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TÍTULO ORIGINAL

100 Contos Curtos Fantásticos, de Terror, Ficção Científica, Fantasia e Outros Gêneros

CAPA

Silmara Fradico

DIAGRAMAÇÃO

Silmara Fradico

SIL

100

Contos Curtos Fantásticos, de Terror, Ficção Científica, Fantasia e Outros Gêneros

1. Ed. Charleston: CreateSpace. 2016.

229p.: 23cm

ISBN-13: 978-1533120502 ISBN-10: 1533120501 BISAC: Fiction / Short Stories

1. Ficção, 2. Contos, 3. Ficção científica, 4. Ficção fantástica, 5. Fantasia, 7. Crônica, 8. Terror.

|2016|

Todos os direitos desta edição reservados à Silmara Ramos Fradico

A cada uma das pessoas que ao cruzarem meu caminho, disseram que eu deveria escrever um livro.

Aqui está a primeira tentativa.

Prefácio

Alice foi atraída ao País das Maravilhas por um coelho branco, e hoje

eu continuo acreditando que tal magia ainda ocorra, se bem que por outros

meios; levando a diferentes mundos que levava a um esboço de livro.

A minha isca? Um convite e um link

Lembro-me que estava acomodado em minha poltrona, com os encostos esgarçados pelas unhas do gato Asimov, e alguma poeira acumulada no estofado, que nunca cedia a limpeza com um pano umedecido, quando acionei os fones de ouvido com uma trilha selecionada e imergi num mundo que não era o meu.

O terreno, e as paisagens, inicialmente comuns, seguras e

cotidianas foram se metamorfoseando a cada passo, frase e página, numa alucinação consciente, encantadora, sutil, ainda que, na maioria das vezes, terrível.

Ela havia feito da realidade sua massa de modelar. Manuseou-a de forma abusada, inteligente, sóbria, transtornando tempo e espaço, criando fragmentos de universos e existências, pessoas comuns em situações inusitadas, elementais, espíritos, seres inominados e até mesmo, alguns deuses.

Cada conto um espelho meticulosamente arranjado para despir, com seu reflexo, as máscaras da humanidade, e revelar, de forma metafórica, as mazelas sociais, políticas e econômicas. A ficção e fantasia nos mostrando o que tentamos esconder?

As páginas que divertem são, por vezes, as mesmas que nos

constrangem.

O espelho se estilhaçou, assim como em algum ponto do livro, e eu fui quem apanhou um de seus cacos. Nele ousei me submergir, interagindo com as vidas que habitavam aquele microcosmo, e saltando ao próximo fragmento logo que sentia ter compreendido o propósito daquelas existências, assim como as mensagens que imaginei que desejavam que absorvesse.

No momento que escrevo esta sinopse, me lembro de Nero, Anglia,

Bárbara, Samid, Fabrízio, Otaciano, Patsy e Michaella, além de um sem número de pessoas sem nome e suas situações insólitas; cada qual vivendo em uma pequena quantidade de linhas de formatação nada convencional, com todo efeito e simbolismo que poderiam nos proporcionar. Não estariam estas criaturas tão vivas quanto eu e você, ainda que por alguns minutos presos em um monitor, ou folha impressa, e, posteriormente, em nossas mentes e corações, até se findarem nossos dias?

Não nos conectamos à sua autora, e agora compartilhamos um universo que antes era somente dela, mas que agora, de certa forma também nos pertence e do qual fazemos parte?

A leitura continua sendo esta coisa maravilhosa que nos conecta, nos fazendo sonhar os sonhos que nossas mentes limitadas jamais seriam capazes, de ver através de outros olhos, e sentir o que nunca sentiríamos

Se agora saio de cena, deixo-os à mercê dessa caprichosa e provocativa autora. Tenho certeza que nossa anfitriã não os decepcionará!

Anderson Dias Cardoso

Índice

Prefácio, 04

Quando Eles Vieram, 09

A Pulga do Caos,11

Sozinho, 13

Eva, 15

A Lenda da Espada Partida, 17

Voar, 19

O Ingrediente que Faltava, 21

Acontecimentos Sem Valor, 24 Há um Fantasma na Casa da Tradicional Família Borges, 26 Presença, 28 Mamãe, 30 Num Canto Afastado, 32

Paz e Felicidade a Todos!, 34 Stalker, 36 Diálogo no Bar, 38

O

Toque, 40

O

Reino Encantado, 42

Um Cético Precisa Ter Fé, 44

Músculos, 46

Iltda., 48

Batidas na Parede, 50 Felpudo, 52 Magnum Opus, 54

Premonição,56

Sobre Como a Antiga Estrada para Gatar Desapareceu, 58

Fuga, 60 Vendendo a Alma, 62 Super-host, 65 Empatia, 68

Uma Outra História da Pata de Macaco, 70 Não é o Que Parece, 72

O Lago Feito de Vozes, 74

Experimentando, 76 Notícias, 78 Alguém, 80 De Vliegende Hollander, 82 Matinê, 84

Revolta!, 86

Criar, 88

O

Próprio Velório, 90

O

Refugiado, 92

Cubículo, 94

Possuído, 96

O Contratante, 98

Substituto, 100 Mais Uma Noite, 102

A Cidade que Encolheu, 104

Assassinato no Quarto Trancado, 107 Vivos, 110

A Morada Abandonada dos Deuses, 112

Como Nascem os Mitos, 114 Emergência, 118

O

Invento, 120

O

Novo Ciclo, 122

As Últimas Esperanças, 125 Paredes, 127 BRAS, 129 Se Você For, 131

Detetive Cauthon e o Trem de Brinquedo, 133 Osiander e o Sábio dos Ventos, 136 Musa, 138

O Mortuário, 141

Sinceridade, 143

Cor, 145

Gólem, 147

O Livro de História, 149

Conversas na Escuridão, 151 Sinos Tocando, 153 Normal, 155 Selva de Pedra, 157 Looping, 159 Prazo de Validade, 161 Os Ermitões, 163 Etéreo, 166 Como é Morrer, 168 Apenas Um Cão!, 170 Barulho, 172 Baratas, 173 Longelícia, 175 Extinção, 178 Orco, 181

O Homem na Mesa ao Lado, 183

Selenarios, 186

Herculano, 188 Virtual, 190 Um Conto Sobre o Apocalipse, 192 Maldito, 194 Muro, 196

O Velório, 198

Iris e Seu Pai, 201

O Autômato do Porão, 203

Três Vivas Para o Grande Mago, 206 Absorvendo, 208 Glória!, 210 Aquele que Caminha Entre as Fileiras, 212 Os Três Desejos, 214 Derradeiro, 216 Reptiliano, 218 Intruso, 220 Três Vezes Três Vezes Três Vezes, 222 Posfácio, 224 As referências contidas neste livro, 226 Índice Remissivo, 227

Quando Eles Vieram

Seria um dia como outro qualquer, com uma grande tragédia anunciada pelos boletins urgentes das grandes redes de notícias internacionais. Com aquela vinheta de alarme, que assusta qualquer um. Mas nós já esperávamos por aquilo. Não aquilo. Não o que nos foi revelado. Mas esperávamos por algo. Desta vez a vinheta não trouxe apenas um susto. Há meses eu olhava para o céu centenas de vezes num único dia. É inevitável imaginar que muitos outros além de mim assim fizeram. O que eu realmente esperava era que nada surgisse. Minha esperança era não ter pelo que esperar. Contudo, segundo todos os indícios de cada uma das agências espaciais ao redor do mundo (sim, cada uma delas), nós tínhamos muito o que esperar. E esperamos. Vinte e sete longos meses.

Começou no dia 09 de março de 2018. Este dia tornou-se inesquecível e em algumas partes do mundo até mesmo foi feriado no ano passado. A Estação Espacial Internacional, recém-recolocada em órbita recebeu sinais de nossa sonda mais distante. Na atual conjuntura dos fatos nada é impossível de acreditar, porém naquela ocasião o ceticismo era a moeda corrente e na verdade quem ainda se lembrava com frequência das queridas Voyager 1 e 2? Lá estão elas, firmes e fortes no espaço, distantes anos-luz da maior distância jamais alcançada por qualquer ser humano. Ou talvez não. E sabe, agora me pergunto se eles chegaram a de alguma forma interceptar uma das irmãs e ouvir o disco. Enfim, até o momento em que escrevo este último relato as informações são de que as sondas permanecem viajando pelo espaço. Saber que eles não interromperam o percurso das sondas nos fez assumir inicialmente que viriam em paz.

Não houve até hoje, dois anos e três meses depois, nenhum único tipo de ataque. E para nossa apreensão, também nenhum contato. Silêncio absoluto. Foi o que levantou as suspeitas das potências militares com o passar dos dias. A primeira hipótese: alarme falso. Muitos defenderam esta possibilidade por semanas. Não tínhamos como averiguar. Enviar outra sonda além dos limites do sistema levaria anos, mesmo com a tecnologia atual. Uma sonda não se constrói em uma semana. Logo não é de estranhar que muitos tenham desacreditado da possibilidade de que uma das irmãs tivesse “esbarrado” em um objeto voador não-identificado. E claro, ainda menos, que este suposto óvni possuísse qualquer aparato de comunicação. Até que outras sondas, mais próximas, também “viram”. Sim, eles estavam se aproximando.

Cada vez mais aparelhos identificavam a presença de diversos objetos flutuando pelo espaço, dentro do Sistema Solar. Nosso território. Desde sempre fomos os únicos por aqui. Ou pelo menos desde quando importava: nossa consciência como habitantes do universo. Enviamos sinais. Nenhuma resposta. Assumimos, então, que seriam hostis. E cada vez mais provas concretas de que seríamos visitados chegavam. Agora tínhamos sons, imagens nítidas. Imagens. Nítidas. Fotos incontestáveis de uma frota,

como poeira passando ao lado de nosso senhor supremo do Sistema Solar. Por que nosso deus maior Júpiter não os sugou para o interior dantesco do olho de seu furacão permanente? Muitos cientistas estavam, e não duvido que mesmo agora estejam, empolgados com tamanha tecnologia, com a possibilidade do contato com uma raça alienígena capaz de cruzar galáxias o universo inteiro, talvez? E este contato, esta raça, seríamos nós, a primazia de Gaia. Apesar do que sustentavam os militares, e também cientistas, muitos de nós alimentamos o desejo de que fossem pacíficos. Porém, havia o silêncio.

09 de junho de 2020. O dia em que eles chegaram. Hoje, cerca de 40 minutos atrás.

A porta da pequena nave que desceu até nós, trazendo o líder provável comandante da frota, se abriu. E apenas sua imagem é suficiente para sabermos que não vieram em paz. É impossível entender qualquer palavra dita por eles. Mas cada um de nós é capaz de reconhecer uma voz. Voz. Ao abrir da porta, a primeira imagem de seu líder banhado pelo nosso sol. Soubemos imediatamente que estávamos aniquilados: eles eram humanos. Sim. Humanos. E sendo humanos, por qual motivo não seriam humanos exatamente como somos nós?

A Pulga do Caos

Séculos atrás um homem caminhava pelas ruas da Grécia. Uma

pulga picou-lhe o pé, pelo que abaixou-se para se coçar. Um jovem que corria, com couraça, escudo e espada, não o viu no meio da rua, trombaram

e o rapaz se machucou. Não podia ficar em pé.

- Minha Ariadne me espera, diga que Teseu o enviou.

- Mas sou velho para o sacrifício!

- Cubra o rosto, não tenha medo. Hoje ninguém morrerá!

O homem improvisou uma máscara com parte de sua toga, vestiu a couraça como pôde e seguiu para o labirinto. Misturou-se aos jovens que tentavam não chorar na frente das moças. Entre as donzelas, identificou uma que parecia aflita procurando alguém.

- Princesa?

- ?

- Teseu me enviou!

Sem dizer uma única palavra, Ariadne colocou em suas mãos um novelo de linha.

Semelhante novelo o minotauro entregou à esfinge horas antes.

-

Mas

!

- Faça-me este favor, tenha esta gentileza. Preciso de meu elixir para o

estômago uma vez por ano. Porém o médico que me faz a mistura não veio. Estava velho, acho que morreu. De qualquer forma, tenho que ir antes que venham as crianças. Segura este novelo. Vou sair e puxar a ponta, se precisar sair também, basta seguir a linha. Sei o caminho de cor, mas você,

caso se perca, poderá morrer de fome e sede por aí.

Fora do labirinto, o minotauro encontrou velhos conhecidos e atrasou-se. A esfinge olhava seu relógio de sol de tempos em tempos, e já escutava o clamor do sacrifício ao minotauro através das paredes. Que remédio? Sentou-se com toda a pose e aceitou seu papel naquela tragédia grega. Então vieram os catorze mancebos. Ou treze. Entre eles havia um homem já maduro, que pensava enganar alguém com um pano sobre o rosto. Os catorze mortais estancaram frente à esfinge. Quem tinha armas sacou- as. Um silêncio de tensão enchia o ar enquanto os jovens esperavam pelo golpe mortal.

- Decifra-me ou devoro-te.

O silêncio deu lugar ao burburinho da confusão. Ninguém esperava

por um enigma, apenas sangue, dor e morte. Pouco a pouco, todas as cabeças juvenis viraram-se para nosso amigo do início desta narrativa. O sujeito empertigou-se. Aquele era seu dia, venceria a esfinge, ganharia a admiração daqueles jovens e conseguiria algum tipo de recompensa dos atenienses.

- Um homem!

- Que disse?

- A resposta para a charada: um homem.

- Mas não lhe disse charada alguma!?

Os olhares súplices dos jovens tornaram-se olhares de censura.

A esfinge chamou a atenção de volta para si, com um pigarro.

- A pergunta para qual almejo uma resposta é: quem de vocês é capaz de dizer-me três verdades?

O homem ergueu a cabeça, pensativo. Gesto que fez metade das

moças começarem a chorar.

- Três verdades? Bom

sido picado por uma pulga no dia de hoje. A segunda é esta: os atenienses preferiam ter vencido a guerra. E a terceira é que você gostaria de não estar neste labirinto agora.

a primeira é que eu gostaria de não ter

que tal

A esfinge, aprovando a resposta, sentiu-se um pouco confusa sobre

como proceder em seguida.

- Po-podemos ir agora? Estamos livres? um dos jovens juntou forças e perguntou.

- Bem

estão livres para ir!

a esfinge fingiu um ar de importância e segurança declaro que

Os jovens seguiram o homem, que usou o fio do novelo de linha. Como devem se lembrar, haviam dois fios, mas estavam tão aturdidos quando entraram no labirinto, que só perceberam quando já era tarde. Estavam quase do lado de fora, e corriam conforme se aproximavam do final. Na última curva, os primeiros da fila trombaram com o minotauro, que devorou estes, os que estavam no meio, também os que vinham atrás, e até o nosso amigo que se encontrava ali por culpa de uma pulga.

Sozinho

O apartamento parecia estar no mais absoluto silêncio. Porém, de

tempos em tempos era possível ouvir os suspiros de Nero. Através da porta envidraçada da varanda, observava a cidade, com seus ruídos urbanos,

lá embaixo. Sentia-se completamente abandonado. Mais um

suspiro e levantou-se para comer. Não estava com fome, mas o que mais

faria? Bebeu também bastante água. Pensou em jogar. Com quem? Bibiana

o abandonara horas antes. As imagens de sua Bibiana saindo pela porta,

todas as outras vezes em que o deixara para sempre, mas voltando tempos depois, não eram suficientes para apaziguá-lo. Desta vez, tinha certeza: ela se fora. Deixara-o.

distantes

Nero repassou em sua cabeça todos os últimos dias pelo menos da melhor maneira que sua memória permitia. Tinha certeza de que nada, absolutamente nada fizera de errado. A casa estava sempre em ordem, como haviam combinado. Como Bibiana gostava e pedia. Não deixava suas coisas espalhadas, não reclamava da comida. Seguia até a dieta que Bibiana inventara. “Eu acho você bonito, mas precisa emagrecer, não pode envelhecer com sobrepeso, é perigoso.” Então tudo bem, vamos a tal dieta. Nada de massas, nada de gordura, tentou inclusive e quando alguém imaginaria que ele seria capaz? incluir frutas na alimentação. Frutas eram tão sem-graça. Algumas eram inclusive secas. Nenhuma era doce como um sonho, um bombom, um mousse. Mas tudo para agradar Bibiana.

Andou lentamente pelo apartamento. Cada móvel o fazia lembrar de Bibiana. Na verdade, suas lembranças todas incluíam Bibiana. Que faria sem ela? Como sair de casa sem ela, comer sem ela, divertir-se sem ela, viver sem ela? Nero era absolutamente dependente de sua Bibiana. A pior parte de seu abandono era imaginar que ela teria outro alguém. Que todos os cuidados, todo o carinho, toda a atenção de Bibiana agora pertenciam a outro. De um dos apartamentos vizinhos podia-se ouvir, baixo porém perceptível, Paralamas do Sucesso e sua “Ela Disse Adeus”. Apropriado para

o momento. Nero, contudo, não prestava a menor atenção à letra. A memória

de Bibiana atormentava-o. E era tudo em que podia pensar. Não fossem os últimos momentos que passaram juntos repetindo-se em loop em sua cabeça, teria notado que sua dependência de Bibiana não era recíproca. Ele sem ela era ninguém. Ela sem ele era uma instrutora de softwares gráficos, mestranda de comunicação visual, praticante de pole dance, filha, irmã de três sujeitos. Nero era dependente até mesmo da família de Bibiana. Não tinha mais ninguém. E realmente gostava dos três irmãos dela. Tão sensacionais quanto. Os amigos de Bibiana eram também os únicos que tinha. Se ela não voltasse como das outras vezes, ele ficaria completamente abandonado. Só.

Chorou. Primeiro apenas em sua cabeça. Revivendo momentos que já sabemos com certeza ao lado de quem estava. Depois chorou baixinho. Aninhado no sofá, encolhido. A cabeça despencada. O corpo balançando

como o de uma criança que soluça. Por fim, chorava alto. Um escândalo.

Ainda mais encolhido no sofá. Posição fetal. Que lamentável! Mas sentia-se indubitável e irreversivelmente desamparado. E talvez esta fosse a razão. Dependia demais. Tentava agradar demais. Colocava-se demais ao total cuidado de Bibiana. Era uma criança chorona e mimada. E agora incomodava os vizinhos. Bibiana ficava furiosa e envergonhada com a ideia de incomodar os vizinhos. E Nero sempre de alguma forma providenciava

e se a última vez

para que acontecesse. No fim era sempre perdoado, mas

tivesse sido a gota d’água? Se tantos motivos tivessem se amontoado e desta vez ela se cansara?

Nero endireitou o corpo, sentado no sofá. Olhava para a porta. Tudo o que desejava era que se abrisse e por ela passasse Bibiana. Feliz, sorridente, com um presente para ele. Não, não precisava de presente,

Não,

apenas voltar. Mas sempre que voltava lhe trazia um presente. Então

não, apenas abrir a porta e ser sua Bibiana outra vez. Ela era seu deus. Ele era ninguém, não merecia, mas daria tudo para tê-la de volta. Bibiana era sua vida. Então, a maçaneta pareceu se mexer. Seria possível? Ergueu a cabeça fitando a porta. Aquele realmente parecia o perfume de Bibiana. Ouviu vozes. Sim, lá estava ela, atrás da porta. Pôs-se em pé de um salto:

queria agarrá-la tão logo entrasse. Ela não gostava, nunca gostara, reclamava todas as vezes. Mas ele não podia evitar. A maçaneta girou por completo e alguém abriu a porta. Bibiana!!

Saltou sobre ela.

- Neeerooo

lindo!! Não, não, pro chão, pro chão

o que eu já falei? Assim

você me machuca. NÃO, NERO. Nãããããoooo

ME LAMBER

Todo o dia eu saio

e você

sentado! Sentado!! PÁRA DE parece até que eu fiquei uma

semana fora

calma, calma. Isso, bonzinho, bonzinho

Olha o que eu

trouxe pra você? Você gosta? Você quer? Você quer? Fofinho!!!

Nunca na história deste nosso mundo um cachorro fora tão feliz quanto Nero naqueles poucos segundos.*

*Exceto todos os outros cachorros e o próprio Nero cada única vez que seus donos voltaram para casa.

Eva

“Solicitamos a todos certificarem-se que cada criança e todas as pessoas que necessitam de auxílio especial para se locomover ou utilizar o transporte até a colônia itinerante mais próxima, estejam seguras e portando seus documentos no momento de embarque. Pedimos também a todos que abandonem seus animais de estimação e demais pertences. Nossos veículos intergalácticos possuem todo equipamento e acomodações necessárias para a segurança e conforto durante a viagem e permanência.” Olhando em volta, para o desespero de seus vizinhos, agradecia a seu pai pela previsão que fizera anos antes, enquanto crescia. “Nada de animais. Pra que vocês acham que estão fabricando essas naves monstruosas? Vamos abandonar este lugar e zarpar antes que seja tarde demais para nós.” Setenta anos. Fora o tempo necessário para construir todas aquelas centenas do que eles chamavam colônias itinerantes. Cada nave possuía o tamanho de uma pequena cidade. E eram autossustentáveis. Durante aquelas sete décadas pessoas em todos os cantos do mundo foram, mais do que instruídas, adestradas para a vida nas colônias. Já que as colônias seriam tudo o que elas teriam geração após geração. Sair do planeta não era certeza de sobrevivência. A lista com os nomes dos 100 primeiros astronautas voluntários, de todas as partes do globo, figurava na memória de todos. Os primeiros casais. Duzentos anos atrás, decolaram da estação espacial que orbita Urano nosso deus-pai e partiram em direção ao desconhecido através de um buraco de minhoca que os lançaria bilhões de anos-luz distantes de nosso sistema. Uma missão suicida. Mas lá estavam eles. Após muitos dias do mais absoluto e enlouquecedor silêncio apenas para as agências espaciais, os cidadãos se esqueceram de tudo após dois ou três dias de hype nas redes sociais eis que vem o primeiro contato. Todos bem. Os instrumentos indicavam haver um sistema solar próximo algumas centenas de anos-luz. E era isso. Seus filhos, netos e bisnetos vieram. Aprenderam o ofício de seus pais e continuaram. Navegando, navegando. Procurando um lugar para nossa raça. Mas não havia mais tempo para esperar. A cerca de 400 anos o crescimento da população vinha diminuindo drasticamente. Não devido ao aumento da mortalidade decorrente das crescentes guerras ou da degradação do meio-ambiente. Não. Um consenso fora necessário. Os líderes se reuniram e decidiram: trégua. Trégua nos conflitos, trégua para a natureza. Trégua para a natalidade. Doze bilhões de pessoas. Impossível. Nem mesmo com toda a tecnologia disponível. Nem mesmo com o provável avanço futuro da tecnologia. Leis e decretos vieram. Controle, fiscalização. É NECESSÁRIO. Somos nós contra o resto do universo. Contra o caos da casualidade. Ele nos trouxe até aqui e não iremos embora. E todos torcem para que o planeta aguente só um pouco mais. Por favor, não temos lugar para onde ir. Não agora. Precisamos ficar um pouco mais. Já estamos de saída. É só uma esticadinha no prazo. Novos estatutos foram feitos. Novas constituições. Novas leis. Tudo o que pode e o que não pode dentro das colônias. Quando partimos? Breve. Quantos vão caber? Não sabemos. Ninguém será deixado para trás. Dez bilhões. Oito bilhões. Cinco bilhões. Três bilhões e 800 milhões. Nossa espécie vai desaparecer antes que

possamos encontrar a salvação? Então estações espaciais em volta da Terra

e dos planetas vizinhos foram sendo construídas. Uma agenda de

lançamento se fez. Enormes ônibus espaciais decolavam em diferentes datas

de diversos pontos da terra em direção às estações. De lá para as colônias

itinerantes. Então para a estação em Urano. E finalmente o buraco de minhoca. E adeus Sol. Para onde? Para onde tivermos notícia de que possamos viver. Em quase meio milênio é impressionante como a vida na terra mudou. Mas nós estafamos o solo. Extinguimos muitos animais. Esgotamos os minerais. Secamos tantos rios. Ainda assim eles vieram. Aqueles dentre os quais restaram, vieram. Observavam de longe as famílias deixarem mobílias e memórias para trás. Seus cães, gatos, lagartos. Cada criança, que triste pegava um ônibus ou ia de carro até a estação de lançamento mais próxima. Ser astronauta deixou de ser um sonho. As escolas agora tinham treinamentos especiais. E os cientistas tiveram que responder “como transportar um bebê em uma viagem espacial?” Todos foram decolando, subindo para longe. Observados pelos animais. E o último a sair não tinha uma porta para fechar ou uma luz para apagar. Apenas a promessa de não errar nunca mais. E um pedido de desculpas entalado na garganta.

A Lenda da Espada Partida

A Ordem do Fogo foi uma sociedade de guerreiros semelhante ao antigo Culto de Mitra. Homens eram convidados e iniciados após passarem

com honra pela provação da batalha e sobreviverem com destaque. Pertencia

à Ordem um dos guerreiros mais lendários dos quais já se teve notícia,

Tristan Kernow, capaz de defender seu rei com qualquer arma que lhe colocassem à mão. Ou mesmo sem arma alguma. Sobre ele, diziam que era filho de um guerreiro abissínio e de uma mulher dinamarquesa todos sabem que as mulheres dinamarquesas também iam à guerra, mas os

cristãos escondem essa verdade de suas mulheres, para que não tenham ideias.

Tristan teria sido treinado tão logo aprendera a andar, enquanto seu pai retornava para casa após ter lutado muitas vezes, tanto por bretões, quanto por saxões ou francos, em busca de tesouros; e depois, quando já mais velho, mas ainda menino, retornara sozinho com a esperança de reencontrar sua mãe na Irlanda tomada pelos vikings. Ao lado de sua mãe,

e talvez de meio irmãos, lutou pelos dinamarqueses até conquistarem as

terras ao norte e a leste da Europa, onde o frio é ainda mais intenso do que na terra natal dos vikings, e os homens, assim como eles, falam uma língua que não foi modificada pelos romanos. Tristan, um guerreiro tão espetacular, voltara para casa no litoral. Casou-se e jurou lealdade a um rei

cristão, mas não perdeu sua habilidade com as batalhas, até que morreu a morte como almejam todos os guerreiros.

Esta é a história de sua morte, e do que dela resultou: um dia, após muitos meses de cerco a um castelo, Tristan e seus companheiros finalmente tinham conseguido derrubar parte do muro e entrar. Estavam cansados e com fome, pois era difícil ao rei enviar provisões a um exército tão distante de suas terras. Muitos foram para casa pois tinham contraído doenças enquanto cercavam a cidade. Outros escondiam as tais doenças para não serem obrigados a voltar, pois não teriam para onde, a esperança do saque era o que movia estes homens. Agora lá estavam, no interior da cidade.

Tristan não entrara com os primeiros pois sabia que o banho de óleo

fervente seria sucedido pela saraivada de flechas ou lanças, e esperou. Após

o suplício dos mais precipitados, adentrou os muros e usou sua espada

quando viu que guerreiros inimigos corriam pelas ruas, deixando as mulharas. Sacou sua espada e brandiu-a em todas as direções. Espadas e lanças, bem como mãos, capacetes e também cabeças voaram e esguicharam sangue por todo o caminho onde passou Tristan. Um cavaleiro

pesado vinha em sua direção, seu cavalo veloz descia a rua depressa. Tristan cravou sua espada no peito do homem ao seu lado, jogando seu corpo que ainda se debatia no caminho de um cavalo, que tropeçou e virou com as patas para o ar, arremessando seu cavaleiro longe. Um companheiro de Tristan pegou um machado próximo e decapitou o adversário que caíra com

o rosto virado para o chão. Nosso guerreiro soltou sua espada do cadáver que jazia sob o cavalo. Ergueu o animal, verificando que as patas

estavam boas.

- Guarde este cavalo para mim! gritou para um menino que apareceu

tremendo de trás de uma árvore e sumiu o mais rápido que pôde com a

montaria.

Tristan seguiu pela cidade. Queria criados, damas de companhia, tecidos finos e joias para sua esposa. Queria ouro para enterrar com todo aquele que já escondera. Queria glória, que chegasse às distantes e ensolaradas terras do sul, onde vivia ou vivera seu pai. Em meio ao choro

de crianças e mulheres e berros de soldados e homens religiosos, Tristan viu um que, sentado em um muro baixo de pedras, não parecia se importar com

o caos. O homem possuía uma arma, mas não parecia ter intenções de usá-

la. Apenas observava Tristan calmamente. Ao cruzar os olhos com o olhar

plácido do estranho, Tristan sentiu a lâmina traspassar-lhe o tronco. Um gosto quente e viscoso de ferrugem encheu sua boca, enquanto sentia a espada fazer o caminho inverso e uma mão empurrá-lo pesadamente para o solo. Viu o homem calmo se levantar e caminhar em sua direção. Já estava no chão quando um par de pés apareceu muito próximo aos seus olhos. Era

o homem. Sabia quem era o homem, e por isso mesmo estendeu seu braço

com grande esforço e pegou uma espada próxima. Sua espada? Não importava, não seria levado pelo Ceifador. Pôs-se de joelhos e cravou-lhe a arma no ventre. Nunca imaginou que a Morte tivesse sangue, mas acreditou quando o viu encher a lâmina da espada e escorrer para o chão. O Ceifador apenas partiu a lâmina, tomando o que sobrara da mão de Tristan e jogando longe. Tocou a testa do guerreiro e este foi o fim de nosso célebre herói, morto

a fio de espada pelas costas. O que sobrou da espada partida até hoje preserva o sangue do Ceifador. Ninguém sabe seu paradeiro, mas de tempos em tempos surgem boatos de que foi usada, e sobre como mata e destrói tudo em que toca sem nunca falhar.

Voar

Um menino era considerado pelos parentes e professores e certamente quase todos os colegas de classe muito bobo para a idade. Sua irmã mais velha, por ser realmente muito madura, ou por acreditar quando dizem que as meninas são mais maduras, vivia pregando-lhe peças e aproveitando de sua ingenuidade.

- Queria viajar no tempo, como o Doutor!

- Sabe que você pode, não é?

- Posso?

- Se me der dinheiro sei onde vendem dessas cabines.

- Mas a Tardis não é desse mundo!

- Isto é o que dizem na TV

Preciso de quarenta reais.

E assim se divertia e explorava o pobre menino. Um dia decidiu que além de aprontar com ele, daria um jeito de se livrar daquela pilha indesejável de gibis que abarrotava o quarto que dividiam.

- Sabe que pode voar, não sabe?

- Mentira. Desta vez não vai me enganar.

- Verdade

ciência esconde de nós.

li num desses sites de curiosidades

sobre as coisas que a

-

Eu conheço todos os bons sites de curiosidades.

-

Este está em inglês, é por isso que você nunca leu.

-

Tanto faz, é mentira.

-

É uma

coisa com alquimia. Sabe? Esse lance de dar uma coisa

correspondente.

- Troca equivalente.

- Isso, troca equivalente. Você sacrifica alguma coisa e aí voa.

- Fácil assim? Nossa, que mentira.

- Não é fácil assim. Pra voar você tem que pular e errar o chão, daí se

sacrificar alguma coisa muito valiosa pra você, vai conseguir errar o chão.

Sem a troca, pula e dá com a cara no piso, com a troca, você erra o chão e voa.

- Se for mentira, dessa vez vou contar pra mãe!

Muito a contragosto, o menino fez uma pilha no banheiro, dentro do box, e pôs fogo em tudo, enquanto a irmã observava satisfeita e triunfante.

- Bom, agora é hora de pular e errar o chão.

- É cair e errar o chão.

- Isso, cair e errar o chão.

- Péra

falta uma coisa.

O menino saiu e voltou com uma toalha amarrada ao pescoço. A

garota revirou os olhos e engoliu um suspiro.

- Tá, então vai lá.

O garoto tomou fôlego, fechou os olhos, estendeu os braços, se jogou

no chão e saiu voando pela janela.

O Ingrediente que Faltava

A neblina que permeava a floresta estava

atipicamente densa e úmida para uma manhã de primavera, mas Anglia sabia que o momento ideal para conseguir teias de

aranha pintada do musgo era o amanhecer. Tinha todos os demais ingredientes para sua poção de vento. Penas de garça azulada, casulos de bicho-da-seda e fibras de algodão. Na verdade, estava plantando algodão em sua casa a alguns meses, já que era estritamente necessário que as fibras fossem recém-colhidas.

Seguia seu caminho calmamente, desviando de galhos, raízes altas

e insetos. Então sentiu que não estava só. Virou bruscamente na direção

onde pressentira o movimento e observou em silêncio. Movia os olhos com rapidez, respirando tão silenciosamente quanto podia. Fshsh. Algum animal farejava o ar. Não se enganara. Tinha companhia. Contudo, alguns segundos

se passaram e não havia nada além de silêncio, pelo que Anglia voltou a caminhar discretamente, desta vez, ainda mais alerta. Pensou ter ouvido passos atrás de si. Segurou seu cajado. Poderia lançar um feitiço ou simplesmente acertar a besta. Virou-se, tentando surpreendê-la.

- Onzhi!! Anglia abraçou o cachorro que atirou-se contra seu corpo. Não pedi pra você vigiar a loja de poções? Tudo bem, tudo bem afagava sua cabeça mas você precisa se comportar. De verdade.

Os dois seguiram pela floresta um pouco mais apressados, precisavam chegar ao mercado local antes que o sol despontasse totalmente. Quando o mercado começasse a funcionar, magos, bruxas, sacerdotes, feiticeiras e mágicos de toda sorte surgiriam dos arredores e esgotariam as teias de aranha pintada do musgo. Muito comuns em receitas de poções. Muito raras fora dos livros. Anglia ia tateando o amuleto de pedra porosa de Candrar.

Antes mesmo de se afastar das últimas árvores da floresta pôde divisar o mercado e alguns comerciantes que já ajeitavam suas mercadorias e barracas. Também era possível ouvir a conversa de vendedores e empregados das lojas que circundavam o espaço ocupado pelas barracas. Anglia aproximou-se segurando seus pertences junto ao corpo. Mesmo àquela hora da manhã, era possível que trombadinhas tentassem lhe roubar. Olhou em volta do espaço cujo chão ficava cada vez mais repleto com sacos de areia trazida dos lugares mais distantes a leste e sul do mundo conhecido.

Argila para gólem, insetos para alimentar morcegos, frutas exóticas,

plantas carnívoras

barracas, que também comportavam artefatos pendurados em suas armações: amuletos, chapéus, lenços, túnicas e teias. Mas estas não eram as cobiçadas teias procuradas por Anglia. Teias de aranha pintada do musgo eram muito frágeis daí o motivo para serem usadas na poção de vento, logo ficavam confinadas em locais escuros e úmidos. Guardadas em potes lacrados do barro mais escuro que se pudesse encontrar. Portanto, era preciso esperar as lojas abrirem. Na verdade, já sabia a qual loja iria e o que negociaria em troca. O sol estava quase nascendo. Batia o pé com aflição. Quem gosta de esperar, afinal?

uma infinidade de materiais cobria o tablado das

- O que vai ser?! finalmente a loja abrira e Anglia teve a passagem interditada por um empregado mal-humorado.

- Faço negócios apenas com Yafé.

A citada Yafé, reconhecendo a voz de Anglia, apareceu, vinda dos fundos da loja.

- Anglia!!! Parece que cresceu nas últimas semanas!!

- Minha avó tem dito o mesmo. Vim buscar

- Oh, sim, sim. Onde está aquele seu cachorro terrível?

- Onzhi. Ao ouvir seu nome, o cão entrou com estardalhaço na loja, para

desespero de Yafé. Você pode trazer para mim, por favor? Pretendo usar ainda hoje.

- Huuum

- Sim, mas eu tenho uma sala especi

sabe que não é aconselhável abrir o pote enquanto há luz do dia?

- Sua sala especial, embaixo da casa

ou fria o bastante

Ainda assim não creio que seja escura

?

Bem, volto já com suas teias. Você trouxe

Anglia apenas puxou o medalhão de dentro de sua túnica e exibiu- o. Yafé ergueu as mãos com os olhos brilhando e virou-se depressa, voltando aos fundos da loja. Anglia ficou parado olhando em volta enquanto o empregado mal-humorado tentava controlar Onzhi e evitar que este quebrasse algo.

- O senhor poderia pedir ao cã

MALDITOOO

Onzhi, que era um cachorro amigável, porém esperto o suficiente para entender que os homens, geralmente, têm medo de garras e dentes. Principalmente quando emoldurados por pelos.

OH NÃO, NÃO AFASTE-SE DAÍ!!!

OOOOOH. o pobre garoto correu para fora, perseguido por

Anglia divertia-se observando o cão, que voltara para dentro da loja, ainda perseguindo o rapaz.

-

HAHAHAHAHAHA. Muito bom, Onzhi

não vá machucá-lo muito

Quando Yafé voltou, muitos potes estavam esmigalhados em milhares de pedaços mas o amuleto certamente cobriria o valor das teias

e da louça. A cena seguinte seria cômica, não tivesse sido trágica. Yafé estendia o pote com as preciosas teias para Anglia no exato momento em que seu jovem funcionário abaixava-se tentando esquivar-se de Onzhi, que só não acertou em cheio o rosto da lojista com as patas, porque esta, no mais natural dos reflexos, soltou o pote para cobrir a face com as mãos, quase ao mesmo tempo em que um desesperado Anglia contemplava o pote de barro escuro espatifar-se no chão, apresentando a luz do recém-nascido sol às teias de aranha pintada do musgo, que se desfizeram sob o olhar do inconsolável bruxo. Ao término do curto milésimo de segundo em que todos tentavam recuperar-se do desastre chamado Onzhi, a primeira voz que se ouviu foi a de Yafé, que encarava Anglia.

- Quebrou, pagou.

Acontecimentos Sem Valor

Um, dois, três. Quatro passos e estava no meio da calçada. A tarde sequer estava na metade, mas tivera um dia cheio até ali. Pegaria o carro no estacionamento e iria para casa. Queria descansar mas duvidava um pouco de que seria capaz. A empolgação com o projeto fluía torrencialmente pelo seu corpo. Mais provável era que trabalhasse um pouco mais, desenvolvesse mais um pouco.

Todos estes pensamentos lhe ocorreram em milésimos de segundo, enquanto prestava atenção aos carros. Estava um pouco distante da faixa de pedestres, mas a rua não era tão movimentada. Planejava atravessar ali mesmo. O que foi aquilo? Por instantes sentiu que imaginava coisas, porém, deu por conta de que era real: todas as pessoas na calçada, até onde podia enxergar, atravessaram a rua ao mesmo tempo.

“Bem, não precisa necessariamente representar algo

Mas

Girou o corpo para frente e para trás, observando. De fato, a calçada esvaziara completamente. De repente todos correram para o outro lado da rua, como se algum dos prédios daquele lado estivesse pegando fogo, ou um carro tivesse subido na calçada. Ou ainda como se alguém armado brandisse um revolver no meio da multidão. Mas olhou em volta mais uma vez e teve certeza: nada demais acontecia. E também ninguém, aparentemente, notara que apenas uma pessoa restara do outro lado. Tirando o fato de que atravessaram todos exatamente ao mesmo tempo e, isto também chamara sua atenção, ninguém atravessara do lado oposto para cá, as pessoas simplesmente seguiam suas vidas normalmente. De fato, agora alguns poucos saíam dos prédios ou apareciam das esquinas e novamente a calçada ia se enchendo.

Endireitou o corpo, soltou um breve suspiro e decidiu que iria até a faixa de pedestres. Ainda que absolutamente nada de especial tivesse acontecido, fora muita loucura para um espaço tão curto de tempo. E para uma situação tão corriqueira. Melhor garantir a própria segurança. Era apenas atravessar a rua, pegar seu carro estacionado do outro lado e ir para casa.

A travessia aconteceu sem mais problemas não que anteriormente algum tivesse se passado, pelo menos nada além de sua imaginação fértil. Caminhou alguns passos pela calçada e, que estranho, tinha certeza de que deixara o carro em outro lugar! Mas, bem, aquilo fora mais cedo e a rua estava quase completamente vazia àquela hora. Agora com mais carros, era óbvio que estranharia o novo cenário. E ainda carregava a forte sensação do evento anterior. Evento que só acontecera em sua cabeça. Tirou as chaves do bolso e se inclinou na direção da porta.

“Ué

mas

vamos carrinho, qual o problema?!”

Ajoelhou ao lado da porta, forçando um pouco mais.

“Vamos!! Vamos!!!”

Apoiou-se na porta, para levantar. Então, olhando para o interior do carro, percebeu. Por isso a impressão de que estacionara o carro em outro lugar: estava tentando abrir o carro de outra pessoa!! Olhou em volta, com apreensão. Será que alguém notara? O dono ou dona do carro? Novamente, todos em volta cuidavam de suas próprias vidas. O curso da existência seguia tranquilamente.

Caminhou apressadamente na direção do carro certo. Encontrou-o. Abriu depressa a porta. Inclinou o corpo para entrar, mas antes. Bem, depois daqueles últimos minutos, era mais seguro checar o banco de trás e até mesmo, ah, não era paranoia!! O porta-luvas e se não teria nenhuma bomba embaixo do banco. Sentou-se atrás do volante, respirou fundo. Soltou uma sonora risada. Mas que espalhafato só para pegar o carro e ir para casa!!!

Há um Fantasma na Casa da Tradicional Família Borges

Há um fantasma na casa da tradicional família Borges. Às vezes ele descansa por longas décadas, e todos pensam que se foi. As crianças crescem, casam ou simplesmente vão embora envelhecem e têm seus filhos. Então quando estão no leito de morte, o fantasma reaparece, atirando copos nas paredes, arrastando móveis, fazendo barulho dentro dos guarda- roupas e aparecendo em vultos embaixo das camas e nos espelhos. Permanece vários anos atormentando a nova geração, então desaparece, e o ciclo recomeça todo outra vez.

Dizem que o fantasma é a alma do último mordomo da família, logo quando chegaram da Europa. Depois de sua morte não tiveram mais dinheiro para contratar um mordomo, ou simplesmente perceberam não ser necessário, ou ainda as assombrações vieram imediatamente e deste modo ninguém nunca mais quis a função, evitando pernoitar na casa dos Borges. Não que tenham deixado de receber hóspedes, a maioria ia apenas uma vez é verdade, mas muitos parentes e amigos antigos arriscavam-se a voltar e dormir. Até porque, como já foi explicado, às vezes o fantasma fica anos sem dar sinal de morte. A verdade sobre essa história de receber hóspedes na casa bem-assombrada (porque sim, este fantasma se empenha bastante quando aparece), é que em suas primeiras aparições, os Borges estavam justamente recebendo alguém.

Um casal amigo dos primeiros membros da família a virem para o país acabara de chegar de Portugal. Dois dias se passaram sem nenhum percalço, quando uma manhã, enquanto todos tomavam café, as cortinas da sala de jantar assanharam-se. Tudo bem, era o vento. Alguns segundos de festa nas cortinas sem ninguém se importar, então uma espécie de sapateado trovejou no piso da sala de visitas. O silêncio tomou a mesa. As mulheres e crianças resmungaram com voz súplice enquanto levavam a mão ao peito e os homens encararam-se. Alguém ordenou que um dos escravos fosse até o cômodo. O escravo deixou de servir à mesa e passou três segundos na sala de visitas, após os quais voltou correndo, passou pela mesa e rumou para a cozinha. Os homens encararam-se novamente e o dono da casa resolveu colocar-se em pé, como se o gesto pudesse intimidar o barulho inesperado. O som, obviamente, não cessou e o homem viu-se obrigado a ir até lá. Tentou aparentar calma enquanto caminhava. Passou pelo curto corredor entre os cômodos e chegou à sala.

- Não tem nada aqui!! Haahahaha!

Num instante foi cercado pelos demais.

- Se não tem nada, o que era aquele barulho?

- Deve ter sido o trote de um cavalo na rua, ou uma das criadas limpando o piso de madeira no andar de cima.

Mas este fantasma era muito orgulhoso e não deixou passar. Com poucos instantes de intervalo a porta da frente bateu, então alguém viu uma imagem assustadora no espelho, o vidro das janelas se estilhaçou e a louça

herdada na cristaleira voou em direção às quatro paredes. Família e visitas se encolheram abraçados, chorando. O fantasma se deu por satisfeito e aquietou. Nas horas e dias que se seguiram todos falavam no fantasma. Tanto na casa quanto pelas ruas e por toda a cidade. Primeiro, os padres

e dizem, até alguns pastores protestantes determinaram que eram as

forças do Maligno, tentando trazer desgraça àquela devotada família, e então

vieram os rituais de exorcismo e as devidas doações às igrejas. Quando toda

a comoção não apresentou resultado, as pessoas assumiram que era um

fantasma familiar ou doméstico, que é quando um ente sobrenatural faz de um lugar a sua morada eterna e tenta espantar os reais habitantes. Como o mordomo fosse o único ligado diretamente à família e à casa que tivesse

morrido nos últimos tempos, ficou claro que o fantasma só poderia ser o dele. Mas na verdade, o fantasma sou eu, e não quero que os Borges deixem de viver na casa, me diverte.

Presença

- Ah

que barulho

?

Ah, tá.

Era a estática da TV. “Ah, tá”, mas na verdade, esta era sua frase para quando sentia que precisava preparar-se para algo. E a TV ligada nem

ainda

havia algum canal que saísse do ar durante a noite? Não eram todos 24 horas? Esta lembrança apenas trouxe mais medo. Enrolou-se no cobertor enquanto estendia a mão para o lado. Os olhos absolutamente cerrados. “Olhe para a direita agora, o primeiro objeto ao alcance da sua mão será sua arma em um provável apocalipse zumbi”. Riu nervosamente. Tateava um cano de PVC com cerca de 30 cm: sobra da última convenção de quadrinhos, quando o redator de um site de cultura pop que costumava ler dera-lhe a dica de como levar seus prints para casa na mala. Bastava enrolá-los e guardar no pedaço de cano de PVC, que era muito leve e não faria quase diferença alguma na bagagem. Exato, o cano de PVC era leve. Muito leve. Que ameaça pretendia enfrentar com aquela “arma”?! Um chihuahua. Não, nem isso. Mas de fato, não se tratava daquilo. Permanecia de costas para a TV, o cobertor enrolado até o alto da cabeça, apenas os olhos e o nariz para fora. Tremia e choramingava baixinho. Tshtshtshtshtshtshtshtshtshtshtshtsh. Sentia como se o ruído tomasse forma atrás de si. Forma, não o pavor era grande demais para se permitir imaginar alguma, apenas sentia algo se amontoando poucos centímetros de suas costas. Queria abrir a janela. Era dia e pensou que talvez, caso pudesse iluminar o lusco-fusco do quarto, a presença iria embora. Presença. Agora dera um nome. Era apenas barulho vindo da TV. “Mas qual monstro que pega a gente no escuro não pega no claro? Que que tem no claro que não tem no escuro?” Mas que conversa de merda para se ter com o filho de um conhecido. OW CARALHO!!! Que momento para se lembrar daquela tarde. Cadê o controle? Por que a porra

se lembrava qual canal assistia quando pegou no sono, e na verdade

do controle não estava por perto? Não é pra isso que serve o controle remoto, pra estar à mão, mesmo longe da TV?! Era só desligar. Abriu os olhos com

as cortinas impediam que visse o reflexo da tela nas

janelas. Apenas ouvia o maldito ruído! Esticou o braço esquerdo muito

lentamente sob o cobertor. Que cagalhaço sentia. Alguém deveria ser retribuído por aquele esfíncter primoroso que possuía. A natureza, seus pais,

a evolução humana

perceber que a cama e os lençóis permaneciam limpos e secos. Tateou os tais lençóis limpos e secos. AÊ CARALHOOOOOW!!! O controle, porra!!! Era só mirar na TV; ou ainda melhor, refletir o sinal do infravermelho na parede, e a estática iria embora. E com ela todos os espíritos malignos ou não (que diferença fazia, afinal?!), que trouxera para o quarto. “Mas se monstro que pega no escuro, também pega no claro, espírito que vem com a estática vai embora quando a gente desliga a TV?” “Vai se foder, Pedrinho!!” Tentou afastar a voz do menino de sua mente desesperada. Esticou o corpo para a frente, a fim de abrir a cortina e ter uma superfície lisa em que refletir o sinal do controle remoto. “Nãããããoooooo!!” Ajeitou rápida e desajeitadamente o cobertor que quase caíra de sua cabeça. Não poderia ter nenhuma parte do corpo fora do alcance do escudo. Cerrava os dentes. Quase soltara um grito!

Não importava, apenas sentia um enorme alívio ao

tremendo esforço. Ufa

Mas era isso. Quase livre agora. Com os olhos fechados, mirou a parede e apertou o botão Power. “Funciona, funciona, funciona, funciooOONAAAAAAAA!!” Queria berrar, mas não iria. O ruído, agora, parecia ritmado. A estática estava respirando? Só ficava melhor! Girou o braço para trás, apontando o controle remoto. Pilhas fracas? Afundou o botão Power com o dedo. Nada. “HEIN?!” A cama se mexeu. A presença. Da estática. Estava.

Embaixo. Da cama. outro movimento. Encolheu-se num canto. Cobriu

completamente a cabeça enquanto afundava-a nos joelhos, que abraçara. “Pernas, pernas, por favor, tirem a gente daqui!” Seriam um pulo e alguns passos. Três no máximo? E então estaria no corredor. Corredor. Corredor. Mais um lugar para não olhar. Outro lugar para não estar. A cama estava se mexendo outra maldita vez! PUTA QUE O PARIU!!! De um salto, enquanto gritava, caiu de costas no chão. Mas não sem derrubar com a cabeça e parte dos ombros a pequena estante da TV, que vindo abaixo, sobre seu corpo, soltou o fio da parede, desligando. O ruído se fora. Assustado com tanto movimento, o gato da vizinha olhava por baixo da cama.

De novo

- Hehehe

- Pegou a toalha e entrou correndo no banheiro.

acabei me atrasando pro trabalho. Pelo menos a TV não quebrou.

Ainda congelado de medo, o gato olhava apavorado a figura amorfa

- que olharia o gato nos olhos, se também os possuísse esperando imóvel no corredor.

As referências contidas neste livro

#CaetanoEstacionanoLeblon Akira Toriyama Barry Perowne Chris Martin Contos das Mil e Uma Noites Douglas Adams Edgar Allan Poe Esopo George Miller Giancarlo Bigazzi Guy Berryman

H. G. Wells

História do Brasil História Geral

Horumarin

Isaac Asimov

Jonny Buckland

Kimo Lemetti

L. Frank Baum

Lendas urbanas Léon Bloy Lewis Caroll Max Beerbohm Melhores do Mundo, Os Mitologia grega Mitologia hindu Mitologia nórdica Projeto Voyager Rudyard Kipling Ryunosuke Akutagawa Stephen King Thomas Carlyle

Tim Burton

Umberto Tozzi

Victor Moura

W. W. Jacobs

Will Champion

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