Francisco Cândido Xavier

Parnaso de Além-Túmulo
Ditado por Espíritos diversos
À guisa de prefácio
A teoria, tanto quanto a prática espírita, apresenta, aos leigos
e inscientes, aspectos e modismos inéditos, imprevistos, bizarros,
surpreendentes.
Nos domínios da mediunidade, então, o reservatório de surpresas
parece inesgotável e desconcerta, e surpreende até os observadores
mais argutos e avisados.
Se fôssemos minudenciar, escarificar o assunto até às mais
profundas raízes, poderíamos concluir que o comércio de encarnados
e desencarnados, velho quanto o mundo, se indicia mais ou
menos latente ou ostensivo, em todos os atos e feitos da Humanidade.
Inspirações, idéias súbitas ou pervicazes, sonhos, premonições
e atos havidos por espontâneos e propriamente naturais,
radicam muito e mais na influenciação dos Espíritos que nos
cercam – por força e derivativo da mesma lei de afinidade incoercível
no plano físico, quanto no psíquico – do que a muitos poderia
parecer.
E assim como se não desloca nem se precipita, isoladamente,
um átomo no concerto sideral dos mundos infinitos, assim também
não há pensamento, idéia, sentimento, isolados no conceito
consciencial dos seres inteligentes, que atualizam e vivificam o
pensamento divino, em ascese indefinida – semper ascendens...
É o que fazia dizer a Luisa Michel: “um ser que morre, uma
folha que cai, um mundo que desaparece, não são, nas harmonias
eternas, mais que um silêncio necessário a um ritmo que não
conhecemos ainda”.
Mas, não há daí concluir que a criatura humana se reduza à
condição de autômato, sem vontade e sem arbítrio, porque nada à
revelia da Lei se verifica; e no jogo dessa atuação constante, o
ascendente dos desencarnados não vai além das lindes assinadas
pela Providência; não ultrapassa, jamais, a capacidade receptiva
do percipiente, seja para o bem, seja para o mal.
***
Não é, contudo, desse mediunismo sutil, intrínseco, consubstancial
à natureza humana, que importa tratar aqui.
Nem remontaríamos aos filões da História para considerar-lhe
a identidade aos tempos da Índia, do Egito, da Grécia, das Gálias

e de Roma. em trânsito para a Idade Média, na qual os médiuns
eram imolados ao mais estúpido dos fanatismos – o religioso.
Hoje, fogueira e potro foram substituídos pela difamação, pelo
ridículo alvar, pago em boa espécie monetária, ou ainda pelo
cerco caviloso e interditório de quaisquer vantagens sociais.
A luta tornou-se incruenta, mas, nem por isso, menos áspera e
porfiosa.
Assoalha-se que a mediunidade é fonte de mercantilismo: entretanto,
nenhum grande médium, que o saibamos, chegou a acumular
fortuna e rendimentos.
Muitos, ao invés, quais Home, Slade, Eusápia e d’Espérance,
morreram paupérrimos e, o que mais é, tendo a panejar-lhes a
memória o labéu de charlatães.
Mas houvesse de fato esse mercantilismo e nunca se justificaria,
senão por abusivo e espúrio, de vez que a Doutrina o não
autoriza, sequer por hipótese.
Porque, na verdade, assim se escreve a História e o maior dos
médiuns, o Médium de Deus, só escapou ao estigma da posteridade
pela porta escusa do concílio de Nicéia, numa divinização
acomodatícia e rendosa ao formigamento parasitário e onímodo
dos Constantinos, que, ainda hoje, lhe exploram os feitos e o
nome augusto, com bulas políticas de vulpina retórica, factícios
pruridos de grosseira mistificação, em bonsolatrias de cimento
armado.
Entretanto, como a confirmar a tradição “os Santos Apóstolos
foram, em sua maioria, humildes pescadores” – e não só a tradição
como a sentença de que os últimos seriam os primeiros –, não
vêm hoje os vexilários da Verdade trazê-la aos magnatas da Terra,
aos príncipes dos sacerdotes, escribas e fariseus hodiernos, disputantes
à compita da magnífica carapuça e eles talhada e ajustada.
de vinte séculos, no capitulo 23º de Mateus.
Ao contrário, esses esculcas do Além parece preferirem os
operários modestos, modestos e rústicos, rústicos e bons, como
tão sutilmente os define o Eça em magistral mensagem:
“Tipos originais, mãos calosas que se entregam aos rudes trabalhos
braçais, a fazerem a literatura do além-túmulo; homens a
que Tartufo chama bruxos e Esculápio qualifica de basbaques,
mistificadores, ou simples casos patológicos a estudar...”
É verdade tudo isso; mas, convenhamos, também o é para
maior glória de Deus.
Não ignoramos que homens de alta cultura e renome científico
têm versado o assunto, investigado, perquirido e proclamado a
verdade, acima e além das conveniências e preconceitos políticos,
científicos, religiosos. Nomeá-los aqui, seria fastidioso quanto
inútil.
O vulgo que não lê, ou que lê pela cartilha do Sr. vigário nos
conselhos privados da família beata, não deitaria os seráficos

olhares a estas páginas e seguiria, clamoroso ou contente, de
qualquer forma inconsciente, – infinitus stultorum numerus – a
derrota do seu calvário, no melhor dos mundos, à Pangloss.
O outro, o vulgo que lê e compreende, mas para o qual o magister
dixit é a melhor fórmula de concessão e acomodação consigo
mesmo, estômago e vísceras em função, sofra a quem sofrer,
doa a quem doer – esse, bazofiando ciência em gestos largos de
animalidade superior, se estas linhas chegasse a ler, haveria de
esboçar aquele sorriso fino e bom que Bonnemére não sabia definir
se seria de Voltaire, ou do mais refinado dos idiotas...
***
Adiante, pois, na tarefa nada espartana de apresentar esta
prova opima das esmolas de luz que nos chegam em revoada de
graças, a encher-nos o coração de alvissareiras esperanças.
Quem quiser certezas maiores, explanações técnicas e eruditas
do fenômeno em apreço, que as procure no livro “Do País da
Luz”, obra similar, editada há uma vintena de anos. psicografada
pelo médium português Fernando de Lacerda, e que fez, nas rodas
profanas de Lisboa, o mais ruidoso sucesso.
Nessa obra, o ilustre Dr. Sousa Couto, em magistral prefácio,
esgotou o assunto ao encará-lo sob todos os prismas de uma severa
crítica, para concluir pela transcendência do fenômeno, rebelde
a todos os métodos de classificação científica e, sem embargo,
realíssimo em sua especificidade.
Pois, a nosso ver, maior é o mérito, por mais opulenta a polpa
mediúnica, desta obra.
É que lá em “Do Pais da Luz”, avulta a prosa, com raras exceções;
ao passo que aqui desborda o verso, mais original, mais
difícil, mais precioso como índice de autenticidade autoral.
Lá, as mensagens características são exclusivas de escritores
lusos, únicas que podem, a rigor, identificar pelo estilo os seus
autores.
As de Napoleão 1º, Teresa de Jesus, etc., são incontestavelmente
belas no fundo e na forma, mas não características de tais
entidades.
Aqui, pelo contrário, não só concorrem poetas brasileiros e
portugueses, como retinem cristalinas e contrastantes as mais
variadas formas literárias, como a facilitarem de conjunto a identificação
de cada um.
Romantismo, Condoreirismo, Parnasianismo, Simbolismo, aí
se ostentam em louçanias de sons e de cores, para afirmar não
mais subjetiva, mas objetivamente, a sobrevivência dos seus
intérpretes.
É ler Casimiro e reviver Primaveras; é recitar Castro Alves e
sentir Espumas Flutuantes; é declamar Junqueiro e lembrar a

Morte de Dom João; é frasear Augusto dos Anjos e evocar Eu.
Senão, vejamos:
Oh! que clarão dentro d’alma.
Constantemente cismando.
O pensamento sonhando
E o coração a cantar,
Na delicada harmonia
Que nascia da beleza,
Do verde da Natureza,
Do verde do lindo mar!
É Casimiro...
Há mistérios peregrinos
No mistério dos destinos
Que nos mandam renascer;
Da luz do Criador nascemos.
Múltiplas vidas vivemos,
Para à mesma luz volver.
É Castro Alves...
Pairava na amplidão estranho resplendor.
A Natureza inteira em lúcida poesia
Repousava, feliz, nas preces da harmonia!...
Era o festim do amor,
No firmamento em luz,
Que celebrava
A grandeza de uma alma que voltava
Ao redil de Jesus.
É Junqueiro...
Descansa, agora vibrião das ruínas.
Esquece o verme, as carnes, os estrumes.
Retempera-te em meio dos perfumes
Cantando à luz das amplidões divinas.
É Augusto dos Anjos.
E todos, todos os mais, aí estão vivos, ardentes, inconfundíveis
na modulação de suas liras encantadas e decantadas.
E na prosa – exceto a Fernando de Lacerda, cujo estilo não
temos elementos para identificar – o mesmo traço de originalidade
personalíssima se impõe.
Duvidamos que o mais solerte plumitivo, o mais intelectual
dos nossos literatos consiga imitar, sequer, ainda que premeditadamente,
esta produção.
E isto o dizemos porque o médium Xavier, um quase adolescente,
sem lastro, portanto, de grande cultura e treino poético,
recebe-a de jacto, e mais – quando de alguns autores não conhece
uma estrofe!
É extraordinário, será maravilhoso, mas é a verdade nua e
crua; verdade que, qual a Luz, não pode ficar debaixo do alqueire.
Foi por assim pensarmos que conseguimos vencer a relutância

nascido ali assim em Pedro Leopoldo. ao demais. esta obra mediúnica. tanto quanto retrata as impressões psicofísicas que lhe causa o fenômeno. . o pai infenso a literatices e. pequeno rincão do Estado de Minas. Não há ideação prévia. Do seu mecanismo intrínseco e extrínseco. Ao lhe formularmos um questionário que nos habilitasse a pôr de plano estes detalhes essenciais – de vez que. endossar um fenômeno cuja ascendência sobejamente conhecemos para não refusar. em linguagem eloqüente. é bem de ver-se que não teve. a Pátria e a Humanidade? Nada disso. mas da ferramenta por eles utilizada. cujo flagrante não presenciamos – ele. certa vez. e aos confrades. no exíguo tempo de 13 minutos marcados a relógio. *** Mas. enquanto conosco discreteava em idioma diverso da mensagem escrita. porque simples como a própria alma cedo esfolhada de sonhos e ilusões. em particular. Filho de pais pobres. certo estamos. de contrapeso. também em tese. tanto quanto do seu manuseio. porém. É um fato. para não pretender colimar renomes literários. que não podia ter o estímulo ambiente. em tese. um rotulado desses que por ai vão felicitando a Família.do médium em sua natural modéstia para lançar ao público. veio “candidamente” ao nosso encontro com “Palavras Minhas”. em geral. nada nos disse o médium. diz-nos este que também as produções são recebidas de jacto. Nós mesmo vimos. um bacharel formado. por outro lado. nas quais estereotipa a sua figura moral. o médium. que. não pôde ir além do curso primário dessa pedagogia incipiente e rotineira. e não querendo. na história a tracejar do Espiritismo em nossa pátria. um acadêmico. O médium polígrafo Xavier é um rapaz de 21 anos. fixação de imagens. em obra deste quilate o que se impõe não é a apresentação dos operários. perguntarão: – quem é Francisco Cândido Xavier? Será um rapaz culto. muito além das quatro operações e da leitura corrida. com borrifos de catecismo católico. nem dez cireneus que o conduzissem por tortuosos e torturantes labirintos de acesso aos altanados paços do Olimpo para o idílico convívio de Caliope e Polímnia. Órfão de mãe aos 5 anos. nem um. mas. que faz do mestre-escola. o médium Mirabelli cobrir dezoito laudas de papel almaço. Agora. pramido pelo ganha-pão. ficará como baliza fulgurante. não há encadeamento de raciocínios. em São Paulo. um galopim eleitoral e não vai. nem uma problemática hereditariedade. Tudo isso é o próprio médium quem no-lo diz. um quase adolescente.

fica-lhes a liberdade de conjeturar. na volúpia de escandir quand même. nos perdoem a vacuidade e a insulsice destas linhas e que os leitores de boa vontade as desprezem como inúteis. racional e logicamente devem existir. vale sempre por mil e uma teorias. RJ. em suma. de um trabalho de identificação autoral. para melhor explicar. como definir e transfixar a captação. encarregado de apresentar esta obra. Marquês de Valença. faisqueiros de nugas e nicas. e de modo a satisfazer aos familiares da Doutrina. e de entidades hoje mais lúcidas e respeitáveis do que porventura o foram aqui na Terra. ou taliscas. . Quintão MANUEL Justiniano de Freitas QUINTÃO. de autores também ignorados e jamais lidos! Como explicar. amiúde.. na radiofonia. M. também sabe que não pensou e não seria capaz de escrever. na Estação de Quirino. doutrinas. figuras de retórica. Catões e Zoilos de compasso e metro. não só por nos falecer autoridade e competência. há fatos e recursos de hermenêutica. como por julgar que tal ousio seria uma profanação. no Rio de Janeiro. e um fato. e desencarnado em 16 de dezembro de 1954. Foi guarda-livros. e isso ele o faz a seguir. torrencial! Do que escreve e sabe que está escrevendo. devem ser atribuídas ou irrogadas ao possivelmente precário aparelhamento de transmissão. diremos que. não nos dispusemos a escoimá-la de possíveis defeitos de técnica. Há vocábulos de étimo que desconhece. ou a fatores outros. por vindos de tão alto. teorias científicas. Que os arautos da Boa Nova aqui escalonados. esse trabalho melhor corresponde à sua finalidade altíssima. por mais insólito que seja. na pauta evangélica que diz: – A árvore se conhece pelo fruto. e o que a legítima ética doutrinária aponta é que quaisquer lacunas. concepções filosóficas das quais nunca ouviu falar. que mal podemos imaginar e que. Aos outros. nascido em 28 de maio de 1874. *** Como nota final aos argos da crítica. que ignora. a realização essencial do fenômeno? Só o médium poderia fazê-lo. que participa do meio físico contingente.É tudo inesperado. explosivo. de maneira impressionante. que nada explicam. antes complicam.. ocorrem na telepatia. Tal como no-lo deram. enfim. no entanto. precipuamente. porque o fato aí está na plenitude de sua realidade. em tudo. aos cépticos. sem contudo negar. mais sutis e delicados do que esses que. Trata-se. para só apreçarem a obra que ora lhes apresentamos.

Como membro do Grupo Ismael. porque a dor . Chefe de família numerosíssima. tenho experimentado toda a classe de aborrecimentos na vida e não venho ao campo da publicidade para fazer um nome. sempre no exercício do seu mediunato. Inglês e Francês. afável e operosa. estudioso incansável. Ingressou na FEB em 1903. como jovem sem recursos financeiros. Palavras minhas Nasci em Pedro Leopoldo. Em 1939. diversos deles publicados em Esperanto. Filho de um lar muito pobre. Minas. 1918. escreveu notas autobiográficas endereçadas ao Reformador. Foi jornalista. inclusive a Presidência nos anos 1915. desencarnados em 1960 e 1915. invejável cultura humanística.) Francisco Cândido Xavier NASCEU em Pedro Leopoldo. Os romances psicografados (entre eles “Paulo e Estêvão”. como autodidata. Criatura simples. estão estampadas na edição de janeiro de 1955. para serem public adas após a sua desencarnação.depois de lutar com imensas dificuldades. jamais se beneficiou dos direitos autorais da sua vasta produção mediúnica. Médium de atividade ininterrupta há quase meio século. Aposentou-se como funcionário público federal. este último editado pela FEB. publicou. em julho de 1932. em janeiro de 1959. (Nota do Editor. Castelhano. MG. Japonês. em 1910. e creio mesmo que todos os que me conhecem podem dar testemunho da minha vida repleta de árduas dificuldades e mesmo de sofrimentos. onde residiu até dezembro de 1958. Filho de João Cândido Xavier e de Maria João de Deus. órfão de mãe aos cinco anos. através da Casa-Máter do Espiritismo – a Federação Espírita Brasileira –. o “Parnaso de Além-Túmulo”. 1919 e 1929. MG. Médium curador e espírita militante durante mais de meio século. conseguiu. muito apreciados. goza ele ainda de sincera admiração em outros países.. Seguiram-se-lhe mais de 110 livros mediúnicos. Viajou para o exterior algumas vezes. integrando-lhe o quadro social por 44 anos. respectivamente. primeiro livro de suas faculdades mediúnicas e já em 9ª edição. onde é popularíssimo. dentre eles “Cinzas do meu Cinzeiro” (coletânea de trabalhos publicados no “Reformador”) e “O Cristo de Deus”. foi sempre dos mais assíduos e proficientes no estudo do Evangelho de Jesus. que acima de tudo ama a verdade. em 2 de abril de 1910. “Há Dois Mil Anos. nas posições mais modestas do comércio. Respeitado e estimado em todo o Brasil.. Transferiu-se para Uberaba. exerceu cargos na Diretoria da Federação Espírita Brasileira ao longo de vários decênios. Traduziu diversos livros espíritas e publicou alguns de sua autoria. julgo que os meus atos perante a sociedade da minha terra são expressões do pensamento de uma alma sincera e leal. E até aqui.” e “Renúncia”) são periodicamente radiofonizados e televisionados.

neste ponto. ambiente de pobreza. devo esclarecer que minha família era católica e eu não podia escapar aos sentimentos dos meus. para mim. essa situação modificou-se em 1923. mas meu pai era completamente avesso à minha vocação para as letras e muitas vezes tive o desprazer de ver os meus livros e revistas queimados. sempre estudei o que pude. O meu ambiente. de penosos deveres. Assim têm-se passado os dias sem que eu tenha podido. porém. cheguei quase a adoecer com um regime tão rigoroso. num grupo escolar. freqüentando-a mesmo com amor. quando contava oito anos. sobrecarregado de trabalhos para angariar o pão cotidiano. Os meus familiares não estimulavam. Vários dias consecutivos foram. pioras de amargos padecimentos morais. Fui pois criado com as teorias da igreja. Prosseguindo nas minhas explicações. estudar como? Matriculando-me. em maio do ano referido. das quinze horas às duas da manhã. como verdadeiramente não podem. por diferençar muito pouco essas questões. Nunca pude aprender senão alguns rudimentos de aritmética. aprazem-me todas as leituras e mesmo nunca pude estudar estilos dos outros. Começarei por dizer-lhe que sempre tive o mais pronunciado pendor para a literatura. É verdade que. até hoje. os meus desejos de estudar. onde o serviço dura das sete às vinte horas. de desconforto. prolongando-se esta minha situação até os dias da atualidade. pois. onde se não pode pensar em letras. Mas. pude chegar até ao fim do curso primário. Até 1927. E. constantemente. com uma vida de múltiplos trabalhos e obrigações e nunca se me ofereceu ocasião de conviver com os intelectuais da minha terra. sequer. mas. eis que uma das minhas irmãs. todos nós não admitíamos outras verdades além das proclamadas pelo Catolicismo. sempre a braços. é apenas com o intuito de elucidar o leitor. a melhor boa vontade animou-me para o estudo. quando então consegui um emprego no comércio. Jamais tive autores prediletos. quando ia às aulas de catecismo era para mim um prazer. como eu. mas onde o trabalho é menos rude. quanto à sua formação. Também o meio em que tenho vivido foi sempre árido. história e vernáculo. se decidi escrever estas modestas palavras no limiar deste livro.há muito já me convenceu da inutilidade das bagatelas que são ainda tão estimadas neste mundo. Foi quando decidimos . foi acometida de terrível obsessão. em casa. a medicina foi impotente para conceder-lhe uma pequenina melhora. foi sempre alheio à literatura. para nossa casa. estudando apenas uma pequena parte do dia e trabalhando numa fábrica de tecidos. desde os tempos de criança. realizar as minhas esperanças. com um salário diminuto. como o são as lições das escolas primárias.

com ingentes sacrifícios. pois o nosso confrade José Hermínio Perácio. para nosso benefício. desenvolveram-se em mim. e foi nessas reuniões que me desenvolvi como médium escrevente. quando na Terra. onde então. que a minha mãe. tanto à sua família. integrada no conhecimento da luz que deveria daí por diante nortear os nossos passos na vida. Verdadeiro discípulo do Evangelho. Sobre esses fatos e essas provas irrefutáveis solidificamos a nossa fé. por intermédio da esposa do nosso amigo. que regressara ao Além em 1915. porém. conta com mais desenvolvimento a clariaudiência. sentindo-me muito feliz por se me apresentar essa oportunidade de progredir. deliberou fixar residência junto a nós e as nossas reuniões tiveram resultados melhores. entre as suas mediunidades. controladas pela sua senhora.solicitar o auxílio de um distinto amigo. que caridosamente se prontificou a ajudarnos com a sua boa vontade e o seu esforço. espírita convicto. as suas faculdades mediúnicas. que essa senhora desconhecia. ofereceu-nos até a sua residência. os ensinamentos sublimes da formosa doutrina dos mensageiros divinos. entrando em pormenores da nossa vida íntima. sob os seus caridosos cuidados e da sua excelentíssima esposa Dona Carmen Pena Perácio.) Daí a pouco. simultaneamente. a vidência. minha irmã hauria. poderia ela estudar as bases da doutrina espírita. assim. alma nobilíssima. em companhia de sua esposa. com a graça de Deus. foi nesse ambiente onde imperavam os sentimentos cristãos de dois corações profundamente generosos. reunir um núcleo de crentes para estudo e difusão da doutrina. semimecânico. como acontece na opinião de grande maioria de almas da nossa época. Aí. deixando-nos mergulhados em imorredoura saudade. começou a ditar-nos os seus conselhos salutares. baseada nas páginas esplendorosas do Evangelho de Jesus. a moral profunda que era ensinada. quase sempre inclinadas para as futilidades mundanas. . médium dotada de raras faculdades. bem distante da nossa. a audição e outras faculdades mediúnicas. José Hermínio Perácio. a nossa alegria aumentava. num ambiente totalmente modificado. parece que pesava muito. (Nota do médium para a 4ª edição. Nossas reuniões contavam.2 2 Só nos últimos dias de 1931. orientando-se quanto aos seus deveres. em 1944. então. Em breve minha irmã regressava ao nosso lar cheia de saúde e feliz. que se tornou inabalável. o Sr. datando daí o ingresso do meu humilde nome nos jornais espíritas. de maneira clara e mais intensamente. ornada das mais superiores qualidades morais e que. Até a grafia era absolutamente igual à que a nossa genitora usava. grande número de assistentes. desenvolvendo. Resolvemos. e. como o são os daqueles confrades a que me referi. para onde comecei a escrever sob a inspiração dos bondosos mentores espirituais que nos assistiam.

Continuei recebendo as idéias dos mesmos amigos de sempre. A sensação que sempre senti. assinadas por nomes respeitáveis. acontecendo o mesmo com o cérebro. Julgo do meu dever declarar que nunca evoquei quem quer que fosse. psicografandoas. e que eram continuamente fragmentos de prosa sobre os Evangelhos. onde eu as lia e copiava. por momentos. na fenomenologia . ao recebermos uma destas páginas. ao escrevê-las. Doutras vezes. contudo. sem que se produzisse escrito algum. não posso dizer que são minhas. julgando minha obrigação. o nome de qualquer dos comunicantes. sem que eu ou meus companheiros de trabalhos as provocássemos e jamais se pronunciou. ao psicografálas. é que. melhor o resultado obtido. Muitas vezes. que. é o que experimento. e.decorridos dois anos. porque jamais nutri a pretensão de entrar em contacto com essas entidades elevadas. quanto ao fenômeno que se produz freqüentemente comigo. esse estado atingia o auge. as menores impressões físicas. não sentindo. para sabermos os respectivos sinônimos das palavras nela empregadas. e o interessante é que pareciame haver ficado sem o corpo. em particular. Serão das personalidades que as assinam? – é o que não posso afiançar. experimentando sempre no braço. Não desanimamos. essas produções chegaram-me sempre espontaneamente. Somente duas vezes recebi comunicações em versos simples. que se me afigurava invadido por incalculável número de vibrações indefiníveis. Certas vezes. por conhecer as minhas imperfeições. Grande parte delas foram escritas fora das reuniões e tenho tido ocasião de observar que. apesar de todo o meu bom desejo. categoricamente. era a de que vigorosa mão impulsioFrancisco nava a minha. nas reuniões. apesar de muito a contragosto de minha parte. em nossas preces. jamais obtive outra coisa. Passavam-se às vezes mais de dez dias. era necessário recorrermos a dicionários. Em agosto. porque não despendi nenhum esforço intelectual ao grafá-las no papel. chegando ao número de quatro ou cinco pessoas. doutras. frisar aqui também. porém. parecia-me ter em frente um volume imaterial. e dia houve em que se receberam mais de três produções literárias de uma só vez. a sensação de fluidos elétricos que o envolvessem. que alguém mas ditava aos ouvidos. comecei a receber a série de poesias que aqui vão publicadas. constituindo para nós uma fonte de consolações isolarmo-nos das coisas terrenas em nosso recanto de prece. do corrente ano. O que posso afirmar. fisicamente. em consciência. porque tanto eu como os meus companheiros as desconhecíamos em nossa ignorância. quanto menor o número de assistentes. prosseguindo em nossas reuniões. para a comunhão com os nossos desvelados amigos do Além. os assistentes de nossas sessões de estudos escassearam. o que perdura até hoje.

Francisco Cândido Xavier Nas sessões espíritas. pertencem igualmente à fenomenologia espírita. a verdade como de fato ela é? Creio que não. confunde os habitantes dos dois mundos e muitas vezes pergunta ao amigo que esteja passeando com ele “Estás vendo ali um homem de barbas brancas. (Nota da Editora) De pé. alguém que encontre consolação nestas páginas humildes. transmitindo-me as advertências e opiniões dos nossos caros mentores espirituais e. entre mil dos primeiros. e dou-me por compensado do meu trabalho. Quintão. o mundo constituiria um conjunto . dezembro de 1931. o Autor não se lembrou de que as suas relações constantes com Espíritos desencarnados. Um desses que haja. M. que aparecerá brevemente em nova edição. noutros. que através da sua maravilhosa clariaudiência me auxiliou muitíssimo. o carinhoso interesse do distinto confrade Sr. Ao escrever estas palavras. A todos eles. os seus salutares ensinamentos. que tem sido de uma boa vontade admirável para comigo. Há de haver. com os meus agradecimentos intraduzíveis aos boníssimos mentores do Além. tenho de destoar da opinião que já expendi nas contingências da carne. Os vivos do Além e os vivos da Terra não podem enxergar as coisas através de prismas idênticos. segundo a potencialidade dos raios X: as cidades estariam povoadas de esqueletos. os meus saudares. os campos se apresentariam como desertos.4 A tarefa é difícil. Nas minhas atuais condições de vida. E aqui termino. ainda. Pedro Leopoldo. desde a infância. que generosamente se dignaram não reparar as minhas incontáveis imperfeições. mas todas as pessoas de sua intimidade sabem que ele. que inspiraram esta obra. Imagine se o aparelho visual do homem fosse acomodado.espírita. não poupando esforços para que este despretensioso volume viesse à luz da publicidade. mantidas desde os 5 anos de idade. porém. rizinhos ridiculizadores. Pensou em fenomenologia somente como prática consciente da mediunidade Devo salientar o precioso concurso da bondosa médium Sra. os mortos! Pede-me você uma palavra para o intróito do “Parnaso de AlémTúmulo”. etc. Cármen P. Também isso são fenômenos espíritas. Terei feito compreender. a quem me lê. por intermédio de instrumento tão mesquinho. diante de um habitante do nosso mundo ou de habitante do mundo espiritual. Perácio. a não ser esses escritos. Em alguns despertarei sentimentos de piedade e.?” Pela resposta do companheiro é que ele fica sabendo se está. transmitindo. todavia.

Na atualidade. gritando como alucinados? Os habitantes dos reinos da Morte ainda apreciam o decoro e a decência. Hão de estranhar que os mortos prossigam com as mesmas tendências. tangendo os mesmos assuntos que aí constituíam a série de suas preocupações. Individualmente. – De pé. no domínio do conhecimento e da sensação. Junqueiro com a sua ironia. escrevera no Diário Carioca. é indubitável que possuímos no Além o reflexo das nossas virtudes ou das nossas misérias. aguardando a sua palavra. como se os nossos amargores. Existem até os que reclamam contra a nossa liberdade. em julho de 1932. quando encarnado. Desejariam que estivéssemos algemados nos tormentos do inferno. concitou-os a auxiliar as manobras militares. afigura-se-nos que os brados de todos os sofredores e infelizes da Terra se concentram numa súplica grandiosa que invade as vastidões como o grito do valoroso almirante. Cármen Cinira aí está com os seus sonhos desfeitos. Casimiro com a sua sensibilidade infantil. de mulher e de menina. Os mortos falam e a Humanidade está ansiosa. dirigiu-se aos mortos em termos comovedores. 4 Refere-se à 2ª edição. o grande Togo reuniu os seus soldados no cemitério de Oogama.de aspectos inverossímeis e inesperados. Antero com a sua rima austera e dolorosa. Cada esfera da vida está subordinada a certo determinismo. e o nosso presente é sempre a experiência do passado e a esperança no futuro. .) Mas é razoável que apareçamos no mundo. e na tristeza majestosa do ambiente. Conta-se que na guerra russo-japonesa. Todos aí estão dentro das suas características. publicada em 1935. Os institutos da Civilização têm sido impotentes para resolver o problema do nosso ser e dos nossos destinos. (Nota da Editora. os que receberem novamente o “Parnaso de AlémTúmulo” dirão mais ou menos o que eu disse5. terminada a batalha de Tsushima. – exclama-se – porque os vivos da Terra se perdem nos abismos tenebrosos. daí não bastassem para nos inclinar à verdade compassiva. “Parnaso de Além-Túmulo” sairá de novo. em recompensa dos nossos desequilíbrios no mundo. como a mensagem harmoniosa dos poetas que amaram e sofreram. ao surgir a 1ª edição do Parnaso.. levantando o ânimo dos companheiros que haviam ficado nas pelejas. Uma claridade nova cantou as energias espirituais do valente adversário da pátria de Stoessel e os filhos de Yoritomo venceram. em nome da nacionalidade. os mortos!. (Nota da Editora) 5 Alude às crônicas que ele.. a visitar os cruzadores de guerra. Decerto.

4ª ed. mas esses mantos estão rotos!. sob a orientação do Anjo Ismael. Nas torturas de um novo cativeiro. das faculdades mediúnicas de Francisco Cândido Xavier para a transmissão de importantes mensagens. Coração do Mundo. Humberto de Campos (Espírito) HUMBERTO DE CAMPOS Veras. Temos frio. sendo 9 sob o pseudônimo de Irmão X. Tendes convosco o Excelso Companheiro. no turbilhão da sombra imensa. . A Ciência. temos fome. como Espírito. Foi jornalista e deputado federal. membro da Academia Brasileira de Letras. páginas 60 a 64. Temos Jesus Desaba o Velho Mundo em treva densa E a guerra. em 1886. zelosa de suas conquistas. editados pela FEB. como lobo carniceiro. como a que se inseriu nesta página. MA. Espírito dinâmico. em 1934. e a Humanidade sofredora sente-se no caminho consolador da sublime esperança. visando à cristianização da Humanidade. deixou alguns livros inéditos. Ditou-nos 12 livros. já em 9ª edição. escritor brasileiro. Produção literária variada quão vultosa. FEB). dois anos depois passou ele a valer-se.. entre o assombro e a esperança.. mas os filhos do infortúnio sentem-se envolvidos na onda divina de um novo Glória in excelsis.As filosofias e as religiões estenderam sobre nós o manto carinhoso das suas concepções. manifestando-se a respeito dela pelo “Diário Carioca”. posto que fisicamente inválido. nascido em Minas Gerais a 30 de dezembro de 1877 e falecido a 16 de agosto de 1934. Mas vós. dos quais dois já editados pela Federação. Vale destacar “Brasil. poeta e professor. Liberto dos liames da carne. (Nota da Editora) 1-Abel Gomes ESCRITOR. o Legado do Governador Espiritual do Planeta em Terras de Santa Cruz. acoplada ao mesmo “Parnaso” que ele conhecera aqui na Terra e oriunda do mesmo “Além-Túmulo” por ele tenuemente vislumbrado. com os artigos intitulados “Poetas do outro mundo” e “Como cantam os mortos” (apud “A Psicografia ante os Tribunais”. Ameaça a verdade e humilha a crença. além de copiosa obra esparsa. nascido em Miritiba (hoje Humberto de Campos). de Miguel Timponi. e desencarnado no Rio de Janeiro. Pátria do Evangelho”. ainda não ouviu a sua vibração misteriosa. que é a de levar as luzes do Evangelho do Cristo a todos os quadrantes do Mundo. conheceu em vida física a 1ª edição do Parnaso de Além-Túmulo. o livro confirmador da missão espiritual do Brasil. temos sede! E os considerados mortos falam ao mundo na sua linguagem de estranha purificação. edições de 10 e 12 de julho de 1932.

colaborou ativamente na imprensa e deixou opulenta obra esparsa. Que traz à Terra um tênue reverbero Da mansão das estrelas erradias. Num dilúvio de lírios e de rosas. Funcionário público. G. Que abriu meus olhos na imortalidade. Ante o novo caminho ilimitado. Encontrei o país abençoado Onde vive a celeste recompensa. desenganos. É doce descansar após a lida. Onde pairam as formas vaporosas Do país ignorado da Beleza. desvarios. Rememorando as dores que passaram.. em prosa e em verso.. Trabalhemos na dor ou na alegria.Que ama o trabalho e esquece a recompensa No serviço do bem ao mundo inteiro. Adeus mágoas da noite estranha e densa. E dos quadros risonhos do meu porto.. Quintão Viajor vacilante e extenuado. Não conservo senão o Amor e a Crença. Banhar o coração na luz da vida. A morte abriu-me as catedrais radiosas. Morte Silenciosa madona da tristeza. 2-A. Filhos da luz de uma outra Natureza. Que entornavam no espaço a sutileza Dos incensos das naves harmoniosas! Monja de olhar piedoso. Na conquista de luz da Vida Eterna.. À esperança de todos os meus dias! 3-Albérico Lobo NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro em 1865 e desencarnado em fevereiro de 1942. Irmã da paz e da serenidade. Rogo a Jesus conceda reconforto Aos corações amados que ficaram! . Mas vós tendes Jesus em cada dia. Depois de atravessar a sombra imensa. Eis que a Terra tem crimes e tiranos. Do meu porto Ao caro amigo M. calmo e austero. Ambições. Asperezas dos homens da caverna. Das angústias e sonhos do passado.

Não troques mal por mal. nascido em Palmital de Saquarema. Onde clame a revolta e onde exista a amargura. em 1937. sobre a estrada sombria. Guarda o anseio do bem que é lume peregrino. soluça. Somente o que venceu nesse mundo mesquinho. que é náufrago sem porto. Sente o extremo pavor que a morte lhe revela. em 1859. Na eterna lei de amor que consagra a criatura. Do último dia O homem. abatido em seu horto. Como a luz imortal do amor que nunca morre. Do mundo é a escuridão. Do pobre coração. No pavor de esperar a angústia que vem perto!. parnasiano de escol. Farmacêutico.. como raios de aurora. Nessa grande amargura. Não te aflija a miséria. mundo afora. dedicou-se principalmente ao Magistério. No pungente estertor do peito quase morto. e falecido em Niterói. que sepulta a quimera. no último dia. Entre as vascas da morte. Tudo o que era vaidade. hoje e amanhã. agora é desconforto. Planta a bênção da paz. Ajuda e passa Estende a mão fraterna ao que ri e ao que chora: O palácio e a choupana. em rumo escuro e incerto. o peito exangue e aberto. O homem vive a tatear na treva em que se cria! Em torno. Irradia o perdão e atende.. o ninho e a sepultura. arrima-te à esperança.. tudo é vão.. Desespera. foge à sombra e à vingança. na dor da alma perjura.. Nas trevas do ladrão. Esclarece a alegria e consola a desgraça. Desgraçado viajor rebelado ao seu guia. Tudo o que vibra espera a luz que resplendora. Seja a bênção de amor a luz do teu destino. a alma pobre. . Toda a nau da ilusão se destroça e esfacela Sob as ondas fatais da indômita procela.. Sente o Mestre do Amor que lhe mostra nos ombros A grandeza da cruz que ilumina e socorre. neste mundo. compreende. anseia e balbucia A suprema oração da dor do seu deserto. entre escombros. Seu coração é um mar que se apruma e encapela. E no escuro bulcão só Jesus persevera. foi tido como Príncipe dos Poetas de sua geração.4-Alberto de Oliveira FLUMINENSE. Agora. ajuda e passa. Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Jesus Quanta vez.

Além da prisão de osso. Estado do Rio. aposentandose como Agente de 1ª classe. é clara a messe Da sementeira de asnice. se eu pudesse Dizer tudo o que não disse. Lasneau amigo. Não me olvide em sua prece. Detendo por balda nossa Descrença. É feio talhão de roça. É minúscula palhoça. esta choça.. Espere sem alvoroço. no município de Piraí. Poeta e jornalista. É natural que padeça A minha pobre cabeça Perante a Luz. passe. Onde a carne. Carta ligeira Meu Lasneau. Não é ofício. Depois de estudar Engenharia até ao 4º ano do curso. guerra e cachaça. A Terra. Perdi tempo em maluquice E o tempo me desconhece. não é bilhete. colaborou em várias revistas e jornais. passa. 5-Alfredo Nora ALFREDO José dos Santos Nora nasceu em 18 de novembro de 1881. Mas é triste a fé sem viço Que o sepulcro impõe à pressa. e desencarnou em 13 de novembro de 1948. Que a coisa melhore e.. Agora é que entendo isso. ante o sol da Graça. Foge dessa tormenta antes que seja tarde: Só Jesus tem nas mãos o farol do Universo. . face a face. Rompe a treva do abismo enganoso e perverso! Onde vais. A vida real começa. Oh! meu caro. Desejo que a luta cesse. Cheia de lama e fumaça. nem ata.. Sem a velha esquisitice Que inda agora me entontece! Entretanto.. tornou-se funcionário da Central do Brasil. homem vão? Cala em ti todo alarde.Conservando Jesus por verdade e caminho. breve. É o coração que desata Meus pesares num lembrete.

.. Porque a Morte é a primavera Luminosa. amortalhadas. em volutas de flores e de incenso. como inda faz a alma cativa! . das Novenas.. velhas cenas. eterna e imensa. Nas lutas de vossa esfera.. Ó crentes de uma outra vida! . Eu ressurjo nos místicos prazeres. dos Terços. Septenário das Dores. E seguindo outros seres solitários. Vozes de sinos pelos santuários.. De vos cantar.. Nasceu aos 24 de julho de 1870 e desencarnou em 15 de julho de 1921. Aos crentes Ó crentes de uma outra vida. Dos Ofícios... Tangei harpas de esperança.. Nos caminhos enevoados.. notabilizouse principalmente pela tonalidade mística do seu astro. Escada de Jacob. Que andais no mundo exilados. Kiriale. Achou. natural de Ouro Preto. Redivivo Sou o cantor das místicas baladas Que. Magistrado. Atravessai o nevoeiro denso Em que viveis no mundo. eu vos pertenço. Filhos da paz e da crença Tangei harpas de esperança!. qual se afirma em suas obras: Dona Mística. Sobre quem a saudade despetala Os seus lírios de pálidos fulgores.6-Alphonsus de Guimarãens AFONSO Henrique da Costa Guimarães.. Chorar. jornalista e poeta. Rezando as orações dos Septenários. no Espaço luminoso e imenso.. Retomo velhos quadros. Enchendo as grandes vastidões serenas. Almas que andais gemendo nas estradas Da amargura e da dor. Lendo o missal da amargura! Esperai a sepultura. A morte que nos salva não nos priva De ir ao pé de um sacrário abandonado. etc. poeta mineiro. na sombra onde se exala Um perfume de altar e misereres. Almas tristes de freiras e sórores. Sinos Escuto ainda a voz dos campanários Entre aromas de rosas e açucenas. O perfume das hóstias consagradas.

guardas o vinagre dos desenganos. Nos altares simbólicos da Igreja! Eis. No entanto. 7-Alma Eros O cálice A chuva benéfica e abundante cai dos céus Mitigando a sede da terra. Oh! Virgem da Pureza e dos Martírios! Imagens de turíbulos e rosas Aromatizam todos os empíreos.. O irmão . Na estrada longa do destino. porém... E dia virá. o mundo inteiro vos festeja. até agora. Na expectativa de entregar-te os tesouros eternos. Em magnificência ampla e radiosa. Seu coração freme de júbilo. Mas as ânforas do teu coração vivem transbordando de substâncias estranhas. o Amado espera.Ó sinos dolorosos e plangentes. É porque teus olhos estavam nevoados na atmosfera do sonho. Mas. Cantai. O Amado é incapaz de violentar a tua alma.. Seu carinho aguarda a confiança espontânea.. que vos vejo nos caminhos. choras e desesperas.. Senhora. em ondas luminosas. Em que estenderás ao seu amor infinito O cálice do coração lavado e vazio.. como cantáveis no passado. Persegues a fantasia e alimentas curiosamente a ilusão. Há na Terra canções maravilhosas Entre as luzes e as lágrimas dos círios. Buscando-vos nas Luzes Harmoniosas. o Amado faz chover sobre os homens Os poderes e as bênçãos. Um turbilhão de vozes e de lírios. Aqui. Por que não recolheste a tempo a tua parte? – Nada vi – responderás.. Distribuindo os dons celestiais.. Onde a vossa virtude carinhosa Consola e ampara os fracos pobrezinhos. Dizendo a mesma Fé que salva os crentes! Santa Virgo Vírginum Sobe da Terra. O Senhor passa todos os dias. Todavia. Assim também. o envenenado licor dos caprichos. Acolá..

Sobre as obscuridades do irmão que sobe dificilmente a montanha? Quando atravessava a floresta O pobrezinho julgou que o Amado lhe falava à mente pela voz do trovão E lhe erigiu altares Enfeitados de flechas. um poema heróico-burlesco – “A Festa de Baldo”. E estende as mãos fraternas Àquele que ainda não pode ver o que já vês. Por vezes. O Amado. Desfaze a teia da filáucia humana. Buscou-o no fundo dos abismos. Acreditou que o Senhor pertencia somente ao seu grupo E que as outras comunidades humanas eram condenadas. Dando ao mundo o que possui de melhor. onde era encarregado dos negócios do Governo Imperial do Brasil.. Se já atingiste Algum topo de colina. Ama-o. Que a Morte. Não observas em seu caminho áspero a tua própria história? Não atormentes com palavras amargas o irmão que se eleva Laboriosamente. . em livro. porém.. em breve. jamais o deserdou por isso. sofreu.Por que ajuízas com ironia. De tempos a tempos. Deu-lhe novas forças. Lutou. Como pai carinhoso. Ao influxo do bendito esquecimento. Quando penetrou noutros círculos.. Concedeu-lhe oportunidades diferentes. Em busca da criancinha abandonada. na Bélgica. Contempla as culminâncias que te aguardam Entre as nuvens.. Fê-lo dormir no regaço. feriu-se em dolorosas experiências. Depois. faze-lhe o bem que possas. Publicou. humilha e desengana A demência da carne que delira. 8-Álvaro Teixeira de Macedo ÁLVARO Teixeira de Macedo nasceu no Recife em 13 de janeiro de 1807 e desencarnou em 7 de dezembro de 1849. Depois da festa Não te entregues na Terra à vil mentira. Para que o sol do trabalho lhe sorrisse outra vez.

10-Amaral Ornellas FUNCIONÁRIO público. Toda vaidade ao báratro se atira. A alma transpõe o túmulo chorando. consagrados pela crítica coeva. Mensageira da ternura. Nasceu no Rio de Janeiro em 20 de outubro de 1885 e desencarnou a 5 de janeiro de 1923. soberana. Também tive a minhalma outrora perturbada. Mas a morte sanou-me a última ferida Desfazendo as lições utópicas do Nada. deixou dois volumes de Poesia. É por vós que conhecemos A eterna revelação Da vida em seus dons supremos. Venho testemunhar a luz de onde regresso. 9-Amadeu (?) O mistério da morte O mistério da morte é o mistério da vida. Talento brilhante. de alma consumida. Que abandona a matéria exânime e cansada. Qual folha solta ao furacão violento. Incitando vossa alma aos planos invisíveis. Ave Maria Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime. Bendita sois vós. Finda a festa de baldo riso infando. Rainha! . O Senhor sempre é convosco. Ao turbilhão de cinza e esquecimento. De dúvida. Desce gemendo. A morte é simplesmente o lúcido processo Desassimilador das formas acessíveis A luz do vosso olhar. Providência dos que choram Nas sombras da desventura. Sob a ilusão mendaz chameja a pira Da verdade. além de copiosa literatura teatral e doutrinária. celeste. empobrecido e incerto.O gozo desfalece à própria gana. Onde vive e se expande o Espírito liberto. Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! Cheia de graça e bondade. incerteza e angústias consumida. Que traz a treva em si e abre a porta dourada De um mundo que entre nós é a luz desconhecida. E quem da luz não fez templo e guarida.

. Lírio puro da humildade! Entre as mulheres sois vós A Mãe das mães desvalidas. Purifica-te e cresce. A desvendar-se no capricho insano? Ciência que se elevou à estratosfera E devassou os fundos do oceano. Nele o bem cedo atinge a colheita da glória E o mal desce ao paul de lama. em 1842. espera e crê. Ciência ínfima Onde o grande caminho soberano Da Ciência que abriu a nova era. Oh! Divina Soberana... nos braços do Tempo. ascenderás cantando Aos Píncaros da Luz. Nossa porta de esperança. Às dores. É vulto eminente e destacado nas letras portuguesas. E Anjo de nossas vidas! Bendito o fruto imortal Da vossa missão de luz. Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime. Toda amargura é sombra enfermiça e ilusória. Investigando a entranha da monera. Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! O Tempo O tempo é o campo eterno em que a vida enxameia Sabedoria e amor na estrada meritória. em 1891. Fomentando o princípio desumano .. Trabalha. Esquece a mágoa hostil que te oprime e alanceia.. nos Açores. Dor e luta na Terra – a Celeste Oficina – São portas aurorais para a Mansão Divina. além da Cruz. e desencarnado por suicídio. “como” e “quando”.. Rosa mística da fé.Estrela da Humanidade. caracterizando-se pelo seu espírito filosófico. amando por vencê-las. Assim seja para sempre. E. Refúgio dos que padecem Nas dores da luta humana. Desde a paz da Manjedoura. Serve sem perguntar por “onde”. no País das Estrelas! 11-Antero de Quental NASCIDO na ilha de São Miguel. O serviço é vitória E cada coração recolhe o que semeia. cinza e areia.

Nos crepes do Silêncio amortalhada. Esperança dos pobres desvalidos!. Eis que a Terra te acusa. eu te adorei. arma de efeito. amarga e inconsolável. Que espargis alegria e claridade Sobre o mundo de trevas e gemidos. Numa senda mais triste e mais sombria. Busquei-te. como se foras O Fim da sinuosa e negra estrada. E escancaraste a porta escura e fria. Batendo alucinado à tua porta. À morte Ó Morte. Depois da morte 11-1 Apenas dor no mundo inteiro eu via. Que sois toda Bondade e Complacência. Sede a nossa divina providência E a nossa proteção de cada hora. Oh! Anjo Tutelar da Humanidade. Visão de tristes faces cismadoras. Num caminho infeliz. .. soluçando. sombrio e inverso. Vosso amor. No labirinto amargo da existência. Eras tu a visão idolatrada Que sorria na dor das minhas horas. Se vislumbrava o riso da alegria Fora dessa amargura inalterável Esse prazer só era decifrável Sob a ilusão da eterna fantasia. Escorraçada no padecimento. luta e chora... Rainha do Céu Excelsa e sereníssima Senhora. formidando.. Longe da Luz. Que espalhais os eflúvios da Clemência Em caminhos liriais feitos de aurora!. Como a Grande Mendiga do Universo!.Da ambição onde a força prolifera. Amparai o que anseia. É a luz dos tristes e dos desterrados. da Paz e do Direito.. Que num véu de tristeza impenetrável Multiplicava as dores que eu sofria. Sob o alarme guerreiro. que enche os céus ilimitados.. E tanto a vi. Por onde penetrei no Sofrimento. Ciência de ostentação.. eu que trazia a alma já morta.. Onde habitasse a eterna paz do Nada As agonias desconsoladoras.

encontrar as luzes puras Da verdade brilhante.Ao meu olhar de triste e de descrente. Não o via e. Nas vastidões da terra úmida e fria. Olhar de pensador amargurado. Nesse anelo cruciante e intraduzível. Que a morte era um enigma solúvel. de quem descria. Mas a insídia do orgulho e da descrença Guiava-me a existência desolada. Ela era o laço eterno e indissolúvel. que se eleva. Podia ver. no entanto. e sem que visse Meu próprio bem na dor que ia sofrendo. na Terra. eu cria Achar na morte a escuridão do Nada.Parnaso de Além-Túmulo 46 Que era na dor. Morri. Sobre o problema trágico. Recamada de dor profunda e intensa. . Soneto Quisera crer. que existisse Esta vida que agora estou vivendo. todavia. ao sepulcro fui descendo. 11-3 Depois de extravagâncias de teoria. reconhecendo. Andei cego. porém. gemendo. visão consoladora. Pela voz da vaidade. No seio dessa ciência tão volúvel. sentindo o Incognoscível E a sua onisciência criadora. Que liga o Céu à Terra tão sombria! E por estas regiões onde eu julgava Habitar a inconsciência e a mesma treva Que tanta vez os olhos me cegava. ela somente. Sem que a Paz almejada conseguisse. De ver o Deus de Amor. De amargoso penar que se me abrisse. O gozo era a mentira dum momento. Os prazeres. Francisco Cândido Xavier . Iluminando todas as alturas. Desvairado. Trazia em mim o anseio irresistível De conhecer o Deus indefinível. insolúvel. em toda hora. E nunca encontraria abismo horrendo. o engano imaginado Para aumentar a mágoa e o sofrimento. Só existia a dor. então. 11-2 Misantropo da ciência enganadora. Vim.

O espaço e o tempo. Onde se agitam turbilhões de esferas. de mim diante. criou obra tamanha. Nesse abismo de treva a bênção pura. É o contra-senso Da luz unida à lama que a tortura. corvo horrendo. Era de ouvir-lhe o grito gemebundo. o Impenetrável. A medonha figura de gigante Do Remorso. Sentindo o horror que nasce dessa vida.. O Remorso Quando fugi da dor. aquece e banha? Quem. encapelado e imenso. senão Deus. Sente o assédio do mal. quando penso No mar humano. gemendo?” Ele riu-se e clamou para meus ais: “Companheiro na dor. cansado e moribundo: – “Que fazes ao meu lado. Nunca mais te abandono! Nunca mais!” Soneto Mais se me afunda a chaga da amargura Quando reflexiono. Poderia criar o imensurável . suplicante.. fugindo ao mundo. somente o Eterno. como se fora Apossar-me do eterno esquecimento.. eu te acompanho. a excelsa luz. Onde se perde a luz em noite escura. Escutando o soluço cavernoso Da pobre Humanidade escravizada. Mais se me aumenta a chaga dolorida.Da morte a Paz busquei. Do espírito de amor ao mal imenso. Acordando-me em lágrimas. Sua voz cavernosa e soluçante!. Dizendo-lhe. E em vez de imperturbáveis quietitudes. Divisei aos meus pés. No coração do mar e da montanha! Deus!.. de olhar grave e profundo. Recrudescendo as minhas dores rudes.. senão ele fez a esfinge estranha No segredo inviolável das moneras. Cheio do pranto da alma encarcerada! Deus Quem. No coração dos homens e das feras. Encontrei os Remorsos e o Tormento. Aproximei-me dele. Ao viver da minhalma sofredora. Se enlouqueci no meu degredo estranho. as amplidões e as eras. Que a luz.. Que se vive no abismo tenebroso.

. Que perfuma e crucia o vosso peito. não possui.. Mas. Mas que chega no mundo muito tarde. Chega um dia em que o Espírito descansa Das aflições. angústias e cansaços. Não choreis Não choreis os que vão em liberdade Buscar no Espaço o luminoso leito Da paz. E que habita na eterna claridade Das torrentes da Luz e da Harmonia! Consolai Se eu pudesse. Em santa e esperançosa claridade. transformai-o em gozo alto e perfeito. Quando entre conjeturas me perdi. diria eternamente. Que as grandes luzes místicas revela.. a mágoa mais pungente. os gemidos. Aos flagelados e desiludidos. E estraçalhei-me como alguém que sela Com o supremo infortúnio a dor intensa. O pranto é a flor de aromas da saudade. A dor mais rude. ó vós que estais na Terra. Oh! se eu pudesse. Que a luz espiritual da dor encerra A ventura imortal dos outros mundos! Crença Minha vida de dor e de procela Que se extinguiu na tempestade imensa. Despedaçou-se à falta dessa crença. Crença! Luminosíssima riqueza Que enche a vida de paz e de beleza.. distante do caminho estreito Desse mundo de dor e de orfandade.E o Universo infinito criaria!. De tão pequena dor fazendo alarde. Entre as almas são louros repartidos Muito longe da Terra impenitente. na Crença e na Esperança. Ah! Crer! bem que. na Terra. Dos aguilhões das dores absolutas: Feliz de quem. . Dentro da vida sem compreendê-la. dizei-lhes. Desvairado de angústia e de descrença. intérmina piedade. iria em altos brados Libertar corações escravizados Sob o guante de enigmas profundos! Mas. os prantos. Que sobre a Terra os grandes bens perdidos São a posse da luz resplandecente. Os soluços. Suprema paz.

Sob os grilhões de rude sofrimento! Orai por eles. A paz livre de trevas e pavores. sob os arrancos. somente. esperai a Providência Com os sentimentos puros. diamantinos. em minhas dores. Buscando a paz depois das grandes lutas. rijos e francos. Na escuridão espessa e indefinida! Não sonhei com teus deuses venturosos. Céu! quanta vez minhalma entristecida Anteviu tua paz. Antegozei. Com teus grandes olimpos majestosos. Aguardai a abundância da outra messe De venturas. Miseráveis Espíritos que choram. que é da alma rediviva. Lendo os artigos ríspidos da Lei! Os filhos da Piedade e da Paciência Encontrarão nos páramos divinos A paz e as luzes que eu não alcancei.. Que está nas sendas lúcidas da Prece. Se a amargura das lágrimas se aviva. Como um vergel azul de lírios brancos. em toda a vida. Almas sofredoras Passam na Terra como as ventanias. Do imperturbável nada que não tens! . Misericordiosa e compassiva.. Ao palmilhar estradas escabrosas. Confiando.Procura a luz sublime dos espaços. Sob os golpes da dor. Cheios de vida e de infinitos bens. Onde mora a ventura. Essas compactas legiões sombrias. e em cujos flancos Repousa a grande mágoa adormecida. bons trabalhadores Que estais colhendo sobre a Terra as flores De um doce e temporário esquecimento. Turbas de almas escravas de agonias. Mão divina A luz da mão divina sempre desce. Entre as noites mais lúgubres e frias! Oh! visões de martírios que apavoram. Se o tormento da vida recrudesce. Com que andei entre queixas dolorosas. Supremo engano Vê-se da Terra o Céu. Sobre as dores da pobre alma cativa. Ou como agigantadas nebulosas Provindas de cavernas misteriosas.

enfim. Cheia. de cólera violenta. Coroado de folhas de loureiro. Foi crer demais na angústia e na doença Da alma que luta e sofre.Incognoscível Para o Infinito.. às dores derradeiras Que as tormentas de lágrimas desatam!. orbe da lágrima e do erro.. vaidade e orgulho. Porque em tudo. Nunca. Nos labirintos da Filosofia.. Cavaleiro e corcel. angustiada. chora e pensa.. Que entre anseios e angústias conheci! Mas. Tudo fala de Deus nesse desterro Da Terra. sem norte?” E impeliu. além. E no meio de todas as canseiras Cheguei. Mas a Verdade. Cavalga o tempo e corre ao teu roteiro De soberana glória indefinida!. e. Veio a Vaidade e disse: – “A toda brida! Dominarás. que traz a alma lacerada Nos pelourinhos negros de uma estrada De provação. O meu erro. a crença se realiza. no mundo. sem detença e sem barulho. Onde a grande certeza principia. Pelos seres terrenos inventada. Gritou-lhe.. brasonado cavaleiro.. no mundo inteiro. 12-Antônio Nobre . Deus não representa A personalidade humanizada. A Morte é a própria Vida ativa e intensa. sem Deus. às vezes. de angústia e de tormenta. quanto o vão mortal inda se engana. Quem vai de alma gemente e consumida. Que em sua triste condição humana Fez a essência de Deus igual a si! Fatalidade Crê-se na Morte o Nada. Fim de toda a amargura da descrença.. no mundo da Agonia. Deus não castiga o ser e nem o isenta Da dor. Estranho concerto Clamou o Orgulho ao homem: – “Goza a vida! E fere. Aos tenebrosos pântanos da Morte. sobre a humana furna.. em voz soturna: – “Insensato! aonde vais. na Terra. todavia. o homem divisa A figura das dúvidas que matam.

quem ri hoje. Vós que amais a luz da Lua. Nas grandes mansões da morte Inda há romance e noivados. Voltam sim... Nem sempre poderá rir. E por que não? Os corpos daí nos soltam. De vossa alma abri as portas Para. As almas das raparigas Inda sonham nos choupais. muito estimado – Só – e Despedidas. Quem riu ontem.. Porém. Quadras de um poeta morto Coração. que importa lá? Porque os amores fiéis. em 18 de março de 1900. Às vezes acham-se fojos .. não é assim. Nem pó e nem solidão. Nem a morte os vencerá. Pensei que a morte era o fim Das ânsias do coração. Riquezas. Um dia o riso lhe foge. edição de 1902.NASCEU na cidade do Porto e faleceu na Foz do Douro aos 33 anos de idade. Deixou um livro inconfundível e. os fantasmas da rua.. Corações despedaçados. Venturas da boa sorte. Ó figuras de velhinhos Que andais dormitando ao léu! Como são belos os Linhos Que vos esperam no Céu! Dizem que os mortos não voltam. Nem gritos e nem cantigas Entre vós que à noite andais... que valem elas Se estão na sombra ou sem luz? Tesouro são as estrelas Da bondade de Jesus. ainda hoje.. Contudo. Que choram nas horas mortas. não vos canseis De bater. Distinguiu-se pela suavidade e melancolia do seu estro. Pode-se amar o veludo De uns olhos e os brilhos seus. acima de tudo Devemos amar a Deus. Sem que o veja escapulir. Como às aves o alçapão.

Onde há música e festins,
E há muitos cardos e tojos
Entre as flores dos jardins.
Se eu pudesse, estenderia
Minhas capas de luar,
Sobre os filhos da agonia
Que andam no mundo a penar.
A morte só pode ser
A vida risonha e pura,
Para quem a padecer
Vive aí na sepultura.
Mal vais, se vais caminhando
Na ambição de ouro e glória;
Nesse mundo miserando
Toda ventura é ilusória.
Chorai! chorai orfãozinhos,
Vossas dores amargosas:
Achareis noutros caminhos
As vossas mães extremosas.
Deixa cantar, ó menina,
Teu coração sonhador...
No sepulcro não termina
O novelário do amor.
Um anjo cheio de encanto
Vive sempre com quem chora,
Guardando as gotas de pranto
Numa urna cor da aurora.
No Universo há céus profundos,
Cheios de vida e esplendor,
Um céu é um ninho de mundos,
Um mundo é um ninho de amor.
A caridade é a beleza
De um divino plenilúnio,
Luz que se estende à pobreza,
Na escuridão do infortúnio.
Aos mendigos desprezados
Não ridicularizeis,
São senhores despojados
Dos seus tesouros de reis.
Aqui, a alma inda espera
O alguém que na Terra amou,
O raio de primavera
Que aí jamais encontrou.
Há quem faça aí mil contas,
Que os interesses resuma,
Mas morrem cabeças tontas,
Sem fazer conta nenhuma.

Tecei sonhos, fiandeiras,
Oh! almas enamoradas,
Vivei aí nas clareiras
De luzes alcandoradas.
Ah! que sinto aqui saudades
Das noites de São João,
Sonho, estrelas, claridades,
Cantigas do coração.
Na minha vida de agora
Não canto as festas louçãs,
Naquelas toadas de outrora
As moçoilas coimbrãs.
Acompanha-me a tristeza
Das saudades, por meu mal;
Minha terra portuguesa! ...
Meu querido Portugal! ...
Do Além
Pudesse o nosso olhar, vagueando os ermos,
Ver através da própria soledade
A expressão luminosa da Verdade,
E da luz da Verdade não descrermos...
Preocupar-se aí, porém, quem há de
Com o problema de sermos ou não sermos,
Pois que o ardente desejo de o sabermos
É sempre o anelo falso da vaidade?
Peregrinos da dor, na dor andamos
Sem que a nossa miséria se desfaça
No escabroso caminho onde marchamos,
Seguindo a alma nos sonhos iludida,
Até que a dor unindo-se à desgraça
Descerre os véus que encobrem outra vida.
Soneto
“Quando cobrir-se o chão de folhas mortas
– Meu coração dizia em grave entono –
Extinguindo-se a vida que comportas,
Dormirás no meu seio o último sono...
E murmurava a alma – “Findo o Outono,
A Primavera vem por outras portas;
Não existe no túmulo o abandono,
Ou a dor amarga e rude em que te cortas.”
Escutava essas vozes comovido,
Morto de angústia, morto de incerteza,
Aguardando o sol-posto, entristecido;
E além da amarga vida de segundos,
Ressurgi da tortura e da tristeza,
Sob os ares sadios de outros mundos!
Ao mundo

A Terra é o vasto abismo onde a alma chora,
O vale de amarguras do Salmista,
Lodoso chavascal onde se avista
A podridão dos vermes que apavora.
Mas, para os grandes bens, para que exista
A perfeição da luz deslumbradora,
Precisamos da carne que aprimora
Com o camartelo mágico do artista.
Terra, tranqüilamente eu te abençôo...
Porque da tua dor alcei meu vôo
Para a mansão das luzes opulentas;
Teu rigor nos redime e nos eleva;
Mas és ainda o cárcere da treva,
Triste mundo de chagas pustulentas!
À Mocidade
Cantai! cantai, ó mocidade! Moira
Encantada que ri nos prados verdes,
Cantai o amor que é luz que se entesoira,
Vibrai na luz da vida em que viverdes.
Glorificai, ditosa, o sol que doira
O riso que espalhais sem compreenderdes,
Expandi-vos na primavera loira,
Nos poemas de luar que conceberdes!
Ide cantando, mocidade ardente,
Alvorada em abril, do sol-nascente,
Clareando o porvir almo e risonho;
Marchai sorrindo, doce juventude,
Na exaltação do amor e da saúde,
Ébria de aroma e luz, ébria de sonho!...
13-Antônio Torres
NASCEU em Diamantina (Minas Gerais) em 1885, falecendo,
em 1934, na cidade de Hamburgo, como cônsul adjunto do
Brasil. Ordenou-se sacerdote, abandonando mais tarde a profissão
eclesiástica. Poeta e escritor.
Esquife do sonho
Tive um sonho de amor e de inocência,
Cheio de luz das coisas invulgares,
Do qual perdi a luminosa essência
Na cristalização dos meus pesares.
Tarde reconheci minha falência,
Terminados os múltiplos azares,
De minha quase inútil existência,
No silêncio das cinzas tumulares.
E da morte, no abismo indefinido,
Tombei exausto, amargurado e cego,
– Abismo tenebroso que eu transponho.

Infeliz do meu ser irredimido,
Pois triste e atordoado inda carrego
O negro esquife do meu próprio sonho.
Nada...
Nada! ... Filosofia rude e amara,
Na qual acreditei, com pena embora
De abandonar a crença que esposara,
– A minha aspiração de cada hora.
Crença é o perfume d'alma que se enflora
Com a luz divina, resplendente e rara
Da Fé, única Luz da única Aurora,
Que as trevas mais compactas aclara.
Revendo os dias tristes do passado,
Vi que troquei a Fé pela ironia,
Nos desvios e excessos da razão;
Antes, porém, não fosse tão ousado,
Pois nem sempre a razão profunda e fria
Alivia ou consola o coração.
14-Artur Azevedo
NASCIDO em São Luis, no Maranhão, a 7 de julho de 1855 e
falecido na cidade do Rio de Janeiro a 22 de outubro de 1908.
Diretor Geral de Contabilidade do Ministério da Viação. Poeta,
comediógrafo, jornalista e crítico. Membro e fundador da Academia
Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira de Martins Pena.
Miniaturas da sociedade elegante
14-1
Adriano Gonçalves de Macedo,
Homem de cabedais e alma sem siso,
Penetrou no seu quarto com um sorriso
Às dez horas da noite, muito a medo.
Uma carta de amante – era um segredo –
Ia abri-la, e, assim, era preciso
Que a sua esposa, dama de juízo,
Não na visse nem mesmo por brinquedo:
Dona Corália Augusta Colavida
Estaria nessa hora recolhida?
Levantou a cortina, devagar...
Mas, que tragédia após esse perigo...
Viu que a esposa beijava um seu amigo,
Sobre o divã, da sala de jantar.
14-2
No belo palacete do Furtado,
Palestrava a galante Mariquita
Com um pelintra afetado, assaz catita,
Bacharel delambido e enamorado.
De sobre a grande cômoda bonita,

“Esse livro. Protegido dos membros da regência. espelho de bondade. Que na humildade achara a vida mais feliz. Foram levar-lhe um abraço camarada. desânimo e torpor. Louvando-lhe a utilíssima existência De homem probo e notável publicista. Era um compêndio de pornografia. imitador de Assis. perdoando a maldade. No apartamento escuro da criada. tristonha e desolada. é meu breviário!” Diz inquieta. Além se divisava a solidão da estrada. O doce missionário Sertão hostil.. o doce missionário. 15-Augusto de Lima POETA mineiro. conselheiros. Magistrado íntegro. Tudo era languidez. Naquele dia. orador e publicista. Ninguém! Nem uma sombra se movia.. onde o Sol feria os vegetais. Ali vivia Anchieta. esses senhores Foram achá-lo em seus trajes menores. Servo amado de Deus. 14-3 Dom Castilho. Nele via uma grande alma de artista. . Antonico. Abençoando o bem. Arrebata-o às frágeis mãos trementes Abriu-o. cínico e falsário. Recamado de quadros indecentes.Toma o moço um livrinho encadernado. interessado. Numa corrida louca. Sobre rígido assunto moralista. E ele. Mais o olhava e mais se ria. Que primor de moral! e os companheiros Escritores... nascido em Sabará. Amarela de pó. Revirando-o nas mãos. Minas. Foi um sucesso. tendo ocupado a presidência dessa instituição. Tendo por companhia A cruz do Nazareno. humilde e solitário. militou na Política e foi membro de realce da Academia Brasileira de Letras. Agreste serrania. poetas. notável latinista. Realizara alentada conferência. Era intenso o calor. muito aflita: . Carinhoso pastor. E a esposa Ana Fulgência. Na clareira. em 5 de abril de 1859 e desencarnado no Rio de Janeiro em 22 de abril de 1934. Mas a jovem retoma-o.

o pastor prestamente Toma da humilde cruz do Mártir do Calvário. Que Jesus vos ampare. o pastor não se deplora. Convertido por vós à luz da vossa fé. o humilde pegureiro Avista um mensageiro.. das meigas avezinhas. Que calcina. inflamando os horizontes.. Eu vejo-te no alvor das manhãs harmoniosas. Há solidão na estrada. – “Meu protetor – diz ele –. Seja alegria ou dor. E.Viam-se florescer bromélias e boninas. todo amor. Eis que o irmão de Jesus.. Na vibração dos sons.. Abandonando o ninho agreste e solitário. Que tem oferecido a Deus o seu amor. esguios espinhais Implorando piedade às amplidões divinas. No azulíneo do céu.. o bom pajé. na loura Primavera. tudo é ventura e paz. Nem árvores umbrosas e nem fontes. Na estação outonal. Dirige-se-lhe a casa. de luz e caridade. Ele ainda agradece: – “Sê bendito. Para arrancar à dor o pobre penitente. Abençoados são o Inverno que traz frio E os calores do Sol nas estações do estio. Agoniza na taba. Senhor. que vindes de passagem... em nossa própria cruz. Na corola de luz de todas as florinhas. No coração do bom.. Ferem-lhe os pés as pontas dos espinhos. Pairam no ar excessos de calor. na irradiação da luz. No canto. A terna e meiga efígie de Jesus É-lhe paz e alimento. que te ama e te venera.” . Ele espera de vós a paz do coração E implora lhe leveis a bênção do Senhor. Pisando vagaroso o chão que o Sol abrasa. ao longe. Eterno Pai de amor. elevando-se aos céus. Que penosa jornada. Eis que a sede o devora. em aflição.” .. Entretanto. Somente o Sol ferino e destruidor. no sofrimento. por tudo o que nos dás. Numa férvida prece.. Na dor. no cálice das rosas.“Oh! doce filho meu.” E isso dizendo. Em tão rudes e aspérrimos caminhos! . amparo e luz. Tudo vive a mostrar tua pródiga bondade. ao termo da viagem.

Terminando a sorrir a espontânea oração,
Inspirada em tão santa devoção,
Anchieta escuta em torno os mais sutis rumores.
Eis que nos arredores
Congregam-se apressadas
Todas as avezinhas,
E, asas aconchegadas,
Juntinhas,
Numa ideal combinação
Formam um pálio protetor,
Cobrindo o doce irmão
Que ia ofertar amor,
Luz e consolação,
Em nome do Senhor.
Pelos caminhos,
Foi-se aumentando
O alado bando
Dos bondosos e ternos passarinhos,
Aureolando com amor o Discípulo Amado,
Modesto, casto, humilde e isento de pecado,
Que ia seguindo,
Lábios sorrindo,
Em meiga mansuetude.
O enviado do Bem e da Virtude
Agradecia ao Céu, o coração em luz,
Evolando-se puro ao seio de Jesus.
Chegara ao seu destino. Ia caindo o dia
No poente de paz e de harmonia,
Brilhava nova luz, feita de crença e amor:
Era a bênção dos Céus, a bênção do Senhor.
O santo de Assis
No suave mistério dos espaços,
Santa Maria dos Anjos inda existe,
Com a mesma luz divina dos seus traços,
Glorificando as dores da alma triste,
Repartindo a Virtude, a Graça e os Dons
Que a palavra divina do Cordeiro
Prometeu aos pacíficos e aos bons
Do mundo inteiro...
Uma nova Porciúncula, dourada
Pelos astros de mística alvorada,
Aí se rejubila,
Sob a paz de Jesus, terna e tranqüila,
Derramando no Além ignorado
Os sonhos de Virtude e Perfeição,
Daquela mesma Umbria do passado,
Cheia de encantamento e de oração.

A luz dos sóis da etérea Natureza,
Numa doce e ideal Eucaristia,
O Esposo da Pobreza
No seu manto de amor e de alegria
Inda abre os braços para os pecadores...
“Irmão Sol, irmãos Anjos, irmãs Flores,
Não nos cansemos de glorificar
A caridade imensa do Senhor,
Sua sabedoria e seu amor,
Procurando salvar
Os nossos irmãos Homens mergulhados
Entre as noites sombrias dos Pecados!...
E à voz suave e dúlcida do Santo,
A Terra escura e triste se povoa
De anjos de amor, que enxugam todo o pranto
E que levam consigo
Todo o consolo amigo
Da Esperança no Céu, singela e boa...
Das paragens etéreas
Da sua ideal igreja,
São Francisco de Assis abraça e beija
O homem que sofre todas as misérias,
Amparando-lhe a alma combalida
Nos desertos de lágrimas da Vida...
E o conduz
Ao regaço divino de Jesus!...
Santo de Assis, divino “poverello”,
Nas amarguras do meu pesadelo
De vaidade do mundo, que devasta
Todo o bem, vi tua luz singela e casta
Beijando as minhas lepras asquerosas...
Uma chuva de lírios e de rosas
Lavou-me o coração de pecador
E guardei para sempre o teu amor.
Santo de Assis, irmão da Caridade,
Que me curaste as lepras e a cegueira,
Depois da morte, à luz da imensidade,
Quero ainda abençoar-te a vida inteira...
16-Augusto dos Anjos
PARAIBANO. Nasceu em 1884 e desencarnou em 1914, na
cidade de Leopoldina. Minas. Era professor no Colégio Pedro 2º,
inconfundível pela bizarria da técnica bem como dos assuntos de
sua predileção, deixou um só livro – Eu – que foi, alias, suficiente
para lhe dar personalidade original.
Voz do Infinito

16-1
No excêntrico labor das minhas normas
Na Terra, muita vez me consumia
Perquirindo nas leis da Biologia
As expressões orgânicas das formas.
O fenômeno apenas, porque o fundo
Do númeno às eternas rutilâncias,
Eram partes do Todo nas Substâncias
Desde o estado prodrômico do mundo.
Com o espírito absconso em paroxismos,
No rubro incêndio de batalha acesa,
Via Deus adstrito à Natureza,
Deus era a lei de eternos transformismos.
Concepção panteística, englobando
As substâncias todas na Unidade,
Perpetuando-se em continuidade,
A essência onicriadora reformando.
O corpo, desde o embrião inicial,
Era um mero atavismo revivendo;
A alma era a molécula, sofrendo,
Afastada do Todo Universal;
Dominava-me todo o medo horrível,
Do meu viver, que eu via transtornado:
Eu era um átomo individuado
Em cerebralidade putrescível.
A luz dessa dourada ignorância,
E com certezas lógicas, numéricas,
Notava as pestilências cadavéricas
Iguais à carne Angélica da infância,
A sutilez do arminho que se veste,
A coroa aromática das flores,
Irmanadas aos pútridos fedores
De emanações pestíferas da peste!
Extravagância e excesso jamais visto,
De idéia que esteriliza e desensina,
Loucura que igualava Messalina
À pureza lirial da Mãe do Cristo.
Assim vivi na presunção que via,
Dos cumes da Ciência e do saber,
Os princípios genéricos do ser,
No pantanal da lama em que eu vivia.
Vi, porém, a matéria apodrecer,
E na individualidade indivisível
Ouvi a voz esplêndida e terrível
Da luz, na luz etérica a dizer:
16-2

“Louco, que emerges de apodrecimentos,
Alma pobre, esquelético fantasma
Que gastaste a energia do teu plasma
Em combates estéreis, famulentos...
Em teus dias inúteis, foste apenas
Um corvo ou sanguessuga de defuntos,
Vendo somente a cárie dos conjuntos,
Entre as sombras das lágrimas terrenas.
Vias os teus iguais, iguais aos odres
Onde se guarda o fragmento imundo.
De todo o esterco que apavora o mundo
E os tóxicos letais dos corpos podres.
E tanto viste os corpos e as matérias
No esterquilínio generalizados.
E os instintos hidrófobos, danados,
Em meio de excrescências e misérias
Que corrompeste a íntima saúde
Da tua alma cegada de amargores,
Que na Terra não viu os esplendores
E as ignívomas luzes da virtude.
Olhos cegos às chamas da bondade
De Deus e à divina misericórdia,
Que espalha o bem e as auras da concórdia
No coração de toda a Humanidade.
Descansa, agora, vibrião das ruínas.
Esquece o verme, as carnes, os estrumes.
Retempera-te em meio dos perfumes
Cantando a luz das amplidões divinas.”
16-3
Calou-se a voz. E sufocando gritos,
Filhos do pranto que me espedaçava,
Reconheci que a vida continuava
Infinita, em eternos infinitos!
Vozes de uma sombra
Donde venho? Das eras remotíssimas,
Das substâncias elementaríssimas,
Emergindo das cósmicas matérias.
Venho dos invisíveis protozoários,
Da confusão dos seres embrionários,
Das células primevas, das bactérias.
Venho da fonte eterna das origens,
No turbilhão de todas as vertigens,
Em mil transmutações, fundas e enormes;
Do silêncio da mônada invisível,
Do tetro e fundo abismo, negro e horrível,
Vitalizando corpos multiformes.

E o espírito profundo de Descartes No eterno estudo da Filosofia. voltei desse laboratório. E nem compreenderás como se opera A mutação do inverno em primavera. apenas fui terrível presa. Enigmas insolúveis e profundos. O ângulo obtuso e o ângulo reto Dentro das linhas da Geometria. A flor da laranjeira. A dor. Grito ao mundo o meu grito que se alia A todos os anseios gemebundos: – “Homem! por mais que gastes teus fosfatos Não saberás. Depois. Da Terra no vultoso e imenso abdômen. essa tirânica incendiária. Onde me revolvi como infusório. não perceberás. analisando os fatos. Sombra egressa de lousa dura e fria.Sei que evolvi e sei que sou oriundo Do trabalho telúrico do mundo. Como animálculo medonho. desde as intensas torpitudes Das larvas microscópicas e rudes. Inda que desintegres energias. Durante penosíssimos minutos. Como existiram. Na Terra. E a transubstanciação da guerra em paz. Um estafermo e um Tales de Mileto. a asa do inseto. E vejo os meus incógnitos problemas Iguais a horrendos e fatais dilemas. Té atingir a evolução dos seres Conscientes de todos os deveres. A infinita desgraça de ser homem. Abatia-me a vida solitária Como se eu fora bruto entre os mais brutos. . Sofri. obscuro. Descortinando as luzes do futuro. A luz de Miguel Angelo nas artes. Como vivem o novo e o obsoleto. Os antigos remédios alopatas E as modernas dosagens homeopatas. Porque existem as crianças e os macróbios Nas coletividades dos micróbios Que fazem a vida enferma e a vida sã. Simbiose da dor e da tristeza. A razão do completo e do incompleto. Como é que em homem se transforma o feto Entre os duzentos e setenta dias.

A atividade e a inatividade. Que reunindo os átomos no solo Tecem a evolução de pólo a pólo. A funda simpatia e a antipatia. Como vive o canário junto ao corvo. As atrações e as grandes repulsões. E o que é ilimitado e o limitado Na óptica ilusória do horizonte. As coisas substanciais e as coisas ocas. Em prodigiosas manifestações. Os milhões de corpúsculos do ovário. Onde entre gozos fúlgidos e edênicos Cresce a alegre progênie dos felizes. Repleto de dejetos e de estrumes. . O doloroso e tetro cataclismo Da beleza louçã do organismo. A noite da ignorância e o sol da Ciência. Vaso de carne podre. A teoria cristã e Augusto Comte. Assombrosas antíteses no mundo. o inferno torvo Nos absconsos refolhos da consciência. O que não tem sinal e o que tem marca. O céu iluminado. As epidermes e as aponevroses. Onde há somente um óvulo fecundo. É o gigante e o germe originário. Junto dois palacetes higiênicos. A psíquico-análise freudiana Tentando aprofundar a alma humana Com a mais requintadíssima vaidade. E o desconhecido e o devassado. os vermes. Como os degenerados blastodermas Criam a descendência dos palermas No lupanar das pobres meretrizes. A alma pura do Cristo e a de Tibério. Os lombricóides mínimos. E o jardim rescendendo de perfumes. Em contraposição com os paquidermes. E as teorias do Espiritualismo Enchendo os homens todos de otimismo. Os terrenos povoados e o deserto.Produto da experiência de Hahnemann. As grandes atonias e as nevroses. As idéias conexas e as loucas. O laconismo e a prolixidade. Mostrando as luzes da imortalidade. o cemitério. Aquilo que está longe e o que está perto.

científicos. A que se acolhem míseros ateus. Somente achava corpos na existência. insaciada. Outras vozes. Enceguecido e louco então que eu era. Ou mesmo vinculada a gnosticismos Nos singultos preagônicos. Caminharás lutando além da cova. Na solução de todos os contrastes. que gargalhando em nossas dores. Nos vastos campos da Psicologia. atrozes. Que eu às vezes na Terra empreendia. Nutrir-se de famélicos prazeres. Alma Nos combates ciclópicos. dos astros à monera. . Psíquicos. E apesar da teoria mais abstrusa Dessa ciência inicial. Para a Vida que eterna se renova. Uivando subjugadas e ferozes. As luzes d'alma em trágicos segredos.As atrofias e a hipertrofia. Duas vozes. Gritos de feras em paroxismos. Os fenômenos todos geológicos. É a voz humana em intérminas nevroses. seres inorgânicos. Milhões de vozes. Nas lágrimas. Cosmopolitismos. Homem! por mais que a idéia tua gastes.” Voz humana Uma voz. Não saberás o cósmico segredo. É nessa eterna súplica angustiada Que eu vejo a dor em gozos. A dor. É a obreira que tece os esplendores Da evolução onímoda dos seres. Nas defectividades da estesia. Nos instintos soezes e tirânicos. Buscando as perfeições do Amor em Deus. sociológicos. Seja nas concepções dos ateísmos. Como as tuberculoses e a anasarca. Que inspiram pavor e inspiram medo. Que não via. Buscava as almas. confusa. Nos distúrbios sutis da hipocondria. nos risos e nos pânicos. E o sangue em continuada efervescência Com impulsos terríficos e tredos. titânicos.

que. Na agregação da carne e dos humores. nervos. Serpentes entre escrófulas e helmintos. tegumentos. Nos recantos dos mundos inferiores. fraquíssima. Multiplicando as lágrimas e os trismos. Evolução Se devassássemos os labirintos Dos eternos princípios embrionários. É mais que uma atrevida aberração: Que se quebre o escalpelo de meus versos: Entreguemos a Deus seus universos Que elaboram a eterna evolução. materializados. hipertrófica.Análise Oh! que desdita estranha a de nascermos Nas sombras melancólicas dos ermos. Rudimentos dos seres planetários. a onda sonora. Ilusão hiperbólica dos seres Bestializados. Tendo a alma – centelha. Em sexualidades e histerismos. atassalhados. Enegrecermos luminosidades Na macabra esterqueira dos tumores. Nas ferezas do instinto. Que atrofiada. se apaga Ao furacão indômito das dores. O anseio da vida. . apodrece. parece Cataclismo dos grandes cataclismos. A cadeia de impulsos e de instintos. E nisto achar fantásticos prazeres. Tudo o que a poeira cósmica elabora Em sua atividade interminável. Que. Mas a análise crua do que eu via. sem vigor. luz e chama – Amalgamada em pântanos de lama. Que percorrem o espaço imensurável. Misturarmos clarões de sentimentos Entre vísceras. Apoucado Narciso que se orgulha Na profundeza ignota dos abismos Da carne. Prendermo-nos ao fogo dos instintos. Voracidade onde a alma se mergulha. estrambótica. Atrocidade das atrocidades. Onde a luz é penumbra tênue e vaga. Espíritos em ânsias retroativas. No transcorrer das vidas sucessivas. Hedionda lição de anatomia.

Imensidade nas imensidades! Nós já fomos os germes doutras eras. Dissolvidos na terra famulenta. em sentimentos. Ao monólito enorme das idades.Veríamos o evolver dos elementos. Não há luta mavórtica que o dome. Das origens às súbitas asceses. Era um feixe de mônadas de vermes. O homem é fruto insólito da ânsia. Horrente a devorar com sede e fome Minhas carnes em lúbrico transporte. Nos íntimos recôncavos da placenta. nas plantas e nos vermes. Volve o Espírito ao páramo celeste. Do intravascular princípio informe. Ou venenada lâmina que o corte. Vendo a terra que os próprios ossos come. Onde a divina essência se reveste . Homo 1 Ao meu tétrico olhar abominável. Psique dolorosa e inexpressável Na mais remota epíspase da infância. No profundo silêncio dos inermes. Heterogeneidades da Substância. Buscando as perfeições absolutas. No assombroso prodígio das esteses. dos invisíveis microcosmos. Depois da estercorária microbiana. Argamassando um Todo miserável. De que o planeta triste se engalana Nas grilhetas do infinitesimal. Transformando-se em luz. A quietação dos túmulos inermes. Nos rochedos. Enjaulados no cárcere das lutas. Vi que o “ego” era o alento flâmeo e forte Da luz mental que a morte não consome. Larva repugnante e vermiforme. Desde a mais abscôndita reentrância Da sua embriogenia detestável. Viemos do principio das moneras. A mesma luz dos corpos estelares! É que. Tudo é clarão da evolução do cosmos. 2 Após a introspecção do Além da Morte. Inferiores e rudimentares.

tremendo. Dentro da noite É noite. Em diferenciação definitiva. Sou eu que. E. Aterradoramente sofredora! Ausculto a humana dor. Incógnita Por que misterioso incompreensível Vomito ainda em náuseas para o mundo Todo o fel. Nas mais contrárias idiossincrasias. Chama da mesma chama que me abrasa? “Ego sum” Eu sou quem sou. De tudo o que ficou no abismo horrendo Da tenebrosa noite dos gemidos. . Sou eu. ígneo. Por mais que sonde. Extremamente injusto Seria. Buscando ávida a luz. Levantar-me do leito de Procusto. que hórrida sinto.. Se vos mentisse. sendo eu o Augusto. que a rota etérica transponho Com a rapidez fantástica do sonho.. Inexprimível nas termologias. e por mais que o procurasse. Atramente a gemer a mágoa e o luto. À Terra volvo. se mistificasse No anonimato. com intelecto de arbusto. Jamais cri. em brasa. toda a bílis do iracundo. Transmitindo as idéias que me fervem No cérebro candente. Quer com Darwin. De que concavidade do Universo Vem-me o açoite flamívomo do verso. lúcido. entro Em relação com o mundo onde concentro O espírito na queixa atordoadora Da prisioneira. se não vos declarasse. Se eu já não tenho a bílis putrescível? Insondável arcano! por que inundo Meu exótico ser ultra-sensível Em plena luz e atendo ao gosto horrível De apostrofar o pobre corpo imundo? Fluidos teledinâmicos me servem.Da substância fluida. então. D'alma quebrando o cárcere do instinto. com Haeckel. Mais o enigma do mundo se lhe aviva. – A misérrima e pobre Humanidade. O mesmo triste e estrábico produto. com Laplace. Mais a luz desejada se lhe esconde! É o quadro mesológico. universal. da perpétua grade.

E com os meus pensamentos desconexos. São os ais dos leprosos desprezados. coagulado. Apavora-me o horror dessa miséria E fujo da imundície da matéria. E ainda transpondo o Azul sereno. As dolorosas mágoas dos enfermos. o veneno E a desdita dos seres sofredores. o anseio. Asco e dó. Onde traguei meus grandes amargores.. Abominando as coisas deste mundo. Desde o sol-posto.São uivos dos instintos jamais hartos... É a ânsia afrodisíaca das bocas. Sentindo os próprios membros carcomidos.. a lágrima do homem Agrilhoado aos prantos que o consomem. Homem-célula Homem! célula ainda escravizada . Trazendo dentro d'alma. Às bactérias mais vis ambas trocando. Que nas bestialidades se unem loucas.. A desgraça dos úteros falidos. decomposto. Dos desejos que não se realizaram. É a imprecação de todos os lamentos Dentro do mundo de padecimentos. apodrecidos. Vejo a guerra pestífera dos sexos. Pábulo sou dessa hórrida agonia E nos abismos de hiperestesia Experimento. Terra!. Como o cheiro de sangue dos massacres. Tendo os seus organismos devastados Pela fome insaciável dos micróbios. envoltos na ânsia. Deplorando o destino miserando. Plantando a dor no chão dos seus cenóbios. Preso às dores que se lhe agrilhoaram. ao próximo sol-posto. além das catacumbas. atrocíssima. As dores espasmódicas dos partos. Junto da emanação requintadíssima Do ácido sulfídrico das tumbas. Fujo. Verminados. Fétido.. e chegam-me fortes cheiros acres. piedade e repugnância Pelo espírito e o corpo nauseabundo. Escorrendo num campo de batalhas Onde as almas se vestem de mortalhas. Sinto em minhalma o tóxico. cruéis. Sentindo-se em seus leitos como em ermos. É o grito. Essa angústia indomável.

sem fim. No transcendentalismo da Unidade. Combinações no mundo das imagens. Pensamentos radiosos como chamas. nevrites Ao lado de humaníssimas vaidades. Vem através do Todo de elementos. Desse teu escafandro de albuminas.. pura. Em tua mesquinhez não imaginas A intensidade esplêndida da Vida! Inda não vês e eu vejo panoramas De luz em gigantescos amalgamas De sóis. De gangliomas. . Nem bisonhos aspectos de cloróticos Nas estradas de eternos otimismos! A vida imensa é coro de grandezas.. Até achar à perfeição profunda E indivisível. Singrando a luz de céus incomparáveis. Auscultando os espaços mais profundos Na sinfonia harmônica dos mundos. Quinta-essências de todas as substâncias Na fluidez das eletricidades. Sob transformações consecutivas. sem número. Vem dessa Origem indeterminada. úlceras. Aqui não há vertigens de nevróticos. Não podes perceber as ressonâncias. Em sucessivos aperfeiçoamentos.Nos turbilhões das lutas cognitivas. Sem aritmologias das distâncias. Onde se oculta a luz indecifrada Dos princípios das luzes coletivas. Do teu laboratório de arterites. essa voraz liberticida. Submersão nas fluídicas belezas. nas regiões imensuráveis. Egressa do arsenal de forças vivas Que chamamos – estática do Nada. Em pleno espaço – Imensidade de ânsias. Na imensidade Alma humana. Objetivando a personalidade. alma humana. tu que dormes Entre os grandes colossos desconformes Da carne. Envergando os etéreos organismos. São vibrações das almas evolvidas E que. Formam luminosíssimas paisagens. Sem limites. concretizadas e reunidas. e se confunda. Ante a minhalma fulgem ideogramas.

Foge do escuro ergástulo do mundo E abandona o Desejo moribundo Pelo poder da tua divindade. Teu corpo é todo um orbe grande e vasto: Livra-o do mal unífero. Mas contérmino à carne. Deixa o conjunto de ancestralidades Da carne – o eterno símbolo do Hades – Onde o espírito clama. Mas faze de tua alma um grande império De beleza. Que o sol da tua mente. nefasto. De arcangélicas flores de Harmonia. sofre e chora. Que se putrefizeram consumidas Com os seus instintos atordoadores. Deixa que as tuas glândulas do pranto Te salvem do cadinho sacrossanto Da lágrima pungente e redentora. E sou o espectro das anomalias. eterno. Tenho outro ser talhado pelas dores De minhas pobres células falidas. Eis-me longe dos rudes estertores. Em que toda molécula se cria: Da existência ele faz sepulcro abjeto Ou jardim luminoso e predileto. Dando a teu mundo a mágica oferenda Da alegria em divina plenitude. esplenda. Troca o prazer sensualista e obscuro Pelo conhecimento da Verdade. Mas. execrável. No prolongado e edênico festim! “Alter ego” Da morte estranha que devora as vidas. observa o pensamento. sobretudo. Da terrígena raça que padece Das mais pungentes heteromorfias. Aos fracos da vontade Homem. ó Artista Inimitável. Com a espada resplendente da virtude. que me aterra. levanta o véu do teu futuro.Deus e Pai. Deixai meu ser esdrúxulo. Fonte da força e altíssimo elemento. Envolvo-me nos fluidos maus da Terra. de paz e de saúde: Que as tuas agregações moleculares . Ouve-te sempre a ronda do mistério. Não sou o homúnculo da hominal espécie. Sem guardar os micróbios homicidas De eternos atavismos destruidores.

Amarrada no catre da miséria! Ao homem Tu não és força nêurica somente. Faz-se mister que o cárcere a conclame. o éter divino. com o pensamento almo e insondável. Com os tônicos sagrados da Virtude. És um ser imortal e responsável. a energia Potencial que dá vida aos elementos. Raça adâmica A Civilização traz o gravame Da origem remotíssima dos Arias. Para a reparação e para o exame Dos seus crimes nas quedas milenárias. Lama de sangue e cal que se aniquila Nos abismos do Nada eternamente. Tua vontade esclarecida e forte Triunfará das angústias e da morte Além dos planos tristes da matéria. a alma da luz resplandecente. Movimentando células de argila. és a cintila Do Céu. És mais. Que tens a liberdade incontestável E as lições da verdade na consciência. Estirpe das escórias planetárias. Onde Deus grava a história do destino Dos seus feitos de Amor no Amor imersos. Sistematização dos argumentos Que elucidam a Teleologia: Dentro da força cósmica se cria A fonte-máter dos conhecimentos. É do mundo o Od ignoto. Árvore genealógica de párias. Apesar das verdades fisiológicas. Mas a tua vontade enfraquecida É a meretriz no báratro da vida. Seus poemas de seres e universos. Livro onde o Criador Inimitável Grava. és muito mais. Base de portentosos movimentos Onde a forma se acaba e principia.Vivam livres de todos os pesares. Segregadas num mundo amargo e infame. Matéria cósmica Glória à matéria cósmica. . Que um mistério implacável e inclemente Amortalhou na carne atra e intranqüila. Reflexas das ações psicológicas. Nas células primevas da existência.

a inconsciência prodigiosa Que guarda pequeninas ocorrências De todas as vividas existências Do Espírito que sofre. atro e mudo. impassível. Nos seus medonhos ágapes mortuários. . Fez da Terra o brilhante gral da Ciência. Mas só encontra os vermes-funcionários No seu trabalho infame. sim. Como o bolor e o mofo sob as heras. Vida e morte A morte é como um fato resultante Das ações de um fenômeno vulgar. fúlgida e distante! Vida e Morte – fenômenos divinos. Desorganização molecular. luta e goza. Que o neurônio oblitera por momentos. De consumir as podridões de tudo. Fim das forças do plasma agonizante. No meio triste de cadaverinas Acha-se apenas ruína sobre ruínas. A alma que é Vibração. Consciência de todas as consciências. Espírito Busca a Ciência o Ser pelos ossuários. Câmara da memória independente Arquiva tudo rigorosamente Sem massas cerebrais organizadas. Está nas luzes da sobrevivência. Ela é a registradora misteriosa Do subjetivismo das essências. A subconsciência Há. No labor anatômico. Mas a vida a si mesma se garante Na sua eternidade singular. Mas um mundo de deuses decaídos. Na ascendência de todos os destinos. horrendo e rudo. No transcendentalismo das esferas.Foi essa raça podre de miséria Que fez nascer na carne deletéria A esperança nos Céus inesquecidos. em seus impulsos embrionários. Fora de toda a sensação nervosa. Glorificando o instinto e a inteligência. E em sua transcendência vai buscar A luz do espaço. No órgão morto. no estudo Do germe. Mas que é o conjunto dos conhecimentos Das nossas vidas estratificadas. Vida e Essência.

Muralhas. És o sentenciado do Universo Na grade organogênica do mundo. Visões apocalípticas do mal. Desenhadas por corvos vagabundos. Entre as sombras das míseras estradas.. Espalhando a miséria e o luto enorme Em miserabilíssimas batalhas. Feito à noite de enigma profundo!. amargo e morto. Homem da Terra! trágico segredo De miséria. Homem da Terra Na sombra abjeta e espessa das estradas. A civilização do desconforto. Vê-se a guerra da inveja e da luxúria. Vida e Morte – presente eterno da ânsia. Que manifesta o espírito nos mundos.. E rasteja o dragão horrendo e informe. Choram de dor as almas condenadas Ao cárcere de lágrima e penúria. E lá vai o fantasma embrutecido Pelas sombras de lôbregas jornadas. A alma decifra o livro dos mistérios De luz e amor da vida universal. de horror. De mentira e veneno cerebrais. Sob o acervo das células taradas.. imortal. Esfacelando com medonha fúria O coração das almas bem formadas. No horrendo pesadelo de um vencido Entre milhões de células cansadas. Prantos sinistros! Loucas gargalhadas. Nos véus da carne Na ilusão material da carne espúria. Canhões. de ânsia e de medo. Deixando corpos pelos cemitérios. Ou condição diversa da substância.Do portentoso amor de Deus oriundos. Trevas. Vai carpindo nos tristes funerais Do seu fausto de sombra. Nas sombras Bombardeios. Anjo da Sombra. Vive o homem da Terra adormecido. É nesse turbilhão de dor e de ânsia Que o homem procura a eterna substância Da verdade suprema. Gritam a dor de povos moribundos Na sinistra hecatombe universal.. mísero e perverso. alta. . Pavorosos esgares de gemido.

Ídolo podre sobre o esterquilínio. o pântano terrível. No turbilhão das sombras negativas. Mas só a Fé. De lodo e lama.. Na visão dos micróbios destruidores Senti somente angústias e estertores. É o doloroso e trágico domínio Do “homo homini lupus” da ignorância. Nas vitórias fantásticas do verme. Beija. em sombra e vilipêndios. vencendo o abismo!. Ossuários tremendos sob as flores. Ai de vós nos abismos da aflição. Sem o raio de luz da crença amiga: Desventurado aquele que prossiga Sem o Cristo de Amor no coração. Não encontrei a luz das forças vivas. Enquanto a desventura chora inerme. este solo generoso. Sofre agora a sinistra ressonância De sua inclinação para o extermínio. Ao crepitar de rúbidos incêndios. das causas positivas. Morre de frio e fel. Terror e morticínio.Quadros de sangue. filosófico ou sem nome. de sede e fome. Homem-verme Desolação. .. Exaltando a vaidade sem substância. Bem distante. escorre o sangue horrível. mísero espectro das dores No escafandro das células cativas. Augusto. O homem. de ânsia em ânsia. Foi preciso “morrer” no campo inglório. O homem sôfrego e bruto. Em quase tudo. Por toda a parte. Apesar de ingentíssimos labores. Para encontrar esse laboratório De beleza. É o triunfo terrível do coveiro. Confissão Também eu. lágrimas e horrores Avassalam de dor o mundo inteiro. Sobre a idéia cristã medrando em germe. Atestando as vitórias do homem-verme! Gratidão a Leopoldina 7 Sem o vulcão de dor de hórridas lavas. Tem a chave do Céu. Que te guardou no seio carinhoso O escafandro das células escravas. verdade e transformismo! A Ciência sincera é grande e augusta. na estrada eterna e justa.

. E onde sorveste o cálice amargoso.. A Lei Em reflexões misérrimas. Porque na luz dos círculos da Terra. Desde o instante infeliz de Adão e Eva. em Leopoldina. Sangrou Jesus em lágrimas divinas. Esquece o travo do tormento antigo E oscula a destra de teus benfeitores. angústia e pena. onde foi sepultado o poeta. Sob as ofensas torpes e tigrinas A tentarem-lhe o espírito incorruto. que detestavas. Cessa a miséria de teus raciocínios. Encontrarás teus gritos solitários.“ Mas. Nas maravilhas de seus resplendores.. uma voz da luz dos grandes mundos. Augusto. de pranto e luto. buscaste o campo de repouso. em ruínas.. A Civilização que se condena Suicida-se num báratro profundo. . Civilização em ruínas Todo o mundo moderno horrendo. Raciocinava: – “O último tormento É regressar à carne e ao sofrimento Sem o triste fenômeno do aborto! . sobre o Calvário áspero e bruto. Proclama a vida além das catacumbas.. Ajoelha-te e lembra o último abrigo. absorto. Respondeu-lhe em acentos colossais: – “Verme que volves dos esterquilínios. Toda a amargura d'alma é o desconforto De retornar ao corpo famulento. E apagar toda a luz do pensamento Nas células de um mundo amargo e morto!. Em vão. Ainda é Caim que impera sobre o mundo. Feito de sânie e de cadaverinas. Poesia recebida em 18 de junho de 1940. Saturada de treva. do pó que envolve as tumbas. Deixa agora escapar o horrendo fruto De miséria e de dor. Volta. Não insultes as leis universais.. Em conceitos sublimes e profundos.Aqui. Nos turbilhões fatídicos da guerra.” A um observador materialista Busca o talão dos velhos calendários. Depois das vagas ríspidas e bravas No mundo áspero e vão.

Pois. Entre prantos pungentes. através da tempestade. Sobre a cruz infamérrima se ajusta A crueldade do espírito rasteiro Do homem. o Livro e a Toga. Multiplicando Herodes e Pilatos. acima do império amargo e exangue Do homem perdido em pântanos de sangue. A força primitiva menoscaba A evolução onímoda do Gênio. Os impulsos dos sonhos embrionários. Horto. embora o Direito. que é sempre o tigre carniceiro.. Traz ao berço da Nova Humanidade A consciência cósmica do mundo. Depois de vinte séculos ingratos. Se não tens coração que aceite a crença. desencarnou em 7 de fevereiro de 1901. Espera a mão da morte excelsa. Pára.Enfrentando o pavor da mesma treva. exangue e fria. Novo sol banha o pélago profundo. aos 24 anos. A Humanidade triste inda se afoga No sangue escuro das carnificinas. e pensa. Rio Grande do Norte. Mas. Ante o Calvário Da terra do Calvário ardente e adusta. Não sigas na consulta: O detalhe anatômico te insulta. em Natal. Que a carne volve ao pó. Trevas. Deixou um único livro. Correm de novo as lágrimas divinas. Atualidade Torna Caim ao fausto do proscênio. A construção dos séculos desaba. É Jesus que. A Civilização regressa à taba. A molécula morta desafia. Apaga-se o milênio. em Macaíba. Ressurge o crânio do morubixaba Na cultura da bomba de hidrogênio. . 17-Auta de Souza NASCIDA em 12 de setembro de 1876. Canhões. em outubro de 1899. amigo. portanto. o Cordeiro Da Verdade e da Luz do mundo inteiro Vive o martírio de sua alma augusta. Sempre a dúvida estranha que se ceva De terríveis problemas multifários.. O mistério da célula primeva. prefaciada por Olavo Bilac. Enquanto grita a turba ignara e injusta. cuja primeira edição.

Tanto amargor de espírito que chora Em cansaços nas lutas pela vida.apareceu em 1900 e se esgotou em três meses. em 1910. A alegria fulgente e estremecida. Sofria. E eu. em 1936. Almas dilaceradas Quando. tanta dor em demasia. Deve fugir das horas de repouso. E confiada na crença que tivera. na Terra inda. Há. muito místico. em dores. teve uma terceira edição no Rio de Janeiro. Finalmente. Tal desalento e tantas desventuras. Que o coração dormente. que era irmã dos grandes sofredores. Contrastes Existe tanta dor desconhecida Ferindo as almas pelo mundo em fora. E há também os reflexos da aurora De ventura. Aureolada de luz confortadora. Cheguei à luz da eterna primavera. traz uma biografia da Autora por H. Onde há paz para os pobres desgraçados. Mágoa Muitas vezes sonhei na Terra ingrata O paraíso doce da ventura. vivia Caminhando em aspérrimas estradas. O veneno da acerba desventura . a pleno gozo. crendo que tais amargores Encontrariam termos desejados. A segunda edição. Espírito melancólico. Escutava a miséria que gemia Dentro da noite de ânsias torturadas. Sobrepujando instantes de alegria. Vendo somente o espinho da amargura Que as nossas tristes lágrimas desata. feita em Paris. Almas feridas e dilaceradas. Minorando as alheias amarguras. sofredor. prefaciada por Alceu de Amoroso Lima. Castriano. Via presas do pranto e da agonia. porém. Somente a dor intérmina que mata A alegria mais lúcida e mais pura. Seu estilo simples e triste se reproduz perfeitamente nestes versos mediúnicos. Treva espessa da senda tão sombria Das criaturas desesperançadas. que torna a alma florida.

nevoentos. Senti. A mesma dor que eu tanto padecia. .. a vida inteira. Abrasada de amor eu viveria. Hora extrema Quando exalei meus últimos alentos Nesse mundo de mágoas e de dores. sem paz. Senti meu ser fugindo aos amargores Dos meus dias tristonhos. Canto de luz dos páramos celestes. a paz e a crença.. Sorvendo a luz no cálix da harmonia. a mágoa intensa Que rouba a luz. Jesus! doce Jesus meigo e bondoso. É que a dor da minhalma em tudo eu via. eterna e derradeira!. A tortura dos últimos momentos Era o fim dos meus sonhos promissores. Do meu viver sem luz.. Que recebi a paz confortadora! Sentindo-me feliz. na própria Natureza. Que se extinguia em atros sofrimentos. porém. Bendigo o vosso amor ilimitado! Em êxtase Aos teus pés. Nessas paragens de deslumbramentos.Que fere em nós a aspiração mais grata. Então parti. inda quisera Volver ao pó da carne dos mortais. Em demanda da estrada esplendorosa Que nos conduz às plagas da harmonia! Em paz Tanto roguei a paz consoladora. meu Jesus. porém. Quanto agradeço a paz que concedestes Ao meu viver tristonho e doloroso! E desse lindo oásis encantado. Sem as sombras da dor e da agonia. E aumentava minha íntima tristeza Vendo em tudo. serena e jubilosa. o amor. Em paz serena. ditosa agora. Onde terminam todos os tormentos Que inundam de amargor a alma que chora. sem flores. Se apenas vi. Por teu amor. Elevando a Jesus meus pensamentos. Durante os meus amargos sofrimentos.. minhalma sofredora Mergulhada nas brisas de uma aurora. Jesus.

Mãe de anjos e de flores. Prece Estendei vossa mão bondosa e pura. E Mãe das nossas Mães cheias de amores. Para contar tua bondade imensa Aos meus irmãos. Mergulhados na noite da descrença. Nos instantes de dor. Abrasada de amor eu viveria. Quando na Terra – que era o meu deserto. Nossas meigas e eternas companheiras!. Em paz serena.Para cantar a terna primavera Do teu amor nas lutas terrenais Depois da treva espessa da amargura: Para exaltar as luzes que me deste Na cariciosa e doce paz celeste. Quando vi teu sorriso de ventura! Então.. Meu tesouro de fúlgida ventura. Que me dava a promessa da esperança. os homens pecadores. Da tua alma esplendente de bondade. Raio de luz. Flor ressequida eu era. de amor e de bonança. Sorvendo a luz no cálix da harmonia. Afastando as amargas desventuras Do coração da pobre Humanidade! Aos teus pés. bem que eu sentia As tuas asas de Anjo da Ternura.... Era a tua alma a luz da minha vida.. senti que as Mães são mensageiras De Maria. eterna e derradeira!. a vida inteira. Ai de mim sem a tua alma bondosa. Findo o terror da minha negra sorte. Pairando sobre a minha desventura Feita de prantos e melancolia. Mãe Ó minha santa mãe! era bem certo Que entre as preces maternas estendias As tuas mãos sobre os meus tristes dias. pobre e empalecida. e tu o orvalho Que me nutria. Na escuridão da vida dolorosa.. Para falar a todas as criaturas. . meu Jesus. E que felicidade doce e pura. A que senti após a treva e a morte. Meu tesouro. Nos abismos dos males e das dores. meu dúlcido agasalho!.

Mãe querida dos fracos pecadores... no altar. Derramai vossa luz. desditosas.. Aos corações dos pobres sofredores Mergulhados nos prantos da amargura. desse amor que já nos destes. Entre as naves... Adeus O sino plange em terna suavidade.. Há no caminho “almas penadas” Que vão clamando desoladas A dor e o pranto. – clamam as vozes desoladas De quem ficou no exílio soluçando. Desventurado pensador. – Adeus. Almas feridas. Queremos nós em cada novo dia. Mais amor. da radiosa altura. Em orações ao pé do altar. De almas chagadas no amargor. Terra das minhas desventuras. meditando.. que o silêncio amais no mundo. – Adeus. À sombra de árvores em flor.. Vós que mudais em flores os espinhos... – choram as rosas desfolhadas. Transformai toda a treva dos caminhos Em clarões refulgentes de alegria. Oram convosco a soluçar. lamenta-se a orfandade. Adeus. Da imensidade. Da região ditosa da ventura.” – diz nas alturas A alma liberta. . toda esplendores. Sobre a sombra dos cárceres das dores! Ó Mãe! excelsa Mãe de anjos celestes. Sob as arcadas silenciosas.. Clareie a luz do sol-nascente. o azul do céu singrando. E a alma que regressou do exílio beija A luz que resplandece. Na catedral azul da imensidade. “Adeus. Almas Ó solitário das estradas. em tudo adeja O perfume dos goivos da saudade. No ambiente balsâmico da igreja.. o pranto e a dor!. Ao descansardes.. amados meus. que viceja. Geme a viuvez. Vós.. Sabei que às vezes sois seguidos Pelas angústias dos gemidos.

Como bandos de rolas erradias. Dai-lhes dos vossos pensamentos Consolação que adoce a dor. meu irmão! Pelo caminho Da miséria terrestre.. Algo de afeto.. Almas de virgens Andam sombras errando abandonadas Ao pé das lousas e das covas frias. Há de esperar tua alma redimida Nos caminhos de luz e redenção! Maria Toda a expressão de ternura Do mundo de provação. Cantando à luz do amor que não tivestes!. Todo o bem que plantares nessa vida.. Entoai nos céus as tristes serenatas Com as vossas roxas túnicas de pranto.. muita sombra. Perambulando pelas sacristias. na aflição. Quando faças no mundo o bem preciso. Carta íntima Escuta.Negreje a treva na amplidão. Angélicas visões de bem-amadas. Muito fel.. Almas saudosas do Celeste Ninho! Jesus há de sorrir com o teu sorriso. sem pão e sem carinho: Confortemos os pobres sofredores. muito espinho. Entre falsos prazeres tentadores. Almas de pobres freiras desamadas. . algo de amor!. Há feridas que sangram. Dai um conforto à desventura. A prece cheia de ternura. Consolo das mães piedosas. Almas das que não foram desposadas.. Mortas na aurora rútila dos dias.. Pelo que sofre em desesperação. Nos Céus ditosos procura A sua excelsa afeição. há muitas dores. Que sonhais entre os tálamos celestes. Há pavores De órfãos sem lar. Virgens mortas! Tristíssimas oblatas De um sacrário de luz piedoso e santo. Gemem na Terra muitos seres Pelos amargos padeceres Depois da morte.

A oração é o caminho cor de aurora Para o sonho dos pobres pecadores!.. Que triunfa da lágrima e da morte. Volve ao teu templo interno abandonado. E os próprios sofrimentos da impiedade . Sob a linguagem pura e peregrina Da voz de Deus.A mais alta de todas as capelas – E as respostas mais lúcidas e belas Hão de trazer-te alegre e deslumbrado. Mas sei que às vezes choras. Haja sol. Visão de paz e de luz. através dos rudes amargores. E eis que Ele chega sempre de mansinho.... Compreenderás a dor que te domina.Cheias de mágoa e de pranto. Ouve o teu coração em cada prece. Vem ao nosso amargoso torvelinho. consternado. O Senhor vem. Ó corações que a lágrima devora! Vinde. Cantar na luz dos grandes esplendores Vossa iluminação de cada hora!. Veste o manto do amor e da verdade. Ao silêncio da força que interpelas. Deus responde em ti mesmo e te esclarece Com a força eterna da consolação. Ninguém diz. em luz de redenção. ... As desventuras para bendizê-las. Vinde! Todo anseio da crença acalma as dores.. Toda prece é uma luz para quem chora. Sobre quem atira as rosas Do seu Amor sacrossanto.. Paz dos Céus! Ave-Maria! Mensagem fraterna Meu irmão: Tuas preces mais singelas São ouvidas no espaço ilimitado. Neste Lar de Jesus.. E percorre o silêncio do caminho. Feliz o coração sereno e forte. Vinde rememorar no espaço infindo. faça frio ou tempestade. Traz às sombras da vida a claridade.. Palpitando na esfera das estrelas!. ditoso e lindo. ninguém traduz Essa visão da Harmonia.

Notabilizou-se no gênero descritivo. Recebendo entre outros gozos. E as almas puras. Onde desperta um precito De um pesadelo de dores. no Rio de Janeiro. Como o Sol que dá vida sem alarde. Ele chega. no Estado do Rio. Modeladas pela dor. Envergara o sambenito Dos pedintes sofredores.. Como lírios cor da aurora. E nessa etérea campina Recebe a esmola divina. a 19 de janeiro de 1859. Vão todas.. Vem o Senhor que nunca chega tarde. Dos lábios de anjos formosos. 2 Uma campina de flores Em pleno espaço infinito. quando funcionário do Correio Geral. E protege a miséria mais sombria. espaço em fora. falecendo em 1916. Sem as medidas estreitas Das horas que marcam eras. 18-B. E o amor se perpetua. Rosas de paz e de amor. É por isso que o homem continua Ressurgindo da treva a cada dia. Vivera entre os amargores De um sofrimento bendito. O ósculo de Jesus. Lopes NASCEU Bernardino da Costa Lopes em Boa Esperança. Miragens celestes 1 Sublimes atmosferas. E onde passam sorridentes Abrem-se rosas virentes. Quais flores das primaveras. ficando célebre com o seu livro “Cromos” (1881). Luminosas. rarefeitas. eleitas.São as bênçãos de luz do seu carinho. Nesse batismo de luz. Cromos 1 . Buscando vão as esferas Das alegrias perfeitas. município de Rio Bonito.

Vêem-se raios formosos. desencarnou no Rio de Janeiro. um dia. ora. exalta-lhe o estro espontâneo. pressenti-a Cansada e triste como os sofredores. original e simples. Cheio de lágrimas. E com esta minha promessa. Ao seu Jesus bem-amado. Dizendo-lhe docemente: – “Não chores mais mamãezinha: Vou dar minha bonequinha À santa lá do altar. suplica. Dimanando luminosos. Desalentado e triste. O Jesus que ele não vê. Ela há de vir bem depressa Para a senhora sarar. Do clarão da sua fé. embevecida. Olavo Bilac. Pois sente que se enamora Do firmamento estrelado. E pede. E lá dos céus abençoa Sua alma singela e boa. em 1915. implora Perdão para o seu pecado. Sobre uma enxerga. Sonetos 1 Eu fui pedir à Natureza.Na alcova desguarnecida. Que me desse um consolo a tantas dores. a doente Soluça como quem sente O fim nevoento da vida. na rua Pedro Américo. Esta versão parece confirmarse agora nestes sonetos. Buscando a morte que me aparecia Como o termo anelado aos dissabores. Minúscula. atribuindose a suicídio o encontro do seu corpo entre pedras de uma rocha. Beija-lhe a filha inocente.” 2 O mendigo desprezado Olha as estrelas e chora. 19-Batista Cepelos POETA paulista. . ao prefaciar-lhe Os Bandeirantes. Encaminhei-me à porta da Agonia. Corroído por chagas interiores. Mirando-a enternecida.

pela singeleza e espontaneidade da sua musa. que está na dor depuradora. Poeta. Cheia de tempestade e sofrimento. Rimas de Outro Mundo 1 Cheguei feliz ao meu porto. Tenebrosa. essa noite indefinida. pávida de medo. Quando terei os bens.Desvendando esse trágico segredo Que a alma decifra. sobretudo. 3 Sirva-vos de escarmento a dor que trago Na minhalma infeliz e sofredora. depois... 2 Ninguém ouve na Terra esse lamento Da minha dor imensa. o brando afago Da Luz. sim! depois de tantos anos De tormentos. Com ansiedade e temores dos galés. e aí desencarnou em 1937. Aqui somente ampara-me esse vago Pressentimento de uma nova aurora. Agora. rude. da qual foi um dos fundadores. incompreendida. Espero o sol de novas alvoradas De existências de pranto e de miséria. Minas. Popularizouse. No país do Pavor e do Tormento Onde chora a minhalma enceguecida. em meio aos desenganos. Para beber no cálix da matéria As essências das dores renegadas! 20-Belmiro Braga NASCEU a 7 de janeiro de 1870. Que me traria o bálsamo a esta pena Interminável. notário público. Iniciou-se na vida comercial e foi. em Juiz de Fora. Era membro de realce da Academia Mineira de Letras. Onde o não-ser. a paz calma e serena. soluço. clamo e ele me segue Nesse abismo que se abre ante os meus pés.. comediógrafo e jornalista nato. Este padecimento com que pago O desvio da estrada salvadora. dolorosa? Ninguém! Uma só voz não me responde! Sinto somente a treva que me esconde Na vastidão da noite tormentosa. Chamaram-lhe – “Rouxinol Mineiro”. Mas ah! que atroz remorso me persegue! Choro.. . Nas pavorosas trevas desta vida Em que eu julgava achar o Esquecimento.

. Sonha e chora. Encontrei paz e conforto Na vida. Goela aberta de um abismo Na estrada da vida humana. meu irmão. luta e morre Sem jamais o conhecer. 5 No mundo vale quem tem Um cifrão de prata ou de ouro. 7 Entre a fé e o fanatismo. Tem coragem. Jamais escapa ninguém! No Céu só vale o tesouro Daquele que fez o bem. Deus é Pai que nunca tarda No caminho da aflição. da morte ao sorvedouro. Que a morte é o fim. Eis as rimas de outro norte. ao padecer. guarda A fé do teu coração. 3 Quanta gente corre. 2 Com a ignorância proterva. o homem pensa. Muito espírito se engana: A primeira ampara e irmana. 4 Fecha a bolsa da ambição. Ansiosa atrás do prazer. Não há ninguém que se forre. Não corras atrás da sorte.Estou mais moço e mais forte. Sobre a Terra. O segundo é o dogmatismo. 6 Que tua alma em preces arda No fogo da devoção. Mas. Que escreve o poeta morto. Nas mágoas do mundo. Ah! feliz o que conserva As luzes doces da crença. depois da morte. corre. Julgando no talo de erva A paisagem linda e imensa. Venera a mão que te exorte Nos dias de provação. Ninguém se acaba com a morte.

Onde a prática desmente As ilusões do papel: Muita boca sorridente. Que. Esquece as inquietações. Recorda que tua vida É sempre uma grande escola. quem é nobre. Modera-te na alegria. na Terra sombria. Bilhetes Se tens o leve agasalho Do santo calor da crença. Não peças aprovação Do mundo pobre e enganado. Não vivas correndo a esmo. É uma ventura ser pobre. Toma posse de ti mesmo. Quem é rico. Não prendas o coração Nos laços da fantasia. Basta. Que a mulher siga a Maria. Muita fronte encanecida É fronte de criançola. 10 Na vida sempre supus. Sem muita filosofia. em prol do Reino da Luz. Inda é torre de Babel. Atapetados de espinhos. Acalma-te na aflição. Corações de lodo e fel.8 A Terra. Não perguntes ao passado . 9 Suporta a dor que te cobre Na estrada espinhosa e má. Que o homem siga a Jesus. Com a bênção que Deus nos dá. Vais procurar a ventura? Toma cuidado: os caminhos São crivados de amargura. Exemplifica o trabalho Sem cuidar da recompensa. No curso de aquisições. A essa estrada voltará. Recorda que o mundo vão É grande necessitado. para quem sente.

O caminho é ilimitado. A bonança É flor de sabedoria. Só não vejo desenganos Na estrada de Jesus-Cristo. 4 Bem pobre é a cabeça tonta Dos perversos e usurários. Que símbolo sacrossanto!. Age sempre com bondade. No impulso que te conduz. 2 Depois da miséria humana Sobre a Terra transitória. Alegre como ninguém. Tudo isso tenho visto. Não te aflijas. A mão terna do carinho Que vive espalhando o bem. Quem sobe é suor e pranto. Mentiras da vaidade. 5 É ditosa no caminho. Que morrem fazendo conta Nas cruzes de seus rosários. Quem desce é riso enganoso. pela dor. . Todo esforço com Jesus É vida na eternidade.Pela sombra. derrotas.. Quadras 1 Ai de quem busca o deserto De torturas da descrença: Morrer é sentir de perto A vida profunda e imensa. Eterna a fonte do amor.. Lastimo quanto se engana O ouro da falsa glória. 6 Angústias. Não te esqueças que a esperança É a bênção de cada dia. Não trazem ao coração A luz da felicidade. danos. 3 Dinheiro do mundo vão. Olha o monte luminoso.

21-Bittencourt Sampaio
SERGIPANO, nascido na cidade de Laranjeiras, em 19 de fevereiro
de 1834, desencarnou no Rio de Janeiro em 10 de outubro
de 1895. Foi político ativo, deputado por sua província em duas
legislaturas e Presidente do Espírito Santo. Diretor da Biblioteca
Nacional e jornalista de mérito.
A fonte de onde respigamos estes dados, aponta Poesias
(1859) e Flores Silvestres (1860), mas omite a maior das suas
obras, que é A Divina Epopéia, ou seja o Evangelho de João, em
magníficos versos brancos, tais como estes. Mas... é que Bittencourt
Sampaio foi, no último quartel da vida terrena, um dos mais
brilhantes e destemerosos paladinos da Revelação Espírita. E,
como tal, ainda hoje se manifesta, por dar-nos obras como Jesus
perante a Cristandade, verdadeiro poema em prosa. Reformador,
de 1937 (página 494), publicou-lhe a biografia.
À Virgem
Vós sois no mundo a estrela da esperança,
A salvação dos náufragos da vida;
A custódia das almas sofredoras,
Consolação e paz dos desterrados
Do venturoso aprisco das ovelhas
De Jesus-Cristo, o Filho muito amado!
Fanal radioso aos pobres degredados,
Anjo guiador dos homens desgarrados
Do Evangelho de luz do Filho vosso.
Virgem formosa e pura da bondade,
Providência dos fracos pecadores,
Astro de amor na noite dos abismos,
Clarão que sobre as trevas da cegueira
Expulsa a escuridão das consciências!
Virgem da piedade e da pureza,
Estendei vossos braços tutelares
À Humanidade inteira, que padece,
Espíritos na treva das angústias,
No tenebroso báratro das dores,
Mergulhados nas tredas tempestades
Do mal, que lhes ensombra a mente e a vista;
Cegos desventurados, caminhando
Em busca de outras noites mais escuras.
Legião de penitentes voluntários,
Afastados do amor e da verdade,
Fugitivos da luz que os esclarece!
Anjo da caridade e da virtude,
Estendei vossas asas luminosas
Sobre tanta miséria e tantos prantos.

Dai fortaleza àqueles que fraquejam,
Apiedai-vos dos frágeis caminhantes,
Iluminai os cérebros descrentes,
Fortalecei a fé dos vacilantes,
Clareai as sendas obscurecidas
Dos que se vão nos pântanos dos vícios!...
Existem almas míseras que choram
Amarradas ao potro das torturas,
E corações farpeados de amarguras...
Enxugai-lhes as lágrimas penosas!
Virgem imaculada de ternura,
Abençoai os mansos e os humildes
Que acima de ouropéis enganadores
Põem o amor de Jesus, eterno e puro!
Dulcificai as mágoas que laceram
Pobres almas aflitas na voragem
Das provações mais rudes e amargosas.
Estendei, Virgem pura, o vosso manto
Constelado de todas as virtudes,
Sobre a nudez de tantos sofrimentos
Que despedaçam almas exiladas
No orbe da expiação que regenera...
Ele será a luz resplandecente
Sobre a miséria dos padecimentos,
Afastando amarguras, concedendo
Claridades a estradas pedregosas...
Conforto às almas tristes deste mundo,
Porto de segurança aos viajantes,
Clarão de sol nas trevas mais espessas,
Farol brilhante iluminando os trilhos
De todos os viajores que caminham
Pela mão de Jesus, doce e bondosa;
O pão miraculoso, repartido
Entre os esfomeados e os sedentos
De paz, que os acalente e os conforte!
Virgem, Mãe de Jesus, anjo de amor,
Vinde a nós que na luta fraquejamos,
Ajudai-nos a fim de que a vençamos...
Vinde, piedosa Virgem de bondade,
Cremos em vós, na vossa alma divina!
Vinde! ... dai-nos mais força e mais coragem,
Derramai sobre nós o eflúvio santo
Do vosso amor, que ampara e que redime...
Vinde a nós! nossas almas vos esperam,
Almas de filhos míseros que sofrem,
Atendei nossas súplicas, Senhora,
Providência da pobre Humanidade!...

A Maria
Eis-nos, Senhora, a pobre caravana
Em fervorosas súplicas, reunida,
Implorando a piedade, a paz e a vida,
De vossa caridade soberana.
Fortalecei-nos a alma dolorida
Na redenção da iniqüidade humana,
Com o bálsamo da crença que promana
Das luzes da bondade esclarecida.
Providência de todos os aflitos,
Ouvi dos Céus, ditosos e infinitos,
Nossas sinceras preces ao Senhor...
Que a nossa caravana da Verdade
Colabore no Bem da Humanidade,
Neste banquete místico do amor.
Às filhas da Terra
Do Seu trono de luzes e de rosas,
A Rainha dos Anjos, meiga e pura,
Estende os braços para a desventura,
Que campeia nas sendas espinhosas.
Ela conhece as lágrimas penosas
E recebe a oração da alma insegura,
Inundando de amor e de ternura
As feridas cruéis e dolorosas.
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 134
Filhas da Terra, mães, irmãs, esposas,
No turbilhão dos homens e das coisas,
Imitai-a na dor do vosso trilho!...
Não conserveis do mundo o brilho e as palmas,
E encontrareis, em vossas próprias almas,
A alegria do reino de Seu Filho!
À Virgem
Do teu trono de róseas alvoradas,
Estende, mãe bendita, as mãos radiosas
Sobre a angústia das sendas escabrosas
Onde choram as mães atormentadas.
Mãe de todas as mães infortunadas,
Com tua alma de unos e de rosas,
Mitiga a dor das almas desditosas
Entre as sombras de míseras estradas.
Anjo consolador dos desterrados,
Conforta os corações encarcerados
Nas algemas do mundo amargo e aflito.
Ao teu olhar, as lágrimas da guerra

E os quadros de amargor, que andam na Terra,
São caminhos de luz para o Infinito.
22-Cármen Cinira
NOME literário de Cinira do Carmo Bordini Cardoso: nasceu
no Rio de Janeiro, em 1902, e faleceu em 30 de agosto de 1933.
Sua espontaneidade poética era tão grande que ela própria acreditava
serem os seus versos de origem mediúnica. Glorificou o
Amor, a Renúncia, o Sacrifício e a Humildade, em obras como:
Crisálida, Grinalda de Violetas, Sensibilidade.
Minha luz
Eu era, Dor, a alma rubra e inquieta,
A pomba predileta
Do prazer, da ilusão e da alegria...
Meu coração, alegre cotovia,
Saudava alvoroçado
O segredo da noite e a luz clara do dia,
Quando chegaste de mansinho,
Pisando sutilmente o meu caminho...
E eu te enxerguei, despreocupada,
Em meu engano, em minha fantasia:
Primeiramente,
Foste, austera e inclemente,
A um dos belos tesouros que eu possuía
E mo roubaste para sempre...
Em fúria iconoclasta,
Como o simum que arrasta
As cidades repletas de tesouros
Confundindo-as no pó,
Foste aos meus ídolos mais caros,
Destruindo-os sem dó.
Prosseguiste, ó divina estatuária,
Na tua obra silente e solitária,
E quebraste
Minhas cítaras de ouro,
Meus mármores de Paros,
Meus cofres de alabastros,
Minhas bonecas de biscuí,
Minhas estatuetas singulares...
E humilhaste
Meus sonhos de mulher e de menina,
Que eu pusera nos astros
Em meio às melodias estelares!
Mas, desde que chegaste,
Foste a sombra divina
Que acompanhou meus passos ao sepulcro...
Tudo sofri,

. Vindes das mais remotas altitudes De sublimados mundos luminosos!. Porque depois que vieste Qual pássaro celeste Para abrir rosas de sangue no meu peito. jamais traduziria O cântico de luz Que trouxestes ao leito da agonia Que eu transpus. Aos Espíritos consoladores Donde éreis vós... Seríeis o fantasma imaginário Da mórbida exaltação d'alma do crente? Não. pois. ó Dor depuradora.. Frontes aureoladas de esplendores. nos meus penares. Encheste a minha vida De um estupendo prazer. quase perfeito! Aos poucos me ensinaste a abandonar Meus prazeres fictícios. Cujas vozes suaves como brisas Trouxeram-me nas dores. O fanal peregrino Que me guiou constantemente Através das estradas espinhosas Para as manhãs radiosas Da Luz Resplandecente.. por te querer. ó Dor linda e gloriosa. nos sofrimentos rudes. Seres cheios de amor e de mistério. Vim pelas mãos da morte complacente Para a vida sublime dos Espaços!. Trocando-os pela luz dos sacrifícios! Por tudo eu te bendigo. De alma sofredora. . E com os místicos olores Das meigas sempre-vivas Da fé mais luminosa e mais ardente.Ó Dor. A irradiação de brando refrigério!.. Cujas mãos compassivas Ungiram meu coração resignado Com o bálsamo do olvido do passado. porque sois os cireneus piedosos Dos que vão em demanda do Calvário Da Redenção.... bendita. No auge do meu sofrer. ó formas imprecisas De arcanjos tutelares.. Pois da volúpia estranha dos teus braços. Seres do Amor. Sê. Porque representaste em meu destino.

que nutre e que agasalha Os corações iguais ao meu!. Repetindo as cadências dos hinários Dos orbes da Ventura e da Harmonia.. Eu mesma inda não sei Se é ventura morrer na flor dos anos. E não podia haver melhor definição.. Do desencanto e da desilusão!.. Minhalma é fraca e pobre ainda. Todavia. E vivo aqui.. Dai-me um pouco de luz da vossa glória. em qual esfera Viveis a vossa eterna primavera? Ó irmãos consoladores. Que vindes confortar os pecadores Penitentes da vida transitória.. Meus grandes desenganos. Estendei-me uma única migalha Da vossa paz.. Minhas futilidades pequeninas. Cigarra morta Chamam-me agora aí Cigarra morta. Cantando em demasia a carne inutilmente. de perfeito. Tenho sede do amor que enfeita o Céu! Espíritos da luz radiosa e infinda. Verto ainda os meus prantos comovidos Lembrando-me do vosso Stradivárius. Senhor. Sei apenas que choro O tempo que perdi. imortal. Para concretizar meu anseio de amor: Evita-me a saudade Da minha improdutiva mocidade! . Porque caí estonteada à porta Do castelo em ruínas. somente. glorificando o Amor Que d'alma faz um ninho de alegria E um foco de esplendor! Em que sol deslumbrante. De quanto idealizei De belo.... Dá-me força. Que inda hei de realizar Com a rima do meu verso e a gota do meu pranto.... grande e santo. Onde habitais. Quero ter dessa luz resplandecente. E quero embriagar-me inteiramente Com os vinhos da alegria celestial.Cheia de desenganos e gemidos!.

. Era uma vez Cármen Cinira. Por que cantaste assim a vida inteira. Cármen Cinira! Cármen Cinira! Que é da minha cigarra cantadeira? Embalde te procuro. Cigarra distraída do futuro? Perturbada. Calando amargamente. que mal se abrira Nos jardins encantados da ilusão. ó imortalidade Se na Terra eu te via Como a aurora divina da verdade. Já que tombei cansada de cantar.Eu não quero sentir. Perdoa. Era uma vez Cármen Cinira. E não cumpri à risca os meus deveres! A fagulha de crença . A falta das canículas doiradas Sob a luz de ridente primavera.. Aturdida. Busco a mim mesma aqui nestoutra vida. Estraçalhou-se para sempre Na voragem Das trevas. Uma suposta imagem Da perene alegria. Não julguei que inda a morte me abriria Esse cenário deslumbrante De outros sóis e de outros seres... Era uma vez. E vejo agora Que não amei bastante. Para ser uma abelha previdente. Como cigarra que era. Cheia de pranto e de melancolia!. Eternamente.. Sinto que a luz me guia Para a paz..... Deus de Amor.. dos abrolhos!. Um coração Cheio de sonho e flor. Onde estou.. Mas que trouxe em seus olhos. Mas.. Essa amarga expressão de alma doente.. o meu pecado: Que eu olvide a cigarra do passado. para um mundo de alegria.. onde estou? Minha vida terrena se acabou E sinto outra existência revelada! Não sei por que me sinto amargurada.

Deu-lhe o braço e falou-lhe com doçura: – “Vem ao Mestre que ampara os pobrezinhos. Experimento a grande liberdade! Todavia. Eu vi chegar o dia derradeiro Em minha dor. Que esclarece e conforta os sofredores!. ó juventude. E incendiar-me para ser luzeiro. ampara-me e protege Minha triste humildade! Eu te agradeço a paz que já me deste. Deixa que eu guarde ainda nesta vida Meu escrínio de estrelas da Esperança. Das flores perfumadas da virtude. Mas. Zelai pelo plantio. . Nossa alma sem repouso Traz o sinal das trevas do pecado. Mocidade querida que eu exorto. Senhor. Meu coração de carne. Porque me sinto em fraca segurança. Porque depois dos sonhos terminados Em nossos ermos e últimos caminhos. Devia transformar numa fornalha imensa De fé consoladora. viajor triste e cansado?” – “Venho da terra estéril da ilusão.. Quem me dera consolo à desventura!” Mas a fé generosa. ó Senhor da paz confortadora. humilde e mansa. Nossa alegria é um riso envenenado. E a morte me apanhou Como se apanha uma ave na floresta. Ah! quem me dera a bênção da esperança. Pois com o mundo uma flor tem mil espinhos.. Mas minha alma que é eterna está presente. Ai! como nos ferem os espinhos Das belas rosas rubras dos pecados! O viajor e a Fé – “Donde vens. De alma ferida e morto o coração. esse está morto.” – “Que trazes?” – “A miséria do pecado.Que eu possuía. Mas com Jesus um espinho tem mil flores!” O sinal Quando chegamos do País do Gozo. na máscara de festa. Mas eis que ainda te imploro comovida. À Juventude Juventude linda e ardente.

. ante os júbilos do povo. Rogando à morte a bênção do repouso Em terrível pesar! Ah! como é triste a imensa caravana. em plena rua. em vagas de perfume.. é diferente!. há corações ao lume E há sempre um bolo. Sua alegria é um fruto adocicado. lá fora. A verdade não tem voz.. Muita vez. Sob claro dossel. Sem a graça de um pão. cristalinos. harmoniosos.. Tu. Mas. Ralado de tortura e sofrimento. Une-se o noivo à noiva bem-amada. Há quem clama piedade e passa ao vento.... que aceitaste a luz renovadora. Dentro da noite. De cada lar ditoso se irradia A glória da amizade e da harmonia. sob a treva humana Sem consolo e sem lar. Beija o filho a mãezinha idolatrada.. Trazem o amor de todos os amores. Tudo é sombra.A palavra disfarça o coração E a nossa dor é desesperação. Há quem chora sozinho. Que segue. Mas os que vêm do Mundo dos Deveres Guardam a luz de místicos prazeres. Revelando na vida transitória O sinal do Calvário aberto em glória! Na noite de Natal Noite de paz e amor! Repicam sinos. tudo é queda dentro em nós. porém. Sob a crença imortal. Ao pé da multidão.. A estrela de Belém volta. Cantando a excelsitude do Natal!.. A brilhar. de novo. Doces. Em édenes fechados de carinho. Sua palavra é um livro iluminado. Nascem canções e flores de mansinho. Como tudo. Sua dor alivia as outras dores. De esperança e de mel.. Do Rei que se humilhou na manjedoura . Não têm palmas da Terra impenitente.. Há quem contempla o céu maravilhoso. O irmão abraça o irmão. a tristeza continua. Em festiva oração. aflita.

Para unir-nos no Amor. quase morta. Natal!. que ele sabia aproveitar no enobrecimento da sua fé.. Do azul imenso dos céus. ao fim da estrada. nem pousada Em nosso coração. qual a de haver perdido uma vista aos 14 anos. nasceu aos 14 de abril de 1880 e desencarnou em 1914. Era um espírito jovial e forte no infortúnio. na sua existência terrena. ao demais espírita confesso. Em vão buscando um quarto de estalagem. Oferece à criança abandonada Um velho cobertor. 23-Casimiro Cunha POETA vassourense. Desceu Jesus do Céu Resplandecente E imolou-se por nós. atingiria as maiores culminâncias do firmamento literário. Prossegue o Mestre.. em vão!. para de todo cegar da outra aos 16. Vem medicar quem geme na calçada!.. Há. . por acidente. Para tornar à luz. fraternalmente. apenas freqüentou escolas primárias. E encontra sempre a cruz. Que não podem sorrir.. de viagem. não teve maior projeção no cenáculo literário do seu tempo. mau grado à suavidade da sua musa e inatos talentos literários. Por não achar socorro. Na eterna luz Quando parti deste mundo Em busca da Imensidade.. Se tivesse tido maior cultura.. Temperado de amor. uma triste particularidade a assinalar. Órfão de pai aos 7 anos. Desce do pedestal que te levanta E estende a mão miraculosa e santa Ao desalento atroz. Há muita crença enferma.Para amar e servir. Volve o olhar compassivo à senda escura. Que só pede um sorriso brando à porta. Traze a quem sofre a lúcida fatia Do teu prato de sonho e de alegria. Um ninho pobre. Visita as chagas negras da mansarda Onde a miséria súplice te aguarda Em nome de Jesus. Vem amparar os filhos da amargura. Pobre. A alma ansiosa da Verdade. Fugi do pesar profundo.

Dessas mágoas escabrosas De um triste mundo de dores. Pois aqui existe o amor Nestas almas impolutas! Aqui existe a pureza. A meiga flor da Bondade. Aportai serenamente Nesta estância do Senhor. sempre lindas. Não se conhece a torpeza Da lâmina – hipocrisia. abrira os olhos Em meio de luzes puras. Confiado no amor de Deus. Aqueles que conheceram As feridas dolorosas. porém. Encontram nestas moradas Tão formosas. Compreendi que os abrolhos Que a Terra me oferecera. Luminosas. Em célico resplendor. Disseram-me então: – “Ó crente Que chegais a estas plagas. Cujo peito sempre amante Só conheceu dissabores. Eram mesmo a primavera Do meu sonho todo em flor. O aroma da Caridade Perfumando os corações.Lamentando os sofrimentos. Formados de amor e luz Do Mestre Amado – Jesus. os desalentos. Nas radiantes alturas. Provocando maldições. Fugindo das grandes vagas Do mar revolto das lutas. Arauto do Onipotente. Que mata toda a alegria. resplendentes. Ofertando-lhes tesouros: Os tesouros peregrinos. . Mal. Aqueles que já sofreram No dever nobilitante. As mágoas. Os clarões resplandecentes De afetos imorredouros! As almas imaculadas São flores das boas-vindas.

Nesta esfera iluminada. ó vivente. Das amargas provações. Alvoradas fulgurantes Do amor imenso de Deus. Que renegar eu tentara Como os míseros ateus. Acordai. Penetrarão sua mente. O grande Mestre do Amor!” Então. Contemplai-vos nesta vida. Que vossa alma ensandecida Procure a luz que avigora. Concede-vos neste instante A bênção dulcificante Do seu amor – doce aurora. . O Senhor sempre clemente. E feliz então busquei As bênçãos. Anjinhos Só vereis clarões de luz A despontar nestas almas. Venturoso. O Luzeiro da Bondade. Tão longe das grandes luzes. Pois agora na ventura Fruireis consolações. deificados. pois. Que aportais neste momento. a Jesus. O Mestre da Caridade. belos. Não vereis o sofrimento Retalhando os corações. Ó mães que chorais na vida Os vossos ternos anjinhos. pois. A nossa alma que erra.Os reflexos divinos Quais lírios iluminados. Tornadas em belas palmas Das mansões do Criador! Bendizei. abençoei A dor que amaldiçoara. eu vi que na Terra Em meio da iniqüidade. flores brilhantes. Sacudi o pó da estrada Que trilhastes na amargura. Na tremenda tempestade Das dores e expiações. Alvos. Só aproveita das cruzes.

Venturosos. Resplandecendo imortais Nos espaços deslumbrantes. Ascensão Perguntai à flor virente. perfumadas. São as flores mais formosas Das moradas de Jesus. Tão viçosas. Osculam-vos ternamente. O peito dilacerado. inocentes. Quais reflexos brilhantes Das celinas primaveras. Que com mágicos olores Perfumam vosso ambiente. . Reconhecei que na Terra Só se conhecem as dores. As frias noites sem luz.Que quais meigos passarinhos Cindiram o espaço azul. E os vossos filhinhos ternos. Os prantos. O coração desolado. Insuflando-vos coragem. Ao transpordes a voragem Do abismo negro do mal. Visitam os vossos lares Como gênios protetores. Ofertando-vos as flores Do seu afeto eternal. O que fazem cá no mundo. A alma tristonha e exul. Quais centelhas luminosas. os amargores. De outras rútilas esferas. Alegrai-vos. Pelas sendas desoladas Deste abismo tão profundo. De luzes esplendorosas Dentro em vossos corações. Em meio das luzes puras. ao verdes Quando partem sorridentes. pois. De pétalas multicores. Como fúlgidos clarões. Deixando-vos sem conforto. Eles farão despertar As alvoradas formosas. São mensageiros felizes Nas radiantes alturas.

E no Bem conquistaremos A suprema perfeição. A alvorada rutilante Da sublime perfeição. No sacrossanto abrigo Do afeto de Jesus.” Tudo pois. Depois. Só assim caminharemos Nessa eterna evolução. entre rosas. Essas flores perfumosas Responderiam formosas: – “Nós marchamos para Deus!” A ave que poetiza Com seus cânticos maviosos Vossos campos dadivosos Em beleza que harmoniza. Para a Luz e para o Bem. Caminhai sempre serenos. Ela vos retrucaria: . em ascensão. Entre lírios.“Caminhamos na alegria. Se perguntásseis também. de vida e luz. Marcha ao progresso incessante. Entre as rosas da Ternura.Como sorrisos dos Céus. Nessas trilhas luminosas. Consolando a desventura. buscar o amor Nas lúcidas alturas. Supremacia da Caridade A fé é a força potente . E ver depois a luz Da aurora de ventura. E após o sofrimento Ter gozo ilimitado. Espargindo a caridade. Segui pois. Quadras Ser cego e nada ver Na triste noite escura. irmãos terrenos. Chorar na escuridão Em dores mergulhado. É possuir tesouros De paz. Sorver dentro da treva O fel das amarguras. Entre os lírios da Bondade.

trazendo a luz. A esperança é flor virente. Ou capitoso perfume Que nos alenta na dor. Sepultado. Pura bênção redentora Do Senhor Onipotente. Alva estrela resplendente. Seja. Onde a alma é encarcerada . Nascendo. A caridade é o amor.Que desponta na alma crente. redentora. Que ilumina os corações. É o sol que Nosso Senhor Fez raiar claro e fecundo. peregrino. Nada empana o seu fulgor. Elevando-a aos altos Céus: Ela é chama abrasadora. Reluzente. Entrei no sepulcro escuro. Versos Vivi na mansão das sombras. Morrendo. Na noite das trevas densas. abençoada Essa fúlgida alvorada A raiar eternamente! Caridade salvadora. Desterrado. É que a vida material É a prisão. A caridade é a expressão Da personificação Do Mestre Amado – Jesus! A esperança é qual lume. Que conduz as criaturas As almejadas venturas Entre célicos clarões. Que irrompe. Refulgente. A caridade é uma aurora Que resplende a toda hora. Alegrando nesta vida A existência dolorida Dos que sofrem neste mundo! A fé é um clarão divino. Que nos eleva até Deus. E dele fugi feliz. pois.

Que mesmo dentro da treva Do mundo ingrato. belo. Mas aquela que te foge É dona da tua vida.Na aflição. Todo suicida presume Que a morte é o fim do amargor. Cheia de viço e frescor. A palavra que reténs É tua serva querida.. Onde as luzes recebemos Da Verdade. Pode existir a bondade Irradiando clarões. É realizada no mundo Da eterna felicidade. Símbolo Sobre a lama de um monturo Um branco lírio sorria. Quem sofre resignado. Via o símbolo do Bem Entre os males deste mundo. Pois entre as trevas e as dores Da vida de provações. Toda a esperança da fé. Verá decerto a bonança. E o coração que cultiva A caridade e o amor. É lírio resplandecente Do puro amor de Jesus. sem luz. Que vive com a caridade. Pensamentos espíritas Dobram sinos a finados. Sem saber que o desespero É porta para outra dor. Vendo essa flor cariciosa No pantanal sujo e imundo. Perfumando a luz do dia. . E a vida da alma é a nossa Liberdade.. Porque não sabem que a morte É a nossa libertação. Após a morte descansa Quem luta. Alvo. É a flor cheia de aromas. Com mágoa e desolação. delicado. sem naufragar.

Volve ao Céu todo piedoso. . surge a alegria Dourando a manhã do Amor. nasce a flor. de verdade e luz: Sem paradoxo. O gozo é o próprio martírio. Que se fez excelso Lírio Na devoção de Jesus. O beijo da morte Para quem viveu na Terra Em meio dos sofredores E somente frias dores No mundo ingrato colheu. desabrochar. Cresce o broto. Esperando uma outra vida Noutros planos.. Que na noite de amarguras As almas vem despertar. A alma encontra na Altura A luz. linda. portanto. A morte é a deusa celeste Da vida. depois da amargura Que a vida terrena traz. da plenitude. Deus cura todas as chagas Do mal que tens padecido. noutro mundo. Sombra e luz Vem a noite. O frio beijo da morte É o beijo da liberdade. O engano As vezes diz a Ciência Que a crença é engano profundo.Quem tem a flor da humildade. Seu beijo é um raio de luz Do dealbar das alturas. A vida terrena é a noite Que precede as madrugadas Das regiões aureoladas De amor.. Coração que andas ferido!. Que a alegria da Virtude Faz. a ventura e a paz. Tem o jardim das virtudes Da suprema perfeição. Assim. É um raio de claridade Que vem da altura do Céu. Medrando no coração. Vai a dor. volta o dia.

seculares. Nos dias mais tormentosos. São refletores Da bondade de Jesus. Venerandos. Flores silvestres da vida. Ciência amiga. Que perfumando o caminho Compõe um hino de amor.” Ao que ela replica. E frontes ébrias de gozos. Mas. Serás o sósia da Fé. filho. Mas as florinhas silvestres São apenas baloiçadas. filho. Caem copas opulentas. como esta flor: .. Mas se não for. Andarás ao lado meu. os humildes da Terra. Dentro da fé que os conduz. dormiremos. Mil árvores grandiosas Esfacelam–se nos ares Tombam gigantes da selva. poderosos: Arcas repletas de ouro. Não caem. Sê.. a floresta Varrida pelas tormentas? Partem-se troncos anosos. Que sobre o mundo derramam As graças dos dons divinos. Na selva da vida humana Caem grandes. De quem será esse engano? Será meu ou será teu?” Flores silvestres Já viste. Zune o vento? geme a selva? Não sabe a pequena flor. Se for sono. Imagem Dos bons e dos pequeninos. humilde: – “Mais tarde.. Continuando graciosas A tapetar as estradas. Não sabem se há tempestade De ambições e se há no mundo Leis de ódio e iniqüidade. Flores silvestres!. pois não é.E diz arrogante à Fé: – “Estás louca! A morte apenas É o sono eterno e tranqüilo Depois das lutas terrenas..

atento mesmo a sua banalidade. por assim dizer. eu sei da saudade Que te aperta o coração. O raio de claridade Da noite da minha vida. A ermida branca e suave De ternos. grite o mundo. Carlota é o nome da esposa do poeta cego. Vassouras!. . Teu coração generoso De amigo. O nosso amigo Moreira E a sua barbearia. Onde uma vez me encontraste Na minha noite sombria. no “O Pais”. A tua doce amizade A luz do Consolador. depois de casada. O mestre da Velha Guarda. Que eu via com os olhos d'alma. Dos nossos dias passados. Singelos e Aves Implumes são títulos de dois pequenos volumes de versos publicados em começos do século. que o médium não podia conhecer. Um céu azul e estrelado Cobrindo uns ninhos de amor. A minha pobre Carlota.. Que traduziam no mundo O meu pungente amargor. belas paisagens Cheias de vida e de cor. por acidente.Chore o homem. Detalhes cariciosos Da vida singela e calma. Meus pobres versos – “Singelos”. Palmilha a estrada do amor. irmão e mentor. Unida. Ao meu caro Quintão 8 Quintão. intimamente pessoal. forte e feliz. Árvores fartas e verdes Pela alfombra dos caminhos. também cegada de uma vista. Os artigos do Bezerra De outros tempos. Vida de encantos divinos Esta poesia singela e.. A companheira querida. foi recebida em circunstância s imprevistas e timbra episódios vemos de mais de 30 anos. doces carinhos. Que tão distantes se vão. “Aves implumes” da dor.

Toda aberta em flor e fruto De verdade e de bonança. É o templo da Caridade Em que a Virtude oficia. Derramando em toda parte O conforto d'Água Viva. Escolhidos? muito poucos. Pelas estradas sublimes Da santa paz de Jesus! Mas não sei onde a saudade É mais forte nos seus véus. O chamamento sublime Da Vida Espiritual. divina e forte. o véu.Ah! Quintão. Norteia-te em sua luz: Espiritismo é uma escola. a ganga. Necessário é discernir A mistura. Há sempre muitos chamados. Espiritismo Espiritismo é uma luz Gloriosa. ao cair. A luz da nossa Doutrina É sempre a lição que ensina A paz do caminho certo. É árvore verde e farta Nos caminhos da esperança. Muita vez a água do céu Torna-se em lama. E o Mestre Amado é Jesus. É uma fonte generosa De compreensão compassiva. É a claridade bendita Do bem que aniquila o mal. Aos companheiros da Doutrina Examinada de perto. Se pelas luzes dos Céus. Se buscas o Espiritismo. hoje os meus olhos Embebedam-se de luz. E onde a bênção da Bondade É flor de eterna alegria. Se pelas sombras da Terra. . Que clareia toda a vida E ilumina além da morte. O mal vem de ouvidos moucos Ou de olhos nevoados. Verdade é que o coração.

No bem que é bem substância Da crença que diviniza. e ação. hoje denominado Casimiro de Abreu. Feliz quem pode guardar A força de realizar Os grandes feitos da Luz. No Evangelho de Jesus. com 21 anos de idade. . Que no altar do coração Tenhamos o amor profundo Daquele que é a Luz do Mundo. o autor malogrado de Primaveras ainda aqui se afirma no seu profundo quão suave nativismo lírico. Penetra numa oficina De esforço. Figura literária das mais típicas do seu tempo. Suas composições possuem “um saboroso estilo colorido. acometido de tuberculose pulmonar. luta. – Eis meu desejo de irmão. sensível e personalíssimo” – disse Ronald de Carvalho. Mas buscando a perfeição Na perfeição de si mesmo. no então município de Barra de São João. Já não deve andar a esmo Nas estradas da ilusão. Portanto. desencarnou aos 18 de outubro de 1860. é nossa divisa Oração e Vigilância. na Fazenda de Indaiaçu. 24 Casimiro de Abreu POETA fluminense.Que abrace a nossa Doutrina.

Da melodia das fontes. Onde os cisnes da inocência Bebem o néctar do amor. Constantemente cismando. A infância.À minha terra Que terno sonho dourado Das minhas horas fagueiras. um lago tranqüilo Onde começa a existência. Igual a um canto sublime. De tudo me lembro e quanto! A transparência dos lagos. O dia. O pensamento sonhando E o coração a cantar. Os ramos das laranjeiras E das frondosas mangueiras Douradas à luz do Sol! Oh! que clarão dentro d'alma. A mocidade era um hino De melodias suaves. Na delicada harmonia Que nascia da beleza. Numa canção de alvorada. Do verde do lindo mar! Oh! que poema a existência De infância e de mocidade. As carícias. Cheio de aroma e esplendores Sob um céu primaveril. Formadas de trinos de aves E de perfumes de flor. A noite toda estrelada Após o doce arrebol. os afagos E os beijos de minha mãe! Dos trinos dos pintassilgos. Como uma estrofe inspirada Na noite e na madrugada. E na paisagem querida. Na tarde e no amanhecer. De ternura e de saudade. manhã ridente. No recanto das palmeiras Do meu querido Brasil! A vida era um dia lindo Num vergel cheio de flores. . Do verde da Natureza. De tristeza e de prazer.

Onde as gravuras são ninhos Estampados no verdor. Sem sombras de sofrimento. Recortada de palmeiras. namorados. se há saudades. Espero em horas fagueiras Um dia poder voltar. Não aniquila a lembrança: Jamais se extingue a esperança. Os pios das juritis! Se a morte aniquila o corpo. . Esperanças e alegrias.As nuvens nos horizontes Perdidos no azul do além. Amargura e dissabor. Onde há reis que são poetas. Também há dias dourados De sol e de melodias. com o peito ao vento. As galas da Natureza. Quando eu cruzava as campinas. Canções de eterno fulgor! A Terra é um mundo ditoso. Nunca se extingue o sonhar! E à minha terra querida. A Terra (Aos pessimistas) Se há noite escura na Terra. Um hino de força e vida Palpita em suas entranhas. O manto de luz da aurora. Jardim de risos e flores Rolando no céu azul. E trovadores alados. Onde as histórias são cantos De gárrulos passarinhos. Ecoa de Norte a Sul. Onde rugem tempestades. Os sonhos da mocidade. Se há tristezas. Heróis ternos. Um paraíso de amores. As frondes cheias de amora. Retumba pelas montanhas. Descalço. Num tempo doce e feliz! Os pessegueiros floridos. Livro de excelsa beleza Com páginas de esplendor.

. De negras e longas tranças. O dia todo é alvorada De doces encantamentos. Quem vive num éden desses. Perfumando as pradarias Com seu hálito de amor. O Sol o prado ridente. Pisando de manhãzinha A verde relva dos prados. E enche-se de esperanças Para sofrer e lutar. Revejo-te. A noite. em seus brancos véus! A tarde oscula as estrelas. Se há noite escura na Terra. Saudando a aurora que surge Como ninfa luminosa. De triste e rude carpir. Sabe encontrar a ventura Nesse jardim de pujanças. De aromas. De áureos sonhos no porvir!. Na estrada onde o homem passa.. deslumbramentos Da Lua. Também há dias dourados De juventude e esplendores. O prado perfuma os céus!. É sempre risonho e forte. Oferecendo-lhe graça.. Moreninha. Sorrindo. Teus lindos pés descalçados. Moreninha. risos e flores. Lembranças No sacrário das lembranças. Que se beijam luzidias. Abarrotada de dores. Os primorosos cabelos . trigueirinha. Desabrochando às centenas. Os astros o Sol-nascente.. Jamais almeja que a morte Na vida o venha tragar. A olhar-se toda orgulhosa No espelho do grande mar! Onde as princesas são flores. cheias de olor.Gargantas de ouro a cantar. De lágrimas e amargores.

Nas missas da capelinha. Fazendo-te mais bonita. Moreninha. Francisco Cândido Xavier . O teu samburá de flores Que levavas à igrejinha. Nos bandos de namorados. Moreninha. Lavando a roupa às braçadas. A placidez do teu rosto Com teus modos de avezinha. Quando te achavas sozinha. à tardinha. De rosas estampadinha.Parnaso de Além-Túmulo 174 Que terna recordação De minhalma se avizinha! De saudade. Quando o teu passo ia e vinha Em busca da água da fonte. De miosótis singelos. Desferidos à noitinha. Rainha da Natureza. . Tão faceira! tão formosa! Moreninha.Enfeitados. de paixão. A tua oração ditosa. Moreninha. Moreninha. Fitando a luz do sol-posto. Nos fios d’água fresquinha. Os teus risos adorados. Inda ouço os sons primeiros Da tua voz na modinha Modulada nos terreiros. Moreninha. O vestidinho de chita. Moreninha. Moreninha. Moreninha. Sob o luar prateado. O nosso idílio encantado. Teu vulto de camponesa Era o porte de rainha. Moreninha. Sob as mangueiras copadas. De olhar sedutor e insonte. Enchendo a nave de odores. Moreninha.

Na fresca sombra dos vales. Quero rever novamente A paisagem luminosa. Sentir a emoção grandiosa De tudo o que já senti!. Meus sonhos encantadores. E contemple as primaveras Da vida que já deixei.Parnaso de Além-Túmulo 175 Imensidades.. Concepções mais perfeitas No progresso que alcancei. quem me dera Rever-te. Ah! que eu possa hoje olvidar Francisco Cândido Xavier .. Minha terra. Ai! Ai! meu Deus. Beijar as flores singelas. meu Brasil! Escutar os sinos calmos Sob a alvura das capelas. esferas. Quero aspirar os perfumes Dos cendais cheios de flores. Deixai que me identifique Com os raios da luz de outrora. Moreninha. Que apenas o meu passado Eu possa alegre rever. dos escombros. Rainha da Primavera. Sentar-me no prado agreste. De convites à oração. Ouvir a voz da amplidão! . Enchendo as longes devesas. Minhalma retire as heras.Moreninha. Recordando Meu Deus. Sob a luz do céu de anil! Rever o sítio encantado Da minha estância de amores. Que eu sinta de novo a vida Na infância linda e ditosa. Daquela risonha aurora Do meu passado viver. deixai que eu me esqueça Da minha vida de agora. Mirar a luz das estrelas. Na alegria inalterável Do lugar onde nasci. doce rainha. Que das ruínas.

desencarnou a 6 de julho de 1871. Múltiplas vidas vivemos. Verto prantos de saudade A luz da recordação. Que tesouros não exalas. Na excelsa Imortalidade. Buscamos na Humanidade As verdades da Verdade. com 24 anos de idade. o mar. Da existência transcorrida Guardada no coração. Sedentos de paz e amor. sofrer. Francisco Cândido Xavier . E em meio dos mortos-vivos Somos míseros cativos Da iniqüidade e da dor. que ventura! Viver. o Sol. . e amar A campina.Parnaso de Além-Túmulo 177 25 Castro Alves POETA baiano. Revendo essa claridade. Toucar-se a alma das galas Da poesia inexprimível. céus azuis Ser homem e ser criança. o autor consagrado de Espumas Flutuantes exerceu nas rodas literárias do seu tempo a mais justa e calorosa das projeções. É a luta eterna e bendita. Que esperança. Nesta poesia sente-se o crepitar da lira que modulou – O Livro e a América. Marchemos! Há mistérios peregrinos No mistério dos destinos Que nos mandam renascer: Da luz do Criador nascemos. Procurando os passarinhos E as borboletas tafuis.. E dos cimos desta vida. Mocidade radiosa. Na carícia dessas falas Do passarinho e do Sol! Eu gozo de quando em quando. Oh! Natureza da Terra.Correr sob o sol-nascente Até que chegue o luar.Parnaso de Além-Túmulo 176 Campos verdes.. Francisco Cândido Xavier . Para à mesma luz volver. Da alvorada e do arrebol.

É a dor que através dos anos.Parnaso de Além-Túmulo 178 É a gota d'água caindo No arbusto que vai subindo. jamais visto. Anjos puríssimos faz. É a rija bigorna. mais galgar. A vida é luz. Pelas fainas do trabalho. Transmutando os Neros rudes Em arautos de virtudes. Deixando um aroma leve Na aragem que passa breve. Em reflexos perenais. Tudo evolui. Em Carraras de eleição.Parnaso de Além-Túmulo 179 Deus somente é o seu amor. expirando. A flor que. imagens. O fragmento do estrume. dos tiranos. Francisco Cândido Xavier . Na Terra. A enxada fazendo o pão. esplendor. Francisco Cândido Xavier . No sacrifício da cruz. Suas rútilas passagens Deixam fulgores. Dos algozes.Em que o Espírito se agita Na trama da evolução. . Em mensageiros de paz. às vezes se acendem Radiosos faróis que esplendem Dentro das trevas mortais. Que se transforma em perfume Na corola de uma flor. o malho. Nas madrugadas de luz. tudo sonha Na imortal ânsia risonha De mais subir. terna. Sintetizando a piedade. Pleno de seiva e verdor. Oficina onde a alma presa Forja a luz. O escopro dos escultores Transformando a pedra em flores. Portentoso. Cai ao solo fecundando O chão duro que produz. forja a grandeza Da sublime perfeição. É o sofrimento do Cristo. O Universo é o seu altar.

Desnorteados viajantes Dos Niágaras da dor! Francisco Cândido Xavier . Uma excelsa voz ressoa. Oh! bendito quem ensina. Lanço Cômodo no olvido E aureolo a fronte de Hugo! O cronômetro dos séculos Não me torna envelhecida. É a lição da humildade. Quem luta. É Anchieta dominando. “Tende fé. O fiel desconhecido.E cujo amor à Verdade Nenhuma pena traduz. Nas sendas do progredir. Sou morte – origem da vida. O grande conquistador. tende esperança. Sou balança do destino. É Sócrates e a cicuta. É César trazendo a luta. No Universo inteiro ecoa: “Para a frente caminhai! “O amor é a luz que se alcança. Tirânico e lutador. . “Para o Infinito marchai!” A Morte No extremo pólo da vida Diz a Morte: – “Humanidade.Parnaso de Além-Túmulo 180 Quem o bem e a luz semeia Nas fainas do evolutir: Terá a ventura que anseia. Francisco Cândido Xavier . Sou anjo dos desgraçados Que seguem na Terra errantes. Sou a espada da Verdade E a Têmis do mundo sou. A ensinar catequizando O selvagem infeliz. Prêmio ou gládio vingador. quem ilumina. De extremosa caridade Do pobrezinho de Assis.Parnaso de Além-Túmulo 181 Também sou braço potente Dos déspotas e opressores. É Cellini com sua arte. Ou o sabre de Bonaparte.

Estrela – estendo-te lume. Meu sonho é a evolução. Sepultura do presente. Ateio fogo aos canhões. Meu braço – a revolução. Nova aurora ou nova cruz. Minha mão abre a cortina Que torna o mistério em luz. Homem. ouve-me. sou compensação. Aos bons. Flor – oferto-te perfume. Oásis – dou-te o repouso. Consolo e alívio aos precitos. Se o cristal que imita o céu Da consciência tranqüila É o luzeiro que cintila Na noite do teu viver. Da alegria sou saúde E do remorso o amargor. Faço cair as nações Como fiz Roma cair. Austerlitz e Waterloo. Desde as eras mais remotas Coso láureas e mortalhas. Do porvir sou plenitude.Parnaso de Além-Túmulo 182 Sou prisão ou liberdade. Eu mando a noite da guerra Fazer o sol do porvir. Meu verbo é a lei da Justiça. Arremesso a minha espada. Luz da vida – dou-te o ser! Mas. sobre as descrenças. Francisco Cândido Xavier . E sobre a dor das batalhas Minha asa sempre pairou. se às vezes Simbolizo a guilhotina. E nos maus aumento os gritos De dores e maldição. E sobre a crença o esplendor. . O manto das trevas densas.Que trazem os sofredores No jugo da escravidão. Sou águia libertadora Que abre. Na absoluta eqüidade. E por trabalhar com Deus. também se a tirania Arvora-se em lei na Terra.

Bradou do cume dos céus Num grito piedoso e forte: “Não prossigas! Basta.Parnaso de Além-Túmulo 184 Conduzo seres aos Céus. Nem passado nem porvir. Francisco Cândido Xavier .Foi assim que fiz um dia. Agora é reconstruir. fria. implacavelmente.. Verás que sou a mão terna Que rasga abismos profundos. Horrenda. Que jamais teve presente.” Portanto. E junto ao vulto de Têmis Tomei o carro de Jove. Que espedaça os teus heróis. Abrir-te-ei meus tesouros. Fiz a Europa ensangüentada Ajoelhar-se humilhada. E mostra biliões de mundos. Cujo seio palpitante Guardar-te-á – paz e amor. Trucidei réus inocentes. Se às vezes se te afigura Que sou a foice impiedosa. Então. Olha o Sol de fronte erguida. E mostra biliões de sóis. Serei tua doce amante. Mirabeau. orgulhosa. Dos campos Saaras ardentes. Morte. homem. Até que um dia o Criador Sempre amoroso e clemente. E fiz o Oitenta e Nove Quando a França me ajudou. . se tens Por bússola o Bem na vida. À luz da realidade. Ao ver o trono imperfeito Estrangulando o Direito. Busquei Danton.Parnaso de Além-Túmulo 183 Diante de tanto horror. Das cidades fiz ossuários. Apaguei a luz do amor. Francisco Cândido Xavier . Espera-me com fervor. Sou ave da liberdade Que ao lodo da escravidão Venho arrancar os espíritos..

Que o reconduz à terra estremecida. Ama a cruz que te pesa sobre os ombros. E como faz às cidades. Em queda descomunal. Que em cada canto estruge e em cada boca Faz o soluço do ideal desfeito. Sem Jesus. Vence o deserto áspero e inclemente. Dou almas para a amplidão!” A Morte é transformação. mercê de um simbolismo inconfundível. no Estado de Minas.Elevando-os às alturas: Dou corpos às sepulturas. soube. Tebas. marcar sua individualidade literária. . adiada e emurchecida. Ansiedade fatal de que se touca A alma do homem mau e do perfeito. Poeta de emotividade delicada. Funcionário público. Todo o trabalho e dor da humana lida São luzes da vitória desejada. A esperança. Sobe da Terra pelo espaço eleito. Nascido na capital de São Paulo. O viajor errante encontra a estrada. Vai com Jesus! não temas! crê somente! Francisco Cândido Xavier . poeta e jornalista. Não temas Somente com Jesus a alma cansada Volve à praia do amor no mar da vida. Estrangulando a voz exausta e rouca. Francisco Cândido Xavier . Nínive. Revivem na velha Europa. Refloresce ao clarão de outra alvorada. Remodela humanidades No progresso universal. encarnou em 1861 e desprendeu-se em 1898. Sua vida foi toda dores.Parnaso de Além-Túmulo 186 27 Cruz e Souza CATARINENSE. Tudo em seu seio revive: Esparta. cresce a treva entre os escombros. A aflição inda é grande em cada dia? Não desprezes a Doce Companhia. Foi grande abolicionista e espírita militante.Parnaso de Além-Túmulo 185 26 Cornélio Bastos PROFESSOR. a 26 de setembro de 1844 e desencarnado em Campos em 31 de janeiro de 1909. Ansiedade Todo esse anseio que tortura o peito.

Numa imensa espiral. ermos de amores. Formando a rede eterna e incompreendida. sozinhos. sonhando.. Aluviões de peitos sofredores. . Coroados nas Luzes Deslumbrantes! Aos torturados Torturados da vida. As geenas do pranto acorrentados.. Revestidos de acúleos acerados. Esses pobres que o mundo considera Os humanos farrapos dos vencidos.Parnaso de Além-Túmulo 187 Heróis Esses seres que passam pelas dores. As perfeições eternas e supremas! A sepultura Como a orquídea de arminho quando nasce. Essa ansiedade é a mão de Deus nas eras. No turbilhão de todas as esferas!. Do monturo pestífero emergindo. Sonhando a mesma luz e a mesma aurora Que idealizais chorando nas algemas! Vibrai no mesmo anseio em que palpita A alma universal. Francisco Cândido Xavier . trêmulos. um passo adiante. Qual essa flor fragrante. estranha e louca. No turbilhão dos grandes desgraçados. como a face Dum querubim angélico sorrindo.. Sustentando o fulgor da luz da Vida. Nutrindo a luz dos sonhos superiores Nos ideais maiores esfaimados. Das ilusões. dos risos. Das dores e da lágrima incontida.. A brancura das pétalas abrindo. Como se a neve alvíssima a orvalhasse. bruxuleante. Sobre a lama ascorosa refulgindo. Abandonados. Prisioneiros da angústia e da quimera.Parnaso de Além-Túmulo 188 Chorai! que a imensidade inteira chora. aflita. Corações a sangrar. Infelizes na dor a cada instante! Sobre a luz que vos guia. Fulgem no Além os deslumbrantes ninhos. Nos desertos dos áridos caminhos. E além dos trilhos de ásperos espinhos. Mundos de amor no claro azul distante. das quimeras. sendo na Terra os esquecidos. São os heróis das lutas torturantes. Que são. Francisco Cândido Xavier .

Desse mundo de sombra e de agonia. Numa visão mirífica. e as traduções ditadas ao médium Francisco Valdomiro Lorenz. Forçando as portas da Beleza Eterna. que no-las remeteu. A alma livre contempla o novo dia. De lindos firmamentos estrelados. radiosas formas claras.. dominados De esperanças. anseios e alegrias. Francisco Cândido Xavier . Vê a aurora depois da noite escura. Com a alvorada da Paz. 9 Este e outros sonetos de Cruz e Souza foram por ele mesmo traduzidos magistralmente em Esperanto. A sepultura fria e tenebrosa É o berço de almas – senda de esplendores. deixamo-lo aqui registrado. Anjos da Paz. Evola-se a essência luminosa Da alma que busca o céu maravilhoso. sob o título: Vodoj de poetoj ei la Spirita Mondo. Essas traduções mediúnicas de versos em Esperanto foram publicadas em elegante volume. que a luz acaricia! Alma liberta. Longe das dores do passado incerto. Anjos da Paz Ó luminosas formas alvadias Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 189 Que desceis dos espaços constelados Para lenir a dor dos desgraçados Que sofrem nas terrenas gemonias! Vindes de ignotas luzes erradias. Assim também do túmulo asqueroso. ditosa e bela! Alma livre 9 Um soluço divino de alegria Percorre a todo Espírito liberto Das pesadas cadeias do deserto. redimida e pura. Céus distantes que vemos. E como o lodo é o berço vil de flores. Doces visões de etéricos carraras De que o espaço fúlgido se estrela! Clarificai as noites mais escuras Que pesam sobre a terra de amarguras.Parnaso de Além-Túmulo 190 Mergulhada no esplêndido concerto De outros mundos. “Gloria victis” Glória a todas as almas obscuras . superna. Penetra o mundo da imortalidade. Entre canções de luz e liberdade.. Por supormos fato inédito.Luz que sobre negrumes se avistasse.

Sem as doces carícias do galerno Das esperanças – sacrossanto amparo. Glória aos milhões de todas as criaturas. Mas lembra-te do orbe da impiedade. compassivos. Guardai a voz da Terra Prometida. É a lição luminosa da Verdade Que a Humanidade espera comovida. Glória Victis! Hosana aos desgraçados Que tombaram sem vida. Glória à pobre criatura desprezada. Como heróis dos deveres e das dores! Francisco Cândido Xavier . Onde venceste a carne soluçando. Nos sofrimentos purificadores. Onde a pobre esperança abandonada Morre chorando sob as desventuras. Sem conhecer a luz de uma alvorada. Oração aos libertos Alma embriagada do imortal falerno. Céu Há um céu para o Espírito que luta . O escuro abismo. redimidos. Cheio das luzes do porvir eterno. O teu destino esplendoroso e raro. Todo o nosso trabalho objetiva Dar-vos a fé. Segue cantando.Parnaso de Além-Túmulo 191 Nossa mensagem Essa mensagem de esperança e vida Que endereçamos da imortalidade. Sabei vencer entre as vicissitudes.Que caíram exânimes na estrada. Para os pobres Espíritos cativos As grilhetas do corpo miserando! Abre os sacrários da Felicidade. Mas não te esqueças desse mundo avaro. no horizonte claro. Sobre as ressurreições da alma gloriosa. Nos exílios do pranto e da saudade. Como arautos de todas as virtudes. aniquilados.Parnaso de Além-Túmulo 192 Volve os teus olhos ternos. a crença persuasiva Nos caminhos da prova dolorosa. Francisco Cândido Xavier . Sob a noite das grandes amarguras. o tormentoso Averno. Que o Céu é a pátria eterna dos vencidos. Conservai essa vaga claridade Da luz da eternidade indefinida. Onde aportam ditosos.

No qual o corpo morre e a alma vibrante Foge da noite das melancolias! Francisco Cândido Xavier . Considerai.Parnaso de Além-Túmulo 194 No silêncio de cada moribundo. e intrépido quisera Trazer-te a luz que esplende pela Altura. trêmula e acesa.No oceano dos prantos salvadores. É o augusto momento em que a alma. Beleza sossegada e silenciosa. até partires Nas asas brancas da Felicidade. Da alma livre das penas e das dores. Mensageiro Abri minhalma para os sofredores . presa Às cadeias da carne tenebrosa. Mas há quem guarde as gotas do teu pranto No tesouro sublime e sacrossanto Dos arcanos de luz da Divindade! Há quem te faça ver as cores do íris Da fagueira. Os deslumbrantes orbes da ventura Por entre os sóis suspensos no Infinito! Aos tristes Alma triste e infeliz que se tortura Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 193 No tormento que punge e dilacera. Abandona a prisão. Na paz quase integral e absoluta. luminosa. Que na Terra viveis como estrangeiros. Sentindo a vida de outra natureza. dorida e ansiosa. Para quem nunca trouxe a Primavera Dos seus pomos dourados de ventura. esperança. Afastando essa dor que te amargura Nas ansiedades de uma longa espera. fitando a imensa altura. A canção da vitória ali se escuta. Beleza da morte Há no estertor da morte uma beleza Transcendente. ignota. Há a promessa de vida em outro mundo. Um mistério divino há nesse instante. Da Luz branca da Paz. Que faz da vida a rede de esplendores. Céu repleto de vida e de fulgores. Sou teu irmão. De alma ofegante e coração aflito: Considerai. Que coroa de luz a alma impoluta. ó pobres caminheiros. Na mais sagrada das hierarquias.

Do Soluço. De benditas e eternas claridades. Bendita a hora em que me pus à espera De ser. do Gemido.Parnaso de Além-Túmulo 196 O missionário dessa Dor suprema! Noutras eras Também marchei pelas estradas flóreas. Dos Perfumes... Que surgem do pretérito de crimes.Na vastidão serena dos Espaços. etérea. Serás em toda a Terra o feio aborto Das amarguras e do desconforto. Mas um dia abrirás as portas de ouro E encontrarás o fúlgido tesouro. Francisco Cândido Xavier . das Preces e das Cores. funérea. Sofri na Terra junto aos condenados. mais escassos. Encarcerado nas sinistras grades. À dor Dor. Seres escarnecidos. Sob os teus pulsos. Serás na Terra o filho incompreendido Do Tormento casado com a Miséria. Tudo isso não vejo e vejo apenas O turbilhão das lágrimas terrenas – Taça imensa de gotas amargosas! Da piedade e do amor eu trago o círio. Dos prazeres mundanos esquecido. em vez do réprobo que eu era. E o mistério dos célicos abraços. Se queres Se queres a ventura doce. dos pecados. Para afastar as trevas do martírio Do silêncio das noites tenebrosas. Eu que na Terra tive sempre os braços Presos à cruz tantálica das dores. De outro mundo de luz. indefinido. Entre as prisões da Lágrima que exprimes! Da perfeição és o sagrado Verbo. torturados. E os prazeres mais pobres. Ó portadora do tormento acerbo.Parnaso de Além-Túmulo 195 Viverás na mansão triste. . do Pranto. Epopéias de Sons e de Esplendores. que redimes Os grandes réus. Outro Job pelas chagas da matéria. Aferidora da Justiça Extrema. Francisco Cândido Xavier . Os calcetas dos erros. fortes e sublimes. os míseros culpados. és tu que resgatas.

Foge à revolta. Nos horizontes. Do Bem encontrarás a eterna aurora. Para encontrar-me a sós no mesmo horto Que deixara. Sem reparar. recônditos pesares. humilha-o.. há sobre as humanas . Sofre Toda a dor que na vida padeceres. Doma o teu coração. Exaltai-vos na vida de minhalma. Sentindo as dores desse desamparo. Onde todas as horas dos meus dias Eram hinos de esplêndidas vitórias. Todo o fel que tragares. Chorando a mesma dor que o mundo chora. Serás pobre de luz se não sofreres. porém. e. De maravilhas de ouro e de alegrias. Ser-te-ão como trevas. Meus passados. dobra-o. e. Aves e flores. noutras sombrias Sendas tristes. O hino da luz.Parnaso de Além-Túmulo 197 Pois que a dor é a saúde dos prazeres. É que dos sofrimentos nasce o canto De alegria dos mundos e dos seres. no mundo que o mal encheu de cruzes. entretanto.Cheias de risos e de pedrarias.. E abusei dos deveres soberanos Sucumbindo aos terríveis desenganos Do destino cruel. Desdobrai-vos luzeiros estelares. vence-o. Abre a tua consciência para as luzes E. amplidões e mares! Vibrai comigo. fatal e avaro. Cantem no mundo todas as quimeras. Francisco Cândido Xavier . no silêncio. Exaltai minhas dores de outras eras. das dores meritórias.Parnaso de Além-Túmulo 198 Vozes Há sobre os prantos. Sobre o aroma das novas primaveras. Tive um passado fúlgido de glórias. misterioso e santo. multidões de seres. E na grandeza infinda que se espalma Sobre a glória sublime dos meus versos! Francisco Cândido Xavier . Na concretização desses prazeres Do meu sonho de luzes e universos. vibrai nos ares. nas atmosferas. sem luz e sem conforto. todo o pranto. Exaltação Harmonias do Som.

As segundas. Luminosa e divina. Nessa jornada eterna da Esperança. Gozadores de outrora entre as refertas Das ilusões que tombam fenecidas. Desce dos Céus a voz amiga e mansa. Só uma glória mirífica perdura Concretizando os sonhos da criatura Cheia de crenças e de cicatrizes: É a vitória da Dor que aperfeiçoa. Inda há sânie das úlceras abertas No coração das almas combalidas.Vozes que se lamentam nas torturas. Em torno da Verdade a alma gravita Buscando a Perfeição pura. Soneto Nos labirintos dessa eternidade Que nós vivemos luminosa e pura. suplicando. Remontando aos Espaços constelados. muda. Vendo na auréola da Imortalidade A alvorada risonha da ventura. Quanta vez Quanta vez eu fitei essas fronteiras. tanto mais se apura No pensamento excelso da Verdade. infinita.Parnaso de Além-Túmulo 200 . humilde e boa. que é pão dos infelizes. Silenciosa. Que é a existência na prova dolorosa. incertas. Canta e vibra num dia de bonança. As primeiras são feitas de amarguras. Francisco Cândido Xavier . Quanto mais sofre. Glória da Dor. Fortificando a vida da Esperança – Patrimônio dos seres desgraçados. A alma vive na intérmina procura Do filão de ouro da felicidade. Há o turbilhão frenético das vidas Sobre as estradas ásperas. Glória da Dor Para aquém dessas cruzes esquecidas Nas sepulturas ermas e desertas. Sobre as dores sagradas ou profanas Que pululam nas sendas mais escuras.. Outras vozes mais doces e mais puras.. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 199 E ao fim de cada noite tormentosa. Como um coro dulcíssimo de hosanas. Sobe da Terra a queixa soluçando. de bênçãos soberanas.

Presa de sonhos e estremecimentos De esperança. Das consciências libertas da impureza.. abafando os meus soluços. a qual para ser boa. estrelas. De bens paradisíacos se priva. O evangelho do amor e da esperança. que traz a verde oliva Da paz. Ide e pregai. Espalhai os clarões da vossa crença Na pedregosa estrada dessa imensa Turba de irmãos famintos. É a vibração do espírito divino. Toda luz da verdade que se alcança É um reduto de paz firme e segura: Dai dessa paz a toda criatura. Mão radiosa. A caridade é o símbolo da chave Que abre as portas do céu claro e suave. que acaricia e que abençoa. Sobre a qual vossa vida já descansa. Como folhas levadas pelos ventos. Manifestando as glórias da Beleza!. torturados! Francisco Cândido Xavier . Ensináveis-me a ler a Bíblia santa Desta vida imortal que se levanta Numa alvorada eterna de alegria! Ide e pregai Vós que tendes as rosas da bonança Enlaçadas na fé mais doce e pura. Ah! meus longínquos arrebatamentos. na noite da amargura. firmamentos. nas horas derradeiras!. Como o errado viajor que cai de bruços Sobre a íngreme estrada da agonia.Horizontes. Em seu labor fecundo e peregrino. Que vos fostes nas lágrimas ligeiras. Caridade Caridade é a mão terna e compassiva Que ampara os bons e aos maus ama e perdoa. Voz da eterna verdade que ressoa Por toda a parte... Quanta vez. Renúncia Renuncia a ti mesmo! Renuncia À mundana e efêmera vaidade: .. Amarguras e dores e canseiras.Parnaso de Além-Túmulo 201 Conduzi a mensagem luminosa Da caridade. Redentora de todos os pecados. Misericórdia. promissora e ativa. lúcida e piedosa.

Surdas batalhas. Tudo vaidade Na Terra a morte é o trágico resumo De vanglórias. de amor. que uma vida eterna e grande. E denodadamente engendra e cria Teu próprio mundo de felicidade! Parte o teu coração em mil fragmentos. A vida se alimenta de outras vidas. É ter no Além castelos de ventura. batalhas e tormentas. almas sedentas De paz. Não olvides em meio dos tormentos: – Renunciar em bem da dor alheia. Além da morte.. Nesse mundo de lutas fratricidas. Ofertando-os ao mundo que te odeia. míseras criaturas. de orgulhos e de raças. rudes e incruentas.. E sustentei.Parnaso de Além-Túmulo 202 Do homem. Francisco Cândido Xavier . Felizes os que têm Deus Entre esse mundo de apodrecimento E a vida de alma livre. Com a bondade mais pródiga e mais pura. Só a Morte abre a porta das mudanças E concretiza as puras esperanças Francisco Cândido Xavier . varado de amargores. esplêndida se expande No coração sublime das estrelas!. Prosseguindo na estrada luzidia. sob as maiores Desventuras do mundo.Que em ti sintas a dúlcida piedade Que as desgraças alheias alivia. Iguais às vossas. Num contínuo combate pavoroso. Que tombais nos caminhos sem dizê-las! Exultai. Tudo no mundo passa. Também senti as emoções violentas Que palpitam nos peitos sonhadores. Também vivi as lágrimas obscuras. como passas.. de alma pura. De que a morte voraz faz seu consumo. Todo o sonho carnal vaga sem rumo.. Entre as aluviões de cinza e fumo. esquece a lúrida maldade. .Parnaso de Além-Túmulo 203 Nos países seráficos do gozo! Ouvi-me Ó vós que ides marchando. sob as dores De misérias. de luz. Só o diamante do espírito sem jaças Fica indene de todas as desgraças.

ai da vaidade Que se mergulham sob a noite escura. Francisco Cândido Xavier . Noite de dor que além da sepultura Nos afasta da vida e da verdade. os companheiros Dessa falange lúcida de obreiros. Feliz o que tem Deus nessa batalha Da miséria terrena. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 205 Aos trabalhadores do Evangelho Há uma falange de trabalhadores. Rompe algemas de trevas e granito. no esforço do amor puro e bendito. Guardai-lhe a sacrossanta claridade. No bergantim sagrado da Esperança. sede o Verbo De afirmações da Luz e da Verdade.Parnaso de Além-Túmulo 206 28 Edmundo Xavier de Barros . Aliviando os seres sofredores.Parnaso de Além-Túmulo 204 Pode guardar esse deslumbramento Da Fé – fonte de mística ventura.. Desde as sombras do mundo amargo e aflito Aos espaços de eternos resplendores. Francisco Cândido Xavier . Na palavra e nos atos. ambição do mundo.Ainda se encontra a imensidade escura Das fronteiras de cinza e esquecimento. E esperai a vitória alta e suprema. Que vem salvar a mísera criatura Confundida no abismo da impiedade. seres infelizes.. sobre a Terra. que estraçalha Todo o anseio de amor ou de bonança!. Vós que sois. Só o pensador que sofre e anda à procura Da verdade e da luz no sentimento. Venturoso o que vai por entre as dores Atravessando o oceano de amargores. Glória aos humildes Ai da. Espalhada nas sendas do Infinito. Não vos importe o espinho ingrato e acerbo. Não maldigais a ulceração da algema. Só o caminho divino da humildade Pode ofertar a luz radiosa e pura. Pobres da Terra. Levantai vosso olhar sereno e forte. Que Jesus vos prepara além da morte. Cheios de prantos e de cicatrizes. É a caravana de batalhadores Que.

e desencarnado no Rio de Janeiro em 1918. Distinguiuse pela altaneza dos temas. Para ver a extensão da noite estranha e densa. Do inferno atravessar o abismo ígneo e fundo. Eu mesmo Eu mesmo estou a ignorar se posso Chamar-me ainda o Emilio de Menezes. nascido em 1861. e Poesias. Em derredor da Terra. 1909. Sem furtar-se. fumo e cinza ao fundo da cratera. as lágrimas e os sonhos... nem o fim! A vida. à luta que aprimora.EDMUNDO Xavier de Barros. filho de Pacífico Antônio Xavier de Barros. Morte.Parnaso de Além-Túmulo 207 Diante da Terra Fugindo embora à paz de eternos dons divinos. Musa vivacíssima e fulgurante.. Desencarnou no Distrito Federal. no Estado de Goiás. porém. Francisco Cândido Xavier . Que os servos da maldade e os filhos da descrença Estenderam. estrelas cantam hinos. versos satíricos postumamente colecionados.Parnaso de Além-Túmulo 208 29 Emílio de Menezes POETA brasileiro. Fala de tua luz aos mais vis e aos mais nobres. era sobretudo ativamente humorística. Foi poeta e desenhista notável. a vida eternamente. Continuam. Esvaiu-se a vaidade!. vibrando noutra esfera. porém. 1901. Renova o coração do mundo impenitente! Dize aos homens sem Deus. esquivando-se à aurora. Em cenário diverso aprimorando as cenas. Os júbilos e as penas. sem Deus. Há vida. A alegria que exalta e a dor que regenera. sobre a fronte do mundo!. nos círculos escuros. O homem é o semeador dos seus próprios destinos. . quanto pela opulência das rimas. como capitão da arma de Cavalaria.. Glorificando a luz onde a Verdade mora. Santificar a dor.. Legou-nos Poemas da Morte. o prazer e as ilusões terrenas São lodo. nascido em Curitiba. a fama. em 1866.. sem deixar de ser profunda. Vida Nem a paz.. sempre a vida. Que além do gelo atroz que te reveste os muros.... a vida apenas É tudo que encontrei e é tudo que me espera! O ouro.. em 17 de janeiro de 1905. desvenda à Terra os planos que descobres. Francisco Cândido Xavier . Mas no plano da carne os impulsos tigrinos Fazem a ostentação da miséria que chora! Necessário vencer nos vórtices medonhos. Ave triste da noite. além de Mortalhas.

que os pássaros te elevem Dos seus ninhos de plácida harmonia. as noites. Como hei de aparecer? O que é impossível É ser um santarrão inconcebível.. desencarnou com 34 anos. Pois na hora do “salva-se quem pode”. Muita gente nem fica de ceroulas. Fluminense. (Sempre vivi do sofrimento alheio) Relevai. Como hei de versejar? Rimas em osso São difíceis. a voz sonora e doce do Cântico do Calvário. de outras vezes. distante da garrafa. Nem há cheiro de carnes ou cebolas. Eu sabia rezar o Padre-Nosso E unir meus versos como irmãos siameses..Parnaso de Além-Túmulo 210 30 Fagundes Varela ESTE é o sempre laureado cantor do Evangelho nas Selvas. Evitai as comidas indigestas.. da liberdade. da perfeição.. Nas quais.. Hinos de amor. conservei-o. Espero-vos aqui com as minhas festas. Apesar do meu cérebro bestunto. Longe das anedotas indecentes. . Imortalidade Senhor! Senhor! que os verbos luminosos Do amor. Francisco Cândido Xavier . porém. Sou o Emilio.Procurando tomar o tempo vosso. Inflamem minhas vozes neste instante! Que o meu grito bem alto se levante. Francisco Cândido Xavier . Que nutre um corpo empanturrado e feio. que as promessas de um defunto São coisa inda invulgar no vosso meio.. Recitando epigramas descorteses. em 1875 – depois de uma existência tormentosa. Trazendo as luzes do Evangelho às gentes. o vinho não explode. as auroras.Parnaso de Além-Túmulo 209 Aos meus amigos da Terra Amigos. Conduzindo a mensagem benfazeja Das esperanças para a Humanidade! Senhor! Senhor! que paire sobre o mundo A luz do teu poder inigualável. Que os lírios te saúdem perfumando Os arrebóis. O elo que nos unia. tolerai o meu assunto. contudo. Como a quase saudade do presunto. Mas que não se entristece e nem se abafa.

. Empunhando o saltério da esperança. confundidas Entre estrelas igníferas. Francisco Cândido Xavier . nutre e dá vida.. desferindo Harmonias de amor e claridades. Somente o amor é a vibração de tudo! . Planetas como naus sem palinuros Nos oceanos do éter Infinito! Contemplei Vias-Lácteas assombrosas.Parnaso de Além-Túmulo 211 Resplandeça na terra da amargura! Ó Pai! tu que removes o impossível. Em lindos arquipélagos distantes.. O amor. Atravessei estradas tenebrosas E sendas deslumbrantes e estelíferas. Senhor! que a minha voz altissonante Se propague entre os homens. Habitei os palácios encantados.Parnaso de Além-Túmulo 212 Onde o solo é formado de ouro e neve. radiosas. Onde a treva e onde a noite são apenas Recordações de mundos obscuros! Onde as flores do afeto imperecível Não se emurchecem como sobre a Terra. Pude transpor abismos de ouro e rosas. Em retiros de amor calmo e sereno. E humanidades entre humanidades Povoando o Universo esplendoroso. somente o amor. redivivo!.. que a verdade Francisco Cândido Xavier . Que todo o ser no mundo se descubra Perante a tua excelsa majestade. Vastros portentosos. nesses orbes lúcidos. Que os meus irmãos da Terra me recebam Como o ausente invisível... Irmãos. divinos. Permite que minhalma seja ouvida Na vastidão do mundo do desterro.Que as fontes no seu doce murmúrio Te bendigam com terna suavidade. distantes. Descansei sobre as ilhas de repouso. Saturado do amor onipotente Que promana abundante do teu seio!. Lá. Visões de sóis eternos. eis-me de novo ao vosso lado! Venho de esferas lúcidas. Que transmudas em rosas os espinhos. E que espancas a treva dos caminhos Com a luz que afirma a tua onipotência. Sendas de sonho e báratros escuros.

Martirizando o coração dorido Na cruz dos sofrimentos mais austeros. Onde se sofre a angústia da distância Dos que amamos com alma e com fervor. Quando nos traz imácula e sublime A chama da esperança dentro d'alma. Rompendo o véu que encobre à nossa vista O eterno panorama do Universo. Se o mundo abafa em nós toda a alegria. Que te bendiga o espírito abatido.Vi céus por sobre céus inumeráveis. Um detalhe minúsculo.Parnaso de Além-Túmulo 213 E aponta-nos o céu. Amando-se da vida os bens mais nobres. Roubando-nos afetos e consolos. Onde se regenera no tormento Quem se afasta da Luz e da verdade. das dores. dos escravos Das aflições. A morte corrobora as nossas crenças. As nossas esperanças mais profundas. jubilosa. Outras almas guiando em labirintos Para a luz. Que é mensagem de Deus por toda a parte! E apenas conheci um pormenor. Onde as almas ditosas se engrandecem. da tortura! Bendigo-te por tudo o que me deste: Pela beleza da imortalidade. ante a grandeza De tantos sóis e orbes luminosos? É somente uma estância pequenina Onde a dor e onde a lágrima divina Modelam almas para a perfeição. um fragmento Da Criação infinita e resplendente. Ela é somente o exílio temporário. A Morte é o anjo luminoso Da liberdade franca. Francisco Cândido Xavier . Morte! que te abençoem sofredores. Quando a esperamos tristes e abatidos. É apenas um degrau na imensidade. a imensidade... Em luminosidades e harmonias Aos beijos arcangélicos da luz. para a vida e para o amor! Que representa a Terra. Pelos beijos dos seres bem-amados. Já que és a terna mão libertadora Dos escravos da carne. . Pela visão dos céus resplandecentes. Ah! Morte!. Mundos de dor e mundos de alegria.

Notável. Qual lírio a vicejar em meio a um pantanal. mais liberdade No orbe da expiação e da impiedade! Francisco Cândido Xavier . Oferecendo amor em flores de bondade. Pensando docemente a pútrida ferida Da imperfeição que rói a torva Humanidade. Iluminando o mundo. nascido em 1850 e desencarnado em 1923.. O meigo padre João. esplêndido e florido – Sentindo dentro d'alma um frio sepulcral. vemos. pela sua veia combativa e satírica. excelso. nas mesmas diretrizes. A noite era de sonho e névoa luminosa.Parnaso de Além-Túmulo 214 31 Guerra Junqueiro ABILIO Guerra Junqueiro. por sua produção de agora. a terra. Como um canto sublime de esperança. Sonhava ao pé da igreja – um templo envelhecido Ao lado de um vergel.Parnaso de Além-Túmulo 215 Uma luz singular nas dobras do passado. Aos pecadores dando amigas esperanças. imaculado. Padre João meditava. Iluminando a vida. E aumentando nos bons as bem-aventuranças. mas o fulgor das idéias. poeta português. . Era um vulto sublime. O firmamento Tingia-se de luz brilhante e harmoniosa. que os anos do alémtúmulo não lhe alteraram a sadia e lúcida mentalidade. Sobre a fronte de todos quantos sofrem. E esta circunstância é tanto mais notável quando o Romantismo se ufana de uma irreal conversão ín extremis. Um puro coração. desatando os grilhões Que prendiam a alma à carne putrescível. sobretudo. é assaz conhecido no Brasil como épico dos maiores da língua portuguesa e admirado por quantos não estimam na Poesia apenas o malabarismo das palavras. Que fazia descer o amor às multidões.Senhor! Senhor! que a minha voz se estenda. Era o meigo Pastor irradiando a luz. Uma réstia de sol sobre a noite do Horrível. orando ao Deus de amor: Revia em pensamento Francisco Cândido Xavier . o mar.. Inflamado de fé. O padre João Tombava o dia: A luz crepuscular Mansamente descia Inundando de sombra o céu. Ansiando mais luz.

E como se o animasse uma chama divina. Torturas a verdade. roubando a luz. Encheu a solidão com as vozes do seu brado: “Ó Igreja! não tens a idéia que eu sonhava. extraordinária.. a fúlgida visão Com aquele Cristo nu. os mares.. Imóvel dominando o âmbito vazio. Com o coração sangrando em úlceras de dor. túrbida e falaz. de amor. Notando a diferença enorme. o espírito gelado. E fitando. Padre João meditou nas lutas incessantes Sustentadas na Terra em prol da evolução. Conhecendo no padre o gêmeo de Caim. de eterna perfeição. E fugindo a correr da porta semi-aberta. Fitou extasiado a natureza em festa. Da igreja de Jesus.Era o Anjo do Bem. Por anos inclementes Em séculos sem fim. Crestando a fé. a ermida solitária. Teve medo e receio. De paz e de perdão. então. de pau. As árvores. . a flor. Afastado da luz. Tua mão não conduz As plagas da verdade Mantendo inutilmente a pobre Humanidade No mal da ignorância. inerte e frio. O sacerdote. Feita de amor e luz. o imáculo Jesus. Comparou. meditando.Parnaso de Além-Túmulo 216 Fugindo desse modo ao próprio amor de Deus. Penetrou soluçando a ermida então deserta. E no sonho da luz fulgente do passado. o céu estrelejado. fugindo aos irmãos seus. Sentiu seu coração em dores lacerado. matando a paz. O farol da verdade ao humano coração. Despiu-se do negrume espesso da batina. a luz eterna e rara Que nos vem de Jesus. Sentiu-se no seu templo um pobre emparedado. à natureza em flor. endeusas a matéria. Dourando os véus da carne e amortalhando o mundo Em trevas persistentes. E viu da sua igreja o erro tão profundo. E viu no mundo inteiro as ânsias delirantes De trabalho. a floresta. Encaminhou-se ao campo. Francisco Cândido Xavier . a chorar. Daquela igreja fria. A luz radiosa e bela.

Reunidas no lar caridoso e terno. Pipilavam febris no beiral dos telhados. Elevavam-se ao céu silenciosas. Crepúsculo. Como braços em cruz. desde a flor às luzes estelares. exótica e execrável. tardígradas do inverno. Eu quero palmilhar caminhos luminosos Que minhalma entrevê na aurora do porvir!” E o padre emudeceu.E transformas o padre em trapo de miséria.. nas preces da harmonia!. Sentinelas da dor nas regiões desnudas. Desprezo-te. Chegavam aos ovis as ovelhinhas mansas. Andorinhas gentis. Prefiro a liberdade e a vida no futuro. em busca dos seus ninhos! Repousavam. sangrentos nos trabalhos. Achou mais belo o céu e o seu viver mais santo. mudas. relicários da essência . Francisco Cândido Xavier . Era o festim do amor. Almas puras. em rimas soberanas. As árvores senhoris. Exalando. Que celebrava A grandeza de uma alma que voltava Ao redil de Jesus. no amor. A Natureza inteira em lúcida poesia Repousava.Parnaso de Além-Túmulo 218 A asa ruflando inquieta. Horas de solidão. Eu vejo-o.. Os risos dos aldeões e as orações das crianças Casavam-se formando. Submergido em pranto. Canções de oiro e de sol das almas virginais. Pelas planícies ledas. os colibris doirados. os meigos passarinhos Recolhiam-se à pressa. despidas dos seus galhos. Na piedade. No firmamento em luz. Horas quedas. em flor. Num fantasma ambulante em treva interminável! É um blasfemo quem crê que em teus nichos e altares Guarda-se a essência pura e imácula de Deus. Pairava na amplidão estranho resplendor. Francisco Cândido Xavier . a sorrir. E eu quero abandonar a noite da prisão. que nascem das choupanas. na imensidão dos céus! Ó Igreja! o dogma frio é um calabouço escuro. ó torreão de séculos trevosos. tremendo. Guiando-me o farol da fúlgida Razão. o aroma dos trigais. Caridade Caía a noite em paz. feliz.Parnaso de Além-Túmulo 217 Num farrapo de sombra. Ruínas de maldade estúltica a cair. Os poemas de luz.

. Cujo sonho é candura e a vida uma epopéia De louvores à dor. por entre os negros mantos De espessa escuridão. do amor e da inocência.. Era como a piedade iluminando o mundo. Francisco Cândido Xavier . à lide que os consome. Que agasalhasse o pobre e que desse ao mendigo Um frangalho de pão e um momento de abrigo. O castelo real e a cabana do pobre. a imensidão do espaço. De quem ama a existência plácida da aldeia. Caía a noite em paz. Que vão cedo ao trabalho. imaculada e pura. a Lua Rolava na amplidão como cabeça nua.. Que levasse o amor onde faltasse o lar. de cândida frescura. Suas faces e a fronte. Pesava toda a dor que o mundo inteiro cobre. Quando vi resplender nas bandas do ocidente Uma excelsa visão. Que derruba os casais e come o pão das searas.. sentia a dor dos que não têm carinhos. de prantos!. cortando. . Que estendesse o seu manto aos ombros da miséria. A dor que faz da Terra um ninho de infelizes. Que vibrasse. Filhos da obediência. de exaltações. Como poça de sangue. Em mim. Era bem a visão da mágoa e da invernia. Sem temer a hediondez das negras horas mortas. Pedindo a soluçar um caldo negro às portas! E sondava o amargor dos operários rudes. fulgente como a luz Que dimana do amor divino de Jesus! Seu luminoso olhar. onde andasse o penar. esplêndido e profundo. Vivendo a vida doce. que anda nas meretrizes. anhos de mansuetudes. Que palpita nos reis. Deixando a casa entregue às penúrias da fome. Que pusesse suas mãos benévolas e puras Sobre o abismo voraz de tantas amarguras. Onde sobrasse a angústia. Almas feitas de luar. Sinistramente. O silêncio pesava impressionante e enorme! Nevava quase e a treva espessa e fria. Enchia-se o ar de gelo igual a açoite de aço. que andava mansamente: Tinha nas mãos de luz ramalhetes de lírios E no olhar a expressão de todos os martírios: Digna como um juiz. Que se vão de longada ao longo dos caminhos... alvas como alabastros. horrendamente informe. A dor que dobra e vence as multidões ignaras.Parnaso de Além-Túmulo 219 E eu pedia ao Criador da imensidade etérea.Da verdade e do amor.

que ampara a dor e vela os sonhos darte. Abranjo em meu amor a alma dos continentes. eu ouço Do palácio o carpir e os ais do calabouço. creches e orfanatos. Deixo Cristo na cruz para encontrar com Judas. Francisco Cândido Xavier . Para mim. Sou o farol da legião dos pobres sofredores. adornando as campinas.. E quando a tarde chega. Estou dentro do templo e dentro dos prostíbulos. Amo o goivo e o lilás.Parnaso de Além-Túmulo 220 Pareciam do alvor das estrias dos astros. consolando a miséria. Quem és tu? – murmurei. talvez. Para levar a luz. em vez do sono à sesta. como adoro as boninas Que se entreabrem na estrada. pão e luz. e as aves da floresta. ando por sobre as ondas Do oceano a rugir sob meus pés de névoa. Amo os bons e protejo as almas vis e hediondas. como idolatro as crianças. Sem toques de clarins e sem espalhafatos. que. não existe a classe.. Vou ao cárcere escuro. Amo o labor da ciência e amo a existência honesta Do ingênuo lavrador. engendra a paz das searas. As rosas festivais das frescas alamedas. chama-me em altos brados No turbilhão de horror de todos os pecados. . É por isso. Desço ao antro abismal e ascendo aos minaretes. balsamizando as dores. Visito os hospitais. Enche com o seu trabalho as lindas manhãs claras. Vou onde haja a miséria e pranto de infelizes. Como pairo a sorrir por cima de um monturo. Conduzo com avidez o lúcido estandarte Do bem. entro nos palacetes. as mágoas e esperanças. Levo sol.. Amo o trabalhador. comovida. Amo a fera bravia. Emitia esplendor sua túnica de arminhos. como amo o luto e a festa. e com ansiedade levo-a A quem. Guardo comigo a dor.Francisco Cândido Xavier . Confortando o amargor. nas aflições. Emissária de Deus a toda a Humanidade: Pairo por sobre um ser resplandecente e puro. Idolatro os senis. a seita e as gentes. Ando por toda a terra. – “Meu nome é Caridade. Vivo fora do plano imundo da matéria. que. Desço das vastidões dentro das horas mudas. Dissolvendo os cendais das trevas dos caminhos!. Atravesso o oceano e atravesso os países.Parnaso de Além-Túmulo 221 Que abarrotam de olor as primaveras ledas..

Subo da Terra ao Céu. Amo o templo e amo a escola. Não me regem as leis que regem um país. Onde criaste o ideal e a inspiração divina. Minha missão é amar. cheias de sentinelas. a forca e a guilhotina. E se alguém reclamar. Amo o bem que alivia. O homem pôs o missal. Mate-se a mocidade. ponha-se a honra ao prego. Se o estrangeiro chegar – Bailes nos ministérios! Músicas sobre a dor. Nunca a lisonja fiz. há canhões na Alemanha.Parnaso de Além-Túmulo 222 Vai! consulta as prisões e consulta a polícia. as batinas e a estola. O homem fez barregãs que se vendem nas feiras! Onde andaste a criar a cidade e os impérios. De nada serve o livro a um povo sempre cego. Onde foste ensinar cantigas às ceifeiras. Lodo fenomenal de descrença e malícia. Para que se não veja a ruína e os cemitérios. Que brada sem cessar: – “Inda grita a canalha? Abra-se-lhe a prisão. flores sobre os lameiros. E a tola sociedade É o nojento paul da criminalidade. que se açoite esse povo! Alguém. há mosteiros na Espanha. Onde puseste a luz. jogue-se-lhe a metralha. Não conheço nações. – Por que volves ao mundo? O mundo é o mesmo caos. espalhe-se ignorância. Propague-se impiedade. causa nojo a política.Ao pé do altar da fé. nem quer o amor do próprio Deus! O homem não se mudou. Se o canhão não chegar. que reclamar. asfixie-se a infância. A Humanidade é a mesma. pague um tributo novo. no sopé dos patíbulos. Fez a bomba explosiva. morre o amor. nem recebo homenagens. corro do brejo aos sóis. Oro em qualquer lugar.” “Caridade! – tornei. Não conheço horizontes. alma de fariseus. nos montes. onde fundaste a escola. Ressumbra asco e pavor a velha sifilítica. Trato com o mesmo amor os cultos e os selvagens. Onde existe o grilhão dentro de escuras celas. nas ermidas. amo o bem que consola. Jamais pude escolher entre Roma e Paris. transudando a miséria. como osculo os heróis. E se o povo chorar. Beijo um cadáver nu. Celas que são prisões. A sociedade vil é quase a mesma Impéria. Ele fez podridões de imundos cemitérios. . Morre o bem. Francisco Cândido Xavier . Rindo na podridão. o mesmo charco imundo. Que não te quer. E se a fome vier.

o Papa o oiro vil. entre más soberanas. Nunca aos concílios foi dar suas opiniões. Não lê Anacreonte e ignora Petrarcas. Nunca reza em latim. Para o seu labutar. amigo. corre o fecho às janelas. Eu só quero saber onde há miséria e luto. Jamais focalizou questões eleitorais.. morre sob pauladas – E à podre sociedade é igual a religião. nem sabe discernir Qual deles foi maior. Não reconhece a lei que emana dos monarcas. eu não sei. nem más literaturas. nunca fez procissões.Girândolas ao ar. Se o nome de Mafoma é o mesmo que Maomet. Não vai à Terra Santa em peregrinações. Se houve no tempo antigo uma arca de Noé. Almoça e ceia o luar. Que encarcera o ideal dentro da Inquisição! Principalmente Roma. Francisco Cândido Xavier . o Papa a Rotschild! Que queres. Jamais toma lugar para fazer sermões. Somente lhe interessa a sorte das criaturas. Para fazer o bem. aromas os fedores. Ao raiar a manhã. Se a Patti cantou bem pelas festas mundanas. Nunca soube enxergar se há Lutero e Jesuítas. toque-se para a missa. Fogo a quem mendigar! morte a quem tiver dores!. Se viveram maus reis. Nunca soube notar. Passa no mundo a pé. não discuto. honras aos forasteiros! Cubram sedas a lepra. toma vestes singelas. Que esta plebe é de cães.Parnaso de Além-Túmulo 224 De fulgentes milhões para humilhar o pobre. poeta! A alma da caridade Abomina o rumor que alimenta a vaidade. Demonstrando o conflito entre Jesus e o Papa: Jesus amava a luz. Não entende Voltaire. Se Calígula quis endeusar um cavalo. Não vai a Roma ver o Papa que se cobre Francisco Cândido Xavier . Sacrifica um Abel para aceitar Caim!” . Raciocina. se Goethe ou Shakespeare.“Antes de tudo. Se houve o pincel de Goya e o buril de Bordalo. jamais anda de sege. Sabe somente ver as dores infinitas. . que esta plebe é submissa. a esta nada escapa.Parnaso de Além-Túmulo 223 E esse povo infeliz dorme pelas calçadas. Nem sabe distinguir entre um pária e Carnegie. Caridade? o mundo é sempre assim. Jesus amava o pobre.

Caçando o pranto e a dor dos pobres desgraçados. Sopa para matar a fome dos famintos. Sabe rasgar o peito. E escrever com seu sangue a Justiça e o Direito! Sabe o amor. Reconhece na treva a fonte dos pecados E abraça com carinho os grandes torturados. Procuro a pomba e a fera. Nem problemas sociais. nem divisa a ralé. Sabe onde falta sol. Necessário é que eu siga em minhas romarias. A alma da caridade Sabe endeusar a luz e adorar a verdade. recôndito e diverso. água e calor nos ninhos. Existe no Universo. mágoas. as aves e os reptis. melros e cotovias. nem dogmas de fé! Rejeita a excomunhão. Onde se mete a flor excelsa da virtude. Sabe amar e querer flores e passarinhos. Necessário é lhes leve a vida e a liberdade. corre por toda a Europa. Os mendigos e os reis. Entra no lupanar. Sabe somente que ama e também que perdoa. Para buscar a dor da orfandade que chora. Mendigando uma luz e um bocado de sopa. Não conhece opinião. Não lhe pode abalar a opinião da crítica. Nem no ambiente hostil e estreito das igrejas. Se tua alma quiser inda encontrar-me um dia. Corre. É preciso que eu vá visitar os covis.E não vai desfolhar misérias nos jornais. desde o nascer da aurora. donde foge a alegria. Amparar o chacal. jamais amaldiçoa. Nunca viu povoléus. dor. sem se cansar. Vou subir a colinas e descer aos valados. segue a Nosso Senhor! Anda no Novo Mundo. Foge da discussão. misérias. Chama-me o sol redor. Olha sem se anojar. onde escassa é a saúde. . Que falta o amor e o pão. Vai a todo lugar. os palácios e os ninhos! Francisco Cândido Xavier . Desce ao antro sem paz. chama-me a orfandade. Que ouvem as tentações do beiral das estradas. não está nas pelejas.Parnaso de Além-Túmulo 225 Tem abnegação. Sabe apenas que há pranto ao longo dos caminhos. Luz para desfazer a baixeza de instintos. Procurando os pardais. Não existe num mundo. Poeta amigo. Vai sem medo e receio à lôbrega mansarda. Tenho muito a prestar às ovelhas transviadas. não lhe estorva a política. adeus! Há muito que me espera A imensidão da dor. Sabe o bem.

árvores..Onde tarda a saúde e onde o conforto tarda. Estou com o lavrador na tarefa das searas. Como as aves gracis em vôos nos trigais. noite de desventura! Francisco Cândido Xavier . Na esmeraldina cor do colo dos jardins! E Deus que fez o Sol e a candura das crianças. Minha missão é amar os vermes e os países!. tomo o arado e a charrua. Pobrezitos sem pão. misérrimas. fustigadas de pranto. esquálidos e nus. urnas de lama e pus. Entoando a sorrir mil ditirambos de oiro. Criou a dor clareando a escuridão da vida. Porque o pranto é que lava as manchas e os negrumes De almas torvas e vis. Espargindo dos céus as glicínias formosas. Corpos de podridão. e aos olhos da minhalma.” Muito tempo passara e a noite inda era escura. que se evolam dos ninhos Dourados pelo sol dalvorada do amor! Mocidade no abril resplandecente e loiro De noivado e canção das almas virginais. Harmonias sutis.) Não sabeis.Parnaso de Além-Túmulo 226 Foi-se a linda visão. O inverno e o pesar.. Repartindo o seu pão de carícias divinas.. Existências em flor. Para guiar os maus. não sabeis. mesquinhas. Anjos açucenais que a miséria devora. Como do seu farnel. filhas que adoro tanto.. Há risos e esplendor e há prantos.Parnaso de Além-Túmulo 227 A alegria taful das manhãs harmoniosas Em que maio desfolha os cravos e os jasmins. E se fez a bondade envolta de esperanças. Vai às roças louçãs nas alvoradas claras. filhas minhas. fruto e flor. Lá me ponho a lidar e de lá volto à rua.. Lírios no lamaçal das grandes desventuras. dissipando as neblinas.. há aroma e luz na beira dos caminhos. para guiar felizes. Fez também o soluço e a lágrima dorida.. Francisco Cândido Xavier .. Noite de neve atroz. Almas na escuridão da noite sem aurora. Cantos de rouxinóis. Calcular a extensão de tantas amarguras. Tudo voltou à paz silenciosa e calma!. No entanto. a Terra. O mundo famulento. . parecia O planeta da sombra e a mansão da agonia! Romaria (Passeio matinal) (Fim da poesia inserta em Poesias Dispersas.

pois. Francisco Cândido Xavier . Que o grão de areia une ao roble secular. também. Conduzamos conosco a luz da Caridade. Cheios de sânie e pus. . Perpassam colibris. Dando consolo à dor. O amor que fraterniza. O sol primaveril da graça de Jesus! Eterna vítima Na silenciosa paz do cimo do Calvário Ainda se vê na cruz o Cristo solitário. a Caridade e a Crença. Em que há músicas no ar e olores nas estradas. chilreia a passarada. Paira o clarão do amor. Que sublime conduz aos planos celestiais. das lepras mal cheirosas. à treva a luz da aurora. Saúdam o alvorecer as vozes das ovelhas. Filhas que Deus me deu. traído e calmo. sem pátria e sem abrigo. edênico e sem par. Aproveitemos.. por este mundo afora.Parnaso de Além-Túmulo 229 Vinte séculos de dor. Oferecendo o Bem aos pobres pequeninos.Parnaso de Além-Túmulo 228 Que chorando se vão. Ébria de aroma e luz das flores orvalhadas. de pranto e de agonia. Hora em que a Terra acorda em haustos de esperança. Ofertando com amor a toda a Humanidade Esse pão divinal que é dos trigais divinos. com os corpos cancerados. silencioso. Abandonado e só na aridez da colina Sofre infindo martírio a vítima divina. Sobre o escuro.. Que faz da Caridade a flama da Virtude. Que liga o verme ao mar. Um coração que sofre é chama que se eleva Da túrbida hediondez dos pantanais da treva. Tenhamos a noss'alma em delubros de luz. Que irmana a fera e a rosa. Compondo o hino de sol de esplêndida alvorada! Partamos nós. comigo. porém. esta hora calma e mansa. Às regiões da glória intérmina da luz. Zumbem sofregamente as trêfegas abelhas.Transformando-as em luz e em vasos de perfumes!. as aves e os chacais. Açoitado. Represam-se no olhar do Filho de Maria. A paz à guerra e à luta os lírios da bonança. vinde alegres. Espalhemos a Fé. Vinde comigo ver a dor dos desgraçados Francisco Cândido Xavier . o amor que dá saúde. Nutrindo o coração na fonte da esperança. E acharemos no fim da romaria imensa. A lágrima da dor é estrela que transluz. que une a pomba às rosas.

Os nobres doutro tempo. Dois mil anos de dor. valentes brasonados. as lutas e a chacina. depois. ensangüentado. Lobos. E puseram-se a rir do louco supliciado! O Cristo continuou. na cruz. Consola a multidão com o seu olhar piedoso. calmo e silencioso. Artistas e histriões. Desolação e horror.Parnaso de Além-Túmulo 230 Inda vieram. poetas e trovadores. Caravanas de reis nos tronos passageiros. turbas de gozadores Francisco Cândido Xavier . e os seus cruéis algozes Passaram sem cessar como chacais ferozes. a guerra e a fome. sim. O Mestre prosseguiu. aqueles que em seu nome Espalharam a treva. Nobres de sangue azul nos seus mantos dourados. partindo como tantos. Mas os soberbos reis e césares antigos. Inscrevendo com fogo as máximas das leis. A um padre (Versos a um agressor do Espiritismo) Ó padre lutador. Cavalheiros gentis. Castelãs juvenis. mataram-se os irmãos. Temos fome de paz e sede de perdão!” E o Mestre da bondade. humilde e silencioso. Viram-no seminu. o anjo da virtude. procurai santamente Apregoar ao mundo herético e descrente . E na época atual a caravana estranha Estaca no sopé da árida montanha. agora transformados Nos párias do amargor. sublime e silencioso. Estende o seu perdão cheio de mansuetude. Hoje mais nada são que míseros mendigos. no topo do Calvário.Da Terra ao Céu espraia o seu olhar piedoso. na capa dos cristãos. Contemplaram Jesus no cume da colina. Exaltados na voz das trompas dos guerreiros. Sábios do tempo antigo abrindo os livros santos Olharam-no também. Espraiando na Terra o seu olhar piedoso. Agora vêem. tigres. O sacrifício e a dor do eterno visionário. Sorvendo o amaro fel nas dores da aflição.Parnaso de Além-Túmulo 231 E do cimo da cruz. Bradando com furor: – “Socorre-nos Jesus! Que possamos vencer a dor em nossa cruz. Espraiando na Terra o seu olhar piedoso. o pranto. Os lendários heróis no dorso dos corcéis. Francisco Cândido Xavier . nos grandes desgraçados. chacais. Multiplicando a guerra.

Contendo a aspiração indômita do povo. Ponde em cada recanto um novo Torquemada. viceja. Traficai com o altar. Entre encomendações. discursos. Multiplicai na Igreja os ritos e as tonsuras! Teologicamente. absolvei magnatas. É preciso instalar a Inquisição de novo. Retende na memória os erros do passado. torcei as leis. Endeusai sobre o trono a fortuna dos Cresos. Cheio de excomunhões e de mastins da Igreja! Ensinai que Deus é o bramânico sátrapa Que enviou para o mundo os bergantins do papa. E um trapo de batina ao pé de cada estrada. Afirmai que um sacrista é um ministro do Eterno. em verdade. Aprovai.Parnaso de Além-Túmulo 232 Multiplicai no mundo as vossas benzeduras. esplêndida. Porque.Os dogmas ancestrais da vossa velha Igreja! A árvore do progresso. Ponde sobre a esperança o inferno que flameja. De saber a verdade acerca do Destino. pregai probabilismos Dentro das liações e dos anacronismos. . aplaudi as grandes simonias. operosa e triunfante. Ensinai catecismo em todas as escolas. Afogai na descrença a pobre Humanidade. proclamai o dogma divino! Fazei bulas. Anatematizai todas as heresias. Incensai Harpagões. são como crimes sagrados E a estola de um sacrista é isenta de pecados. Cortai a asa de luz de toda liberdade. Formai sob a batina as gerações vindoiras. Esquecei sobre a lama os pobres indefesos. vendei o ensino e a prece. Fazei autos-de-fé. Sem o medo pueril do inferno e do demônio. Francisco Cândido Xavier . Interpretai Jesus no prisma do interesse. sermonatas. Tomai em vossas mãos das crísticas tesoiras. Lede com desassombro o intrépido Barônio. Transformai todo templo em balcão de bentinhos. anatematizai Todo aquele que em Deus sentir o amor de um Pai. Com representações em todos os caminhos. Comei Jesus no pão refogado em falerno. Lembrai a Inquisição e a história do papado. Proclamai. E vinde proclamar ao mundo fariseu Que somente na Igreja há sendas para o Céu. trazei Loiolas. A Ciência caminha a passos de gigante Para se unir à Fé.

É feita nos clarões das grandes epopéias. feito de gesso e lacas. da tiara. Escrevei com furor contra as guerras tigrinas. Que a Verdade jamais se vende no mercado. enfim. Tendes a autoridade e a mansidão do Cristo.Só a Igreja possui a santa autoridade.. Francisco Cândido Xavier . pois. Olvidai convenções. Mas. Clareando o porvir ignoto dos destinos. Nunca vos entregueis a tanto despautério. não alcança a virtude. congregações. Gritai que o mundo está perverso e corrompido..Parnaso de Além-Túmulo 234 Criar uma ficção e excomungar de oitiva.. metralhas. Se puderdes. Abrindo o coração ao nobre sacrifício. Acostumai-vos. A discórdia infundi! Nutri regionalismos. Representa-se a peça antiga da quaresma. a luta das idéias. A abençoar fuzis.Parnaso de Além-Túmulo 233 Sobre o luxo gritai no púlpito florido. Fazendo-vos ouvir. Afastarmo-nos dela é andar no sorvedouro Da calúnia que fere o coração mais rude. A luta da verdade. um pálido abantesma. ao sol que tudo aclara. Jamais enxovalheis o vosso ministério. arma nova fogueira A quem asseverar que o Papado é uma feira Onde Deus é um cifrão e onde se negocia A bênção de Jesus. consigo o vírus que envenena! Quem perpetra a inverdade a si mesmo condena. . tomando a vossa pena. Dentro das presunções da infalibilidade. Jamais vos esqueçais de que a verdade é de ouro. papado. Da mentira que. Que traz. Onde a verdade está sob as cavilações Dos círculos hostis de torpes convenções! Praticai e afirmai ainda mais do que isto. O pobre Senhor-Morto. “Um Quadro da Quaresma” Entre lamentações e estrídulas matracas. Abandonai a treva e vinde para a luz! Aprendei muito mais do exemplo de Jesus. e a bênção de Maria. irmão. Deixai a insensatez dos clérigos.. Incentivai com ardor os rubros fanatismos.. carabinas. Cada gesto leal é sublime interstício Por onde a Luz penetra em jorros cristalinos. Francisco Cândido Xavier . porém. Num cenário infantil.. É próprio das paixões e próprio da inventiva. ouvi minha voz impávida e serena!.

Coquelin tonsurado. que se repete.. Necessário se faz prender quem raciocine. Paródia de uma dor sublime e incomparável. bandeiras e sacolas. Sentimentos de fé e catolicidade. Filha da estupidez bisonha e condenável. o explorador santíssimo da farsa. Existe tão-somente o Inferno que despeja O mal e as tentações no espírito perdido. sobre o púlpito assoma Uma figura heril de abade gordo e enorme. Satanás que os fulmine . Comte. seus embaixadores. Voltaire e Galileu são ministros do Inferno.. a toda a Humanidade. Porque o Papa é senhor de céus e continentes E o Sílabus proíbe a evolução de tudo! Eu só vos peço a fé. É preciso antepor. Francisco Cândido Xavier . Evitai conviver com os livres pensadores! A análise conduz à escuridão do Averno. sob a luz esdrúxula das tochas Que ilumina esse caos de tintas rubro-roxas. Das chamas infernais. em tinta espessa e forte.Parnaso de Além-Túmulo 236 Toda ordem de Roma é boa e indiscutível. anual. criaturas inferiores Dirigem. A função quaresmal prossegue. Que grita com estentor: “Caríssimos Irmãos! Nós somos sobre a Terra os únicos cristãos. A multidão Espera com ansiedade o clássico sermão. Wesley. a vítima e comparsa Do Papa. Dorme grotescamente o sono dessa morte De teatro burlesco. Como as grandes funções do entrudo e do confete.Talhado de encomenda. cantochãos. Rezai! que atualmente o mundo pervertido Pretende esfacelar os dogmas romanos. o espírito moderno. Precisais cultivar o nosso dogma eterno. arrecadando esmolas. Reformistas quaisquer?. É o ator da paixão. Imóvel. Que a Igreja representa. certamente. Francisco Cândido Xavier . Calvino. Fora das concepções altíssimas da Igreja. há quase dois mil anos! Não busqueis progredir nas coisas transcendentes.Parnaso de Além-Túmulo 235 Com latim. Sentinelas da fé. Numa fantasmagoria esplêndida de aroma Dos incensos do altar. De eterna submissão ao Papa que é infalível. obeso. desconforme. porquanto a fé é o escudo Que vos há de livrar dos gênios tentadores.

Olvidou o que Jesus obrara com o exemplo. Licores. E depois de exercer seu santo ministério. Tem até corrompido os padres e os monarcas. o Senhor que ele esquece. Obedecei à Igreja em sua Santidade. rogando que se desse Uma estola ao Progresso e um véu à Humanidade. recheios. ambrosias. Jesus apenas fora a máscara piedosa. adormeceu sem pensar que pusera Em cada coração um coração de fera. Para tanta extorsão impune e criminosa. olvidou-lhe a doutrina. Era um livro escurril.. Sofismá-lo. a sacrossanta essência Ficou em pregação de mágica eloqüência. As mortificações recebem da indulgência Os prêmios celestiais na Eterna Beatitude.A falta de fervor tem feito heresiarcas. da caridade o templo. contentes na virtude. Dos atos a lição. a Luz. Terminou a oração. a humilde singeleza. Vivei. Sereno. Com um aceno abençoou. A Humanidade está sob o império do demo. moscatéis. inadequado e velho. Esquecido Jesus. seu cérebro indolente Desejou meditar nas cenas do Calvário. E após se abastecer pantagruelicamente. E abominando o Cristo. Como Jesus amou a glória da pobreza!” Condenando a Ciência. Amando a caridade. sem bispo e Vaticano. caros irmãos. Em paz sacramental. Da doutrina cristã. a Liberdade. enformá-lo.Parnaso de Além-Túmulo 237 Aguardava-o o jantar de finas iguarias: Pratos de ostentação. Sem artigos de fé. Porque a verdade pura. o lídimo Evangelho. Terminada que foi a sacra pantomima. Sede firmes na fé. Procurou lestamente o calmo presbitério. . doces raros. a guerra e o fanatismo.. cavando um negro abismo. Não se lembrou que houvera o bom samaritano. é cometer um crime. segundo o gesto em uso. Mas o sono roubou-lhe as preces e o breviário. Propagando a cegueira. em santa penitência. Oremos pelo mundo em desconforto extremo. Que é o traço de união do arcano da Trindade. Com o seu rubro sermão. O dogma é uma lei benigna e sublime. confeitos. Francisco Cândido Xavier . Opíparo jantar regado a vinhos caros. Resmungando um latim exótico e confuso.

Francisco Cândido Xavier . e suicidouse no Rio de Janeiro aos 26 de dezembro de 1930. Nos supremos e tristes estertores!.. . Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 239 32 Gustavo Teixeira PAULISTA. Graças a Deus. Poemas Líricos. Gênese. Era a morte. – Sonho lindo que a nada se compara. Regou... Trabalha e espera sob os céus risonhos. A Igreja que foi pura e que já foi divina. em 1888. Não reparou o labor triste e enfadonho. rude e bisonho. Com que angústias te vi. tendo publicado Apoteoses.Parnaso de Além-Túmulo 238 Lá onde a cupidez fatídica se entrapa E morre às próprias mãos sacrílegas do Papa! Francisco Cândido Xavier . Que a morte é vida para os nossos sonhos. Último Evangelho e outras obras assaz estimadas. falecendo em 1937. Lâmpada Velada e Fonte da Mata. ansioso.Parnaso de Além-Túmulo 240 33 Hermes Fontes SERGIPANO. A São Pedro de Piracicaba Último instante. em março de 1881. Ó terra de São Pedro. Morre sem remissão de horrível carcinoma. E paraíso para as nossas dores.. Poeta de grande relevo emocional. Soneto Sou. ó meus irmãos do altar e da batina. nasceu na Vila de Boquim. chorando. as mãos tranqüilas. banhado em pranto.. Chorei de gratidão ao pressenti-las. A sementeira luminosa e rara Do trigo louro e rútilo do sonho.Por isso. Escreveu Ementário. que amo tanto. deixou firmada sua personalidade literária.. o lavrador que fez. Esperou confiante o sol da seara. Passados os trabalhos e os tormentos. Nos pântanos letais e lúgubres de Roma. nascido na cidade de São Pedro. Quando aguardava a messe. cerrando-me as pupilas No doloroso termo da romagem. a terra que lavrara. a crença era meu pajem E buscando-lhe. jubiloso. derradeira imagem Nas procissões da sombra em longas filas. Conduzindo-me à luz doutra paisagem. E de alma ingênua e coração risonho. seu último livro.

Que me seguiu o espírito ambicioso! A carne é pobre e é cheia de fraqueza. minhas ânsias. Adormeceu-me aos cantos da vaidade E me afastou da estrada meritória . Perdeu tudo no instante da colheita. É perpetrar amargas redundâncias.Parnaso de Além-Túmulo 242 Na minha pobre vida abandonada. E a carne subjugou-me inteiramente. Senhor. Tudo em volta de mim era a cegueira. E o pobre. Do sofrimento fiz o apostolado. incorpórea.Numa grande esperança insatisfeita. Que amortalhou meu sonho peregrino Nas trevas de um martírio irrevelado.Parnaso de Além-Túmulo 241 Minha vida Não pude compreender o meu destino Na amargura invencível do passado. Redizer minhas mágoas. As promessas pueris da falsa glória. Francisco Cândido Xavier . Como fizera de minha arte um hino. Eis que aparecem os arrasamentos. Do que chamamos – a felicidade.. Poema da amargura e da esperança Falar-vos de martírios e tormentos. Era o tédio cruel que me impedia De vislumbrar a claridade intensa Da luz do sol puríssimo da crença. Fez-me fraco e descrente. Não sorvo mais os tóxicos violentos Do desespero e da melancolia. Simbolizando o ciclo tenebroso Das sínteses de dor da Natureza.. Francisco Cândido Xavier . Buscando a imagem fúlgida. Após a derrocada Das construções de um sonho superior. E o triste engano da celebridade. serra em serra. Tudo outrora. E transformou a minha mocidade Num montéo de ambições. Renovar minhas síncopes de dor. E fui de vale em vale. desgraçado e desditoso. Procurando o país indevassado Do ideal luminoso de Aladino. Mas só colhi os frutos maus da Terra. de fama e glória. Que torturou a minha vida inteira.

.Parnaso de Além-Túmulo 244 34 Ignácio José de Alvarenga Peixoto IGNÁCIO José de Alvarenga Peixoto. A vida plena. onde veio a falecer em 1793. Celebra. Tudo sofri. Misericordiosíssimo Senhor! De tortura em tortura amargurado.Da crença e da bondade.. A luz sem par. Mas a tua bondade me levou A esquecer a influência deletéria Da carne passageira.. “minado pela nostalgia”. A esperança o espírito me invade Aguardando das lágrimas futuras A minha redenção. em Ti me anime. amena. de dor e de miséria. Cheio de amaridúlcida ansiedade.. que Te aclama Como a fonte do amor ilimitado! Francisco Cândido Xavier . Que no porvir a dor bela e sublime Jorre em minhalma a luz da perfeição. meu Deus. A Pátria linda . o meu pecado E pude ouvir as harmonias puras Que equilibram os mundos nas alturas!. ainda.Parnaso de Além-Túmulo 243 Relevaste.. de novo Ao grande povo Que não me canso De estremecer.. ao qual foi imposta a pena de degredo perpétuo na África. Revela.. E a desgraça suprema o amortalhou.. no passado. Rompeste a minha venda de cegueira E divisei o excelso panorama Do Universo infinito. Francisco Cândido Xavier . pois... Volta. um dos malogrados poetas da Conjuração Mineira”. Musa que inspira Meu coração A relembrar. A paz sublime. Redivivo Divina lira. O meu frágil espírito inferior Viu-se presa de trevas. Que a confiança.

dai se transferindo para o Asilo Colônia de Pirapitingui. Dize a grandeza Da glória acesa Na vida excelsa Que a dor produz. Não mais procures. Anjo de redenção Do Céu desceste resplendente e puro E no santo mistério em que te apagas Vestiste-me o burel de sânie e chagas . internou-se num hospital. em 16 de fevereiro de 1947. Ditosa e crente. Enfraquecer-te Nas lutas mil. Exalça agora A nova aurora Que brilha cheia Francisco Cândido Xavier . O mundo em prova Que se renova Espera o dia De redenção.Que faz vibrar Todo o meu ser.Parnaso de Além-Túmulo 245 De amor cristão. Estado de São Paulo.. Chorando alhures. Sepulcro além. A nova era Do meu Brasil. e onde dirigia um Centro Espírita. em 1930.Parnaso de Além-Túmulo 246 35 Jesus Gonçalves JESUS Gonçalves nasceu em 12 de julho de 1902. onde desencarnou. Francisco Cândido Xavier . Une-te ao canto Formoso e santo Que flui soberbo. na cidade de Borebi.. Louva a doutrina Da liberdade No eterno bem. Lira divina. Surgindo-lhe os sintomas do Mal de Hansen. Proclama à Terra Que além da guerra E além da noite Floresce a luz. Canta somente.

Parnaso de Além-Túmulo 248 Que dominavam E se orgulhavam Do seu poder.Parnaso de Além-Túmulo 247 36 João de Deus NASCIDO em São Bartolomeu de Messines. o choro e as pragas.. em 1830. flamejas! E agora brado..E algemaste-me a lenho estranho e duro.. As lágrimas Desci um dia Ao sorvedouro Da atra agonia Da Humanidade. Nume solar pairando no monturo. A procurar. ó Dor piedosa e justa. em silêncio. Doce e invisível no caminho escuro!. A perscrutar Qual a verdade. de modo inconfundível. Mas. Só a ilusão Duma ventura. de alma robusta: – Deus te abençoe.. e desencarnado em 1896. Os potentados Com seus valores Bem se julgavam . Francisco Cândido Xavier . Libertaste meu ser à Luz Celeste. Que neste mundo O homem prendesse E o retivesse. afirmou-se um dos maiores líricos da língua portuguesa. então. Portugal. Terno. Ouviste-me. da cruz de feridas que me deste. enfim. E vi. É tão bem conhecido no Brasil quanto em seu belo país. Qual o tesouro O mais profundo. No coração Da criatura. Nestas poesias palpita. Anjo da redenção! bendito sejas!. E vi senhores Francisco Cândido Xavier . Sempre a abater Os desgraçados. sublime e fúlgido. Onde. escondendo as flores com que afagas. a suavidade e o ritmo da sua lira.

Reconheceram E viram bem Nesta existência Toda a impotência Do deus-milhão. Perante a mão Da fria dor.. Deixam o teto Do seu afeto Maior. Eu vi mulheres Nos seus prazeres. Somente encontram Dores que afrontam... Luz sem fulgores.Parnaso de Além-Túmulo 249 O que eu ali Fui procurar. Busquei os lares. miseráveis Párias da vida. Ricos solares Dos protegidos.Onipotentes. E ainda aí Não pude achar Francisco Cândido Xavier . Insuperável.. Que lhes domava E lhes dobrava O torpe egoísmo. Jovens e belas. Rindo e cantando Dentro da noite Da desventura. porém. Fanadas flores. Depois. Pobres donzelas. . Heróis valentes Cá nesta vida. Mágoa insanável. Alvas estrelas De formosura. supremo. Que. Onde o conforto Para a matéria Anda em contraste Com atroz miséria Dos desvalidos.

Só sentimentos Que trazem presas. É o que produz Todo o amargor. Onde se aninha E se amesquinha A multidão Francisco Cândido Xavier . A maior dor. Ao som da festa. Mas este riso. Das diversões.Incompreendida! E penetrei Pelos castelos Dourados. Belas outrora. Gozar. Almas impuras. A iniqüidade. Ensandecidas As criaturas Outrora puras. E esmagadas. belos.Parnaso de Além-Túmulo 251 Nesse recinto Eu vi. A ver se esquece O que padece. Pois eu ali Tristonho vi O que em verdade É a sociedade. A grosseria. Toda a maldade . Só pensamentos Das impurezas. Julgando crer Que está a ver O paraíso. então. Aniquiladas. No entanto agora Flores perdidas. Desiludidas! Francisco Cândido Xavier . À meia luz. sorrir.Parnaso de Além-Túmulo 250 Que busca rir. A traição.

Pálidos tremem Ó Senhor Deus! Faze que a luz Do bom Jesus Penetre a alma Na Terra aflita. Num forte brado Disse ao Senhor: “Onipotente Pai de Bondade. Oh tem piedade Dos filhos teus Que choram. enfim. Eram trevosas. gemem. E tudo. E. Dando-lhe a calma Que necessita. Fracas criaturas Baldas de amor. Falsificado No fingimento Que aparecia No barulhento Rumor de vozes. As pedrarias Tão luminosas.Da hipocrisia. . De uma alegria Jamais sentida. Eu contemplei-o Cheio de horror E vi que as flores. Dissimulado. Pobres farrapos De almas perjuras Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 252 Ao seu Criador. Pois só cobriam Míseros trapos. Desanimado. Eram sombrias. Notas atrozes. Desconhecida Naquele meio. Desiludido. Tristonho assim. condoído.

Parnaso de Além-Túmulo 254 Homens.Parnaso de Além-Túmulo 253 Do meu amor. Nos prantos seus. Assim tornando O ser feliz. Jovens. mulheres. Astro formoso De pura luz!” Eu ajoelhei E Contemplei As multidões Atropeladas. Nas grandes penas. Nas esperanças. Nada se perde. . Está na luta. Sou teu Senhor. Donde provém A grande paz. Em todos os seres. Só contemplei O mal que vi. Mais fino ouro Dos filhos meus. O grão tesouro. E no Infinito Tudo o que fiz. Vi transformadas Todas as cenas. Contempla.” Mas uma voz Do azul do Céu.Só conheci E encontrei. Que lhes transforma A alma poluta Num ser radioso. Francisco Cândido Xavier . ainda. Pronta e veloz. O sumo bem. crianças. Desenganadas Nas perdições. Me respondeu: “Filho bendito Francisco Cândido Xavier . A Terra linda E então verás.

Vale profundo De mágoa e dor. Reconhecendo Que aqui nos Céus. Jóias divinas Do escrínio santo. chorei. Lágrimas belas. Brotar a flux No coração De cada ser. Por entre flores. Reconheci Que por aí Na escura Terra Onde eu amei. serenas. Eram açucenas De fino olor Do espaço azul! Francisco Cândido Xavier . Onde sofri E onde eu vi A dura guerra. .Por entre a luz. Primor de encanto Do amor de Deus. Fui então vendo. Meigas. eu vi Que os que as vertiam Por este mundo. Quando voltavam Do seu exílio. Gotas pequenas Como as brilhantes Luzes serenas Das madrugadas Primaveris.Parnaso de Além-Túmulo 255 Depois. Gotas singelas. Que os coroavam Com gemas finas. Em profusão. A amarga dor. Sorri. Eram saudados Por mensageiros De amor e luz Do bom Jesus.

Francisco Cândido Xavier . As pequenitas Gotas de pranto. Que entre os seres do Além é sempre igual. Doce Mansão de Paz. imaterial. Em profusão. Felicidade Ao peregrino.Parnaso de Além-Túmulo 257 No mesmo anseio santo e superior! Lá não se vê traição e cada qual Urde ali sua auréola de esplendor. Que a alegria E a paz envia À Humanidade Tão sofredora. Sejam benditas. então. Bendito o Pai. e onde o mal Desaparece ao meigo olhar do Amor. Ricas. Luzente estrela Consoladora! O Céu Pátria ditosa e linda. O Nosso Deus Que abranda o ai Dos filhos seus. Onde impera a bondade do Senhor! .Parnaso de Além-Túmulo 256 Alvinitentes. Que nem Ofir Pôde possuir. Gemas brilhantes. Orvalho santo Do amor divino Que dá ventura. Com a lágrima bela. Tranqüilidade. E vi. fulgentes E deslumbrantes.Lágrimas lindas São transformadas. Francisco Cândido Xavier . Remodeladas Para formarem Belo diadema E aureolarem Os que as verteram Aí na Terra.

. Onde brilha a Verdade e onde o Bem É o fanal reluzente que conduz. que se antevê. Que habitava Qual uma flor O espaço infindo. basta crer Na Paz do Céu. Porém. Para se achar o Amor. na Terra apetecida. A morte é um sono doce. Venturosa região do espaço Além. País dos Céus. Estremecido. O mau discípulo Era uma alma Formosa e bela: Fúlgida estrela De puro alvor. Imenso e lindo. a Luz e a Vida.. que adoraram a Virtude. Vai ali encontrar Consolação. aonde o pecador. Onde há trégua à tristeza e ao padecer. Nessas regiões Onde há mansões Purificadas.Parnaso de Além-Túmulo 258 Onde os bons. Morrer Não mais a dor intensa e desmedida No momento angustioso de morrer. Gozam do afeto extremo de Jesus. Depois de bem sofrer aí a dor. Pelo poder da Fé. um dia. Dos meus afetos! Tu necessitas Buscar a Vida Em meio às vagas Das provações! .Porto de Salvação para quem crê Nessa Praia do Azul. Iluminadas Do Criador. Nem o pranto pungente por se ver Um ser amado em horas da partida!. Mansão de claridade e pulcritude Francisco Cândido Xavier . na provação. Disse Jesus A quem vivia Em meio à luz: “Filho querido.

A grande luz Francisco Cândido Xavier .Dentro das lutas. porém. teu Jesus. Aproveitaste E assimilaste Em benefício Da lei do amor.Parnaso de Além-Túmulo 259 Tredas disputas Do Bem. Luz do Senhor – O sumo bem. Sorrir.. Tu lutarás.Parnaso de Além-Túmulo 260 Que eu. Por entre espinhos.. Do sacrifício!.. do Mal. Risos e flores. sofrer. Nessas moradas Iluminadas . É que verei Se o que ensinei Ao teu valor. A dor. Já te mostrei A lei do amor. Tens a fraqueza Da imperfeição Aqui. Francisco Cândido Xavier . Mas vencerás Se bem souberes Te conduzir Nesses caminhos Entre prazeres. Tranqüilamente. Conquistarás A grande paz. somente A luta amara Lá nos prepara Para vivermos. Mágoas e dores. Reservarei E hei de guardar Para a tua alma. Ao regressar. E se aprenderes Saber viver..

Do nosso Pai! Luta e trabalha Singelamente Nessa batalha Que te ofereço. Teus pensamentos. Onde guardar-se Das fortes dores Que acometem . Dos que padecem Sem conhecer Sequer abrigo Onde isolar-se. Que cultivei Dentro em teu ser. E ora conduz Teus sentimentos. Pra conquistares A luz. o amor Do teu Senhor. Conhecerás Lindas riquezas Iluminando E te ensinando O bom caminho. Sê sempre amigo Dos sofredores. A boa estrada E com carinho Francisco Cândido Xavier . Tu viverás Entre os brasões Das ilusões Da Terra impura.Parnaso de Além-Túmulo 261 Sempre a mostrar-te A caridade Com toda a luz Que ministrei Ao teu pensar. Na deslumbrante Rota do amor! Espalha o olor Que já plantei E fiz brotar. Caminha avante. À perfeição Do coração.

Sempre cumprindo Os teus deveres. faustoso. A conquistar Maior ventura.Parnaso de Além-Túmulo 262 Ambiciosos. Rútila e pura Aqui no Céu. Então. Era adorado. Frios. Sê a Bondade Entre a maldade Dos homens feros. Assim darás À Humanidade O testemunho Da caridade Do teu Senhor!” A alma formosa Então desceu Para lutar. Francisco Cândido Xavier . Régio. Em mensageiro Do Deus de amor. Dos venturosos. . nasceu Num lar ditoso. Lindos. Pecaminosos.Os sofredores. Onde a alegria Reinava. formosos. Proporcionando À rica gente Que o habitava Os belos gozos. Desses palácios Materiais. Mas irreais. Se assim fizeres E procederes. Tornar-te-ás Em verdadeiro Anjo da paz. Ainda criança. e ria Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 263 Constantemente. austeros.

O infeliz ser . Despreocupou-se Com a consciência. Refugiou-se Na vã Ciência. Tornou-se esquivo. Rico alcaçar Dos abastados.Felicitado Nessa abastança. Belo esplendeu. Tudo esquecera Em detrimento Do sentimento Que então trouxera. Cruel e altivo A Humanidade Não praticando Mas renegando A caridade. Ganhou saber Nobilitante. O que aprendera No Infinito E prometera Ao bom Jesus. Cheio de luz. na existência. Ele esplendeu No vão saber. Na mocidade. Na Academia Dos homens sábios. A luz brilhante Dessa ciência Que. Por planetária.Parnaso de Além-Túmulo 264 A lei de Deus. Naquele lar. Ele então era A primavera Dos áureos sonhos Dos pais amados! Assim cresceu. Faz com que a alma Se torne egoísta E refratária Francisco Cândido Xavier .

Do ateísmo Desventurado.Parnaso de Além-Túmulo 265 A lei do amor. Assim. cumprir Sua missão.Viveu dos lábios. Mas renegou Francisco Cândido Xavier . Só procurou Brilhar.Parnaso de Além-Túmulo 266 Em profusão. Nunca estancou Uma só lágrima. Os próprios filhos. fulgir. Dele esperando Sua ventura. Suas idéias Tristonhas. E da existência Da própria alma Por fim descreu. Como um ateu. Sempre espalhou. feias. Filho do Mal. A relegar. Foi refratário Ao próprio afeto Dos pais que o amavam E idolatravam Com mór ternura. Suaves brilhos Da nossa vida. brilhou. Nunca buscou. Fulgiu. A imensa luz Espiritual. Nossa esperança Encantadora. Mas sem olor. . Somente amando Sua ciência Enganadora. Seu coração Jamais viveu! Foi uma flor. Francisco Cândido Xavier . Os desprezou.

Cruel. Não consolou O que sofria. Jamais o quis. Que brota n'alma Desiludida.Nunca pensou Uma ferida. avara Francisco Cândido Xavier . num grito. Sentiu seus olhos Enevoados. Nessa existência Que passa breve!. O arrebatara Nessa escabrosa Escura via. Ao descerrar O negro véu Do esquecimento. E o conduziu Para o Infinito. viveu Só na Ciência. Tristes abrolhos No pensamento! Olhou o abismo Do pessimismo . De quem fugia Sem compaixão! Enfim. Do sono amargo Em que viveu. Porém. infeliz. Onde. O ingrato teve Mil ocasiões De praticar Boas ações E espalhar O amor e a luz Que o bom Jesus Lhe concedera: Mas.Parnaso de Além-Túmulo 267 E dolorosa. Ele acordou Do seu letargo. A morte amara. um dia. A Parca fria.

Em quem eu pus Todo o esplendor Da minha luz. Do meu amor! Tu te perdeste Por teu querer. agora. Sentiu-se. Em luz perdida. Abandonado. Por onde sempre Se comprazera. Por isso.Em que vivera. então. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 269 E assim curar A alheia dor. Íntima voz Disse-lhe então: “Ó mau discípulo. Pelo viver Que demandaste. Tu renegaste E desprezaste A inspiração Do Deus de Amor! Tua missão Que era amar Francisco Cândido Xavier . Do seu amor. Lembrou de Deus. Minhalma chora Ao ver que és Mísero ser. Amargurado Na aflição! Somente. Foi convertida . E assim cumprir O teu dever. Jamais soubeste Te conduzir. assim. Dentro da dor.Parnaso de Além-Túmulo 268 A implorar Da luz dos Céus Consolação! Das profundezas Do coração.

Entre lamentos E dissabores.. então.Parnaso de Além-Túmulo 270 Constantemente.” Calou-se a voz. Do coração Do miserável. O abafaste Como se fosse Assaz mesquinho. Oferecer À Humanidade. E até negaste A existência Da própria alma. O grande amor – Fraternidade. Entre alegrias.Em fero braço Esmagador. À perfeição. A consciência! Francisco Cândido Xavier . E o pranto atroz Jorrou. . Dos próprios seres Que te adoravam. Foste um ingrato E eu te julgara Um lutador Intimorato. Que então devias.. Continuamente. À região Da pura luz! Sempre esqueceste Os teus deveres. Quando só ele É o caminho Que nos conduz À salvação. Ser execrável Que não soubera E nem quisera Compreender O seu dever. Foste inimigo. Que mais te amavam.

Envergonhado. Fatal. Pedindo luz. O seu olhar. Desanimado. Que assim trilhara Na perdição. Ele chorou E lamentou. Perambulou Qual Aasvero. Amargurado. amara. Correu sozinho Francisco Cândido Xavier . Sofreu. A lamentar A sua cruz! Jamais alguém Quis escutá-lo.. Qual caminheiro A quem negassem Um só carinho. Supliciado.Padecimentos. Espezinhado Na sua queda. Frios horrores. E. O mesmo bem Que ele fizera..Parnaso de Além-Túmulo 271 O mundo inteiro. Assim lhe era Retribuído. muitas vezes. A pobre mão Sempre estendeu Pedindo o pão. Por muitos anos. E o pobre Espírito Desiludido. Seus desenganos Na senda triste. Só encontrava Consolação . Triste pousou Sobre o lugar Onde pecou. clamou. Desamparado.

Tendo comigo A tua luz.. Sei que hei pecado E transgredido As tuas leis. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 272 Que derramava Em profusão. Eu me perdi Por meu querer. Experimentada. Mais padecia A dor feroz. santos. Tão justo e santo. Disse ao Senhor Numa oração: “Ó Mestre Amado. E hás de acolher Minha oração Cheia de fé!. Sabes do pranto Das minhas dores.Parnaso de Além-Túmulo 273 Pobre calceta Da iniqüidade. Cruel e atroz. Mas tu que és bom.. . Extenuada No atro sofrer. Pois não cumpri O meu dever!. Formosos. No meu viver Sem luz... Cheia de unção Por entre prantos. Até que um dia Em que sofria.Nas lágrimas tristes Francisco Cândido Xavier . Ó bom Jesus! E mesmo assim. Dá-me o acúleo Da expiação. sem flores. A alma triste E solitária. Fui a grilheta Da impiedade.

O meu desejo É só voltar À Terra impura Onde eu pequei. Não quero ter. Mas só trazer No coração Todo o amargor Da privação. Então serei Ramo perdido.Parnaso de Além-Túmulo 274 Nem um só dia Dessa alegria Que desfrutei. .Para que seja Exterminado O meu orgulho. Oh! dá-me agora A nova aurora De uma existência De provação. O próprio lar. Incompreendido Em minha dor. Onde se encontra Maior ventura. Hei conhecer O que é sorrir! Quero existir Desconhecido. Para ofertar À criatura O grande amor Que lhe neguei. Árido e seco Pelo vergel Enflorescido. Não quero ter Francisco Cândido Xavier . jamais. Nunca. Quero sofrer Dura pobreza. Não quero ver O dealbar De uma esperança. Sempre viver Na singeleza.

Parnaso de Além-Túmulo 276 Neste planeta.. Nessa batalha Que empreenderei. O agasalho. portanto. Eu só almejo Compreensão Para mostrar O teu perdão. Como a violeta Sob a folhagem. Agora eu vejo Que na existência A grã ciência Só é grandiosa.Conhecerei A dor cruel Que nos retalha O coração. O puro amor. Cruéis e duras Das aflições. Nos turbilhões Incandescentes Das amarguras. Viver somente Pela voxagem . Só é formosa. Ó Mestre Amado! Eu lutarei E chorarei Nas rijas dores Mais inclementes. o pão. Claro e sublime Para o meu crime. Francisco Cândido Xavier .. Ó bom Jesus.Parnaso de Além-Túmulo 275 E conquistar A luz. Quando aliada Da caridade. Com meu trabalho. Quero com ardor Bem conquistar A perfeição! Serei. Quero ganhar Francisco Cândido Xavier .

. Belas. Que. perdido. Seja bendito. Deu-lhe o perdão. Oferecendo-lhe Ocasião Para tornar-se Mais venturoso E sempre digno Do seu perdão. Pelo infinito Desenrolar E perpassar Francisco Cândido Xavier . Escuta a prece De quem padece. Incomparável. Fazendo assim Desabrochar O dealbar Das alvoradas Iluminadas De muitas vidas. Feliz dulçor Da caridade!. Quero sofrer Com humildade. com sua luz E terno amor.” E o Mestre Amado. Do Criador! Na estrada de Damasco . E sempre ter Em mim bondade. A permissão Para voltar À antiga arena – Luta terrena..Parnaso de Além-Túmulo 277 De toda a idade. Para lutarmos E nos tornarmos Dignos do Amor Inigualável.Das desventuras. queridas. Compadecido Do pobre Espírito Dilacerado. Enfim. O bom Jesus.

Num certo dia A Ambição. Rude e cioso Do seu poder E vão saber.Parnaso de Além-Túmulo 279 A seu agrado. É só viveres A procurar Mais dominar Os elementos A transudar Nos sentimentos. Faze-os vassalos No teu reinado. Francisco Cândido Xavier . De parceria Com o Orgulho. Grande e valente Aqui no mundo. Maior coragem Para ganhares Sempre vantagem No teu viver. E assim lhe disse: Francisco Cândido Xavier . Chamou o homem Jatancioso. Ser imperfeito Se achasse embora. E se quiseres Tornar-te um rei Da imensa grei Da Criação. Bem satisfeito. Glorificado De grão-senhor!” E o pecador. E conquistares Sempre o poder Dos triunfantes. Foi sem demora Então chamado . tu és Senhor potente.Parnaso de Além-Túmulo 278 “Homem. Aos semelhantes Em vez de amá-los Tais como irmãos.

Assim. Para que um dia Te fosse dado Reconhecer. Lindos. procura Melhor ventura . Nunca negar A tua mão. Nosso Senhor. O Deus de amor. Com alegria. risonhos. E o bom Jesus. Sabendo assim Quanto a tua alma Dele descrê? Ele é o teu Pai. e o bom Deus Que está nos Céus. Mestre da luz. E espalhar Somente amor. O Filho amado Que à Terra veio. E assim banir O teu pecado? Ele te amou E te ensinou Que ao teu irmão Francisco Cândido Xavier . Que então lhe diz: “Mas. Que é a Consciência. A relegar Toda a maldade.Por um juiz De retidão. O Criador. Do teu viver.Parnaso de Além-Túmulo 280 Tu deves dar. O solo amado Do eldorado Dos belos sonhos. Que tudo vê. A este mundo Ingrato e feio A redimir. Nesta existência De provação.

então. buscou E perguntou Aos companheiros. Enquanto ele Só te oferece Amargas dores.Parnaso de Além-Túmulo 281 Isso seria Obedecer E se humilhar. Francisco Cândido Xavier . Achou estranho Esse conselho: Rigor tamanho Não poderia. Acompanhar. o tal homem Tão orgulhoso. Tendo o poder Pra dominar. Lhe responderam No mais profundo Do coração: – “Esse conselho É muito velho! Deus é irrisão. Que já se achava Bem poderoso. Desolações. Tristes agruras. Com sua cruz E seu calvário Somente foi Um visionário. E o tal Jesus. Seguir Jesus Em sua dor. Em seu amor. E ele havia Aqui nascido Só para ser Obedecido.Em só buscar. Eles. Em sua cruz!” Mas. Cruéis espinhos. Assim. Nós concedemos Ao teu valor .

Chegou a Dor Humildemente.” E assim. Onipotente. Grandes venturas Nesses caminhos Quem mais souber Gozar e rir. Nessa oficina Grande e divina Da Criação. Exprime a dor E não a luz.Parnaso de Além-Túmulo 282 De grão-senhor Sublimes flores. quando Francisco Cândido Xavier . . Mais saberá O que é existir. Pois vindo a Parca Bem de repente. Ao caos medonho Do mais não-ser. assim. Lindos brasões. Essa é apenas O frio nada. O louco amor Do teu Jesus. A lapidária.Francisco Cândido Xavier . A eterna obreira. Vale o gozar Constantemente.Parnaso de Além-Túmulo 283 O homem fraco E miserando Mais se exaltou E se jatou. E pois. Há de levar Esse teu sonho De amar. A mensageira Da perfeição. A vida aqui Só é formosa Para quem goza. sofrer. Porque a morte Tão renegada.

De mui sofrer E padecer Na expiação. Na mansuetude. . Francisco Cândido Xavier . A fatuidade Da vil matéria! Na atroz miséria Dessa agonia. Só encontrou O juiz reto.Parnaso de Além-Túmulo 284 Na submissão Do coração Ao sofrimento. E o homem-rei Reconheceu Que o paraíso Dos sãos prazeres Vive nas luzes Só da virtude. No cumprimento Dos seus deveres. então. Quando aprouver Ao Deus de Amor Oferecer Rude amargor Ao nosso ser. Só procurou Buscar se via Os seus mentores Enganadores. O Magistrado Incorrutível Da consciência.Fê-lo abatido E desolado. Altivos filhos Da veleidade. Depois. Na humildade. Na caridade. Até enojado Do corpo seu: Apodreceu O seu tesouro. Reconheceu A nulidade.

Em conseqüência.Parnaso de Além-Túmulo 286 Todo o esplendor. Pois sempre esquece Os seus deveres E se submerge Nos vãos prazeres. Para a alegria Fatal converge O seu viver.E que. a lira se levanta Glorificando o Amor que em Deus transluz. Porque verá. Para o enganoso. Ermo de amor. A mais tremenda Acusação! É o que acontece Em toda a idade. A esquecer Tudo o que seja Espiritual. de amor e luz. Nessas mansões. A eterna luz.Parnaso de Além-Túmulo 285 Indescritível. num brado Francisco Cândido Xavier . Feliz de quem Aí procura Maior ventura No sumo bem. Para o Bem exalçar. pura e santa. Contemplará Francisco Cândido Xavier . Lhe fez com ardor Ao coração Ermo de afeto. Efêmero gozo Do material. No ditoso país onde Jesus Impera com bondade sacrossanta. que nos conduz À divina alegria. Parnaso de Além-Túmulo Além do túmulo o Espírito inda canta Seus ideais de paz. Do eterno amor Do bom Jesus. Com a maioria Da Humanidade. .

“ – “Mas não o avistas – responde-lhe ela – Naquela estrela que tremeluz? Abre teus olhos. . ouviu: – “Ilha pacífica. Na ascensão para o Belo e para o Amor. fitando o céu – Dize-me. sempre a chorar: Em qual estrela cheia de aurora Foi o meu anjo se agasalhar?. tornando-os mais unidos. . extasiada.Parnaso de Além-Túmulo 288 Do sofrimento mato a lembrança E abro o futuro. fria e impiedosa. Como era grácil. Sentiu-lhe os raios. Cheio de vida. Fitou a estrela que lhe sorriu. responde-me sem demora. martirizada. ditoso e lindo. Angústia materna “Ó Lua branca. Dum filho amado que a gente tem. E das ausências conheço o pranto. Deixou minhalma triste e chorosa. Oh! se o conheço. luz de alvorada. Hinos das esperanças espargidos Sobre os homens. Roubou-me o sonho – deu-me o penar. Ó linda estrela que adorna o céu. Deixou vazio meu doce lar. Flores que afastam as agonias. Se tu soubesses. suave e triste.” E a Mãe aflita. da esperança. que encantador Meu anjo belo como a açucena. Lua..” Disse-lhe a Lua – “Eu sei do encanto. se acaso viste Nos firmamentos o filho meu. Continuava.. . Francisco Cândido Xavier . Sou eu no mar do éter infindo. Que a Terra toda inunda de esplendor. É bem aquela Que anda cantando no céu de luz.” – “Quase te odeio.. conheço-o bem!. feliz.. Francisco Cândido Xavier .A Mãe pedia. Missão que é toda só de alegrias: Flores reparto cheias de orvalho.Parnaso de Além-Túmulo 287 A Morte ingrata.Dessa Castélia eterna da Harmonia Transborda a luz excelsa da Poesia. Lua serena. Do Senhor tenho doce trabalho.. – “Então... cheio de amor!. E dos seus cantos.

Num belo raio de luz. Tanta era a saudade! Voltei do exílio.Parnaso de Além-Túmulo 290 Eu acredito que tenhas ido Pedir a Deus. que possui a luz. daqui eu velo Pelo sossego dos dias teus. tristonha e rude. Jardins e luzes e fantasias. Aqui em tudo floresce a vida. castelos e melodias. Lamentos do órfão Minha mãezinha. Envenenava meu coração... Senti a falta das primaveras. se mais não pude Ficar contigo na escuridão. Senti a falta desta alvorada!. se me detestas.. E não podias partir assim.. Contudo eu te amo e pergunto: quem Não tem saudades das minhas festas? O teu anjinho teve-as também. Todo vestido dum brilho santo..” A mãe saudosa. mãezinha amada. sorrindo..” – “Se tu me odeias. alguém me disse. Sonhos. Daqui te vejo.Gritou-lhe a pobre desconsolada. carícia e amor! Ó mãe. Aqui. Francisco Cândido Xavier . A Terra amarga. E.. Que tu te foste. menos saudosa. Muito pertinho do amor de Deus!... cheia de flores!..“ Aí os olhos da desditosa Nada mais viram do Eterno Lar. . Disse-lhe o filho – “Tive deveras Muita saudade.. Paz e ventura.Parnaso de Além-Túmulo 289 Não resisti. Em mim a noite não tem guarida. banhada em pranto. Aqui é tudo felicidade. Viu-se mais calma. fugi da dor. Vida risonha. na estrela. também há fontes. Notou de logo seu filho lindo. pôs-se a chorar. Já não me embala tua meiguice. Francisco Cândido Xavier . Porque tu guardas o filho meu. triste sem mim. Sóis rebrilhando nos horizontes. estranhamente. Faço-te um ninho ditoso e belo. Aqui terminam os dissabores.. perdoa.

à minhalma: “Além na luz! Na luz do Além!.. Mas tanto tempo faz que partiste. ai! não voltas. Que exclamam rindo dentro dum beijo: “Como eu te adoro. Quando é que voltas desse país. Cheios de angústias. Nem para dar-me consolação. Numa alegria terna e louçã. mas. mãe. Diz-me que vens e diz que te vê. Outros meninos alegres vejo. te beijar. se eu choro: “Eu vou chamá-la para você. do céu. Sem esperanças de te encontrar. E me conforta. Somente a mágoa vem-me afagar. consoladora: “Depois da morte serás feliz. E me respondem em voz suave: Francisco Cândido Xavier . grave.“ O mar e a noite me crucificam. Um dos seus anjos. que mágoas soltas Andam cortando meu coração.” Pergunto à fonte. . pergunto à ave. minha mamã!” Sinto um anseio sublime e santo. do teu querido. Que me fugiste sem me levar. beijo o meu pranto. De nos meus braços. meu doce bem?” Ele responde. E abraço o espaço.. Quando regressas dos Céus supremos. Há quantos dias que te procuro. Tudo é saudade no coração.. E ela retruca.Parnaso de Além-Túmulo 291 “Nós não sabemos! nós não sabemos!. quando eu imploro.” E digo ao sino na tarde calma: “Onde está ela.” Pergunto à flor que engalana a aurora. Que sofro e choro.” Sempre te espero.. Tudo é silêncio tristonho e escuro.Que de mim faça. ambos replicam: “Tua mãezinha não volta mais. só noutra vida!.... Ó mãe querida. outro Jesus. Inquiro o vento: – “Quando verei Minha mãezinha boa e querida?” E o vento triste diz-me: – “Não sei! . Só noutra vida. .” Somente a nuvem.. Multiplicando meus pobres ais. Que te procuro chamando em vão!.. saudoso e triste.

como um jasmim! Porém conheço que estás aflita.. Se não voltares. entrego-me ao meu desejo.. Tremo de anseio. ao gosto amargo. Quanta amargura.. calo. Sempre a meus olhos. Tua alma é réstia de luz Dos eternos firmamentos. Sentindo o anélito do teu beijo. Para quem segue triste e sozinho. Sou uma pútrida ferida Sobre o mundo desditoso! Mas o anjo da esperança Francisco Cândido Xavier . Então. Mas abro os olhos no ar vazio! Vai-se-me o sonho. . Foge comigo para outra luz!. muito ao largo. Volta depressa! guardo-te flores. Com o pensamento junto de mim. Ajoelhada. Já não suporto tantos cansaços!. estás bonita Francisco Cândido Xavier . banhada em pranto. Que sinto esparsa pelo caminho! Que mágoa eterna! que desventura. Bondade Vê-se a miséria desditosa Perambulando numa praça. Se teu corpo é lama e pus Em meio dos sofrimentos. Vejo-te linda nos sonhos meus. sorrio. no entretanto. E de mãos postas aos pés de Deus.Parnaso de Além-Túmulo 292 Qual uma rosa. e. O leproso Dizia o pobre leproso: Senhor! Não tenho mais vida. Sob o seu manto de desgraça Clama o infortúnio abrasador.Parnaso de Além-Túmulo 293 Responde-lhe com brandura: – Meu filho. E ela chora.. Eis que a Fortuna se lhe esconde.Tanta saudade. com perseverança.. Junto da fonte que canta e ri. pede a Jesus Que te conceda pôr-me em teus braços. espera a ventura Com fé... Porque só vivo pensando em ti: Celebraremos nossos amores.. E passa o gozo.

Francisco Cândido Xavier . Sou eu. E a fada. O Amor é a lei. Senão a Ti. Pedir a quem. Se me demoro No padecer. Se sofro e choro. Que me ensinaste . Meu coração Imerso em dor Aflito vem. portanto. Chega-te a mim: sou tua irmã. Em Ti. Senhor.Parnaso de Além-Túmulo 294 Oração A Ti.O seu destino. O impenitente Na expiação. Para o meu pranto Venho implorar. Abre-lhe a porta. Confio e espero. Pedindo o bem E a salvação. a sua dor.Parnaso de Além-Túmulo 295 Consolo santo. De Ti eu quero Me aproximar! Francisco Cândido Xavier . No meu viver. à luz dessa manhã. É porque andei Longe do Amor. Pedindo a luz. Diz-lhe. Mas eis que alguém a reconforta: É a bondade. Bem sei. somente. Senhor. a sorrir: – Tens frio e fome? Pouco te importe qual meu nome. Cuja bondade Me sorri E me conduz À imensidade Da perfeição? És a piedade Divina e pura Que à criatura Dá luz e pão.

Sublime estrela que brilha No céu da paz. da bonança. Ditosamente. E vem a Vida por dar-lhe a Dor. Acorre à Morte por dar-lhe a Vida. e já sepultada.. Quando só pede luz e amor.Parnaso de Além-Túmulo 296 Fala à Ventura com riso irmão. Senhora. De tão grandes sofrimentos. Assim. Mãe piedosa!. E altiva e rude lhe esconde a mão. Elevo a prece Do coração. contente. Oração Vós que sois a mãe bondosa De todos os desvalidos Deste vale de gemidos. Cheio de unção.. Dos corações desolados Na aflição. . A Ti. Paz e perdão! A Fortuna Anda a Fortuna por uma praça. E mais adiante topa a Desgraça. Como perdida.Parnaso de Além-Túmulo 297 Dos pobres. Escolhe sempre flores do vício. Deste mundo de tormentos. na existência. cansada e já comovida. Compadecei-vos. Francisco Cândido Xavier . Do céu de toda a esperança – Maravilha! Maria! – consolação Francisco Cândido Xavier . E assim prossegue na desmarcada Carreira louca do vão prazer.E que deixaste Aos irmãos teus! Pra que eu pudesse. Rogando amor. Buscar os Céus. Senhor. dos desgraçados. No esquecimento do próprio ser. E entre as virtudes. Vaidosa e bela. Depois. dá preferência Ao torpe egoísmo acomodatício.

E às estrelas sucedem-se as estrelas! Soneto Como outrora. Que vos possam compreender.. Sobre tanta desventura. Protegei os pecadores No degredo.. entre ovelhas desgarradas. Tanto pranto! Concedei-nos vosso amor.Parnaso de Além-Túmulo 298 E de todas as criaturas Carinhosa Providência! Que os homens todos vos amem. dos oprimidos Deste vale de gemidos. Que sois a terna clemência Francisco Cândido Xavier . Livrai-nos do abismo tredo Dos males. A vossa misericórdia. Vós que sois Mãe carinhosa Dos fracos. . E vendo não querem ver. Tende na vossa fé a bíblia santa. O coração tocado de agonias. dos amargores.. Trégua à dor!.Que apavora. Além da morte. Lá palpita a beleza onde a alma canta. Dai paz a toda discórdia. Mãe bondosa! Oração: Pai de Amor e Caridade. Pois tendo ouvidos não ouvem. Francisco Cândido Xavier . a vida tumultua. Ó corações que a lágrima devora. E em vossa luta o bem de cada hora. A luz do amor que vibra e revigora. O trabalho divino continua.. Estendei o vosso manto De bondade e de ternura. Vida e morte – exultai ao bendizê-las! Esperai nos tormentos mais profundos. Prisioneiros da dor que fere e espanta. a nova aurora Luminosa e divina se levanta. Além Além da sepultura.Parnaso de Além-Túmulo 299 O Mestre chora como Jeremias. Que a este mundo sucedem-se outros mundos.

Sempre a miséria e a dor nos vossos dias! Sempre a treva nas míseras estradas. .. Dois milênios contando o grande ensino Do Amor. Do caminho de lágrimas sombrias..Vendo o mundo nas lutas condenadas.. Não vos sufoque o horror da tempestade Fraternidade é o derradeiro porto. errante e aflita. Francisco Cândido Xavier . Mas..Parnaso de Além-Túmulo 300 Enquanto o mundo anseia. o luminoso bem divino. pura e divina.. pura e infinita!. em todos os tempos é a vaidade No egoísmo da triste Humanidade. Nos caminhos translúcidos da Crença. Preces infindas e desesperadas.. Toda oração é a doce quinta-essência Da esperança ditosa e peregrina. Que reside convosco em noite escura. pela oração profunda e imensa. Que habitaremos na Imortalidade. estranho e aflito. É a luminosa bem-aventurança Da mensagem de Deus. É a fonte cristalina em que descansa A alma humana fraca.. Vinde. Cujas flores e ramos de esperança Buscam a luz eterna que se agita. Sobre as desolações do mundo velho.. Fraternidade Fraternidade é árvore bendita. Rumo ao país ditoso da bonança. A terra da união e do conforto. A Prece O Senhor da Verdade e da Clemência Concedeu-nos a fonte cristalina Da prece.. Feliz o coração que espera e ora. Demorando as vitórias do Evangelho. Que suaviza os rigores da existência. Lembrai a chama Vós que buscais além da sepultura A resposta de luz da Eternidade.. A prece alcança as bênçãos do Infinito. Sabendo contemplar a eterna aurora Do Além. Nunca olvideis a Excelsa Claridade. Filha da crença que nos ilumina Os mais tristes refolhos da consciência. água do amor. Vós que chorais ao coro das procelas. irmãos! Desdobrai as vossas velas!.

Em toda parte fulge uma alvorada Que ao roteiro dos Céus nos reconduz.Francisco Cândido Xavier . Vós. Francisco Cândido Xavier . Somos em toda parte a criatura Buscando os dons supremos da Verdade. Já que buscais mais crença junto a nós! Se quiserdes brilhar nos Outros Planos.. Tendes convosco a Chama Adormecida. por que Jesus.Parnaso de Além-Túmulo 301 Somos todos a Grande Humanidade. Trazendo ao mundo o verbo de Jesus. Preferiu nascer no mundo Nos caminhos da pobreza? .. de amor e de humildade! As conquistas morais são toda a glória Que a alma busca na vida transitória. Não sabe o coração da Humanidade Beber dessa água límpida do Amor. Na luz das luzes do Consolador. De que o Senhor da Paz quer que se faça O sol da nova estrada dos destinos. E exclama. É a escada de Jacob vencendo o abismo. Ó torturados corações humanos. na luz do Espiritismo.. Cheio de amor e grandeza. Em direção à Fonte Eterna e Pura. O Evangelho. que tendes a fé que ama e consola. enquanto a turba observa e passa. Ante os desfiladeiros da impiedade. – “Deixai virem a mim os pequeninos!.” É que na alma sincera dos meninos Há uma luz de ternura. Nos caminhos da lágrima e da dor. Eterna mensagem Ainda e sempre o Evangelho do Senhor É a mensagem eterna da Verdade. Rogamos acendais a Luz da Vida. Fazei do vosso lar a grande escola De justiça. Pelos caminhos da imortalidade. Senda de paz e de felicidade. Deixai que o Cristo nasça dentro em vós. Na noite de Natal – “Minha mãe. amor e graça..Parnaso de Além-Túmulo 302 No Templo da Educação Distribuía o Mestre os dons divinos Da luz do seu Espírito sem jaça. Mas os túmulos falam pela estrada.

. Mas a luz do Senhor não teme. escura e desumana. Entre flores e alegrias. aos 9 de outubro de 1853. das graças do templo aos sarcasmos da rua. sem proteção.Parnaso de Além-Túmulo 303 – “Acredito. combatendo a descrença.. meu filhinho. sublime.. além da noite que se adensa. encantado e divino. Descortinando.” Francisco Cândido Xavier . Num berço todo enfeitado De sedas e pedrarias?” Francisco Cândido Xavier . em tudo e por tudo. membro fundador da Academia Brasileira de Letras. A alvorada feliz de um mundo livre e novo. Foi uma das figuras máximas na campanha abolicionista.Por que não veio até nós. Irmãos do meu Brasil. poeta.. A incompreensão do amor. Na ansiedade e na dor. se engalana. penso também Nos trabalhos deste mundo. Estado do Rio de Janeiro.Parnaso de Além-Túmulo 305 38 . Que o Mestre da Caridade Mostrou. jornalista. Jesus ficou Nas palhas. Que a Manjedoura revela Ensino bem mais profundo!” E a pobre mãe. nem recua. Às vezes. Em terna melancolia: – “Por certo. Nova Abolição Prossegue a escravidão implacável e crua. A luminosa humildade!. Não mais senzala hostil. Farmacêutico.Parnaso de Além-Túmulo 304 37 José do Patrocínio JOSÉ do Patrocínio nasceu em Campos. Francisco Cândido Xavier . de olhos fixos Na luz do céu que sorria... impetuoso político e grande orador. Por não lhe abrirmos na Terra As portas do coração. e todo o seu pensamento convergia para o bem da Humanidade. no entanto. E desencarnou a 29 de janeiro de 1905. Erige a liberdade augusta e soberana. continua Em domínio cruel de que a treva se ufana. E. Concluiu com sentimento. Do Amazonas ao Prata ergue-se a Deus um hino Que exalça no Evangelho a grandeza de um povo! Fustiguemos o mal. romancista.

deixou um livro – Fel – que apareceu poucos dias antes da sua morte e foi prefaciado por Forjaz de Sampaio. que estás nos Céus. Porque a treva e o sofrer sempre hão de acompanhar-te! Reconhece o quanto és ignorante ainda. Entre a sufocação de um sonho superior E a esperança na morte. depressa. Santificado. Prisioneiro da mágoa. onde perece o amor.Parnaso de Além-Túmulo 306 Soneto Pouco tempo sofri na Terra ingrata e dura Onde o mal prolifera.. Seja o teu nome sublime. Henrique Perdigão classifica-o como o “Cantor da Tristeza”. A vida é vibração ilimitada. coloca as mãos na tua própria chaga. Pai de todos os aflitos Deste mundo de escarcéus. Aos homens Volta ao pó dos mortais. nasceu em 1875 e desencarnou em 1899. Até que um dia a morte amiga e benfazeja Apodreceu meu corpo em sua mão gelada.. E pude. Francisco Cândido Xavier . infinda. Amassa com o teu pranto o pão de cada dia. Perambula na dor da tua noite aziaga. Na luz dos sóis infinitos. Senhor. a triste senda escura. voar para a mansão serena. Onde o sonho termina e a vida recomeça. Escravizado ao pranto. E minhalma elevou-se à rutilante estrada Onde o Espírito encontra a paz que tanto almeja. Volve ao sono cruel da tua carne obscura. Onde fulgura o sol do verdadeiro amor. ao pé do corpo imundo.José Duro POETA português. agrilhoado ao mundo. então. Tomé. amortalhado em dor! Mas depois a oração libertou-me da pena. Francisco Cândido Xavier . A chave procurar do enigma que encerra A paragem da morte.Parnaso de Além-Túmulo 307 39 José Silvério Horta Oração Pai Nosso. homem que vens. Para depois ouvir a voz da sepultura. E o seu grande mistério existe em toda parte. Que em todo o Universo exprime . Vai com o teu padecer sobre a estrada sombria. Algum tempo eu sofri. o mais além da Terra. Musa amargurada.

ternura e amor. Nos Céus. Com a proteção de Jesus. Feito na luz. Francisco Cândido Xavier . Livra a nossa alma do erro.Parnaso de Além-Túmulo 309 40 Júlio Diniz POETA português. principalmente com As Pupilas do Senhor Reitor. Perdoa-nos. A edição póstuma de Poesias exaltou.Parnaso de Além-Túmulo 308 Os débitos tenebrosos. A amar nossos irmãos Que vivem longe do bem. notabilizou-se mais como romancista. Assim que deixara a orgia No castelo. as suas qualidades primaciais de prosador. Onde se faça a vontade Do vosso amor. di-lo um comentador. sem embargo de possuírem os seus versos um certo encanto melancólico. meu Senhor. no carinho Do pão espiritual. .. Auxilia-nos.Concórdia. Distante da vossa luz. Cumpra-se o teu mandamento Que não vacila e nem erra. pois que o seu nome é Joaquim Guilherme Gomes Coelho. O Esposo da Pobreza Francisco de Assis. Assim seja. Nos sentimentos cristãos. também. Com este pseudônimo. Venha ao nosso coração O teu reino de bondade. Entregou-se à Natureza. Francisco Cândido Xavier . Que a nossa ideal igreja Seja o altar da Caridade. em 1871. Evita-nos todo o mal.. De paz e de claridade Na estrada da redenção. como em toda a Terra De luta e de sofrimento. A uma vida de aspereza Num canto doce e singelo. nascido em 1839 e desencarnado na cidade do Porto. Dá-nos o pão no caminho. Sobre o mundo de desterro. um dia. De passados escabrosos. De iniqüidade e de dor.

As aves que não trabalham E no entanto se agasalham. conforta os desgraçados. ouve. Via a terra enverdecida Exaltando a força e a vida. inda via. A seiva misteriosa No seio dos vegetais. E a ânsia cariciosa Das almas dos animais. E sobretudo. faze-te esposo Da pobreza desvalida. Flagelados pela dor. Que é a grande felicidade De todos os corações. . Sedentos e esfomeados. Esquece as imperfeições! . Buscando a paz da humildade. doce e pura. Nos celeiros da fartura. Francisco. A santa luz da harmonia. E nas horas de repouso.Parnaso de Além-Túmulo 310 Vai aos Céus sem a bondade. Emprega toda a tua vida Na doce faina do bem. ninguém Francisco Cândido Xavier . Saltando de galho em galho. Que não tendo amor nem luz.Parnaso de Além-Túmulo 311 A sacrossanta harmonia Do coração sofredor.. Bênção do Céu. Buscando a graça do orvalho. Recebe também a esmola Das luzes do meu amor!” Francisco chorava e ria.. E em divinal alegria Via os lírios e os jasmins. Com roupagens que parecem Vestidos de Serafins. Francisco em estranho gozo A voz de Jesus ouvia: – “Filho meu. que não tecem.Abandonara a vaidade. Que não fiam. Francisco Cândido Xavier . Quem alivia e consola. Vai. Tem tesouros de esplendor No terno amor de Jesus.

Francisco Cândido Xavier . Tornou-se o amparo da dor E guiado pelo amor Fez-se o Esposo da Pobreza. Ó Terra. imaginai A Natureza celeste Longe da Terra sombria. Na glória do Eterno Dia Do reino de Nosso Pai. então. Entregou-se às harmonias Vibrantes da Natureza. As ovelhinhas balindo. Das lindas sebes floridas Nos dias primaveris: Radiosidade e frescura. Ornamentada de flores Que os meus encantos resume. Poesia Poesia da Natureza Embalsamada de olores. Jovens felizes amando Entre arroubos de ternura. Submerso o coração Em sublimes alegrias. À mesma santa harmonia Que te prende à luz dos Céus. alacridade Dos cenários pastoris! As cotovias cantando. Caridosa ventura No abril das almas irmãs. Tão cheia de desventura.Francisco de Assis. quanto eu quisera Unir-te toda à poesia.. das margaridas. Fragrâncias.. Nessa mesma primavera . As criancinhas sorrindo Na alegria das manhãs. Entretanto. Como raios de alvorada Cheia de luz e perfume! Suavidade e doçura Das rosas. amenidade. Poema de singeleza Esplendente e delicada.Parnaso de Além-Túmulo 312 Aromas. Belezas de canto agreste Nas urzes da Terra escura.

Crianças. Em que me sinto nos braços Do amor sagrado de Deus. ele escuta O coração a gritar: “Quem não trabuca não come. Chamaram-lhe – “Béranger brasileiro”.. Cantando. com 95 anos de idade.. Mimosas quais bandos de aves Cortando um céu claro e lindo. Com as pétalas orvalhadas. Sua musa foi elogiada por Castilho. Inda é espessa a escuridão. etc. Pequeninos trovadores Entre as árvores e as flores....Dos rutilantes espaços. É um vulto literário inconfundível no cenáculo do seu tempo. Pobres Mal clareia o Sol a serra. anjos suaves. passarinhos..... Vai-se com a luz misturando. Ao levantar-se da cama.. em 1931. Hino terno de esperanças Das aves e das crianças. Sorrindo. Sorrindo.. José de Alencar. Lares de amor doce e brando. Ao acordar. Aconchegados nos ninhos... Sorrindo.. Francisco Cândido Xavier . . Sem descanso. Cantando. Tecendo as horas serenas Das alegrias terrenas. Machado de Assis.. a labutar. impondo-se justamente pela naturalidade e espontaneidade do seu estro. Francisco Cândido Xavier . Cantando. Silvio Romero.. Toca a vida a despertar: O pobre se pôs há muito..Parnaso de Além-Túmulo 314 41 Juvenal Galeno NASCIDO em Fortaleza e desencarnado na mesma cidade.Parnaso de Além-Túmulo 313 Aves e anjos Passarinhos. Persegue-lhe a precisão. Açucenas perfumadas. A fome lhe bate à porta.

Parnaso de Além-Túmulo 315 Pertencem ao seu patrão. Luta e sua. planta a cana. porém. Ah! que a água já está pouca Nos rios. E sempre resignado. Quando o pobre vai à mesa. Plenamente contentado Com o pouco do seu suor. Espalha o pé nos gerais.Já chega de repousar!” Busca. o seu trabalho. Redobra o pobre os serviços. couves. Aguarda a minguada espiga Que decerto há de ficar. Três quartas partes de tudo Francisco Cândido Xavier . As plantas já se amarelam. Que cuide dos mandiocais. Nada existe no paiol. tudo faz. Contudo. Então. Tudo ajeita. O certo é que ao fim do tempo De constante batalhar. não tem paz. Mas se quer repetições. Se geme. feijão. Arde a terra. corta os matos. Vem a seca sem piedade E o pobre espera chover. queima o Sol. resolve pedir Francisco Cândido Xavier . se sofre dor. O estômago pede mais. que o vê. Quando a semente germina E os ramos querem crescer. Planta o milho.Parnaso de Além-Túmulo 316 Ao patrão que sempre o tem. nos seringais. então. Mas o patrão avarento Não adianta vintém. O pobre nunca descrê. Arrasta-se e vai ao médico . Batatas. Rasga a terra. ele espera sempre Do Deus que o ama. Deus lhe dará no outro ano Uma colheita melhor. Não possui um só real Pra consultar um doutor. Não vem a chuva.

Que o padre cobra demais. quem o ajude. Se a morte vem ao seu ninho E lhe rouba o filho. Os vinhos de jatobá. Francisco Cândido Xavier . o chá. Nem terrenos. quanta tortura. nem ovil. Regressa para o seu lar. O pobre só tem na vida A doce mão de Jesus. E em vez de pão. Se tem pão não tem saúde. Dá-lhes porém seu tesouro. Sublime estrela que brilha Da mais rica devoção – A prece que nasce d'alma. Que amargosa a sua dor! A todo o instante da vida Luta o pobre sofredor. Se lhe falta o pão do dia Falta azeite no candil. Não tem casas de morada.” O pobre. Os cães o tocam da porta. humilde e paciente. não tem Quem o ampare. E põe em prática os meios: As beberagens.E lhe expõe o seu sofrer: “Não tem recomendações? Então não posso atender. os pais. Que fulge no coração.Parnaso de Além-Túmulo 317 Se tem saúde. Mesmo assim. Não lhes pode dar a missa. Se bate à porta do rico. . ganha pau. As promessas aos seus santos. Ai! que sorte rude e amarga Do pobre sempre a sofrer: Se vive para o trabalho. Mormente dum rico mau. Se outrem lhe ofende e ele pede Da Justiça a punição. Trabalha para comer. A Justiça o encarcera Com a sua reprovação. O braço amigo de alguém. E pensa nos outros meios Da saúde lhe voltar.

O carinho dessa mão. Francisco Cândido Xavier . Ela vem buscar alguém.Que o cura na enfermidade. Não quer saber se ele tem. Sextilhas Quando a morte chega em casa. ventura. Após a morte. Ela vem buscar alguém. Não quer saber se ele tem Uma candeia com luz. O povo está reunido Quando a morte chega em casa. Não lhe pergunta qual é A sua religião. Se esse alguém vai-se casar. Se pratica o mal ou o bem. Que na treva lhe dá luz. amor. A morte não quer saber Se é preto como urubu. Se tem pai e se tem mãe. . Pedro ou José É o seu nome de batismo.Parnaso de Além-Túmulo 318 Parece até que se arrasa Sob as chamas de um incêndio. A morte não quer saber. Mal dele se não houvesse A vida depois da dor. Se tem pratas no baú. De quem precisa por certo. Nem a sua profissão Não lhe pergunta qual é. Esteja distante ou perto. onde existem Justiça. Que o conforta na desgraça E ampara na provação. Francisco Cândido Xavier . Não se importa com ninguém Que chore ou que se lastime. Se tem mais fé com o demônio Do que mesmo com Jesus. A casa faz alarido. Mal do pobre se não fora. Se Sancho.Parnaso de Além-Túmulo 319 Nem procura examinar Se tem filhos ou mulher. Se aquele que vai morrer É branco qual uma garça.

. Na tempestade ou na paz. O cristão ou o pecador Ela conduz sem ruído. Com receio de ir ao fundo. Leva sem tempo perdido O cristão ou o pecador... Nem tão boa coisa é. Mas ele mesmo é quem faz Os prantos ou gozos seus. Saúde. É ele mesmo quem faz.. Mas para mim que só fui. Há quem estime? Talvez... Tateando dificilmente No meio da escuridão. Nem homem alegre ou triste. De cá Que amargo era o meu destino!. para o rico Nunca tem contemplação. beleza e dor. Para o pobre. Francisco Cândido Xavier . O que segue vai com unção. Essa questão de ficar Com Satanás ou com Deus. Ela vem de supetão Para o pobre. Entremeados de prantos.. Em atenções e conversas. Rogando com fervor terno Ao santo da devoção Que o afaste do diabo E dos horrores do inferno.Nada disso a morte quer. Para a morte não existe. Nem procura examinar. Tristezas no coração.. Não perde tempo em clamor.. . para o rico. Para a morte não existe Anéis de grau de doutor. Viver na Terra e somente Remando contra a maré.Parnaso de Além-Túmulo 320 O que segue vai com unção. Nem mulher bonita ou feia. Como o corvo bate o bico Por cima de um peixe podre. Esta vida de sofrer Trinta dias cada mês..

Mas falar demais agora. Professor e poeta. Tantas misérias sentir. deixou inúmeras obras. Ah! morrer e ainda sentir Saudades da escravidão. galé. Nem tão boa coisa é. Jogar pérolas a tolos. Pobre filho da ralé. Casar-se com a desventura Nem tão boa coisa é. Da treva...Galeno sem nó. Nem tão boa coisa é. Nas secas do Ceará. Do Crato. Surgem constelações do Novo Dia . e desencarnou no Rio de Janeiro. do Canindé. Já não é próprio de mim. O pranto ferve na Terra. salta acolá.. Nem tão boa coisa é. Francisco Cândido Xavier . Nem tão boa coisa é.Parnaso de Além-Túmulo 322 Patetice é ensinar Verdade aos homens sem fé. Saudade Ante o brilho da vida renascente Depois da névoa estranha. Meus irmãos de Fortaleza. O mal sufocando o mundo. Nas guerras de toda parte. Ver uns rindo e outros chorando. Francisco Cândido Xavier . Não vou gastar minha cera Com tanto defunto ruim. Tantas dores em conjunto. da ingratidão. Da carne. no Estado do Paraná. do desconforto. Não é possível porque. em junho de 1950. Marchando com destemor: Ver o rico andar de coche E o pobre correndo a pé. Sentir as disparidades Francisco Cândido Xavier . Salta aqui. densa e fria..Parnaso de Além-Túmulo 321 Das vidas cheias de dor.Parnaso de Além-Túmulo 323 42 Leôncio Correia LEÔNCIO Correia nasceu em 1865.

Envolvida na luz esmeraldina Da esperança que vibra e resplendora.Parnaso de Além-Túmulo 324 43 Lucindo Filho NASCIDO em Minas Gerais a 16 de agosto de 1847 e falecido em Vassouras a 10 de junho de 1896. oferecido pela população local. Abre-se a porta da mansão divina Entalhada em reflexos de aurora. Carimbos. em menina.... Ante a grandeza Da glória excelsa eternamente acesa Volvo à sombra letal do abismo fundo! E. Entre suas obras. etc. Ao compasso do Amor e da Harmonia.Muito longe da Terra descontente. . e desencarnado em Lisboa com 53 anos de idade. esmagado de angústia e de carinho. Virgilianas. A alma vitoriosa entoa hosanas. é hoje um nome esquecido. Choro de amor. agora. Ninguém ali o conhecera nem dele se lembraria. reinos de alegria E impérios da beleza resplendente Cantam no Espaço. Sem as sombras das lutas desumanas. Francisco Cândido Xavier . fora dos meios culturais. Francisco Cândido Xavier . Sem sombras 10 Junto ao sepulcro onde a saudade chora E onde o sonho das lágrimas termina. A beleza profunda e peregrina. onde ele tem precioso jazigo. ai! pobre de mim!. Foi jornalista. compositor musicista e tradutor renomado. e conquanto fosse intelectual de prol.Parnaso de Além-Túmulo 326 44 Luiz Guimarães Júnior POETA brasileiro. nascido no Rio de Janeiro. Flores Exóticas. 10 Esta produção surgiu de improviso no curso de uma reunião familiar em que se não cogitava de assuntos espíritas. Que a sepultura em cinza escura e fria É a nova porta para a eternidade. O poeta desencarnou no século passado e o médium é deste século.. em Vassouras. jornalista. Latinista de prol. vive em tudo. Mundos celestes. revendo o velho ninho E as aves ternas que deixei no mundo!. conta em sua bibliografia Poemetos. Ébria de paz e de imortalidade. em 17 de fevereiro de 1845. Mas. exceto uma senhora que. comediógrafo e diplomata.. lhe assistira aos funerais. Francisco Cândido Xavier . a seu tempo. Médico. jubilosamente. Não mais a noite.Parnaso de Além-Túmulo 325 Não lamenteis quem parta ao fim do dia..

Bacharel em Direito. Clarão de paz ao pobre caminheiro! No limiar das amplidões da Altura Penetrei. Sara (poema). volver ao lar primeiro.. Além ainda.. sobressai Sonetos e Rimas. Envoltos em ternuras e em carinhos. Pairar no Além!. Divinal era a luz que resplendia. Voltei. Foi membro da Academia Brasileira de Letras. nova a estrada Que minhalma extasiada percorria. Acharia nos céus maravilhosos. Eu quisera voltar aos tempos idos Da juventude. Da velhice nos dias mal vividos. nascido a 4 de maio de 1861 e desencarnado na cidade do Rio de Janeiro. Nas esteiras de prantos esquecidos. em 1929. Poeta de grande e viva inspiração. membro da Academia Brasileira de Letras. Busquei contente a paz que me sorria No fim da áspera senda palmilhada. que ainda hoje se lê com encanto. Lírica. De volta. Em revérberos lindos de alvorada. e vasta colaboração na Imprensa. Mal podia julgar que inda outros gozos Mais sublimes que aqueles já fruídos. Francisco Cândido Xavier . conta em seu acervo bibliográfico Ondas (3 volumes).Parnaso de Além-Túmulo 327 Voltando Após a longa e frígida nortada Da existência no mundo de invernia.. Novamente no Além me ofereciam Lenitivo às agruras dos meus prantos. etc. Nas carícias risonhas dos caminhos.. Soluçando empolgado de ventura. Soneto Na escuridão dos anos procelosos.Noturnos. Francisco Cândido Xavier .. Não te percas na lágrima sombria Da tormenta de anseios e amargores! . Nova era a vida. e os mesmos seres que me haviam Ofertado na Terra amores santos. Caminheiro que vais ao fim do dia Demandando o crepúsculo das dores. vislumbrando a Imensidade.Parnaso de Além-Túmulo 328 45 Luiz Murat FLUMINENSE. Ressurgido em perene mocidade. aos tempos bonançosos.

e excelsa clarinada Anuncia outra vida renovada. aos 41 anos de idade. distante. Um golpe. Aqui o incluímos. Ao sofrimento ou ao bem-estar. Francisco Cândido Xavier . E a alma que se abandona. No estranho portal No último instante. atenta a magnitude do seu estro... naquela mesma cidade. Nunca te isoles Nunca te isoles entre os mananciais da vida.Parnaso de Além-Túmulo 330 47 Marta ESTE Espírito não pôde ou não quis identificar-se. Publicou dois livros. A vida é o eterno bem que nos foi dado. Fundou e dirigiu a revista A Crisálida e o jornal O Domingo. ergue teus olhos! Não te prendas somente ao chão tristonho. Brilhando além da lápide sombria.. onde colaborou em vários jornais. A antevisão do fim de toda a vida Obscurece a tela derradeira E a noite escura se distende à beira Da suprema esperança desvalida. Um sonho. de poesias: Bandolim e Sombrinhas e Postais. no começo do ano de 1918. de justiça. Aos clarões imortais do Novo Dia.. a lágrima dorida Resume as ânsias da existência inteira. Francisco Cândido Xavier .. Residiu durante algum tempo na Capital Federal. inédito... além ainda.. um terceiro: Agonias e Ressurreição.. Na alvorada perene da harmonia. Para que o multiplicássemos indefinidamente.Parnaso de Além-Túmulo 329 46 Luiz Pistarini LUIZ Pistarini nasceu em Resende. Aureolada de eternos resplendores.. porém. Que o país luminoso do teu sonho Fica ao alto. Estado do Rio. deixando. . Apagou-se a candeia transitória E a verdade refulge envolta em glória.. Guarda a esperança carinhosa e linda! Vence a longa jornada dos abrolhos. E a saudade é a tristonha mensageira Que engrinalda de angústia a despedida. à rua dos Voluntários. Desolado viajor.. e faleceu. Foi um atormentado pelas enfermidades.Além da sepultura principia O caminho dos sonhos redentores.

Para nutrir as nossas alegrias Nos jardins estelares. Porque os nossos espíritos São unos na essência. É guardarmos a semente Da Vida Em leivas verdejantes. Ler a sua epopéia feita de astros. que é Pai bondoso.Parnaso de Além-Túmulo 332 As quais no divino equilíbrio do Amor . Tudo o que nos rodeia.. Indumentos de flores perfumosas E frutos aos milhares. Onde outras almas sentem fome e sede. Cujas mãos magnânimas e misericordiosas Espalharam com abundância Nas vastidões imensuráveis do éter.Parnaso de Além-Túmulo 331 Dar tudo quanto temos. Que se estende infinita no Infinito. Terras e almas. Infinitas e esplendorosas. Multiplicar a vida É amar sem restrições A flor. Francisco Cândido Xavier . E a qual há de nos dar Sombras amigas para descansarmos. dar carícias. Tudo isto é amar multiplicando a vida. Agradecer a Deus.. O firmamento..É um deserto sem oásis. Dar a lição de paciência se sofremos. as alvoradas. Francisco Cândido Xavier .. Unidade Todos nós somos irmãos. Atenuar a dor alheia. os corações. o luar. a ave. dar luzes. Dar sorrisos. Bendizer o caminho que nos leva Da treva para luz. Todos nós somos fragmentos Da mesma luz gloriosa e eterna Da sabedoria inescrutável Do Criador. Dar um pouco de gozo se gozamos. Tecer o fio eterno da esperança Por onde se sobe ao Céu. Sorrir aos infelizes. Ter a bondade ingênua das crianças.

Buscam a perfeição indefinida. O qual. Como incontáveis são as almas humanas. A mesma dor na luta A prol da redenção.. por uma disposição inexplicável. Espiritualmente. Para sanar tão estranhas feridas. Tenho os meus olhos vendados E uma treva incomensurável na consciência! Apaga os meus atrozes padeceres!.“ “Filha – respondeu compassivo –. O mesmo sonho. Somos filhos de um só Pai. Porque nutrimos indistintamente A mesma aspiração do Belo e do Perfeito. Somos as frondes que se interpenetram De uma só árvore genealógica. Francisco Cândido Xavier . Vivereis dentro de sagrados coletivismos. “Anjo Bom! – disse-lhe a alma súplice – Eu tenho a minhalma coberta de feridas cancerosas! Cura-me as chagas purulentas do remorso. . E infinitos seus estados de consciência. Todos nós somos irmãos. mais além Das fronteiras planetárias. Pontificava o Anjo da Justiça. Pela porta escura do remorso. da Terra O caminho comum da vossa salvação.Parnaso de Além-Túmulo 333 No Templo da Morte O templo da morte tem portas incontáveis. Tão amargos pesares. Em nome do Senhor de todos os latifúndios do Universo. Na suprema unidade De aspiração para a felicidade. Porquanto.. Só há um recurso: .. Todas as almas Todos os seres da Criação! Fazei. Sem egoísmos. Um dia penetrou os seus umbrais Uma alma que regressava da Terra. Cuja raiz insondável Está no coração augusto de Deus. Encerra em si Todos os mundos. pois. Lá dentro.

de cuja fonte límpida promana a Salvação.” E a pobre regressou. Nos dias amargurados que transcorrem. Reconheceu o luminoso Anjo da Dor. cheios de confiança! Francisco Cândido Xavier .. E ainda hoje.Parnaso de Além-Túmulo 334 Ele há de te guiar através das sirtes do mar encapelado dos sofrimentos. E te conduzirá ao lugar bendito onde existem as lágrimas salvadoras!. do bem na tua alma! Mas o Anjo da Dor irá contigo. O manto protetor Que abriga os aflitos e os infelizes. Banha-te nas suas águas cristalinas. A fonte que desaltera todos os sofredores. Penetrou no templo misterioso da morte Pela porta maravilhosa da Redenção. Jesus Jesus foi na Terra A mais perfeita encarnação do Amor Divino. O Jardineiro Bendito Que jorra no coração Dos transviados do caminho do Bem. Estás na escuridão absoluta Pela ausência da luz.. E depois de haver percorrido Tão tortuosos caminhos. Banhou-se na água lustral dos tormentos... O pão que sacia os esfomeados das verdades eternas. É para a Humanidade A promessa da Paz... Apegai-vos a Ele.Volta à Terra! Lá existe o Regato das Lágrimas. Inçados de perigos E de dores amargas.. As sementes do arrependimento Que hão de florir na Regeneração E frutificar na perfeita felicidade espiritual. Submergiu-se no regato encantado. Conduzida pela Dor. Elas serão o teu bálsamo consolador E curarão a tua cegueira..Parnaso de Além-Túmulo 335 Ele é a misericórdia personificada. Ouvi a sua voz . E nos seus braços magnânimos e compassivos. Francisco Cândido Xavier .

Parnaso de Além-Túmulo 337 Ao pé do altar .No silêncio da consciência que vos fala Do cumprimento austero De todos os deveres cristãos! E um dia Descansareis reunidos. doce. Acima de todas as coisas transitórias. Que se desfazem como as neblinas aos beijos leves do Sol. Francisco Cândido Xavier . – A bússola das suas mais caras esperanças! Quando sofreres. Na amargura e na dor. A tua inteligência e o teu sentimento Francisco Cândido Xavier . Longe das lágrimas Do orbe obscuro... Lembra-te do Céu És uma estrela caída Sobre os pauis da Terra. És alma em ascensão para Deus. suave. Que sonham e choram. Ligados pelos liames inquebrantáveis Da fraternidade além da morte... A sombra da árvore luminosa Das boas ações que praticastes. Misteriosa. Buscando Deus. Busca aspirar esse aroma divino E tua alma sofredora Sentir-se-á envolta na beleza. Por que te abates e desanimas sob os aguilhões da carne perecível? Contempla o Alto. E sentirás uma carícia branda. No eflúvio peregrino Que mana fartamente Dos espaços imensos!.Parnaso de Além-Túmulo 336 São fulcros de luz imperecível. Dos prantos e das provações remissoras!.. Se a fraqueza te envolve em seus tentáculos. Que promana Do empíreo constelado Para todas as almas que oram.. Que constituem os atributos maravilhosos da tua imortalidade. Lembra esse dia que te espera Na indefinível primavera Gloriosa de amor.

a tua alma Amando o próximo. Darás a Deus. Que contigo é seu filho dileto. sem reserva.. Não te esqueças que a Caridade. Não permanece No recanto das sombras. A irmã consoladora. E a tua Fé Será um hino constante subindo aos Céus. Não te retires. Mas se entrevês os Céus E as suas maravilhas. Não faz longas e inúteis orações: Ela é a serva de Deus E as suas preces fervorosas São feitas com as suas mãos carinhosas. Se tens a Fé mais pura. Juraste fidelidade só a Deus. A companheira terna De todos aqueles que te rodeiam Na estrada longa dos destinos comuns. Sê a mãe desvelada. do mundo. Se ama a prece e a pureza.. A tua esperança em Deus Será dilatada. Na sombra silenciosa dos mosteiros. Que pensam no coração da Humanidade Todas as chagas abertas Pelo egoísmo. Disse-me alguém: “Minha filha. Será um hino constante subindo aos Céus.Eu vivia no Claustro. Quando as penitências mortificavam O meu corpo alquebrado e dolorido E a oração Era o conforto do meu coração. Esmagá-las com o Bem. A Esperança mais linda. Sê a abnegação e a bondade serena. do repouso. Francisco Cândido Xavier . Destruí-las com Amor. Está sempre em meio às tentações Para vencê-las.Parnaso de Além-Túmulo 338 A solidão da cela é um crime. O anjo que nos abre as portas da Ventura. pois. Mas um dia. .

. Que orvalham com lágrimas benditas As flores do seu amor desvelado. É a consolação Que se derrama puríssima Sobre os prantos maternos. Fustigadas pelo furacão da desgraça.Parnaso de Além-Túmulo 340 Às mães carinhosas e desprotegidas. E só a dor que nos crucia Francisco Cândido Xavier . Dos mais rudes pesares. Mãe das mães Maria É a Mãe piedosa De todas as mães resignadas e sofredoras. Purificando os nossos corações Na conquista das altas perfeições. Perseguidas pelo infortúnio No sombrio orbe das lágrimas e das provações. Desprezando o repouso e a soledade. Estendendo os seus braços tutelares Francisco Cândido Xavier .Para que vislumbres as felicidades celestes Que esperam os justos na Mansão da Alegria. Espezinhadas pelo sofrimento. Porque a verdadeira paz de espírito É conquistada No seio das lutas mais acerbas. Todas as preces maternas Ascendem aos Espaços Como um doloroso brado de angústia a Maria. Atraída pela Verdade. Amarguradas e infelizes. Vertidos na corola imensa das dores. – Somente a Dor em sua essência pura Nos desvia da amarga desventura. É o manto resplandecente Que agasalha os corações das mães piedosas. brandamente. Meu corpo não resistiu Aos cilícios que o martirizavam E minhalma tomada de emoção Abandonou-o.Parnaso de Além-Túmulo 339 Ou a dor que consolamos. atropeladas pelo mal.. Sonhando com a luz do trabalho Em outras vidas benfazejas. E a rosa sublime de Nazaré Escuta-as piedosamente. E bastam os eflúvios do seu amor sacrossanto .

Porque se apegaram A âncora da Fé. Autor de inúmeras obras literárias. sobretudo. Para que o Brigue da Esperança. Ante cuja grandeza o mundo se prosterna. luta e contentamento. Como náufragos de uma tormenta gigantesca.. Levando-nos ao Céu.Para que as consolações se derramem Cicatrizando as feridas. Honra ao trabalho Trabalha e encontrarás o fio diamantino Que te liga ao Senhor que nos guarda e governa. Tudo na imensidão é serviço opulento. Da salvação das almas que sofreram Nos torvelinhos do mundo.Parnaso de Além-Túmulo 342 48 Múcio Teixeira MÚCIO Teixeira nasceu em 1858.. Lenindo os padeceres Das mães desoladas. cheia de piedade e Pelas nossas fraquezas. É. em cântico divino Do trabalho imortal. Que nos ampara e guia em nossa cruz. Com as suas velas alvas e pandas. brunindo a vida eterna!. Buscando a solução da dor e do destino. Balsamizando os pesares. e desencarnou em 1926. Veleje tranqüilamente.. Pulverizam-se os rochedos do mal Do oceano da vida de desterro e de exílio. A Virgem da Pureza Francisco Cândido Xavier .. Da beleza do herói ao verme pequenino. que encontram nela O símbolo maravilhoso de todas as virtudes!.Parnaso de Além-Túmulo 341 – Mãe das mães. . Maria é o anjo. Ao seu olhar compassivo. E sendo o arrimo de todas as criaturas. pois. Ela é a personificação do amor divino No vale das sombras e das amarguras. Buscando o porto esperado com ânsia. Tudo se agita e vibra. no Estado do Rio Grande do Sul. Júbilo de ajudar. Francisco Cândido Xavier . Desde o fulcro solar ao fundo da caverna. Que não se perderam no abismo das águas tenebrosas Do mar da iniqüidade.

inquire o brado Da justiça sem Deus. A multidão inteira. .. em sombrios Pesadelos da carne palpitante. que trêmula se entrega. cheia De incerteza na esfinge que tu plasmas!. Jesus ou Barrabás? Sobre a fronte da turba há um sussurro abafado. No derradeiro sono..... o Príncipe dos Poetas Brasileiros.. Jesus!. em prece. ao seu tempo. E debaixo do apodo e ensangüentada a face. “Crucificai-o!” – exclama.. vacilante. – e a resposta perpassa Como um sopro cruel do Aquilão da desgraça. Espia. Francisco Cândido Xavier . Para a consumação dos festins do pecado. Um lamento lhe chega Da Terra que soluça e do Céu desprezado. Que os prazeres da vida converti-os Em poemas das formas. Trabalha e serve sempre. sonda e chora. Sem que o Anjo da Paz amaldiçoe ou gema. inquire. ansiosa se congrega. Cuja mão luminosa e terna lhe trazia O cálix do amargor. Francisco Cândido Xavier . Vi fanarem-se anseios como fios De ilusão transformada em sopros frios. Impassível. Sobre o meu peito em febre. Morte.Parnaso de Além-Túmulo 343 49 Olavo Bilac NATURAL do Rio de Janeiro. por si. Considerado. descerras aos aflitos Uma visão de mundos infinitos E uma ronda infinita de fantasmas. nasceu em 16 de dezembro de 1865 e aí faleceu em 1918. Que o trabalho. Jesus fitando os céus.Parnaso de Além-Túmulo 344 Soneto Por tanto tempo andei faminto e errante. alheio à recompensa. Vê descer da amplidão o Arcanjo da Agonia. Toma da cruz da dor para que a dor ficasse Como a glória da vida e a vitória suprema. No Horto Tristemente.. duríssimo e refece. no teu portal a alma tateia. “Jesus ou Barrabás?” – pergunta. Sócio fundador da Academia Brasileira de Letras. instante a instante. implacável e cega.Desde a flor da montanha às trevas do granito. Surda à lição do amor. é a glória que condensa O salário da Terra e a bênção do Infinito. Jesus! Jesus!.

de Paz e de Alegria. não sabem o que fazem!. eu vos dou meus últimos ensinos.“Amados. Derramai com piedade a lágrima terrestre!” Mas eis que Judas chega e lhe diz: – “Salve. Que lhe mana da luz do olhar clarividente. As hostes dos descrentes e dos loucos. E sublime na fé mais vivida. Francisco Cândido Xavier . .. – Raio de eterno sol na senda dos destinos. que seguis a turba desvairada. E clama para os Céus em prece compassiva: “– Perdoai-lhes. De imolar-se por fim nas aras desse Amor. .. Eterna irradiação que atinge a mais escura Estrada de aflição. Francisco Cândido Xavier . E Jesus abençoando aquelas almas cegas... E do céu se desprende uma doirada messe De bênçãos aurorais.” – dizia... Mestre!” E toma-lhe das mãos. da cruz. afastai-o!. Trazei a vossa vida imaculada e pura! O Amor há de vos dar todos os dons divinos. derrama As lágrimas de fel do pranto mais ardente. meu Pai. osculando-lhe a fronte. Sente a Mão Paternal que o guia na amargura.Parnaso de Além-Túmulo 345 Paira em todo o recanto a vibração sonora Do Amor e o Mestre já na sede que o devora. A crucificação Fita o Mestre. Responde humildemente: – “É assim que tu me entregas?” Vendo as coortes do Céu nas fímbrias do horizonte. E em vez de suplicar a Deus para a injustiça O fogo destruidor em tormentos que arrasem. Gritos e altercações! Jesus. a multidão fremente. de dor e desventura. Sob os gládios da dor aspérrima. amargamente. Na doce mansidão dos seres pequeninos.. Que de olhos cegos e de ouvidos moucos Estão longe da senda iluminada. Mas eis que todo o Azul celígeno estremece. Soluça no silêncio. Lança os marcos da luz na noite primitiva. Contempla a vastidão celeste que o reclama..– “Se puderdes.“ Aos descrentes Vós.. meu Pai. murmura: – “Que se cumpra no mundo o arbítrio do Senhor!.Parnaso de Além-Túmulo 346 A negra multidão de seres que ainda ama. Sobre tudo se estende o raio dessa chama. Alma doce e submissa.” O beijo de Judas Ouve-se a voz do Mestre ungida de ternura: .

Francisco Cândido Xavier . Sente o beijo de glória do Infinito!. Mas que o homem realiza apenas.. O Espírito imortal. Morto à mingua de luz. Os mistérios da fé. É ansiedade perpetuamente acesa No turbilhão medonho e tenebroso Da carne. sofre e soluça. assoma Desde a taba feroz em folhas de granito. o coração do mundo. Debilmente pulsando. ambicionando a glória. ansioso. o lar. os tronos e a realeza. Apague-se o fulgor de tudo o que alma presa As grilhetas do corpo. onde a esperança sem repouso Luta.Retrocedei dos vossos mundos ocos.. Começai outra vida em nova estrada. O que o homem pensou num sonho de demente. brancos os cabelos. Ressurreição Extinga-se o calor do foco aurifulgente Do Sol que vivifica o Mundo e a Natureza. Rotas as carnes. O templo. Nas lágrimas de dor do peito aflito!. O Livro Ei-lo! Facho de amor que. quando. Subirá para Deus num canto de vitória. Sem a idéia falas do grande Nada. Aspirações do mundo miserando. e sonha presa. a lei.Parnaso de Além-Túmulo 348 Tombe no caos do nada. com desvelos. anela e sente. em túrgida surpresa. Sol eterno na glória do caminho! Ideal Na Terra um sonho eterno de beleza Palpita em todo o espírito que. Estertore e soluce exausto e moribundo.. redivivo. Da Índia misteriosa e dos louros do Egito Ao fausto senhoril de Cartago e de Roma! . sem cárcere mesquinho! Francisco Cândido Xavier . Que entorpece.Parnaso de Além-Túmulo 347 Banhai-vos na divina claridade Que promana das luzes da Verdade. Espera a luz esplêndida do gozo Das sínteses de amor da Natureza. Guardadas com ternura. Ó ateus como eu fui – na sombra imensa Erguei de novo o eterno altar da crença. depois das derrocadas.. envenena e mata aos poucos. fulcro de luz potente. adora. Da fé viva. Numa ressurreição de eternas alvoradas.

Guia das gerações na vida transitória. Tribos. . conhecemos.. há quem diga não serem da sua lavra. Pensa. não pudesse fazer o que fizeram e fazem tantos outros patrícios nossos. porém. Mas o torvo dragão da guerra soberana Ruge. aberto ao sol da graça. Com Hermes e Moisés. Desalentado e fraco. entretanto. alma boníssima. E deplorava o rumo escuro e incerto. Com o coração pulsando. Francisco Cândido Xavier . O coração em úlceras aberto. nações. ensina.Parnaso de Além-Túmulo 350 50 Pedro de Alcântara O ÚLTIMO imperador deixou alguns sonetos. O anjo triste da paz chora e se desengana. mal desperto. Do meu desterro amargo e desditoso. com Zoroastro e Buda. estar já perto Do pátrio lar risonho e bonançoso. estuda.Vaso revelador retendo o excelso aroma Do pensamento a erguer-se esplêndido e bendito. na aura fagueira. bem o sabemos. O Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho. destrói e se alteia e se ufana. de Dom Pedro. triste e saudoso. Da virtude ateniense à grandeza espartana. tudo se esfuma e passa.. Disputando o poder e denegrindo a raça. Eis. O Livro é o coração do tempo no Infinito. Encerrando consigo. De qualquer forma. que. na América nascente. sem repouso. a ponto de ser correntio o conceito de que todo brasileiro é poeta aos 20 anos. Bastas vezes sentia. E aparece o Brasil que. corrige. Enviava. Francisco Cândido Xavier . a chorar. o que se não poderá negar é a estreita afinidade destes sonetos com os que.Parnaso de Além-Túmulo 349 E brilha com Jesus no Evangelho Divino. experimenta. que o Senhor. Companheiro fiel da virtude e da História. avança. Meu Brasil Longe do meu Brasil. tronos. valoroso. Em vão plantando o amor que o ódio despedaça. Em que a idéia imortal se renova e retoma. fere. vibrátil e espírito culto. Brasil Desde o Nilo famoso. em láureas de esperança. É o nume apostolar que governa o destino. Acende nova luz em novo continente Para a restauração do homem exausto e velho. Ignoramos por que Dom Pedro 2º.

generoso. Do sonho que teceu e amou na vida. Se. Numa doce saudade enternecida.Parnaso de Além-Túmulo 351 No exílio Pode o céu do desterro ser tão belo. Com o pensamento ansioso percorremos Nosso amado rincão. Povoando o Universo ilimitado. Francisco Cândido Xavier . e voando sobre extremos. pudesse Arrebatar-me à vida verdadeira. Jaz no desterro a plaga da amargura. De acerba pena ao pobre penitente. enfim. de novo.Parnaso de Além-Túmulo 352 Se é mister retornar a um novo exílio. Na celeste ventura prometida. A alegria no exílio é desventura. Rogativa Magnânimo Senhor que os orbes cria. Até que a acerba dor. Nada faz com que o nosso desprezemos. Que. que os orbes cria. Tendo chorosa a vista que se cansa De procurar a pátria estremecida. Da mesma luz gloriosa que eu amara. Na alcandorada terra do Cruzeiro. Com dolorosas lágrimas avança. Para a morte.. É a saudade na ânsia mais pungente De retornar à pátria idolatrada. Soneto No exílio é que a alma vive da lembrança.. Acalentando o sonho de revê-lo. Que regresse ditoso ao solo amado Da generosa pátria que eu queria. onde tem sua esperança. no mundo. Seja o Brasil. Que dá pão ao faminto e ao desgraçado. E ao sofredor os raios da alegria. novamente viva sob o brilho. desterrado. Onde a luz da verdade resplandece. De amaro pranto da alma torturada. lá onde eu desejara Ter vertido o meu pranto derradeiro. Todo o nosso ideal pomos no anelo De regressar. Quanto o céu do país em que nascemos. Necessitar viver inda algum dia. Francisco Cândido Xavier .Minhas recordações em terna prece Ao torrão que adorara a vida inteira. lindo ou singelo. E Deus. .

Onde toda a existência é um hino de abastança. Assinalas. reserva o eterno gozo Para as almas dos pobres desterrados. que de ventura E de alegria o espírito me invade. na Terra. Amando mais a Terra Brasileira. Bandeira do Brasil Bandeira do Brasil. no mundo. símbolo da bonança. Volvo ao pátrio torrão de alma saudosa. a grande história Das epopéias da Fraternidade. Do misterioso aquém da morte. Espalhando no mundo as bênçãos da Esperança. do amor. o país da Alegria. sob a luz da tua glória. No país da esperança e da bondade. Enquanto a guerra estruje indômita e sombria. Oração ao Cruzeiro (No cinqüentenário da Abolição) Luminosas estrelas do Cruzeiro.Na vastidão dos céus iluminados. Símbolo sacrossanto de aliança De paz e amor do Eterno Pegureiro.Parnaso de Além-Túmulo 354 Transfundi numa só todas as raças.Parnaso de Além-Túmulo 353 Venho ao Brasil buscar a essência pura Do amor da pátria minha. Sê nos planos de luta o sinal de harmonia. Guardas contigo a luz da bem-aventurança. Guardai as claridades da Bonança Na vastidão do solo brasileiro. Na doce proteção de um povo inteiro Onde a mão de Jesus desce e descansa. Onde. Francisco Cândido Xavier . Página de gratidão Tangendo as cordas da harpa da saudade. essa onda intensa e luminosa Da afeição. Sentindo. marcando um novo dia. Concede a paz ao triste e ao desditoso Na clara luz dos mundos elevados. . Iluminai a terra da Esperança. És o florão da paz. Possa escrever. Que o Brasil. cheia de graças. eu vejo. que idealiza o meu desejo: E tendo a gratidão por companheira. Prende-me o coração a suavidade Desse arroubo de afeto e de ternura D'alma do povo meu. Constelação da Cruz. Francisco Cândido Xavier . da doçura Da flor cheia do aroma da amizade.

Francisco Cândido Xavier . Sonetos . Desde as luzes dos céus à luz dos ninhos! Segue à frente do mundo aflito e errante E alça o pendão pacífico e triunfante.Parnaso de Além-Túmulo 357 51 Raimundo Correia NASCIDO a 13 de maio de 1859. litoral do Maranhão. Grande Brasil do Bem e da Abastança. na baía de Mangunça. E um coração azul. além de justo e bom..Parnaso de Além-Túmulo 355 Da guerra que ameaça o mundo inteiro... esmaltado de estrelas. Onde o Evangelho é o Doce Mensageiro Das bênçãos da Verdade e da Bonança. membro da Academia Brasileira de Letras.. alto e fecundo. Todo o problema Está na compreensão clara e suprema Do Trabalho. Mas na amplidão do solo brasileiro Outra expressão de vida se revela N'alma caridosa. do Amor e da Verdade. Que se engrandece ao brilho do Cruzeiro. ao vivê-las. que te ampara e equilibra. Buscando iluminar as lutas. Brasil Sopra o vento do Ódio e da Vingança. Magistrado. É por isso que Deus. Embora o Amor Divino do Cordeiro Seja a fonte da Bem-aventurança. Como a doce promessa nos caminhos!.Parnaso de Além-Túmulo 356 Ama a Deus. Aniquilando a Paz do mundo inteiro. Deu-te um corpo auri-verde onde a paz canta e vibra. Qual furacão no auge da procela. heróica e bela. Mas a terra ditosa da Esperança Vive nas claridades do Cruzeiro. e desencarnado em Paris a 13 de setembro de 1911. Faze o bem. Que é o mais belo florão de tua glória Nos caminhos da espiritualidade. Brasil do Bem Eis que o campo de sombra se esfacela No doloroso e amargo cativeiro Francisco Cândido Xavier . Meu Brasil. a bordo do vapor São Luiz. pode sem favor considerar-se um dos maiores poetas da sua geração. guarda a luz dessa vitória.Nasceste sob a luz de um bem. Francisco Cândido Xavier . Deus te guarde os tesouros da esperança. Nunca te conspurcaste aos embates do mundo.

1
Tudo passa no mundo. O homem passa
Atrás dos anos sem compreendê-los;
O tempo e a dor alvejam-lhe os cabelos,
À frouxa luz de uma ventura escassa.
Sob o infortúnio, sob os atropelos
Da dor que lhe envenena o sonho e a graça,
Rasga-se a fantasia que o enlaça,
E vê morrer seus ideais mais belos!...
Longe, porém, das ilusões desfeitas,
Mostra-lhe a morte vidas mais perfeitas,
Depois do pesadelo das mãos frias...
E como o anjinho débil que renasce,
Chora, chora e sorri, qual se encontrasse
A luz primeira dos primeiros dias.
2
Ah!... se a Terra tivesse o amor, se cada
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 358
Homem pensasse no tormento alheio,
Se tudo fosse amor, se cada seio
De mãe nutrisse os órfãos... Se na estrada
Do contraste e da dor houvesse o anseio
Do bem, que ampara a vida torturada,
Que jamais viu um raio de alvorada
Dentro da noite eterna que lhe veio
Do sofrimento que ninguém conhece...
Ah! se os homens se amassem nessa estância
A dor então desapareceria...
A existência seria a ardente prece
Erguida a Deus do seio da abundância,
Entre os hinos da paz e da alegria.
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 359
52
Raul de Leoni
FLUMINENSE, nascido em Petrópolis em 1895 e desencarnado
em Itaipava, com apenas 31 anos de idade. Bacharel em
Direito, foi deputado estadual e posteriormente Secretário de
Legação. Entre os talentos da chamada nova geração, a sua afirmativa
nos domínios da Arte Poética pode considerar-se das mais
fulgurantes. Além de Ode a um Poeta Morto, dedicada a Olavo
Bilac, de quem foi amigo dileto, deixou Luz Mediterrânea, considerada
como seu livro de ouro.
Luta
Aí na Terra, as bem-aventuranças
São o sonho que o Espírito agasalha,
Mas, mesmo após a morte, a alma trabalha
Buscando o céu das suas esperanças.

Muita vez, quando pensas que descansas,
Além te espera indômita batalha,
Onde o suposto gozo se estraçalha
Sob o guante acerado das provanças.
Para cá do sepulcro a dor antiga,
Que nos traz o desânimo, a fadiga,
Sob a luz da verdade se atenua;
A febre das paixões desaparece,
O Espírito a si mesmo reconhece,
Mas a luta infinita continua.
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 360
Na Terra
Renascendo no mundo da Quimera,
Ao colhermos a flor da juventude,
É quando o nosso Espírito se ilude,
Julgando-se na eterna primavera.
Mas o tempo na sua mansuetude,
Pelas sendas da vida nos espera,
Junto à dor que esclarece e regenera,
Dentro da expiação estranha e rude.
E ao tombarmos no ocaso da existência,
Nós revemos do livro da consciência
Os caracteres grandes, luminosos!.
Se vivemos no mal, quanta agonia!
Mas se o bem praticamos todo o dia,
Como somos felizes, venturosos!...
Soneto
Não te entregues na Terra à indiferença.
Cheio de amor e fé, trabalha e espera;
Nos domínios do mal, nada há que vença
A alma boa, a alma pura, a alma sincera.
No pensamento nobre persevera
De servir, sempre alheio à recompensa;
O desejo do Bem dilata a esfera
Das luzes sacratíssimas da Crença.
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 361
Vive nas rutilantes almenaras
Dos castelos do Amor de essências raras,
Aspirando os olores da Pureza!...
Terás na Terra, então, a vida calma...
E a morte não será, para a tua alma,
Jamais medonha e trágica surpresa.
Nós...
Nós todos vamos pela vida em fora
Deixando no caminho os mesmos traços,
Em Deus buscando a Perfeição que mora
No cume inatingível dos Espaços!...

Cada instante de dor nos aprimora,
Desatando os grilhões, rompendo os laços
Dessa animalidade atrasadora,
Que procura tolher os nossos passos.
Heróis de novas lendas carlovíngias,
O Sonho imanta as nossas almas, cinge-as,
Na Luz Ideal – o nosso excelso escudo;
Buscando o Indefinível, o Insondado,
Deus, que é o Amor eterno e ilimitado
E a gloriosa síntese de tudo.
“Post mortem”
Depois da morte, tudo aqui subsiste,
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 362
Neste Além que sonhamos, que entrevemos,
Quando a nossa alma chora nos extremos
Dessa dor que no mundo nos assiste.
Doce consolação, porém, existe
Aos amargosos prantos que vertemos,
Do conforto celeste os bens supremos
Ao coração desalentado e triste.
Também existe aqui a austera pena
A consciência infeliz que se condena,
Por qualquer erro ou falta cometida;
E a Morte continua eliminando
A influência do mal, torvo e nefando,
Para que brilhe a Perfeição da Vida.
Soneto
Se todos nós soubéssemos na vida
A Verdade grandiosa e soberana,
Não faltaria o gozo que promana
Dos sentimentos da missão cumprida.
Mas na Terra a nossa alma empobrecida,
Presa dessa vaidade toda humana,
De desgraças e de erros se engalana
Numa incerteza amarga, irreprimida...
Vamos passando assim a vida inteira,
Sem esposar a crença imorredoura,
A fé demolidora de montanhas,
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 363
Quase imersos na treva da cegueira,
Sem vislumbrar a luz orientadora,
Nessa noite de dúvidas estranhas!...
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 364
53
Rodrigues de Abreu
POETA nascido em Capivari, São Paulo, a 17 de setembro de
1899, e desencarnado, tuberculoso, em Campos do Jordão, aos 24

de novembro de 1927. Publicou Casa Destelhada, Noturnos e Sala
dos Passos Perdidos, além de inúmeros trabalhos esparsos na
imprensa do seu Estado. Foi cognominado – “o poeta triste das
rimas róseas”.
Vi-te, Senhor!
Eu não pude ver-Te, meu Senhor,
Nos bem-aventurados do mundo,
Como aquele homem humilde e crente do conto de Tolstoi.
Nunca pude enxergar
As Tuas mãos suaves e misericordiosas,
Onde gemiam as dores e as misérias da Terra;
E a verdade, Senhor,
É que Te achavas, como ainda Te encontras,
Nos caminhos mais rudes e espinhosos,
Consolando os aflitos e os desesperados...
Estás no templo de todas as religiões,
Onde busquem Teus carinhos
As almas sofredoras,
Confundindo os que lançam o veneno do ódio em Teu nome,
Trazendo a visão doce do Céu
Para o olhar angustioso de todas as esperanças.
Estás na direção dos homens,
Em todos os caminhos de suas atividades terrestres,
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 365
Sem que eles se apercebam
De Tua palavra silenciosa e renovadora,
De Tua assistência invisível e poderosa,
Cheia de piedade para com as suas fraquezas.
Entretanto,
Eu era também cego no meio dos vermes vibráteis que são os
homens,
E não Te encontrava pelos caminhos ásperos...
Mocidade, alegria, sonho e amor,
Inquietação ambiciosa de vencer,
E minha vida rolava no declive de todas as ânsias...
Chamaste-me, porém,
Com a mansidão de Tua misericórdia infinita.
Não disseste o meu nome para não me ofender;
Chamaste-me sem exclamações lamentosas,
Com o verbo silencioso do Teu amor,
E antes que a morte coroasse a Tua magnanimidade para comigo,
Vi que chegavas devagarinho,
Iluminando o santuário do meu pensamento
Com a Tua luz de todos os séculos!
Falaste-me com a Tua linguagem do Sermão da Montanha,
Multiplicaste o pão das minhas alegrias
E abriste-me o Céu, que a Terra fechara dentro de minhalma...

palavras de oração – “Pai Nosso que estais no Céu. “Dar-te-ei maravilhas “Ao sol dos meus castelos encantados... por infelicidade..Parnaso de Além-Túmulo 367 “A sombra da ilusão envenena-te a vida. Divisando os países da beleza. Meu coração pulou com um ritmo descompassado E desejei a luz das cidades distantes. ... Na embriaguez da ansiedade e do desejo. Tudo esqueci. Senhor.. Falando como Jeremias sobre a Jerusalém de minhas ânsias: Francisco Cândido Xavier . Adormecendo à sombra enganadora Da árvore da ilusão. cheia de graças. “Irás comigo a mundos ignorados.” Gotas do mel de amor. O perfume das florestas prodigiosas Onde cantavam as aves da mocidade e da glória. Curando-me com a Dor. Quando subi aos elevados promontórios da esperança.. Na inquietação da carne e do desejo.. “Sou a Dor. Francisco Cândido Xavier . Eu era dono do mundo inteiro Porque era senhor dos sonhos absolutos. Tudo sonhei contemplando o horizonte!. Nas Tuas maravilhas de beleza..E entendi-Te.. Chegou ao país de minhalma um romeiro triste dos Céus. do coração. Não vi o cântaro de mel Que minha mãe deixara com o seu beijo Na prateleira humilde de minhalma. onde quase todos os frutos apodrecem. Trago-te o pão dos grandes amargores. “Guarda as minhas verdades.. “Manda o Senhor que eu seja a companheira “De tua vida inteira... Quando Te vi na paz da Natureza... ficarei sempre contigo.” Eu não sei explicar o mistério Daquela personagem enigmática Que se intrometia. afoitamente. E quando quebrava os últimos altares. meu amigo. “Eu corrijo as paisagens interiores.” “Ave Maria. Gotas de mel.Parnaso de Além-Túmulo 366 No Castelo encantado Eu ainda não era um homem. E andei como um fauno louco pelos mares remotos e pelas ilhas desconhecidas.

Na minha estrada de alegria. Enxergando na tamareira da esperança. Apodreceu meu coração em sua mão. E abençôo contente As mágoas que me deste antigamente. Mas oh! suave milagre de ventura. Pela sua porta estreita. Fruto que é o Teu amor E a Tua caridade. E.Parnaso de Além-Túmulo 368 Crestou-me a flor ditosa da alegria.. ó Senhor de Bondade. Tudo levou-me a dor incontentada. Encaminhou-me à sensação perfeita De Tua inefável presença. meu Senhor. Seu olhar parecia A claridade estranha de toda a resignação e de todo o padecimento.. Afastou-me a alegria da saúde. Cala-se o meu verso humilde. de tal maneira. Nas grandezas de Tua claridade. meu Senhor. Desde as pedras da Terra Aos jardins de esplendor da Eternidade! Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 369 54 Souza Caldas . A cuja sombra o espírito descansa.. Fez fugir-se-me a noiva idolatrada. Porque com a Dor Sinto que Te compreendo. desde esse momento. Deixou-me só na lôbrega jornada. bom e fecundo. Casou-se comigo a Dor. Deu-me as sombras dos Campos do Jordão... doce e balsâmica da crença. Francisco Cândido Xavier . O único fruto eterno.. Fez de meu sonho a casa destelhada. a vida inteira: Roubou-me todas as glórias da Terra... Onde as chuvas de todas as misérias Caíram sem cessar desde esse dia. Sustentando a infeliz Humanidade. Que a senti junto a mim. Ela deu-me os palácios encantados Onde brilham as luzes dAquele que se sacrificou na cruz por todos os homens!. Pelos desertos áridos do mundo. Pois agora é que eu sei Banhar-me todo nessa fonte imensa Da paz.

Porém. abraçou mais tarde a carreira eclesiástica. E jus Eu fiz A expiação. perderam-se. Ato de contrição A vós Senhor. Perdão Que traz .NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro. Minhalma Implora A salvação! Meu Pai. Bem sei Que mal Andei. justamente. Acreditamos que o médium ignorava a circunstância de ser a tradução dos Salmos de David. E junto A cruz Do meu Sofrer. Sois vós A luz. Vós sois. e aí desencarnado em 1814. as que o levaram a ser preso pelo Santo Ofício. Meu Deus De Amor. Buscando O erro E a imperfeição. ordenando-se em Roma.Parnaso de Além-Túmulo 370 Pequei. de suas obras poéticas. Farol Do Bem! Ouvi Dos Céus Minha oração. em 1762. Dizem que as suas melhores composições. Quero o perdão. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra. a mais apreciada. Na treva Errei. Assim Francisco Cândido Xavier .

Ganham favores. Rudes tiranos e os impiedosos De coração. Espezinhando seus semelhantes. Amara E rude Da contrição! Dai ao Meu ser. meu Criador! . Do vosso amor. Vossas ovelhas são confundidas. Da imperfeição. A redenção. E hei de Poder Feliz Vencer Do mal Cruel O atroz dragão! Versão do Salmo 12 Senhor dos Mundos. São elas todas. Adoradores da iniqüidade. Tripudiando nas vossas leis.Sossego E paz Ao meu Viver Na provação. Causam a ruína da vossa casa. na Terra inteira. Glorificai-as. Francisco Cândido Xavier . Fracas e pobres andam saudosas. Os maus somente é que dominam. Lançam injúrias ao vosso nome. Aflito Ao ver O seu Pecado. E sufocadas pelo amargor. Suplico-o A vós. buscam louvores.Parnaso de Além-Túmulo 371 Na dor Atroz.Parnaso de Além-Túmulo 372 Ímpios que são. pobres e humildes. Francisco Cândido Xavier .

Todos os seres Hinos entoem. salvai os homens. Pai amoroso. É a esperança dos pecadores.Parnaso de Além-Túmulo 373 Astros e mundos No céu girando. Confio em vós! Versão do Salmo 18 Por toda a parte Veja a criatura. A Luz Eleita. Com o meu espírito Turbado e aflito.Alevantai-as do abismo escuro Com a vossa luz! Vossa bondade. Lindo e faiscante. Que desprezei O ouro brilhante. Na noite escura Da sua dor. Aves cantando. imensa e eterna. Doce refúgio Dos desgraçados. A eterna força De um Deus clemente. Vosso perdão. Sois a bondade A mais perfeita. Aos meus pecados. O mar e a flor. Cheio de amor. Lustres da auréola Da Criação. Imploro e clamo. Francisco Cândido Xavier . Onipotente. Cantos ressoem Ao Criador! Eterno Artífice Que os sóis modela. Muitos que são. A salvação. Bem sei. Senhor! Como fugi Da hora fugace Que me afastasse .

Do vosso amor! Mas bem sabeis Francisco Cândido Xavier . Além da força Vós sois. O sumo bem E a perfeição Que vence o mal. Assim espero. Meu pensamento Prevaricar.Parnaso de Além-Túmulo 375 Que o pecador No coração Guarda com zelo. também. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 374 Que a carne impura Leva a criatura A mais pecar. A onipotência E a pura essência Do vosso amor! Que sois o sol Dos universos. Cantando a vida. Mundos dispersos Na imensidão. Fazendo assim Pra meu tormento. Cruéis inimigos. Sóis rutilantes Dalmo esplendor. Porém. Que são amigos Da perdição. Almejo e quero Para que eu . O orgulho e a dor. Vós que acendestes Faróis brilhantes. o vosso Amor profundo Redime o mundo Do padecer. Dando-lhe o tempo E áspera lida Para na vida Tudo vencer. Misericórdia.

Dominareis Toda a impiedade Pela verdade Francisco Cândido Xavier . O meu ser que sonhara a Humanidade Qual um ramo de flores perfumosas. Minhalma aguarda A luz que tarda Ao mundo vão. Desprezarei. aguardo Do vosso amor Consolo à dor. Limpando os lodos Da imperfeição. Amparo e luz! Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 376 Que em vós transluz! E.E os meus irmãos O mal deixemos E abandonemos Buscando o Céu. E através dos meus dias. . Por vossa causa O maior gozo. alma iludida. Eternamente. Afastado do Puro e do Perfeito. teria o gozo. Que há de esplender Nos homens todos. Se eu quisesse gozar. Senhor. Assim. Não que eu fosse infeliz e desditoso. Coração enganado. servo. Pois fui também humano entre os humanos. Que somente a amargura dos sorrisos Pela noite das dores conheceram. Para que eu viva Na luz fulgente. É que ao sentir no âmago do peito A atitude do homem nessa vida. Esplendoroso. dos meus anos.Parnaso de Além-Túmulo 377 55 Um Desconhecido Meditando Eu fui daquelas almas que viveram Sem conhecer da Terra os paraísos. Da vossa lei.

Insculpido nas fúlgidas realezas Do castelo formoso. Eu vislumbrava a luz brilhante e pura Que me trazia a paz. Em torno dirigia Um último olhar. na aspereza dos caminhos. Das terrenas. Pois no mundo pequeno da minhalma. O nobre castelão No interior Do esplêndido alcançar. E tinha então prazer de ver meus braços Enlaçados na cruz da provação. E em espasmos convulsos.Parnaso de Além-Túmulo 379 Martirizando as almas sofredoras. Encontrei o prazer pelos espinhos. Que em suas mãos avaras Foram armas cruéis. Mergulhado no pranto mais profundo. Transbordante de glórias e riquezas! Mais alongando a vista. Viu-lhe o feito da esplêndida conquista Nas grandiosas searas. A sua alma despida das grandezas. Francisco Cândido Xavier . Ao trilhar os carreiros dos tormentos.Parnaso de Além-Túmulo 378 Quando em dor me envolvia a desventura. O dono do solar Nos espasmos intensos Da agonia.Viu as almas tremerem. Sob o peso da própria iniqüidade. bonança e calma: – Era a luz que me vinha da visão De ver o Cristo-Amor. efêmeras realezas. desditosas. Opresso o coração. Francisco Cândido Xavier . E isolado nos grandes sofrimentos De ser só. Agonizava o senhor Dos domínios extensos. destruidoras. Bem após o transcurso de alguns anos . E viu então O seu brasão Invicto e glorioso. entre cansaços. derradeiros. Expirou para o mundo O nobre castelão. Contemplou seus tesouros passageiros.

Conservou-se naquelas cercanias Como presa feroz Do sofrimento atroz. Tomado de energia. Todavia. às vezes. De cólera severa Já que ele era o senhor. Escutava nos ditos mais soezes Terrível maldição Das vítimas de antanho! E o sofrimento era tamanho Francisco Cândido Xavier .. entretanto. Foi um dia Despertada em amargos desenganos: Conturbado por agros dissabores. Que ninguém acudisse ao seu chamado. Humilde penitente. Somente.De triste letargia. constantemente. E em atitude austera. A exclamar. Recordou-se que havia Um Pai Onipotente. Imerso em turvação. De contínuos pesares e agonias. Que se julgou perdido Irremissivelmente Assim. Sua alma sofredora Sentiu-se então mais calma e mais serena. Contemplou seu solar Ocupado por outros moradores.. No auge do amargor. Penetrada de doce claridade. De luz confortadora.Parnaso de Além-Túmulo 380 Em ser incompreendido. Estranhou revoltado. O pobre sofredor. nenhum lhe obedecia. E cheio de fervor. Reclamou os seus servos com calor E.. Que provinha de alguém Que lhe fazia Meditar na grandeza da Verdade .. Implorou seu amor Numa súplica em lágrimas de pena. Durante o transcorrer de muitos dias.

a todo o instante. a flor-tesouro. Para que se dissipem teus enganos No amargor. Voltarás. Desprezavas o fraco e nunca amaste Quem de ti carecia! A caridade. Conhecerás As dores e amarguras. Jamais vestiste os nus. o Deus de Amor É sempre o magnânimo Senhor.E lhe dizia Da beleza do Amor. As mágoas escabrosas. Flores lindas que nunca ofereceste Às almas desditosas? Por que não concedeste um só bocado Do teu pão abundante Ao pobre esfomeado? Ocupando-te em gozo. Serás agora escravo e não senhor. Pelas estradas rudes e espinhosas! Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 382 Abençoa o Senhor Que te concede a dor. amigo.. Não tiveste em teus dias de maldade No grande sorvedouro! Porém. é a conseqüência Da equívoca existência Que levaste. Não residem no Mal e sim no Bem.” . Porém.Parnaso de Além-Túmulo 381 Em rudes sofrimentos E estranhas maldições. Que hoje te envolvem os lúridos momentos Francisco Cândido Xavier . Para assim compreenderes Que os reais e legítimos prazeres Que da vida nos vêm.. já não terás Efêmeras venturas. O sentimento-luz. Por que ocultaste as flores formosas Que na Terra colheste. nem consolaste Aquele que sofria. Já que sem piedade aniquilaste Muitas almas e muitos corações. da Luz do Bem: – “O que sofres. E permite que voltes aos humanos.

sobe. Francisco Cândido Xavier . Como se fora feita De luar. De pureza. Soberbas harmonias Nos mundos luminosos! Seres que passam rápidos. onde a vida É a imortalidade Anelada. Nesgas do céu. mais além.. Ainda além.Nesga de Céu A alma extasiada Sobe. imagens de esplendor. E lembra-se que sofreu. Como um éden de luz E de amor. Nos espaços sem termos. Parece um hino de amor Dos Paganinis siderais. A Via-Láctea transluz. Sorridentes. o fulgor.. Que amou.. Cenários majestosos. fulguram sóis. De alegria perfeita.. O mundo É um ponto negro que gira.. flutuantes. A ventura. radiantes.Parnaso de Além-Túmulo 383 Em tudo há um misto Nunca visto De manhãs e arrebóis. De perfeição e de felicidade! . Há toda uma amplidão Iluminada A sua vida.. A alma chora Em êxtase profundo... de beleza.. De alegria. Além. Transformados em notas musicais. Ao longe. A estrada É uma etérea alfombra Sem resquícios de sombra! É o domínio da luz que ela conquista! Vibra no ar Dulcíssima harmonia. muito ao longe. Aos clarões dessa aurora. que padeceu.. querida.

Ora a Deus: Recorda em prece os sofrimentos seus. Da mais pura alegria.. Melodia.. Nessa prece Reconhece A alvorada de sua redenção! Francisco Cândido Xavier . poetou e desencarnou.. na . Como um país de doce primavera. de sonho. O caminho é risonho.. Recamado de flores perfumosas. aroma!.Francisco Cândido Xavier . em frente. Que a engrinalda de luz. A alma se extasia Na luz do Eterno Dia. E.Parnaso de Além-Túmulo 386 56 Valado Rosas NASCEU em Viana do Castelo.Parnaso de Além-Túmulo 385 Agora É um raio de aurora. luz. Um futuro esplendente Pintalgado de rosas.. A pobre alma orando. Intérmina de gozos!. em 1871. De repente Numa nesga de céu resplandecente Assoma Uma rutila esfera. Em cima. Com os pensamentos puros e radiosos. Mas cada gota amarga dos seus prantos Francisco Cândido Xavier . Que um a um Vão formando uma auréola De brilhos santos.. Chorando. Em suavíssima unção. Veio para o Brasil com 14 anos e aqui viveu. Evoca as lágrimas vertidas! Contempla panoramas de outras vidas. Feito de éter. Vidas de estranha dor. Atrás a noite e as mágoas de agonia Do passado. as emoções Do ilimitado.Parnaso de Além-Túmulo 384 Em baixo as vastidões. Portugal.

E a paz na morte tereis também. Graça de haver sorvido tanto O amargo pranto da ingratidão. Modesto quão talentoso. Quando no mundo de exílio e sombra. – O mensageiro da Perfeição. Quando escutamos as vozes claras Francisco Cândido Xavier . que ficastes no mundo ingrato. De quem me lembro na luz do Além. E. Dor de quem sofre sonhando e espera. Com fé sincera... Habituei-me com as invernias E com os reveses da minha sorte. quem vá mostrar As maravilhas que ele fornece. Aos companheiros de luta e crença. Subi o Gólgota dos meus pesares. Esclarecia meu coração. Deixo a minhalma falar aqui. Que os avatares da redenção São todos feitos nas amarguras. doce e cristã. Vós. então. Na paz do Além Dentro da noite grandiosa e calma.Parnaso de Além-Túmulo 387 Da consciência. Aos meus irmãos Sob as estrelas da minha crença. que ilustrou o pseudônimo na imprensa profana e doutrinária do Brasil e de sua pátria. foi também um polemista e doutrinador espírita vigoroso. Nas horas tristes e amarguradas. De ser vencido no mundo vão. Cansado e triste cerrei meus olhos Dentro da noite que é para muitos Um mar bravio. Da graça imensa que recebi. cheio de escolhos.cidade de Caratinga. Graça divina de haver sofrido. Lede o roteiro dos Evangelhos. no Pai de Amor. eu pude adormecer Na paz serena. . Não sou. Na luta intensa que encheu meus dias. Seu nome é Lázaro Fernandes Leite do Val. Na vida obscura e transitória A nossa glória vive na dor. no entanto. na luz da prece. É que o Evangelho do Cristo amado. aos 19 de janeiro de 1930. Abrindo os olhos tranqüilamente Numa alvorada linda e louçã.

os seus escritores.Parnaso de Além-Túmulo 389 Amigo(a) Leitor(a). também auxilia no custeio de inúmeras obras de assistência social. escolas para crianças e jovens carentes. estes são abnegados trabalhadores na seara de Jesus. financeiramente. Adquira um bom livro espírita e ofereça-o de presente a alguém de sua estima. Se você leu e gostou desta obra. Irmão W. A piedade. Perdi na Terra doces afetos. O livro espírita. --. E a Morte trouxe-me a liberdade.Parnaso de Além-Túmulo 388 Nas desventuras da provação.) . o amparo e a luz! Feliz quem pode na dor terrestre Seguir o Mestre com sua cruz.” Paulo.Fim --Francisco Cândido Xavier . “Porque nós somos cooperadores de Deus. 3. versículo 9.Francisco Cândido Xavier . Sonhos diletos de sofredor. (1ª Epístola aos Coríntios. As obras espíritas nunca sustentam. colabore com a divulgação dos ensinamentos trazidos pelos benfeitores do plano espiritual. etc. morais e científicos dos espíritos mais evoluídos. além de divulgar os ensinamentos filosóficos. em busca constante da paz no Reino de Deus. Mas recebendo na grande escola A grande esmola do meu Senhor.

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