A TATUAGEM

POR PAULO RIBEIRO

Vais partir naquela estrada onde um dia chegaste a sorrir.
Vais deixar abandonada… essa coisa... Esses raios de luz.
Fazem bem? Fazem mal? Fazem bem à pele? Essa coisa é
luz. Aqui, de agora em diante, vão restar sombras. Aqui,
de agora em diante, só vão habitar os senhores Greys e os
seus clones. Lobos. Lobos com pele de cordeiro. Lobos
mascarados de ovelhas. Lobos raivosos que projectam a
sua sombra pavorosa em noites de lua cheia. Podemos
sempre acreditar que o mundo físico está sobrevalorizado.
Olhar. Ouvir. Cheirar. Tocar. É dentro da cabeça que se
passa quase tudo, bem sei. O bom, o mau e o vilão. É na
cabeça que se urdem conspirações e desejos. Crimes e
castigos. Guerra e paz. Ódios e amores. Mas a minha
cabeça pensa na dor da solidão física. Não tenho eu o
direito de ter pena de mim? Talvez não. Mas tenho. Para o
diabo quem diz o contrário! Ponto final. Se quiser sofrer,
sofro. Ponto final. O sofrimento é meu. Ponto final. Pelo
menos isso ninguém me leva… em nenhuma estrada onde
um dia chegou a sorrir. Mas será que o Clemente, que
cantava essas coisas com tanta assertividade, não sabe
que já não há estradas? Só aviões e rotas aéreas. Mais
rápidas. Quase nem dá tempo de chorar. Ainda menos de
sorrir. Rotas e mais rotas. Desembarques na Normandia e
no fim do mundo. Lá onde Judas perdeu as botas. Eu
tenho o direito de ficar com o cérebro roto (como as tuas
rotas). Vais brilhar a tua luz para cascos de rolha e eu se
quiser lamentar, lamento, ora essa. Tu não mandas!
Estávamos uns seis sentados à mesa. Paredes despidas.
Era o fim. O que estava com o fato verde de fazenda disse:
“vocês pensam que eu ando a dormir, mas eu já tratei da
minha vida”. Posto aquilo, o único otário que não tinha
tratado da sua vida era eu. Saíram todos. A minha missão

era fechar a barraca. Coisa que eu fiz com brilhantismo,
como já vem sendo hábito, diga-se. Mas antes, ainda tomei
um café. Era a última cápsula. Raios! Descafeinado… Que
treta!
E esta dor no peito? Foi uma coisa tua que ficou em mim,
como canta um cantor brasileiro. Não me lembro qual. E
meu? O que levas tu meu? Levas meses de aborrecimento
e tédioooooooo. Eu não sou nada de especial. Na verdade,
sou um bocado enfadonho. Se eu disser uma piada,
provavelmente já a ouviste anteriormente. Sou bizarro. Um
esquisitoide. Um quisto. Um quistoide. Na minha
voracidade de engolir o mundo, acabei por ser engolido por
algo que nunca posso possuir. Acabei engolido por um
conceito. Por uma representação perfeita da suprema
criação estética, cuja essência ninguém pode domar. Um
mito. Muito para lá do humano. Quase divino. Para lá de
todos os desejos carnais irrealizáveis.

Eu sei que tenho esta tendência para me armar em
desgraçadinho. E não serve para nada. Bater no fundo,
claramente, não cumpre o que promete. Não quero
intelectualizar, mas a decadência é uma espécie de
promessa de felicidade. É a promessa de um mundo
melhor. Da terra prometida. É o contrário de ganhar o
mundo. É ganhar o mundo pela negativa. O outro lado da
moeda. Quando a frustração é a meta, não há como ficar
frustrado pelo facto do clímax da frustração não ser o que
se esperava. Não consigo explicar isto como deve ser, eu
sei. Enquanto estamos a descer, acompanha-nos a
melancolia, a mágoa, o desencantamento, um crescendo

de desalento. A descida compensa. Mas não há descidas
eternas. Se houvesse, provavelmente, seriam subidas e
seria uma questão de encarar os sentimentos de outra
perspectiva. Olhar para eles de outro ângulo. Poderiam ser
considerados ânsia. Inquietação por um lado, afã por
outro. Desassossego ou sofreguidão.
Não espero mais nada. A largada. A fugida. A anulação do
ponto de partida.
Luz, trevas. Excitação, nojo. Agonia, repulsa. Se conseguir
voltar ao ponto de partida, tudo será diferente, vazio e
imprestável. Nem os cães ladram. As caravanas não
passam. Há um tédio que carrega melancolia. Nunca vem
a bonança. O tempo não cura. Não há feridas. Não há
necessidade de cura. Só cuidados paliativos. Golfinhos de
plástico boiam sozinhos em piscinas insufláveis
abandonadas. Não há crianças, ainda menos gritos. Nem
gritos mudos. Nem silêncios ensurdecedores. Não há nada
depois de se voltar à casa da partida. Não se recebe
dinheiro, só um pontapé no rabo. É o fim.

Disse ela, a páginas tantas:
– Também não exageres. Não é o fim do mundo.
Não é o fim do mundo… Eu nem respondi. Ela não conhece
o meu mundo. Há tantos mundos diferentes. Claro que
não é o fim do mundo. Os mundos nunca acabam. Sabes
como é o meu mundo? Tive vontade de lhe explicar, mas
fiquei calado que nem um rato. Um rato asqueroso. No
meu mundo há choro infindável. Lágrimas ácidas que
corroem a pele. Vermes gigantes que dilaceram. Insectos

asquerosos que engolem centenas de pessoas de uma só
vez. Mutantes assassinos. Bordéis cujos clientes são
demónios. Monstros que têm o estômago em lume. Corpos
nus, amarrados uns aos outros, cozidos em caldeirões. A
única comida que existe é sangue e cinzas. Nunca nada
desaparece ou se consome totalmente. Cinzas renascem
para mais tormentos. Excrementos humanos ganham vida
em corpos monstruosos que devoram outros corpos.
Criaturas inumanas que vivem eternidades dentro do
ventre de outras criaturas. Serpentes com pele de barata.
Gafanhotos gigantes que cospem gás sarin. Pessoas
desmembradas, recriadas diabolicamente, por cientistas
decrépitos, das formas mais inacreditáveis. Tortura.
Agonia. Pranto. Desespero. Ânsia (incontrolável) por um
momento de paz. Que nunca chega. Chega o tédio. O
indizível tédio da solidão. O tédio do sofrimento. O infinito
aborrecimento da dor e da desolação. Céus de um negrume
incalculável. Chuvas de vómito. Granizo de bílis.
Ampulhetas com sangue coagulado. Mastronças com
corpo de porco. Galifões em brasa. Fontes de anthrax.
Cocktails de napalm. Acepipes de carne assada humana.
Ausência de luz. Distância da luz. Separação da luz. Dor e
fastio. O paradoxo pacífico. Todos os prazeres invertidos
ou hiperbolizados para lá do limite da agonia. O abismo.
Na véspera da partida dela tive um pesadelo horrível.
Ainda pensei correr até ao aeroporto para lho contar. Sei
lá para quê. Para ela ficar com uma imagem mais concreta
do meu mundo. Mas cheguei à conclusão que o meu
mundo em ruínas não lhe podia trazer qualquer proveito.
E se eu gosto dela (ai se gosto!), não me vou querer vingar.
Não vou querer imprimir imagens decadentes na sua
mente amorosa. No seu jardim mental. Não faço ideia com

que tintas se imprimem coisas na mente, mas sei que às
vezes são tintas muito permanentes. Não quero correr esse
risco. Por amor. É uma flor que lhe ofereço, sem que ela o
saiba.
Sonhei com uma versão distorcida da história da Branca
de Neve. Dava um livro que ninguém leria. Pelo menos,
com prazer.
Era uma vez (o sonho começou mesmo com estas palavras)
uma rainha muito parva que valorizava a beleza acima de
todas as coisas. Ficou contente com a filha que teve.
Pôs-lhe o nome Branca de Neve. Depois morreu. O rei
como não era de modas, casou-se logo a seguir. A
madrasta de Branca era uma bruaca da pior espécie. E
maluca. Diz-se que ouvia o espelho a falar. Este, em vez de
se pronunciar sobre as grandes questões do mundo, aferia
a beleza das donzelas. A nova rainha saiu a perder em
comparação com a sua enteada e não gostou nada da
brincadeira. Orientou um lenhador rude do campo para
despachar a miúda. Mas o pobre homem não era assim tão
rude e foi incapaz de cravar um balázio na testa da
princesa do povo. Vai daí, deixou-a à solta na floresta e
manchou o lenço, que deveria levar à rainha como prova,
com o seu próprio sangue. Teste de ADN, está quieto. Eu
cá não lhe pagava um tostão. Ainda se trouxesse a cabeça
ou uma selfie com a morta. Agora assim?
Assustada, Branca foi correndo floresta fora, fugindo de
ursos, cobras e aranhas. Por fim, chegou a uma pequena
casinha. Muito bonitinha. Bonita por fora. Por dentro era
um autêntico pardieiro. Que espécie de animal viveria
naquela estrumeira? Não era um animal. Eram sete

animais. Sete anões. Os seus nomes: Pervertido, Sabujo,
Ofendido, Asqueroso, Ranhoso, Tarado e Energúmeno.
Assim que os sete imundos anões lhe meteram a vista em
cima deu-se uma algazarrada das antigas. “Agarrem-na, é
minha!”, “Tá calado, Tarado, vamos metê-la a limpar esta
pocilga”, “Qual limpar, qual carapuça, isto não precisa de
limpeza nenhuma!”, “Estejam calados, imbecis!”, “Cala-te
tu, ó anão Asqueroso”, “Anda cá, fofura!”. Etc. e tal.
Foram 15 dias de agonia. Tomada refém sem pedido de
resgate. Escravizada para todo o tipo de serviço. Príncipe
salvador, nem vê-lo. A libertação veio em forma de bruxa.
Pobre velhinha. A vender maçãs envenenadas... como se
ela fosse parva! “São oito, se faz favor”, pediu. Uma
maçãzinha para cada um dos anões. Fim daquela
quinzena infernal. Pior, só 15 dias no Algarve em Agosto.
Depois de uma refeição de badalhoquices, tarte de maçã
para sobremesa. Cinco minutinhos e estavam todos a
espumar da boca. Espuma-se com cianeto? Se calhar não.
Que rico cenário! E ainda levaram uma cuspidela cada um.
Daquelas bem puxadinhas das entranhas mais recônditas.
Quando caiu em si, ficou perturbada com a sua própria
vileza. Era como se tivesse absorvido os nomes dos sete
anões. Branca de Nojo. Tinha guardado para si uma maçã,
como quem guarda uma última bala. Ingeriu-a com
irritação. Caiu redonda em cima do tacho com sopa já a
cheirar a azedo.
Como a família real era muito fina, o caixão da Branca de
Nojo era de vidro. O corpo ficou em câmara ardente no
panteão lá do sítio. O príncipe ainda pensou que se
tratasse de algum encantamento mágico e beijou a morta

de todas as maneiras e feitios, mas nada resultou. Não
consta que beijos produzam algum efeito contra cianeto.
Acabou assim. Os anões mortos. A Branca morta, cheia de
remorsos pela sua maldade. Cheia de remorsos antes de
morrer, naturalmente.
Caem nódoas nos melhores panos. Em todos os panos,
aliás. Não há panos imaculados. Não há panos brancos
como a neve. Nem panos há, diga-se. Só trapos de
imundície. Querem que repita? Trapos de imundície. O
caminho é este. O dela. E o meu. Não há volta a dar. Claro
que não há volta a dar. Quem me susterá agora? Quem
achará possível entrar neste ser atroz um rasgo de luz?
Condenação. Crítica. Julgamento. Sim! Tenho muito disso
à espera. Tenho disso a rodos. Doutoramento Honoris
Causa em desprezo. Mestrado em olhar de lado.
Licenciatura em repulsa. Técnico-profissional em falta de
amor. Na minha vida, ninguém. Zero (0). Madrasta, anões,
príncipes, reis, máquinas de café. Cápsulas. Aviões que te
levam para longe. Balelas!

Mas eu sabia. Eu sabia! Juro! Vocês podem não acreditar,
mas eu sabia, aliás, eu tinha a certeza absoluta. Quase
absoluta. Tanto é que um dia, sem pudor nenhum, saiu-me este lamento da boca para fora:
– Eu bem sei que, mais dia, menos dia, tu vais deixar-me.
– Pára com isso! – respondeu-me sem pachorra nenhuma.

– Não me estou a queixar. Só estou a constatar um facto.
Provavelmente só estás comigo por pena. Mais vale eu
ir-me preparando. Não há bem que sempre dure…
– Se acontecer… usas a imaginação.
E assim foi. Deixou-me. Aqui estou eu a fazer o que ela
recomendou. Na altura não percebi, mas agora percebo.
Gostava de lhe ter dito duas ou três coisas sobre usar a
imaginação. O Erasmo Carlos tem aquela canção perfeita
para retratar a minha situação. O primeiro verso vai
assim:
“De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar
Se você não vem e eu estou a lhe esperar
Só tenho você no meu pensamento
E a sua ausência é todo o meu tormento”
Imaginar é horrível. Já tentei imaginar quase tudo. Os
abraços que demos. O teu sorriso. O teu ventre suado
depois de chegares do ginásio. O timbre da tua voz. O teu
cabelo ao vento. Essas coisas… Fecho os olhos e quanto
mais me concentro menos vejo. Vejo tudo preto. Acho que
vou para o computador abrir a pasta com o teu nome e
ficar ali a fazer zapping nas tuas fotos. Isso da imaginação
é muito abstracto para mim. A tua ausência é todo o meu
tormento, isso é. Ah! Já sei como é que se chama a canção.
“Quero que tudo vá para o inferno”. Menos eu, claro. E
também me custa pensar em ti a arder.
Terá sido por causa do Benfica? Eu tenho esta coisa com
o Benfica… não consigo evitar. Ela só queria estar de mão
de dada, mas eu lá podia estar de mão dada durante um
jogo do glorioso?! Nessas alturas as mãos servem para

bater nas pernas, as unhas para roer e a língua para soltar
palavrões.

A verdade é que eu não estava ao nível daquela mulher.
Sad but true. Ela queria que eu gostasse de poesia,
imagine-se… Era importante para ela que eu entrasse
naquele mundo. Eu tentei, mas não percebia nada
daquelas coisas. Não dava mesmo para mim. É engraçado
como existem pessoas que se sentam a escrever coisas que
mais ninguém entende. Não foi para isso que inventaram
as palavras. As palavras são para as pessoas se
entenderem. Raios! Agora por causa do diabo dos poetas
patetas fiquei sozinho. É uma dor desgraçada, parece que
levei uma bastonada. Olha! Cá está uma rima... Pronto, já
sou um deles! Se eu me tivesse lembrado disto antes…
talvez ela não tivesse chegado a partir.
Neste momento a nossa interacção resume-me a eu
esperar o “like” dela no facebook quando publico alguma
graçola. Às vezes fico tão ansioso que até tenho de tomar
um
. Outras, nem tanto. Nesses casos, meio
comprimido é suficiente. É o que me resta. É triste, o
estado a que um indivíduo pode chegar. Gostava tanto que
a culpa fosse mesmo do Benfica, ou da poesia, ou dela.
Dava tudo para lhe poder chamar todos os nomes feios do
mundo, com propriedade. Mas não posso. Seria injusto. Só
queria que ela estivesse aqui.

Acho que devia ir confessar o meu pecado a um padre.
Senhor padre, perdoe-me porque pequei! Ele perguntaria:

“qual é o seu pecado, meu filho?”. Confessar-lhe-ia o que
só a ela confessei. E ela não era nenhuma parede. O meu
pecado é a idolatria. Eu idolatro essa mulher que me
abandonou. A idolatria, senhor padre! Ainda é pecado
isso? Mentir, roubar e trair, toda a gente sabe que
continuam em vigor. E idolatrar uma mulher? Aposto que
o padre haveria de desvalorizar semelhante confissão. Se
eu tivesse adorado uma estátua do buda, talvez ele me
punisse. Mas adorar uma mulher? “Deixe lá isso e vá
para casa em paz”. Mas como é que eu posso ter paz no
meio desta dor? Por favor, mande-me rezar um milhão de
pais-nossos, a ver se isto vai ao lugar.
És um deus insuficiente. Um deus com letra minúscula.
Não és uma deusa, também. Nem grega, nem romana com
nome de planeta. És só uma pessoa. Se fosses deus não
haverias de querer nada comigo. Serias um deus
impessoal que não ofereceria salvação. Serias, talvez, uma
divindade distante. Nada mais. Como se, neste momento,
não o fosses também… Coloquei a minha vida nas tuas
mãos e… nada. Tinhas-me na mão, mas deixaste-me cair.
Eu estalei-me com estrondo. Ando a tentar colar os cacos
com saliva. Endeusar humanas dá nisto. O padre não está
a ver bem a gravidade da coisa. Só se preocupa com
pecados palpáveis. E o resto? O resto que está entranhado
nas entranhas mais recônditas da alma? Quem chega lá?

– Eu amo-te! – disse-lhe eu uma vez.
Sabem o que me respondeu ela?

– Não digas isso! Não quero que me ames. Não quero que
me pressiones dessa forma.
Fiquei triste, mas não respondi. Ela estava farta de mim.
Eu cansava-a, tenho a certeza. Eu cansei-a. Insisti:
– Pronto... Adoro-te!
– Pior. Isso quer dizer o quê? Que te pões de joelhos a rezar
diante de uma fotografia minha?
Até perdi a vontade de ver o Benfica.
Eu desejo-a desde o dia em que a vi pela primeira vez.
Desejar é um bocadinho diferente de cobiçar. Ela não era
a mulher do próximo. Não há nenhum mandamento a
proibir o desejo. Nunca o cheguei a compreender (o desejo).
Só sei que quando a tive (a ela), a continuei a desejar.
Talvez nunca tenha chegado a tê-la. Acho que nunca foi,
realmente, minha. Mas eu fui dela. Ainda sou. Desde novo
que olho para essa mulher embevecido. Toma, sou teu. Um
dia, condescendeu, mas nunca me quis, no fundo. Um
fundo não tão fundo assim. Foi tudo uma ilusão. Corri a
vida toda atrás dela. A maior crueldade que me fez foi
deixar-se apanhar, só para depois voltar a fugir. As
pessoas são más.
Foi o meu castigo. Deixar o amor entrar. Ou qualquer coisa
assim. Aqui, sentado à frente do computador, hipnotizado
pelo desespero… não me lembro do que ia dizer…

Tenho um computador à frente. Uma centena de
colegas. Um carro estacionado à porta. Um apartamento
hipotecado. Uma televisão. Um monte de coisas que não

tenho vontade de fazer. Nenhum amigo. Nenhum
compromisso. Nenhuma ida ao cinema. Nenhuma
inscrição em sites de encontros. Tenho a dedicação de uma
vida que acabou. É a pré-reforma do amor. O fim do
sentido da vida. Foi tudo em vão. Mas eu sabia, raios, eu
sabia! Eu já esperava o fim. Antes de amanhecer já eu
esperava o ocaso. Pelo meio, a espera. O tédio. A
inquietude.
Ainda que esse desejo idólatra fosse um pecado grave, era
somente mais um neste caixote do lixo imundo que é o
planeta Terra. Só um Criador cheio de misericórdia para
não incinerar de vez esta estrumeira. Homicídio, injúria,
calúnia, difamação, latrocínio, extorsão, usurpação,
estelionato, peculato, adultério, antropofagia, cobiça,
inveja, ira, gula, mentira. Imundície atrás de imundície. O
meu é só mais um pequeno detrito. Eu sou apenas escória
miúda neste CHIQUEIRO. Mas não somos todos?
Como tinha um computador à frente fui-me pôr a ouvir as
músicas de que ela gostava. Tinha uma paixão desalmada
pelo Nick Cave. Foi música que eu nunca percebi.
Parecia-me um bocadinho chata e quando não era chata
era estranha. Mas gostos são gostos. Dizem que não se
discutem. E não é que dou comigo no youtube a pesquisar
canções dele? São todas tão tristes. Deu-me cá uma
vontade de chorar. Coisa que fiz. Não consegui evitar. Uma
das canções dizia assim, mais coisa, menos coisa: “Oh
baby don't you go”. Ai agora? Se ela se tivesse metido no
meu lugar e deixado que o Cave a aconselhasse… Mas não.
A canção que ouvi a seguir era ainda pior. Triste como a
noite. Cada verso pior do que o outro: “When you're sad
and when you're lonely / And you haven't got a friend /

Just remember that death is not the end”. Eu ali sozinho…
parecia que o tipo me estava a sussurrar aquilo
directamente ao ouvido. O reverendo Nick a pregar para
uma poça de água. Eu sei que a morte não é o fim. O fim
foi ela ter-se ido embora. A morte será libertação. Quanto
mais sofrimento agora, melhor me saberá depois. Será a
morte libertação de quem sofre por ter sido abandonado
por um falso deus? Mas se eu já estou no inferno… só
pode melhorar!
O que sabe Dante? Nada! O inferno não tem nove círculos.
Tem muitos mais. Só aqui menciono Dante porque ela
gostava muito dele. Era fã. Mas tenho ideia que de infernos
não percebia aquela mulher nada. Em mandar gente para
lá, talvez. Que inferno! Arrasto-me eternamente na
obscuridade. Ad nauseum. Contornos esbatidos. Sorrisos
inexpressivos. Indiferença para lá do prazer ou da dor.
Doença auto-imune sem esperança de cura. Corpo que
luta contra si próprio. Carne contra carne. Corpo contra
corpo.

Passei uma vida inteira a construir-lhe um magnífico
castelo na areia. Ficou uma obra de arte. Um dia, ela
chegou lá e urinou-lhe em cima. Desfez-se em segundos.
Uma vida deitada para o bacio. Duas vidas, na verdade. A
minha vida exterior e a minha vida interior. Constrói-se
tudo dentro da cabeça. Todas as infraestruturas. Todos os
castelos. Os aposentos da princesa. O casamento real. E
depois? Sobra esta dor surreal. Pior do que a dor física.
Uma dor sem explicação. A dor da ausência. A crueldade
do abandono. O meu mundo era ela. Agora, a espécie

humana foi extinta. A minha cabeça é um pós-armagedão.
Eu perdi. Tudo destruído. Tudo em chamas. Desolação
interna.
Ela bem tentou dar-me o toque, mas eu nada…
– Estou cansada…
– Vai dormir um bocado – sugeri.
– Desta relação! Isto não vai a lado nenhum.
– A lado nenhum… Porque é que isto haveria de ir a algum
lado?
– Tu não percebes.
– Pois não.
Suspirou, levantou-se do sofá e foi até à janela. Parecia
entediada da vida que levávamos.
– Sabes que eu te amo, não sabes? – perguntei-lhe. Sorriu
com um sorriso deslavado.
Ela detestava que eu falasse em amor. Como é que podia
estar cansada de uma coisa que não saía do sítio? O
movimento cansa, mas pelo que vim a descobrir, a inércia
cansa muito mais.

No momento em que carregou a última mala para o
elevador, exactamente antes de me abandonar para
sempre, arrisquei perguntar:
– Alguma vez gostaste de mim? Porque é que me fizeste
isto?

– Isto o quê?
– Isto, bolas! Dares-me esperança… Porque é que não me
continuaste a desprezar, como fazias quando éramos
miúdos? Odeias-me assim tanto para me dares esperanças
e depois espetares-me uma estaca no coração?
– Olha! Acabou. Há coisas que acabam. Não vamos meter
o ódio ou o amor ao barulho. Tu nunca me percebeste.
Vivemos em universos diferentes. Nem paralelos são. No
meu universo não há cenas quando as relações acabam.
Processas a amargura e segues o teu caminho.
Fiquei assim um bocado indignado com o bafo gelado
daquela resposta. Respondi-lhe:
– Sigo o meu caminho? Só assim? Não custa nada, certo?
O meu caminho eras tu. Agora estou num beco sem saída.
Alguma vez chegaste a sentir alguma coisa por mim? Não
consigo perceber…
– Alguém conhece alguém, verdadeiramente? Alguém
percebe alguém?
– Hum…
– Ainda bem que as pessoas não se deixam conhecer. Se
todas fossem verdadeiras na exposição dos seus estados
de espírito acho que ninguém perceberia ninguém. Nem
vagamente. O mundo seria ainda mais caótico e cruel.
– Tu foste das verdadeiras?
– Não, claro que não. Eu sou das puramente caóticas. Das
ideologicamente caóticas.

Agonizo pelo facto do meu sofrimento ser a coisa mais
importante do mundo. Acima de todas as tragédias e todas
as mortes. Não quero saber das violações na Índia. Não me
importam as torturas na Nigéria. As torturas sei lá onde.
Nada disso me afecta, a não ser esta pena que tenho de
mim. Ela deixou-me. Isso é mais grave do que todo o horror
que tem lugar neste mundo. Isso é mais grave do que a
noção que tenho da minha própria maldade. A minha dor
é mais grave do que a compreensão intelectual do meu
egoísmo. O meu egoísmo não me faz doer o peito. O meu
egoísmo não me corrói como ácido. A falta dela sim.
Mói-me. Tritura-me a alma. Sinto-me como cristão atirado
aos leões, mas por uma causa vã. Ela mascou-me o
coração e depois cuspiu-o para a estrada. Coração-pastilha-elástica arrastado pelo alcatrão, de sola de
sapato em sola de sapato. Despedaçado. Pisado.
Macerado. Esmagado. O meu coração é ainda menos
biodegradável do que a pastilha. Não creio que daqui a
cinco anos esta treta já tenha desaparecido, engolida pelo
universo. Não creio. Vai continuar esborrachado
eternamente. Tenho quase a certeza.

Um dia. Um dia (para acabarmos em beleza) passou-se
isto:
– Tem marcação?
– Não – respondi.
– Hum… deixe-me lá ver se a Andy tem alguma vaga.
– Andy?

– É nome artístico.
A recepcionista foi lá dentro e voltou:
– Está com sorte. Sente-se um bocado que ela já vem falar
consigo.
Sentei-me. Estava nervoso até dizer chega. Tenho pavor de
agulhas. Até fico mal disposto só de pensar. O coração
parecia que me ia sair pela boca fora a qualquer momento.
Esse tal coração elástico, como a pastilha.
Vestido preto, curto, meio rasgado. Pernas tatuadas e
botas da tropa. Cabelo preto com madeixas roxas. Era a
Andy. Um bocadinho excêntrica, mas encantadora. Pele
branca, perfeita. Vida não muito sofrida. Eu disse o meu
nome e ela perguntou o que é que eu queria tatuar.
– Este nome, bem grande, no peito. – Mostrei-lhe um papel
com um nome rabiscado.
– Alguém importante?
– Sim.
– Quem?
– Isso é mesmo necessário?
– Os nomes são a maior causa de arrependimento em
tatuagens. Gosto sempre de avisar os meus clientes desse
facto… – Esperava uma resposta. Percebi pela expressão
facial dela que não mexeria uma palha enquanto eu não
dissesse quem era a mulher. Ainda pensei em inventar
uma peta qualquer, mas não me apeteceu.
– É a minha ex-mulher.

– Ex-mulher? Bem, essa é nova…
– Acredito.
– Divorciaram-se?
– Ela deixou-me… por outro. Na verdade, vim a saber que
durante o último ano já mantinha um caso com um colega
lá do escritório. Vidas tristes.
– E queres tatuar o nome dela? Porquê? Não percebo.
– Ela é a minha vida. Sempre foi. A rainha do meu castelo
de areia. Não tenho como fugir e não me quero esquecer.
Quero uma razão para continuar a viver. Algo que faça
sentido. Algo dela em mim, nem que seja só um resquício.
Uma memória.
Ela ficou em choque.
– Pá, não sei o que dizer a isso. Por um lado acho
fascinante, por outro parece-me patético. Desculpa...
– Não tens de pedir desculpa. Eu sou patético.
Lá fomos. Desmaiei umas 3 ou 4 vezes. Aquilo é mesmo
horrível. Desconfio que ela acabou por fazer quase toda a
tatuagem comigo inconsciente. Acordei, depois do último
apagão, já com a película aderente no peito. Pareceu-me
bem, mas reconheço que na altura não vi
convenientemente. Só queria sair dali. Cheguei a casa e
deitei-me no sofá. O peito doía-me... Fisicamente,
entenda-se. Doía-me a carne. Não era uma dor
psicossomática. Era mesmo física. Carne pisada. Costelas
agredidas. Acordei no dia seguinte bem cedo. Lavei a
tatuagem com água fria. Olhei para o espelho. Desviei o

olhar e voltei a centrar-me na tatuagem. Fiquei incrédulo.
Será que ela não percebera bem o nome? E agora? E
AGORA? O papel tinha o nome bem escrito. Eu tinha-lhe
pedido que tatuasse o nome da minha ex.: “Adriana”.
Adriana! Adriana! BOLAS! Mas que diabo fez ela? Agora
não passo de um aborto. Tenho um nome estranho
tatuado no peito. Um nome de alguém que não existe.
Fiquei sem nada. Voltei lá. Pedir satisfações, claro.
– Quero falar com a Andy – exigi exaltado.
– Tem marcação?
– Qual marcação, qual carapuça! A sua colega, Andy,
enganou-se. Eu estive aqui ontem a fazer uma tatuagem.
Pedi-lhe para tatuar “Adriana” e ela tatuou outro nome.
Quero falar com ela imediatamente.
A miúda lá foi, visivelmente atrapalhada. Abriram-se as
cortinas e a Andy saiu de lá resplandecente, com um
sorriso nos lábios. Eu abri a camisa à bruta e disse-lhe:
– O que é isto? Quem é a Andreia? Andreia? Eu queria
“Adriana”! – Gritei.
– Eu sou a Andreia – sussurrou a tatuadora. – Tens
planos para o jantar, hoje?

FIM

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