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ENSINAMENTOS DE RAMANA MAHARISHI

Tradução de vários capítulos referentes à Prática Espiritual Por Aruna Chela

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2º CAPÍTULO

AUTO-INDAGAÇÃO E SUBMISSÃO

“Eu existo” é a única e permanente experiência auto-evidente de cada um. Nada mais é tão auto-evidente como “Eu Sou”. Aquilo que o povo chama de auto-evidente; isto é, a experiência que adquirem através dos cinco sentidos está longe de ser auto-evidente. Somente o Ser é isso. Portanto praticar a auto-indagação (o “Quem sou eu?”) e ser o “Eu sou” é a única coisa a ser feita. O “Eu sou” é a realidade. “Eu sou isto ou aquilo” é o irreal. “Eu sou” é a verdade, ou seja um outro nome do Eu (Divino). A devoção nada mais é do que conhecer a si mesmo. A análise minuciosa mostra que a suprema devoção (Bhakti- yoga) e o caminho do autoconhecimento (Gnana-yoga) são em essência a mesma coisa. Dizer que apenas um desses caminhos é superior ao outro indica que não se conhece a natureza de ambos. Saiba que o caminho de Gnana e o da devoção acham-se inter- relacionados. Siga esses dois caminhos inseparáveis sem separar um do outro.

4º CAPÍTULO AUTO-INDAGAÇÃO – TEORIA

Deve-se lembrar que no capítulo sobre autoconscientização e auto-ignorância, Sri Ramana afirma que a auto-realização pode ser alcançada simplesmente ao se eliminar a idéia da existência de um Eu individual que funciona através do corpo de da mente. Poucos de seus discípulos adiantados eram capazes de conseguir isso rápida e facilmente, mas outros achavam virtualmente impossível livrar-se dos hábitos enraizados de que deveriam exercer alguma forma de prática espiritual. Ramana simpatizava com suas práticas e, toda vez que solicitavam que lhes prescrevesse uma prática espiritual para facilitar a autoconscientização, recomendava a técnica que chamava de auto-indagação. Esta prática era a pedra angular de sua filosofia prática e os próximos três capítulos são dedicados a uma apresentação detalhada de todos seus aspectos. Antes de iniciar uma descrição da própria técnica é necessário explicar os pontos de vista de Ramana referentes à natureza da mente, uma vez que o objetivo da auto-indagação é descobrir, por meio da experiência direta, que a mente não existe. De acordo com Sri Ramana, toda atividade consciente da mente ou do corpo gira em torno da tácita pressuposição de que existe um “Eu” que está fazendo alguma coisa. O fator comum a todas as atividades como: “Eu penso”, “Eu me lembro”, “Eu estou agindo” (desta ou daquela maneira) é o “Eu” que assume a responsabilidade por todas elas. Sri Ramana denominou este fator comum de “Eu- Pensamento” (Aham-Vritti). Literalmente Aham Vritti significa “modificação mental do Eu”. O Eu (Divino) ou “Eu” real jamais imaginará que está agindo ou pensando sobre qualquer coisa; o “Eu” que imagina tudo isso é uma ficção mental e por isso é chamado de modificação mental do Eu (Divino) ou Ego. Sri Ramana sustenta o ponto de vista que a noção de individualidade é apenas a manifestação do próprio “Eu-Pensamento” sob várias maneiras. Ao invés de tomar as diversas atividades da mente (tais como ego, intelecto e memória) como funções separadas, ele preferiu classificá-las como formas diferentes do “Eu-Pensamento”. Uma vez que identificamos a individualidade com a mente e a mente com o “Eu-Pensamento” conclui-se que o desaparecimento do sentido de individualidade (isto é a auto-realização) implica no desaparecimento de ambos, a mente e o “Eu-

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Pensamento”. Isto é confirmado através de suas freqüentes afirmações de que, após a auto- realização, não existe nem pensador nem pensamentos, nem executor de ações e nem consciência de uma existência individual. Como ele sustenta a noção de que o Eu (Divino)

é a única realidade existente, considera o “Eu-Pensamento” como uma suposição errônea

que não tem existência própria. Ele explica seu aparecimento ao dizer que só pode parecer que tem existência ao se identificar com um objeto. Quando os pensamentos surgem, o “Eu-Pensamento” reclama para si mesmo a autoria deles – “Eu penso”, “Eu acredito”, “Eu quero”, “Eu estou agindo” – mas não há qualquer “Eu-Pensamento” que exista independentemente dos objetos com os quais se acha identificado. Ele apenas parece existir como uma entidade real e contínua por causa do incessante fluxo de identificações que constantemente se apresentam. Quase todas essas modificações podem se originar na

suposição de que o Eu se acha limitado pelo corpo, ao mesmo tempo como dono-ocupante, ou co-extensivo com uma forma física. Esta idéia de “Eu sou o corpo” é a fonte primária de todas as subseqüentes e errôneas identificações e sua dissolução é a principal meta da auto- indagação. Ramana assevera que a tendência às auto identificações com a autolimitação podem ser comprovadas quando se tenta separar o sujeito “Eu” dos objetos do pensamento com os quais está identificado. Como o “Eu-Pensamento” individual não pode existir sem um objeto. ao focalizarmos a atenção no sentido subjetivo do “Eu” ou “Eu Sou” com muita intensidade, de modo que os pensamentos “Eu sou isso ou aquilo” não surjam, o “Eu” individual será incapaz de se ligar aos objetos. Se esta consciência do “Eu” for mantida, o “Eu” individual (o “Eu-Pensamento) desaparecerá e, em seu lugar, surgirá a experiência direta do Eu (Divino)”. Esta constante atenção para com a consciência interior do “Eu” ou “Eu sou” é chamada de auto-indagação (Vichara) por Ramana e ele freqüentemente a recomenda como o meio mais eficiente e direto para se descobrir a irrealidade do “Eu- Pensamento”. Na terminologia usada pelo Mestre o “Eu-Pensamento” (ou Ego) surge do Eu (Divino) ou o coração e fica submetido ao Eu quando sua tendência à identificação com os objetos cessa. Por causa disso ele freqüentemente insiste em seu conselho para que se atente à imagem de um Eu que surge e que se submerge. Ele poderá dizer rastreie a fonte do “Eu-Pensamento” ou encontre o local de onde o “Eu” surge. As implicações de ambos os procedimentos serão as mesmas. Qualquer que fosse a linguagem utilizada por ele sempre insistia em aconselhar os discípulos a manterem-se conscientes do “Eu- Pensamento” até que este se dissolva na fonte de onde surgiu (o Eu Divino). Ele às vezes mencionava que pensar ou repetir mentalmente “Eu” também conduzirá a pessoa na direção certa, mas é importante frisar que isto é apenas um estágio preliminar da prática. A repetição do “Eu” ainda envolve um sujeito (o “Eu-Pensamento”) que percebe um objeto (os pensamentos Eu, Eu) e enquanto esse dualismo persiste o “Eu-Pensamento” continuará a vicejar. Ele finalmente desaparecerá somente quando a percepção dos objetos, tanto físicos como mentais desaparecerem. Isto não acontece por se ter consciência de um “Eu” mas apenas quando se é esse “Eu”. Este estágio no qual se tem a experiência do sujeito sem estar consciente do objeto é a fase culminante da auto-indagação e será explicada mais detalhadamente no próximo capítulo. Esta importante diferença é o elemento chave que distingue a auto-indagação de quase todas as outras práticas espirituais

e explica porque Ramana sustenta firmemente que muitas das outras práticas são inúteis.

Ele freqüentemente enfatizou que as meditações tradicionais e práticas de yoga necessitam de um objeto sobre o qual tem que meditar e acrescenta que tal relação (sujeito-objeto) alimenta mais o “Eu-Pensamento” ao invés de eliminá-lo. Em sua visão, tais práticas

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podem de fato aquietar a mente e até provocar estados de bem-aventurança, mas não

culminam em auto-realização porque o “Eu-Pensamento” ou ego não é isolado e privado de sua identidade. A maioria dos diálogos incluídos neste capítulo trata dos pontos de vista de Ramana a respeito da base teórica da auto-indagação. Os aspectos práticos da técnica serão explicados com grande detalhe no 5º capítulo. Discípulo (D) – Qual a natureza da mente? Mestre (M) – A mente não é outra coisa senão o “Eu-Pensamento”. A mente e o ego são uma só coisa. As outras faculdades mentais tais como o intelecto e a memória são apenas isso. Mente (Manas), intelecto (Buddhi), o arquivo das tendências mentais (Chittam) e o ego (Ahamkara) todos são apenas a mente. São como nomes dados a um homem de acordo com suas diferentes funções. A alma individual (Jiva) nada mais é do que esta alma ou ego.

D

– Como podemos descobrir a natureza da mente, isto é, sua última causa, ou o fenômeno

da

qual ela é uma manifestação?

M

– Se colocarmos os pensamentos numa escala de valores, o “Eu-Pensamento” é o mais

importante. A idéia de personalidade ou pensamento é também a raiz ou origem de todos os

outros pensamentos, pois cada idéia ou pensamento surge apenas como pensamento próprio

e não é percebido como existir independentemente do ego. O ego, portanto, exibe a

atividade pensante. A segunda ou terceira pessoas (você, ele, aquilo, etc) só aparecem à primeira pessoa. Portanto surgem apenas após o aparecimento da primeira pessoa, assim todas as três pessoas parecem surgir e desaparecer ao mesmo tempo. Investigue, então, a causa última do “Eu”, ou personalidade. De onde é que este “Eu” surge? Procure-o no seu íntimo. E em conseqüência disso verá que ele desaparece. Isto é a busca da sabedoria. Quando a mente investiga de maneira incessante sua própria natureza evidencia-se que não existe tal coisa chamada mente. Este é o caminho direto para todos. A mente é somente pensamentos. De todos os pensamentos o pensamento “Eu” é a raiz. Portanto a mente é somente o pensamento “Eu”. A origem do “Eu-Pensamento” é a nossa própria origem e sua morte é a morte da personalidade. Após o aparecimento do “Eu-Pensamento”, a errônea identidade com o corpo surge. Livre-se do “Eu-Pensamento”. Enquanto o ego estiver vivo existirá sofrimento. Quando o “ego” cessa de existir não há mais sofrimento.

D – Sim, mas quando eu me ligo ao “Eu-Pensamento”, outros pensamentos surgem e me

perturbam.

M – Indague então a quem pertencem esses pensamentos. Eles então desaparecerão. Eles

têm sua origem no simples “Eu-Pensamento”. Fixe-se nele e eles desaparecerão.

D

– Como pode qualquer indagação iniciada pelo ego revelar sua própria irrealidade?

M

– A existência do ego fenomenal é transcendida quando você “mergulha” na fonte da

qual o “Eu-Pensamento” surge.

D – Mas o Aham-Vritti não é apenas uma das três formas sob as quais o ego se manifesta?

Yoga Vasistha e outros antigos textos descrevem o ego como tendo três formas.

M – Assim é. O ego é descrito como tendo três corpos: o físico, o sutil (astral) e o causal,

mas isso é dito apenas com o propósito de uma exposição analítica. Se o método da auto-

indagação dependesse da forma do ego, você poderia entender que qualquer indagação conjunta seria impossível, isto porque as formas que o ego possa assumir são muitas. Esse modo, com o propósito de fazer a auto-indagação que você tem que tomar por base que o ego dispõe apenas de uma forma, aquela do Aham-Vritti.

D

– Mas podem se mostrar inadequadas para se realizar a gnana.

M

– A auto-indagação com objetivo de se atingir o indício do Aham-Vritti é semelhante ao

cão que encontra o dono pelo faro. O dono pode estar à distância, num local desconhecido,

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mas isto não é obstáculo para que ele o descubra. O odor do dono é uma pista infalível para

o animal e nenhuma outra coisa, tais como a roupa que ele veste, ou seu semblante ou

estatura, etc., contam para ele. É sobre este odor que o cão se baseia sem distração enquanto o procura, para que finalmente seja bem sucedido.

D – Ainda cabe perguntar porque a auto-indagação sobre a fonte do Aham-Vritti, como

distinta de outros Vrittis (modificações da mente), deve ser considerada como método

direto para obter a auto-realização?

M – Embora o conceito de individualidade ou “Eu-Existência” seja costumeiramente

conhecido como Aham-Vritti, na realidade não é um Vritti (modificação da mente) como outros Vrittis da mente. Porque diferentemente de outros Vrittis que não têm relação essencial entre eles, o Aham-Vritti é igual e essencialmente relacionado a cada um e qualquer Vritti da mente. Sem a existência do Aham-Vritti não há outros Vrittis, mas ele pode subsistir por si mesmo sem depender de qualquer outro Vritti da mente. O Aham- Vritti é fundamentalmente diferente de outros Vrittis. Assim a busca da fonte do Aham- Vritti, não é meramente a procura pela base de uma das formas do ego,mas pela verdadeira

fonte de onde surge a individualidade. Em outras palavras, a busca e a realização da fonte

do ego na forma do Aham-Vritti implica necessariamente em transcender o ego em cada

pessoa sob todas suas formas possíveis.

D – Considerando que o Aham-Vritti compreende em essência todas as formas de ego, por

que se deve escolher apenas este vritti como meio para a auto-realização?

M – Porque é a única e irredutível condição de sua experiência e porque buscar sua fonte é

o único caminho praticável que você pode adotar para realizar o Eu. O ego diz-se possuir

um corpo causal (o estado do “Eu” durante o sono profundo), mas como você pode torná-lo

sujeito de sua investigação? Quando o ego adota esta forma (o causal), você está imerso na escuridão do sono profundo.

D – Mas não é o ego, em suas formas sutil e causal, mais tangível de ser atingido através da

indagação ou busca da fonte do Aham-Vritti, conduzida enquanto a mente está desperta?

M – Não. A indagação na fonte do Aham-Vritti atinge a própria existência do ego. Por

conseguinte a sutileza da forma do ego não é fato a ser levado em consideração.

D

– Considerando que o único objetivo é realizar o incondicional e puro ser, o Eu (Divino),

o

qual de modo algum depende do ego, como pode a auto-indagação, que se refere ao ego

na

forma do Aham-Vritti, ser útil?

M

– Do ponto de vista funcional o ego tem apenas uma característica. O ego funciona como

um nó (ou elo) entre o Eu que é pura consciência e o corpo físico que é inerte e insensível.

O ego é portanto denominado de Chit-Jada-Granthi (o vínculo entre a consciência e o corpo

inerte). Na sua investigação sobre a fonte do Aham-Vritti, você atinge o aspecto essencial (consciência) do ego. Por esta razão a indagação deve levar à realização da pura consciência do Eu. Você deve distinguir entre o “Eu”, puro em si mesmo, e o “Eu- Pensamento”. Este último sendo meramente um pensamento, vê sujeito e objeto, dorme, acorda, come, bebe, morre e renasce. Mas o puro “Eu” é o puro Ser, a existência eterna, livre da ignorância e da ilusão dos pensamentos. Se você permanecer como “Eu”, seu único Ser, sem pensamento, o “Eu-Pensamento” desaparecerá e a ilusão desaparece para sempre. Numa cessão de cinema você pode ver as cenas apenas quando as luzes são muito fracas ou

na obscuridade. Mas quando todas as luzes se acendem, as imagens desaparecem. O mesmo

ocorre quando a luz radiante do Supremo Atman surge, todos os objetos desaparecem.

D

– Este é o estado transcendental?

M

– Não. Transcender o que e por quem? Você somente existe.

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D – É dito que o “Eu” acha-se além da mente e mesmo assim a realização é feita com a

mente. A mente não pode pensar. Não pode ser pensada pela mente e somente ela pode obter a realização. Como podemos reconciliar essas contradições?

M – O Atmã é realizado com Mruta Manas (mente morta), isto é, mente livre de

pensamentos e voltada para o interior. Então a mente percebe sua própria fonte e se torna aquilo (o Eu). Não se trata de um sujeito percebendo um objeto. Quando o quarto está

escuro a lâmpada é necessária para iluminá-lo e permitir aos olhos que vejam os objetos. Para ver o sol nenhuma lâmpada é necessária, basta dirigir o olhar em direção ao autoluminoso sol. O mesmo ocorre com a mente. Para ver os objetos, a luz refletida da mente é necessária. Para ver o coração é suficiente que a mente se volte para ele. Desse modo a mente se perde e o coração brilha. A essência da mente é apenas consciência. Quando o ego, no entanto, a domina passa a funcionar como razão, pensamento ou faculdade sensorial. A mente cósmica não sendo limitada pelo ego, não percebe coisa

alguma separada dela e é somente consciência. É isto que a bíblia quer dizer com o “Eu sou

o que sou”. Quando a mente perece na suprema consciência do Eu de cada um, saiba que

todos os poderes, como o poder de querer (incluindo o poder de fazer e o poder de conhecer) desaparecerão totalmente, sendo percebido como uma imaginação irreal surgindo

na própria forma de consciência. A mente impura que funciona como pensamento e

esquecimento, é ela mesma o Samsara, o ciclo de nascimento e morte. O “Eu” real no qual

a atividade de pensar e esquecer pereceu, é, em si mesma, a pura libertação. É desprovida

de

Pramada (o esquecimento do Eu) que é a causa do nascimento e da morte.

D

– Como o ego pode ser destruído?

M

– Fixe-se primeiramente no ego e depois pergunte como deve ser destruído. Quem faz a

pergunta? É o ego. Essa pergunta é certamente uma maneira de alimentar o ego e não de matá-lo. Se você procura o ego verá que ele não existe. Este é o meio de destruí-lo.

D

– Como é possível a realização?

M

– Há um Ser absoluto do qual procede uma centelha como se vê no fogo. A centelha é

chamada ego. No caso do homem ignorante ele se identifica com um objeto simultaneamente com seu surgimento. Ele não pode permanecer independente desta associação com os objetos. A identificação com os objetos é Ajnana ou ignorância e sua destruição é o objetivo de nossos esforços. Se a tendência à objetivação da centelha for eliminada, ela permanecerá pura e também mergulhará em sua fonte. A errônea identificação com o corpo é chamada de Dehatma Buddhi (a idéia: “Eu sou o corpo”). Isto deve desaparecer antes que bons resultados possam ocorrer. O Eu em sua pureza é sentido nos intervalos entre os dois estados, ou dois pensamentos. O ego é como se fosse uma lagarta que liberta sua preza somente após ter agarrado outra. Sua real natureza pode ser percebida quando está fora do contato com os objetos ou pensamentos. Este ego-fantasma que não possui forma surge à existência ao se fixar numa forma. Ao se prender a uma forma ele cresce mais ainda por alimentar-se das formas às quais se liga. Ao deixar uma forma ele se prende a outra, mas quando se procura por ele, ver-se-á que desaparece.

Somente quando a primeira pessoa, o ego, sob a forma “Eu sou o corpo” existe, a segunda e

a terceira pessoa tem existência (você, ele, eles, etc.). Se a pessoa pesquisa a realidade da primeira pessoa esta é destruída e a segunda e terceira pessoas cessam de existir. A partir

daí sua própria natureza então brilhará e a pessoa sentirá verdadeiramente o estado do Eu.

O pensamento “Eu sou este corpo de carne e sangue” é o fio onde estão atados os vários

outros pensamentos. Portanto se nos interiorizarmos fazendo a indagação “onde está esse

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eu?” todos os outros pensamentos (incluindo o Eu-Pensamento) terminarão e o autoconhecimento então brotará espontaneamente.

D – Quando li as obras de Ramana entendi que a auto-investigação é o método essencial

para a realização.

M

– Sim. Esta é a Vichara (auto-indagação).

D

– Como deve ser praticada?

M

– O indagador deve admitir a existência do Eu. “Eu sou” é a realização. Buscar seu

rastro até obter a realização é Vichara. Vichara e realização são a mesma coisa.

D

– Isto é enganoso. No que devo meditar?

M

– A meditação (concentração) requer um objeto sobre o qual devemos meditar enquanto

que na Vichara há apenas o sujeito sem qualquer objeto. A meditação (concentração) difere

da

Vichara neste aspecto.

D

– A Dhyana (concentração) não é um processo eficiente para se obter a realização?

M

– A Dhyana é a concentração num objeto e serve ao propósito de se manter livre dos

vários pensamentos ao se fixar num só pensamento, o qual, também, deverá desaparecer antes que ocorra a realização. Mas a realização não é nada de novo a ser adquirido. Está sempre aí, porém é obstruída por um véu de pensamentos. Todos os nossos esforços se prendem em afastar esse véu e então a realização é revelada. Se os buscadores da realização são aconselhados a se concentrar, muitos ficarão satisfeitos com esse conselho. Mas algum entre eles poderá discordar e perguntar: “Quem sou eu que devo me concentrar num

objeto?” para esse deve-se dizer para encontrar o Eu. Esta é a finalidade. Esta é a Vichara.

D

– Será que a Vichara é útil na ausência de concentração?

M

– A Vichara é o processo e o objetivo também. “Eu sou” é a meta e a realidade final.

Fixar-se nele com firmeza é Vichara. Quando se torna espontânea e natural é a realização. Se a pessoa não se interessa pela Vichara, o mais eficaz método de realização, terá

dificuldade em dominar os pensamentos por quaisquer outros métodos que empregue. Se tentar acalmar a mente por outros métodos, verá que não serão eliminados pois os

pensamentos se levantarão novamente. A auto-indagação é o método infalível, o único método direto para realizar o Ser Absoluto e incondicionado que você realmente é.

D

– Por que apenas a auto-indagação deve ser considerada como o método direto da Jnana?

M

– Porque todos os outros tipos de Sadhana, exceto a Atma Vichara (auto-indagação),

pressupõe o emprego e a conservação da mente como instrumento para o prosseguimento

da Sadhana, e sem a mente não podem ser praticados. O ego pode assumir formas diferentes e mais sutis durante os vários estágios da prática de cada um, mas não serão destruídos. Quando o Rei Janaka exclamou: “Agora descobri o ladrão que me arruinou durante todo esse tempo. Ele deverá ser eliminado sumariamente.” Ele se referia ao ego ou à mente?

D

– Mas o ladrão pode ser contido por outras Sadhanas.

M

– A tentativa de destruir o ego ou a mente por outras Sadhanas sem ser a Vichara é como

se

o ladrão que se passa por policial pretenda prender o ladrão que é ele mesmo. Somente a

Atma-Vichara pode revelar a verdade que nem o ego nem a mente existem realmente e tornar o indivíduo apto a realizar o ser puro e indiferenciado, o Eu, ou Absoluto. Ao se

realizar o Eu, nada mais resta para ser conhecido porque é a perfeita bem-aventurança, o tudo.

D

– Por que a auto-indagação é o método mais direto em relação aos outros métodos?

M

– A atenção ao próprio Eu, que se acha sempre luminoso como “Eu”, a realidade pura e

indivisível, é a única barca por meio da qual o indivíduo que se acha iludido por pensar “Eu

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sou o corpo”, pode cruzar os oceanos dos intermináveis nascimentos. A realidade é simplesmente a eliminação do ego. É destruir o ego se você busca sua identidade. Como o ego não é uma entidade, ele desaparecerá automaticamente e a realidade brilhará por si mesma. Este é o método direto, enquanto que os outros métodos conseguem apenas reter o ego. Nos outros caminhos surgem muitas dúvidas e a eterna pergunta: “Quem sou eu?” permanece para ser respondida depois. Mas neste método a pergunta final é a única viável e nasce desde o início. Nenhum esforço é necessário para se fazer a pergunta. Não há maior mistério que esse: somos a realidade mas estamos buscando a realidade. Pensamos que existe algo que esconde nossa realidade e que tem que ser destruído antes que se obtenha a realidade. É ridículo. Dia virá no qual você vai rir de seus esforços no passado. Aquele que estará presente nesse dia que você vai rir é o mesmo que está presente aqui e agora.

5° CAPÍTULO AUTO-INDAGAÇÃO – PRÁTICA

Principiantes na prática da auto-indagação eram orientados por Sri Ramana para que centrassem sua atenção no sentido interior do “Eu” e mantivessem esse sentir tanto tempo quanto possível. Dizia também que, se sua atenção se distraísse com outros pensamentos, deveriam revertê-la em direção ao Eu-Pensamento tão logo percebessem seu desvio. Sugeria vários auxílios a fim de dar assistência a esse processo. A pessoa poderia se perguntar: “Quem sou eu?”, ou “de onde surge esse eu?” entretanto o objetivo final era a continuidade da consciência do Eu que assume ser responsável por todas as atividades do corpo e da mente. Nos estágios iniciais a prática da atenção no sentido do “Eu” é uma atividade mental que toma forma de um pensamento ou percepção. Conforme a prática vai se desenvolvendo o “Pensamento-Eu” passa a experimentar um sentido subjetivo do “Eu” e, quando este sentido deixa de se ligar aos pensamentos e objetos, desaparece completamente. O que resta é uma experiência de ser no qual o sentido de individualidade cessou temporariamente de operar. A experiência pode ser intermitente no início mas com a repetição da prática torna-se cada vez mais fácil de se atingir e conservar. Quando a auto- indagação atinge esse nível aparece uma consciência de ser livre de esforço. A esse nível o esforço individual não é mais possível, pois o “Eu” que faz o esforço cessou temporariamente de existir. Ainda não é a auto-realização, pois o “Eu-Pensamento” reaparece periodicamente mas é o mais alto nível de prática espiritual. A repetição da experiência deste estado de ser enfraquece e destrói as vasanas (tendências mentais acumuladas de outras encarnações) que fazem com que o “Eu-Pensamento” surja e, quando seu apego a elas se enfraquece suficientemente, o poder do Eu destrói essas tendências residuais de modo tão completo a ponto de o “Eu-Pensamento” nunca mais surgir. Este é o estado final e irreversível da auto-realização. Esta prática de auto-atenção ou consciência do “Eu-Pensamento” é uma sutil técnica que ultrapassa os usuais métodos repressivos de controlar a mente. Não é um exercício de concentração, nem tem por meta suprimir os pensamentos, apenas invoca a consciência da fonte de onde surgiu. O método e o objetivo da auto-indagação é “morar” na fonte da mente e ser consciente daquilo que realmente se é ao se desviar a atenção daquilo que não se é. Nos estágios iniciais o esforço no sentido de transferir a atenção dos pensamentos para o próprio pensador é essencial, mas uma vez que a consciência do sentido do Eu se estabeleceu de modo firme, o esforço posterior a isso é contra-producente. Daí em diante trata-se mais de um processo de “ser” do que de “fazer”, um processo de ser sem esforço do que um esforço para ser. Para ser aquilo que já se é, é

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algo sem esforço, pois a existência (o ser) está sempre presente e é sempre experienciado. Por outro lado pretender ser algo que não se é (exemplos o corpo e a mente) requer um esforço mental contínuo, muito embora o esforço esteja quase sempre num nível subconsciente. Segue-se que, em estágios mais avançados da auto-indagação, o esforço livra a atenção da experiência de ser, enquanto a cessação do esforço mental o revela. Finalmente, o Eu não é descoberto como resultado de se fazer alguma coisa, mas apenas por ser. Veja como Ramana frisou certa vez:

Não medite – seja! Não pense que você é – seja! Não pensa a respeito de ser – você é!

A auto-indagação não deve ser entendida como uma prática para ser feita em determinadas

horas e em certas posturas. Ela deve prosseguir mesmo durante nosso caminhar, independentemente do que se estiver fazendo. Sri Ramana não viu qualquer conflito entre o trabalho e a auto-indagação e sustentou que um pouco de prática poderia ser executada sob quaisquer circunstâncias. Algumas vezes disse que períodos regulares de prática formal seriam benéficos para os principiantes, mas nunca advogou longos períodos de meditação sentada e sempre desaprovou quando qualquer de seus devotos expressasse o desejo de abandonar suas atividades mundanas em favor de uma vida totalmente dedicada à meditação.

D – O Sr. diz que a pessoa pode realizar o Eu apenas procurando-o? Qual é o caráter dessa

busca?

M – Você é a mente ou pensa que é a mente. A mente nada mais é que pensamentos. Bem

atrás de cada pensamento particular há um pensamento central que é o “Eu”, isto é você. Vamos chamar este “Eu” de primeiro pensamento. Focalize este Eu-Pensamento e indague

o que ele é. Quando esta indagação se tornar forte em você, então não poderá pensar em outros pensamentos.

D – Quando faço isso e me fixo em mim mesmo, isto é, no Eu-Pensamento, os outros

pensamentos vêem e desaparece, mas eu digo a mim mesmo “Quem sou Eu?” e não vem qualquer resposta. Atingir esta condição é a prática. É assim mesmo? M – Isto é um erro que o povo comete. O que acontece quando você faz uma séria auto-

indagação em busca do Eu é o desaparecimento do “Eu-Pensamento” e então algo diferente surge de suas profundezas e se encarrega de você, mas não é o Eu que inicia a indagação.

D

– Que algo é esse?

M

– Este é o Eu real, o Supremo Eu. Não é o ego. É o próprio Ser Supremo.

D

– Mas o Sr. disse freqüentemente que a pessoa deve rejeitar outros pensamentos quando

se

inicia a auto-indagação, porém os pensamentos são intermináveis. Se um pensamento é

rejeitado outros surgem e parece não existir mais fim para eles.

M – Eu não disse que você deve rejeitar os pensamentos. Fixe-se em você mesmo, isto é,

no “Eu-Pensamento”. Quando seu interesse o mantém nesta simples idéia, os outros pensamentos serão automaticamente rejeitados e desaparecerão.

D

– Então a rejeição dos pensamentos não é necessária?

M

– Não. Poderá ser necessária uma vez ou outra. Você imagina que não haverá fim, se a

pessoa prossegue rejeitando cada pensamento que surge. Não é verdade. Existe um fim. Se

você é vigilante e faz um sério esforço para rejeitar cada pensamento que surge logo verá que se aprofundou mais e mais em seu próprio eu. A partir deste nível não há mais necessidade de fazer um esforço para rejeitar pensamentos.

D – Então é possível manter-se sem esforço, sem tensão?

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M – Não apenas isso, pois lhe será impossível de fazer qualquer esforço além de certo

limite.

D

– Futuramente quero me iluminar. Não devo fazer qualquer esforço?

M

– No momento é impossível para você não fazer esforço. Quando se aprofundar mais

será impossível fazer qualquer esforço. Se a mente se tornar introvertida através da auto- indagação na fonte do Aham-Vritti, as vasanas desaparecerão. A luz do Eu incide sobre as

vasanas e produz o fenômeno da reflexão que chamamos de mente. Assim, quando as vasanas se extinguem, a mente também desaparece, sendo absorvida na luz da única realidade, o coração. Este é o total e o conteúdo que um aspirante precisa conhecer. O que dele se requer, de modo imperativo, é uma indagação séria e unidirecional na fonte do Aham-Vritti.

D

– Como o principiante deve iniciar esta prática?

M

– A mente se submeterá somente por meio da indagação: “Quem sou eu?” O pensamento

“Quem sou eu?”destruindo todos os outros pensamentos será finalmente destruído tal como a vara que é usada para atiçar o fogo na pira funerária. Caso outros pensamentos surjam e a

pessoa deixar que se apoderem dela, fazer a pergunta: “A quem eles surgiram?” Que importa quantos pensamentos possam surgir? No mesmo momento que cada um surja; a pessoa de modo atento, fizer a pergunta “A quem este pensamento surgiu”, terá como resposta: “A mim.” Se fizer então a indagação “Quem sou eu?”, a mente retornará a sua fonte (o Eu) e o pensamento que surgiu também desaparecerá. Ao se repetir esta prática o

poder da mente em habitar sua fonte aumentará. Muito embora as tendências em direção aos objetos dos sentidos (vishaya vasanas), as quais se perpetuaram por várias encarnações, possam surgir em número incontável,tal como as ondas do oceano, é certo que todas morrerão à medida que a meditação da pessoa em direção a sua real natureza se torne mais

e mais intensa. Sem dar guarida nem mesmo ao pensamento de dúvida: “se é possível

destruir todas essas tendências (vasanas) e permanecer como o próprio Eu”; o indivíduo deverá manter sua atenção imediata e persistentemente fixada em seu Eu. Enquanto persistirem na mente tendências em direção aos objetos dos sentidos, a pergunto “quem sou eu?” é necessária. À medida que os pensamentos surjam a pessoa deverá aniquilar todos eles, aqui e ali através da auto-indagação no seu local de aparecimento. Não dar atenção a

outras idéias (anya) significa desapego (vairagya) ou desinteresse (nirasa). Não abandonar o

Eu (Divino)é sabedoria (jnana). Na verdade esses dois aspectos – desapego e conhecimento

– são a mesma coisa. Tal como um pescador de pérolas prendendo-se a uma pedra

mergulha fundo no oceano e a encontra, qualquer pessoa que mergulhar em seu interior com desapego poderá encontrar a pérola do Eu. Se a pessoa recorre de modo ininterrupto à lembrança de sua real natureza (swarupa-smarama) será o suficiente para atingi- lo.Indagando a si mesmo: “Quem está escravizado?” e ao mesmo tempo conhecendo sua

real natureza (swarupa) é a própria libertação. Manter a mente sempre fixa somente no Eu é também denominado “auto-indagação”; enquanto que a meditação (dhyana) é pensar que se

é o Absoluto (Brahman), o qual é existência-consciência-bem-aventurança (sat-chit- ananda).

D – Os yoguis dizem que a pessoa deve renunciar ao mundo e se isolar na selva se quiser

encontrar a verdade.

M – Não há necessidade de renunciar à atividade mundana. Se você meditar por uma ou

duas horas todos os dias poderá se incumbir de seus deveres. Se você meditar de modo correto então a corrente mental, induzida pela meditação, continuará a fluir durante seu

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trabalho. É como se existissem duas maneiras de expressar a mesma idéia; a mesma linha que se observa na meditação será expressa em suas atividades.

D

– Qual será o resultado de se fazer isso?

M

– Conforme pratique verá que sua atitude com relação às pessoas, acontecimentos e

objetos se modificará. Suas atividades tenderão a se desenrolar de acordo com sua meditação.

D

– Então o Sr. não concorda com os yoguis?

M

– O homem deveria renunciar a seu egoísmo pessoal que o prende a esse mundo.

Abandonar o falso Eu é a verdadeira renúncia.

D

– Como é possível tornar-se altruísta enquanto se leva uma vida de atividades?

M

– Não existe conflito entre o trabalho e a sabedoria.

D

– O Sr. quer dizer que a pessoa pode continuar a exercer por exemplo, suas antigas

atividades profissionais e ao mesmo tempo obter a iluminação?

M – Por que não? Mas neste caso a pessoa não deverá pensar que é a antiga personalidade

que está executando o trabalho, porque sua consciência se transferirá gradualmente até que

se

centre naquele que se acha além do pequeno Eu.

D

– Se a pessoa está empenhada no trabalho restará pouco tempo para meditar.

M

– Determinar um tempo para meditação é uma atitude para meros iniciantes na senda

espiritual. Um homem adiantado começará a gozar a profunda beatitude quer esteja trabalhando ou não. Enquanto suas mãos estiverem na lida social, ele manterá sua cabeça

na

pura solidão.

D

– Então o Sr. não ensina o caminho da yoga?

M – O yogui tenta dominar a mente tal como um vaqueiro usa uma vara para empurrar o touro, mas no caminho da gnana (conhecimento) o buscador persuade o touro ao lhe oferecer um punhado de capim.

D

– Como se faz isso?

M

– Você terá que fazer a si mesmo a pergunta “Quem sou eu?”. Esta investigação levará

por fim à descoberta de algo no seu interior que se acha alem da mente. Resolva este problema e todos os outros problemas serão solucionados.

D

– Buscando o “Eu” não há nada para ser visto.

M

– Em conseqüência de você estar acostumado a se identificar com o corpo e a visão dos

olhos, dirá que não vê nada. O que existe para ver? Quem é que vê? E como ver? Existe

apenas uma consciência a qual, manifestando-se como “Eu-Pensamento”, identifica-se com

o corpo, projeta-se através dos olhos e vê os objetos ao seu redor. O indivíduo acha-se

limitado no estado de vigília e espera ver coisas diferentes. A evidência de seus sentidos será o selo da autoridade. Mas ele não admite que aquele que vê, aquilo que é visto e a visão são todas manifestações da mesma consciência nomeadamente o “Eu, Eu”. A contemplação ajuda a pessoa a superar a ilusão que o “Eu” deve ser visual. Na realidade nada existe de visual. Como é que você percebe o “Eu” agora? Você segura um espelho diante de si a fim de conhecer seu próprio ser? A consciência é o “Eu”. Realize-o e isto é toda verdade.

D – Ao se indagar sobre a origem dos pensamentos existe uma percepção do “Eu”. Mas

isso não me satisfaz.

M – Certo. A percepção do “Eu” está associada com a forma, talvez com o corpo. Não deve

existir coisa alguma associada ao puro Eu. O Eu é indissociável, a realidade pura, por meio

de cuja luz o corpo e o ego brilham. Ao se acalmar todos os pensamentos resta a pura

consciência. Imediatamente após o despertar do sono e antes mesmo de se ter consciência

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do mundo lá está o puro “Eu-Eu”! Fixe-se nele sem dormir ou sem permitir que os

pensamentos se apossem de você. Se isso se consegue de modo firme não importará se o mundo é visto. Aquele que vê permanece sem ser afetado pelos fenômenos. O que é o ego? Indague. O corpo é algo insensível e não pode dizer “Eu”. O Eu é pura consciência não- dual. Ele não pode dizer “Eu”. Ninguém diz “Eu” durante o sono. o que é o ego, então? É algo intermediário entre o corpo inerte e o Eu. Ele não tem local de assento (locus standi).

Se é procurado desaparecerá como um fantasma. À noite um homem pode imaginar que há

um fantasma a seu lado por causa de um jogo de sombras. Se olhar mais de perto descobrirá que o fantasma não se acha realmente lá, e aquilo que ele imaginou ser um fantasma era apenas uma árvore ou uma estaca. Se ele não tivesse examinado mais de perto, o fantasma poderia assustá-lo. Tudo o que se requer é olhar de perto e o fantasma desaparecerá. O

fantasma nunca esteve lá. O mesmo acontece com o ego. É um elo intangível entre o corpo

e a pura consciência. Não é real. Enquanto a pessoa não observá-lo de perto ele continuará

a dar aborrecimento. Mas quando a pessoa o procura, verá que não existe. Há uma outra

história que ilustra isso. As festas de bodas dos hindus freqüentemente se estendem por cinco ou seis dias. Numa dessas ocasiões um estranho foi confundido pelos convidados da noiva como pessoa muito importante para o noivo e assim foi tratado por eles com especial atenção. Os convidados do noivo vendo que o estranho estava sendo tratado pelos convidados da noiva de forma especial entenderam que deveria ser um homem importante para a noiva e assim também se mostraram muito respeitosos para com ele. O estranho

sentiu-se muito feliz durante a festa, porém estava consciente de sua real posição. A certa altura da festa, os convidados do noivo pretendendo abordar o estranho a respeito de determinado assunto, perguntaram aos convidados da noiva aonde poderiam encontrá-lo. O estranho logo percebeu o problema e fugiu. O mesmo acontece com o ego, se procurado, desaparece. Se não, continuará trazendo problemas.

D

– Se eu tento fazer a auto-indagação “Quem sou eu?”, adormeço. Que devo fazer?

M

– Persista sua indagação durante seu período desperto. Isto será o suficiente. Se você

continua fazendo a indagação até dormir, esta persistirá também durante o sono. tão logo desperte continue a fazer a auto-indagação.

D

– Como posso obter a paz. Não parece que a obtenho através da vichara.

M

– A paz é nosso estado natural. É a mente que obstrui o estado natural. Se você não

experimenta a paz significa que a vichara está sendo feita apenas na mente. Investigue

sobre o que é a mente e ela desaparecerá. Não existe tal coisa como mente separada do pensamento. No entanto, por causa da emergência do pensamento, você imagina algo de

onde ele surge e o denomina de mente. Quando você investiga para saber o que é, perceberá que na verdade não existe tal coisa chamada mente. Quando a mente desaparece, você realiza a eterna paz.

D – Quando estou empenhado na indagação sobre a fonte de onde se origina o “Eu”, chego

a um estágio de interrupção da mente além do qual sinto-me impossibilitado de ir mais

além. Não tenho qualquer tipo de pensamento, um branco. Uma tênue luz predomina e

sinto que não tenho corpo físico. Não tenho qualquer tipo de cognição, nem visão de corpo

e forma. A experiência dura quase meia hora e é prazerosa. Estarei correto ao concluir que

tudo isso é necessário para assegurar a felicidade eterna e que a libertação ou salvação, ou o que quer que a pessoa o denomine, seria continuar tal prática até que esta experiência pudesse ser mantida continuadamente por horas, dias e meses?

M – Isto não significa salvação. Esta condição é chamada de manolaya ou uma interrupção

temporária dos pensamentos. Manolaya quer dizer concentração, parada temporária dos

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movimentos do pensamento. Tão logo esta concentração cesse, os pensamentos velhos ou novos irromperão como de costume; mesmo que este estado temporário dure mil anos, não levará a uma total destruição do pensamento, que se chama de libertação do nascimento e morte. O praticante deve sempre se manter alerta e indagar interiormente quem tem essa experiência, quem sente este prazer. Sem esta indagação ele prosseguirá num longo transe ou sono profundo (yoga nidra). Devido a falta de um guia apropriado neste estágio da prática espiritual, muitos têm se desiludido tornando-se presa de um falso sentido de libertação e apenas poucos têm conseguido chegar de maneira satisfatória à meta pretendida. A história a seguir ilustra muito bem este caso. Um yogui estava fazendo penitência (tapas) por vários anos às margens do rio Ganges. Quando atingiu um alto grau de concentração, acreditou que se continuasse neste estágio por prolongados períodos expressaria a libertação. Antes de atingir a concentração profunda, teve sede e pediu ao discípulo para lhe trazer um pouco d’água do Ganges. Antes porém que o discípulo trouxesse a água, entrou em yoga nidra e assim permaneceu neste estado por incontável número de anos, durante os quais muita água rolou sob a ponte. Quando acordou dessa experiência imediatamente exclamou: “Água, água”, mas não havia mais nem discípulo, nem visão do Ganges. A primeira coisa que ele pediu foi água porque, antes de atingir a concentração profunda, o mais importante nível de pensamento em sua mente era água e sua concentração, por mais profunda e prolongada que fosse, conseguiria apenas aquietar temporariamente seus pensamentos. Quando recobrou a consciência, o mais emergente pensamento foi lançado com toda rapidez e força de uma corrente que irrompesse através de um dique. Se este é o caso que diz respeito a um pensamento que tomou forma imediatamente antes dele iniciar a meditação, não resta dúvida que pensamentos que se enraizaram anteriormente também permanecerão sem ser aniquilados. Poderá ele dizer que atingiu a libertação sem que haja aniquilado os pensamentos? Os Sadhakas (buscadores) raramente entendem a diferença entre interrupção temporária da mente (manolaya) e permanente destruição dos pensamentos (manolasa). Na manolaya há interrupção

temporária das ondas mentais e, embora este período possa durar mil anos, os pensamentos que foram temporariamente descartados, revivem tão logo cesse a manolaya. A pessoa deve observar seu progresso espiritual cuidadosamente. Não deve se deixar levar pelo fascínio provocado pela calma da mente. No momento que a pessoa experimenta isso deve retornar

à consciência e indagar interiormente a quem ocorreu esta experiência de calma mental.

Embora não permitindo que qualquer pensamento surja, a pessoa não deve, ao mesmo tempo, ser fascinado por este sono profundo (yoga nidra) ou auto-hipnotismo. Muito embora isso seja um sinal de progresso em direção à meta, ainda constitui o ponto de

divergência entre o caminho da libertação e o yoga nidra. O meio mais fácil, o meio direto,

o caminho direto para a salvação é a auto-indagação. Por meio dessa indagação você

dirigirá a força do pensamento mais profundamente até que atinja sua fonte e submerja nela.

É então que você terá a resposta que vem do seu interior e que permanecerá lá, destruindo

todos os pensamentos de uma vez e para sempre.

D

– Este “Eu-Pensamento” brota de mim, mas não conheço o Eu.

M

– Tudo isso são apenas conceitos mentais. Agora você está se identificando com o falso

Eu, que é o “Eu-Pensamento”. Este Eu-Pensamento aflora e submerge, enquanto que a verdadeira expressão do Eu acha-se além de ambos. Não pode haver uma ruptura em seu ser. Aquele que em você dorme é o mesmo que agora está desperto. Não há infelicidade durante o período do sono profundo. No entanto a infelicidade existe agora no estado de

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vigília. Que aconteceu neste momento, a ponto de se experimentar essa diferença? Não havia nenhum “Eu-Pensamento” durante seu sono profundo enquanto que agora ele se acha

presente. O verdadeiro “Eu” não está aparente e o falso “Eu” está desfilando. Este falso Eu

é o obstáculo ao seu correto conhecimento. Descubra de onde surge esse falso Eu. E a partir daí ele desaparecerá. Você será então o que realmente é, isto é, o Ser Absoluto.

D

– Como proceder? Não fui bem sucedido até agora.

M

– Procure a fonte do “Eu-Pensamento”. Isto é tudo o que a pessoa deve fazer. o universo

existe em função do “Eu-Pensamento”. Se isto desaparece, a miséria também acaba. O falso “Eu” acabará somente quando sua fonte for encontrada. E mais: as pessoas freqüentemente perguntam como se controla a mente. Eu então lhes digo, “mostre-me a mente e você saberá então o que fazer.” O fato é que a mente é apenas um feixe de pensamentos. Como

você pode extingui-la ao pensar em fazer algo ou por meio de um desejo? Seus pensamentos e desejos são integrantes e parcelas da mente. A mente é simplesmente engordada a partir do surgimento de novos pensamentos. Portanto é tolice tentar matar a mente por meio da própria mente. O único meio de obtê-lo é encontrar sua fonte e fixar-se nela. A mente então desvanece por si mesma. A Raja-yoga ensina “Chitta Vritti Nirodha” (controle das atividades da mente). Eu digo porém Atma Vichara (auto-investigação). Este

é o meio prático. “Chitta Vritti Nirodha” surge no sono, no desmaio ou na inanição. Tão

logo a causa desaparece vem a reativação dos pensamentos. Qual é a sua utilidade então? No estado de letargia há paz e não há sofrimento. Mas o sofrimento volta quando o estupor

é removido. Assim Nirodha (controle) é inútil e não pode ser um benefício duradouro.

Como a ajuda pode ser duradoura? Ao se encontrar a causa do sofrimento. O sofrimento se deve à percepção dos objetos. Se não surgirem, não haverá pensamentos contingentes e assim o sofrimento é varrido. Como os objetos cessam de existir? Eis a próxima pergunta. Os srutis (escrituras) e os sábios dizem que os objetos são pura criação mental. Eles não

têm existência substancial. Investigue o assunto e descubra a veracidade da afirmação. O resultado levará à conclusão de que o mundo se acha na consciência subjetiva. O Eu é pois

a única realidade que permeia e envolve o mundo. Uma vez que não exista dualismo, os

pensamentos não surgirão para perturbar sua paz. Isto é a realização do Eu. O Eu é eterno e também é realização.

Abhyasa (prática espiritual) consiste em retirar-se para o interior, no Eu, toda vez que você for perturbado por um pensamento. Não se trata de concentração ou destruição da mente, mas de interiorizar-se no Eu.

D

– Por que a concentração é ineficaz?

M

– Pedir à mente que mate a mente é como pretender que o ladrão se faça de policial. Ele

irá com você e pretenderá apanhar o ladrão, mas nada será conseguido. Assim você deve introverter-se e verificar de onde a mente surge e assim ela cessará de existir.

D

– Ao introverter a mente, não estaremos ainda empregando a mente?

M

– É claro que estamos empregando a mente. É sabido e admitido que somente com a

ajuda da mente ela poderá ser morta. Mas ao invés de admitir dizendo que a mente existe e que quer matá-la, deverá procurar a fonte de onde surge e descobrirá que ela não existe mesmo. A mente voltada para fora resulta em pensamentos e objetos. Voltada para o interior torna-se o Eu.

D – Mesmo assim, não entendo. O “Eu” que o Sr. se refere agora é o “Eu” errado. Como

eliminar o “Eu” errado?

M – Você não precisa eliminar o “Eu” errado. Como pode o “Eu” eliminar a si mesmo?

Tudo quanto você necessita fazer é buscar sua origem e estabelecer-se lá. Seus esforços só

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poderão ir até esse ponto. Então aquele que se acha acima tomará conta de tudo. Você nada poderá fazer. Nenhum esforço será necessário para alcançá-lo.

D

– Se “Eu” sou sempre, aqui e agora, por que não percebo isso?

M

– É assim. Quem diz que não é sentido? É o “Eu real”quem diz isso, ou o falso “Eu”?

Verifique. Verá que é o falso “Eu”. O falso “Eu” é a obstrução. Ele deverá ser removido a fim de que o verdadeiro “Eu” não fique escondido. O sentimento de que não está realizado

é o obstáculo à realização. De fato já está realizado e não há nada a realizar. De outro modo

a realização seria algo novo. Se nunca existiu, deverá existir para todo o sempre. Tudo que nasce deverá também morrer. Se a realização não é eterna não valerá a pena obtê-la. Portanto o que buscamos não é algo que deverá surgir como novo. É somente aquilo o que

é eterno mas que se acha desconhecido devido às obstruções. É isto que buscamos. Tudo

que precisamos é remover as obstruções. Aquilo que é eterno é desconhecido por causa da

ignorância, a ignorância é a obstrução. Supere a ignorância e tudo estará bem. A ignorância

é idêntica ao “Eu-Pensamento”. Encontre sua fonte e ele evaporará. O “Eu-Pensamento” é

como um espírito, embora não palpável, surge simultaneamente com o corpo, floresce e

desaparece com ele. A consciência do corpo é o “Eu” errado. Abandone esta consciência do corpo. Consegue-se isso buscando a fonte do “Eu”. O corpo não diz “Eu sou”. É você quem diz “Eu sou o corpo”. Encontre quem é este “Eu”. Buscando sua fonte, ele desaparecerá.

D

– Quanto tempo pode a mente ficar ou manter-se no coração?

M

– O período de extensão da prática.

D

– E o que acontece após esse período?

M

– A mente retorna ao presente estado normal. A união no coração é substituída e

percebida por uma variedade de fenômenos. Isto é chamado de mente dispersa. A mente

identificada com o coração é chamada de mente em repouso. Quando a pessoa pratica mais

e mais desta maneira, a mente tornar-se-á extremamente pura devido a remoção de seus

defeitos e a prática se tornará tão fácil que a mente purificada mergulhará no coração tão logo inicie a auto-indagação.

D – É possível para uma pessoa que uma vez teve a experiência de Sat-Chit-Ananda (o Ser

Absoluto), durante a meditação, identificar-se com o corpo quando está fora dela? M – Sim, é possível, porém ela irá gradualmente perdendo a identificação com a

continuação da prática. A iluminação do ser dissipa a treva da ilusão para sempre. Qualquer conquista que se atinja sem que se tenha extirpado as vasanas não será durável. Os esforços devem ser feitos no sentido de erradicar as vasanas. O conhecimento do Eu só poderá permanecer firme depois que as vasanas forem eliminadas. Temos que lutar contra as tendências mentais há muito tempo acumuladas. Todas desaparecerão. Somente serão rapidamente eliminadas por aqueles que trilharam um caminho espiritual (sadhana) no passado, mas nos outros casos o tempo será maior.

D

– Essas tendências desaparecerão gradualmente ou serão todas eliminadas num dia?

M

– Quando o sol desponta, a escuridão desaparece gradativamente ou de uma só vez?

D

– Como posso dizer se estou fazendo progresso por meio da auto-indagação?

M

– O grau de ausência de pensamentos é a medida do seu progresso em direção à auto-

realização. Mas a auto-realização em si não admite o progresso. É sempre a mesma. O “Eu”

permanece sempre realizado. Os obstáculos são os pensamentos. O progresso se mede pelo grau de remoção dos obstáculos que impedem que entendamos que o Eu está sempre realizado. Desse modo os pensamentos devem ser analisados com objetivo de perceber a quem eles surgem. Assim vá a sua fonte de onde eles não surgem.

D – As dúvidas estão sempre surgindo. Daí minha pergunta.

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M – Uma dúvida surge e é esclarecida. Outra aparece e é aclarada, dando margem a que

outra desponte e assim por diante. Portanto não há possibilidade de esclarecer todas as dúvidas. Veja a quem estas dúvidas aparecem. Vá a sua fonte e fixe-se nela. Então elas deixarão de aparecer. É deste modo que as dúvidas devem ser esclarecidas.

D – Devo continuar a fazer a auto-indagação “Quem sou eu?” sem responder? Quem

pergunta a quem? Qual bhavana (atitude) que a mente deve assumir no período da

indagação? Quem é o “Eu”: o Eu (divino) ou o ego?

M – Na auto-indagação (“Quem sou eu?”) o Eu é o ego. A pergunta tem por significado

indagar qual é a fonte ou origem deste ego. Você não precisa manter qualquer bhavana (atitude) na mente. Tudo o que se requer é que você abandone a bhavana que é o corpo, que mostra esta ou aquela característica, com este ou aquele nome, etc. Não carece ter uma

bhavana sobre sua real natureza. Ela existe como sempre é. É real e não uma bhavana.

D – Mas não é engraçado que o “Eu” deva procurar o “Eu”? A auto-indagação – Quem sou

eu? Não é afinal uma fórmula vazia? ou devo fazer a mim mesmo a pergunta indefinidamente, repetindo-a como um mantrã?

M – A auto-indagação certamente não é uma fórmula vazia e é mais do que a repetição de

qualquer mantrã. Se a auto-indagação (quem sou eu?) fosse apenas uma pergunta

puramente mental, não seria de muito valor. O objetivo real dela é focalizar toda a mente em sua fonte. Não se trata, portanto, do fato de um “Eu” buscando um outro “Eu”. Muito menos expressa uma fórmula vazia pois envolve uma intensa atividade de toda a mente a fim de se manter na pura autoconsciência.

D – É suficiente que eu dedique um tempo pela manhã e outro à noite a esta atma-vichara?

Ou devo fazê-la sempre, mesmo quando estou escrevendo ou caminhando?

M – Qual é sua real natureza? Escrevendo, caminhando, ou sendo? A realidade única e

inalterável é ser. Até que você realize aquele estado de puro ser, deverá prosseguir na auto-

indagação. Se você tiver se estabelecido neste estado não haverá mais preocupações. Ninguém buscará a fonte dos pensamentos se eles não surgirem. Uma vez que você pense “eu estou caminhando” ou “eu estou escrevendo”, faça a pergunta: “quem está fazendo isso?”.

D

– Se eu continuo rejeitando os pensamentos posso chamar isso de vichara?

M

– Isto poderá ser um degrau inicial, mas a verdadeira vichara começa quando você se

liga ao Eu (Divino) e fica livre das atividades da mente, ou seja, as ondas de pensamentos.

D

– Então a vichara não é intelectual?

M

– Não. Ela é antara vichara, isto é, busca interior. Conter a mente e investigá-la é

indicado para os iniciantes. Mas afinal o que é a mente? É uma projeção do Eu (Divino). Veja para quem ela surge e de onde nasce e veremos que o “Eu-Pensamento” é a causa-raiz

da mente. O “Eu-Pensamento” desaparece e percebe-´se uma expandida e infinita “Eu-

consciência.”

D – Eu perguntei à “Mãe” no ashram de Sri Aurobindo, o seguinte: “Consigo manter minha

mente em branco, sem pensamentos, de modo a que Deus se mostre em seu ser real. Mas

não percebo nada”. Ela me respondeu: “Sua atitude é correta. O poder descerá de cima. É uma experiência direta”. Devo fazer algo após isso?

M – Seja o que você realmente é. Não há nada que desça ou se torne manifestado. Tudo o

que se necessita é perder o ego. Aquilo que existe está sempre presente. Até mesmo neste momento você é ele. Você não é algo separado dele. O branco da mente é percebido por você. Você está aí para poder percebê-lo. O que é que você está esperando? O pensamento:

“Eu não vi”, a expectativa de ver e o desejo de obter algo, todos são operações do ego.

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Você caiu nas armadilhas do ego. Seja você mesmo e nada mais! Logo que você nasce você consegue algo. Se você consegue algo terá que deixá-lo. Portanto, livre-se de toda essa

redundância. Seja o que você é. Veja quem é e permaneça no Eu, livre de nascimento, ir e voltar (reencarnação).

D

– Como conhecer o Eu?

M

– Conhecer o Eu significa ser o Eu. você pode dizer que não conhece o Eu? Embora

você não possa ver seus próprios olhos, a não ser com um espelho, por acaso negará a existência deles? De modo similar, você é consciente do Eu mesmo que ele não se ache objetivado, ou você o nega pelo fato de não estar objetivado? Quando você diz “eu não posso conhecer o Eu”, significa impedimento em termos de conhecimento relativo. Pelo fato de ter sido acostumado a este conhecimento relativo você se identifica com ele. Esta errônea identificação forjou a dificuldade de perceber o óbvio Eu Divino porque este não pode ser objetivado. Por isso você pergunta “como conhecer o Eu?”.

D

– O Sr. fala sobre ser. Ser o que?

M

– Sua obrigação é ser e não ser isto ou aquilo. “Eu sou o que sou” resume toda verdade.

O

método se resume nas palavras “permaneça quieto”. Que significa permanecer quieto?

Significa destruir o ego. Isto porque qualquer aspecto ou forma é causa de problemas. Livre-se das noções de “eu sou isto ou aquilo”. E o que se requer para realizar o Eu é permanecer quieto. Que há de mais fácil do que isso? Desse modo Atma-Vidya (autoconhecimento) é o meio mais fácil de obtê-lo. A verdade sobre a própria pessoa vale a pena ser pesquisada e conhecida. Tomando essa verdade como alvo de sua atenção, o indivíduo deve conhecê-la de maneira aguçada no coração. Este conhecimento sobre a própria pessoa será revelado somente à consciência que for aquietada, clara e livre da atividade da agitada e sofredora mente. Saiba que a consciência que sempre brilha é o coração na feição do “Eu” sem forma, o qual é conhecido pela pessoa que permanece quieta, sem pensamentos sobre qualquer coisa existente ou não existente. Estar só é a perfeita realidade.

6° CAPÍTULO AUTO-INDAGAÇÃO – ERROS DE INTERPRETAÇÃO

Os ensinamentos de ordem filosófica transmitidos por Ramana são muito semelhantes aqueles dos seguidores da Vedanta Advaita, escola filosófica que floresceu há mais de mil anos. Sri Ramana e os advaitistas concordam em muitos pontos teóricos. Mas seus métodos práticos são radicalmente diferentes. Enquanto Ramana advoga a auto-indagação, muitos dos instrutores da advaita recomendam um tipo de meditação que se baseia em afirmações mentais do Eu como única realidade. Estas afirmações tais como “Eu sou Brahman” ou “Eu sou Ele” são costumeiramente usadas como mantrãs; ou, mais raramente, a pessoa medita no seu significado e tenta obter a experiência das implicações destas afirmações. Em conseqüência da auto-indagação iniciar-se com a pergunta “Quem sou eu?”, muitos dos seguidores da advaita tradicional entendem que a resposta a ela seria “Eu sou Brahman” e ocupam suas mentes com repetições deste processo mental. Sri Ramana critica esta abordagem ao Divino afirmando que, enquanto a mente esteja constantemente empenhada em buscar ou repetir soluções a esta pergunta, nunca mergulhará em sua fonte e desaparecerá nela. Criticava também, pela mesma razão aqueles que tentavam usar a “auto- indagação” como mantrã, dizendo que ambas práticas não atingiam o objetivo da auto- indagação. A pergunta “Quem sou eu?”, dizia, não é um convite à análise da mente ou para

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tirar conclusões sobre sua natureza, nem é uma fórmula mântrica, é simplesmente uma ferramenta que facilita a retirada da atenção dos objetos vinculados aos pensamentos e percepções sensoriais, dirigindo-a ao próprio pensador (como testemunha). Na opinião do Mestre a solução para a pergunta “Quem sou eu?” não é para ser encontrada na ou pela mente pois a única resposta verdadeira é a experiência da ausência da mente (o vazio). Outro equívoco muito difundido refere-se à crença hindu de que o Eu pode ser descoberto ao se rejeitar mentalmente todos os objetos dos pensamentos e da percepção sensorial como sendo o não-Eu. tradicionalmente é chamado de abordagem do Eu através do “netti-netti” (isto não, isto não). O praticante deste sistema rejeita verbalmente todos os objetos com os quais o “Eu” se identifica: “Eu não sou a mente”, “não sou o corpo”, etc., na esperança de que o Eu real seja eventualmente realizado em sua forma pura e imaculada. O hinduismo chama esta prática “auto-indagação” e, por causa da identidade de nomes, foi freqüentemente confundida com o método de Ramana. A posição do Mestre em relação a este tradicional sistema de auto-análise é inteiramente contrária a seu uso, tendo mesmo desaconselhado seus seguidores a praticá-la, admoestando-os que se tratava de uma atividade puramente intelectual, a qual não os levaria além da mente. Em sua resposta básica a estas questões sobre a eficácia desta prática ele diria que o “Eu-Pensamento” (o ego) é alimentado por tais atos de discriminação e que o ego que tenta eliminar o corpo e a mente, por ser o “não-Eu”, jamais poderá eliminar a si mesmo. Os seguidores das escolas que usam “Eu sou Brahman” e “netti-netti” (isso não, isso não) compartilham a crença de que o “Eu” (Divino) pode ser descoberto pela mente quer pela afirmação ou negação. Esta crença de que a mente pode, por suas próprias atividades, atingir o Eu Divino é a raiz de muita confusão sobre a prática da auto-indagação. A auto-indagação envolve concentração num centro particular do corpo chamado coração-centro. Este ponto de vista, muito adotado, resulta da má interpretação de algumas afirmações de Ramana sobre o coração e, a fim de compreender como esta crença surgiu, é necessário examinar de perto algumas idéias a respeito deste assunto. Ao descrever a origem do “Eu-Pensamento” ele às vezes disse que se dirigia ao cérebro através de um canal que iniciava de um centro no lado direito do peito. Ele chamou este centro de coração central e disse que quando o “Eu-Pensamento” se assentasse no Eu (Divino) ele voltaria a este centro e desapareceria. Disse também que quando o Eu é experimentado de modo consciente, existe uma percepção tangível que este centro é a fonte de ambos, a mente e o mundo. Entretanto estas afirmações não são estritamente reais e Ramana às vezes as limita explicando que são dadas às pessoas que insistem em se identificar com seus corpos físicos. Disse também que o coração na realidade não está localizado no corpo e, sob ponto de vista mais elevado, é também errado dizer que o “Eu- Pensamento” surge e submerge neste centro à direita do peito. Em virtude de Ramana freqüentemente ter dito: “Busque o local de onde o Eu surge”, ou “procure a fonte da mente”, muitas pessoas interpretaram estas afirmações como uma indicação que deveriam se concentrar nesse centro particular quando praticassem a auto-indagação. O Mestre rejeitou esta interpretação várias vezes ao dizer que a fonte da mente ou do “Eu” só poderia ser descoberta por meio da atenção ao “Eu-Pensamento” e não através da concentração num ponto particular do corpo. Ele disse às vezes que dirigir a atenção neste centro é uma boa prática de concentração, mas nunca a associou com a auto-indagação. Ele também disse, ocasionalmente, que a meditação no coração era um meio eficaz de atingir o Eu, mas entretanto nunca afirmou que isso deveria ser obtido pela concentração no centro do coração. ao contrário, ele afirmou que a pessoa deve meditar no coração como ele é. O

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coração como ele é, não é um local e sim o Eu imanente, e a pessoa só pode ser consciente

de sua real natureza sendo ele mesmo. Não pode ser alcançado pela concentração. Embora

existam vários comentários potencialmente ambíguos deste tipo a respeito do coração e de seu centro, em todos seus escritos e conversas gravadas não existe nenhuma afirmação que ampare o fato de a auto-indagação seja praticada concentrando-se neste centro. De fato, ao se examinar mais apuradamente suas declarações sobre este assunto, a pessoa conclui

apenas que, embora a experiência do Eu(Divino) inclua uma consciência deste centro, a concentração nele não resultará na experiência do Eu.

D – Começo perguntando a mim mesmo “quem sou eu?”, elimino o corpo como não sendo

o Eu, o hálito vital como não sendo o Eu, mas não sou capaz de ir mais adiante.

M – Bem, isto é o máximo que o intelecto pode ir. Seu processo é somente intelectual. Na

verdade todas as escrituras mencionam o processo apenas para guiar o buscador espiritual a fim de que conheça a verdade. A verdade não pode ser diretamente evidenciada. Daí a utilização deste processo intelectual. Veja, aquele que elimina todo o “não-Eu” não pode eliminar o “Eu” ao dizer “não sou isto” ou “sou isto” subentende-se que deva existir um “Eu”. Este “Eu” é somente o ego, ou o “Eu-Pensamento”. Após o surgimento deste “Eu- Pensamento”, todos os outros pensamentos surgem. O “Eu-Pensamento” é portanto o pensamento-raiz. Se a raiz é arrancada, todos os outros também o serão. Portanto busque a raiz “Eu”, pergunte a si mesmo: “Quem sou eu?”. encontre sua fonte e então todas essas outras idéias desaparecerão e restará o puro “Eu” (Divino).

D

– Como fazer?

M

– O “Eu” está sempre aí – seja no sono profundo, seja no sonho ou na vigília. Aquele

que se acha no sono profundo é o mesmo que fala agora. Há apenas o sentido do Eu. Por acaso você nega sua existência? Você não o faz. Você diz Eu Sou. Veja quem é este Eu.

D

– Eu medito pelo método netti-netti (isto não – isto não).

M

– Isto não é meditação. Encontre sua fonte. Você deve atingir a fonte sem falhas. O falso

“Eu” desaparecera e o “Eu” real será realizado. O primeiro não pode existir sem o último (o

Eu Real). No momento há uma errônea identificação do Eu com o corpo, com os sentidos,

etc

quando nos fixamos naquele que não pode ser eliminado (o Eu Divino). Isto é “iti” (aquele

que é).

D – Quando eu penso “Quem sou eu?” , a resposta vem “não sou esse corpo mortal, mas

sou chaitanya, atmã (consciência, o Eu)”. E subitamente outra pergunta surge, “por que o atmã se envolveu de maya (ilusão)?” ou em outras palavras, “por que Deus criou este mundo?”.

M – Indagar “Quem sou eu?”, realmente significa tentar encontrar a fonte do ego ou do

Prossiga descartando-se dele se isto é “neti”. Mas a realização só pode ser obtida

“Eu-Pensamento”. Você não deve ter outros pensamentos, tais como “Eu não sou o corpo”. Buscar a fonte do “Eu” serve de meio para se livrar de todos os outros pensamentos. Não

devemos dar ensejo a outros, tais como mencionou, mas manter a atenção fixa em descobrir

a fonte do “Eu-Pensamento” e pergunte, à medida que cada pensamento apareça, a quem

este pensamento surgiu. Se a resposta for “eu capto o pensamento” continue a busca ao perguntar “quem é esse “Eu” e qual é sua fonte.

D

– Devo continuar repetindo “Quem sou eu” de modo a torná-lo um mantrã?

M

– Não. “Quem sou eu?” não é um mantrã. Significa que você deve procurar aonde em

você surge o “Eu-Pensamento” que é a fonte de todos os outros pensamentos.

D – Devo meditar “Eu sou Brahman (Aham Brahmasmi)?

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M – O texto não quer dizer que devemos pensar “eu sou Brahman”. Aham (“Eu”) é

conhecido de todos. Brahman habita como Aham (Eu) em cada um. Encontre o “Eu”. o

“Eu” é o próprio Brahman; você não necessita pensar nisso, simplesmente encontre o “Eu”.

D

– Desprezar os veículos (neti-neti) não é o que mencionam os livros sagrados (sastras)?

M

– Logo após o surgimento do “Eu-Pensamento” aparece a falsa identificação do “Eu”

O “Eu” é erroneamente associado com

eles e o verdadeiro “Eu” se perde de vista. Para que se possa separar o puro “Eu” do “Eu” contaminado é que se menciona esta distinção. Mas isso não significa exatamente uma separação do não Eu mas sim uma busca do Eu real. O Eu real é o infinito “Eu”. este “Eu”

é a perfeição. É eterno. Não tem origem nem fim. O outro eu nasce e também morre. É

impermanente. Veja a quem pertencem os pensamentos mutáveis. Ver-se-á que surgem a partir do “Eu-Pensamento”. Estabilize ou pare o “Eu-Pensamento” e eles cessarão. Pesquise a fonte do “Eu-Pensamento” ou ego e restará apenas o Eu real.

com o corpo, com os sentidos, com a mente etc

D

– É difícil praticar isso. Eu compreendo a teoria, mas como fazê-lo?

M

– Os outros métodos são usados para aqueles que não conseguem levar a cabo a

investigação do Eu. mesmo na repetição verbal do Aham Brahmasmi ou seu pensamento

um agente é necessário. Quem é esse agente que está exercendo o ato de repetir? É o “Eu”. Seja esse Eu. Este é o método direto. Porém os outros métodos também acabarão por levar todos a este método direto que é a investigação do Eu real.

D – Eu sou consciente do Eu, entretanto meus problemas não terminaram.

M – Este “Eu-Pensamento” não é puro. Está contaminado pela associação com o corpo e os

cinco sentidos. Veja a quem surgem os problemas. É ao “Eu-Pensamento”(ou ego). Estabilize-o e assim os outros pensamentos desaparecerão.

D

– Sim. Como fazê-lo? Este é todo o problema.

M

– Pense “Eu, Eu” e se fixe neste único pensamento com a exclusão de todos os outros.

D

– A afirmação de que sou Deus não é mais eficaz que a auto-indagação? A afirmação é

positiva, enquanto que a outra é negação. Além do mais indica separatividade.

M – Na medida que você procura saber como se realizar, este conselho é dado para que

encontre seu Eu. sua procura do método indica sua separatividade.

D

– Não é melhor afirmar “Eu sou o Supremo Ser” do que perguntar “Quem sou Eu?”

M

– Quem está afirmando? Deve existir alguém para fazê-lo. Procure quem ele é.

D

– A concentração não é melhor que a investigação?

M

– A concentração implica em imagem mental, enquanto que a investigação implica em

realidade. O primeiro método é objetivo, enquanto que o último é subjetivo.

D

– Deve haver uma abordagem científica para esta finalidade.

M

– Evitar a irrealidade e buscar a realidade é algo científico.

D

– Suponho que deve haver uma eliminação gradual, primeiro da mente, depois do

intelecto e depois do ego.

M – Apenas o Eu é real. Todos os outros são irreais. A mente e o intelecto não se acham

separados de você. A Bíblia diz, “aquieta-te e sabe que Eu sou Deus”. Aquietar-se é o único requisito para a realização do Eu como Deus.

D – O soham (afirmação Eu sou Ele) é o mesmo que o “Quem sou Eu?”

M – Somente o Aham (“Eu”) é comum a ambos. Um é o soham. O outro é o koham (quem sou eu?). Eles são diferentes. Por que devemos repetir soham continuadamente? A pessoa deve buscar o “Eu” real. Na pergunta “Quem sou eu?”, o “Eu” se refere ao ego. Tentando pesquisá-lo e encontrar sua fonte vemos que o ego não tem existência separada, mas

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submerge no eu real. Veja a dificuldade, a vichara difere em método da meditação shivoham ou soham (“Eu sou Shiva”, ou “Eu sou Ele”). Em lugar disso eu dou ênfase ao autoconhecimento, pois você deverá se interessar por si mesmo antes de tentar conhecer o mundo e seu senhor. A meditação soham ou “Eu sou Brahman” é mais ou menos um pensamento da mente. Mas a procura do Eu de que falo é um método direto; na verdade superior a outra meditação. A partir do momento que você inicia a busca do Eu e vai se aprofundando mais e mais, o Eu real o espera lá para trazê-lo para o interior. Então

qualquer coisa que seja feita o será por outro alguém sem sua interferência. Neste processo todas as dúvidas e discussões serão automaticamente eliminadas da mesma forma que uma pessoa que dorme esquece de seus compromissos nesse período.

D

– Que certeza existe de que alguém me espera para dar boas-vindas?

M

– Se se tratar de uma alma suficientemente desenvolvida (pakvi) é certo que ficará

naturalmente convencida.

D

– Como é possível este desenvolvimento?

M

– Várias respostas são dadas, mas qualquer que seja o nível anteriormente alcançado será

acelerado pela vichara.

D – Mas isto é um círculo vicioso. Eu estou desenvolvido e desse modo apto para praticar a

auto-indagação (Quem sou eu?) e a própria auto-indagação propicia meu desenvolvimento.

M – A mente tem sempre este tipo de dificuldade. Ela quer determinada teoria que a

satisfaça. Na verdade nenhuma teoria é necessária ao homem que seriamente deseje se

aproximar de Deus, ou realizar seu próprio e real ser.

D – Não há duvida que o método ensinado por Bhagavan é direto. Mas é tão difícil. Não

sabemos como começá-lo. Se começamos a indagar “Quem sou eu, quem sou eu” como um japa (repetição de um nome de Deus) ou um mantrã é penoso. Nos outros métodos há algo preliminar e positivo por meio do qual podemos iniciar e depois seguir passo a passo. Mas

no método de Bhagavan não há tal coisa e buscar o Eu de modo imediato, embora direto, é difícil.

M – Você reconhece que é um método direto. É o método direto e fácil. Quando buscamos

outras coisas que são alheias a nós é tão fácil, como pode ser difícil para a pessoa dirigir-se

a seu próprio Eu? você diz “quando começar?” não há nem início nem fim. Você é você

mesmo seja no começo, seja no fim. Se você está aqui e o Eu se achar em outro lugar e você tiver que encontrar esse Eu talvez poderá ser orientado como caminhar e então como achá-lo. Suponha que você está no Ramanashraman pergunte: “Quero ir ao Ramanashraman, como começarei e como chegar até lá?” Que dirão os outros? A busca de Deus por parte do homem é como isto. Ele é sempre o Eu e nada mais. Você diz que o “Quem sou eu?” torna-se um japa. Isto não quer dizer que você deva repetir sem interrupção o “Quem sou eu?”. Neste caso os pensamentos não morrerão tão facilmente. No método direto, como você o chama, ao perguntar a si mesmo “Quem sou eu?” você é

orientado a se concentrar no seu interior, aonde surge o “Eu-Pensamento”, a raiz de todos

os outros pensamentos. Como o Eu não está “fora” mas “dentro”, pede-se que você

mergulhe em seu interior ao invés de se exteriorizar. Que pode ser mais fácil do que se dirigir a você mesmo? Mas o que se verifica é que para alguns este método parecerá difícil

e não será atraente. É por esta razão que tantos e diferentes métodos foram ensinados. Cada um se mostrará como o melhor e o mais fácil. Isto está de acordo com o pakva ou amadurecimento espiritual de cada um. Mas para alguns, nenhum exceto a vichara marga (o caminho da auto-indagação), será atraente. Estes perguntarão: “Você quer que eu conheça

ou que veja isso ou aquilo? Mas quem é o conhecedor, aquele que vê?” qualquer que seja o

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método escolhido, existirá sempre um agente, aquele que exerce a ação. E disto não se

escapa. A pessoa tem que descobrir quem é este agente que está praticando a ação. Até que se atinja este estágio, o caminho espiritual (sadhana) não terminará. Desse modo, eventualmente todos devem caminhar até encontrar “Quem sou Eu?” Você se queixa que neste método não há nada de preliminar ou positivo a fim de iniciá-lo. Você tem o Eu para começar. Você sabe que sempre existe, enquanto que o corpo não existe sempre como é o caso, por exemplo, no período do sono profundo. O sono revela que você existe mesmo sem o corpo. Nós identificamos o “Eu” com corpo, imaginamos o Eu como tendo um corpo, como tendo limites e daí surge todo nosso problema. Tudo o que temos a fazer é deixar de identificar o Eu com o corpo, com as formas e os limites e a partir daí nos perceberemos como o Eu que sempre somos.

D

– Deve pensar “Quem sou eu?”

M

– Você aprendeu que o “Eu-Pensamento” brota. Fixe-se no “Eu-Pensamento” e encontre

sua fonte.

D

– Posso saber como fazê-lo?

M

– Faça do jeito que lhe foi dito e veja.

D

– Não entendo o que devo fazer.

M

– Se for algo objetivo o meio deve ser mostrado objetivamente. Este de que falo é

subjetivo.

D

– Mas eu não entendo.

M

– O que! Você não entende que você é?

D

– Por favor diga-me o meio.

M – Será necessário mostrar o caminho no interior de sua própria casa? Está em seu interior.

D

– O Sr. disse que o coração é o centro do Eu.

M

– Sim, é o único supremo centro do Eu. você não precisa duvidar disso. O eu real está lá

no

coração atrás do jiva ou ego.

D

– Agora me diga por favor aonde é que ele fica no corpo.

M

– Você não pode conhecê-lo com sua mente. Você não pode realizá-lo pela imaginação,

quando digo que este é o centro (apontando para o lado direito do peito). O único meio

direto de realizá-lo é cessar de fantasiar e tentar ser você mesmo. Quando você realiza, automaticamente sente que este centro está aí. este é o centro, o coração, citado nas escrituras como hritguha (a caverna do coração), arul (a graça), ullam (o coração).

D

– Em nenhum livro encontrei referencia que está aí.

M

– Muito tempo depois que vim para cá tive a oportunidade de ler um verso de uma

versão malayalam do Ashtanga Hridayam, obra pertencente ao ayurveda (medicina hindu), no qual o ojas sthana (fonte da vitalidade do corpo ou local da luz) é mencionado como

estando localizado no lado direito do peito de denominado a sede da consciência (samvir). Não conheço nenhuma outra obra que se refira a ele como localizado aí.

D – Posso estar certo de que os antigos mestres indicaram este centro pelo nome de

“coração?”

M – Sim, é isso. Mas você deveria tentar se identificar com ele ao invés de localizar a

experiência. Um homem não necessita procurar onde estão situados seus olhos quando pretende ver. O coração está aí sempre aberto para você. Se pretender “entrar” nele, ele está sempre promovendo seus movimentos, mesmo quando você está inconsciente disso. Talvez seja melhor dizer que o Eu é o próprio coração do que afirmar que está no coração.

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Realmente, o Eu é o próprio centro. Está em toda parte, consciente de si mesmo como “coração”, a autoconsciência.

D – neste caso como pode ser localizado em qualquer parte do corpo? Fixar um local para o

coração não implicaria em estabelecer limitações fisiológicas para aquele que está acima de espaço e tempo?

M – Está certo. Mas a pessoa que faz a pergunta sobre a posição do coração se julga como

existindo com ou no corpo. Ao fazer a pergunta agora, dirá que seu próprio corpo está aqui mas você está falando de outro lugar? Não, você aceita sua existência corporal. É sob este ponto de vista que a referencia ao corpo físico é feita. Para falar a verdade, a pura consciência é indivisível, não tem partes, não tem forma e contornos, nem “dentro” nem “fora”. Não existe “direita” nem “esquerda” para ele. A pura consciência, que é o coração,

inclui tudo, e nada está fora ou separada dela. Esta é a ultérrima verdade. Do ponto de vista

do Absoluto, o coração, Eu, ou consciência, não pode haver qualquer ponto particular a ele

atribuído no corpo físico. Qual a razão disso? O corpo é uma mera projeção da mente e a mente, por sua vez, é um pobre reflexo do radiante coração. Como é possível, aquele que tudo contém, estar confinado numa pequena parte do corpo físico o qual é apenas uma manifestação infinitesimal e fenomênica da realidade única? Mas as pessoas não entendem isso. Elas só conseguem entender as coisas em termos do corpo físico e do mundo. Por exemplo, você diz: “Eu vim ao Ashram do meu país situado além do Himalaya.” Mas isso não é verdade. O que representa o “ir” e “vir” ou qualquer outro movimento para o uno, o espírito, todo penetrante que você realmente é? Você está onde você sempre esteve. É somente seu corpo que se moveu ou foi conduzido de um lugar a outro até que chegou a

este Ashram. Esta é a simples verdade, mas para a pessoa que se considera um ser independente vivendo num mundo objetivo, isto lhe parece com algo totalmente ilusório! É no sentido de descer a um nível mais acessível ao entendimento comum que se indica um local para o coração no corpo físico.

D – Como então posso entender a afirmação de Sri Bhagavan de que a experiência do

centro do coração se situa num ponto particular do peito?

M – Uma vez que você aceite sob ponto de vista real e absoluto que o coração como pura

consciência, acha-se além de espaço e tempo, será fácil entender o restante em sua correta

perspectiva.

D – O coração é dito estar na direita, na esquerda ou no centro. Com tais opiniões

diferentes, como devemos meditar nele?

M – Você existe, você é, e este é o fato. Dhyana (meditação) é para você, de você e em

você. Ela deverá ir onde você está. Ela não pode estar fora de você. Portanto você é o

centro da dhyana e isto é o coração. As dúvidas surgem quando você identifica o coração como algo tangível e físico. O coração não é um conceito, nem objeto para meditar. Mas é

o centro da meditação. O Eu permanece todo só. Você é o corpo no coração e o mundo

também está nele. Não há nada separado dele. Portanto todos os tipos de esforço acham-se nele localizados.

D – O Sr. diz que o “Eu-Pensamento” nasce do coração-centro. Devemos procurar lá sua

fonte?

M – Eu lhe peço para ver aonde o “Eu” surge no seu corpo, mas na verdade não é

totalmente correto dizer que o “Eu” surge e submerge no coração no lado direito do peito.

A meditação deve ser no Eu. todos sabem “Eu sou”. Quem é o “Eu”? Não está nem dentro,

nem fora, nem à direita, nem à esquerda. “Eu sou” – eis tudo. Abandone a idéia de direita e

esquerda. Elas pertencem ao corpo. O coração é o Eu. realize-o e depois verá por si

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mesmo.Não há necessidade de saber aonde e o que é o coração. ele fará seu trabalho se você se empenha na busca do Eu.

D – Qual é o coração a que se refere o verso do “Upadesa Saram” quando diz: “habitar o

coração é o melhor karma-yoga, raja-yoga, bhakti-yoga e jnana-yoga?”.

M – Aquele que é a fonte de tudo, aquele no qual tudo vive, e no qual tudo finalmente

submergirá é o coração já referido.

D

– Como devemos conceber este coração?

M

– Por que você deverá conceber alguma coisa? Você deverá apenas verificar de onde o

“Eu” surge. Aquele do qual todos os pensamentos dos seres encarnados brotam é chamado

de

coração. todas as descrições sobre ele são apenas conceitos mentais.

D

– Diz-se que existem seis órgãos de cores diferentes no peito, dos quais o coração é dito

situar-se a dois dedos à direita do meio do peito. Mas o coração é também sem forma. Devemos então imaginá-lo como tendo forma e meditar nela?

M

– Não. Apenas a auto-indagação (Que sou eu?) é necessária. Aquele que perdura durante

o

período do sono profundo e da vigília é sempre o mesmo. Mas na vigília há infelicidade

e o esforço para removê-la. Se você for perguntado “Quem acorda do sonho?” você dirá:

“Eu”. Se isto for feito o Ser Eterno se revelará. A investigação do “Eu” é o ponto central e não a concentração no coração centro. Não existe nada como dentro e fora. Ambos significam a mesma coisa ou nada. É certo que existe também a prática da concentração no coração-centro. Mas é apenas uma prática e não uma investigação. Apenas aquele que medita no coração permanece consciente quando a mente cessa sua atividade e fica calma, enquanto que aqueles que meditam em outros centros não podem ser tão conscientes mas concluem que a mente estava estabilizada apenas após ter se tornado novamente ativa. Em qualquer ponto do corpo que uma pessoa pense que o Eu habita, parecerá para ele, em conseqüência do poder de seu pensamento, que é ali que ele reside. Entretanto somente o amado coração é o refúgio para o nascimento e a submersão deste “Eu”. Saiba que embora

se diga que o coração existe em ambos, dentro e fora, na realidade absoluta não existe quer

dentro ou fora. Isto porque o corpo que parece como base das diferenças entre “dentro” e

“fora” é uma imaginação da mente pensante. O coração, a fonte, é o início, o meio e o fim

de tudo. O coração, o supremo espaço, não tem forma, é a luz da verdade.

CAPÍTULO 7

SUBMISSÃO

Muitas das tradições religiosas do mundo defendem a submissão a Deus como meio para transcender o Eu individual (ego). Sri Ramana aceitava a validade de tais aproximações e freqüentemente disse que este método era tão eficaz quanto a auto-indagação. Tradicionalmente o caminho da submissão (bhakti-yoga) é associado a práticas religiosas

de cunho dualístico, mas suas atividades eram somente de importância secundária para o

mestre. Contrapondo-se ele frisou que a verdadeira submissão transcendia a adoração a Deus através da relação sujeito-objeto, de vez que esta só poderia ser realizada com sucesso quando a pessoa percebesse, num determinado momento, que a separação entre ela e Deus havia cessado. A fim de atingir esta meta ele recomendou duas práticas distintas:

1 – a pessoa deve fixar-se no “Eu-Pensamento” até que a idéia de que é separada de Deus desapareça.

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2 – entregar toda a responsabilidade de sua vida a Deus ou o Eu. Para que esta submissão

seja eficaz a pessoa não deve ter qualquer desejo ou projeto de sua parte e ser totalmente livre da idéia de que exista uma pessoa individual capaz de agir independentemente de Deus.

O primeiro método é claramente uma auto-indagação camuflada sob outro nome. Ramana

freqüentemente equiparava as práticas de submissão e auto-indagação ao dizer que eram as

duas únicas e efetivas maneiras através das quais a auto-realização poderia ser obtida. Isto

é compatível com sua visão pois advoga que qualquer prática que envolvesse a consciência

do “Eu-Pensamento” seria um caminho válido e direto para o Eu, enquanto todas as outras práticas não seriam. Esta insistência no que diz respeito à consciência subjetiva do “Eu” como único meio de atingir o Eu (Divino) restringiu sua atitude em relação às práticas

devocionais (bhakti) e adoração, as quais são costumeiramente associadas à submissão a Deus. Ele nunca desanimou seus devotos de seguir tais práticas, mas ressaltou que a relação com Deus (devoto, adorador, servo, etc.) era algo ilusório pois somente Deus existe. A verdadeira devoção, dizia, é permanecer como se é, no estado de ser, quando todas as idéias sobre relações com Deus deixaram de existir.

O segundo método, o de entregar a responsabilidade de sua vida a Deus, também está

relacionado à auto-indagação, pois visa eliminar o “Eu-Pensamento” ao separá-lo dos objetos e atividades com as quais constantemente se identifica. Ao seguir esta prática deve haver uma constante conscientização de que não existe um “Eu” individual que atua ou deseja e que apenas o Eu (Divino) existe; nada existindo fora dele capaz de agir de modo independente. Ao seguir esta prática, sempre que a pessoa se torne consciente que alguém está assumindo a responsabilidade por seus pensamentos e ações como por exemplo “Eu quero” ou “Eu estou fazendo isso” – deverá introverter a mente afastando-a dos contatos externos e fixando-a no Eu. isto é análogo à transferência da atenção que ocorre na auto- indagação quando a pessoa percebe que perdeu a auto-atenção. Em ambos os casos o objetivo é isolar o “Eu-Pensamento” e fazê-lo desaparecer em sua fonte. O próprio Ramana admitiu que a submissão espontânea e total do “Eu” por este método era uma tarefa impossível para muitas pessoas e assim aconselhou seus seguidores a praticar exercícios preliminares que cultivariam sua devoção e o controle da mente. Muitas dessas práticas incluíam pensar ou meditar em Deus ou no guru, seja ao repetir constantemente seu nome (japa) ou visualizando sua forma. Ele disse a seus devotos que se isso fosse praticado regularmente, com amor e devoção, a mente seria absorvida, sem esforço, no objeto da meditação. Tão logo isso for conseguido, a submissão torna-se muito mais fácil. A constante lembrança de Deus previne que a mente se identifique com outras coisas e reforça

a convicção de que somente Deus existe. Isso também produz um fluxo de poder ou graça

proveniente do Eu (Divino) que enfraquece o apego do “Eu-Pensamento” e destrói as vasanas que perpetuam e incrementam sua própria existência. Eventualmente, o “Eu- Pensamento” é reduzido a uma proporção capaz de ser controlado e, com um pouco de auto-atenção, consegue-se fazê-lo mergulhar temporariamente no coração. Como na auto-

indagação, a realização final se verifica automaticamente pelo poder do Eu. quando todas

as tendências direcionadas às coisas do mundo exterior inerentes à mente forem dissolvidas

por meio da repetida experiência no ser. O Eu destrói o vestígio do “Eu-Pensamento” completamente a ponto de não mais surgir. Esta destruição final do “Eu” ou ego se estabelece somente se a auto-submissão for totalmente livre de interesses pessoais. Se for praticada com o desejo de obter a graça ou auto-realização não será nada mais que uma

26

submissão parcial, uma barganha comercial na qual o “Eu-Pensamento” faz um esforço na esperança de receber uma recompensa.

D

– O que é submissão incondicional?

M

– Se a pessoa se submete não haverá mais alguém para fazer perguntas ou pensar alguma

coisa. Ou os pensamentos são eliminados ao se fixar na raiz-pensamento-Eu, ou a pessoa se submete incondicionalmente ao poder supremo. Estas são as duas únicas maneiras de se

chegar à realização.

D – A submissão completa não requer que a pessoa abdique até do desejo pela libertação ou

Deus?

M – A submissão completa requer que você não tenha qualquer desejo próprio. Você

deverá estar satisfeito com o que Deus lhe der e isto significa não ter qualquer desejo

próprio.

D – Agora que estou satisfeito sobre este assunto, quero saber os passos através dos quais

posso conseguir a submissão.

M – Há duas maneiras. Uma é olhar na fonte do “Eu” e mergulhar nela. A outra é sentir:

“Sou impotente, somente Deus é todo poderoso. Se não me entrego totalmente a Ele, não há outro meio confiável para mim.” Por este método a pessoa gradualmente torna-se convicta

de que somente Deus existe e que o ego não conta. Ambos métodos levam à mesma meta.

Submissão total é outro nome para jnana ou libertação.

D

– Acho a submissão mais fácil. Quero adotar esse caminho.

M

– Em qualquer caminho que você vá, deverá perder-se no Uno. A submissão só é

completa quando você atinge o estado “Tu és tudo” e Seja feita tua vontade.” Este estado

não é diferente da jnana. No soham (afirmação que significa “Eu sou Ele”) existe dvaita

(dualismo). Na submissão existe advaita (não dualismo) na realidade (no Ser Absoluto) não

há nem dvaita nem advaita, apenas aquele que é. A submissão parece mais fácil porque o

povo imagina que, pelo fato de dizerem com os lábios “Eu me submeto” e largar seu fardo

ao Senhor, podem ser livres para fazer o que desejam. Mas o fato é que você não pode ter

gostos ou desgostos após sua rendição; sua vontade se tornará completamente inexistente, pois será a vontade de Deus que substituirá a sua. A morte do ego desta maneira leva a um estado que não é diferente do jnana. Portanto em qualquer caminho que você trilhe deve vir para jnana ou unidade.

D

– Qual a melhor maneira de matar o ego?

M

– Para cada pessoa o meio será aquele que lhe for mais fácil ou que lhe atraia mais.

Todos os meios são igualmente bons pois levam ao mesmo objetivo, que é o mergulho do

ego no Eu. O que o Bhakta (devoto) chama de submissão, aquele que pratica a vichara

chama jnana. Ambos estão tentando levar o ego de volta à fonte de onde brotou e fazê-lo mergulhar lá.

D

– A graça não poderá acelerar tal possibilidade no buscador?

M

– Deixe isto para Deus. Submeta-se sem reservas. Uma das duas coisas deve ser feita.

Seja submetendo-se porque admite sua inoperância e busca um poder maior que lhe ajude

ou investigue a causa do sofrimento ou penetrar na fonte e se submergir no Eu. Em qualquer das duas maneiras você ficará livre do sofrimento. Deus jamais desampara aquele que se submeteu.

D

– qual é o rumo da mente após a submissão?

M

– É a mente submissa que levanta a questão?

D

– Ao desejar constantemente submeter-me espero que experimente mais graça.

27

M – Renda-se de uma vez por todas e acabe com o desejo. Enquanto perdurar o sentido de

autor, ou executor das atividades, existirá o desejo. Isto também é personalidade. Se isto for embora o Eu será percebido puro e brilhando. O sentido de autoria é a escravidão e não as próprias ações. “Aquieta-te e sabe que eu sou Deus.” Aqui aquietar-se é a total submissão sem qualquer vestígio de individualidade. A quietude prevalecerá e não haverá agitação da mente. A agitação da mente é a causa do desejo, da sensação de autoria e da personalidade. Se tudo isso terminar haverá quietude (paz). Aqui “saber” significa “ser”. Não é o conhecimento relativo que se refere à tríade: conhecedor, conhecido e conhecimento.

D

– O pensamento “Eu sou Deus”, ou “Eu sou o Supremo Ser” é útil?

M

– “Eu sou o que sou”. Eu sou é Deus, não o pensamento “Eu sou Deus”. Realize “Eu

sou” e não pense “Eu sou”. “Saiba que eu sou Deus”, é dito, e não “pense que sou Deus.”

Todos falam que submissão é como retirar uma porção de açúcar mascavo de uma imagem do Senhor Ganesha feita de açúcar mascavo e oferecê-la como naivedya (oferta de alimento) ao próprio Senhor Ganesha. Você diz que oferece seu corpo, alma e todas suas posses a Deus. Por acaso lhe pertencem para que possa oferecê-los a ele? O máximo que você pode dizer é: “eu falsamente imaginei até agora que todos eles eram meus. Agora compreendo que são seus. Não agirei mais como se fossem meus.” Este conhecimento, que

nada existe a não ser Deus ou o Eu e que “Eu” e “meu” não existem, é jnana. Portanto não existe diferença entre bhakti e jnana. Bhakti é jnana mata ou seja a mãe de jnana.

D – Homens mundanos como somos, temos algum tipo de tristeza ou outra coisa e não

sabemos como nos livrar disso. Oramos a Deus e ainda não estamos satisfeitos. Que devemos fazer?

M

– Confie em Deus.

D

– Nós nos rendemos mas assim mesmo não há ajuda.

M

– Sim. Se você se submeteu deve estar apto a obedecer a vontade de Deus e não se

queixar daquilo que possa não lhe agradar. As coisas podem acontecer diferentemente da maneira que aparentemente se apresentam. O infortúnio freqüentemente leva o homem a ter

em Deus.

D

– Mas nós somos mundanos. Temos esposa, filhos, amigos e parentes. Não podemos

ignorar a existência deles e nos submeter à vontade Divina sem reter um pouco da

personalidade em nós.

M – Isto significa que você não se submeteu como alegou. Você deve confiar apenas em

Deus. Submeta-se a ele e conforme-se a sua vontade, quer ele apareça ou não. Espere de acordo com a vontade Dele. Se você quer que Ele faça o que lhe agrada, não se trata de submissão, mas de imposição de sua parte. Você não deve exigir que Ele lhe obedeça e ao mesmo tempo pensar que se submeteu. Ele sabe o que é melhor. Quando e como deve agir. Deixe tudo ao encargo Dele, é Ele quem carrega seu fardo, você não terá mais qualquer

encargos. Todas suas preocupações serão as Dele. Todos os seus cuidados serão Dele. Isto

é submissão, isto é bhakti. Ou então indague a quem estas questões surgem. Mergulhe

profundamente no coração e permaneça como Eu. uma dessas duas maneiras está aberta ao aspirante.

D

– A submissão é impossível.

M

– Sim. A submissão total é impossível no início. A submissão parcial é certamente

possível para todos. No passar do tempo isso o levará à completa rendição. Bem, se a

submissão é impossível que se pode fazer? não haverá paz mental. Você está desamparado para obtê-la. Isto só pode acontecer através da submissão.

D – A submissão, por si mesma, é suficiente para atingir o Eu?

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M – Basta que a pessoa se submeta. Submissão é oferecer-se à causa original de cada um. Não se iluda ao imaginar que tal fonte é um Deus que está fora de você. Sua fonte está no seu interior. Entregue-se a ela. Isto significa que você deverá buscar a fonte e mergulhar nela. O texto a seguir foi dado a Ramana sob a forma de uma nota escrita: “Dizem que a pessoa pode conseguir qualquer coisa se busca somente e total refúgio em Deus e sem pensar em outra coisa. Isto significa que se deve sentar, quieto, num determinado lugar e contemplar totalmente a Deus durante todo tempo, desprezando todos os pensamentos, incluindo até pensamentos sobre alimentos que são essenciais ao sustento do corpo? Significa isto que, quando a pessoa estiver doente não deverá pensar em remédios ou tratamento, mas confiar sua saúde ou doença exclusivamente à providência? No Bhagavad Guita lemos: “O homem que, abandona todos os desejos e caminha pela vida sem interesses, livre do sentido de “Eu” e “meu”, atinge a paz.” (2.71) Isto significa a eliminação de todos os desejos. Desse modo deveríamos nós, os devotos, dedicarmo-nos exclusivamente à contemplação de Deus e aceitar alimento e água se fossem dados pela graça divina, sem que tenhamos que solicitá- los? Ou significa que devemos fazer um pequeno esforço? Bhagavan por favor explique o segredo deste saranagati (submissão).” Após ler o texto, Ramana dirigiu-se a todos no salão do Ashram. Ananya saranagati (submissão total) significa não ter qualquer apego. Aos pensamentos, sem dúvida. Mas isto significará que devamos eliminar até os pensamentos a respeito do alimento e da água que são essências à manutenção do corpo físico? Ele diz no texto: “devo comer somente se obtenha algo pela vontade de Deus, sem que procure por alimento? Ou devo fazer algum esforço?” Muito bem. Devemos tomar o alimento que nos chega mas mesmo neste caso quem está ali para comer? Suponhamos que alguém ponha o alimento em nossa boca, não é certo que devamos finalmente degluti-lo? E isso não representa esforço? Ele também pergunta: “se estamos doente devemos tomar remédio ou deixar nossa saúde e doença nas mãos de Deus?” No livro Sadhana Panchakam escrito por Samkara está assentado que para tratamento da doença chamada fome devemos comer o alimento recebido como oferenda. Mas neste caso deve-se sair e pedir por ele. Se todas as pessoas fechassem seus olhos e se sentassem dizendo só comerei se o alimento vier até mim, que seria do mundo? Assim a pessoa deve se alimentar conforme surjam e de acordo com a tradição de cada um, porém deverá ser livre do sentimento de que ela os está fazendo. O sentimento de que “eu estou agindo” é a escravidão. É portanto necessário considerar e encontrar o método por meio do qual este sentimento possa ser superado, ao invés de duvidar se o remédio deva ser administrado caso a pessoa esteja doente ou se o alimento deva ser comido se tem fome. Tais dúvidas continuarão a surgir e não terão fim. Mesmo tais dúvidas como “devo gemer se tenho dor? Ou devo inalar o ar após a exalação?”, também ocorrem. Chame-o de Ishwara (Deus) ou o denomine de karma (destino) algum karta (poder superior) cuidará de tudo neste mundo de acordo com a evolução de cada pessoa. Se a responsabilidade for colocada nas mãos do poder superior as coisas acontecerão por conta dele. Caminhamos nesta terra. Enquanto fazemos isto, deveríamos refletir a cada passo quando devemos levantar uma perna após a outra ou parar em cada etapa? O caminhar não é feito de modo automático? O mesmo se passa com a inalação e a exalação do ar. Nenhum esforço é feito para inalar ou exalar. O mesmo acontece com a vida também. Podemos mudar os acontecimentos a nosso bel prazer ou fazer tudo que nos agrade? Um bom número de coisas acontece automaticamente sem que tenhamos consciência delas. Submissão total a Deus significa abandonar todos os pensamentos e concentrar-se Nele. Se podemos nos concentrar Nele os outros pensamentos

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desaparecerão. Se as ações da mente, da fala e do corpo estiverem submersas em Deus, todos os problemas de nossa vida estarão Nele.

D

– Mas Deus é realmente o autor de todas as ações que faço?

M

– A presente dificuldade surge porque o homem pensa que ele é o autor. Mas é um erro.

É

o poder superior que faz tudo e o homem é apenas uma ferramenta. Se ele aceita esta

posição estará livre de problemas que de outro modo o afetarão. Tome, por exemplo, a imagem esculpida na base do templo da torre (gopuram) que dá a impressão que sustenta a torre sobre seus ombros. Sua postura e semblante de grande esforço nos dá a impressão que carrega o peso da torre. Mas pense. A torre está construída sobre a terra e é sustentada por

seus alicerces. A figura é parte da torre mas dá-nos a impressão de estar sustentando o peso

da

torre. Não é engraçado? Assim também é o homem que coloca sobre si mesmo o sentido

de

autor.

D

– Swami, é bom amar a Deus, não é? Então por que não seguir o caminho do amor?

M

– Quem disse que você não poderia segui-lo? Você pode segui-lo. Mas quando você fala

de

amor, existe dualismo. Não é uma pessoa que ama uma entidade chamada Deus que é

amada? O indivíduo não está separado de Deus. Portanto amor significa que a pessoa tem amor por seu próprio Eu.

D – É por isso que estou lhe perguntando se Deus pode ser adorado através do caminho do

amor?

M – É exatamente isso que tenho dito. O próprio amor é a atual forma de Deus. Ao dizer

“Eu não amo isto, eu não amo aquilo” você rejeita todas as coisas e o que resta e Swarupa, isto é a real forma do Eu. Isto é pura bem-aventurança. Chame-o de bem-aventurança, Deus, atmã ou o nome que quiser. Isto é devoção, isto é realização e isto é tudo. Se você, pois, rejeita tudo o que resta é apenas o Eu. isto é amor real. A pessoa que conhece o segredo deste amor acha o mundo cheio do amor universal. A experiência de não esquecer

a única consciência (real) é o estado de devoção (bhakti) que se acha relacionado ao

imperecível e real amor. Isto porque o real conhecimento do Eu, o qual brilha como a

suprema bem-aventurança, brota como a natureza do amor. Somente aquele que conhece a verdade do amor, que é a real natureza do Eu, terá forças para romper o nó que o ata à vida (humana). Somente aquele que atinge as alturas do amor atingirá a libertação. Este é o coração de todas as religiões. A experiência do Eu é somente amor, que é ver somente amor, ouvir somente amor, sentir somente amor, degustar somente amor e aspirar somente amor, que é a beatitude.

D – Eu anseio por bhakti. Quero mais do este anseio. Até mesmo a realização não me

importa. Quero que esta ambição seja forte.

M – Se existe essa ambição, a realização forçadamente acontecerá a você, mesmo que não

queira. Deseje-a intensamente até que a mente se dissolva em devoção. Depois que a

cânfora queima não sobra resíduo. A mente é como a cânfora. Quando se resolve no Eu sem deixar o menor traço para trás, é a realização do Eu.

D – Tenho fé no murti dhyana (adoração da forma). Será que ela não me ajudará a obter

jnana?

M – Certamente que sim. Upasana (meditação) ajuda a concentrar a mente. Então a mente

fica livre de outros pensamentos e cheia da forma meditada. A mente então se torna um

com o objeto da meditação o que a torna muito pura. Então pense em quem é o meditador.

A resposta é “Eu”, isto é, o Eu (Divino). Deste modo este Eu é finalmente atingido.

Adorando a realidade sem formas através do pensamento sem pensamento é a melhor forma de adoração. Mas quando a pessoa não se acha preparada para este tipo de adoração

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de Deus sem forma, a adoração com forma é aceitável. A adoração sem forma só é possível

para aqueles que são livres da forma egóica. Saiba que toda devoção feita pelo povo e que apresenta forma egóica é apenas adoração da forma. O puro estado de ser identificado com

a graça (o Eu), que é livre de qualquer apego, é simplesmente o próprio estado de silêncio, que é livre de qualquer coisa. Saiba que quem permanece sempre naquele silêncio, experimentando como ele é, pratica a verdadeira adoração mental (manasika-puja). Saiba

que a prática da adoração incessante, verdadeira e natural na qual a mente se acha submissa

e identificada no Eu único, tendo instalado o Senhor no trono do coração, é silêncio, a melhor de todas as formas de adoração. O silêncio que é livre de um ego agressivo, é simplesmente libertação. O esquecimento malévolo do Eu que ocasiona a perda desse silêncio, é a antidevoção (Vibhakti). Saiba que “morar” neste silêncio com a mente

dominada como não diferente do Eu, é a verdade do Shiva bhakti (devoção a Deus). Quando a pessoa se rendeu completamente aos pés de Shiva, portanto tornando-se da natureza do Eu, tem como resultado a paz abundante, na qual não existe lugar no coração para que se queixe de seus defeitos e deficiências; isto é simplesmente a suprema devoção.

A pessoa tornando-se, então, um servo do Senhor, permanecendo quieto e silente,

destituído até do pensamento “eu sou seu servo”, é “morar” no Eu e isto é supremo

conhecimento.

D – Podem os adoradores espirituais atingir esta meta em vida ao percorrerem o mundo

absortos em cantar loas a Deus? Ou deveriam permanecer num só lugar?

M – É bom manter a mente concentrada numa só coisa onde quer que a pessoa se desloque.

Qual a vantagem de manter o corpo num só lugar se permite que a mente vagueie?

D

– A ahetuka bhakti (devoção sem motivo) é possível?

M

– Sim é possível. Adorar a Deus no interesse de obter um objeto desejado é adorar este

objeto apenas. A completa cessação de qualquer pensamento a respeito de um objeto

desejado é o primeiro pré-requisito para uma mente que quer atingir o estado de Shiva.

D

– Sri Bhagavan enfatiza um meio de encontrar Krishna no coração ao prostrar-se diante

de

todas as pessoas e vê-las como o próprio Senhor. Será este o caminho certo que conduz à

auto-realização? Não é mais facial adorar a Bhagavan em qualquer mente do que buscar o supramental através da indagação “Quem sou eu?”

M – Sim, quando você vê Deus em todos, você pensa em Deus, ou não? Você deve

certamente pensar em Deus se quer ver Deus em toda parte. Mantendo Deus em sua mente

desta maneira significa dhyana (meditação) e dhyana é um estágio anterior à realização. Realização só pode ser em e do Eu. nunca pode ser separado do Eu. Dhyana deve preceder

a realização, mas quer você faça dhyana em Deus ou no Eu, é indiferente, pois a meta é a

mesma. Você não pode, de modo algum, escapar do Eu. você quer ver a Deus em todos, mas não quer vê-lo em você? Se tudo é Deus será que você não está incluído neste tudo? Sendo você mesmo é Deus não é de admirar que todos sejam Deus? Este é o método aconselhado no Sri Bhagavatam e em outros livros. Mas mesmo para esta prática deve haver aquele que vê ou pensa. Quem é ele?

D

– Como ver a Deus que é todo penetrante?

M

– Ver a Deus é ser Deus. Nada existe à parte de Deus que ele tenha que permear.

Somente Ele existe.

D – O Bhakta recorre a um Deus a quem possa fazer bhakti. Ele deve ser instruído de que

existe apenas o Eu, não um adorador e um adorado.

M – Claro. Deus é necessário para a sadhana. Mas o fim da sadhana, mesmo na bhakti-

marga (o caminho da devoção) só é atingido após a completa submissão. Que significa

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isso? Significa que a eliminação do ego terá como resultado sua permanência no Eu, como

sempre esteve. Em qualquer caminho que a pessoa escolha não é possível escapar do Eu, desse Eu que faz o nishkama karma (ação imotivada), desse Eu que anseia unir-se ao Senhor do qual ele sente que foi separado, esse Eu que se desgarrou de sua real natureza e assim por diante. A fonte desse “Eu” deve ser encontrada. Então todas as questões serão resolvidas.

D – Se o Eu é também uma ilusão, quem então perde a ilusão?

M – O “Eu” elimina a ilusão do “Eu” e ainda permanece como “Eu”. tal é o paradoxo da

auto-realização. O indivíduo realizado não vê qualquer contradição nisso. Tome o caso do bhakti. Eu me aproximo de Ishwara e rezo para ser absorvido nele. Então eu me rendo com

fé e me concentro nele e o que resta após isso? Em lugar do original “Eu”, a perfeita auto-

submissão deixa um resíduo de Deus no qual o “Ego” se perde. Esta é a mais elevada forma de devoção (parabhakti) e submissão e o mais alto grua de vairagya (desapego). Você abandona isto ou aquilo de “minhas” posses. Se você abandona o “Eu” e “meu” tudo lhe será dado num só golpe. A verdadeira semente das posses é eliminada. Assim o mal é congelado no botão ou esmagado no germe. O desapego (viaragya) deve ser muito forte para se fazer isso. O anseio de fazê-lo deve ser igual ao do homem que, mantido forçadamente a ficar submerso n’água, tenta subir à superfície a fim de salvar sua vida.