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Grandes Cosplayers da História: Os Hussardos

Por Pedro Bouça

Com os últimos eventos e a recente Parada do Orgulho Cosplay (sério, rolou


isso mesmo!) andei me perguntando sobre se no passado teria havido alguma classe
de pessoas que poderia ser considerada como um “cosplayer” da vida real, ou seja,
alguém que conscientemente se veste e comporta como uma pessoa diferente a tal
ponto que isso passa a ser sua própria vida ao invés de uma encenação.

Ao estudar o período napoleônico, descobri um grupo que se encaixa


perfeitamente nessa definição: Os hussardos! Mas quem eram os hussardos?

Os hussardos eram um tipo de cavalaria ligeira surgida na Hungria


(possivelmente de origem Sérvia, mas há controvérsias nesse sentido). No século 15
já existiam diversos regimentos desses cavaleiros na Hungria e a partir do século
seguinte foram incorporados no império austríaco dos Habsburgos, que dominava a
região, onde serviriam por muitos anos.

A reputação desses cavaleiros era tal que a partir do século 18 outras nações
européias decidiram criar seus próprios regimentos de hussardos, em particular a
Prússia de Frederico, o Grande, cujo sucesso militar aumentou consideravelmente a
reputação dos hussardos pela Europa.

Aí é que entra a parte interessante. Ao invés de simplesmente criar regimentos


de cavalaria ligeira similares aos dos hussardos, os outros países copiaram os
regimentos hussardos originais, inclusive no estilo dos uniformes! Uniformes esses
bastante extravagantes, mesmo para os padrões da época, vejam como era o
uniforme de um hussardo espanhol em 1908, mais de um século após o auge da
assim chamada “hussardomania”:

http://www.islaperdida.com/paginasejercito/75husarprincesa.htm

Naquela época a maior parte dos hussardos europeus já usava uniformes mais
convencionais, mas durante o período napoleônico praticamente todos se vestiam
assim, com uniformes cheios de botões e decorações em dourado e a distintiva peliça
(jaqueta de pele) usada sobre o ombro direito. Alegadamente para proteger contra
golpes de sabre, mas que era mais decorativa do que qualquer outra coisa.

E não fica aí! Maior parte dos hussardos europeus também usava cabelos e
bigodes (sem barba!) compridos. Os cabelos em um penteado distintivo, com tranças
nas têmporas e um grande rabo de cavalo – isso em um período em que cabelo curto
e barba feita eram a norma, particularmente nos exércitos! Em alguns países chegava-
se ao requinte de obrigar os recrutas mais jovens, ainda muito novos para ter grandes
bigodes, a usar bigodes postiços até conseguirem ter um verdadeiro!
O visual completo de um hussardo pode ser visto neste trecho do filme “Os
Duelistas” de Ridley Scott, em que os duelistas do título, ambos hussardos, travam um
duelo usando uniforme e equipamento completos:

http://www.youtube.com/watch?v=Nmejpbzq510

A emulação dos hussardos originais, porém, não era apenas superficial. Nos
países em que a “hussardomania” era mais forte, os hussardos eram compelidos a se
comportar como os hussardos húngaros originais (ou, mais exatamente, de acordo
com a visão que se tinha desses). Os hussardos eram, portanto, altamente
indisciplinados, corajosos ao ponto da estupidez (Napoleão Bonaparte dizia que um
dos requerimentos essenciais para se tornar um hussardo era inteligência limitada…)
e bastante impulsivos. Também era habitual eles saquearem tudo o que não estava
preso no chão e perseguirem todas as mulheres que encontravam pela frente, o que
não os tornava muito populares com as populações civis com quem tinham contato.
Beber até cair (em garrafas tradicionalmente abertas a golpe de sabre!) também era
um hábito bastante comum entre os hussardos, o que não ajudava sua reputação.

A emulação chegava a tal ponto que alguns hussardos, como os franceses,


eram mais “hussardos” que os originais húngaros! Talvez por influência de seu
general, o Conde Antoine de Lasalle, os hussardos franceses superavam seus
similares a serviço dos austríacos em indisciplina, impulsividade e, mais importante,
em bravura e eficiência em combate!

A psicologia bastante particular dos hussardos os tornou extremamente


populares na literatura. Autores como Leon Tolstoi, Arthur Conan Doyle e Arturo
Pérez-Reverte escreveram livros protagonizados por hussardos. Mas a história mais
popular sobre hussardos é a que deu origem ao mencionado filme “Os Duelistas”,
baseado em uma obra do escritor Joseph Conrad que, por sua vez, se inspirou em na
história real de dois hussardos franceses que travaram uma série de duelos durante
mais de uma década por motivos fúteis. Um deles, o desafiante original, François
Fournier-Sarlovèze (grande amigo e companheiro de bebedeira do general Lasalle!),
aparece nesta pintura:

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5c/G%C3%A9n
%C3%A9ral_FRANCOIS_FOURNIER_SARLOVEZE.jpg

No seu auge, havia regimentos hussardos por quase toda a Europa, da


Espanha até a Rússia. Portugal, curiosamente, não foi atingido pela “hussardomania”,
portanto não havia hussardos nos países de língua portuguesa (uma pena, senão o
Brasil poderia ter “Hussardos da Independência” ao invés dos menos exuberantes
Dragões da Independência), embora existissem em alguns países da América Latina
como Argentina e Peru.

Eventualmente o seu estilo indisciplinado e a perda de importância da cavalaria


na guerra moderna decretaram o seu fim. Ainda existem regimentos “de hussardos”
em diversas forças armadas, mas são geralmente forças motorizadas convencionais,
sem o glamour que os tornou, durante muitos anos, os guerreiros mais famosos da
Europa.