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A Poluição e a Morte do Homem

Pollution and the Death of Man - Copyright © 1970 by Francis Schaeffer. Publicado por Crossway Books, a division of Good News Publishers. Wheaton, Illinois 60187, USA. Copyrjght © 2003 Editora Cultura Cristã. Edição em Português autorizada por Good News Publishers. Todos os direitos são reservados.

Tradução

Sachudeo Persaud

Revisão

David Araújo Arlinda Madalena Torres Marra

Editoração

Elisiane Voichicoski Araújo

Capa

Leia Design

ISBN

85-86886-78-5

Publicação autorizada pelo Conselho Editorial. Cláudio Mana (Presidente), Alex Barbosa Vieira, André Luís Ramos, Mauro Meister, Otávio Henrique de Souza, Ricardo Agreste, Sebastião Bueno Olinto, Valdeci Santos Silva.

Agreste, Sebastião Bueno Olinto, Valdeci Santos Silva. EDITORA CULTURA CRISTÃ Rua Miguel Teles Júnior, 394 —

EDITORA CULTURA CRISTÃ

Rua Miguel Teles Júnior, 394 Cambuci 01540-040 São Paulo SP Brasil Fone (0**11) 3207-7099 - (0411) 3209-1255 www.cep.org.br cep@cep.org.br

0800-141963

Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas Editor: Cláudio Antônio Batista Marra

SUMÁRIO

Prefácio à Edição Brasileira [07]

Panteísmo: O Homem não é mais que a Grama [17]

Outras Respostas Inadequadas [29]

A Visão Cristã: Criação [35]

Uma Cura Substancial [45]

A Visão Cristã: A “Fábrica Piloto” [55]

Apêndice A. As Raízes Históricas da nossa Crise Ecológica [65]

Apêndice B. Por que se Preocupar com a Natureza? [79]

Notas [87]

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PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA

Francis Schaeffer (1912-1984) foi um homem que percebeu que as questões de sentido, de moral e de valores com que lidamos em nossa vida, na nossa arte e nas ciências inclusive a ecologia são as mesmas questões para as quais á Bíblia oferece uma resposta. Um ex-agnóstico que se tornou pastor presbiteriano, Schaeffer possuía forte convicção de que o Cristianismo bíblico não só oferece uma resposta a estas questões mas que essa é a única resposta possível.

Publicado como parte de uma coletânea em um único volume (A Christian View of the West [Uma Visão Cristã do Ocidente], composta de Pollution and the Death of Man [Poluição e a Morte do Homem], How Should We then Live? [Como Viveremos?], Whatever Happened to the Human Race? [O que Aconteceu com a Raça Humana?] e A Christian Manifesto [Um Manifesto Cristão]) este livro trata de como a natureza vem sendo tratada pelo homem; e de nossa responsabilidade, como cristãos, de aplicarmos nossas crenças também no modo com que vemos a criação de Deus.

Depois de séculos de exploração desmesurada da natureza, o termo "ecologia" tem ganhado força em nossos noticiários; em nossas vidas e em nossas mentes nas últimas duas décadas. Há um crescente número de ONGs (Organizações Não-Governamentais) de proteção ao meio ambiente e mais e mais a sociedade torna Consciência de informações como a existência do buraco na camada de ozônio, o impacto dos

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pesticidas na lavoura. E mesmo a água, que cobre três quartos de nosso planeta, hoje sabemos, cada vez mais se torna um bem caríssimo.

Este mesmo impacto também é acelerado pela tecnologia. Nossa preocupação hoje gira em torno do que fazer como lixo, com as baterias de celulares, com as garrafas descartáveis. A sociedade se preocupa com a qualidade

de sua vida, com produtos transgênicos, assim como também com a necessidade de se atacar cada vez menos o ambiente. Ainda assim, essa mudança, segundo Schaeffer, pode não ter os resultados esperados.

Nossa sociedade mudou tanto nos últimos anos que ainda nos surpreende a atualidade e a universalidade da obra de Schaeffer. O que ele diz, o que ele considera aqui é tanto verdade para a Suíça, o país onde ele morou, assim como o é para os Estados Unidos, para a França, para a Inglaterra, para a China, para o Zimbábue ou para o nosso Brasil. O que ele fala aos anos 60 pode ser repetido aos anos 80 e também neste nosso terceiro milênio. As palavras são universais, são absolutas, porque ele fala da verdade maior, a verdade de um Deus que existe, de que este Deus não está calado, da revelação deste mesmo Deus através da Bíblia, da obra completa de Cristo.

Assim, nada mais nos resta do que lhe desejar uma boa leitura, e que Deus o abençoe em cada página.

Os Editores

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No princípio criou Deus os céus e a terra.

[

]

E

disse. Produza a terra relva, ervas que deem semente, e árvores frutíferas que

deem fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nele, sobre a terra. E assim se fez.

A terra, pois produziu relva, ervas que davam semente segundo a sua espécie, e

árvores que davam fruto, cuja semente estava nele, conforme a sua espécie. E viu Deus

que isto era bom.

] [

Disse também Deus: Povoem-se as águas de enxames de seres viventes; e voem as aves sobre a terra, sob o firmamento dos céus.

Criou, pois, Deus os grandes animais marinhos e todos os seres viventes que rastejam, os quais povoavam as águas, segundo as suas espécies; e todas as aves, segundo as suas espécies. E viu Deus que isso era bom.

] [

Disse também Deus: Produza a terra seres viventes, conforme a sua espécie:

animais domésticos, répteis e animais selváticos, segundo a sua espécie. E assim se fez.

E fez Deus os animais selváticos, segundo a sua espécie, e os animais domésticos,

conforme a sua espécie, e todos os répteis da terra, conforme a sua espécie. E viu Deus

que isso era bom.

Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.

Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; ornem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, e sobre todo animal que rasteja pela terra.

E disse Deus ainda: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se

achanai fia superfície de toda a terra, e todas as árvores, em que há fruto que dê semente; isso vos será para mantimento.

E a todos os animais da terra e a todas as aves dos céus e a todos os répteis da

terra, em que há fôlego de vida, toda erva verde lhes será para mantimento. E assim se fez.

Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Houve tarde e manhã, o sexto

dia.

Gênesis 1.1,11,12,20,21,24-31.

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Capítulo 1

“O QUE ELES FIZERAM A NOSSA BELA IRMÃ?”

H á algum tempo, quando eu estava nas Ilhas Bermudas para uma conferência, fui convidado a visitar o trabalho de um jovem bem-

conhecido na área da ecologia. O nome dele era David B. Wingate. Ele era especialmente conhecido pelos seus esforços para evitar a extinção do pássaro petrel. O petrel é um pouco maior que um pombo e prolifera em pouquíssimas ilhas perto das Bermudas, fora da ilha principal. Wingate lutou durante muitos anos para aumentar o número destes pássaros.

Enquanto visitávamos os ninhos, nós conversávamos sobre todo o problema da ecologia. Ele me disse que estava perdendo terreno em sua batalha, porque os filhotes não estavam chocando na proporção em que antes estavam. Tivessem eles continuado na proporção anterior, e ele estaria a caminho do sucesso. Ao invés disso, ele descobriu que cada vez menos ovos chocavam. Qual era a razão? Para descobrir, ele tirou um embrião do ovo e o dissecou. Descobriu que seus tecidos estavam cheios de DDT. Wingate convenceu-se de que isto explicava a queda na proporção de chocas.

A coisa surpreendente sobre isto é que o petrel é um pássaro que se alimenta no mar; não se alimenta em nenhum lugar próximo à terra apenas no meio do oceano. Assim, é óbvio que não estava ingerindo seu DDT perto da costa, mas bem afastado no Atlântico. Em outras palavras, o uso do DDT em terra estava poluindo toda a área. Estava descendo

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pelos rios, caindo no oceano, e causando a morte de pássaros que se alimentam no mar. 1

Quando Thor Heyerdahl fez a sua famosa viagem no Kon Tiki, ele pôde utilizar a água do oceano com bastante liberdade; mas ele disse posteriormente que,

quando ele tentou cruzar o Atlântico em um barco de papiro, a água do oceano não pode ser Usada por causa da grande quantidade de lixo.

sério

problema. Ele ergueu uma lápide na costa oceânica, e nela esculpiu este epitáfio:

Um

homem

na

Califórnia

muito

vividamente

apontou

para

este

Nascimento do oceano [ele apresenta uma data hipotética] Morte do oceano 1979 d.C. O Senhor deu; o homem levou embora. Amaldiçoado seja o nome do homem.

O fato simples é que, se o homem não for capaz de resolver seus problemas ecológicos, então os recursos do homem irão perecer. E bastante concebível que o homem não poderá pescar nos oceanos como no passado e que, se o equilíbrio dos oceanos for muito modificado, o homem se encontrará até mesmo sem oxigênio suficiente para respirar.

Assim, todo o problema da ecologia é jogado no colo desta geração. Ecologia significa "o estudo do equilíbrio das coisas vivas na natureza". Mas, da forma como é correntemente usada, a palavra também significa o problema dá destruição que o homem trouxe sobre a natureza. Relaciona-se a fatores tais como poluição da água, níveis sonoros destrutivos e poluição do ar nas grandes cidades do mundo. Nós temos lido e ouvimos falar disto em cada canto do mundo.

Ao aproximar-se do fim da sua vida, Darwin reconheceu várias vezes nos seus escritos que, enquanto envelhecia, duas coisas iam ficando, entorpecidas: A primeira foi o seu prazer nas artes e a segunda foi a sua alegria na natureza. Isto é muito intrigante. Darwin nos apresentou a sua proposição que a natureza, inclusive homem, é baseada somente no impessoal acrescido de tempo acrescido de acaso, e ele teve que reconhecer, no final da Sua vida, que esta proposição havia tido estes efeitos adversos sobre ele. Eu acredito que o que nós estamos vendo hoje é a mesma perda de alegria em toda nossa cultura da mesma forma que Darwin pessoalmente experimentou nas áreas das artes e da vida geral, e na área da natureza. A coisa infeliz sobre isto é que; na realidade, os cristãos ortodoxos frequentemente não tiveram uma percepção melhor sobre estas coisas do que os incrédulos. A morte da "alegria" na

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natureza está conduzindo à própria morte da natureza.

Nos anos 60 e no início dos anos 70, quando havia um interesse profundo na base filosófica para a vida e para os, problemas da vida, este tipo de ansiedade estava sendo expresso até mesmo na área da música "pop". O conjunto The Doors tinha uma canção chamada "Strange Days" [Dias Estranhos] a qual dizia:

What have they done to the earth?

O

que eles fizeram à terra?

What have

they

done to

our fair

O

que eles fizeram à nossa bela

sister?

irmã?

Ravaged and plundered,

And ripped her and bit her,

Stuck her with knives

in the side of the dawn And tied her with fences

and dragged her down.

Saqueada e despojada.

A fenderam e morderam,

Golpearam-na com facas

no lado do amanhecer,

E a amarram com cercas

e a arrastaram para baixo. 2

Em diversas intensidades, as pessoas em todos os lugares começaram a discutir o que poderia ser feito, sobre isto. Um artigo intrigante feito por Lynn White Jr., "The Historical Roots of Our Ecologic Crisis" [As Raízes Históricas, da Nossa Crise Ecológica], foi publicado na revista Science 3 . White era um professor de História na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

Em seu artigo ele argumentou que a crise na ecologia é uma falha do Cristianismo. É um artigo brilhante no qual ele argumentou que, embora já não mais sejamos um mundo cristão, mas um mundo pós-cristão da assim ainda conservamos uma "mentalidade cristã" na área da ecologia. Ele disse que o Cristianismo apresenta uma visão prejudicial da natureza, a qual então é transportada para, o mundo pós-cristão moderno. Ele baseou as suas alegações de uma "visão prejudicial da natureza" no fato que o Cristianismo ensinava que o homem tinha domínio sobre a natureza e, consequentemente, o homem tem tratado a natureza de um modo destrutivo. Ele observou que não há nenhuma solução para o problema ecológico dá mesma forma que para os problemas sociológicos sem uma "base". O fundamento do pensamento do homem tem de mudar.

Na ecologia dos anos 80 não há muitos escritos ou discussões nas filosofias básicas que fundamentem a consideração com a ecologia. Isto é paralelo à inexistência de pornografia filosófica, de ingestão de drogas filosófica, filmes filosóficos etc. Todavia, na ecologia, como em outras áreas as formas de pensamento dos anos 80 foram

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estabelecidas no período anterior nos anos 60. Naquela época havia consideração, escritos, discussões e expressões muito sérios em relação às visões de mundo que fundamentam todas estas áreas.

As pessoas estão agora agindo com base nas ideias formuladas naquele período muito embora aqueles que estão se conduzindo desta forma não percebam isto conscientemente.

Como cristãos, nós deveríamos conhecer as raízes, de forma que soubéssemos por que aqueles que falam e agem contra o Cristianismo estão fazendo isto e soubéssemos a força da resposta cristã em cada área. Se não

fazemos isto, temos pouco entendimento do que está acontecendo à nossa volta. Nós também não sabemos a força daquilo que como cristãos, temos de anunciar por todo o espectro da vida.

Os artigos de Lynn White e Richard Means, no final dos anos 60 são, penso eu, ainda os clássicos na área da ecologia.

O ponto de vista do homem moderno no mundo pós-cristão (como eu o tenho tratado em meus escritos anteriores) não, tem quaisquer categorias ou qualquer base sobre a qual construir. Lynn White compreendeu a necessidade de uma base na área da ecologia. Citando-o: "O que as pessoas fazem sobre a sua ecologia

depende do que elas pensam sobre si mesmas em relação às coisas ao seu redor. A ecologia humana é profundamente condicionada pelas crenças sobre nossa natureza e nosso destino isto é, pela religião". Neste ponto, acredito que ele está completamente certo. Homens fazem o que pensam. Qualquer que seja sua visão de mundo, ela é a coisa que vai respingar no mundo exterior. Isto é verdade em cada arca na Sociologia, na Psicologia, na Ciência e na Tecnologia, como também o

é na área da ecologia.

A solução de White foi perguntar "Por que não retomamos a São Francisco de Assis?" Ele contrasta São Francisco com o que ele considerou a "visão ortodoxa" de homens tendo o "direito" de espoliar a natureza. "O maior revolucionário espiritual na História Ocidental, São Francisco propôs o que ele pensou ser uma visão cristã alternativa da natureza na relação do homem para com ela. Ele tentou substituir a ideia do ilimitado domínio do homem sobre a criação pela ideia da igualdade de todas as criaturas, inclusive homens".

Nossa ciência atual, assim como nossa tecnologia atual, de acordo com White, estão tão impregnadas com a arrogância cristã ortodoxa em relação à natureza que nenhuma solução para nosso problema de ecologia pode ser esperada somente delas. Ele disse que a tecnologia não vai resolver o problema, porque está incutida de sua visão de domínio sobre

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a natureza, visão que se iguala à exploração ilimitada. "Visto que as raízes da nossa dificuldade são tão grandemente religiosas, o remédio também deve ser essencialmente religioso, independente de se o chamamos assim ou não. Nós temos de reconsiderar e "ressentir" nossa natureza e destino. O sentido profundamente religioso, ainda que herético, dos franciscanos primitivos para a autonomia espiritual de todas as partes da natureza pode apontar numa direção. Eu proponho Francisco como o santo padroeiro dos ecólogos.

Esta discussão foi retomada e levada mais adiante e despertou muito interesse. Na Saturday Review de 2 de dezembro de 1967 4 Richard L. Means, que

era um professor adjunto de Sociologia na Faculdade de Kalamazoo, Michigan, citou

e estendeu o conceito de White e perguntou: "Por que não começar a encontrar uma

solução na direção do panteísmo?" De fato, ele ligou este chamado a uma solução baseada no panteísmo àquilo que ele chamou de "cool cats" da geração, pelos seus

interesses no Zen Budismo. Ele está dizendo "não seria uma solução apenas dizermos 'Nós somos todos da mesma essência'?"

Assim, o panteísmo é aqui proposto como uma resposta a nosso dilema ecológico. Mas será ele de fato uma resposta? Esta é uma pergunta que devemos agora considerar.

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Capítulo 2

PANTEÍSMO: O HOMEM NÃO É MAIS QUE A GRAMA

P or que não tentar encontrar uma solução, na direção do panteísmo? Encontramos aqui um uso do conceito de panteísmo por um cientista

ocidental, um sociólogo, em seu esforço para resolver o problema do homem moderno com o salvamento da natureza ou seja, o problema ecológico. Este homem parecia estar tentando usar o panteísmo numa maneira muito específica de forma alguma como uma resposta real, religiosa, mas somente de uma maneira pragmática, sociológica ou científica.

O artigo de Richard Means foi intitulado "Why Worry About Nature?" [Por que se Preocupar com a Natureza]. Means começa o artigo citando Albert Schweitzer: "A grande falha de toda ética até agora tem sido que eles acreditavam que eles mesmos teriam de lidar somente com a relação de homem para homem". Ele citou Schweitzer, dizendo que a ecologia é um problema de ética, mas que o único conceito de ética do homem tem sido de homem para homem". Mais tarde Means disse que "a noção de que a relação do homem para com a natureza é uma relação moral tem o apoio de muito poucos defensores articulados, até mesmo entre escritores religiosos contemporâneos". Ele continuou ao se referir ao livro de Harvey Cox, The Secular City [A Cidade Secular]. Cox, claro, é um teólogo muito liberal e naquela época um proponente da teologia

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Deus-está-morto. Means disse que até mesmo com Cox "a cidade é considerada um pré-requisito e as dimensões morais da análise de Cox são limitadas às relações de homem para homem nos limites deste mundo urbano, e não Com os animais, as plantas; as árvores e o ar isto é, o habitat natural". Deve ser lembrado que muito

da teologia moderna caminha na direção do panteísmo e, desta maneira, a sugestão de Means de uma base panteísta pragmática para resolver nossos problemas ecológicos encaixa naturalmente no clima, o qual alcança desde o vago panteísmo encontrado em muito do pensamento popular de hoje até as faculdades teológicas.

Means continuou ao se referir, de forma bastante interessante, a Eric Hoffer, um conhecido filósofo popular americano. Ele era um estivador que disse muitas coisas realmente profundas e ficou de fato muito popu-lar entre os intelectuais. "Eric Hoffer, um dos poucos críticos sociais. contemporâneos que encarou a. questão do relacionamento do homem com a natureza, tem advertido nestas páginas sobre o perigo de “romantizar a natureza" ("A Strategy for the War with Nature" [Uma Estratégia para a Guerra com a Natureza] na Saturday Review de 5 de fevereiro de 1966). Romantizar significa olhar para natureza o projetar a reação do homem nela. Assim, uma pessoa olharia para um gato e pensaria nele como se reagisse como um homem reage. Hoffer advertiu muito corretamente contra isto. Todavia, a solução dele (de acordo com Means) termina desta forma: "A grande realização, do homem

é transcender a natureza, para se separar das demandas do instinto, Assim, de

acordo. com Hoffer, uma característica fundamental do homem deve ser encon-trada na sua capacidade de se liVrar das restrições do físico e do biológico". Em outras palavras, Hoffer não estava de fato propondo que nós devêssemos chegar a um

acordo com a natureza (pelo menos, como Means compreendeu). O que Hoffer estava dizendo é que o homem tem de transcender a natureza.

Deve ser dito que está correto rejeitar o "romantizar a natureza” como uma resposta ou uma solução. Primeiro, a natureza, como é atualmente, não é sempre benevolente, e, segundo, projetar nossos sentimentos e pensamentos em uma árvore significaria que não teríamos base alguma na qual pudéssemos justificar a derrubada e a utilização da árvore como abrigo para o homem.

Aqueles que são familiarizados com The Man and The Machine [O Homem e

a Máquina] de Koestler reconhecerão as ideias de Hoffer como apenas uma forma mais poética do seu conceito. Koestler, junto

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com Adler (The Difference in Man and The Difference It Makes [A Diferença no Homem e a Diferença que ela Faz]) e Michael Polanyi de Oxford, atacam a visão clássica da evolução, pelo menos pragmaticamente; estes homens estavam unidos ào dizer que esta visão está nos conduzindo na direção errada. Mas Koestler em The Man and The Machine se apresentou com uma solução final, apelando à ciência para produzir uma pílula que uniria o cérebro superior ao inferior. Para Koestler, o cérebro inferior trata com os instintos e as emoções, e o cérebro superior com o intelecto e o raciocínio. De acordo com Koestler, o problema verdadeiro está na separação dos dois. O ponto a ser observado aqui é gim a ideia de Hoffer sobre o homem "colocando-se no topo da" sua natureza de modo a se livrar das restrições do físico e do biológico caminha, de forma bastante interessante, na direção do conceito de Koestler.

Voltando ao artigo de Means, ele continuou a fazer e responder uma pergunta importante, Lembrando que ele estava propondo a tese de que a relação do homem para com a natureza é moral e não somente uma crise científica, sua pergunta e a sua resposta imediata fornecem um instantâneo brilhante do homem moderno: "O que, então, é a crise moral? É, eu acho, um problema pragmático".

Aqui estava uma notável combinação de frases; o moral dissolveu-se no pragmático. Ele iniciou com uma crise moral, mas, de repente, tudo que resta é um problema pragmático. "Envolve as reais consequências sociais de uma miríade de atos desconexos. A crise vem por combinar os resultados do mau trato do nosso ambiente. Envolve a negligência de um pequeno comerciante no Rio Kalamazoo, a irresponsabilidade de uma grande corporação no Lago Erie, o uso impaciente de inseticidas por um fazendeiro da Califórnia, o desnudamento de terra pelos mineiros

de Kentucky. Infelizmente, há uma longa história de desnecessária e trágica destruição de animais e recursos naturais na superfície deste continente". Claro que

a pressão se torna maior numa escala mundial, e ele certamente tinha razão em

apontar que existe um problema sério. Mas isso não muda o problema dele em tratar

o problema! Ele queria uma base moral na qual pudesse lidar com o problema

ecológico, mas logo tudo que tinha era a palavra moral. E o que sobrou para ele foi o pragmático e o tecnológico.

Ao se encarar o crescimento de população, o problema ecológico se torna ainda maior. Na Suíça, um exemplo excelente era o lindo Lago Genebra, e sua mudança desde que nós, viemos para a Suíça há trinta e dois anos uma grande diferença: Felizmente, com enorme custo, os

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suíços começaram a limpar o Lago Genebra, mas o crescimento da população em suas margens demandou um grande esforço. Por si mesmo o lago não poderia ter se cuidado com crescimento da população.

À medida que a pressão cresce mundialmente, em que base, diferente daquela que empregamos no passado, devemos tratar a natureza, que nosso meio ambiente e da qual depende a nossa vida neste Mundo? Como o calendário do

Sierra Club de 1970 o colocou, "Lua, Marte, Saturno

visitar, mas você não desejaria viver lá". A vida humana depende do ambiente unicamente equilibrado deste mundo.

Means prosseguiu falando sobre os pombos selvagens, os quais, existiam em grande quantidade nos Estados Unidos, mas foram extintos. O mesmo poderia ser dito sobre a indústria da foca. A dificuldade é, porém, que nós parecemos não aprender muito destes tristes acontecimentos, pois (para a angústia de homens que vibraram com as imagens criadas por Herman Melville e a grande baleia branca) cientistas marinhos tais como Scott McVay acreditam que a pesca comercial está pondo em perigo a última espécie abundante de baleia no mundo. Para aqueles mais propensos à ligação com o dinheiro, existe ali uma indústria lucrativa". Ele continuou dizendo que não é somente uma perda econômica, mas que "para

lugares agradáveis para

aqueles entre nós que têm respeito pela natureza em particular, pelos nossos

parentes mamíferos a morte destas grandes criaturas deixará um vácuo na criação

de Deus e na imaginação dos homens para gerações vindouras". O uso da frase de

Means "na criação de Deus", a qual, para muitos cristãos inspiraria esperança sobre

o tipo de resposta que ele poderia nos dar, não deve ser compreendido erroneamente, como eu mostrarei depois.

Então Means mencionou os outros assuntos básicos, se referindo ao poderoso Rio Hudson e aos Grandes Lagos e ao estado do ar que respiramos. Por causa destas questões e de centenas de outras do mesmo tipo, podemos ver por que os homens estão lutando, de uma maneira que eles nunca lutaram antes, com o problema da ecologia. Há um verdadeiro dilema. O homem moderno tem observado que nós estamos transtornando o equilíbrio da natureza e o problema é drástico e urgente. Não e apenas um assunto de estéticas, nem é o problema somente do futuro; a qualidade de vida já tem diminuído para muitos homens modernos. Para o futuro, muitos homens de pensamento veem a ameaça ecológica como maior do que aquela da guerra nuclear.

Means continuou ao oferecer suas soluções a este dilema. Estas foram apresentadas primeiramente como um lado negativo, e então como um lado positivo. Vale considerar os pensamentos de Means

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porque são representativos daquilo que, com várias modificações, temos ouvido de uma multidão de fontes e estaremos ouvindo nos próximos-anos. Realmente, Aldous Huxley, nó seu último romance, Island 1 [A Ilha], retratou um "utópico" futuro no qual as primeiras lições dadas para educar as crianças serão sobre a ecologia. Ele prossegue ao observar: "A Ecologia, elementar conduz diretamente ao Budismo elementar".

Houve uma conferência em Buck Hill Falis; Pensilvânia, chamada "The Conference on Environment and Population" [A Conferência sobre Meio Ambiente e População]. Houve uma apresentação sobre os problemas modernos da ecologia. Foi feita, então, a proposição de que a resposta devia estar na direção do panteísmo. Nós vamos ouvir mais sobre isto. O panteísmo será forçado como a única resposta a problemas ecológicos e será uma influência a mais para que o Ocidente se torne crescentemente Oriental em seu pensamento.

Qual é a relação do homem com natureza? Means perguntou “por que a relação do homem para com a natureza e uma crise moral? É uma crise moral porque é uma crise histórica, envolvendo a História e a cultura do homem, expressa em suas raízes pela nossa visão religiosa e ética da natureza que tem sido relativamente não questionada neste contexto”. Até este ponto pode se concordar com o seu diagnóstico. Entretanto, ele prossegue fazendo uma declaração negativa:

"O historiador da cultura medieval, Lynn White Jr., brilhantemente localizou a origem

e as consequências desta expressão em um artigo criterioso na Science em março último The Historical Roots of Our Ecologic Crisis[As raízes históricas da nossa

crise ecológica]. Ele argumenta que a noção cristã de um Deus transcendente, separado da natureza e se fazendo presente nela somente por revelação, deixou a natureza sem espírito e permite, num sentido ideológico, uma fácil exploração da natureza."

No cenário americano os conceitos calvinísticos e deísticos de Deus eram peculiarmente semelhantes neste momento. Ambos viam Deus como absolutamente

transcendente, separado do mundo, isolado da natureza e da vida orgânica. Sobre as implicações contemporâneas da dicotomia entre espirito e natureza, diz o

Para um cristão, uma árvore não passa de um fato físico. Todo o

conceito de bosque sagrado é estranho ao Cristianismo e as crenças do Ocidente. Por quase dois milênios, missionários cristãos tem derrubado bosques sagrados que

são idólatras porque assumem o espirito na natureza".

A resposta de Means a sua pergunta ("Qual é a relação do homem com a natureza?") deve ser encontrada na sua proposição de que nosso problema ecológico existe por causa do Cristianismo. Ele colocou totalmente a

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culpa no Cristianismo como tal, que tem, em sua natureza intrínseca (na premissa Means), criado e sustentado o problema ecológico.

Em contraste a isto, nós podemos concordar coma primeira parte do próximo parágrafo no artigo de Means: "Talvez, como: sugere Lynn White, a persistência disso como um problema moral é ilustrada no protesto da geração contemporânea de beats e hippies”.

Nossa concordância com Means neste ponto concentra-se no fato de que os hippies dos anos 60 realmente compreenderam algo: Eles tinham razão em lutar contra a cultura plástica, e a Igreja deveria ter estado lutando contra isto também, desde muito, muito tempo atrás, mesmo antes quê a contracultura entrasse em cena. Mais que isto, eles tinham razão no fato de que a cultura plástica o homem moderno, a visão de mundo mecanicista na prática e em livros universitários, a total ameaça da máquina, a tecnologia do stablishment, a classe média-alta burguesa é pobre em sua sensibilidade para coma natureza. Isto é totalmente correto. Como um grupo utópico, a contracultura compreende algo muito real, tanto na cultura enquanto cultura, mas também na pobreza do conceito do homem moderno em relação à natureza e no modo que máquina devora a natureza em todos os lados. Naquele ponto, eu andaria lado a lado com a contracultura.

professor White:

Todavia, Means foi em frente ao sugerir que os hippies possuíam o que talvez fosse uma boa solução. Neste ponto, podemos ter divergências com ele, mas indubitavelmente ele entendeu qual era a solução da contracultura. Ele diz que "pode haver um 'instinto são' envolvido no fato de que alguns destes assim chamados movimentos voltaram-se ao Zen Budismo. Este fato pode representar uma percepção atrasada do fato de que nós precisamos apreciar as dimensões religiosas e morais da relação entre a natureza e o espírito humano mais completamente". Isto mostrou um discernimento bastante correto da direção da

contracultura que estava, e está, indo em direção ao panteísmo. Ele não precisaria limitar esta visão ao Zen porque ela é um panteísmo genérico. Assim, depois de ter feito uma declaração negativa, dizendo que nós temos de nos livrar do Cristianismo, nós temos uma solução sugerida que vai na mesma direção do fluxo da nossa cultura: Pois, como tenho dito, quase todos os novos teólogos estão boiando na direção do panteísmo em companhia do frequentemente presente panteísmo vago que se apresenta em muitas formas hoje.

Sem dúvida, muito da cultura que nos envolve está caminhando na direção de o Ocidente tomar-se o Oriente. E Means ofereceu esta solução

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para o problema da ecologia. Este é, sem dúvida, o motivo pelo qual ele citou Schweitzer na primeira frase do seu artigo. Ao término da sua vida, Schweitzer era um panteísta, depositando grande ênfase na "reverência pela vida", querendo dizer com isso que tudo que existe é de uma mesma essência. Means começou com Schweitzer como um homem bem conhecido no Ocidente, mas que era um panteísta.

É por isto que eu questionei a declaração de Means sobre a criação de Deus. Ele está de fato usando um termo ocidental para um conceito completamente diferente. O termo "a criação de Deus" não tem nenhum lugar verdadeiro no pensamento panteísta. Simplesmente não há uma criação, mas somente uma extensão da essência de Deus. Qualquer termo tal como "criação de Deus" como se ele fosse um Deus pessoal que criasse, sendo a criação externa a ele próprio (tudo isto embrulhado na nossa frase ocidental "criação de Deus") não tem lugar algum no pensamento panteísta.

Está claro que Means falava sobre um panteísmo verdadeiro quando ele prosseguiu: "por outro lado, a recusa em ligar espírito humano à natureza pode refletir os tradicionais: padrões de pensamento da sociedade ocidental, na qual a natureza é concebida como sendo uma substância separada uma matéria mecânica, e, num sentido metafísico, irrelevante ao homem". O que ele estava tentando fazer era juntar o fato de que tudo que há é a mesma substância na natureza. Desta forma, ele esperava conseguir uma reverência para a natureza que nos faria tratá-la mais gentilmente.

Ele diz ao se aproximar do fim do artigo: "Uma visão tal deveria ajudar a destruir políticas egoístas de status, pois ajudaria a desmascarar o fato de que as atividades de outros homens não são apenas privadas, inconsequentes e limitadas a eles mesmos; seus atos, por intermédio de mudanças na natureza, afetam minha vida, minhas crianças, e as gerações vindouras".

O que é interessante aqui e notar, como observado anteriormente, que seu uso da palavra moral deixa conosco apenas, o pragmático. A única razão pela qual nós somos chamados a tratar bem a natureza é por causa de seus efeitos no homem e em nossas crianças e nas gerações. vindouras. Assim, na realidade, apesar de todas as palavras de Means, o homem é deixado com uma posição

completamente egoísta com respeito à natureza. Nenhuma razão é concedida moral ou lógica para considerar a natureza como algo em si mesmo. Nós somos deixados com um assunto puramente pragmático.

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Means termina seu artigo: "Nossa crise moral contemporânea, então, se aprofunda muito além de questões de poder político e de lei, de revoltas urbanas e de favelas. Pode, pelo menos em parte, refletir o descuido quase absoluto da sociedade americana pelo valor da natureza". Aqui nós temos que concordar com ele. Nós temos maltratado a natureza não somente os americanos, mas outros povos por todo o mundo.

Mas observe ele não deu resposta alguma; e a não respostavai a três níveis diferentes. Em primeiro lugar, a moral somente se iguala ao pragmático, e isto, claro, relaciona-se ao fato de que um homem moderno nesta posição não tem base alguma para a moral, porque ele não tem nenhum absoluto para o qual apelar. Pode se ter uma base para uma outra coisa um contrato social, um hedonismo Imas nunca se pode ter moral verdadeira sem absolutos. Nós podemos chamá-la de moral, mas sempre termina com "eu gosto", ou contrato social, nenhum dos quais é a moral. Este último (o contrato social) é uma votação majoritária, ou o absoluto arbitrário de uma elite na sociedade, pelo qual alguém pode decidir-se por qualquer coisa. E, não tendo nenhum absoluto, o homem moderno não tem categorias. Não se pode ter respostas verdadeiras sem categorias, e estes homens não podem ter outras categorias, além das pragmáticas e tecnológicas.

Isto pode ser visto no artigo de Means, quando ele fala sobre derrubar os bosques sagrados. Ele não tem categorias por meio das quais pudesse derrubar um bosque sagrado como um ídolo e ainda assim sem ser contra a árvore como árvore. Até onde ele entende, estas categorias não existem. Para ele, o fato de um cristão derrubar um bosque sagrado quando se tomou um ídolo prova que os cristãos são contra as árvores. É bastante semelhante a discutir a respeito da Bíblia e a arte. A Bíblia não é "contra" a arte. Mas suponha que alguém argumente que os judeus quebraram a serpente de bronze que Moisés havia feito (2 Rs 18.4). Aqui, temos uma serpente feita de bronze que o rei religioso despedaçou; então, Deus é "contra" a arte. Claro que, do ponto de vista bíblico, não é absolutamente uma declaração contra a arte. Eles ficaram contra a serpente de bronze, a qual originalmente Deus havia mandado fazer, apenas quando esta se tornou um ídolo. Deus ordenou que esta obra de arte fosse feita, mas quando se tomou uni ídolo, ela teve de ser destruída. Isto significa ter categorias.

Em contraste, o homem moderno não tem categoria alguma. Isto nos leva de volta ao primeiro ponto. A moral se iguala ao pragmático em um nível muito grosseiro, apesar de toda essa terminologia agradável: Então não devemos pensar que Means (e outras pessoas como ele) seja um

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homem oferecendo uma resposta moral, uma resposta elevada; ele não está. É, de fato, uma resposta muito inferior.

A segunda coisa é que Means usa estas palavras religiosas (moral por pragmático) vez após outra como palavras de conotação religiosa com a finalidade de motivação. Ele também está usando a palavra panteísmo como uma palavra de motivação. Isto é algo com o que precisamos sempre tomar cuidado. As palavras têm dois sentidos, a definição (denotação) e a conotação. A conotação continua, independentemente do que se faz com a definição. O homem moderno destrói a definição de palavras religiosas, mas mesmo assim gosta de tirar proveito da força de conotação/motivação delas. E precisamente isto que Means estava fazendo. Usando estas palavras, ele esperava (embora ele indicasse na sua definição que moral se iguala a pragmático) que as pessoas tratassem a natureza um pouco melhor por causa das-conotações religiosas das palavras. É ainda mais uma ilustração de um tipo de manipulação que está sobre nós.

A terceira coisa a ser observada é que o que havia era religião sociológica e ciência sociológica. É importante notar que Means era um sociólogo. Não se tem religião como religião, nem ciência como ciência. O que se teme tanto a religião como a ciência sendo usadas e manipuladas para propósitos sociológicos. Edmund Leach, o antropólogo de Cambridge, em um artigo na New York Review of Books (fevereiro de 1966), escolheu determinada solução científica não porque tinha alguma relação com a ciência objetiva, mas muito claramente porque conduzia à resposta sociológica que ele desejava.

Edmund Leach era neste momento o próprio oposto de um cientista. Aqui temos um cientista usando a ciência para a manipulação sociológica. Com isto, então, um paralelo pode ser encontrado entre Edmund Leach em seu artigo e Richard Means no dele. Este último também estava usando a ciência e a religião para fins puramente sociológicos. Com isto, morre a ciência, a religião, e tudo que resta. é a manipulação sociológica.

Lembre-se do que eu enfatizei antes vale considerar em detalhes este artigo de Richard Means, porque os pensamentos apresentados nele são representativos daqueles que serão proclamados por muitas vozes, com uma multidão de variações e, sutilezas. Isto é verdadeiro quanto às discussões teóricas e práticas em geral, e quanto à discussão ecológica do relacionamento do homem para com a natureza em particular. E os mesmos fatores básicos são envolvidos, quer a unidade de tudo que há seja expressa com alguma forma da palavra de conotação

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religiosa panteísmo, ou com termos puramente seculares reduzindo tudo a partículas de energia.

Vamos examinar as razões por que o panteísmo, em qualquer forma não oferece uma resposta suficiente. Ao final, o panteísmo não significado algum a qualquer particular. No panteísmo verdadeiro, a unidade tem significado, maios

particulares não têm significado algum, inclusive o particular do homem. Além disso, se os particulares não têm significado algum, então a natureza não tem significado algum, inclusive a particular do homem. Não existe filosoficamente em qualquer sistema panteísta um significado para particulares, quer seja o panteísmo do Oriente ou o "pantudismo" do Ocidente, ao partir apenas de partículas de energia. Ao final, em ambos Os Casos, os particulares não têm significado algum. O panteísmo lhe oferece uma resposta para a Unidade, mas não dá significado algum à diversidade. O panteísmo não é uma resposta.

Não é apenas um dilema teórico que os particulares não tenham nenhum significado no panteísmo. Não é somente uma vaga objeção filosófica. Isto conduz a conclusões importantes. Em primeiro lugar, quaisquer "resultados" obtidos pelo panteísmo são obtidos apenas mediante a projeção dos sentimentos do homem dentro da natureza. E isso é simplesmente o romanticismo sobre o qual Hoffer advertiu, unia dotação da criação inferior com uma reação humana. Assim, ao vermos uma galinha, nós dotamos sua vida amorosa com qualidades humanas. Mas isso é retirar a realidade da galinha. Este tipo de resposta pode extrair resultados, destas palavras de motivação somente mediante a projeção do sentimento humano na natureza, e Hoffer tinha razão em rejeitar isto.

O que eu estou dizendo é que uma resposta panteísta não é apenas uma

resposta fraca na teoria, mas também é uma resposta fraca na pra fica. Um homem

que começa a aderir a uma visão panteísta da natureza não tem nenhuma resposta para o fato de que natureza tem duas faces: tem uma fade benevolente a qual também pode ser uma inimiga. O panteísta considera a natureza como normal. Dentro desta visão, não há nenhum lugar para anormalidade na natureza.

Este era um problema muito prático em A Peste, de Camus, onde o autor faz um comentário sobre o dilema que enfrenta Orion, o apanhador: "Bem, se ele se unir com os médicos e lutar contra a pestilência, ele está lutando contra Deus, ou, se ele se unir com o sacerdote e não lutar contra Deus deixando de lutar contra a pestilência, ele não

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está sendo humanitário". Camus nunca solucionou este problema. Se nós aceitamos este misticismo romântico e não-cristão, a dificuldade é que nós não temos solução alguma para o fato de que natureza é frequentemente não-benevolente Se tudo é um, e uma parte de uma mesma essência sem nenhuma distinção básica, como se, explica a natureza quando ela é destrutiva? Qual e a resposta teórica? E, como entendeu Camus, não é apenas um problema teórico. Ao invés disto, como posso lutar contra a pestilência?

O cristão pode lutar contra ela. Quando Cristo se posicionou em frente ao

túmulo de Lázaro (Jo 11), ele alegava ser divino e mesmo assim estava furioso. O grego deixa claro que ele estava furioso. Ele poderia estar furioso coma pestilência sem estar bravo com, ele mesmo. Isto se volta à Queda histórica espaço-temporal.

Por conseguinte, o cristão não tem a dificuldade de Camus. Mas se está sendo

apresentada uma resposta panteísta, mística, não há nenhuma solução para o fato de que a natureza não é sempre benevolente. Não há jeito de compreender a origem deste fato duplo da natureza; não se tem nenhuma forma verdadeira: Para "lutar contra a pestilência". Pode haver muito barulho, mas no fim isto é a verdade de todo panteísmo, seja oriental ou ocidental moderno seja qualquer das formas vagas de panteísmo que nos cercam por toda parte, seja o teólogo moderno.

Novamente, uma posição panteísta traz sempre o homem para um lugar impessoal inferior, ao invés de o elevar. Esta é uma regra absoluta. Quer seja a resposta panteísta o cunho científico moderno que relaciona tudo de volta à partícula de energia, quer seja o panteísmo oriental, no fim a natureza não se eleva, mas o homem se rebaixa. Isto pode ser observado inúmeras vezes, Schweitzer falou muito sobre- a reverência pela vida, mas um médico que trabalhou com ele disse que desejava que Schweitzer tivesse tido menos reverência pela vida e mais amor por ela e pelas pessoas: Ao término de sua vida, o panteísmo de Schweitzer, em vez de alcançar uma visão mais elevada daqueles com quem ele trabalhou, atingiu uma opinião inferior.

O panteísmo oriental também conduz a isto. Nos países orientais não há base real alguma para a dignidade do homem. Desta forma, tem de Ser sublinhado que o Marxismo idealista só poderia ter surgido como uma heresia cristã; nunca poderia ter-se originado no Oriente, porque não há nenhum lugar para uma dignidade genuína do homem no Oriente panteísta. O Marxismo idealista é uma heresia judaico-cristã.

O mesmo é verdade até mesmo nos domínios da economia. O dilema econômico da Índia é complicado pelo seu sistema panteísta no qual é

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permitido que ratos e vacas comam a comida de que as pessoas necessitam. Ao invés de o homem ser elevado, na realidade ele é rebaixado. Aos ratos e às vacas é finalmente dada uma preferência acima do próprio homem, e o homem começa a desaparecer no esquema da economia como também na área da personalidade e do amor 2 .

Aqueles que propõem a resposta panteísta ignoram este fato que longe de alçar a natureza à altura do homem, o panteísmo tem de afundar homem e natureza em um pântano. Sem categorias, não há no fim nenhuma razão para distinguir a natureza ruim da natureza boa. O panteísmo nos deixa com a máxima do Marquês de Sade “o que é, é certo” em moral, e o homem se torna não mais que a grama.

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Capítulo 3

OUTRAS RESPOSTAS INADEQUADAS

O panteísmo não é a resposta. Se o Ocidente se voltar ao panteísmo para resolver seus problemas ecológicos, os seres humanos serão ainda mais

reduzidos, e a tecnologia impessoal reinará ainda mais seguramente. Mas, tendo

dito isso, vamos rapidamente acrescentar que um Cristianismo pobre também não é

a resposta, Há um "Cristianismo" que não oferece nenhuma resposta melhor que o

panteísmo: o Cristianismo bizantino pré-renascentista, por exemplo. No conceito bizantino, a única coisa verdadeiramente valiosa é celestial tão alta, tão elevada,

tão sagrada que somente símbolos eram usados. Por exemplo, eles nunca pintaram um retrato real de Maria; os ícones e mosaicos são apenas símbolos dela. A única coisa que realmente importava na vida era o celestial. Este tipo de Cristianismo nunca dará uma resposta ao problema dá natureza, pois nesta visão a natureza não tem importância real. Assim, há de fato uma forma de Cristianismo que não tem qualquer ênfase correta sobre a natureza.

Em determinado ponto na História, quando O medieval morreu e o homem da Renascença nasceu, Van Eyck começou a pintar a natureza. Semelhantemente, na maravilhosa Capela Carmine em Florença, Masaccio de Giotto e começou a pintar a natureza como natureza real. Naquele momento, eles poderiam ter ido em direção a uma arte verdadeiramente cristã, porque há um lugar real para a natureza no Cristianismo verdadeiro. Aqueles que seguiram Van Eyck e seus

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planos de fundo, Masaccio pintando com a luz apropriada e assim por diante,

poderiam ter ido em qualquer direção para uma arte verdadeiramente cristã, na qual

a natureza, tinha um lugar correto, ou para o Humanismo.

O panteísmo não é resposta para uma visão adequada da natureza, mas temos de entender que um tipo qualquer de Cristianismo não é resposta também; nem um Cristianismo bizantino, nem um Cristianismo baseado numa dicotomia de

natureza/graça. Nenhum destes produzirá uma resposta. Também não há qualquer resposta no conceito de natureza e liberdade defendido por Jean-Jacques Rousseau ou Kant 1 . Em todas estas áreas procura-se em vão a resposta cristã, ou qualquer resposta efetiva (até mesmo se termos cristãos são utilizados), e isto inclui qualquer resposta verdadeira para uma visão correta da natureza.

Mas é óbvio que existe um tipo diferente de Cristianismo. O Cristianismo da Reforma oferece de fato uma resposta unificada, e esta resposta têm significado não só ao falar sobre coisas divinas, mas também quando fala sobre a natureza. Deus falou; e, por causa disto, há uma unidade. Isto deu a unidade da Reforma, em contraste à natureza/graça desintegrada da Renascença. Esta resposta gira entorno do fato de que Deus falou e de que nos revelou algo tanto sobre coisas celestiais quanto sobre a natureza. Baseando-nos nas palavras de Deus nós conhecemos algo verdadeiramente, tanto de generalidades quanto de particulares; e isto inclui o significado e uso correto dos particulares.

Esta unidade não veio de um racionalismo, um Humanismo, no qual o homem está gerando algo de si próprio, juntando e contemplando os particulares e tentando fazer daí um universal, quer seja um universal filosófico, ou Leonardo da Vinci tentando pintar a "alma" 1 . A Reforma acreditou no que a Bíblia diz: que Deus revelou a verdade sobre ele mesmo e o cosmo, e que, portanto, há uma unidade. A Confissão de Fé de Westminster (do século 17) disse que Deus revelou os atributos dele, e que estes são verdadeiros não só para nós mas também para ele. Nós temos um conhecimento que é verdadeiro tanto para nós quanto para Deus. Para nós é um conhecimento verdadeiro mas não exaustivo, sendo Deus infinito e nós finitos. Mas é verdadeiro, pois Deus falou sobre ele mesmo e sobre o cosmo e sobre a História. Este é õ tipo de Cristianismo que tem uma resposta, incluindo uma resposta sobre a natureza e a relação do homem para com ela.

Pode-se sentir isto já nas pinturas de Dürer, que na realidade estava pintando alguns anos antes de Lutero se pronunciar. Como o falecido

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professor Rookmaaker da Free University de Amsterdã assinalou, Dürer atravessou um período humanístico, e então ele rejeitou a resposta humanística e propôs a resposta bíblica, e naquela resposta ele soube o que fazer com natureza.

Pode se pensar também nos pintores holandeses da pós-Reforma, que pintaram lindamente a natureza e em seu lugar adequado. Sem dúvida, a grande pintura holandesa é aquela na qual a natureza, o mundo como ele é, teve um lugar tremendamente importante. Com Van Eyck no norte (antes da Reforma) e Masaccio no sul, a pintura da Renascença não caminhou na direção correta; ingressou no humanismo que chegou a um beco sem saída para o homem moderno. O homem moderno não tem nenhuma resposta para a natureza nem em sua pintura nem em seu uso da natureza na vida da mesma forma que ele não tem resposta alguma para o homem. Mas os pintores holandeses da pós-Reforma puderam oferecer à

natureza o seu lugar apropriado, com a Reforma tendo restaurado uma unidade baseada na revelação de Deus.

É bom enfatizar, então, que o Cristianismo não tem automaticamente uma resposta; tem de ser o tipo correto de Cristianismo. Qualquer Cristianismo que se baseia numa dicotomia algum tipo de conceito platônico não tem uma resposta para a natureza; e nós temos de dizer com tristeza que muito da ortodoxia, muito do Cristianismo está arraigado num conceito platônico. Neste tipo de Cristianismo só há interesse no "andar superior", nas coisas celestiais somente em "salvar a alma" levá-la ao Céu. Neste conceito platônico, embora seja usada uma terminologia ortodoxa e evangélica, há pouco ou nenhum interesse no prazer apropriado corpo ou nos usos apropriados do intelecto, Num Cristianismo deste tipo, há uma forte tendência em não enxergar nada na natureza além de seu uso como uma das provas clássicas da existência de Deus, "Olhem para natureza", dizem-nos; "olhem para os Alpes. Deus tem de tê-los feito". E acaba aí. A natureza se tornou meramente uma prova acadêmica da existência do Criador, com pouco valor em si mesma. Cristãos com esta perspectiva não demonstram um interesse na natureza em si. Eles usam-na simplesmente como uma arma apologética, ao invés de pensar ou falar sobre o valor autêntico da natureza.

Um exemplo extremo desta atitude pode ser encontrado no que os cristãos holandeses têm chamado de Calvinistas de Meia-Calça Preta, na Holanda. Estes têm uma tradição de poder tratar os seus animais cruelmente, porque os animais não têm uma alma e não vão para o Céu. Eles alegariam serem muito, muito ortodoxos, mas na verdade eles não

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são ortodoxos. Deles é o Cristianismo em uma forma pervertida. No que diz respeito às suas crenças, eles podem ser muito fortes, mas na verdade golpearão e chutarão os seus animais porque, na visão deles estes animais não têm almas ou um destino celestial. Assim, os animais não são merecedores de tratamento amável. Esta é uma visão sub-cristã em relação à natureza.

Pode se encontrar conceitos deficientes em formas menos extremas em muitos lugares. Há alguns anos eu estava ensinando numa determinada escola cristã. Bem do outro lado de um desfiladeiro da escola, havia o que eles chamavam "comunidade hippie". No lado distante do desfiladeiro podia se ver árvores e algumas fazendas. Ali, fui informado, eles faziam uma pisadura pagã de uvas. Estando interessado, eu atravessei o desfiladeiro e conheci um dos principais homens nesta comunidade "boêmia".

Nós nos demos bem ao falar de ecologia, e eu pude falar da resposta cristã para a vida e ecologia. Ele me fez o elogio (e eu o aceitei como tal) de me falar que fui a primeira pessoa do "outro lado do desfiladeiro" a quem fora mostrado o lugar onde eles, de fato, faziam a pisadura da uva e ver a imagem pagã que eles tinham lá. Esta imagem era o centro destes rituais. Todo O conceito era estabelecido de acordo com a formação clássica da Grécia e de Roma.

Tendo me mostrado tudo isso, ele olhou para a escola cristã e me disse "Olhe para aquilo; não é horrível?" E era! Eu não pude negar isto. Era um edifício desagradável, sem mesmo uma árvore ao seu redor.

Foi então que eu percebi que situação pobre era aquela. Quando eu estava em solo cristão e olhava para o lugar do povo boêmio, era belo. Eles tinham até mesmo se preocupado em colocar os cabos de eletricidade abaixo do nível das árvores, para evitar que fossem vistos. Então eu estava em solo pagão olhando para a comunidade cristã e vi feiura. Aqui você tem um Cristianismo que está falhando em levar em conta a responsabilidade do homem e o seu correto relacionamento com a natureza.

Assim, panteísmo não vai resolver nosso problema ecológico internacional. A posição de Lynn White não vai resolvê-lo, porque é óbvio que, na prática, o homem realmente tem um papel especial na natureza, o qual nenhum outro ser tem. E, em terceiro lugar, uma visão platônica do Cristianismo não vai resolvê-lo. Aqui, infelizmente, Lynn White está certo. Ele examina a história do Cristianismo e observa que há muito do pensamento platônico no Cristianismo, no que diz respeito à natureza.

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Agora, qual é a genuína visão bíblica que dará uma base suficiente para resolver o problema ecológico? Qual deveria ser a nossa atitude para com a natureza e nosso tratamento dela? Qual é a visão bíblica da natureza? Vamos agora considerar esta questão.

[34]

[35]

Capítulo 4

A VISÃO CRISTÃ: CRIAÇÃO

O começo da visão cristã da natureza é o conceito da criação: que Deus existia antes do começo do continuum espaço, temporal e que Deus

criou tudo do nada. A partir disso, devemos entender que a Criação não é uma extensão da essência de Deus. Coisas criadas têm uma existência objetiva em si mesmas. Elas realmente existem.

Whitehead, Oppenheimer e outros têm salientado que a ciência moderna somente nasceu por causa de um consenso baseado no Cristianismo histórico. Por quê? Porque, como enfatizou Whitehead, o Cristianismo acredita que Deus criou um mundo externo que realmente existe; e, porque ele é um Deus racional, pode-se esperar ser possível encontrar a ordem do universo pela razão. Whitehead estava absolutamente certo sobre isto. Ele não era um cristão, mas entendeu que nunca teria existido ciência moderna sem a visão bíblica do Cristianismo.

É o mesmo na área da natureza. É a visão bíblica da natureza que dá à natureza um valor em si mesma: não para ser usada somente como um argumento em apologética, mas com valor em SI mesma porque Deus a criou. Jean-Paul Sartre declarou que o problema filosófico básico é que algo exista. E a natureza - mesmo se o homem não souber por quê. Os cristãos sabem por que ela existe: porque Deus a criou do nada, e está em seu lugar! As coisas criadas não são uma extensão da essência de Deus. Elas não são um "sonho de Deus», como algumas

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filosofias orientais alegam; elas realmente existem. Isso pode parecer ingênuo e óbvio, mas não é; é um conceito profundo com consequências profundas. Pense nos argumentos de Hume contra a causa e o efeito. Eles foram demolidos na experiência cotidiana de Hume, por, que a natureza realmente existe, e existe porque Deus a fez existir; e existindo, os particulares da natureza afetam outros particulares da natureza que estão ali.

É intrigante observar, como fizemos no capítulo anterior, que de- pois da Reforma os pintores holandeses começaram a pintar a natureza, já não sentindo mais qualquer necessidade de se restringir a assuntos religiosos. Aliás, desde então foram pintados relativamente poucos assuntos religiosos. De repente, a maioria dos artistas tinha descoberto que valia a pena pintar a natureza, e que é apropriadamente cristão pintá-la.

Agora segue-se que se nós voltarmos à visão bíblica da Reforma de que vale

a

pena pintar a natureza, então a natureza que nós pintamos também vale algo em

si

mesma. Esta é a verdadeira mentalidade cristã. Baseia-se na realidade da criação

a

partir do nada por Deus. Mas também se segue que todas as coisas são

igualmente criadas por Deus. Todas as coisas foram criadas igualmente do nada.

Todas as coisas, inclusive o homem, são iguais em sua origem, no que diz a respeito à criação.

Tudo isto depende, claro, da natureza de Deus. Que tipo de Deus existe? O Deus judaico-cristão é diferente de todos os outros deuses no mundo. O Deus judaico-cristão é o Deus infinito-pessoal. Os deuses do Oriente são por definição infinitos, pois contêm tudo, inclusive o macho e a fêmea igualmente, o cruel e o não- cruel igualmente, e assim por diante. Mas eles não são pessoais. Em contraste, os deuses do Ocidente os dos gregos e dos romanos, o grande deus Thor e os deuses anglo-saxões eram pessoais, mas sempre limitados e finitos.

Desta forma, o Deus judaico-cristão é único: ele é infinito e ele é, ao mesmo tempo, pessoal.

Agora, de que maneira ele criou? Do ponto de Vista de Sua infinidade, existe

o grande abismo. Ele cria todas as coisas, e somente ele é o Criador. Todas as

outras coisas são criadas. Somente ele é infinito, e somente ele é o Criador; todo o festo é dependente. Assim o homem, o animal, a flor e a máquina, do ponto de vista bíblico, estão igualmente separados de Deus, pois ele os criou a todos. Do ponto de

vista de sua infinidade, o homem é tão separado de Deus quanto a máquina.

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O Deus Pessoal-infinito

 

Homem

Abismo

Abismo

Homem

 

Animal

Animal

Planta

Planta

Máquina

Máquina

Então, do ponto de vista de sua infinidade, o abismo está entre Deus e todas

as outras coisas, entre o Criador e todas as coisas criadas.

Mas há um outro lado o pessoal. Aqui o animal, a flor, e a máquina estão abaixo do abismo. Do ponto de vista da infinidade de Deus, todas as outras coisas

são finitas e igualmente separadas de Deus; mas no lado da sua pessoalidade, Deus criou o homem à sua própria imagem. Consequentemente, o relacionamento do homem está na parte superior ao invés de .na inferior um fator tremendo que abre porta após poita para a compreensão do confuso homem moderno.

O homem está separado, como pessoa, da natureza porque ele é feito à imagem de Deus, Quer dizer, ele tem personalidade, e como tal ele é único na criação; mas ele está unido a todas as outras criaturas como ser criado. O homem está separado de todas as outras coisas, mas isso não significa que não há também uma relação para baixo correta do ponto de vista de o homem ser criado e finito.

Mas a relação dele não é apenas para baixo. Albert Schweitzer relacionou-se

a si mesmo ao hipopótamo passando pelo arbusto, porque Schweitzer não tinha

nenhuma relação para cima-suficiente. Mas o homem é criado à imagem de Deus o qual é pessoal; desta forma ele tem duas relaçõespara cima e para baixo. Naturalmente, se ele não encontra sua relação para cima, ele terá que encontrar

esta relação (ou ponto de integração) para baixo. Os cristãos rejeitam isto totalmente porque sabemos quem é o homem; nós não somos ameaçados pela máquina como

o é homem moderno, porque nós sabemos quem somos nós. Isto não é dito

orgulhosamente, mas humilde e reverentemente; nós sabemos que somos feitos à imagem de Deus. Nós rejeitamos uma atitude que faz nossa integração apontar para baixo. Os cristãos rejeitam a visão de que não há nenhuma distinção ou apenas uma distinção quantitativa entre o homem e as outras coisas; e eles rejeitam a visão de que o homem está totalmente separado de todas as outras coisas.

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Como um cristão eu pergunto: “Quem sou eu?" Sou apenas o átomo de hidrogênio, a partícula de energia estendida? Não, eu sou feito à imagem de Deus. Eu sei quem eu sou. Ainda assim, por outro lado, quando me viro e encaro a natureza, eu encaro algo que se parece comigo. Eu também sou criado, da mesma maneira que são criados o animal e a planta e o átomo.

Existe um paralelo aqui com o nosso chamado para amar. O cristão é orientado a amar como irmãos em Cristo apenas outros cristãos. Nem todos os homens são nossos irmãos em Cristo, como o teólogo liberal nos teria feito acreditar. Do ponto de vista bíblico, irmãos têm o mesmo pai. Somente quando um homem vem e lança a si mesmo sobre o Messias profetizado do Antigo Testamento como o Salvador (Cristo veio em sua obra substitutiva) é que Deus se torna seu Pai, Isto é claro nos ensinamentos de Jesus. Então, nem todos os homens são nossos irmãos em Cristo,

Porém, só porque a Bíblia diz que nem todos os homens são nossos irmãos, não significa que não devamos amar todos os homens como nossos próximos. Assim, tem-se o tremendo impacto do ensino de Jesus a respeito do bom samaritano: eu devo amar com base em minha "proximidade” todo aquele que é um só sangue comigo. E o Novo Testamento utiliza essa expressão, "um só sangue”, para indicar a unidade de todas as pessoas pela criação de Deus. Nós somos

pessoas que sabemos ter uma origem comum com todas as raças, todos os idiomas e todas as pessoas.

Mas apenas o cristão sabe por que ele tem uma origem comum. O evolucionista, o homem "moderno", não tem nenhuma razão concreta para entender uma origem comum ou um relacionamento comum entre os homens, a não ser pelo biológico: as pessoas respiram. Isto é tudo que lhes resta.

O Cristão, porém, entende que as pessoas são todas de uma só origem. Nós

somos todos de uma só carne; nós somos de um só sangue, Pode-se dizer que, do ponto de vista bíblico, há duas humanidades: uma, a humanidade que permanece em revolta contra Deus, e a outra, a humanidade que costumava estar em revolta contra Deus (porque nenhum de nós entrou nesta segunda humanidade por meio do nascimento natural). Os membros deste segundo grupo, tendo acreditado em Cristo, lançaram a si mesmos sobre Deus e se tornaram os filhos de Deus.

Ainda assim, nunca se pode esquecer que existe apenas uma humanidade, e isto não é nenhum paradoxo. Há cristãos ortodoxos que não

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deixarão ser dito que há somente uma humanidade, porque eles rejeitam tão fortemente a ênfase liberal sobre a humanidade única à custa da justificação mas isto é falta de visão. São duas, porém uma. O cristão é chamado a entender que há que duas humanidades, e para amar seus irmãos em Cristo especialmente; e, ainda assim, Cristo também confiou a nós o amor de todos os homens, como nossos próximos, porque nós somos um.

É o mesmo em relação à natureza. Em um nível bem diferente, nós estamos

separados do que é forma "inferior" da criação; contudo, nós somos unidos a ela. Não se deve escolher, mas, ao invés disso, assumir ambas. Eu estou separado dela

porque eu sou feito à imagem de Deus; meu ponto de integração é ascendente, não descendente; não retorna à criação. Não obstante, ao mesmo tempo, eu sou unido a ela porque a natureza e o homem são ambos criados por Deus.

Este é um conceito que nenhuma outra filosofia tem. Entre outras coisas, explica as funções mecânicas do homem. Por exemplo, nós temos um sistema pulmonar comum aos cachorros e gatos. Isto não é surpreendente. Tanto o homem como estas outras criaturas foram cria: das por Deus para se encaixar num ambiente comum. Há um relacionamento comum nestas funções mecânicas que relacionam o homem para baixo. Há funções de máquina para o homem. Psicologicamente há um condicionamento, não apenas nos animais, mas também, em uma extensão mais limitada, no homem. Isto é esperado, devido a nossa relação tanto descendente quanto ascendente. Não obstante, esta não é minha relação básica. Eu não tenho medo da máquina. Eu não sou subjugado ou ameaçado, porque eu sei que eu sou criado à imagem de Deus. Eu posso ver por que eu tenho funções mecânicas. e algum condicionamento, porque eu tenho este relacionamento descendente para com coisas "inferiores" (embora, como veremos, o termo "inferiores" não é ideal). Então, intelectual e psicologicamente, olho para estes animais, plantas e máquinas

e, enquanto os encaro, compreendo alguma coisa da atitude que deveria ter para com eles. Eu começo a pensar diferentemente sobre a vida. A natureza começa a parecer diferente. Eu estou separado dela, e ainda assim relacionado a ela.

Observe os termos "intelectual e psicologicamente". Esta é uma distinção muito importante. Eu posso dizer "sim, a árvore é uma criatura como eu". Mas isso não é a totalidade do que está envolvido. Deveria haver um pensamento psicológico, também. Psicologicamente eu devo "sentir" uma relação para com a árvore como criatura semelhante a mim.

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Não é simplesmente que nós devemos sentir uma relação intelectual para com a árvore, e depois transformar isto em somente outro argumento para apologética, mas que devemos perceber e instruir pessoas em nossas igrejas para perceber que, no lado da criação e no lado da infinidade de Deus e de nossa finitude, nós realmente somos um com a árvore!

Esta relação não deveria existir somente por razões estéticas embora esta seja uma razão suficiente em si mesma, porque coisas bonitas são-importantes porém nós deveríamos tratar todas as coisas com integridade porque é assim que Deus as fez. Então Cristãos tratam as "coisas" com integridade porque nós não acreditamos que elas são autônomas, O homem moderno caiu num dilema porque fez Coisas independentes de Deus. A declaração de Simone Weil que o homem moderno vive num mundo decrépito é intensamente perceptiva. Tudo é decrépito; tudo é autônomo. Mas para os cristãos este tudo não é autônomo, porque Deus o fez, e ele fez as coisas em seu próprio nível. O valor das coisas não está nelas autonomamente, mas em que Deus as feze assim elas merecem ser tratadas com alto respeito. A árvore no campo deve ser tratada com respeito. Não será romantizada, como a velha senhora romantiza o gato dela (quer dizer, ela vê reações humanas nele). Isto está errado porque não é verdade. Quando você golpeia a árvore com o machado para suprir a sua necessidade de lenha, você não está derrubando uma pessoa; você está derrubando uma árvore. Mas; ainda que nós não devamos romantizar a árvore, nós temos de perceber que Deus a fez e que ela merece respeito porque ele a fez como uma árvore. Os cristãos que não acreditam em toda a escala evolutiva têm razão para respeitar a natureza como o evolucionista nunca conseguiria, porque nós acreditamos que Deus fez estas coisas especificamente nos seus próprios níveis. Desta forma, se nós formos discutir intelectualmente com os evolucionistas, nós devemos demonstrar os resultados da nossa convicção em nossas atitudes. O cristão é um homem que tem uma razão para tratar cada coisa criada com um alto nível de respeito.

Nós advertimos anteriormente sobre o permitir que conceitos platônicos colorissem o nosso pensamento cristão. O platonismo considera a matéria como inferior. Mas nós certamente não podemos achar a matéria inferior quando nós percebemos que foi Deus que a criou. Nós podemos pensar em coisas sendo criadas em ordens diferentes, mas isso é um conceito muito diferente de pensar que,

coisas são inferiores no sentido de base, como opostas ao superior. Deus fez todas as coisas, e

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qualquer percepção de inferioridade (com suas conotações pobres) não tem nenhum lugar aqui. Pensar nelas como inferiores é de fato o Deus que as fez.

O segundo motivo pelo qual o "material não é inferior é que o corpo de Cristo

foi levantado dos mortos. Este na verdade é um ponto muito importante. A ressurreição do corvo deveria ser mantida como uma realidade doutrinal, e

adicionalmente como uma verdade que nos oferece uma atitude de vida.

O corpo de Cristo realmente foi levantado dos mortos. Podia ser tocado, e ele

podia comer, E este corpo ressuscitado está agora em algum lugar. Nós rejeitaríamos a visão de Tillich sobre Céu como um "outro filosófico". Eu penso que John Robinson, em Honest to God [Juro por Deus], estava certo, do ponto de vista

dele, em fazer da ascensão, ao invés da ressurreição, o ponto crucial. Eu acho que ele de fato entendeu as implicações. Uma ressurreição física poderia acontecer de alguma maneira ou outra no mundo do teólogo moderno, mas o que você não pode ter é um como que poderia comer ascendendo ao "outro filosófico". Para o teólogo moderno, é um conceito impensável. Em contraste com isto, nós acreditamos na ascensão; a Bíblia nos conta que o corpo fisicamente ressuscitado de Jesus está em algum lugar no mundo não visto.

A ressurreição e a ascensão provam que não há nenhuma razão para fazer

uma falsa dicotomia entre o espiritual e o material. Isso é um conceito totalmente não-bíblico, O material e o espiritual não são opostos. O fato de que nossos corpos vão também ser ressuscitados fala disto.

Outra coisa para observar, do ponto de vista bíblico, é a aliança de Deus sobre a criação. Deus nos deu determinados pactos escritos no Bíblia. Ele fez promessas tremendas por exemplo, a promessa da aliança com Abraão e com o povo judeu. E ele deu a promessa ao indivíduo no Novo Testamento: “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna". Mas, com os pactos escritos de Deus há também a aliança da criação. A aliança nas Escrituras é uma aliança proposicional verbalizada; a aliança da criação baseia-se lio modo que Deus fez as coisas, Deus vai tratar com elas da forma que ele as fez: Deus não violará qualquer aliança. Ele sempre tratará uma planta como uma planta, um animal como um animal, uma máquina como uma máquina, e um homem como um homem, não violando as ordens da criação. Ele não pedirá para a máquina se comportar como um homem, também ele não lidará com homem como se ele fosse uma máquina.

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Assim, Deus trata a sua criação com integridade: cada coisa em sua própria ordem, cada coisa no modo em que ele a fez. Se Deus trata a sua criação deste jeito não deveríamos tratar nosso próximo com uma integridade semelhante? Se Deus trata a árvore como uma árvore, a máquina como uma máquina, o homem como um homem, eu, como uma criatura da mesma categoria, não deveria fazer o mesmo

tratando cada coisa com integridade em sua própria ordem? E pela razão mais elevada: porque eu amo a Deus Eu amo aquele que criou tudo! Amando Aquele que Ama, o qual fez tudo isto, eu tenho respeito pela coisa que ele fez.

Vamos enfatizaristo não é panteísta; não obstante, este respeito por todas as Coisas criadas deve ser exercido conscientemente. Conscientemente nós devemos tratar cada coisa em sua própria ordem e em seu próprio nível. Como tantas coisas na vida cristã, esta atitude não aparece mecanicamente, pois Deus está nos tratando como homens e espera que nós escolhamos e ajamos como homens. Assim, nós devemos lidar conscientemente com a integridade de cada coisa que tocamos.

O bom arquiteto moderno batalha para usar materiais com integridade. Consequentemente, por exemplo, se ele estiver utilizando concreto, ele quer que se pareça com concreto e não com tijolo. Outra área de integridade para o arquiteto foi enfatizada pelo grande arquiteto Wright, que avançou do conceito da integridade do edifício para a integridade do terreno. Então existe este desejo em nossos próprios dias, de tratar material com honestidade. Se nós formos ter algo belo, uma paisagem que vai se posicionar com força, nós teremos que ter em mente a integridade do terreno e a integridade do material utilizado, Embora este conceito seja verdadeiro para todos os homens (visto que eles são feitos à imagem de Deus, mesmo que não saibam disto), ainda assim os cristãos têm uma compreensão especial disto, por causa da relação especial deles com Deus. E nossa relação consciente com Deus é aumentada se tratamos todas as coisas que ele fez da mesma maneira como ele as trata.

Em coisas sociológicas, o homem moderno lida somente com "médias" sociológicas. Mas no moderno campo da ecologia, ele começa a gritar: "eu estou morrendo na minha cidade e meu oceano está morrendo". Isto vai bem além de "médias" sociológicas. A sua atitude interna para com a natureza é envolvida. Como ele a está tratando? O homem moderno não dá nenhum "valor" efetivo ao oceano. Tudo o que ele tem é um valor pragmático da forma egoísta mais grosseira para este oceano. Ele o trata como uma "coisa" no pior sentido possível, para explorá-lo para o "bem" do homem. O homem que acredita que as coisas estão presentes apenas por casualidade não consegue dar a elas um valor

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intrínseco concreto. Mas, para o cristão, há um valor intrínseco. O valor de uma coisa não está autonomamente na coisa em si mesma, mas porque Deus a fez. Merece este respeito como algo que foi criado por Deus, da mesma forma que o próprio homem foi criado por Deus.

É verdade, como salientou Lynn White, que muitos "cristãos" são piores na área da ecologia que os animistas, que pensam existir espíritos nas árvores e por isso não as derrubam negligentemente. Porém, embora aquilo seja Verdade, não é porque o Cristianismo não tem a resposta, mas porque nós não agimos segundo a resposta; não porque o Cristianismo não tenha uma visão que dê à árvore mais valor

que o animista pode dar, mas porque nós não agimos com base no valor que nós sabemos, ou deveríamos saber, que ela tem como uma criatura de Deus.

Esta é uma extensão do conceito de esfera de Abraham Kuyper. Ele considera cada de nós como muitos homens: o homem no Estado, o homem que é õ empregador, o homem que é o pai, o ancião na igreja, o professor na universidade cada um destes numa esfera diferente. Mas, embora eles estejam em esferas diferentes em tempos diferentes, os cristãos devem agir como cristãos em cada uma das esferas. O homem sempre está lá e ele sempre é um cristão regido pelas normas da Escritura, quer seja na sala de aula ou em casa.

Agora, aqui está a extensão: eu sou um cristão; mas não apenas um cristão. Eu também sou a criatura, aquele que foi criado; que não é autônomo lidando com estas outras coisas que igualmente não são autônomas. Como um cristão, eu devo conscientemente lidar com todas as outras coisas criadas com coisa em sua esfera adequada de acordo com a criação.

Para resumir este capítulo, vamos reiterar o fato fundamental de que Deus fez todos os homens e todas as coisas. Ele fez tanto meu corpo como minha alma. Ele me fez como sou, com o desejo do meu espírito e do meu corpo. E ele fez todas as coisas, da mesma maneira que ele me fez. Ele fez a pedra, a estrela, os alcances mais distantes do cosmo. Ele fez tudo isso!

Pensar em quaisquer destas coisas como intrinsecamente inferiores é realmente um insulto ao Deus que as fez. Por que os cristãos se perdem neste caminho quando parece tão claro e tão definido? Por que eu deveria dizer que meu corpo é inferior à minha alma, se Deus fez tanto meu com Como minha alma? Em segundo lugar, a encarnação de Cristo nos ensina que o corpo do homem e a natureza não serão considerados como inferiores. Afinal de

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contas, Jesus assumiu um corpo real porque Deus tinha feito o homem com um corpo. Assim, na encarnação, o Deus da criação assumiu um corpo humano. Mais do que isto, depois da ressurreição, Jesus Cristo poderia comer e tocar em coisas. A Bíblia insiste na ressurreição real, histórica, espaço-temporal de Jesus, de forma que havia um como res- suscitado que poderia comer e que poderia ser tocado. Este corpo não era apenas uma aparição ou um "fantasma". E este mesmo corpo ascendeu para Céu e entrou no mundo não visto. O corpo que pode comer ainda está no mundo não visto, e vai um dia na História futura ser novamente visível no mundo.

Nossa ressurreição é do mesmo tipo. Quando Cristo voltar novamente, nossos corpos vão ser levantados da morte. Vai ser uma ressurreição física concreta e, por conseguinte, quer seja o corpo de Jesus ou nosso como, a ênfase é a mesma:

Deus fez o corpo, e o corpo não será menosprezado e considerado como inferior.

O mesmo tipo de ênfase é encontrado explicitamente na aliança da criação de Deus na época de Noé. Em Gênesis 9,8-17 nós temos o pacto de Deus dentro da relação para com a criação. "Eis que estabeleço a minha aliança convosco (gênero

humano) e com a vossa descendência, e com todos os seres viventes que estão convosco". Assim Deus diz que a sua aliança era.com o gênero humano, mas igualmente com toda a criação. Então novamente, no décimo terceiro verso, ele diz:

"Porei nas nuvens o meu arco, será por sinal da aliança entre mim e a terra". Deus faz uma promessa aqui que incorpora toda a criação, Deus está interessado na criação. Ele não a menospreza. Não há nenhuma razão, por menor que seja, e isto e absolutamente falso em termos bíblicos, para que o cristão tenha uma visão platônica sobre a natureza. O que Deus fez, eu, que também sou uma criatura, não devo menosprezar.

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Capítulo 5

UMA CURA SUBSTANCIAL

E m Romanos 8, 19-23 Paulo olha à frente para o que vai acontecer quando Jesus Cristo voltar. Ele escreve: "A ardente expectativa da

criação aguarda a revelação dos filhos de Deus (os cristãos). Pois a criação está sujeita à vaidade (ou seja, à frustração), não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação a um só tempo geme e suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também nós que temos as primícias do Espírito (os cristãos), igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo".

O que Paulo diz ali é que, quando corpos forem levantados da morte, a natureza também será redimida. O sangue do Cordeiro redimirá o homem e a natureza juntos. Há um paralelo aqui com o tempo de Moisés no Egito, quando o sangue aplicado aos umbrais das portas não apenas salvou os filhos dos hebreus, mas também os animais deles.

Como nós enfatizamos no capítulo anterior, a Bíblia não tem absolutamente lugar algum para distinções platônicas sobre a natureza. Da mesma forma que a morte de Cristo redime os homens, incluindo os seus corpos das consequências da Queda, assim a sua morte redimirá toda a natureza das consequências do mal da Queda na ocasião da nossa ressurreição.

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Em Romanos 6, Paulo aplica este princípio futuro à nossa situação presente. É o grande principio da espiritualidade cristã. Cristo morreu, Cristo é nosso Salvador, Cristo está voltando para nos levantar dos mortos. Assim, por intermédio da fé

porque é verdadeiro para o que houve na Morte de Cristo e para o que haverá

quando ele vier novamente, pela fé, no poder do Espirito Santo nós temos que viver agora substancialmente desta maneira. "Ora, se já morremos com Cristo,

Assim também vós considerai-vos mortos

para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus". Assim nós esperamos por isto, e um dia isto será perfeito. Mas nós deveríamos estar buscando agora, baseados na obra de Cristo, a cura substancial em todas as áreas afetadas pela Queda.

Nós temos que entender que, mesmo em nosso relacionamento com Deus, uma distinção deve ser feita aqui. Por meio da justificação, nossa culpa foi completamente removida, de um modo judicial, pois Deus declarou o fim da nossa culpa quando aceitamos Cristo como nosso Salvador. Mas, em nossa vida, na prática, entre a conversão ao Cristianismo e a segunda vinda de Cristo ou nossa morte, nós não estamos em um relacionamento perfeito com Deus. Então, a espiritualidade verdadeira está na procura existencial a cada momento da obra de Cristo buscando e pedindo a Deus em fé uma realidade substancial em nosso relacionamento com ele no momento presente. Eu tenho de estar fazendo isto de forma que, substancialmente, na prática, neste momento, haverá uma realidade no meu relacionamento com o Deus pessoal que existe.

cremos que também com ele viveremos

Isto também é verdade em outras áreas, porque a Queda, como a teologia da Reforma sempre enfatizou, não apenas separou o homem de - Deus, mas também causou outras separações profundas. É interessante que quase toda a "maldição" em Gênesis 3 é centrada em manifestações externas. É a terra que vai ser amaldiçoada por causa do homem. É o corpo da mulher que está envolvido na dor de parto.

Assim, há outras divisões. O homem foi separado de Deus, primeiro; e depois, desde a Queda, o homem está separado de si mesmo. Estas são as divisões psicológicas. Estou convencido de que isto é a psicose básica: o homem individual é separado de si mesmo como resultado da Queda.

A próxima separação é que o homem se encontra separado de outros homens; estas são as separações sociológicas. E então o homem está separado da natureza, e a natureza está separada da própria natureza. Assim, há estas separações múltiplas e, um dia, quando Cristo voltar, haverá uma cura completa de todas elas baseada no "sangue do Cordeiro".

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Mas cristãos que acreditaram na Bíblia não são simplesmente chamados a dizer que "um dia" haverá uma cura, mas que pela graça de Deus, com base na obra de Cristo, a cura substancial pode ser uma realidade aqui e agora.

Neste ponto a Igreja a Igreja ortodoxa que acredita que a Bíblia tem sido verdadeiramente pobre. O que temos realizado para curar separações sociológicas? Frequentemente nossas igrejas são um escândalo; elas são cruéis não somente com o homem "de fora", mas também com o homem “de dentro”.

A mesma coisa é verdadeira psicologicamente. Nós enchemos as pessoas de

problemas psicológicos ao lhes assegurar que "cristãos não têm colapsos nervosos",

e isso é um tipo de assassinato.

Por outro lado, o que nós deveríamos ter, individual e corporativamente, é uma situação em que, com base na obra de Cristo; o Cristianismo é visto não como sendo "dois pássaros voando", mas algo que tem em si a possibilidade de curas significativas, agora, em cada área em que há separações causadas pela Queda. Em primeiro lugar, minha separação de Deus é curada pela justificação; entretanto, deve haver a "realidade. existencial” disto a cada momento. Em segundo lugar, há a separação psicológica do homem em relação a ele próprio. Em terceiro lugar, as separações sociológicas do homem para com outros homens. E, por último, a separação do homem para com a natureza, e a separação da natureza da própria natureza. Em todas estas áreas nós deveríamos fazer tudo a nosso alcance para trazer cura substancial.

Eu demorei bastante para decidir sobre a palavra "substancial", mas ela é, eu acho, a palavra certa. Carrega a ideia de uma cura que não é perfeita, mas não obstante é real e evidente. Por causa da história passada e da história futura, somos chamados para viver desta maneira agora por fé.

Quando levamos estas ideias para a arca do nosso relacionamento para com

a natureza, há um paralelo preciso. Baseado haverá uma redenção total no futuro,

não somente do homem, mas de toda a criação, o cristão que acredita na Bíblia deveria ser agora o homem que com a ajuda de Deus e no poder do Espírito Santo está tratando a natureza na direção da forma que ela será. Ela não será perfeita agora, mas deveria haver algo substancial ou estamos perdendo nosso chamado. O presente chamado de Deus ao cristão, e à comunidade cristã, na área de natureza (da mesma forma que na área da vida pessoal cristã em verdadeira espiritualidade) é que nós deveríamos exibir uma

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cura substancial aqui e agora, entre homem e natureza e natureza e ela mesma, tanto quanto como cristãos possamos fazê-lo.

Em Novum Organum Scientiarum, Francis Bacon escreveu que “pela Queda,

o homem caiu ao mesmo tempo do seu estado de inocência e de seu domínio sobre

a natureza. Porém, ambas estas perdas, mesmo nesta vida, podem em alguma parte ser reparadas; a primeira pela religião e fé, a última pelas artes e ciências”. É uma tragédia da qual a Igreja, inclusive a Igreja evangélica ortodoxa, nem sempre se lembra. Aqui nesta vida presente, é possível para o cristão ter alguma participação, por intermédio das ciências e das artes, em retomar a natureza para seu próprio

lugar.

Mas, de que forma isto deverá ser alcançado? Primeiro, como temos visto, pela ênfase na Criação. Então, em segundo lugar, por uma compreensão renovada do "domínio" do homem sobre a natureza (Gn 1.28). O homem tem domínio sobre as ordens "inferiores" da criação, mas ele não é soberano sobre elas. Somente Deus é

o Senhor Soberano, e as ordens inferiores devem ser encaradas coze esta verdade em mente. O homem não está usando as suas próprias possessões.

Um paralelo é o presente das posses econômicas Elas devem ser utilizadas como Deus quer que sejam utilizadas. Na parábola dos talentos, contada por Jesus (Mt 25.15s), os talentos ou o dinheiro não pertenciam ao homem com quem eles eram deixados. Ele era um servo e um mordomo, e ele os guardava apenas em serventia para o verdadeiro dono.

E a mesma coisa quando nós temos domínio sobre a natureza: ela não é nossa. Pertence a Deus, e nós devemos exercer nosso domínio sobre estas coisas não como se fossemos destinados a explorá-las, mas como coisas emprestadas ou confiadas a nós. Nós devemos usá-las sabendo que elas não são nossas intrinsecamente. O domínio do homem está debaixo do domínio de Deus.

Sempre que qualquer coisa se torna autônoma, como eu enfatizei em Morte da Razão, a natureza "devora" a graça, e logo todo o significado se vai. E isso é verdade aqui. Quando a natureza se torna autônoma, pelo materialista ou pelo cristão quando ele passa por cima e se posiciona no lugar errado, logo o homem devora a natureza. É isto que nós estamos vendo atualmente. De repente, o homem está começando a gritar e estou convencido de que Deus está permitindo que estas coisas aconteçam. O problema não é o crescimento da população isoladamente nem

o desenvolvimento técnico isoladamente estes podem ser administrados. O

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problema, como White corretamente salienta, é a filosofia com a qual o homem tem contemplado a natureza.

Uma parte essencial de uma verdadeira filosofia e uma compreensão correta do padrão e do plano da criação como revelado pelo Deus que a fez. Por exemplo, nós temos de ver que cada degrau "acima" a máquina, a planta, o animal e o homem tem o uso daquilo que e inferior a si próprio. Descobrimos que o homem solicita e utiliza o animal, a planta, e a máquina; o animal come a planta. A planta utiliza a porção mecânica do universo. Cada coisa na criação de Deus utiliza a coisa que Deus fez abaixo dela.

Nós também temos de apreciar que cada coisa está limitada pelo que ela é. Ou seja, uma planta está limitada por ser uma planta, mas também está limitada pelas propriedades daquelas coisas abaixo dela que ela utiliza. Assim, a planta só pode usar as substâncias químicas com base nos limites das propriedades das substâncias químicas. Não há nada mais que ela possa fazer.

Mas isto também é verdadeiro para o homem. Nós não podemos construir nosso próprio universo; nós podemos usar o que está abaixo de nós na ordem da criação. Mas há uma diferença; e é por isso que o animal, por exemplo, tem de utilizar o inferior da forma que é. O homem tem de aceitar algumas limitações necessárias daquilo que está abaixo dele, mas ele pode agir conscientemente sobre aquilo que existe. Isso é uma diferença real. O animal simplesmente come a planta. Ele não pode mudar sua situação ou suas propriedades. Por outro lado, o homem

tem de aceitar limitações, mas não obstante é solicitado em sua relação para com a natureza a tratar a coisa que está abaixo dele conscientemente, baseado no propósito de Deus para ela. O animal, a planta, têm de fazer isto; o homem deveria fazer isto. Nós devemos usar, mas não devemos usar como se estas coisas fossem nada em si próprias.

Agora vamos olhar para isto de uma forma diferente. Ao homem foi determinado o domínio sobre a criação. Isto é verdade. Mas, desde a Queda, o homem tem exercido este domínio de maneira incorreta. Ele é um rebelde que se posicionou centro do universo. Pela criação o homem tem o domínio, mas como uma criatura caída ele tem usado aquele domínio erradamente. Porque ele está caído, ele explora coisas criadas como se elas fossem nada em si próprias, e como se ele tivesse um direito autônomo sobre elas.

Certamente, então, cristãos que regressaram, por intermédio da obra do Senhor Jesus Cristo, para comunhão com Deus e têm um lugar efetivo

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de referência ao Deus presente, deveriam demonstrar um uso apropriado da natureza. Nós devemos ter domínio sobre ela, mas nós não vamos usá-la de forma semelhante ao homem caído. Nós não vamos agir como se a natureza fosse nada em si própria, ou como se fôssemos fazer com a natureza tudo o que nós fôssemos capazes de fazer.

Um paralelo é o domínio do homem sobre a mulher. Na ocasião da Queda, ao homem foi determinado o domínio no lar sobre a mulher. Mas o homem caído se apega a este domínio transforma-o em tirania e faz de sua esposa uma escrava. Consequentemente, primeiro no ensino judaico a lei do Antigo Testamento e então posterior e mais especificamente no Novo Testamento, o homem é ensinado a exercer domínio sem tirania. O homem deve ser o cabeça da casa, mas o homem também deve amar a sua esposa como Cristo ama a Igreja. Assim, tudo está de volta ao seu lugar determinado. Deve haver ordem no meio de um mundo caído, mas em amor.

Assim, o homem caído tem domínio sobre a natureza, mas ele o usa incorretamente. O cristão é chamado a mostrar este domínio; porém fazendo isto de forma correta: tratando a coisa como tendo valor em si mesma, exercendo o domínio sem ser destrutivo. A Igreja deveria ter ensinado e praticado isto sempre, mas geralmente tem falhado, e nós precisamos confessar nosso fracasso. Francis Bacon compreendeu isto, assim como outros cristãos em tempos diferentes; mas, em geral, nós ternos que dizer que, durante muito, muito tempo, professores cristãos, inclusive os melhores teólogos ortodoxos, mostraram uma pobreza real aqui.

Como um paralelo, o que teria acontecido se a Igreja na época da Revolução Industrial tivesse falado contra os abusos econômicos que dali surgiram? Não sugerimos que a Revolução Industrial estava errada, ou que a propriedade privada como tal é um erro, mas que a Igreja, num ponto na História em que ela tinha o consenso, não conseguiu (com algumas exceções notáveis) falar contra o abuso do

domínio econômico. Assim também a Igreja não falou como deveria ter feito ao longo da História contra o abuso da natureza.

Mas quando a Igreja coloca suas crenças na prática em relação ao homem e a natureza, existe cura substancial. Um dos primeiros frutos dessa cura é uma nova percepção de beleza. Os valores estéticos não devem ser menosprezados. Deus fez o homem com uma percepção de beleza que nenhum animal tem; nenhum animal produziu vez alguma uma obra de arte. O homem feito à imagem de Deus tem uma qualidade estética, e tão logo ele começa a lidar com a natureza como ele deve, a beleza é preservada. Mas também o valor econômico e o valor

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humano serão acrescidos, pois o problema de ecologia que nós temos agora diminuirá.

Os cristãos deveriam poder exibir individual e corporativamente que, come base na obra de Cristo, lidando com as coisas de acordo com a visão de mundo e a filosofia básica da Bíblia, eles podem produzir algo que o mundo tentou, mas não Conseguiu produzir. A comunidade cristã s. deveria ser uma exibição viva da verdade, que em nossa situação presente é possível ter curas sociológicas substanciais o tipo que o humanismo almeja, mas não tem sido capaz de produzir. O humanismo não está errado em seu grito pela cura sociológica, mas o humanismo não a está produzindo. E o mesmo é verdade com respeito a uma cura substancial no que diz respeito à natureza.

Então nós descobrimos que, quando começamos a agir baseados no Cristianismo, as coisas começam a mudar não apenas em teoria, mas na prática. O homem não será sacrificado, como o panteísmo o sacrifica, porque afinal de contas ele foi feito à imagem de Deus e a ele foi dado o domínio. E ainda assim a natureza deve ser honrada, cada coisa em seu próprio nível. Em outras palavras, há um equilíbrio aqui. O homem tem domínio; ele tem um direito por escolha, porque é uma criatura moral, um direito por escolha de ter domínio. Mas também por escolha deve exercer isto da forma correta tem de honrar o que Deus fez, até o nível mais alto que possa honrar, sem sacrificar o homem.

Os cristãos, dentre todas as pessoas, não deveriam ser os destruidores. Nós deveríamos tratar a natureza com um- respeito gigantesco. Nós podemos derrubar uma árvore para construir uma casa, ou fazer uma fogueira para manter a família aquecida. Mas não deveríamos derrubar a árvore apenas por derrubá-la. Nós podemos, se necessário, tirar a casca da árvore para usar a cortiça. Mas o que nós não deveríamos fazer é tirar a casca da árvore simplesmente pela vontade de fazer isto, e deixar que ela seque e permaneça um esqueleto morto no vento. Agir assim é não tratar a árvore com integridade. Nós temos o direito de livrar nossas casas das formigas; mas o que nós não temos o direito de fazer é esquecer de honrar a formiga como Deus a fez, em seu lugar legítimo na natureza. Quando nós encontramos a formiga na calçada, nós pisamos em cima dela. Ela é uma criatura,

como nós mesmos; não feita à imagem de Deus, mas igual ao homem no que diz respeito à natureza. A formiga e o homem são ambos criaturas.

Neste sentido, o uso do termo "irmãos dos pássaros" de São Francisco não somente é teologicamente correto, mas algo a ser pensado intelectualmente e a ser praticado praticamente. Além disso, deve ser

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psicologicamente percebido quando eu encaro a árvore, o pássaro, a formiga. Se fosse isto o que The Doors queriam dizer quando falavam de “nossa bela irmã”, seria maravilhoso. Usada corretamente no quadro cristão, esta expressão é magnífica. Por que os cristãos evangélicos ortodoxos produziram poucos hinos contendo um conceito tão belo numa colocação teológica apropriada?

Não se deformam coisas simplesmente para as deformar. Afinal de contas, a pedra tem um direito determinado por Deus de ser uma pedra como ele a fez. Se você necessitar de fato de remover a pedra para construir a fundação de uma casa, então, sem hesitar, a remova. Mas em um passeio nos bosques não tire o musgo da pedra sem razão alguma, para depois deixar o musgo ao lado dela para morrer. Até o musgo tem direito à vida. Ele é igual ao homem enquanto criatura de Deus.

As caçadas esportivas são outro exemplo do mesmo princípio. Matar animais para comer é uma coisa, mas por outro lado eles não existem simplesmente como coisas a serem mortas. Isto é verdade sobre a pesca, também. Muitos homens pescam e deixam as suas vítimas apodrecer e feder. Mas e o peixe? Ele não tem direitos não o de ser romantizado como se ele fosse um homem ou tem direitos verdadeiros? Por um lado, está errado tratar o peixe como se fosse um bebê humano; por outro lado, ele não é nem uma fatia de madeira nem uma pedra.

Quando nós consideramos a árvore, a qual está "abaixo" do peixe, nós podemos derrubá-la, desde que lembremos que é uma árvore, com seu próprio valor como uma árvore. Não é um zero. Alguns de nossos conjuntos residenciais demonstram a aplicação prática disto. Escavadoras partem para aplainar tudo e limpar o terreno das árvores antes de começar as casas. O resultado final e feiura. Teria custado outros milhares de dólares para limpar ao redor das árvores; por causa disto, elas simplesmente são tiradas sem avaliação. E então, pensamos enquanto olhamos para o resultado, como as pessoas podem viver lá. E menos humano em sua aridez; e mesmo economicamente é mais pobre à medida que a superfície do solo é lavada. Assim, quando o homem viola a verdade de Deus, na realidade ele sofre.

Os hippies dos anos 60 tinham razão em seu desejo de estar perto da natureza, até mesmo andando de pés descalços para senti-Ia. Mas eles não tinham nenhuma filosofia suficiente, e data forma descambaram para o panteísmo e logo se tornaram feios. Mas os cristãos, que deveriam entender o princípio da criação, têm uma razão para respeitar a natureza e, quando isto acontece, resulta em benefícios para o homem.

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Vamos ser claros: não é somente uma atitude pragmática; há uma base para isto. Nós tratamos a natureza.com respeito porque Deus a fez. Quando um cristão evangélico ortodoxo maltrata ou é insensível com a natureza, neste ponto ele está mais errado que o hippie que não tinha nenhuma base concreta para o seu sentimento a respeito da natureza e ainda assim sentia que o homem e natureza deveriam ter um relacionamento além daquele de destruidor e destruído. Você pode ou não quereis caminhar descalço para se sentir próximo à natureza, mas, como um cristão, em que relacionamento você pensou e praticou para com a natureza como sendo criação igual a você?

Por que eu tenho uma reação emocional para com a árvore? Por alguma razão abstrata ou pragmática? Absolutamente não. O homem secular pode dizer que se importa com a árvore porque, se ele a derrubar, as Suas cidades não poderão respirar. Mas isso é egoísmo, e egoísmo produzirá feiura, não importa quanto tempo leve ou que palavras agradáveis são empregadas. Nesta base, a tecnologia continuará a assumir outra volta no laço tanto da natureza como do homem. Mas os

cristãos se posicionam em frente à árvore e tem uma reação emocional nisto, porque

a árvore tem um valor verdadeiro em si mesma, sendo uma criatura feita por Deus. Eu tenho algo em comum com a árvore: nós fomos feitos por Deus e não apenas aparecemos por acaso.

Repentinamente, então, nós temos beleza legítima. A vida começa a respirar:

Para nós, o mundo começa a respirar como nunca respirou antes. Nós podemos amar um, homem por causa dele mesmo, porque sabemos quem é o homem ele

é

feito à imagem de Deus. E nós podemos nos importar com o animal, com a árvore,

e

até mesmo coma porção mecânica do universo, cada coisa em sua própria ordem

pois nós as conhecemos como criaturas da mesma categoria que nós, feitos pelo mesmo Deus.

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Capítulo 6

A VISÃO CRISTÃ: A "FÁBRICA PILOTO"

V imos, então, que um Cristianismo verdadeiramente bíblico tem uma resposta real para a crise ecológica. Ele oferece uma atitude equilibrada

e saudável para com a natureza, atitude esta que surge dá verdade de sua criação

por Deus. Oferece a esperança aqui e agora de cura substancial da natureza de alguns dos resultados da Queda, surgindo da verdade da redenção em Cristo. Em cada uma das alienações surgidas na Queda, cristãos, individual e

corporativamente, devem conscientemente ser um fator redentivo de cura na prática cura para a separação do homem em relação a Deus, a ele mesmo, ao próximo,

à natureza, e da natureza em relação à natureza.

Uma ciência e uma tecnologia baseadas no Cristianismo deveriam conscientemente tentar visionar a natureza curada substancialmente, enquanto esperam pela futura cura completa no retomo de Cristo. Neste. capítulo final, temos de perguntar como a Igreja Cristã, acreditando nestas verdades, pode aplicá-las de forma prática à questão da ecologia.

Pois aqui está nosso chamado. Nós temos que mostrar que, baseando-se na obra de Cristo, a Igreja pode alcançar parcial, mas substancialmente, aquilo que o mundo secular deseja e não pode conseguir. A Igreja deveria ser uma "fábrica piloto", na qual os homens pudessem enxergar em nossas congregações emissões uma cura significativa de todas as divisões, das alienações que a rebelião de homem proporcionou.

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Deixe-me explicar a expressão "fábrica piloto". Quando uma empresa industrial está a ponto de construir uma grande fábrica, é construída uma fábrica piloto em primeiro lugar. Ela serve Para demonstrar como a grande fábrica irá funcionar. A Igreja de hoje, eu acredito, deveria ser uma fábrica piloto para a cura do

homem em relação a ele mesmo, ao próximo, à natureza. Realmente, a menos que algo assim aconteça, não acredito que o mundo escutará o que nós temos para dizer. Por exemplo, na área de natureza, deveríamos estar exibindo o exato oposto da situação que eu descrevi anteriormente, onde os pagãos que tinham sua pisadura de vinho forneciam um ambiente formoso para os cristãos contemplarem, enquanto os cristãos providenciaram algo feio para os pagãos verem. Este tipo de situação deveria ser revertido, ou as nossas palavras e nossa filosofia, previsivelmente, serão ignoradas.

Assim a Igreja Cristã deveria ser esta fábrica piloto e, por meio de atitudes individuais e da atitude da comunidade Cristã, mostrar que nesta vida presente o homem pode exercer domínio sobre a natureza sem ser destrutivo. Deixe-me dar duas ilustrações do que isto poderia envolver. A primeira é a mineração a céu aberto ou de superfície.

Por que a mineração de superfície normalmente transforma a área onde é utilizada em deserto? Por que o "Campo Negro" na parte central da Inglaterra é negro? O que provocou a horrível destruição do meio ambiente? Há uma única razão: a ganância do homem.

Se aqueles que trabalham na mineração de superfície com escavadoras afastassem a camada superior do solo, tirassem o carvão, e então repusessem a camada superior do solo, dez anos depois que o carvão fosse retirado haveria um campo verde, e em cinquenta anos uma floresta. Mas, da forma como tem sido normalmente praticada, para um lucro adicional em cima daquilo que é razoável em respeito à natureza, o homem transforma estas áreas em desertos e então lamenta que a camada superior do solo se foi, que a grama não crescerá, e que não há nenhuma forma de crescerem árvores durante séculos!

Sempre é verdade que, se você tratar a terra corretamente, você tem de fazer duas escolhas. A primeira está na área da economia. Custa mais dinheiro, pelo menos no princípio, tratar bem a terra. Por exemplo, no caso da escola que mencionei, tudo que eles tinham de fazer para melhorar o lugar era plantar árvores para envolver o edifício que eles construíram. Mas custa dinheiro plantar árvores, e alguém decidiu que em vez de plantar árvores seria preferível fazer outra coisa qualquer

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com o dinheiro. Naturalmente, a escola precisa de dinheiro para seu trabalho importante; mas há um tempo quando plantar árvores é um trabalho importante.

A segunda escolha aqui envolvida é que normalmente leva muito mais tempo para tratar a terra corretamente. Estes são os dois fatores que conduzem à destruição do nosso ambiente: dinheiro e tempo ou; para dizer isto de outra forma, ganância e pressa. A questão é, ou parece ser, vamos ter um lucro imediato e uma economia instantânea de tempo, ou vamos fazer o que nós realmente deveríamos fazer como filhos de Deus?

Aplique isto à mineração de superfície. Não há nenhuma razão por que a mineração de superfície tivesse que deixar a Pensilvânia ocidental ou o Kentucky oriental em sua condição atual. Minas de superfície, como vimos, não têm de ser abandonadas deste modo; a camada superior do solo pode ser terraplenada de volta. O que nós, a comunidade cristã, temos de fazer é recusar aos homens o direito de violar nossa terra, da mesma maneira que nós lhes recusamos o direito de violar nossas mulheres; insistir que alguém aceite um pouco menos de lucro deixando de extorquir a natureza. E o primeiro passo está em mostrar o fato de que, como cristãos individuais e como comunidades cristãs, nós mesmos não violamos a nossa bela/irmã por causa da ganância de uma ou outra forma.

Nós podemos observar o mesmo tipo de coisa acontecendo na Suíça. Aqui está uma aldeia bem em cima nas montanhas. Nunca teve eletricidade. As pessoas passaram bem durante mil anos sem eletricidade. Agora, de repente, vem a "civilização" e todo mundo sabe que não se pode ter “civilização" sem eletricidade, e consequentemente a decisão é tomada para fornecer à aldeia energia elétrica.

Isto pode ser feito em uma de duas maneiras. Eles podem ter a eletricidade em aproximadamente três meses: simplesmente cortar tudo, deixar a floresta em pedaços, correr grandes cabos pesados por cima de tudo, e criar feiura daquilo que era bonito de se ver. Ou eles podem esperar alguns anos pela eletricidade deles; eles podem manejar os cabos e as florestas com mais cuidado, escondendo o que eles precisam esconder e considerando a integridade do meio ambiente, e terminar com algo infinitamente preferível. Eles têm a sua eletricidade e a aldeia tem sua beleza, e o único custo é acrescentar dois anos aos mil anos que estiveram sem eletricidade. Haveria alguns fatores econômicos aqui, mas o maior deles é aquele da mera pressa.

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Felizmente, em determinados lugares na Suíça nos últimos anos, mais coisas estão sendo feitas nesta direção. Por exemplo, em nossa aldeia, todos os fios de telefone foram postos debaixo do chão. Isto criou uma impressão muito diferente:

pode se ver agora uma aldeia organizada nos Alpes. Isto é assim, até mesmo se a pessoa que agora chega pela primeira vez à aldeia não conhece o contraste aquilo que ela antes era.

Também se pode pensar nas estradas a selva de asfalto nos Estados Unidos. Pense, se for capaz, na maneira como as escavadoras são frequentemente utilizadas através das montanhas suíças. Quase sempre as cicatrizes e a feiura são o resultado da pressa. E quer seja pressa ou ganância, estas coisas devoram a natureza.

O que pode ser feito foi exibido na rodovia construída perto do Castelo Chillon, na Suíça. Tanto o cuidado quanto o dinheiro foram considerados na construção em forma de ponte, alta, atrás e afastada do castelo, e a beleza do local não foi destruída.

Como cristãos, temos que aprender a dizer "Pare!" porque, afinal de contas, a ganância neste momento destrói a natureza e há um tempo de se tomar tempo.

Porém, isso tudo não acontece automaticamente. Hoje a ciência trata o homem como menos que homem, e a natureza como menos que natureza. E o motivo disso é que a ciência moderna tem a percepção errada de origem; e tendo a percepção errada de origem, não tem categoria suficiente alguma para tratar a natureza como natureza, mais do que tem para tratar o homem como homem.

Não obstante, nós que somos Cristãos temos de ter cuidado. Nós temos de confessar que temos perdido nossa oportunidade. Temos falado ruidosamente, contra a ciência materialista, mas temos feito muito pouco para mostrar, que, na prática, nós mesmos como cristãos não somos dominados por uma orientação tecnológica em consideração tanto ao homem quanto à natureza. Há muito deveríamos estar enfatizando e praticando que há uma razão básica pela qual nós não deveríamos fazer tudo aquilo que, com nossa tecnologia, seríamos capazes de fazer. Nós temos perdido a oportunidade de ajudar os homens a salvar a sua terra. Não só isso: em nossa geração nós estamos perdendo uma oportunidade evangelística porque, quando as pessoas modernas têm uma sensibilidade essencial para com a natureza, grande parte delas se volta para a mentalidade panteísta. Elas veem, que a maioria dos cristãos simplesmente não se preocupa com a natureza como tal.

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Assim nós não apenas temos perdido a nossa oportunidade para, salvar a terra para o homem, mas em parte isto também esclarece o fato de que nós temos perdido grandemente a oportunidade de alcançar o século 20. Estas são as razões por que a igreja parece irrelevante e desamparada em nossa geração. Nós estamos vivendo e praticando um sub-cristianismo.

Há um paralelo entre o abuso dó homem para coma natureza e o abuso do homem para com o homem. Nós podemos ver isto em duas áreas. Em primeiro lugar, vamos pensar no relacionamento sexual. Qual é a atitude chi homem para com a mulher? E possível, e comum, no cenário moderno, ter uma atitude de "playboy", ou melhor, uma atitude de "brinquedo" onde a "parceira" se torna o "brinquedo". Aqui, a mulher e não mais que um objeto sexual.

Mas qual é a visão cristã? Alguém pode oferecer neste momento a noção bastante romântica, de que "Você não deve procurar prazer para si mesmo; você deve apenas procurar o prazer da outra pessoa". Mas isso não é o que a Bíblia diz. Nós devemos amar nosso próximo como a nós mesmos. Nós temos direito a ter prazer, também. Mas o de que não temos direito é esquecer que a mulher é uma pessoa e não um animal, ou uma planta, ou uma máquina. Nós temos o direito de ter nosso prazer em uma relação sexual, mas não temos nenhum direito absolutamente de explorar um parceiro (ou parceira) como um objeto sexual.

Deve haver uma limitação consciente sobre nosso prazer. Nós impomos um limite um limite auto imposto para poder tratar honestamente a esposa como

uma pessoa. Assim, embora um marido seja capaz de fazer mais, ele não faz tudo o que ele seria capaz de fazer, porque ele tem de tratá-la também como uma pessoa e não simplesmente como uma coisa sem valor. E, se ele a trata desta última forma, certamente ele perde, porque o amor se foi, e tudo o que resta é somente uma sexualidade mecânica, química; a humanidade está perdida à medida que ele trata a mulher como inferior ao ser humano. Finalmente, não apenas a humanidade dela é diminuída, mas a dele também. Em contraste, se ele faz menos do que é capaz de fazer, no final ele tem mais, porque ele tem uma relação humana; ele tem amor e não somente um ato físico. É como o princípio do bumerangue ele pode completar o círculo e assim destruir o destruidor. É isso exatamente o que acontece com a natureza. Se nós tratamos a natureza como não tendo valor intrínseco algum, nosso próprio valor é diminuído.

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Um segundo paralelo pode ser encontrado num homem de negócios. Atualmente, temos todos os tipos de idealistas que gritam: "nada de lucros! Abaixo com a motivação pelo lucro!" Mas os homens não agem desta maneira. Até o Comunismo está aprendendo a necessidade de restabelecer a motivação pelo lucro. E certamente a Bíblia não diz que a motivação pelo lucro está errada.

Mas devo tratar o homem com quem negocio como eu mesmo. Devo "amá-lo" como meu próximo, e como eu mesmo. É perfeitamente correto que eu deva ter algum lucro, mas não devo adquirir este lucro por tratá-lo (ou explorá-lo) como um objeto de consumo. Se eu fizer isto, no final eu desfruirei não apenas a ele, mas a mim também, porque eu terei diminuído meu próprio valor legítimo.

Deste jeito, da mesma maneira que a mulher não deve ser tratada como um objeto sexual mas como uma pessoa, assim novamente eu devo, se for um homem de negócios que age em uma base cristã, perceber que estou lidando com um outro homem feito à imagem de Deus, e eu tenho de impor a mim mesmo alguma limitação, consciente., O homem de negócios cristão terá lucro, mas ele não fará tudo o que é capaz de fazer extorquindo todo o lucro que é capaz de extorquir.

O Antigo Testamento é muito claro neste ponto: "Se do teu próximo tomares

em penhor a sua veste, lha restituirás antes do pôr-do-sol; porque é com ela que se "

(Êx 22.26). Novamente: "Não se tomarão em

penhor as mós ambas, nem apenas a de cima, pois se penhoraria assim a vida" (Dt 24.6). Isso mostra uma mentalidade muito diferente daquela que frequentemente marca os homens de negócios cristãos. Pode ser corretamente chamado de direito de propriedade privada, mas é um tipo milito diferente de direito de propriedade privada. Ele mostra que, se tratarmos outros homens de negócio ou industriais como máquinas, nós nos tornamos máquinas, porque nós não somos melhores do que eles. Realmente, nós em relações comerciais transformamos outros homens e nós mesmos em máquinas, gradualmente isto penetrará toda área da vida e a maravilha da humanidade começará a desaparecer.

cobre, é a veste do seu corpo

Consequentemente de novo; o cristão não faz tudo que ele seria capaz de fazer. Ele tem um princípio limitador; e, ao fazer menos, ele tem mais, pois a própria humanidade dele está em jogo. Uma mulher não deve ser tratada como um objeto sexual a ser usado simplesmente para o prazer. Um homem não deve ser tratado como um objeto de consumo simplesmente por maiores lucros. Na área do sexo e na área

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de negócios, tratar as pessoas como deveriam ser tratadas, com base na criação de Deus, não é somente correto em si, mas produz bons resulta- dos, porque nossa própria humanidade começa a florescer.

Na área da natureza acontece exatamente q mesmo. Se a natureza for apenas um particular sem sentido, for "reduzida", para usar a palavra evocativa de Simone Weil, sem nenhum universal para dar lhe dar significado, então a maravilha dela se foi. A menos que haja um universal acima dos particulares, não há nenhum significado.

Jean-Paul Sartre declarou: "Se você tem um ponto finito e não tem nenhum ponto de referência infinito, então aquele ponto finito é um absurdo". Ele tinha razão, e infelizmente é o lugar em que ele próprio se encontrava um particular absurdo rodeado apenas por particulares absurdos.

Assim, se a natureza e as coisas da natureza são apenas algumas séries sem sentido de particulares num universo reduzido, sem universal algum para lhes proporcionar significado, então a natureza se tornou absurda, a maravilha dela se foi. E a maravilha se foi de mim igualmente, porque eu também sou uma coisa finita.

Mas os cristãos insistem que temos realmente um universal. Deus existe! O Deus infinito-pessoal é o universal de todos os particulares, porque ele criou todos os particulares; e, nas suas comunicações proposicionais verbalizadas nas Escrituras, ele nos deu categorias dentro das quais devemos tratar tudo dentro de sua criação: o homem para com o homem, para com a natureza, para com o todo completo.

Agora, tanto a coisa que ele fez quanto eu, que também fui feito por ele, têm maravilha, reverência e valor real. Mas temos de nos lembrar que o valor que eu conscientemente coloco em alguma coisa será final- mente meu próprio valor, porque eu também sou finito. Se deixei a maravilha escapar da coisa, logo a maravilha escapará do gênero humano e de mim. E é neste ponto que as pessoas vivem hoje. Toda a maravilha se foi. O homem se senta no Seu mundo autônomo "descriado", onde não há universal algum e maravilha alguma na natureza. Verdadeiramente, de um modo arrogante e egoísta, a natureza foi reduzida a uma "coisa" para o homem usar ou explorar.

E se o homem moderno falar em proteger o equilíbrio ecológico da natureza, é somente no nível pragmático para o homem, sem base para a natureza ter qualquer valor verdadeiro em si mesma. E deste modo o homem também é reduzido

em mais um ponto em seu valor, e a tecnologia desumanizada dá outra volta no torno.

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Por outro lado, na visão cristã das coisas, a natureza é restaurada. De repente, a maravilha retorna.

Mas não é o suficiente acreditar somente como teoria que há um significado concreto na natureza. A verdade, tem de ser praticada conscientemente. Nós temos que começar a tratar a natureza do modo que deve ser tratada.

Nós vimos, em relação ao prazer sexual e ao lucro na Indústria e negócios, que o homem tem de se limitar voluntariamente. Ele não deve ser impelido pela ganância ou pela pressa para remover todas as autolimitações. Ou podemos apresentar isto de outro modo: não devemos permitir a nós individualmente, riem à nossa tecnologia, fazer tudo que nós ou ela poderíamos ser capazes de fazer.

O animal não pode fazer nenhuma limitação consciente. A vaca come a grama ela não tem nenhuma decisão a tomar; não pode fazer de outra maneira. Sua única limitação é a limitação mecânica de sua "vaquice”. Eu, que sou feito à imagem de Deus, posso fazer uma escolha. Eu consigo fazer coisas com a natureza que eu não devo fazer. Desta forma, devo colocar uma autolimitação em relação ao

que é possível. Õ horror e a feiura do homem moderno na sua tecnologia e na sua vida individual é que ele faz tudo que é capaz de fazer, sem limitação. Tudo que ele

é capaz de fazer, ele faz. Ele mata o mundo, ele mata gênero humano, e ele se mata.

Eu sou um ser feito à imagem de Deus. Tendo uma limitação moral e racional, nem tudo o que o homem é capaz de fazer é correto fazer. Na, verdade, este é o problema, desde o Jardim de Éden. Do ponto de vista da estrutura do corpo, Eva poderia comer a fruta; Adão poderia comer a fruta. Mas, com base na segunda condição do limite do comando moral de Deus, e no caráter de Deus, estava errado para eles comer a fruta. O chamado era para Eva se limitar: abster-se de fazer algo ela poderia fazer.

Tecnologicamente, o homem moderno faz tudo que pode fazer; ele trabalha neste único princípio limitante. O homem moderno, vendo-se como autônomo, sem o Deus infinito-pessoal que falou, não tem nenhum universal adequado para prover uma segunda condição de limite adequada; e o homem, estando caído, não apenas

é finito, mas pecador. Assim, as escolhas pragmáticas do homem não têm ponto algum de referência além do egoísmo humano. É cão comendo cão, homem comendo homem, homem comendo natureza. O homem com a sua ganância não tem nenhum motivo concreto para não estuprar a natureza e tratá-la como

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um “objeto de consumo” reverso. Ele enxerga a natureza como algo sem valor ou direitos.

Como conclusão, pois, podemos dizer que, se as coisas são tratadas como máquinas autônomas num mundo reduzido, elas no final não têm sentido. Mas se isso for verdade, então inevitavelmente eu também homem sou igualmente autônomo e também igualmente sem sentido. Mas se individualmente e na comunidade cristã eu trato as coisas que Deus fez com integridade-e as trato deste modo amorosamente, porque elas são dele, as coisas mudam.

Se eu amo Aquele que Ama, eu amo o que Aquele que Ama fez. Talvez esta seja a razão por que tantos cristãos sentem irrealismo na sua vida cristã. Se eu não amo aquilo que Aquele que Ama fez na área do homem, na área da natureza e se eu não amo realmente o que ele fez [exatamente] por ele haver feito, será que eu amo Aquele que Ama?

É fácil fazer profissões de fé, mas elas podem não valer muito por ter pouco significado. Elas podem se tomar um consentimento mental que significa apenas pouco ou mesmo nada.

Mas eu devo ter claro que não estou amando árvore ou tudo que está de pé na minha presença por uma razão pragmática. Terá um resultado pragmático, os mesmos resultados pragmáticos que os homens envolvidos na ecologia estão procurando. Mas, como um cristão, eu não faço isto pelos resultados práticos ou pragmáticos; eu faço isto porque é apropriado e porque Deus é o Criador. E então, de repente, as coisas se encaixam em seus lugares.

Há coisas na minha presença que eu agora encaro, não como uma vaca encararia o ranúnculo meramente a situação mecânica mas as encarando por meio de escolha. Eu olho para o ranúnculo, e eu o trato do modo que deve ser tratado. O ranúnculo e eu somos ambos criados por Deus; mas, para além isto, eu posso tratá-lo corretamente por meio de escolha pessoal. Eu ajo pessoalmente, e eu sou uma pessoa! Psicologicamente, eu começo a respirar e viver. Psicologicamente, eu estou agora agindo num nível pessoal, não apenas com homens e mulheres, mas também com as coisas na natureza criadas por Deus e que são menos que pessoais em si mesmas, e os velhos problemas começam a se desfazer. Minha humanidade cresce, e os modernos poço e pêndulo já não se fecham sobre mim.

Como resultado, então, há beleza ao invés de deserto. A questão estética também está presente. Ela seguramente é algo que tem importância em si mesma e não deve ser menosprezada. A baleia não precisa de

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razões pragmáticas para ter valor. Desta forma, se. em nossa visão cristã da natureza nós não tivermos feito nada pela natureza além de salvá-la e desfrutar da sua beleza, ainda assim seria de valor e valeria a pena.

Mas não é somente isso, como já vimos. O equilíbrio da natureza estará mais próximo do que deve ser, e haverá um caminho para o homem utilizar a natureza e ainda assim não destruir os recursos de que o homem necessita. Mas nada disto acontecerá se for apenas um recurso publicitário usado para chamar a atenção. Nós

temos que estar no relacionamento correto com Deus do modo que ele proveu, e então, como cristãos, ter e praticar a visão cristã da natureza.

Quando nós tivermos aprendido isto a visão cristã da natureza então poderá haver uma ecologia verdadeira; a beleza fluirá, a liberdade psicológica virá, e o mundo parará de ser transformado em um deserto. Porque é correto, baseado num sistema cristão completo que é forte o bastante para resistir a tudo porque é verdadeiro quando eu encaro o ranúnculo, eu digo: "Criatura companheira, criatura companheira, eu não pisarei em você. Somos ambos criaturas".

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Apêndice A

AS RAÍZES HISTÓRICAS DA NOSSA CRISE ECOLÓGICA

LYNN WHITE, JR.

U ma conversa com Aldous Huxley não sem frequência coloca qualquer um como o receptor de um monólogo inesquecível. Cerca de um ano antes

da sua lamentável morte, ele estava discursando sobre um de seus tópicos favoritos:

o tratamento antinatural do homem em relação à natureza e seus tristes resultados.

Para ilustrar seu ponto de vista ele contou como, durante o verão anterior; retornou a um pequeno vale na Inglaterra onde havia passado muitos meses felizes quando criança. Antes era formado por encantadoras clareiras gramadas; agora estava se tomando coberto de moitas desagradáveis, pois os coelhos que antigamente mantinham tal crescimento sob controle tinham sucumbido em grande escala devido

a uma doença, myxomatosis, que foi introduzida deliberadamente pelos fazendeiros

locais para reduzir a destruição das colheitas pelos coelhos. Sendo um pouco indelicado, eu não poderia manter o silêncio, até mesmo no interesse de grande retórica. Eu o interrompi para mencionar que o próprio coelho tinha sido trazido como um animal doméstico para a Inglaterra em 1176, presumivelmente para melhorar a dieta de proteína dos camponeses.

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Todas as formas de vida modificam seus contextos. O exemplo mais espetacular e benigno é indubitavelmente o pólipo de coral. Servindo seus próprios fins, ele tem criado um vasto mundo submarino favorável para milhares de outros tipos de animais e plantas. Desde o momento que o homem se tornou uma espécie numerosa, ele tem afetado seu próprio meio ambiente notavelmente. A hipótese de

que seu método de caçar utilizando fogo criou os grandes gramados do mundo e ajudou a exterminar os monstros mamíferos do Pleistoceno de muitas partes do globo é plausível; ainda que não provada. Durante seis milênios pelo menos, as margens do baixo Nilo foram mais um artefato humano do que uma selva africana pantanosa a qual a natureza, sem o teria feito. A barragem Aswan, inundando 5.000 milhas quadradas (13.000 km²), é apenas a fase mais recente de um longo processo. Em muitas regiões a terraplenagem ou irrigação, pastoreio demasiado, o derrubamento de florestas por romanos a fim de construir navios para lutar contra os cartagineses ou por cruzados para resolver os problemas logísticos das suas expedições têm mudado profundamente algumas geologias. A observação que a paisagem francesa se classifica em dois tipos básicos, os campos abertos do norte e o bocage do sul e ocidental, inspiraram Marc Bloch a empreender seu estudo clássico de métodos agrícolas medievais. Bastante não intencionalmente, mudanças de modos humanos afetam frequentemente a natureza não-humana. Foi observado, por exemplo, que o advento do automóvel eliminou grandes bandos. de pardais que se alimentavam do estrume de cavalo em cada rua.

A história da mudança ecológica é ainda tão rudimentar que nós sabemos pouco sobre o que realmente aconteceu, ou quais foram os resultados. A extinção do auroque europeu por volta de 1627 poderia parecer ter sido um caso simples de caça demasiado entusiástica. Em assuntos mais intricados é frequentemente impossível encontrar informação sólida. Durante mil anos ou mais os frísios e os holandeses foram empurrados de volta para o Mar do Norte, e o processo está culminando em nossos dias na reivindicação do Zuider Zee. E se, por acaso, algumas espécies de animais, pássaros, peixes, vida litorânea ou plantas desapareceram no processo? Em seu combate épico com Netuno, será que os holandeses negligenciaram valores ecológicos de tal maneira que a qualidade de vida humana nos Países Baixos sofreu? Eu não consigo descobrir se as perguntas alguma vez foram feitas, muito menos se foram respondidas.

As pessoas, então, tem sido frequentemente um elemento dinâmico no próprio ambiente delas, mas, no estado presente de erudição histórica, nós normalmente não sabemos exatamente quando, onde, ou com que efeitos as mudanças induzidas pelo homem vieram. Ao entrarmos no último terço do século 20, contudo, o interesse para o problema do retorno ecológico está aumentando rapidamente. A ciência natural, concebida como o esforço para compreender a natureza das coisas, tinha florescido em várias eras e entre vários povos. Semelhantemente, tinha havido um acúmulo antigo de habilidades tecnológicas, às vezes crescendo rapidamente, às vezes lentamente. Mas não foi até aproximadamente quatro gerações que a Europa Ocidental e a América do Norte organizaram um casamento entre a ciência e a tecnologia, uma união de abordagens teóricas e empíricas do nosso ambiente natural. O aparecimento da difundida prática do credo baconiano de que o conhecimento científico significa poder tecnológico sobre a natureza dificilmente pode ser datado de antes de cerca de 1850, salvo nas indústrias químicas, onde foi antecipado no século 18. Sua

aceitação como um padrão normal de ação pode marcar o maior evento na história humana desde a invenção da agricultura, e talvez na história terrestre não-humana também.

Quase imediatamente a nova situação forçou a cristalização do conceito recente de ecologia; na verdade, a palavra ecologia apareceu pela primeira vez na língua inglesa em 1873, Hoje, menos de um século de- pois, o impacto de nossa raça no meio ambiente aumentou tanto em força que mudou em essência. Quando os primeiros canhões foram acionados, no início dó século 14, eles afetaram a ecologia ao enviar trabalhadores para explorar as florestas e montanhas para mais potássio, enxofre, minério de feno e carvão, com alguma erosão e desmatamento resultantes. Bombas de hidrogênio são de uma ordem diferente: uma guerra feita com elas poderia alterar a genética de toda a vida neste planeta. Por volta de 1285 surgia em Londres um problema de fumaça dá queima de carvão, mas nossa combustão presente de combustíveis fósseis ameaça modificar a química da atmosfera do globo como um todo, com consequências que apenas estamos começando a adivinhar, Com a explosão de população, o câncer do urbanismo sem planejamento, os atuais depósitos geológicos de esgoto e lixo, seguramente nenhuma outra criatura além do homem alguma vez conseguiu emporcalhar tanto seu ninho num tempo tão curto.

Há muitos chamados à ação, mas propostas específicas; por mais merecedoras que sejam como ações individuais, parecem muito parciais, paliativas, negativas: proíba a bomba, arranquem os outdoors, deem aos hindus anticoncepcionais e digam a eles que comam suas vacas sagradas. Naturalmente, a solução mais simples pata qualquer mudança suspeita é

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pará-la, ou, melhor ainda, revertê-la para um passado romantizado: faça esses postos de gasolina feios parecerem como a cabana de Anne Hathaway ou (no velho Oeste) como bares de cidades fantasmas. À mentalidade da "área selvagem" invariavelmente defende o congelamento de uma ecologia, quer San Gimignano ou a High Siena; como era antes que o primeiro lenço de papel fosse jogado ao chão. Mas nem atavismo nem embelezamento enfrentarão em igualdade de condições a crise ecológica do nosso tempo.

O que nós faremos? Ninguém sabe ainda. A menos que pensemos em coisas fundamentais, nossas medidas específicas podem produzir revoltas novas mais sérias que aquelas as quais são projetadas para curar.

Como um começo, nós devemos tentar esclarecer nosso pensamento por meio da observação, em alguma profundidade histórica, das pressuposições que estão por baixo da tecnologia e da ciência moderna. A ciência era tradicionalmente aristocrática, especulativa, o intelectual em intenção; a tecnologia era de categoria inferior, empírica, orientada à ação, A fusão súbita destas duas, em meados do século 19, seguramente é relacionada à um pouco anterior e contemporânea revolução democrática que, reduzindo barreiras sociais, tendeu a afirmar uma

unidade funcional de cérebro e mão. Nossa crise ecológica é o produto de uma emergente e totalmente moderna cultura democrática, A questão é se um mundo democratizado pode sobreviver às suas próprias implicações. Presumivelmente nós não podemos, a menos que repensemos nossos axiomas.

As Tradições Ocidentais de Tecnologia e Ciência

Uma coisa é tão óbvia que parece estúpido verbalizá-la: tanto a tecnologia quanto a ciência moderna são distintamente ocidentais. Nossa tecnologia absorveu elementos do mundo inteiro, notavelmente da China; contudo, em todos lugares hoje quer no Japão quer na Nigéria, a tecnologia próspera é ocidental. Nossa ciência é herdeira de todas às ciências do passado, especialmente talvez do trabalho dos grandes cientistas islâmicos da «Idade Média que tão frequentemente excederam os gregos antigos em habilidade e perspicácia: al-Razi na Medicina, por exemplo; ou ibn-al-Haytham na Óptica; ou Omar Khayyam na Matemática, Deveras, não poucos trabalhos de tais gênios parecem ter desaparecido no árabe original e sobrevivido somente em traduções latinas medievais, que ajudaram a colocar os alicerces para desenvolvimentos ocidentais posteriores. Hoje,

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ao redor do globo, toda ciência significativa é ocidental em estilo e método qualquer que seja a pigmentação ou idioma dos cientistas.

Um segundo par de fatos é menos bem reconhecido, porque eles são o resultado de erudição histórica bem recente. A liderança do Ocidente, tanto em tecnologia como em ciência, é de longe mais antiga que a as- sim chamada Revolução Científica do século 17 ou a assim chamada Revolução Industrial do século 18. Estes termos estão na realidade antiquados e obscurecem a verdadeira natureza do que eles tentam descrever -- etapas significativas em dois desenvolvimentos longos e separados. Por volta de 1000 d.C. no máximo e talvez, debilmente, até 200 anos mais cedo p Ocidente começou a aplicar a força da água a processos industriais além do moer de grãos. Isto foi seguido no final do século 12 pelo trabalho por meio da força do vento. De começos simples, mas com notável consistência de estilo, o Ocidente ampliou rapidamente suas habilidades no desenvolvimento de maquinaria de força, aparelhos poupadores de trabalho e automatização. Aqueles que duvidam deveriam contemplar a mais monumental realização na história da automatização: o relógio mecânico movido por peso que apareceu em duas formas no início do século 14. Não em habilidade, mas em capacidade tecnológica básica, o Ocidente latino da Alta Idade Média ultrapassou suas culturas irmãs elaboradas, sofisticadas, e esteticamente magníficas, de Bizâncio e do Islã. Em 1444 um grande eclesiástico grego, Bessarion, que tinha ido para a Itália, escreveu uma carta a um príncipe na Grécia. Ele estava impressionado com a superioridade de navios, armas, tecidos; vidros ocidentais. Mas acima de tudo ele estava pasmo pelo espetáculo da roda d'água serrando madeiras e bombeando

os foles de fornos. Claramente, ele não havia visto nada parecido no Oriente Próximo.

Ao final do século 15, a superioridade tecnológica da Europa era tal que suas nações pequenas, mutuamente hostis, podiam partir para- cima de todo o resto do mundo, conquistando, pilhando e colonizando. O símbolo desta superioridade tecnológica é o fato de que Portugal, um dos mais fracos estados do Ocidente, pôde se tornar, e permanecer durante um século, soberano da Índia. E temos de nos lembrar que a tecnologia de Vasco da Gama e Albuquerque foi construída por puro empirismo, tirando notavelmente pouco apoio ou inspiração da ciência.

Na compreensão vernácula atual, a ciência moderna supostamente começou em 1543; quando tanto Copérnico quanto Vesalius publicaram as suas obras mais importantes. Não é diminuição das suas realizações, de forma alguma, salientai que estruturas tais como De Fabrica e De Revolutionibus não surgem da noite para o dia. A tradição ocidental

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distinta da ciência, na realidade, iniciou-se no final do século 11 com um volumoso movimento de traduções de obras científicas árabes e gregas para o latim. Alguns livros notáveis Theophrastus, por exemplo escaparam do novo apetite ávido do Ocidente pela ciência, mas, em menos de 200 anos o corpo inteiro da ciência grega e muçulmana estava disponível em latim, e estava sendo avidamente estudado e criticado nas novas universidades europeias. Da crítica surgiram novas observações; especulações e desconfiança crescente de autoridades antigas. Por volta do final do século 13, a Europa tinha tomado a liderança científica global das mãos trêmulas do Islã. Seria tão absurdo negar a profunda originalidade de Newton, Galileu e Copérnico quanto negar aquela dos cientistas escolásticos do século 14 como Buridan ou Oresme sobre cujos trabalhos eles construíram. Antes do século 11, a ciência mal existia no Ocidente latim, até mesmo em tempos romanos. Do século 11 em diante, o setor científico da cultura ocidental cresceu num ritmo constante.

Visto que nossos movimentos tanto tecnológicos quanto científicos conseguiram seu começo, adquiriram seu caráter, e alcançaram domínio mundial na Idade Média, pareceria que nós não podemos compreender a sua natureza ou o seu impacto presente na ecologia sem examinar suposições e desenvolvimentos medievais fundamentais.

A Visão Medieval do Homem e da Natureza

Até recentemente, a agricultura tem sido a ocupação principal mesmo em sociedades "avançadas"; consequentemente, qualquer mudança em métodos de lavoura tem muita importância. Arados antigos, puxados por dois bois, normalmente não viravam o terreno, mas apenas o deixavam riscado. Consequentemente, o lavrar cruzado foi necessário e campos tenderam a ser mais ou menos quadrados. Nas terras bastante leves e Climas semiáridos do Oriente Próximo e do Mediterrâneo, isto funcionou bem. Mas um arado deste tipo era impróprio ao clima úmido e terras

frequentemente baixas do norte da Europa. Por volta do final do século 7 d.C., porém, seguindo começos obscuros, alguns camponeses do norte estavam usando um tipo completamente novo de arado, equipado com uma faca vertical para cortar a linha do sulco, uma lâmina de arado horizontal para fatiar debaixo do gramado, e uma aiveca pata virá-lo. A fricção deste arado com a terra era tão grande que geralmente necessitava não de dois, mas de oito bois. Atingia a terra com tanta

violência que arar a terra de forma cruzada não era necessário, e campos tenderam

a ser amoldados em tiras longas.

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Na época do arado de arranhar, campos eram distribuídos geralmente em unidades capazes de apoiar uma única família. Agricultura de subsistência era a pressuposição. Mas nenhum camponês possuía oito bois para usar o arado novo e mais eficiente, os camponeses agrupavam os seus bois para formar equipes de arado grandes, recebendo originalmente (como poderia parecer) trechos arados em proporção à contribuição deles. Assim, a distribuição de terra não era mais baseada nas necessidades de uma família, mas antes na capacidade de uma máquina motora pata cultivar a terra. A relação do homem para com a terra ficou profundamente modificada. Antigamente o homem fazia parte da natureza; agora ele era o explorador da natureza. Em nenhuma outra parte do mundo os fazendeiros desenvolveram qualquer instrumento agrícola análogo. Será que é coincidência que

a tecnologia moderna, com sua falta de piedade em relação à natureza, tenha sido produzida tão grandemente por descendentes destes camponeses do norte da

Europa?

Esta mesma atitude exploradora aparece ligeiramente antes de 830 d.C. nos calendários ilustrados ocidentais. Em calendários mais antigos, os meses eram mostrados como personificações passivas. Os novos calendários frâncicos, que estabelecem o estilo durante a Idade Média, são bem diferentes: mostram homens coagindo o mundo ao redor deles lavrando, fazendo colheita, cortando árvores, abatendo porcos. O homem e a natureza são duas coisas, e o homem é o senhor.

Estas novidades parecem estar em harmonia com padrões intelectuais maiores. O que as pessoas fazem sobre a ecologia delas depende do, que pensam em relação a coisas ao redor delas. A ecologia humana é profundamente condicionada por meio de convicções sobre a nossa natureza e destino isto é, pela religião. Aos olhos ocidentais isto é bastante evidente, digamos, na Índia ou no Ceilão. É igualmente verdadeiro de nós mesmos e dos nossos antepassados medievais.

A vitória do Cristianismo sobre o paganismo foi a maior revolução psíquica na história de nossa cultura. Tem se tornado moda hoje dizer que, para melhor ou para pior, nós vivemos na "era pós-cristã". Certamente as formas do nosso pensamento e linguagem deixaram em grande medida de ser cristãs, mas a meu ver a substância muitas vezes permanece incrivelmente semelhante àquela do passado. Por exemplo, nossos hábitos diários de agir são dominados por uma fé cega em um

progresso perpétuo que era desconhecido para a antiguidade greco-romana ou para

o Oriente. Está arraigado na, e é indefensável à parte da, teleologia judaico-cristã. O fato de que os comunistas compartilham disto somente ajuda a mostrar o que pode ser demonstrado em muitas outras áreas: que

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o Marxismo, como o Islã, é uma heresia Nós continuamos hoje a viver, como nós vivemos durante aproximadamente 1700 anos, grandemente num contexto de axiomas cristãos.

O que o Cristianismo disse para as pessoas sobre as suas relações com o meio ambiente?

Enquanto muitas das mitologias do mundo proveem histórias de criação, a mitologia greco-romana era singularmente incoerente neste respeito. Como Aristóteles, os intelectuais do antigo Ocidente negaram que o mundo visível tivesse tido um começo. Realmente, a ideia de um começo era impossível na estrutura da noção cíclica deles sobre o tempo. Em contraste agudo, o Cristianismo herdou do Judaísmo não somente um conceito de tempo como não repetitivo e linear, mas também uma história notável de criação. Em etapas graduais, um Deus amável e todo-poderoso havia criado luz e escuridão, os corpos celestes, a terra e todas suas plantas, animais, pássaros e peixes. Finalmente, Deus havia criado Adão e, mais tarde, Eva, para impedir o homem de estar só. O homem deu nome a todos os animais, desta forma estabelecendo seu domínio sobre eles. Deus planejou tudo isto explicitamente para o governo e benefício do homem: nenhum item na criação física tinha qualquer propósito a não ser de servir os propósitos do homem. E, embora o corpo do homem tenha sido feito de barro, ele não faz simplesmente parte da natureza: ele foi feito à imagem de Deus.

Especialmente em sua forma ocidental o Cristianismo é a religião mais antropocêntrica que o mundo já viu. Já no século segundo, tanto Tertuliano quanto São Irineu de Lyon estavam insistindo que, quando Deus formou Adão, ele estava pressagiando a imagem do Cristo encarnado, o Segundo Adão. O homem compartilha, em grande medida, a transcendência de Deus sobre a natureza. O Cristianismo, em contraste absoluto ao paganismo antigo e as religiões da Ásia (exceto, talvez, o Zoroastrismo), não apenas estabeleceu um dualismo do homem e da natureza, mas também insistiu que é a vontade de Deus que o homem explore a natureza para seus próprios fins.

Ao nível das pessoas comuns, isto funcionou de uma maneira interessante:

Na Antiguidade cada árvore, cada fonte, cada ribeiro, cada colina tinha seu próprio genius loci, seu espírito guardião. Estes espíritos eram acessíveis aos homens, mas eram muito distintos dos homens; centauros, faunos e sereias mostram a ambivalência deles, Antes de se cortar uma árvore, minar uma montanha, ou represar um riacho, era importante conciliar o espírito encarregado daquela situação em particular, e mantê-lo

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aplacado. Destruindo o animismo pagão, o Cristianismo tornou possível a

exploração da natureza em uma disposição de indiferença para com os sentimentos

de objetos naturais.

É dito frequentemente que a Igreja substituiu o animismo pelo culto de santos.

Verdadeiro; mas o culto de santos é funcionalmente bastante diferente do animismo.

O santo não está em objetos naturais; ele pode ter santuários especiais, mas a

cidadania dele é no céu. Além disso, um santo é completamente um pode ser abordado em condições humanas. Além dos santos, o Cristianismo naturalmente tinha também anjos e demônios herdados de Judaísmo e talvez, em uma transferência, do Zoroastrismo. Mas estes eram todos tão móveis quanto os próprios santos. Os espíritos em objetos naturais que antigamente mantinham a natureza protegida do homem evaporaram. O monopólio efetivo do homem sobre o espírito neste mundo foi confirmado, e as velhas inibições em relação à exploração da natureza foi esmigalhada.

Quando se fala em termos assim extensos, uma nota de precaução é necessária: O Cristianismo é uma fé complexa, e suas consequências diferem em contextos discrepantes: O que eu disse pode bem se aplicar ao Ocidente medieval, onde de fato a tecnologia fez avanços espetaculares. Mas o Oriente grego, um campo altamente civilizado de devoção cristã semelhante, parece não ter produzido nenhuma inovação tecnológica distinta depois do final do século sétimo, quando o fogo grego foi inventado. À chave para o contraste pode ser encontrada talvez numa diferença na tonalidade de devoção e pensamento que os estudiosos de teologia comparativa encontram entre as Igrejas grega e latina. Os gregos acreditavam que o pecado era cegueira intelectual, e que a salvação era encontrada na iluminação, ortodoxia isso é, no pensamento claro. Por outro lado, os latinos achavam que o pecado era maldade moral, e que a salvação seria encontrada na conduta apropriada. A teologia oriental tem sido intelectualista. A teologia ocidental tem sido voluntarista. O santo grego contempla; os santos ocidentais agem. As implicações do Cristianismo para a conquista da natureza emergiriam mais facilmente na atmosfera ocidental.

O dogma cristão da criação, que é encontrado na primeira cláusula de todos

os Credos, tem outro significado para nossa compreensão da crise ecológica de

hoje. Pela revelação, Deus deu ao homem a Bíblia, o Livro da Escritura, Mas visto

que Deus criou a natureza, a natureza também tem de revelar a mentalidade divina.

O estudo religioso da natureza para uma compreensão melhor de Deus era

conhecido como

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teologia natural. Na Igreja Primitiva, e sempre no Oriente grego, a natureza era concebida principalmente como um sistema simbólico pelo qual Deus fala com os

homens: a formiga é sermão à pessoa preguiçosa; chamas ascendentes são o símbolo da aspiração da alma, Esta visão da natureza era essencialmente artística

ao invés de científica. Enquanto o bizantino preservou e copiou grande número de

textos gregos antigos científicos, a ciência como nós concebemos dificilmente poderia florescer num ambiente deste tipo.

Porém, no Ocidente latino, por volta do Início do século 13, a teologia natural estava seguindo uma curva muito diferente. Estava deixando de ser a decodificação dos símbolos físicos da comunicação de Deus com o homem e estava se tornando o esforço para compreender a mente de Deus por meio da descoberta de como funciona sua criação. O arco-íris não era mais simplesmente um símbolo de esperança enviado primeiro a Noé após o Dilúvio: Robert Grosseteste, o frade Roger Bacon, e Theodoric de Freiberg produziram obras de modo surpreendente sofisticadas na óptica do arco-íris, mas eles fizeram isto como uma aventura na compreensão religiosa. Do século 13 em diante, até (e incluindo) Leibnitz e Newton, todo grande cientista, com efeito, explicou suas motivações em termos religiosos. De fato, Se Galileu não tivesse sido um tão especialista teólogo amador ele não teria tido tantos problemas: os profissionais se ressentiram de sua intrusão. E Newton parece ter se considerado mais como um teólogo que como um cientista. Não foi até o final século 18 que a hipótese de Deus se tomou desnecessária a muitos cientistas.

É muitas vezes difícil para o historiador julgar, quando os homens explicam por que estão fazendo o que eles querem fazer, quer seja oferecendo razões concretas ou meras razões culturalmente aceitáveis. A consistência com que os cientistas durante os longos séculos formativos da ciência ocidental diziam que a tarefa e a recompensa do cientista eram de "pensar os pensamentos de Deus lhe seguindo" conduz à crença de que esta era a motivação verdadeira deles. Nesse caso, então, a Ciência ocidental moderna foi lançada numa matriz de teologia cristã. O dinamismo de devoção religiosa, amoldado pelo dogma de criação judaico-cristão, deu ímpeto a ela.

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Uma Visão Cristã Alternativa

Nós pareceríamos ser conduzidos a conclusões intragáveis a muitos cristãos. Considerando que tanto ciência quanto tecnologia são palavras consagradas em nosso vocabulário contemporâneo, alguns podem estar contentes com as noções, primeiro, que, vista historicamente, a ciência moderna é uma extrapolação da teologia natural e, segundo, que, a tecnologia moderna pode pelo menos em parte ser explicada como uma voluntarista realização ocidental do dogma cristão em relação à transcendência, e domínio legítimo, do homem sobre a natureza. Mas, como agora reconhecemos, há pouco mais de um século a ciência e a tecnologia até aqui atividades bastante separadas se uniram para dar ao homem poder que, julgando muitos dos efeitos, é descontrolado. Nesse caso, o Cristianismo carrega um fardo enorme de culpa.

Eu pessoalmente duvido que à reação ecológica desastrosa possa ser evitada simplesmente aplicando a nossos problemas mais ciência e mais tecnologia. Nossa ciência e tecnologia cresceram por causa das atitudes cristãs concernentes à

relação do homem para com a natureza, as quais são quase mantidas universalmente não apenas pelos cristãos e neocristãos, mas também por aqueles que piamente se referem a si mesmos como pós-cristãos. Apesar de Copérnico, todo o cosmo gira em torno do nosso pequeno globo. Apesar de Darwin, nós não somos, em nossos corações, parte do processo natural. Nós somos superiores à natureza, desdenhosos a ela, prontos para usá-la para nosso mais leve capricho. O governador recentemente eleito da Califórnia, um homem de Igreja como eu, mas menos preocupado, falou pela tradição cristã quando disse (como é alegado) que "quando você vê uma sequoia, você vê todas”. Para um cristão, uma árvore pode ser não mais que um fato físico. Todo o conceito de bosque Sagrado é estranho ao Cristianismo e para as crenças do Ocidente, Por quase dois milênios, missionários cristãos têm derrubado bosques sagrados, que são idólatras porque eles assumem espírito na natureza.

O que nós fazemos sobre ecologia depende de nossas ideias sobre a relação do homem com a natureza. Mais ciência e mais tecnologia não vão nos tirar da crise ecológica atuar até que nós encontremos uma religião nova, ou repensemos nossa antiga. Os beatniks, que são os revolucionários básicos do nosso tempo, demonstram um instinto firme na sua afinidade pelo Zen Budismo, o qual concebe a relação dó homem com a natureza bem aproximadamente como a imagem espelhada da visão cristã. Porém, o Zen está tão profundamente condicionado pela

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história asiática quanto o Cristianismo está pela experiência do Ocidente, e eu sou duvidoso da sua viabilidade entre nós.

Possivelmente nós deveríamos ponderar o maior radical na História cristã desde Cristo: São Francisco de Assis. O milagre principal de São Francisco é o fato de que ele não terminou na estaca, como muitos dos seus seguidores de esquerda fizeram. Ele era tão claramente herético que um general da ordem franciscana, São Boaventura, um grande e perceptivo cristão, tentou suprimir os primeiros relatos do franciscanismo. A chave para uma compreensão de Francisco é a sua convicção na virtude da humildade não somente para o indivíduo, mas para o homem como uma espécie. Francisco tentou depor o homem da sua monarquio acima da criação e estabelecer uma democracia de todas as criaturas de Deus. Com ele, a formiga não é mais simplesmente um sermão para o preguiçoso, e as chamas um sinal da confiança da alma em relação à união com Deus; agora eles são Irmã Formiga e Irmão Fogo, louvando ao Criador em suas próprias maneiras como o Irmão Homem faz na sua.

Comentaristas posteriores disseram que Francisco pregava para os pássaros como uma repreensão para os homens que não escutavam. Os registros não ensinam assim: ele estimulou os pequenos pássaros a elogiarem a Deus, e em êxtase espiritual eles agitaram as suas asas e gorjearam, em regozijo. Lendas de santos, especialmente os santos irlandeses, há muito tempo contavam dos procedimentos deles com animais, mas sempre, eu acredito, para salientar seu

domínio humano sobre as criaturas. Com Francisco é diferente. A terra ao redor de Gubbio nos Apeninos estava sendo saqueada por um lobo feroz, São Francisco, diz

a lenda, conversou com o lobo e o persuadiu do seu caminho errado. O lobo se

arrependeu, morreu na sombra da santidade, e foi enterrado em solo consagrado.

O que Sir Steven Runciman chama de "doutrina franciscana da alma animal"

foi rapidamente erradicada. Bem possivelmente era em parte inspirada, consciente

ou inconscientemente, pela convicção em reencarnação mantida pelos hereges Cátaros que naquele momento abundavam na Itália e na França sulista, e que presumivelmente havia se originado na Índia. E significante que naquele mesmo momento, aproximadamente no ano 1.200, rastros de metempsicose são encontrados também no Judaísmo ocidental, na Cabala provençal. Mas Francisco não se prendeu nem a transmigração de almas nem ao panteísmo. A sua visão da natureza, e do homem baseou-se num tipo sem igual de pan-psiquismo de todas as coisas animadas e inanimadas, projetadas para a glorificação do seu Criador transcendente que, no último gesto de humildade

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cósmica, assumiu a forma de carne, se deitou desamparado em uma manjedoura, e morreu pendurado num madeiro.

Eu não estou sugerindo que muitos americanos contemporâneos que se preocupam com a nossa crise ecológica serão capazes ou aptos a se conciliar com lobos ou a exortar pássaros. Contudo, o atual rompimento crescente do ambiente global é o produto de tecnologia e ciência dinâmicas que se originaram no mundo medieval Ocidental e contra as quais São Francisco estava se rebelando de maneira tão original. O crescimento delas não pode ser entendido historicamente à parte de atitudes distintas para com a natureza, fundamentadas profundamente em dogmas cristãos. O fato de que a maioria das pessoas não pensa nestas atitudes como cristãs é irrelevante. Nenhum novo conjunto de valores básicos foi aceito em nossa sociedade para substituir aqueles do Cristianismo, consequentemente, nós continuaremos a ter uma crise ecológica piorando até que rejeitemos o axioma cristão de que a natureza não tem nenhuma razão para sua existência, salvo servir o homem.

O maior revolucionário espiritual na história ocidental, São Francisco, propôs

o que ele pensou ser uma visão cristã alternativa da natureza e da relação do

homem para com ela: ele tentou substituir a ideia do governo ilimitado do homem em relação à criação pela ideia da igualdade de todas as criaturas, inclusive o homem. Ele falhou. Tanto nossa ciência atual quanto nossa tecnologia presente são tão impregnadas com tal arrogância cristã ortodoxa em relação à natureza que nenhuma solução para nossa crise ecológica pode ser esperada delas apenas. Visto que as raízes da nossa dificuldade são tão largamente religiosas, o remédio também deve ser essencialmente religioso, quer o chamemos assim ou não. Nós temos de repensar e ter uma nova percepção de nossa natureza e destino. O Sentido dos franciscanos primitivos, profundamente religioso, porém herético, para a autonomia

espiritual de todas as partes da natureza pode indicar uma direção. Eu proponho Francisco como um padroeiro para os ecólogos.

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Apêndice B

POR QUE SE PREOCUPAR COM A NATUREZA?

RICHARD L. MEANS

A Ibert Schweitzer uma vez escreveu que "a grande deficiência de todas as éticas até agora tem sido que eles acreditaram que tenham de tratar

apenas com a relação do homem para com o homem". A discussão ética moderna não parece ter se distanciado muito desta falácia. Situation Ethics: The New Morality [Ética de Situação: A Nova Moralidade] de Joseph Fletcher, por exemplo, trata parte por parte das relações do homem para com seus companheiros sem sugerir sequer que a relação do homem para com a natureza o mundo físico e biológico levanta questões de comportamento moral. Talvez esta omissão seja devida ao tom psicológico e subjetivo de muito da crítica social atual. Ou, mais provável até, representa a "revolta contra o formalismo", a abstenção de interpretações abstratas e extensas do homem e da natureza, uma vez a paixão de cientistas sociais americanos.

É verdade que os comentários parecidos com os de Thoreau feitos Por Joseph Wood Krutch ou as interpretações naturalistas agressivas do cientista austríaco Konrad Lorenz encontram uma resposta invejosa entre alguns cientistas sociais. Mas cientistas sociais contemporâneos têm Condições tão completamente separadas da cultura da natureza que necessitará algum esforço intelectual para superar esta dicotomia. Além

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do mais, embora as relações do homem e da natureza possam ser vistas de várias maneiras desde o controle até a obediência passiva a noção de que a relação do homem para com a natureza seja uma relação moral encontra muito poucos defensores articulados, até mesmo entre escrito- res religiosos contemporâneos. O livro de Harvey Cox The Secular City, [A Cidade Secular], por exemplo, se encaixa

em um mundo urbano em extremo isolamento dos problemas ambientais de recursos, comida, doença etc. A cidade é considerada um pré-requisito e as dimensões morais da análise de Cox são limitadas às relações de homem para homem nos limites deste mundo urbano, e não com os animais, as plantas, as árvores e o ar isto é, o habitat natural.

Eric Hoffer, um dos poucos críticos sociais contemporâneos que enfrentaram

o assunto da relação do homem com a natureza, advertiu nestas páginas sobre o

perigo de romantizar a natureza ("A Strategy for the War with Nature" [Uma Estratégia para a Guerra com a Natureza], SR, 5 de fevereiro de 1966). Estivador, lavador de louça, estudante da tragédia humana e expositor das corrupções e perversões do poder, o senhor Hoffer diz que a grande realização do homem é transcender a natureza, separar o ego da pessoa das demandas do instinto. Assim, de acordo com Hoffer, uma característica fundamental do homem deve ser encontrada na sua capacidade em se livrar das restrições do físico e do biológico.

De certo modo, Hoffer está correto. Certamente os efeitos que a inundação, a escassez, o fogo, e o terremoto têm sobre o homem têm sido grandes e dificilmente indicam uma beneficência de uma natureza que está pronta e disposta a se apressar impetuosamente para o socorro do homem. Mas o ataque de Hoffer é basicamente político. E um ataque no "individualismo romântico" a interpretação especial da relação do homem para com a natureza. Hoffer sabe muito bem que o individualismo romântico conduz facilmente a um tipo de egoísmo e anti-racionalismo que podem perverter e destruir instituições democráticas.

É trazido à nossa memória o chamado de Hitler à negligência da razão e para "pensar com o sangue". Valores tradição, terra natal, nacionalismo e raça foram legitimados frequentemente com base em um vago misticismo da natureza. Tal misticismo da natureza é a mesma essência do individualismo romântico (embora, naturalmente, possa haver outros tipos de romanticismo da natureza que não defendam uma atitude egoísta). Talvez o problema esteja no foco sobre o "individual" da forma delineada por Hoffer. Ele assume que a resposta para a natureza expressa em termos de uma fé ingênua nas abundantes propriedades

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de operar milagres da natureza é uma resposta individual. Claro, sempre é, até certo ponto, mas, por não conseguir considerar o lado coletivo ou social da relação do homem para com a natureza, as verdadeiras dimensões morais do problema são obscurecidas.

Pode ser que o homem esteja em guerra com a natureza, mas os homens não estão (ou, pelo menos, não podem estar). A razão é que determinadas atitudes

e ações individuais, quando conduzidas coletivamente, têm consequências para a

natureza, e estas consequências podem ser entendidas bem nitidamente sob as duras realidades da própria sobrevivência social. Observe os problemas do lixo radioativo, contaminação por estrôncio-90 etc. O homem não apenas luta com o mundo natural; ele pode, no ato de cooperar com ele, também moldar e modificá-lo.

Os homens unem-se em uma cadeia de decisões que facilitam o aparecimento de uma relação simbiótica nova para natureza isto é, nós criamos civilização e cultura. Esta suposição crucial atinge as próprias raízes do individualismo romântico. Um homem, totalmente só, agindo perante a natureza e usando-a para satisfazer sua necessidade de calor, conforto e criatividade, é muito difícil imaginar. Até mesmo Robinson Crusoé tinha seu parceiro Sexta-Feira!

Hoffer parece negligenciar a possibilidade de que a cooperação do homem na sujeição da natureza não precisa ser conceituada simples- mente com base na força bruta. Trabalho físico, mecânico e outras formas de trabalho desde a mão-de- obra das massas chinesas até os trabalhos de um sofisticado campanário dependem da intrusão de ideias humanas no mundo natural. Auxiliado por máquinas, guindastes, escavadoras para terraplenagem, fábricas, sistemas de transporte, computadores e laboratórios, o homem de fato força a mão da natureza. Porém, isto não nos força à aceitação de materialismo metafisico, a crença Ingênua que a matéria e a força física são as únicas realidades. O poder de ideias, de valores, provê as pressuposições que em primeiro lugar criam uma teia particular de interação humana entre a natureza e o homem. O poder da ideia contemplativa, a cadeia de motivos especulativos, a arte do matemático, e os sonhos do filósofo também devem ser considerados. Se este ponto de vista for aceito, então a questão da relação do homem para como a natureza é um assunto moral muito mais crucial do que Eric Hoffer parece sugerir.

O que é, então, a crise moral? É, eu acho, um problema pragmático isto é, envolve as verdadeiras consequências sociais de miríades de atos não conexos. A crise vem dos resultados combinados de um mau trato de nosso meio ambiente. Envolve a negligência de um pequeno homem

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de negócios no Rio Kalamazoo, a irresponsabilidade de uma grande corporação no Lago Erie, o uso impaciente de inseticida por um fazendeiro na Califórnia, o desnudamento de terra por operadores de minas em Kentucky. Infelizmente, há uma história extensa de destruição desnecessária e trágica de recursos animais e naturais neste continente.

Pode se iniciar a acusação com o caso clássico do pombo selvagem que uma vez voou pela América em números tremendos, e depois terminar com a destruição na indústria da foca. Porém, o problema é que nós não parecemos aprender muito com estes acontecimentos desagradáveis, pois (para a angústia de homens que vibraram com as imagens criadas por Herman Melville e a grande baleia branca) cientistas marinhos tais como Scott McVay acreditam que a pesca comercial está pondo em perigo a última espécie abundante de baleia no mundo. Para aqueles mais propensos a uma ligação ao dinheiro, lá se vai uma indústria lucrativa. Para aqueles entre nós que têm respeito pela natureza em particular, pelos nossos parentes mamíferos a morte destas grandes criaturas deixará um vácuo na criação de Deus e na imaginação dos homens para gerações vindouras.

Outro caso em foco é a tentativa de represar e inundar quilômetro após quilômetro o Grand Canyon, a fim de produzir mais eletricidade uma comodidade que parecemos ter em grande abundância. O Grand Canyon, claro, não é uma comodidade; é, na verdade, popularmente falando, um "acontecimento". Sem controle pelo homem, criado pela natureza, não pode ser duplicado. Qualquer agressão ao seu estado natural é um ataque igual à capacidade do homem em pensar, contemplar seu meio ambiente e a obra da natureza. Em resumo, tais atividades parecem depreciar e diminuir o próprio homem. Desta forma, as atividades daqueles que sugerem tal destruição assumem uma visão restrita do homem e de sua capacidade para o regozijo na natureza. Neste sentido, tais atividades são imorais. Nós poderíamos alongar a lista, mas deve estar claro que a destruição da natureza pela "ocupação" gratuita e pela arrogância tecnológica do homem é o resultado de uma atividade humana irrefletida e descuidada.

Um segundo assunto básico é a poluição biológica crescente do meio ambiente. Discussões sobre poluição em apenas um rio, o poderoso Hudson, extrapolam a imaginação em termos financeiros. Os custos econômicos somente para manter o rio em seu presente estado indesejável são imensos e fazer qualquer progresso de volta para um rio menos poluído custará bilhões de dólares. O mesmo é verdade para outros grandes corpos de água.

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E considere o estado do ar que nós respiramos. A poluição do ar tem como efeitos demonstráveis doenças no homem, como muitos relatórios confirmam. Mas, além disso, para os que estão economicamente preocupados, A. J. Haagen-Smit, um dos grandes peritos em poluição de ar, observa que um colapso grandemente ignorado em padrões de eficiência e tecnologia também está envolvido:

De todas as emissões de um automóvel, a perda total de energia de combustível é aproximadamente 15 por cento; nos EUA isto representa uma perda anualmente de cerca de $3 bilhões. É notável que a indústria automotiva, que tem uma reputação de eficiência, permita tal desperdício de combustível.

Talvez um assunto se torna muito moral quando é pessoal, existencial e apele para nossa própria experiência. Os cientistas variam em suas estimativas sobre o tempo em que os Grandes Lagos estarão poluídos em grande escala, mas o dia de ajuste de contas pode estar muito próximo. Quando eu era um menino em Toledo, Ohio, verão após verão uma grande parte dos meus vizinhos e colegas iam para as cabanas ao longo das margens de Lago Erie. Hoje, visitar estas cabanas é qualquer coisa menos um acontecimento alegre, e alguns proprietários estão tentando desesperadamente vender suas propriedades a qualquer comprador. Uma análise de Charles F. Powers e Andrew Robertson em "The Aging Great Lakes" [Os Grandes Lagos em Envelhecimento] (Scientific American, novembro de 1966) não é de forma alguma confortante para aqueles de nós que amam os quilômetros de praia arenosa do Lago Michigan ou as costas ásperas, frias, surradas pelo vento do Lago Superior. Embora o Lago Michigan não se transforme imediatamente em um

lugar improdutivo e poluído como o Lago Erie, com manchas escuras de água sem aeração, onde somente vermes podem viver, a poluição está se desenvolvendo no limite sul do Lago Michigan. E estes problemas, como salientam Powers e Robertson, estão começando a atingir até mesmo o Lago Superior, o qual está relativamente conservado.

Por que a relação do homem para com a natureza é uma crise moral? É uma crise moral porque é uma crise histórica envolvendo a História e a cultura do homem, expressa em suas raízes por nossas visões religiosas e éticas da natureza que foram relativamente inquestionadas neste contexto. O historiador de cultura medieval Lynn White Jr. brilhantemente localizou a origem e as consequências desta expressão em um artigo criterioso em Science em março último: "The Historical Roots of Our Ecologic Crisis". Ele argumenta que a noção cristã de um Deus transcendente, afastado da natureza e aparecendo

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nela apenas por intermédio da revelação, afastou o espírito da natureza e permite, no sentido ideológico, uma exploração fácil da natureza.

No cenário americano, os conceitos calvinistas e deístas de Deus eram peculiarmente semelhantes neste ponto. Ambos fantasiavam Deus como absolutamente transcendente, separado do mundo, isolado da natureza e da vida orgânica. Sobre as implicações contemporâneas desta dicotomia entre espirito e natureza, diz o professor White:

O governador recentemente eleito da Califórnia, um homem de Igreja como eu, mas menos preocupado, falou pela tradição cristã quando disse (como é alegado) que "quando você vê uma sequoia, você vê todas". Para um cristão, uma árvore pode ser não mais que um fato físico. Todo o conceito de bosques sagrados é estranho ao Cristianismo e para as crenças do Ocidente. Por quase dois milénios, missionários cristãos têm derrubado bosques sagrados, que são idólatras porque assumem espírito na natureza.

Talvez, como sugere Lynn White, a persistência disto como um problema moral é ilustrado no protesto da geração contemporânea de movimentos hippies. Embora o tipo "cool cats" de indiferença expresso por esta geração irrite os nervos de muitos de nós, e mais que alguns "quadrados" encontram dificuldade em "curtir" os novos modelos de cabelos (sem mencionar Twiggy), pode haver um "instinto são" envolvido no fato de que alguns destes assim chamados movimentos se viraram para o Zen Budismo. Pode representar uma percepção ultrapassada do fato de que nós precisamos apreciar mais intensamente as dimensões religiosas e morais da relação entre a natureza e o espírito humano.

Por que quase todos nossos críticos sociais mais sábios e mais excitantes evitam meticulosamente as implicações morais deste assunto? Talvez, em nome de realismo político, é muito fácil temer a acusação de se estar antropomorfizando ou espiritualizando a natureza. Por outro lado, a recusa em conectar o espírito humano à natureza pode refletir o padrão tradicional de pensamento da sociedade Ocidental,

em que a natureza é concebida como sendo uma substância mecânica separada um material e, num sentido metafisico, irrelevante para o homem.

Parece a mim muito mais frutífero pensar na natureza como parte de um sistema de organização humana como uma variável, uma condição mutável que interage com o homem e a cultura. Se a natureza for concebida desta forma, então um amor, um senso de temor, e um sentimento de empatia com a natureza não precisam degenerar em uma oferta subjetiva e emocional para o individualismo romântico. Pelo contrário, uma visão tal deveria ajudar a destruir políticas egoístas de status, pois ajudaria a desmascarar o fato de que as atividades de outros homens

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não são apenas privadas, inconsequentes e limitadas a eles mesmos; seus atos, por intermédio de mudanças na natureza, afetam minha vida, minhas crianças, e as gerações vindouras. Neste sentido, a justificação de uma arrogância tecnológica em relação à natureza em base de dividendos e lucros não é apenas péssima economia é basicamente um ato imoral. E nossa crise moral contemporânea, então, se aprofunda muito mais que questões de poder político e lei, de revoltas e favelas urbanas. Pode, pelo menos em parte, refletir o descuido quase absoluto da sociedade americana pelo valor da natureza.

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NOTAS

Capítulo l. "O que eles Fizeram a nossa Bela Irmã'?

1. Para um estudo técnico da obra de Wingate, consulte a revista Science, de 1º de Março de 1968, pp.979-981.

2. De "Strange Days" de The Doors, Elektra EKS 74014. Direitos autorais Polydon Records Ltd.

3. Aparece como um Apêndice deste livro.

4. Veja Apêndice, página 79.

Capítulo 2. Panteísmo: O Homem não é mais do que a Grama

1. Aldous Huxley, Island . Nova York: Harper e Row, 1962; Londres: Penguin. pp. 219, 220.

2. Veja "Wilful Waste, Woeful Want", de Max Kirschner, The Listener, 26 de Janeiro de 1967.

Capítulo 3. Outras Respostas Inadequadas

1. Para uma consideração detalhada destes pontos, apenas tocados aqui, consulte os livros O Deus que Intervém e A Morte da Razão.

Apêndices

Os artigos que compõem o Apêndice foram previamente registrados como o seguinte, e são utilizados por permissão especial dos autores e publicadores:

"The Historical Roots of Our Ecological Crisis", de Lynn White, Jr.; Science, Vol. 155, pp. 1203-1207, 10 de Março 1967, Copyright © 1967 pela American Association for the Advancement of Science.

"Why Worry About Nature?" Richard L, Means, Saturday Review, 2 de Dezembro de 1967. Copyright © 1967 Saturday Review, Inc.