Francisco Cândido Xavier

Parnaso de Além-Túmulo
Ditado por Espíritos diversos
À guisa de prefácio
A teoria, tanto quanto a prática espírita, apresenta, aos leigos
e inscientes, aspectos e modismos inéditos, imprevistos, bizarros,
surpreendentes.
Nos domínios da mediunidade, então, o reservatório de surpresas
parece inesgotável e desconcerta, e surpreende até os observadores
mais argutos e avisados.
Se fôssemos minudenciar, escarificar o assunto até às mais
profundas raízes, poderíamos concluir que o comércio de encarnados
e desencarnados, velho quanto o mundo, se indicia mais ou
menos latente ou ostensivo, em todos os atos e feitos da Humanidade.
Inspirações, idéias súbitas ou pervicazes, sonhos, premonições
e atos havidos por espontâneos e propriamente naturais,
radicam muito e mais na influenciação dos Espíritos que nos
cercam – por força e derivativo da mesma lei de afinidade incoercível
no plano físico, quanto no psíquico – do que a muitos poderia
parecer.
E assim como se não desloca nem se precipita, isoladamente,
um átomo no concerto sideral dos mundos infinitos, assim também
não há pensamento, idéia, sentimento, isolados no conceito
consciencial dos seres inteligentes, que atualizam e vivificam o
pensamento divino, em ascese indefinida – semper ascendens...
É o que fazia dizer a Luisa Michel: “um ser que morre, uma
folha que cai, um mundo que desaparece, não são, nas harmonias
eternas, mais que um silêncio necessário a um ritmo que não
conhecemos ainda”.
Mas, não há daí concluir que a criatura humana se reduza à
condição de autômato, sem vontade e sem arbítrio, porque nada à
revelia da Lei se verifica; e no jogo dessa atuação constante, o
ascendente dos desencarnados não vai além das lindes assinadas
pela Providência; não ultrapassa, jamais, a capacidade receptiva
do percipiente, seja para o bem, seja para o mal.
***
Não é, contudo, desse mediunismo sutil, intrínseco, consubstancial
à natureza humana, que importa tratar aqui.
Nem remontaríamos aos filões da História para considerar-lhe
a identidade aos tempos da Índia, do Egito, da Grécia, das Gálias

e de Roma. em trânsito para a Idade Média, na qual os médiuns
eram imolados ao mais estúpido dos fanatismos – o religioso.
Hoje, fogueira e potro foram substituídos pela difamação, pelo
ridículo alvar, pago em boa espécie monetária, ou ainda pelo
cerco caviloso e interditório de quaisquer vantagens sociais.
A luta tornou-se incruenta, mas, nem por isso, menos áspera e
porfiosa.
Assoalha-se que a mediunidade é fonte de mercantilismo: entretanto,
nenhum grande médium, que o saibamos, chegou a acumular
fortuna e rendimentos.
Muitos, ao invés, quais Home, Slade, Eusápia e d’Espérance,
morreram paupérrimos e, o que mais é, tendo a panejar-lhes a
memória o labéu de charlatães.
Mas houvesse de fato esse mercantilismo e nunca se justificaria,
senão por abusivo e espúrio, de vez que a Doutrina o não
autoriza, sequer por hipótese.
Porque, na verdade, assim se escreve a História e o maior dos
médiuns, o Médium de Deus, só escapou ao estigma da posteridade
pela porta escusa do concílio de Nicéia, numa divinização
acomodatícia e rendosa ao formigamento parasitário e onímodo
dos Constantinos, que, ainda hoje, lhe exploram os feitos e o
nome augusto, com bulas políticas de vulpina retórica, factícios
pruridos de grosseira mistificação, em bonsolatrias de cimento
armado.
Entretanto, como a confirmar a tradição “os Santos Apóstolos
foram, em sua maioria, humildes pescadores” – e não só a tradição
como a sentença de que os últimos seriam os primeiros –, não
vêm hoje os vexilários da Verdade trazê-la aos magnatas da Terra,
aos príncipes dos sacerdotes, escribas e fariseus hodiernos, disputantes
à compita da magnífica carapuça e eles talhada e ajustada.
de vinte séculos, no capitulo 23º de Mateus.
Ao contrário, esses esculcas do Além parece preferirem os
operários modestos, modestos e rústicos, rústicos e bons, como
tão sutilmente os define o Eça em magistral mensagem:
“Tipos originais, mãos calosas que se entregam aos rudes trabalhos
braçais, a fazerem a literatura do além-túmulo; homens a
que Tartufo chama bruxos e Esculápio qualifica de basbaques,
mistificadores, ou simples casos patológicos a estudar...”
É verdade tudo isso; mas, convenhamos, também o é para
maior glória de Deus.
Não ignoramos que homens de alta cultura e renome científico
têm versado o assunto, investigado, perquirido e proclamado a
verdade, acima e além das conveniências e preconceitos políticos,
científicos, religiosos. Nomeá-los aqui, seria fastidioso quanto
inútil.
O vulgo que não lê, ou que lê pela cartilha do Sr. vigário nos
conselhos privados da família beata, não deitaria os seráficos

olhares a estas páginas e seguiria, clamoroso ou contente, de
qualquer forma inconsciente, – infinitus stultorum numerus – a
derrota do seu calvário, no melhor dos mundos, à Pangloss.
O outro, o vulgo que lê e compreende, mas para o qual o magister
dixit é a melhor fórmula de concessão e acomodação consigo
mesmo, estômago e vísceras em função, sofra a quem sofrer,
doa a quem doer – esse, bazofiando ciência em gestos largos de
animalidade superior, se estas linhas chegasse a ler, haveria de
esboçar aquele sorriso fino e bom que Bonnemére não sabia definir
se seria de Voltaire, ou do mais refinado dos idiotas...
***
Adiante, pois, na tarefa nada espartana de apresentar esta
prova opima das esmolas de luz que nos chegam em revoada de
graças, a encher-nos o coração de alvissareiras esperanças.
Quem quiser certezas maiores, explanações técnicas e eruditas
do fenômeno em apreço, que as procure no livro “Do País da
Luz”, obra similar, editada há uma vintena de anos. psicografada
pelo médium português Fernando de Lacerda, e que fez, nas rodas
profanas de Lisboa, o mais ruidoso sucesso.
Nessa obra, o ilustre Dr. Sousa Couto, em magistral prefácio,
esgotou o assunto ao encará-lo sob todos os prismas de uma severa
crítica, para concluir pela transcendência do fenômeno, rebelde
a todos os métodos de classificação científica e, sem embargo,
realíssimo em sua especificidade.
Pois, a nosso ver, maior é o mérito, por mais opulenta a polpa
mediúnica, desta obra.
É que lá em “Do Pais da Luz”, avulta a prosa, com raras exceções;
ao passo que aqui desborda o verso, mais original, mais
difícil, mais precioso como índice de autenticidade autoral.
Lá, as mensagens características são exclusivas de escritores
lusos, únicas que podem, a rigor, identificar pelo estilo os seus
autores.
As de Napoleão 1º, Teresa de Jesus, etc., são incontestavelmente
belas no fundo e na forma, mas não características de tais
entidades.
Aqui, pelo contrário, não só concorrem poetas brasileiros e
portugueses, como retinem cristalinas e contrastantes as mais
variadas formas literárias, como a facilitarem de conjunto a identificação
de cada um.
Romantismo, Condoreirismo, Parnasianismo, Simbolismo, aí
se ostentam em louçanias de sons e de cores, para afirmar não
mais subjetiva, mas objetivamente, a sobrevivência dos seus
intérpretes.
É ler Casimiro e reviver Primaveras; é recitar Castro Alves e
sentir Espumas Flutuantes; é declamar Junqueiro e lembrar a

Morte de Dom João; é frasear Augusto dos Anjos e evocar Eu.
Senão, vejamos:
Oh! que clarão dentro d’alma.
Constantemente cismando.
O pensamento sonhando
E o coração a cantar,
Na delicada harmonia
Que nascia da beleza,
Do verde da Natureza,
Do verde do lindo mar!
É Casimiro...
Há mistérios peregrinos
No mistério dos destinos
Que nos mandam renascer;
Da luz do Criador nascemos.
Múltiplas vidas vivemos,
Para à mesma luz volver.
É Castro Alves...
Pairava na amplidão estranho resplendor.
A Natureza inteira em lúcida poesia
Repousava, feliz, nas preces da harmonia!...
Era o festim do amor,
No firmamento em luz,
Que celebrava
A grandeza de uma alma que voltava
Ao redil de Jesus.
É Junqueiro...
Descansa, agora vibrião das ruínas.
Esquece o verme, as carnes, os estrumes.
Retempera-te em meio dos perfumes
Cantando à luz das amplidões divinas.
É Augusto dos Anjos.
E todos, todos os mais, aí estão vivos, ardentes, inconfundíveis
na modulação de suas liras encantadas e decantadas.
E na prosa – exceto a Fernando de Lacerda, cujo estilo não
temos elementos para identificar – o mesmo traço de originalidade
personalíssima se impõe.
Duvidamos que o mais solerte plumitivo, o mais intelectual
dos nossos literatos consiga imitar, sequer, ainda que premeditadamente,
esta produção.
E isto o dizemos porque o médium Xavier, um quase adolescente,
sem lastro, portanto, de grande cultura e treino poético,
recebe-a de jacto, e mais – quando de alguns autores não conhece
uma estrofe!
É extraordinário, será maravilhoso, mas é a verdade nua e
crua; verdade que, qual a Luz, não pode ficar debaixo do alqueire.
Foi por assim pensarmos que conseguimos vencer a relutância

Tudo isso é o próprio médium quem no-lo diz. um rotulado desses que por ai vão felicitando a Família. o médium. cujo flagrante não presenciamos – ele. na história a tracejar do Espiritismo em nossa pátria. porque simples como a própria alma cedo esfolhada de sonhos e ilusões. ficará como baliza fulgurante. É um fato. esta obra mediúnica. certa vez. Nós mesmo vimos. de contrapeso. em geral. Do seu mecanismo intrínseco e extrínseco. não pôde ir além do curso primário dessa pedagogia incipiente e rotineira. é bem de ver-se que não teve. para não pretender colimar renomes literários. Órfão de mãe aos 5 anos. . nem um. também em tese. *** Mas. com borrifos de catecismo católico. em particular. tanto quanto retrata as impressões psicofísicas que lhe causa o fenômeno. mas da ferramenta por eles utilizada. não há encadeamento de raciocínios. nada nos disse o médium. mas. um acadêmico. nem dez cireneus que o conduzissem por tortuosos e torturantes labirintos de acesso aos altanados paços do Olimpo para o idílico convívio de Caliope e Polímnia. certo estamos. um quase adolescente. muito além das quatro operações e da leitura corrida. em linguagem eloqüente. Não há ideação prévia. em São Paulo. por outro lado. O médium polígrafo Xavier é um rapaz de 21 anos. nem uma problemática hereditariedade. um galopim eleitoral e não vai. no exíguo tempo de 13 minutos marcados a relógio. e aos confrades. enquanto conosco discreteava em idioma diverso da mensagem escrita. em tese. nascido ali assim em Pedro Leopoldo. que não podia ter o estímulo ambiente. em obra deste quilate o que se impõe não é a apresentação dos operários. tanto quanto do seu manuseio. um bacharel formado. perguntarão: – quem é Francisco Cândido Xavier? Será um rapaz culto. fixação de imagens. Ao lhe formularmos um questionário que nos habilitasse a pôr de plano estes detalhes essenciais – de vez que. endossar um fenômeno cuja ascendência sobejamente conhecemos para não refusar. nas quais estereotipa a sua figura moral.do médium em sua natural modéstia para lançar ao público. que. Filho de pais pobres. a Pátria e a Humanidade? Nada disso. veio “candidamente” ao nosso encontro com “Palavras Minhas”. o médium Mirabelli cobrir dezoito laudas de papel almaço. o pai infenso a literatices e. que faz do mestre-escola. Agora. porém. diz-nos este que também as produções são recebidas de jacto. e não querendo. pramido pelo ganha-pão. pequeno rincão do Estado de Minas. ao demais.

porque o fato aí está na plenitude de sua realidade. e um fato. faisqueiros de nugas e nicas. amiúde. Aos outros. ocorrem na telepatia. no entanto. que ignora. no Rio de Janeiro. a realização essencial do fenômeno? Só o médium poderia fazê-lo. teorias científicas. vale sempre por mil e uma teorias. de um trabalho de identificação autoral. na radiofonia. e isso ele o faz a seguir. Catões e Zoilos de compasso e metro. *** Como nota final aos argos da crítica. que mal podemos imaginar e que. Quintão MANUEL Justiniano de Freitas QUINTÃO. também sabe que não pensou e não seria capaz de escrever. e de entidades hoje mais lúcidas e respeitáveis do que porventura o foram aqui na Terra. para só apreçarem a obra que ora lhes apresentamos. e desencarnado em 16 de dezembro de 1954. sem contudo negar. na volúpia de escandir quand même. racional e logicamente devem existir. na Estação de Quirino. como por julgar que tal ousio seria uma profanação. que nada explicam.. de maneira impressionante. há fatos e recursos de hermenêutica. por vindos de tão alto. por mais insólito que seja. na pauta evangélica que diz: – A árvore se conhece pelo fruto. de autores também ignorados e jamais lidos! Como explicar. ou a fatores outros. em suma. M. figuras de retórica.. não nos dispusemos a escoimá-la de possíveis defeitos de técnica. RJ.É tudo inesperado. Trata-se. concepções filosóficas das quais nunca ouviu falar. fica-lhes a liberdade de conjeturar. . que participa do meio físico contingente. nos perdoem a vacuidade e a insulsice destas linhas e que os leitores de boa vontade as desprezem como inúteis. em tudo. torrencial! Do que escreve e sabe que está escrevendo. Tal como no-lo deram. Foi guarda-livros. aos cépticos. ou taliscas. e de modo a satisfazer aos familiares da Doutrina. enfim. mais sutis e delicados do que esses que. antes complicam. devem ser atribuídas ou irrogadas ao possivelmente precário aparelhamento de transmissão. precipuamente. Há vocábulos de étimo que desconhece. como definir e transfixar a captação. nascido em 28 de maio de 1874. não só por nos falecer autoridade e competência. e o que a legítima ética doutrinária aponta é que quaisquer lacunas. encarregado de apresentar esta obra. Marquês de Valença. explosivo. esse trabalho melhor corresponde à sua finalidade altíssima. doutrinas. diremos que. para melhor explicar. Que os arautos da Boa Nova aqui escalonados.

em julho de 1932. Foi jornalista. em 2 de abril de 1910. estão estampadas na edição de janeiro de 1955. invejável cultura humanística. porque a dor . órfão de mãe aos cinco anos. exerceu cargos na Diretoria da Federação Espírita Brasileira ao longo de vários decênios. nas posições mais modestas do comércio. “Há Dois Mil Anos. Chefe de família numerosíssima. Castelhano. Criatura simples. Minas.” e “Renúncia”) são periodicamente radiofonizados e televisionados. 1919 e 1929. Viajou para o exterior algumas vezes. como autodidata. foi sempre dos mais assíduos e proficientes no estudo do Evangelho de Jesus. inclusive a Presidência nos anos 1915. integrando-lhe o quadro social por 44 anos. jamais se beneficiou dos direitos autorais da sua vasta produção mediúnica. em 1910. e creio mesmo que todos os que me conhecem podem dar testemunho da minha vida repleta de árduas dificuldades e mesmo de sofrimentos. escreveu notas autobiográficas endereçadas ao Reformador.) Francisco Cândido Xavier NASCEU em Pedro Leopoldo. para serem public adas após a sua desencarnação. diversos deles publicados em Esperanto. como jovem sem recursos financeiros. onde residiu até dezembro de 1958. Como membro do Grupo Ismael. onde é popularíssimo. tenho experimentado toda a classe de aborrecimentos na vida e não venho ao campo da publicidade para fazer um nome. Filho de João Cândido Xavier e de Maria João de Deus. MG. Aposentou-se como funcionário público federal. muito apreciados. Respeitado e estimado em todo o Brasil. através da Casa-Máter do Espiritismo – a Federação Espírita Brasileira –. afável e operosa. Ingressou na FEB em 1903. Palavras minhas Nasci em Pedro Leopoldo. Os romances psicografados (entre eles “Paulo e Estêvão”. primeiro livro de suas faculdades mediúnicas e já em 9ª edição. goza ele ainda de sincera admiração em outros países. este último editado pela FEB. Em 1939. Japonês. dentre eles “Cinzas do meu Cinzeiro” (coletânea de trabalhos publicados no “Reformador”) e “O Cristo de Deus”. MG. sempre no exercício do seu mediunato. que acima de tudo ama a verdade. (Nota do Editor. Médium curador e espírita militante durante mais de meio século. desencarnados em 1960 e 1915... Transferiu-se para Uberaba. julgo que os meus atos perante a sociedade da minha terra são expressões do pensamento de uma alma sincera e leal. E até aqui. respectivamente. Médium de atividade ininterrupta há quase meio século.depois de lutar com imensas dificuldades. 1918. estudioso incansável. conseguiu. em janeiro de 1959. publicou. o “Parnaso de Além-Túmulo”. Filho de um lar muito pobre. Seguiram-se-lhe mais de 110 livros mediúnicos. Inglês e Francês. Traduziu diversos livros espíritas e publicou alguns de sua autoria.

sobrecarregado de trabalhos para angariar o pão cotidiano. história e vernáculo. num grupo escolar. onde se não pode pensar em letras. constantemente. prolongando-se esta minha situação até os dias da atualidade. para nossa casa. a medicina foi impotente para conceder-lhe uma pequenina melhora. freqüentando-a mesmo com amor. estudando apenas uma pequena parte do dia e trabalhando numa fábrica de tecidos. das quinze horas às duas da manhã. Foi quando decidimos . O meu ambiente. de penosos deveres. se decidi escrever estas modestas palavras no limiar deste livro. em maio do ano referido. de desconforto. quando então consegui um emprego no comércio. como eu. Fui pois criado com as teorias da igreja. onde o serviço dura das sete às vinte horas. como verdadeiramente não podem. em casa.há muito já me convenceu da inutilidade das bagatelas que são ainda tão estimadas neste mundo. porém. sempre a braços. Vários dias consecutivos foram. cheguei quase a adoecer com um regime tão rigoroso. é apenas com o intuito de elucidar o leitor. Começarei por dizer-lhe que sempre tive o mais pronunciado pendor para a literatura. realizar as minhas esperanças. os meus desejos de estudar. ambiente de pobreza. neste ponto. pois. Prosseguindo nas minhas explicações. todos nós não admitíamos outras verdades além das proclamadas pelo Catolicismo. É verdade que. Assim têm-se passado os dias sem que eu tenha podido. com uma vida de múltiplos trabalhos e obrigações e nunca se me ofereceu ocasião de conviver com os intelectuais da minha terra. estudar como? Matriculando-me. Os meus familiares não estimulavam. E. por diferençar muito pouco essas questões. quanto à sua formação. com um salário diminuto. devo esclarecer que minha família era católica e eu não podia escapar aos sentimentos dos meus. pioras de amargos padecimentos morais. foi sempre alheio à literatura. até hoje. mas. mas onde o trabalho é menos rude. sempre estudei o que pude. Até 1927. Mas. desde os tempos de criança. sequer. Também o meio em que tenho vivido foi sempre árido. quando contava oito anos. pude chegar até ao fim do curso primário. essa situação modificou-se em 1923. aprazem-me todas as leituras e mesmo nunca pude estudar estilos dos outros. quando ia às aulas de catecismo era para mim um prazer. eis que uma das minhas irmãs. Jamais tive autores prediletos. mas meu pai era completamente avesso à minha vocação para as letras e muitas vezes tive o desprazer de ver os meus livros e revistas queimados. foi acometida de terrível obsessão. como o são as lições das escolas primárias. Nunca pude aprender senão alguns rudimentos de aritmética. a melhor boa vontade animou-me para o estudo. para mim.

conta com mais desenvolvimento a clariaudiência. como acontece na opinião de grande maioria de almas da nossa época. com a graça de Deus. Até a grafia era absolutamente igual à que a nossa genitora usava. e. ofereceu-nos até a sua residência. com ingentes sacrifícios. em 1944. as suas faculdades mediúnicas. entre as suas mediunidades. que a minha mãe. Em breve minha irmã regressava ao nosso lar cheia de saúde e feliz. (Nota do médium para a 4ª edição. Sobre esses fatos e essas provas irrefutáveis solidificamos a nossa fé. datando daí o ingresso do meu humilde nome nos jornais espíritas. entrando em pormenores da nossa vida íntima. alma nobilíssima. minha irmã hauria. deixando-nos mergulhados em imorredoura saudade. quando na Terra. que caridosamente se prontificou a ajudarnos com a sua boa vontade e o seu esforço. num ambiente totalmente modificado.) Daí a pouco. desenvolveram-se em mim. começou a ditar-nos os seus conselhos salutares. médium dotada de raras faculdades. quase sempre inclinadas para as futilidades mundanas. sentindo-me muito feliz por se me apresentar essa oportunidade de progredir. que regressara ao Além em 1915. que se tornou inabalável. onde então. para nosso benefício. então. Resolvemos. ornada das mais superiores qualidades morais e que. e foi nessas reuniões que me desenvolvi como médium escrevente. integrada no conhecimento da luz que deveria daí por diante nortear os nossos passos na vida.solicitar o auxílio de um distinto amigo. bem distante da nossa. assim. reunir um núcleo de crentes para estudo e difusão da doutrina. a moral profunda que era ensinada. a vidência. simultaneamente. como o são os daqueles confrades a que me referi. poderia ela estudar as bases da doutrina espírita. deliberou fixar residência junto a nós e as nossas reuniões tiveram resultados melhores. . baseada nas páginas esplendorosas do Evangelho de Jesus. desenvolvendo. o Sr. os ensinamentos sublimes da formosa doutrina dos mensageiros divinos. parece que pesava muito. a audição e outras faculdades mediúnicas. controladas pela sua senhora. em companhia de sua esposa. a nossa alegria aumentava. Aí. semimecânico. porém. tanto à sua família. José Hermínio Perácio. sob os seus caridosos cuidados e da sua excelentíssima esposa Dona Carmen Pena Perácio.2 2 Só nos últimos dias de 1931. por intermédio da esposa do nosso amigo. de maneira clara e mais intensamente. foi nesse ambiente onde imperavam os sentimentos cristãos de dois corações profundamente generosos. orientando-se quanto aos seus deveres. Nossas reuniões contavam. grande número de assistentes. Verdadeiro discípulo do Evangelho. para onde comecei a escrever sob a inspiração dos bondosos mentores espirituais que nos assistiam. espírita convicto. que essa senhora desconhecia. pois o nosso confrade José Hermínio Perácio.

na fenomenologia . era a de que vigorosa mão impulsioFrancisco nava a minha. Passavam-se às vezes mais de dez dias. fisicamente. não posso dizer que são minhas. para a comunhão com os nossos desvelados amigos do Além. parecia-me ter em frente um volume imaterial. e o interessante é que pareciame haver ficado sem o corpo. sem que se produzisse escrito algum. quanto ao fenômeno que se produz freqüentemente comigo. categoricamente. porque tanto eu como os meus companheiros as desconhecíamos em nossa ignorância. apesar de muito a contragosto de minha parte. e dia houve em que se receberam mais de três produções literárias de uma só vez. assinadas por nomes respeitáveis. ao recebermos uma destas páginas. O que posso afirmar. Continuei recebendo as idéias dos mesmos amigos de sempre. era necessário recorrermos a dicionários. sem que eu ou meus companheiros de trabalhos as provocássemos e jamais se pronunciou. o nome de qualquer dos comunicantes. por momentos. que se me afigurava invadido por incalculável número de vibrações indefiníveis. Julgo do meu dever declarar que nunca evoquei quem quer que fosse. em nossas preces. para sabermos os respectivos sinônimos das palavras nela empregadas. por conhecer as minhas imperfeições. jamais obtive outra coisa. julgando minha obrigação. quanto menor o número de assistentes. ao escrevê-las. Certas vezes. nas reuniões. e que eram continuamente fragmentos de prosa sobre os Evangelhos. Somente duas vezes recebi comunicações em versos simples. que. em particular. que alguém mas ditava aos ouvidos. frisar aqui também. porque jamais nutri a pretensão de entrar em contacto com essas entidades elevadas. é o que experimento. Muitas vezes. e. comecei a receber a série de poesias que aqui vão publicadas. a sensação de fluidos elétricos que o envolvessem. melhor o resultado obtido. o que perdura até hoje. doutras. experimentando sempre no braço. constituindo para nós uma fonte de consolações isolarmo-nos das coisas terrenas em nosso recanto de prece. onde eu as lia e copiava. apesar de todo o meu bom desejo. contudo. é que. porém. não sentindo. do corrente ano. esse estado atingia o auge. A sensação que sempre senti. Em agosto.decorridos dois anos. acontecendo o mesmo com o cérebro. chegando ao número de quatro ou cinco pessoas. as menores impressões físicas. essas produções chegaram-me sempre espontaneamente. porque não despendi nenhum esforço intelectual ao grafá-las no papel. Grande parte delas foram escritas fora das reuniões e tenho tido ocasião de observar que. os assistentes de nossas sessões de estudos escassearam. em consciência. Não desanimamos. psicografandoas. ao psicografálas. prosseguindo em nossas reuniões. Serão das personalidades que as assinam? – é o que não posso afiançar. Doutras vezes.

desde a infância. Há de haver. mas todas as pessoas de sua intimidade sabem que ele. que através da sua maravilhosa clariaudiência me auxiliou muitíssimo. Imagine se o aparelho visual do homem fosse acomodado. pertencem igualmente à fenomenologia espírita. Terei feito compreender. confunde os habitantes dos dois mundos e muitas vezes pergunta ao amigo que esteja passeando com ele “Estás vendo ali um homem de barbas brancas. Francisco Cândido Xavier Nas sessões espíritas. transmitindo. os campos se apresentariam como desertos. rizinhos ridiculizadores. Nas minhas atuais condições de vida. M. os mortos! Pede-me você uma palavra para o intróito do “Parnaso de AlémTúmulo”. ainda. etc. o carinhoso interesse do distinto confrade Sr.4 A tarefa é difícil. alguém que encontre consolação nestas páginas humildes. a verdade como de fato ela é? Creio que não. Pensou em fenomenologia somente como prática consciente da mediunidade Devo salientar o precioso concurso da bondosa médium Sra. o Autor não se lembrou de que as suas relações constantes com Espíritos desencarnados. os seus salutares ensinamentos. Cármen P. E aqui termino.espírita. segundo a potencialidade dos raios X: as cidades estariam povoadas de esqueletos. tenho de destoar da opinião que já expendi nas contingências da carne. Quintão. noutros. diante de um habitante do nosso mundo ou de habitante do mundo espiritual. Pedro Leopoldo. Também isso são fenômenos espíritas. todavia. os meus saudares. Perácio. Um desses que haja. dezembro de 1931. que aparecerá brevemente em nova edição. porém. com os meus agradecimentos intraduzíveis aos boníssimos mentores do Além. que inspiraram esta obra. que generosamente se dignaram não reparar as minhas incontáveis imperfeições. não poupando esforços para que este despretensioso volume viesse à luz da publicidade. (Nota da Editora) De pé. Ao escrever estas palavras. A todos eles. Os vivos do Além e os vivos da Terra não podem enxergar as coisas através de prismas idênticos. e dou-me por compensado do meu trabalho. Em alguns despertarei sentimentos de piedade e. que tem sido de uma boa vontade admirável para comigo. por intermédio de instrumento tão mesquinho. transmitindo-me as advertências e opiniões dos nossos caros mentores espirituais e. a quem me lê. o mundo constituiria um conjunto .?” Pela resposta do companheiro é que ele fica sabendo se está. a não ser esses escritos. entre mil dos primeiros. mantidas desde os 5 anos de idade.

Casimiro com a sua sensibilidade infantil. Cada esfera da vida está subordinada a certo determinismo. Hão de estranhar que os mortos prossigam com as mesmas tendências. “Parnaso de Além-Túmulo” sairá de novo. aguardando a sua palavra. em recompensa dos nossos desequilíbrios no mundo. Junqueiro com a sua ironia. de mulher e de menina. tangendo os mesmos assuntos que aí constituíam a série de suas preocupações. (Nota da Editora. quando encarnado. Existem até os que reclamam contra a nossa liberdade. afigura-se-nos que os brados de todos os sofredores e infelizes da Terra se concentram numa súplica grandiosa que invade as vastidões como o grito do valoroso almirante. a visitar os cruzadores de guerra. em julho de 1932. escrevera no Diário Carioca. os que receberem novamente o “Parnaso de AlémTúmulo” dirão mais ou menos o que eu disse5. Conta-se que na guerra russo-japonesa. gritando como alucinados? Os habitantes dos reinos da Morte ainda apreciam o decoro e a decência. levantando o ânimo dos companheiros que haviam ficado nas pelejas. ao surgir a 1ª edição do Parnaso. e na tristeza majestosa do ambiente. como a mensagem harmoniosa dos poetas que amaram e sofreram. publicada em 1935. Os institutos da Civilização têm sido impotentes para resolver o problema do nosso ser e dos nossos destinos.de aspectos inverossímeis e inesperados. é indubitável que possuímos no Além o reflexo das nossas virtudes ou das nossas misérias. – De pé. em nome da nacionalidade. . Individualmente. no domínio do conhecimento e da sensação. – exclama-se – porque os vivos da Terra se perdem nos abismos tenebrosos. Decerto.) Mas é razoável que apareçamos no mundo.. daí não bastassem para nos inclinar à verdade compassiva. Na atualidade. como se os nossos amargores. concitou-os a auxiliar as manobras militares. e o nosso presente é sempre a experiência do passado e a esperança no futuro. (Nota da Editora) 5 Alude às crônicas que ele. Cármen Cinira aí está com os seus sonhos desfeitos. 4 Refere-se à 2ª edição. Antero com a sua rima austera e dolorosa. Uma claridade nova cantou as energias espirituais do valente adversário da pátria de Stoessel e os filhos de Yoritomo venceram. Os mortos falam e a Humanidade está ansiosa. o grande Togo reuniu os seus soldados no cemitério de Oogama. os mortos!.. dirigiu-se aos mortos em termos comovedores. Todos aí estão dentro das suas características. terminada a batalha de Tsushima. Desejariam que estivéssemos algemados nos tormentos do inferno.

mas os filhos do infortúnio sentem-se envolvidos na onda divina de um novo Glória in excelsis.. no turbilhão da sombra imensa. Humberto de Campos (Espírito) HUMBERTO DE CAMPOS Veras. poeta e professor. mas esses mantos estão rotos!. manifestando-se a respeito dela pelo “Diário Carioca”. em 1934. sendo 9 sob o pseudônimo de Irmão X. Ameaça a verdade e humilha a crença. temos fome. com os artigos intitulados “Poetas do outro mundo” e “Como cantam os mortos” (apud “A Psicografia ante os Tribunais”. escritor brasileiro. nascido em Minas Gerais a 30 de dezembro de 1877 e falecido a 16 de agosto de 1934. deixou alguns livros inéditos. e a Humanidade sofredora sente-se no caminho consolador da sublime esperança. das faculdades mediúnicas de Francisco Cândido Xavier para a transmissão de importantes mensagens. . páginas 60 a 64. Espírito dinâmico. Produção literária variada quão vultosa. zelosa de suas conquistas. sob a orientação do Anjo Ismael. entre o assombro e a esperança. A Ciência. já em 9ª edição. Pátria do Evangelho”. Temos Jesus Desaba o Velho Mundo em treva densa E a guerra. Foi jornalista e deputado federal. dois anos depois passou ele a valer-se. dos quais dois já editados pela Federação. como Espírito. ainda não ouviu a sua vibração misteriosa. além de copiosa obra esparsa. Ditou-nos 12 livros. 4ª ed. em 1886.. o livro confirmador da missão espiritual do Brasil. Liberto dos liames da carne. Nas torturas de um novo cativeiro. edições de 10 e 12 de julho de 1932. Coração do Mundo. membro da Academia Brasileira de Letras. como a que se inseriu nesta página. nascido em Miritiba (hoje Humberto de Campos). como lobo carniceiro. Mas vós.As filosofias e as religiões estenderam sobre nós o manto carinhoso das suas concepções. (Nota da Editora) 1-Abel Gomes ESCRITOR. Vale destacar “Brasil. acoplada ao mesmo “Parnaso” que ele conhecera aqui na Terra e oriunda do mesmo “Além-Túmulo” por ele tenuemente vislumbrado. conheceu em vida física a 1ª edição do Parnaso de Além-Túmulo. temos sede! E os considerados mortos falam ao mundo na sua linguagem de estranha purificação. Tendes convosco o Excelso Companheiro. MA. que é a de levar as luzes do Evangelho do Cristo a todos os quadrantes do Mundo. posto que fisicamente inválido. de Miguel Timponi. o Legado do Governador Espiritual do Planeta em Terras de Santa Cruz. Temos frio. visando à cristianização da Humanidade. FEB). editados pela FEB. e desencarnado no Rio de Janeiro.

Rememorando as dores que passaram. G. Depois de atravessar a sombra imensa. Filhos da luz de uma outra Natureza. Encontrei o país abençoado Onde vive a celeste recompensa. desenganos. Rogo a Jesus conceda reconforto Aos corações amados que ficaram! . Eis que a Terra tem crimes e tiranos. Mas vós tendes Jesus em cada dia. Do meu porto Ao caro amigo M. Num dilúvio de lírios e de rosas.Que ama o trabalho e esquece a recompensa No serviço do bem ao mundo inteiro. A morte abriu-me as catedrais radiosas. em prosa e em verso. colaborou ativamente na imprensa e deixou opulenta obra esparsa. E dos quadros risonhos do meu porto.. É doce descansar após a lida... 2-A. Morte Silenciosa madona da tristeza. Das angústias e sonhos do passado. À esperança de todos os meus dias! 3-Albérico Lobo NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro em 1865 e desencarnado em fevereiro de 1942.. Que traz à Terra um tênue reverbero Da mansão das estrelas erradias. Irmã da paz e da serenidade. Trabalhemos na dor ou na alegria. Banhar o coração na luz da vida. calmo e austero. Que entornavam no espaço a sutileza Dos incensos das naves harmoniosas! Monja de olhar piedoso. Que abriu meus olhos na imortalidade. Asperezas dos homens da caverna. desvarios. Na conquista de luz da Vida Eterna. Não conservo senão o Amor e a Crença. Ambições. Ante o novo caminho ilimitado. Onde pairam as formas vaporosas Do país ignorado da Beleza. Adeus mágoas da noite estranha e densa. Quintão Viajor vacilante e extenuado. Funcionário público.

Membro fundador da Academia Brasileira de Letras.4-Alberto de Oliveira FLUMINENSE. hoje e amanhã. agora é desconforto. Irradia o perdão e atende. Do último dia O homem. Tudo o que era vaidade. Farmacêutico. em 1859. tudo é vão. Não te aflija a miséria. Somente o que venceu nesse mundo mesquinho. no último dia. Toda a nau da ilusão se destroça e esfacela Sob as ondas fatais da indômita procela. abatido em seu horto. entre escombros. Jesus Quanta vez. Como a luz imortal do amor que nunca morre. Tudo o que vibra espera a luz que resplendora. foi tido como Príncipe dos Poetas de sua geração.. nascido em Palmital de Saquarema. soluça. Planta a bênção da paz. Onde clame a revolta e onde exista a amargura. o ninho e a sepultura. que é náufrago sem porto. Não troques mal por mal. . em rumo escuro e incerto. O homem vive a tatear na treva em que se cria! Em torno. mundo afora. Do pobre coração. Esclarece a alegria e consola a desgraça. como raios de aurora. neste mundo. dedicou-se principalmente ao Magistério. arrima-te à esperança.. Entre as vascas da morte. o peito exangue e aberto. Seu coração é um mar que se apruma e encapela. Sente o Mestre do Amor que lhe mostra nos ombros A grandeza da cruz que ilumina e socorre.. Seja a bênção de amor a luz do teu destino. Sente o extremo pavor que a morte lhe revela. parnasiano de escol. Do mundo é a escuridão. Na eterna lei de amor que consagra a criatura. ajuda e passa.. Nas trevas do ladrão. na dor da alma perjura. que sepulta a quimera.. a alma pobre. E no escuro bulcão só Jesus persevera. Guarda o anseio do bem que é lume peregrino. Desgraçado viajor rebelado ao seu guia. foge à sombra e à vingança.. Ajuda e passa Estende a mão fraterna ao que ri e ao que chora: O palácio e a choupana. sobre a estrada sombria. Desespera. compreende. anseia e balbucia A suprema oração da dor do seu deserto. No pungente estertor do peito quase morto. em 1937. Nessa grande amargura. Agora. No pavor de esperar a angústia que vem perto!. e falecido em Niterói.

É o coração que desata Meus pesares num lembrete. Onde a carne. homem vão? Cala em ti todo alarde. aposentandose como Agente de 1ª classe. Rompe a treva do abismo enganoso e perverso! Onde vais. ante o sol da Graça. Detendo por balda nossa Descrença. Sem a velha esquisitice Que inda agora me entontece! Entretanto. e desencarnou em 13 de novembro de 1948. 5-Alfredo Nora ALFREDO José dos Santos Nora nasceu em 18 de novembro de 1881. Não é ofício. colaborou em várias revistas e jornais. A vida real começa. Cheia de lama e fumaça. esta choça. A Terra. É feio talhão de roça... Perdi tempo em maluquice E o tempo me desconhece. Mas é triste a fé sem viço Que o sepulcro impõe à pressa. não é bilhete.Conservando Jesus por verdade e caminho.. Que a coisa melhore e. É natural que padeça A minha pobre cabeça Perante a Luz. Poeta e jornalista.. é clara a messe Da sementeira de asnice. Estado do Rio. nem ata. Além da prisão de osso. guerra e cachaça. Agora é que entendo isso. Depois de estudar Engenharia até ao 4º ano do curso. . passa. Foge dessa tormenta antes que seja tarde: Só Jesus tem nas mãos o farol do Universo. Desejo que a luta cesse. breve. se eu pudesse Dizer tudo o que não disse. tornou-se funcionário da Central do Brasil. É minúscula palhoça. no município de Piraí. Oh! meu caro. face a face. Não me olvide em sua prece. Espere sem alvoroço. Lasneau amigo. Carta ligeira Meu Lasneau. passe.

velhas cenas. na sombra onde se exala Um perfume de altar e misereres. Que andais no mundo exilados. Nas lutas de vossa esfera.. O perfume das hóstias consagradas. E seguindo outros seres solitários. Dos Ofícios. Nos caminhos enevoados.. Achou. poeta mineiro. Ó crentes de uma outra vida! .. jornalista e poeta. Lendo o missal da amargura! Esperai a sepultura. Escada de Jacob. Retomo velhos quadros. como inda faz a alma cativa! . Almas que andais gemendo nas estradas Da amargura e da dor. Sobre quem a saudade despetala Os seus lírios de pálidos fulgores. eu vos pertenço. Septenário das Dores. Kiriale. Enchendo as grandes vastidões serenas. dos Terços. Porque a Morte é a primavera Luminosa.. Sinos Escuto ainda a voz dos campanários Entre aromas de rosas e açucenas.. De vos cantar. no Espaço luminoso e imenso. natural de Ouro Preto.. em volutas de flores e de incenso. Almas tristes de freiras e sórores. Vozes de sinos pelos santuários. notabilizouse principalmente pela tonalidade mística do seu astro.6-Alphonsus de Guimarãens AFONSO Henrique da Costa Guimarães. qual se afirma em suas obras: Dona Mística. Eu ressurjo nos místicos prazeres.. Chorar... Aos crentes Ó crentes de uma outra vida. Tangei harpas de esperança. Filhos da paz e da crença Tangei harpas de esperança!. Nasceu aos 24 de julho de 1870 e desencarnou em 15 de julho de 1921. amortalhadas. Magistrado.. Atravessai o nevoeiro denso Em que viveis no mundo.. das Novenas.. eterna e imensa. Redivivo Sou o cantor das místicas baladas Que. etc. Rezando as orações dos Septenários. A morte que nos salva não nos priva De ir ao pé de um sacrário abandonado.

Seu coração freme de júbilo. o mundo inteiro vos festeja. Persegues a fantasia e alimentas curiosamente a ilusão. No entanto. O Senhor passa todos os dias.. Nos altares simbólicos da Igreja! Eis... O irmão . o Amado espera. O Amado é incapaz de violentar a tua alma. Em que estenderás ao seu amor infinito O cálice do coração lavado e vazio. porém. Onde a vossa virtude carinhosa Consola e ampara os fracos pobrezinhos. Por que não recolheste a tempo a tua parte? – Nada vi – responderás. Mas as ânforas do teu coração vivem transbordando de substâncias estranhas.Ó sinos dolorosos e plangentes. Seu carinho aguarda a confiança espontânea. guardas o vinagre dos desenganos. E dia virá. Senhora. Todavia. em ondas luminosas. Cantai... Na estrada longa do destino. o envenenado licor dos caprichos.. Oh! Virgem da Pureza e dos Martírios! Imagens de turíbulos e rosas Aromatizam todos os empíreos.. Um turbilhão de vozes e de lírios. Buscando-vos nas Luzes Harmoniosas. Distribuindo os dons celestiais.. É porque teus olhos estavam nevoados na atmosfera do sonho. Assim também. Aqui. o Amado faz chover sobre os homens Os poderes e as bênçãos. Na expectativa de entregar-te os tesouros eternos. que vos vejo nos caminhos. choras e desesperas. Mas. até agora. Acolá.. Em magnificência ampla e radiosa.. Há na Terra canções maravilhosas Entre as luzes e as lágrimas dos círios. Dizendo a mesma Fé que salva os crentes! Santa Virgo Vírginum Sobe da Terra. como cantáveis no passado. 7-Alma Eros O cálice A chuva benéfica e abundante cai dos céus Mitigando a sede da terra.

em breve. Como pai carinhoso. Depois. Por vezes. Desfaze a teia da filáucia humana. Ao influxo do bendito esquecimento. feriu-se em dolorosas experiências. Lutou. Fê-lo dormir no regaço. Depois da festa Não te entregues na Terra à vil mentira.. Buscou-o no fundo dos abismos. um poema heróico-burlesco – “A Festa de Baldo”. E estende as mãos fraternas Àquele que ainda não pode ver o que já vês.Por que ajuízas com ironia. . Em busca da criancinha abandonada. em livro. Concedeu-lhe oportunidades diferentes. Contempla as culminâncias que te aguardam Entre as nuvens. onde era encarregado dos negócios do Governo Imperial do Brasil.. porém. Se já atingiste Algum topo de colina. Quando penetrou noutros círculos. Que a Morte. humilha e desengana A demência da carne que delira. Acreditou que o Senhor pertencia somente ao seu grupo E que as outras comunidades humanas eram condenadas. na Bélgica. De tempos a tempos. Ama-o.. Publicou. Dando ao mundo o que possui de melhor. Deu-lhe novas forças.. sofreu. Para que o sol do trabalho lhe sorrisse outra vez. O Amado. 8-Álvaro Teixeira de Macedo ÁLVARO Teixeira de Macedo nasceu no Recife em 13 de janeiro de 1807 e desencarnou em 7 de dezembro de 1849. Não observas em seu caminho áspero a tua própria história? Não atormentes com palavras amargas o irmão que se eleva Laboriosamente. jamais o deserdou por isso. Sobre as obscuridades do irmão que sobe dificilmente a montanha? Quando atravessava a floresta O pobrezinho julgou que o Amado lhe falava à mente pela voz do trovão E lhe erigiu altares Enfeitados de flechas. faze-lhe o bem que possas.

deixou dois volumes de Poesia. Também tive a minhalma outrora perturbada. Venho testemunhar a luz de onde regresso. Sob a ilusão mendaz chameja a pira Da verdade. soberana. Que abandona a matéria exânime e cansada. de alma consumida. Desce gemendo. A morte é simplesmente o lúcido processo Desassimilador das formas acessíveis A luz do vosso olhar. De dúvida. Finda a festa de baldo riso infando. além de copiosa literatura teatral e doutrinária. Providência dos que choram Nas sombras da desventura. celeste. Mensageira da ternura. empobrecido e incerto. Ao turbilhão de cinza e esquecimento.O gozo desfalece à própria gana. Mas a morte sanou-me a última ferida Desfazendo as lições utópicas do Nada. consagrados pela crítica coeva. Nasceu no Rio de Janeiro em 20 de outubro de 1885 e desencarnou a 5 de janeiro de 1923. Qual folha solta ao furacão violento. É por vós que conhecemos A eterna revelação Da vida em seus dons supremos. E quem da luz não fez templo e guarida. Que traz a treva em si e abre a porta dourada De um mundo que entre nós é a luz desconhecida. Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! Cheia de graça e bondade. incerteza e angústias consumida. Talento brilhante. Onde vive e se expande o Espírito liberto. 10-Amaral Ornellas FUNCIONÁRIO público. 9-Amadeu (?) O mistério da morte O mistério da morte é o mistério da vida. A alma transpõe o túmulo chorando. Bendita sois vós. Ave Maria Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime. O Senhor sempre é convosco. Toda vaidade ao báratro se atira. Incitando vossa alma aos planos invisíveis. Rainha! .

amando por vencê-las. É vulto eminente e destacado nas letras portuguesas. Desde a paz da Manjedoura. nos Açores. em 1891. ascenderás cantando Aos Píncaros da Luz. Esquece a mágoa hostil que te oprime e alanceia. e desencarnado por suicídio.. Purifica-te e cresce. Trabalha... Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! O Tempo O tempo é o campo eterno em que a vida enxameia Sabedoria e amor na estrada meritória. Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime. Nele o bem cedo atinge a colheita da glória E o mal desce ao paul de lama. Assim seja para sempre. espera e crê. E. Oh! Divina Soberana. Dor e luta na Terra – a Celeste Oficina – São portas aurorais para a Mansão Divina. Nossa porta de esperança. O serviço é vitória E cada coração recolhe o que semeia. Fomentando o princípio desumano . cinza e areia. além da Cruz. em 1842.. A desvendar-se no capricho insano? Ciência que se elevou à estratosfera E devassou os fundos do oceano. Às dores. Refúgio dos que padecem Nas dores da luta humana.. Rosa mística da fé. nos braços do Tempo.. “como” e “quando”.Estrela da Humanidade. Toda amargura é sombra enfermiça e ilusória. E Anjo de nossas vidas! Bendito o fruto imortal Da vossa missão de luz. Serve sem perguntar por “onde”. Ciência ínfima Onde o grande caminho soberano Da Ciência que abriu a nova era. Lírio puro da humildade! Entre as mulheres sois vós A Mãe das mães desvalidas. caracterizando-se pelo seu espírito filosófico. no País das Estrelas! 11-Antero de Quental NASCIDO na ilha de São Miguel. Investigando a entranha da monera.

. Escorraçada no padecimento...Da ambição onde a força prolifera. Sob o alarme guerreiro. Eis que a Terra te acusa. soluçando. Visão de tristes faces cismadoras. No labirinto amargo da existência. Numa senda mais triste e mais sombria. Que espalhais os eflúvios da Clemência Em caminhos liriais feitos de aurora!. Oh! Anjo Tutelar da Humanidade. formidando. Busquei-te. Depois da morte 11-1 Apenas dor no mundo inteiro eu via.. eu te adorei. Esperança dos pobres desvalidos!. À morte Ó Morte. luta e chora. Que espargis alegria e claridade Sobre o mundo de trevas e gemidos. Por onde penetrei no Sofrimento. É a luz dos tristes e dos desterrados. Se vislumbrava o riso da alegria Fora dessa amargura inalterável Esse prazer só era decifrável Sob a ilusão da eterna fantasia. E escancaraste a porta escura e fria. Que num véu de tristeza impenetrável Multiplicava as dores que eu sofria. Num caminho infeliz. Longe da Luz. . Nos crepes do Silêncio amortalhada.. eu que trazia a alma já morta.. Eras tu a visão idolatrada Que sorria na dor das minhas horas. Onde habitasse a eterna paz do Nada As agonias desconsoladoras. E tanto a vi. da Paz e do Direito. sombrio e inverso. Vosso amor. arma de efeito. Sede a nossa divina providência E a nossa proteção de cada hora. Como a Grande Mendiga do Universo!. Que sois toda Bondade e Complacência. Amparai o que anseia. Ciência de ostentação. como se foras O Fim da sinuosa e negra estrada.. Batendo alucinado à tua porta. que enche os céus ilimitados.. amarga e inconsolável. Rainha do Céu Excelsa e sereníssima Senhora.

Trazia em mim o anseio irresistível De conhecer o Deus indefinível. na Terra. todavia. Os prazeres. Morri. ao sepulcro fui descendo.Ao meu olhar de triste e de descrente. Recamada de dor profunda e intensa. Francisco Cândido Xavier . que se eleva. Não o via e. Soneto Quisera crer. E nunca encontraria abismo horrendo. No seio dessa ciência tão volúvel. Só existia a dor. 11-3 Depois de extravagâncias de teoria. Que liga o Céu à Terra tão sombria! E por estas regiões onde eu julgava Habitar a inconsciência e a mesma treva Que tanta vez os olhos me cegava. Sobre o problema trágico.Parnaso de Além-Túmulo 46 Que era na dor. Nas vastidões da terra úmida e fria. Que a morte era um enigma solúvel. Ela era o laço eterno e indissolúvel. sentindo o Incognoscível E a sua onisciência criadora. O gozo era a mentira dum momento. insolúvel. Olhar de pensador amargurado. Desvairado. Vim. gemendo. reconhecendo. Iluminando todas as alturas. em toda hora. Podia ver. de quem descria. Mas a insídia do orgulho e da descrença Guiava-me a existência desolada. o engano imaginado Para aumentar a mágoa e o sofrimento. Pela voz da vaidade. visão consoladora. e sem que visse Meu próprio bem na dor que ia sofrendo. eu cria Achar na morte a escuridão do Nada. porém. Nesse anelo cruciante e intraduzível. que existisse Esta vida que agora estou vivendo. Andei cego. De amargoso penar que se me abrisse. no entanto. Sem que a Paz almejada conseguisse. então. ela somente. . De ver o Deus de Amor. encontrar as luzes puras Da verdade brilhante. 11-2 Misantropo da ciência enganadora.

como se fora Apossar-me do eterno esquecimento.. corvo horrendo. O espaço e o tempo.. encapelado e imenso. o Impenetrável. Aproximei-me dele. quando penso No mar humano. de olhar grave e profundo. No coração do mar e da montanha! Deus!. Se enlouqueci no meu degredo estranho. Sentindo o horror que nasce dessa vida. gemendo?” Ele riu-se e clamou para meus ais: “Companheiro na dor. No coração dos homens e das feras.. Sua voz cavernosa e soluçante!. Encontrei os Remorsos e o Tormento. Cheio do pranto da alma encarcerada! Deus Quem. E em vez de imperturbáveis quietitudes. É o contra-senso Da luz unida à lama que a tortura. Que a luz. Nunca mais te abandono! Nunca mais!” Soneto Mais se me afunda a chaga da amargura Quando reflexiono. senão Deus. eu te acompanho. senão ele fez a esfinge estranha No segredo inviolável das moneras. Divisei aos meus pés. Ao viver da minhalma sofredora. criou obra tamanha. somente o Eterno. a excelsa luz. cansado e moribundo: – “Que fazes ao meu lado. Onde se perde a luz em noite escura. O Remorso Quando fugi da dor. de mim diante. Do espírito de amor ao mal imenso. fugindo ao mundo. A medonha figura de gigante Do Remorso.. Dizendo-lhe. Nesse abismo de treva a bênção pura. Onde se agitam turbilhões de esferas.. Acordando-me em lágrimas. Poderia criar o imensurável . Que se vive no abismo tenebroso. Era de ouvir-lhe o grito gemebundo. suplicante. Recrudescendo as minhas dores rudes. Sente o assédio do mal.Da morte a Paz busquei. aquece e banha? Quem. Escutando o soluço cavernoso Da pobre Humanidade escravizada.. as amplidões e as eras. Mais se me aumenta a chaga dolorida.

os prantos. distante do caminho estreito Desse mundo de dor e de orfandade. transformai-o em gozo alto e perfeito. dizei-lhes. na Terra. Oh! se eu pudesse. De tão pequena dor fazendo alarde. ó vós que estais na Terra. Quando entre conjeturas me perdi.E o Universo infinito criaria!.. A dor mais rude. Que perfuma e crucia o vosso peito. diria eternamente. a mágoa mais pungente. Chega um dia em que o Espírito descansa Das aflições.. Ah! Crer! bem que.. Dentro da vida sem compreendê-la. Que as grandes luzes místicas revela. Suprema paz. Que sobre a Terra os grandes bens perdidos São a posse da luz resplandecente. os gemidos. iria em altos brados Libertar corações escravizados Sob o guante de enigmas profundos! Mas. Não choreis Não choreis os que vão em liberdade Buscar no Espaço o luminoso leito Da paz. intérmina piedade. angústias e cansaços.. não possui. E que habita na eterna claridade Das torrentes da Luz e da Harmonia! Consolai Se eu pudesse. . Dos aguilhões das dores absolutas: Feliz de quem. Em santa e esperançosa claridade. Aos flagelados e desiludidos. Mas que chega no mundo muito tarde. Crença! Luminosíssima riqueza Que enche a vida de paz e de beleza. Desvairado de angústia e de descrença. O pranto é a flor de aromas da saudade. Que a luz espiritual da dor encerra A ventura imortal dos outros mundos! Crença Minha vida de dor e de procela Que se extinguiu na tempestade imensa. Os soluços. E estraçalhei-me como alguém que sela Com o supremo infortúnio a dor intensa. na Crença e na Esperança. Mas. Despedaçou-se à falta dessa crença. Entre as almas são louros repartidos Muito longe da Terra impenitente.

rijos e francos. Misericordiosa e compassiva. Céu! quanta vez minhalma entristecida Anteviu tua paz. Com teus grandes olimpos majestosos. somente.. Que está nas sendas lúcidas da Prece. Se o tormento da vida recrudesce. que é da alma rediviva. em toda a vida. Se a amargura das lágrimas se aviva.. Turbas de almas escravas de agonias. Sob os golpes da dor. esperai a Providência Com os sentimentos puros. Lendo os artigos ríspidos da Lei! Os filhos da Piedade e da Paciência Encontrarão nos páramos divinos A paz e as luzes que eu não alcancei. Ao palmilhar estradas escabrosas. Cheios de vida e de infinitos bens. bons trabalhadores Que estais colhendo sobre a Terra as flores De um doce e temporário esquecimento. Essas compactas legiões sombrias. Sobre as dores da pobre alma cativa. Sob os grilhões de rude sofrimento! Orai por eles. Entre as noites mais lúgubres e frias! Oh! visões de martírios que apavoram.Procura a luz sublime dos espaços. diamantinos. sob os arrancos. Como um vergel azul de lírios brancos. Aguardai a abundância da outra messe De venturas. Confiando. Ou como agigantadas nebulosas Provindas de cavernas misteriosas. Supremo engano Vê-se da Terra o Céu. Do imperturbável nada que não tens! . e em cujos flancos Repousa a grande mágoa adormecida. em minhas dores. A paz livre de trevas e pavores. Onde mora a ventura. Antegozei. Miseráveis Espíritos que choram. Na escuridão espessa e indefinida! Não sonhei com teus deuses venturosos. Com que andei entre queixas dolorosas. Mão divina A luz da mão divina sempre desce. Almas sofredoras Passam na Terra como as ventanias. Buscando a paz depois das grandes lutas.

. angustiada. Cavaleiro e corcel. chora e pensa. orbe da lágrima e do erro.. Quem vai de alma gemente e consumida. a crença se realiza. Tudo fala de Deus nesse desterro Da Terra.. sem Deus. Cheia.. Nunca. de angústia e de tormenta. A Morte é a própria Vida ativa e intensa. Aos tenebrosos pântanos da Morte. Porque em tudo. Nos labirintos da Filosofia. enfim. Pelos seres terrenos inventada. sem norte?” E impeliu. Fim de toda a amargura da descrença. Gritou-lhe.Incognoscível Para o Infinito. brasonado cavaleiro. além. sobre a humana furna. Mas a Verdade. às dores derradeiras Que as tormentas de lágrimas desatam!.. quanto o vão mortal inda se engana. Estranho concerto Clamou o Orgulho ao homem: – “Goza a vida! E fere. Foi crer demais na angústia e na doença Da alma que luta e sofre. na Terra. Deus não representa A personalidade humanizada. E no meio de todas as canseiras Cheguei. em voz soturna: – “Insensato! aonde vais. no mundo... vaidade e orgulho. 12-Antônio Nobre . O meu erro. às vezes. de cólera violenta. Deus não castiga o ser e nem o isenta Da dor. no mundo da Agonia. Coroado de folhas de loureiro. sem detença e sem barulho. no mundo inteiro. que traz a alma lacerada Nos pelourinhos negros de uma estrada De provação. todavia. e. Que em sua triste condição humana Fez a essência de Deus igual a si! Fatalidade Crê-se na Morte o Nada. Onde a grande certeza principia.. Cavalga o tempo e corre ao teu roteiro De soberana glória indefinida!. o homem divisa A figura das dúvidas que matam. Veio a Vaidade e disse: – “A toda brida! Dominarás. Que entre anseios e angústias conheci! Mas.

não vos canseis De bater... De vossa alma abri as portas Para. Sem que o veja escapulir. em 18 de março de 1900.. Nem a morte os vencerá. acima de tudo Devemos amar a Deus. Nem gritos e nem cantigas Entre vós que à noite andais. Um dia o riso lhe foge.. Nem pó e nem solidão. Ó figuras de velhinhos Que andais dormitando ao léu! Como são belos os Linhos Que vos esperam no Céu! Dizem que os mortos não voltam. Como às aves o alçapão.. Contudo. Quadras de um poeta morto Coração. Quem riu ontem. As almas das raparigas Inda sonham nos choupais. Porém. Deixou um livro inconfundível e.NASCEU na cidade do Porto e faleceu na Foz do Douro aos 33 anos de idade. quem ri hoje. ainda hoje. Distinguiu-se pela suavidade e melancolia do seu estro. Nem sempre poderá rir. os fantasmas da rua. edição de 1902. Venturas da boa sorte. Riquezas. Pode-se amar o veludo De uns olhos e os brilhos seus... que valem elas Se estão na sombra ou sem luz? Tesouro são as estrelas Da bondade de Jesus.. Pensei que a morte era o fim Das ânsias do coração. Nas grandes mansões da morte Inda há romance e noivados. que importa lá? Porque os amores fiéis. Corações despedaçados. Às vezes acham-se fojos . Que choram nas horas mortas. não é assim. Vós que amais a luz da Lua. E por que não? Os corpos daí nos soltam. muito estimado – Só – e Despedidas. Voltam sim.

Onde há música e festins,
E há muitos cardos e tojos
Entre as flores dos jardins.
Se eu pudesse, estenderia
Minhas capas de luar,
Sobre os filhos da agonia
Que andam no mundo a penar.
A morte só pode ser
A vida risonha e pura,
Para quem a padecer
Vive aí na sepultura.
Mal vais, se vais caminhando
Na ambição de ouro e glória;
Nesse mundo miserando
Toda ventura é ilusória.
Chorai! chorai orfãozinhos,
Vossas dores amargosas:
Achareis noutros caminhos
As vossas mães extremosas.
Deixa cantar, ó menina,
Teu coração sonhador...
No sepulcro não termina
O novelário do amor.
Um anjo cheio de encanto
Vive sempre com quem chora,
Guardando as gotas de pranto
Numa urna cor da aurora.
No Universo há céus profundos,
Cheios de vida e esplendor,
Um céu é um ninho de mundos,
Um mundo é um ninho de amor.
A caridade é a beleza
De um divino plenilúnio,
Luz que se estende à pobreza,
Na escuridão do infortúnio.
Aos mendigos desprezados
Não ridicularizeis,
São senhores despojados
Dos seus tesouros de reis.
Aqui, a alma inda espera
O alguém que na Terra amou,
O raio de primavera
Que aí jamais encontrou.
Há quem faça aí mil contas,
Que os interesses resuma,
Mas morrem cabeças tontas,
Sem fazer conta nenhuma.

Tecei sonhos, fiandeiras,
Oh! almas enamoradas,
Vivei aí nas clareiras
De luzes alcandoradas.
Ah! que sinto aqui saudades
Das noites de São João,
Sonho, estrelas, claridades,
Cantigas do coração.
Na minha vida de agora
Não canto as festas louçãs,
Naquelas toadas de outrora
As moçoilas coimbrãs.
Acompanha-me a tristeza
Das saudades, por meu mal;
Minha terra portuguesa! ...
Meu querido Portugal! ...
Do Além
Pudesse o nosso olhar, vagueando os ermos,
Ver através da própria soledade
A expressão luminosa da Verdade,
E da luz da Verdade não descrermos...
Preocupar-se aí, porém, quem há de
Com o problema de sermos ou não sermos,
Pois que o ardente desejo de o sabermos
É sempre o anelo falso da vaidade?
Peregrinos da dor, na dor andamos
Sem que a nossa miséria se desfaça
No escabroso caminho onde marchamos,
Seguindo a alma nos sonhos iludida,
Até que a dor unindo-se à desgraça
Descerre os véus que encobrem outra vida.
Soneto
“Quando cobrir-se o chão de folhas mortas
– Meu coração dizia em grave entono –
Extinguindo-se a vida que comportas,
Dormirás no meu seio o último sono...
E murmurava a alma – “Findo o Outono,
A Primavera vem por outras portas;
Não existe no túmulo o abandono,
Ou a dor amarga e rude em que te cortas.”
Escutava essas vozes comovido,
Morto de angústia, morto de incerteza,
Aguardando o sol-posto, entristecido;
E além da amarga vida de segundos,
Ressurgi da tortura e da tristeza,
Sob os ares sadios de outros mundos!
Ao mundo

A Terra é o vasto abismo onde a alma chora,
O vale de amarguras do Salmista,
Lodoso chavascal onde se avista
A podridão dos vermes que apavora.
Mas, para os grandes bens, para que exista
A perfeição da luz deslumbradora,
Precisamos da carne que aprimora
Com o camartelo mágico do artista.
Terra, tranqüilamente eu te abençôo...
Porque da tua dor alcei meu vôo
Para a mansão das luzes opulentas;
Teu rigor nos redime e nos eleva;
Mas és ainda o cárcere da treva,
Triste mundo de chagas pustulentas!
À Mocidade
Cantai! cantai, ó mocidade! Moira
Encantada que ri nos prados verdes,
Cantai o amor que é luz que se entesoira,
Vibrai na luz da vida em que viverdes.
Glorificai, ditosa, o sol que doira
O riso que espalhais sem compreenderdes,
Expandi-vos na primavera loira,
Nos poemas de luar que conceberdes!
Ide cantando, mocidade ardente,
Alvorada em abril, do sol-nascente,
Clareando o porvir almo e risonho;
Marchai sorrindo, doce juventude,
Na exaltação do amor e da saúde,
Ébria de aroma e luz, ébria de sonho!...
13-Antônio Torres
NASCEU em Diamantina (Minas Gerais) em 1885, falecendo,
em 1934, na cidade de Hamburgo, como cônsul adjunto do
Brasil. Ordenou-se sacerdote, abandonando mais tarde a profissão
eclesiástica. Poeta e escritor.
Esquife do sonho
Tive um sonho de amor e de inocência,
Cheio de luz das coisas invulgares,
Do qual perdi a luminosa essência
Na cristalização dos meus pesares.
Tarde reconheci minha falência,
Terminados os múltiplos azares,
De minha quase inútil existência,
No silêncio das cinzas tumulares.
E da morte, no abismo indefinido,
Tombei exausto, amargurado e cego,
– Abismo tenebroso que eu transponho.

Infeliz do meu ser irredimido,
Pois triste e atordoado inda carrego
O negro esquife do meu próprio sonho.
Nada...
Nada! ... Filosofia rude e amara,
Na qual acreditei, com pena embora
De abandonar a crença que esposara,
– A minha aspiração de cada hora.
Crença é o perfume d'alma que se enflora
Com a luz divina, resplendente e rara
Da Fé, única Luz da única Aurora,
Que as trevas mais compactas aclara.
Revendo os dias tristes do passado,
Vi que troquei a Fé pela ironia,
Nos desvios e excessos da razão;
Antes, porém, não fosse tão ousado,
Pois nem sempre a razão profunda e fria
Alivia ou consola o coração.
14-Artur Azevedo
NASCIDO em São Luis, no Maranhão, a 7 de julho de 1855 e
falecido na cidade do Rio de Janeiro a 22 de outubro de 1908.
Diretor Geral de Contabilidade do Ministério da Viação. Poeta,
comediógrafo, jornalista e crítico. Membro e fundador da Academia
Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira de Martins Pena.
Miniaturas da sociedade elegante
14-1
Adriano Gonçalves de Macedo,
Homem de cabedais e alma sem siso,
Penetrou no seu quarto com um sorriso
Às dez horas da noite, muito a medo.
Uma carta de amante – era um segredo –
Ia abri-la, e, assim, era preciso
Que a sua esposa, dama de juízo,
Não na visse nem mesmo por brinquedo:
Dona Corália Augusta Colavida
Estaria nessa hora recolhida?
Levantou a cortina, devagar...
Mas, que tragédia após esse perigo...
Viu que a esposa beijava um seu amigo,
Sobre o divã, da sala de jantar.
14-2
No belo palacete do Furtado,
Palestrava a galante Mariquita
Com um pelintra afetado, assaz catita,
Bacharel delambido e enamorado.
De sobre a grande cômoda bonita,

14-3 Dom Castilho. tristonha e desolada. conselheiros. cínico e falsário. notável latinista. interessado. Realizara alentada conferência. Recamado de quadros indecentes. esses senhores Foram achá-lo em seus trajes menores. Antonico. Carinhoso pastor. E ele.. Minas. Numa corrida louca. E a esposa Ana Fulgência. onde o Sol feria os vegetais. Protegido dos membros da regência. Sobre rígido assunto moralista.Toma o moço um livrinho encadernado. em 5 de abril de 1859 e desencarnado no Rio de Janeiro em 22 de abril de 1934. perdoando a maldade. Era intenso o calor. O doce missionário Sertão hostil. Foram levar-lhe um abraço camarada. Que na humildade achara a vida mais feliz. Agreste serrania. Foi um sucesso. Magistrado íntegro. Servo amado de Deus. No apartamento escuro da criada. é meu breviário!” Diz inquieta. militou na Política e foi membro de realce da Academia Brasileira de Letras. Tudo era languidez. Revirando-o nas mãos. Que primor de moral! e os companheiros Escritores. Arrebata-o às frágeis mãos trementes Abriu-o.. desânimo e torpor. tendo ocupado a presidência dessa instituição. muito aflita: . poetas. Além se divisava a solidão da estrada. Tendo por companhia A cruz do Nazareno. Naquele dia. 15-Augusto de Lima POETA mineiro. Ninguém! Nem uma sombra se movia. o doce missionário. Nele via uma grande alma de artista. . espelho de bondade. humilde e solitário.“Esse livro.. Era um compêndio de pornografia. Amarela de pó. orador e publicista. nascido em Sabará. Na clareira. Abençoando o bem.. Mas a jovem retoma-o. Mais o olhava e mais se ria. Ali vivia Anchieta. Louvando-lhe a utilíssima existência De homem probo e notável publicista. imitador de Assis.

Senhor. de luz e caridade. Eis que a sede o devora. ao longe. Que Jesus vos ampare. Eis que o irmão de Jesus. no cálice das rosas.Viam-se florescer bromélias e boninas. Tudo vive a mostrar tua pródiga bondade. Dirige-se-lhe a casa. Que tem oferecido a Deus o seu amor. Pisando vagaroso o chão que o Sol abrasa. Na vibração dos sons. o pastor não se deplora. Convertido por vós à luz da vossa fé.“Oh! doce filho meu. ao termo da viagem. Abandonando o ninho agreste e solitário. Entretanto. esguios espinhais Implorando piedade às amplidões divinas.” . Abençoados são o Inverno que traz frio E os calores do Sol nas estações do estio. em nossa própria cruz. inflamando os horizontes. Ele ainda agradece: – “Sê bendito.. das meigas avezinhas. Eu vejo-te no alvor das manhãs harmoniosas. Há solidão na estrada. o pastor prestamente Toma da humilde cruz do Mártir do Calvário.. na irradiação da luz. o humilde pegureiro Avista um mensageiro.” ... que vindes de passagem. Pairam no ar excessos de calor. Na corola de luz de todas as florinhas. Somente o Sol ferino e destruidor. todo amor. Na estação outonal. – “Meu protetor – diz ele –. o bom pajé.. por tudo o que nos dás. tudo é ventura e paz. Ele espera de vós a paz do coração E implora lhe leveis a bênção do Senhor.. Seja alegria ou dor. No canto.. E.. em aflição... Agoniza na taba. Eterno Pai de amor. Nem árvores umbrosas e nem fontes. Para arrancar à dor o pobre penitente.” E isso dizendo. amparo e luz. Na dor. No coração do bom. Ferem-lhe os pés as pontas dos espinhos. no sofrimento. que te ama e te venera. Que penosa jornada. na loura Primavera. A terna e meiga efígie de Jesus É-lhe paz e alimento. elevando-se aos céus. Que calcina. Numa férvida prece. No azulíneo do céu. Em tão rudes e aspérrimos caminhos! .

Terminando a sorrir a espontânea oração,
Inspirada em tão santa devoção,
Anchieta escuta em torno os mais sutis rumores.
Eis que nos arredores
Congregam-se apressadas
Todas as avezinhas,
E, asas aconchegadas,
Juntinhas,
Numa ideal combinação
Formam um pálio protetor,
Cobrindo o doce irmão
Que ia ofertar amor,
Luz e consolação,
Em nome do Senhor.
Pelos caminhos,
Foi-se aumentando
O alado bando
Dos bondosos e ternos passarinhos,
Aureolando com amor o Discípulo Amado,
Modesto, casto, humilde e isento de pecado,
Que ia seguindo,
Lábios sorrindo,
Em meiga mansuetude.
O enviado do Bem e da Virtude
Agradecia ao Céu, o coração em luz,
Evolando-se puro ao seio de Jesus.
Chegara ao seu destino. Ia caindo o dia
No poente de paz e de harmonia,
Brilhava nova luz, feita de crença e amor:
Era a bênção dos Céus, a bênção do Senhor.
O santo de Assis
No suave mistério dos espaços,
Santa Maria dos Anjos inda existe,
Com a mesma luz divina dos seus traços,
Glorificando as dores da alma triste,
Repartindo a Virtude, a Graça e os Dons
Que a palavra divina do Cordeiro
Prometeu aos pacíficos e aos bons
Do mundo inteiro...
Uma nova Porciúncula, dourada
Pelos astros de mística alvorada,
Aí se rejubila,
Sob a paz de Jesus, terna e tranqüila,
Derramando no Além ignorado
Os sonhos de Virtude e Perfeição,
Daquela mesma Umbria do passado,
Cheia de encantamento e de oração.

A luz dos sóis da etérea Natureza,
Numa doce e ideal Eucaristia,
O Esposo da Pobreza
No seu manto de amor e de alegria
Inda abre os braços para os pecadores...
“Irmão Sol, irmãos Anjos, irmãs Flores,
Não nos cansemos de glorificar
A caridade imensa do Senhor,
Sua sabedoria e seu amor,
Procurando salvar
Os nossos irmãos Homens mergulhados
Entre as noites sombrias dos Pecados!...
E à voz suave e dúlcida do Santo,
A Terra escura e triste se povoa
De anjos de amor, que enxugam todo o pranto
E que levam consigo
Todo o consolo amigo
Da Esperança no Céu, singela e boa...
Das paragens etéreas
Da sua ideal igreja,
São Francisco de Assis abraça e beija
O homem que sofre todas as misérias,
Amparando-lhe a alma combalida
Nos desertos de lágrimas da Vida...
E o conduz
Ao regaço divino de Jesus!...
Santo de Assis, divino “poverello”,
Nas amarguras do meu pesadelo
De vaidade do mundo, que devasta
Todo o bem, vi tua luz singela e casta
Beijando as minhas lepras asquerosas...
Uma chuva de lírios e de rosas
Lavou-me o coração de pecador
E guardei para sempre o teu amor.
Santo de Assis, irmão da Caridade,
Que me curaste as lepras e a cegueira,
Depois da morte, à luz da imensidade,
Quero ainda abençoar-te a vida inteira...
16-Augusto dos Anjos
PARAIBANO. Nasceu em 1884 e desencarnou em 1914, na
cidade de Leopoldina. Minas. Era professor no Colégio Pedro 2º,
inconfundível pela bizarria da técnica bem como dos assuntos de
sua predileção, deixou um só livro – Eu – que foi, alias, suficiente
para lhe dar personalidade original.
Voz do Infinito

16-1
No excêntrico labor das minhas normas
Na Terra, muita vez me consumia
Perquirindo nas leis da Biologia
As expressões orgânicas das formas.
O fenômeno apenas, porque o fundo
Do númeno às eternas rutilâncias,
Eram partes do Todo nas Substâncias
Desde o estado prodrômico do mundo.
Com o espírito absconso em paroxismos,
No rubro incêndio de batalha acesa,
Via Deus adstrito à Natureza,
Deus era a lei de eternos transformismos.
Concepção panteística, englobando
As substâncias todas na Unidade,
Perpetuando-se em continuidade,
A essência onicriadora reformando.
O corpo, desde o embrião inicial,
Era um mero atavismo revivendo;
A alma era a molécula, sofrendo,
Afastada do Todo Universal;
Dominava-me todo o medo horrível,
Do meu viver, que eu via transtornado:
Eu era um átomo individuado
Em cerebralidade putrescível.
A luz dessa dourada ignorância,
E com certezas lógicas, numéricas,
Notava as pestilências cadavéricas
Iguais à carne Angélica da infância,
A sutilez do arminho que se veste,
A coroa aromática das flores,
Irmanadas aos pútridos fedores
De emanações pestíferas da peste!
Extravagância e excesso jamais visto,
De idéia que esteriliza e desensina,
Loucura que igualava Messalina
À pureza lirial da Mãe do Cristo.
Assim vivi na presunção que via,
Dos cumes da Ciência e do saber,
Os princípios genéricos do ser,
No pantanal da lama em que eu vivia.
Vi, porém, a matéria apodrecer,
E na individualidade indivisível
Ouvi a voz esplêndida e terrível
Da luz, na luz etérica a dizer:
16-2

“Louco, que emerges de apodrecimentos,
Alma pobre, esquelético fantasma
Que gastaste a energia do teu plasma
Em combates estéreis, famulentos...
Em teus dias inúteis, foste apenas
Um corvo ou sanguessuga de defuntos,
Vendo somente a cárie dos conjuntos,
Entre as sombras das lágrimas terrenas.
Vias os teus iguais, iguais aos odres
Onde se guarda o fragmento imundo.
De todo o esterco que apavora o mundo
E os tóxicos letais dos corpos podres.
E tanto viste os corpos e as matérias
No esterquilínio generalizados.
E os instintos hidrófobos, danados,
Em meio de excrescências e misérias
Que corrompeste a íntima saúde
Da tua alma cegada de amargores,
Que na Terra não viu os esplendores
E as ignívomas luzes da virtude.
Olhos cegos às chamas da bondade
De Deus e à divina misericórdia,
Que espalha o bem e as auras da concórdia
No coração de toda a Humanidade.
Descansa, agora, vibrião das ruínas.
Esquece o verme, as carnes, os estrumes.
Retempera-te em meio dos perfumes
Cantando a luz das amplidões divinas.”
16-3
Calou-se a voz. E sufocando gritos,
Filhos do pranto que me espedaçava,
Reconheci que a vida continuava
Infinita, em eternos infinitos!
Vozes de uma sombra
Donde venho? Das eras remotíssimas,
Das substâncias elementaríssimas,
Emergindo das cósmicas matérias.
Venho dos invisíveis protozoários,
Da confusão dos seres embrionários,
Das células primevas, das bactérias.
Venho da fonte eterna das origens,
No turbilhão de todas as vertigens,
Em mil transmutações, fundas e enormes;
Do silêncio da mônada invisível,
Do tetro e fundo abismo, negro e horrível,
Vitalizando corpos multiformes.

Como animálculo medonho. A flor da laranjeira. Simbiose da dor e da tristeza. . E nem compreenderás como se opera A mutação do inverno em primavera. Como é que em homem se transforma o feto Entre os duzentos e setenta dias. Sofri.Sei que evolvi e sei que sou oriundo Do trabalho telúrico do mundo. Durante penosíssimos minutos. Descortinando as luzes do futuro. a asa do inseto. não perceberás. Da Terra no vultoso e imenso abdômen. essa tirânica incendiária. E vejo os meus incógnitos problemas Iguais a horrendos e fatais dilemas. desde as intensas torpitudes Das larvas microscópicas e rudes. voltei desse laboratório. Os antigos remédios alopatas E as modernas dosagens homeopatas. Onde me revolvi como infusório. Na Terra. Como existiram. E o espírito profundo de Descartes No eterno estudo da Filosofia. Grito ao mundo o meu grito que se alia A todos os anseios gemebundos: – “Homem! por mais que gastes teus fosfatos Não saberás. analisando os fatos. O ângulo obtuso e o ângulo reto Dentro das linhas da Geometria. Como vivem o novo e o obsoleto. obscuro. apenas fui terrível presa. A dor. Um estafermo e um Tales de Mileto. Inda que desintegres energias. Porque existem as crianças e os macróbios Nas coletividades dos micróbios Que fazem a vida enferma e a vida sã. Enigmas insolúveis e profundos. E a transubstanciação da guerra em paz. Té atingir a evolução dos seres Conscientes de todos os deveres. Abatia-me a vida solitária Como se eu fora bruto entre os mais brutos. A infinita desgraça de ser homem. A luz de Miguel Angelo nas artes. Depois. Sombra egressa de lousa dura e fria. A razão do completo e do incompleto.

. O laconismo e a prolixidade. Onde há somente um óvulo fecundo. Como vive o canário junto ao corvo. E o jardim rescendendo de perfumes. Assombrosas antíteses no mundo. o inferno torvo Nos absconsos refolhos da consciência. Que reunindo os átomos no solo Tecem a evolução de pólo a pólo. Os milhões de corpúsculos do ovário. O que não tem sinal e o que tem marca. Repleto de dejetos e de estrumes. E o que é ilimitado e o limitado Na óptica ilusória do horizonte. O céu iluminado. Como os degenerados blastodermas Criam a descendência dos palermas No lupanar das pobres meretrizes. o cemitério. Os terrenos povoados e o deserto. A funda simpatia e a antipatia. A teoria cristã e Augusto Comte. É o gigante e o germe originário. O doloroso e tetro cataclismo Da beleza louçã do organismo. As coisas substanciais e as coisas ocas. Em contraposição com os paquidermes. Mostrando as luzes da imortalidade. Aquilo que está longe e o que está perto. Em prodigiosas manifestações.Produto da experiência de Hahnemann. As idéias conexas e as loucas. Onde entre gozos fúlgidos e edênicos Cresce a alegre progênie dos felizes. As epidermes e as aponevroses. Junto dois palacetes higiênicos. A atividade e a inatividade. As atrações e as grandes repulsões. os vermes. Os lombricóides mínimos. E o desconhecido e o devassado. As grandes atonias e as nevroses. A noite da ignorância e o sol da Ciência. A psíquico-análise freudiana Tentando aprofundar a alma humana Com a mais requintadíssima vaidade. Vaso de carne podre. E as teorias do Espiritualismo Enchendo os homens todos de otimismo. A alma pura do Cristo e a de Tibério.

Psíquicos. Na solução de todos os contrastes. A que se acolhem míseros ateus. É a obreira que tece os esplendores Da evolução onímoda dos seres. Nas lágrimas. Enceguecido e louco então que eu era. E o sangue em continuada efervescência Com impulsos terríficos e tredos. nos risos e nos pânicos. É nessa eterna súplica angustiada Que eu vejo a dor em gozos. Como as tuberculoses e a anasarca. Caminharás lutando além da cova. Para a Vida que eterna se renova. Que não via. Buscava as almas. atrozes. sociológicos. Cosmopolitismos. Os fenômenos todos geológicos. Que eu às vezes na Terra empreendia. Ou mesmo vinculada a gnosticismos Nos singultos preagônicos. Nos vastos campos da Psicologia. As luzes d'alma em trágicos segredos. titânicos. Buscando as perfeições do Amor em Deus.As atrofias e a hipertrofia. insaciada.” Voz humana Uma voz. E apesar da teoria mais abstrusa Dessa ciência inicial. confusa. Milhões de vozes. Duas vozes. É a voz humana em intérminas nevroses. . Outras vozes. A dor. Alma Nos combates ciclópicos. Não saberás o cósmico segredo. dos astros à monera. Que inspiram pavor e inspiram medo. que gargalhando em nossas dores. Somente achava corpos na existência. Nos instintos soezes e tirânicos. Nutrir-se de famélicos prazeres. Homem! por mais que a idéia tua gastes. seres inorgânicos. Nas defectividades da estesia. Uivando subjugadas e ferozes. científicos. Nos distúrbios sutis da hipocondria. Seja nas concepções dos ateísmos. Gritos de feras em paroxismos.

Rudimentos dos seres planetários. Que atrofiada. parece Cataclismo dos grandes cataclismos. Na agregação da carne e dos humores. Misturarmos clarões de sentimentos Entre vísceras. Apoucado Narciso que se orgulha Na profundeza ignota dos abismos Da carne. Mas a análise crua do que eu via. que.Análise Oh! que desdita estranha a de nascermos Nas sombras melancólicas dos ermos. luz e chama – Amalgamada em pântanos de lama. Onde a luz é penumbra tênue e vaga. . É mais que uma atrevida aberração: Que se quebre o escalpelo de meus versos: Entreguemos a Deus seus universos Que elaboram a eterna evolução. Ilusão hiperbólica dos seres Bestializados. fraquíssima. No transcorrer das vidas sucessivas. hipertrófica. Multiplicando as lágrimas e os trismos. Prendermo-nos ao fogo dos instintos. Voracidade onde a alma se mergulha. a onda sonora. Serpentes entre escrófulas e helmintos. A cadeia de impulsos e de instintos. Espíritos em ânsias retroativas. atassalhados. O anseio da vida. estrambótica. Em sexualidades e histerismos. Nas ferezas do instinto. Que. Tendo a alma – centelha. se apaga Ao furacão indômito das dores. nervos. tegumentos. Evolução Se devassássemos os labirintos Dos eternos princípios embrionários. Enegrecermos luminosidades Na macabra esterqueira dos tumores. Atrocidade das atrocidades. Nos recantos dos mundos inferiores. Hedionda lição de anatomia. apodrece. materializados. E nisto achar fantásticos prazeres. Tudo o que a poeira cósmica elabora Em sua atividade interminável. sem vigor. Que percorrem o espaço imensurável.

Viemos do principio das moneras. Volve o Espírito ao páramo celeste. Horrente a devorar com sede e fome Minhas carnes em lúbrico transporte. Larva repugnante e vermiforme. Psique dolorosa e inexpressável Na mais remota epíspase da infância. Do intravascular princípio informe. Transformando-se em luz. De que o planeta triste se engalana Nas grilhetas do infinitesimal. Desde a mais abscôndita reentrância Da sua embriogenia detestável. em sentimentos. Ao monólito enorme das idades. Enjaulados no cárcere das lutas. Vendo a terra que os próprios ossos come. Vi que o “ego” era o alento flâmeo e forte Da luz mental que a morte não consome. A mesma luz dos corpos estelares! É que. Não há luta mavórtica que o dome. Ou venenada lâmina que o corte. Onde a divina essência se reveste . 2 Após a introspecção do Além da Morte. Depois da estercorária microbiana. Homo 1 Ao meu tétrico olhar abominável. Tudo é clarão da evolução do cosmos. Imensidade nas imensidades! Nós já fomos os germes doutras eras. Argamassando um Todo miserável. Dissolvidos na terra famulenta. No profundo silêncio dos inermes. No assombroso prodígio das esteses. Nos íntimos recôncavos da placenta. Inferiores e rudimentares. nas plantas e nos vermes. O homem é fruto insólito da ânsia. A quietação dos túmulos inermes. Das origens às súbitas asceses. Buscando as perfeições absolutas. Heterogeneidades da Substância. Era um feixe de mônadas de vermes. dos invisíveis microcosmos.Veríamos o evolver dos elementos. Nos rochedos.

Por mais que sonde. da perpétua grade. se mistificasse No anonimato. Levantar-me do leito de Procusto. Atramente a gemer a mágoa e o luto. Sou eu que. Buscando ávida a luz. O mesmo triste e estrábico produto. De que concavidade do Universo Vem-me o açoite flamívomo do verso. Quer com Darwin.Da substância fluida. e por mais que o procurasse. Aterradoramente sofredora! Ausculto a humana dor. com Haeckel. Transmitindo as idéias que me fervem No cérebro candente. sendo eu o Augusto. Mais o enigma do mundo se lhe aviva. Inexprimível nas termologias. universal. – A misérrima e pobre Humanidade. Em diferenciação definitiva. Incógnita Por que misterioso incompreensível Vomito ainda em náuseas para o mundo Todo o fel. Extremamente injusto Seria. então. Nas mais contrárias idiossincrasias. Jamais cri. Se vos mentisse. se não vos declarasse. . À Terra volvo. entro Em relação com o mundo onde concentro O espírito na queixa atordoadora Da prisioneira. D'alma quebrando o cárcere do instinto. com intelecto de arbusto. Se eu já não tenho a bílis putrescível? Insondável arcano! por que inundo Meu exótico ser ultra-sensível Em plena luz e atendo ao gosto horrível De apostrofar o pobre corpo imundo? Fluidos teledinâmicos me servem. De tudo o que ficou no abismo horrendo Da tenebrosa noite dos gemidos. tremendo. Mais a luz desejada se lhe esconde! É o quadro mesológico. Dentro da noite É noite. Chama da mesma chama que me abrasa? “Ego sum” Eu sou quem sou. que a rota etérica transponho Com a rapidez fantástica do sonho.. lúcido. ígneo. que hórrida sinto. com Laplace. E. Sou eu. em brasa. toda a bílis do iracundo..

a lágrima do homem Agrilhoado aos prantos que o consomem. coagulado. As dolorosas mágoas dos enfermos. Asco e dó.. Vejo a guerra pestífera dos sexos. piedade e repugnância Pelo espírito e o corpo nauseabundo. Dos desejos que não se realizaram. e chegam-me fortes cheiros acres.. E ainda transpondo o Azul sereno. As dores espasmódicas dos partos. É o grito. Fujo. atrocíssima.. Sinto em minhalma o tóxico. São os ais dos leprosos desprezados. Plantando a dor no chão dos seus cenóbios. É a imprecação de todos os lamentos Dentro do mundo de padecimentos.. Sentindo os próprios membros carcomidos. Sentindo-se em seus leitos como em ermos. Apavora-me o horror dessa miséria E fujo da imundície da matéria. Verminados. Homem-célula Homem! célula ainda escravizada . Como o cheiro de sangue dos massacres. Onde traguei meus grandes amargores.. Fétido. apodrecidos. Deplorando o destino miserando. Preso às dores que se lhe agrilhoaram. A desgraça dos úteros falidos. Abominando as coisas deste mundo. envoltos na ânsia. Escorrendo num campo de batalhas Onde as almas se vestem de mortalhas. Às bactérias mais vis ambas trocando.. Essa angústia indomável. ao próximo sol-posto. Desde o sol-posto. Terra!. Trazendo dentro d'alma. além das catacumbas. E com os meus pensamentos desconexos. o anseio. Que nas bestialidades se unem loucas.São uivos dos instintos jamais hartos. o veneno E a desdita dos seres sofredores. Junto da emanação requintadíssima Do ácido sulfídrico das tumbas. Tendo os seus organismos devastados Pela fome insaciável dos micróbios. É a ânsia afrodisíaca das bocas. cruéis. decomposto. Pábulo sou dessa hórrida agonia E nos abismos de hiperestesia Experimento.

Envergando os etéreos organismos. Quinta-essências de todas as substâncias Na fluidez das eletricidades. Do teu laboratório de arterites. Vem dessa Origem indeterminada. Aqui não há vertigens de nevróticos. alma humana.. sem número. Auscultando os espaços mais profundos Na sinfonia harmônica dos mundos. Sem aritmologias das distâncias. No transcendentalismo da Unidade. Objetivando a personalidade. Em tua mesquinhez não imaginas A intensidade esplêndida da Vida! Inda não vês e eu vejo panoramas De luz em gigantescos amalgamas De sóis. Singrando a luz de céus incomparáveis. São vibrações das almas evolvidas E que. Submersão nas fluídicas belezas. Onde se oculta a luz indecifrada Dos princípios das luzes coletivas. De gangliomas. Em pleno espaço – Imensidade de ânsias. nas regiões imensuráveis.. Não podes perceber as ressonâncias. Pensamentos radiosos como chamas. e se confunda. Sob transformações consecutivas. nevrites Ao lado de humaníssimas vaidades. sem fim. pura. Nem bisonhos aspectos de cloróticos Nas estradas de eternos otimismos! A vida imensa é coro de grandezas. essa voraz liberticida. Sem limites. Até achar à perfeição profunda E indivisível.Nos turbilhões das lutas cognitivas. Desse teu escafandro de albuminas. Em sucessivos aperfeiçoamentos. Egressa do arsenal de forças vivas Que chamamos – estática do Nada. Combinações no mundo das imagens. Na imensidade Alma humana. Formam luminosíssimas paisagens. Vem através do Todo de elementos. concretizadas e reunidas. úlceras. tu que dormes Entre os grandes colossos desconformes Da carne. Ante a minhalma fulgem ideogramas. .

Que se putrefizeram consumidas Com os seus instintos atordoadores. Troca o prazer sensualista e obscuro Pelo conhecimento da Verdade. Que o sol da tua mente. Deixa o conjunto de ancestralidades Da carne – o eterno símbolo do Hades – Onde o espírito clama. sobretudo.Deus e Pai. Não sou o homúnculo da hominal espécie. Teu corpo é todo um orbe grande e vasto: Livra-o do mal unífero. Mas contérmino à carne. Fonte da força e altíssimo elemento. Deixai meu ser esdrúxulo. Aos fracos da vontade Homem. Em que toda molécula se cria: Da existência ele faz sepulcro abjeto Ou jardim luminoso e predileto. observa o pensamento. de paz e de saúde: Que as tuas agregações moleculares . sofre e chora. Foge do escuro ergástulo do mundo E abandona o Desejo moribundo Pelo poder da tua divindade. Sem guardar os micróbios homicidas De eternos atavismos destruidores. E sou o espectro das anomalias. De arcangélicas flores de Harmonia. Envolvo-me nos fluidos maus da Terra. Mas. Com a espada resplendente da virtude. eterno. Tenho outro ser talhado pelas dores De minhas pobres células falidas. execrável. ó Artista Inimitável. Deixa que as tuas glândulas do pranto Te salvem do cadinho sacrossanto Da lágrima pungente e redentora. Da terrígena raça que padece Das mais pungentes heteromorfias. que me aterra. No prolongado e edênico festim! “Alter ego” Da morte estranha que devora as vidas. esplenda. Eis-me longe dos rudes estertores. levanta o véu do teu futuro. Mas faze de tua alma um grande império De beleza. nefasto. Ouve-te sempre a ronda do mistério. Dando a teu mundo a mágica oferenda Da alegria em divina plenitude.

. Onde Deus grava a história do destino Dos seus feitos de Amor no Amor imersos. Que tens a liberdade incontestável E as lições da verdade na consciência. Reflexas das ações psicológicas. Segregadas num mundo amargo e infame. Nas células primevas da existência. Faz-se mister que o cárcere a conclame. o éter divino. Sistematização dos argumentos Que elucidam a Teleologia: Dentro da força cósmica se cria A fonte-máter dos conhecimentos. Para a reparação e para o exame Dos seus crimes nas quedas milenárias. Estirpe das escórias planetárias. Apesar das verdades fisiológicas. Mas a tua vontade enfraquecida É a meretriz no báratro da vida. Livro onde o Criador Inimitável Grava. a energia Potencial que dá vida aos elementos. Matéria cósmica Glória à matéria cósmica. a alma da luz resplandecente. Movimentando células de argila. Raça adâmica A Civilização traz o gravame Da origem remotíssima dos Arias. Lama de sangue e cal que se aniquila Nos abismos do Nada eternamente. Que um mistério implacável e inclemente Amortalhou na carne atra e intranqüila. és a cintila Do Céu. És um ser imortal e responsável. Amarrada no catre da miséria! Ao homem Tu não és força nêurica somente. Base de portentosos movimentos Onde a forma se acaba e principia. és muito mais. És mais. com o pensamento almo e insondável. Tua vontade esclarecida e forte Triunfará das angústias e da morte Além dos planos tristes da matéria. É do mundo o Od ignoto. Seus poemas de seres e universos. Com os tônicos sagrados da Virtude. Árvore genealógica de párias.Vivam livres de todos os pesares.

Mas a vida a si mesma se garante Na sua eternidade singular. Desorganização molecular. impassível. . Espírito Busca a Ciência o Ser pelos ossuários. No transcendentalismo das esferas. Está nas luzes da sobrevivência. Mas um mundo de deuses decaídos. Fim das forças do plasma agonizante. a inconsciência prodigiosa Que guarda pequeninas ocorrências De todas as vividas existências Do Espírito que sofre. no estudo Do germe. Vida e morte A morte é como um fato resultante Das ações de um fenômeno vulgar. atro e mudo. Nos seus medonhos ágapes mortuários. E em sua transcendência vai buscar A luz do espaço. A alma que é Vibração. sim. luta e goza. Mas só encontra os vermes-funcionários No seu trabalho infame. Consciência de todas as consciências. em seus impulsos embrionários. Como o bolor e o mofo sob as heras. Vida e Essência. No labor anatômico. Fez da Terra o brilhante gral da Ciência. De consumir as podridões de tudo. A subconsciência Há.Foi essa raça podre de miséria Que fez nascer na carne deletéria A esperança nos Céus inesquecidos. Que o neurônio oblitera por momentos. Câmara da memória independente Arquiva tudo rigorosamente Sem massas cerebrais organizadas. Na ascendência de todos os destinos. fúlgida e distante! Vida e Morte – fenômenos divinos. No órgão morto. Glorificando o instinto e a inteligência. horrendo e rudo. Ela é a registradora misteriosa Do subjetivismo das essências. Mas que é o conjunto dos conhecimentos Das nossas vidas estratificadas. Fora de toda a sensação nervosa. No meio triste de cadaverinas Acha-se apenas ruína sobre ruínas.

E lá vai o fantasma embrutecido Pelas sombras de lôbregas jornadas. A civilização do desconforto. Vida e Morte – presente eterno da ânsia. Prantos sinistros! Loucas gargalhadas. No horrendo pesadelo de um vencido Entre milhões de células cansadas. Canhões. Choram de dor as almas condenadas Ao cárcere de lágrima e penúria. É nesse turbilhão de dor e de ânsia Que o homem procura a eterna substância Da verdade suprema. . de horror. Esfacelando com medonha fúria O coração das almas bem formadas. amargo e morto. alta. Feito à noite de enigma profundo!. Homem da Terra Na sombra abjeta e espessa das estradas. Que manifesta o espírito nos mundos. Gritam a dor de povos moribundos Na sinistra hecatombe universal. mísero e perverso. E rasteja o dragão horrendo e informe. Sob o acervo das células taradas. Desenhadas por corvos vagabundos. Deixando corpos pelos cemitérios. Muralhas.. Homem da Terra! trágico segredo De miséria. És o sentenciado do Universo Na grade organogênica do mundo. A alma decifra o livro dos mistérios De luz e amor da vida universal.. de ânsia e de medo... Anjo da Sombra. De mentira e veneno cerebrais.Do portentoso amor de Deus oriundos. imortal. Pavorosos esgares de gemido. Ou condição diversa da substância. Vê-se a guerra da inveja e da luxúria. Vive o homem da Terra adormecido. Trevas. Visões apocalípticas do mal. Espalhando a miséria e o luto enorme Em miserabilíssimas batalhas. Vai carpindo nos tristes funerais Do seu fausto de sombra. Nas sombras Bombardeios. Entre as sombras das míseras estradas. Nos véus da carne Na ilusão material da carne espúria.

Ossuários tremendos sob as flores. Apesar de ingentíssimos labores. Ai de vós nos abismos da aflição. Ao crepitar de rúbidos incêndios. em sombra e vilipêndios. Enquanto a desventura chora inerme. o pântano terrível. Por toda a parte. Confissão Também eu. escorre o sangue horrível. Tem a chave do Céu. este solo generoso. O homem sôfrego e bruto. Sem o raio de luz da crença amiga: Desventurado aquele que prossiga Sem o Cristo de Amor no coração. Ídolo podre sobre o esterquilínio. O homem. das causas positivas.Quadros de sangue. Para encontrar esse laboratório De beleza. de ânsia em ânsia.. de sede e fome. Homem-verme Desolação. De lodo e lama. Em quase tudo. mísero espectro das dores No escafandro das células cativas. . Foi preciso “morrer” no campo inglório. Que te guardou no seio carinhoso O escafandro das células escravas. Bem distante. Exaltando a vaidade sem substância. É o triunfo terrível do coveiro.. Não encontrei a luz das forças vivas. lágrimas e horrores Avassalam de dor o mundo inteiro. Morre de frio e fel. Sobre a idéia cristã medrando em germe. Terror e morticínio. Sofre agora a sinistra ressonância De sua inclinação para o extermínio. Na visão dos micróbios destruidores Senti somente angústias e estertores. Augusto. filosófico ou sem nome. Mas só a Fé. Nas vitórias fantásticas do verme. É o doloroso e trágico domínio Do “homo homini lupus” da ignorância. Beija. verdade e transformismo! A Ciência sincera é grande e augusta. vencendo o abismo!. No turbilhão das sombras negativas. na estrada eterna e justa. Atestando as vitórias do homem-verme! Gratidão a Leopoldina 7 Sem o vulcão de dor de hórridas lavas.

. onde foi sepultado o poeta. em ruínas.Aqui. . Não insultes as leis universais. sobre o Calvário áspero e bruto. A Lei Em reflexões misérrimas. E apagar toda a luz do pensamento Nas células de um mundo amargo e morto!. Sangrou Jesus em lágrimas divinas. Feito de sânie e de cadaverinas. Encontrarás teus gritos solitários. Em conceitos sublimes e profundos.“ Mas. Desde o instante infeliz de Adão e Eva. em Leopoldina. Cessa a miséria de teus raciocínios. angústia e pena. Ainda é Caim que impera sobre o mundo. A Civilização que se condena Suicida-se num báratro profundo.” A um observador materialista Busca o talão dos velhos calendários. Em vão... Ajoelha-te e lembra o último abrigo. buscaste o campo de repouso. Esquece o travo do tormento antigo E oscula a destra de teus benfeitores. do pó que envolve as tumbas. Respondeu-lhe em acentos colossais: – “Verme que volves dos esterquilínios. Nas maravilhas de seus resplendores. E onde sorveste o cálice amargoso.. Deixa agora escapar o horrendo fruto De miséria e de dor. Raciocinava: – “O último tormento É regressar à carne e ao sofrimento Sem o triste fenômeno do aborto! . Depois das vagas ríspidas e bravas No mundo áspero e vão. Volta. Toda a amargura d'alma é o desconforto De retornar ao corpo famulento. uma voz da luz dos grandes mundos. Poesia recebida em 18 de junho de 1940. Sob as ofensas torpes e tigrinas A tentarem-lhe o espírito incorruto.. absorto. de pranto e luto. que detestavas. Augusto.. Saturada de treva. Porque na luz dos círculos da Terra. Civilização em ruínas Todo o mundo moderno horrendo. Proclama a vida além das catacumbas. Nos turbilhões fatídicos da guerra.

em Macaíba. Mas. Enquanto grita a turba ignara e injusta. Que a carne volve ao pó. Não sigas na consulta: O detalhe anatômico te insulta. desencarnou em 7 de fevereiro de 1901. Deixou um único livro. em Natal.. e pensa. Atualidade Torna Caim ao fausto do proscênio. É Jesus que. exangue e fria. Correm de novo as lágrimas divinas. Trevas. Novo sol banha o pélago profundo.Enfrentando o pavor da mesma treva. Rio Grande do Norte. Se não tens coração que aceite a crença. Traz ao berço da Nova Humanidade A consciência cósmica do mundo. aos 24 anos. 17-Auta de Souza NASCIDA em 12 de setembro de 1876. que é sempre o tigre carniceiro. A força primitiva menoscaba A evolução onímoda do Gênio. Pára. prefaciada por Olavo Bilac. o Cordeiro Da Verdade e da Luz do mundo inteiro Vive o martírio de sua alma augusta. amigo. Pois. acima do império amargo e exangue Do homem perdido em pântanos de sangue. A molécula morta desafia. em outubro de 1899. A Civilização regressa à taba. através da tempestade. Horto. Depois de vinte séculos ingratos. A construção dos séculos desaba. Canhões. Sobre a cruz infamérrima se ajusta A crueldade do espírito rasteiro Do homem. portanto. o Livro e a Toga. Apaga-se o milênio. A Humanidade triste inda se afoga No sangue escuro das carnificinas. Ante o Calvário Da terra do Calvário ardente e adusta.. O mistério da célula primeva. embora o Direito. Sempre a dúvida estranha que se ceva De terríveis problemas multifários. cuja primeira edição. Ressurge o crânio do morubixaba Na cultura da bomba de hidrogênio. Entre prantos pungentes. Multiplicando Herodes e Pilatos. Espera a mão da morte excelsa. . Os impulsos dos sonhos embrionários.

Que o coração dormente. Onde há paz para os pobres desgraçados. Aureolada de luz confortadora. na Terra inda. Vendo somente o espinho da amargura Que as nossas tristes lágrimas desata.apareceu em 1900 e se esgotou em três meses. Sofria. muito místico. porém. Finalmente. A segunda edição. crendo que tais amargores Encontrariam termos desejados. que torna a alma florida. Seu estilo simples e triste se reproduz perfeitamente nestes versos mediúnicos. E há também os reflexos da aurora De ventura. Sobrepujando instantes de alegria. em 1936. Somente a dor intérmina que mata A alegria mais lúcida e mais pura. Via presas do pranto e da agonia. Escutava a miséria que gemia Dentro da noite de ânsias torturadas. O veneno da acerba desventura . Cheguei à luz da eterna primavera. tanta dor em demasia. a pleno gozo. Almas dilaceradas Quando. Contrastes Existe tanta dor desconhecida Ferindo as almas pelo mundo em fora. Tanto amargor de espírito que chora Em cansaços nas lutas pela vida. Mágoa Muitas vezes sonhei na Terra ingrata O paraíso doce da ventura. E confiada na crença que tivera. prefaciada por Alceu de Amoroso Lima. Há. Almas feridas e dilaceradas. Castriano. em 1910. que era irmã dos grandes sofredores. Deve fugir das horas de repouso. feita em Paris. A alegria fulgente e estremecida. teve uma terceira edição no Rio de Janeiro. vivia Caminhando em aspérrimas estradas. Treva espessa da senda tão sombria Das criaturas desesperançadas. sofredor. Tal desalento e tantas desventuras. E eu. traz uma biografia da Autora por H. Minorando as alheias amarguras. Espírito melancólico. em dores.

meu Jesus. Senti meu ser fugindo aos amargores Dos meus dias tristonhos. porém. Em demanda da estrada esplendorosa Que nos conduz às plagas da harmonia! Em paz Tanto roguei a paz consoladora. a mágoa intensa Que rouba a luz. Canto de luz dos páramos celestes. Onde terminam todos os tormentos Que inundam de amargor a alma que chora. Bendigo o vosso amor ilimitado! Em êxtase Aos teus pés. Que se extinguia em atros sofrimentos. A mesma dor que eu tanto padecia. Jesus! doce Jesus meigo e bondoso.. . Quanto agradeço a paz que concedestes Ao meu viver tristonho e doloroso! E desse lindo oásis encantado. a vida inteira. E aumentava minha íntima tristeza Vendo em tudo. sem flores. porém. nevoentos. serena e jubilosa. Sorvendo a luz no cálix da harmonia. sem paz. inda quisera Volver ao pó da carne dos mortais. minhalma sofredora Mergulhada nas brisas de uma aurora.. Sem as sombras da dor e da agonia. Jesus.Que fere em nós a aspiração mais grata. Em paz serena. Que recebi a paz confortadora! Sentindo-me feliz. Senti. ditosa agora. Nessas paragens de deslumbramentos. Por teu amor. A tortura dos últimos momentos Era o fim dos meus sonhos promissores. na própria Natureza. Elevando a Jesus meus pensamentos. Então parti. a paz e a crença. Hora extrema Quando exalei meus últimos alentos Nesse mundo de mágoas e de dores. Se apenas vi.. o amor. Abrasada de amor eu viveria. eterna e derradeira!. É que a dor da minhalma em tudo eu via.. Durante os meus amargos sofrimentos. Do meu viver sem luz.

Raio de luz. Ai de mim sem a tua alma bondosa. Prece Estendei vossa mão bondosa e pura.. Que me dava a promessa da esperança. E Mãe das nossas Mães cheias de amores. Da tua alma esplendente de bondade. meu dúlcido agasalho!. Sorvendo a luz no cálix da harmonia. Mãe Ó minha santa mãe! era bem certo Que entre as preces maternas estendias As tuas mãos sobre os meus tristes dias. . Meu tesouro de fúlgida ventura... bem que eu sentia As tuas asas de Anjo da Ternura.. Pairando sobre a minha desventura Feita de prantos e melancolia. Para falar a todas as criaturas. Meu tesouro. Nos instantes de dor. Flor ressequida eu era. pobre e empalecida.. Findo o terror da minha negra sorte. Nossas meigas e eternas companheiras!. os homens pecadores. senti que as Mães são mensageiras De Maria. e tu o orvalho Que me nutria. a vida inteira.Para cantar a terna primavera Do teu amor nas lutas terrenais Depois da treva espessa da amargura: Para exaltar as luzes que me deste Na cariciosa e doce paz celeste. Afastando as amargas desventuras Do coração da pobre Humanidade! Aos teus pés. Quando na Terra – que era o meu deserto. de amor e de bonança. Nos abismos dos males e das dores. Na escuridão da vida dolorosa.. Para contar tua bondade imensa Aos meus irmãos. E que felicidade doce e pura. meu Jesus. Era a tua alma a luz da minha vida. Em paz serena. eterna e derradeira!. Mãe de anjos e de flores. A que senti após a treva e a morte. Mergulhados na noite da descrença. Quando vi teu sorriso de ventura! Então. Abrasada de amor eu viveria.

Da imensidade. desditosas. que viceja. o pranto e a dor!.. Oram convosco a soluçar. De almas chagadas no amargor. Terra das minhas desventuras.. Geme a viuvez. À sombra de árvores em flor. o azul do céu singrando. Aos corações dos pobres sofredores Mergulhados nos prantos da amargura. Adeus. – Adeus.. no altar. em tudo adeja O perfume dos goivos da saudade. desse amor que já nos destes... meditando... Sob as arcadas silenciosas..Mãe querida dos fracos pecadores. Sobre a sombra dos cárceres das dores! Ó Mãe! excelsa Mãe de anjos celestes.” – diz nas alturas A alma liberta. da radiosa altura. Adeus O sino plange em terna suavidade. . lamenta-se a orfandade. Clareie a luz do sol-nascente. amados meus. toda esplendores. Sabei que às vezes sois seguidos Pelas angústias dos gemidos. Almas Ó solitário das estradas. – clamam as vozes desoladas De quem ficou no exílio soluçando. Ao descansardes... que o silêncio amais no mundo. Em orações ao pé do altar. Transformai toda a treva dos caminhos Em clarões refulgentes de alegria. Vós que mudais em flores os espinhos.. Há no caminho “almas penadas” Que vão clamando desoladas A dor e o pranto. Na catedral azul da imensidade.. Desventurado pensador. – choram as rosas desfolhadas. Derramai vossa luz. Almas feridas.. No ambiente balsâmico da igreja. Da região ditosa da ventura. “Adeus. – Adeus.. Vós. E a alma que regressou do exílio beija A luz que resplandece. Queremos nós em cada novo dia. Mais amor. Entre as naves.

Angélicas visões de bem-amadas.. Almas saudosas do Celeste Ninho! Jesus há de sorrir com o teu sorriso. Perambulando pelas sacristias. Dai-lhes dos vossos pensamentos Consolação que adoce a dor. Mortas na aurora rútila dos dias. Há feridas que sangram. Como bandos de rolas erradias. Carta íntima Escuta.Negreje a treva na amplidão.... Entre falsos prazeres tentadores. Almas de pobres freiras desamadas. Dai um conforto à desventura. muito espinho. algo de amor!. Que sonhais entre os tálamos celestes. há muitas dores. Almas das que não foram desposadas. Há pavores De órfãos sem lar.. Consolo das mães piedosas. A prece cheia de ternura. Gemem na Terra muitos seres Pelos amargos padeceres Depois da morte. Há de esperar tua alma redimida Nos caminhos de luz e redenção! Maria Toda a expressão de ternura Do mundo de provação. Entoai nos céus as tristes serenatas Com as vossas roxas túnicas de pranto. Nos Céus ditosos procura A sua excelsa afeição... Algo de afeto. muita sombra. Quando faças no mundo o bem preciso. sem pão e sem carinho: Confortemos os pobres sofredores. Almas de virgens Andam sombras errando abandonadas Ao pé das lousas e das covas frias. meu irmão! Pelo caminho Da miséria terrestre. Cantando à luz do amor que não tivestes!. Virgens mortas! Tristíssimas oblatas De um sacrário de luz piedoso e santo. Pelo que sofre em desesperação. na aflição. . Muito fel. Todo o bem que plantares nessa vida.

Ouve o teu coração em cada prece.. ditoso e lindo... Que triunfa da lágrima e da morte. A oração é o caminho cor de aurora Para o sonho dos pobres pecadores!. faça frio ou tempestade. Sobre quem atira as rosas Do seu Amor sacrossanto. Paz dos Céus! Ave-Maria! Mensagem fraterna Meu irmão: Tuas preces mais singelas São ouvidas no espaço ilimitado. Ó corações que a lágrima devora! Vinde. em luz de redenção. As desventuras para bendizê-las. .A mais alta de todas as capelas – E as respostas mais lúcidas e belas Hão de trazer-te alegre e deslumbrado. Ao silêncio da força que interpelas.. Vinde! Todo anseio da crença acalma as dores.. consternado. Veste o manto do amor e da verdade. E percorre o silêncio do caminho.. Visão de paz e de luz.Cheias de mágoa e de pranto. Compreenderás a dor que te domina. O Senhor vem. Deus responde em ti mesmo e te esclarece Com a força eterna da consolação. Neste Lar de Jesus. Haja sol. Toda prece é uma luz para quem chora. E os próprios sofrimentos da impiedade . Sob a linguagem pura e peregrina Da voz de Deus.. Vem ao nosso amargoso torvelinho. Ninguém diz.. Palpitando na esfera das estrelas!.. Cantar na luz dos grandes esplendores Vossa iluminação de cada hora!. através dos rudes amargores. Traz às sombras da vida a claridade. Mas sei que às vezes choras. E eis que Ele chega sempre de mansinho. ninguém traduz Essa visão da Harmonia. Feliz o coração sereno e forte. Volve ao teu templo interno abandonado.. Vinde rememorar no espaço infindo.

São as bênçãos de luz do seu carinho.. Dos lábios de anjos formosos. Rosas de paz e de amor. Recebendo entre outros gozos. eleitas. quando funcionário do Correio Geral. É por isso que o homem continua Ressurgindo da treva a cada dia. E as almas puras. Buscando vão as esferas Das alegrias perfeitas. Modeladas pela dor. Cromos 1 . E protege a miséria mais sombria. Miragens celestes 1 Sublimes atmosferas. Ele chega. no Estado do Rio. Quais flores das primaveras. Nesse batismo de luz. Como lírios cor da aurora. rarefeitas. Luminosas. Lopes NASCEU Bernardino da Costa Lopes em Boa Esperança. E o amor se perpetua. a 19 de janeiro de 1859.. E nessa etérea campina Recebe a esmola divina. no Rio de Janeiro. Vivera entre os amargores De um sofrimento bendito. Vão todas. Vem o Senhor que nunca chega tarde. falecendo em 1916. Envergara o sambenito Dos pedintes sofredores. Sem as medidas estreitas Das horas que marcam eras. Como o Sol que dá vida sem alarde. 2 Uma campina de flores Em pleno espaço infinito. Notabilizou-se no gênero descritivo. espaço em fora. E onde passam sorridentes Abrem-se rosas virentes. Onde desperta um precito De um pesadelo de dores. ficando célebre com o seu livro “Cromos” (1881). O ósculo de Jesus. município de Rio Bonito. 18-B.

Encaminhei-me à porta da Agonia. Sobre uma enxerga. exalta-lhe o estro espontâneo. Ela há de vir bem depressa Para a senhora sarar. Ao seu Jesus bem-amado.Na alcova desguarnecida. atribuindose a suicídio o encontro do seu corpo entre pedras de uma rocha. E lá dos céus abençoa Sua alma singela e boa.” 2 O mendigo desprezado Olha as estrelas e chora. Vêem-se raios formosos. em 1915. Minúscula. 19-Batista Cepelos POETA paulista. Mirando-a enternecida. O Jesus que ele não vê. Pois sente que se enamora Do firmamento estrelado. Que me desse um consolo a tantas dores. Dimanando luminosos. Beija-lhe a filha inocente. um dia. . a doente Soluça como quem sente O fim nevoento da vida. Buscando a morte que me aparecia Como o termo anelado aos dissabores. embevecida. original e simples. E pede. desencarnou no Rio de Janeiro. Olavo Bilac. Cheio de lágrimas. suplica. na rua Pedro Américo. Do clarão da sua fé. Dizendo-lhe docemente: – “Não chores mais mamãezinha: Vou dar minha bonequinha À santa lá do altar. Corroído por chagas interiores. Desalentado e triste. ao prefaciar-lhe Os Bandeirantes. E com esta minha promessa. pressenti-a Cansada e triste como os sofredores. Esta versão parece confirmarse agora nestes sonetos. implora Perdão para o seu pecado. ora. Sonetos 1 Eu fui pedir à Natureza.

Poeta. clamo e ele me segue Nesse abismo que se abre ante os meus pés. Espero o sol de novas alvoradas De existências de pranto e de miséria. notário público. comediógrafo e jornalista nato. rude.. Mas ah! que atroz remorso me persegue! Choro. em Juiz de Fora. o brando afago Da Luz. 3 Sirva-vos de escarmento a dor que trago Na minhalma infeliz e sofredora. Agora. No país do Pavor e do Tormento Onde chora a minhalma enceguecida. Tenebrosa. . da qual foi um dos fundadores. sobretudo. 2 Ninguém ouve na Terra esse lamento Da minha dor imensa. soluço. pávida de medo. Para beber no cálix da matéria As essências das dores renegadas! 20-Belmiro Braga NASCEU a 7 de janeiro de 1870. Cheia de tempestade e sofrimento. essa noite indefinida. incompreendida. Quando terei os bens. Aqui somente ampara-me esse vago Pressentimento de uma nova aurora. Este padecimento com que pago O desvio da estrada salvadora. pela singeleza e espontaneidade da sua musa.. que está na dor depuradora. e aí desencarnou em 1937.. em meio aos desenganos. Nas pavorosas trevas desta vida Em que eu julgava achar o Esquecimento. Rimas de Outro Mundo 1 Cheguei feliz ao meu porto. Chamaram-lhe – “Rouxinol Mineiro”. Que me traria o bálsamo a esta pena Interminável.Desvendando esse trágico segredo Que a alma decifra. a paz calma e serena. sim! depois de tantos anos De tormentos. Onde o não-ser.. Minas. Com ansiedade e temores dos galés. Iniciou-se na vida comercial e foi. depois. Popularizouse. Era membro de realce da Academia Mineira de Letras. dolorosa? Ninguém! Uma só voz não me responde! Sinto somente a treva que me esconde Na vastidão da noite tormentosa.

6 Que tua alma em preces arda No fogo da devoção. Ansiosa atrás do prazer. Muito espírito se engana: A primeira ampara e irmana. luta e morre Sem jamais o conhecer. Ninguém se acaba com a morte. 2 Com a ignorância proterva. Sobre a Terra. Deus é Pai que nunca tarda No caminho da aflição. Ah! feliz o que conserva As luzes doces da crença. Encontrei paz e conforto Na vida. Nas mágoas do mundo.Estou mais moço e mais forte. 5 No mundo vale quem tem Um cifrão de prata ou de ouro. guarda A fé do teu coração. Eis as rimas de outro norte. 7 Entre a fé e o fanatismo. Mas. meu irmão. Julgando no talo de erva A paisagem linda e imensa. depois da morte. Que a morte é o fim. corre. o homem pensa. O segundo é o dogmatismo. 3 Quanta gente corre. da morte ao sorvedouro. Goela aberta de um abismo Na estrada da vida humana. . Que escreve o poeta morto. Não há ninguém que se forre. 4 Fecha a bolsa da ambição. Não corras atrás da sorte. Tem coragem. Sonha e chora. Jamais escapa ninguém! No Céu só vale o tesouro Daquele que fez o bem. Venera a mão que te exorte Nos dias de provação. ao padecer.

É uma ventura ser pobre. Que. Corações de lodo e fel. Atapetados de espinhos. Inda é torre de Babel. Que a mulher siga a Maria. na Terra sombria. em prol do Reino da Luz. A essa estrada voltará. Não perguntes ao passado . 10 Na vida sempre supus. Esquece as inquietações. Quem é rico. Modera-te na alegria. Exemplifica o trabalho Sem cuidar da recompensa. Não peças aprovação Do mundo pobre e enganado. Não vivas correndo a esmo.8 A Terra. Bilhetes Se tens o leve agasalho Do santo calor da crença. Muita fronte encanecida É fronte de criançola. Acalma-te na aflição. quem é nobre. 9 Suporta a dor que te cobre Na estrada espinhosa e má. para quem sente. Com a bênção que Deus nos dá. Vais procurar a ventura? Toma cuidado: os caminhos São crivados de amargura. Não prendas o coração Nos laços da fantasia. Toma posse de ti mesmo. Recorda que tua vida É sempre uma grande escola. No curso de aquisições. Sem muita filosofia. Onde a prática desmente As ilusões do papel: Muita boca sorridente. Que o homem siga a Jesus. Basta. Recorda que o mundo vão É grande necessitado.

Só não vejo desenganos Na estrada de Jesus-Cristo. . O caminho é ilimitado.. Olha o monte luminoso. Todo esforço com Jesus É vida na eternidade. Age sempre com bondade. Quem desce é riso enganoso. Não te esqueças que a esperança É a bênção de cada dia.. No impulso que te conduz. Quadras 1 Ai de quem busca o deserto De torturas da descrença: Morrer é sentir de perto A vida profunda e imensa. A mão terna do carinho Que vive espalhando o bem. Não te aflijas. Tudo isso tenho visto. 6 Angústias. 5 É ditosa no caminho. Quem sobe é suor e pranto. 3 Dinheiro do mundo vão. Eterna a fonte do amor. Mentiras da vaidade. Alegre como ninguém. Que símbolo sacrossanto!.Pela sombra. pela dor. A bonança É flor de sabedoria. Não trazem ao coração A luz da felicidade. derrotas. danos. Que morrem fazendo conta Nas cruzes de seus rosários. 2 Depois da miséria humana Sobre a Terra transitória. 4 Bem pobre é a cabeça tonta Dos perversos e usurários. Lastimo quanto se engana O ouro da falsa glória.

21-Bittencourt Sampaio
SERGIPANO, nascido na cidade de Laranjeiras, em 19 de fevereiro
de 1834, desencarnou no Rio de Janeiro em 10 de outubro
de 1895. Foi político ativo, deputado por sua província em duas
legislaturas e Presidente do Espírito Santo. Diretor da Biblioteca
Nacional e jornalista de mérito.
A fonte de onde respigamos estes dados, aponta Poesias
(1859) e Flores Silvestres (1860), mas omite a maior das suas
obras, que é A Divina Epopéia, ou seja o Evangelho de João, em
magníficos versos brancos, tais como estes. Mas... é que Bittencourt
Sampaio foi, no último quartel da vida terrena, um dos mais
brilhantes e destemerosos paladinos da Revelação Espírita. E,
como tal, ainda hoje se manifesta, por dar-nos obras como Jesus
perante a Cristandade, verdadeiro poema em prosa. Reformador,
de 1937 (página 494), publicou-lhe a biografia.
À Virgem
Vós sois no mundo a estrela da esperança,
A salvação dos náufragos da vida;
A custódia das almas sofredoras,
Consolação e paz dos desterrados
Do venturoso aprisco das ovelhas
De Jesus-Cristo, o Filho muito amado!
Fanal radioso aos pobres degredados,
Anjo guiador dos homens desgarrados
Do Evangelho de luz do Filho vosso.
Virgem formosa e pura da bondade,
Providência dos fracos pecadores,
Astro de amor na noite dos abismos,
Clarão que sobre as trevas da cegueira
Expulsa a escuridão das consciências!
Virgem da piedade e da pureza,
Estendei vossos braços tutelares
À Humanidade inteira, que padece,
Espíritos na treva das angústias,
No tenebroso báratro das dores,
Mergulhados nas tredas tempestades
Do mal, que lhes ensombra a mente e a vista;
Cegos desventurados, caminhando
Em busca de outras noites mais escuras.
Legião de penitentes voluntários,
Afastados do amor e da verdade,
Fugitivos da luz que os esclarece!
Anjo da caridade e da virtude,
Estendei vossas asas luminosas
Sobre tanta miséria e tantos prantos.

Dai fortaleza àqueles que fraquejam,
Apiedai-vos dos frágeis caminhantes,
Iluminai os cérebros descrentes,
Fortalecei a fé dos vacilantes,
Clareai as sendas obscurecidas
Dos que se vão nos pântanos dos vícios!...
Existem almas míseras que choram
Amarradas ao potro das torturas,
E corações farpeados de amarguras...
Enxugai-lhes as lágrimas penosas!
Virgem imaculada de ternura,
Abençoai os mansos e os humildes
Que acima de ouropéis enganadores
Põem o amor de Jesus, eterno e puro!
Dulcificai as mágoas que laceram
Pobres almas aflitas na voragem
Das provações mais rudes e amargosas.
Estendei, Virgem pura, o vosso manto
Constelado de todas as virtudes,
Sobre a nudez de tantos sofrimentos
Que despedaçam almas exiladas
No orbe da expiação que regenera...
Ele será a luz resplandecente
Sobre a miséria dos padecimentos,
Afastando amarguras, concedendo
Claridades a estradas pedregosas...
Conforto às almas tristes deste mundo,
Porto de segurança aos viajantes,
Clarão de sol nas trevas mais espessas,
Farol brilhante iluminando os trilhos
De todos os viajores que caminham
Pela mão de Jesus, doce e bondosa;
O pão miraculoso, repartido
Entre os esfomeados e os sedentos
De paz, que os acalente e os conforte!
Virgem, Mãe de Jesus, anjo de amor,
Vinde a nós que na luta fraquejamos,
Ajudai-nos a fim de que a vençamos...
Vinde, piedosa Virgem de bondade,
Cremos em vós, na vossa alma divina!
Vinde! ... dai-nos mais força e mais coragem,
Derramai sobre nós o eflúvio santo
Do vosso amor, que ampara e que redime...
Vinde a nós! nossas almas vos esperam,
Almas de filhos míseros que sofrem,
Atendei nossas súplicas, Senhora,
Providência da pobre Humanidade!...

A Maria
Eis-nos, Senhora, a pobre caravana
Em fervorosas súplicas, reunida,
Implorando a piedade, a paz e a vida,
De vossa caridade soberana.
Fortalecei-nos a alma dolorida
Na redenção da iniqüidade humana,
Com o bálsamo da crença que promana
Das luzes da bondade esclarecida.
Providência de todos os aflitos,
Ouvi dos Céus, ditosos e infinitos,
Nossas sinceras preces ao Senhor...
Que a nossa caravana da Verdade
Colabore no Bem da Humanidade,
Neste banquete místico do amor.
Às filhas da Terra
Do Seu trono de luzes e de rosas,
A Rainha dos Anjos, meiga e pura,
Estende os braços para a desventura,
Que campeia nas sendas espinhosas.
Ela conhece as lágrimas penosas
E recebe a oração da alma insegura,
Inundando de amor e de ternura
As feridas cruéis e dolorosas.
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 134
Filhas da Terra, mães, irmãs, esposas,
No turbilhão dos homens e das coisas,
Imitai-a na dor do vosso trilho!...
Não conserveis do mundo o brilho e as palmas,
E encontrareis, em vossas próprias almas,
A alegria do reino de Seu Filho!
À Virgem
Do teu trono de róseas alvoradas,
Estende, mãe bendita, as mãos radiosas
Sobre a angústia das sendas escabrosas
Onde choram as mães atormentadas.
Mãe de todas as mães infortunadas,
Com tua alma de unos e de rosas,
Mitiga a dor das almas desditosas
Entre as sombras de míseras estradas.
Anjo consolador dos desterrados,
Conforta os corações encarcerados
Nas algemas do mundo amargo e aflito.
Ao teu olhar, as lágrimas da guerra

E os quadros de amargor, que andam na Terra,
São caminhos de luz para o Infinito.
22-Cármen Cinira
NOME literário de Cinira do Carmo Bordini Cardoso: nasceu
no Rio de Janeiro, em 1902, e faleceu em 30 de agosto de 1933.
Sua espontaneidade poética era tão grande que ela própria acreditava
serem os seus versos de origem mediúnica. Glorificou o
Amor, a Renúncia, o Sacrifício e a Humildade, em obras como:
Crisálida, Grinalda de Violetas, Sensibilidade.
Minha luz
Eu era, Dor, a alma rubra e inquieta,
A pomba predileta
Do prazer, da ilusão e da alegria...
Meu coração, alegre cotovia,
Saudava alvoroçado
O segredo da noite e a luz clara do dia,
Quando chegaste de mansinho,
Pisando sutilmente o meu caminho...
E eu te enxerguei, despreocupada,
Em meu engano, em minha fantasia:
Primeiramente,
Foste, austera e inclemente,
A um dos belos tesouros que eu possuía
E mo roubaste para sempre...
Em fúria iconoclasta,
Como o simum que arrasta
As cidades repletas de tesouros
Confundindo-as no pó,
Foste aos meus ídolos mais caros,
Destruindo-os sem dó.
Prosseguiste, ó divina estatuária,
Na tua obra silente e solitária,
E quebraste
Minhas cítaras de ouro,
Meus mármores de Paros,
Meus cofres de alabastros,
Minhas bonecas de biscuí,
Minhas estatuetas singulares...
E humilhaste
Meus sonhos de mulher e de menina,
Que eu pusera nos astros
Em meio às melodias estelares!
Mas, desde que chegaste,
Foste a sombra divina
Que acompanhou meus passos ao sepulcro...
Tudo sofri,

Seríeis o fantasma imaginário Da mórbida exaltação d'alma do crente? Não. ó formas imprecisas De arcanjos tutelares. Pois da volúpia estranha dos teus braços. Frontes aureoladas de esplendores. Seres cheios de amor e de mistério. Vim pelas mãos da morte complacente Para a vida sublime dos Espaços!.. jamais traduziria O cântico de luz Que trouxestes ao leito da agonia Que eu transpus. O fanal peregrino Que me guiou constantemente Através das estradas espinhosas Para as manhãs radiosas Da Luz Resplandecente. pois. E com os místicos olores Das meigas sempre-vivas Da fé mais luminosa e mais ardente. nos meus penares.. Seres do Amor. porque sois os cireneus piedosos Dos que vão em demanda do Calvário Da Redenção. ó Dor linda e gloriosa.. Vindes das mais remotas altitudes De sublimados mundos luminosos!. bendita....Ó Dor.. ó Dor depuradora. por te querer. . Cujas vozes suaves como brisas Trouxeram-me nas dores.. Encheste a minha vida De um estupendo prazer. quase perfeito! Aos poucos me ensinaste a abandonar Meus prazeres fictícios. Sê. Porque representaste em meu destino. Aos Espíritos consoladores Donde éreis vós. Trocando-os pela luz dos sacrifícios! Por tudo eu te bendigo. nos sofrimentos rudes. Porque depois que vieste Qual pássaro celeste Para abrir rosas de sangue no meu peito. A irradiação de brando refrigério!. De alma sofredora. Cujas mãos compassivas Ungiram meu coração resignado Com o bálsamo do olvido do passado. No auge do meu sofrer...

Cantando em demasia a carne inutilmente..Cheia de desenganos e gemidos!. Quero ter dessa luz resplandecente. Minhalma é fraca e pobre ainda. grande e santo.. E vivo aqui. imortal.. Dai-me um pouco de luz da vossa glória.. Eu mesma inda não sei Se é ventura morrer na flor dos anos. Onde habitais. Minhas futilidades pequeninas. em qual esfera Viveis a vossa eterna primavera? Ó irmãos consoladores. De quanto idealizei De belo.. que nutre e que agasalha Os corações iguais ao meu!. Meus grandes desenganos.. Estendei-me uma única migalha Da vossa paz. Sei apenas que choro O tempo que perdi. de perfeito. Senhor. Verto ainda os meus prantos comovidos Lembrando-me do vosso Stradivárius. Que vindes confortar os pecadores Penitentes da vida transitória.. Do desencanto e da desilusão!. E não podia haver melhor definição... Que inda hei de realizar Com a rima do meu verso e a gota do meu pranto. Cigarra morta Chamam-me agora aí Cigarra morta. Repetindo as cadências dos hinários Dos orbes da Ventura e da Harmonia. somente. Tenho sede do amor que enfeita o Céu! Espíritos da luz radiosa e infinda. Todavia. Dá-me força. E quero embriagar-me inteiramente Com os vinhos da alegria celestial.. Para concretizar meu anseio de amor: Evita-me a saudade Da minha improdutiva mocidade! . Porque caí estonteada à porta Do castelo em ruínas... glorificando o Amor Que d'alma faz um ninho de alegria E um foco de esplendor! Em que sol deslumbrante.

Eternamente. Era uma vez Cármen Cinira. Busco a mim mesma aqui nestoutra vida.. Mas que trouxe em seus olhos. Sinto que a luz me guia Para a paz. Já que tombei cansada de cantar. Essa amarga expressão de alma doente... Um coração Cheio de sonho e flor.. Estraçalhou-se para sempre Na voragem Das trevas. Mas.... onde estou? Minha vida terrena se acabou E sinto outra existência revelada! Não sei por que me sinto amargurada. Para ser uma abelha previdente. Aturdida. Perdoa. Uma suposta imagem Da perene alegria.. ó imortalidade Se na Terra eu te via Como a aurora divina da verdade. para um mundo de alegria. dos abrolhos!.Eu não quero sentir. que mal se abrira Nos jardins encantados da ilusão.. Não julguei que inda a morte me abriria Esse cenário deslumbrante De outros sóis e de outros seres. Era uma vez.. Cármen Cinira! Cármen Cinira! Que é da minha cigarra cantadeira? Embalde te procuro. Deus de Amor. Calando amargamente. Cheia de pranto e de melancolia!. Cigarra distraída do futuro? Perturbada. o meu pecado: Que eu olvide a cigarra do passado... E não cumpri à risca os meus deveres! A fagulha de crença .. A falta das canículas doiradas Sob a luz de ridente primavera. E vejo agora Que não amei bastante. Era uma vez Cármen Cinira. Onde estou. Como cigarra que era.. Por que cantaste assim a vida inteira.

Porque me sinto em fraca segurança. Que esclarece e conforta os sofredores!. viajor triste e cansado?” – “Venho da terra estéril da ilusão. Mas eis que ainda te imploro comovida. Ai! como nos ferem os espinhos Das belas rosas rubras dos pecados! O viajor e a Fé – “Donde vens.” – “Que trazes?” – “A miséria do pecado. Experimento a grande liberdade! Todavia. E incendiar-me para ser luzeiro. ó Senhor da paz confortadora. Deixa que eu guarde ainda nesta vida Meu escrínio de estrelas da Esperança. E a morte me apanhou Como se apanha uma ave na floresta. . Pois com o mundo uma flor tem mil espinhos. Mas minha alma que é eterna está presente. Mocidade querida que eu exorto. Mas.. Porque depois dos sonhos terminados Em nossos ermos e últimos caminhos. À Juventude Juventude linda e ardente. Nossa alegria é um riso envenenado. Meu coração de carne. Mas com Jesus um espinho tem mil flores!” O sinal Quando chegamos do País do Gozo. Ah! quem me dera a bênção da esperança. humilde e mansa. Devia transformar numa fornalha imensa De fé consoladora. Senhor.. ampara-me e protege Minha triste humildade! Eu te agradeço a paz que já me deste. Nossa alma sem repouso Traz o sinal das trevas do pecado. Zelai pelo plantio. esse está morto. Deu-lhe o braço e falou-lhe com doçura: – “Vem ao Mestre que ampara os pobrezinhos. na máscara de festa. Das flores perfumadas da virtude. De alma ferida e morto o coração.Que eu possuía. Quem me dera consolo à desventura!” Mas a fé generosa. ó juventude. Eu vi chegar o dia derradeiro Em minha dor.

. Sua dor alivia as outras dores. Que segue. que aceitaste a luz renovadora. O irmão abraça o irmão. Mas os que vêm do Mundo dos Deveres Guardam a luz de místicos prazeres.A palavra disfarça o coração E a nossa dor é desesperação. Doces. sob a treva humana Sem consolo e sem lar. Sua palavra é um livro iluminado. Revelando na vida transitória O sinal do Calvário aberto em glória! Na noite de Natal Noite de paz e amor! Repicam sinos. Ao pé da multidão. harmoniosos.. Ralado de tortura e sofrimento. Em festiva oração. Sob claro dossel. Sem a graça de um pão. tudo é queda dentro em nós. aflita. Em édenes fechados de carinho. ante os júbilos do povo. A estrela de Belém volta. Sua alegria é um fruto adocicado. Rogando à morte a bênção do repouso Em terrível pesar! Ah! como é triste a imensa caravana. Tu. há corações ao lume E há sempre um bolo. cristalinos.. em vagas de perfume. Há quem contempla o céu maravilhoso. Sob a crença imortal.. Não têm palmas da Terra impenitente. Muita vez. Dentro da noite. porém. Do Rei que se humilhou na manjedoura . Como tudo. Mas. A verdade não tem voz. é diferente!. Há quem clama piedade e passa ao vento... em plena rua. de novo... Une-se o noivo à noiva bem-amada.. Cantando a excelsitude do Natal!. De esperança e de mel. A brilhar. Beija o filho a mãezinha idolatrada. a tristeza continua. Há quem chora sozinho. Nascem canções e flores de mansinho. Tudo é sombra.. Trazem o amor de todos os amores.. De cada lar ditoso se irradia A glória da amizade e da harmonia. lá fora..

para de todo cegar da outra aos 16. Visita as chagas negras da mansarda Onde a miséria súplice te aguarda Em nome de Jesus. Para unir-nos no Amor. Há muita crença enferma.... Volve o olhar compassivo à senda escura. apenas freqüentou escolas primárias. Por não achar socorro. nasceu aos 14 de abril de 1880 e desencarnou em 1914. Pobre.. mau grado à suavidade da sua musa e inatos talentos literários. 23-Casimiro Cunha POETA vassourense. E encontra sempre a cruz. Traze a quem sofre a lúcida fatia Do teu prato de sonho e de alegria. Prossegue o Mestre. ao fim da estrada. Em vão buscando um quarto de estalagem. Na eterna luz Quando parti deste mundo Em busca da Imensidade. Um ninho pobre. Natal!. que ele sabia aproveitar no enobrecimento da sua fé.Para amar e servir. Oferece à criança abandonada Um velho cobertor. Temperado de amor. não teve maior projeção no cenáculo literário do seu tempo. A alma ansiosa da Verdade. Para tornar à luz. na sua existência terrena. ao demais espírita confesso. Fugi do pesar profundo. atingiria as maiores culminâncias do firmamento literário. Desceu Jesus do Céu Resplandecente E imolou-se por nós. uma triste particularidade a assinalar.. quase morta. . nem pousada Em nosso coração. por acidente. Que não podem sorrir. Vem medicar quem geme na calçada!. Desce do pedestal que te levanta E estende a mão miraculosa e santa Ao desalento atroz. em vão!. qual a de haver perdido uma vista aos 14 anos. Há. fraternalmente. Órfão de pai aos 7 anos. Era um espírito jovial e forte no infortúnio. Se tivesse tido maior cultura. Que só pede um sorriso brando à porta. Vem amparar os filhos da amargura. Do azul imenso dos céus. de viagem..

porém. Nas radiantes alturas. Fugindo das grandes vagas Do mar revolto das lutas. Confiado no amor de Deus. Em célico resplendor. Mal. Os clarões resplandecentes De afetos imorredouros! As almas imaculadas São flores das boas-vindas. O aroma da Caridade Perfumando os corações. Não se conhece a torpeza Da lâmina – hipocrisia. . os desalentos. Luminosas. Encontram nestas moradas Tão formosas. Aqueles que já sofreram No dever nobilitante. Aqueles que conheceram As feridas dolorosas. sempre lindas. Disseram-me então: – “Ó crente Que chegais a estas plagas. Eram mesmo a primavera Do meu sonho todo em flor. Dessas mágoas escabrosas De um triste mundo de dores. A meiga flor da Bondade. As mágoas. Cujo peito sempre amante Só conheceu dissabores. resplendentes. abrira os olhos Em meio de luzes puras. Arauto do Onipotente. Formados de amor e luz Do Mestre Amado – Jesus. Provocando maldições.Lamentando os sofrimentos. Compreendi que os abrolhos Que a Terra me oferecera. Ofertando-lhes tesouros: Os tesouros peregrinos. Aportai serenamente Nesta estância do Senhor. Pois aqui existe o amor Nestas almas impolutas! Aqui existe a pureza. Que mata toda a alegria.

Tornadas em belas palmas Das mansões do Criador! Bendizei. Só aproveita das cruzes. O grande Mestre do Amor!” Então. Anjinhos Só vereis clarões de luz A despontar nestas almas. abençoei A dor que amaldiçoara. pois. O Mestre da Caridade. Sacudi o pó da estrada Que trilhastes na amargura. Venturoso. Nesta esfera iluminada. a Jesus.Os reflexos divinos Quais lírios iluminados. Penetrarão sua mente. Ó mães que chorais na vida Os vossos ternos anjinhos. Das amargas provações. Que vossa alma ensandecida Procure a luz que avigora. O Senhor sempre clemente. Que renegar eu tentara Como os míseros ateus. O Luzeiro da Bondade. deificados. Na tremenda tempestade Das dores e expiações. E feliz então busquei As bênçãos. Alvoradas fulgurantes Do amor imenso de Deus. Alvos. Tão longe das grandes luzes. eu vi que na Terra Em meio da iniqüidade. A nossa alma que erra. Contemplai-vos nesta vida. ó vivente. Concede-vos neste instante A bênção dulcificante Do seu amor – doce aurora. flores brilhantes. . Que aportais neste momento. Pois agora na ventura Fruireis consolações. Não vereis o sofrimento Retalhando os corações. belos. Acordai. pois.

O que fazem cá no mundo. As frias noites sem luz. Ofertando-vos as flores Do seu afeto eternal. Tão viçosas. São mensageiros felizes Nas radiantes alturas. Reconhecei que na Terra Só se conhecem as dores. De pétalas multicores. inocentes. Resplandecendo imortais Nos espaços deslumbrantes. O peito dilacerado. Os prantos. ao verdes Quando partem sorridentes. Ao transpordes a voragem Do abismo negro do mal. Quais centelhas luminosas. Como fúlgidos clarões. Eles farão despertar As alvoradas formosas. Ascensão Perguntai à flor virente. Visitam os vossos lares Como gênios protetores. Insuflando-vos coragem. Que com mágicos olores Perfumam vosso ambiente. Osculam-vos ternamente. Pelas sendas desoladas Deste abismo tão profundo. Alegrai-vos.Que quais meigos passarinhos Cindiram o espaço azul. os amargores. A alma tristonha e exul. perfumadas. Deixando-vos sem conforto. São as flores mais formosas Das moradas de Jesus. Quais reflexos brilhantes Das celinas primaveras. pois. E os vossos filhinhos ternos. O coração desolado. De outras rútilas esferas. Venturosos. De luzes esplendorosas Dentro em vossos corações. . Em meio das luzes puras.

Entre as rosas da Ternura. E no Bem conquistaremos A suprema perfeição. de vida e luz. Quadras Ser cego e nada ver Na triste noite escura. A alvorada rutilante Da sublime perfeição. irmãos terrenos. No sacrossanto abrigo Do afeto de Jesus. Entre os lírios da Bondade. Sorver dentro da treva O fel das amarguras. Entre lírios. E ver depois a luz Da aurora de ventura.” Tudo pois. Marcha ao progresso incessante. Caminhai sempre serenos. Essas flores perfumosas Responderiam formosas: – “Nós marchamos para Deus!” A ave que poetiza Com seus cânticos maviosos Vossos campos dadivosos Em beleza que harmoniza. Chorar na escuridão Em dores mergulhado. Segui pois. Se perguntásseis também. buscar o amor Nas lúcidas alturas. entre rosas. Nessas trilhas luminosas. Espargindo a caridade.Como sorrisos dos Céus. Ela vos retrucaria: . Para a Luz e para o Bem. É possuir tesouros De paz. E após o sofrimento Ter gozo ilimitado. Só assim caminharemos Nessa eterna evolução. Consolando a desventura. Depois.“Caminhamos na alegria. em ascensão. Supremacia da Caridade A fé é a força potente .

E dele fugi feliz. É o sol que Nosso Senhor Fez raiar claro e fecundo. Alegrando nesta vida A existência dolorida Dos que sofrem neste mundo! A fé é um clarão divino. Seja. Elevando-a aos altos Céus: Ela é chama abrasadora. trazendo a luz. Versos Vivi na mansão das sombras. Nascendo. Que conduz as criaturas As almejadas venturas Entre célicos clarões. Desterrado. É que a vida material É a prisão. Refulgente. redentora. Onde a alma é encarcerada . Que irrompe. Que ilumina os corações. pois. Que nos eleva até Deus. Ou capitoso perfume Que nos alenta na dor. A caridade é o amor. Entrei no sepulcro escuro. peregrino. Nada empana o seu fulgor. A caridade é uma aurora Que resplende a toda hora. Alva estrela resplendente. A caridade é a expressão Da personificação Do Mestre Amado – Jesus! A esperança é qual lume. Morrendo.Que desponta na alma crente. Na noite das trevas densas. Sepultado. Pura bênção redentora Do Senhor Onipotente. A esperança é flor virente. Reluzente. abençoada Essa fúlgida alvorada A raiar eternamente! Caridade salvadora.

É a flor cheia de aromas. sem naufragar. Via o símbolo do Bem Entre os males deste mundo.. Todo suicida presume Que a morte é o fim do amargor. Verá decerto a bonança. A palavra que reténs É tua serva querida. Alvo. Porque não sabem que a morte É a nossa libertação. Que vive com a caridade. Perfumando a luz do dia. Com mágoa e desolação. Após a morte descansa Quem luta. Mas aquela que te foge É dona da tua vida. Que mesmo dentro da treva Do mundo ingrato. E o coração que cultiva A caridade e o amor. delicado. É realizada no mundo Da eterna felicidade. Cheia de viço e frescor. Símbolo Sobre a lama de um monturo Um branco lírio sorria. Toda a esperança da fé. Onde as luzes recebemos Da Verdade. É lírio resplandecente Do puro amor de Jesus. Pois entre as trevas e as dores Da vida de provações. belo. . E a vida da alma é a nossa Liberdade. Pensamentos espíritas Dobram sinos a finados. Pode existir a bondade Irradiando clarões. sem luz..Na aflição. Quem sofre resignado. Sem saber que o desespero É porta para outra dor. Vendo essa flor cariciosa No pantanal sujo e imundo.

. Que na noite de amarguras As almas vem despertar. Deus cura todas as chagas Do mal que tens padecido. . A alma encontra na Altura A luz. O beijo da morte Para quem viveu na Terra Em meio dos sofredores E somente frias dores No mundo ingrato colheu. Assim. depois da amargura Que a vida terrena traz. surge a alegria Dourando a manhã do Amor. Seu beijo é um raio de luz Do dealbar das alturas. A vida terrena é a noite Que precede as madrugadas Das regiões aureoladas De amor. Coração que andas ferido!. noutro mundo. Medrando no coração. O frio beijo da morte É o beijo da liberdade. Cresce o broto. desabrochar.. de verdade e luz: Sem paradoxo. volta o dia. O engano As vezes diz a Ciência Que a crença é engano profundo. Que a alegria da Virtude Faz. Vai a dor. O gozo é o próprio martírio. É um raio de claridade Que vem da altura do Céu. Esperando uma outra vida Noutros planos. Que se fez excelso Lírio Na devoção de Jesus. Tem o jardim das virtudes Da suprema perfeição. Volve ao Céu todo piedoso.Quem tem a flor da humildade. Sombra e luz Vem a noite. da plenitude. a ventura e a paz. linda. A morte é a deusa celeste Da vida. nasce a flor. portanto.

Venerandos. Dentro da fé que os conduz. Mas se não for. poderosos: Arcas repletas de ouro. Sê. Que sobre o mundo derramam As graças dos dons divinos. dormiremos. pois não é. Mas as florinhas silvestres São apenas baloiçadas. humilde: – “Mais tarde. filho. Flores silvestres da vida. Mas.. Caem copas opulentas.. Nos dias mais tormentosos. Zune o vento? geme a selva? Não sabe a pequena flor. Andarás ao lado meu. Não caem. Flores silvestres!.. seculares. Que perfumando o caminho Compõe um hino de amor. filho. a floresta Varrida pelas tormentas? Partem-se troncos anosos.E diz arrogante à Fé: – “Estás louca! A morte apenas É o sono eterno e tranqüilo Depois das lutas terrenas. Ciência amiga.” Ao que ela replica. E frontes ébrias de gozos. Na selva da vida humana Caem grandes. São refletores Da bondade de Jesus. De quem será esse engano? Será meu ou será teu?” Flores silvestres Já viste. como esta flor: . os humildes da Terra. Continuando graciosas A tapetar as estradas. Mil árvores grandiosas Esfacelam–se nos ares Tombam gigantes da selva. Não sabem se há tempestade De ambições e se há no mundo Leis de ódio e iniqüidade.. Se for sono. Serás o sósia da Fé. Imagem Dos bons e dos pequeninos.

Chore o homem. no “O Pais”. Detalhes cariciosos Da vida singela e calma. doces carinhos. irmão e mentor. Os artigos do Bezerra De outros tempos. A minha pobre Carlota. depois de casada. Que eu via com os olhos d'alma. O mestre da Velha Guarda. forte e feliz. A companheira querida. Unida. A tua doce amizade A luz do Consolador. Singelos e Aves Implumes são títulos de dois pequenos volumes de versos publicados em começos do século. Dos nossos dias passados. Um céu azul e estrelado Cobrindo uns ninhos de amor. eu sei da saudade Que te aperta o coração. foi recebida em circunstância s imprevistas e timbra episódios vemos de mais de 30 anos. atento mesmo a sua banalidade. grite o mundo. Carlota é o nome da esposa do poeta cego. Ao meu caro Quintão 8 Quintão.. A ermida branca e suave De ternos. . também cegada de uma vista. por acidente. Onde uma vez me encontraste Na minha noite sombria. O nosso amigo Moreira E a sua barbearia. belas paisagens Cheias de vida e de cor.. “Aves implumes” da dor. Vassouras!. Que tão distantes se vão. O raio de claridade Da noite da minha vida. intimamente pessoal. por assim dizer. Palmilha a estrada do amor. Meus pobres versos – “Singelos”. Que traduziam no mundo O meu pungente amargor. Teu coração generoso De amigo. que o médium não podia conhecer. Vida de encantos divinos Esta poesia singela e. Árvores fartas e verdes Pela alfombra dos caminhos.

ao cair. Se buscas o Espiritismo. Muita vez a água do céu Torna-se em lama.Ah! Quintão. Se pelas luzes dos Céus. O mal vem de ouvidos moucos Ou de olhos nevoados. Norteia-te em sua luz: Espiritismo é uma escola. O chamamento sublime Da Vida Espiritual. Necessário é discernir A mistura. Aos companheiros da Doutrina Examinada de perto. divina e forte. Pelas estradas sublimes Da santa paz de Jesus! Mas não sei onde a saudade É mais forte nos seus véus. Que clareia toda a vida E ilumina além da morte. É a claridade bendita Do bem que aniquila o mal. E onde a bênção da Bondade É flor de eterna alegria. o véu. . Se pelas sombras da Terra. a ganga. hoje os meus olhos Embebedam-se de luz. É uma fonte generosa De compreensão compassiva. É árvore verde e farta Nos caminhos da esperança. Escolhidos? muito poucos. Espiritismo Espiritismo é uma luz Gloriosa. Há sempre muitos chamados. A luz da nossa Doutrina É sempre a lição que ensina A paz do caminho certo. É o templo da Caridade Em que a Virtude oficia. Derramando em toda parte O conforto d'Água Viva. Verdade é que o coração. Toda aberta em flor e fruto De verdade e de bonança. E o Mestre Amado é Jesus.

Figura literária das mais típicas do seu tempo. sensível e personalíssimo” – disse Ronald de Carvalho. é nossa divisa Oração e Vigilância. com 21 anos de idade.Que abrace a nossa Doutrina. – Eis meu desejo de irmão. o autor malogrado de Primaveras ainda aqui se afirma no seu profundo quão suave nativismo lírico. luta. Mas buscando a perfeição Na perfeição de si mesmo. Já não deve andar a esmo Nas estradas da ilusão. 24 Casimiro de Abreu POETA fluminense. hoje denominado Casimiro de Abreu. Feliz quem pode guardar A força de realizar Os grandes feitos da Luz. Portanto. No Evangelho de Jesus. e ação. na Fazenda de Indaiaçu. Suas composições possuem “um saboroso estilo colorido. desencarnou aos 18 de outubro de 1860. No bem que é bem substância Da crença que diviniza. Que no altar do coração Tenhamos o amor profundo Daquele que é a Luz do Mundo. no então município de Barra de São João. acometido de tuberculose pulmonar. . Penetra numa oficina De esforço.

Constantemente cismando. Onde os cisnes da inocência Bebem o néctar do amor. De tristeza e de prazer. O pensamento sonhando E o coração a cantar. Na delicada harmonia Que nascia da beleza. A noite toda estrelada Após o doce arrebol. De tudo me lembro e quanto! A transparência dos lagos.À minha terra Que terno sonho dourado Das minhas horas fagueiras. Na tarde e no amanhecer. um lago tranqüilo Onde começa a existência. O dia. E na paisagem querida. De ternura e de saudade. Numa canção de alvorada. Formadas de trinos de aves E de perfumes de flor. Cheio de aroma e esplendores Sob um céu primaveril. Como uma estrofe inspirada Na noite e na madrugada. Da melodia das fontes. . Igual a um canto sublime. Do verde do lindo mar! Oh! que poema a existência De infância e de mocidade. os afagos E os beijos de minha mãe! Dos trinos dos pintassilgos. A mocidade era um hino De melodias suaves. manhã ridente. As carícias. A infância. Do verde da Natureza. No recanto das palmeiras Do meu querido Brasil! A vida era um dia lindo Num vergel cheio de flores. Os ramos das laranjeiras E das frondosas mangueiras Douradas à luz do Sol! Oh! que clarão dentro d'alma.

Onde as histórias são cantos De gárrulos passarinhos. Onde rugem tempestades. Quando eu cruzava as campinas. Os sonhos da mocidade. Um paraíso de amores. Onde há reis que são poetas. E trovadores alados. Ecoa de Norte a Sul. Amargura e dissabor. O manto de luz da aurora. Não aniquila a lembrança: Jamais se extingue a esperança. Onde as gravuras são ninhos Estampados no verdor. Num tempo doce e feliz! Os pessegueiros floridos. com o peito ao vento. Espero em horas fagueiras Um dia poder voltar. . Heróis ternos. A Terra (Aos pessimistas) Se há noite escura na Terra. Jardim de risos e flores Rolando no céu azul.As nuvens nos horizontes Perdidos no azul do além. Os pios das juritis! Se a morte aniquila o corpo. As frondes cheias de amora. Recortada de palmeiras. Retumba pelas montanhas. Se há tristezas. As galas da Natureza. Canções de eterno fulgor! A Terra é um mundo ditoso. Esperanças e alegrias. Livro de excelsa beleza Com páginas de esplendor. Descalço. namorados. Um hino de força e vida Palpita em suas entranhas. se há saudades. Sem sombras de sofrimento. Nunca se extingue o sonhar! E à minha terra querida. Também há dias dourados De sol e de melodias.

. Pisando de manhãzinha A verde relva dos prados. Revejo-te. A olhar-se toda orgulhosa No espelho do grande mar! Onde as princesas são flores.Gargantas de ouro a cantar. A noite. Na estrada onde o homem passa. Teus lindos pés descalçados. Oferecendo-lhe graça. Jamais almeja que a morte Na vida o venha tragar. deslumbramentos Da Lua. Os primorosos cabelos . Que se beijam luzidias. Se há noite escura na Terra. trigueirinha. O dia todo é alvorada De doces encantamentos. Sabe encontrar a ventura Nesse jardim de pujanças. Perfumando as pradarias Com seu hálito de amor. É sempre risonho e forte. em seus brancos véus! A tarde oscula as estrelas. cheias de olor. Quem vive num éden desses. De triste e rude carpir. Saudando a aurora que surge Como ninfa luminosa. De negras e longas tranças.. De lágrimas e amargores. Moreninha. Também há dias dourados De juventude e esplendores. O Sol o prado ridente. Sorrindo. De aromas. Os astros o Sol-nascente. E enche-se de esperanças Para sofrer e lutar. De áureos sonhos no porvir!. O prado perfuma os céus!. risos e flores. Abarrotada de dores.. Desabrochando às centenas. Moreninha. Lembranças No sacrário das lembranças..

Teu vulto de camponesa Era o porte de rainha. O teu samburá de flores Que levavas à igrejinha. Sob as mangueiras copadas. Nos fios d’água fresquinha. Fitando a luz do sol-posto. Inda ouço os sons primeiros Da tua voz na modinha Modulada nos terreiros. Moreninha. . Moreninha. Nas missas da capelinha. Fazendo-te mais bonita. De olhar sedutor e insonte. De rosas estampadinha. Moreninha. Os teus risos adorados. A tua oração ditosa. Quando o teu passo ia e vinha Em busca da água da fonte. Moreninha. Moreninha. Moreninha. de paixão. Desferidos à noitinha. Francisco Cândido Xavier . Moreninha. Moreninha. Sob o luar prateado.Enfeitados.Parnaso de Além-Túmulo 174 Que terna recordação De minhalma se avizinha! De saudade. Tão faceira! tão formosa! Moreninha. Moreninha. Enchendo a nave de odores. à tardinha. Rainha da Natureza. O nosso idílio encantado. Lavando a roupa às braçadas. Nos bandos de namorados. De miosótis singelos. O vestidinho de chita. A placidez do teu rosto Com teus modos de avezinha. Quando te achavas sozinha. Moreninha.

Beijar as flores singelas. dos escombros. Quero rever novamente A paisagem luminosa. Deixai que me identifique Com os raios da luz de outrora. Ah! que eu possa hoje olvidar Francisco Cândido Xavier . Recordando Meu Deus. Que apenas o meu passado Eu possa alegre rever. Mirar a luz das estrelas. Ouvir a voz da amplidão! . Que das ruínas. esferas. Enchendo as longes devesas. meu Brasil! Escutar os sinos calmos Sob a alvura das capelas. Rainha da Primavera. Minhalma retire as heras. Meus sonhos encantadores.. De convites à oração. Quero aspirar os perfumes Dos cendais cheios de flores. Sob a luz do céu de anil! Rever o sítio encantado Da minha estância de amores. quem me dera Rever-te. Minha terra. Na fresca sombra dos vales.. Na alegria inalterável Do lugar onde nasci.Parnaso de Além-Túmulo 175 Imensidades. Sentar-me no prado agreste. deixai que eu me esqueça Da minha vida de agora. Concepções mais perfeitas No progresso que alcancei. doce rainha. Moreninha. Sentir a emoção grandiosa De tudo o que já senti!. Daquela risonha aurora Do meu passado viver. E contemple as primaveras Da vida que já deixei.Moreninha. Que eu sinta de novo a vida Na infância linda e ditosa. Ai! Ai! meu Deus.

desencarnou a 6 de julho de 1871. Oh! Natureza da Terra. Procurando os passarinhos E as borboletas tafuis. . Sedentos de paz e amor. Da existência transcorrida Guardada no coração. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 177 25 Castro Alves POETA baiano. e amar A campina. Que tesouros não exalas. Para à mesma luz volver. Verto prantos de saudade A luz da recordação. o autor consagrado de Espumas Flutuantes exerceu nas rodas literárias do seu tempo a mais justa e calorosa das projeções..Parnaso de Além-Túmulo 176 Campos verdes.. céus azuis Ser homem e ser criança. Francisco Cândido Xavier . Buscamos na Humanidade As verdades da Verdade. Revendo essa claridade. Na carícia dessas falas Do passarinho e do Sol! Eu gozo de quando em quando.Correr sob o sol-nascente Até que chegue o luar. Que esperança. Da alvorada e do arrebol. o Sol. E dos cimos desta vida. Nesta poesia sente-se o crepitar da lira que modulou – O Livro e a América. que ventura! Viver. o mar. Mocidade radiosa. Marchemos! Há mistérios peregrinos No mistério dos destinos Que nos mandam renascer: Da luz do Criador nascemos. com 24 anos de idade. Múltiplas vidas vivemos. Toucar-se a alma das galas Da poesia inexprimível. sofrer. É a luta eterna e bendita. Na excelsa Imortalidade. E em meio dos mortos-vivos Somos míseros cativos Da iniqüidade e da dor.

dos tiranos. Francisco Cândido Xavier . Cai ao solo fecundando O chão duro que produz. É o sofrimento do Cristo. Nas madrugadas de luz. esplendor. . às vezes se acendem Radiosos faróis que esplendem Dentro das trevas mortais. expirando. Pelas fainas do trabalho. o malho.Parnaso de Além-Túmulo 178 É a gota d'água caindo No arbusto que vai subindo. Francisco Cândido Xavier . No sacrifício da cruz. Deixando um aroma leve Na aragem que passa breve. imagens. O Universo é o seu altar. tudo sonha Na imortal ânsia risonha De mais subir. terna. É a rija bigorna. Suas rútilas passagens Deixam fulgores. Sintetizando a piedade. Dos algozes. Na Terra. Anjos puríssimos faz. Transmutando os Neros rudes Em arautos de virtudes. Oficina onde a alma presa Forja a luz. mais galgar. A flor que. O fragmento do estrume. Em reflexos perenais. forja a grandeza Da sublime perfeição. A vida é luz. Em mensageiros de paz. O escopro dos escultores Transformando a pedra em flores. Que se transforma em perfume Na corola de uma flor. Pleno de seiva e verdor. A enxada fazendo o pão. Em Carraras de eleição. Portentoso.Em que o Espírito se agita Na trama da evolução. É a dor que através dos anos. Tudo evolui. jamais visto.Parnaso de Além-Túmulo 179 Deus somente é o seu amor.

Lanço Cômodo no olvido E aureolo a fronte de Hugo! O cronômetro dos séculos Não me torna envelhecida. Tirânico e lutador. É Anchieta dominando. Desnorteados viajantes Dos Niágaras da dor! Francisco Cândido Xavier . “Para o Infinito marchai!” A Morte No extremo pólo da vida Diz a Morte: – “Humanidade. quem ilumina. Sou morte – origem da vida. tende esperança. Sou a espada da Verdade E a Têmis do mundo sou. O fiel desconhecido. “Tende fé. Prêmio ou gládio vingador. Sou anjo dos desgraçados Que seguem na Terra errantes. Francisco Cândido Xavier . É César trazendo a luta. O grande conquistador. Nas sendas do progredir. É Cellini com sua arte. É Sócrates e a cicuta. A ensinar catequizando O selvagem infeliz. Sou balança do destino.Parnaso de Além-Túmulo 181 Também sou braço potente Dos déspotas e opressores. Oh! bendito quem ensina. Uma excelsa voz ressoa. .Parnaso de Além-Túmulo 180 Quem o bem e a luz semeia Nas fainas do evolutir: Terá a ventura que anseia. É a lição da humildade. Ou o sabre de Bonaparte. De extremosa caridade Do pobrezinho de Assis. Quem luta. No Universo inteiro ecoa: “Para a frente caminhai! “O amor é a luz que se alcança.E cujo amor à Verdade Nenhuma pena traduz.

Se o cristal que imita o céu Da consciência tranqüila É o luzeiro que cintila Na noite do teu viver. Meu verbo é a lei da Justiça. Aos bons. Meu braço – a revolução. se às vezes Simbolizo a guilhotina. E sobre a dor das batalhas Minha asa sempre pairou. O manto das trevas densas. Da alegria sou saúde E do remorso o amargor. Desde as eras mais remotas Coso láureas e mortalhas. Arremesso a minha espada. Sepultura do presente. E sobre a crença o esplendor. Luz da vida – dou-te o ser! Mas. sobre as descrenças. Flor – oferto-te perfume. Homem. Faço cair as nações Como fiz Roma cair. Eu mando a noite da guerra Fazer o sol do porvir. Nova aurora ou nova cruz. E nos maus aumento os gritos De dores e maldição. Do porvir sou plenitude. . Oásis – dou-te o repouso. Austerlitz e Waterloo. Estrela – estendo-te lume. Consolo e alívio aos precitos. Ateio fogo aos canhões. Minha mão abre a cortina Que torna o mistério em luz.Que trazem os sofredores No jugo da escravidão. Sou águia libertadora Que abre. também se a tirania Arvora-se em lei na Terra. Na absoluta eqüidade. Meu sonho é a evolução. Francisco Cândido Xavier . sou compensação. E por trabalhar com Deus. ouve-me.Parnaso de Além-Túmulo 182 Sou prisão ou liberdade.

E mostra biliões de mundos. Mirabeau. Apaguei a luz do amor. implacavelmente. Busquei Danton. Morte. Então. se tens Por bússola o Bem na vida. Espera-me com fervor. Serei tua doce amante. Francisco Cândido Xavier . E junto ao vulto de Têmis Tomei o carro de Jove. E mostra biliões de sóis. Ao ver o trono imperfeito Estrangulando o Direito. Horrenda. homem. Fiz a Europa ensangüentada Ajoelhar-se humilhada. Verás que sou a mão terna Que rasga abismos profundos. Sou ave da liberdade Que ao lodo da escravidão Venho arrancar os espíritos. Que jamais teve presente. fria. Até que um dia o Criador Sempre amoroso e clemente. E fiz o Oitenta e Nove Quando a França me ajudou.Parnaso de Além-Túmulo 184 Conduzo seres aos Céus. À luz da realidade. Agora é reconstruir. Abrir-te-ei meus tesouros. Cujo seio palpitante Guardar-te-á – paz e amor.Parnaso de Além-Túmulo 183 Diante de tanto horror. Trucidei réus inocentes. . Nem passado nem porvir.” Portanto. Dos campos Saaras ardentes. Olha o Sol de fronte erguida.. Das cidades fiz ossuários. Que espedaça os teus heróis.Foi assim que fiz um dia. Bradou do cume dos céus Num grito piedoso e forte: “Não prossigas! Basta. orgulhosa.. Se às vezes se te afigura Que sou a foice impiedosa. Francisco Cândido Xavier .

poeta e jornalista. Funcionário público. Ama a cruz que te pesa sobre os ombros. adiada e emurchecida. Revivem na velha Europa. Sua vida foi toda dores. Nascido na capital de São Paulo. Todo o trabalho e dor da humana lida São luzes da vitória desejada. Que em cada canto estruge e em cada boca Faz o soluço do ideal desfeito. Que o reconduz à terra estremecida. Dou almas para a amplidão!” A Morte é transformação. Ansiedade fatal de que se touca A alma do homem mau e do perfeito. Sem Jesus. Vai com Jesus! não temas! crê somente! Francisco Cândido Xavier . Ansiedade Todo esse anseio que tortura o peito. mercê de um simbolismo inconfundível. A aflição inda é grande em cada dia? Não desprezes a Doce Companhia. Em queda descomunal. Não temas Somente com Jesus a alma cansada Volve à praia do amor no mar da vida. Refloresce ao clarão de outra alvorada. O viajor errante encontra a estrada. Estrangulando a voz exausta e rouca.Parnaso de Além-Túmulo 186 27 Cruz e Souza CATARINENSE. Poeta de emotividade delicada. Tudo em seu seio revive: Esparta. A esperança. Foi grande abolicionista e espírita militante.Elevando-os às alturas: Dou corpos às sepulturas. cresce a treva entre os escombros. Remodela humanidades No progresso universal.Parnaso de Além-Túmulo 185 26 Cornélio Bastos PROFESSOR. encarnou em 1861 e desprendeu-se em 1898. soube. Nínive. . marcar sua individualidade literária. Francisco Cândido Xavier . E como faz às cidades. Tebas. a 26 de setembro de 1844 e desencarnado em Campos em 31 de janeiro de 1909. Vence o deserto áspero e inclemente. Sobe da Terra pelo espaço eleito. no Estado de Minas.

Esses pobres que o mundo considera Os humanos farrapos dos vencidos.Parnaso de Além-Túmulo 187 Heróis Esses seres que passam pelas dores. Sustentando o fulgor da luz da Vida... dos risos. São os heróis das lutas torturantes. sonhando. Sonhando a mesma luz e a mesma aurora Que idealizais chorando nas algemas! Vibrai no mesmo anseio em que palpita A alma universal. bruxuleante. Mundos de amor no claro azul distante. sozinhos. das quimeras. Que são. No turbilhão dos grandes desgraçados. Nos desertos dos áridos caminhos.Parnaso de Além-Túmulo 188 Chorai! que a imensidade inteira chora. Como se a neve alvíssima a orvalhasse. Essa ansiedade é a mão de Deus nas eras. Do monturo pestífero emergindo. Francisco Cândido Xavier . Qual essa flor fragrante. Sobre a lama ascorosa refulgindo. como a face Dum querubim angélico sorrindo. trêmulos. No turbilhão de todas as esferas!.. Abandonados. Coroados nas Luzes Deslumbrantes! Aos torturados Torturados da vida.Numa imensa espiral. Infelizes na dor a cada instante! Sobre a luz que vos guia. E além dos trilhos de ásperos espinhos. Corações a sangrar. estranha e louca. Revestidos de acúleos acerados. Aluviões de peitos sofredores. Das ilusões. sendo na Terra os esquecidos. aflita. um passo adiante. As perfeições eternas e supremas! A sepultura Como a orquídea de arminho quando nasce. . A brancura das pétalas abrindo. ermos de amores. As geenas do pranto acorrentados. Formando a rede eterna e incompreendida. Das dores e da lágrima incontida. Nutrindo a luz dos sonhos superiores Nos ideais maiores esfaimados. Fulgem no Além os deslumbrantes ninhos. Prisioneiros da angústia e da quimera.. Francisco Cândido Xavier .

A alma livre contempla o novo dia. Doces visões de etéricos carraras De que o espaço fúlgido se estrela! Clarificai as noites mais escuras Que pesam sobre a terra de amarguras. “Gloria victis” Glória a todas as almas obscuras . que no-las remeteu. Forçando as portas da Beleza Eterna.. Por supormos fato inédito. radiosas formas claras. ditosa e bela! Alma livre 9 Um soluço divino de alegria Percorre a todo Espírito liberto Das pesadas cadeias do deserto. Com a alvorada da Paz. superna. Vê a aurora depois da noite escura.Parnaso de Além-Túmulo 190 Mergulhada no esplêndido concerto De outros mundos. Essas traduções mediúnicas de versos em Esperanto foram publicadas em elegante volume. De lindos firmamentos estrelados.. redimida e pura. Assim também do túmulo asqueroso. A sepultura fria e tenebrosa É o berço de almas – senda de esplendores. Evola-se a essência luminosa Da alma que busca o céu maravilhoso.Luz que sobre negrumes se avistasse. Anjos da Paz Ó luminosas formas alvadias Francisco Cândido Xavier . e as traduções ditadas ao médium Francisco Valdomiro Lorenz. E como o lodo é o berço vil de flores. sob o título: Vodoj de poetoj ei la Spirita Mondo. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 189 Que desceis dos espaços constelados Para lenir a dor dos desgraçados Que sofrem nas terrenas gemonias! Vindes de ignotas luzes erradias. deixamo-lo aqui registrado. Céus distantes que vemos. anseios e alegrias. Penetra o mundo da imortalidade. que a luz acaricia! Alma liberta. 9 Este e outros sonetos de Cruz e Souza foram por ele mesmo traduzidos magistralmente em Esperanto. Entre canções de luz e liberdade. Longe das dores do passado incerto. dominados De esperanças. Numa visão mirífica. Anjos da Paz. Desse mundo de sombra e de agonia.

o tormentoso Averno. Nos sofrimentos purificadores. Glória aos milhões de todas as criaturas. Glória à pobre criatura desprezada. Guardai a voz da Terra Prometida. Mas não te esqueças desse mundo avaro. aniquilados. Todo o nosso trabalho objetiva Dar-vos a fé. Céu Há um céu para o Espírito que luta . Cheio das luzes do porvir eterno. Onde aportam ditosos. Onde venceste a carne soluçando. Oração aos libertos Alma embriagada do imortal falerno. É a lição luminosa da Verdade Que a Humanidade espera comovida. Conservai essa vaga claridade Da luz da eternidade indefinida. O teu destino esplendoroso e raro. O escuro abismo. Como heróis dos deveres e das dores! Francisco Cândido Xavier . Mas lembra-te do orbe da impiedade. compassivos. no horizonte claro.Que caíram exânimes na estrada. Sem as doces carícias do galerno Das esperanças – sacrossanto amparo. Que o Céu é a pátria eterna dos vencidos. Glória Victis! Hosana aos desgraçados Que tombaram sem vida. redimidos. a crença persuasiva Nos caminhos da prova dolorosa. Onde a pobre esperança abandonada Morre chorando sob as desventuras. Sem conhecer a luz de uma alvorada. Sob a noite das grandes amarguras. Segue cantando. Como arautos de todas as virtudes.Parnaso de Além-Túmulo 191 Nossa mensagem Essa mensagem de esperança e vida Que endereçamos da imortalidade. Nos exílios do pranto e da saudade. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 192 Volve os teus olhos ternos. Sobre as ressurreições da alma gloriosa. Sabei vencer entre as vicissitudes. Para os pobres Espíritos cativos As grilhetas do corpo miserando! Abre os sacrários da Felicidade.

Parnaso de Além-Túmulo 194 No silêncio de cada moribundo. ignota. Da alma livre das penas e das dores. Que coroa de luz a alma impoluta. Sou teu irmão. Na mais sagrada das hierarquias. Afastando essa dor que te amargura Nas ansiedades de uma longa espera. Que na Terra viveis como estrangeiros.Parnaso de Além-Túmulo 193 No tormento que punge e dilacera. ó pobres caminheiros. Na paz quase integral e absoluta. luminosa. Beleza da morte Há no estertor da morte uma beleza Transcendente. Há a promessa de vida em outro mundo. Um mistério divino há nesse instante. De alma ofegante e coração aflito: Considerai. No qual o corpo morre e a alma vibrante Foge da noite das melancolias! Francisco Cândido Xavier . até partires Nas asas brancas da Felicidade. Considerai. Para quem nunca trouxe a Primavera Dos seus pomos dourados de ventura. Da Luz branca da Paz. presa Às cadeias da carne tenebrosa. Sentindo a vida de outra natureza. Os deslumbrantes orbes da ventura Por entre os sóis suspensos no Infinito! Aos tristes Alma triste e infeliz que se tortura Francisco Cândido Xavier .No oceano dos prantos salvadores. Mas há quem guarde as gotas do teu pranto No tesouro sublime e sacrossanto Dos arcanos de luz da Divindade! Há quem te faça ver as cores do íris Da fagueira. Abandona a prisão. fitando a imensa altura. A canção da vitória ali se escuta. trêmula e acesa. dorida e ansiosa. Mensageiro Abri minhalma para os sofredores . Céu repleto de vida e de fulgores. e intrépido quisera Trazer-te a luz que esplende pela Altura. É o augusto momento em que a alma. esperança. Beleza sossegada e silenciosa. Que faz da vida a rede de esplendores.

À dor Dor. etérea. Ó portadora do tormento acerbo. Francisco Cândido Xavier . mais escassos.. Os calcetas dos erros. que redimes Os grandes réus. E o mistério dos célicos abraços. Se queres Se queres a ventura doce. Outro Job pelas chagas da matéria. do Gemido. E os prazeres mais pobres. Que surgem do pretérito de crimes. das Preces e das Cores. do Pranto. Tudo isso não vejo e vejo apenas O turbilhão das lágrimas terrenas – Taça imensa de gotas amargosas! Da piedade e do amor eu trago o círio. Serás na Terra o filho incompreendido Do Tormento casado com a Miséria. Sofri na Terra junto aos condenados.Na vastidão serena dos Espaços. De outro mundo de luz. Encarcerado nas sinistras grades.Parnaso de Além-Túmulo 195 Viverás na mansão triste. Eu que na Terra tive sempre os braços Presos à cruz tantálica das dores. os míseros culpados. dos pecados. Francisco Cândido Xavier . Sob os teus pulsos. fortes e sublimes.Parnaso de Além-Túmulo 196 O missionário dessa Dor suprema! Noutras eras Também marchei pelas estradas flóreas. Mas um dia abrirás as portas de ouro E encontrarás o fúlgido tesouro. Aferidora da Justiça Extrema. . torturados. Epopéias de Sons e de Esplendores. Entre as prisões da Lágrima que exprimes! Da perfeição és o sagrado Verbo. Seres escarnecidos. Dos Perfumes. De benditas e eternas claridades. Dos prazeres mundanos esquecido. Para afastar as trevas do martírio Do silêncio das noites tenebrosas. funérea. Serás em toda a Terra o feio aborto Das amarguras e do desconforto. em vez do réprobo que eu era. Do Soluço. Bendita a hora em que me pus à espera De ser. indefinido.. és tu que resgatas.

e. Serás pobre de luz se não sofreres. Foge à revolta. Ser-te-ão como trevas. Aves e flores. no silêncio. vibrai nos ares. amplidões e mares! Vibrai comigo. Exaltação Harmonias do Som. Do Bem encontrarás a eterna aurora. humilha-o. Sentindo as dores desse desamparo. e. fatal e avaro. E na grandeza infinda que se espalma Sobre a glória sublime dos meus versos! Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 198 Vozes Há sobre os prantos. É que dos sofrimentos nasce o canto De alegria dos mundos e dos seres. Onde todas as horas dos meus dias Eram hinos de esplêndidas vitórias.. Meus passados. misterioso e santo. no mundo que o mal encheu de cruzes. Nos horizontes. Tive um passado fúlgido de glórias. Abre a tua consciência para as luzes E. vence-o. Para encontrar-me a sós no mesmo horto Que deixara. noutras sombrias Sendas tristes. Todo o fel que tragares. Exaltai minhas dores de outras eras. O hino da luz. Cantem no mundo todas as quimeras. Exaltai-vos na vida de minhalma. há sobre as humanas . Doma o teu coração. E abusei dos deveres soberanos Sucumbindo aos terríveis desenganos Do destino cruel. recônditos pesares. dobra-o.. Sobre o aroma das novas primaveras. Desdobrai-vos luzeiros estelares. todo o pranto. das dores meritórias. Na concretização desses prazeres Do meu sonho de luzes e universos.Cheias de risos e de pedrarias. multidões de seres. Sem reparar. entretanto.Parnaso de Além-Túmulo 197 Pois que a dor é a saúde dos prazeres. Sofre Toda a dor que na vida padeceres. Chorando a mesma dor que o mundo chora. nas atmosferas. Francisco Cândido Xavier . De maravilhas de ouro e de alegrias. porém. sem luz e sem conforto.

humilde e boa. de bênçãos soberanas.. Como um coro dulcíssimo de hosanas. tanto mais se apura No pensamento excelso da Verdade. que é pão dos infelizes. incertas.Parnaso de Além-Túmulo 200 . Gozadores de outrora entre as refertas Das ilusões que tombam fenecidas. Fortificando a vida da Esperança – Patrimônio dos seres desgraçados. Só uma glória mirífica perdura Concretizando os sonhos da criatura Cheia de crenças e de cicatrizes: É a vitória da Dor que aperfeiçoa. Soneto Nos labirintos dessa eternidade Que nós vivemos luminosa e pura. Glória da Dor. A alma vive na intérmina procura Do filão de ouro da felicidade. infinita. Francisco Cândido Xavier . Remontando aos Espaços constelados. Sobre as dores sagradas ou profanas Que pululam nas sendas mais escuras. muda.Vozes que se lamentam nas torturas. Sobe da Terra a queixa soluçando. Outras vozes mais doces e mais puras.. suplicando. Inda há sânie das úlceras abertas No coração das almas combalidas. Nessa jornada eterna da Esperança. Canta e vibra num dia de bonança. Quanta vez Quanta vez eu fitei essas fronteiras. Há o turbilhão frenético das vidas Sobre as estradas ásperas. Francisco Cândido Xavier . Vendo na auréola da Imortalidade A alvorada risonha da ventura. As primeiras são feitas de amarguras. Silenciosa.Parnaso de Além-Túmulo 199 E ao fim de cada noite tormentosa. Glória da Dor Para aquém dessas cruzes esquecidas Nas sepulturas ermas e desertas. Em torno da Verdade a alma gravita Buscando a Perfeição pura. Que é a existência na prova dolorosa. Desce dos Céus a voz amiga e mansa. Quanto mais sofre. Luminosa e divina. As segundas.

O evangelho do amor e da esperança. Mão radiosa. É a vibração do espírito divino. nas horas derradeiras!. Que vos fostes nas lágrimas ligeiras. promissora e ativa. Espalhai os clarões da vossa crença Na pedregosa estrada dessa imensa Turba de irmãos famintos.Parnaso de Além-Túmulo 201 Conduzi a mensagem luminosa Da caridade. A caridade é o símbolo da chave Que abre as portas do céu claro e suave. Manifestando as glórias da Beleza!. Presa de sonhos e estremecimentos De esperança. na noite da amargura. estrelas. Como o errado viajor que cai de bruços Sobre a íngreme estrada da agonia. Ensináveis-me a ler a Bíblia santa Desta vida imortal que se levanta Numa alvorada eterna de alegria! Ide e pregai Vós que tendes as rosas da bonança Enlaçadas na fé mais doce e pura. abafando os meus soluços. Voz da eterna verdade que ressoa Por toda a parte.. Toda luz da verdade que se alcança É um reduto de paz firme e segura: Dai dessa paz a toda criatura. Redentora de todos os pecados. lúcida e piedosa. Misericórdia. Renúncia Renuncia a ti mesmo! Renuncia À mundana e efêmera vaidade: .. firmamentos. Sobre a qual vossa vida já descansa. torturados! Francisco Cândido Xavier . que acaricia e que abençoa.Horizontes. que traz a verde oliva Da paz. Ah! meus longínquos arrebatamentos.. Como folhas levadas pelos ventos. Caridade Caridade é a mão terna e compassiva Que ampara os bons e aos maus ama e perdoa. Quanta vez. Ide e pregai. De bens paradisíacos se priva. Amarguras e dores e canseiras.. Das consciências libertas da impureza. Em seu labor fecundo e peregrino. a qual para ser boa.

Prosseguindo na estrada luzidia. de orgulhos e de raças.Parnaso de Além-Túmulo 202 Do homem. A vida se alimenta de outras vidas. Que tombais nos caminhos sem dizê-las! Exultai. Felizes os que têm Deus Entre esse mundo de apodrecimento E a vida de alma livre. E denodadamente engendra e cria Teu próprio mundo de felicidade! Parte o teu coração em mil fragmentos. Francisco Cândido Xavier . Só o diamante do espírito sem jaças Fica indene de todas as desgraças. esplêndida se expande No coração sublime das estrelas!. esquece a lúrida maldade. Ofertando-os ao mundo que te odeia. Tudo vaidade Na Terra a morte é o trágico resumo De vanglórias.. Além da morte.. Surdas batalhas. de alma pura. De que a morte voraz faz seu consumo. de amor. Num contínuo combate pavoroso.Parnaso de Além-Túmulo 203 Nos países seráficos do gozo! Ouvi-me Ó vós que ides marchando. batalhas e tormentas. Também vivi as lágrimas obscuras. varado de amargores. Não olvides em meio dos tormentos: – Renunciar em bem da dor alheia. que uma vida eterna e grande.Que em ti sintas a dúlcida piedade Que as desgraças alheias alivia. Entre as aluviões de cinza e fumo. Nesse mundo de lutas fratricidas. de luz. . sob as dores De misérias. Com a bondade mais pródiga e mais pura. Iguais às vossas.. Tudo no mundo passa. míseras criaturas. Todo o sonho carnal vaga sem rumo. Também senti as emoções violentas Que palpitam nos peitos sonhadores.. E sustentei. É ter no Além castelos de ventura. rudes e incruentas. almas sedentas De paz. sob as maiores Desventuras do mundo. Só a Morte abre a porta das mudanças E concretiza as puras esperanças Francisco Cândido Xavier . como passas.

Parnaso de Além-Túmulo 204 Pode guardar esse deslumbramento Da Fé – fonte de mística ventura. Glória aos humildes Ai da.Parnaso de Além-Túmulo 205 Aos trabalhadores do Evangelho Há uma falange de trabalhadores. Noite de dor que além da sepultura Nos afasta da vida e da verdade. Francisco Cândido Xavier . Vós que sois.. Não vos importe o espinho ingrato e acerbo. Pobres da Terra. ai da vaidade Que se mergulham sob a noite escura. Espalhada nas sendas do Infinito. Levantai vosso olhar sereno e forte. no esforço do amor puro e bendito. Só o caminho divino da humildade Pode ofertar a luz radiosa e pura. Venturoso o que vai por entre as dores Atravessando o oceano de amargores. Feliz o que tem Deus nessa batalha Da miséria terrena. Rompe algemas de trevas e granito. Só o pensador que sofre e anda à procura Da verdade e da luz no sentimento.. No bergantim sagrado da Esperança. Desde as sombras do mundo amargo e aflito Aos espaços de eternos resplendores. sede o Verbo De afirmações da Luz e da Verdade. É a caravana de batalhadores Que. Que vem salvar a mísera criatura Confundida no abismo da impiedade. Não maldigais a ulceração da algema. Francisco Cândido Xavier . E esperai a vitória alta e suprema. Que Jesus vos prepara além da morte. Na palavra e nos atos. os companheiros Dessa falange lúcida de obreiros. Francisco Cândido Xavier . seres infelizes. Guardai-lhe a sacrossanta claridade.Ainda se encontra a imensidade escura Das fronteiras de cinza e esquecimento. Aliviando os seres sofredores.Parnaso de Além-Túmulo 206 28 Edmundo Xavier de Barros . Cheios de prantos e de cicatrizes. que estraçalha Todo o anseio de amor ou de bonança!. sobre a Terra. ambição do mundo.

. o prazer e as ilusões terrenas São lodo. como capitão da arma de Cavalaria. as lágrimas e os sonhos. estrelas cantam hinos. Em derredor da Terra. versos satíricos postumamente colecionados.. Santificar a dor. fumo e cinza ao fundo da cratera. Para ver a extensão da noite estranha e densa. Francisco Cândido Xavier . Que os servos da maldade e os filhos da descrença Estenderam. sem deixar de ser profunda. sempre a vida. . nascido em 1861. porém. Francisco Cândido Xavier . além de Mortalhas. Continuam. nem o fim! A vida. Há vida.Parnaso de Além-Túmulo 207 Diante da Terra Fugindo embora à paz de eternos dons divinos. Desencarnou no Distrito Federal.. Eu mesmo Eu mesmo estou a ignorar se posso Chamar-me ainda o Emilio de Menezes. porém. Em cenário diverso aprimorando as cenas. quanto pela opulência das rimas. Legou-nos Poemas da Morte.. esquivando-se à aurora. Que além do gelo atroz que te reveste os muros..EDMUNDO Xavier de Barros.. O homem é o semeador dos seus próprios destinos. e Poesias. nascido em Curitiba. a vida eternamente.. Distinguiuse pela altaneza dos temas. 1901. a vida apenas É tudo que encontrei e é tudo que me espera! O ouro. Fala de tua luz aos mais vis e aos mais nobres. Morte. sobre a fronte do mundo!.. Do inferno atravessar o abismo ígneo e fundo. Mas no plano da carne os impulsos tigrinos Fazem a ostentação da miséria que chora! Necessário vencer nos vórtices medonhos. Esvaiu-se a vaidade!. em 17 de janeiro de 1905. 1909. a fama. no Estado de Goiás. era sobretudo ativamente humorística. vibrando noutra esfera. A alegria que exalta e a dor que regenera.. Glorificando a luz onde a Verdade mora. Renova o coração do mundo impenitente! Dize aos homens sem Deus. Ave triste da noite.. Sem furtar-se.Parnaso de Além-Túmulo 208 29 Emílio de Menezes POETA brasileiro. Musa vivacíssima e fulgurante. nos círculos escuros. Os júbilos e as penas. Foi poeta e desenhista notável. em 1866. sem Deus.. filho de Pacífico Antônio Xavier de Barros. e desencarnado no Rio de Janeiro em 1918. à luta que aprimora. desvenda à Terra os planos que descobres. Vida Nem a paz.

da liberdade. Como hei de aparecer? O que é impossível É ser um santarrão inconcebível. Muita gente nem fica de ceroulas. Mas que não se entristece e nem se abafa. Como hei de versejar? Rimas em osso São difíceis. em 1875 – depois de uma existência tormentosa.Parnaso de Além-Túmulo 210 30 Fagundes Varela ESTE é o sempre laureado cantor do Evangelho nas Selvas. Pois na hora do “salva-se quem pode”. Trazendo as luzes do Evangelho às gentes. Francisco Cândido Xavier . que as promessas de um defunto São coisa inda invulgar no vosso meio... Francisco Cândido Xavier . de outras vezes.. Inflamem minhas vozes neste instante! Que o meu grito bem alto se levante. Nas quais. a voz sonora e doce do Cântico do Calvário. Evitai as comidas indigestas. Sou o Emilio. Apesar do meu cérebro bestunto. que os pássaros te elevem Dos seus ninhos de plácida harmonia. .. Hinos de amor. as noites. O elo que nos unia. desencarnou com 34 anos. porém. o vinho não explode. Que nutre um corpo empanturrado e feio. Fluminense. as auroras. contudo. Nem há cheiro de carnes ou cebolas. Conduzindo a mensagem benfazeja Das esperanças para a Humanidade! Senhor! Senhor! que paire sobre o mundo A luz do teu poder inigualável.Procurando tomar o tempo vosso. Recitando epigramas descorteses. Imortalidade Senhor! Senhor! que os verbos luminosos Do amor. Que os lírios te saúdem perfumando Os arrebóis. tolerai o meu assunto. Espero-vos aqui com as minhas festas. conservei-o. distante da garrafa.. (Sempre vivi do sofrimento alheio) Relevai.Parnaso de Além-Túmulo 209 Aos meus amigos da Terra Amigos. Como a quase saudade do presunto. Eu sabia rezar o Padre-Nosso E unir meus versos como irmãos siameses. Longe das anedotas indecentes. da perfeição..

Vastros portentosos. Que os meus irmãos da Terra me recebam Como o ausente invisível.Parnaso de Além-Túmulo 211 Resplandeça na terra da amargura! Ó Pai! tu que removes o impossível. Irmãos. Que todo o ser no mundo se descubra Perante a tua excelsa majestade. Lá... divinos. Em lindos arquipélagos distantes. que a verdade Francisco Cândido Xavier . Em retiros de amor calmo e sereno... Empunhando o saltério da esperança. somente o amor.Parnaso de Além-Túmulo 212 Onde o solo é formado de ouro e neve. radiosas. nesses orbes lúcidos. redivivo!. desferindo Harmonias de amor e claridades. Habitei os palácios encantados. Senhor! que a minha voz altissonante Se propague entre os homens. Onde a treva e onde a noite são apenas Recordações de mundos obscuros! Onde as flores do afeto imperecível Não se emurchecem como sobre a Terra.. Visões de sóis eternos.Que as fontes no seu doce murmúrio Te bendigam com terna suavidade. Sendas de sonho e báratros escuros. eis-me de novo ao vosso lado! Venho de esferas lúcidas. Descansei sobre as ilhas de repouso. O amor. distantes. Planetas como naus sem palinuros Nos oceanos do éter Infinito! Contemplei Vias-Lácteas assombrosas.. confundidas Entre estrelas igníferas. Saturado do amor onipotente Que promana abundante do teu seio!. Atravessei estradas tenebrosas E sendas deslumbrantes e estelíferas. Francisco Cândido Xavier . Que transmudas em rosas os espinhos. Somente o amor é a vibração de tudo! . E que espancas a treva dos caminhos Com a luz que afirma a tua onipotência. nutre e dá vida. Permite que minhalma seja ouvida Na vastidão do mundo do desterro. Pude transpor abismos de ouro e rosas. E humanidades entre humanidades Povoando o Universo esplendoroso.

Parnaso de Além-Túmulo 213 E aponta-nos o céu. para a vida e para o amor! Que representa a Terra.Vi céus por sobre céus inumeráveis. Roubando-nos afetos e consolos. Pelos beijos dos seres bem-amados. ante a grandeza De tantos sóis e orbes luminosos? É somente uma estância pequenina Onde a dor e onde a lágrima divina Modelam almas para a perfeição. Rompendo o véu que encobre à nossa vista O eterno panorama do Universo. Onde as almas ditosas se engrandecem. Amando-se da vida os bens mais nobres.. Francisco Cândido Xavier . Outras almas guiando em labirintos Para a luz. Morte! que te abençoem sofredores. da tortura! Bendigo-te por tudo o que me deste: Pela beleza da imortalidade. Pela visão dos céus resplandecentes. a imensidade. Onde se sofre a angústia da distância Dos que amamos com alma e com fervor. dos escravos Das aflições. Mundos de dor e mundos de alegria. Martirizando o coração dorido Na cruz dos sofrimentos mais austeros. das dores.. Um detalhe minúsculo. Onde se regenera no tormento Quem se afasta da Luz e da verdade. Quando nos traz imácula e sublime A chama da esperança dentro d'alma. Que te bendiga o espírito abatido. Se o mundo abafa em nós toda a alegria. As nossas esperanças mais profundas. Que é mensagem de Deus por toda a parte! E apenas conheci um pormenor. A morte corrobora as nossas crenças. Quando a esperamos tristes e abatidos. um fragmento Da Criação infinita e resplendente. Ela é somente o exílio temporário. Ah! Morte!. . Em luminosidades e harmonias Aos beijos arcangélicos da luz. A Morte é o anjo luminoso Da liberdade franca. É apenas um degrau na imensidade. jubilosa. Já que és a terna mão libertadora Dos escravos da carne.

Aos pecadores dando amigas esperanças. Oferecendo amor em flores de bondade. Notável. .Senhor! Senhor! que a minha voz se estenda.. pela sua veia combativa e satírica. sobretudo. esplêndido e florido – Sentindo dentro d'alma um frio sepulcral. E esta circunstância é tanto mais notável quando o Romantismo se ufana de uma irreal conversão ín extremis. Pensando docemente a pútrida ferida Da imperfeição que rói a torva Humanidade. Sobre a fronte de todos quantos sofrem. por sua produção de agora. A noite era de sonho e névoa luminosa. O meigo padre João. Era um vulto sublime. poeta português. Iluminando a vida. Uma réstia de sol sobre a noite do Horrível. Um puro coração. Qual lírio a vicejar em meio a um pantanal. O padre João Tombava o dia: A luz crepuscular Mansamente descia Inundando de sombra o céu. vemos. imaculado. nas mesmas diretrizes. orando ao Deus de amor: Revia em pensamento Francisco Cândido Xavier . desatando os grilhões Que prendiam a alma à carne putrescível. é assaz conhecido no Brasil como épico dos maiores da língua portuguesa e admirado por quantos não estimam na Poesia apenas o malabarismo das palavras. o mar. Iluminando o mundo.. mais liberdade No orbe da expiação e da impiedade! Francisco Cândido Xavier . Que fazia descer o amor às multidões.Parnaso de Além-Túmulo 215 Uma luz singular nas dobras do passado. que os anos do alémtúmulo não lhe alteraram a sadia e lúcida mentalidade. Ansiando mais luz. mas o fulgor das idéias. Era o meigo Pastor irradiando a luz. excelso. E aumentando nos bons as bem-aventuranças. O firmamento Tingia-se de luz brilhante e harmoniosa. Padre João meditava. nascido em 1850 e desencarnado em 1923. a terra.Parnaso de Além-Túmulo 214 31 Guerra Junqueiro ABILIO Guerra Junqueiro. Inflamado de fé. Como um canto sublime de esperança. Sonhava ao pé da igreja – um templo envelhecido Ao lado de um vergel.

Torturas a verdade. os mares. Daquela igreja fria. Fitou extasiado a natureza em festa. O farol da verdade ao humano coração. endeusas a matéria. então. Despiu-se do negrume espesso da batina. a floresta. Tua mão não conduz As plagas da verdade Mantendo inutilmente a pobre Humanidade No mal da ignorância. Penetrou soluçando a ermida então deserta. E fugindo a correr da porta semi-aberta. O sacerdote. E viu no mundo inteiro as ânsias delirantes De trabalho. de eterna perfeição. E fitando. à natureza em flor. túrbida e falaz. Notando a diferença enorme. a fúlgida visão Com aquele Cristo nu. roubando a luz. meditando. de amor. E viu da sua igreja o erro tão profundo. Conhecendo no padre o gêmeo de Caim.. Feita de amor e luz. A luz radiosa e bela. E no sonho da luz fulgente do passado. inerte e frio. .Parnaso de Além-Túmulo 216 Fugindo desse modo ao próprio amor de Deus. Teve medo e receio. Sentiu-se no seu templo um pobre emparedado. matando a paz. o imáculo Jesus. Crestando a fé. E como se o animasse uma chama divina. De paz e de perdão. Por anos inclementes Em séculos sem fim. extraordinária. a flor. Afastado da luz. Imóvel dominando o âmbito vazio. de pau. Sentiu seu coração em dores lacerado. Encheu a solidão com as vozes do seu brado: “Ó Igreja! não tens a idéia que eu sonhava.. As árvores. o céu estrelejado. o espírito gelado. Dourando os véus da carne e amortalhando o mundo Em trevas persistentes. Da igreja de Jesus. Comparou. Padre João meditou nas lutas incessantes Sustentadas na Terra em prol da evolução. a luz eterna e rara Que nos vem de Jesus. Encaminhou-se ao campo. Com o coração sangrando em úlceras de dor.Era o Anjo do Bem. a ermida solitária. fugindo aos irmãos seus. a chorar. Francisco Cândido Xavier .

em busca dos seus ninhos! Repousavam. o aroma dos trigais. Ruínas de maldade estúltica a cair. Achou mais belo o céu e o seu viver mais santo. em rimas soberanas. Pelas planícies ledas. Francisco Cândido Xavier . feliz. Os risos dos aldeões e as orações das crianças Casavam-se formando. Canções de oiro e de sol das almas virginais. Era o festim do amor. tardígradas do inverno. que nascem das choupanas. Caridade Caía a noite em paz. No firmamento em luz. Francisco Cândido Xavier . nas preces da harmonia!. Eu quero palmilhar caminhos luminosos Que minhalma entrevê na aurora do porvir!” E o padre emudeceu. Andorinhas gentis.Parnaso de Além-Túmulo 217 Num farrapo de sombra. tremendo. os colibris doirados. a sorrir. Horas quedas. Na piedade. Crepúsculo. Submergido em pranto. os meigos passarinhos Recolhiam-se à pressa. ó torreão de séculos trevosos. Pairava na amplidão estranho resplendor. Exalando. Num fantasma ambulante em treva interminável! É um blasfemo quem crê que em teus nichos e altares Guarda-se a essência pura e imácula de Deus. Reunidas no lar caridoso e terno. Os poemas de luz. Horas de solidão. Chegavam aos ovis as ovelhinhas mansas. mudas. Como braços em cruz. relicários da essência . As árvores senhoris. na imensidão dos céus! Ó Igreja! o dogma frio é um calabouço escuro. A Natureza inteira em lúcida poesia Repousava. E eu quero abandonar a noite da prisão.Parnaso de Além-Túmulo 218 A asa ruflando inquieta. Que celebrava A grandeza de uma alma que voltava Ao redil de Jesus. despidas dos seus galhos. Eu vejo-o. Elevavam-se ao céu silenciosas. Prefiro a liberdade e a vida no futuro. Sentinelas da dor nas regiões desnudas. no amor. Desprezo-te. exótica e execrável. Almas puras.E transformas o padre em trapo de miséria.. Pipilavam febris no beiral dos telhados. em flor.. desde a flor às luzes estelares. sangrentos nos trabalhos. Guiando-me o farol da fúlgida Razão.

. Que estendesse o seu manto aos ombros da miséria. . Que derruba os casais e come o pão das searas. fulgente como a luz Que dimana do amor divino de Jesus! Seu luminoso olhar. onde andasse o penar.. O castelo real e a cabana do pobre.. cortando. Era como a piedade iluminando o mundo. Suas faces e a fronte. Pesava toda a dor que o mundo inteiro cobre. Que vão cedo ao trabalho. De quem ama a existência plácida da aldeia. Que pusesse suas mãos benévolas e puras Sobre o abismo voraz de tantas amarguras. A dor que faz da Terra um ninho de infelizes. Sem temer a hediondez das negras horas mortas. Filhos da obediência. a imensidão do espaço. Que palpita nos reis. Sinistramente. à lide que os consome. Em mim. Caía a noite em paz. esplêndido e profundo. Pedindo a soluçar um caldo negro às portas! E sondava o amargor dos operários rudes. Enchia-se o ar de gelo igual a açoite de aço. que andava mansamente: Tinha nas mãos de luz ramalhetes de lírios E no olhar a expressão de todos os martírios: Digna como um juiz. Deixando a casa entregue às penúrias da fome. O silêncio pesava impressionante e enorme! Nevava quase e a treva espessa e fria. de prantos!. Quando vi resplender nas bandas do ocidente Uma excelsa visão. A dor que dobra e vence as multidões ignaras. Que vibrasse.. alvas como alabastros. Almas feitas de luar. Como poça de sangue. Que agasalhasse o pobre e que desse ao mendigo Um frangalho de pão e um momento de abrigo.Da verdade e do amor. Vivendo a vida doce. Que se vão de longada ao longo dos caminhos. Cujo sonho é candura e a vida uma epopéia De louvores à dor. Onde sobrasse a angústia. de exaltações. anhos de mansuetudes..Parnaso de Além-Túmulo 219 E eu pedia ao Criador da imensidade etérea. do amor e da inocência.. Que levasse o amor onde faltasse o lar. a Lua Rolava na amplidão como cabeça nua. imaculada e pura. que anda nas meretrizes. de cândida frescura. sentia a dor dos que não têm carinhos. por entre os negros mantos De espessa escuridão. Francisco Cândido Xavier . horrendamente informe. Era bem a visão da mágoa e da invernia.

Para mim. que ampara a dor e vela os sonhos darte. Sem toques de clarins e sem espalhafatos.. É por isso.. Estou dentro do templo e dentro dos prostíbulos.Parnaso de Além-Túmulo 221 Que abarrotam de olor as primaveras ledas. engendra a paz das searas. Emitia esplendor sua túnica de arminhos. Emissária de Deus a toda a Humanidade: Pairo por sobre um ser resplandecente e puro. Dissolvendo os cendais das trevas dos caminhos!. Para levar a luz. E quando a tarde chega. Guardo comigo a dor. em vez do sono à sesta. Deixo Cristo na cruz para encontrar com Judas. chama-me em altos brados No turbilhão de horror de todos os pecados. Conduzo com avidez o lúcido estandarte Do bem. Quem és tu? – murmurei. Amo a fera bravia. Amo o trabalhador. como idolatro as crianças. Visito os hospitais. como amo o luto e a festa. balsamizando as dores. . Vou onde haja a miséria e pranto de infelizes. Sou o farol da legião dos pobres sofredores... entro nos palacetes. e as aves da floresta. e com ansiedade levo-a A quem. Levo sol. Vou ao cárcere escuro. Amo o goivo e o lilás. Amo o labor da ciência e amo a existência honesta Do ingênuo lavrador. Confortando o amargor. comovida. Amo os bons e protejo as almas vis e hediondas. não existe a classe. Como pairo a sorrir por cima de um monturo. Vivo fora do plano imundo da matéria. pão e luz. eu ouço Do palácio o carpir e os ais do calabouço. como adoro as boninas Que se entreabrem na estrada. Desço das vastidões dentro das horas mudas. nas aflições. Desço ao antro abismal e ascendo aos minaretes. Enche com o seu trabalho as lindas manhãs claras. Ando por toda a terra. as mágoas e esperanças. que. creches e orfanatos.Parnaso de Além-Túmulo 220 Pareciam do alvor das estrias dos astros. Atravesso o oceano e atravesso os países. As rosas festivais das frescas alamedas. Abranjo em meu amor a alma dos continentes. a seita e as gentes. que. talvez. – “Meu nome é Caridade. consolando a miséria. ando por sobre as ondas Do oceano a rugir sob meus pés de névoa. Francisco Cândido Xavier . adornando as campinas. Idolatro os senis.Francisco Cândido Xavier .

há mosteiros na Espanha. E se alguém reclamar. E se o povo chorar. Fez a bomba explosiva. Se o canhão não chegar. Rindo na podridão. Ele fez podridões de imundos cemitérios. que se açoite esse povo! Alguém. Subo da Terra ao Céu. A Humanidade é a mesma.” “Caridade! – tornei. Onde existe o grilhão dentro de escuras celas. onde fundaste a escola. que reclamar. De nada serve o livro a um povo sempre cego. A sociedade vil é quase a mesma Impéria. Beijo um cadáver nu. Que não te quer. Lodo fenomenal de descrença e malícia. Jamais pude escolher entre Roma e Paris. como osculo os heróis. Amo o bem que alivia. morre o amor. Minha missão é amar. Não conheço nações. Celas que são prisões.Parnaso de Além-Túmulo 222 Vai! consulta as prisões e consulta a polícia. há canhões na Alemanha. Nunca a lisonja fiz. Onde puseste a luz. O homem pôs o missal. asfixie-se a infância. corro do brejo aos sóis. Mate-se a mocidade. nem quer o amor do próprio Deus! O homem não se mudou. nas ermidas. as batinas e a estola. – Por que volves ao mundo? O mundo é o mesmo caos. o mesmo charco imundo. O homem fez barregãs que se vendem nas feiras! Onde andaste a criar a cidade e os impérios. . causa nojo a política. Para que se não veja a ruína e os cemitérios. E a tola sociedade É o nojento paul da criminalidade. espalhe-se ignorância. jogue-se-lhe a metralha. pague um tributo novo. alma de fariseus. Trato com o mesmo amor os cultos e os selvagens. no sopé dos patíbulos. Onde foste ensinar cantigas às ceifeiras. nos montes. E se a fome vier. transudando a miséria. Onde criaste o ideal e a inspiração divina. Não conheço horizontes. Não me regem as leis que regem um país.Ao pé do altar da fé. Oro em qualquer lugar. Ressumbra asco e pavor a velha sifilítica. Propague-se impiedade. ponha-se a honra ao prego. a forca e a guilhotina. Morre o bem. flores sobre os lameiros. Se o estrangeiro chegar – Bailes nos ministérios! Músicas sobre a dor. Amo o templo e amo a escola. Que brada sem cessar: – “Inda grita a canalha? Abra-se-lhe a prisão. Francisco Cândido Xavier . cheias de sentinelas. amo o bem que consola. nem recebo homenagens.

a esta nada escapa. jamais anda de sege. Demonstrando o conflito entre Jesus e o Papa: Jesus amava a luz. entre más soberanas. corre o fecho às janelas. Caridade? o mundo é sempre assim. Que esta plebe é de cães. Se viveram maus reis. Se houve no tempo antigo uma arca de Noé. o Papa o oiro vil. Para o seu labutar. Se houve o pincel de Goya e o buril de Bordalo.Parnaso de Além-Túmulo 224 De fulgentes milhões para humilhar o pobre. Não entende Voltaire. Passa no mundo a pé. . Nunca soube enxergar se há Lutero e Jesuítas. Raciocina. toma vestes singelas. Que encarcera o ideal dentro da Inquisição! Principalmente Roma. Nunca reza em latim. amigo. Ao raiar a manhã. Não vai a Roma ver o Papa que se cobre Francisco Cândido Xavier . Somente lhe interessa a sorte das criaturas. Não lê Anacreonte e ignora Petrarcas. Para fazer o bem. Fogo a quem mendigar! morte a quem tiver dores!. aromas os fedores.Parnaso de Além-Túmulo 223 E esse povo infeliz dorme pelas calçadas. não discuto. Se Calígula quis endeusar um cavalo. honras aos forasteiros! Cubram sedas a lepra. toque-se para a missa. Não vai à Terra Santa em peregrinações.“Antes de tudo. Sacrifica um Abel para aceitar Caim!” . Não reconhece a lei que emana dos monarcas. que esta plebe é submissa. Nunca soube notar. Nunca aos concílios foi dar suas opiniões. Francisco Cândido Xavier . Jamais toma lugar para fazer sermões. eu não sei. Jamais focalizou questões eleitorais. o Papa a Rotschild! Que queres. morre sob pauladas – E à podre sociedade é igual a religião. poeta! A alma da caridade Abomina o rumor que alimenta a vaidade. Jesus amava o pobre. nem más literaturas. Sabe somente ver as dores infinitas. nunca fez procissões. nem sabe discernir Qual deles foi maior. se Goethe ou Shakespeare. Eu só quero saber onde há miséria e luto. Nem sabe distinguir entre um pária e Carnegie. Se a Patti cantou bem pelas festas mundanas. Se o nome de Mafoma é o mesmo que Maomet.Girândolas ao ar.. Almoça e ceia o luar.

onde escassa é a saúde. Onde se mete a flor excelsa da virtude. Vai a todo lugar. Sabe onde falta sol. não lhe estorva a política. Se tua alma quiser inda encontrar-me um dia. chama-me a orfandade. segue a Nosso Senhor! Anda no Novo Mundo. Sabe rasgar o peito. Chama-me o sol redor. Que ouvem as tentações do beiral das estradas. Nem problemas sociais. Olha sem se anojar. Nunca viu povoléus. Tenho muito a prestar às ovelhas transviadas. Sabe apenas que há pranto ao longo dos caminhos. Entra no lupanar. Para buscar a dor da orfandade que chora. Sabe o bem. melros e cotovias. Nem no ambiente hostil e estreito das igrejas. Não lhe pode abalar a opinião da crítica.E não vai desfolhar misérias nos jornais. Mendigando uma luz e um bocado de sopa. Procurando os pardais. Desce ao antro sem paz. Caçando o pranto e a dor dos pobres desgraçados.Parnaso de Além-Túmulo 225 Tem abnegação. Existe no Universo. as aves e os reptis. Procuro a pomba e a fera. Vai sem medo e receio à lôbrega mansarda. Não existe num mundo. Não conhece opinião. Corre. dor. água e calor nos ninhos. jamais amaldiçoa. E escrever com seu sangue a Justiça e o Direito! Sabe o amor. Foge da discussão. Que falta o amor e o pão. Vou subir a colinas e descer aos valados. Reconhece na treva a fonte dos pecados E abraça com carinho os grandes torturados. A alma da caridade Sabe endeusar a luz e adorar a verdade. corre por toda a Europa. Os mendigos e os reis. Sopa para matar a fome dos famintos. sem se cansar. Necessário é que eu siga em minhas romarias. nem dogmas de fé! Rejeita a excomunhão. misérias. Amparar o chacal. os palácios e os ninhos! Francisco Cândido Xavier . . recôndito e diverso. donde foge a alegria. nem divisa a ralé. adeus! Há muito que me espera A imensidão da dor. mágoas. Sabe somente que ama e também que perdoa. Sabe amar e querer flores e passarinhos. Poeta amigo. Necessário é lhes leve a vida e a liberdade. Luz para desfazer a baixeza de instintos. É preciso que eu vá visitar os covis. desde o nascer da aurora. não está nas pelejas.

Anjos açucenais que a miséria devora. Fez também o soluço e a lágrima dorida.. a Terra. fustigadas de pranto. para guiar felizes. Como as aves gracis em vôos nos trigais. Repartindo o seu pão de carícias divinas. não sabeis. Tudo voltou à paz silenciosa e calma!. mesquinhas. Pobrezitos sem pão. noite de desventura! Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 226 Foi-se a linda visão. dissipando as neblinas. Na esmeraldina cor do colo dos jardins! E Deus que fez o Sol e a candura das crianças.. Lá me ponho a lidar e de lá volto à rua.Parnaso de Além-Túmulo 227 A alegria taful das manhãs harmoniosas Em que maio desfolha os cravos e os jasmins.. filhas que adoro tanto. O inverno e o pesar. parecia O planeta da sombra e a mansão da agonia! Romaria (Passeio matinal) (Fim da poesia inserta em Poesias Dispersas. esquálidos e nus. Criou a dor clareando a escuridão da vida. tomo o arado e a charrua. Espargindo dos céus as glicínias formosas. urnas de lama e pus. Harmonias sutis. Cantos de rouxinóis. Vai às roças louçãs nas alvoradas claras. há aroma e luz na beira dos caminhos. e aos olhos da minhalma. No entanto.. Estou com o lavrador na tarefa das searas. Entoando a sorrir mil ditirambos de oiro. Porque o pranto é que lava as manchas e os negrumes De almas torvas e vis. misérrimas. Francisco Cândido Xavier . O mundo famulento.. E se fez a bondade envolta de esperanças. Como do seu farnel.. Para guiar os maus.Onde tarda a saúde e onde o conforto tarda. Almas na escuridão da noite sem aurora. .) Não sabeis. Minha missão é amar os vermes e os países!. Há risos e esplendor e há prantos. Noite de neve atroz. fruto e flor. Corpos de podridão.. filhas minhas. Calcular a extensão de tantas amarguras.. árvores. Lírios no lamaçal das grandes desventuras. Existências em flor.” Muito tempo passara e a noite inda era escura. que se evolam dos ninhos Dourados pelo sol dalvorada do amor! Mocidade no abril resplandecente e loiro De noivado e canção das almas virginais.

A lágrima da dor é estrela que transluz. E acharemos no fim da romaria imensa. Que faz da Caridade a flama da Virtude. Ébria de aroma e luz das flores orvalhadas. Que liga o verme ao mar.Parnaso de Além-Túmulo 229 Vinte séculos de dor. também. a Caridade e a Crença. Compondo o hino de sol de esplêndida alvorada! Partamos nós. . de pranto e de agonia. chilreia a passarada. Oferecendo o Bem aos pobres pequeninos. Um coração que sofre é chama que se eleva Da túrbida hediondez dos pantanais da treva. Em que há músicas no ar e olores nas estradas. Açoitado. Abandonado e só na aridez da colina Sofre infindo martírio a vítima divina. o amor que dá saúde.Parnaso de Além-Túmulo 228 Que chorando se vão. Ofertando com amor a toda a Humanidade Esse pão divinal que é dos trigais divinos. Nutrindo o coração na fonte da esperança. O amor que fraterniza. Francisco Cândido Xavier . Que o grão de areia une ao roble secular. Vinde comigo ver a dor dos desgraçados Francisco Cândido Xavier . Represam-se no olhar do Filho de Maria. edênico e sem par. Às regiões da glória intérmina da luz. sem pátria e sem abrigo. Espalhemos a Fé. Hora em que a Terra acorda em haustos de esperança. por este mundo afora. à treva a luz da aurora. O sol primaveril da graça de Jesus! Eterna vítima Na silenciosa paz do cimo do Calvário Ainda se vê na cruz o Cristo solitário. Filhas que Deus me deu. com os corpos cancerados. Conduzamos conosco a luz da Caridade. Aproveitemos. porém. traído e calmo. das lepras mal cheirosas. Perpassam colibris. Cheios de sânie e pus. vinde alegres. as aves e os chacais. esta hora calma e mansa. pois. que une a pomba às rosas.. Tenhamos a noss'alma em delubros de luz. Dando consolo à dor. comigo. A paz à guerra e à luta os lírios da bonança. Paira o clarão do amor. Zumbem sofregamente as trêfegas abelhas. Que sublime conduz aos planos celestiais. silencioso..Transformando-as em luz e em vasos de perfumes!. Saúdam o alvorecer as vozes das ovelhas. Que irmana a fera e a rosa. Sobre o escuro.

Dois mil anos de dor. Espraiando na Terra o seu olhar piedoso. Os lendários heróis no dorso dos corcéis. o pranto. chacais. Desolação e horror. poetas e trovadores. Cavalheiros gentis. na cruz. turbas de gozadores Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 230 Inda vieram. Nobres de sangue azul nos seus mantos dourados. depois. Caravanas de reis nos tronos passageiros. Viram-no seminu. Inscrevendo com fogo as máximas das leis. Temos fome de paz e sede de perdão!” E o Mestre da bondade. nos grandes desgraçados. Espraiando na Terra o seu olhar piedoso. Castelãs juvenis. partindo como tantos. O Mestre prosseguiu. Francisco Cândido Xavier . ensangüentado. E puseram-se a rir do louco supliciado! O Cristo continuou. Hoje mais nada são que míseros mendigos. A um padre (Versos a um agressor do Espiritismo) Ó padre lutador. humilde e silencioso. e os seus cruéis algozes Passaram sem cessar como chacais ferozes. calmo e silencioso. Multiplicando a guerra. aqueles que em seu nome Espalharam a treva. Agora vêem. E na época atual a caravana estranha Estaca no sopé da árida montanha. procurai santamente Apregoar ao mundo herético e descrente . a guerra e a fome. na capa dos cristãos. Os nobres doutro tempo. agora transformados Nos párias do amargor.Parnaso de Além-Túmulo 231 E do cimo da cruz. Consola a multidão com o seu olhar piedoso. Lobos. no topo do Calvário. tigres. sim. as lutas e a chacina. o anjo da virtude. mataram-se os irmãos. Sábios do tempo antigo abrindo os livros santos Olharam-no também. valentes brasonados. Bradando com furor: – “Socorre-nos Jesus! Que possamos vencer a dor em nossa cruz. Sorvendo o amaro fel nas dores da aflição. Exaltados na voz das trompas dos guerreiros. Artistas e histriões. Estende o seu perdão cheio de mansuetude. sublime e silencioso.Da Terra ao Céu espraia o seu olhar piedoso. Contemplaram Jesus no cume da colina. Mas os soberbos reis e césares antigos. O sacrifício e a dor do eterno visionário.

Entre encomendações. Anatematizai todas as heresias. absolvei magnatas. Esquecei sobre a lama os pobres indefesos. Lede com desassombro o intrépido Barônio. Proclamai. Ponde em cada recanto um novo Torquemada. Sem o medo pueril do inferno e do demônio. discursos. Ponde sobre a esperança o inferno que flameja. aplaudi as grandes simonias. Afogai na descrença a pobre Humanidade. Transformai todo templo em balcão de bentinhos. torcei as leis. Fazei autos-de-fé. Incensai Harpagões. Afirmai que um sacrista é um ministro do Eterno. Porque. em verdade. E vinde proclamar ao mundo fariseu Que somente na Igreja há sendas para o Céu. pregai probabilismos Dentro das liações e dos anacronismos. anatematizai Todo aquele que em Deus sentir o amor de um Pai. Cortai a asa de luz de toda liberdade. Cheio de excomunhões e de mastins da Igreja! Ensinai que Deus é o bramânico sátrapa Que enviou para o mundo os bergantins do papa. Com representações em todos os caminhos. Retende na memória os erros do passado.Parnaso de Além-Túmulo 232 Multiplicai no mundo as vossas benzeduras. Francisco Cândido Xavier . É preciso instalar a Inquisição de novo. Contendo a aspiração indômita do povo. . Ensinai catecismo em todas as escolas. são como crimes sagrados E a estola de um sacrista é isenta de pecados. sermonatas. operosa e triunfante. trazei Loiolas. proclamai o dogma divino! Fazei bulas. De saber a verdade acerca do Destino.Os dogmas ancestrais da vossa velha Igreja! A árvore do progresso. vendei o ensino e a prece. Traficai com o altar. Interpretai Jesus no prisma do interesse. Multiplicai na Igreja os ritos e as tonsuras! Teologicamente. esplêndida. Formai sob a batina as gerações vindoiras. A Ciência caminha a passos de gigante Para se unir à Fé. Lembrai a Inquisição e a história do papado. Endeusai sobre o trono a fortuna dos Cresos. Comei Jesus no pão refogado em falerno. viceja. E um trapo de batina ao pé de cada estrada. Aprovai. Tomai em vossas mãos das crísticas tesoiras.

. Olvidai convenções. A discórdia infundi! Nutri regionalismos. A luta da verdade. metralhas. Francisco Cândido Xavier . Abandonai a treva e vinde para a luz! Aprendei muito mais do exemplo de Jesus. Que traz.Parnaso de Além-Túmulo 233 Sobre o luxo gritai no púlpito florido. Acostumai-vos. a luta das idéias.Parnaso de Além-Túmulo 234 Criar uma ficção e excomungar de oitiva. arma nova fogueira A quem asseverar que o Papado é uma feira Onde Deus é um cifrão e onde se negocia A bênção de Jesus. carabinas. A abençoar fuzis. ao sol que tudo aclara. Dentro das presunções da infalibilidade. irmão. Nunca vos entregueis a tanto despautério. Incentivai com ardor os rubros fanatismos. É feita nos clarões das grandes epopéias. papado. Mas. tomando a vossa pena. Francisco Cândido Xavier .. Jamais enxovalheis o vosso ministério. enfim. Gritai que o mundo está perverso e corrompido. Cada gesto leal é sublime interstício Por onde a Luz penetra em jorros cristalinos. porém.. e a bênção de Maria. Tendes a autoridade e a mansidão do Cristo. um pálido abantesma. Que a Verdade jamais se vende no mercado. não alcança a virtude. Afastarmo-nos dela é andar no sorvedouro Da calúnia que fere o coração mais rude. É próprio das paixões e próprio da inventiva. congregações. O pobre Senhor-Morto.Só a Igreja possui a santa autoridade. Abrindo o coração ao nobre sacrifício. Deixai a insensatez dos clérigos. feito de gesso e lacas. Da mentira que. Escrevei com furor contra as guerras tigrinas.. Representa-se a peça antiga da quaresma. Jamais vos esqueçais de que a verdade é de ouro. Fazendo-vos ouvir. pois. Num cenário infantil. ouvi minha voz impávida e serena!.. Se puderdes. Onde a verdade está sob as cavilações Dos círculos hostis de torpes convenções! Praticai e afirmai ainda mais do que isto. da tiara. consigo o vírus que envenena! Quem perpetra a inverdade a si mesmo condena. “Um Quadro da Quaresma” Entre lamentações e estrídulas matracas... Clareando o porvir ignoto dos destinos.

Numa fantasmagoria esplêndida de aroma Dos incensos do altar. Coquelin tonsurado. Reformistas quaisquer?. há quase dois mil anos! Não busqueis progredir nas coisas transcendentes. Evitai conviver com os livres pensadores! A análise conduz à escuridão do Averno. criaturas inferiores Dirigem. Francisco Cândido Xavier . Existe tão-somente o Inferno que despeja O mal e as tentações no espírito perdido. arrecadando esmolas. sobre o púlpito assoma Uma figura heril de abade gordo e enorme. cantochãos. É o ator da paixão. o explorador santíssimo da farsa. Francisco Cândido Xavier . Rezai! que atualmente o mundo pervertido Pretende esfacelar os dogmas romanos. que se repete. De eterna submissão ao Papa que é infalível. Comte. Wesley. Imóvel.. em tinta espessa e forte. Paródia de uma dor sublime e incomparável. Sentimentos de fé e catolicidade. Fora das concepções altíssimas da Igreja.. Satanás que os fulmine . seus embaixadores.Parnaso de Além-Túmulo 235 Com latim. Sentinelas da fé. Porque o Papa é senhor de céus e continentes E o Sílabus proíbe a evolução de tudo! Eu só vos peço a fé.Talhado de encomenda. sob a luz esdrúxula das tochas Que ilumina esse caos de tintas rubro-roxas. Que grita com estentor: “Caríssimos Irmãos! Nós somos sobre a Terra os únicos cristãos. A função quaresmal prossegue. o espírito moderno. Das chamas infernais. Filha da estupidez bisonha e condenável. Como as grandes funções do entrudo e do confete. obeso. É preciso antepor. Que a Igreja representa. a vítima e comparsa Do Papa. Calvino. certamente. desconforme. porquanto a fé é o escudo Que vos há de livrar dos gênios tentadores. anual. Dorme grotescamente o sono dessa morte De teatro burlesco. Precisais cultivar o nosso dogma eterno. Voltaire e Galileu são ministros do Inferno. A multidão Espera com ansiedade o clássico sermão. a toda a Humanidade.Parnaso de Além-Túmulo 236 Toda ordem de Roma é boa e indiscutível. Necessário se faz prender quem raciocine. bandeiras e sacolas.

ambrosias. Obedecei à Igreja em sua Santidade. adormeceu sem pensar que pusera Em cada coração um coração de fera. Porque a verdade pura. Propagando a cegueira. Como Jesus amou a glória da pobreza!” Condenando a Ciência.. a Luz. olvidou-lhe a doutrina. E abominando o Cristo. Francisco Cândido Xavier . As mortificações recebem da indulgência Os prêmios celestiais na Eterna Beatitude. Olvidou o que Jesus obrara com o exemplo. Dos atos a lição.A falta de fervor tem feito heresiarcas. Da doutrina cristã. é cometer um crime. a Liberdade. Sede firmes na fé. inadequado e velho. Sereno. a sacrossanta essência Ficou em pregação de mágica eloqüência. E após se abastecer pantagruelicamente. confeitos. Com um aceno abençoou. a guerra e o fanatismo. Terminou a oração. em santa penitência.Parnaso de Além-Túmulo 237 Aguardava-o o jantar de finas iguarias: Pratos de ostentação. Sofismá-lo. a humilde singeleza. O dogma é uma lei benigna e sublime.. Amando a caridade. seu cérebro indolente Desejou meditar nas cenas do Calvário. rogando que se desse Uma estola ao Progresso e um véu à Humanidade. o Senhor que ele esquece. Em paz sacramental. . Era um livro escurril. Esquecido Jesus. Terminada que foi a sacra pantomima. contentes na virtude. doces raros. Oremos pelo mundo em desconforto extremo. Mas o sono roubou-lhe as preces e o breviário. E depois de exercer seu santo ministério. Opíparo jantar regado a vinhos caros. Tem até corrompido os padres e os monarcas. recheios. Com o seu rubro sermão. Para tanta extorsão impune e criminosa. Licores. da caridade o templo. Vivei. segundo o gesto em uso. enformá-lo. Que é o traço de união do arcano da Trindade. Resmungando um latim exótico e confuso. Jesus apenas fora a máscara piedosa. caros irmãos. o lídimo Evangelho. cavando um negro abismo. moscatéis. A Humanidade está sob o império do demo. Não se lembrou que houvera o bom samaritano. Procurou lestamente o calmo presbitério. sem bispo e Vaticano. Sem artigos de fé.

. E de alma ingênua e coração risonho. falecendo em 1937.Por isso. Poemas Líricos. a terra que lavrara. nascido na cidade de São Pedro. deixou firmada sua personalidade literária. ansioso. em março de 1881. Ó terra de São Pedro. Passados os trabalhos e os tormentos. chorando. cerrando-me as pupilas No doloroso termo da romagem. Não reparou o labor triste e enfadonho. Chorei de gratidão ao pressenti-las. Escreveu Ementário. banhado em pranto..Parnaso de Além-Túmulo 240 33 Hermes Fontes SERGIPANO.Parnaso de Além-Túmulo 239 32 Gustavo Teixeira PAULISTA. Regou. que amo tanto. Quando aguardava a messe.. A São Pedro de Piracicaba Último instante.. Nos pântanos letais e lúgubres de Roma. jubiloso. Poeta de grande relevo emocional. Com que angústias te vi. o lavrador que fez. e suicidouse no Rio de Janeiro aos 26 de dezembro de 1930. – Sonho lindo que a nada se compara. Lâmpada Velada e Fonte da Mata.. ó meus irmãos do altar e da batina. Esperou confiante o sol da seara. E paraíso para as nossas dores. A sementeira luminosa e rara Do trigo louro e rútilo do sonho. Trabalha e espera sob os céus risonhos. Conduzindo-me à luz doutra paisagem. Soneto Sou. seu último livro. Francisco Cândido Xavier . Era a morte. as mãos tranqüilas. A Igreja que foi pura e que já foi divina. em 1888. nasceu na Vila de Boquim. rude e bisonho. derradeira imagem Nas procissões da sombra em longas filas. Nos supremos e tristes estertores!. Último Evangelho e outras obras assaz estimadas. Morre sem remissão de horrível carcinoma. tendo publicado Apoteoses.. Gênese. Francisco Cândido Xavier .. Graças a Deus. Que a morte é vida para os nossos sonhos.Parnaso de Além-Túmulo 238 Lá onde a cupidez fatídica se entrapa E morre às próprias mãos sacrílegas do Papa! Francisco Cândido Xavier . a crença era meu pajem E buscando-lhe.

Parnaso de Além-Túmulo 242 Na minha pobre vida abandonada. Mas só colhi os frutos maus da Terra. É perpetrar amargas redundâncias. Tudo outrora. Que torturou a minha vida inteira. Redizer minhas mágoas. minhas ânsias. E o triste engano da celebridade. serra em serra. Adormeceu-me aos cantos da vaidade E me afastou da estrada meritória . Simbolizando o ciclo tenebroso Das sínteses de dor da Natureza. desgraçado e desditoso.Numa grande esperança insatisfeita. Do que chamamos – a felicidade. Procurando o país indevassado Do ideal luminoso de Aladino. Senhor. incorpórea. Que amortalhou meu sonho peregrino Nas trevas de um martírio irrevelado. E a carne subjugou-me inteiramente. As promessas pueris da falsa glória. Como fizera de minha arte um hino. Buscando a imagem fúlgida. E transformou a minha mocidade Num montéo de ambições. Tudo em volta de mim era a cegueira. Que me seguiu o espírito ambicioso! A carne é pobre e é cheia de fraqueza. E o pobre. Do sofrimento fiz o apostolado. Perdeu tudo no instante da colheita. Não sorvo mais os tóxicos violentos Do desespero e da melancolia. Fez-me fraco e descrente. Renovar minhas síncopes de dor.. Francisco Cândido Xavier . de fama e glória. Francisco Cândido Xavier .. Após a derrocada Das construções de um sonho superior. Era o tédio cruel que me impedia De vislumbrar a claridade intensa Da luz do sol puríssimo da crença. Poema da amargura e da esperança Falar-vos de martírios e tormentos. E fui de vale em vale.Parnaso de Além-Túmulo 241 Minha vida Não pude compreender o meu destino Na amargura invencível do passado. Eis que aparecem os arrasamentos.

em Ti me anime. Misericordiosíssimo Senhor! De tortura em tortura amargurado. Redivivo Divina lira. no passado.. Francisco Cândido Xavier . Musa que inspira Meu coração A relembrar. de novo Ao grande povo Que não me canso De estremecer. meu Deus. ao qual foi imposta a pena de degredo perpétuo na África.. O meu frágil espírito inferior Viu-se presa de trevas. Rompeste a minha venda de cegueira E divisei o excelso panorama Do Universo infinito. Que a confiança. “minado pela nostalgia”.. que Te aclama Como a fonte do amor ilimitado! Francisco Cândido Xavier . Revela.. Mas a tua bondade me levou A esquecer a influência deletéria Da carne passageira. amena. onde veio a falecer em 1793. pois. A luz sem par. Tudo sofri.. Celebra. A vida plena.. Que no porvir a dor bela e sublime Jorre em minhalma a luz da perfeição. A Pátria linda . o meu pecado E pude ouvir as harmonias puras Que equilibram os mundos nas alturas!. A paz sublime.Parnaso de Além-Túmulo 244 34 Ignácio José de Alvarenga Peixoto IGNÁCIO José de Alvarenga Peixoto.. Cheio de amaridúlcida ansiedade.Da crença e da bondade. um dos malogrados poetas da Conjuração Mineira”. de dor e de miséria. Volta. A esperança o espírito me invade Aguardando das lágrimas futuras A minha redenção... ainda. E a desgraça suprema o amortalhou..Parnaso de Além-Túmulo 243 Relevaste.

A nova era Do meu Brasil. em 1930. Lira divina. e onde dirigia um Centro Espírita. Canta somente.Parnaso de Além-Túmulo 245 De amor cristão. Dize a grandeza Da glória acesa Na vida excelsa Que a dor produz.Parnaso de Além-Túmulo 246 35 Jesus Gonçalves JESUS Gonçalves nasceu em 12 de julho de 1902. Ditosa e crente.. Estado de São Paulo. internou-se num hospital. Exalça agora A nova aurora Que brilha cheia Francisco Cândido Xavier . Sepulcro além.Que faz vibrar Todo o meu ser. onde desencarnou. Une-te ao canto Formoso e santo Que flui soberbo. Proclama à Terra Que além da guerra E além da noite Floresce a luz. Enfraquecer-te Nas lutas mil. Chorando alhures. Surgindo-lhe os sintomas do Mal de Hansen.. Anjo de redenção Do Céu desceste resplendente e puro E no santo mistério em que te apagas Vestiste-me o burel de sânie e chagas . Louva a doutrina Da liberdade No eterno bem. na cidade de Borebi. dai se transferindo para o Asilo Colônia de Pirapitingui. Francisco Cândido Xavier . em 16 de fevereiro de 1947. Não mais procures. O mundo em prova Que se renova Espera o dia De redenção.

escondendo as flores com que afagas. Nestas poesias palpita. Onde.Parnaso de Além-Túmulo 248 Que dominavam E se orgulhavam Do seu poder. Só a ilusão Duma ventura. e desencarnado em 1896. Mas..E algemaste-me a lenho estranho e duro. Doce e invisível no caminho escuro!. As lágrimas Desci um dia Ao sorvedouro Da atra agonia Da Humanidade.. A perscrutar Qual a verdade. E vi senhores Francisco Cândido Xavier .. Os potentados Com seus valores Bem se julgavam .. Ouviste-me. o choro e as pragas. Anjo da redenção! bendito sejas!. Que neste mundo O homem prendesse E o retivesse. Terno. enfim. Sempre a abater Os desgraçados. sublime e fúlgido. flamejas! E agora brado. Libertaste meu ser à Luz Celeste. de modo inconfundível. Nume solar pairando no monturo. É tão bem conhecido no Brasil quanto em seu belo país. a suavidade e o ritmo da sua lira. Portugal. então. A procurar.Parnaso de Além-Túmulo 247 36 João de Deus NASCIDO em São Bartolomeu de Messines. afirmou-se um dos maiores líricos da língua portuguesa. de alma robusta: – Deus te abençoe. da cruz de feridas que me deste. Francisco Cândido Xavier . ó Dor piedosa e justa. E vi. em silêncio. Qual o tesouro O mais profundo. No coração Da criatura. em 1830.

Somente encontram Dores que afrontam. Depois. E ainda aí Não pude achar Francisco Cândido Xavier . . porém. Pobres donzelas.Onipotentes.. Fanadas flores. Perante a mão Da fria dor. Alvas estrelas De formosura. Reconheceram E viram bem Nesta existência Toda a impotência Do deus-milhão.. Eu vi mulheres Nos seus prazeres.. Deixam o teto Do seu afeto Maior. Ricos solares Dos protegidos. Busquei os lares. Onde o conforto Para a matéria Anda em contraste Com atroz miséria Dos desvalidos. Que. Jovens e belas. Rindo e cantando Dentro da noite Da desventura. supremo.. Que lhes domava E lhes dobrava O torpe egoísmo. Mágoa insanável. Luz sem fulgores. Insuperável. miseráveis Párias da vida.Parnaso de Além-Túmulo 249 O que eu ali Fui procurar. Heróis valentes Cá nesta vida.

Desiludidas! Francisco Cândido Xavier . Só sentimentos Que trazem presas. Ao som da festa. Mas este riso. Das diversões. então. A maior dor. belos.Incompreendida! E penetrei Pelos castelos Dourados.Parnaso de Além-Túmulo 250 Que busca rir. Só pensamentos Das impurezas. E esmagadas. Onde se aninha E se amesquinha A multidão Francisco Cândido Xavier . Belas outrora. A traição. À meia luz. Pois eu ali Tristonho vi O que em verdade É a sociedade. Almas impuras. No entanto agora Flores perdidas. Julgando crer Que está a ver O paraíso.Parnaso de Além-Túmulo 251 Nesse recinto Eu vi. É o que produz Todo o amargor. Toda a maldade . A grosseria. Ensandecidas As criaturas Outrora puras. A ver se esquece O que padece. Aniquiladas. A iniqüidade. Gozar. sorrir.

Desiludido. Dissimulado. Dando-lhe a calma Que necessita. E. Pois só cobriam Míseros trapos.Da hipocrisia. gemem. . Falsificado No fingimento Que aparecia No barulhento Rumor de vozes. Num forte brado Disse ao Senhor: “Onipotente Pai de Bondade. De uma alegria Jamais sentida.Parnaso de Além-Túmulo 252 Ao seu Criador. Desconhecida Naquele meio. Eu contemplei-o Cheio de horror E vi que as flores. Eram sombrias. E tudo. Desanimado. Pálidos tremem Ó Senhor Deus! Faze que a luz Do bom Jesus Penetre a alma Na Terra aflita. Pobres farrapos De almas perjuras Francisco Cândido Xavier . Tristonho assim. enfim. Notas atrozes. Eram trevosas. Oh tem piedade Dos filhos teus Que choram. condoído. Fracas criaturas Baldas de amor. As pedrarias Tão luminosas.

Me respondeu: “Filho bendito Francisco Cândido Xavier . A Terra linda E então verás. Contempla. Vi transformadas Todas as cenas. Francisco Cândido Xavier . crianças. mulheres. O sumo bem.” Mas uma voz Do azul do Céu. Astro formoso De pura luz!” Eu ajoelhei E Contemplei As multidões Atropeladas.Só conheci E encontrei. Em todos os seres. E no Infinito Tudo o que fiz. Que lhes transforma A alma poluta Num ser radioso. O grão tesouro. Pronta e veloz.Parnaso de Além-Túmulo 253 Do meu amor. Nas grandes penas. Assim tornando O ser feliz. Donde provém A grande paz. Só contemplei O mal que vi. ainda. Nos prantos seus. Está na luta. Desenganadas Nas perdições.Parnaso de Além-Túmulo 254 Homens. Sou teu Senhor. . Mais fino ouro Dos filhos meus. Nada se perde. Nas esperanças. Jovens.

Que os coroavam Com gemas finas. Em profusão. Eram açucenas De fino olor Do espaço azul! Francisco Cândido Xavier . Meigas. Fui então vendo.Parnaso de Além-Túmulo 255 Depois.Por entre a luz. Vale profundo De mágoa e dor. Reconheci Que por aí Na escura Terra Onde eu amei. Reconhecendo Que aqui nos Céus. A amarga dor. Quando voltavam Do seu exílio. eu vi Que os que as vertiam Por este mundo. Gotas singelas. Brotar a flux No coração De cada ser. Onde sofri E onde eu vi A dura guerra. Gotas pequenas Como as brilhantes Luzes serenas Das madrugadas Primaveris. . Eram saudados Por mensageiros De amor e luz Do bom Jesus. Lágrimas belas. serenas. chorei. Jóias divinas Do escrínio santo. Primor de encanto Do amor de Deus. Sorri. Por entre flores.

Francisco Cândido Xavier . O Nosso Deus Que abranda o ai Dos filhos seus. Orvalho santo Do amor divino Que dá ventura. Que a alegria E a paz envia À Humanidade Tão sofredora. Com a lágrima bela. Que entre os seres do Além é sempre igual. Gemas brilhantes.Parnaso de Além-Túmulo 257 No mesmo anseio santo e superior! Lá não se vê traição e cada qual Urde ali sua auréola de esplendor.Lágrimas lindas São transformadas. As pequenitas Gotas de pranto. Francisco Cândido Xavier . Ricas. Tranqüilidade. Onde impera a bondade do Senhor! . Doce Mansão de Paz. E vi. Em profusão. então. fulgentes E deslumbrantes. Bendito o Pai.Parnaso de Além-Túmulo 256 Alvinitentes. e onde o mal Desaparece ao meigo olhar do Amor. imaterial. Que nem Ofir Pôde possuir. Sejam benditas. Remodeladas Para formarem Belo diadema E aureolarem Os que as verteram Aí na Terra. Felicidade Ao peregrino. Luzente estrela Consoladora! O Céu Pátria ditosa e linda.

País dos Céus. aonde o pecador. O mau discípulo Era uma alma Formosa e bela: Fúlgida estrela De puro alvor. A morte é um sono doce. basta crer Na Paz do Céu. que se antevê. Disse Jesus A quem vivia Em meio à luz: “Filho querido. um dia. Onde há trégua à tristeza e ao padecer.. Depois de bem sofrer aí a dor.. Mansão de claridade e pulcritude Francisco Cândido Xavier . na provação. Iluminadas Do Criador. Imenso e lindo. na Terra apetecida. Nem o pranto pungente por se ver Um ser amado em horas da partida!. Que habitava Qual uma flor O espaço infindo. a Luz e a Vida. Estremecido. Vai ali encontrar Consolação.Parnaso de Além-Túmulo 258 Onde os bons. Onde brilha a Verdade e onde o Bem É o fanal reluzente que conduz. Porém. Pelo poder da Fé.Porto de Salvação para quem crê Nessa Praia do Azul. Para se achar o Amor. Venturosa região do espaço Além. Gozam do afeto extremo de Jesus. Nessas regiões Onde há mansões Purificadas. Dos meus afetos! Tu necessitas Buscar a Vida Em meio às vagas Das provações! . Morrer Não mais a dor intensa e desmedida No momento angustioso de morrer. que adoraram a Virtude.

teu Jesus. porém. sofrer. do Mal. Francisco Cândido Xavier . Luz do Senhor – O sumo bem. Do sacrifício!. Mas vencerás Se bem souberes Te conduzir Nesses caminhos Entre prazeres.Dentro das lutas. A grande luz Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 260 Que eu. É que verei Se o que ensinei Ao teu valor. Sorrir.... Já te mostrei A lei do amor. somente A luta amara Lá nos prepara Para vivermos. Ao regressar. Tens a fraqueza Da imperfeição Aqui.. Mágoas e dores. Aproveitaste E assimilaste Em benefício Da lei do amor. Por entre espinhos. Tranqüilamente. A dor. Tu lutarás. Risos e flores. Conquistarás A grande paz. E se aprenderes Saber viver.Parnaso de Além-Túmulo 259 Tredas disputas Do Bem. Reservarei E hei de guardar Para a tua alma. Nessas moradas Iluminadas .

Tu viverás Entre os brasões Das ilusões Da Terra impura. Pra conquistares A luz. Caminha avante. A boa estrada E com carinho Francisco Cândido Xavier . Dos que padecem Sem conhecer Sequer abrigo Onde isolar-se. Onde guardar-se Das fortes dores Que acometem .Do nosso Pai! Luta e trabalha Singelamente Nessa batalha Que te ofereço.Parnaso de Além-Túmulo 261 Sempre a mostrar-te A caridade Com toda a luz Que ministrei Ao teu pensar. E ora conduz Teus sentimentos. o amor Do teu Senhor. À perfeição Do coração. Teus pensamentos. Conhecerás Lindas riquezas Iluminando E te ensinando O bom caminho. Na deslumbrante Rota do amor! Espalha o olor Que já plantei E fiz brotar. Sê sempre amigo Dos sofredores. Que cultivei Dentro em teu ser.

Parnaso de Além-Túmulo 262 Ambiciosos. Desses palácios Materiais. e ria Francisco Cândido Xavier . Francisco Cândido Xavier . Frios. Em mensageiro Do Deus de amor. Se assim fizeres E procederes. Rútila e pura Aqui no Céu. Assim darás À Humanidade O testemunho Da caridade Do teu Senhor!” A alma formosa Então desceu Para lutar. Sempre cumprindo Os teus deveres. A conquistar Maior ventura. Ainda criança. Sê a Bondade Entre a maldade Dos homens feros. Era adorado.Os sofredores. Pecaminosos. Dos venturosos. Lindos. Proporcionando À rica gente Que o habitava Os belos gozos. . nasceu Num lar ditoso. austeros. Régio. formosos. Onde a alegria Reinava. Então. Mas irreais.Parnaso de Além-Túmulo 263 Constantemente. Tornar-te-ás Em verdadeiro Anjo da paz. faustoso.

Cruel e altivo A Humanidade Não praticando Mas renegando A caridade. Ganhou saber Nobilitante. O que aprendera No Infinito E prometera Ao bom Jesus. Na Academia Dos homens sábios. Rico alcaçar Dos abastados. Tornou-se esquivo. Na mocidade. Tudo esquecera Em detrimento Do sentimento Que então trouxera. Refugiou-se Na vã Ciência. Belo esplendeu. Naquele lar.Felicitado Nessa abastança. Despreocupou-se Com a consciência. na existência. O infeliz ser . Ele então era A primavera Dos áureos sonhos Dos pais amados! Assim cresceu. Cheio de luz.Parnaso de Além-Túmulo 264 A lei de Deus. A luz brilhante Dessa ciência Que. Faz com que a alma Se torne egoísta E refratária Francisco Cândido Xavier . Ele esplendeu No vão saber. Por planetária.

Sempre espalhou. A relegar.Viveu dos lábios. Assim. Suas idéias Tristonhas. feias. Os desprezou. fulgir. Como um ateu. Seu coração Jamais viveu! Foi uma flor. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 266 Em profusão. brilhou. cumprir Sua missão. Somente amando Sua ciência Enganadora. Nossa esperança Encantadora. E da existência Da própria alma Por fim descreu. Os próprios filhos. Filho do Mal. Dele esperando Sua ventura. Nunca buscou. A imensa luz Espiritual. . Fulgiu.Parnaso de Além-Túmulo 265 A lei do amor. Só procurou Brilhar. Foi refratário Ao próprio afeto Dos pais que o amavam E idolatravam Com mór ternura. Nunca estancou Uma só lágrima. Mas sem olor. Mas renegou Francisco Cândido Xavier . Do ateísmo Desventurado. Suaves brilhos Da nossa vida.

Nunca pensou Uma ferida. Cruel. A Parca fria. Porém. Tristes abrolhos No pensamento! Olhou o abismo Do pessimismo . Ele acordou Do seu letargo. Sentiu seus olhos Enevoados. Do sono amargo Em que viveu. um dia.Parnaso de Além-Túmulo 267 E dolorosa. viveu Só na Ciência. avara Francisco Cândido Xavier . De quem fugia Sem compaixão! Enfim. Nessa existência Que passa breve!. O arrebatara Nessa escabrosa Escura via. infeliz. Jamais o quis. num grito. Que brota n'alma Desiludida. Onde. Ao descerrar O negro véu Do esquecimento. A morte amara. Não consolou O que sofria. E o conduziu Para o Infinito. O ingrato teve Mil ocasiões De praticar Boas ações E espalhar O amor e a luz Que o bom Jesus Lhe concedera: Mas.

E assim cumprir O teu dever. Tu renegaste E desprezaste A inspiração Do Deus de Amor! Tua missão Que era amar Francisco Cândido Xavier . Francisco Cândido Xavier . então.Em que vivera. Pelo viver Que demandaste. Lembrou de Deus. Abandonado. Íntima voz Disse-lhe então: “Ó mau discípulo. Dentro da dor.Parnaso de Além-Túmulo 269 E assim curar A alheia dor. Amargurado Na aflição! Somente. Jamais soubeste Te conduzir. Do seu amor. assim. Sentiu-se. Em luz perdida. Em quem eu pus Todo o esplendor Da minha luz. agora. Foi convertida . Por isso. Do meu amor! Tu te perdeste Por teu querer.Parnaso de Além-Túmulo 268 A implorar Da luz dos Céus Consolação! Das profundezas Do coração. Minhalma chora Ao ver que és Mísero ser. Por onde sempre Se comprazera.

Dos próprios seres Que te adoravam. Que então devias. então. À perfeição. O grande amor – Fraternidade.. E até negaste A existência Da própria alma..Em fero braço Esmagador.Parnaso de Além-Túmulo 270 Constantemente. Do coração Do miserável. E o pranto atroz Jorrou. Foste um ingrato E eu te julgara Um lutador Intimorato. O abafaste Como se fosse Assaz mesquinho. À região Da pura luz! Sempre esqueceste Os teus deveres. Que mais te amavam. .” Calou-se a voz. Quando só ele É o caminho Que nos conduz À salvação. Entre alegrias. Entre lamentos E dissabores. Continuamente. Ser execrável Que não soubera E nem quisera Compreender O seu dever. Foste inimigo. Oferecer À Humanidade. A consciência! Francisco Cândido Xavier .

A lamentar A sua cruz! Jamais alguém Quis escutá-lo. A pobre mão Sempre estendeu Pedindo o pão. Desamparado. Ele chorou E lamentou.Padecimentos. Só encontrava Consolação . Triste pousou Sobre o lugar Onde pecou. Pedindo luz.. Desanimado. muitas vezes. Frios horrores.. Supliciado. Sofreu. Espezinhado Na sua queda. Seus desenganos Na senda triste.Parnaso de Além-Túmulo 271 O mundo inteiro. Assim lhe era Retribuído. O mesmo bem Que ele fizera. E. Que assim trilhara Na perdição. Fatal. O seu olhar. Envergonhado. Correu sozinho Francisco Cândido Xavier . amara. Por muitos anos. Perambulou Qual Aasvero. E o pobre Espírito Desiludido. clamou. Amargurado. Qual caminheiro A quem negassem Um só carinho.

Disse ao Senhor Numa oração: “Ó Mestre Amado. Cruel e atroz. Tão justo e santo. Pois não cumpri O meu dever!. Até que um dia Em que sofria. Dá-me o acúleo Da expiação. Fui a grilheta Da impiedade. Sabes do pranto Das minhas dores. sem flores... Mas tu que és bom. Ó bom Jesus! E mesmo assim. Eu me perdi Por meu querer. Formosos. Experimentada. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 272 Que derramava Em profusão. . Mais padecia A dor feroz. E hás de acolher Minha oração Cheia de fé!.Nas lágrimas tristes Francisco Cândido Xavier . No meu viver Sem luz. santos. Tendo comigo A tua luz... Extenuada No atro sofrer. A alma triste E solitária. Cheia de unção Por entre prantos.Parnaso de Além-Túmulo 273 Pobre calceta Da iniqüidade. Sei que hei pecado E transgredido As tuas leis.

O meu desejo É só voltar À Terra impura Onde eu pequei. Hei conhecer O que é sorrir! Quero existir Desconhecido. Sempre viver Na singeleza. Mas só trazer No coração Todo o amargor Da privação. Não quero ver O dealbar De uma esperança.Parnaso de Além-Túmulo 274 Nem um só dia Dessa alegria Que desfrutei. Não quero ter Francisco Cândido Xavier . Árido e seco Pelo vergel Enflorescido. Onde se encontra Maior ventura. Então serei Ramo perdido. O próprio lar. jamais. Para ofertar À criatura O grande amor Que lhe neguei.Para que seja Exterminado O meu orgulho. Oh! dá-me agora A nova aurora De uma existência De provação. Incompreendido Em minha dor. Quero sofrer Dura pobreza. Não quero ter. Nunca. .

Parnaso de Além-Túmulo 276 Neste planeta. Francisco Cândido Xavier . Viver somente Pela voxagem . Nessa batalha Que empreenderei. portanto.. Eu só almejo Compreensão Para mostrar O teu perdão. Só é formosa.. Agora eu vejo Que na existência A grã ciência Só é grandiosa.Conhecerei A dor cruel Que nos retalha O coração. Quero com ardor Bem conquistar A perfeição! Serei.Parnaso de Além-Túmulo 275 E conquistar A luz. Claro e sublime Para o meu crime. Quando aliada Da caridade. Quero ganhar Francisco Cândido Xavier . Nos turbilhões Incandescentes Das amarguras. Cruéis e duras Das aflições. O puro amor. Ó bom Jesus. o pão. Como a violeta Sob a folhagem. Com meu trabalho. Ó Mestre Amado! Eu lutarei E chorarei Nas rijas dores Mais inclementes. O agasalho.

” E o Mestre Amado.. perdido. E sempre ter Em mim bondade. Do Criador! Na estrada de Damasco . Oferecendo-lhe Ocasião Para tornar-se Mais venturoso E sempre digno Do seu perdão. Incomparável. Seja bendito. Quero sofrer Com humildade. O bom Jesus.Das desventuras. Compadecido Do pobre Espírito Dilacerado. Feliz dulçor Da caridade!. queridas. Enfim.. Belas. Escuta a prece De quem padece. Fazendo assim Desabrochar O dealbar Das alvoradas Iluminadas De muitas vidas. com sua luz E terno amor. Pelo infinito Desenrolar E perpassar Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 277 De toda a idade. Deu-lhe o perdão. A permissão Para voltar À antiga arena – Luta terrena. Que. Para lutarmos E nos tornarmos Dignos do Amor Inigualável.

Foi sem demora Então chamado .Parnaso de Além-Túmulo 279 A seu agrado. E conquistares Sempre o poder Dos triunfantes. Ser imperfeito Se achasse embora. Francisco Cândido Xavier . Bem satisfeito. Aos semelhantes Em vez de amá-los Tais como irmãos. Maior coragem Para ganhares Sempre vantagem No teu viver. Glorificado De grão-senhor!” E o pecador. E se quiseres Tornar-te um rei Da imensa grei Da Criação.Parnaso de Além-Túmulo 278 “Homem. E assim lhe disse: Francisco Cândido Xavier . Faze-os vassalos No teu reinado. tu és Senhor potente. Chamou o homem Jatancioso. Rude e cioso Do seu poder E vão saber. É só viveres A procurar Mais dominar Os elementos A transudar Nos sentimentos. De parceria Com o Orgulho. Grande e valente Aqui no mundo.Num certo dia A Ambição.

risonhos. Que tudo vê. e o bom Deus Que está nos Céus.Por um juiz De retidão. A este mundo Ingrato e feio A redimir. Nesta existência De provação. O solo amado Do eldorado Dos belos sonhos. O Criador. O Filho amado Que à Terra veio. Que então lhe diz: “Mas. Nosso Senhor. E o bom Jesus. Mestre da luz. Do teu viver. Lindos. Nunca negar A tua mão. A relegar Toda a maldade. Para que um dia Te fosse dado Reconhecer. O Deus de amor. Assim. Sabendo assim Quanto a tua alma Dele descrê? Ele é o teu Pai. E espalhar Somente amor. procura Melhor ventura .Parnaso de Além-Túmulo 280 Tu deves dar. Com alegria. Que é a Consciência. E assim banir O teu pecado? Ele te amou E te ensinou Que ao teu irmão Francisco Cândido Xavier .

Cruéis espinhos. E o tal Jesus.Parnaso de Além-Túmulo 281 Isso seria Obedecer E se humilhar. Seguir Jesus Em sua dor. Tendo o poder Pra dominar. Acompanhar. E ele havia Aqui nascido Só para ser Obedecido. Enquanto ele Só te oferece Amargas dores. Em sua cruz!” Mas. Com sua cruz E seu calvário Somente foi Um visionário. Assim. Achou estranho Esse conselho: Rigor tamanho Não poderia. Francisco Cândido Xavier . buscou E perguntou Aos companheiros. o tal homem Tão orgulhoso. Lhe responderam No mais profundo Do coração: – “Esse conselho É muito velho! Deus é irrisão. então.Em só buscar. Tristes agruras. Nós concedemos Ao teu valor . Eles. Que já se achava Bem poderoso. Desolações. Em seu amor.

Grandes venturas Nesses caminhos Quem mais souber Gozar e rir. Nessa oficina Grande e divina Da Criação. A eterna obreira. Lindos brasões.” E assim.Parnaso de Além-Túmulo 283 O homem fraco E miserando Mais se exaltou E se jatou. Onipotente. A lapidária. Chegou a Dor Humildemente. sofrer. quando Francisco Cândido Xavier . O louco amor Do teu Jesus. E pois. Mais saberá O que é existir.Francisco Cândido Xavier . .Parnaso de Além-Túmulo 282 De grão-senhor Sublimes flores. A vida aqui Só é formosa Para quem goza. Ao caos medonho Do mais não-ser. Essa é apenas O frio nada. assim. Porque a morte Tão renegada. Vale o gozar Constantemente. Há de levar Esse teu sonho De amar. Exprime a dor E não a luz. Pois vindo a Parca Bem de repente. A mensageira Da perfeição.

Só encontrou O juiz reto.Parnaso de Além-Túmulo 284 Na submissão Do coração Ao sofrimento. Até enojado Do corpo seu: Apodreceu O seu tesouro.Fê-lo abatido E desolado. então. E o homem-rei Reconheceu Que o paraíso Dos sãos prazeres Vive nas luzes Só da virtude. A fatuidade Da vil matéria! Na atroz miséria Dessa agonia. Depois. O Magistrado Incorrutível Da consciência. De mui sofrer E padecer Na expiação. . Na mansuetude. Na caridade. Francisco Cândido Xavier . Só procurou Buscar se via Os seus mentores Enganadores. Reconheceu A nulidade. No cumprimento Dos seus deveres. Na humildade. Quando aprouver Ao Deus de Amor Oferecer Rude amargor Ao nosso ser. Altivos filhos Da veleidade.

Lhe fez com ardor Ao coração Ermo de afeto. A eterna luz. . que nos conduz À divina alegria. Contemplará Francisco Cândido Xavier . Nessas mansões. Para o enganoso. Para o Bem exalçar. Efêmero gozo Do material.E que. Em conseqüência. Porque verá. Pois sempre esquece Os seus deveres E se submerge Nos vãos prazeres. pura e santa. Para a alegria Fatal converge O seu viver. a lira se levanta Glorificando o Amor que em Deus transluz. Com a maioria Da Humanidade. A mais tremenda Acusação! É o que acontece Em toda a idade.Parnaso de Além-Túmulo 285 Indescritível. Do eterno amor Do bom Jesus. num brado Francisco Cândido Xavier . A esquecer Tudo o que seja Espiritual. de amor e luz. Feliz de quem Aí procura Maior ventura No sumo bem. No ditoso país onde Jesus Impera com bondade sacrossanta. Ermo de amor. Parnaso de Além-Túmulo Além do túmulo o Espírito inda canta Seus ideais de paz.Parnaso de Além-Túmulo 286 Todo o esplendor.

Francisco Cândido Xavier . responde-me sem demora. Roubou-me o sonho – deu-me o penar. Hinos das esperanças espargidos Sobre os homens. da esperança. Ó linda estrela que adorna o céu. Missão que é toda só de alegrias: Flores reparto cheias de orvalho. Oh! se o conheço. E dos seus cantos.Parnaso de Além-Túmulo 287 A Morte ingrata.” Disse-lhe a Lua – “Eu sei do encanto. Fitou a estrela que lhe sorriu.. E das ausências conheço o pranto. tornando-os mais unidos. Angústia materna “Ó Lua branca. fitando o céu – Dize-me. Flores que afastam as agonias. martirizada. Do Senhor tenho doce trabalho.. . Cheio de vida...” – “Quase te odeio. suave e triste. Continuava.“ – “Mas não o avistas – responde-lhe ela – Naquela estrela que tremeluz? Abre teus olhos. extasiada. . Se tu soubesses. Francisco Cândido Xavier . sempre a chorar: Em qual estrela cheia de aurora Foi o meu anjo se agasalhar?. Sou eu no mar do éter infindo. Lua serena. luz de alvorada.Dessa Castélia eterna da Harmonia Transborda a luz excelsa da Poesia. É bem aquela Que anda cantando no céu de luz... Como era grácil. ouviu: – “Ilha pacífica. Na ascensão para o Belo e para o Amor.Parnaso de Além-Túmulo 288 Do sofrimento mato a lembrança E abro o futuro. feliz. fria e impiedosa. Deixou vazio meu doce lar. que encantador Meu anjo belo como a açucena.” E a Mãe aflita. Lua. Deixou minhalma triste e chorosa..A Mãe pedia. Dum filho amado que a gente tem. Sentiu-lhe os raios. – “Então. Que a Terra toda inunda de esplendor. cheio de amor!. ditoso e lindo. conheço-o bem!. se acaso viste Nos firmamentos o filho meu. .

. Aqui é tudo felicidade. Faço-te um ninho ditoso e belo. Aqui em tudo floresce a vida.. se me detestas... alguém me disse. cheia de flores!. mãezinha amada... estranhamente. Contudo eu te amo e pergunto: quem Não tem saudades das minhas festas? O teu anjinho teve-as também.“ Aí os olhos da desditosa Nada mais viram do Eterno Lar. sorrindo.Parnaso de Além-Túmulo 289 Não resisti. também há fontes.Parnaso de Além-Túmulo 290 Eu acredito que tenhas ido Pedir a Deus. Num belo raio de luz. Lamentos do órfão Minha mãezinha. Senti a falta desta alvorada!. Aqui terminam os dissabores.. Jardins e luzes e fantasias. pôs-se a chorar. menos saudosa. A Terra amarga. Paz e ventura. banhada em pranto. Porque tu guardas o filho meu. Notou de logo seu filho lindo. Vida risonha.” – “Se tu me odeias.. triste sem mim. Francisco Cândido Xavier . Sóis rebrilhando nos horizontes. Tanta era a saudade! Voltei do exílio.. . Muito pertinho do amor de Deus!. se mais não pude Ficar contigo na escuridão. Senti a falta das primaveras.. Todo vestido dum brilho santo.Gritou-lhe a pobre desconsolada. na estrela. Disse-lhe o filho – “Tive deveras Muita saudade. tristonha e rude. carícia e amor! Ó mãe. Já não me embala tua meiguice. fugi da dor... Que tu te foste. Envenenava meu coração. que possui a luz. perdoa. Em mim a noite não tem guarida. Daqui te vejo. Aqui.” A mãe saudosa. E. daqui eu velo Pelo sossego dos dias teus. castelos e melodias. Viu-se mais calma. Francisco Cândido Xavier . Sonhos. E não podias partir assim.

E me respondem em voz suave: Francisco Cândido Xavier . Multiplicando meus pobres ais.. Diz-me que vens e diz que te vê. te beijar. pergunto à ave.” Pergunto à fonte. Quando regressas dos Céus supremos.Que de mim faça.. Ó mãe querida. E me conforta. Somente a mágoa vem-me afagar. E abraço o espaço. ai! não voltas. saudoso e triste. Nem para dar-me consolação. Outros meninos alegres vejo. à minhalma: “Além na luz! Na luz do Além!. que mágoas soltas Andam cortando meu coração. Que sofro e choro. mas.. Que me fugiste sem me levar. Só noutra vida.” Pergunto à flor que engalana a aurora. se eu choro: “Eu vou chamá-la para você. mãe.” Sempre te espero. Um dos seus anjos. só noutra vida!.. De nos meus braços.” Somente a nuvem.Parnaso de Além-Túmulo 291 “Nós não sabemos! nós não sabemos!. Inquiro o vento: – “Quando verei Minha mãezinha boa e querida?” E o vento triste diz-me: – “Não sei! .. consoladora: “Depois da morte serás feliz.. Sem esperanças de te encontrar. Há quantos dias que te procuro. Numa alegria terna e louçã.“ O mar e a noite me crucificam.. . grave.. minha mamã!” Sinto um anseio sublime e santo. outro Jesus. Cheios de angústias. E ela retruca.. quando eu imploro. Quando é que voltas desse país. do teu querido.” E digo ao sino na tarde calma: “Onde está ela. Tudo é saudade no coração. Tudo é silêncio tristonho e escuro. meu doce bem?” Ele responde. ambos replicam: “Tua mãezinha não volta mais. Que te procuro chamando em vão!. . Que exclamam rindo dentro dum beijo: “Como eu te adoro. beijo o meu pranto. Mas tanto tempo faz que partiste. do céu.

Tremo de anseio. no entretanto.. Bondade Vê-se a miséria desditosa Perambulando numa praça. espera a ventura Com fé. E passa o gozo. Para quem segue triste e sozinho. como um jasmim! Porém conheço que estás aflita. calo. Sempre a meus olhos. Ajoelhada.. Volta depressa! guardo-te flores. banhada em pranto... Tua alma é réstia de luz Dos eternos firmamentos..Parnaso de Além-Túmulo 292 Qual uma rosa. Com o pensamento junto de mim. Foge comigo para outra luz!. Sentindo o anélito do teu beijo. sorrio.Parnaso de Além-Túmulo 293 Responde-lhe com brandura: – Meu filho. ao gosto amargo. Já não suporto tantos cansaços!. muito ao largo. E ela chora. Mas abro os olhos no ar vazio! Vai-se-me o sonho. entrego-me ao meu desejo.. estás bonita Francisco Cândido Xavier . Quanta amargura. Então.Tanta saudade. Sob o seu manto de desgraça Clama o infortúnio abrasador. Junto da fonte que canta e ri. Eis que a Fortuna se lhe esconde. Se teu corpo é lama e pus Em meio dos sofrimentos.. Se não voltares. Vejo-te linda nos sonhos meus. com perseverança. Sou uma pútrida ferida Sobre o mundo desditoso! Mas o anjo da esperança Francisco Cândido Xavier . Porque só vivo pensando em ti: Celebraremos nossos amores. O leproso Dizia o pobre leproso: Senhor! Não tenho mais vida. E de mãos postas aos pés de Deus.. Que sinto esparsa pelo caminho! Que mágoa eterna! que desventura. pede a Jesus Que te conceda pôr-me em teus braços. . e.

Francisco Cândido Xavier . No meu viver. Pedir a quem. à luz dessa manhã. Que me ensinaste .Parnaso de Além-Túmulo 294 Oração A Ti. Se sofro e choro. Cuja bondade Me sorri E me conduz À imensidade Da perfeição? És a piedade Divina e pura Que à criatura Dá luz e pão. Diz-lhe. portanto.Parnaso de Além-Túmulo 295 Consolo santo. Meu coração Imerso em dor Aflito vem. Bem sei. somente. De Ti eu quero Me aproximar! Francisco Cândido Xavier . Senhor. Para o meu pranto Venho implorar. É porque andei Longe do Amor. Chega-te a mim: sou tua irmã.O seu destino. a sorrir: – Tens frio e fome? Pouco te importe qual meu nome. Senhor. Pedindo o bem E a salvação. E a fada. O Amor é a lei. Mas eis que alguém a reconforta: É a bondade. Abre-lhe a porta. Em Ti. Se me demoro No padecer. Senão a Ti. a sua dor. O impenitente Na expiação. Sou eu. Confio e espero. Pedindo a luz.

Senhor. Compadecei-vos.. Deste mundo de tormentos. Cheio de unção. Elevo a prece Do coração. Ditosamente. Acorre à Morte por dar-lhe a Vida. Senhora.. Francisco Cândido Xavier . No esquecimento do próprio ser. E vem a Vida por dar-lhe a Dor. A Ti. E mais adiante topa a Desgraça. Depois. Mãe piedosa!. Paz e perdão! A Fortuna Anda a Fortuna por uma praça. Vaidosa e bela. Oração Vós que sois a mãe bondosa De todos os desvalidos Deste vale de gemidos. E altiva e rude lhe esconde a mão. Assim.Parnaso de Além-Túmulo 296 Fala à Ventura com riso irmão. e já sepultada. Escolhe sempre flores do vício. De tão grandes sofrimentos. dá preferência Ao torpe egoísmo acomodatício. da bonança. Sublime estrela que brilha No céu da paz. dos desgraçados.E que deixaste Aos irmãos teus! Pra que eu pudesse. cansada e já comovida.Parnaso de Além-Túmulo 297 Dos pobres. Quando só pede luz e amor. . contente. E entre as virtudes. Rogando amor. na existência. Buscar os Céus. Do céu de toda a esperança – Maravilha! Maria! – consolação Francisco Cândido Xavier . Como perdida. E assim prossegue na desmarcada Carreira louca do vão prazer. Dos corações desolados Na aflição.

Dai paz a toda discórdia. Que vos possam compreender. Sobre tanta desventura.. E às estrelas sucedem-se as estrelas! Soneto Como outrora. Além da morte. a nova aurora Luminosa e divina se levanta.Que apavora. Tende na vossa fé a bíblia santa. Pois tendo ouvidos não ouvem.Parnaso de Além-Túmulo 298 E de todas as criaturas Carinhosa Providência! Que os homens todos vos amem. Que sois a terna clemência Francisco Cândido Xavier . Trégua à dor!. Tanto pranto! Concedei-nos vosso amor. E em vossa luta o bem de cada hora. O coração tocado de agonias.. Ó corações que a lágrima devora. dos oprimidos Deste vale de gemidos. Vida e morte – exultai ao bendizê-las! Esperai nos tormentos mais profundos. A vossa misericórdia. Vós que sois Mãe carinhosa Dos fracos.Parnaso de Além-Túmulo 299 O Mestre chora como Jeremias. . a vida tumultua. entre ovelhas desgarradas. Além Além da sepultura. Prisioneiros da dor que fere e espanta. Lá palpita a beleza onde a alma canta. Mãe bondosa! Oração: Pai de Amor e Caridade.. Livrai-nos do abismo tredo Dos males. A luz do amor que vibra e revigora. E vendo não querem ver. Francisco Cândido Xavier . Estendei o vosso manto De bondade e de ternura.. dos amargores. Protegei os pecadores No degredo. Que a este mundo sucedem-se outros mundos. O trabalho divino continua.

Do caminho de lágrimas sombrias. Rumo ao país ditoso da bonança.. A terra da união e do conforto. Francisco Cândido Xavier . irmãos! Desdobrai as vossas velas!.Vendo o mundo nas lutas condenadas. Vinde. estranho e aflito. Nos caminhos translúcidos da Crença. Feliz o coração que espera e ora. Sempre a miséria e a dor nos vossos dias! Sempre a treva nas míseras estradas. Nunca olvideis a Excelsa Claridade.. pela oração profunda e imensa. É a fonte cristalina em que descansa A alma humana fraca. Mas. Que suaviza os rigores da existência. Demorando as vitórias do Evangelho. Vós que chorais ao coro das procelas. Fraternidade Fraternidade é árvore bendita.Parnaso de Além-Túmulo 300 Enquanto o mundo anseia. Que reside convosco em noite escura. Preces infindas e desesperadas.. Cujas flores e ramos de esperança Buscam a luz eterna que se agita. errante e aflita... Não vos sufoque o horror da tempestade Fraternidade é o derradeiro porto.. É a luminosa bem-aventurança Da mensagem de Deus. em todos os tempos é a vaidade No egoísmo da triste Humanidade. pura e divina. pura e infinita!. . Que habitaremos na Imortalidade... A prece alcança as bênçãos do Infinito. Dois milênios contando o grande ensino Do Amor. Toda oração é a doce quinta-essência Da esperança ditosa e peregrina.. Lembrai a chama Vós que buscais além da sepultura A resposta de luz da Eternidade. A Prece O Senhor da Verdade e da Clemência Concedeu-nos a fonte cristalina Da prece. Sabendo contemplar a eterna aurora Do Além. Filha da crença que nos ilumina Os mais tristes refolhos da consciência. o luminoso bem divino. Sobre as desolações do mundo velho.. água do amor.

. Rogamos acendais a Luz da Vida.. O Evangelho.” É que na alma sincera dos meninos Há uma luz de ternura.. Vós. Ó torturados corações humanos. Ante os desfiladeiros da impiedade. Em toda parte fulge uma alvorada Que ao roteiro dos Céus nos reconduz. Na noite de Natal – “Minha mãe. que tendes a fé que ama e consola. Cheio de amor e grandeza. Senda de paz e de felicidade. amor e graça.Parnaso de Além-Túmulo 302 No Templo da Educação Distribuía o Mestre os dons divinos Da luz do seu Espírito sem jaça. Já que buscais mais crença junto a nós! Se quiserdes brilhar nos Outros Planos. Deixai que o Cristo nasça dentro em vós. É a escada de Jacob vencendo o abismo. de amor e de humildade! As conquistas morais são toda a glória Que a alma busca na vida transitória. Mas os túmulos falam pela estrada. por que Jesus. Em direção à Fonte Eterna e Pura. E exclama. Fazei do vosso lar a grande escola De justiça. na luz do Espiritismo. Tendes convosco a Chama Adormecida.Parnaso de Além-Túmulo 301 Somos todos a Grande Humanidade. Trazendo ao mundo o verbo de Jesus. Preferiu nascer no mundo Nos caminhos da pobreza? . Pelos caminhos da imortalidade. Somos em toda parte a criatura Buscando os dons supremos da Verdade.. De que o Senhor da Paz quer que se faça O sol da nova estrada dos destinos. Não sabe o coração da Humanidade Beber dessa água límpida do Amor. Francisco Cândido Xavier . – “Deixai virem a mim os pequeninos!. Nos caminhos da lágrima e da dor. Na luz das luzes do Consolador. enquanto a turba observa e passa. Eterna mensagem Ainda e sempre o Evangelho do Senhor É a mensagem eterna da Verdade.Francisco Cândido Xavier .

e todo o seu pensamento convergia para o bem da Humanidade.Parnaso de Além-Túmulo 304 37 José do Patrocínio JOSÉ do Patrocínio nasceu em Campos. A alvorada feliz de um mundo livre e novo. aos 9 de outubro de 1853... jornalista. Do Amazonas ao Prata ergue-se a Deus um hino Que exalça no Evangelho a grandeza de um povo! Fustiguemos o mal. sublime. Francisco Cândido Xavier . impetuoso político e grande orador. Entre flores e alegrias. Estado do Rio de Janeiro. meu filhinho. das graças do templo aos sarcasmos da rua. nem recua. de olhos fixos Na luz do céu que sorria. poeta. Erige a liberdade augusta e soberana. sem proteção. E.. A incompreensão do amor. Mas a luz do Senhor não teme. Na ansiedade e na dor.Parnaso de Além-Túmulo 303 – “Acredito. se engalana. Às vezes. no entanto. A luminosa humildade!.. além da noite que se adensa. Que a Manjedoura revela Ensino bem mais profundo!” E a pobre mãe.. Irmãos do meu Brasil. romancista. Descortinando. Num berço todo enfeitado De sedas e pedrarias?” Francisco Cândido Xavier . Por não lhe abrirmos na Terra As portas do coração. Farmacêutico. escura e desumana. encantado e divino. Em terna melancolia: – “Por certo.Parnaso de Além-Túmulo 305 38 . Não mais senzala hostil. Jesus ficou Nas palhas. Nova Abolição Prossegue a escravidão implacável e crua. continua Em domínio cruel de que a treva se ufana. Foi uma das figuras máximas na campanha abolicionista. em tudo e por tudo. penso também Nos trabalhos deste mundo. E desencarnou a 29 de janeiro de 1905. Concluiu com sentimento.” Francisco Cândido Xavier . combatendo a descrença. membro fundador da Academia Brasileira de Letras.. Que o Mestre da Caridade Mostrou.Por que não veio até nós.

o mais além da Terra. Santificado. A chave procurar do enigma que encerra A paragem da morte. Senhor. Prisioneiro da mágoa. Volve ao sono cruel da tua carne obscura. Francisco Cândido Xavier . Onde fulgura o sol do verdadeiro amor. amortalhado em dor! Mas depois a oração libertou-me da pena. deixou um livro – Fel – que apareceu poucos dias antes da sua morte e foi prefaciado por Forjaz de Sampaio. Vai com o teu padecer sobre a estrada sombria. Musa amargurada.. Perambula na dor da tua noite aziaga. ao pé do corpo imundo.. Que em todo o Universo exprime . que estás nos Céus. E minhalma elevou-se à rutilante estrada Onde o Espírito encontra a paz que tanto almeja.Parnaso de Além-Túmulo 306 Soneto Pouco tempo sofri na Terra ingrata e dura Onde o mal prolifera. Henrique Perdigão classifica-o como o “Cantor da Tristeza”.José Duro POETA português. Francisco Cândido Xavier . Seja o teu nome sublime. voar para a mansão serena. onde perece o amor. Até que um dia a morte amiga e benfazeja Apodreceu meu corpo em sua mão gelada. nasceu em 1875 e desencarnou em 1899. Escravizado ao pranto. A vida é vibração ilimitada. Amassa com o teu pranto o pão de cada dia. Aos homens Volta ao pó dos mortais. Pai de todos os aflitos Deste mundo de escarcéus. E o seu grande mistério existe em toda parte. homem que vens. Porque a treva e o sofrer sempre hão de acompanhar-te! Reconhece o quanto és ignorante ainda. a triste senda escura. depressa. Tomé. Entre a sufocação de um sonho superior E a esperança na morte. coloca as mãos na tua própria chaga. Na luz dos sóis infinitos. Onde o sonho termina e a vida recomeça.Parnaso de Além-Túmulo 307 39 José Silvério Horta Oração Pai Nosso. Para depois ouvir a voz da sepultura. Algum tempo eu sofri. E pude. agrilhoado ao mundo. então. infinda.

di-lo um comentador. Assim que deixara a orgia No castelo. Perdoa-nos. as suas qualidades primaciais de prosador. Com a proteção de Jesus. Nos Céus. A edição póstuma de Poesias exaltou. A uma vida de aspereza Num canto doce e singelo. Venha ao nosso coração O teu reino de bondade. notabilizou-se mais como romancista.Concórdia. Francisco Cândido Xavier . A amar nossos irmãos Que vivem longe do bem. Francisco Cândido Xavier . no carinho Do pão espiritual. O Esposo da Pobreza Francisco de Assis. principalmente com As Pupilas do Senhor Reitor... Livra a nossa alma do erro. Sobre o mundo de desterro. Cumpra-se o teu mandamento Que não vacila e nem erra. um dia. nascido em 1839 e desencarnado na cidade do Porto. em 1871.Parnaso de Além-Túmulo 308 Os débitos tenebrosos. Dá-nos o pão no caminho. Entregou-se à Natureza. também. pois que o seu nome é Joaquim Guilherme Gomes Coelho. Onde se faça a vontade Do vosso amor. Com este pseudônimo. Que a nossa ideal igreja Seja o altar da Caridade. De passados escabrosos. Feito na luz. De paz e de claridade Na estrada da redenção. ternura e amor. Distante da vossa luz. Assim seja. meu Senhor. Auxilia-nos.Parnaso de Além-Túmulo 309 40 Júlio Diniz POETA português. Nos sentimentos cristãos. De iniqüidade e de dor. como em toda a Terra De luta e de sofrimento. . sem embargo de possuírem os seus versos um certo encanto melancólico. Evita-nos todo o mal.

Esquece as imperfeições! . Quem alivia e consola. Emprega toda a tua vida Na doce faina do bem. Nos celeiros da fartura. Saltando de galho em galho. E nas horas de repouso. ouve. Buscando a graça do orvalho. Vai.Abandonara a vaidade. Que não fiam. As aves que não trabalham E no entanto se agasalham. Buscando a paz da humildade.. Francisco Cândido Xavier . inda via. E sobretudo. Recebe também a esmola Das luzes do meu amor!” Francisco chorava e ria. conforta os desgraçados. Que é a grande felicidade De todos os corações. Via a terra enverdecida Exaltando a força e a vida. . Com roupagens que parecem Vestidos de Serafins.. Francisco. Francisco em estranho gozo A voz de Jesus ouvia: – “Filho meu. ninguém Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 311 A sacrossanta harmonia Do coração sofredor. doce e pura. E em divinal alegria Via os lírios e os jasmins.Parnaso de Além-Túmulo 310 Vai aos Céus sem a bondade. Tem tesouros de esplendor No terno amor de Jesus. Que não tendo amor nem luz. Flagelados pela dor. A santa luz da harmonia. A seiva misteriosa No seio dos vegetais. faze-te esposo Da pobreza desvalida. que não tecem. E a ânsia cariciosa Das almas dos animais. Sedentos e esfomeados. Bênção do Céu.

Submerso o coração Em sublimes alegrias. quanto eu quisera Unir-te toda à poesia. Poesia Poesia da Natureza Embalsamada de olores. As criancinhas sorrindo Na alegria das manhãs. imaginai A Natureza celeste Longe da Terra sombria. Entretanto. Entregou-se às harmonias Vibrantes da Natureza. Fragrâncias. amenidade. Poema de singeleza Esplendente e delicada. Das lindas sebes floridas Nos dias primaveris: Radiosidade e frescura. Jovens felizes amando Entre arroubos de ternura. alacridade Dos cenários pastoris! As cotovias cantando. das margaridas. Caridosa ventura No abril das almas irmãs. Ó Terra. Tornou-se o amparo da dor E guiado pelo amor Fez-se o Esposo da Pobreza. À mesma santa harmonia Que te prende à luz dos Céus.Parnaso de Além-Túmulo 312 Aromas. Na glória do Eterno Dia Do reino de Nosso Pai. Nessa mesma primavera . As ovelhinhas balindo. então. Tão cheia de desventura.. Como raios de alvorada Cheia de luz e perfume! Suavidade e doçura Das rosas. Ornamentada de flores Que os meus encantos resume. Francisco Cândido Xavier ..Francisco de Assis. Belezas de canto agreste Nas urzes da Terra escura.

A fome lhe bate à porta... Com as pétalas orvalhadas.. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 313 Aves e anjos Passarinhos.. Ao levantar-se da cama.. Hino terno de esperanças Das aves e das crianças. Lares de amor doce e brando. Sorrindo.Dos rutilantes espaços. Francisco Cândido Xavier .. Vai-se com a luz misturando.. Chamaram-lhe – “Béranger brasileiro”... Ao acordar. etc. É um vulto literário inconfundível no cenáculo do seu tempo. com 95 anos de idade. Pequeninos trovadores Entre as árvores e as flores. Açucenas perfumadas.. Toca a vida a despertar: O pobre se pôs há muito. Sorrindo. Cantando. Sem descanso.. Cantando. Silvio Romero. ele escuta O coração a gritar: “Quem não trabuca não come.. anjos suaves. Aconchegados nos ninhos. Tecendo as horas serenas Das alegrias terrenas... Sua musa foi elogiada por Castilho. em 1931. Cantando.Parnaso de Além-Túmulo 314 41 Juvenal Galeno NASCIDO em Fortaleza e desencarnado na mesma cidade. Persegue-lhe a precisão. impondo-se justamente pela naturalidade e espontaneidade do seu estro. Machado de Assis.. . José de Alencar. Em que me sinto nos braços Do amor sagrado de Deus. Inda é espessa a escuridão. Mimosas quais bandos de aves Cortando um céu claro e lindo. passarinhos.. Pobres Mal clareia o Sol a serra. a labutar. Crianças. Sorrindo..

Parnaso de Além-Túmulo 316 Ao patrão que sempre o tem.Parnaso de Além-Túmulo 315 Pertencem ao seu patrão. Luta e sua. então. Tudo ajeita. Rasga a terra. tudo faz. O estômago pede mais. Arde a terra. Mas o patrão avarento Não adianta vintém. Plenamente contentado Com o pouco do seu suor. queima o Sol. Vem a seca sem piedade E o pobre espera chover. Mas se quer repetições. Quando a semente germina E os ramos querem crescer. se sofre dor. E sempre resignado. As plantas já se amarelam. Aguarda a minguada espiga Que decerto há de ficar. Que cuide dos mandiocais. Redobra o pobre os serviços. Arrasta-se e vai ao médico . feijão. corta os matos. Então. nos seringais. não tem paz. Quando o pobre vai à mesa. Deus lhe dará no outro ano Uma colheita melhor. Contudo. porém. Planta o milho. Ah! que a água já está pouca Nos rios. O pobre nunca descrê. O certo é que ao fim do tempo De constante batalhar. couves. o seu trabalho.Já chega de repousar!” Busca. Nada existe no paiol. resolve pedir Francisco Cândido Xavier . Não vem a chuva. Se geme. planta a cana. Três quartas partes de tudo Francisco Cândido Xavier . Batatas. Espalha o pé nos gerais. ele espera sempre Do Deus que o ama. que o vê. Não possui um só real Pra consultar um doutor.

Que amargosa a sua dor! A todo o instante da vida Luta o pobre sofredor. Trabalha para comer. Dá-lhes porém seu tesouro. E em vez de pão. o chá. . O braço amigo de alguém. Se bate à porta do rico.Parnaso de Além-Túmulo 317 Se tem saúde. E põe em prática os meios: As beberagens. Francisco Cândido Xavier . Os vinhos de jatobá. E pensa nos outros meios Da saúde lhe voltar. Nem terrenos. Se a morte vem ao seu ninho E lhe rouba o filho. A Justiça o encarcera Com a sua reprovação. Que o padre cobra demais. Regressa para o seu lar. Sublime estrela que brilha Da mais rica devoção – A prece que nasce d'alma. Mesmo assim. Se lhe falta o pão do dia Falta azeite no candil. Se outrem lhe ofende e ele pede Da Justiça a punição. quem o ajude. Não tem casas de morada. os pais. ganha pau. Os cães o tocam da porta.E lhe expõe o seu sofrer: “Não tem recomendações? Então não posso atender. As promessas aos seus santos. Mormente dum rico mau. Que fulge no coração. Ai! que sorte rude e amarga Do pobre sempre a sofrer: Se vive para o trabalho.” O pobre. humilde e paciente. não tem Quem o ampare. nem ovil. Se tem pão não tem saúde. Não lhes pode dar a missa. O pobre só tem na vida A doce mão de Jesus. quanta tortura.

A morte não quer saber. amor. Mal do pobre se não fora. De quem precisa por certo. Se tem pratas no baú. Que o conforta na desgraça E ampara na provação. Nem a sua profissão Não lhe pergunta qual é. O carinho dessa mão. Não lhe pergunta qual é A sua religião. Não se importa com ninguém Que chore ou que se lastime.Que o cura na enfermidade. . Se tem mais fé com o demônio Do que mesmo com Jesus. Se pratica o mal ou o bem. Francisco Cândido Xavier . Ela vem buscar alguém. Após a morte. Sextilhas Quando a morte chega em casa. Se tem pai e se tem mãe. ventura.Parnaso de Além-Túmulo 319 Nem procura examinar Se tem filhos ou mulher. Não quer saber se ele tem. Se esse alguém vai-se casar. A casa faz alarido. Se aquele que vai morrer É branco qual uma garça. Se Sancho. O povo está reunido Quando a morte chega em casa.Parnaso de Além-Túmulo 318 Parece até que se arrasa Sob as chamas de um incêndio. onde existem Justiça. Esteja distante ou perto. Pedro ou José É o seu nome de batismo. Mal dele se não houvesse A vida depois da dor. Que na treva lhe dá luz. A morte não quer saber Se é preto como urubu. Ela vem buscar alguém. Não quer saber se ele tem Uma candeia com luz. Francisco Cândido Xavier .

beleza e dor. O cristão ou o pecador Ela conduz sem ruído. O que segue vai com unção.. Saúde. Nem tão boa coisa é. Nem homem alegre ou triste. Com receio de ir ao fundo. Nem mulher bonita ou feia. para o rico Nunca tem contemplação.. Não perde tempo em clamor. Para a morte não existe. De cá Que amargo era o meu destino!... Como o corvo bate o bico Por cima de um peixe podre. É ele mesmo quem faz. Viver na Terra e somente Remando contra a maré. Francisco Cândido Xavier . Esta vida de sofrer Trinta dias cada mês. Para o pobre. Nem procura examinar. Tristezas no coração. Ela vem de supetão Para o pobre.. Em atenções e conversas. Mas para mim que só fui... Na tempestade ou na paz. . Leva sem tempo perdido O cristão ou o pecador. Há quem estime? Talvez.Parnaso de Além-Túmulo 320 O que segue vai com unção... Tateando dificilmente No meio da escuridão. Entremeados de prantos.Nada disso a morte quer. Essa questão de ficar Com Satanás ou com Deus.. Rogando com fervor terno Ao santo da devoção Que o afaste do diabo E dos horrores do inferno. Mas ele mesmo é quem faz Os prantos ou gozos seus. Para a morte não existe Anéis de grau de doutor. para o rico.

galé. Salta aqui. Tantas misérias sentir. Jogar pérolas a tolos. Professor e poeta. Da treva. no Estado do Paraná. Nem tão boa coisa é. do desconforto. Marchando com destemor: Ver o rico andar de coche E o pobre correndo a pé. Não é possível porque. Surgem constelações do Novo Dia . em junho de 1950. Ver uns rindo e outros chorando.Parnaso de Além-Túmulo 321 Das vidas cheias de dor.. Nem tão boa coisa é.. Meus irmãos de Fortaleza. Não vou gastar minha cera Com tanto defunto ruim.Parnaso de Além-Túmulo 323 42 Leôncio Correia LEÔNCIO Correia nasceu em 1865.. Ah! morrer e ainda sentir Saudades da escravidão. O mal sufocando o mundo. Já não é próprio de mim.Galeno sem nó. Nas guerras de toda parte. deixou inúmeras obras. Da carne. Casar-se com a desventura Nem tão boa coisa é. Pobre filho da ralé. Do Crato. Sentir as disparidades Francisco Cândido Xavier . do Canindé. Tantas dores em conjunto. salta acolá. Nas secas do Ceará. Nem tão boa coisa é. Mas falar demais agora. Nem tão boa coisa é. Saudade Ante o brilho da vida renascente Depois da névoa estranha. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 322 Patetice é ensinar Verdade aos homens sem fé. e desencarnou no Rio de Janeiro.. densa e fria. da ingratidão. O pranto ferve na Terra. Francisco Cândido Xavier .

Flores Exóticas. Francisco Cândido Xavier . conta em sua bibliografia Poemetos.. fora dos meios culturais.Parnaso de Além-Túmulo 324 43 Lucindo Filho NASCIDO em Minas Gerais a 16 de agosto de 1847 e falecido em Vassouras a 10 de junho de 1896. Virgilianas. O poeta desencarnou no século passado e o médium é deste século. Mundos celestes. e desencarnado em Lisboa com 53 anos de idade. Que a sepultura em cinza escura e fria É a nova porta para a eternidade. e conquanto fosse intelectual de prol. A alma vitoriosa entoa hosanas. Entre suas obras. onde ele tem precioso jazigo. jornalista. nascido no Rio de Janeiro. esmagado de angústia e de carinho. a seu tempo. é hoje um nome esquecido. exceto uma senhora que. Não mais a noite.. oferecido pela população local. Latinista de prol. Ao compasso do Amor e da Harmonia. Francisco Cândido Xavier . jubilosamente. lhe assistira aos funerais.Parnaso de Além-Túmulo 325 Não lamenteis quem parta ao fim do dia. revendo o velho ninho E as aves ternas que deixei no mundo!. etc... Ante a grandeza Da glória excelsa eternamente acesa Volvo à sombra letal do abismo fundo! E. Francisco Cândido Xavier . 10 Esta produção surgiu de improviso no curso de uma reunião familiar em que se não cogitava de assuntos espíritas.Muito longe da Terra descontente.Parnaso de Além-Túmulo 326 44 Luiz Guimarães Júnior POETA brasileiro. A beleza profunda e peregrina. Ninguém ali o conhecera nem dele se lembraria. comediógrafo e diplomata. Mas.. Carimbos. Choro de amor. Sem sombras 10 Junto ao sepulcro onde a saudade chora E onde o sonho das lágrimas termina. em menina. em 17 de fevereiro de 1845. ai! pobre de mim!. Médico. Sem as sombras das lutas desumanas. Foi jornalista. Abre-se a porta da mansão divina Entalhada em reflexos de aurora. Ébria de paz e de imortalidade. em Vassouras. Envolvida na luz esmeraldina Da esperança que vibra e resplendora. reinos de alegria E impérios da beleza resplendente Cantam no Espaço. compositor musicista e tradutor renomado. vive em tudo. agora.. .

sobressai Sonetos e Rimas. e os mesmos seres que me haviam Ofertado na Terra amores santos.. Divinal era a luz que resplendia. Nas esteiras de prantos esquecidos. Envoltos em ternuras e em carinhos. aos tempos bonançosos. Novamente no Além me ofereciam Lenitivo às agruras dos meus prantos. em 1929. Francisco Cândido Xavier . e vasta colaboração na Imprensa. etc.. Soneto Na escuridão dos anos procelosos. membro da Academia Brasileira de Letras. Acharia nos céus maravilhosos. Foi membro da Academia Brasileira de Letras. Nova era a vida. Lírica. Poeta de grande e viva inspiração. Clarão de paz ao pobre caminheiro! No limiar das amplidões da Altura Penetrei. Pairar no Além!. De volta.. Não te percas na lágrima sombria Da tormenta de anseios e amargores! . Voltei. conta em seu acervo bibliográfico Ondas (3 volumes). nascido a 4 de maio de 1861 e desencarnado na cidade do Rio de Janeiro.Parnaso de Além-Túmulo 328 45 Luiz Murat FLUMINENSE. Francisco Cândido Xavier . Soluçando empolgado de ventura. Eu quisera voltar aos tempos idos Da juventude. Bacharel em Direito. que ainda hoje se lê com encanto. volver ao lar primeiro. Nas carícias risonhas dos caminhos.. Além ainda. Ressurgido em perene mocidade. Sara (poema). Da velhice nos dias mal vividos.. Em revérberos lindos de alvorada.Noturnos. Mal podia julgar que inda outros gozos Mais sublimes que aqueles já fruídos. vislumbrando a Imensidade. nova a estrada Que minhalma extasiada percorria. Busquei contente a paz que me sorria No fim da áspera senda palmilhada. Caminheiro que vais ao fim do dia Demandando o crepúsculo das dores.Parnaso de Além-Túmulo 327 Voltando Após a longa e frígida nortada Da existência no mundo de invernia.

Além da sepultura principia O caminho dos sonhos redentores. Ao sofrimento ou ao bem-estar. Desolado viajor.. distante. Aureolada de eternos resplendores.. e faleceu. aos 41 anos de idade. naquela mesma cidade. deixando. Apagou-se a candeia transitória E a verdade refulge envolta em glória. Aqui o incluímos... Residiu durante algum tempo na Capital Federal. Estado do Rio. A antevisão do fim de toda a vida Obscurece a tela derradeira E a noite escura se distende à beira Da suprema esperança desvalida.. A vida é o eterno bem que nos foi dado. Nunca te isoles Nunca te isoles entre os mananciais da vida. Foi um atormentado pelas enfermidades. Guarda a esperança carinhosa e linda! Vence a longa jornada dos abrolhos. E a saudade é a tristonha mensageira Que engrinalda de angústia a despedida.. Um golpe.. onde colaborou em vários jornais. e excelsa clarinada Anuncia outra vida renovada. à rua dos Voluntários. a lágrima dorida Resume as ânsias da existência inteira. . de justiça. atenta a magnitude do seu estro.. além ainda. Um sonho. de poesias: Bandolim e Sombrinhas e Postais. Na alvorada perene da harmonia.. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 329 46 Luiz Pistarini LUIZ Pistarini nasceu em Resende. Publicou dois livros. no começo do ano de 1918. inédito. No estranho portal No último instante. Para que o multiplicássemos indefinidamente. porém. E a alma que se abandona... Fundou e dirigiu a revista A Crisálida e o jornal O Domingo.Parnaso de Além-Túmulo 330 47 Marta ESTE Espírito não pôde ou não quis identificar-se.. Aos clarões imortais do Novo Dia. ergue teus olhos! Não te prendas somente ao chão tristonho. um terceiro: Agonias e Ressurreição. Francisco Cândido Xavier . Brilhando além da lápide sombria. Que o país luminoso do teu sonho Fica ao alto.

Indumentos de flores perfumosas E frutos aos milhares. Sorrir aos infelizes. E a qual há de nos dar Sombras amigas para descansarmos. dar luzes.. Que se estende infinita no Infinito.. Francisco Cândido Xavier . que é Pai bondoso..É um deserto sem oásis. Porque os nossos espíritos São unos na essência. Atenuar a dor alheia. dar carícias. Terras e almas. Ler a sua epopéia feita de astros. Agradecer a Deus.. as alvoradas. Ter a bondade ingênua das crianças. Multiplicar a vida É amar sem restrições A flor. O firmamento. Onde outras almas sentem fome e sede. Cujas mãos magnânimas e misericordiosas Espalharam com abundância Nas vastidões imensuráveis do éter. Todos nós somos fragmentos Da mesma luz gloriosa e eterna Da sabedoria inescrutável Do Criador. Tudo o que nos rodeia.Parnaso de Além-Túmulo 332 As quais no divino equilíbrio do Amor . Infinitas e esplendorosas. os corações. É guardarmos a semente Da Vida Em leivas verdejantes. Dar um pouco de gozo se gozamos. Tecer o fio eterno da esperança Por onde se sobe ao Céu. Tudo isto é amar multiplicando a vida. Dar sorrisos. Unidade Todos nós somos irmãos. Francisco Cândido Xavier . Dar a lição de paciência se sofremos.Parnaso de Além-Túmulo 331 Dar tudo quanto temos. a ave. o luar. Bendizer o caminho que nos leva Da treva para luz. Para nutrir as nossas alegrias Nos jardins estelares.

Em nome do Senhor de todos os latifúndios do Universo.. Somos as frondes que se interpenetram De uma só árvore genealógica.Buscam a perfeição indefinida.“ “Filha – respondeu compassivo –. Sem egoísmos. O qual. Só há um recurso: . por uma disposição inexplicável.. Lá dentro. mais além Das fronteiras planetárias. Francisco Cândido Xavier . Um dia penetrou os seus umbrais Uma alma que regressava da Terra. Tão amargos pesares. Tenho os meus olhos vendados E uma treva incomensurável na consciência! Apaga os meus atrozes padeceres!. Pontificava o Anjo da Justiça. “Anjo Bom! – disse-lhe a alma súplice – Eu tenho a minhalma coberta de feridas cancerosas! Cura-me as chagas purulentas do remorso. Na suprema unidade De aspiração para a felicidade. Porquanto.Parnaso de Além-Túmulo 333 No Templo da Morte O templo da morte tem portas incontáveis. Todos nós somos irmãos. pois. da Terra O caminho comum da vossa salvação. Como incontáveis são as almas humanas. O mesmo sonho. Somos filhos de um só Pai. . Cuja raiz insondável Está no coração augusto de Deus. Encerra em si Todos os mundos. Pela porta escura do remorso. Todas as almas Todos os seres da Criação! Fazei. E infinitos seus estados de consciência. Para sanar tão estranhas feridas.. Vivereis dentro de sagrados coletivismos. A mesma dor na luta A prol da redenção. Espiritualmente. Porque nutrimos indistintamente A mesma aspiração do Belo e do Perfeito.

Francisco Cândido Xavier . E depois de haver percorrido Tão tortuosos caminhos. A fonte que desaltera todos os sofredores. Apegai-vos a Ele.. Submergiu-se no regato encantado.Volta à Terra! Lá existe o Regato das Lágrimas. Elas serão o teu bálsamo consolador E curarão a tua cegueira... Jesus Jesus foi na Terra A mais perfeita encarnação do Amor Divino. E te conduzirá ao lugar bendito onde existem as lágrimas salvadoras!. É para a Humanidade A promessa da Paz. Nos dias amargurados que transcorrem. cheios de confiança! Francisco Cândido Xavier . O manto protetor Que abriga os aflitos e os infelizes.Parnaso de Além-Túmulo 334 Ele há de te guiar através das sirtes do mar encapelado dos sofrimentos. de cuja fonte límpida promana a Salvação.” E a pobre regressou. Banha-te nas suas águas cristalinas. Penetrou no templo misterioso da morte Pela porta maravilhosa da Redenção. Ouvi a sua voz .. Banhou-se na água lustral dos tormentos. As sementes do arrependimento Que hão de florir na Regeneração E frutificar na perfeita felicidade espiritual. Estás na escuridão absoluta Pela ausência da luz.. do bem na tua alma! Mas o Anjo da Dor irá contigo. Conduzida pela Dor.Parnaso de Além-Túmulo 335 Ele é a misericórdia personificada. O pão que sacia os esfomeados das verdades eternas. E nos seus braços magnânimos e compassivos.. Inçados de perigos E de dores amargas. Reconheceu o luminoso Anjo da Dor.. O Jardineiro Bendito Que jorra no coração Dos transviados do caminho do Bem.. E ainda hoje.

Lembra esse dia que te espera Na indefinível primavera Gloriosa de amor. Que sonham e choram. Que constituem os atributos maravilhosos da tua imortalidade. No eflúvio peregrino Que mana fartamente Dos espaços imensos!. – A bússola das suas mais caras esperanças! Quando sofreres. Buscando Deus. És alma em ascensão para Deus. Que promana Do empíreo constelado Para todas as almas que oram. suave. Se a fraqueza te envolve em seus tentáculos.Parnaso de Além-Túmulo 336 São fulcros de luz imperecível. Lembra-te do Céu És uma estrela caída Sobre os pauis da Terra. Longe das lágrimas Do orbe obscuro.. A sombra da árvore luminosa Das boas ações que praticastes. Busca aspirar esse aroma divino E tua alma sofredora Sentir-se-á envolta na beleza. Na amargura e na dor.. Dos prantos e das provações remissoras!. A tua inteligência e o teu sentimento Francisco Cândido Xavier ..Parnaso de Além-Túmulo 337 Ao pé do altar . doce..No silêncio da consciência que vos fala Do cumprimento austero De todos os deveres cristãos! E um dia Descansareis reunidos.. E sentirás uma carícia branda. Que se desfazem como as neblinas aos beijos leves do Sol. Por que te abates e desanimas sob os aguilhões da carne perecível? Contempla o Alto.. Ligados pelos liames inquebrantáveis Da fraternidade além da morte. Francisco Cândido Xavier . Acima de todas as coisas transitórias. Misteriosa.

Quando as penitências mortificavam O meu corpo alquebrado e dolorido E a oração Era o conforto do meu coração. do repouso. A irmã consoladora.. Se ama a prece e a pureza. Não te retires. Francisco Cândido Xavier . Mas se entrevês os Céus E as suas maravilhas. Está sempre em meio às tentações Para vencê-las. Sê a abnegação e a bondade serena.Parnaso de Além-Túmulo 338 A solidão da cela é um crime.. Juraste fidelidade só a Deus. Darás a Deus. sem reserva. a tua alma Amando o próximo. Não faz longas e inúteis orações: Ela é a serva de Deus E as suas preces fervorosas São feitas com as suas mãos carinhosas. Não te esqueças que a Caridade. Que pensam no coração da Humanidade Todas as chagas abertas Pelo egoísmo. Não permanece No recanto das sombras. do mundo. Que contigo é seu filho dileto.Eu vivia no Claustro. O anjo que nos abre as portas da Ventura. . pois. A Esperança mais linda. Esmagá-las com o Bem. Se tens a Fé mais pura. Na sombra silenciosa dos mosteiros. A tua esperança em Deus Será dilatada. Destruí-las com Amor. A companheira terna De todos aqueles que te rodeiam Na estrada longa dos destinos comuns. E a tua Fé Será um hino constante subindo aos Céus. Mas um dia. Será um hino constante subindo aos Céus. Disse-me alguém: “Minha filha. Sê a mãe desvelada.

Porque a verdadeira paz de espírito É conquistada No seio das lutas mais acerbas. – Somente a Dor em sua essência pura Nos desvia da amarga desventura.Para que vislumbres as felicidades celestes Que esperam os justos na Mansão da Alegria. Todas as preces maternas Ascendem aos Espaços Como um doloroso brado de angústia a Maria. Vertidos na corola imensa das dores. E só a dor que nos crucia Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 340 Às mães carinhosas e desprotegidas. E bastam os eflúvios do seu amor sacrossanto . E a rosa sublime de Nazaré Escuta-as piedosamente. É o manto resplandecente Que agasalha os corações das mães piedosas. Purificando os nossos corações Na conquista das altas perfeições. Estendendo os seus braços tutelares Francisco Cândido Xavier . É a consolação Que se derrama puríssima Sobre os prantos maternos. Desprezando o repouso e a soledade. Que orvalham com lágrimas benditas As flores do seu amor desvelado. Mãe das mães Maria É a Mãe piedosa De todas as mães resignadas e sofredoras... Atraída pela Verdade. Sonhando com a luz do trabalho Em outras vidas benfazejas. Perseguidas pelo infortúnio No sombrio orbe das lágrimas e das provações. Amarguradas e infelizes. atropeladas pelo mal. Espezinhadas pelo sofrimento. Meu corpo não resistiu Aos cilícios que o martirizavam E minhalma tomada de emoção Abandonou-o.Parnaso de Além-Túmulo 339 Ou a dor que consolamos. Fustigadas pelo furacão da desgraça. brandamente. Dos mais rudes pesares.

Buscando o porto esperado com ânsia. em cântico divino Do trabalho imortal. e desencarnou em 1926.Para que as consolações se derramem Cicatrizando as feridas. Honra ao trabalho Trabalha e encontrarás o fio diamantino Que te liga ao Senhor que nos guarda e governa. Para que o Brigue da Esperança. cheia de piedade e Pelas nossas fraquezas. E sendo o arrimo de todas as criaturas. luta e contentamento. Da beleza do herói ao verme pequenino. Francisco Cândido Xavier . Com as suas velas alvas e pandas. Porque se apegaram A âncora da Fé. Ao seu olhar compassivo. Autor de inúmeras obras literárias. Tudo se agita e vibra. . pois. Júbilo de ajudar. A Virgem da Pureza Francisco Cândido Xavier . Balsamizando os pesares.Parnaso de Além-Túmulo 341 – Mãe das mães. Como náufragos de uma tormenta gigantesca. sobretudo.Parnaso de Além-Túmulo 342 48 Múcio Teixeira MÚCIO Teixeira nasceu em 1858. Buscando a solução da dor e do destino. Que não se perderam no abismo das águas tenebrosas Do mar da iniqüidade. Ela é a personificação do amor divino No vale das sombras e das amarguras. Que nos ampara e guia em nossa cruz. Levando-nos ao Céu. Veleje tranqüilamente. Desde o fulcro solar ao fundo da caverna. É. Lenindo os padeceres Das mães desoladas.. Pulverizam-se os rochedos do mal Do oceano da vida de desterro e de exílio. que encontram nela O símbolo maravilhoso de todas as virtudes!.. Maria é o anjo. brunindo a vida eterna!. Ante cuja grandeza o mundo se prosterna. no Estado do Rio Grande do Sul.. Tudo na imensidão é serviço opulento.. Da salvação das almas que sofreram Nos torvelinhos do mundo.

que trêmula se entrega.Parnaso de Além-Túmulo 344 Soneto Por tanto tempo andei faminto e errante.. no teu portal a alma tateia.Parnaso de Além-Túmulo 343 49 Olavo Bilac NATURAL do Rio de Janeiro. Jesus!. Jesus ou Barrabás? Sobre a fronte da turba há um sussurro abafado. Espia. Que os prazeres da vida converti-os Em poemas das formas. Francisco Cândido Xavier . – e a resposta perpassa Como um sopro cruel do Aquilão da desgraça. instante a instante. Para a consumação dos festins do pecado. Toma da cruz da dor para que a dor ficasse Como a glória da vida e a vitória suprema. inquire o brado Da justiça sem Deus. Que o trabalho. Impassível. “Crucificai-o!” – exclama. inquire. implacável e cega. E debaixo do apodo e ensangüentada a face. em prece. Um lamento lhe chega Da Terra que soluça e do Céu desprezado. Jesus! Jesus!. cheia De incerteza na esfinge que tu plasmas!. sonda e chora. Vê descer da amplidão o Arcanjo da Agonia.... A multidão inteira. Trabalha e serve sempre. Sem que o Anjo da Paz amaldiçoe ou gema. Surda à lição do amor. No derradeiro sono. por si.Desde a flor da montanha às trevas do granito. ansiosa se congrega. Sobre o meu peito em febre. ao seu tempo. Sócio fundador da Academia Brasileira de Letras. No Horto Tristemente.. Francisco Cândido Xavier . alheio à recompensa. Morte. é a glória que condensa O salário da Terra e a bênção do Infinito. . em sombrios Pesadelos da carne palpitante. nasceu em 16 de dezembro de 1865 e aí faleceu em 1918. “Jesus ou Barrabás?” – pergunta. Jesus fitando os céus. Considerado.. Cuja mão luminosa e terna lhe trazia O cálix do amargor.. Vi fanarem-se anseios como fios De ilusão transformada em sopros frios.. vacilante. o Príncipe dos Poetas Brasileiros. duríssimo e refece. descerras aos aflitos Uma visão de mundos infinitos E uma ronda infinita de fantasmas.

E Jesus abençoando aquelas almas cegas. murmura: – “Que se cumpra no mundo o arbítrio do Senhor!.“ Aos descrentes Vós. não sabem o que fazem!. Na doce mansidão dos seres pequeninos.. de Paz e de Alegria. da cruz. Sob os gládios da dor aspérrima. Alma doce e submissa... E sublime na fé mais vivida. amargamente. De imolar-se por fim nas aras desse Amor. afastai-o!. Que de olhos cegos e de ouvidos moucos Estão longe da senda iluminada. Responde humildemente: – “É assim que tu me entregas?” Vendo as coortes do Céu nas fímbrias do horizonte.. meu Pai. de dor e desventura. A crucificação Fita o Mestre. Derramai com piedade a lágrima terrestre!” Mas eis que Judas chega e lhe diz: – “Salve. Que lhe mana da luz do olhar clarividente. Sobre tudo se estende o raio dessa chama. que seguis a turba desvairada.– “Se puderdes. Trazei a vossa vida imaculada e pura! O Amor há de vos dar todos os dons divinos.” O beijo de Judas Ouve-se a voz do Mestre ungida de ternura: . .Parnaso de Além-Túmulo 346 A negra multidão de seres que ainda ama. Mestre!” E toma-lhe das mãos. a multidão fremente. E em vez de suplicar a Deus para a injustiça O fogo destruidor em tormentos que arrasem. – Raio de eterno sol na senda dos destinos. Mas eis que todo o Azul celígeno estremece. E do céu se desprende uma doirada messe De bênçãos aurorais. .” – dizia. As hostes dos descrentes e dos loucos.. Eterna irradiação que atinge a mais escura Estrada de aflição. derrama As lágrimas de fel do pranto mais ardente. Lança os marcos da luz na noite primitiva. Francisco Cândido Xavier . eu vos dou meus últimos ensinos. meu Pai. Soluça no silêncio.“Amados. Francisco Cândido Xavier .. osculando-lhe a fronte..Parnaso de Além-Túmulo 345 Paira em todo o recanto a vibração sonora Do Amor e o Mestre já na sede que o devora. Contempla a vastidão celeste que o reclama. Sente a Mão Paternal que o guia na amargura.. Gritos e altercações! Jesus. E clama para os Céus em prece compassiva: “– Perdoai-lhes..

. Sem a idéia falas do grande Nada. redivivo.Parnaso de Além-Túmulo 348 Tombe no caos do nada. Aspirações do mundo miserando. a lei.. onde a esperança sem repouso Luta. e sonha presa. sofre e soluça. Da Índia misteriosa e dos louros do Egito Ao fausto senhoril de Cartago e de Roma! . Espera a luz esplêndida do gozo Das sínteses de amor da Natureza. depois das derrocadas. O Livro Ei-lo! Facho de amor que. brancos os cabelos. Debilmente pulsando. O templo.. O Espírito imortal.Retrocedei dos vossos mundos ocos. anela e sente. sem cárcere mesquinho! Francisco Cândido Xavier . Ressurreição Extinga-se o calor do foco aurifulgente Do Sol que vivifica o Mundo e a Natureza. quando. Os mistérios da fé. Que entorpece. adora. Apague-se o fulgor de tudo o que alma presa As grilhetas do corpo. Numa ressurreição de eternas alvoradas. Sente o beijo de glória do Infinito!. Estertore e soluce exausto e moribundo. Sol eterno na glória do caminho! Ideal Na Terra um sonho eterno de beleza Palpita em todo o espírito que. com desvelos. Começai outra vida em nova estrada. Nas lágrimas de dor do peito aflito!. É ansiedade perpetuamente acesa No turbilhão medonho e tenebroso Da carne. ansioso. assoma Desde a taba feroz em folhas de granito. Guardadas com ternura. o coração do mundo. fulcro de luz potente. ambicionando a glória. o lar. Ó ateus como eu fui – na sombra imensa Erguei de novo o eterno altar da crença. Mas que o homem realiza apenas. O que o homem pensou num sonho de demente. envenena e mata aos poucos. Subirá para Deus num canto de vitória. os tronos e a realeza.Parnaso de Além-Túmulo 347 Banhai-vos na divina claridade Que promana das luzes da Verdade. Morto à mingua de luz. Rotas as carnes. Da fé viva. Francisco Cândido Xavier .. em túrgida surpresa.

mal desperto. Desalentado e fraco. Do meu desterro amargo e desditoso. tronos. Encerrando consigo. há quem diga não serem da sua lavra. a ponto de ser correntio o conceito de que todo brasileiro é poeta aos 20 anos. a chorar. destrói e se alteia e se ufana. Companheiro fiel da virtude e da História. Da virtude ateniense à grandeza espartana. em láureas de esperança.. Em que a idéia imortal se renova e retoma. corrige. entretanto. Guia das gerações na vida transitória. porém. Eis. Brasil Desde o Nilo famoso. o que se não poderá negar é a estreita afinidade destes sonetos com os que. O Livro é o coração do tempo no Infinito. fere. O coração em úlceras aberto. alma boníssima. Com o coração pulsando. Ignoramos por que Dom Pedro 2º. na América nascente. na aura fagueira. O Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho. estar já perto Do pátrio lar risonho e bonançoso. Acende nova luz em novo continente Para a restauração do homem exausto e velho. nações. de Dom Pedro. De qualquer forma. vibrátil e espírito culto. Francisco Cândido Xavier . Bastas vezes sentia. Disputando o poder e denegrindo a raça. conhecemos. Em vão plantando o amor que o ódio despedaça. experimenta. não pudesse fazer o que fizeram e fazem tantos outros patrícios nossos. aberto ao sol da graça. valoroso. com Zoroastro e Buda.Parnaso de Além-Túmulo 349 E brilha com Jesus no Evangelho Divino.Parnaso de Além-Túmulo 350 50 Pedro de Alcântara O ÚLTIMO imperador deixou alguns sonetos. estuda. Com Hermes e Moisés. É o nume apostolar que governa o destino. Meu Brasil Longe do meu Brasil. bem o sabemos. E deplorava o rumo escuro e incerto. triste e saudoso. Francisco Cândido Xavier . sem repouso. E aparece o Brasil que. ensina. . tudo se esfuma e passa.Vaso revelador retendo o excelso aroma Do pensamento a erguer-se esplêndido e bendito. avança. Mas o torvo dragão da guerra soberana Ruge. O anjo triste da paz chora e se desengana. Tribos. que o Senhor. Enviava. Pensa. que..

no mundo. Rogativa Magnânimo Senhor que os orbes cria. que os orbes cria. Povoando o Universo ilimitado. pudesse Arrebatar-me à vida verdadeira. onde tem sua esperança. Até que a acerba dor. enfim. novamente viva sob o brilho.Minhas recordações em terna prece Ao torrão que adorara a vida inteira. lindo ou singelo. Acalentando o sonho de revê-lo. Soneto No exílio é que a alma vive da lembrança. e voando sobre extremos. É a saudade na ânsia mais pungente De retornar à pátria idolatrada. Que.Parnaso de Além-Túmulo 352 Se é mister retornar a um novo exílio. Se. Com o pensamento ansioso percorremos Nosso amado rincão. Da mesma luz gloriosa que eu amara. Com dolorosas lágrimas avança. Necessitar viver inda algum dia. generoso.. Seja o Brasil. Nada faz com que o nosso desprezemos. E ao sofredor os raios da alegria. Onde a luz da verdade resplandece. Jaz no desterro a plaga da amargura. Todo o nosso ideal pomos no anelo De regressar. Que regresse ditoso ao solo amado Da generosa pátria que eu queria. Do sonho que teceu e amou na vida. Na celeste ventura prometida. Que dá pão ao faminto e ao desgraçado. . De amaro pranto da alma torturada. de novo. De acerba pena ao pobre penitente. Francisco Cândido Xavier . Para a morte. A alegria no exílio é desventura. lá onde eu desejara Ter vertido o meu pranto derradeiro. Na alcandorada terra do Cruzeiro. Quanto o céu do país em que nascemos. desterrado. Numa doce saudade enternecida..Parnaso de Além-Túmulo 351 No exílio Pode o céu do desterro ser tão belo. E Deus. Francisco Cândido Xavier . Tendo chorosa a vista que se cansa De procurar a pátria estremecida.

Na doce proteção de um povo inteiro Onde a mão de Jesus desce e descansa. Guardas contigo a luz da bem-aventurança. Guardai as claridades da Bonança Na vastidão do solo brasileiro. Onde toda a existência é um hino de abastança. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 354 Transfundi numa só todas as raças. Iluminai a terra da Esperança. no mundo. Amando mais a Terra Brasileira. Espalhando no mundo as bênçãos da Esperança.Na vastidão dos céus iluminados. Bandeira do Brasil Bandeira do Brasil. Símbolo sacrossanto de aliança De paz e amor do Eterno Pegureiro.Parnaso de Além-Túmulo 353 Venho ao Brasil buscar a essência pura Do amor da pátria minha. Página de gratidão Tangendo as cordas da harpa da saudade. No país da esperança e da bondade. Concede a paz ao triste e ao desditoso Na clara luz dos mundos elevados. Prende-me o coração a suavidade Desse arroubo de afeto e de ternura D'alma do povo meu. marcando um novo dia. a grande história Das epopéias da Fraternidade. que idealiza o meu desejo: E tendo a gratidão por companheira. És o florão da paz. Onde. da doçura Da flor cheia do aroma da amizade. Possa escrever. sob a luz da tua glória. Enquanto a guerra estruje indômita e sombria. essa onda intensa e luminosa Da afeição. símbolo da bonança. Volvo ao pátrio torrão de alma saudosa. . na Terra. reserva o eterno gozo Para as almas dos pobres desterrados. Sê nos planos de luta o sinal de harmonia. que de ventura E de alegria o espírito me invade. Francisco Cândido Xavier . Assinalas. cheia de graças. Constelação da Cruz. eu vejo. Do misterioso aquém da morte. Que o Brasil. Oração ao Cruzeiro (No cinqüentenário da Abolição) Luminosas estrelas do Cruzeiro. o país da Alegria. do amor. Sentindo.

membro da Academia Brasileira de Letras. Sonetos . Todo o problema Está na compreensão clara e suprema Do Trabalho. Buscando iluminar as lutas. e desencarnado em Paris a 13 de setembro de 1911.. Brasil Sopra o vento do Ódio e da Vingança. Brasil do Bem Eis que o campo de sombra se esfacela No doloroso e amargo cativeiro Francisco Cândido Xavier . Desde as luzes dos céus à luz dos ninhos! Segue à frente do mundo aflito e errante E alça o pendão pacífico e triunfante. É por isso que Deus. Deus te guarde os tesouros da esperança.Nasceste sob a luz de um bem. Nunca te conspurcaste aos embates do mundo. Onde o Evangelho é o Doce Mensageiro Das bênçãos da Verdade e da Bonança. Grande Brasil do Bem e da Abastança.. a bordo do vapor São Luiz. Mas a terra ditosa da Esperança Vive nas claridades do Cruzeiro. na baía de Mangunça. alto e fecundo.Parnaso de Além-Túmulo 357 51 Raimundo Correia NASCIDO a 13 de maio de 1859. Faze o bem. guarda a luz dessa vitória. Meu Brasil. do Amor e da Verdade. pode sem favor considerar-se um dos maiores poetas da sua geração. Mas na amplidão do solo brasileiro Outra expressão de vida se revela N'alma caridosa.Parnaso de Além-Túmulo 355 Da guerra que ameaça o mundo inteiro. além de justo e bom. Como a doce promessa nos caminhos!. Magistrado. Francisco Cândido Xavier . heróica e bela. esmaltado de estrelas. Aniquilando a Paz do mundo inteiro.. ao vivê-las. Deu-te um corpo auri-verde onde a paz canta e vibra. Francisco Cândido Xavier . Que se engrandece ao brilho do Cruzeiro. Embora o Amor Divino do Cordeiro Seja a fonte da Bem-aventurança.Parnaso de Além-Túmulo 356 Ama a Deus. que te ampara e equilibra.. litoral do Maranhão. E um coração azul. Que é o mais belo florão de tua glória Nos caminhos da espiritualidade. Qual furacão no auge da procela.

1
Tudo passa no mundo. O homem passa
Atrás dos anos sem compreendê-los;
O tempo e a dor alvejam-lhe os cabelos,
À frouxa luz de uma ventura escassa.
Sob o infortúnio, sob os atropelos
Da dor que lhe envenena o sonho e a graça,
Rasga-se a fantasia que o enlaça,
E vê morrer seus ideais mais belos!...
Longe, porém, das ilusões desfeitas,
Mostra-lhe a morte vidas mais perfeitas,
Depois do pesadelo das mãos frias...
E como o anjinho débil que renasce,
Chora, chora e sorri, qual se encontrasse
A luz primeira dos primeiros dias.
2
Ah!... se a Terra tivesse o amor, se cada
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 358
Homem pensasse no tormento alheio,
Se tudo fosse amor, se cada seio
De mãe nutrisse os órfãos... Se na estrada
Do contraste e da dor houvesse o anseio
Do bem, que ampara a vida torturada,
Que jamais viu um raio de alvorada
Dentro da noite eterna que lhe veio
Do sofrimento que ninguém conhece...
Ah! se os homens se amassem nessa estância
A dor então desapareceria...
A existência seria a ardente prece
Erguida a Deus do seio da abundância,
Entre os hinos da paz e da alegria.
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 359
52
Raul de Leoni
FLUMINENSE, nascido em Petrópolis em 1895 e desencarnado
em Itaipava, com apenas 31 anos de idade. Bacharel em
Direito, foi deputado estadual e posteriormente Secretário de
Legação. Entre os talentos da chamada nova geração, a sua afirmativa
nos domínios da Arte Poética pode considerar-se das mais
fulgurantes. Além de Ode a um Poeta Morto, dedicada a Olavo
Bilac, de quem foi amigo dileto, deixou Luz Mediterrânea, considerada
como seu livro de ouro.
Luta
Aí na Terra, as bem-aventuranças
São o sonho que o Espírito agasalha,
Mas, mesmo após a morte, a alma trabalha
Buscando o céu das suas esperanças.

Muita vez, quando pensas que descansas,
Além te espera indômita batalha,
Onde o suposto gozo se estraçalha
Sob o guante acerado das provanças.
Para cá do sepulcro a dor antiga,
Que nos traz o desânimo, a fadiga,
Sob a luz da verdade se atenua;
A febre das paixões desaparece,
O Espírito a si mesmo reconhece,
Mas a luta infinita continua.
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 360
Na Terra
Renascendo no mundo da Quimera,
Ao colhermos a flor da juventude,
É quando o nosso Espírito se ilude,
Julgando-se na eterna primavera.
Mas o tempo na sua mansuetude,
Pelas sendas da vida nos espera,
Junto à dor que esclarece e regenera,
Dentro da expiação estranha e rude.
E ao tombarmos no ocaso da existência,
Nós revemos do livro da consciência
Os caracteres grandes, luminosos!.
Se vivemos no mal, quanta agonia!
Mas se o bem praticamos todo o dia,
Como somos felizes, venturosos!...
Soneto
Não te entregues na Terra à indiferença.
Cheio de amor e fé, trabalha e espera;
Nos domínios do mal, nada há que vença
A alma boa, a alma pura, a alma sincera.
No pensamento nobre persevera
De servir, sempre alheio à recompensa;
O desejo do Bem dilata a esfera
Das luzes sacratíssimas da Crença.
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 361
Vive nas rutilantes almenaras
Dos castelos do Amor de essências raras,
Aspirando os olores da Pureza!...
Terás na Terra, então, a vida calma...
E a morte não será, para a tua alma,
Jamais medonha e trágica surpresa.
Nós...
Nós todos vamos pela vida em fora
Deixando no caminho os mesmos traços,
Em Deus buscando a Perfeição que mora
No cume inatingível dos Espaços!...

Cada instante de dor nos aprimora,
Desatando os grilhões, rompendo os laços
Dessa animalidade atrasadora,
Que procura tolher os nossos passos.
Heróis de novas lendas carlovíngias,
O Sonho imanta as nossas almas, cinge-as,
Na Luz Ideal – o nosso excelso escudo;
Buscando o Indefinível, o Insondado,
Deus, que é o Amor eterno e ilimitado
E a gloriosa síntese de tudo.
“Post mortem”
Depois da morte, tudo aqui subsiste,
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 362
Neste Além que sonhamos, que entrevemos,
Quando a nossa alma chora nos extremos
Dessa dor que no mundo nos assiste.
Doce consolação, porém, existe
Aos amargosos prantos que vertemos,
Do conforto celeste os bens supremos
Ao coração desalentado e triste.
Também existe aqui a austera pena
A consciência infeliz que se condena,
Por qualquer erro ou falta cometida;
E a Morte continua eliminando
A influência do mal, torvo e nefando,
Para que brilhe a Perfeição da Vida.
Soneto
Se todos nós soubéssemos na vida
A Verdade grandiosa e soberana,
Não faltaria o gozo que promana
Dos sentimentos da missão cumprida.
Mas na Terra a nossa alma empobrecida,
Presa dessa vaidade toda humana,
De desgraças e de erros se engalana
Numa incerteza amarga, irreprimida...
Vamos passando assim a vida inteira,
Sem esposar a crença imorredoura,
A fé demolidora de montanhas,
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 363
Quase imersos na treva da cegueira,
Sem vislumbrar a luz orientadora,
Nessa noite de dúvidas estranhas!...
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 364
53
Rodrigues de Abreu
POETA nascido em Capivari, São Paulo, a 17 de setembro de
1899, e desencarnado, tuberculoso, em Campos do Jordão, aos 24

de novembro de 1927. Publicou Casa Destelhada, Noturnos e Sala
dos Passos Perdidos, além de inúmeros trabalhos esparsos na
imprensa do seu Estado. Foi cognominado – “o poeta triste das
rimas róseas”.
Vi-te, Senhor!
Eu não pude ver-Te, meu Senhor,
Nos bem-aventurados do mundo,
Como aquele homem humilde e crente do conto de Tolstoi.
Nunca pude enxergar
As Tuas mãos suaves e misericordiosas,
Onde gemiam as dores e as misérias da Terra;
E a verdade, Senhor,
É que Te achavas, como ainda Te encontras,
Nos caminhos mais rudes e espinhosos,
Consolando os aflitos e os desesperados...
Estás no templo de todas as religiões,
Onde busquem Teus carinhos
As almas sofredoras,
Confundindo os que lançam o veneno do ódio em Teu nome,
Trazendo a visão doce do Céu
Para o olhar angustioso de todas as esperanças.
Estás na direção dos homens,
Em todos os caminhos de suas atividades terrestres,
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 365
Sem que eles se apercebam
De Tua palavra silenciosa e renovadora,
De Tua assistência invisível e poderosa,
Cheia de piedade para com as suas fraquezas.
Entretanto,
Eu era também cego no meio dos vermes vibráteis que são os
homens,
E não Te encontrava pelos caminhos ásperos...
Mocidade, alegria, sonho e amor,
Inquietação ambiciosa de vencer,
E minha vida rolava no declive de todas as ânsias...
Chamaste-me, porém,
Com a mansidão de Tua misericórdia infinita.
Não disseste o meu nome para não me ofender;
Chamaste-me sem exclamações lamentosas,
Com o verbo silencioso do Teu amor,
E antes que a morte coroasse a Tua magnanimidade para comigo,
Vi que chegavas devagarinho,
Iluminando o santuário do meu pensamento
Com a Tua luz de todos os séculos!
Falaste-me com a Tua linguagem do Sermão da Montanha,
Multiplicaste o pão das minhas alegrias
E abriste-me o Céu, que a Terra fechara dentro de minhalma...

por infelicidade.. Senhor... Eu era dono do mundo inteiro Porque era senhor dos sonhos absolutos.. Adormecendo à sombra enganadora Da árvore da ilusão. Trago-te o pão dos grandes amargores.Parnaso de Além-Túmulo 367 “A sombra da ilusão envenena-te a vida. Quando Te vi na paz da Natureza. onde quase todos os frutos apodrecem. ficarei sempre contigo.. Falando como Jeremias sobre a Jerusalém de minhas ânsias: Francisco Cândido Xavier . E andei como um fauno louco pelos mares remotos e pelas ilhas desconhecidas. Meu coração pulou com um ritmo descompassado E desejei a luz das cidades distantes.. “Sou a Dor. Divisando os países da beleza.. Tudo sonhei contemplando o horizonte!. Na inquietação da carne e do desejo.” “Ave Maria.. . afoitamente. palavras de oração – “Pai Nosso que estais no Céu. Chegou ao país de minhalma um romeiro triste dos Céus. “Guarda as minhas verdades. Não vi o cântaro de mel Que minha mãe deixara com o seu beijo Na prateleira humilde de minhalma. meu amigo.. “Dar-te-ei maravilhas “Ao sol dos meus castelos encantados... O perfume das florestas prodigiosas Onde cantavam as aves da mocidade e da glória.. “Eu corrijo as paisagens interiores. E quando quebrava os últimos altares.Parnaso de Além-Túmulo 366 No Castelo encantado Eu ainda não era um homem.. Na embriaguez da ansiedade e do desejo. Nas Tuas maravilhas de beleza. “Manda o Senhor que eu seja a companheira “De tua vida inteira.” Gotas do mel de amor. do coração.E entendi-Te.. cheia de graças. Francisco Cândido Xavier . Curando-me com a Dor. “Irás comigo a mundos ignorados. Quando subi aos elevados promontórios da esperança. Gotas de mel.” Eu não sei explicar o mistério Daquela personagem enigmática Que se intrometia. Tudo esqueci..

meu Senhor. Nas grandezas de Tua claridade... Encaminhou-me à sensação perfeita De Tua inefável presença.Parnaso de Além-Túmulo 369 54 Souza Caldas . desde esse momento.. O único fruto eterno. doce e balsâmica da crença. ó Senhor de Bondade. Mas oh! suave milagre de ventura. bom e fecundo. Fez de meu sonho a casa destelhada. a vida inteira: Roubou-me todas as glórias da Terra. E abençôo contente As mágoas que me deste antigamente.. Desde as pedras da Terra Aos jardins de esplendor da Eternidade! Francisco Cândido Xavier . Onde as chuvas de todas as misérias Caíram sem cessar desde esse dia. A cuja sombra o espírito descansa. Pelos desertos áridos do mundo. de tal maneira. Que a senti junto a mim. Enxergando na tamareira da esperança. Casou-se comigo a Dor. Pela sua porta estreita. E.Parnaso de Além-Túmulo 368 Crestou-me a flor ditosa da alegria. Sustentando a infeliz Humanidade.Na minha estrada de alegria. Pois agora é que eu sei Banhar-me todo nessa fonte imensa Da paz. Apodreceu meu coração em sua mão.. Afastou-me a alegria da saúde.. Fruto que é o Teu amor E a Tua caridade. Cala-se o meu verso humilde. Tudo levou-me a dor incontentada.. Deu-me as sombras dos Campos do Jordão. meu Senhor. Ela deu-me os palácios encantados Onde brilham as luzes dAquele que se sacrificou na cruz por todos os homens!. Porque com a Dor Sinto que Te compreendo. Deixou-me só na lôbrega jornada. Francisco Cândido Xavier . Seu olhar parecia A claridade estranha de toda a resignação e de todo o padecimento. Fez fugir-se-me a noiva idolatrada..

Meu Deus De Amor. Dizem que as suas melhores composições. e aí desencarnado em 1814.Parnaso de Além-Túmulo 370 Pequei. E jus Eu fiz A expiação. Buscando O erro E a imperfeição. as que o levaram a ser preso pelo Santo Ofício. Vós sois. Acreditamos que o médium ignorava a circunstância de ser a tradução dos Salmos de David. Bem sei Que mal Andei. Na treva Errei. Sois vós A luz.NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro. perderam-se. a mais apreciada. de suas obras poéticas. Farol Do Bem! Ouvi Dos Céus Minha oração. abraçou mais tarde a carreira eclesiástica. Ato de contrição A vós Senhor. ordenando-se em Roma. justamente. Perdão Que traz . E junto A cruz Do meu Sofrer. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra. Quero o perdão. em 1762. Minhalma Implora A salvação! Meu Pai. Porém. Assim Francisco Cândido Xavier .

Glorificai-as. E hei de Poder Feliz Vencer Do mal Cruel O atroz dragão! Versão do Salmo 12 Senhor dos Mundos. na Terra inteira. São elas todas. Espezinhando seus semelhantes. Ganham favores. Tripudiando nas vossas leis. meu Criador! . Vossas ovelhas são confundidas. Os maus somente é que dominam.Sossego E paz Ao meu Viver Na provação. buscam louvores. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 372 Ímpios que são. Rudes tiranos e os impiedosos De coração. Adoradores da iniqüidade. Amara E rude Da contrição! Dai ao Meu ser. Aflito Ao ver O seu Pecado. E sufocadas pelo amargor. Da imperfeição. Causam a ruína da vossa casa. Do vosso amor. A redenção. Lançam injúrias ao vosso nome. Fracas e pobres andam saudosas. Francisco Cândido Xavier . Suplico-o A vós. pobres e humildes.Parnaso de Além-Túmulo 371 Na dor Atroz.

Todos os seres Hinos entoem. Pai amoroso. É a esperança dos pecadores. Bem sei. Lustres da auréola Da Criação. Lindo e faiscante. Cheio de amor. Confio em vós! Versão do Salmo 18 Por toda a parte Veja a criatura. O mar e a flor. Na noite escura Da sua dor. Muitos que são. A Luz Eleita. salvai os homens. A eterna força De um Deus clemente. imensa e eterna.Alevantai-as do abismo escuro Com a vossa luz! Vossa bondade. Senhor! Como fugi Da hora fugace Que me afastasse . Que desprezei O ouro brilhante. A salvação. Imploro e clamo. Aves cantando. Vosso perdão. Sois a bondade A mais perfeita. Com o meu espírito Turbado e aflito.Parnaso de Além-Túmulo 373 Astros e mundos No céu girando. Onipotente. Aos meus pecados. Doce refúgio Dos desgraçados. Cantos ressoem Ao Criador! Eterno Artífice Que os sóis modela. Francisco Cândido Xavier .

Meu pensamento Prevaricar. o vosso Amor profundo Redime o mundo Do padecer. Vós que acendestes Faróis brilhantes. Além da força Vós sois.Parnaso de Além-Túmulo 374 Que a carne impura Leva a criatura A mais pecar. A onipotência E a pura essência Do vosso amor! Que sois o sol Dos universos. Cruéis inimigos. também. Dando-lhe o tempo E áspera lida Para na vida Tudo vencer. Assim espero. O sumo bem E a perfeição Que vence o mal. O orgulho e a dor. Mundos dispersos Na imensidão.Do vosso amor! Mas bem sabeis Francisco Cândido Xavier . Misericórdia. Almejo e quero Para que eu .Parnaso de Além-Túmulo 375 Que o pecador No coração Guarda com zelo. Fazendo assim Pra meu tormento. Porém. Cantando a vida. Francisco Cândido Xavier . Que são amigos Da perdição. Sóis rutilantes Dalmo esplendor.

Que somente a amargura dos sorrisos Pela noite das dores conheceram. Para que eu viva Na luz fulgente. Desprezarei. Da vossa lei. Assim.Parnaso de Além-Túmulo 376 Que em vós transluz! E. servo. Limpando os lodos Da imperfeição. dos meus anos. Afastado do Puro e do Perfeito. alma iludida.E os meus irmãos O mal deixemos E abandonemos Buscando o Céu. É que ao sentir no âmago do peito A atitude do homem nessa vida. Coração enganado. Dominareis Toda a impiedade Pela verdade Francisco Cândido Xavier . Eternamente. Amparo e luz! Francisco Cândido Xavier . Minhalma aguarda A luz que tarda Ao mundo vão. aguardo Do vosso amor Consolo à dor. Que há de esplender Nos homens todos.Parnaso de Além-Túmulo 377 55 Um Desconhecido Meditando Eu fui daquelas almas que viveram Sem conhecer da Terra os paraísos. Senhor. O meu ser que sonhara a Humanidade Qual um ramo de flores perfumosas. Por vossa causa O maior gozo. teria o gozo. Se eu quisesse gozar. Esplendoroso. . Não que eu fosse infeliz e desditoso. E através dos meus dias. Pois fui também humano entre os humanos.

derradeiros. bonança e calma: – Era a luz que me vinha da visão De ver o Cristo-Amor. E viu então O seu brasão Invicto e glorioso. Insculpido nas fúlgidas realezas Do castelo formoso. E isolado nos grandes sofrimentos De ser só. Bem após o transcurso de alguns anos . entre cansaços. Ao trilhar os carreiros dos tormentos. Das terrenas. destruidoras. Agonizava o senhor Dos domínios extensos. Opresso o coração. Sob o peso da própria iniqüidade.Viu as almas tremerem. Viu-lhe o feito da esplêndida conquista Nas grandiosas searas. Que em suas mãos avaras Foram armas cruéis. Expirou para o mundo O nobre castelão. efêmeras realezas. E em espasmos convulsos. desditosas. Eu vislumbrava a luz brilhante e pura Que me trazia a paz. O nobre castelão No interior Do esplêndido alcançar. Transbordante de glórias e riquezas! Mais alongando a vista. E tinha então prazer de ver meus braços Enlaçados na cruz da provação. Francisco Cândido Xavier . Pois no mundo pequeno da minhalma. na aspereza dos caminhos. Contemplou seus tesouros passageiros.Parnaso de Além-Túmulo 379 Martirizando as almas sofredoras. A sua alma despida das grandezas. O dono do solar Nos espasmos intensos Da agonia. Encontrei o prazer pelos espinhos. Em torno dirigia Um último olhar. Mergulhado no pranto mais profundo.Parnaso de Além-Túmulo 378 Quando em dor me envolvia a desventura. Francisco Cândido Xavier .

De luz confortadora. Penetrada de doce claridade. Implorou seu amor Numa súplica em lágrimas de pena. nenhum lhe obedecia. Que ninguém acudisse ao seu chamado.De triste letargia. Sua alma sofredora Sentiu-se então mais calma e mais serena. A exclamar. Todavia. De cólera severa Já que ele era o senhor. E em atitude austera. Conservou-se naquelas cercanias Como presa feroz Do sofrimento atroz. Foi um dia Despertada em amargos desenganos: Conturbado por agros dissabores.. Estranhou revoltado. às vezes. Imerso em turvação.Parnaso de Além-Túmulo 380 Em ser incompreendido. Tomado de energia. Que provinha de alguém Que lhe fazia Meditar na grandeza da Verdade .. O pobre sofredor. Humilde penitente. No auge do amargor. De contínuos pesares e agonias. Escutava nos ditos mais soezes Terrível maldição Das vítimas de antanho! E o sofrimento era tamanho Francisco Cândido Xavier .. E cheio de fervor. Durante o transcorrer de muitos dias. Contemplou seu solar Ocupado por outros moradores. Reclamou os seus servos com calor E. constantemente.. entretanto. Recordou-se que havia Um Pai Onipotente. Somente. Que se julgou perdido Irremissivelmente Assim.

Para que se dissipem teus enganos No amargor. Não residem no Mal e sim no Bem.. a flor-tesouro. Conhecerás As dores e amarguras. Porém. Flores lindas que nunca ofereceste Às almas desditosas? Por que não concedeste um só bocado Do teu pão abundante Ao pobre esfomeado? Ocupando-te em gozo.E lhe dizia Da beleza do Amor.. Já que sem piedade aniquilaste Muitas almas e muitos corações. o Deus de Amor É sempre o magnânimo Senhor. Desprezavas o fraco e nunca amaste Quem de ti carecia! A caridade. O sentimento-luz. é a conseqüência Da equívoca existência Que levaste. Jamais vestiste os nus. E permite que voltes aos humanos. amigo. Voltarás.Parnaso de Além-Túmulo 382 Abençoa o Senhor Que te concede a dor. da Luz do Bem: – “O que sofres. Por que ocultaste as flores formosas Que na Terra colheste. a todo o instante. Pelas estradas rudes e espinhosas! Francisco Cândido Xavier . nem consolaste Aquele que sofria.Parnaso de Além-Túmulo 381 Em rudes sofrimentos E estranhas maldições. Que hoje te envolvem os lúridos momentos Francisco Cândido Xavier . As mágoas escabrosas. Para assim compreenderes Que os reais e legítimos prazeres Que da vida nos vêm. Não tiveste em teus dias de maldade No grande sorvedouro! Porém. já não terás Efêmeras venturas.” . Serás agora escravo e não senhor.

. A estrada É uma etérea alfombra Sem resquícios de sombra! É o domínio da luz que ela conquista! Vibra no ar Dulcíssima harmonia.Nesga de Céu A alma extasiada Sobe.. Nesgas do céu.Parnaso de Além-Túmulo 383 Em tudo há um misto Nunca visto De manhãs e arrebóis... Há toda uma amplidão Iluminada A sua vida. Ainda além. E lembra-se que sofreu. De alegria. Francisco Cândido Xavier . Soberbas harmonias Nos mundos luminosos! Seres que passam rápidos. de beleza. querida. O mundo É um ponto negro que gira.. A Via-Láctea transluz. Ao longe. Sorridentes. Cenários majestosos. Transformados em notas musicais. imagens de esplendor. o fulgor. De perfeição e de felicidade! . radiantes. mais além. Que amou.. De pureza. De alegria perfeita. fulguram sóis... Como um éden de luz E de amor. sobe.. onde a vida É a imortalidade Anelada. Parece um hino de amor Dos Paganinis siderais. Aos clarões dessa aurora. Como se fora feita De luar. A alma chora Em êxtase profundo. que padeceu. flutuantes. Além.. Nos espaços sem termos. A ventura. muito ao longe.

A alma se extasia Na luz do Eterno Dia. A pobre alma orando. as emoções Do ilimitado. Um futuro esplendente Pintalgado de rosas. Recamado de flores perfumosas. Em cima.. Veio para o Brasil com 14 anos e aqui viveu.. Feito de éter. aroma!.. Evoca as lágrimas vertidas! Contempla panoramas de outras vidas. em 1871.. Com os pensamentos puros e radiosos. Ora a Deus: Recorda em prece os sofrimentos seus. Intérmina de gozos!. O caminho é risonho. Em suavíssima unção. E. Como um país de doce primavera. Mas cada gota amarga dos seus prantos Francisco Cândido Xavier . de sonho.Parnaso de Além-Túmulo 386 56 Valado Rosas NASCEU em Viana do Castelo. Nessa prece Reconhece A alvorada de sua redenção! Francisco Cândido Xavier . Portugal. Vidas de estranha dor. luz. na .Parnaso de Além-Túmulo 385 Agora É um raio de aurora. Atrás a noite e as mágoas de agonia Do passado. Da mais pura alegria. De repente Numa nesga de céu resplandecente Assoma Uma rutila esfera. Que um a um Vão formando uma auréola De brilhos santos. em frente. Que a engrinalda de luz. poetou e desencarnou.. Chorando..Parnaso de Além-Túmulo 384 Em baixo as vastidões.Francisco Cândido Xavier . Melodia.

Da graça imensa que recebi. Modesto quão talentoso. Na luta intensa que encheu meus dias. Subi o Gólgota dos meus pesares. Cansado e triste cerrei meus olhos Dentro da noite que é para muitos Um mar bravio. Esclarecia meu coração. Seu nome é Lázaro Fernandes Leite do Val. quem vá mostrar As maravilhas que ele fornece. Aos companheiros de luta e crença. E. que ficastes no mundo ingrato. Na paz do Além Dentro da noite grandiosa e calma. . Quando escutamos as vozes claras Francisco Cândido Xavier . que ilustrou o pseudônimo na imprensa profana e doutrinária do Brasil e de sua pátria. Vós. Nas horas tristes e amarguradas. Graça de haver sorvido tanto O amargo pranto da ingratidão. no Pai de Amor. Quando no mundo de exílio e sombra. Na vida obscura e transitória A nossa glória vive na dor. Não sou. Habituei-me com as invernias E com os reveses da minha sorte. Abrindo os olhos tranqüilamente Numa alvorada linda e louçã. então.cidade de Caratinga. Que os avatares da redenção São todos feitos nas amarguras. cheio de escolhos. na luz da prece. Deixo a minhalma falar aqui. Com fé sincera. eu pude adormecer Na paz serena. É que o Evangelho do Cristo amado. De ser vencido no mundo vão. E a paz na morte tereis também. no entanto. Graça divina de haver sofrido. De quem me lembro na luz do Além. Aos meus irmãos Sob as estrelas da minha crença. doce e cristã.. – O mensageiro da Perfeição. Lede o roteiro dos Evangelhos. aos 19 de janeiro de 1930. foi também um polemista e doutrinador espírita vigoroso.. Dor de quem sofre sonhando e espera.Parnaso de Além-Túmulo 387 Da consciência.

--. escolas para crianças e jovens carentes. além de divulgar os ensinamentos filosóficos. Mas recebendo na grande escola A grande esmola do meu Senhor. também auxilia no custeio de inúmeras obras de assistência social.” Paulo.Parnaso de Além-Túmulo 388 Nas desventuras da provação. O livro espírita. “Porque nós somos cooperadores de Deus. Perdi na Terra doces afetos. Sonhos diletos de sofredor. A piedade. colabore com a divulgação dos ensinamentos trazidos pelos benfeitores do plano espiritual.Fim --Francisco Cândido Xavier . 3. As obras espíritas nunca sustentam. os seus escritores.Parnaso de Além-Túmulo 389 Amigo(a) Leitor(a). (1ª Epístola aos Coríntios. estes são abnegados trabalhadores na seara de Jesus.) . Irmão W. E a Morte trouxe-me a liberdade. o amparo e a luz! Feliz quem pode na dor terrestre Seguir o Mestre com sua cruz. financeiramente. Adquira um bom livro espírita e ofereça-o de presente a alguém de sua estima. etc. morais e científicos dos espíritos mais evoluídos. em busca constante da paz no Reino de Deus. versículo 9.Francisco Cândido Xavier . Se você leu e gostou desta obra.

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