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DOMINGO, 6 DE JUNHO DE 2010 O ESTADO DE S. PAULO

ARREMATE Moradores Censo da População em Situação de Rua, elaborado pela


Fipe, aponta que o número de pessoas nas ruas e albergues

} sem morada
SEGUNDA, 31 DE MAIO
de São Paulo cresceu 57% nos últimos dez anos – de 8.706
para 13.666. Mais da metade dos 645 municípios paulistas
tem menos habitantes que esse número.

MÁRCIO DA SILVA PASSOS/DIVULGAÇÃO


Polivalente. Tião Nicomedes escreve, atua, ensina, bloga, critica: ‘As autoridades tendem a achar que um morador de rua falando é como se estivesse louco, delirando ou mentindo’

Um senhor equilibrista uma briga com o padrasto. “Foi um rato de


mocó que pegou suas coisas, né?”, pergun-
tou Tião. Wellington fez que sim. “Esse vai
Ele caiu de paraquedas nas ruas de São Paulo. Acabou se tornando seu porta-voz ser prego por um tempão, até aprender a vi-
ver na rua”, disse Tião, na saída do menino.
Prego é a presa dos ratos de mocó, muitos
SEBASTIÃO NICOMEDES DE OLIVEIRA /DIVULGAÇÃO
deles ex-cadeieiros que habitam a região.
do ao redor do Mercado Municipal, onde po- Àsaída da Restaura-me, lá estava Marcelo-
MÔNICA MANIR Espelhos do
deria viver de tomate, cenoura, melão, me- médico-veterinário-em-situação-de-rua-ni-
descaso. Fotos
lancia, banana e o que mais despencasse das ce-to-meet-you, alternando frases em inglês
tiradas por
barracas. Porém a depressão era muita. “Pa- e francês, com leves erros de concordância.
moradores e

N
icomedes é nome de ra mim, eu era empresário e estava dormin- Tião alerta para as noias dos frequentadores
ex-moradores
porte. “Aquele que do na calçada. Não queria aceitar a situa- do lugar, porém não descarta as verdades.
de rua no projeto
planejaavitória”, ex- ção.” Chegou a dobrar o corpo sobre a grade “As autoridades tendem a achar que um mo-
Trecho 2.8
plica Tião. Também do Viaduto do Chá, mas tinha medo de mor- rador de rua falando é como se estivesse lou-
revelam o
é nome de uma con- rer, mesmo achando que morto já estava. co, delirando ou mentindo.” Ele não conhe-
abandono de
coide, a concoide de Sua bênção era a mão torta. Por causa dos ce Marcelo, mas se lembra de um médico
milhares que
Nicomedes, curva antibióticosedosanti-inflamatórios,nãobo- diplomado que foi pra rua depois do desgos-
perambulam
plana constituída tou álcool na boca. Se tivesse uma convul- to de perder o filho numa mesa de operação.
pela metrópole
pordoisramossitua- são, tomaria outro prejuízo. IZAEL MATIAS LEONEL/DIVULGAÇÃO
Fato é que também recorda uma mulher que
dos em lados opos- Depois de dois meses, procurou uma irmã se dizia Ana Paula Arósio, vinda da Itália nos
tos de uma reta assíntota que intimida inclu- que mora em Caraguatatuba. Recebeu calor braços do Gianecchini. Concorda com a pes-
siveodicionário.Narégua,Tiãonuncaplane- e comida, mas a dor no punho era insuportá- quisadaFipequandoeladizquemuitomora-
jou seu destino. Nascido há 42 anos em As- vel e ele voltou à capital para tentar a opera- dor teve carteira assinada. “O problema é
sis, perdeu os pais aos 12, foi criado por uma ção. No vai não vai da saúde brasileira, refu- que vários desses nem sabem mais reconhe-
irmã missionária de voto perpétuo, abando- giou-se num albergue, que para ele pouca cer o próprio nome na carteira.”
nou a Escola de Aprendizes-Marinheiros, vi- diferença tem da rua, com apessoa desligada Rumamos para uma rua que desemboca
rou churrasqueiro de churrascaria, pedreiro a cada amanhecer. Enfim, a operação saiu. A na Sé, onde Tião participa de um projeto de
de obra, saqueiro da Zona Cerealista, candi- fisioterapia ficou para o dia de são nunca. criação e pesquisa em fotografia chamado
dato a atleta e chapa de caminhão. Mas não Tião entendeu que procurar os parentes se- Trecho2.8.OprojetoéumaparceriadoInsti-
esperava – nem de longe – que seu destino ria pior. “Tem irmão alimentando os filhos e tuto Brasis com o Instituto Gens e pretende,
envergaria como envergou em fevereiro de chegavocê,adulto,naquelasituaçãocompli- comoafirma Edson Fragoaz,umdos respon-
2003, quando Sebastião Nicomedes de Oli- cada.” Tocou a vida em duras temporadas sáveis, “viabilizar condições para os adultos
veira caiu de uma altura de 6 metros na fren- alberguianas, sempre iluminadas pela escri- to de Pesquisas Econômicas (Fipe) sobre em situação de rua terem assegurado o direi-
te de uma loja da Rua Oriente, onde tentava ta. Além de correr como um Forrest Gump, pessoas em situação de rua em São Paulo, to à comunicação do que sentem e pensam”.
emplacaro primeiroluminoso da suarecém- Tião gostava de cravar os sentimentos no divulgada nessa semana. O estudo foi feito Nessa quarta-feira, nove deles sairiam nova-
aberta Oliveira Arte Comunicação Visual. papel. O primeiro atrapalhado que o viu es- entre novembro e dezembro, durante o ve- mente pelo centro para clicar com as máqui-
Sem nenhum aparato de segurança, ele ain- crevendo acabou se tornando seu anjo. No rão portanto, quando moradores de rua des- nas digitais oferecidas pelo projeto. Edson
da deu a boa sorte de bater num toldo, mas a Parque Dom Pedro II, o tal andarilho man- cem para o litoral fugindo especialmente do sugeriu um único lugar para todos. Em vão.
má de receber por cima a placa, a furadeira e dou ver: “Letrado, escreve aí uma carta para abafo dos albergues. Ele também duvida do “A República? Cruel! Com aquela cegonha
tudo o mais que seus colegas deixaram cair a minha mãe”. Então deu a ideia da literatura número de pessoas levantado pelo estudo – de ferro?”; “O Arouche? Qual a graça de flor
na tentativa – diz ele – de tentar segurá-lo. como profissão: “Ela pode mudar sua vida e 13.666. “São mais de 18 mil, a pesquisa se de floricultura?”. Saíram a esmo, mas com o
Em reta descendente, Tião raciocinou: “Não pode mudar a nossa”. concentrou no centro de São Paulo e não compromisso de voltar às 16h30.
posso cair sentado, não posso cair de costas, Em 2007, Tião escreveu o livro de poesias considerou os desabrigados de outros bair- Muitos chegaram com fotos de passari-
não posso cair de lado, não posso cair de Cátia, Simone e Outras Marvadas, publicado ros, como São Miguel, Santo Amaro, Penha, nhos em busca de migalhas, belos reflexos
cabeça, tenho de cair de pé. Tenho de morrer peloColetivo DulcinéiaCatadora, quedivul- onde a população de rua cresceu muito.” distorcidos, flores desabrochando, esgui-
em pé”. Acordou na esquina da Oriente com gamaterial artístico produzido por morado- Nesse momento Tião não fala como poe- chos psicodélicos, fachadas recortadas, car-
a Dr. Ricardo Gonçalves sobre a mão esquer- res de rua. A Cátia é mistério, a Simone é ta, ator, dramaturgo ou enxerido, mas como tazes de agências de turismo. “Não parece
da dobrada em “Z”, o calcanhar direito meio aquela e, entre as outras marvadas, prima a um dos fundadores do Movimento Nacional que estou em Paris?”, sorri Márcio diante de
enviesado e a cabeça fora de prumo. Mas não bebida: “A pinga pede o corpo/ que pede o da População de Rua (MNPR), formalizado uma Torre Eiffel estourada na máquina. Ma-
tinha morrido na frente da loja? chão/ que pede o corpo/ que pede a pinga se após o massacre da Sé, em agosto de 2004, rilza trouxe novas encruzilhadas, como se
Quase. A sem-vergonhice de seus colegas o corpo cai”. Tião também escreveu o monó- noqual moradoresforamgolpeadosenquan- estivesse a procurar seu canto, ela que veio
e do dono do estabelecimento o arrastou até logo Diálogo dum Carroceiro, interpretado todormiam, setedelesmortalmente. Duran- do Maranhão atrás de peixes herbívoros.
a esquina, de onde ele mesmo pediu ajuda pelo ator Antonio Carlos de Niggro e apre- te o assassinato, aliás, Tião recebeu ligações Poucos, como os três desta página, flagra-
pelo celular. Os bombeiros, informados de sentado inclusive para o presidente Lula. de desespero pelo celular vindos da praça. ram moradores de rua. Marli fez isso com
que Tião havia sido atropelado por moto ou Hoje o texto roda por espaços alternativos, “No caso da Isabella Nardoni a perícia pro- maestria, mas não permitiu a divulgação. Es-
carro,olevaramparaoVermelhinho,ohospi- com O Homem sem País, outro monólogo de vou quem foram os assassinos. No caso do tá esperando o momento certo da glória.
tal do SUS Vereador José Storopolli, no Par- Tião, estrelado por ele mesmo. No cartaz, a massacre...” Falando em traumas, ele parece Tião registrou um passado que às vezes
que Novo Mundo. Ali hibernou por oito dias, linha fina tenta explicar o título: “O que é ter superado a queda do andaime, tanto que revisitaem buscade inspiração.“Passo anoi-
sem um alô sequer de Simone, a mulher que cidade de origem para quem não tem mais trabalha em outra esquina da Rua Oriente tedeboa na rua, o lugarme ativaa memória.”
chamava de noiva. Saiu com o braço esquer- para onde ir?” como oficineiro na Casa Restaura-me, man- O bolsa-aluguel, mais a bolsa do curso de
do engessado até o sovaco e uma bota no tidapelaONGcatólica AliançadeMisericór- fotografia, mais a grana como oficineiro,
calcanhar. Na mão livre, amostras de remé- Desova. “Quis dizer que o morador de rua dia, no bairro do Brás. A casa oferece ativida- mais o cachê esporádico de O Homem sem
dioeumpedidomédicoparacirurgianoHos- muitas vezes não volta porque bate a vergo- des gratuitas de artesanato para os morado- País lhe permitiram alugar um quarto e sala
pital São Paulo. O pé só estava trincado, mas nhade seapresentarà famíliacomofracassa- res de rua, que fazem brinquedos, tapetes, na Penha. Em lan houses, ele atualiza seu
o punho precisava de uma placa de platina. do, o amigo de infância vai ver que a pessoa colares, porta-vasos. Tião fica por ali ofere- diariotiao.zip.net,“o blogque mostraareali-
Tião se lembrava bem do endereço da sala na não virou artista”, afirma. Além disso, o an- cendo material, sugerindo o que pode vir a dade das ruas de São Paulo”. Mora com seus
qual dormia e onde funcionava a sua Oliveira darilhofica numa cidade sóaté ser descober- ser divulgado no site da instituição, apartan- livros prediletos: Germinal, A Revolução dos
Arte Comunicação Visual, que, em pouco to. Então passa a ser cutucado e transferido do desentendimentos, dando um norte para Bichos, O Diário de Anne Frank e outros que
mais de uma semana, de sua já não tinha na- de cá pra lá, de lá pra cá, em peruas de deso- quem está perdido da silva. ganha em lançamentos. Filhos? “Achei que
da.Osfuncionárioslevaramtodo omaquiná- va.“Hoje aprincipal rota de despejo noEsta- Wellington chegou devaneado no meio da tive em duas situações, mas acabei brigando
rio e devolveram o prédio alugado ao dono. A do é Campinas. Se ela não pode atender, os entrevista, de mochila murcha nas costas e e,naincerteza,ficouassim.”Namorada?“Te-
alegação: Tião tinha ido desta pra pior. moradores são largados em São Paulo”, afir- saliva nervosa no canto da boca. Disse que nho.” Um tenho meio sem convicção. Mos-
Pascoalina, uma conhecida, ainda lhe em- ma. Também por isso, pela movimentação tinham roubado seu telefone e seu violino, tra a foto dela no celular. “É uma psicóloga, a
prestou R$ 60, que mal deram para a pensão. incessante dessa população por vontade mas que ele toca de tudo, de flauta a reco-re- gente se conheceu numa festa na Vila Mada-
Sem mais valia, Tião caiu no mundo. A saída própria ou alheia, Tião questiona os núme- co. É só dar a oportunidade. Está num alber- lena, mas ela sempre foi classe média. Tem
era seguir o estômago. Acabou se aboletan- ros da última pesquisa da Fundação Institu- gue porque a coisa ferveu em casa depois de vezes em que não consigo acompanhar.”