A RÚSSIA COMO PODER REEMERGENTE NO SÉCULO XXI

:
UMA PROBLEMATIZAÇÃO DO CONCEITO DE “EMERGENTE” EM
PERSPECTIVA HISTÓRICA

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A Rússia como poder reemergente no século XXI:
uma problematização do conceito de “emergente” em perspectiva histórica
Bruno Quadros e Quadrosi
UFPR e Unicuritibaii

Resumo:
Este trabalho objetiva problematizar, sob uma perspectiva histórica, a caracterização
da Rússia como país emergente no sistema internacional crescentemente multipolar
do início do século XXI. Minha hipótese é a de que essa caracterização, advinda do
léxico jornalístico, foi absorvida acriticamente pela academia e carece de uma
fundamentação histórica mais acurada. Como alternativa, proponho o tratamento da
Rússia como ator reemergente no cenário internacional, levando-se em conta o fato
de que a atual Federação Russa é o Estado sucessor do Império Russo e da União
Soviética, entidades políticas que foram centrais em seus respectivos ordenamentos
internacionais.
O trabalho está dividido em duas partes. Na primeira, discuto o conceito de “país
emergente”, aplicando-o ao caso da Rússia. Na segunda, discorro sobre as
interações do que hoje é a Rússia com o ordenamento internacional ao longo do
século XX, passando por períodos de caos e de estabilidade. Na Conclusão, faço
comentários sobre o papel da Rússia como potência reemergente no século XXI,
apresentando as propostas russas para uma nova governança global e discutindo se
o país representa um fator de instabilidade ou de estabilidade sistêmica.
Palavras-chave: Rússia; Emergente; Reemergente; Sistema internacional; História
das Relações Internacionais; Governança global.

2

Introdução
A importância da Federação Russa na atual ordem mundial não é objeto de
polêmica. O território mais extenso do mundo (mais de 17 milhões de km2), um
considerável aparato militar convencional e nuclear, um grande mercado consumidor
(cerca de 143 milhões de habitantes), uma economia diversificada, além de
abundantes recursos ambientais e minerais, são alguns dos elementos que
credenciam o país a ter uma posição estratégica na agenda internacional.
Em decorrência disso, a Rússia vem sendo frequentemente tratada como
uma potência emergente pela imprensa e por parte da academia, o que será
demonstrado adiante. Meu argumento é o de que essa caracterização carece de
uma análise histórica mais cuidadosa, visto que o país, sob outras denominações
(Império Russo e União Soviética), já gozou do status de potência mundial durante o
século XX. O que se vê hoje é o processo de recuperação desse status, após a
deterioração político-econômica sofrida pelo país após a queda da União Soviética,
na década de 1990. Logo, a categorização mais correta, em perspectiva histórica, é
a da Rússia como potência reemergente.
Este artigo pretende discutir o conceito de país emergente e apresentar as
razões pelas quais a Rússia deve ser considerada uma potência reemergente. O
trabalho baseou-se em fontes primárias da diplomacia russa – como o Conceito de
Política Externa e a Doutrina Militar da Federação Russa –, bem como em trabalhos
acadêmicos (artigos e livros) sobre História das Relações Internacionais e política
externa russa.
1. O conceito de país emergente
A despeito de sua utilização – muitas vezes, indiscriminada – na atualidade, o
conceito de país emergente é relativamente recente e não possui ainda uma

3

definição consolidada. É claro o tom eminentemente econômico da avaliação da
emergência de um país, dado seu uso intercambiável com a ideia de país em
desenvolvimento na imprensa, em uma tentativa de superar a ultrapassada noção
de Terceiro Mundo. O Banco Mundial (2011, on-line), por exemplo, classifica como
emergentes as economias de baixa e de média renda, com valores per capita entre
US$ 995 e US$ 12.195.
Por razões metodológicas, este artigo evitará uma abordagem estritamente
econômica e considerará o conceito de país emergente em uma perspectiva mais
ampla, como a resultante de elementos econômicos, políticos e militares. Para os
fins deste trabalho, países emergentes são aqueles que possuem todas ou a maioria
das seguintes características:
(a) Economias entre as maiores do mundo, com significativas taxas de
crescimento econômico;
(b) Processos relativamente tardios de industrialização, ocorridos no século XX;
(c) Recepção de grandes somas de investimentos estrangeiros diretos;
(d) Extensos recursos demográficos;
(e) Considerável capacidade militar convencional e/ou nuclear;
(f) Influência política e econômica sobre seu entorno regional;
(g) Ativismo crescente nos foros internacionais.
Considera-se que os países emergentes são aspirantes ao status de potência
– ou já o são de fato. Em outras palavras, eles desejam posicionar-se em patamares
mais elevados do sistema internacional. Na discussão do conceito de potência,
destaca-se a formulação de Raymond Aron. Para ele:
[...] o status de uma unidade política é determinado pelo volume dos
recursos, materiais e humanos, que ela pode consagrar à ação
diplomática e estratégica. As “grandes potências” de cada período

4

são consideradas capazes de dedicar recursos consideráveis à ação
externa e de conseguir muitos seguidores (ARON, 2002, p.124).

Da capacidade das grandes potências de conseguir muitos seguidores, assinalada
por Aron, pode-se extrair a essência do conceito de soft power elaborado por Joseph
Nye Jr, para quem o soft power é “the ability to get what you want through attraction
rather than through coercion”iii, capacidade que “could be cultivated through relations
with allies, economic assistance, and cultural exchanges”iv, resultando em “a more
favorable public opinion and credibility abroad”v (NYE JR., 1990).
Neste artigo, a variável sistêmica será privilegiada, em que a análise da
emergência de um Estado – neste caso, a reemergência da Rússia – será feita com
base no seu posicionamento histórico no sistema internacional.
A própria caracterização de todos os Estados que compõem o BRICS (Brasil,
Rússia, Índia, China e África do Sul) como emergentes pode ser questionada. China
e Índia dominavam a produção econômica mundial até a ascensão do Ocidente
após a Revolução Industrial do século XIX (THE ECONOMIST, 2006, on-line). Como
será exposto a seguir, a análise do caso russo demonstra que o país já deteve o
status de grande potência no sistema internacional durante o século XX, o que
inviabiliza a adjetivação como potência emergente.
Em pesquisa realizada na Internet, foi promovida uma comparação entre as
ocorrências que envolvem a Rússia como emergente e as que arrolam o país como
reemergente, conforme consta na Tabela 1.
Tabela 1 – Resultados na Internet:
Termo de Rússia + Rússia + Rússia + Rússia
+ Rússia
+ Rússia
+
pesquisa
emergente “potência
“país
reemergente “potência
“país
emergente” emergente”
reemergente” reemergente”
Google
910.000
14.800
29.500
8.830
7
5
Google
118
0
8
0
0
0
Notícias
5

Google
Acadêmico

4 [1] /
7.330

0 [1] / 194

2 [1] / 294

0 [1] / 155

0

0 [1] / 1

NOTAS:
[1] Resultados restritos ao título de textos científicos.
Fonte: Google. Elaboração do próprio autor. Data: 29/05/2011.

O levantamento realizado no mecanismo de buscas Google envolveu o vocábulo
“Rússia”, combinado com as palavras “emergente” e “reemergente”, adicionadas aos
substantivos “potência” e “país”. As combinações de palavras foram pesquisadas em
três ambientes (Google, Google Notícias e Google Acadêmico), com o objetivo de
analisar o tratamento conferido à Rússia por públicos específicos – geral, jornalístico
e acadêmico, respectivamente. Embora não seja possível atestar a relação direta
entre os termos de pesquisa em todos os resultados encontrados – o que
demandaria a análise individual dos milhares de textos –, pode-se inferir que eles
estão inseridos em um mesmo contexto.
Depreende-se da Tabela 1 que a predominância do tratamento da Rússia
como emergente é mais acentuada na pesquisa feita no Google (público geral): os
resultados dos termos de pesquisa caracterizando a Rússia como reemergente
(8.842) representam apenas 0,9% do total das ocorrências tratando o país como
emergente (954.000). No Google Notícias (público jornalístico), não houve
referências à Rússia como reemergente; enquanto isso, houve 126 menções à
emergência do país. Finalmente, no Google Scholar (público acadêmico), as
ocorrências da Rússia como reemergente (156) alcançaram somente 2% das
referências ao país como emergente (7.818).
Os resultados dessa pesquisa comprovam a ampla predominância da
percepção da Rússia como emergente, em detrimento da concepção do país como
reemergente – que é a perspectiva privilegiada neste trabalho.
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2. A Rússia e o sistema internacional
Nesta seção, demonstraremos que, em vários momentos do século XX, os
vastos recursos econômicos, demográficos, políticos e militares franquearam às
entidades políticas antecessoras da atual Federação Russa (Império tsarista e União
Soviética) o status de grande potência no sistema internacional, o que inviabiliza a
caracterização do país como potência emergente.
2.1. Império Russo (1900-1917)
Uma das cinco potências responsáveis pela sustentação do Concerto
Europeu pós-Congresso de Viena (1815) (CERVO, p.49 in SARAIVA, 2007), o
Império Russo detinha um poder significativo nas duas primeiras décadas do século
XX, embora estivesse em um franco processo de degradação político-econômica,
ocasionado por derrotas militares externas e por contestações políticas internas.
Segundo o historiador Paul Kennedy (1989, p.226-227):
O império dos czares era também, na avaliação da maioria dos
historiadores, um membro automático do seleto clube das “potências
mundiais” no século XX que se aproximava. Bastava o seu tamanho,
que, estendendo-se da Finlândia a Vladivostok, assegurava-lhe isso
– como também a sua população gigantesca e de rápido
crescimento, e que era quase três vezes a da Alemanha, e quase
quatro vezes a da Grã-Bretanha.

Em 1913, a Rússia respondia por 8,2% da produção manufatureira mundial,
assentando-se como a quarta maior potência industrial do planeta, atrás dos
Estados Unidos, da Alemanha e do Reino Unido, mas à frente de potências como a
França, a Áustria-Hungria e a Itália. Entretanto, a economia apresentava sinais de
vulnerabilidade: a Rússia havia assumido a maior dívida externa do mundo; e a
indústria era dominada por investidores estrangeiros, interessados nas matérias
primas e no mercado consumidor do país (Ibid., p.198, 228).

7

O reconhecimento do status de grande potência da Rússia foi materializado
pelo o fato de a capital do Império, São Petersburgo, estar no seleto grupo de
capitais europeias que eram sede de embaixadas plenas, ao lado de cidades como
Londres, Berlim, Viena e Constantinopla (KENNEDY, 1989, p.200).
Às vésperas da I Guerra Mundial, a Rússia detinha o maior efetivo militar e
naval entre todas as potências, com aproximadamente 1,35 milhão de homens. O
total de forças mobilizadas pelo Império no transcurso da guerra alcançou 13
milhões de homens, entre 1914 e 1919 (Ibid., p.200, 265).
A retirada russa da guerra em 1918, resultado dos distúrbios políticos
internos, teve impacto direto no desfecho do conflito a favor da Tríplice Entente.
Henry Kissinger (1994, p.231) aponta que uma das razões para o fracasso do
acordo de paz após a I Guerra Mundial foi justamente a exclusão das duas grandes
potências da Europa (Rússia e Alemanha) dos processos de negociação em Paris,
em 1919.
2.2. União Soviética (1922-1991)
Surgida após os anos de conflito mundial, de revoluções e de guerra civil na
década de 1910 e no início da década de 1920, a União Soviética foi submetida ao
isolamento

internacional

pelas

potências

ocidentais,

devido

ao

caráter

potencialmente subversivo de seu regime bolchevique. A gradativa incorporação da
União Soviética no sistema internacional do entreguerras começou com a
aproximação com a Alemanha de Weimar, consumada no Tratado de Rapallo
(1922), passando pela normalização das relações com todas as potências
europeias, em 1924, e culminando na admissão de Moscou à Liga das Nações, em
1934 (RENOUVIN, 1968, p.249-261).

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O conturbado período entre 1914 e 1923 teve um efeito devastador sobre a
economia soviética. Em 1920, a produção manufatureira representava apenas
12,8% do volume produzido em 1913, sendo somente em 1926 que a produção
equiparou-se aos índices anteriores à guerra (KENNEDY, 1989, p.290).
No período entre 1913 e 1938, a União Soviética obteve o maior crescimento
industrial entre todas as potências. Em 1938, a produção foi 7,5 vezes superior aos
números de 1913, como consequência da adoção dos Planos Quinquenais e dos
projetos de industrialização forçada. A participação soviética na produção
manufatureira mundial também aumentou dramaticamente: de 5% (1929) para
17,6% (1938). Ao final da década de 1930, a URSS era a segunda maior potência
industrial do mundo, sendo superada pelos EUA (Ibid., p.290, 318).
A rápida modernização da economia permitiu à União Soviética manter
investimentos em defesa condizentes com o contexto de acirramento das tensões
internacionais na década de 1930, preparando o país para a iminente guerra
mundial. As despesas soviéticas no setor foram equivalentes a US$ 4,5 bilhões em
1938, ficando atrás apenas dos gastos da Alemanha nazista (Ibid., p.287).
Como uma das duas superpotências surgidas com o fim da II Guerra Mundial,
a URSS foi parte importante na conformação dos arranjos institucionais pós-1945. O
mais célebre exemplo disso é a obtenção, por parte de Moscou, do assento
permanente, com poder de veto, no Conselho de Segurança da ONU. O próprio
reconhecimento da estrutura bipolar do sistema internacional da Guerra Fria, muito
recorrente na literatura especializada, é uma constatação do protagonismo da
URSS, junto aos EUA, nos assuntos mundiais pelas próximas quatro décadas
(SARAIVA, p.188 in SARAIVA, 2007).

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O Kremlin desenvolveu uma série de instituições para a manutenção de sua
hegemonia sobre o bloco soviético e de sua influência sobre o mundo. O Conselho
para Assistência Econômica Mútua (Comecon) forneceu ajuda econômica aos
Estados de orientação socialista próximos à URSS. O Pacto de Varsóvia, por sua
vez, foi o contraponto soviético à OTAN, ao mesmo tempo em que objetivou garantir
o controle militar de Moscou sobre seus Estados satélites da Europa Oriental. Por
fim, o Cominform buscou coordenar a atuação dos partidos comunistas de
orientação soviética.
Embora a economia da URSS exibisse vigorosas taxas de crescimento até
meados da década de 1970 (SEGRILLO, p. 96 in FUNAG, 2008), sustentadas, em
grande parte, pelas exportações de hidrocarbonetos, a participação do país no
produto mundial declinou de 12,5%, em 1960, para 11,4%, em 1980, mantendo-se
distante do nível de atividade econômica dos EUA no mesmo período – de 25,9% do
produto mundial, em 1960, para 21,5%, em 1980. Os gastos com defesa, por sua
vez, passaram a representar uma parcela gradativamente maior da economia
soviética, tendo alcançado cerca de US$ 90 bilhões em 1969, em um acréscimo de
aproximadamente 600% em relação aos valores de 1948. No período entre 1948 e
1970, a URSS alternava-se com os EUA no posto de maior orçamento militar do
planeta (KENNEDY, 1989, p.367, 415).
A Guerra Fria justificava essa necessidade de vultosos investimentos em
defesa, uma vez que a estabilidade do sistema internacional bipolar repousava
sobre a paridade estratégica entre as duas superpotências. Por exemplo, a URSS e
os EUA detinham, em 1985, praticamente o mesmo número de ogivas nucleares
estratégicas, cerca de 10 mil cada um. A correlação de forças navais indicava a
superioridade quantitativa da URSS em submarinos nucleares e a diesel e em

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grandes navios de superfícies, mas uma inferioridade no número de aviões navais
em relação aos EUA (KENNEDY, 1989, p.478, 485).
Em meados da década de 1970, iniciou-se o período conhecido como “era da
estagnação” na URSS, marcado pela supressão do crescimento econômico e pela
perseguição a dissidentes políticos, a despeito da declaração, feita no preâmbulo da
Constituição soviética de 1977, de que a URSS havia se transformado em uma
“sociedade socialista desenvolvida” (UNIÃO SOVIÉTICA, 1977, on-line).
Entre os fatores que contribuíram para o desmantelamento da URSS, em
1991, destacam-se a hipertrofia do setor militar em relação ao conjunto da
economia, a inadaptação da economia planificada à revolução técnico-científica da
década de 1970 (SEGRILLO, 2000) e a constituição de um “absolutismo burocrático”
(LEWIN, 2007, p.461), comandado por uma elite dirigente apartada da realidade do
país, conhecida como nomenklatura (VOSLENSKY, 1980).
2.3. Federação Russa (1991-2011)
A conturbada década de 1990 foi marcada pela transição para a democracia e
para a economia de mercado, pelo declínio econômico, pelo crescimento da
corrupção e da criminalidade e por ameaças à integridade político-territorial da
Rússia (QUADROS, 2008, p.5-7). Embora fosse herdeira do vasto arsenal nuclear e
do assento permanente da URSS no Conselho de Segurança da ONU, o país não
possuía os meios materiais para manter a influência da URSS no mundo.
A fragilidade doméstica atribuiu um caráter reativo à diplomacia russa da
época. A Rússia teve de adaptar-se ao ordenamento internacional do pós-Guerra
Fria e de renegociar suas relações com o Ocidente, por meio da adesão aos
organismos financeiros multilaterais (Banco Mundial e FMI), da criação de novos
arranjos institucionais para o espaço pós-soviético e da acomodação com a OTAN.

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Em alguns casos, as posições russas foram flagrantemente ignoradas pelo
Ocidente, como na intervenção da OTAN contra a Iugoslávia, em 1999, realizada à
margem do Conselho de Segurança da ONU (QUADROS, 2008, p.6-8)
A reversão do quadro de decadência viria apenas na década de 2000. A alta
dos preços de petróleo, em conjunto com a centralização político-institucional
promovida por Vladimir Putin, permitiu a retomada do crescimento econômico. A
depressão pós-soviética, no entanto, foi tão profunda, que a Rússia recuperaria
apenas em 2006 os níveis de produção econômica de 1991 – a queda do PIB russo
na década de 1990 foi mais acentuada que a dos EUA pós-Grande Depressão
(RADVANYI, 2007, on-line; SEGRILLO, p. 84 in FUNAG, 2008).
A estabilização política e econômica possibilitou a adoção de uma política
externa mais autônoma e assertiva por parte da Rússia, formulada com o objetivo de
recuperar a influência internacional do país. A ressurgência russa passou a gerar
atritos com outros Estados em ocasiões específicas, como na oposição de Moscou à
Guerra do Iraque (2003), na ameaça de corte do suprimento de gás natural russo à
Europa ao longo da década de 2000 e na atuação do país na Guerra de Agosto
contra a Geórgia (2008). Ademais, as condições favoráveis obrigaram a Rússia a
reelaborar sua doutrina diplomática e militar.
Documento oficial e fonte primária da diplomacia russa, o Conceito de Política
Externa da Federação Russa (2008) contém a avaliação de Moscou em relação aos
fenômenos internacionais recentes, dando destaque ao 11 de setembro e às
mudanças no padrão de conflito contemporâneo. O texto reconhece o fortalecimento
da Rússia e o papel ampliado que o país pode desempenhar nos assuntos mundiais.
O documento também possui críticas ao Ocidente, ao afirmar que “[t]he reaction to
the prospect of loss by the historic West of its monopoly in global processes finds its

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expression, in particular, in the continued political and psychological policy of
"containing" Russia [a]”vi (FEDERAÇÃO RUSSA, 2008, on-line).
A nova Doutrina Militar do país (2010), por sua vez, foi alvo de críticas, entre
outros motivos, pela citação da expansão da OTAN como um dos principais perigos
externos de guerra à Rússia (FEDERAÇÃO RUSSA, 2010, on-line). No entanto, o
conteúdo mais assertivo da Doutrina em relação à sua edição anterior deve ser
entendido como parte do próprio processo de ressurgência da Rússia como poder
de alcance global, caracterizado pela reabilitação de sua economia e pela
recuperação dos investimentos em defesa. O aumento dos gastos militares é muito
mais um projeto de reiniciar os investimentos na infraestrutura militar russa, que foi
abandonada na década de 1990, do que um movimento de militarização com vistas
à adoção de políticas intervencionistas e expansionistas no plano internacional
(QUADROS, 2010, on-line).
Conclusão
Na primeira parte deste trabalho, constatou-se que os conceitos de “potência”
e de país “emergente” são apropriados para caracterizar o processo vivenciado pela
Rússia atualmente. Meu argumento, no entanto, é o de que esse não é um
fenômeno novo no caso russo, o que é demonstrado pelos sucessivos movimentos
de ascensão e de decadência sofridos pelo país ao longo do século XX.
A segunda seção do artigo buscou analisar, em perspectiva histórica, as
condicionantes econômicas e militares do posicionamento da Rússia nas diferentes
conformações do sistema internacional no século XX. Constatou-se que, em virtude
de muitos fatores (extensão territorial, posição estratégica, recursos naturais), a
Rússia sempre foi considerada nos cálculos geopolíticos e de política externa dos
outros Estados. O Império Russo, mesmo em decadência, foi fundamental para a

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estabilidade do Concerto Europeu até o início da I Guerra Mundial. A Rússia
soviética e a URSS tiveram de ser isoladas pelas outras potências para evitar a
difusão do ideário bolchevique nos primeiros anos da década de 1920.
Posteriormente, a URSS teria papel decisivo na derrota do nazi-fascismo e
ascenderia à condição de superpotência no sistema internacional bipolar da Guerra
Fria. A franca decadência econômica e político-militar sofrida pela Federação Russa
após o desmantelamento da União Soviética vem sendo revertida apenas na década
de 2000, em um processo que é equivocadamente percebido como a “emergência”
da Rússia.
Para se ter uma ideia desse movimento de recuperação, os gastos militares
da Rússia foram equivalentes a US$ 58,7 bilhões em 2010 (SIPRI, 2011, p.163), um
valor bastante reduzido em relação ao padrão soviético – aproximadamente 35%
menor em comparação com as despesas em 1969 (US$ 89,8 bilhões), por exemplo
(KENNEDY, 1989, p.367). A economia da Rússia pós-soviética, por sua vez, levou
quinze anos para atingir o patamar produtivo do último ano da União Soviética
(1991), conforme já foi mencionado (RADVANYI, 2007, on-line).
A caracterização da Rússia como potência reemergente – ainda minoritária ou
quase inexistente no Brasil – tem sido crescentemente adotada por especialistas
estrangeiros. O país assim é tratado no título da obra Russia: Re-Emerging Great
Power, editada por Roger Kanet (2007). Jeffrey Mankoff (2009, p.293), por sua vez,
discorre sobre a ressurgência da Rússia no contexto da Guerra de Agosto. Por fim,
Neil MacFarlane (2006, p.43) observa que “Russia is more properly seen as a state
that has recently experienced substantial damage and is attempting to stop the
bleeding”vii.

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O processo de reemergência da Rússia está acompanhado de uma série de
propostas do país para o sistema internacional. O Kremlin tem se articulado, junto ao
BRICS, para a reforma do sistema financeiro internacional, particularmente do
sistema de votação no FMI e no Banco Mundial. A chancelaria russa também apóia
a ampliação do Conselho de Segurança da ONU (FEDERAÇÃO RUSSA, 2008, online).
Apesar da contestação à hegemonia dos EUA e da ênfase em um mundo
multipolar, a Rússia tem atuado predominantemente como um agente a favor da
estabilidade sistêmica. A proposta russa do Tratado de Segurança Europeia tem o
objetivo, de acordo com o Kremlin, de estabelecer um mecanismo pan-europeu de
segurança coletiva que supere a política de blocos herdada da Guerra Fria (Ibid., online). Ademais, a ação russa tem sido fundamental para a estabilidade do espaço
pós-soviético, por meio de instituições econômicas e político-militares de governança
regional como a Comunidade de Estados Independentes (CEI), a Organização para
Cooperação de Xangai (OCS), a Organização do Tratado de Segurança Coletiva
(CSTO) e a Comunidade Econômica Eurasiana (EurAsEC).
Por fim, percebe-se a incipiente formação de um soft power russo nos
domínios da cooperação internacional, das telecomunicações, da religião e da
cultura.

A

Rússia

criou

sua

agência

de

cooperação

internacional

(Rossotrudnichestvo), em 2008, e dedicou cerca de US$ 470 milhões em ajuda
oficial ao desenvolvimento (AOD), em 2010, dirigida principalmente para o região
pós-soviética e para a África (PROVOST, 2011, on-line)viii. O lançamento do canal
televisivo multilíngue Russia Today (RT), em 2005, tem o objetivo de transmitir a
versão russa sobre os acontecimentos internacionais, buscando fornecer uma
alternativa ao predomínio das agências de notícias ocidentais. A Igreja Ortodoxa

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Russa, por sua vez, possui a capacidade de influenciar o comportamento de milhões
de ortodoxos que vivem fora das fronteiras russas. Ademais, a difusão da cultura e
da língua russa tem o potencial de criar empatias no exterior, de que servem de
exemplos os Anos da Rússia na China (2006), na França (2010) e na Itália (2011).

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REFERÊNCIAS
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17

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São Paulo: Saraiva, 2007.
SEGRILLO, Angelo. O declínio da URSS: um estudo das causas. Rio de Janeiro:
Record, 2000.
________________. Rússia: Economia e Sociedade. In: FUNAG. II Conferência
Nacional de Política Externa e Política Internacional: o Brasil no mundo que vem
aí. Brasília: Funag, 2008. p.79-97.
SIPRI. SIPRI Yearbook 2011: Armaments, Disarmament and International Security.
Oxford: Oxford University Press, 2011.
THE ECONOMIST. The new titans. 14 set. 2006. Disponível
<http://www.economist.com/node/7877959>. Acesso em: 09 jun. 2011.

em:

UNIÃO SOVIÉTICA. Constitution of the Union of Soviet Socialist Republics.
1977.
Disponível
em:
<http://www.departments.bucknell.edu/russian/const/77cons01.html#I>. Acesso em:
09 jun. 2011.
VOSLENSKY, Michael. A Nomenklatura: Como Vivem as Classes Privilegiadas na
União Soviética. Rio de Janeiro: Record, 1980.
i

Bruno
Quadros
e
Quadros.
E-mail:
bquadrosequadros@gmail.com.
Site:
http://www.linkedin.com/in/brunoquadros.
ii
Acadêmico do curso de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e bacharel em
Relações Internacionais no Centro Universitário Curitiba (Unicuritiba).
iii
Tradução livre do autor: “a capacidade de obter o que você quer por meio da atração e não por meio
da coerção”.
iv
Tradução livre do autor: “poderia ser cultivada por meio de relações com aliados, de assistência
econômica e de intercâmbios culturais”.
v
Tradução livre do autor: “uma opinião pública mais favorável e credibilidade no exterior”.
vi
Tradução livre do autor: “A reação à possibilidade de perda pelo Ocidente histórico de seu
monopólio nos processos globais encontra sua expressão, em particular, na contínua prática política
e psicológica de ‘conter’ a Rússia [...]”.
vii
Tradução livre do autor: “A Rússia é mais propriamente vista como um Estado que tem
recentemente sofrido danos substanciais e que está tentando parar o sangramento”.
viii
Há que se destacar, contudo, que o montante ainda é significativamente menor em comparação
com a ajuda oferecida pela URSS – cerca de US$ 26 bilhões, somente no ano de 1986 (PROVOST,
2011, on-line).

18

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