o já, já, expressa noção temporal, e apresenta significado de logo, em pouco tempo, daqui a pouco. A repetição do elemento se caracteriza por dar ênfase ao seu significado nessa cláusula.

Ex.5: – Na hora, quando a Maria Preta me deu o recado dela se despedindo,

mandando dizer que ia acompanhar o outro porque gostava era dele e não gostava

Tive vergonha dos

E, ela, eu tinha obrigação de matar também, e

Também, nesse tempo, a gente

estava amaleitados, pois não estava? (p. 143) Nas duas ocorrências do no exemplo acima, ambas expressam noção temporal e

significam antes e a esta altura, respectivamente.

mais de mim, eu fiquei meio doido

outros

Todo-o-mundo sabia

Mas não quis ir atrás, não

sabia que a coragem p’ra isso havia de faltar

Ex.6: – [

]

Aqui a febre serve de relógio. Ele está ficando mais amolecido. (p.

149)

[

]

Não quero, falei! Quero mas é ajudar este corpo a se acabar

(p. 150)

[

]

Me larga! Me larga e fala como homem!

 

falei, Primo. Me perdoa

(p. 150)

[

]

Mas, sossega, Primo Ribeiro

lhe jurei que não faltei nunca ao respeito a

ela

(p. 151)

Nas quatro ocorrências de no exemplo acima, a noção temporal se confirma e o significado da primeira ocorrência é agora, nesse instante, e nas demais ocorrências seus significados são equivalentes a antes, anteriormente.

Ex.7: Foi num vestido azul que ele a viu pela segunda vez, no terço de São

Mas, quando a viu, acompanhando o terço, gostava dela, lhe tinha

Sebastião

amor

Desde de-manhã

na porta da casa, saindo para a missa, ela com a mãe e as

irmãs

estava de casamento tratado com Primo Ribeiro

(p. 153)

Nesse exemplo, nas duas primeiras ocorrências, o além de expressar noção temporal, apresenta uma característica típica dos marcadores de contra-expectativa, pois ocorre em cláusulas que expressam situações contrastivas em relação às informações anteriores. Ou seja, as cláusulas já gostava dela e já lhe tinha amor são contrastivas em relação ao fato de só tê-la visto pela segunda vez, que suscita uma expectativa contrária. Na terceira ocorrência o significa antes, anteriormente.

5 Considerações finais

A partir da observação das ocorrências do operador argumentativo no conto Sarapalha, de João Guimarães Rosa, constatamos que esse operador argumentativo, assim como os demais operadores argumentativos, mantém suas características básicas, ou seja, de serem elementos mais fixos na cláusula e de apresentarem a função básica de organizar internamente o uso da língua, o que confirma uma regularidade em relação às ocorrências desse elemento no conto. Das diferentes ocorrências desse operador argumentativo no conto, foi observado que esse elemento, além de expressar noção temporal, característica mantida de sua forma prototípica, apresenta os seguintes significados e freqüência de ocorrências: no passado, outrora, noutros tempos (uma vez) / neste instante, agora (duas vezes) / logo, em pouco tempo, daqui a pouco (uma vez) / a esta altura (uma vez) /

antes, anteriormente (cinco vezes); no que concerne à ocorrência desse elemento apresentando característica típica dos marcadores de contra-expectativa, foram observadas três ocorrências.

REFERÊNCIAS

MARTELOTTA, Mário Eduardo et alii. (Orgs) (2008) Manual de linguística. São Paulo:

Contexto.

MARTELOTTA, Mário Eduardo. (2004) Operadores argumentativos e marcadores discursivos. In: VOTRE, Sebastião J, CEZÁRIO, Maria Maura, MARTELOTTA, Mário Eduardo. Gramaticalização. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras, p. 82-136.

MARTELOTTA, Mário Eduardo et alii. (Orgs) (1996) Gramaticalização no português do Brasil: uma abordagem funcional. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro-URFJ.

ROSA, J. Guimarães. (1984) Sarapalha. In: ROSA, J. Guimarães. Sagarana. 31ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p.131-154.

UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGÜÍSTICA DISCIPLINA: Fundamentos em Sintaxe

UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGÜÍSTICA DISCIPLINA: Fundamentos em Sintaxe (Funcionalismo) PROFESSOR: Maria Elizabeth A. Christiano PERÍODO: 2008-2

O operador argumentativo JÁ no conto Sarapalha

Aluna: Ivana Alencar Peixoto L. da Franca