Francisco Cândido Xavier

Parnaso de Além-Túmulo
Ditado por Espíritos diversos
À guisa de prefácio
A teoria, tanto quanto a prática espírita, apresenta, aos leigos
e inscientes, aspectos e modismos inéditos, imprevistos, bizarros,
surpreendentes.
Nos domínios da mediunidade, então, o reservatório de surpresas
parece inesgotável e desconcerta, e surpreende até os observadores
mais argutos e avisados.
Se fôssemos minudenciar, escarificar o assunto até às mais
profundas raízes, poderíamos concluir que o comércio de encarnados
e desencarnados, velho quanto o mundo, se indicia mais ou
menos latente ou ostensivo, em todos os atos e feitos da Humanidade.
Inspirações, idéias súbitas ou pervicazes, sonhos, premonições
e atos havidos por espontâneos e propriamente naturais,
radicam muito e mais na influenciação dos Espíritos que nos
cercam – por força e derivativo da mesma lei de afinidade incoercível
no plano físico, quanto no psíquico – do que a muitos poderia
parecer.
E assim como se não desloca nem se precipita, isoladamente,
um átomo no concerto sideral dos mundos infinitos, assim também
não há pensamento, idéia, sentimento, isolados no conceito
consciencial dos seres inteligentes, que atualizam e vivificam o
pensamento divino, em ascese indefinida – semper ascendens...
É o que fazia dizer a Luisa Michel: “um ser que morre, uma
folha que cai, um mundo que desaparece, não são, nas harmonias
eternas, mais que um silêncio necessário a um ritmo que não
conhecemos ainda”.
Mas, não há daí concluir que a criatura humana se reduza à
condição de autômato, sem vontade e sem arbítrio, porque nada à
revelia da Lei se verifica; e no jogo dessa atuação constante, o
ascendente dos desencarnados não vai além das lindes assinadas
pela Providência; não ultrapassa, jamais, a capacidade receptiva
do percipiente, seja para o bem, seja para o mal.
***
Não é, contudo, desse mediunismo sutil, intrínseco, consubstancial
à natureza humana, que importa tratar aqui.
Nem remontaríamos aos filões da História para considerar-lhe
a identidade aos tempos da Índia, do Egito, da Grécia, das Gálias

e de Roma. em trânsito para a Idade Média, na qual os médiuns
eram imolados ao mais estúpido dos fanatismos – o religioso.
Hoje, fogueira e potro foram substituídos pela difamação, pelo
ridículo alvar, pago em boa espécie monetária, ou ainda pelo
cerco caviloso e interditório de quaisquer vantagens sociais.
A luta tornou-se incruenta, mas, nem por isso, menos áspera e
porfiosa.
Assoalha-se que a mediunidade é fonte de mercantilismo: entretanto,
nenhum grande médium, que o saibamos, chegou a acumular
fortuna e rendimentos.
Muitos, ao invés, quais Home, Slade, Eusápia e d’Espérance,
morreram paupérrimos e, o que mais é, tendo a panejar-lhes a
memória o labéu de charlatães.
Mas houvesse de fato esse mercantilismo e nunca se justificaria,
senão por abusivo e espúrio, de vez que a Doutrina o não
autoriza, sequer por hipótese.
Porque, na verdade, assim se escreve a História e o maior dos
médiuns, o Médium de Deus, só escapou ao estigma da posteridade
pela porta escusa do concílio de Nicéia, numa divinização
acomodatícia e rendosa ao formigamento parasitário e onímodo
dos Constantinos, que, ainda hoje, lhe exploram os feitos e o
nome augusto, com bulas políticas de vulpina retórica, factícios
pruridos de grosseira mistificação, em bonsolatrias de cimento
armado.
Entretanto, como a confirmar a tradição “os Santos Apóstolos
foram, em sua maioria, humildes pescadores” – e não só a tradição
como a sentença de que os últimos seriam os primeiros –, não
vêm hoje os vexilários da Verdade trazê-la aos magnatas da Terra,
aos príncipes dos sacerdotes, escribas e fariseus hodiernos, disputantes
à compita da magnífica carapuça e eles talhada e ajustada.
de vinte séculos, no capitulo 23º de Mateus.
Ao contrário, esses esculcas do Além parece preferirem os
operários modestos, modestos e rústicos, rústicos e bons, como
tão sutilmente os define o Eça em magistral mensagem:
“Tipos originais, mãos calosas que se entregam aos rudes trabalhos
braçais, a fazerem a literatura do além-túmulo; homens a
que Tartufo chama bruxos e Esculápio qualifica de basbaques,
mistificadores, ou simples casos patológicos a estudar...”
É verdade tudo isso; mas, convenhamos, também o é para
maior glória de Deus.
Não ignoramos que homens de alta cultura e renome científico
têm versado o assunto, investigado, perquirido e proclamado a
verdade, acima e além das conveniências e preconceitos políticos,
científicos, religiosos. Nomeá-los aqui, seria fastidioso quanto
inútil.
O vulgo que não lê, ou que lê pela cartilha do Sr. vigário nos
conselhos privados da família beata, não deitaria os seráficos

olhares a estas páginas e seguiria, clamoroso ou contente, de
qualquer forma inconsciente, – infinitus stultorum numerus – a
derrota do seu calvário, no melhor dos mundos, à Pangloss.
O outro, o vulgo que lê e compreende, mas para o qual o magister
dixit é a melhor fórmula de concessão e acomodação consigo
mesmo, estômago e vísceras em função, sofra a quem sofrer,
doa a quem doer – esse, bazofiando ciência em gestos largos de
animalidade superior, se estas linhas chegasse a ler, haveria de
esboçar aquele sorriso fino e bom que Bonnemére não sabia definir
se seria de Voltaire, ou do mais refinado dos idiotas...
***
Adiante, pois, na tarefa nada espartana de apresentar esta
prova opima das esmolas de luz que nos chegam em revoada de
graças, a encher-nos o coração de alvissareiras esperanças.
Quem quiser certezas maiores, explanações técnicas e eruditas
do fenômeno em apreço, que as procure no livro “Do País da
Luz”, obra similar, editada há uma vintena de anos. psicografada
pelo médium português Fernando de Lacerda, e que fez, nas rodas
profanas de Lisboa, o mais ruidoso sucesso.
Nessa obra, o ilustre Dr. Sousa Couto, em magistral prefácio,
esgotou o assunto ao encará-lo sob todos os prismas de uma severa
crítica, para concluir pela transcendência do fenômeno, rebelde
a todos os métodos de classificação científica e, sem embargo,
realíssimo em sua especificidade.
Pois, a nosso ver, maior é o mérito, por mais opulenta a polpa
mediúnica, desta obra.
É que lá em “Do Pais da Luz”, avulta a prosa, com raras exceções;
ao passo que aqui desborda o verso, mais original, mais
difícil, mais precioso como índice de autenticidade autoral.
Lá, as mensagens características são exclusivas de escritores
lusos, únicas que podem, a rigor, identificar pelo estilo os seus
autores.
As de Napoleão 1º, Teresa de Jesus, etc., são incontestavelmente
belas no fundo e na forma, mas não características de tais
entidades.
Aqui, pelo contrário, não só concorrem poetas brasileiros e
portugueses, como retinem cristalinas e contrastantes as mais
variadas formas literárias, como a facilitarem de conjunto a identificação
de cada um.
Romantismo, Condoreirismo, Parnasianismo, Simbolismo, aí
se ostentam em louçanias de sons e de cores, para afirmar não
mais subjetiva, mas objetivamente, a sobrevivência dos seus
intérpretes.
É ler Casimiro e reviver Primaveras; é recitar Castro Alves e
sentir Espumas Flutuantes; é declamar Junqueiro e lembrar a

Morte de Dom João; é frasear Augusto dos Anjos e evocar Eu.
Senão, vejamos:
Oh! que clarão dentro d’alma.
Constantemente cismando.
O pensamento sonhando
E o coração a cantar,
Na delicada harmonia
Que nascia da beleza,
Do verde da Natureza,
Do verde do lindo mar!
É Casimiro...
Há mistérios peregrinos
No mistério dos destinos
Que nos mandam renascer;
Da luz do Criador nascemos.
Múltiplas vidas vivemos,
Para à mesma luz volver.
É Castro Alves...
Pairava na amplidão estranho resplendor.
A Natureza inteira em lúcida poesia
Repousava, feliz, nas preces da harmonia!...
Era o festim do amor,
No firmamento em luz,
Que celebrava
A grandeza de uma alma que voltava
Ao redil de Jesus.
É Junqueiro...
Descansa, agora vibrião das ruínas.
Esquece o verme, as carnes, os estrumes.
Retempera-te em meio dos perfumes
Cantando à luz das amplidões divinas.
É Augusto dos Anjos.
E todos, todos os mais, aí estão vivos, ardentes, inconfundíveis
na modulação de suas liras encantadas e decantadas.
E na prosa – exceto a Fernando de Lacerda, cujo estilo não
temos elementos para identificar – o mesmo traço de originalidade
personalíssima se impõe.
Duvidamos que o mais solerte plumitivo, o mais intelectual
dos nossos literatos consiga imitar, sequer, ainda que premeditadamente,
esta produção.
E isto o dizemos porque o médium Xavier, um quase adolescente,
sem lastro, portanto, de grande cultura e treino poético,
recebe-a de jacto, e mais – quando de alguns autores não conhece
uma estrofe!
É extraordinário, será maravilhoso, mas é a verdade nua e
crua; verdade que, qual a Luz, não pode ficar debaixo do alqueire.
Foi por assim pensarmos que conseguimos vencer a relutância

na história a tracejar do Espiritismo em nossa pátria. pramido pelo ganha-pão. veio “candidamente” ao nosso encontro com “Palavras Minhas”. tanto quanto retrata as impressões psicofísicas que lhe causa o fenômeno. um bacharel formado. por outro lado. porque simples como a própria alma cedo esfolhada de sonhos e ilusões. *** Mas. cujo flagrante não presenciamos – ele. nas quais estereotipa a sua figura moral. ficará como baliza fulgurante. um quase adolescente. porém. Nós mesmo vimos. Filho de pais pobres. endossar um fenômeno cuja ascendência sobejamente conhecemos para não refusar. com borrifos de catecismo católico. não há encadeamento de raciocínios. mas. não pôde ir além do curso primário dessa pedagogia incipiente e rotineira. É um fato. é bem de ver-se que não teve. em tese. nem uma problemática hereditariedade. perguntarão: – quem é Francisco Cândido Xavier? Será um rapaz culto. a Pátria e a Humanidade? Nada disso. certo estamos. um rotulado desses que por ai vão felicitando a Família.do médium em sua natural modéstia para lançar ao público. o pai infenso a literatices e. diz-nos este que também as produções são recebidas de jacto. Ao lhe formularmos um questionário que nos habilitasse a pôr de plano estes detalhes essenciais – de vez que. Não há ideação prévia. e aos confrades. de contrapeso. também em tese. tanto quanto do seu manuseio. um galopim eleitoral e não vai. nada nos disse o médium. Do seu mecanismo intrínseco e extrínseco. em particular. em linguagem eloqüente. em geral. Órfão de mãe aos 5 anos. certa vez. fixação de imagens. que. Agora. e não querendo. esta obra mediúnica. Tudo isso é o próprio médium quem no-lo diz. pequeno rincão do Estado de Minas. nem dez cireneus que o conduzissem por tortuosos e torturantes labirintos de acesso aos altanados paços do Olimpo para o idílico convívio de Caliope e Polímnia. que faz do mestre-escola. em obra deste quilate o que se impõe não é a apresentação dos operários. um acadêmico. . nascido ali assim em Pedro Leopoldo. O médium polígrafo Xavier é um rapaz de 21 anos. o médium. mas da ferramenta por eles utilizada. enquanto conosco discreteava em idioma diverso da mensagem escrita. que não podia ter o estímulo ambiente. para não pretender colimar renomes literários. em São Paulo. o médium Mirabelli cobrir dezoito laudas de papel almaço. ao demais. nem um. no exíguo tempo de 13 minutos marcados a relógio. muito além das quatro operações e da leitura corrida.

. em suma. há fatos e recursos de hermenêutica. em tudo. Há vocábulos de étimo que desconhece. esse trabalho melhor corresponde à sua finalidade altíssima. mais sutis e delicados do que esses que. nos perdoem a vacuidade e a insulsice destas linhas e que os leitores de boa vontade as desprezem como inúteis. como por julgar que tal ousio seria uma profanação. e um fato.. Marquês de Valença. e de modo a satisfazer aos familiares da Doutrina. na Estação de Quirino. concepções filosóficas das quais nunca ouviu falar. que ignora. encarregado de apresentar esta obra. Quintão MANUEL Justiniano de Freitas QUINTÃO. Foi guarda-livros. doutrinas. de autores também ignorados e jamais lidos! Como explicar. não nos dispusemos a escoimá-la de possíveis defeitos de técnica. explosivo. no Rio de Janeiro. ocorrem na telepatia. para melhor explicar. antes complicam. e de entidades hoje mais lúcidas e respeitáveis do que porventura o foram aqui na Terra. M. Tal como no-lo deram. e desencarnado em 16 de dezembro de 1954. ou a fatores outros. porque o fato aí está na plenitude de sua realidade. não só por nos falecer autoridade e competência. teorias científicas. figuras de retórica.. Aos outros. faisqueiros de nugas e nicas. vale sempre por mil e uma teorias. por mais insólito que seja. e isso ele o faz a seguir. que mal podemos imaginar e que.É tudo inesperado. torrencial! Do que escreve e sabe que está escrevendo. e o que a legítima ética doutrinária aponta é que quaisquer lacunas. nascido em 28 de maio de 1874. que participa do meio físico contingente. na volúpia de escandir quand même. de um trabalho de identificação autoral. a realização essencial do fenômeno? Só o médium poderia fazê-lo. na pauta evangélica que diz: – A árvore se conhece pelo fruto. RJ. para só apreçarem a obra que ora lhes apresentamos. precipuamente. como definir e transfixar a captação. na radiofonia. racional e logicamente devem existir. aos cépticos. Catões e Zoilos de compasso e metro. enfim. fica-lhes a liberdade de conjeturar. sem contudo negar. de maneira impressionante. diremos que. devem ser atribuídas ou irrogadas ao possivelmente precário aparelhamento de transmissão. *** Como nota final aos argos da crítica. no entanto. Que os arautos da Boa Nova aqui escalonados. amiúde. por vindos de tão alto. que nada explicam. ou taliscas. Trata-se. também sabe que não pensou e não seria capaz de escrever.

em 2 de abril de 1910. porque a dor . onde residiu até dezembro de 1958. nas posições mais modestas do comércio. primeiro livro de suas faculdades mediúnicas e já em 9ª edição. exerceu cargos na Diretoria da Federação Espírita Brasileira ao longo de vários decênios. em 1910.) Francisco Cândido Xavier NASCEU em Pedro Leopoldo. 1918. Chefe de família numerosíssima. goza ele ainda de sincera admiração em outros países. o “Parnaso de Além-Túmulo”. Em 1939. como jovem sem recursos financeiros.depois de lutar com imensas dificuldades. (Nota do Editor. inclusive a Presidência nos anos 1915. jamais se beneficiou dos direitos autorais da sua vasta produção mediúnica. integrando-lhe o quadro social por 44 anos. onde é popularíssimo. Japonês. escreveu notas autobiográficas endereçadas ao Reformador. “Há Dois Mil Anos. em janeiro de 1959. Os romances psicografados (entre eles “Paulo e Estêvão”. Foi jornalista. estudioso incansável. Filho de um lar muito pobre. Como membro do Grupo Ismael. órfão de mãe aos cinco anos. invejável cultura humanística. conseguiu. afável e operosa. Filho de João Cândido Xavier e de Maria João de Deus.. Médium curador e espírita militante durante mais de meio século. Médium de atividade ininterrupta há quase meio século. desencarnados em 1960 e 1915. sempre no exercício do seu mediunato. Criatura simples. diversos deles publicados em Esperanto. Seguiram-se-lhe mais de 110 livros mediúnicos. Traduziu diversos livros espíritas e publicou alguns de sua autoria. Ingressou na FEB em 1903. Aposentou-se como funcionário público federal. E até aqui. estão estampadas na edição de janeiro de 1955. Palavras minhas Nasci em Pedro Leopoldo. e creio mesmo que todos os que me conhecem podem dar testemunho da minha vida repleta de árduas dificuldades e mesmo de sofrimentos. foi sempre dos mais assíduos e proficientes no estudo do Evangelho de Jesus. publicou. em julho de 1932. este último editado pela FEB. respectivamente. para serem public adas após a sua desencarnação. Minas. tenho experimentado toda a classe de aborrecimentos na vida e não venho ao campo da publicidade para fazer um nome. Castelhano. julgo que os meus atos perante a sociedade da minha terra são expressões do pensamento de uma alma sincera e leal. Inglês e Francês. que acima de tudo ama a verdade. muito apreciados.” e “Renúncia”) são periodicamente radiofonizados e televisionados.. Respeitado e estimado em todo o Brasil. MG. Viajou para o exterior algumas vezes. como autodidata. Transferiu-se para Uberaba. 1919 e 1929. através da Casa-Máter do Espiritismo – a Federação Espírita Brasileira –. dentre eles “Cinzas do meu Cinzeiro” (coletânea de trabalhos publicados no “Reformador”) e “O Cristo de Deus”. MG.

estudando apenas uma pequena parte do dia e trabalhando numa fábrica de tecidos. quando ia às aulas de catecismo era para mim um prazer. Vários dias consecutivos foram. se decidi escrever estas modestas palavras no limiar deste livro. até hoje. de desconforto. Também o meio em que tenho vivido foi sempre árido. história e vernáculo. O meu ambiente. pioras de amargos padecimentos morais. Mas. sequer. realizar as minhas esperanças. porém. onde se não pode pensar em letras. Foi quando decidimos . Até 1927. quando contava oito anos. a melhor boa vontade animou-me para o estudo. para mim. cheguei quase a adoecer com um regime tão rigoroso. É verdade que. estudar como? Matriculando-me. Assim têm-se passado os dias sem que eu tenha podido. Jamais tive autores prediletos. quanto à sua formação. das quinze horas às duas da manhã. E. Os meus familiares não estimulavam. ambiente de pobreza. Nunca pude aprender senão alguns rudimentos de aritmética. foi sempre alheio à literatura. com uma vida de múltiplos trabalhos e obrigações e nunca se me ofereceu ocasião de conviver com os intelectuais da minha terra. pude chegar até ao fim do curso primário. essa situação modificou-se em 1923. como verdadeiramente não podem. constantemente. os meus desejos de estudar. para nossa casa. freqüentando-a mesmo com amor. como eu. em casa. desde os tempos de criança. por diferençar muito pouco essas questões. num grupo escolar. Prosseguindo nas minhas explicações. Fui pois criado com as teorias da igreja. sempre estudei o que pude. a medicina foi impotente para conceder-lhe uma pequenina melhora. prolongando-se esta minha situação até os dias da atualidade. é apenas com o intuito de elucidar o leitor. como o são as lições das escolas primárias. devo esclarecer que minha família era católica e eu não podia escapar aos sentimentos dos meus. todos nós não admitíamos outras verdades além das proclamadas pelo Catolicismo. mas onde o trabalho é menos rude. de penosos deveres. sobrecarregado de trabalhos para angariar o pão cotidiano. sempre a braços. onde o serviço dura das sete às vinte horas. pois. neste ponto.há muito já me convenceu da inutilidade das bagatelas que são ainda tão estimadas neste mundo. com um salário diminuto. quando então consegui um emprego no comércio. aprazem-me todas as leituras e mesmo nunca pude estudar estilos dos outros. eis que uma das minhas irmãs. mas. Começarei por dizer-lhe que sempre tive o mais pronunciado pendor para a literatura. em maio do ano referido. mas meu pai era completamente avesso à minha vocação para as letras e muitas vezes tive o desprazer de ver os meus livros e revistas queimados. foi acometida de terrível obsessão.

a audição e outras faculdades mediúnicas. Verdadeiro discípulo do Evangelho. grande número de assistentes. que caridosamente se prontificou a ajudarnos com a sua boa vontade e o seu esforço. que regressara ao Além em 1915. Até a grafia era absolutamente igual à que a nossa genitora usava. para onde comecei a escrever sob a inspiração dos bondosos mentores espirituais que nos assistiam. desenvolveram-se em mim. José Hermínio Perácio. parece que pesava muito. espírita convicto. minha irmã hauria. conta com mais desenvolvimento a clariaudiência. os ensinamentos sublimes da formosa doutrina dos mensageiros divinos. e foi nessas reuniões que me desenvolvi como médium escrevente. a moral profunda que era ensinada. sob os seus caridosos cuidados e da sua excelentíssima esposa Dona Carmen Pena Perácio. alma nobilíssima. poderia ela estudar as bases da doutrina espírita. num ambiente totalmente modificado. (Nota do médium para a 4ª edição. em 1944. a nossa alegria aumentava. sentindo-me muito feliz por se me apresentar essa oportunidade de progredir. datando daí o ingresso do meu humilde nome nos jornais espíritas.2 2 Só nos últimos dias de 1931. como o são os daqueles confrades a que me referi. ofereceu-nos até a sua residência. que essa senhora desconhecia. a vidência. controladas pela sua senhora. orientando-se quanto aos seus deveres. assim. pois o nosso confrade José Hermínio Perácio.) Daí a pouco.solicitar o auxílio de um distinto amigo. deliberou fixar residência junto a nós e as nossas reuniões tiveram resultados melhores. começou a ditar-nos os seus conselhos salutares. simultaneamente. para nosso benefício. de maneira clara e mais intensamente. com a graça de Deus. onde então. Resolvemos. bem distante da nossa. integrada no conhecimento da luz que deveria daí por diante nortear os nossos passos na vida. semimecânico. entrando em pormenores da nossa vida íntima. então. com ingentes sacrifícios. ornada das mais superiores qualidades morais e que. reunir um núcleo de crentes para estudo e difusão da doutrina. tanto à sua família. por intermédio da esposa do nosso amigo. as suas faculdades mediúnicas. Em breve minha irmã regressava ao nosso lar cheia de saúde e feliz. como acontece na opinião de grande maioria de almas da nossa época. Nossas reuniões contavam. o Sr. Sobre esses fatos e essas provas irrefutáveis solidificamos a nossa fé. quando na Terra. baseada nas páginas esplendorosas do Evangelho de Jesus. . em companhia de sua esposa. quase sempre inclinadas para as futilidades mundanas. e. que se tornou inabalável. que a minha mãe. médium dotada de raras faculdades. porém. Aí. deixando-nos mergulhados em imorredoura saudade. entre as suas mediunidades. desenvolvendo. foi nesse ambiente onde imperavam os sentimentos cristãos de dois corações profundamente generosos.

categoricamente. e dia houve em que se receberam mais de três produções literárias de uma só vez. Julgo do meu dever declarar que nunca evoquei quem quer que fosse. julgando minha obrigação. em nossas preces. frisar aqui também. sem que se produzisse escrito algum. e que eram continuamente fragmentos de prosa sobre os Evangelhos. contudo. é o que experimento. Muitas vezes. e o interessante é que pareciame haver ficado sem o corpo. jamais obtive outra coisa. esse estado atingia o auge. e. em consciência. fisicamente. os assistentes de nossas sessões de estudos escassearam. assinadas por nomes respeitáveis. parecia-me ter em frente um volume imaterial. Em agosto. era a de que vigorosa mão impulsioFrancisco nava a minha. por conhecer as minhas imperfeições. era necessário recorrermos a dicionários. que se me afigurava invadido por incalculável número de vibrações indefiníveis. quanto ao fenômeno que se produz freqüentemente comigo. que alguém mas ditava aos ouvidos. Certas vezes. do corrente ano. Serão das personalidades que as assinam? – é o que não posso afiançar. Passavam-se às vezes mais de dez dias. ao recebermos uma destas páginas. nas reuniões. melhor o resultado obtido. apesar de muito a contragosto de minha parte. na fenomenologia . porque tanto eu como os meus companheiros as desconhecíamos em nossa ignorância.decorridos dois anos. Não desanimamos. ao escrevê-las. as menores impressões físicas. apesar de todo o meu bom desejo. Continuei recebendo as idéias dos mesmos amigos de sempre. a sensação de fluidos elétricos que o envolvessem. sem que eu ou meus companheiros de trabalhos as provocássemos e jamais se pronunciou. não posso dizer que são minhas. psicografandoas. não sentindo. A sensação que sempre senti. ao psicografálas. Doutras vezes. para a comunhão com os nossos desvelados amigos do Além. Grande parte delas foram escritas fora das reuniões e tenho tido ocasião de observar que. quanto menor o número de assistentes. prosseguindo em nossas reuniões. experimentando sempre no braço. por momentos. o nome de qualquer dos comunicantes. acontecendo o mesmo com o cérebro. onde eu as lia e copiava. é que. em particular. Somente duas vezes recebi comunicações em versos simples. chegando ao número de quatro ou cinco pessoas. comecei a receber a série de poesias que aqui vão publicadas. para sabermos os respectivos sinônimos das palavras nela empregadas. constituindo para nós uma fonte de consolações isolarmo-nos das coisas terrenas em nosso recanto de prece. porque jamais nutri a pretensão de entrar em contacto com essas entidades elevadas. O que posso afirmar. essas produções chegaram-me sempre espontaneamente. doutras. que. porém. porque não despendi nenhum esforço intelectual ao grafá-las no papel. o que perdura até hoje.

espírita. Imagine se o aparelho visual do homem fosse acomodado. Um desses que haja. Francisco Cândido Xavier Nas sessões espíritas. com os meus agradecimentos intraduzíveis aos boníssimos mentores do Além. porém. todavia. Perácio. alguém que encontre consolação nestas páginas humildes. Terei feito compreender. transmitindo-me as advertências e opiniões dos nossos caros mentores espirituais e.4 A tarefa é difícil. a quem me lê.?” Pela resposta do companheiro é que ele fica sabendo se está. os seus salutares ensinamentos. mas todas as pessoas de sua intimidade sabem que ele. por intermédio de instrumento tão mesquinho. E aqui termino. não poupando esforços para que este despretensioso volume viesse à luz da publicidade. a não ser esses escritos. Pedro Leopoldo. rizinhos ridiculizadores. ainda. o carinhoso interesse do distinto confrade Sr. confunde os habitantes dos dois mundos e muitas vezes pergunta ao amigo que esteja passeando com ele “Estás vendo ali um homem de barbas brancas. os campos se apresentariam como desertos. e dou-me por compensado do meu trabalho. que inspiraram esta obra. entre mil dos primeiros. pertencem igualmente à fenomenologia espírita. mantidas desde os 5 anos de idade. M. que aparecerá brevemente em nova edição. Cármen P. o mundo constituiria um conjunto . Os vivos do Além e os vivos da Terra não podem enxergar as coisas através de prismas idênticos. diante de um habitante do nosso mundo ou de habitante do mundo espiritual. (Nota da Editora) De pé. a verdade como de fato ela é? Creio que não. Há de haver. que tem sido de uma boa vontade admirável para comigo. os meus saudares. Pensou em fenomenologia somente como prática consciente da mediunidade Devo salientar o precioso concurso da bondosa médium Sra. Ao escrever estas palavras. segundo a potencialidade dos raios X: as cidades estariam povoadas de esqueletos. noutros. tenho de destoar da opinião que já expendi nas contingências da carne. Quintão. Nas minhas atuais condições de vida. que através da sua maravilhosa clariaudiência me auxiliou muitíssimo. desde a infância. transmitindo. Também isso são fenômenos espíritas. etc. que generosamente se dignaram não reparar as minhas incontáveis imperfeições. os mortos! Pede-me você uma palavra para o intróito do “Parnaso de AlémTúmulo”. A todos eles. dezembro de 1931. o Autor não se lembrou de que as suas relações constantes com Espíritos desencarnados. Em alguns despertarei sentimentos de piedade e.

4 Refere-se à 2ª edição. no domínio do conhecimento e da sensação. – exclama-se – porque os vivos da Terra se perdem nos abismos tenebrosos. (Nota da Editora. gritando como alucinados? Os habitantes dos reinos da Morte ainda apreciam o decoro e a decência.. afigura-se-nos que os brados de todos os sofredores e infelizes da Terra se concentram numa súplica grandiosa que invade as vastidões como o grito do valoroso almirante. Antero com a sua rima austera e dolorosa. – De pé. levantando o ânimo dos companheiros que haviam ficado nas pelejas. Na atualidade. (Nota da Editora) 5 Alude às crônicas que ele.) Mas é razoável que apareçamos no mundo. Conta-se que na guerra russo-japonesa. os que receberem novamente o “Parnaso de AlémTúmulo” dirão mais ou menos o que eu disse5. como a mensagem harmoniosa dos poetas que amaram e sofreram. concitou-os a auxiliar as manobras militares. Desejariam que estivéssemos algemados nos tormentos do inferno. escrevera no Diário Carioca. tangendo os mesmos assuntos que aí constituíam a série de suas preocupações. Os mortos falam e a Humanidade está ansiosa. é indubitável que possuímos no Além o reflexo das nossas virtudes ou das nossas misérias. “Parnaso de Além-Túmulo” sairá de novo. em recompensa dos nossos desequilíbrios no mundo. de mulher e de menina. publicada em 1935. e o nosso presente é sempre a experiência do passado e a esperança no futuro. Individualmente. a visitar os cruzadores de guerra.de aspectos inverossímeis e inesperados. o grande Togo reuniu os seus soldados no cemitério de Oogama. como se os nossos amargores. em nome da nacionalidade. Existem até os que reclamam contra a nossa liberdade. Junqueiro com a sua ironia. . terminada a batalha de Tsushima. Hão de estranhar que os mortos prossigam com as mesmas tendências. aguardando a sua palavra. Cármen Cinira aí está com os seus sonhos desfeitos. Cada esfera da vida está subordinada a certo determinismo. ao surgir a 1ª edição do Parnaso. Todos aí estão dentro das suas características. e na tristeza majestosa do ambiente. Uma claridade nova cantou as energias espirituais do valente adversário da pátria de Stoessel e os filhos de Yoritomo venceram. dirigiu-se aos mortos em termos comovedores. Os institutos da Civilização têm sido impotentes para resolver o problema do nosso ser e dos nossos destinos.. em julho de 1932. os mortos!. daí não bastassem para nos inclinar à verdade compassiva. Casimiro com a sua sensibilidade infantil. quando encarnado. Decerto.

Foi jornalista e deputado federal. conheceu em vida física a 1ª edição do Parnaso de Além-Túmulo. como Espírito. deixou alguns livros inéditos. dos quais dois já editados pela Federação. manifestando-se a respeito dela pelo “Diário Carioca”. Temos Jesus Desaba o Velho Mundo em treva densa E a guerra. de Miguel Timponi. . e a Humanidade sofredora sente-se no caminho consolador da sublime esperança. como a que se inseriu nesta página.. dois anos depois passou ele a valer-se. posto que fisicamente inválido. com os artigos intitulados “Poetas do outro mundo” e “Como cantam os mortos” (apud “A Psicografia ante os Tribunais”. Coração do Mundo. já em 9ª edição. zelosa de suas conquistas. (Nota da Editora) 1-Abel Gomes ESCRITOR. membro da Academia Brasileira de Letras.As filosofias e as religiões estenderam sobre nós o manto carinhoso das suas concepções. o Legado do Governador Espiritual do Planeta em Terras de Santa Cruz. temos sede! E os considerados mortos falam ao mundo na sua linguagem de estranha purificação. Ameaça a verdade e humilha a crença. Tendes convosco o Excelso Companheiro. no turbilhão da sombra imensa. Mas vós.. Liberto dos liames da carne. o livro confirmador da missão espiritual do Brasil. páginas 60 a 64. que é a de levar as luzes do Evangelho do Cristo a todos os quadrantes do Mundo. das faculdades mediúnicas de Francisco Cândido Xavier para a transmissão de importantes mensagens. em 1886. em 1934. temos fome. Pátria do Evangelho”. sendo 9 sob o pseudônimo de Irmão X. edições de 10 e 12 de julho de 1932. Vale destacar “Brasil. mas os filhos do infortúnio sentem-se envolvidos na onda divina de um novo Glória in excelsis. nascido em Minas Gerais a 30 de dezembro de 1877 e falecido a 16 de agosto de 1934. 4ª ed. mas esses mantos estão rotos!. ainda não ouviu a sua vibração misteriosa. MA. visando à cristianização da Humanidade. Humberto de Campos (Espírito) HUMBERTO DE CAMPOS Veras. FEB). editados pela FEB. sob a orientação do Anjo Ismael. Produção literária variada quão vultosa. Ditou-nos 12 livros. poeta e professor. nascido em Miritiba (hoje Humberto de Campos). escritor brasileiro. e desencarnado no Rio de Janeiro. acoplada ao mesmo “Parnaso” que ele conhecera aqui na Terra e oriunda do mesmo “Além-Túmulo” por ele tenuemente vislumbrado. além de copiosa obra esparsa. Temos frio. A Ciência. Espírito dinâmico. como lobo carniceiro. entre o assombro e a esperança. Nas torturas de um novo cativeiro.

Rogo a Jesus conceda reconforto Aos corações amados que ficaram! . Trabalhemos na dor ou na alegria. G.Que ama o trabalho e esquece a recompensa No serviço do bem ao mundo inteiro. É doce descansar após a lida. colaborou ativamente na imprensa e deixou opulenta obra esparsa. Ante o novo caminho ilimitado. Depois de atravessar a sombra imensa.. E dos quadros risonhos do meu porto. Funcionário público. Encontrei o país abençoado Onde vive a celeste recompensa. Irmã da paz e da serenidade. Que entornavam no espaço a sutileza Dos incensos das naves harmoniosas! Monja de olhar piedoso. Que abriu meus olhos na imortalidade.. desenganos. desvarios. Quintão Viajor vacilante e extenuado. Num dilúvio de lírios e de rosas. Rememorando as dores que passaram. Que traz à Terra um tênue reverbero Da mansão das estrelas erradias. em prosa e em verso. Onde pairam as formas vaporosas Do país ignorado da Beleza. Eis que a Terra tem crimes e tiranos. Não conservo senão o Amor e a Crença. A morte abriu-me as catedrais radiosas. Filhos da luz de uma outra Natureza.. À esperança de todos os meus dias! 3-Albérico Lobo NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro em 1865 e desencarnado em fevereiro de 1942. calmo e austero. Na conquista de luz da Vida Eterna. Adeus mágoas da noite estranha e densa. 2-A. Banhar o coração na luz da vida. Ambições. Das angústias e sonhos do passado. Mas vós tendes Jesus em cada dia. Morte Silenciosa madona da tristeza. Do meu porto Ao caro amigo M.. Asperezas dos homens da caverna.

Seja a bênção de amor a luz do teu destino. dedicou-se principalmente ao Magistério. Sente o Mestre do Amor que lhe mostra nos ombros A grandeza da cruz que ilumina e socorre. em 1859. Onde clame a revolta e onde exista a amargura. foi tido como Príncipe dos Poetas de sua geração.. Jesus Quanta vez. foge à sombra e à vingança. . Nas trevas do ladrão.. o peito exangue e aberto. Do mundo é a escuridão. o ninho e a sepultura. Nessa grande amargura. nascido em Palmital de Saquarema. entre escombros. agora é desconforto. em rumo escuro e incerto. Ajuda e passa Estende a mão fraterna ao que ri e ao que chora: O palácio e a choupana. como raios de aurora. que é náufrago sem porto. Do último dia O homem. Entre as vascas da morte. Desgraçado viajor rebelado ao seu guia. O homem vive a tatear na treva em que se cria! Em torno. sobre a estrada sombria. Planta a bênção da paz. Esclarece a alegria e consola a desgraça. parnasiano de escol. Irradia o perdão e atende. Toda a nau da ilusão se destroça e esfacela Sob as ondas fatais da indômita procela. Não te aflija a miséria. Tudo o que era vaidade. ajuda e passa. Somente o que venceu nesse mundo mesquinho. No pungente estertor do peito quase morto. E no escuro bulcão só Jesus persevera. a alma pobre. neste mundo. que sepulta a quimera. arrima-te à esperança. anseia e balbucia A suprema oração da dor do seu deserto. hoje e amanhã. Não troques mal por mal. abatido em seu horto. Farmacêutico. Agora.. Tudo o que vibra espera a luz que resplendora. no último dia. Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Sente o extremo pavor que a morte lhe revela. Seu coração é um mar que se apruma e encapela. No pavor de esperar a angústia que vem perto!. Como a luz imortal do amor que nunca morre. Do pobre coração. e falecido em Niterói. na dor da alma perjura. Guarda o anseio do bem que é lume peregrino. mundo afora. em 1937.. tudo é vão. Na eterna lei de amor que consagra a criatura. Desespera..4-Alberto de Oliveira FLUMINENSE.. soluça. compreende.

Carta ligeira Meu Lasneau. Perdi tempo em maluquice E o tempo me desconhece. Poeta e jornalista. A vida real começa. colaborou em várias revistas e jornais. ante o sol da Graça. no município de Piraí. esta choça. Oh! meu caro. passe. É o coração que desata Meus pesares num lembrete. Além da prisão de osso. . Desejo que a luta cesse. Rompe a treva do abismo enganoso e perverso! Onde vais. não é bilhete. Foge dessa tormenta antes que seja tarde: Só Jesus tem nas mãos o farol do Universo. É minúscula palhoça. face a face. e desencarnou em 13 de novembro de 1948. aposentandose como Agente de 1ª classe.. Depois de estudar Engenharia até ao 4º ano do curso. É feio talhão de roça. se eu pudesse Dizer tudo o que não disse. A Terra. Cheia de lama e fumaça. 5-Alfredo Nora ALFREDO José dos Santos Nora nasceu em 18 de novembro de 1881. Agora é que entendo isso. Não me olvide em sua prece.Conservando Jesus por verdade e caminho. É natural que padeça A minha pobre cabeça Perante a Luz. Sem a velha esquisitice Que inda agora me entontece! Entretanto. tornou-se funcionário da Central do Brasil.. guerra e cachaça.. Não é ofício. nem ata. Espere sem alvoroço. homem vão? Cala em ti todo alarde. é clara a messe Da sementeira de asnice. passa. Lasneau amigo. breve. Mas é triste a fé sem viço Que o sepulcro impõe à pressa.. Onde a carne. Que a coisa melhore e. Estado do Rio. Detendo por balda nossa Descrença.

6-Alphonsus de Guimarãens AFONSO Henrique da Costa Guimarães. na sombra onde se exala Um perfume de altar e misereres. Tangei harpas de esperança. Que andais no mundo exilados. Sinos Escuto ainda a voz dos campanários Entre aromas de rosas e açucenas. Magistrado. Lendo o missal da amargura! Esperai a sepultura.. Enchendo as grandes vastidões serenas. em volutas de flores e de incenso. De vos cantar. eu vos pertenço. E seguindo outros seres solitários.. Almas tristes de freiras e sórores. poeta mineiro. amortalhadas. O perfume das hóstias consagradas. Nos caminhos enevoados. jornalista e poeta.. dos Terços. velhas cenas.. A morte que nos salva não nos priva De ir ao pé de um sacrário abandonado. no Espaço luminoso e imenso. Nas lutas de vossa esfera. Escada de Jacob. Porque a Morte é a primavera Luminosa.. qual se afirma em suas obras: Dona Mística.. Aos crentes Ó crentes de uma outra vida. Redivivo Sou o cantor das místicas baladas Que.. Retomo velhos quadros. Achou. Filhos da paz e da crença Tangei harpas de esperança!. Kiriale. Sobre quem a saudade despetala Os seus lírios de pálidos fulgores. Eu ressurjo nos místicos prazeres. Septenário das Dores. Dos Ofícios. das Novenas. eterna e imensa. Atravessai o nevoeiro denso Em que viveis no mundo. Vozes de sinos pelos santuários. Ó crentes de uma outra vida! .... etc.. Chorar. notabilizouse principalmente pela tonalidade mística do seu astro. como inda faz a alma cativa! . Nasceu aos 24 de julho de 1870 e desencarnou em 15 de julho de 1921.. Rezando as orações dos Septenários. Almas que andais gemendo nas estradas Da amargura e da dor. natural de Ouro Preto.

Cantai. Mas as ânforas do teu coração vivem transbordando de substâncias estranhas. Em magnificência ampla e radiosa. Seu carinho aguarda a confiança espontânea. Buscando-vos nas Luzes Harmoniosas.. Onde a vossa virtude carinhosa Consola e ampara os fracos pobrezinhos.. 7-Alma Eros O cálice A chuva benéfica e abundante cai dos céus Mitigando a sede da terra. Por que não recolheste a tempo a tua parte? – Nada vi – responderás. Assim também. Há na Terra canções maravilhosas Entre as luzes e as lágrimas dos círios. o Amado espera. Nos altares simbólicos da Igreja! Eis.. até agora. O Amado é incapaz de violentar a tua alma. Aqui.Ó sinos dolorosos e plangentes. que vos vejo nos caminhos. Um turbilhão de vozes e de lírios. Senhora. Em que estenderás ao seu amor infinito O cálice do coração lavado e vazio. Acolá. Persegues a fantasia e alimentas curiosamente a ilusão. Dizendo a mesma Fé que salva os crentes! Santa Virgo Vírginum Sobe da Terra. É porque teus olhos estavam nevoados na atmosfera do sonho. Mas... choras e desesperas.. O irmão . O Senhor passa todos os dias. E dia virá. o mundo inteiro vos festeja.. Na expectativa de entregar-te os tesouros eternos. No entanto. o envenenado licor dos caprichos. Seu coração freme de júbilo. Todavia. porém. em ondas luminosas. guardas o vinagre dos desenganos.. Na estrada longa do destino. como cantáveis no passado. Distribuindo os dons celestiais.. o Amado faz chover sobre os homens Os poderes e as bênçãos.. Oh! Virgem da Pureza e dos Martírios! Imagens de turíbulos e rosas Aromatizam todos os empíreos.

. Desfaze a teia da filáucia humana. humilha e desengana A demência da carne que delira. Ao influxo do bendito esquecimento. jamais o deserdou por isso. Contempla as culminâncias que te aguardam Entre as nuvens. Lutou. Deu-lhe novas forças. E estende as mãos fraternas Àquele que ainda não pode ver o que já vês.Por que ajuízas com ironia. onde era encarregado dos negócios do Governo Imperial do Brasil. Buscou-o no fundo dos abismos. feriu-se em dolorosas experiências. Acreditou que o Senhor pertencia somente ao seu grupo E que as outras comunidades humanas eram condenadas. . Dando ao mundo o que possui de melhor. sofreu. O Amado. Depois. Como pai carinhoso. 8-Álvaro Teixeira de Macedo ÁLVARO Teixeira de Macedo nasceu no Recife em 13 de janeiro de 1807 e desencarnou em 7 de dezembro de 1849. Por vezes.. faze-lhe o bem que possas. porém. Concedeu-lhe oportunidades diferentes.. Publicou. Em busca da criancinha abandonada. Quando penetrou noutros círculos. Ama-o. Não observas em seu caminho áspero a tua própria história? Não atormentes com palavras amargas o irmão que se eleva Laboriosamente. Sobre as obscuridades do irmão que sobe dificilmente a montanha? Quando atravessava a floresta O pobrezinho julgou que o Amado lhe falava à mente pela voz do trovão E lhe erigiu altares Enfeitados de flechas. Fê-lo dormir no regaço. em livro.. Depois da festa Não te entregues na Terra à vil mentira. Para que o sol do trabalho lhe sorrisse outra vez. em breve. Que a Morte. Se já atingiste Algum topo de colina. um poema heróico-burlesco – “A Festa de Baldo”. De tempos a tempos. na Bélgica.

celeste. Rainha! . Talento brilhante. Também tive a minhalma outrora perturbada. O Senhor sempre é convosco. Finda a festa de baldo riso infando. Desce gemendo. Mensageira da ternura. Qual folha solta ao furacão violento. deixou dois volumes de Poesia. Venho testemunhar a luz de onde regresso. É por vós que conhecemos A eterna revelação Da vida em seus dons supremos. empobrecido e incerto. Que traz a treva em si e abre a porta dourada De um mundo que entre nós é a luz desconhecida. Onde vive e se expande o Espírito liberto.O gozo desfalece à própria gana. Mas a morte sanou-me a última ferida Desfazendo as lições utópicas do Nada. Ao turbilhão de cinza e esquecimento. além de copiosa literatura teatral e doutrinária. Toda vaidade ao báratro se atira. Que abandona a matéria exânime e cansada. consagrados pela crítica coeva. Nasceu no Rio de Janeiro em 20 de outubro de 1885 e desencarnou a 5 de janeiro de 1923. De dúvida. Incitando vossa alma aos planos invisíveis. A alma transpõe o túmulo chorando. Sob a ilusão mendaz chameja a pira Da verdade. 10-Amaral Ornellas FUNCIONÁRIO público. 9-Amadeu (?) O mistério da morte O mistério da morte é o mistério da vida. soberana. Bendita sois vós. Ave Maria Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime. incerteza e angústias consumida. E quem da luz não fez templo e guarida. de alma consumida. A morte é simplesmente o lúcido processo Desassimilador das formas acessíveis A luz do vosso olhar. Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! Cheia de graça e bondade. Providência dos que choram Nas sombras da desventura.

Nossa porta de esperança. cinza e areia. Investigando a entranha da monera. Lírio puro da humildade! Entre as mulheres sois vós A Mãe das mães desvalidas.. espera e crê. Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime. amando por vencê-las. Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! O Tempo O tempo é o campo eterno em que a vida enxameia Sabedoria e amor na estrada meritória. em 1842... caracterizando-se pelo seu espírito filosófico. Serve sem perguntar por “onde”. nos Açores. ascenderás cantando Aos Píncaros da Luz. além da Cruz. Nele o bem cedo atinge a colheita da glória E o mal desce ao paul de lama. E Anjo de nossas vidas! Bendito o fruto imortal Da vossa missão de luz. Ciência ínfima Onde o grande caminho soberano Da Ciência que abriu a nova era. e desencarnado por suicídio. Assim seja para sempre. Purifica-te e cresce. É vulto eminente e destacado nas letras portuguesas. Esquece a mágoa hostil que te oprime e alanceia. Fomentando o princípio desumano . Rosa mística da fé... A desvendar-se no capricho insano? Ciência que se elevou à estratosfera E devassou os fundos do oceano.Estrela da Humanidade. Refúgio dos que padecem Nas dores da luta humana. “como” e “quando”. em 1891. Oh! Divina Soberana. Às dores. no País das Estrelas! 11-Antero de Quental NASCIDO na ilha de São Miguel. Desde a paz da Manjedoura. Toda amargura é sombra enfermiça e ilusória. Dor e luta na Terra – a Celeste Oficina – São portas aurorais para a Mansão Divina. E. nos braços do Tempo. O serviço é vitória E cada coração recolhe o que semeia. Trabalha..

Rainha do Céu Excelsa e sereníssima Senhora. Sede a nossa divina providência E a nossa proteção de cada hora. Numa senda mais triste e mais sombria.. Escorraçada no padecimento. luta e chora. Eis que a Terra te acusa. Num caminho infeliz. Busquei-te. amarga e inconsolável. Longe da Luz.. Batendo alucinado à tua porta. Amparai o que anseia. Que sois toda Bondade e Complacência. que enche os céus ilimitados. Eras tu a visão idolatrada Que sorria na dor das minhas horas. No labirinto amargo da existência. Ciência de ostentação. Como a Grande Mendiga do Universo!... como se foras O Fim da sinuosa e negra estrada.. E tanto a vi.Da ambição onde a força prolifera. Por onde penetrei no Sofrimento. eu que trazia a alma já morta. Onde habitasse a eterna paz do Nada As agonias desconsoladoras. Sob o alarme guerreiro. Vosso amor. soluçando. sombrio e inverso. Se vislumbrava o riso da alegria Fora dessa amargura inalterável Esse prazer só era decifrável Sob a ilusão da eterna fantasia. Oh! Anjo Tutelar da Humanidade. Visão de tristes faces cismadoras. É a luz dos tristes e dos desterrados. À morte Ó Morte. Nos crepes do Silêncio amortalhada. eu te adorei. Esperança dos pobres desvalidos!. arma de efeito.. Depois da morte 11-1 Apenas dor no mundo inteiro eu via. da Paz e do Direito.. Que espalhais os eflúvios da Clemência Em caminhos liriais feitos de aurora!. formidando. Que espargis alegria e claridade Sobre o mundo de trevas e gemidos.. Que num véu de tristeza impenetrável Multiplicava as dores que eu sofria. E escancaraste a porta escura e fria. .

De ver o Deus de Amor. Andei cego. Não o via e. Olhar de pensador amargurado. 11-3 Depois de extravagâncias de teoria. Os prazeres. No seio dessa ciência tão volúvel. Vim. Francisco Cândido Xavier . Pela voz da vaidade. Nas vastidões da terra úmida e fria. Que a morte era um enigma solúvel. encontrar as luzes puras Da verdade brilhante. eu cria Achar na morte a escuridão do Nada. todavia. Nesse anelo cruciante e intraduzível. Sem que a Paz almejada conseguisse. no entanto. Trazia em mim o anseio irresistível De conhecer o Deus indefinível. sentindo o Incognoscível E a sua onisciência criadora. e sem que visse Meu próprio bem na dor que ia sofrendo. porém. que existisse Esta vida que agora estou vivendo. insolúvel. visão consoladora. De amargoso penar que se me abrisse. de quem descria. Só existia a dor. o engano imaginado Para aumentar a mágoa e o sofrimento. O gozo era a mentira dum momento.Ao meu olhar de triste e de descrente. Ela era o laço eterno e indissolúvel. Podia ver. que se eleva. Recamada de dor profunda e intensa. Morri. Desvairado. ela somente. 11-2 Misantropo da ciência enganadora. Soneto Quisera crer. em toda hora. Que liga o Céu à Terra tão sombria! E por estas regiões onde eu julgava Habitar a inconsciência e a mesma treva Que tanta vez os olhos me cegava. ao sepulcro fui descendo.Parnaso de Além-Túmulo 46 Que era na dor. na Terra. . Sobre o problema trágico. então. E nunca encontraria abismo horrendo. Iluminando todas as alturas. reconhecendo. Mas a insídia do orgulho e da descrença Guiava-me a existência desolada. gemendo.

O espaço e o tempo.. a excelsa luz. Onde se agitam turbilhões de esferas. Ao viver da minhalma sofredora. Se enlouqueci no meu degredo estranho. o Impenetrável. como se fora Apossar-me do eterno esquecimento. Acordando-me em lágrimas. No coração do mar e da montanha! Deus!. suplicante. Recrudescendo as minhas dores rudes. Escutando o soluço cavernoso Da pobre Humanidade escravizada. Divisei aos meus pés. Sente o assédio do mal. gemendo?” Ele riu-se e clamou para meus ais: “Companheiro na dor. as amplidões e as eras. Nunca mais te abandono! Nunca mais!” Soneto Mais se me afunda a chaga da amargura Quando reflexiono. criou obra tamanha. Que se vive no abismo tenebroso. Poderia criar o imensurável . cansado e moribundo: – “Que fazes ao meu lado.. somente o Eterno. O Remorso Quando fugi da dor. Nesse abismo de treva a bênção pura.. senão ele fez a esfinge estranha No segredo inviolável das moneras. quando penso No mar humano. Onde se perde a luz em noite escura.. Sua voz cavernosa e soluçante!. senão Deus. aquece e banha? Quem.. eu te acompanho. de olhar grave e profundo. Que a luz. A medonha figura de gigante Do Remorso.Da morte a Paz busquei. Sentindo o horror que nasce dessa vida. Cheio do pranto da alma encarcerada! Deus Quem. É o contra-senso Da luz unida à lama que a tortura. fugindo ao mundo. No coração dos homens e das feras. Mais se me aumenta a chaga dolorida. E em vez de imperturbáveis quietitudes. de mim diante.. Do espírito de amor ao mal imenso. Aproximei-me dele. Dizendo-lhe. corvo horrendo. Era de ouvir-lhe o grito gemebundo. encapelado e imenso. Encontrei os Remorsos e o Tormento.

não possui. na Crença e na Esperança. Que sobre a Terra os grandes bens perdidos São a posse da luz resplandecente. transformai-o em gozo alto e perfeito. Chega um dia em que o Espírito descansa Das aflições. A dor mais rude. a mágoa mais pungente. angústias e cansaços. iria em altos brados Libertar corações escravizados Sob o guante de enigmas profundos! Mas. Os soluços. Despedaçou-se à falta dessa crença. . Oh! se eu pudesse. distante do caminho estreito Desse mundo de dor e de orfandade. E estraçalhei-me como alguém que sela Com o supremo infortúnio a dor intensa. os prantos. Dentro da vida sem compreendê-la. Dos aguilhões das dores absolutas: Feliz de quem. Não choreis Não choreis os que vão em liberdade Buscar no Espaço o luminoso leito Da paz. Mas que chega no mundo muito tarde. dizei-lhes. Entre as almas são louros repartidos Muito longe da Terra impenitente. Em santa e esperançosa claridade. De tão pequena dor fazendo alarde.. Ah! Crer! bem que. Que as grandes luzes místicas revela. Crença! Luminosíssima riqueza Que enche a vida de paz e de beleza. os gemidos.E o Universo infinito criaria!. O pranto é a flor de aromas da saudade.. Suprema paz.. Que a luz espiritual da dor encerra A ventura imortal dos outros mundos! Crença Minha vida de dor e de procela Que se extinguiu na tempestade imensa. Desvairado de angústia e de descrença. E que habita na eterna claridade Das torrentes da Luz e da Harmonia! Consolai Se eu pudesse. ó vós que estais na Terra. diria eternamente. intérmina piedade. Aos flagelados e desiludidos.. na Terra. Mas. Quando entre conjeturas me perdi. Que perfuma e crucia o vosso peito.

Mão divina A luz da mão divina sempre desce. Antegozei. Miseráveis Espíritos que choram. Sob os grilhões de rude sofrimento! Orai por eles. Sobre as dores da pobre alma cativa. e em cujos flancos Repousa a grande mágoa adormecida. Essas compactas legiões sombrias. Buscando a paz depois das grandes lutas. Confiando. Turbas de almas escravas de agonias. Sob os golpes da dor. A paz livre de trevas e pavores. Almas sofredoras Passam na Terra como as ventanias. em minhas dores. Se o tormento da vida recrudesce. bons trabalhadores Que estais colhendo sobre a Terra as flores De um doce e temporário esquecimento.Procura a luz sublime dos espaços. Cheios de vida e de infinitos bens. Misericordiosa e compassiva. Aguardai a abundância da outra messe De venturas. Ao palmilhar estradas escabrosas. Ou como agigantadas nebulosas Provindas de cavernas misteriosas. Na escuridão espessa e indefinida! Não sonhei com teus deuses venturosos. Como um vergel azul de lírios brancos. Céu! quanta vez minhalma entristecida Anteviu tua paz. Lendo os artigos ríspidos da Lei! Os filhos da Piedade e da Paciência Encontrarão nos páramos divinos A paz e as luzes que eu não alcancei. Onde mora a ventura. sob os arrancos. Se a amargura das lágrimas se aviva. Que está nas sendas lúcidas da Prece. diamantinos.. em toda a vida. Com que andei entre queixas dolorosas. rijos e francos. Supremo engano Vê-se da Terra o Céu. somente. Do imperturbável nada que não tens! . Entre as noites mais lúgubres e frias! Oh! visões de martírios que apavoram. esperai a Providência Com os sentimentos puros. Com teus grandes olimpos majestosos.. que é da alma rediviva.

em voz soturna: – “Insensato! aonde vais. Fim de toda a amargura da descrença. angustiada. chora e pensa.. Que em sua triste condição humana Fez a essência de Deus igual a si! Fatalidade Crê-se na Morte o Nada.Incognoscível Para o Infinito. Nos labirintos da Filosofia.. O meu erro. no mundo. Mas a Verdade. orbe da lágrima e do erro. na Terra. além. no mundo inteiro.. E no meio de todas as canseiras Cheguei. Aos tenebrosos pântanos da Morte. Pelos seres terrenos inventada. Cavaleiro e corcel. o homem divisa A figura das dúvidas que matam. que traz a alma lacerada Nos pelourinhos negros de uma estrada De provação. Quem vai de alma gemente e consumida. Coroado de folhas de loureiro.. quanto o vão mortal inda se engana. Que entre anseios e angústias conheci! Mas. Tudo fala de Deus nesse desterro Da Terra. enfim. a crença se realiza. de cólera violenta. de angústia e de tormenta. sobre a humana furna. Deus não representa A personalidade humanizada. e. todavia. Gritou-lhe.. Foi crer demais na angústia e na doença Da alma que luta e sofre. vaidade e orgulho. sem norte?” E impeliu. Onde a grande certeza principia.. no mundo da Agonia. Veio a Vaidade e disse: – “A toda brida! Dominarás. Nunca. Cheia. Deus não castiga o ser e nem o isenta Da dor. sem Deus. Porque em tudo. 12-Antônio Nobre . às dores derradeiras Que as tormentas de lágrimas desatam!. Estranho concerto Clamou o Orgulho ao homem: – “Goza a vida! E fere. brasonado cavaleiro.. Cavalga o tempo e corre ao teu roteiro De soberana glória indefinida!. às vezes.. A Morte é a própria Vida ativa e intensa. sem detença e sem barulho.

Pode-se amar o veludo De uns olhos e os brilhos seus. Voltam sim. Nas grandes mansões da morte Inda há romance e noivados. Nem sempre poderá rir. que valem elas Se estão na sombra ou sem luz? Tesouro são as estrelas Da bondade de Jesus. em 18 de março de 1900. Que choram nas horas mortas. Contudo. Nem a morte os vencerá. Às vezes acham-se fojos .. Corações despedaçados.. Quem riu ontem. Ó figuras de velhinhos Que andais dormitando ao léu! Como são belos os Linhos Que vos esperam no Céu! Dizem que os mortos não voltam. acima de tudo Devemos amar a Deus. Porém.. Nem gritos e nem cantigas Entre vós que à noite andais. muito estimado – Só – e Despedidas.. que importa lá? Porque os amores fiéis. E por que não? Os corpos daí nos soltam. Pensei que a morte era o fim Das ânsias do coração. não é assim. Quadras de um poeta morto Coração. Venturas da boa sorte. De vossa alma abri as portas Para. não vos canseis De bater. Nem pó e nem solidão. os fantasmas da rua.. Como às aves o alçapão.. Deixou um livro inconfundível e. ainda hoje. Vós que amais a luz da Lua. As almas das raparigas Inda sonham nos choupais..NASCEU na cidade do Porto e faleceu na Foz do Douro aos 33 anos de idade. quem ri hoje. Distinguiu-se pela suavidade e melancolia do seu estro.. Um dia o riso lhe foge. edição de 1902. Riquezas. Sem que o veja escapulir.

Onde há música e festins,
E há muitos cardos e tojos
Entre as flores dos jardins.
Se eu pudesse, estenderia
Minhas capas de luar,
Sobre os filhos da agonia
Que andam no mundo a penar.
A morte só pode ser
A vida risonha e pura,
Para quem a padecer
Vive aí na sepultura.
Mal vais, se vais caminhando
Na ambição de ouro e glória;
Nesse mundo miserando
Toda ventura é ilusória.
Chorai! chorai orfãozinhos,
Vossas dores amargosas:
Achareis noutros caminhos
As vossas mães extremosas.
Deixa cantar, ó menina,
Teu coração sonhador...
No sepulcro não termina
O novelário do amor.
Um anjo cheio de encanto
Vive sempre com quem chora,
Guardando as gotas de pranto
Numa urna cor da aurora.
No Universo há céus profundos,
Cheios de vida e esplendor,
Um céu é um ninho de mundos,
Um mundo é um ninho de amor.
A caridade é a beleza
De um divino plenilúnio,
Luz que se estende à pobreza,
Na escuridão do infortúnio.
Aos mendigos desprezados
Não ridicularizeis,
São senhores despojados
Dos seus tesouros de reis.
Aqui, a alma inda espera
O alguém que na Terra amou,
O raio de primavera
Que aí jamais encontrou.
Há quem faça aí mil contas,
Que os interesses resuma,
Mas morrem cabeças tontas,
Sem fazer conta nenhuma.

Tecei sonhos, fiandeiras,
Oh! almas enamoradas,
Vivei aí nas clareiras
De luzes alcandoradas.
Ah! que sinto aqui saudades
Das noites de São João,
Sonho, estrelas, claridades,
Cantigas do coração.
Na minha vida de agora
Não canto as festas louçãs,
Naquelas toadas de outrora
As moçoilas coimbrãs.
Acompanha-me a tristeza
Das saudades, por meu mal;
Minha terra portuguesa! ...
Meu querido Portugal! ...
Do Além
Pudesse o nosso olhar, vagueando os ermos,
Ver através da própria soledade
A expressão luminosa da Verdade,
E da luz da Verdade não descrermos...
Preocupar-se aí, porém, quem há de
Com o problema de sermos ou não sermos,
Pois que o ardente desejo de o sabermos
É sempre o anelo falso da vaidade?
Peregrinos da dor, na dor andamos
Sem que a nossa miséria se desfaça
No escabroso caminho onde marchamos,
Seguindo a alma nos sonhos iludida,
Até que a dor unindo-se à desgraça
Descerre os véus que encobrem outra vida.
Soneto
“Quando cobrir-se o chão de folhas mortas
– Meu coração dizia em grave entono –
Extinguindo-se a vida que comportas,
Dormirás no meu seio o último sono...
E murmurava a alma – “Findo o Outono,
A Primavera vem por outras portas;
Não existe no túmulo o abandono,
Ou a dor amarga e rude em que te cortas.”
Escutava essas vozes comovido,
Morto de angústia, morto de incerteza,
Aguardando o sol-posto, entristecido;
E além da amarga vida de segundos,
Ressurgi da tortura e da tristeza,
Sob os ares sadios de outros mundos!
Ao mundo

A Terra é o vasto abismo onde a alma chora,
O vale de amarguras do Salmista,
Lodoso chavascal onde se avista
A podridão dos vermes que apavora.
Mas, para os grandes bens, para que exista
A perfeição da luz deslumbradora,
Precisamos da carne que aprimora
Com o camartelo mágico do artista.
Terra, tranqüilamente eu te abençôo...
Porque da tua dor alcei meu vôo
Para a mansão das luzes opulentas;
Teu rigor nos redime e nos eleva;
Mas és ainda o cárcere da treva,
Triste mundo de chagas pustulentas!
À Mocidade
Cantai! cantai, ó mocidade! Moira
Encantada que ri nos prados verdes,
Cantai o amor que é luz que se entesoira,
Vibrai na luz da vida em que viverdes.
Glorificai, ditosa, o sol que doira
O riso que espalhais sem compreenderdes,
Expandi-vos na primavera loira,
Nos poemas de luar que conceberdes!
Ide cantando, mocidade ardente,
Alvorada em abril, do sol-nascente,
Clareando o porvir almo e risonho;
Marchai sorrindo, doce juventude,
Na exaltação do amor e da saúde,
Ébria de aroma e luz, ébria de sonho!...
13-Antônio Torres
NASCEU em Diamantina (Minas Gerais) em 1885, falecendo,
em 1934, na cidade de Hamburgo, como cônsul adjunto do
Brasil. Ordenou-se sacerdote, abandonando mais tarde a profissão
eclesiástica. Poeta e escritor.
Esquife do sonho
Tive um sonho de amor e de inocência,
Cheio de luz das coisas invulgares,
Do qual perdi a luminosa essência
Na cristalização dos meus pesares.
Tarde reconheci minha falência,
Terminados os múltiplos azares,
De minha quase inútil existência,
No silêncio das cinzas tumulares.
E da morte, no abismo indefinido,
Tombei exausto, amargurado e cego,
– Abismo tenebroso que eu transponho.

Infeliz do meu ser irredimido,
Pois triste e atordoado inda carrego
O negro esquife do meu próprio sonho.
Nada...
Nada! ... Filosofia rude e amara,
Na qual acreditei, com pena embora
De abandonar a crença que esposara,
– A minha aspiração de cada hora.
Crença é o perfume d'alma que se enflora
Com a luz divina, resplendente e rara
Da Fé, única Luz da única Aurora,
Que as trevas mais compactas aclara.
Revendo os dias tristes do passado,
Vi que troquei a Fé pela ironia,
Nos desvios e excessos da razão;
Antes, porém, não fosse tão ousado,
Pois nem sempre a razão profunda e fria
Alivia ou consola o coração.
14-Artur Azevedo
NASCIDO em São Luis, no Maranhão, a 7 de julho de 1855 e
falecido na cidade do Rio de Janeiro a 22 de outubro de 1908.
Diretor Geral de Contabilidade do Ministério da Viação. Poeta,
comediógrafo, jornalista e crítico. Membro e fundador da Academia
Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira de Martins Pena.
Miniaturas da sociedade elegante
14-1
Adriano Gonçalves de Macedo,
Homem de cabedais e alma sem siso,
Penetrou no seu quarto com um sorriso
Às dez horas da noite, muito a medo.
Uma carta de amante – era um segredo –
Ia abri-la, e, assim, era preciso
Que a sua esposa, dama de juízo,
Não na visse nem mesmo por brinquedo:
Dona Corália Augusta Colavida
Estaria nessa hora recolhida?
Levantou a cortina, devagar...
Mas, que tragédia após esse perigo...
Viu que a esposa beijava um seu amigo,
Sobre o divã, da sala de jantar.
14-2
No belo palacete do Furtado,
Palestrava a galante Mariquita
Com um pelintra afetado, assaz catita,
Bacharel delambido e enamorado.
De sobre a grande cômoda bonita,

militou na Política e foi membro de realce da Academia Brasileira de Letras. Abençoando o bem.. cínico e falsário.. Numa corrida louca. perdoando a maldade. O doce missionário Sertão hostil. Tudo era languidez. tristonha e desolada. imitador de Assis. orador e publicista. 15-Augusto de Lima POETA mineiro. Mas a jovem retoma-o. Minas. Revirando-o nas mãos. Agreste serrania. interessado. E ele. Além se divisava a solidão da estrada. Recamado de quadros indecentes. Protegido dos membros da regência. Foi um sucesso. No apartamento escuro da criada. 14-3 Dom Castilho. Realizara alentada conferência. Era um compêndio de pornografia.. Naquele dia. notável latinista. Era intenso o calor. Servo amado de Deus. . E a esposa Ana Fulgência. Mais o olhava e mais se ria. conselheiros.. Na clareira. Foram levar-lhe um abraço camarada. Arrebata-o às frágeis mãos trementes Abriu-o. em 5 de abril de 1859 e desencarnado no Rio de Janeiro em 22 de abril de 1934. Nele via uma grande alma de artista. muito aflita: . desânimo e torpor. é meu breviário!” Diz inquieta. Ninguém! Nem uma sombra se movia. Que na humildade achara a vida mais feliz. espelho de bondade. Antonico. poetas. Que primor de moral! e os companheiros Escritores. Amarela de pó. nascido em Sabará. Sobre rígido assunto moralista.“Esse livro. o doce missionário. Ali vivia Anchieta. Carinhoso pastor. Tendo por companhia A cruz do Nazareno. Magistrado íntegro. humilde e solitário. tendo ocupado a presidência dessa instituição. Louvando-lhe a utilíssima existência De homem probo e notável publicista. esses senhores Foram achá-lo em seus trajes menores.Toma o moço um livrinho encadernado. onde o Sol feria os vegetais.

Agoniza na taba.” ... ao longe. o pastor prestamente Toma da humilde cruz do Mártir do Calvário. por tudo o que nos dás.. Pisando vagaroso o chão que o Sol abrasa. Que calcina. que te ama e te venera. Eu vejo-te no alvor das manhãs harmoniosas. Dirige-se-lhe a casa. Eis que a sede o devora. esguios espinhais Implorando piedade às amplidões divinas. inflamando os horizontes. Seja alegria ou dor. Abandonando o ninho agreste e solitário.” E isso dizendo. Abençoados são o Inverno que traz frio E os calores do Sol nas estações do estio.. Na estação outonal. todo amor. Numa férvida prece. Convertido por vós à luz da vossa fé. que vindes de passagem.“Oh! doce filho meu. ao termo da viagem. no cálice das rosas.Viam-se florescer bromélias e boninas. amparo e luz. no sofrimento. na loura Primavera. o pastor não se deplora. Que penosa jornada. de luz e caridade. Entretanto.. Na corola de luz de todas as florinhas. Que Jesus vos ampare.. Eterno Pai de amor.. Ele espera de vós a paz do coração E implora lhe leveis a bênção do Senhor. Ele ainda agradece: – “Sê bendito. – “Meu protetor – diz ele –.” . Que tem oferecido a Deus o seu amor. Nem árvores umbrosas e nem fontes. elevando-se aos céus. Senhor. na irradiação da luz. No canto. Para arrancar à dor o pobre penitente. No azulíneo do céu. das meigas avezinhas. Em tão rudes e aspérrimos caminhos! . A terna e meiga efígie de Jesus É-lhe paz e alimento. Somente o Sol ferino e destruidor. Eis que o irmão de Jesus. Há solidão na estrada. Tudo vive a mostrar tua pródiga bondade. E. o humilde pegureiro Avista um mensageiro. o bom pajé. Ferem-lhe os pés as pontas dos espinhos. Pairam no ar excessos de calor.. Na vibração dos sons. tudo é ventura e paz.. No coração do bom. Na dor.. em nossa própria cruz. em aflição.

Terminando a sorrir a espontânea oração,
Inspirada em tão santa devoção,
Anchieta escuta em torno os mais sutis rumores.
Eis que nos arredores
Congregam-se apressadas
Todas as avezinhas,
E, asas aconchegadas,
Juntinhas,
Numa ideal combinação
Formam um pálio protetor,
Cobrindo o doce irmão
Que ia ofertar amor,
Luz e consolação,
Em nome do Senhor.
Pelos caminhos,
Foi-se aumentando
O alado bando
Dos bondosos e ternos passarinhos,
Aureolando com amor o Discípulo Amado,
Modesto, casto, humilde e isento de pecado,
Que ia seguindo,
Lábios sorrindo,
Em meiga mansuetude.
O enviado do Bem e da Virtude
Agradecia ao Céu, o coração em luz,
Evolando-se puro ao seio de Jesus.
Chegara ao seu destino. Ia caindo o dia
No poente de paz e de harmonia,
Brilhava nova luz, feita de crença e amor:
Era a bênção dos Céus, a bênção do Senhor.
O santo de Assis
No suave mistério dos espaços,
Santa Maria dos Anjos inda existe,
Com a mesma luz divina dos seus traços,
Glorificando as dores da alma triste,
Repartindo a Virtude, a Graça e os Dons
Que a palavra divina do Cordeiro
Prometeu aos pacíficos e aos bons
Do mundo inteiro...
Uma nova Porciúncula, dourada
Pelos astros de mística alvorada,
Aí se rejubila,
Sob a paz de Jesus, terna e tranqüila,
Derramando no Além ignorado
Os sonhos de Virtude e Perfeição,
Daquela mesma Umbria do passado,
Cheia de encantamento e de oração.

A luz dos sóis da etérea Natureza,
Numa doce e ideal Eucaristia,
O Esposo da Pobreza
No seu manto de amor e de alegria
Inda abre os braços para os pecadores...
“Irmão Sol, irmãos Anjos, irmãs Flores,
Não nos cansemos de glorificar
A caridade imensa do Senhor,
Sua sabedoria e seu amor,
Procurando salvar
Os nossos irmãos Homens mergulhados
Entre as noites sombrias dos Pecados!...
E à voz suave e dúlcida do Santo,
A Terra escura e triste se povoa
De anjos de amor, que enxugam todo o pranto
E que levam consigo
Todo o consolo amigo
Da Esperança no Céu, singela e boa...
Das paragens etéreas
Da sua ideal igreja,
São Francisco de Assis abraça e beija
O homem que sofre todas as misérias,
Amparando-lhe a alma combalida
Nos desertos de lágrimas da Vida...
E o conduz
Ao regaço divino de Jesus!...
Santo de Assis, divino “poverello”,
Nas amarguras do meu pesadelo
De vaidade do mundo, que devasta
Todo o bem, vi tua luz singela e casta
Beijando as minhas lepras asquerosas...
Uma chuva de lírios e de rosas
Lavou-me o coração de pecador
E guardei para sempre o teu amor.
Santo de Assis, irmão da Caridade,
Que me curaste as lepras e a cegueira,
Depois da morte, à luz da imensidade,
Quero ainda abençoar-te a vida inteira...
16-Augusto dos Anjos
PARAIBANO. Nasceu em 1884 e desencarnou em 1914, na
cidade de Leopoldina. Minas. Era professor no Colégio Pedro 2º,
inconfundível pela bizarria da técnica bem como dos assuntos de
sua predileção, deixou um só livro – Eu – que foi, alias, suficiente
para lhe dar personalidade original.
Voz do Infinito

16-1
No excêntrico labor das minhas normas
Na Terra, muita vez me consumia
Perquirindo nas leis da Biologia
As expressões orgânicas das formas.
O fenômeno apenas, porque o fundo
Do númeno às eternas rutilâncias,
Eram partes do Todo nas Substâncias
Desde o estado prodrômico do mundo.
Com o espírito absconso em paroxismos,
No rubro incêndio de batalha acesa,
Via Deus adstrito à Natureza,
Deus era a lei de eternos transformismos.
Concepção panteística, englobando
As substâncias todas na Unidade,
Perpetuando-se em continuidade,
A essência onicriadora reformando.
O corpo, desde o embrião inicial,
Era um mero atavismo revivendo;
A alma era a molécula, sofrendo,
Afastada do Todo Universal;
Dominava-me todo o medo horrível,
Do meu viver, que eu via transtornado:
Eu era um átomo individuado
Em cerebralidade putrescível.
A luz dessa dourada ignorância,
E com certezas lógicas, numéricas,
Notava as pestilências cadavéricas
Iguais à carne Angélica da infância,
A sutilez do arminho que se veste,
A coroa aromática das flores,
Irmanadas aos pútridos fedores
De emanações pestíferas da peste!
Extravagância e excesso jamais visto,
De idéia que esteriliza e desensina,
Loucura que igualava Messalina
À pureza lirial da Mãe do Cristo.
Assim vivi na presunção que via,
Dos cumes da Ciência e do saber,
Os princípios genéricos do ser,
No pantanal da lama em que eu vivia.
Vi, porém, a matéria apodrecer,
E na individualidade indivisível
Ouvi a voz esplêndida e terrível
Da luz, na luz etérica a dizer:
16-2

“Louco, que emerges de apodrecimentos,
Alma pobre, esquelético fantasma
Que gastaste a energia do teu plasma
Em combates estéreis, famulentos...
Em teus dias inúteis, foste apenas
Um corvo ou sanguessuga de defuntos,
Vendo somente a cárie dos conjuntos,
Entre as sombras das lágrimas terrenas.
Vias os teus iguais, iguais aos odres
Onde se guarda o fragmento imundo.
De todo o esterco que apavora o mundo
E os tóxicos letais dos corpos podres.
E tanto viste os corpos e as matérias
No esterquilínio generalizados.
E os instintos hidrófobos, danados,
Em meio de excrescências e misérias
Que corrompeste a íntima saúde
Da tua alma cegada de amargores,
Que na Terra não viu os esplendores
E as ignívomas luzes da virtude.
Olhos cegos às chamas da bondade
De Deus e à divina misericórdia,
Que espalha o bem e as auras da concórdia
No coração de toda a Humanidade.
Descansa, agora, vibrião das ruínas.
Esquece o verme, as carnes, os estrumes.
Retempera-te em meio dos perfumes
Cantando a luz das amplidões divinas.”
16-3
Calou-se a voz. E sufocando gritos,
Filhos do pranto que me espedaçava,
Reconheci que a vida continuava
Infinita, em eternos infinitos!
Vozes de uma sombra
Donde venho? Das eras remotíssimas,
Das substâncias elementaríssimas,
Emergindo das cósmicas matérias.
Venho dos invisíveis protozoários,
Da confusão dos seres embrionários,
Das células primevas, das bactérias.
Venho da fonte eterna das origens,
No turbilhão de todas as vertigens,
Em mil transmutações, fundas e enormes;
Do silêncio da mônada invisível,
Do tetro e fundo abismo, negro e horrível,
Vitalizando corpos multiformes.

Enigmas insolúveis e profundos.Sei que evolvi e sei que sou oriundo Do trabalho telúrico do mundo. não perceberás. apenas fui terrível presa. Porque existem as crianças e os macróbios Nas coletividades dos micróbios Que fazem a vida enferma e a vida sã. Um estafermo e um Tales de Mileto. Da Terra no vultoso e imenso abdômen. Como existiram. Onde me revolvi como infusório. Simbiose da dor e da tristeza. A dor. Descortinando as luzes do futuro. obscuro. E nem compreenderás como se opera A mutação do inverno em primavera. E a transubstanciação da guerra em paz. . voltei desse laboratório. Depois. Na Terra. Abatia-me a vida solitária Como se eu fora bruto entre os mais brutos. Grito ao mundo o meu grito que se alia A todos os anseios gemebundos: – “Homem! por mais que gastes teus fosfatos Não saberás. desde as intensas torpitudes Das larvas microscópicas e rudes. essa tirânica incendiária. A razão do completo e do incompleto. A infinita desgraça de ser homem. Como vivem o novo e o obsoleto. Como animálculo medonho. Sombra egressa de lousa dura e fria. Inda que desintegres energias. O ângulo obtuso e o ângulo reto Dentro das linhas da Geometria. Durante penosíssimos minutos. Os antigos remédios alopatas E as modernas dosagens homeopatas. E vejo os meus incógnitos problemas Iguais a horrendos e fatais dilemas. analisando os fatos. a asa do inseto. Como é que em homem se transforma o feto Entre os duzentos e setenta dias. A flor da laranjeira. A luz de Miguel Angelo nas artes. E o espírito profundo de Descartes No eterno estudo da Filosofia. Sofri. Té atingir a evolução dos seres Conscientes de todos os deveres.

Os lombricóides mínimos. Junto dois palacetes higiênicos. os vermes. As grandes atonias e as nevroses. Vaso de carne podre. Que reunindo os átomos no solo Tecem a evolução de pólo a pólo. E o jardim rescendendo de perfumes. A atividade e a inatividade. . Como os degenerados blastodermas Criam a descendência dos palermas No lupanar das pobres meretrizes. É o gigante e o germe originário. Onde entre gozos fúlgidos e edênicos Cresce a alegre progênie dos felizes. Mostrando as luzes da imortalidade. A teoria cristã e Augusto Comte. o inferno torvo Nos absconsos refolhos da consciência. Os terrenos povoados e o deserto. Como vive o canário junto ao corvo. Onde há somente um óvulo fecundo. As coisas substanciais e as coisas ocas. A funda simpatia e a antipatia. Aquilo que está longe e o que está perto. Em contraposição com os paquidermes. Em prodigiosas manifestações. O laconismo e a prolixidade. O céu iluminado. A psíquico-análise freudiana Tentando aprofundar a alma humana Com a mais requintadíssima vaidade. E o desconhecido e o devassado. Os milhões de corpúsculos do ovário. E o que é ilimitado e o limitado Na óptica ilusória do horizonte. A alma pura do Cristo e a de Tibério. O doloroso e tetro cataclismo Da beleza louçã do organismo.Produto da experiência de Hahnemann. As idéias conexas e as loucas. Assombrosas antíteses no mundo. O que não tem sinal e o que tem marca. As atrações e as grandes repulsões. Repleto de dejetos e de estrumes. A noite da ignorância e o sol da Ciência. As epidermes e as aponevroses. o cemitério. E as teorias do Espiritualismo Enchendo os homens todos de otimismo.

atrozes. Ou mesmo vinculada a gnosticismos Nos singultos preagônicos. Como as tuberculoses e a anasarca. Os fenômenos todos geológicos. Nos distúrbios sutis da hipocondria. É a voz humana em intérminas nevroses. Cosmopolitismos. E o sangue em continuada efervescência Com impulsos terríficos e tredos. Caminharás lutando além da cova. Psíquicos. Seja nas concepções dos ateísmos. nos risos e nos pânicos. dos astros à monera. Na solução de todos os contrastes. Alma Nos combates ciclópicos. confusa. sociológicos. Enceguecido e louco então que eu era. E apesar da teoria mais abstrusa Dessa ciência inicial. Buscando as perfeições do Amor em Deus. titânicos. científicos. insaciada. Nas defectividades da estesia. Homem! por mais que a idéia tua gastes. Outras vozes. seres inorgânicos. É nessa eterna súplica angustiada Que eu vejo a dor em gozos. As luzes d'alma em trágicos segredos. Uivando subjugadas e ferozes.” Voz humana Uma voz. A dor. A que se acolhem míseros ateus. Nos instintos soezes e tirânicos. Que não via. Que inspiram pavor e inspiram medo.As atrofias e a hipertrofia. Que eu às vezes na Terra empreendia. É a obreira que tece os esplendores Da evolução onímoda dos seres. Para a Vida que eterna se renova. Não saberás o cósmico segredo. que gargalhando em nossas dores. Duas vozes. Nutrir-se de famélicos prazeres. Gritos de feras em paroxismos. Buscava as almas. Nas lágrimas. Nos vastos campos da Psicologia. . Milhões de vozes. Somente achava corpos na existência.

A cadeia de impulsos e de instintos. Apoucado Narciso que se orgulha Na profundeza ignota dos abismos Da carne. Onde a luz é penumbra tênue e vaga. tegumentos. Tudo o que a poeira cósmica elabora Em sua atividade interminável. É mais que uma atrevida aberração: Que se quebre o escalpelo de meus versos: Entreguemos a Deus seus universos Que elaboram a eterna evolução. Serpentes entre escrófulas e helmintos. Misturarmos clarões de sentimentos Entre vísceras. materializados. Nos recantos dos mundos inferiores. Que. Evolução Se devassássemos os labirintos Dos eternos princípios embrionários. Mas a análise crua do que eu via. Prendermo-nos ao fogo dos instintos. Tendo a alma – centelha. que. a onda sonora. Hedionda lição de anatomia. Enegrecermos luminosidades Na macabra esterqueira dos tumores. estrambótica. Nas ferezas do instinto. nervos. Em sexualidades e histerismos. parece Cataclismo dos grandes cataclismos. sem vigor. fraquíssima. luz e chama – Amalgamada em pântanos de lama. Na agregação da carne e dos humores. Que atrofiada. apodrece. Espíritos em ânsias retroativas. . O anseio da vida. se apaga Ao furacão indômito das dores. Voracidade onde a alma se mergulha.Análise Oh! que desdita estranha a de nascermos Nas sombras melancólicas dos ermos. E nisto achar fantásticos prazeres. Multiplicando as lágrimas e os trismos. Atrocidade das atrocidades. hipertrófica. Ilusão hiperbólica dos seres Bestializados. Que percorrem o espaço imensurável. Rudimentos dos seres planetários. No transcorrer das vidas sucessivas. atassalhados.

Larva repugnante e vermiforme. Imensidade nas imensidades! Nós já fomos os germes doutras eras. nas plantas e nos vermes. Transformando-se em luz. Dissolvidos na terra famulenta. O homem é fruto insólito da ânsia. Ao monólito enorme das idades. Horrente a devorar com sede e fome Minhas carnes em lúbrico transporte. A quietação dos túmulos inermes.Veríamos o evolver dos elementos. Vi que o “ego” era o alento flâmeo e forte Da luz mental que a morte não consome. Das origens às súbitas asceses. Homo 1 Ao meu tétrico olhar abominável. em sentimentos. dos invisíveis microcosmos. Nos íntimos recôncavos da placenta. Onde a divina essência se reveste . No assombroso prodígio das esteses. Tudo é clarão da evolução do cosmos. Era um feixe de mônadas de vermes. Viemos do principio das moneras. Heterogeneidades da Substância. Nos rochedos. 2 Após a introspecção do Além da Morte. Inferiores e rudimentares. Desde a mais abscôndita reentrância Da sua embriogenia detestável. Do intravascular princípio informe. De que o planeta triste se engalana Nas grilhetas do infinitesimal. No profundo silêncio dos inermes. Não há luta mavórtica que o dome. Vendo a terra que os próprios ossos come. Buscando as perfeições absolutas. Argamassando um Todo miserável. A mesma luz dos corpos estelares! É que. Ou venenada lâmina que o corte. Depois da estercorária microbiana. Volve o Espírito ao páramo celeste. Enjaulados no cárcere das lutas. Psique dolorosa e inexpressável Na mais remota epíspase da infância.

em brasa.. sendo eu o Augusto. . Aterradoramente sofredora! Ausculto a humana dor. entro Em relação com o mundo onde concentro O espírito na queixa atordoadora Da prisioneira. Incógnita Por que misterioso incompreensível Vomito ainda em náuseas para o mundo Todo o fel. ígneo. que a rota etérica transponho Com a rapidez fantástica do sonho. Buscando ávida a luz. universal. Se vos mentisse. com intelecto de arbusto. Atramente a gemer a mágoa e o luto. Em diferenciação definitiva. Mais o enigma do mundo se lhe aviva.Da substância fluida. se mistificasse No anonimato. Levantar-me do leito de Procusto. Quer com Darwin. Dentro da noite É noite. lúcido. – A misérrima e pobre Humanidade. À Terra volvo. com Haeckel. Por mais que sonde. e por mais que o procurasse. que hórrida sinto. toda a bílis do iracundo. Se eu já não tenho a bílis putrescível? Insondável arcano! por que inundo Meu exótico ser ultra-sensível Em plena luz e atendo ao gosto horrível De apostrofar o pobre corpo imundo? Fluidos teledinâmicos me servem.. De que concavidade do Universo Vem-me o açoite flamívomo do verso. O mesmo triste e estrábico produto. se não vos declarasse. Sou eu. Mais a luz desejada se lhe esconde! É o quadro mesológico. da perpétua grade. Nas mais contrárias idiossincrasias. com Laplace. Inexprimível nas termologias. Jamais cri. De tudo o que ficou no abismo horrendo Da tenebrosa noite dos gemidos. E. tremendo. D'alma quebrando o cárcere do instinto. Extremamente injusto Seria. Chama da mesma chama que me abrasa? “Ego sum” Eu sou quem sou. Sou eu que. então. Transmitindo as idéias que me fervem No cérebro candente.

e chegam-me fortes cheiros acres. Sentindo-se em seus leitos como em ermos.. E ainda transpondo o Azul sereno. Às bactérias mais vis ambas trocando. As dores espasmódicas dos partos. atrocíssima. Desde o sol-posto. Essa angústia indomável. o anseio. Como o cheiro de sangue dos massacres. Dos desejos que não se realizaram. Verminados. Junto da emanação requintadíssima Do ácido sulfídrico das tumbas. Plantando a dor no chão dos seus cenóbios. o veneno E a desdita dos seres sofredores. piedade e repugnância Pelo espírito e o corpo nauseabundo. Que nas bestialidades se unem loucas..São uivos dos instintos jamais hartos. Terra!. É o grito. E com os meus pensamentos desconexos. ao próximo sol-posto. Vejo a guerra pestífera dos sexos. cruéis. Deplorando o destino miserando. Preso às dores que se lhe agrilhoaram. É a imprecação de todos os lamentos Dentro do mundo de padecimentos... Asco e dó. São os ais dos leprosos desprezados.. Fétido. a lágrima do homem Agrilhoado aos prantos que o consomem. Abominando as coisas deste mundo. coagulado. É a ânsia afrodisíaca das bocas. Homem-célula Homem! célula ainda escravizada . Apavora-me o horror dessa miséria E fujo da imundície da matéria. As dolorosas mágoas dos enfermos. Onde traguei meus grandes amargores. Sentindo os próprios membros carcomidos. Pábulo sou dessa hórrida agonia E nos abismos de hiperestesia Experimento. Trazendo dentro d'alma. além das catacumbas. Fujo. Sinto em minhalma o tóxico. envoltos na ânsia. A desgraça dos úteros falidos. Tendo os seus organismos devastados Pela fome insaciável dos micróbios. Escorrendo num campo de batalhas Onde as almas se vestem de mortalhas. apodrecidos. decomposto..

Formam luminosíssimas paisagens. nevrites Ao lado de humaníssimas vaidades. essa voraz liberticida. Envergando os etéreos organismos. Em tua mesquinhez não imaginas A intensidade esplêndida da Vida! Inda não vês e eu vejo panoramas De luz em gigantescos amalgamas De sóis. No transcendentalismo da Unidade. úlceras. Onde se oculta a luz indecifrada Dos princípios das luzes coletivas. . concretizadas e reunidas. Pensamentos radiosos como chamas. Do teu laboratório de arterites. sem fim. Sob transformações consecutivas. Sem limites. e se confunda. De gangliomas. Egressa do arsenal de forças vivas Que chamamos – estática do Nada. alma humana. pura. Na imensidade Alma humana. sem número. Vem através do Todo de elementos. tu que dormes Entre os grandes colossos desconformes Da carne. nas regiões imensuráveis.. Em sucessivos aperfeiçoamentos. Desse teu escafandro de albuminas. Em pleno espaço – Imensidade de ânsias. Submersão nas fluídicas belezas. Vem dessa Origem indeterminada. Sem aritmologias das distâncias. Singrando a luz de céus incomparáveis. Ante a minhalma fulgem ideogramas. São vibrações das almas evolvidas E que. Quinta-essências de todas as substâncias Na fluidez das eletricidades.Nos turbilhões das lutas cognitivas. Aqui não há vertigens de nevróticos.. Não podes perceber as ressonâncias. Auscultando os espaços mais profundos Na sinfonia harmônica dos mundos. Objetivando a personalidade. Até achar à perfeição profunda E indivisível. Nem bisonhos aspectos de cloróticos Nas estradas de eternos otimismos! A vida imensa é coro de grandezas. Combinações no mundo das imagens.

Que se putrefizeram consumidas Com os seus instintos atordoadores. Da terrígena raça que padece Das mais pungentes heteromorfias. Não sou o homúnculo da hominal espécie. eterno. esplenda. Envolvo-me nos fluidos maus da Terra. levanta o véu do teu futuro. observa o pensamento. Mas faze de tua alma um grande império De beleza. E sou o espectro das anomalias. Sem guardar os micróbios homicidas De eternos atavismos destruidores. Ouve-te sempre a ronda do mistério. ó Artista Inimitável. Troca o prazer sensualista e obscuro Pelo conhecimento da Verdade. Com a espada resplendente da virtude. Aos fracos da vontade Homem. Mas contérmino à carne. sofre e chora. Fonte da força e altíssimo elemento. de paz e de saúde: Que as tuas agregações moleculares . Em que toda molécula se cria: Da existência ele faz sepulcro abjeto Ou jardim luminoso e predileto. Deixai meu ser esdrúxulo. Eis-me longe dos rudes estertores. nefasto. Que o sol da tua mente. que me aterra. Deixa que as tuas glândulas do pranto Te salvem do cadinho sacrossanto Da lágrima pungente e redentora. Mas. Foge do escuro ergástulo do mundo E abandona o Desejo moribundo Pelo poder da tua divindade. Teu corpo é todo um orbe grande e vasto: Livra-o do mal unífero.Deus e Pai. execrável. sobretudo. Dando a teu mundo a mágica oferenda Da alegria em divina plenitude. No prolongado e edênico festim! “Alter ego” Da morte estranha que devora as vidas. De arcangélicas flores de Harmonia. Tenho outro ser talhado pelas dores De minhas pobres células falidas. Deixa o conjunto de ancestralidades Da carne – o eterno símbolo do Hades – Onde o espírito clama.

com o pensamento almo e insondável. Sistematização dos argumentos Que elucidam a Teleologia: Dentro da força cósmica se cria A fonte-máter dos conhecimentos.Vivam livres de todos os pesares. és muito mais. Lama de sangue e cal que se aniquila Nos abismos do Nada eternamente. É do mundo o Od ignoto. a alma da luz resplandecente. és a cintila Do Céu. Movimentando células de argila. Nas células primevas da existência. Reflexas das ações psicológicas. . Base de portentosos movimentos Onde a forma se acaba e principia. Estirpe das escórias planetárias. Segregadas num mundo amargo e infame. Apesar das verdades fisiológicas. Matéria cósmica Glória à matéria cósmica. Com os tônicos sagrados da Virtude. o éter divino. És um ser imortal e responsável. Que um mistério implacável e inclemente Amortalhou na carne atra e intranqüila. Árvore genealógica de párias. És mais. Para a reparação e para o exame Dos seus crimes nas quedas milenárias. Amarrada no catre da miséria! Ao homem Tu não és força nêurica somente. a energia Potencial que dá vida aos elementos. Faz-se mister que o cárcere a conclame. Livro onde o Criador Inimitável Grava. Que tens a liberdade incontestável E as lições da verdade na consciência. Mas a tua vontade enfraquecida É a meretriz no báratro da vida. Raça adâmica A Civilização traz o gravame Da origem remotíssima dos Arias. Seus poemas de seres e universos. Onde Deus grava a história do destino Dos seus feitos de Amor no Amor imersos. Tua vontade esclarecida e forte Triunfará das angústias e da morte Além dos planos tristes da matéria.

De consumir as podridões de tudo. Fora de toda a sensação nervosa. Vida e morte A morte é como um fato resultante Das ações de um fenômeno vulgar. Vida e Essência. . Fez da Terra o brilhante gral da Ciência. Fim das forças do plasma agonizante. Glorificando o instinto e a inteligência. Mas só encontra os vermes-funcionários No seu trabalho infame. Consciência de todas as consciências. sim. no estudo Do germe. E em sua transcendência vai buscar A luz do espaço. A subconsciência Há. Mas um mundo de deuses decaídos. fúlgida e distante! Vida e Morte – fenômenos divinos. em seus impulsos embrionários. Espírito Busca a Ciência o Ser pelos ossuários. A alma que é Vibração. Como o bolor e o mofo sob as heras. Ela é a registradora misteriosa Do subjetivismo das essências. atro e mudo. Câmara da memória independente Arquiva tudo rigorosamente Sem massas cerebrais organizadas. Mas a vida a si mesma se garante Na sua eternidade singular. a inconsciência prodigiosa Que guarda pequeninas ocorrências De todas as vividas existências Do Espírito que sofre. horrendo e rudo. No meio triste de cadaverinas Acha-se apenas ruína sobre ruínas. No labor anatômico. Que o neurônio oblitera por momentos. Mas que é o conjunto dos conhecimentos Das nossas vidas estratificadas. impassível. No transcendentalismo das esferas.Foi essa raça podre de miséria Que fez nascer na carne deletéria A esperança nos Céus inesquecidos. Na ascendência de todos os destinos. Desorganização molecular. Está nas luzes da sobrevivência. No órgão morto. Nos seus medonhos ágapes mortuários. luta e goza.

Sob o acervo das células taradas.. És o sentenciado do Universo Na grade organogênica do mundo. de ânsia e de medo. Desenhadas por corvos vagabundos. Nos véus da carne Na ilusão material da carne espúria. de horror. imortal. Entre as sombras das míseras estradas. Choram de dor as almas condenadas Ao cárcere de lágrima e penúria. De mentira e veneno cerebrais. amargo e morto. A civilização do desconforto. Canhões. A alma decifra o livro dos mistérios De luz e amor da vida universal. E lá vai o fantasma embrutecido Pelas sombras de lôbregas jornadas. Vive o homem da Terra adormecido. Deixando corpos pelos cemitérios. Nas sombras Bombardeios. Pavorosos esgares de gemido. Vê-se a guerra da inveja e da luxúria. E rasteja o dragão horrendo e informe. Anjo da Sombra. Homem da Terra! trágico segredo De miséria. Espalhando a miséria e o luto enorme Em miserabilíssimas batalhas.. É nesse turbilhão de dor e de ânsia Que o homem procura a eterna substância Da verdade suprema. Vida e Morte – presente eterno da ânsia. alta.. Feito à noite de enigma profundo!. . Esfacelando com medonha fúria O coração das almas bem formadas. Prantos sinistros! Loucas gargalhadas. Vai carpindo nos tristes funerais Do seu fausto de sombra. Gritam a dor de povos moribundos Na sinistra hecatombe universal.Do portentoso amor de Deus oriundos. Ou condição diversa da substância. mísero e perverso. Trevas.. Homem da Terra Na sombra abjeta e espessa das estradas. Visões apocalípticas do mal. Que manifesta o espírito nos mundos. Muralhas. No horrendo pesadelo de um vencido Entre milhões de células cansadas.

lágrimas e horrores Avassalam de dor o mundo inteiro. Foi preciso “morrer” no campo inglório. Ai de vós nos abismos da aflição. vencendo o abismo!. Beija. Apesar de ingentíssimos labores. É o triunfo terrível do coveiro. Por toda a parte. É o doloroso e trágico domínio Do “homo homini lupus” da ignorância. De lodo e lama. Enquanto a desventura chora inerme. das causas positivas. filosófico ou sem nome. Para encontrar esse laboratório De beleza. Bem distante. Sem o raio de luz da crença amiga: Desventurado aquele que prossiga Sem o Cristo de Amor no coração. Sofre agora a sinistra ressonância De sua inclinação para o extermínio. Ídolo podre sobre o esterquilínio. de sede e fome. em sombra e vilipêndios. O homem. Na visão dos micróbios destruidores Senti somente angústias e estertores. Não encontrei a luz das forças vivas. escorre o sangue horrível. Confissão Também eu. verdade e transformismo! A Ciência sincera é grande e augusta. O homem sôfrego e bruto. de ânsia em ânsia. Terror e morticínio. Mas só a Fé. Tem a chave do Céu. na estrada eterna e justa. . Que te guardou no seio carinhoso O escafandro das células escravas. Atestando as vitórias do homem-verme! Gratidão a Leopoldina 7 Sem o vulcão de dor de hórridas lavas. Em quase tudo. No turbilhão das sombras negativas. Homem-verme Desolação. Morre de frio e fel. Sobre a idéia cristã medrando em germe. Augusto.. este solo generoso. o pântano terrível..Quadros de sangue. Ao crepitar de rúbidos incêndios. mísero espectro das dores No escafandro das células cativas. Ossuários tremendos sob as flores. Nas vitórias fantásticas do verme. Exaltando a vaidade sem substância.

Ajoelha-te e lembra o último abrigo. Saturada de treva. Encontrarás teus gritos solitários. Porque na luz dos círculos da Terra. Raciocinava: – “O último tormento É regressar à carne e ao sofrimento Sem o triste fenômeno do aborto! . buscaste o campo de repouso. do pó que envolve as tumbas. onde foi sepultado o poeta.. Nas maravilhas de seus resplendores.Aqui. de pranto e luto. A Civilização que se condena Suicida-se num báratro profundo. Em conceitos sublimes e profundos. Poesia recebida em 18 de junho de 1940. E apagar toda a luz do pensamento Nas células de um mundo amargo e morto!. Desde o instante infeliz de Adão e Eva. que detestavas. Não insultes as leis universais.. Esquece o travo do tormento antigo E oscula a destra de teus benfeitores. em Leopoldina.. Em vão. Feito de sânie e de cadaverinas. Toda a amargura d'alma é o desconforto De retornar ao corpo famulento. Depois das vagas ríspidas e bravas No mundo áspero e vão. Nos turbilhões fatídicos da guerra. Cessa a miséria de teus raciocínios. Civilização em ruínas Todo o mundo moderno horrendo. Proclama a vida além das catacumbas. angústia e pena. Respondeu-lhe em acentos colossais: – “Verme que volves dos esterquilínios. sobre o Calvário áspero e bruto. Ainda é Caim que impera sobre o mundo.” A um observador materialista Busca o talão dos velhos calendários. E onde sorveste o cálice amargoso. Augusto. . uma voz da luz dos grandes mundos. Volta. A Lei Em reflexões misérrimas. absorto. Sob as ofensas torpes e tigrinas A tentarem-lhe o espírito incorruto..“ Mas. em ruínas. Deixa agora escapar o horrendo fruto De miséria e de dor.. Sangrou Jesus em lágrimas divinas..

Horto. . A construção dos séculos desaba.Enfrentando o pavor da mesma treva. Pois. A molécula morta desafia. Multiplicando Herodes e Pilatos. Traz ao berço da Nova Humanidade A consciência cósmica do mundo. através da tempestade. em outubro de 1899. Atualidade Torna Caim ao fausto do proscênio.. Canhões. Espera a mão da morte excelsa. em Macaíba. Deixou um único livro. Pára. É Jesus que. A força primitiva menoscaba A evolução onímoda do Gênio. Que a carne volve ao pó. A Civilização regressa à taba. Sempre a dúvida estranha que se ceva De terríveis problemas multifários. amigo. exangue e fria. Ressurge o crânio do morubixaba Na cultura da bomba de hidrogênio. aos 24 anos. portanto. o Cordeiro Da Verdade e da Luz do mundo inteiro Vive o martírio de sua alma augusta. Rio Grande do Norte. Apaga-se o milênio. Os impulsos dos sonhos embrionários. e pensa. A Humanidade triste inda se afoga No sangue escuro das carnificinas. Não sigas na consulta: O detalhe anatômico te insulta. acima do império amargo e exangue Do homem perdido em pântanos de sangue. Entre prantos pungentes.. Mas. desencarnou em 7 de fevereiro de 1901. Se não tens coração que aceite a crença. Correm de novo as lágrimas divinas. Trevas. em Natal. cuja primeira edição. Ante o Calvário Da terra do Calvário ardente e adusta. O mistério da célula primeva. o Livro e a Toga. Novo sol banha o pélago profundo. embora o Direito. Sobre a cruz infamérrima se ajusta A crueldade do espírito rasteiro Do homem. que é sempre o tigre carniceiro. 17-Auta de Souza NASCIDA em 12 de setembro de 1876. Enquanto grita a turba ignara e injusta. prefaciada por Olavo Bilac. Depois de vinte séculos ingratos.

porém. que torna a alma florida. Escutava a miséria que gemia Dentro da noite de ânsias torturadas. Tal desalento e tantas desventuras. a pleno gozo. Almas dilaceradas Quando. traz uma biografia da Autora por H. Que o coração dormente. Deve fugir das horas de repouso. em 1936. E eu. Aureolada de luz confortadora. E há também os reflexos da aurora De ventura. Via presas do pranto e da agonia. tanta dor em demasia. que era irmã dos grandes sofredores. feita em Paris. Contrastes Existe tanta dor desconhecida Ferindo as almas pelo mundo em fora. prefaciada por Alceu de Amoroso Lima. Sofria. muito místico. Cheguei à luz da eterna primavera. Sobrepujando instantes de alegria. Onde há paz para os pobres desgraçados. Mágoa Muitas vezes sonhei na Terra ingrata O paraíso doce da ventura. na Terra inda. Treva espessa da senda tão sombria Das criaturas desesperançadas. A segunda edição. Seu estilo simples e triste se reproduz perfeitamente nestes versos mediúnicos. Vendo somente o espinho da amargura Que as nossas tristes lágrimas desata. em dores. vivia Caminhando em aspérrimas estradas. Castriano. Tanto amargor de espírito que chora Em cansaços nas lutas pela vida. sofredor. Há. Finalmente. Espírito melancólico. em 1910. crendo que tais amargores Encontrariam termos desejados. teve uma terceira edição no Rio de Janeiro. Somente a dor intérmina que mata A alegria mais lúcida e mais pura. Almas feridas e dilaceradas.apareceu em 1900 e se esgotou em três meses. O veneno da acerba desventura . E confiada na crença que tivera. A alegria fulgente e estremecida. Minorando as alheias amarguras.

o amor. sem paz. Canto de luz dos páramos celestes. Em demanda da estrada esplendorosa Que nos conduz às plagas da harmonia! Em paz Tanto roguei a paz consoladora. Nessas paragens de deslumbramentos. E aumentava minha íntima tristeza Vendo em tudo. Então parti. A tortura dos últimos momentos Era o fim dos meus sonhos promissores. porém. inda quisera Volver ao pó da carne dos mortais. É que a dor da minhalma em tudo eu via. a vida inteira. na própria Natureza. Onde terminam todos os tormentos Que inundam de amargor a alma que chora. Senti meu ser fugindo aos amargores Dos meus dias tristonhos. a paz e a crença. Elevando a Jesus meus pensamentos. minhalma sofredora Mergulhada nas brisas de uma aurora. Bendigo o vosso amor ilimitado! Em êxtase Aos teus pés. ditosa agora. Que recebi a paz confortadora! Sentindo-me feliz. Por teu amor. sem flores. Hora extrema Quando exalei meus últimos alentos Nesse mundo de mágoas e de dores... Abrasada de amor eu viveria. Do meu viver sem luz. Em paz serena. Senti.Que fere em nós a aspiração mais grata. Jesus! doce Jesus meigo e bondoso. Durante os meus amargos sofrimentos. Jesus. a mágoa intensa Que rouba a luz. eterna e derradeira!. Sem as sombras da dor e da agonia. Que se extinguia em atros sofrimentos. serena e jubilosa. meu Jesus.. porém. nevoentos. Quanto agradeço a paz que concedestes Ao meu viver tristonho e doloroso! E desse lindo oásis encantado. A mesma dor que eu tanto padecia.. Se apenas vi. Sorvendo a luz no cálix da harmonia. .

Nos abismos dos males e das dores. Raio de luz. Pairando sobre a minha desventura Feita de prantos e melancolia. Flor ressequida eu era. Que me dava a promessa da esperança. Na escuridão da vida dolorosa. Da tua alma esplendente de bondade. Meu tesouro de fúlgida ventura. Era a tua alma a luz da minha vida. Abrasada de amor eu viveria. Afastando as amargas desventuras Do coração da pobre Humanidade! Aos teus pés. E que felicidade doce e pura. os homens pecadores.. Nos instantes de dor. Mergulhados na noite da descrença. senti que as Mães são mensageiras De Maria. de amor e de bonança. pobre e empalecida. meu Jesus. Quando vi teu sorriso de ventura! Então. eterna e derradeira!. Findo o terror da minha negra sorte.. .. a vida inteira. Ai de mim sem a tua alma bondosa.. Sorvendo a luz no cálix da harmonia. meu dúlcido agasalho!.Para cantar a terna primavera Do teu amor nas lutas terrenais Depois da treva espessa da amargura: Para exaltar as luzes que me deste Na cariciosa e doce paz celeste. Quando na Terra – que era o meu deserto. Para falar a todas as criaturas. bem que eu sentia As tuas asas de Anjo da Ternura. Meu tesouro. e tu o orvalho Que me nutria. Em paz serena. E Mãe das nossas Mães cheias de amores. Nossas meigas e eternas companheiras!. Para contar tua bondade imensa Aos meus irmãos. Mãe de anjos e de flores. Prece Estendei vossa mão bondosa e pura. Mãe Ó minha santa mãe! era bem certo Que entre as preces maternas estendias As tuas mãos sobre os meus tristes dias. A que senti após a treva e a morte...

Há no caminho “almas penadas” Que vão clamando desoladas A dor e o pranto. Ao descansardes. Oram convosco a soluçar. À sombra de árvores em flor. que o silêncio amais no mundo. Na catedral azul da imensidade. De almas chagadas no amargor..Mãe querida dos fracos pecadores. que viceja. – clamam as vozes desoladas De quem ficou no exílio soluçando. Entre as naves. . Geme a viuvez. Adeus O sino plange em terna suavidade. Desventurado pensador. Vós.. amados meus. Da imensidade. Terra das minhas desventuras. – Adeus.. Almas Ó solitário das estradas. Derramai vossa luz. Clareie a luz do sol-nascente.” – diz nas alturas A alma liberta. Adeus. Sabei que às vezes sois seguidos Pelas angústias dos gemidos.. o azul do céu singrando. o pranto e a dor!. lamenta-se a orfandade... meditando. no altar. – choram as rosas desfolhadas. No ambiente balsâmico da igreja. Sob as arcadas silenciosas. Transformai toda a treva dos caminhos Em clarões refulgentes de alegria. desditosas. Aos corações dos pobres sofredores Mergulhados nos prantos da amargura.. toda esplendores.. E a alma que regressou do exílio beija A luz que resplandece. Queremos nós em cada novo dia. Mais amor. “Adeus. Da região ditosa da ventura. Sobre a sombra dos cárceres das dores! Ó Mãe! excelsa Mãe de anjos celestes. da radiosa altura. Em orações ao pé do altar. Almas feridas..... Vós que mudais em flores os espinhos. desse amor que já nos destes. – Adeus... em tudo adeja O perfume dos goivos da saudade.

Todo o bem que plantares nessa vida. Gemem na Terra muitos seres Pelos amargos padeceres Depois da morte. Almas de virgens Andam sombras errando abandonadas Ao pé das lousas e das covas frias. algo de amor!. na aflição. Há pavores De órfãos sem lar. Almas saudosas do Celeste Ninho! Jesus há de sorrir com o teu sorriso. Como bandos de rolas erradias. Virgens mortas! Tristíssimas oblatas De um sacrário de luz piedoso e santo. Dai um conforto à desventura. muita sombra. Angélicas visões de bem-amadas. Há de esperar tua alma redimida Nos caminhos de luz e redenção! Maria Toda a expressão de ternura Do mundo de provação. muito espinho. Dai-lhes dos vossos pensamentos Consolação que adoce a dor. Consolo das mães piedosas.. .. Almas das que não foram desposadas. Mortas na aurora rútila dos dias. Algo de afeto. Entoai nos céus as tristes serenatas Com as vossas roxas túnicas de pranto. meu irmão! Pelo caminho Da miséria terrestre.... Carta íntima Escuta. Que sonhais entre os tálamos celestes. Muito fel... Pelo que sofre em desesperação. Cantando à luz do amor que não tivestes!. A prece cheia de ternura. sem pão e sem carinho: Confortemos os pobres sofredores. Perambulando pelas sacristias. Nos Céus ditosos procura A sua excelsa afeição. Há feridas que sangram. Entre falsos prazeres tentadores.Negreje a treva na amplidão. há muitas dores. Almas de pobres freiras desamadas. Quando faças no mundo o bem preciso.

Ouve o teu coração em cada prece. Palpitando na esfera das estrelas!.A mais alta de todas as capelas – E as respostas mais lúcidas e belas Hão de trazer-te alegre e deslumbrado. . Ninguém diz. faça frio ou tempestade.. Ó corações que a lágrima devora! Vinde. Volve ao teu templo interno abandonado. Visão de paz e de luz. Que triunfa da lágrima e da morte. O Senhor vem. Haja sol. através dos rudes amargores. Cantar na luz dos grandes esplendores Vossa iluminação de cada hora!.. ditoso e lindo. As desventuras para bendizê-las.Cheias de mágoa e de pranto. Neste Lar de Jesus.. E os próprios sofrimentos da impiedade . E eis que Ele chega sempre de mansinho. Feliz o coração sereno e forte. Ao silêncio da força que interpelas. Sob a linguagem pura e peregrina Da voz de Deus. Vinde! Todo anseio da crença acalma as dores. Compreenderás a dor que te domina.. Traz às sombras da vida a claridade. Paz dos Céus! Ave-Maria! Mensagem fraterna Meu irmão: Tuas preces mais singelas São ouvidas no espaço ilimitado. Vinde rememorar no espaço infindo. Vem ao nosso amargoso torvelinho. A oração é o caminho cor de aurora Para o sonho dos pobres pecadores!... Toda prece é uma luz para quem chora. ninguém traduz Essa visão da Harmonia. Mas sei que às vezes choras... Deus responde em ti mesmo e te esclarece Com a força eterna da consolação. E percorre o silêncio do caminho. consternado. Veste o manto do amor e da verdade.. Sobre quem atira as rosas Do seu Amor sacrossanto. em luz de redenção..

Quais flores das primaveras. E protege a miséria mais sombria. Rosas de paz e de amor. E as almas puras. Notabilizou-se no gênero descritivo. falecendo em 1916.. Vivera entre os amargores De um sofrimento bendito. Recebendo entre outros gozos. Cromos 1 . E o amor se perpetua. espaço em fora. É por isso que o homem continua Ressurgindo da treva a cada dia. Lopes NASCEU Bernardino da Costa Lopes em Boa Esperança. Luminosas.São as bênçãos de luz do seu carinho. no Rio de Janeiro. Vão todas. E onde passam sorridentes Abrem-se rosas virentes. E nessa etérea campina Recebe a esmola divina. Nesse batismo de luz. 18-B. município de Rio Bonito. Vem o Senhor que nunca chega tarde. O ósculo de Jesus. eleitas. Dos lábios de anjos formosos. 2 Uma campina de flores Em pleno espaço infinito. Como lírios cor da aurora. Modeladas pela dor. Sem as medidas estreitas Das horas que marcam eras. Como o Sol que dá vida sem alarde. no Estado do Rio. Buscando vão as esferas Das alegrias perfeitas. Onde desperta um precito De um pesadelo de dores. Ele chega. quando funcionário do Correio Geral.. a 19 de janeiro de 1859. ficando célebre com o seu livro “Cromos” (1881). rarefeitas. Envergara o sambenito Dos pedintes sofredores. Miragens celestes 1 Sublimes atmosferas.

O Jesus que ele não vê. na rua Pedro Américo. Ela há de vir bem depressa Para a senhora sarar. Olavo Bilac. E com esta minha promessa. atribuindose a suicídio o encontro do seu corpo entre pedras de uma rocha. Encaminhei-me à porta da Agonia. exalta-lhe o estro espontâneo. suplica. um dia.Na alcova desguarnecida. Pois sente que se enamora Do firmamento estrelado. E pede. embevecida. ao prefaciar-lhe Os Bandeirantes. original e simples. ora. desencarnou no Rio de Janeiro. pressenti-a Cansada e triste como os sofredores. Vêem-se raios formosos. Esta versão parece confirmarse agora nestes sonetos. Do clarão da sua fé. Desalentado e triste. Ao seu Jesus bem-amado. Sonetos 1 Eu fui pedir à Natureza. Corroído por chagas interiores. 19-Batista Cepelos POETA paulista. Minúscula. Cheio de lágrimas. Mirando-a enternecida. . Que me desse um consolo a tantas dores. Beija-lhe a filha inocente. Sobre uma enxerga. E lá dos céus abençoa Sua alma singela e boa.” 2 O mendigo desprezado Olha as estrelas e chora. Dimanando luminosos. implora Perdão para o seu pecado. em 1915. Dizendo-lhe docemente: – “Não chores mais mamãezinha: Vou dar minha bonequinha À santa lá do altar. a doente Soluça como quem sente O fim nevoento da vida. Buscando a morte que me aparecia Como o termo anelado aos dissabores.

Para beber no cálix da matéria As essências das dores renegadas! 20-Belmiro Braga NASCEU a 7 de janeiro de 1870. Espero o sol de novas alvoradas De existências de pranto e de miséria. Agora. pávida de medo. incompreendida. em meio aos desenganos. notário público... Nas pavorosas trevas desta vida Em que eu julgava achar o Esquecimento. o brando afago Da Luz. pela singeleza e espontaneidade da sua musa. essa noite indefinida. Chamaram-lhe – “Rouxinol Mineiro”. Aqui somente ampara-me esse vago Pressentimento de uma nova aurora. 3 Sirva-vos de escarmento a dor que trago Na minhalma infeliz e sofredora. Com ansiedade e temores dos galés. que está na dor depuradora. Onde o não-ser. Mas ah! que atroz remorso me persegue! Choro. rude. dolorosa? Ninguém! Uma só voz não me responde! Sinto somente a treva que me esconde Na vastidão da noite tormentosa. Quando terei os bens. em Juiz de Fora.. Iniciou-se na vida comercial e foi. da qual foi um dos fundadores. soluço. sobretudo. a paz calma e serena. depois. comediógrafo e jornalista nato. Popularizouse. Cheia de tempestade e sofrimento. No país do Pavor e do Tormento Onde chora a minhalma enceguecida.. Minas.Desvendando esse trágico segredo Que a alma decifra. sim! depois de tantos anos De tormentos. Este padecimento com que pago O desvio da estrada salvadora. Era membro de realce da Academia Mineira de Letras. clamo e ele me segue Nesse abismo que se abre ante os meus pés. e aí desencarnou em 1937. . Tenebrosa. 2 Ninguém ouve na Terra esse lamento Da minha dor imensa. Rimas de Outro Mundo 1 Cheguei feliz ao meu porto. Poeta. Que me traria o bálsamo a esta pena Interminável.

meu irmão.Estou mais moço e mais forte. 3 Quanta gente corre. Não corras atrás da sorte. Encontrei paz e conforto Na vida. 5 No mundo vale quem tem Um cifrão de prata ou de ouro. o homem pensa. Ansiosa atrás do prazer. guarda A fé do teu coração. . 4 Fecha a bolsa da ambição. Que escreve o poeta morto. corre. Venera a mão que te exorte Nos dias de provação. luta e morre Sem jamais o conhecer. Goela aberta de um abismo Na estrada da vida humana. Não há ninguém que se forre. da morte ao sorvedouro. Muito espírito se engana: A primeira ampara e irmana. Ah! feliz o que conserva As luzes doces da crença. 6 Que tua alma em preces arda No fogo da devoção. Julgando no talo de erva A paisagem linda e imensa. Eis as rimas de outro norte. Que a morte é o fim. Ninguém se acaba com a morte. Sonha e chora. Tem coragem. 2 Com a ignorância proterva. O segundo é o dogmatismo. Nas mágoas do mundo. Jamais escapa ninguém! No Céu só vale o tesouro Daquele que fez o bem. ao padecer. depois da morte. 7 Entre a fé e o fanatismo. Mas. Sobre a Terra. Deus é Pai que nunca tarda No caminho da aflição.

Não perguntes ao passado . Exemplifica o trabalho Sem cuidar da recompensa. No curso de aquisições. em prol do Reino da Luz. A essa estrada voltará. Corações de lodo e fel. Acalma-te na aflição. Recorda que tua vida É sempre uma grande escola. Não prendas o coração Nos laços da fantasia. Não vivas correndo a esmo. Recorda que o mundo vão É grande necessitado. Quem é rico. Basta. 9 Suporta a dor que te cobre Na estrada espinhosa e má. Sem muita filosofia. Que a mulher siga a Maria. Inda é torre de Babel. É uma ventura ser pobre. para quem sente. Com a bênção que Deus nos dá. Que o homem siga a Jesus. Modera-te na alegria. Bilhetes Se tens o leve agasalho Do santo calor da crença. Onde a prática desmente As ilusões do papel: Muita boca sorridente. Atapetados de espinhos. Vais procurar a ventura? Toma cuidado: os caminhos São crivados de amargura. Esquece as inquietações.8 A Terra. quem é nobre. na Terra sombria. Não peças aprovação Do mundo pobre e enganado. Que. 10 Na vida sempre supus. Muita fronte encanecida É fronte de criançola. Toma posse de ti mesmo.

Quem desce é riso enganoso. Não te aflijas. 4 Bem pobre é a cabeça tonta Dos perversos e usurários. 2 Depois da miséria humana Sobre a Terra transitória. Que símbolo sacrossanto!. Olha o monte luminoso. Lastimo quanto se engana O ouro da falsa glória. 5 É ditosa no caminho. Só não vejo desenganos Na estrada de Jesus-Cristo. Quadras 1 Ai de quem busca o deserto De torturas da descrença: Morrer é sentir de perto A vida profunda e imensa. Que morrem fazendo conta Nas cruzes de seus rosários. Age sempre com bondade. O caminho é ilimitado.Pela sombra.. 6 Angústias. A bonança É flor de sabedoria. 3 Dinheiro do mundo vão. Mentiras da vaidade. Não trazem ao coração A luz da felicidade. A mão terna do carinho Que vive espalhando o bem. Tudo isso tenho visto. pela dor. Eterna a fonte do amor. danos. .. Quem sobe é suor e pranto. Alegre como ninguém. Não te esqueças que a esperança É a bênção de cada dia. derrotas. Todo esforço com Jesus É vida na eternidade. No impulso que te conduz.

21-Bittencourt Sampaio
SERGIPANO, nascido na cidade de Laranjeiras, em 19 de fevereiro
de 1834, desencarnou no Rio de Janeiro em 10 de outubro
de 1895. Foi político ativo, deputado por sua província em duas
legislaturas e Presidente do Espírito Santo. Diretor da Biblioteca
Nacional e jornalista de mérito.
A fonte de onde respigamos estes dados, aponta Poesias
(1859) e Flores Silvestres (1860), mas omite a maior das suas
obras, que é A Divina Epopéia, ou seja o Evangelho de João, em
magníficos versos brancos, tais como estes. Mas... é que Bittencourt
Sampaio foi, no último quartel da vida terrena, um dos mais
brilhantes e destemerosos paladinos da Revelação Espírita. E,
como tal, ainda hoje se manifesta, por dar-nos obras como Jesus
perante a Cristandade, verdadeiro poema em prosa. Reformador,
de 1937 (página 494), publicou-lhe a biografia.
À Virgem
Vós sois no mundo a estrela da esperança,
A salvação dos náufragos da vida;
A custódia das almas sofredoras,
Consolação e paz dos desterrados
Do venturoso aprisco das ovelhas
De Jesus-Cristo, o Filho muito amado!
Fanal radioso aos pobres degredados,
Anjo guiador dos homens desgarrados
Do Evangelho de luz do Filho vosso.
Virgem formosa e pura da bondade,
Providência dos fracos pecadores,
Astro de amor na noite dos abismos,
Clarão que sobre as trevas da cegueira
Expulsa a escuridão das consciências!
Virgem da piedade e da pureza,
Estendei vossos braços tutelares
À Humanidade inteira, que padece,
Espíritos na treva das angústias,
No tenebroso báratro das dores,
Mergulhados nas tredas tempestades
Do mal, que lhes ensombra a mente e a vista;
Cegos desventurados, caminhando
Em busca de outras noites mais escuras.
Legião de penitentes voluntários,
Afastados do amor e da verdade,
Fugitivos da luz que os esclarece!
Anjo da caridade e da virtude,
Estendei vossas asas luminosas
Sobre tanta miséria e tantos prantos.

Dai fortaleza àqueles que fraquejam,
Apiedai-vos dos frágeis caminhantes,
Iluminai os cérebros descrentes,
Fortalecei a fé dos vacilantes,
Clareai as sendas obscurecidas
Dos que se vão nos pântanos dos vícios!...
Existem almas míseras que choram
Amarradas ao potro das torturas,
E corações farpeados de amarguras...
Enxugai-lhes as lágrimas penosas!
Virgem imaculada de ternura,
Abençoai os mansos e os humildes
Que acima de ouropéis enganadores
Põem o amor de Jesus, eterno e puro!
Dulcificai as mágoas que laceram
Pobres almas aflitas na voragem
Das provações mais rudes e amargosas.
Estendei, Virgem pura, o vosso manto
Constelado de todas as virtudes,
Sobre a nudez de tantos sofrimentos
Que despedaçam almas exiladas
No orbe da expiação que regenera...
Ele será a luz resplandecente
Sobre a miséria dos padecimentos,
Afastando amarguras, concedendo
Claridades a estradas pedregosas...
Conforto às almas tristes deste mundo,
Porto de segurança aos viajantes,
Clarão de sol nas trevas mais espessas,
Farol brilhante iluminando os trilhos
De todos os viajores que caminham
Pela mão de Jesus, doce e bondosa;
O pão miraculoso, repartido
Entre os esfomeados e os sedentos
De paz, que os acalente e os conforte!
Virgem, Mãe de Jesus, anjo de amor,
Vinde a nós que na luta fraquejamos,
Ajudai-nos a fim de que a vençamos...
Vinde, piedosa Virgem de bondade,
Cremos em vós, na vossa alma divina!
Vinde! ... dai-nos mais força e mais coragem,
Derramai sobre nós o eflúvio santo
Do vosso amor, que ampara e que redime...
Vinde a nós! nossas almas vos esperam,
Almas de filhos míseros que sofrem,
Atendei nossas súplicas, Senhora,
Providência da pobre Humanidade!...

A Maria
Eis-nos, Senhora, a pobre caravana
Em fervorosas súplicas, reunida,
Implorando a piedade, a paz e a vida,
De vossa caridade soberana.
Fortalecei-nos a alma dolorida
Na redenção da iniqüidade humana,
Com o bálsamo da crença que promana
Das luzes da bondade esclarecida.
Providência de todos os aflitos,
Ouvi dos Céus, ditosos e infinitos,
Nossas sinceras preces ao Senhor...
Que a nossa caravana da Verdade
Colabore no Bem da Humanidade,
Neste banquete místico do amor.
Às filhas da Terra
Do Seu trono de luzes e de rosas,
A Rainha dos Anjos, meiga e pura,
Estende os braços para a desventura,
Que campeia nas sendas espinhosas.
Ela conhece as lágrimas penosas
E recebe a oração da alma insegura,
Inundando de amor e de ternura
As feridas cruéis e dolorosas.
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 134
Filhas da Terra, mães, irmãs, esposas,
No turbilhão dos homens e das coisas,
Imitai-a na dor do vosso trilho!...
Não conserveis do mundo o brilho e as palmas,
E encontrareis, em vossas próprias almas,
A alegria do reino de Seu Filho!
À Virgem
Do teu trono de róseas alvoradas,
Estende, mãe bendita, as mãos radiosas
Sobre a angústia das sendas escabrosas
Onde choram as mães atormentadas.
Mãe de todas as mães infortunadas,
Com tua alma de unos e de rosas,
Mitiga a dor das almas desditosas
Entre as sombras de míseras estradas.
Anjo consolador dos desterrados,
Conforta os corações encarcerados
Nas algemas do mundo amargo e aflito.
Ao teu olhar, as lágrimas da guerra

E os quadros de amargor, que andam na Terra,
São caminhos de luz para o Infinito.
22-Cármen Cinira
NOME literário de Cinira do Carmo Bordini Cardoso: nasceu
no Rio de Janeiro, em 1902, e faleceu em 30 de agosto de 1933.
Sua espontaneidade poética era tão grande que ela própria acreditava
serem os seus versos de origem mediúnica. Glorificou o
Amor, a Renúncia, o Sacrifício e a Humildade, em obras como:
Crisálida, Grinalda de Violetas, Sensibilidade.
Minha luz
Eu era, Dor, a alma rubra e inquieta,
A pomba predileta
Do prazer, da ilusão e da alegria...
Meu coração, alegre cotovia,
Saudava alvoroçado
O segredo da noite e a luz clara do dia,
Quando chegaste de mansinho,
Pisando sutilmente o meu caminho...
E eu te enxerguei, despreocupada,
Em meu engano, em minha fantasia:
Primeiramente,
Foste, austera e inclemente,
A um dos belos tesouros que eu possuía
E mo roubaste para sempre...
Em fúria iconoclasta,
Como o simum que arrasta
As cidades repletas de tesouros
Confundindo-as no pó,
Foste aos meus ídolos mais caros,
Destruindo-os sem dó.
Prosseguiste, ó divina estatuária,
Na tua obra silente e solitária,
E quebraste
Minhas cítaras de ouro,
Meus mármores de Paros,
Meus cofres de alabastros,
Minhas bonecas de biscuí,
Minhas estatuetas singulares...
E humilhaste
Meus sonhos de mulher e de menina,
Que eu pusera nos astros
Em meio às melodias estelares!
Mas, desde que chegaste,
Foste a sombra divina
Que acompanhou meus passos ao sepulcro...
Tudo sofri,

Ó Dor. bendita. Porque representaste em meu destino. Cujas vozes suaves como brisas Trouxeram-me nas dores. Aos Espíritos consoladores Donde éreis vós. quase perfeito! Aos poucos me ensinaste a abandonar Meus prazeres fictícios. Seres cheios de amor e de mistério.. O fanal peregrino Que me guiou constantemente Através das estradas espinhosas Para as manhãs radiosas Da Luz Resplandecente. No auge do meu sofrer. ó formas imprecisas De arcanjos tutelares. Vim pelas mãos da morte complacente Para a vida sublime dos Espaços!.. nos sofrimentos rudes. pois. ó Dor linda e gloriosa. Seres do Amor. E com os místicos olores Das meigas sempre-vivas Da fé mais luminosa e mais ardente. .. A irradiação de brando refrigério!. Pois da volúpia estranha dos teus braços. ó Dor depuradora. jamais traduziria O cântico de luz Que trouxestes ao leito da agonia Que eu transpus. De alma sofredora.. Trocando-os pela luz dos sacrifícios! Por tudo eu te bendigo.... Seríeis o fantasma imaginário Da mórbida exaltação d'alma do crente? Não. Encheste a minha vida De um estupendo prazer. Porque depois que vieste Qual pássaro celeste Para abrir rosas de sangue no meu peito. por te querer.. Cujas mãos compassivas Ungiram meu coração resignado Com o bálsamo do olvido do passado. porque sois os cireneus piedosos Dos que vão em demanda do Calvário Da Redenção. Frontes aureoladas de esplendores.. nos meus penares. Vindes das mais remotas altitudes De sublimados mundos luminosos!. Sê..

E não podia haver melhor definição. Todavia.. imortal. Senhor. E vivo aqui. Sei apenas que choro O tempo que perdi. Porque caí estonteada à porta Do castelo em ruínas. Quero ter dessa luz resplandecente.. Onde habitais. glorificando o Amor Que d'alma faz um ninho de alegria E um foco de esplendor! Em que sol deslumbrante... Verto ainda os meus prantos comovidos Lembrando-me do vosso Stradivárius. E quero embriagar-me inteiramente Com os vinhos da alegria celestial. Minhalma é fraca e pobre ainda. Eu mesma inda não sei Se é ventura morrer na flor dos anos.Cheia de desenganos e gemidos!.. Que vindes confortar os pecadores Penitentes da vida transitória. de perfeito. Tenho sede do amor que enfeita o Céu! Espíritos da luz radiosa e infinda. Do desencanto e da desilusão!. somente.. Cantando em demasia a carne inutilmente. Para concretizar meu anseio de amor: Evita-me a saudade Da minha improdutiva mocidade! . que nutre e que agasalha Os corações iguais ao meu!. em qual esfera Viveis a vossa eterna primavera? Ó irmãos consoladores. Dai-me um pouco de luz da vossa glória. Cigarra morta Chamam-me agora aí Cigarra morta. De quanto idealizei De belo... grande e santo... Que inda hei de realizar Com a rima do meu verso e a gota do meu pranto. Minhas futilidades pequeninas.. Estendei-me uma única migalha Da vossa paz. Meus grandes desenganos.. Dá-me força. Repetindo as cadências dos hinários Dos orbes da Ventura e da Harmonia.

Cármen Cinira! Cármen Cinira! Que é da minha cigarra cantadeira? Embalde te procuro. onde estou? Minha vida terrena se acabou E sinto outra existência revelada! Não sei por que me sinto amargurada.. Uma suposta imagem Da perene alegria. Calando amargamente. E vejo agora Que não amei bastante. Era uma vez.. Mas que trouxe em seus olhos. Perdoa. Cigarra distraída do futuro? Perturbada. Aturdida. Cheia de pranto e de melancolia!.. Um coração Cheio de sonho e flor. Eternamente. para um mundo de alegria. ó imortalidade Se na Terra eu te via Como a aurora divina da verdade... Como cigarra que era.. E não cumpri à risca os meus deveres! A fagulha de crença .. Busco a mim mesma aqui nestoutra vida. Não julguei que inda a morte me abriria Esse cenário deslumbrante De outros sóis e de outros seres. dos abrolhos!.. Já que tombei cansada de cantar.. Essa amarga expressão de alma doente. Deus de Amor. Por que cantaste assim a vida inteira.Eu não quero sentir.. Onde estou. Mas.. Estraçalhou-se para sempre Na voragem Das trevas. Era uma vez Cármen Cinira... A falta das canículas doiradas Sob a luz de ridente primavera. Sinto que a luz me guia Para a paz. que mal se abrira Nos jardins encantados da ilusão.. Para ser uma abelha previdente. Era uma vez Cármen Cinira. o meu pecado: Que eu olvide a cigarra do passado.

Ah! quem me dera a bênção da esperança. Mas eis que ainda te imploro comovida. Deixa que eu guarde ainda nesta vida Meu escrínio de estrelas da Esperança. À Juventude Juventude linda e ardente. ó juventude. Ai! como nos ferem os espinhos Das belas rosas rubras dos pecados! O viajor e a Fé – “Donde vens. Devia transformar numa fornalha imensa De fé consoladora. Porque me sinto em fraca segurança. E incendiar-me para ser luzeiro. Pois com o mundo uma flor tem mil espinhos.. humilde e mansa. Zelai pelo plantio. Nossa alma sem repouso Traz o sinal das trevas do pecado. Senhor. Mocidade querida que eu exorto. Deu-lhe o braço e falou-lhe com doçura: – “Vem ao Mestre que ampara os pobrezinhos. De alma ferida e morto o coração. esse está morto. Nossa alegria é um riso envenenado. Mas minha alma que é eterna está presente. E a morte me apanhou Como se apanha uma ave na floresta. Porque depois dos sonhos terminados Em nossos ermos e últimos caminhos. . ó Senhor da paz confortadora. Experimento a grande liberdade! Todavia. Meu coração de carne. Eu vi chegar o dia derradeiro Em minha dor.Que eu possuía.” – “Que trazes?” – “A miséria do pecado. ampara-me e protege Minha triste humildade! Eu te agradeço a paz que já me deste.. Mas com Jesus um espinho tem mil flores!” O sinal Quando chegamos do País do Gozo. Mas. Das flores perfumadas da virtude. na máscara de festa. viajor triste e cansado?” – “Venho da terra estéril da ilusão. Que esclarece e conforta os sofredores!. Quem me dera consolo à desventura!” Mas a fé generosa.

porém. Sob claro dossel. Não têm palmas da Terra impenitente.. Beija o filho a mãezinha idolatrada. Em festiva oração.. que aceitaste a luz renovadora. há corações ao lume E há sempre um bolo. de novo. Há quem chora sozinho.. Em édenes fechados de carinho. Doces. Trazem o amor de todos os amores.. a tristeza continua. Nascem canções e flores de mansinho. Cantando a excelsitude do Natal!. sob a treva humana Sem consolo e sem lar. lá fora.A palavra disfarça o coração E a nossa dor é desesperação. A brilhar.. em vagas de perfume. ante os júbilos do povo. Tu. Mas. Tudo é sombra. Sua palavra é um livro iluminado. cristalinos. Rogando à morte a bênção do repouso Em terrível pesar! Ah! como é triste a imensa caravana. Do Rei que se humilhou na manjedoura .. harmoniosos. Sua alegria é um fruto adocicado. Ralado de tortura e sofrimento. tudo é queda dentro em nós.. Sem a graça de um pão.. Há quem contempla o céu maravilhoso. Há quem clama piedade e passa ao vento. De esperança e de mel. A verdade não tem voz. Muita vez. Revelando na vida transitória O sinal do Calvário aberto em glória! Na noite de Natal Noite de paz e amor! Repicam sinos. Sob a crença imortal. Como tudo. O irmão abraça o irmão. aflita. em plena rua. A estrela de Belém volta. Sua dor alivia as outras dores. Dentro da noite.. é diferente!.. Une-se o noivo à noiva bem-amada.. Ao pé da multidão. Mas os que vêm do Mundo dos Deveres Guardam a luz de místicos prazeres.. De cada lar ditoso se irradia A glória da amizade e da harmonia. Que segue.

mau grado à suavidade da sua musa e inatos talentos literários. por acidente.. Vem medicar quem geme na calçada!. A alma ansiosa da Verdade. Era um espírito jovial e forte no infortúnio. Para unir-nos no Amor. apenas freqüentou escolas primárias.. Temperado de amor. Por não achar socorro. Na eterna luz Quando parti deste mundo Em busca da Imensidade. Visita as chagas negras da mansarda Onde a miséria súplice te aguarda Em nome de Jesus. qual a de haver perdido uma vista aos 14 anos. E encontra sempre a cruz. Volve o olhar compassivo à senda escura. Prossegue o Mestre. na sua existência terrena. Órfão de pai aos 7 anos. Se tivesse tido maior cultura. Que não podem sorrir.. não teve maior projeção no cenáculo literário do seu tempo. Há muita crença enferma.Para amar e servir. ao demais espírita confesso. Um ninho pobre. Há. . Oferece à criança abandonada Um velho cobertor. Do azul imenso dos céus. para de todo cegar da outra aos 16. Traze a quem sofre a lúcida fatia Do teu prato de sonho e de alegria. que ele sabia aproveitar no enobrecimento da sua fé.. quase morta. uma triste particularidade a assinalar. Em vão buscando um quarto de estalagem. Que só pede um sorriso brando à porta. atingiria as maiores culminâncias do firmamento literário.. Fugi do pesar profundo. Desceu Jesus do Céu Resplandecente E imolou-se por nós. nem pousada Em nosso coração. nasceu aos 14 de abril de 1880 e desencarnou em 1914. Vem amparar os filhos da amargura. fraternalmente. Pobre. 23-Casimiro Cunha POETA vassourense. Desce do pedestal que te levanta E estende a mão miraculosa e santa Ao desalento atroz. ao fim da estrada. de viagem. em vão!. Para tornar à luz. Natal!..

Não se conhece a torpeza Da lâmina – hipocrisia.Lamentando os sofrimentos. Confiado no amor de Deus. . Que mata toda a alegria. O aroma da Caridade Perfumando os corações. abrira os olhos Em meio de luzes puras. resplendentes. Disseram-me então: – “Ó crente Que chegais a estas plagas. Aqueles que conheceram As feridas dolorosas. Aportai serenamente Nesta estância do Senhor. Encontram nestas moradas Tão formosas. Mal. Luminosas. Cujo peito sempre amante Só conheceu dissabores. Em célico resplendor. Provocando maldições. Pois aqui existe o amor Nestas almas impolutas! Aqui existe a pureza. Nas radiantes alturas. Compreendi que os abrolhos Que a Terra me oferecera. Ofertando-lhes tesouros: Os tesouros peregrinos. Arauto do Onipotente. A meiga flor da Bondade. Eram mesmo a primavera Do meu sonho todo em flor. os desalentos. Formados de amor e luz Do Mestre Amado – Jesus. Fugindo das grandes vagas Do mar revolto das lutas. As mágoas. Dessas mágoas escabrosas De um triste mundo de dores. sempre lindas. Aqueles que já sofreram No dever nobilitante. Os clarões resplandecentes De afetos imorredouros! As almas imaculadas São flores das boas-vindas. porém.

deificados. Que renegar eu tentara Como os míseros ateus. Nesta esfera iluminada. Pois agora na ventura Fruireis consolações. O Luzeiro da Bondade. abençoei A dor que amaldiçoara. O Mestre da Caridade. Na tremenda tempestade Das dores e expiações. E feliz então busquei As bênçãos. Não vereis o sofrimento Retalhando os corações. Alvos. O Senhor sempre clemente. O grande Mestre do Amor!” Então. Tão longe das grandes luzes. pois. pois. Ó mães que chorais na vida Os vossos ternos anjinhos. belos.Os reflexos divinos Quais lírios iluminados. Concede-vos neste instante A bênção dulcificante Do seu amor – doce aurora. Acordai. Anjinhos Só vereis clarões de luz A despontar nestas almas. Tornadas em belas palmas Das mansões do Criador! Bendizei. Contemplai-vos nesta vida. . Penetrarão sua mente. Que aportais neste momento. a Jesus. flores brilhantes. Das amargas provações. Que vossa alma ensandecida Procure a luz que avigora. ó vivente. A nossa alma que erra. eu vi que na Terra Em meio da iniqüidade. Sacudi o pó da estrada Que trilhastes na amargura. Alvoradas fulgurantes Do amor imenso de Deus. Só aproveita das cruzes. Venturoso.

os amargores. Ofertando-vos as flores Do seu afeto eternal. Insuflando-vos coragem. E os vossos filhinhos ternos. Pelas sendas desoladas Deste abismo tão profundo. ao verdes Quando partem sorridentes. inocentes. pois. Ascensão Perguntai à flor virente. O que fazem cá no mundo. Quais reflexos brilhantes Das celinas primaveras. Como fúlgidos clarões. Alegrai-vos. Resplandecendo imortais Nos espaços deslumbrantes. Ao transpordes a voragem Do abismo negro do mal. . As frias noites sem luz. perfumadas. De luzes esplendorosas Dentro em vossos corações. Reconhecei que na Terra Só se conhecem as dores. São mensageiros felizes Nas radiantes alturas. Venturosos. Em meio das luzes puras.Que quais meigos passarinhos Cindiram o espaço azul. Visitam os vossos lares Como gênios protetores. Tão viçosas. Eles farão despertar As alvoradas formosas. De outras rútilas esferas. O peito dilacerado. São as flores mais formosas Das moradas de Jesus. Quais centelhas luminosas. A alma tristonha e exul. O coração desolado. De pétalas multicores. Os prantos. Que com mágicos olores Perfumam vosso ambiente. Deixando-vos sem conforto. Osculam-vos ternamente.

de vida e luz. Para a Luz e para o Bem. E após o sofrimento Ter gozo ilimitado. Ela vos retrucaria: . É possuir tesouros De paz. E ver depois a luz Da aurora de ventura. irmãos terrenos. Chorar na escuridão Em dores mergulhado. Se perguntásseis também. A alvorada rutilante Da sublime perfeição. Marcha ao progresso incessante. Só assim caminharemos Nessa eterna evolução. Entre lírios. E no Bem conquistaremos A suprema perfeição. Entre as rosas da Ternura. entre rosas.“Caminhamos na alegria. em ascensão. Sorver dentro da treva O fel das amarguras. Essas flores perfumosas Responderiam formosas: – “Nós marchamos para Deus!” A ave que poetiza Com seus cânticos maviosos Vossos campos dadivosos Em beleza que harmoniza. Entre os lírios da Bondade. Nessas trilhas luminosas.Como sorrisos dos Céus. Quadras Ser cego e nada ver Na triste noite escura. Supremacia da Caridade A fé é a força potente . Consolando a desventura. Caminhai sempre serenos.” Tudo pois. Depois. buscar o amor Nas lúcidas alturas. Espargindo a caridade. No sacrossanto abrigo Do afeto de Jesus. Segui pois.

Que irrompe. Nascendo. peregrino. Que nos eleva até Deus. A caridade é o amor. trazendo a luz. Sepultado. Alegrando nesta vida A existência dolorida Dos que sofrem neste mundo! A fé é um clarão divino. Entrei no sepulcro escuro. Refulgente. E dele fugi feliz. Ou capitoso perfume Que nos alenta na dor. É o sol que Nosso Senhor Fez raiar claro e fecundo. Seja. Alva estrela resplendente. Morrendo. Pura bênção redentora Do Senhor Onipotente. abençoada Essa fúlgida alvorada A raiar eternamente! Caridade salvadora. Na noite das trevas densas. redentora. É que a vida material É a prisão. A esperança é flor virente. Elevando-a aos altos Céus: Ela é chama abrasadora.Que desponta na alma crente. A caridade é a expressão Da personificação Do Mestre Amado – Jesus! A esperança é qual lume. Versos Vivi na mansão das sombras. Que ilumina os corações. Onde a alma é encarcerada . Desterrado. A caridade é uma aurora Que resplende a toda hora. Reluzente. Que conduz as criaturas As almejadas venturas Entre célicos clarões. Nada empana o seu fulgor. pois.

Alvo. A palavra que reténs É tua serva querida. Que vive com a caridade. Pois entre as trevas e as dores Da vida de provações. sem luz.Na aflição. sem naufragar. Cheia de viço e frescor. Porque não sabem que a morte É a nossa libertação. belo. Vendo essa flor cariciosa No pantanal sujo e imundo. Perfumando a luz do dia. Toda a esperança da fé. Verá decerto a bonança. É a flor cheia de aromas. Sem saber que o desespero É porta para outra dor. Quem sofre resignado. Mas aquela que te foge É dona da tua vida. É lírio resplandecente Do puro amor de Jesus. delicado. Após a morte descansa Quem luta. Pensamentos espíritas Dobram sinos a finados. . Símbolo Sobre a lama de um monturo Um branco lírio sorria. Com mágoa e desolação. Que mesmo dentro da treva Do mundo ingrato.. Onde as luzes recebemos Da Verdade. E a vida da alma é a nossa Liberdade. É realizada no mundo Da eterna felicidade. E o coração que cultiva A caridade e o amor. Todo suicida presume Que a morte é o fim do amargor. Pode existir a bondade Irradiando clarões. Via o símbolo do Bem Entre os males deste mundo..

Vai a dor. de verdade e luz: Sem paradoxo. O frio beijo da morte É o beijo da liberdade. Que se fez excelso Lírio Na devoção de Jesus. Seu beijo é um raio de luz Do dealbar das alturas.Quem tem a flor da humildade. da plenitude. Tem o jardim das virtudes Da suprema perfeição. Medrando no coração. O gozo é o próprio martírio. . É um raio de claridade Que vem da altura do Céu. Que na noite de amarguras As almas vem despertar. Deus cura todas as chagas Do mal que tens padecido. Que a alegria da Virtude Faz. Assim. portanto.. nasce a flor. Cresce o broto. O engano As vezes diz a Ciência Que a crença é engano profundo. surge a alegria Dourando a manhã do Amor. Volve ao Céu todo piedoso. desabrochar. noutro mundo. Coração que andas ferido!. depois da amargura Que a vida terrena traz. a ventura e a paz. O beijo da morte Para quem viveu na Terra Em meio dos sofredores E somente frias dores No mundo ingrato colheu. Esperando uma outra vida Noutros planos.. volta o dia. Sombra e luz Vem a noite. A alma encontra na Altura A luz. A vida terrena é a noite Que precede as madrugadas Das regiões aureoladas De amor. A morte é a deusa celeste Da vida. linda.

Flores silvestres da vida. Serás o sósia da Fé. Continuando graciosas A tapetar as estradas. pois não é. Flores silvestres!. a floresta Varrida pelas tormentas? Partem-se troncos anosos. Sê. Caem copas opulentas.. Imagem Dos bons e dos pequeninos. filho. Ciência amiga.” Ao que ela replica.. Não sabem se há tempestade De ambições e se há no mundo Leis de ódio e iniqüidade. seculares. São refletores Da bondade de Jesus.E diz arrogante à Fé: – “Estás louca! A morte apenas É o sono eterno e tranqüilo Depois das lutas terrenas. Mas as florinhas silvestres São apenas baloiçadas. Na selva da vida humana Caem grandes. Se for sono. Venerandos. Mas. Zune o vento? geme a selva? Não sabe a pequena flor. Mas se não for. como esta flor: . Andarás ao lado meu. Mil árvores grandiosas Esfacelam–se nos ares Tombam gigantes da selva.. os humildes da Terra. dormiremos.. humilde: – “Mais tarde. Que sobre o mundo derramam As graças dos dons divinos. Dentro da fé que os conduz. poderosos: Arcas repletas de ouro. Que perfumando o caminho Compõe um hino de amor. filho. E frontes ébrias de gozos. Não caem. De quem será esse engano? Será meu ou será teu?” Flores silvestres Já viste. Nos dias mais tormentosos.

Vida de encantos divinos Esta poesia singela e. Os artigos do Bezerra De outros tempos. também cegada de uma vista. Teu coração generoso De amigo. Detalhes cariciosos Da vida singela e calma. A minha pobre Carlota. Onde uma vez me encontraste Na minha noite sombria. foi recebida em circunstância s imprevistas e timbra episódios vemos de mais de 30 anos. grite o mundo. Dos nossos dias passados. A ermida branca e suave De ternos. “Aves implumes” da dor. Árvores fartas e verdes Pela alfombra dos caminhos. Um céu azul e estrelado Cobrindo uns ninhos de amor. irmão e mentor. Unida. .. por acidente. Que eu via com os olhos d'alma. por assim dizer.. atento mesmo a sua banalidade. A tua doce amizade A luz do Consolador. O nosso amigo Moreira E a sua barbearia. Que tão distantes se vão. Que traduziam no mundo O meu pungente amargor. no “O Pais”. Singelos e Aves Implumes são títulos de dois pequenos volumes de versos publicados em começos do século. intimamente pessoal. Vassouras!. O mestre da Velha Guarda. belas paisagens Cheias de vida e de cor. eu sei da saudade Que te aperta o coração. doces carinhos. O raio de claridade Da noite da minha vida. Palmilha a estrada do amor. Carlota é o nome da esposa do poeta cego. A companheira querida. depois de casada.Chore o homem. Meus pobres versos – “Singelos”. Ao meu caro Quintão 8 Quintão. forte e feliz. que o médium não podia conhecer.

divina e forte. ao cair. Pelas estradas sublimes Da santa paz de Jesus! Mas não sei onde a saudade É mais forte nos seus véus. Se pelas luzes dos Céus. Derramando em toda parte O conforto d'Água Viva. Muita vez a água do céu Torna-se em lama. . A luz da nossa Doutrina É sempre a lição que ensina A paz do caminho certo. E onde a bênção da Bondade É flor de eterna alegria. o véu. a ganga. Toda aberta em flor e fruto De verdade e de bonança. O mal vem de ouvidos moucos Ou de olhos nevoados. Necessário é discernir A mistura. Escolhidos? muito poucos. É árvore verde e farta Nos caminhos da esperança. Que clareia toda a vida E ilumina além da morte. Se buscas o Espiritismo. hoje os meus olhos Embebedam-se de luz. Há sempre muitos chamados. O chamamento sublime Da Vida Espiritual. Norteia-te em sua luz: Espiritismo é uma escola. Se pelas sombras da Terra. É o templo da Caridade Em que a Virtude oficia. Espiritismo Espiritismo é uma luz Gloriosa. Aos companheiros da Doutrina Examinada de perto. Verdade é que o coração. E o Mestre Amado é Jesus. É uma fonte generosa De compreensão compassiva. É a claridade bendita Do bem que aniquila o mal.Ah! Quintão.

luta. Portanto. acometido de tuberculose pulmonar. Já não deve andar a esmo Nas estradas da ilusão. 24 Casimiro de Abreu POETA fluminense. hoje denominado Casimiro de Abreu. . – Eis meu desejo de irmão. e ação. Figura literária das mais típicas do seu tempo. o autor malogrado de Primaveras ainda aqui se afirma no seu profundo quão suave nativismo lírico. desencarnou aos 18 de outubro de 1860.Que abrace a nossa Doutrina. No bem que é bem substância Da crença que diviniza. com 21 anos de idade. Feliz quem pode guardar A força de realizar Os grandes feitos da Luz. na Fazenda de Indaiaçu. Mas buscando a perfeição Na perfeição de si mesmo. Suas composições possuem “um saboroso estilo colorido. Que no altar do coração Tenhamos o amor profundo Daquele que é a Luz do Mundo. no então município de Barra de São João. sensível e personalíssimo” – disse Ronald de Carvalho. é nossa divisa Oração e Vigilância. No Evangelho de Jesus. Penetra numa oficina De esforço.

Na tarde e no amanhecer. Formadas de trinos de aves E de perfumes de flor. O dia. Do verde da Natureza. Cheio de aroma e esplendores Sob um céu primaveril. De ternura e de saudade. Constantemente cismando. Da melodia das fontes. A mocidade era um hino De melodias suaves. um lago tranqüilo Onde começa a existência. E na paisagem querida.À minha terra Que terno sonho dourado Das minhas horas fagueiras. O pensamento sonhando E o coração a cantar. os afagos E os beijos de minha mãe! Dos trinos dos pintassilgos. Como uma estrofe inspirada Na noite e na madrugada. As carícias. De tristeza e de prazer. Do verde do lindo mar! Oh! que poema a existência De infância e de mocidade. No recanto das palmeiras Do meu querido Brasil! A vida era um dia lindo Num vergel cheio de flores. Numa canção de alvorada. A noite toda estrelada Após o doce arrebol. De tudo me lembro e quanto! A transparência dos lagos. Os ramos das laranjeiras E das frondosas mangueiras Douradas à luz do Sol! Oh! que clarão dentro d'alma. . Onde os cisnes da inocência Bebem o néctar do amor. Na delicada harmonia Que nascia da beleza. manhã ridente. Igual a um canto sublime. A infância.

Os pios das juritis! Se a morte aniquila o corpo.As nuvens nos horizontes Perdidos no azul do além. com o peito ao vento. Onde há reis que são poetas. O manto de luz da aurora. Jardim de risos e flores Rolando no céu azul. Sem sombras de sofrimento. Retumba pelas montanhas. Quando eu cruzava as campinas. Espero em horas fagueiras Um dia poder voltar. Ecoa de Norte a Sul. Onde as histórias são cantos De gárrulos passarinhos. Heróis ternos. Não aniquila a lembrança: Jamais se extingue a esperança. Recortada de palmeiras. As frondes cheias de amora. Um paraíso de amores. Esperanças e alegrias. Num tempo doce e feliz! Os pessegueiros floridos. se há saudades. Onde rugem tempestades. Descalço. E trovadores alados. Canções de eterno fulgor! A Terra é um mundo ditoso. As galas da Natureza. Nunca se extingue o sonhar! E à minha terra querida. Onde as gravuras são ninhos Estampados no verdor. Amargura e dissabor. Um hino de força e vida Palpita em suas entranhas. Também há dias dourados De sol e de melodias. Os sonhos da mocidade. namorados. Livro de excelsa beleza Com páginas de esplendor. Se há tristezas. . A Terra (Aos pessimistas) Se há noite escura na Terra.

O Sol o prado ridente.. Abarrotada de dores. De negras e longas tranças. Quem vive num éden desses. Lembranças No sacrário das lembranças. Revejo-te. O dia todo é alvorada De doces encantamentos. Os primorosos cabelos . risos e flores. Moreninha. Os astros o Sol-nascente. De triste e rude carpir.. Perfumando as pradarias Com seu hálito de amor. trigueirinha. E enche-se de esperanças Para sofrer e lutar. A noite. Desabrochando às centenas. De aromas. De lágrimas e amargores. Também há dias dourados De juventude e esplendores. em seus brancos véus! A tarde oscula as estrelas.. Oferecendo-lhe graça. Moreninha. O prado perfuma os céus!. Teus lindos pés descalçados. Jamais almeja que a morte Na vida o venha tragar. Sabe encontrar a ventura Nesse jardim de pujanças.Gargantas de ouro a cantar. cheias de olor. De áureos sonhos no porvir!. Saudando a aurora que surge Como ninfa luminosa.. Na estrada onde o homem passa. Se há noite escura na Terra. Sorrindo. A olhar-se toda orgulhosa No espelho do grande mar! Onde as princesas são flores. deslumbramentos Da Lua. É sempre risonho e forte. Que se beijam luzidias. Pisando de manhãzinha A verde relva dos prados.

.Enfeitados. Quando te achavas sozinha. Quando o teu passo ia e vinha Em busca da água da fonte. Moreninha. Sob o luar prateado. O nosso idílio encantado. Moreninha. Moreninha. A placidez do teu rosto Com teus modos de avezinha. Nos fios d’água fresquinha. De rosas estampadinha. Moreninha. Os teus risos adorados. Desferidos à noitinha. A tua oração ditosa. O vestidinho de chita. Rainha da Natureza. Lavando a roupa às braçadas. Fazendo-te mais bonita. Nas missas da capelinha. Moreninha. à tardinha. Moreninha. Francisco Cândido Xavier . Enchendo a nave de odores.Parnaso de Além-Túmulo 174 Que terna recordação De minhalma se avizinha! De saudade. Teu vulto de camponesa Era o porte de rainha. O teu samburá de flores Que levavas à igrejinha. Inda ouço os sons primeiros Da tua voz na modinha Modulada nos terreiros. Moreninha. Tão faceira! tão formosa! Moreninha. Nos bandos de namorados. Sob as mangueiras copadas. Fitando a luz do sol-posto. Moreninha. De olhar sedutor e insonte. de paixão. De miosótis singelos. Moreninha. Moreninha.

Ah! que eu possa hoje olvidar Francisco Cândido Xavier . Daquela risonha aurora Do meu passado viver. Meus sonhos encantadores. deixai que eu me esqueça Da minha vida de agora. E contemple as primaveras Da vida que já deixei. Sob a luz do céu de anil! Rever o sítio encantado Da minha estância de amores.. De convites à oração. Concepções mais perfeitas No progresso que alcancei. Sentar-me no prado agreste. Na fresca sombra dos vales.. Rainha da Primavera. doce rainha. Na alegria inalterável Do lugar onde nasci. Que eu sinta de novo a vida Na infância linda e ditosa. Que das ruínas. Ai! Ai! meu Deus. Ouvir a voz da amplidão! . quem me dera Rever-te. esferas. Que apenas o meu passado Eu possa alegre rever. Moreninha. Recordando Meu Deus. Quero rever novamente A paisagem luminosa. Sentir a emoção grandiosa De tudo o que já senti!. Mirar a luz das estrelas.Moreninha. Beijar as flores singelas.Parnaso de Além-Túmulo 175 Imensidades. Deixai que me identifique Com os raios da luz de outrora. Minha terra. dos escombros. meu Brasil! Escutar os sinos calmos Sob a alvura das capelas. Minhalma retire as heras. Enchendo as longes devesas. Quero aspirar os perfumes Dos cendais cheios de flores.

o Sol. e amar A campina. o mar. Da alvorada e do arrebol. céus azuis Ser homem e ser criança.Correr sob o sol-nascente Até que chegue o luar.Parnaso de Além-Túmulo 177 25 Castro Alves POETA baiano. Múltiplas vidas vivemos. Mocidade radiosa. Toucar-se a alma das galas Da poesia inexprimível. Nesta poesia sente-se o crepitar da lira que modulou – O Livro e a América. Francisco Cândido Xavier . o autor consagrado de Espumas Flutuantes exerceu nas rodas literárias do seu tempo a mais justa e calorosa das projeções. Francisco Cândido Xavier . Na excelsa Imortalidade.Parnaso de Além-Túmulo 176 Campos verdes. Para à mesma luz volver. que ventura! Viver. Verto prantos de saudade A luz da recordação. Oh! Natureza da Terra. E em meio dos mortos-vivos Somos míseros cativos Da iniqüidade e da dor. Na carícia dessas falas Do passarinho e do Sol! Eu gozo de quando em quando.. Que tesouros não exalas. Revendo essa claridade. Sedentos de paz e amor. Da existência transcorrida Guardada no coração. Que esperança. Procurando os passarinhos E as borboletas tafuis. E dos cimos desta vida. É a luta eterna e bendita. com 24 anos de idade. sofrer. Marchemos! Há mistérios peregrinos No mistério dos destinos Que nos mandam renascer: Da luz do Criador nascemos.. . desencarnou a 6 de julho de 1871. Buscamos na Humanidade As verdades da Verdade.

Em que o Espírito se agita Na trama da evolução. terna. esplendor. Na Terra. Suas rútilas passagens Deixam fulgores. dos tiranos. No sacrifício da cruz. Dos algozes. A vida é luz. Deixando um aroma leve Na aragem que passa breve. Em Carraras de eleição. É o sofrimento do Cristo. Oficina onde a alma presa Forja a luz. forja a grandeza Da sublime perfeição. É a rija bigorna. Nas madrugadas de luz. Pleno de seiva e verdor. imagens. . tudo sonha Na imortal ânsia risonha De mais subir. mais galgar. O Universo é o seu altar. Anjos puríssimos faz. Portentoso. Pelas fainas do trabalho. jamais visto. Em reflexos perenais. expirando.Parnaso de Além-Túmulo 178 É a gota d'água caindo No arbusto que vai subindo. É a dor que através dos anos. às vezes se acendem Radiosos faróis que esplendem Dentro das trevas mortais. Em mensageiros de paz. A flor que. Sintetizando a piedade. O fragmento do estrume. Francisco Cândido Xavier . Transmutando os Neros rudes Em arautos de virtudes. O escopro dos escultores Transformando a pedra em flores. o malho. Tudo evolui. Cai ao solo fecundando O chão duro que produz. Que se transforma em perfume Na corola de uma flor. A enxada fazendo o pão. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 179 Deus somente é o seu amor.

A ensinar catequizando O selvagem infeliz. Quem luta. É Anchieta dominando. tende esperança. O fiel desconhecido. Desnorteados viajantes Dos Niágaras da dor! Francisco Cândido Xavier . Lanço Cômodo no olvido E aureolo a fronte de Hugo! O cronômetro dos séculos Não me torna envelhecida.E cujo amor à Verdade Nenhuma pena traduz. Ou o sabre de Bonaparte. Oh! bendito quem ensina. É Cellini com sua arte. “Para o Infinito marchai!” A Morte No extremo pólo da vida Diz a Morte: – “Humanidade. Sou a espada da Verdade E a Têmis do mundo sou. É Sócrates e a cicuta. Uma excelsa voz ressoa. É a lição da humildade. . Sou balança do destino. Francisco Cândido Xavier . quem ilumina. Sou anjo dos desgraçados Que seguem na Terra errantes.Parnaso de Além-Túmulo 181 Também sou braço potente Dos déspotas e opressores. Prêmio ou gládio vingador. De extremosa caridade Do pobrezinho de Assis. Tirânico e lutador. “Tende fé. Sou morte – origem da vida. O grande conquistador. No Universo inteiro ecoa: “Para a frente caminhai! “O amor é a luz que se alcança. É César trazendo a luta. Nas sendas do progredir.Parnaso de Além-Túmulo 180 Quem o bem e a luz semeia Nas fainas do evolutir: Terá a ventura que anseia.

ouve-me. Arremesso a minha espada. E por trabalhar com Deus. Meu verbo é a lei da Justiça. Estrela – estendo-te lume. sobre as descrenças. Minha mão abre a cortina Que torna o mistério em luz. Francisco Cândido Xavier . Meu braço – a revolução. . Da alegria sou saúde E do remorso o amargor. também se a tirania Arvora-se em lei na Terra. Na absoluta eqüidade. Faço cair as nações Como fiz Roma cair. Nova aurora ou nova cruz.Que trazem os sofredores No jugo da escravidão. Eu mando a noite da guerra Fazer o sol do porvir. Sepultura do presente. Desde as eras mais remotas Coso láureas e mortalhas. Consolo e alívio aos precitos. E sobre a crença o esplendor. E sobre a dor das batalhas Minha asa sempre pairou. sou compensação. Flor – oferto-te perfume. se às vezes Simbolizo a guilhotina. Luz da vida – dou-te o ser! Mas. O manto das trevas densas. Sou águia libertadora Que abre. Homem. Meu sonho é a evolução. Ateio fogo aos canhões. Aos bons. E nos maus aumento os gritos De dores e maldição. Do porvir sou plenitude. Se o cristal que imita o céu Da consciência tranqüila É o luzeiro que cintila Na noite do teu viver.Parnaso de Além-Túmulo 182 Sou prisão ou liberdade. Austerlitz e Waterloo. Oásis – dou-te o repouso.

E junto ao vulto de Têmis Tomei o carro de Jove. À luz da realidade. Francisco Cândido Xavier . orgulhosa. Então. Apaguei a luz do amor. Cujo seio palpitante Guardar-te-á – paz e amor. Das cidades fiz ossuários. se tens Por bússola o Bem na vida. Serei tua doce amante. Agora é reconstruir. Horrenda. Abrir-te-ei meus tesouros.. Morte. Mirabeau. Que espedaça os teus heróis. E fiz o Oitenta e Nove Quando a França me ajudou. Que jamais teve presente. Fiz a Europa ensangüentada Ajoelhar-se humilhada. Espera-me com fervor.Foi assim que fiz um dia. Francisco Cândido Xavier . Olha o Sol de fronte erguida. . Trucidei réus inocentes. Se às vezes se te afigura Que sou a foice impiedosa. Busquei Danton. Até que um dia o Criador Sempre amoroso e clemente. Bradou do cume dos céus Num grito piedoso e forte: “Não prossigas! Basta. implacavelmente. fria. Verás que sou a mão terna Que rasga abismos profundos. Ao ver o trono imperfeito Estrangulando o Direito..Parnaso de Além-Túmulo 184 Conduzo seres aos Céus. E mostra biliões de sóis. Dos campos Saaras ardentes. Nem passado nem porvir. Sou ave da liberdade Que ao lodo da escravidão Venho arrancar os espíritos. E mostra biliões de mundos. homem.” Portanto.Parnaso de Além-Túmulo 183 Diante de tanto horror.

Sem Jesus. Em queda descomunal. mercê de um simbolismo inconfundível. marcar sua individualidade literária. Poeta de emotividade delicada. no Estado de Minas. A esperança. Tudo em seu seio revive: Esparta. Tebas. Nínive. Ama a cruz que te pesa sobre os ombros.Parnaso de Além-Túmulo 186 27 Cruz e Souza CATARINENSE. Ansiedade Todo esse anseio que tortura o peito. Nascido na capital de São Paulo. cresce a treva entre os escombros. Não temas Somente com Jesus a alma cansada Volve à praia do amor no mar da vida. Francisco Cândido Xavier . a 26 de setembro de 1844 e desencarnado em Campos em 31 de janeiro de 1909. poeta e jornalista. Estrangulando a voz exausta e rouca. Dou almas para a amplidão!” A Morte é transformação. E como faz às cidades.Parnaso de Além-Túmulo 185 26 Cornélio Bastos PROFESSOR. Que em cada canto estruge e em cada boca Faz o soluço do ideal desfeito. Todo o trabalho e dor da humana lida São luzes da vitória desejada. Foi grande abolicionista e espírita militante. Vence o deserto áspero e inclemente. soube. . Ansiedade fatal de que se touca A alma do homem mau e do perfeito. Remodela humanidades No progresso universal. Sua vida foi toda dores.Elevando-os às alturas: Dou corpos às sepulturas. O viajor errante encontra a estrada. adiada e emurchecida. encarnou em 1861 e desprendeu-se em 1898. A aflição inda é grande em cada dia? Não desprezes a Doce Companhia. Vai com Jesus! não temas! crê somente! Francisco Cândido Xavier . Que o reconduz à terra estremecida. Revivem na velha Europa. Funcionário público. Sobe da Terra pelo espaço eleito. Refloresce ao clarão de outra alvorada.

. Sustentando o fulgor da luz da Vida. Essa ansiedade é a mão de Deus nas eras. No turbilhão de todas as esferas!. As geenas do pranto acorrentados. No turbilhão dos grandes desgraçados. E além dos trilhos de ásperos espinhos. . Mundos de amor no claro azul distante. Francisco Cândido Xavier . ermos de amores. Qual essa flor fragrante. São os heróis das lutas torturantes. Nutrindo a luz dos sonhos superiores Nos ideais maiores esfaimados. Aluviões de peitos sofredores. Francisco Cândido Xavier . Das dores e da lágrima incontida. Nos desertos dos áridos caminhos. sendo na Terra os esquecidos. As perfeições eternas e supremas! A sepultura Como a orquídea de arminho quando nasce.Numa imensa espiral.Parnaso de Além-Túmulo 187 Heróis Esses seres que passam pelas dores. aflita. Do monturo pestífero emergindo.. Como se a neve alvíssima a orvalhasse. Sonhando a mesma luz e a mesma aurora Que idealizais chorando nas algemas! Vibrai no mesmo anseio em que palpita A alma universal. Coroados nas Luzes Deslumbrantes! Aos torturados Torturados da vida. A brancura das pétalas abrindo. Abandonados. um passo adiante. sonhando.Parnaso de Além-Túmulo 188 Chorai! que a imensidade inteira chora. dos risos. Que são. estranha e louca. Corações a sangrar.. das quimeras. Infelizes na dor a cada instante! Sobre a luz que vos guia. Formando a rede eterna e incompreendida. Revestidos de acúleos acerados. como a face Dum querubim angélico sorrindo.. sozinhos. bruxuleante. Sobre a lama ascorosa refulgindo. Das ilusões. Fulgem no Além os deslumbrantes ninhos. trêmulos. Prisioneiros da angústia e da quimera. Esses pobres que o mundo considera Os humanos farrapos dos vencidos.

superna. que a luz acaricia! Alma liberta. deixamo-lo aqui registrado. Vê a aurora depois da noite escura. anseios e alegrias. Anjos da Paz Ó luminosas formas alvadias Francisco Cândido Xavier . Com a alvorada da Paz. 9 Este e outros sonetos de Cruz e Souza foram por ele mesmo traduzidos magistralmente em Esperanto. que no-las remeteu. Entre canções de luz e liberdade.. Penetra o mundo da imortalidade. Anjos da Paz. redimida e pura. sob o título: Vodoj de poetoj ei la Spirita Mondo. De lindos firmamentos estrelados. Céus distantes que vemos. Doces visões de etéricos carraras De que o espaço fúlgido se estrela! Clarificai as noites mais escuras Que pesam sobre a terra de amarguras. Longe das dores do passado incerto. radiosas formas claras. dominados De esperanças.Luz que sobre negrumes se avistasse. E como o lodo é o berço vil de flores. A alma livre contempla o novo dia. Por supormos fato inédito. Evola-se a essência luminosa Da alma que busca o céu maravilhoso.Parnaso de Além-Túmulo 189 Que desceis dos espaços constelados Para lenir a dor dos desgraçados Que sofrem nas terrenas gemonias! Vindes de ignotas luzes erradias. Assim também do túmulo asqueroso. Francisco Cândido Xavier . “Gloria victis” Glória a todas as almas obscuras . Essas traduções mediúnicas de versos em Esperanto foram publicadas em elegante volume.. Forçando as portas da Beleza Eterna. Desse mundo de sombra e de agonia. e as traduções ditadas ao médium Francisco Valdomiro Lorenz. ditosa e bela! Alma livre 9 Um soluço divino de alegria Percorre a todo Espírito liberto Das pesadas cadeias do deserto. Numa visão mirífica.Parnaso de Além-Túmulo 190 Mergulhada no esplêndido concerto De outros mundos. A sepultura fria e tenebrosa É o berço de almas – senda de esplendores.

Glória aos milhões de todas as criaturas. Onde venceste a carne soluçando. O escuro abismo. Nos sofrimentos purificadores. Francisco Cândido Xavier . a crença persuasiva Nos caminhos da prova dolorosa. aniquilados. Como arautos de todas as virtudes. Segue cantando. Conservai essa vaga claridade Da luz da eternidade indefinida. Sob a noite das grandes amarguras. Para os pobres Espíritos cativos As grilhetas do corpo miserando! Abre os sacrários da Felicidade. Cheio das luzes do porvir eterno. Sem as doces carícias do galerno Das esperanças – sacrossanto amparo. compassivos. Céu Há um céu para o Espírito que luta . Sobre as ressurreições da alma gloriosa.Parnaso de Além-Túmulo 192 Volve os teus olhos ternos. É a lição luminosa da Verdade Que a Humanidade espera comovida. Glória à pobre criatura desprezada. Que o Céu é a pátria eterna dos vencidos. Glória Victis! Hosana aos desgraçados Que tombaram sem vida. Guardai a voz da Terra Prometida. O teu destino esplendoroso e raro. Sabei vencer entre as vicissitudes. Nos exílios do pranto e da saudade. Mas não te esqueças desse mundo avaro. no horizonte claro. Mas lembra-te do orbe da impiedade. Sem conhecer a luz de uma alvorada. Todo o nosso trabalho objetiva Dar-vos a fé. o tormentoso Averno. Oração aos libertos Alma embriagada do imortal falerno.Que caíram exânimes na estrada.Parnaso de Além-Túmulo 191 Nossa mensagem Essa mensagem de esperança e vida Que endereçamos da imortalidade. Como heróis dos deveres e das dores! Francisco Cândido Xavier . redimidos. Onde aportam ditosos. Onde a pobre esperança abandonada Morre chorando sob as desventuras.

Mas há quem guarde as gotas do teu pranto No tesouro sublime e sacrossanto Dos arcanos de luz da Divindade! Há quem te faça ver as cores do íris Da fagueira. Beleza da morte Há no estertor da morte uma beleza Transcendente. Para quem nunca trouxe a Primavera Dos seus pomos dourados de ventura. Céu repleto de vida e de fulgores. trêmula e acesa. Beleza sossegada e silenciosa. Que coroa de luz a alma impoluta. Na mais sagrada das hierarquias. De alma ofegante e coração aflito: Considerai. É o augusto momento em que a alma. No qual o corpo morre e a alma vibrante Foge da noite das melancolias! Francisco Cândido Xavier . fitando a imensa altura. ó pobres caminheiros. Mensageiro Abri minhalma para os sofredores .Parnaso de Além-Túmulo 194 No silêncio de cada moribundo. esperança. Os deslumbrantes orbes da ventura Por entre os sóis suspensos no Infinito! Aos tristes Alma triste e infeliz que se tortura Francisco Cândido Xavier . A canção da vitória ali se escuta. Abandona a prisão. e intrépido quisera Trazer-te a luz que esplende pela Altura. luminosa. Da alma livre das penas e das dores. Um mistério divino há nesse instante. Há a promessa de vida em outro mundo. ignota. até partires Nas asas brancas da Felicidade. dorida e ansiosa. Que faz da vida a rede de esplendores. Sentindo a vida de outra natureza. Considerai. presa Às cadeias da carne tenebrosa.Parnaso de Além-Túmulo 193 No tormento que punge e dilacera. Na paz quase integral e absoluta.No oceano dos prantos salvadores. Afastando essa dor que te amargura Nas ansiedades de uma longa espera. Sou teu irmão. Que na Terra viveis como estrangeiros. Da Luz branca da Paz.

dos pecados. De benditas e eternas claridades. indefinido. Dos prazeres mundanos esquecido. Se queres Se queres a ventura doce. Para afastar as trevas do martírio Do silêncio das noites tenebrosas. Serás na Terra o filho incompreendido Do Tormento casado com a Miséria. Tudo isso não vejo e vejo apenas O turbilhão das lágrimas terrenas – Taça imensa de gotas amargosas! Da piedade e do amor eu trago o círio.Parnaso de Além-Túmulo 196 O missionário dessa Dor suprema! Noutras eras Também marchei pelas estradas flóreas. De outro mundo de luz. Outro Job pelas chagas da matéria. etérea. Sofri na Terra junto aos condenados.Na vastidão serena dos Espaços. Do Soluço. Seres escarnecidos. torturados. que redimes Os grandes réus. és tu que resgatas. Epopéias de Sons e de Esplendores. Mas um dia abrirás as portas de ouro E encontrarás o fúlgido tesouro. Ó portadora do tormento acerbo. Encarcerado nas sinistras grades. E o mistério dos célicos abraços. Aferidora da Justiça Extrema. os míseros culpados. Bendita a hora em que me pus à espera De ser. Entre as prisões da Lágrima que exprimes! Da perfeição és o sagrado Verbo. Os calcetas dos erros. do Pranto.. mais escassos. Serás em toda a Terra o feio aborto Das amarguras e do desconforto. Sob os teus pulsos. E os prazeres mais pobres. em vez do réprobo que eu era. Que surgem do pretérito de crimes.. . do Gemido. das Preces e das Cores. À dor Dor. Eu que na Terra tive sempre os braços Presos à cruz tantálica das dores.Parnaso de Além-Túmulo 195 Viverás na mansão triste. Francisco Cândido Xavier . Dos Perfumes. funérea. Francisco Cândido Xavier . fortes e sublimes.

Meus passados. Doma o teu coração. amplidões e mares! Vibrai comigo. Chorando a mesma dor que o mundo chora. Aves e flores. vence-o. sem luz e sem conforto. Tive um passado fúlgido de glórias. Desdobrai-vos luzeiros estelares. Do Bem encontrarás a eterna aurora. porém. Na concretização desses prazeres Do meu sonho de luzes e universos. Francisco Cândido Xavier . nas atmosferas. noutras sombrias Sendas tristes. há sobre as humanas . Serás pobre de luz se não sofreres. fatal e avaro. E abusei dos deveres soberanos Sucumbindo aos terríveis desenganos Do destino cruel. Sobre o aroma das novas primaveras. recônditos pesares. Exaltai minhas dores de outras eras. no mundo que o mal encheu de cruzes. Para encontrar-me a sós no mesmo horto Que deixara. Abre a tua consciência para as luzes E. dobra-o. multidões de seres. Ser-te-ão como trevas. e. Exaltação Harmonias do Som.Cheias de risos e de pedrarias. Nos horizontes. misterioso e santo.. das dores meritórias.Parnaso de Além-Túmulo 197 Pois que a dor é a saúde dos prazeres. E na grandeza infinda que se espalma Sobre a glória sublime dos meus versos! Francisco Cândido Xavier . e. Sofre Toda a dor que na vida padeceres. Exaltai-vos na vida de minhalma. no silêncio. De maravilhas de ouro e de alegrias. todo o pranto. Todo o fel que tragares.Parnaso de Além-Túmulo 198 Vozes Há sobre os prantos. Onde todas as horas dos meus dias Eram hinos de esplêndidas vitórias. Foge à revolta. Sentindo as dores desse desamparo. vibrai nos ares. O hino da luz. entretanto. Cantem no mundo todas as quimeras. humilha-o. Sem reparar.. É que dos sofrimentos nasce o canto De alegria dos mundos e dos seres.

Vendo na auréola da Imortalidade A alvorada risonha da ventura. Remontando aos Espaços constelados. Silenciosa. Em torno da Verdade a alma gravita Buscando a Perfeição pura. As segundas. As primeiras são feitas de amarguras. Gozadores de outrora entre as refertas Das ilusões que tombam fenecidas. que é pão dos infelizes. Canta e vibra num dia de bonança. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 199 E ao fim de cada noite tormentosa. Francisco Cândido Xavier . Que é a existência na prova dolorosa. Desce dos Céus a voz amiga e mansa.. Luminosa e divina.. suplicando. A alma vive na intérmina procura Do filão de ouro da felicidade. infinita. Fortificando a vida da Esperança – Patrimônio dos seres desgraçados. Soneto Nos labirintos dessa eternidade Que nós vivemos luminosa e pura. Glória da Dor.Vozes que se lamentam nas torturas. incertas.Parnaso de Além-Túmulo 200 . Sobre as dores sagradas ou profanas Que pululam nas sendas mais escuras. Outras vozes mais doces e mais puras. muda. Há o turbilhão frenético das vidas Sobre as estradas ásperas. humilde e boa. tanto mais se apura No pensamento excelso da Verdade. Quanto mais sofre. Sobe da Terra a queixa soluçando. Só uma glória mirífica perdura Concretizando os sonhos da criatura Cheia de crenças e de cicatrizes: É a vitória da Dor que aperfeiçoa. Nessa jornada eterna da Esperança. Como um coro dulcíssimo de hosanas. Glória da Dor Para aquém dessas cruzes esquecidas Nas sepulturas ermas e desertas. Quanta vez Quanta vez eu fitei essas fronteiras. de bênçãos soberanas. Inda há sânie das úlceras abertas No coração das almas combalidas.

Das consciências libertas da impureza. firmamentos. Manifestando as glórias da Beleza!. Como o errado viajor que cai de bruços Sobre a íngreme estrada da agonia. Em seu labor fecundo e peregrino. abafando os meus soluços.. Como folhas levadas pelos ventos. Redentora de todos os pecados.. Voz da eterna verdade que ressoa Por toda a parte. Amarguras e dores e canseiras. nas horas derradeiras!. promissora e ativa. Misericórdia.Parnaso de Além-Túmulo 201 Conduzi a mensagem luminosa Da caridade. Ide e pregai. Presa de sonhos e estremecimentos De esperança. De bens paradisíacos se priva..Horizontes. estrelas. É a vibração do espírito divino. torturados! Francisco Cândido Xavier . a qual para ser boa. O evangelho do amor e da esperança. Caridade Caridade é a mão terna e compassiva Que ampara os bons e aos maus ama e perdoa. que traz a verde oliva Da paz. Ensináveis-me a ler a Bíblia santa Desta vida imortal que se levanta Numa alvorada eterna de alegria! Ide e pregai Vós que tendes as rosas da bonança Enlaçadas na fé mais doce e pura. Espalhai os clarões da vossa crença Na pedregosa estrada dessa imensa Turba de irmãos famintos. Mão radiosa.. Que vos fostes nas lágrimas ligeiras. na noite da amargura. Quanta vez. Toda luz da verdade que se alcança É um reduto de paz firme e segura: Dai dessa paz a toda criatura. que acaricia e que abençoa. lúcida e piedosa. Ah! meus longínquos arrebatamentos. A caridade é o símbolo da chave Que abre as portas do céu claro e suave. Renúncia Renuncia a ti mesmo! Renuncia À mundana e efêmera vaidade: . Sobre a qual vossa vida já descansa.

E sustentei. de alma pura. Só a Morte abre a porta das mudanças E concretiza as puras esperanças Francisco Cândido Xavier . de luz. Num contínuo combate pavoroso. Prosseguindo na estrada luzidia. esplêndida se expande No coração sublime das estrelas!.. almas sedentas De paz. como passas. sob as dores De misérias. Todo o sonho carnal vaga sem rumo. Tudo vaidade Na Terra a morte é o trágico resumo De vanglórias. Francisco Cândido Xavier . rudes e incruentas. Só o diamante do espírito sem jaças Fica indene de todas as desgraças. Que tombais nos caminhos sem dizê-las! Exultai. É ter no Além castelos de ventura. Não olvides em meio dos tormentos: – Renunciar em bem da dor alheia. Também vivi as lágrimas obscuras. Também senti as emoções violentas Que palpitam nos peitos sonhadores.. Nesse mundo de lutas fratricidas. esquece a lúrida maldade.Parnaso de Além-Túmulo 203 Nos países seráficos do gozo! Ouvi-me Ó vós que ides marchando. que uma vida eterna e grande. Com a bondade mais pródiga e mais pura. de orgulhos e de raças. Além da morte. Tudo no mundo passa. Ofertando-os ao mundo que te odeia. míseras criaturas. E denodadamente engendra e cria Teu próprio mundo de felicidade! Parte o teu coração em mil fragmentos. Surdas batalhas.Que em ti sintas a dúlcida piedade Que as desgraças alheias alivia..Parnaso de Além-Túmulo 202 Do homem. varado de amargores. de amor. Felizes os que têm Deus Entre esse mundo de apodrecimento E a vida de alma livre. A vida se alimenta de outras vidas. Iguais às vossas. batalhas e tormentas. sob as maiores Desventuras do mundo. Entre as aluviões de cinza e fumo. . De que a morte voraz faz seu consumo..

No bergantim sagrado da Esperança. Espalhada nas sendas do Infinito. Vós que sois. Pobres da Terra.Ainda se encontra a imensidade escura Das fronteiras de cinza e esquecimento. Não maldigais a ulceração da algema. Noite de dor que além da sepultura Nos afasta da vida e da verdade. ambição do mundo. que estraçalha Todo o anseio de amor ou de bonança!. Que Jesus vos prepara além da morte. Não vos importe o espinho ingrato e acerbo. É a caravana de batalhadores Que.Parnaso de Além-Túmulo 205 Aos trabalhadores do Evangelho Há uma falange de trabalhadores. Rompe algemas de trevas e granito. Francisco Cândido Xavier . ai da vaidade Que se mergulham sob a noite escura. Glória aos humildes Ai da. Francisco Cândido Xavier . Na palavra e nos atos.Parnaso de Além-Túmulo 204 Pode guardar esse deslumbramento Da Fé – fonte de mística ventura. E esperai a vitória alta e suprema. Cheios de prantos e de cicatrizes. Aliviando os seres sofredores. seres infelizes. Francisco Cândido Xavier . Feliz o que tem Deus nessa batalha Da miséria terrena. Só o pensador que sofre e anda à procura Da verdade e da luz no sentimento. os companheiros Dessa falange lúcida de obreiros.. Desde as sombras do mundo amargo e aflito Aos espaços de eternos resplendores. Levantai vosso olhar sereno e forte.. Guardai-lhe a sacrossanta claridade. no esforço do amor puro e bendito. sede o Verbo De afirmações da Luz e da Verdade. Venturoso o que vai por entre as dores Atravessando o oceano de amargores. sobre a Terra.Parnaso de Além-Túmulo 206 28 Edmundo Xavier de Barros . Que vem salvar a mísera criatura Confundida no abismo da impiedade. Só o caminho divino da humildade Pode ofertar a luz radiosa e pura.

Que além do gelo atroz que te reveste os muros.. quanto pela opulência das rimas. a fama.. porém. Eu mesmo Eu mesmo estou a ignorar se posso Chamar-me ainda o Emilio de Menezes.. filho de Pacífico Antônio Xavier de Barros. . no Estado de Goiás. Musa vivacíssima e fulgurante. Ave triste da noite. nascido em 1861. Em cenário diverso aprimorando as cenas. Do inferno atravessar o abismo ígneo e fundo. sem Deus. Mas no plano da carne os impulsos tigrinos Fazem a ostentação da miséria que chora! Necessário vencer nos vórtices medonhos.EDMUNDO Xavier de Barros. Foi poeta e desenhista notável. 1909. Desencarnou no Distrito Federal. Para ver a extensão da noite estranha e densa. Santificar a dor. a vida apenas É tudo que encontrei e é tudo que me espera! O ouro... as lágrimas e os sonhos. porém. desvenda à Terra os planos que descobres. Distinguiuse pela altaneza dos temas. à luta que aprimora. a vida eternamente. era sobretudo ativamente humorística. Francisco Cândido Xavier .. em 1866. fumo e cinza ao fundo da cratera. Vida Nem a paz.Parnaso de Além-Túmulo 208 29 Emílio de Menezes POETA brasileiro. Que os servos da maldade e os filhos da descrença Estenderam. esquivando-se à aurora. o prazer e as ilusões terrenas São lodo. sempre a vida. 1901. nos círculos escuros. Continuam. versos satíricos postumamente colecionados. além de Mortalhas. como capitão da arma de Cavalaria. Legou-nos Poemas da Morte. e Poesias. A alegria que exalta e a dor que regenera. Glorificando a luz onde a Verdade mora. Sem furtar-se. nem o fim! A vida. em 17 de janeiro de 1905. Renova o coração do mundo impenitente! Dize aos homens sem Deus.Parnaso de Além-Túmulo 207 Diante da Terra Fugindo embora à paz de eternos dons divinos. nascido em Curitiba. sobre a fronte do mundo!. Fala de tua luz aos mais vis e aos mais nobres. vibrando noutra esfera.. Em derredor da Terra. e desencarnado no Rio de Janeiro em 1918. Esvaiu-se a vaidade!. estrelas cantam hinos. Os júbilos e as penas... sem deixar de ser profunda... Francisco Cândido Xavier . O homem é o semeador dos seus próprios destinos. Morte. Há vida.

Imortalidade Senhor! Senhor! que os verbos luminosos Do amor. Como hei de aparecer? O que é impossível É ser um santarrão inconcebível. desencarnou com 34 anos. Eu sabia rezar o Padre-Nosso E unir meus versos como irmãos siameses.. Evitai as comidas indigestas.Parnaso de Além-Túmulo 210 30 Fagundes Varela ESTE é o sempre laureado cantor do Evangelho nas Selvas. Que nutre um corpo empanturrado e feio. de outras vezes. da liberdade. Apesar do meu cérebro bestunto. as auroras. Francisco Cândido Xavier .Procurando tomar o tempo vosso. Nas quais. (Sempre vivi do sofrimento alheio) Relevai.. em 1875 – depois de uma existência tormentosa.Parnaso de Além-Túmulo 209 Aos meus amigos da Terra Amigos. O elo que nos unia. Trazendo as luzes do Evangelho às gentes. Como hei de versejar? Rimas em osso São difíceis. contudo.. porém. Hinos de amor. Recitando epigramas descorteses. Conduzindo a mensagem benfazeja Das esperanças para a Humanidade! Senhor! Senhor! que paire sobre o mundo A luz do teu poder inigualável. que os pássaros te elevem Dos seus ninhos de plácida harmonia. Longe das anedotas indecentes. Francisco Cândido Xavier .. distante da garrafa. Mas que não se entristece e nem se abafa. Sou o Emilio. o vinho não explode. Fluminense.. conservei-o.. Nem há cheiro de carnes ou cebolas. a voz sonora e doce do Cântico do Calvário. Espero-vos aqui com as minhas festas. que as promessas de um defunto São coisa inda invulgar no vosso meio. tolerai o meu assunto. Como a quase saudade do presunto. da perfeição. Inflamem minhas vozes neste instante! Que o meu grito bem alto se levante. as noites. Que os lírios te saúdem perfumando Os arrebóis. Pois na hora do “salva-se quem pode”. . Muita gente nem fica de ceroulas.

Descansei sobre as ilhas de repouso.. radiosas..Parnaso de Além-Túmulo 212 Onde o solo é formado de ouro e neve. divinos. Lá. desferindo Harmonias de amor e claridades. Visões de sóis eternos. Que todo o ser no mundo se descubra Perante a tua excelsa majestade. Que os meus irmãos da Terra me recebam Como o ausente invisível. Em retiros de amor calmo e sereno. Onde a treva e onde a noite são apenas Recordações de mundos obscuros! Onde as flores do afeto imperecível Não se emurchecem como sobre a Terra. Planetas como naus sem palinuros Nos oceanos do éter Infinito! Contemplei Vias-Lácteas assombrosas. Senhor! que a minha voz altissonante Se propague entre os homens. eis-me de novo ao vosso lado! Venho de esferas lúcidas. Empunhando o saltério da esperança. Saturado do amor onipotente Que promana abundante do teu seio!. nesses orbes lúcidos. redivivo!. E humanidades entre humanidades Povoando o Universo esplendoroso. Sendas de sonho e báratros escuros.Que as fontes no seu doce murmúrio Te bendigam com terna suavidade. que a verdade Francisco Cândido Xavier . distantes... Francisco Cândido Xavier . Que transmudas em rosas os espinhos.Parnaso de Além-Túmulo 211 Resplandeça na terra da amargura! Ó Pai! tu que removes o impossível.. Irmãos. E que espancas a treva dos caminhos Com a luz que afirma a tua onipotência. nutre e dá vida. Pude transpor abismos de ouro e rosas. Atravessei estradas tenebrosas E sendas deslumbrantes e estelíferas. somente o amor. Vastros portentosos. Permite que minhalma seja ouvida Na vastidão do mundo do desterro. Habitei os palácios encantados. confundidas Entre estrelas igníferas. Em lindos arquipélagos distantes. O amor. Somente o amor é a vibração de tudo! ..

para a vida e para o amor! Que representa a Terra. As nossas esperanças mais profundas. A Morte é o anjo luminoso Da liberdade franca. Que é mensagem de Deus por toda a parte! E apenas conheci um pormenor. Outras almas guiando em labirintos Para a luz. um fragmento Da Criação infinita e resplendente. Se o mundo abafa em nós toda a alegria. Quando a esperamos tristes e abatidos. das dores. Ah! Morte!. a imensidade. Pela visão dos céus resplandecentes. Martirizando o coração dorido Na cruz dos sofrimentos mais austeros. Quando nos traz imácula e sublime A chama da esperança dentro d'alma. Ela é somente o exílio temporário. dos escravos Das aflições. Onde as almas ditosas se engrandecem. Amando-se da vida os bens mais nobres. ante a grandeza De tantos sóis e orbes luminosos? É somente uma estância pequenina Onde a dor e onde a lágrima divina Modelam almas para a perfeição. Onde se sofre a angústia da distância Dos que amamos com alma e com fervor. Em luminosidades e harmonias Aos beijos arcangélicos da luz. Francisco Cândido Xavier . Um detalhe minúsculo. . A morte corrobora as nossas crenças.. Rompendo o véu que encobre à nossa vista O eterno panorama do Universo. Pelos beijos dos seres bem-amados.Vi céus por sobre céus inumeráveis.Parnaso de Além-Túmulo 213 E aponta-nos o céu. É apenas um degrau na imensidade. jubilosa. Que te bendiga o espírito abatido. Morte! que te abençoem sofredores.. Roubando-nos afetos e consolos. da tortura! Bendigo-te por tudo o que me deste: Pela beleza da imortalidade. Onde se regenera no tormento Quem se afasta da Luz e da verdade. Já que és a terna mão libertadora Dos escravos da carne. Mundos de dor e mundos de alegria.

poeta português. O padre João Tombava o dia: A luz crepuscular Mansamente descia Inundando de sombra o céu. Pensando docemente a pútrida ferida Da imperfeição que rói a torva Humanidade. E esta circunstância é tanto mais notável quando o Romantismo se ufana de uma irreal conversão ín extremis. o mar. é assaz conhecido no Brasil como épico dos maiores da língua portuguesa e admirado por quantos não estimam na Poesia apenas o malabarismo das palavras. Inflamado de fé. E aumentando nos bons as bem-aventuranças. Era um vulto sublime. excelso. Notável. O firmamento Tingia-se de luz brilhante e harmoniosa. nascido em 1850 e desencarnado em 1923. Era o meigo Pastor irradiando a luz. Oferecendo amor em flores de bondade. que os anos do alémtúmulo não lhe alteraram a sadia e lúcida mentalidade. esplêndido e florido – Sentindo dentro d'alma um frio sepulcral.Parnaso de Além-Túmulo 215 Uma luz singular nas dobras do passado. sobretudo. imaculado. Qual lírio a vicejar em meio a um pantanal. Aos pecadores dando amigas esperanças.. Sonhava ao pé da igreja – um templo envelhecido Ao lado de um vergel. Iluminando a vida. pela sua veia combativa e satírica. Como um canto sublime de esperança. Uma réstia de sol sobre a noite do Horrível.. mais liberdade No orbe da expiação e da impiedade! Francisco Cândido Xavier . . Que fazia descer o amor às multidões. desatando os grilhões Que prendiam a alma à carne putrescível. Sobre a fronte de todos quantos sofrem. Ansiando mais luz.Parnaso de Além-Túmulo 214 31 Guerra Junqueiro ABILIO Guerra Junqueiro. Iluminando o mundo. por sua produção de agora. Padre João meditava. orando ao Deus de amor: Revia em pensamento Francisco Cândido Xavier . Um puro coração. nas mesmas diretrizes.Senhor! Senhor! que a minha voz se estenda. vemos. O meigo padre João. A noite era de sonho e névoa luminosa. mas o fulgor das idéias. a terra.

E fugindo a correr da porta semi-aberta. a fúlgida visão Com aquele Cristo nu. Penetrou soluçando a ermida então deserta. a floresta. Encheu a solidão com as vozes do seu brado: “Ó Igreja! não tens a idéia que eu sonhava. roubando a luz. inerte e frio.Era o Anjo do Bem.Parnaso de Além-Túmulo 216 Fugindo desse modo ao próprio amor de Deus. o espírito gelado. De paz e de perdão. a chorar. O farol da verdade ao humano coração.. então. fugindo aos irmãos seus. à natureza em flor. Feita de amor e luz. Imóvel dominando o âmbito vazio. Sentiu seu coração em dores lacerado. meditando. túrbida e falaz. matando a paz. Da igreja de Jesus. Padre João meditou nas lutas incessantes Sustentadas na Terra em prol da evolução. Daquela igreja fria. Com o coração sangrando em úlceras de dor. Fitou extasiado a natureza em festa. a flor. Conhecendo no padre o gêmeo de Caim. O sacerdote. Sentiu-se no seu templo um pobre emparedado. o céu estrelejado. Notando a diferença enorme. de pau. E como se o animasse uma chama divina. endeusas a matéria.. E no sonho da luz fulgente do passado. o imáculo Jesus. E viu da sua igreja o erro tão profundo. . Afastado da luz. extraordinária. Despiu-se do negrume espesso da batina. As árvores. E fitando. a ermida solitária. Dourando os véus da carne e amortalhando o mundo Em trevas persistentes. Tua mão não conduz As plagas da verdade Mantendo inutilmente a pobre Humanidade No mal da ignorância. Torturas a verdade. Encaminhou-se ao campo. Francisco Cândido Xavier . de amor. E viu no mundo inteiro as ânsias delirantes De trabalho. os mares. a luz eterna e rara Que nos vem de Jesus. Comparou. Teve medo e receio. Crestando a fé. Por anos inclementes Em séculos sem fim. de eterna perfeição. A luz radiosa e bela.

Chegavam aos ovis as ovelhinhas mansas. Na piedade.Parnaso de Além-Túmulo 218 A asa ruflando inquieta. em rimas soberanas. Sentinelas da dor nas regiões desnudas. Pelas planícies ledas. Andorinhas gentis. E eu quero abandonar a noite da prisão.. mudas. na imensidão dos céus! Ó Igreja! o dogma frio é um calabouço escuro. tremendo. No firmamento em luz.Parnaso de Além-Túmulo 217 Num farrapo de sombra. Caridade Caía a noite em paz. Os risos dos aldeões e as orações das crianças Casavam-se formando. Num fantasma ambulante em treva interminável! É um blasfemo quem crê que em teus nichos e altares Guarda-se a essência pura e imácula de Deus. sangrentos nos trabalhos. Reunidas no lar caridoso e terno. Desprezo-te. Horas quedas.E transformas o padre em trapo de miséria. a sorrir. Que celebrava A grandeza de uma alma que voltava Ao redil de Jesus. Pipilavam febris no beiral dos telhados. Os poemas de luz. despidas dos seus galhos. Eu vejo-o. ó torreão de séculos trevosos. que nascem das choupanas. Crepúsculo. Francisco Cândido Xavier . As árvores senhoris. nas preces da harmonia!. os colibris doirados. os meigos passarinhos Recolhiam-se à pressa. Horas de solidão. Exalando. Canções de oiro e de sol das almas virginais. exótica e execrável. Prefiro a liberdade e a vida no futuro. Pairava na amplidão estranho resplendor. desde a flor às luzes estelares.. Guiando-me o farol da fúlgida Razão. no amor. Ruínas de maldade estúltica a cair. A Natureza inteira em lúcida poesia Repousava. Elevavam-se ao céu silenciosas. feliz. Almas puras. relicários da essência . Achou mais belo o céu e o seu viver mais santo. Francisco Cândido Xavier . Eu quero palmilhar caminhos luminosos Que minhalma entrevê na aurora do porvir!” E o padre emudeceu. Era o festim do amor. em busca dos seus ninhos! Repousavam. tardígradas do inverno. Como braços em cruz. o aroma dos trigais. Submergido em pranto. em flor.

O castelo real e a cabana do pobre. Suas faces e a fronte. à lide que os consome. de prantos!. sentia a dor dos que não têm carinhos.. Almas feitas de luar. Que levasse o amor onde faltasse o lar. imaculada e pura. A dor que dobra e vence as multidões ignaras. Era como a piedade iluminando o mundo. . Que vão cedo ao trabalho. O silêncio pesava impressionante e enorme! Nevava quase e a treva espessa e fria. de cândida frescura. que andava mansamente: Tinha nas mãos de luz ramalhetes de lírios E no olhar a expressão de todos os martírios: Digna como um juiz. Que se vão de longada ao longo dos caminhos. Filhos da obediência. que anda nas meretrizes. Cujo sonho é candura e a vida uma epopéia De louvores à dor. A dor que faz da Terra um ninho de infelizes. Que vibrasse. Era bem a visão da mágoa e da invernia. Pedindo a soluçar um caldo negro às portas! E sondava o amargor dos operários rudes. Como poça de sangue. esplêndido e profundo. Deixando a casa entregue às penúrias da fome. Que agasalhasse o pobre e que desse ao mendigo Um frangalho de pão e um momento de abrigo.. anhos de mansuetudes. Que derruba os casais e come o pão das searas. do amor e da inocência.. Pesava toda a dor que o mundo inteiro cobre. Sem temer a hediondez das negras horas mortas. Francisco Cândido Xavier . de exaltações. Em mim.. De quem ama a existência plácida da aldeia. horrendamente informe. Que palpita nos reis. Vivendo a vida doce. Enchia-se o ar de gelo igual a açoite de aço. Caía a noite em paz. a Lua Rolava na amplidão como cabeça nua. Que pusesse suas mãos benévolas e puras Sobre o abismo voraz de tantas amarguras.Da verdade e do amor. Que estendesse o seu manto aos ombros da miséria. Sinistramente.. alvas como alabastros. fulgente como a luz Que dimana do amor divino de Jesus! Seu luminoso olhar. cortando. onde andasse o penar. Quando vi resplender nas bandas do ocidente Uma excelsa visão. a imensidão do espaço. Onde sobrasse a angústia.Parnaso de Além-Túmulo 219 E eu pedia ao Criador da imensidade etérea. por entre os negros mantos De espessa escuridão..

Amo o labor da ciência e amo a existência honesta Do ingênuo lavrador. e com ansiedade levo-a A quem. Conduzo com avidez o lúcido estandarte Do bem. balsamizando as dores. Emitia esplendor sua túnica de arminhos. E quando a tarde chega. Visito os hospitais. Vou onde haja a miséria e pranto de infelizes. Amo o goivo e o lilás. que ampara a dor e vela os sonhos darte. Atravesso o oceano e atravesso os países. Confortando o amargor. a seita e as gentes. Para mim. talvez. que. Desço ao antro abismal e ascendo aos minaretes.Parnaso de Além-Túmulo 220 Pareciam do alvor das estrias dos astros. consolando a miséria. Para levar a luz. As rosas festivais das frescas alamedas. Amo a fera bravia.. Amo o trabalhador. como idolatro as crianças. Guardo comigo a dor. pão e luz. – “Meu nome é Caridade. Levo sol. Estou dentro do templo e dentro dos prostíbulos.. comovida. Emissária de Deus a toda a Humanidade: Pairo por sobre um ser resplandecente e puro. nas aflições. Sou o farol da legião dos pobres sofredores. em vez do sono à sesta. Quem és tu? – murmurei. chama-me em altos brados No turbilhão de horror de todos os pecados. Abranjo em meu amor a alma dos continentes. eu ouço Do palácio o carpir e os ais do calabouço. Enche com o seu trabalho as lindas manhãs claras.Francisco Cândido Xavier . Desço das vastidões dentro das horas mudas. Francisco Cândido Xavier .. as mágoas e esperanças. Idolatro os senis. Dissolvendo os cendais das trevas dos caminhos!. ando por sobre as ondas Do oceano a rugir sob meus pés de névoa.. como adoro as boninas Que se entreabrem na estrada. Sem toques de clarins e sem espalhafatos. creches e orfanatos. que. Vivo fora do plano imundo da matéria. entro nos palacetes. É por isso. como amo o luto e a festa. adornando as campinas. Amo os bons e protejo as almas vis e hediondas. e as aves da floresta.Parnaso de Além-Túmulo 221 Que abarrotam de olor as primaveras ledas. . Deixo Cristo na cruz para encontrar com Judas. Ando por toda a terra. não existe a classe. Vou ao cárcere escuro. engendra a paz das searas. Como pairo a sorrir por cima de um monturo.

Onde criaste o ideal e a inspiração divina. pague um tributo novo. Ressumbra asco e pavor a velha sifilítica. . morre o amor. Francisco Cândido Xavier . nem recebo homenagens. A Humanidade é a mesma. E se alguém reclamar. Onde foste ensinar cantigas às ceifeiras. Amo o templo e amo a escola. Não conheço horizontes. Não conheço nações. Onde existe o grilhão dentro de escuras celas. asfixie-se a infância. causa nojo a política. Que não te quer. Beijo um cadáver nu. ponha-se a honra ao prego. De nada serve o livro a um povo sempre cego. Onde puseste a luz. no sopé dos patíbulos. onde fundaste a escola. flores sobre os lameiros.Parnaso de Além-Túmulo 222 Vai! consulta as prisões e consulta a polícia. Subo da Terra ao Céu. Morre o bem. Rindo na podridão. cheias de sentinelas. jogue-se-lhe a metralha. como osculo os heróis. Celas que são prisões. transudando a miséria. Amo o bem que alivia. Nunca a lisonja fiz. Fez a bomba explosiva. espalhe-se ignorância. O homem fez barregãs que se vendem nas feiras! Onde andaste a criar a cidade e os impérios.” “Caridade! – tornei. E a tola sociedade É o nojento paul da criminalidade. que reclamar. que se açoite esse povo! Alguém. Jamais pude escolher entre Roma e Paris. Minha missão é amar. Lodo fenomenal de descrença e malícia. E se o povo chorar. a forca e a guilhotina. Propague-se impiedade. Para que se não veja a ruína e os cemitérios. Ele fez podridões de imundos cemitérios. nos montes. A sociedade vil é quase a mesma Impéria. nas ermidas. Se o estrangeiro chegar – Bailes nos ministérios! Músicas sobre a dor. as batinas e a estola. amo o bem que consola. Trato com o mesmo amor os cultos e os selvagens. o mesmo charco imundo.Ao pé do altar da fé. – Por que volves ao mundo? O mundo é o mesmo caos. há mosteiros na Espanha. E se a fome vier. nem quer o amor do próprio Deus! O homem não se mudou. Que brada sem cessar: – “Inda grita a canalha? Abra-se-lhe a prisão. há canhões na Alemanha. Não me regem as leis que regem um país. Se o canhão não chegar. Oro em qualquer lugar. alma de fariseus. Mate-se a mocidade. corro do brejo aos sóis. O homem pôs o missal.

morre sob pauladas – E à podre sociedade é igual a religião. Que encarcera o ideal dentro da Inquisição! Principalmente Roma.“Antes de tudo. honras aos forasteiros! Cubram sedas a lepra. Jamais toma lugar para fazer sermões. Não lê Anacreonte e ignora Petrarcas. Caridade? o mundo é sempre assim. Passa no mundo a pé. Se houve o pincel de Goya e o buril de Bordalo. Fogo a quem mendigar! morte a quem tiver dores!. Que esta plebe é de cães. Raciocina.. Eu só quero saber onde há miséria e luto. Nem sabe distinguir entre um pária e Carnegie. que esta plebe é submissa. nem más literaturas. Se Calígula quis endeusar um cavalo. amigo.Parnaso de Além-Túmulo 223 E esse povo infeliz dorme pelas calçadas. jamais anda de sege. Se o nome de Mafoma é o mesmo que Maomet. . Sacrifica um Abel para aceitar Caim!” . o Papa o oiro vil. Para fazer o bem. Não reconhece a lei que emana dos monarcas. Nunca soube notar. Não entende Voltaire. o Papa a Rotschild! Que queres. Ao raiar a manhã. eu não sei. Nunca reza em latim. Se houve no tempo antigo uma arca de Noé. Jamais focalizou questões eleitorais. Não vai à Terra Santa em peregrinações. Sabe somente ver as dores infinitas. Não vai a Roma ver o Papa que se cobre Francisco Cândido Xavier . Se a Patti cantou bem pelas festas mundanas. nunca fez procissões. a esta nada escapa. Somente lhe interessa a sorte das criaturas.Girândolas ao ar. Para o seu labutar. Almoça e ceia o luar. se Goethe ou Shakespeare. toque-se para a missa. entre más soberanas. toma vestes singelas. não discuto. nem sabe discernir Qual deles foi maior. Jesus amava o pobre. Nunca aos concílios foi dar suas opiniões.Parnaso de Além-Túmulo 224 De fulgentes milhões para humilhar o pobre. corre o fecho às janelas. Se viveram maus reis. Nunca soube enxergar se há Lutero e Jesuítas. aromas os fedores. Demonstrando o conflito entre Jesus e o Papa: Jesus amava a luz. Francisco Cândido Xavier . poeta! A alma da caridade Abomina o rumor que alimenta a vaidade.

Olha sem se anojar. Sabe amar e querer flores e passarinhos. É preciso que eu vá visitar os covis. Vai a todo lugar. Reconhece na treva a fonte dos pecados E abraça com carinho os grandes torturados. Onde se mete a flor excelsa da virtude. Sabe onde falta sol. Vai sem medo e receio à lôbrega mansarda. não está nas pelejas. Não conhece opinião. Chama-me o sol redor. nem divisa a ralé. Sabe o bem. nem dogmas de fé! Rejeita a excomunhão. Procurando os pardais. as aves e os reptis. donde foge a alegria. Tenho muito a prestar às ovelhas transviadas. Desce ao antro sem paz. misérias. Caçando o pranto e a dor dos pobres desgraçados. melros e cotovias.E não vai desfolhar misérias nos jornais. A alma da caridade Sabe endeusar a luz e adorar a verdade. Necessário é lhes leve a vida e a liberdade. E escrever com seu sangue a Justiça e o Direito! Sabe o amor. Foge da discussão. Nem no ambiente hostil e estreito das igrejas. dor. Se tua alma quiser inda encontrar-me um dia. corre por toda a Europa. recôndito e diverso. Sabe apenas que há pranto ao longo dos caminhos. Vou subir a colinas e descer aos valados. Necessário é que eu siga em minhas romarias. Os mendigos e os reis. onde escassa é a saúde. os palácios e os ninhos! Francisco Cândido Xavier . Não existe num mundo. adeus! Há muito que me espera A imensidão da dor. não lhe estorva a política. Amparar o chacal. Existe no Universo. Nunca viu povoléus. jamais amaldiçoa. mágoas. desde o nascer da aurora. Corre. segue a Nosso Senhor! Anda no Novo Mundo. sem se cansar. . Não lhe pode abalar a opinião da crítica. Sabe somente que ama e também que perdoa. Mendigando uma luz e um bocado de sopa. Poeta amigo. Que ouvem as tentações do beiral das estradas. Sabe rasgar o peito.Parnaso de Além-Túmulo 225 Tem abnegação. chama-me a orfandade. Luz para desfazer a baixeza de instintos. Que falta o amor e o pão. Entra no lupanar. Nem problemas sociais. Para buscar a dor da orfandade que chora. Sopa para matar a fome dos famintos. água e calor nos ninhos. Procuro a pomba e a fera.

Como do seu farnel. e aos olhos da minhalma. Tudo voltou à paz silenciosa e calma!. Repartindo o seu pão de carícias divinas. misérrimas. não sabeis.. . Lírios no lamaçal das grandes desventuras. Lá me ponho a lidar e de lá volto à rua. Cantos de rouxinóis. noite de desventura! Francisco Cândido Xavier . Corpos de podridão. Na esmeraldina cor do colo dos jardins! E Deus que fez o Sol e a candura das crianças.. E se fez a bondade envolta de esperanças.. Anjos açucenais que a miséria devora. para guiar felizes.Parnaso de Além-Túmulo 226 Foi-se a linda visão. Existências em flor. Fez também o soluço e a lágrima dorida.. a Terra.Parnaso de Além-Túmulo 227 A alegria taful das manhãs harmoniosas Em que maio desfolha os cravos e os jasmins. No entanto.Onde tarda a saúde e onde o conforto tarda. Harmonias sutis.. Entoando a sorrir mil ditirambos de oiro. O inverno e o pesar. árvores. Almas na escuridão da noite sem aurora.. urnas de lama e pus. Noite de neve atroz. Francisco Cândido Xavier . fustigadas de pranto.) Não sabeis. Pobrezitos sem pão. que se evolam dos ninhos Dourados pelo sol dalvorada do amor! Mocidade no abril resplandecente e loiro De noivado e canção das almas virginais. O mundo famulento. Minha missão é amar os vermes e os países!. Há risos e esplendor e há prantos. tomo o arado e a charrua. fruto e flor.. Vai às roças louçãs nas alvoradas claras. Calcular a extensão de tantas amarguras. mesquinhas.. Para guiar os maus. parecia O planeta da sombra e a mansão da agonia! Romaria (Passeio matinal) (Fim da poesia inserta em Poesias Dispersas. Estou com o lavrador na tarefa das searas. Como as aves gracis em vôos nos trigais. há aroma e luz na beira dos caminhos. dissipando as neblinas. Porque o pranto é que lava as manchas e os negrumes De almas torvas e vis. filhas que adoro tanto. esquálidos e nus.” Muito tempo passara e a noite inda era escura. Espargindo dos céus as glicínias formosas. Criou a dor clareando a escuridão da vida. filhas minhas.

vinde alegres. A lágrima da dor é estrela que transluz. a Caridade e a Crença. que une a pomba às rosas. Ofertando com amor a toda a Humanidade Esse pão divinal que é dos trigais divinos. Nutrindo o coração na fonte da esperança. Espalhemos a Fé. A paz à guerra e à luta os lírios da bonança. Em que há músicas no ar e olores nas estradas. porém. esta hora calma e mansa. traído e calmo. Às regiões da glória intérmina da luz. Saúdam o alvorecer as vozes das ovelhas. também. Um coração que sofre é chama que se eleva Da túrbida hediondez dos pantanais da treva. Compondo o hino de sol de esplêndida alvorada! Partamos nós. edênico e sem par. à treva a luz da aurora. Que liga o verme ao mar. Que faz da Caridade a flama da Virtude. Abandonado e só na aridez da colina Sofre infindo martírio a vítima divina. de pranto e de agonia.Parnaso de Além-Túmulo 228 Que chorando se vão. por este mundo afora... Ébria de aroma e luz das flores orvalhadas. E acharemos no fim da romaria imensa. Francisco Cândido Xavier . Sobre o escuro. pois. Hora em que a Terra acorda em haustos de esperança. Açoitado. O amor que fraterniza. Cheios de sânie e pus. Paira o clarão do amor. sem pátria e sem abrigo. com os corpos cancerados. Filhas que Deus me deu. chilreia a passarada. Conduzamos conosco a luz da Caridade. as aves e os chacais. Que o grão de areia une ao roble secular. silencioso. Dando consolo à dor.Parnaso de Além-Túmulo 229 Vinte séculos de dor. Zumbem sofregamente as trêfegas abelhas. Represam-se no olhar do Filho de Maria.Transformando-as em luz e em vasos de perfumes!. das lepras mal cheirosas. Tenhamos a noss'alma em delubros de luz. O sol primaveril da graça de Jesus! Eterna vítima Na silenciosa paz do cimo do Calvário Ainda se vê na cruz o Cristo solitário. Que irmana a fera e a rosa. Oferecendo o Bem aos pobres pequeninos. comigo. o amor que dá saúde. Perpassam colibris. Que sublime conduz aos planos celestiais. . Vinde comigo ver a dor dos desgraçados Francisco Cândido Xavier . Aproveitemos.

Sábios do tempo antigo abrindo os livros santos Olharam-no também. Contemplaram Jesus no cume da colina. Caravanas de reis nos tronos passageiros. Exaltados na voz das trompas dos guerreiros. Mas os soberbos reis e césares antigos. a guerra e a fome. Cavalheiros gentis. valentes brasonados. Castelãs juvenis. Dois mil anos de dor. Lobos. Nobres de sangue azul nos seus mantos dourados. Espraiando na Terra o seu olhar piedoso. Francisco Cândido Xavier . Os nobres doutro tempo. mataram-se os irmãos. Artistas e histriões. Inscrevendo com fogo as máximas das leis. depois. na cruz. nos grandes desgraçados. partindo como tantos. as lutas e a chacina. Viram-no seminu. sim. Agora vêem. procurai santamente Apregoar ao mundo herético e descrente . calmo e silencioso. ensangüentado. Bradando com furor: – “Socorre-nos Jesus! Que possamos vencer a dor em nossa cruz. Multiplicando a guerra. A um padre (Versos a um agressor do Espiritismo) Ó padre lutador. Sorvendo o amaro fel nas dores da aflição.Parnaso de Além-Túmulo 231 E do cimo da cruz. na capa dos cristãos. E na época atual a caravana estranha Estaca no sopé da árida montanha. O Mestre prosseguiu. o pranto. sublime e silencioso. O sacrifício e a dor do eterno visionário. aqueles que em seu nome Espalharam a treva. agora transformados Nos párias do amargor. turbas de gozadores Francisco Cândido Xavier . tigres. chacais. Consola a multidão com o seu olhar piedoso. E puseram-se a rir do louco supliciado! O Cristo continuou.Da Terra ao Céu espraia o seu olhar piedoso. Espraiando na Terra o seu olhar piedoso. Temos fome de paz e sede de perdão!” E o Mestre da bondade. poetas e trovadores. Hoje mais nada são que míseros mendigos. Estende o seu perdão cheio de mansuetude. no topo do Calvário. Os lendários heróis no dorso dos corcéis. e os seus cruéis algozes Passaram sem cessar como chacais ferozes. o anjo da virtude. Desolação e horror.Parnaso de Além-Túmulo 230 Inda vieram. humilde e silencioso.

A Ciência caminha a passos de gigante Para se unir à Fé. Incensai Harpagões. Ensinai catecismo em todas as escolas. absolvei magnatas. anatematizai Todo aquele que em Deus sentir o amor de um Pai. Afogai na descrença a pobre Humanidade. torcei as leis. trazei Loiolas. Esquecei sobre a lama os pobres indefesos. Formai sob a batina as gerações vindoiras.Parnaso de Além-Túmulo 232 Multiplicai no mundo as vossas benzeduras. Contendo a aspiração indômita do povo. Ponde em cada recanto um novo Torquemada. Anatematizai todas as heresias. Afirmai que um sacrista é um ministro do Eterno. Francisco Cândido Xavier . vendei o ensino e a prece. Porque. Lembrai a Inquisição e a história do papado. De saber a verdade acerca do Destino. Endeusai sobre o trono a fortuna dos Cresos. operosa e triunfante. E vinde proclamar ao mundo fariseu Que somente na Igreja há sendas para o Céu. Entre encomendações. Cortai a asa de luz de toda liberdade. Lede com desassombro o intrépido Barônio. Proclamai. Aprovai. Tomai em vossas mãos das crísticas tesoiras. são como crimes sagrados E a estola de um sacrista é isenta de pecados. Multiplicai na Igreja os ritos e as tonsuras! Teologicamente. . em verdade. sermonatas. pregai probabilismos Dentro das liações e dos anacronismos. Sem o medo pueril do inferno e do demônio. É preciso instalar a Inquisição de novo. aplaudi as grandes simonias. E um trapo de batina ao pé de cada estrada. Retende na memória os erros do passado. esplêndida.Os dogmas ancestrais da vossa velha Igreja! A árvore do progresso. Interpretai Jesus no prisma do interesse. Comei Jesus no pão refogado em falerno. proclamai o dogma divino! Fazei bulas. discursos. Traficai com o altar. Transformai todo templo em balcão de bentinhos. Com representações em todos os caminhos. Cheio de excomunhões e de mastins da Igreja! Ensinai que Deus é o bramânico sátrapa Que enviou para o mundo os bergantins do papa. Ponde sobre a esperança o inferno que flameja. Fazei autos-de-fé. viceja.

Só a Igreja possui a santa autoridade. irmão. pois. Se puderdes. Olvidai convenções. Da mentira que. . não alcança a virtude. e a bênção de Maria. congregações.. carabinas.. Afastarmo-nos dela é andar no sorvedouro Da calúnia que fere o coração mais rude. A abençoar fuzis.. É próprio das paixões e próprio da inventiva. enfim. a luta das idéias. Francisco Cândido Xavier . Representa-se a peça antiga da quaresma. Jamais enxovalheis o vosso ministério. A discórdia infundi! Nutri regionalismos. Jamais vos esqueçais de que a verdade é de ouro. arma nova fogueira A quem asseverar que o Papado é uma feira Onde Deus é um cifrão e onde se negocia A bênção de Jesus. Nunca vos entregueis a tanto despautério. tomando a vossa pena. Que a Verdade jamais se vende no mercado. Mas. da tiara.. Tendes a autoridade e a mansidão do Cristo. Incentivai com ardor os rubros fanatismos. A luta da verdade.Parnaso de Além-Túmulo 234 Criar uma ficção e excomungar de oitiva. Abrindo o coração ao nobre sacrifício. Dentro das presunções da infalibilidade. “Um Quadro da Quaresma” Entre lamentações e estrídulas matracas. papado.. Num cenário infantil. Onde a verdade está sob as cavilações Dos círculos hostis de torpes convenções! Praticai e afirmai ainda mais do que isto. Escrevei com furor contra as guerras tigrinas. Abandonai a treva e vinde para a luz! Aprendei muito mais do exemplo de Jesus. Francisco Cândido Xavier . feito de gesso e lacas. Acostumai-vos.Parnaso de Além-Túmulo 233 Sobre o luxo gritai no púlpito florido. porém. Fazendo-vos ouvir. um pálido abantesma. ao sol que tudo aclara. Gritai que o mundo está perverso e corrompido. Que traz. Deixai a insensatez dos clérigos. Clareando o porvir ignoto dos destinos. Cada gesto leal é sublime interstício Por onde a Luz penetra em jorros cristalinos. consigo o vírus que envenena! Quem perpetra a inverdade a si mesmo condena. ouvi minha voz impávida e serena!. O pobre Senhor-Morto.. É feita nos clarões das grandes epopéias. metralhas.

A função quaresmal prossegue. bandeiras e sacolas. Das chamas infernais. Necessário se faz prender quem raciocine.. Satanás que os fulmine . Dorme grotescamente o sono dessa morte De teatro burlesco. Coquelin tonsurado. De eterna submissão ao Papa que é infalível. Que a Igreja representa. desconforme. o espírito moderno. porquanto a fé é o escudo Que vos há de livrar dos gênios tentadores. Francisco Cândido Xavier . sob a luz esdrúxula das tochas Que ilumina esse caos de tintas rubro-roxas. obeso. Voltaire e Galileu são ministros do Inferno. Precisais cultivar o nosso dogma eterno.Talhado de encomenda. o explorador santíssimo da farsa. Fora das concepções altíssimas da Igreja. anual. que se repete.. há quase dois mil anos! Não busqueis progredir nas coisas transcendentes. Existe tão-somente o Inferno que despeja O mal e as tentações no espírito perdido. Rezai! que atualmente o mundo pervertido Pretende esfacelar os dogmas romanos. a toda a Humanidade. Como as grandes funções do entrudo e do confete. Comte.Parnaso de Além-Túmulo 236 Toda ordem de Roma é boa e indiscutível. Evitai conviver com os livres pensadores! A análise conduz à escuridão do Averno. É o ator da paixão. Calvino. arrecadando esmolas. Wesley. Sentimentos de fé e catolicidade. Imóvel. seus embaixadores. criaturas inferiores Dirigem. sobre o púlpito assoma Uma figura heril de abade gordo e enorme. em tinta espessa e forte. cantochãos. A multidão Espera com ansiedade o clássico sermão. Porque o Papa é senhor de céus e continentes E o Sílabus proíbe a evolução de tudo! Eu só vos peço a fé. a vítima e comparsa Do Papa. certamente. Sentinelas da fé.Parnaso de Além-Túmulo 235 Com latim. Paródia de uma dor sublime e incomparável. É preciso antepor. Francisco Cândido Xavier . Que grita com estentor: “Caríssimos Irmãos! Nós somos sobre a Terra os únicos cristãos. Filha da estupidez bisonha e condenável. Reformistas quaisquer?. Numa fantasmagoria esplêndida de aroma Dos incensos do altar.

E após se abastecer pantagruelicamente. Dos atos a lição. Propagando a cegueira. doces raros. Para tanta extorsão impune e criminosa. Não se lembrou que houvera o bom samaritano. Era um livro escurril. Obedecei à Igreja em sua Santidade. Porque a verdade pura. E abominando o Cristo. Em paz sacramental. Terminada que foi a sacra pantomima. Amando a caridade. A Humanidade está sob o império do demo. enformá-lo. em santa penitência. inadequado e velho. adormeceu sem pensar que pusera Em cada coração um coração de fera.A falta de fervor tem feito heresiarcas. ambrosias. Sede firmes na fé. o lídimo Evangelho. sem bispo e Vaticano. Oremos pelo mundo em desconforto extremo. Com um aceno abençoou. Da doutrina cristã.. Esquecido Jesus. E depois de exercer seu santo ministério. Com o seu rubro sermão.Parnaso de Além-Túmulo 237 Aguardava-o o jantar de finas iguarias: Pratos de ostentação. a humilde singeleza. Vivei. As mortificações recebem da indulgência Os prêmios celestiais na Eterna Beatitude. é cometer um crime. moscatéis. Procurou lestamente o calmo presbitério. caros irmãos. cavando um negro abismo. Francisco Cândido Xavier . a Luz. Opíparo jantar regado a vinhos caros. rogando que se desse Uma estola ao Progresso e um véu à Humanidade. confeitos. o Senhor que ele esquece. segundo o gesto em uso. Tem até corrompido os padres e os monarcas. Mas o sono roubou-lhe as preces e o breviário. Que é o traço de união do arcano da Trindade. Sereno. seu cérebro indolente Desejou meditar nas cenas do Calvário. olvidou-lhe a doutrina. Resmungando um latim exótico e confuso. O dogma é uma lei benigna e sublime. Jesus apenas fora a máscara piedosa. da caridade o templo. Sem artigos de fé.. a Liberdade. Terminou a oração. . Como Jesus amou a glória da pobreza!” Condenando a Ciência. recheios. a guerra e o fanatismo. Licores. a sacrossanta essência Ficou em pregação de mágica eloqüência. Sofismá-lo. Olvidou o que Jesus obrara com o exemplo. contentes na virtude.

Francisco Cândido Xavier . cerrando-me as pupilas No doloroso termo da romagem. deixou firmada sua personalidade literária. Lâmpada Velada e Fonte da Mata. ansioso.. Com que angústias te vi. derradeira imagem Nas procissões da sombra em longas filas. Último Evangelho e outras obras assaz estimadas. Graças a Deus. chorando. Nos pântanos letais e lúgubres de Roma. A São Pedro de Piracicaba Último instante. Escreveu Ementário. Regou. em 1888.. Morre sem remissão de horrível carcinoma. seu último livro. Gênese. A Igreja que foi pura e que já foi divina. Passados os trabalhos e os tormentos. Chorei de gratidão ao pressenti-las. .. Nos supremos e tristes estertores!.Parnaso de Além-Túmulo 238 Lá onde a cupidez fatídica se entrapa E morre às próprias mãos sacrílegas do Papa! Francisco Cândido Xavier . Era a morte. o lavrador que fez.. as mãos tranqüilas. Poemas Líricos. a crença era meu pajem E buscando-lhe. rude e bisonho. e suicidouse no Rio de Janeiro aos 26 de dezembro de 1930. E de alma ingênua e coração risonho. a terra que lavrara. jubiloso. banhado em pranto. em março de 1881. Poeta de grande relevo emocional. Ó terra de São Pedro. falecendo em 1937.Parnaso de Além-Túmulo 240 33 Hermes Fontes SERGIPANO. Conduzindo-me à luz doutra paisagem.Parnaso de Além-Túmulo 239 32 Gustavo Teixeira PAULISTA. nascido na cidade de São Pedro. ó meus irmãos do altar e da batina. Francisco Cândido Xavier . Que a morte é vida para os nossos sonhos. Não reparou o labor triste e enfadonho. Esperou confiante o sol da seara.. Quando aguardava a messe.Por isso.. nasceu na Vila de Boquim. Soneto Sou. E paraíso para as nossas dores. A sementeira luminosa e rara Do trigo louro e rútilo do sonho. tendo publicado Apoteoses. – Sonho lindo que a nada se compara. que amo tanto. Trabalha e espera sob os céus risonhos.

serra em serra. Francisco Cândido Xavier .. Do sofrimento fiz o apostolado. As promessas pueris da falsa glória. E o pobre. Adormeceu-me aos cantos da vaidade E me afastou da estrada meritória . Perdeu tudo no instante da colheita. E transformou a minha mocidade Num montéo de ambições. Que amortalhou meu sonho peregrino Nas trevas de um martírio irrevelado. Renovar minhas síncopes de dor. Não sorvo mais os tóxicos violentos Do desespero e da melancolia. incorpórea. Procurando o país indevassado Do ideal luminoso de Aladino.Parnaso de Além-Túmulo 241 Minha vida Não pude compreender o meu destino Na amargura invencível do passado. Fez-me fraco e descrente.. Tudo em volta de mim era a cegueira. Tudo outrora. Redizer minhas mágoas. E a carne subjugou-me inteiramente. Senhor. Buscando a imagem fúlgida.Numa grande esperança insatisfeita. Após a derrocada Das construções de um sonho superior. Era o tédio cruel que me impedia De vislumbrar a claridade intensa Da luz do sol puríssimo da crença. Francisco Cândido Xavier . Poema da amargura e da esperança Falar-vos de martírios e tormentos. Mas só colhi os frutos maus da Terra. Que me seguiu o espírito ambicioso! A carne é pobre e é cheia de fraqueza. E o triste engano da celebridade. Que torturou a minha vida inteira. Eis que aparecem os arrasamentos. desgraçado e desditoso. Como fizera de minha arte um hino. de fama e glória. Do que chamamos – a felicidade. Simbolizando o ciclo tenebroso Das sínteses de dor da Natureza. minhas ânsias. E fui de vale em vale.Parnaso de Além-Túmulo 242 Na minha pobre vida abandonada. É perpetrar amargas redundâncias.

Celebra. Tudo sofri. ao qual foi imposta a pena de degredo perpétuo na África. o meu pecado E pude ouvir as harmonias puras Que equilibram os mundos nas alturas!. Volta. Mas a tua bondade me levou A esquecer a influência deletéria Da carne passageira..Da crença e da bondade. Cheio de amaridúlcida ansiedade. que Te aclama Como a fonte do amor ilimitado! Francisco Cândido Xavier ... ainda. A luz sem par...Parnaso de Além-Túmulo 243 Relevaste. meu Deus.. amena. A Pátria linda . em Ti me anime. pois.. de dor e de miséria. A esperança o espírito me invade Aguardando das lágrimas futuras A minha redenção. E a desgraça suprema o amortalhou. Que no porvir a dor bela e sublime Jorre em minhalma a luz da perfeição. Francisco Cândido Xavier . O meu frágil espírito inferior Viu-se presa de trevas. Revela. A paz sublime. onde veio a falecer em 1793. Musa que inspira Meu coração A relembrar.. Redivivo Divina lira.. Rompeste a minha venda de cegueira E divisei o excelso panorama Do Universo infinito. Misericordiosíssimo Senhor! De tortura em tortura amargurado. Que a confiança.Parnaso de Além-Túmulo 244 34 Ignácio José de Alvarenga Peixoto IGNÁCIO José de Alvarenga Peixoto.. de novo Ao grande povo Que não me canso De estremecer. um dos malogrados poetas da Conjuração Mineira”. A vida plena. “minado pela nostalgia”. no passado.

O mundo em prova Que se renova Espera o dia De redenção. Francisco Cândido Xavier .Que faz vibrar Todo o meu ser. Enfraquecer-te Nas lutas mil. Chorando alhures. internou-se num hospital.Parnaso de Além-Túmulo 245 De amor cristão.. Une-te ao canto Formoso e santo Que flui soberbo.Parnaso de Além-Túmulo 246 35 Jesus Gonçalves JESUS Gonçalves nasceu em 12 de julho de 1902. Louva a doutrina Da liberdade No eterno bem. Não mais procures. na cidade de Borebi. e onde dirigia um Centro Espírita. Exalça agora A nova aurora Que brilha cheia Francisco Cândido Xavier . A nova era Do meu Brasil. Canta somente. Estado de São Paulo. Proclama à Terra Que além da guerra E além da noite Floresce a luz. dai se transferindo para o Asilo Colônia de Pirapitingui. onde desencarnou. Dize a grandeza Da glória acesa Na vida excelsa Que a dor produz. em 16 de fevereiro de 1947. Ditosa e crente. em 1930.. Surgindo-lhe os sintomas do Mal de Hansen. Sepulcro além. Lira divina. Anjo de redenção Do Céu desceste resplendente e puro E no santo mistério em que te apagas Vestiste-me o burel de sânie e chagas .

afirmou-se um dos maiores líricos da língua portuguesa. Francisco Cândido Xavier .. e desencarnado em 1896. Terno. de modo inconfundível. enfim. Anjo da redenção! bendito sejas!. de alma robusta: – Deus te abençoe. Mas.Parnaso de Além-Túmulo 247 36 João de Deus NASCIDO em São Bartolomeu de Messines.E algemaste-me a lenho estranho e duro. Ouviste-me. o choro e as pragas. As lágrimas Desci um dia Ao sorvedouro Da atra agonia Da Humanidade. em silêncio. a suavidade e o ritmo da sua lira. Qual o tesouro O mais profundo. Libertaste meu ser à Luz Celeste. Nume solar pairando no monturo.. A perscrutar Qual a verdade.Parnaso de Além-Túmulo 248 Que dominavam E se orgulhavam Do seu poder. flamejas! E agora brado. Que neste mundo O homem prendesse E o retivesse. No coração Da criatura. E vi senhores Francisco Cândido Xavier . A procurar. então. sublime e fúlgido. Os potentados Com seus valores Bem se julgavam .. Portugal. Sempre a abater Os desgraçados. Só a ilusão Duma ventura. escondendo as flores com que afagas. Doce e invisível no caminho escuro!.. em 1830. É tão bem conhecido no Brasil quanto em seu belo país. E vi. da cruz de feridas que me deste. Onde. Nestas poesias palpita. ó Dor piedosa e justa.

Eu vi mulheres Nos seus prazeres. Ricos solares Dos protegidos. . E ainda aí Não pude achar Francisco Cândido Xavier . Jovens e belas..Parnaso de Além-Túmulo 249 O que eu ali Fui procurar. miseráveis Párias da vida.. Que.Onipotentes. Deixam o teto Do seu afeto Maior. Busquei os lares. Mágoa insanável. Insuperável. Reconheceram E viram bem Nesta existência Toda a impotência Do deus-milhão. Heróis valentes Cá nesta vida. Fanadas flores. porém.. Que lhes domava E lhes dobrava O torpe egoísmo. Alvas estrelas De formosura. Depois. Rindo e cantando Dentro da noite Da desventura. supremo. Onde o conforto Para a matéria Anda em contraste Com atroz miséria Dos desvalidos.. Pobres donzelas. Luz sem fulgores. Perante a mão Da fria dor. Somente encontram Dores que afrontam.

A grosseria. A ver se esquece O que padece. então. Desiludidas! Francisco Cândido Xavier . À meia luz. Aniquiladas. Julgando crer Que está a ver O paraíso. Mas este riso. Só sentimentos Que trazem presas. Pois eu ali Tristonho vi O que em verdade É a sociedade. Ensandecidas As criaturas Outrora puras. A maior dor. Toda a maldade . Das diversões. Ao som da festa.Parnaso de Além-Túmulo 250 Que busca rir. No entanto agora Flores perdidas. É o que produz Todo o amargor. E esmagadas. A iniqüidade. Só pensamentos Das impurezas.Parnaso de Além-Túmulo 251 Nesse recinto Eu vi. Onde se aninha E se amesquinha A multidão Francisco Cândido Xavier . belos. A traição. Belas outrora.Incompreendida! E penetrei Pelos castelos Dourados. sorrir. Almas impuras. Gozar.

Dando-lhe a calma Que necessita. E. Dissimulado. Falsificado No fingimento Que aparecia No barulhento Rumor de vozes. Desiludido. Notas atrozes. Num forte brado Disse ao Senhor: “Onipotente Pai de Bondade. Desconhecida Naquele meio. Eu contemplei-o Cheio de horror E vi que as flores. Oh tem piedade Dos filhos teus Que choram. Eram sombrias. . gemem. De uma alegria Jamais sentida.Parnaso de Além-Túmulo 252 Ao seu Criador.Da hipocrisia. As pedrarias Tão luminosas. Pobres farrapos De almas perjuras Francisco Cândido Xavier . condoído. Pálidos tremem Ó Senhor Deus! Faze que a luz Do bom Jesus Penetre a alma Na Terra aflita. E tudo. Eram trevosas. enfim. Fracas criaturas Baldas de amor. Desanimado. Pois só cobriam Míseros trapos. Tristonho assim.

Assim tornando O ser feliz.Parnaso de Além-Túmulo 253 Do meu amor. Donde provém A grande paz. Que lhes transforma A alma poluta Num ser radioso.” Mas uma voz Do azul do Céu. Contempla. Jovens. . A Terra linda E então verás. Mais fino ouro Dos filhos meus. Pronta e veloz. ainda. Nas grandes penas. Nada se perde. Em todos os seres. Astro formoso De pura luz!” Eu ajoelhei E Contemplei As multidões Atropeladas. Só contemplei O mal que vi. E no Infinito Tudo o que fiz. Sou teu Senhor. Me respondeu: “Filho bendito Francisco Cândido Xavier .Só conheci E encontrei. mulheres. Nos prantos seus. Vi transformadas Todas as cenas. O sumo bem. crianças. Está na luta. Desenganadas Nas perdições. Nas esperanças. Francisco Cândido Xavier . O grão tesouro.Parnaso de Além-Túmulo 254 Homens.

Fui então vendo. Reconheci Que por aí Na escura Terra Onde eu amei. Por entre flores. Primor de encanto Do amor de Deus. Vale profundo De mágoa e dor. serenas. Reconhecendo Que aqui nos Céus. Sorri. Em profusão.Parnaso de Além-Túmulo 255 Depois. eu vi Que os que as vertiam Por este mundo.Por entre a luz. . Brotar a flux No coração De cada ser. Que os coroavam Com gemas finas. A amarga dor. Gotas pequenas Como as brilhantes Luzes serenas Das madrugadas Primaveris. Eram açucenas De fino olor Do espaço azul! Francisco Cândido Xavier . Onde sofri E onde eu vi A dura guerra. Jóias divinas Do escrínio santo. chorei. Lágrimas belas. Meigas. Gotas singelas. Eram saudados Por mensageiros De amor e luz Do bom Jesus. Quando voltavam Do seu exílio.

Parnaso de Além-Túmulo 256 Alvinitentes. Em profusão. Francisco Cândido Xavier . Remodeladas Para formarem Belo diadema E aureolarem Os que as verteram Aí na Terra. Luzente estrela Consoladora! O Céu Pátria ditosa e linda. Gemas brilhantes.Lágrimas lindas São transformadas. E vi.Parnaso de Além-Túmulo 257 No mesmo anseio santo e superior! Lá não se vê traição e cada qual Urde ali sua auréola de esplendor. Com a lágrima bela. Que a alegria E a paz envia À Humanidade Tão sofredora. fulgentes E deslumbrantes. As pequenitas Gotas de pranto. Francisco Cândido Xavier . imaterial. Onde impera a bondade do Senhor! . então. Felicidade Ao peregrino. Ricas. Que nem Ofir Pôde possuir. O Nosso Deus Que abranda o ai Dos filhos seus. Bendito o Pai. Orvalho santo Do amor divino Que dá ventura. e onde o mal Desaparece ao meigo olhar do Amor. Sejam benditas. Tranqüilidade. Que entre os seres do Além é sempre igual. Doce Mansão de Paz.

a Luz e a Vida.Porto de Salvação para quem crê Nessa Praia do Azul. País dos Céus. Depois de bem sofrer aí a dor. Venturosa região do espaço Além. A morte é um sono doce. basta crer Na Paz do Céu. Pelo poder da Fé. Gozam do afeto extremo de Jesus. Dos meus afetos! Tu necessitas Buscar a Vida Em meio às vagas Das provações! . na provação.. Nem o pranto pungente por se ver Um ser amado em horas da partida!. Onde brilha a Verdade e onde o Bem É o fanal reluzente que conduz. que adoraram a Virtude.. Imenso e lindo. um dia. Para se achar o Amor. Disse Jesus A quem vivia Em meio à luz: “Filho querido. Mansão de claridade e pulcritude Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 258 Onde os bons. Estremecido. Vai ali encontrar Consolação. Porém. O mau discípulo Era uma alma Formosa e bela: Fúlgida estrela De puro alvor. Nessas regiões Onde há mansões Purificadas. que se antevê. na Terra apetecida. Morrer Não mais a dor intensa e desmedida No momento angustioso de morrer. Que habitava Qual uma flor O espaço infindo. Onde há trégua à tristeza e ao padecer. aonde o pecador. Iluminadas Do Criador.

Tu lutarás. Já te mostrei A lei do amor. Tens a fraqueza Da imperfeição Aqui. Conquistarás A grande paz. Do sacrifício!.Dentro das lutas. Aproveitaste E assimilaste Em benefício Da lei do amor. do Mal. sofrer. E se aprenderes Saber viver. É que verei Se o que ensinei Ao teu valor. porém.. A grande luz Francisco Cândido Xavier .. Nessas moradas Iluminadas . Ao regressar. Por entre espinhos.Parnaso de Além-Túmulo 260 Que eu. Sorrir. Mas vencerás Se bem souberes Te conduzir Nesses caminhos Entre prazeres.Parnaso de Além-Túmulo 259 Tredas disputas Do Bem. A dor. Mágoas e dores. Tranqüilamente.. Francisco Cândido Xavier . Reservarei E hei de guardar Para a tua alma.. Risos e flores. teu Jesus. Luz do Senhor – O sumo bem. somente A luta amara Lá nos prepara Para vivermos.

Caminha avante. E ora conduz Teus sentimentos. o amor Do teu Senhor. Conhecerás Lindas riquezas Iluminando E te ensinando O bom caminho. Tu viverás Entre os brasões Das ilusões Da Terra impura. Sê sempre amigo Dos sofredores. À perfeição Do coração. Na deslumbrante Rota do amor! Espalha o olor Que já plantei E fiz brotar. Pra conquistares A luz. Teus pensamentos. Dos que padecem Sem conhecer Sequer abrigo Onde isolar-se.Do nosso Pai! Luta e trabalha Singelamente Nessa batalha Que te ofereço. Que cultivei Dentro em teu ser. Onde guardar-se Das fortes dores Que acometem .Parnaso de Além-Túmulo 261 Sempre a mostrar-te A caridade Com toda a luz Que ministrei Ao teu pensar. A boa estrada E com carinho Francisco Cândido Xavier .

Era adorado. Assim darás À Humanidade O testemunho Da caridade Do teu Senhor!” A alma formosa Então desceu Para lutar. Proporcionando À rica gente Que o habitava Os belos gozos. Então. Onde a alegria Reinava. Lindos. nasceu Num lar ditoso. faustoso. Mas irreais. Pecaminosos.Parnaso de Além-Túmulo 263 Constantemente. Frios. Dos venturosos. e ria Francisco Cândido Xavier .Os sofredores. Desses palácios Materiais. . Régio.Parnaso de Além-Túmulo 262 Ambiciosos. Em mensageiro Do Deus de amor. Rútila e pura Aqui no Céu. formosos. Tornar-te-ás Em verdadeiro Anjo da paz. Sê a Bondade Entre a maldade Dos homens feros. Sempre cumprindo Os teus deveres. austeros. Francisco Cândido Xavier . Se assim fizeres E procederes. A conquistar Maior ventura. Ainda criança.

Cheio de luz.Felicitado Nessa abastança. Na Academia Dos homens sábios. A luz brilhante Dessa ciência Que. O que aprendera No Infinito E prometera Ao bom Jesus. Tornou-se esquivo. Rico alcaçar Dos abastados. Despreocupou-se Com a consciência. Cruel e altivo A Humanidade Não praticando Mas renegando A caridade. Refugiou-se Na vã Ciência. Naquele lar. Faz com que a alma Se torne egoísta E refratária Francisco Cândido Xavier . Ele esplendeu No vão saber. O infeliz ser . Por planetária. Tudo esquecera Em detrimento Do sentimento Que então trouxera. Ele então era A primavera Dos áureos sonhos Dos pais amados! Assim cresceu. Ganhou saber Nobilitante. na existência.Parnaso de Além-Túmulo 264 A lei de Deus. Na mocidade. Belo esplendeu.

Nunca estancou Uma só lágrima.Parnaso de Além-Túmulo 266 Em profusão. cumprir Sua missão. brilhou. Dele esperando Sua ventura. Foi refratário Ao próprio afeto Dos pais que o amavam E idolatravam Com mór ternura. Sempre espalhou. feias. Filho do Mal. fulgir. Suaves brilhos Da nossa vida. Só procurou Brilhar. Mas sem olor. Assim. Suas idéias Tristonhas. Nunca buscou. Francisco Cândido Xavier . . Fulgiu. Do ateísmo Desventurado.Parnaso de Além-Túmulo 265 A lei do amor. Como um ateu. A imensa luz Espiritual. Os desprezou. Somente amando Sua ciência Enganadora.Viveu dos lábios. Nossa esperança Encantadora. E da existência Da própria alma Por fim descreu. A relegar. Os próprios filhos. Mas renegou Francisco Cândido Xavier . Seu coração Jamais viveu! Foi uma flor.

Ele acordou Do seu letargo. Que brota n'alma Desiludida. O ingrato teve Mil ocasiões De praticar Boas ações E espalhar O amor e a luz Que o bom Jesus Lhe concedera: Mas. Onde. Ao descerrar O negro véu Do esquecimento. Jamais o quis. Tristes abrolhos No pensamento! Olhou o abismo Do pessimismo . Porém. Cruel. infeliz. Sentiu seus olhos Enevoados. O arrebatara Nessa escabrosa Escura via. A Parca fria. avara Francisco Cândido Xavier .Nunca pensou Uma ferida. Nessa existência Que passa breve!. A morte amara. De quem fugia Sem compaixão! Enfim.Parnaso de Além-Túmulo 267 E dolorosa. Do sono amargo Em que viveu. um dia. num grito. Não consolou O que sofria. viveu Só na Ciência. E o conduziu Para o Infinito.

Em quem eu pus Todo o esplendor Da minha luz. Por onde sempre Se comprazera. então. Abandonado. Do meu amor! Tu te perdeste Por teu querer. Dentro da dor. Íntima voz Disse-lhe então: “Ó mau discípulo. E assim cumprir O teu dever.Parnaso de Além-Túmulo 269 E assim curar A alheia dor. Do seu amor. Pelo viver Que demandaste. assim. Sentiu-se. Francisco Cândido Xavier . Em luz perdida. Por isso. Amargurado Na aflição! Somente. Foi convertida .Em que vivera. Jamais soubeste Te conduzir. agora. Lembrou de Deus.Parnaso de Além-Túmulo 268 A implorar Da luz dos Céus Consolação! Das profundezas Do coração. Minhalma chora Ao ver que és Mísero ser. Tu renegaste E desprezaste A inspiração Do Deus de Amor! Tua missão Que era amar Francisco Cândido Xavier .

. Que mais te amavam. Foste um ingrato E eu te julgara Um lutador Intimorato. Dos próprios seres Que te adoravam. E o pranto atroz Jorrou. A consciência! Francisco Cândido Xavier .Em fero braço Esmagador.” Calou-se a voz. Continuamente. Ser execrável Que não soubera E nem quisera Compreender O seu dever. À perfeição. . O abafaste Como se fosse Assaz mesquinho. então. Oferecer À Humanidade. O grande amor – Fraternidade. Entre alegrias. E até negaste A existência Da própria alma. Do coração Do miserável. Que então devias.Parnaso de Além-Túmulo 270 Constantemente. À região Da pura luz! Sempre esqueceste Os teus deveres. Entre lamentos E dissabores. Quando só ele É o caminho Que nos conduz À salvação.. Foste inimigo.

A lamentar A sua cruz! Jamais alguém Quis escutá-lo.Parnaso de Além-Túmulo 271 O mundo inteiro. E o pobre Espírito Desiludido. Sofreu. Espezinhado Na sua queda. clamou.Padecimentos. E. Amargurado. Seus desenganos Na senda triste. A pobre mão Sempre estendeu Pedindo o pão. Perambulou Qual Aasvero. Desamparado. Fatal. muitas vezes. Por muitos anos. Só encontrava Consolação . O mesmo bem Que ele fizera. Frios horrores... Triste pousou Sobre o lugar Onde pecou. Que assim trilhara Na perdição. Envergonhado. amara. Correu sozinho Francisco Cândido Xavier . Pedindo luz. Qual caminheiro A quem negassem Um só carinho. Supliciado. Assim lhe era Retribuído. Desanimado. Ele chorou E lamentou. O seu olhar.

Cheia de unção Por entre prantos. Extenuada No atro sofrer.Nas lágrimas tristes Francisco Cândido Xavier . Experimentada. santos. E hás de acolher Minha oração Cheia de fé!. Tendo comigo A tua luz. Fui a grilheta Da impiedade. Até que um dia Em que sofria. Formosos. Dá-me o acúleo Da expiação. A alma triste E solitária. Mas tu que és bom. Tão justo e santo. No meu viver Sem luz. Ó bom Jesus! E mesmo assim. Sabes do pranto Das minhas dores. Pois não cumpri O meu dever!.Parnaso de Além-Túmulo 273 Pobre calceta Da iniqüidade. Mais padecia A dor feroz.. . Eu me perdi Por meu querer.. Disse ao Senhor Numa oração: “Ó Mestre Amado.Parnaso de Além-Túmulo 272 Que derramava Em profusão.. Sei que hei pecado E transgredido As tuas leis.. sem flores. Cruel e atroz. Francisco Cândido Xavier .

Quero sofrer Dura pobreza. O meu desejo É só voltar À Terra impura Onde eu pequei.Parnaso de Além-Túmulo 274 Nem um só dia Dessa alegria Que desfrutei. O próprio lar. Para ofertar À criatura O grande amor Que lhe neguei. Oh! dá-me agora A nova aurora De uma existência De provação. Não quero ter. Não quero ter Francisco Cândido Xavier . Então serei Ramo perdido.Para que seja Exterminado O meu orgulho. . Nunca. jamais. Árido e seco Pelo vergel Enflorescido. Incompreendido Em minha dor. Mas só trazer No coração Todo o amargor Da privação. Sempre viver Na singeleza. Hei conhecer O que é sorrir! Quero existir Desconhecido. Não quero ver O dealbar De uma esperança. Onde se encontra Maior ventura.

. Quero com ardor Bem conquistar A perfeição! Serei. Com meu trabalho. O agasalho. Eu só almejo Compreensão Para mostrar O teu perdão. Como a violeta Sob a folhagem. Claro e sublime Para o meu crime.Conhecerei A dor cruel Que nos retalha O coração. Nos turbilhões Incandescentes Das amarguras. O puro amor. Só é formosa. Viver somente Pela voxagem . Ó Mestre Amado! Eu lutarei E chorarei Nas rijas dores Mais inclementes.Parnaso de Além-Túmulo 276 Neste planeta. Agora eu vejo Que na existência A grã ciência Só é grandiosa. portanto. Cruéis e duras Das aflições.Parnaso de Além-Túmulo 275 E conquistar A luz. o pão.. Nessa batalha Que empreenderei. Quando aliada Da caridade. Ó bom Jesus. Quero ganhar Francisco Cândido Xavier . Francisco Cândido Xavier .

. com sua luz E terno amor. Oferecendo-lhe Ocasião Para tornar-se Mais venturoso E sempre digno Do seu perdão.Parnaso de Além-Túmulo 277 De toda a idade. O bom Jesus. Incomparável. perdido. Deu-lhe o perdão. queridas. Escuta a prece De quem padece. Que. Feliz dulçor Da caridade!.Das desventuras. Compadecido Do pobre Espírito Dilacerado. Seja bendito. Pelo infinito Desenrolar E perpassar Francisco Cândido Xavier . Do Criador! Na estrada de Damasco . Fazendo assim Desabrochar O dealbar Das alvoradas Iluminadas De muitas vidas. Enfim. Para lutarmos E nos tornarmos Dignos do Amor Inigualável. A permissão Para voltar À antiga arena – Luta terrena. Quero sofrer Com humildade. E sempre ter Em mim bondade. Belas..” E o Mestre Amado.

De parceria Com o Orgulho. Grande e valente Aqui no mundo.Parnaso de Além-Túmulo 279 A seu agrado. E assim lhe disse: Francisco Cândido Xavier . Glorificado De grão-senhor!” E o pecador. Bem satisfeito. Faze-os vassalos No teu reinado. Chamou o homem Jatancioso. Foi sem demora Então chamado . Francisco Cândido Xavier . E se quiseres Tornar-te um rei Da imensa grei Da Criação. Aos semelhantes Em vez de amá-los Tais como irmãos. E conquistares Sempre o poder Dos triunfantes. tu és Senhor potente.Parnaso de Além-Túmulo 278 “Homem.Num certo dia A Ambição. Ser imperfeito Se achasse embora. Rude e cioso Do seu poder E vão saber. É só viveres A procurar Mais dominar Os elementos A transudar Nos sentimentos. Maior coragem Para ganhares Sempre vantagem No teu viver.

A este mundo Ingrato e feio A redimir.Parnaso de Além-Túmulo 280 Tu deves dar. Nosso Senhor. E o bom Jesus. Com alegria. E espalhar Somente amor. Do teu viver. Que tudo vê. O solo amado Do eldorado Dos belos sonhos. O Filho amado Que à Terra veio. O Criador. Para que um dia Te fosse dado Reconhecer. risonhos. Nesta existência De provação. A relegar Toda a maldade. Assim. Mestre da luz. Nunca negar A tua mão. procura Melhor ventura . Que é a Consciência. Sabendo assim Quanto a tua alma Dele descrê? Ele é o teu Pai. E assim banir O teu pecado? Ele te amou E te ensinou Que ao teu irmão Francisco Cândido Xavier . e o bom Deus Que está nos Céus.Por um juiz De retidão. Lindos. O Deus de amor. Que então lhe diz: “Mas.

Francisco Cândido Xavier . Nós concedemos Ao teu valor . Eles. Seguir Jesus Em sua dor.Parnaso de Além-Túmulo 281 Isso seria Obedecer E se humilhar. Achou estranho Esse conselho: Rigor tamanho Não poderia. então. E o tal Jesus. Em sua cruz!” Mas. Assim. Cruéis espinhos. Acompanhar. buscou E perguntou Aos companheiros. Tristes agruras. Que já se achava Bem poderoso. Lhe responderam No mais profundo Do coração: – “Esse conselho É muito velho! Deus é irrisão. o tal homem Tão orgulhoso.Em só buscar. Enquanto ele Só te oferece Amargas dores. Com sua cruz E seu calvário Somente foi Um visionário. E ele havia Aqui nascido Só para ser Obedecido. Desolações. Em seu amor. Tendo o poder Pra dominar.

assim. A lapidária. A vida aqui Só é formosa Para quem goza. Lindos brasões.Francisco Cândido Xavier . Grandes venturas Nesses caminhos Quem mais souber Gozar e rir. A eterna obreira. Chegou a Dor Humildemente. Vale o gozar Constantemente. E pois. Porque a morte Tão renegada.Parnaso de Além-Túmulo 282 De grão-senhor Sublimes flores. Mais saberá O que é existir. sofrer. O louco amor Do teu Jesus. Onipotente. Essa é apenas O frio nada. Há de levar Esse teu sonho De amar. A mensageira Da perfeição. quando Francisco Cândido Xavier . .Parnaso de Além-Túmulo 283 O homem fraco E miserando Mais se exaltou E se jatou. Nessa oficina Grande e divina Da Criação.” E assim. Pois vindo a Parca Bem de repente. Ao caos medonho Do mais não-ser. Exprime a dor E não a luz.

Só procurou Buscar se via Os seus mentores Enganadores.Parnaso de Além-Túmulo 284 Na submissão Do coração Ao sofrimento. No cumprimento Dos seus deveres. Quando aprouver Ao Deus de Amor Oferecer Rude amargor Ao nosso ser. Até enojado Do corpo seu: Apodreceu O seu tesouro. então. Depois. . De mui sofrer E padecer Na expiação. E o homem-rei Reconheceu Que o paraíso Dos sãos prazeres Vive nas luzes Só da virtude. Reconheceu A nulidade. Na mansuetude. Altivos filhos Da veleidade. Na caridade. Só encontrou O juiz reto. A fatuidade Da vil matéria! Na atroz miséria Dessa agonia. Na humildade.Fê-lo abatido E desolado. O Magistrado Incorrutível Da consciência. Francisco Cândido Xavier .

Para o enganoso. A mais tremenda Acusação! É o que acontece Em toda a idade. Com a maioria Da Humanidade. Ermo de amor. A esquecer Tudo o que seja Espiritual. a lira se levanta Glorificando o Amor que em Deus transluz. Para a alegria Fatal converge O seu viver. num brado Francisco Cândido Xavier . Pois sempre esquece Os seus deveres E se submerge Nos vãos prazeres. Parnaso de Além-Túmulo Além do túmulo o Espírito inda canta Seus ideais de paz. Lhe fez com ardor Ao coração Ermo de afeto.Parnaso de Além-Túmulo 286 Todo o esplendor. Do eterno amor Do bom Jesus. No ditoso país onde Jesus Impera com bondade sacrossanta. . de amor e luz. Contemplará Francisco Cândido Xavier . Efêmero gozo Do material. Em conseqüência. Nessas mansões. A eterna luz. pura e santa. Porque verá. Para o Bem exalçar.E que. Feliz de quem Aí procura Maior ventura No sumo bem.Parnaso de Além-Túmulo 285 Indescritível. que nos conduz À divina alegria.

Parnaso de Além-Túmulo 287 A Morte ingrata. conheço-o bem!. suave e triste. que encantador Meu anjo belo como a açucena.Parnaso de Além-Túmulo 288 Do sofrimento mato a lembrança E abro o futuro. cheio de amor!. Francisco Cândido Xavier . Na ascensão para o Belo e para o Amor. Hinos das esperanças espargidos Sobre os homens. Lua serena. Francisco Cândido Xavier . Missão que é toda só de alegrias: Flores reparto cheias de orvalho. ditoso e lindo. É bem aquela Que anda cantando no céu de luz. Que a Terra toda inunda de esplendor. Oh! se o conheço. . extasiada. ouviu: – “Ilha pacífica. sempre a chorar: Em qual estrela cheia de aurora Foi o meu anjo se agasalhar?. Lua. Se tu soubesses. Como era grácil.“ – “Mas não o avistas – responde-lhe ela – Naquela estrela que tremeluz? Abre teus olhos. Flores que afastam as agonias. tornando-os mais unidos. E dos seus cantos.. Ó linda estrela que adorna o céu. fria e impiedosa.. Fitou a estrela que lhe sorriu. . Continuava. luz de alvorada. E das ausências conheço o pranto.Dessa Castélia eterna da Harmonia Transborda a luz excelsa da Poesia..A Mãe pedia. feliz.” E a Mãe aflita.” Disse-lhe a Lua – “Eu sei do encanto. Do Senhor tenho doce trabalho. se acaso viste Nos firmamentos o filho meu. responde-me sem demora. Sentiu-lhe os raios.. – “Então. Deixou minhalma triste e chorosa. Deixou vazio meu doce lar. Cheio de vida. Dum filho amado que a gente tem. Roubou-me o sonho – deu-me o penar.. Sou eu no mar do éter infindo. fitando o céu – Dize-me. Angústia materna “Ó Lua branca. .” – “Quase te odeio. da esperança. martirizada...

Contudo eu te amo e pergunto: quem Não tem saudades das minhas festas? O teu anjinho teve-as também. . se mais não pude Ficar contigo na escuridão. tristonha e rude.Gritou-lhe a pobre desconsolada.” – “Se tu me odeias. Francisco Cândido Xavier . Viu-se mais calma. Francisco Cândido Xavier . Senti a falta desta alvorada!. castelos e melodias. Porque tu guardas o filho meu. A Terra amarga.. estranhamente. Aqui em tudo floresce a vida. Paz e ventura. Todo vestido dum brilho santo.Parnaso de Além-Túmulo 290 Eu acredito que tenhas ido Pedir a Deus.. Num belo raio de luz. E. Notou de logo seu filho lindo.. Sóis rebrilhando nos horizontes.” A mãe saudosa.Parnaso de Além-Túmulo 289 Não resisti. Senti a falta das primaveras. banhada em pranto. Aqui terminam os dissabores. Em mim a noite não tem guarida.... alguém me disse. mãezinha amada. Muito pertinho do amor de Deus!.. na estrela... Daqui te vejo. sorrindo. Faço-te um ninho ditoso e belo. se me detestas. Lamentos do órfão Minha mãezinha. Jardins e luzes e fantasias. daqui eu velo Pelo sossego dos dias teus. E não podias partir assim. Aqui é tudo felicidade. Sonhos.“ Aí os olhos da desditosa Nada mais viram do Eterno Lar. que possui a luz. Tanta era a saudade! Voltei do exílio. triste sem mim. Já não me embala tua meiguice. perdoa. fugi da dor. cheia de flores!. também há fontes. pôs-se a chorar. Envenenava meu coração.. Vida risonha.. Aqui. menos saudosa. Que tu te foste. Disse-lhe o filho – “Tive deveras Muita saudade.. carícia e amor! Ó mãe.

Que sofro e choro. mas. Que te procuro chamando em vão!.” Somente a nuvem. outro Jesus. à minhalma: “Além na luz! Na luz do Além!. que mágoas soltas Andam cortando meu coração.“ O mar e a noite me crucificam. Numa alegria terna e louçã. beijo o meu pranto. se eu choro: “Eu vou chamá-la para você.. do teu querido. Sem esperanças de te encontrar. quando eu imploro.. só noutra vida!. meu doce bem?” Ele responde. E me respondem em voz suave: Francisco Cândido Xavier .. minha mamã!” Sinto um anseio sublime e santo. te beijar. Ó mãe querida. Há quantos dias que te procuro. Nem para dar-me consolação. saudoso e triste. Quando regressas dos Céus supremos. E ela retruca. Cheios de angústias. Somente a mágoa vem-me afagar.. De nos meus braços. E me conforta.” Pergunto à flor que engalana a aurora. Quando é que voltas desse país. Inquiro o vento: – “Quando verei Minha mãezinha boa e querida?” E o vento triste diz-me: – “Não sei! . Outros meninos alegres vejo. Diz-me que vens e diz que te vê. ai! não voltas.. Tudo é silêncio tristonho e escuro. ambos replicam: “Tua mãezinha não volta mais. Só noutra vida.Que de mim faça. do céu. .” Pergunto à fonte. . Que me fugiste sem me levar.” E digo ao sino na tarde calma: “Onde está ela. E abraço o espaço. Mas tanto tempo faz que partiste.. Tudo é saudade no coração.” Sempre te espero.Parnaso de Além-Túmulo 291 “Nós não sabemos! nós não sabemos!. grave. consoladora: “Depois da morte serás feliz. Multiplicando meus pobres ais.. Que exclamam rindo dentro dum beijo: “Como eu te adoro. Um dos seus anjos.. mãe.. pergunto à ave.

. Sou uma pútrida ferida Sobre o mundo desditoso! Mas o anjo da esperança Francisco Cândido Xavier . Tremo de anseio. . Já não suporto tantos cansaços!. Porque só vivo pensando em ti: Celebraremos nossos amores. O leproso Dizia o pobre leproso: Senhor! Não tenho mais vida. sorrio. Ajoelhada.. Junto da fonte que canta e ri. pede a Jesus Que te conceda pôr-me em teus braços. Então.. muito ao largo. calo.Parnaso de Além-Túmulo 293 Responde-lhe com brandura: – Meu filho.. Bondade Vê-se a miséria desditosa Perambulando numa praça. Se teu corpo é lama e pus Em meio dos sofrimentos. Vejo-te linda nos sonhos meus. Mas abro os olhos no ar vazio! Vai-se-me o sonho.Tanta saudade. e. Que sinto esparsa pelo caminho! Que mágoa eterna! que desventura. Sempre a meus olhos. Sentindo o anélito do teu beijo. Sob o seu manto de desgraça Clama o infortúnio abrasador. E passa o gozo. no entretanto. Eis que a Fortuna se lhe esconde. Para quem segue triste e sozinho.. Tua alma é réstia de luz Dos eternos firmamentos. Volta depressa! guardo-te flores. Com o pensamento junto de mim. Quanta amargura. banhada em pranto. estás bonita Francisco Cândido Xavier . E ela chora. com perseverança. como um jasmim! Porém conheço que estás aflita.. entrego-me ao meu desejo..Parnaso de Além-Túmulo 292 Qual uma rosa. Foge comigo para outra luz!.. ao gosto amargo. E de mãos postas aos pés de Deus. Se não voltares. espera a ventura Com fé.

É porque andei Longe do Amor. Para o meu pranto Venho implorar. Que me ensinaste . somente. O Amor é a lei. O impenitente Na expiação. Diz-lhe. à luz dessa manhã. Cuja bondade Me sorri E me conduz À imensidade Da perfeição? És a piedade Divina e pura Que à criatura Dá luz e pão. Abre-lhe a porta. Meu coração Imerso em dor Aflito vem. Se sofro e choro. Sou eu. a sua dor. Pedindo o bem E a salvação. a sorrir: – Tens frio e fome? Pouco te importe qual meu nome. Mas eis que alguém a reconforta: É a bondade. Confio e espero. No meu viver. E a fada.Parnaso de Além-Túmulo 295 Consolo santo. De Ti eu quero Me aproximar! Francisco Cândido Xavier . Pedir a quem. Senhor. Senhor. Senão a Ti. portanto. Chega-te a mim: sou tua irmã. Em Ti. Pedindo a luz. Bem sei. Se me demoro No padecer.O seu destino. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 294 Oração A Ti.

Compadecei-vos. dá preferência Ao torpe egoísmo acomodatício. No esquecimento do próprio ser. E mais adiante topa a Desgraça. na existência. Oração Vós que sois a mãe bondosa De todos os desvalidos Deste vale de gemidos. Vaidosa e bela. De tão grandes sofrimentos. E entre as virtudes.Parnaso de Além-Túmulo 297 Dos pobres. Do céu de toda a esperança – Maravilha! Maria! – consolação Francisco Cândido Xavier . Escolhe sempre flores do vício. Como perdida. Francisco Cândido Xavier ..E que deixaste Aos irmãos teus! Pra que eu pudesse. Cheio de unção. Ditosamente. Deste mundo de tormentos. Acorre à Morte por dar-lhe a Vida. dos desgraçados. cansada e já comovida. Buscar os Céus. Elevo a prece Do coração. E assim prossegue na desmarcada Carreira louca do vão prazer. Paz e perdão! A Fortuna Anda a Fortuna por uma praça. Assim. e já sepultada. Quando só pede luz e amor. .Parnaso de Além-Túmulo 296 Fala à Ventura com riso irmão. Dos corações desolados Na aflição.. A Ti. Rogando amor. Mãe piedosa!. Depois. Senhora. Sublime estrela que brilha No céu da paz. E altiva e rude lhe esconde a mão. Senhor. da bonança. E vem a Vida por dar-lhe a Dor. contente.

Ó corações que a lágrima devora. Francisco Cândido Xavier . dos amargores. Tanto pranto! Concedei-nos vosso amor. A vossa misericórdia..Parnaso de Além-Túmulo 299 O Mestre chora como Jeremias. Lá palpita a beleza onde a alma canta. O trabalho divino continua. .Parnaso de Além-Túmulo 298 E de todas as criaturas Carinhosa Providência! Que os homens todos vos amem. Além Além da sepultura. Dai paz a toda discórdia. Prisioneiros da dor que fere e espanta. Estendei o vosso manto De bondade e de ternura. a vida tumultua.. O coração tocado de agonias. Sobre tanta desventura. Vida e morte – exultai ao bendizê-las! Esperai nos tormentos mais profundos. Tende na vossa fé a bíblia santa. Que a este mundo sucedem-se outros mundos. A luz do amor que vibra e revigora. dos oprimidos Deste vale de gemidos. E às estrelas sucedem-se as estrelas! Soneto Como outrora. a nova aurora Luminosa e divina se levanta. E em vossa luta o bem de cada hora. Vós que sois Mãe carinhosa Dos fracos. Mãe bondosa! Oração: Pai de Amor e Caridade. Além da morte. Protegei os pecadores No degredo. Livrai-nos do abismo tredo Dos males.Que apavora.. entre ovelhas desgarradas. Pois tendo ouvidos não ouvem. E vendo não querem ver. Trégua à dor!. Que vos possam compreender. Que sois a terna clemência Francisco Cândido Xavier ..

água do amor. Nos caminhos translúcidos da Crença.. Nunca olvideis a Excelsa Claridade. Filha da crença que nos ilumina Os mais tristes refolhos da consciência. irmãos! Desdobrai as vossas velas!.. É a luminosa bem-aventurança Da mensagem de Deus. errante e aflita.. Que suaviza os rigores da existência. Feliz o coração que espera e ora.. Toda oração é a doce quinta-essência Da esperança ditosa e peregrina. Vós que chorais ao coro das procelas. Não vos sufoque o horror da tempestade Fraternidade é o derradeiro porto. Lembrai a chama Vós que buscais além da sepultura A resposta de luz da Eternidade... Mas.Vendo o mundo nas lutas condenadas. A Prece O Senhor da Verdade e da Clemência Concedeu-nos a fonte cristalina Da prece. Fraternidade Fraternidade é árvore bendita... É a fonte cristalina em que descansa A alma humana fraca. A prece alcança as bênçãos do Infinito. Vinde. Sobre as desolações do mundo velho. Francisco Cândido Xavier . Demorando as vitórias do Evangelho. o luminoso bem divino. Cujas flores e ramos de esperança Buscam a luz eterna que se agita. Que reside convosco em noite escura. estranho e aflito. Sempre a miséria e a dor nos vossos dias! Sempre a treva nas míseras estradas. Do caminho de lágrimas sombrias. Dois milênios contando o grande ensino Do Amor. A terra da união e do conforto. . pela oração profunda e imensa. Que habitaremos na Imortalidade. em todos os tempos é a vaidade No egoísmo da triste Humanidade.. Sabendo contemplar a eterna aurora Do Além. Rumo ao país ditoso da bonança. Preces infindas e desesperadas. pura e divina.. pura e infinita!.Parnaso de Além-Túmulo 300 Enquanto o mundo anseia.

por que Jesus. amor e graça. – “Deixai virem a mim os pequeninos!. de amor e de humildade! As conquistas morais são toda a glória Que a alma busca na vida transitória.. Tendes convosco a Chama Adormecida.. Na noite de Natal – “Minha mãe. Ante os desfiladeiros da impiedade. Mas os túmulos falam pela estrada. Em toda parte fulge uma alvorada Que ao roteiro dos Céus nos reconduz. Vós. Senda de paz e de felicidade. Cheio de amor e grandeza. Ó torturados corações humanos. na luz do Espiritismo. Deixai que o Cristo nasça dentro em vós. Fazei do vosso lar a grande escola De justiça. Trazendo ao mundo o verbo de Jesus. De que o Senhor da Paz quer que se faça O sol da nova estrada dos destinos.” É que na alma sincera dos meninos Há uma luz de ternura.Parnaso de Além-Túmulo 302 No Templo da Educação Distribuía o Mestre os dons divinos Da luz do seu Espírito sem jaça. Nos caminhos da lágrima e da dor. É a escada de Jacob vencendo o abismo. E exclama.. Somos em toda parte a criatura Buscando os dons supremos da Verdade.. Não sabe o coração da Humanidade Beber dessa água límpida do Amor. O Evangelho.Francisco Cândido Xavier . Francisco Cândido Xavier . Eterna mensagem Ainda e sempre o Evangelho do Senhor É a mensagem eterna da Verdade.Parnaso de Além-Túmulo 301 Somos todos a Grande Humanidade. Preferiu nascer no mundo Nos caminhos da pobreza? . que tendes a fé que ama e consola. Na luz das luzes do Consolador. Pelos caminhos da imortalidade. Já que buscais mais crença junto a nós! Se quiserdes brilhar nos Outros Planos. Em direção à Fonte Eterna e Pura. enquanto a turba observa e passa. Rogamos acendais a Luz da Vida.

Estado do Rio de Janeiro. Concluiu com sentimento. meu filhinho.Parnaso de Além-Túmulo 304 37 José do Patrocínio JOSÉ do Patrocínio nasceu em Campos. em tudo e por tudo. combatendo a descrença.Por que não veio até nós. Na ansiedade e na dor. Erige a liberdade augusta e soberana. impetuoso político e grande orador.Parnaso de Além-Túmulo 305 38 . das graças do templo aos sarcasmos da rua.. A alvorada feliz de um mundo livre e novo. Em terna melancolia: – “Por certo. encantado e divino... no entanto. Foi uma das figuras máximas na campanha abolicionista. romancista. A luminosa humildade!. Que a Manjedoura revela Ensino bem mais profundo!” E a pobre mãe. e todo o seu pensamento convergia para o bem da Humanidade. Jesus ficou Nas palhas. aos 9 de outubro de 1853. nem recua.. Não mais senzala hostil. membro fundador da Academia Brasileira de Letras. de olhos fixos Na luz do céu que sorria. Nova Abolição Prossegue a escravidão implacável e crua.Parnaso de Além-Túmulo 303 – “Acredito. continua Em domínio cruel de que a treva se ufana. Num berço todo enfeitado De sedas e pedrarias?” Francisco Cândido Xavier . Do Amazonas ao Prata ergue-se a Deus um hino Que exalça no Evangelho a grandeza de um povo! Fustiguemos o mal. Por não lhe abrirmos na Terra As portas do coração. penso também Nos trabalhos deste mundo..” Francisco Cândido Xavier . Francisco Cândido Xavier . Às vezes. Que o Mestre da Caridade Mostrou. Entre flores e alegrias. se engalana. jornalista. além da noite que se adensa. sem proteção. Mas a luz do Senhor não teme. Farmacêutico. E. E desencarnou a 29 de janeiro de 1905.. escura e desumana. poeta. Descortinando. A incompreensão do amor. Irmãos do meu Brasil. sublime.

Pai de todos os aflitos Deste mundo de escarcéus. Francisco Cândido Xavier . infinda. Henrique Perdigão classifica-o como o “Cantor da Tristeza”.. Porque a treva e o sofrer sempre hão de acompanhar-te! Reconhece o quanto és ignorante ainda. depressa. deixou um livro – Fel – que apareceu poucos dias antes da sua morte e foi prefaciado por Forjaz de Sampaio. Aos homens Volta ao pó dos mortais. Seja o teu nome sublime. Francisco Cândido Xavier . homem que vens. Senhor. amortalhado em dor! Mas depois a oração libertou-me da pena. agrilhoado ao mundo.José Duro POETA português. Escravizado ao pranto. Onde o sonho termina e a vida recomeça. onde perece o amor. então. Vai com o teu padecer sobre a estrada sombria. E pude. Na luz dos sóis infinitos. Perambula na dor da tua noite aziaga. a triste senda escura. Santificado. Musa amargurada.Parnaso de Além-Túmulo 306 Soneto Pouco tempo sofri na Terra ingrata e dura Onde o mal prolifera. Entre a sufocação de um sonho superior E a esperança na morte. nasceu em 1875 e desencarnou em 1899.. Algum tempo eu sofri. Volve ao sono cruel da tua carne obscura. ao pé do corpo imundo. Tomé. Amassa com o teu pranto o pão de cada dia. A chave procurar do enigma que encerra A paragem da morte. Para depois ouvir a voz da sepultura. Que em todo o Universo exprime . que estás nos Céus. Até que um dia a morte amiga e benfazeja Apodreceu meu corpo em sua mão gelada. Onde fulgura o sol do verdadeiro amor. E minhalma elevou-se à rutilante estrada Onde o Espírito encontra a paz que tanto almeja. o mais além da Terra. voar para a mansão serena. Prisioneiro da mágoa. coloca as mãos na tua própria chaga.Parnaso de Além-Túmulo 307 39 José Silvério Horta Oração Pai Nosso. A vida é vibração ilimitada. E o seu grande mistério existe em toda parte.

Com este pseudônimo. Livra a nossa alma do erro. Entregou-se à Natureza. em 1871.Parnaso de Além-Túmulo 308 Os débitos tenebrosos. meu Senhor. A uma vida de aspereza Num canto doce e singelo. Francisco Cândido Xavier . A amar nossos irmãos Que vivem longe do bem. Assim seja. De paz e de claridade Na estrada da redenção.Parnaso de Além-Túmulo 309 40 Júlio Diniz POETA português. Distante da vossa luz. principalmente com As Pupilas do Senhor Reitor. no carinho Do pão espiritual. Evita-nos todo o mal. pois que o seu nome é Joaquim Guilherme Gomes Coelho.Concórdia. Com a proteção de Jesus. como em toda a Terra De luta e de sofrimento. Venha ao nosso coração O teu reino de bondade. Sobre o mundo de desterro. Assim que deixara a orgia No castelo. ternura e amor. as suas qualidades primaciais de prosador. Dá-nos o pão no caminho. Nos sentimentos cristãos. Feito na luz. O Esposo da Pobreza Francisco de Assis. Francisco Cândido Xavier . Cumpra-se o teu mandamento Que não vacila e nem erra. . De passados escabrosos.. Que a nossa ideal igreja Seja o altar da Caridade. sem embargo de possuírem os seus versos um certo encanto melancólico. Nos Céus. um dia. De iniqüidade e de dor. notabilizou-se mais como romancista. também.. nascido em 1839 e desencarnado na cidade do Porto. di-lo um comentador. Onde se faça a vontade Do vosso amor. Auxilia-nos. Perdoa-nos. A edição póstuma de Poesias exaltou.

Parnaso de Além-Túmulo 311 A sacrossanta harmonia Do coração sofredor. E em divinal alegria Via os lírios e os jasmins. Flagelados pela dor. E sobretudo. Tem tesouros de esplendor No terno amor de Jesus. ninguém Francisco Cândido Xavier . que não tecem. . Saltando de galho em galho.Abandonara a vaidade. Esquece as imperfeições! . As aves que não trabalham E no entanto se agasalham. Emprega toda a tua vida Na doce faina do bem. ouve... A santa luz da harmonia. Vai. Que não fiam. Bênção do Céu. Sedentos e esfomeados. Com roupagens que parecem Vestidos de Serafins. Que é a grande felicidade De todos os corações. Francisco. Quem alivia e consola. Buscando a graça do orvalho. Buscando a paz da humildade. conforta os desgraçados. faze-te esposo Da pobreza desvalida. Recebe também a esmola Das luzes do meu amor!” Francisco chorava e ria. E a ânsia cariciosa Das almas dos animais. doce e pura. E nas horas de repouso. Via a terra enverdecida Exaltando a força e a vida. Francisco Cândido Xavier . Francisco em estranho gozo A voz de Jesus ouvia: – “Filho meu. Que não tendo amor nem luz. A seiva misteriosa No seio dos vegetais.Parnaso de Além-Túmulo 310 Vai aos Céus sem a bondade. Nos celeiros da fartura. inda via.

Na glória do Eterno Dia Do reino de Nosso Pai. As ovelhinhas balindo. Ó Terra.. Caridosa ventura No abril das almas irmãs. imaginai A Natureza celeste Longe da Terra sombria. amenidade. Tornou-se o amparo da dor E guiado pelo amor Fez-se o Esposo da Pobreza. Como raios de alvorada Cheia de luz e perfume! Suavidade e doçura Das rosas. Fragrâncias. As criancinhas sorrindo Na alegria das manhãs. Tão cheia de desventura. Jovens felizes amando Entre arroubos de ternura.. então. Poesia Poesia da Natureza Embalsamada de olores. Belezas de canto agreste Nas urzes da Terra escura. Poema de singeleza Esplendente e delicada.Francisco de Assis. Entretanto. quanto eu quisera Unir-te toda à poesia. Francisco Cândido Xavier . Das lindas sebes floridas Nos dias primaveris: Radiosidade e frescura. das margaridas.Parnaso de Além-Túmulo 312 Aromas. À mesma santa harmonia Que te prende à luz dos Céus. Nessa mesma primavera . Entregou-se às harmonias Vibrantes da Natureza. Submerso o coração Em sublimes alegrias. Ornamentada de flores Que os meus encantos resume. alacridade Dos cenários pastoris! As cotovias cantando.

José de Alencar. em 1931. Francisco Cândido Xavier .. Crianças. Silvio Romero. Em que me sinto nos braços Do amor sagrado de Deus. Sorrindo. a labutar. Cantando.. Lares de amor doce e brando. A fome lhe bate à porta. Sorrindo. Sorrindo.Dos rutilantes espaços. Pobres Mal clareia o Sol a serra. Persegue-lhe a precisão. Vai-se com a luz misturando..Parnaso de Além-Túmulo 314 41 Juvenal Galeno NASCIDO em Fortaleza e desencarnado na mesma cidade.. Cantando.. Francisco Cândido Xavier ... Tecendo as horas serenas Das alegrias terrenas.. Com as pétalas orvalhadas.. Ao levantar-se da cama. etc. Açucenas perfumadas. com 95 anos de idade.. Toca a vida a despertar: O pobre se pôs há muito. . Hino terno de esperanças Das aves e das crianças. Machado de Assis. passarinhos... Ao acordar.. Cantando.. Aconchegados nos ninhos. Pequeninos trovadores Entre as árvores e as flores. Sua musa foi elogiada por Castilho.. impondo-se justamente pela naturalidade e espontaneidade do seu estro. Chamaram-lhe – “Béranger brasileiro”. Mimosas quais bandos de aves Cortando um céu claro e lindo.Parnaso de Além-Túmulo 313 Aves e anjos Passarinhos... Inda é espessa a escuridão. É um vulto literário inconfundível no cenáculo do seu tempo. Sem descanso. ele escuta O coração a gritar: “Quem não trabuca não come. anjos suaves.

corta os matos. O estômago pede mais. Arrasta-se e vai ao médico . não tem paz. se sofre dor. o seu trabalho. Espalha o pé nos gerais. Não possui um só real Pra consultar um doutor. planta a cana. Redobra o pobre os serviços.Parnaso de Além-Túmulo 316 Ao patrão que sempre o tem. Ah! que a água já está pouca Nos rios.Parnaso de Além-Túmulo 315 Pertencem ao seu patrão. Aguarda a minguada espiga Que decerto há de ficar. As plantas já se amarelam. Mas o patrão avarento Não adianta vintém. Planta o milho. Se geme. queima o Sol. Quando a semente germina E os ramos querem crescer. E sempre resignado. O certo é que ao fim do tempo De constante batalhar. Batatas.Já chega de repousar!” Busca. Luta e sua. Deus lhe dará no outro ano Uma colheita melhor. Então. couves. Arde a terra. Vem a seca sem piedade E o pobre espera chover. Nada existe no paiol. Não vem a chuva. porém. Mas se quer repetições. feijão. Quando o pobre vai à mesa. Rasga a terra. nos seringais. ele espera sempre Do Deus que o ama. que o vê. Tudo ajeita. O pobre nunca descrê. resolve pedir Francisco Cândido Xavier . Contudo. Três quartas partes de tudo Francisco Cândido Xavier . então. Que cuide dos mandiocais. tudo faz. Plenamente contentado Com o pouco do seu suor.

Sublime estrela que brilha Da mais rica devoção – A prece que nasce d'alma. Que amargosa a sua dor! A todo o instante da vida Luta o pobre sofredor. Os cães o tocam da porta. . Não lhes pode dar a missa. Se lhe falta o pão do dia Falta azeite no candil.E lhe expõe o seu sofrer: “Não tem recomendações? Então não posso atender. Dá-lhes porém seu tesouro. Regressa para o seu lar. Que fulge no coração. Se a morte vem ao seu ninho E lhe rouba o filho. O pobre só tem na vida A doce mão de Jesus. Se bate à porta do rico. A Justiça o encarcera Com a sua reprovação. Se outrem lhe ofende e ele pede Da Justiça a punição. Trabalha para comer. Não tem casas de morada. humilde e paciente. Se tem pão não tem saúde. Nem terrenos. E põe em prática os meios: As beberagens. Ai! que sorte rude e amarga Do pobre sempre a sofrer: Se vive para o trabalho.” O pobre. E pensa nos outros meios Da saúde lhe voltar. Os vinhos de jatobá.Parnaso de Além-Túmulo 317 Se tem saúde. As promessas aos seus santos. o chá. quanta tortura. não tem Quem o ampare. E em vez de pão. nem ovil. O braço amigo de alguém. Mormente dum rico mau. Mesmo assim. Que o padre cobra demais. os pais. quem o ajude. Francisco Cândido Xavier . ganha pau.

Francisco Cândido Xavier . Esteja distante ou perto.Que o cura na enfermidade. Se tem mais fé com o demônio Do que mesmo com Jesus. Francisco Cândido Xavier . Ela vem buscar alguém. Ela vem buscar alguém. Se Sancho. A casa faz alarido. Se aquele que vai morrer É branco qual uma garça. Pedro ou José É o seu nome de batismo. Não lhe pergunta qual é A sua religião. Mal do pobre se não fora. De quem precisa por certo. Após a morte. Sextilhas Quando a morte chega em casa. Que o conforta na desgraça E ampara na provação. onde existem Justiça. Não quer saber se ele tem. Nem a sua profissão Não lhe pergunta qual é. . A morte não quer saber Se é preto como urubu. Se tem pai e se tem mãe. O carinho dessa mão. Se pratica o mal ou o bem. Não se importa com ninguém Que chore ou que se lastime.Parnaso de Além-Túmulo 318 Parece até que se arrasa Sob as chamas de um incêndio. Se esse alguém vai-se casar. Mal dele se não houvesse A vida depois da dor. A morte não quer saber. Não quer saber se ele tem Uma candeia com luz. O povo está reunido Quando a morte chega em casa. ventura.Parnaso de Além-Túmulo 319 Nem procura examinar Se tem filhos ou mulher. amor. Que na treva lhe dá luz. Se tem pratas no baú.

Francisco Cândido Xavier . Nem tão boa coisa é.Nada disso a morte quer. Leva sem tempo perdido O cristão ou o pecador. beleza e dor. Nem mulher bonita ou feia. Com receio de ir ao fundo. Mas ele mesmo é quem faz Os prantos ou gozos seus. Não perde tempo em clamor... . Entremeados de prantos.Parnaso de Além-Túmulo 320 O que segue vai com unção. Tristezas no coração... para o rico. Na tempestade ou na paz. Como o corvo bate o bico Por cima de um peixe podre. Para a morte não existe Anéis de grau de doutor. É ele mesmo quem faz. O que segue vai com unção.. Tateando dificilmente No meio da escuridão. Essa questão de ficar Com Satanás ou com Deus. Saúde.. Esta vida de sofrer Trinta dias cada mês. De cá Que amargo era o meu destino!... Mas para mim que só fui. Para o pobre. Rogando com fervor terno Ao santo da devoção Que o afaste do diabo E dos horrores do inferno. Em atenções e conversas.. para o rico Nunca tem contemplação. O cristão ou o pecador Ela conduz sem ruído.. Nem homem alegre ou triste. Há quem estime? Talvez. Ela vem de supetão Para o pobre. Para a morte não existe. Viver na Terra e somente Remando contra a maré. Nem procura examinar.

da ingratidão. deixou inúmeras obras. Já não é próprio de mim. Jogar pérolas a tolos. em junho de 1950. Não é possível porque. Nem tão boa coisa é. Nas guerras de toda parte. Salta aqui. Meus irmãos de Fortaleza. Francisco Cândido Xavier . do desconforto. Marchando com destemor: Ver o rico andar de coche E o pobre correndo a pé. do Canindé. Do Crato. Saudade Ante o brilho da vida renascente Depois da névoa estranha. O mal sufocando o mundo. O pranto ferve na Terra. salta acolá. Não vou gastar minha cera Com tanto defunto ruim.. Nem tão boa coisa é. Nem tão boa coisa é. Mas falar demais agora. Tantas misérias sentir. Nem tão boa coisa é.. galé.. Ver uns rindo e outros chorando. Da carne. Da treva. Sentir as disparidades Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 323 42 Leôncio Correia LEÔNCIO Correia nasceu em 1865. e desencarnou no Rio de Janeiro. Francisco Cândido Xavier . Surgem constelações do Novo Dia . Ah! morrer e ainda sentir Saudades da escravidão. Casar-se com a desventura Nem tão boa coisa é. Tantas dores em conjunto. no Estado do Paraná. Nas secas do Ceará.Parnaso de Além-Túmulo 321 Das vidas cheias de dor.Galeno sem nó. densa e fria. Professor e poeta..Parnaso de Além-Túmulo 322 Patetice é ensinar Verdade aos homens sem fé. Pobre filho da ralé.

jornalista. Que a sepultura em cinza escura e fria É a nova porta para a eternidade.. lhe assistira aos funerais. reinos de alegria E impérios da beleza resplendente Cantam no Espaço. A beleza profunda e peregrina.. Ninguém ali o conhecera nem dele se lembraria. esmagado de angústia e de carinho. Mundos celestes.. é hoje um nome esquecido. oferecido pela população local. . comediógrafo e diplomata. Mas. e desencarnado em Lisboa com 53 anos de idade. nascido no Rio de Janeiro. Sem sombras 10 Junto ao sepulcro onde a saudade chora E onde o sonho das lágrimas termina. conta em sua bibliografia Poemetos.. em Vassouras. Choro de amor. Entre suas obras.Parnaso de Além-Túmulo 326 44 Luiz Guimarães Júnior POETA brasileiro. em menina. Virgilianas. Carimbos. em 17 de fevereiro de 1845.Parnaso de Além-Túmulo 325 Não lamenteis quem parta ao fim do dia. Ébria de paz e de imortalidade. e conquanto fosse intelectual de prol. Ante a grandeza Da glória excelsa eternamente acesa Volvo à sombra letal do abismo fundo! E. O poeta desencarnou no século passado e o médium é deste século. A alma vitoriosa entoa hosanas. Francisco Cândido Xavier . revendo o velho ninho E as aves ternas que deixei no mundo!. ai! pobre de mim!. jubilosamente.Muito longe da Terra descontente. 10 Esta produção surgiu de improviso no curso de uma reunião familiar em que se não cogitava de assuntos espíritas.Parnaso de Além-Túmulo 324 43 Lucindo Filho NASCIDO em Minas Gerais a 16 de agosto de 1847 e falecido em Vassouras a 10 de junho de 1896. agora. exceto uma senhora que. Sem as sombras das lutas desumanas. Francisco Cândido Xavier . etc. Francisco Cândido Xavier .. compositor musicista e tradutor renomado.. Abre-se a porta da mansão divina Entalhada em reflexos de aurora. Foi jornalista. Ao compasso do Amor e da Harmonia. Não mais a noite. Envolvida na luz esmeraldina Da esperança que vibra e resplendora. Flores Exóticas. fora dos meios culturais. a seu tempo. Latinista de prol. onde ele tem precioso jazigo. vive em tudo. Médico.

que ainda hoje se lê com encanto.. etc. Não te percas na lágrima sombria Da tormenta de anseios e amargores! . Bacharel em Direito. volver ao lar primeiro. Divinal era a luz que resplendia. e vasta colaboração na Imprensa.. vislumbrando a Imensidade. nova a estrada Que minhalma extasiada percorria. De volta.Noturnos. nascido a 4 de maio de 1861 e desencarnado na cidade do Rio de Janeiro. Clarão de paz ao pobre caminheiro! No limiar das amplidões da Altura Penetrei. Soluçando empolgado de ventura. Foi membro da Academia Brasileira de Letras. Nas esteiras de prantos esquecidos.. Mal podia julgar que inda outros gozos Mais sublimes que aqueles já fruídos. Soneto Na escuridão dos anos procelosos. Voltei. Nova era a vida. Pairar no Além!. Em revérberos lindos de alvorada. Eu quisera voltar aos tempos idos Da juventude. Sara (poema). Lírica.. Caminheiro que vais ao fim do dia Demandando o crepúsculo das dores. sobressai Sonetos e Rimas. aos tempos bonançosos. e os mesmos seres que me haviam Ofertado na Terra amores santos. Francisco Cândido Xavier .. Envoltos em ternuras e em carinhos. Acharia nos céus maravilhosos. Poeta de grande e viva inspiração. Novamente no Além me ofereciam Lenitivo às agruras dos meus prantos. membro da Academia Brasileira de Letras. conta em seu acervo bibliográfico Ondas (3 volumes). em 1929. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 328 45 Luiz Murat FLUMINENSE. Da velhice nos dias mal vividos. Além ainda. Ressurgido em perene mocidade. Busquei contente a paz que me sorria No fim da áspera senda palmilhada.Parnaso de Além-Túmulo 327 Voltando Após a longa e frígida nortada Da existência no mundo de invernia. Nas carícias risonhas dos caminhos.

. onde colaborou em vários jornais.. a lágrima dorida Resume as ânsias da existência inteira. Desolado viajor. Estado do Rio. Guarda a esperança carinhosa e linda! Vence a longa jornada dos abrolhos.. Foi um atormentado pelas enfermidades. Francisco Cândido Xavier . Que o país luminoso do teu sonho Fica ao alto. ergue teus olhos! Não te prendas somente ao chão tristonho.. Fundou e dirigiu a revista A Crisálida e o jornal O Domingo. E a alma que se abandona.. porém. Aos clarões imortais do Novo Dia. Brilhando além da lápide sombria. Um sonho. Ao sofrimento ou ao bem-estar.. inédito. no começo do ano de 1918... Apagou-se a candeia transitória E a verdade refulge envolta em glória. deixando.Parnaso de Além-Túmulo 330 47 Marta ESTE Espírito não pôde ou não quis identificar-se. A antevisão do fim de toda a vida Obscurece a tela derradeira E a noite escura se distende à beira Da suprema esperança desvalida. Para que o multiplicássemos indefinidamente..Além da sepultura principia O caminho dos sonhos redentores.. Nunca te isoles Nunca te isoles entre os mananciais da vida.Parnaso de Além-Túmulo 329 46 Luiz Pistarini LUIZ Pistarini nasceu em Resende. e faleceu. E a saudade é a tristonha mensageira Que engrinalda de angústia a despedida. de poesias: Bandolim e Sombrinhas e Postais. aos 41 anos de idade. . de justiça. Aqui o incluímos.. Francisco Cândido Xavier . distante. à rua dos Voluntários. Aureolada de eternos resplendores. No estranho portal No último instante. e excelsa clarinada Anuncia outra vida renovada. A vida é o eterno bem que nos foi dado.. naquela mesma cidade. Residiu durante algum tempo na Capital Federal. Publicou dois livros. Um golpe. Na alvorada perene da harmonia. um terceiro: Agonias e Ressurreição. além ainda. atenta a magnitude do seu estro.

Tudo isto é amar multiplicando a vida.. o luar. Francisco Cândido Xavier . Francisco Cândido Xavier . E a qual há de nos dar Sombras amigas para descansarmos. Sorrir aos infelizes. Tecer o fio eterno da esperança Por onde se sobe ao Céu. Dar sorrisos. Terras e almas. Ler a sua epopéia feita de astros. Onde outras almas sentem fome e sede. É guardarmos a semente Da Vida Em leivas verdejantes. dar carícias. Tudo o que nos rodeia. Ter a bondade ingênua das crianças. Dar a lição de paciência se sofremos. Agradecer a Deus. Todos nós somos fragmentos Da mesma luz gloriosa e eterna Da sabedoria inescrutável Do Criador. Multiplicar a vida É amar sem restrições A flor.. que é Pai bondoso. dar luzes... Atenuar a dor alheia. Infinitas e esplendorosas. Cujas mãos magnânimas e misericordiosas Espalharam com abundância Nas vastidões imensuráveis do éter. Que se estende infinita no Infinito.Parnaso de Além-Túmulo 331 Dar tudo quanto temos. os corações. as alvoradas. Indumentos de flores perfumosas E frutos aos milhares.É um deserto sem oásis. Dar um pouco de gozo se gozamos. Porque os nossos espíritos São unos na essência. O firmamento.Parnaso de Além-Túmulo 332 As quais no divino equilíbrio do Amor . a ave. Para nutrir as nossas alegrias Nos jardins estelares. Unidade Todos nós somos irmãos. Bendizer o caminho que nos leva Da treva para luz.

da Terra O caminho comum da vossa salvação. E infinitos seus estados de consciência.Buscam a perfeição indefinida. Somos as frondes que se interpenetram De uma só árvore genealógica. Porquanto. O qual. Um dia penetrou os seus umbrais Uma alma que regressava da Terra. Encerra em si Todos os mundos. Francisco Cândido Xavier . Para sanar tão estranhas feridas. Vivereis dentro de sagrados coletivismos.. A mesma dor na luta A prol da redenção. Pontificava o Anjo da Justiça.. Tão amargos pesares.. Sem egoísmos. Cuja raiz insondável Está no coração augusto de Deus. Só há um recurso: . Todas as almas Todos os seres da Criação! Fazei. mais além Das fronteiras planetárias. Somos filhos de um só Pai. O mesmo sonho. . Porque nutrimos indistintamente A mesma aspiração do Belo e do Perfeito. Espiritualmente. Lá dentro.Parnaso de Além-Túmulo 333 No Templo da Morte O templo da morte tem portas incontáveis. “Anjo Bom! – disse-lhe a alma súplice – Eu tenho a minhalma coberta de feridas cancerosas! Cura-me as chagas purulentas do remorso. Em nome do Senhor de todos os latifúndios do Universo. por uma disposição inexplicável. pois. Pela porta escura do remorso. Tenho os meus olhos vendados E uma treva incomensurável na consciência! Apaga os meus atrozes padeceres!. Todos nós somos irmãos. Como incontáveis são as almas humanas. Na suprema unidade De aspiração para a felicidade.“ “Filha – respondeu compassivo –.

O manto protetor Que abriga os aflitos e os infelizes. Inçados de perigos E de dores amargas... O pão que sacia os esfomeados das verdades eternas. E ainda hoje.Parnaso de Além-Túmulo 334 Ele há de te guiar através das sirtes do mar encapelado dos sofrimentos. É para a Humanidade A promessa da Paz. E nos seus braços magnânimos e compassivos. do bem na tua alma! Mas o Anjo da Dor irá contigo..Parnaso de Além-Túmulo 335 Ele é a misericórdia personificada.. de cuja fonte límpida promana a Salvação. Penetrou no templo misterioso da morte Pela porta maravilhosa da Redenção. Nos dias amargurados que transcorrem. Apegai-vos a Ele.. Reconheceu o luminoso Anjo da Dor.. Submergiu-se no regato encantado. Francisco Cândido Xavier . Banha-te nas suas águas cristalinas. Elas serão o teu bálsamo consolador E curarão a tua cegueira. Ouvi a sua voz . O Jardineiro Bendito Que jorra no coração Dos transviados do caminho do Bem. E te conduzirá ao lugar bendito onde existem as lágrimas salvadoras!. cheios de confiança! Francisco Cândido Xavier ... Conduzida pela Dor. Estás na escuridão absoluta Pela ausência da luz.Volta à Terra! Lá existe o Regato das Lágrimas. As sementes do arrependimento Que hão de florir na Regeneração E frutificar na perfeita felicidade espiritual. A fonte que desaltera todos os sofredores. Banhou-se na água lustral dos tormentos.” E a pobre regressou. E depois de haver percorrido Tão tortuosos caminhos. Jesus Jesus foi na Terra A mais perfeita encarnação do Amor Divino.

Buscando Deus.. Que sonham e choram.. Que constituem os atributos maravilhosos da tua imortalidade. És alma em ascensão para Deus. Se a fraqueza te envolve em seus tentáculos. Ligados pelos liames inquebrantáveis Da fraternidade além da morte.. A tua inteligência e o teu sentimento Francisco Cândido Xavier . doce. suave.. Longe das lágrimas Do orbe obscuro.. Dos prantos e das provações remissoras!. Busca aspirar esse aroma divino E tua alma sofredora Sentir-se-á envolta na beleza. Lembra esse dia que te espera Na indefinível primavera Gloriosa de amor.Parnaso de Além-Túmulo 337 Ao pé do altar . E sentirás uma carícia branda. No eflúvio peregrino Que mana fartamente Dos espaços imensos!. Que se desfazem como as neblinas aos beijos leves do Sol. – A bússola das suas mais caras esperanças! Quando sofreres.. Que promana Do empíreo constelado Para todas as almas que oram. A sombra da árvore luminosa Das boas ações que praticastes.No silêncio da consciência que vos fala Do cumprimento austero De todos os deveres cristãos! E um dia Descansareis reunidos. Na amargura e na dor. Misteriosa. Acima de todas as coisas transitórias. Lembra-te do Céu És uma estrela caída Sobre os pauis da Terra. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 336 São fulcros de luz imperecível. Por que te abates e desanimas sob os aguilhões da carne perecível? Contempla o Alto.

A companheira terna De todos aqueles que te rodeiam Na estrada longa dos destinos comuns. E a tua Fé Será um hino constante subindo aos Céus. Disse-me alguém: “Minha filha. Mas um dia. Sê a mãe desvelada. pois. a tua alma Amando o próximo. A tua esperança em Deus Será dilatada. Será um hino constante subindo aos Céus. Não te retires. Juraste fidelidade só a Deus. Sê a abnegação e a bondade serena. Mas se entrevês os Céus E as suas maravilhas. Não permanece No recanto das sombras. Que contigo é seu filho dileto. .. sem reserva. Não faz longas e inúteis orações: Ela é a serva de Deus E as suas preces fervorosas São feitas com as suas mãos carinhosas.Parnaso de Além-Túmulo 338 A solidão da cela é um crime. Que pensam no coração da Humanidade Todas as chagas abertas Pelo egoísmo.. Se ama a prece e a pureza. Não te esqueças que a Caridade. A irmã consoladora. do mundo. O anjo que nos abre as portas da Ventura. Quando as penitências mortificavam O meu corpo alquebrado e dolorido E a oração Era o conforto do meu coração. Esmagá-las com o Bem. A Esperança mais linda. Darás a Deus. do repouso. Está sempre em meio às tentações Para vencê-las. Se tens a Fé mais pura. Francisco Cândido Xavier .Eu vivia no Claustro. Na sombra silenciosa dos mosteiros. Destruí-las com Amor.

atropeladas pelo mal. Purificando os nossos corações Na conquista das altas perfeições. Meu corpo não resistiu Aos cilícios que o martirizavam E minhalma tomada de emoção Abandonou-o. Todas as preces maternas Ascendem aos Espaços Como um doloroso brado de angústia a Maria. – Somente a Dor em sua essência pura Nos desvia da amarga desventura. E só a dor que nos crucia Francisco Cândido Xavier . E a rosa sublime de Nazaré Escuta-as piedosamente. Fustigadas pelo furacão da desgraça. Perseguidas pelo infortúnio No sombrio orbe das lágrimas e das provações. Estendendo os seus braços tutelares Francisco Cândido Xavier . Porque a verdadeira paz de espírito É conquistada No seio das lutas mais acerbas. Vertidos na corola imensa das dores. É a consolação Que se derrama puríssima Sobre os prantos maternos. Dos mais rudes pesares.Parnaso de Além-Túmulo 339 Ou a dor que consolamos. Sonhando com a luz do trabalho Em outras vidas benfazejas. Mãe das mães Maria É a Mãe piedosa De todas as mães resignadas e sofredoras.Parnaso de Além-Túmulo 340 Às mães carinhosas e desprotegidas.. E bastam os eflúvios do seu amor sacrossanto .Para que vislumbres as felicidades celestes Que esperam os justos na Mansão da Alegria. brandamente. Desprezando o repouso e a soledade.. Que orvalham com lágrimas benditas As flores do seu amor desvelado. Espezinhadas pelo sofrimento. Atraída pela Verdade. É o manto resplandecente Que agasalha os corações das mães piedosas. Amarguradas e infelizes.

Honra ao trabalho Trabalha e encontrarás o fio diamantino Que te liga ao Senhor que nos guarda e governa. Tudo se agita e vibra. Como náufragos de uma tormenta gigantesca. Porque se apegaram A âncora da Fé. brunindo a vida eterna!. Pulverizam-se os rochedos do mal Do oceano da vida de desterro e de exílio. luta e contentamento... Veleje tranqüilamente. no Estado do Rio Grande do Sul. que encontram nela O símbolo maravilhoso de todas as virtudes!.. Autor de inúmeras obras literárias. Buscando a solução da dor e do destino.Parnaso de Além-Túmulo 341 – Mãe das mães. cheia de piedade e Pelas nossas fraquezas. A Virgem da Pureza Francisco Cândido Xavier . Balsamizando os pesares.Para que as consolações se derramem Cicatrizando as feridas. Levando-nos ao Céu. Desde o fulcro solar ao fundo da caverna. Ante cuja grandeza o mundo se prosterna. em cântico divino Do trabalho imortal. sobretudo. pois. Lenindo os padeceres Das mães desoladas. É. E sendo o arrimo de todas as criaturas. Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 342 48 Múcio Teixeira MÚCIO Teixeira nasceu em 1858. Buscando o porto esperado com ânsia. Da beleza do herói ao verme pequenino. Tudo na imensidão é serviço opulento. e desencarnou em 1926. Da salvação das almas que sofreram Nos torvelinhos do mundo. Maria é o anjo. Ela é a personificação do amor divino No vale das sombras e das amarguras. Júbilo de ajudar. .. Que nos ampara e guia em nossa cruz. Ao seu olhar compassivo. Com as suas velas alvas e pandas. Para que o Brigue da Esperança. Que não se perderam no abismo das águas tenebrosas Do mar da iniqüidade.

Vi fanarem-se anseios como fios De ilusão transformada em sopros frios. Jesus ou Barrabás? Sobre a fronte da turba há um sussurro abafado. E debaixo do apodo e ensangüentada a face. – e a resposta perpassa Como um sopro cruel do Aquilão da desgraça. “Jesus ou Barrabás?” – pergunta. no teu portal a alma tateia. Jesus! Jesus!.. que trêmula se entrega. Para a consumação dos festins do pecado. Impassível. descerras aos aflitos Uma visão de mundos infinitos E uma ronda infinita de fantasmas. sonda e chora. em prece.. Um lamento lhe chega Da Terra que soluça e do Céu desprezado. Francisco Cândido Xavier . Trabalha e serve sempre.Parnaso de Além-Túmulo 343 49 Olavo Bilac NATURAL do Rio de Janeiro. alheio à recompensa. Considerado. é a glória que condensa O salário da Terra e a bênção do Infinito. Jesus!.. . Surda à lição do amor. Jesus fitando os céus. vacilante. Morte. inquire. No derradeiro sono. A multidão inteira. “Crucificai-o!” – exclama.. Sem que o Anjo da Paz amaldiçoe ou gema. por si.. No Horto Tristemente. Toma da cruz da dor para que a dor ficasse Como a glória da vida e a vitória suprema. instante a instante.. em sombrios Pesadelos da carne palpitante. Vê descer da amplidão o Arcanjo da Agonia. ao seu tempo.. Que os prazeres da vida converti-os Em poemas das formas.Desde a flor da montanha às trevas do granito.Parnaso de Além-Túmulo 344 Soneto Por tanto tempo andei faminto e errante. Espia. Francisco Cândido Xavier .. o Príncipe dos Poetas Brasileiros. inquire o brado Da justiça sem Deus. Cuja mão luminosa e terna lhe trazia O cálix do amargor. Sobre o meu peito em febre. implacável e cega. Que o trabalho. duríssimo e refece. nasceu em 16 de dezembro de 1865 e aí faleceu em 1918. ansiosa se congrega. Sócio fundador da Academia Brasileira de Letras. cheia De incerteza na esfinge que tu plasmas!.

Parnaso de Além-Túmulo 346 A negra multidão de seres que ainda ama. E do céu se desprende uma doirada messe De bênçãos aurorais. Na doce mansidão dos seres pequeninos. Lança os marcos da luz na noite primitiva. .. E Jesus abençoando aquelas almas cegas.– “Se puderdes. a multidão fremente.. Que lhe mana da luz do olhar clarividente. As hostes dos descrentes e dos loucos. Mestre!” E toma-lhe das mãos.Parnaso de Além-Túmulo 345 Paira em todo o recanto a vibração sonora Do Amor e o Mestre já na sede que o devora.. Sob os gládios da dor aspérrima. E em vez de suplicar a Deus para a injustiça O fogo destruidor em tormentos que arrasem. Mas eis que todo o Azul celígeno estremece. amargamente. meu Pai. de Paz e de Alegria. afastai-o!. – Raio de eterno sol na senda dos destinos. De imolar-se por fim nas aras desse Amor. Derramai com piedade a lágrima terrestre!” Mas eis que Judas chega e lhe diz: – “Salve.. Gritos e altercações! Jesus. Sente a Mão Paternal que o guia na amargura. meu Pai. eu vos dou meus últimos ensinos.“ Aos descrentes Vós. Contempla a vastidão celeste que o reclama. E sublime na fé mais vivida. . Eterna irradiação que atinge a mais escura Estrada de aflição. osculando-lhe a fronte. de dor e desventura. Trazei a vossa vida imaculada e pura! O Amor há de vos dar todos os dons divinos. Responde humildemente: – “É assim que tu me entregas?” Vendo as coortes do Céu nas fímbrias do horizonte. Soluça no silêncio.. derrama As lágrimas de fel do pranto mais ardente. não sabem o que fazem!.. A crucificação Fita o Mestre. da cruz. que seguis a turba desvairada. Sobre tudo se estende o raio dessa chama. Que de olhos cegos e de ouvidos moucos Estão longe da senda iluminada. murmura: – “Que se cumpra no mundo o arbítrio do Senhor!. Francisco Cândido Xavier . Francisco Cândido Xavier .” O beijo de Judas Ouve-se a voz do Mestre ungida de ternura: .” – dizia. Alma doce e submissa. E clama para os Céus em prece compassiva: “– Perdoai-lhes..“Amados...

Estertore e soluce exausto e moribundo. Ressurreição Extinga-se o calor do foco aurifulgente Do Sol que vivifica o Mundo e a Natureza. onde a esperança sem repouso Luta. É ansiedade perpetuamente acesa No turbilhão medonho e tenebroso Da carne. Guardadas com ternura.Parnaso de Além-Túmulo 348 Tombe no caos do nada. os tronos e a realeza. Numa ressurreição de eternas alvoradas. Que entorpece. o lar. Subirá para Deus num canto de vitória. em túrgida surpresa. Apague-se o fulgor de tudo o que alma presa As grilhetas do corpo. redivivo. Sol eterno na glória do caminho! Ideal Na Terra um sonho eterno de beleza Palpita em todo o espírito que. Mas que o homem realiza apenas. Sem a idéia falas do grande Nada. sofre e soluça. Aspirações do mundo miserando. fulcro de luz potente.Parnaso de Além-Túmulo 347 Banhai-vos na divina claridade Que promana das luzes da Verdade. Sente o beijo de glória do Infinito!. Da Índia misteriosa e dos louros do Egito Ao fausto senhoril de Cartago e de Roma! . O templo. brancos os cabelos. Da fé viva. Debilmente pulsando. e sonha presa. O Livro Ei-lo! Facho de amor que. Francisco Cândido Xavier .. o coração do mundo. O Espírito imortal. Começai outra vida em nova estrada. sem cárcere mesquinho! Francisco Cândido Xavier .. adora. envenena e mata aos poucos. Morto à mingua de luz. depois das derrocadas. ansioso. Os mistérios da fé. Ó ateus como eu fui – na sombra imensa Erguei de novo o eterno altar da crença... quando. ambicionando a glória. Espera a luz esplêndida do gozo Das sínteses de amor da Natureza. O que o homem pensou num sonho de demente. com desvelos. a lei.Retrocedei dos vossos mundos ocos. Nas lágrimas de dor do peito aflito!. Rotas as carnes. anela e sente. assoma Desde a taba feroz em folhas de granito.

fere. porém. É o nume apostolar que governa o destino. destrói e se alteia e se ufana. valoroso. nações. entretanto. Enviava. Pensa. ensina. E aparece o Brasil que. avança. corrige. não pudesse fazer o que fizeram e fazem tantos outros patrícios nossos. Bastas vezes sentia. em láureas de esperança. alma boníssima. sem repouso. que. Meu Brasil Longe do meu Brasil. com Zoroastro e Buda. . Tribos. Acende nova luz em novo continente Para a restauração do homem exausto e velho. triste e saudoso. Brasil Desde o Nilo famoso. O coração em úlceras aberto. Mas o torvo dragão da guerra soberana Ruge. Francisco Cândido Xavier . a chorar. mal desperto. O Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho.Vaso revelador retendo o excelso aroma Do pensamento a erguer-se esplêndido e bendito. estar já perto Do pátrio lar risonho e bonançoso. Disputando o poder e denegrindo a raça. Ignoramos por que Dom Pedro 2º. Companheiro fiel da virtude e da História. Eis. De qualquer forma. Desalentado e fraco. Encerrando consigo. Em vão plantando o amor que o ódio despedaça. há quem diga não serem da sua lavra.Parnaso de Além-Túmulo 349 E brilha com Jesus no Evangelho Divino. Com o coração pulsando. O Livro é o coração do tempo no Infinito.Parnaso de Além-Túmulo 350 50 Pedro de Alcântara O ÚLTIMO imperador deixou alguns sonetos. bem o sabemos. o que se não poderá negar é a estreita afinidade destes sonetos com os que.. vibrátil e espírito culto. de Dom Pedro. Francisco Cândido Xavier .. E deplorava o rumo escuro e incerto. tronos. Da virtude ateniense à grandeza espartana. estuda. O anjo triste da paz chora e se desengana. na América nascente. a ponto de ser correntio o conceito de que todo brasileiro é poeta aos 20 anos. na aura fagueira. conhecemos. aberto ao sol da graça. Com Hermes e Moisés. Do meu desterro amargo e desditoso. experimenta. que o Senhor. Guia das gerações na vida transitória. tudo se esfuma e passa. Em que a idéia imortal se renova e retoma.

Necessitar viver inda algum dia. Francisco Cândido Xavier . Para a morte. De amaro pranto da alma torturada. Onde a luz da verdade resplandece.Parnaso de Além-Túmulo 352 Se é mister retornar a um novo exílio. Que. Nada faz com que o nosso desprezemos. Todo o nosso ideal pomos no anelo De regressar. Soneto No exílio é que a alma vive da lembrança. desterrado. Numa doce saudade enternecida. Acalentando o sonho de revê-lo. pudesse Arrebatar-me à vida verdadeira. enfim. lindo ou singelo. Francisco Cândido Xavier . Na celeste ventura prometida. E Deus. De acerba pena ao pobre penitente. Quanto o céu do país em que nascemos. e voando sobre extremos. Que regresse ditoso ao solo amado Da generosa pátria que eu queria. Jaz no desterro a plaga da amargura.Parnaso de Além-Túmulo 351 No exílio Pode o céu do desterro ser tão belo. que os orbes cria. Se. de novo.Minhas recordações em terna prece Ao torrão que adorara a vida inteira.. Rogativa Magnânimo Senhor que os orbes cria. Que dá pão ao faminto e ao desgraçado. Do sonho que teceu e amou na vida. E ao sofredor os raios da alegria. . Da mesma luz gloriosa que eu amara. Na alcandorada terra do Cruzeiro. no mundo. Até que a acerba dor. Povoando o Universo ilimitado. onde tem sua esperança. lá onde eu desejara Ter vertido o meu pranto derradeiro. Com dolorosas lágrimas avança. Tendo chorosa a vista que se cansa De procurar a pátria estremecida. generoso. Seja o Brasil.. É a saudade na ânsia mais pungente De retornar à pátria idolatrada. novamente viva sob o brilho. A alegria no exílio é desventura. Com o pensamento ansioso percorremos Nosso amado rincão.

Espalhando no mundo as bênçãos da Esperança. Página de gratidão Tangendo as cordas da harpa da saudade. Na doce proteção de um povo inteiro Onde a mão de Jesus desce e descansa. Guardai as claridades da Bonança Na vastidão do solo brasileiro. Possa escrever. Oração ao Cruzeiro (No cinqüentenário da Abolição) Luminosas estrelas do Cruzeiro. Francisco Cândido Xavier . Guardas contigo a luz da bem-aventurança. Sentindo. o país da Alegria. Onde. essa onda intensa e luminosa Da afeição.Parnaso de Além-Túmulo 353 Venho ao Brasil buscar a essência pura Do amor da pátria minha. Prende-me o coração a suavidade Desse arroubo de afeto e de ternura D'alma do povo meu. que idealiza o meu desejo: E tendo a gratidão por companheira. Bandeira do Brasil Bandeira do Brasil. sob a luz da tua glória. símbolo da bonança. eu vejo. Onde toda a existência é um hino de abastança.Na vastidão dos céus iluminados. na Terra. que de ventura E de alegria o espírito me invade. reserva o eterno gozo Para as almas dos pobres desterrados. Concede a paz ao triste e ao desditoso Na clara luz dos mundos elevados. Sê nos planos de luta o sinal de harmonia. da doçura Da flor cheia do aroma da amizade. cheia de graças. do amor. Constelação da Cruz. Volvo ao pátrio torrão de alma saudosa. Assinalas. Amando mais a Terra Brasileira. Que o Brasil. .Parnaso de Além-Túmulo 354 Transfundi numa só todas as raças. Iluminai a terra da Esperança. Símbolo sacrossanto de aliança De paz e amor do Eterno Pegureiro. És o florão da paz. Enquanto a guerra estruje indômita e sombria. No país da esperança e da bondade. Francisco Cândido Xavier . Do misterioso aquém da morte. no mundo. marcando um novo dia. a grande história Das epopéias da Fraternidade.

Brasil do Bem Eis que o campo de sombra se esfacela No doloroso e amargo cativeiro Francisco Cândido Xavier . a bordo do vapor São Luiz.. pode sem favor considerar-se um dos maiores poetas da sua geração. Que é o mais belo florão de tua glória Nos caminhos da espiritualidade. alto e fecundo. Brasil Sopra o vento do Ódio e da Vingança. Aniquilando a Paz do mundo inteiro. Grande Brasil do Bem e da Abastança. Embora o Amor Divino do Cordeiro Seja a fonte da Bem-aventurança.Parnaso de Além-Túmulo 355 Da guerra que ameaça o mundo inteiro. Que se engrandece ao brilho do Cruzeiro. e desencarnado em Paris a 13 de setembro de 1911. Como a doce promessa nos caminhos!. E um coração azul.. guarda a luz dessa vitória. Faze o bem. do Amor e da Verdade. Magistrado. heróica e bela.. Francisco Cândido Xavier . esmaltado de estrelas. Deus te guarde os tesouros da esperança. É por isso que Deus. além de justo e bom. Deu-te um corpo auri-verde onde a paz canta e vibra. Buscando iluminar as lutas. Qual furacão no auge da procela.Nasceste sob a luz de um bem. Todo o problema Está na compreensão clara e suprema Do Trabalho. membro da Academia Brasileira de Letras. Nunca te conspurcaste aos embates do mundo. que te ampara e equilibra.Parnaso de Além-Túmulo 356 Ama a Deus. Mas a terra ditosa da Esperança Vive nas claridades do Cruzeiro. Sonetos . ao vivê-las. Mas na amplidão do solo brasileiro Outra expressão de vida se revela N'alma caridosa. na baía de Mangunça. Desde as luzes dos céus à luz dos ninhos! Segue à frente do mundo aflito e errante E alça o pendão pacífico e triunfante. Meu Brasil. Onde o Evangelho é o Doce Mensageiro Das bênçãos da Verdade e da Bonança. litoral do Maranhão.Parnaso de Além-Túmulo 357 51 Raimundo Correia NASCIDO a 13 de maio de 1859. Francisco Cândido Xavier ..

1
Tudo passa no mundo. O homem passa
Atrás dos anos sem compreendê-los;
O tempo e a dor alvejam-lhe os cabelos,
À frouxa luz de uma ventura escassa.
Sob o infortúnio, sob os atropelos
Da dor que lhe envenena o sonho e a graça,
Rasga-se a fantasia que o enlaça,
E vê morrer seus ideais mais belos!...
Longe, porém, das ilusões desfeitas,
Mostra-lhe a morte vidas mais perfeitas,
Depois do pesadelo das mãos frias...
E como o anjinho débil que renasce,
Chora, chora e sorri, qual se encontrasse
A luz primeira dos primeiros dias.
2
Ah!... se a Terra tivesse o amor, se cada
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 358
Homem pensasse no tormento alheio,
Se tudo fosse amor, se cada seio
De mãe nutrisse os órfãos... Se na estrada
Do contraste e da dor houvesse o anseio
Do bem, que ampara a vida torturada,
Que jamais viu um raio de alvorada
Dentro da noite eterna que lhe veio
Do sofrimento que ninguém conhece...
Ah! se os homens se amassem nessa estância
A dor então desapareceria...
A existência seria a ardente prece
Erguida a Deus do seio da abundância,
Entre os hinos da paz e da alegria.
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 359
52
Raul de Leoni
FLUMINENSE, nascido em Petrópolis em 1895 e desencarnado
em Itaipava, com apenas 31 anos de idade. Bacharel em
Direito, foi deputado estadual e posteriormente Secretário de
Legação. Entre os talentos da chamada nova geração, a sua afirmativa
nos domínios da Arte Poética pode considerar-se das mais
fulgurantes. Além de Ode a um Poeta Morto, dedicada a Olavo
Bilac, de quem foi amigo dileto, deixou Luz Mediterrânea, considerada
como seu livro de ouro.
Luta
Aí na Terra, as bem-aventuranças
São o sonho que o Espírito agasalha,
Mas, mesmo após a morte, a alma trabalha
Buscando o céu das suas esperanças.

Muita vez, quando pensas que descansas,
Além te espera indômita batalha,
Onde o suposto gozo se estraçalha
Sob o guante acerado das provanças.
Para cá do sepulcro a dor antiga,
Que nos traz o desânimo, a fadiga,
Sob a luz da verdade se atenua;
A febre das paixões desaparece,
O Espírito a si mesmo reconhece,
Mas a luta infinita continua.
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 360
Na Terra
Renascendo no mundo da Quimera,
Ao colhermos a flor da juventude,
É quando o nosso Espírito se ilude,
Julgando-se na eterna primavera.
Mas o tempo na sua mansuetude,
Pelas sendas da vida nos espera,
Junto à dor que esclarece e regenera,
Dentro da expiação estranha e rude.
E ao tombarmos no ocaso da existência,
Nós revemos do livro da consciência
Os caracteres grandes, luminosos!.
Se vivemos no mal, quanta agonia!
Mas se o bem praticamos todo o dia,
Como somos felizes, venturosos!...
Soneto
Não te entregues na Terra à indiferença.
Cheio de amor e fé, trabalha e espera;
Nos domínios do mal, nada há que vença
A alma boa, a alma pura, a alma sincera.
No pensamento nobre persevera
De servir, sempre alheio à recompensa;
O desejo do Bem dilata a esfera
Das luzes sacratíssimas da Crença.
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 361
Vive nas rutilantes almenaras
Dos castelos do Amor de essências raras,
Aspirando os olores da Pureza!...
Terás na Terra, então, a vida calma...
E a morte não será, para a tua alma,
Jamais medonha e trágica surpresa.
Nós...
Nós todos vamos pela vida em fora
Deixando no caminho os mesmos traços,
Em Deus buscando a Perfeição que mora
No cume inatingível dos Espaços!...

Cada instante de dor nos aprimora,
Desatando os grilhões, rompendo os laços
Dessa animalidade atrasadora,
Que procura tolher os nossos passos.
Heróis de novas lendas carlovíngias,
O Sonho imanta as nossas almas, cinge-as,
Na Luz Ideal – o nosso excelso escudo;
Buscando o Indefinível, o Insondado,
Deus, que é o Amor eterno e ilimitado
E a gloriosa síntese de tudo.
“Post mortem”
Depois da morte, tudo aqui subsiste,
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 362
Neste Além que sonhamos, que entrevemos,
Quando a nossa alma chora nos extremos
Dessa dor que no mundo nos assiste.
Doce consolação, porém, existe
Aos amargosos prantos que vertemos,
Do conforto celeste os bens supremos
Ao coração desalentado e triste.
Também existe aqui a austera pena
A consciência infeliz que se condena,
Por qualquer erro ou falta cometida;
E a Morte continua eliminando
A influência do mal, torvo e nefando,
Para que brilhe a Perfeição da Vida.
Soneto
Se todos nós soubéssemos na vida
A Verdade grandiosa e soberana,
Não faltaria o gozo que promana
Dos sentimentos da missão cumprida.
Mas na Terra a nossa alma empobrecida,
Presa dessa vaidade toda humana,
De desgraças e de erros se engalana
Numa incerteza amarga, irreprimida...
Vamos passando assim a vida inteira,
Sem esposar a crença imorredoura,
A fé demolidora de montanhas,
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 363
Quase imersos na treva da cegueira,
Sem vislumbrar a luz orientadora,
Nessa noite de dúvidas estranhas!...
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 364
53
Rodrigues de Abreu
POETA nascido em Capivari, São Paulo, a 17 de setembro de
1899, e desencarnado, tuberculoso, em Campos do Jordão, aos 24

de novembro de 1927. Publicou Casa Destelhada, Noturnos e Sala
dos Passos Perdidos, além de inúmeros trabalhos esparsos na
imprensa do seu Estado. Foi cognominado – “o poeta triste das
rimas róseas”.
Vi-te, Senhor!
Eu não pude ver-Te, meu Senhor,
Nos bem-aventurados do mundo,
Como aquele homem humilde e crente do conto de Tolstoi.
Nunca pude enxergar
As Tuas mãos suaves e misericordiosas,
Onde gemiam as dores e as misérias da Terra;
E a verdade, Senhor,
É que Te achavas, como ainda Te encontras,
Nos caminhos mais rudes e espinhosos,
Consolando os aflitos e os desesperados...
Estás no templo de todas as religiões,
Onde busquem Teus carinhos
As almas sofredoras,
Confundindo os que lançam o veneno do ódio em Teu nome,
Trazendo a visão doce do Céu
Para o olhar angustioso de todas as esperanças.
Estás na direção dos homens,
Em todos os caminhos de suas atividades terrestres,
Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo 365
Sem que eles se apercebam
De Tua palavra silenciosa e renovadora,
De Tua assistência invisível e poderosa,
Cheia de piedade para com as suas fraquezas.
Entretanto,
Eu era também cego no meio dos vermes vibráteis que são os
homens,
E não Te encontrava pelos caminhos ásperos...
Mocidade, alegria, sonho e amor,
Inquietação ambiciosa de vencer,
E minha vida rolava no declive de todas as ânsias...
Chamaste-me, porém,
Com a mansidão de Tua misericórdia infinita.
Não disseste o meu nome para não me ofender;
Chamaste-me sem exclamações lamentosas,
Com o verbo silencioso do Teu amor,
E antes que a morte coroasse a Tua magnanimidade para comigo,
Vi que chegavas devagarinho,
Iluminando o santuário do meu pensamento
Com a Tua luz de todos os séculos!
Falaste-me com a Tua linguagem do Sermão da Montanha,
Multiplicaste o pão das minhas alegrias
E abriste-me o Céu, que a Terra fechara dentro de minhalma...

. Trago-te o pão dos grandes amargores..” Eu não sei explicar o mistério Daquela personagem enigmática Que se intrometia... “Manda o Senhor que eu seja a companheira “De tua vida inteira. Meu coração pulou com um ritmo descompassado E desejei a luz das cidades distantes. O perfume das florestas prodigiosas Onde cantavam as aves da mocidade e da glória.” “Ave Maria... Eu era dono do mundo inteiro Porque era senhor dos sonhos absolutos. Francisco Cândido Xavier . Não vi o cântaro de mel Que minha mãe deixara com o seu beijo Na prateleira humilde de minhalma..Parnaso de Além-Túmulo 366 No Castelo encantado Eu ainda não era um homem. do coração. “Guarda as minhas verdades. Na inquietação da carne e do desejo. Na embriaguez da ansiedade e do desejo.. “Dar-te-ei maravilhas “Ao sol dos meus castelos encantados. Falando como Jeremias sobre a Jerusalém de minhas ânsias: Francisco Cândido Xavier . onde quase todos os frutos apodrecem. Tudo esqueci. palavras de oração – “Pai Nosso que estais no Céu. Nas Tuas maravilhas de beleza. Quando subi aos elevados promontórios da esperança. Adormecendo à sombra enganadora Da árvore da ilusão. Curando-me com a Dor. Chegou ao país de minhalma um romeiro triste dos Céus. E andei como um fauno louco pelos mares remotos e pelas ilhas desconhecidas. por infelicidade. “Sou a Dor.Parnaso de Além-Túmulo 367 “A sombra da ilusão envenena-te a vida. Gotas de mel. meu amigo. Senhor. afoitamente.E entendi-Te. “Irás comigo a mundos ignorados. ficarei sempre contigo. E quando quebrava os últimos altares. cheia de graças. ..... “Eu corrijo as paisagens interiores. Tudo sonhei contemplando o horizonte!.” Gotas do mel de amor.. Quando Te vi na paz da Natureza. Divisando os países da beleza...

. a vida inteira: Roubou-me todas as glórias da Terra. meu Senhor. Encaminhou-me à sensação perfeita De Tua inefável presença. bom e fecundo. Fez fugir-se-me a noiva idolatrada. ó Senhor de Bondade. de tal maneira. Francisco Cândido Xavier . doce e balsâmica da crença. A cuja sombra o espírito descansa. Deu-me as sombras dos Campos do Jordão. Deixou-me só na lôbrega jornada. Pelos desertos áridos do mundo. meu Senhor.... Tudo levou-me a dor incontentada. O único fruto eterno. Onde as chuvas de todas as misérias Caíram sem cessar desde esse dia. Apodreceu meu coração em sua mão. E. Porque com a Dor Sinto que Te compreendo. Enxergando na tamareira da esperança. Ela deu-me os palácios encantados Onde brilham as luzes dAquele que se sacrificou na cruz por todos os homens!. Mas oh! suave milagre de ventura. Que a senti junto a mim. Seu olhar parecia A claridade estranha de toda a resignação e de todo o padecimento.. Sustentando a infeliz Humanidade. Nas grandezas de Tua claridade. Fez de meu sonho a casa destelhada.. Desde as pedras da Terra Aos jardins de esplendor da Eternidade! Francisco Cândido Xavier . Pois agora é que eu sei Banhar-me todo nessa fonte imensa Da paz. Afastou-me a alegria da saúde.Na minha estrada de alegria. Cala-se o meu verso humilde.. E abençôo contente As mágoas que me deste antigamente.Parnaso de Além-Túmulo 368 Crestou-me a flor ditosa da alegria. Pela sua porta estreita. Fruto que é o Teu amor E a Tua caridade.. Casou-se comigo a Dor. desde esse momento.Parnaso de Além-Túmulo 369 54 Souza Caldas .

Bem sei Que mal Andei. Ato de contrição A vós Senhor.Parnaso de Além-Túmulo 370 Pequei. Porém. Quero o perdão. E junto A cruz Do meu Sofrer. Buscando O erro E a imperfeição. abraçou mais tarde a carreira eclesiástica. a mais apreciada. Meu Deus De Amor. Dizem que as suas melhores composições. Vós sois. Na treva Errei. E jus Eu fiz A expiação. e aí desencarnado em 1814. Assim Francisco Cândido Xavier . as que o levaram a ser preso pelo Santo Ofício. Farol Do Bem! Ouvi Dos Céus Minha oração. Minhalma Implora A salvação! Meu Pai. justamente. em 1762. Perdão Que traz . Acreditamos que o médium ignorava a circunstância de ser a tradução dos Salmos de David. de suas obras poéticas. Sois vós A luz. perderam-se. ordenando-se em Roma. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra.NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro.

buscam louvores. Vossas ovelhas são confundidas.Sossego E paz Ao meu Viver Na provação. Fracas e pobres andam saudosas. Causam a ruína da vossa casa. E hei de Poder Feliz Vencer Do mal Cruel O atroz dragão! Versão do Salmo 12 Senhor dos Mundos. Da imperfeição. Amara E rude Da contrição! Dai ao Meu ser.Parnaso de Além-Túmulo 371 Na dor Atroz. pobres e humildes. Glorificai-as. Ganham favores. Francisco Cândido Xavier . Do vosso amor. São elas todas. Adoradores da iniqüidade. meu Criador! . Os maus somente é que dominam. E sufocadas pelo amargor. Espezinhando seus semelhantes. Francisco Cândido Xavier . Lançam injúrias ao vosso nome. Rudes tiranos e os impiedosos De coração.Parnaso de Além-Túmulo 372 Ímpios que são. Aflito Ao ver O seu Pecado. na Terra inteira. A redenção. Tripudiando nas vossas leis. Suplico-o A vós.

Muitos que são. Com o meu espírito Turbado e aflito. Lindo e faiscante. Na noite escura Da sua dor. Confio em vós! Versão do Salmo 18 Por toda a parte Veja a criatura. Todos os seres Hinos entoem. Imploro e clamo. Bem sei. salvai os homens. Lustres da auréola Da Criação. O mar e a flor. Doce refúgio Dos desgraçados. Senhor! Como fugi Da hora fugace Que me afastasse . Aves cantando. A Luz Eleita. É a esperança dos pecadores. Pai amoroso. Que desprezei O ouro brilhante.Alevantai-as do abismo escuro Com a vossa luz! Vossa bondade.Parnaso de Além-Túmulo 373 Astros e mundos No céu girando. Vosso perdão. A salvação. Aos meus pecados. Cantos ressoem Ao Criador! Eterno Artífice Que os sóis modela. Cheio de amor. imensa e eterna. A eterna força De um Deus clemente. Sois a bondade A mais perfeita. Francisco Cândido Xavier . Onipotente.

Mundos dispersos Na imensidão. Cantando a vida. Dando-lhe o tempo E áspera lida Para na vida Tudo vencer. Que são amigos Da perdição. Almejo e quero Para que eu . Fazendo assim Pra meu tormento. Cruéis inimigos. Vós que acendestes Faróis brilhantes. O sumo bem E a perfeição Que vence o mal. O orgulho e a dor. A onipotência E a pura essência Do vosso amor! Que sois o sol Dos universos. Francisco Cândido Xavier . Meu pensamento Prevaricar. Sóis rutilantes Dalmo esplendor. Além da força Vós sois.Parnaso de Além-Túmulo 374 Que a carne impura Leva a criatura A mais pecar.Parnaso de Além-Túmulo 375 Que o pecador No coração Guarda com zelo. Assim espero.Do vosso amor! Mas bem sabeis Francisco Cândido Xavier . Porém. Misericórdia. também. o vosso Amor profundo Redime o mundo Do padecer.

Coração enganado. . Que há de esplender Nos homens todos. Desprezarei. Se eu quisesse gozar. aguardo Do vosso amor Consolo à dor.Parnaso de Além-Túmulo 377 55 Um Desconhecido Meditando Eu fui daquelas almas que viveram Sem conhecer da Terra os paraísos. teria o gozo. Assim. Dominareis Toda a impiedade Pela verdade Francisco Cândido Xavier . Eternamente. Esplendoroso. Por vossa causa O maior gozo. É que ao sentir no âmago do peito A atitude do homem nessa vida.E os meus irmãos O mal deixemos E abandonemos Buscando o Céu. Pois fui também humano entre os humanos. Para que eu viva Na luz fulgente. Limpando os lodos Da imperfeição. Não que eu fosse infeliz e desditoso. O meu ser que sonhara a Humanidade Qual um ramo de flores perfumosas. Que somente a amargura dos sorrisos Pela noite das dores conheceram. alma iludida. Minhalma aguarda A luz que tarda Ao mundo vão. E através dos meus dias. servo. Senhor.Parnaso de Além-Túmulo 376 Que em vós transluz! E. Da vossa lei. dos meus anos. Afastado do Puro e do Perfeito. Amparo e luz! Francisco Cândido Xavier .

E em espasmos convulsos. E viu então O seu brasão Invicto e glorioso. Bem após o transcurso de alguns anos . Pois no mundo pequeno da minhalma. Agonizava o senhor Dos domínios extensos. derradeiros. Expirou para o mundo O nobre castelão. Sob o peso da própria iniqüidade. Mergulhado no pranto mais profundo. E tinha então prazer de ver meus braços Enlaçados na cruz da provação. Insculpido nas fúlgidas realezas Do castelo formoso. Viu-lhe o feito da esplêndida conquista Nas grandiosas searas. efêmeras realezas. Opresso o coração. Ao trilhar os carreiros dos tormentos. O nobre castelão No interior Do esplêndido alcançar. Que em suas mãos avaras Foram armas cruéis. desditosas. Transbordante de glórias e riquezas! Mais alongando a vista.Parnaso de Além-Túmulo 379 Martirizando as almas sofredoras.Viu as almas tremerem. Em torno dirigia Um último olhar. Francisco Cândido Xavier . Das terrenas. O dono do solar Nos espasmos intensos Da agonia. destruidoras. A sua alma despida das grandezas. na aspereza dos caminhos. Contemplou seus tesouros passageiros. bonança e calma: – Era a luz que me vinha da visão De ver o Cristo-Amor.Parnaso de Além-Túmulo 378 Quando em dor me envolvia a desventura. E isolado nos grandes sofrimentos De ser só. Eu vislumbrava a luz brilhante e pura Que me trazia a paz. Francisco Cândido Xavier . entre cansaços. Encontrei o prazer pelos espinhos.

No auge do amargor. Durante o transcorrer de muitos dias.. nenhum lhe obedecia. De luz confortadora.. Recordou-se que havia Um Pai Onipotente. entretanto. Foi um dia Despertada em amargos desenganos: Conturbado por agros dissabores. Que se julgou perdido Irremissivelmente Assim. De contínuos pesares e agonias. A exclamar. Sua alma sofredora Sentiu-se então mais calma e mais serena. Penetrada de doce claridade. O pobre sofredor.De triste letargia. Tomado de energia. E em atitude austera.. Todavia. Humilde penitente. Que provinha de alguém Que lhe fazia Meditar na grandeza da Verdade . De cólera severa Já que ele era o senhor. Estranhou revoltado. constantemente. Contemplou seu solar Ocupado por outros moradores. Que ninguém acudisse ao seu chamado. Somente. E cheio de fervor. Escutava nos ditos mais soezes Terrível maldição Das vítimas de antanho! E o sofrimento era tamanho Francisco Cândido Xavier . Reclamou os seus servos com calor E. Conservou-se naquelas cercanias Como presa feroz Do sofrimento atroz.Parnaso de Além-Túmulo 380 Em ser incompreendido. às vezes. Implorou seu amor Numa súplica em lágrimas de pena. Imerso em turvação..

Por que ocultaste as flores formosas Que na Terra colheste. Para assim compreenderes Que os reais e legítimos prazeres Que da vida nos vêm. Serás agora escravo e não senhor. amigo. Porém. Voltarás. E permite que voltes aos humanos. Jamais vestiste os nus. Desprezavas o fraco e nunca amaste Quem de ti carecia! A caridade.E lhe dizia Da beleza do Amor. Para que se dissipem teus enganos No amargor. Pelas estradas rudes e espinhosas! Francisco Cândido Xavier .. o Deus de Amor É sempre o magnânimo Senhor. Conhecerás As dores e amarguras.. nem consolaste Aquele que sofria. a flor-tesouro.Parnaso de Além-Túmulo 381 Em rudes sofrimentos E estranhas maldições. Flores lindas que nunca ofereceste Às almas desditosas? Por que não concedeste um só bocado Do teu pão abundante Ao pobre esfomeado? Ocupando-te em gozo. já não terás Efêmeras venturas. a todo o instante. As mágoas escabrosas. é a conseqüência Da equívoca existência Que levaste. Não residem no Mal e sim no Bem.Parnaso de Além-Túmulo 382 Abençoa o Senhor Que te concede a dor. Que hoje te envolvem os lúridos momentos Francisco Cândido Xavier . da Luz do Bem: – “O que sofres.” . Já que sem piedade aniquilaste Muitas almas e muitos corações. O sentimento-luz. Não tiveste em teus dias de maldade No grande sorvedouro! Porém.

. Parece um hino de amor Dos Paganinis siderais.. Há toda uma amplidão Iluminada A sua vida. Soberbas harmonias Nos mundos luminosos! Seres que passam rápidos. o fulgor. De perfeição e de felicidade! . imagens de esplendor.Parnaso de Além-Túmulo 383 Em tudo há um misto Nunca visto De manhãs e arrebóis. muito ao longe..Nesga de Céu A alma extasiada Sobe. Francisco Cândido Xavier . Ao longe.. sobe. Ainda além. A Via-Láctea transluz.. onde a vida É a imortalidade Anelada.. que padeceu. E lembra-se que sofreu. radiantes. De pureza. Nos espaços sem termos. fulguram sóis. Transformados em notas musicais. A ventura. Nesgas do céu.. Aos clarões dessa aurora. A estrada É uma etérea alfombra Sem resquícios de sombra! É o domínio da luz que ela conquista! Vibra no ar Dulcíssima harmonia. Sorridentes.. Como um éden de luz E de amor. de beleza. O mundo É um ponto negro que gira.. Além. Cenários majestosos. querida. De alegria. mais além. Como se fora feita De luar. flutuantes. De alegria perfeita.. A alma chora Em êxtase profundo. Que amou.

Vidas de estranha dor. Feito de éter.Francisco Cândido Xavier . Evoca as lágrimas vertidas! Contempla panoramas de outras vidas. Melodia. as emoções Do ilimitado. poetou e desencarnou. Que um a um Vão formando uma auréola De brilhos santos. Com os pensamentos puros e radiosos. Um futuro esplendente Pintalgado de rosas. A alma se extasia Na luz do Eterno Dia. Atrás a noite e as mágoas de agonia Do passado. Chorando. luz.Parnaso de Além-Túmulo 385 Agora É um raio de aurora.. Portugal. E.. A pobre alma orando. Da mais pura alegria.Parnaso de Além-Túmulo 386 56 Valado Rosas NASCEU em Viana do Castelo. O caminho é risonho. De repente Numa nesga de céu resplandecente Assoma Uma rutila esfera... Nessa prece Reconhece A alvorada de sua redenção! Francisco Cândido Xavier . Recamado de flores perfumosas. Mas cada gota amarga dos seus prantos Francisco Cândido Xavier ... na . Como um país de doce primavera. aroma!. Em cima. de sonho. Intérmina de gozos!. Em suavíssima unção.Parnaso de Além-Túmulo 384 Em baixo as vastidões. Ora a Deus: Recorda em prece os sofrimentos seus. em 1871. Veio para o Brasil com 14 anos e aqui viveu. em frente. Que a engrinalda de luz.

Modesto quão talentoso. Com fé sincera. cheio de escolhos. doce e cristã. Nas horas tristes e amarguradas. Deixo a minhalma falar aqui. De quem me lembro na luz do Além. eu pude adormecer Na paz serena.. Graça de haver sorvido tanto O amargo pranto da ingratidão. Abrindo os olhos tranqüilamente Numa alvorada linda e louçã. aos 19 de janeiro de 1930. então. E. Dor de quem sofre sonhando e espera. De ser vencido no mundo vão. foi também um polemista e doutrinador espírita vigoroso. Graça divina de haver sofrido. E a paz na morte tereis também. que ficastes no mundo ingrato.Parnaso de Além-Túmulo 387 Da consciência. Esclarecia meu coração. Vós. É que o Evangelho do Cristo amado. Na paz do Além Dentro da noite grandiosa e calma. Seu nome é Lázaro Fernandes Leite do Val. . Quando no mundo de exílio e sombra. Não sou. Na luta intensa que encheu meus dias. Da graça imensa que recebi. Quando escutamos as vozes claras Francisco Cândido Xavier . no Pai de Amor. Habituei-me com as invernias E com os reveses da minha sorte.. Aos companheiros de luta e crença. Lede o roteiro dos Evangelhos. Que os avatares da redenção São todos feitos nas amarguras. Subi o Gólgota dos meus pesares. na luz da prece.cidade de Caratinga. Aos meus irmãos Sob as estrelas da minha crença. no entanto. Na vida obscura e transitória A nossa glória vive na dor. quem vá mostrar As maravilhas que ele fornece. Cansado e triste cerrei meus olhos Dentro da noite que é para muitos Um mar bravio. – O mensageiro da Perfeição. que ilustrou o pseudônimo na imprensa profana e doutrinária do Brasil e de sua pátria.

escolas para crianças e jovens carentes. Perdi na Terra doces afetos. A piedade. morais e científicos dos espíritos mais evoluídos. O livro espírita. 3. também auxilia no custeio de inúmeras obras de assistência social. etc.” Paulo. versículo 9.Fim --Francisco Cândido Xavier . Adquira um bom livro espírita e ofereça-o de presente a alguém de sua estima. E a Morte trouxe-me a liberdade. “Porque nós somos cooperadores de Deus. financeiramente. Se você leu e gostou desta obra. (1ª Epístola aos Coríntios. Irmão W. Mas recebendo na grande escola A grande esmola do meu Senhor.) .Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 389 Amigo(a) Leitor(a). --. em busca constante da paz no Reino de Deus. Sonhos diletos de sofredor. estes são abnegados trabalhadores na seara de Jesus. colabore com a divulgação dos ensinamentos trazidos pelos benfeitores do plano espiritual. os seus escritores. o amparo e a luz! Feliz quem pode na dor terrestre Seguir o Mestre com sua cruz.Parnaso de Além-Túmulo 388 Nas desventuras da provação. além de divulgar os ensinamentos filosóficos. As obras espíritas nunca sustentam.

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