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A16 entrevista da 2ª H H H Segund A-FeirA , 1 0 d e O ut ub rO de 20 16

ab

SYLV IA COLOMBO

EN VIA DA ESPECI AL A MED ELLÍN

O jornalista Martin Baron,

61, disse que colegas de pro-

fis são de sua id ade ou em

me io de ca rre ir a p recis am

“passar logo por um período de luto e olhar paraafrente,

porque o jornalismo que eles conheciam acabou, mas há vida adiante”. Para um público compos-

to basicamente dejornalistas

latino-americanos e dos EUA, Baron abriu, no final de se- tembro, o Festival Gabo 2016, prom ov ido pela Fu nd ac ió n Nu ev o P er io dis mo Ib er o- Americano, em Medellín. Em seu discurs o, contou c omo o j ornal que edita, o “Washington Post”, vem se adaptando aos novos tempos —em que o setor da mídia im- pressa sofre comaqueda da

arrecada ção pu bl ic it ár ia , a competição com novos meios digitais eoimpacto das redes sociais. Baron ficou conhecido do

gr an de púb lico ao ter sua

passagem pelo “B oston Glo- be” retratada no filme “Spo- tlight”, quando sua equipe de repórteres especiais revelou um escândalo nacional que

envolvia a Igreja Católica com pedofilia. O caso abalou as estruturas da instituição na época. Já o filme, em que Ba- ron é e ncar nado pe lo at or Liev Schreiber, ganhou o Os- car neste ano.

O “ Wa sh ingt on Po st” é

uma das publicaç õe s m ais bem -suce didas no mun do,

te ndo passado, em 2015, o

“New YorkTimes”em visitan- tes únicos mensais nos EUA. Falando um bom e fluente es- panhol, Baron explicou que hoje seu diário compete de igual para igual com o NYT, mas o foco é sair deWashing- tonedas fronteiras dos EUA. Após a conferência, Baron concedeu entrevista à Folha.

H

Folha - O sr. diz que os jornais devem ir aonde o leitor está e ouviroque os leitores estão conversando. Ou seja, devem

ir par a as redes sociais. Mas

este não é um ambiente hostil

a um jornalismo que se pre-

tenda imparcial? Como evitar

a polarização desse meio? Martin Baron - Esseéo

grande desafio do jornalismo hoje.Muita gente se pergunta

se a imprensa tradicional tem

mesmodedesempenhar uma função numcenáriopolariza-

do comoodas redes sociais. Principalmente a imprensa independente, justamente

a que não está aliada nem com a esquerda, nem com

a direita, nem com nenhum

partido. Mas eu acho que há um papel muito importante para nós dentro das redes sociais,

porque a maioria das pes- soas que está lá de fato está polarizada e buscando fontes informativas que confirmem ou estejam alinhadas ao que pensam. Porém, eu também acho que muita gente vai às redes porque quer saber a verdade e valoriza aqueles que lhe trazem a verdade, independente de quem seja

o alvo da cobertura.

Mas o sr. não acha que a im- parcialidade tem sido um va- lor em baixa para quem busca notícias nas redes sociais?

Em primeiro lugar, não sei

se temos de buscaraimpar-

cialidade primeiro.Oprio- ritárioétrazeraverdade e

chegar a uma conclusão. Se trazemos algo novoerelevan- te, não importa se estamos castigando a esquerda ou a direita, estaremos cumprin- do nosso papel.

Às vezes, a mídia dita plu-

ral se importa demais em contemplar os dois lados de uma história e eu creio que isso precisa continuar sendo feito. Mas, às vezes, isso che- ga a um ponto em que dimi- nui o impacto da notícia. Insisto, não estou dizendo que não há que ouvir os dois lados, obviamente que sim.

Baron, que foi retratado no filme “Spotlight” MArtIn BA rOn, 6 1 Nascimento: Tampa, Florida
Baron, que
foi retratado
no filme
“Spotlight”
MArtIn BA rOn, 6 1
Nascimento: Tampa, Florida
(24.out.1954)
Cargo: editor-executivo
do “The Washington Post”
desde 2012. De 2001 a
2012, editouo“The Boston
Globe” —antes, trabalhou
também no “Miami Herald”,
“Los Angeles Times” e no
“New York Times”
Formação: estudou
jornalismo na Lehigh
University
entre vista da 2ª Martin Baron
Francesca Leonardi/Divulgação

As pessoas esperam que as

notícias venham até elas

EDITOR DO ‘WASHINGTON POST’ DEFENDE QUE REPORTAGENS

TENHAM CONCLUSõESEQUE ELAS SEJAM DITAS DE FORMA ExPLíCITA

Mas é essencial que, no final, tenhamos algo a dizer, temos de chegar a um pontoeindi- cá-lo de modo mais enfático do que fazíamos antes. Temos de desenterrar e encontrar as evidências, ser- mosjustos na apuraçãoefiéis

à verdade que revelarmos.

Mas, ao final, temos de che-

garauma conclusão, e essa conclusão, nesses tempos, parece-me que tem de ser apresentada de forma mais

explícita. Os jornais preci- sam ter uma posiçãoeditorial mais claracom relação acada cobertura que fazem. E sobre as redes sociais, creio que não há que se ter ilusões. As pessoas nos dias de hoje já não irão buscar

a notícia na página de um

jornal, elas esperam que as notícias venham até elas, e preferencialmente por meio das redes sociais.

Vivemos

numa sociedade que

é digital e mobile,

e precisamos acolher essa mudança com entusiasmo e

esforço

Os leitores querem ter mais da

personalidade

de quem lhes

tr ansmite uma

notícia, parece que sentem aí que

o conteúdo é mais

E e m q ue es tr até gi as ed it o- riais e operacionais vocês vêm

apostando?

Em várias frentes. Hoje temos gente de tecnologia trabalhando lado a lado com os jornalistas como algo re- gular. Temos mais blogs co- brindo áreas bastante espe-

cializadas, que vão de ciência

e animais a como criar seus

filhos e outros assuntos. Também tornamos mais dinâmica nossa seção de

opinião. Em muitos casos, os

nossos colunistas já não es- tão mais presos a um dia fixo

de publicação. Se algo ocorre

em suas áreas, pedimos para

legítimo que expressem seus pontos

de vista imediatamente. E mudamos horários na Redação. Temos muito mais gente trabalhando desde muito cedo, temos gente monitorando as redes to- do o tempo, especialmente durante a madrugada, para

detectar quais tópicos serão assunto no dia seguinte. E estamos estudando e apren- dendo muito sobre como e quando postar uma história.

O sr. disse que o “Washington Post” está armando uma rede de freelancers, usando jorna- listas que ficaram desempre- gados devido à crise no setor. Isso aponta paraum futuro em que jornalistas atuarão como motoristas de Uber, fazendo

trabalhos sob encomenda?

(Risos)Éuma forma de ver

a coisa, um pouco pessimis-

ta. É verdade que estamos fa- zendo isso, mas também es- tamos contratando de acordo com as nossas necessidades. Acho queosegredo para nós, empresas de comunicação, hoje é sermos mais ágeis nes- sas contratações foradasede, principalmente se quisermos ser um jornal global, como o “Washington Post” quer. Primeiro, a rede de freelan- cers está funcionando bem,

os profissionaisque oferecem

bom conteúdo têm sido mais acionados e têm seu perfil va- lorizado no mercado, ainda quesó atuem eventualmente. Por outro lado, estamos

sendo mais rápidos ao iden-

tificar onde precisamos con- tratar gente “full time” e onde podemos usar recursos

locais. Por exemplo, recen- temente, contratamos novos correspondentes na Europa e

na Turquia, porque o noticiá- rio lá tem exigido.

E há um terceiro recurso

que estamos usando mais que éusarotrabalhodequem já mora nos lugares onde pre- cisamos de uma cobertura.

Com o f uncio na na Am éri ca Latina?

É um caso claro. Temos

um correspondente que vive em Cuba (Nick Miroff), mas também precisamos cobrir direito a Colômbia, o Brasil. Então contamos com uma rede de colaboradores que se reportamaesse correspon- dente,eele viaja quando há algo importante. Agora, por exemplo (estávamos a dois

dias do plebiscito pela paz), Miroff está na Colômbia.

Mas a substituiçãodo olhar do correspondente pelo jornalis- ta local não muda a essência do trabalho do corresponden- te, que é justamente o de ver o país em questão com o olhar estr angeiro?

Não vejo isso como um va- lor tão essencial. Geralmen- te, os jornalistas locais estão mais por dentro da situação

de suas comunidades e têm mais capacidade de reagir de modo mais imediato a even- tos noticiosos. Às vezes,aum local de difícil acesso,émais fácileseguro usar alguém que sabe e pode chegar lá mais rápido. Portanto, é um modelo mais eficiente num quadro

em que a rapidez passou a ser uma necessidade mais urgente para um jornal. Mas repito, isso não quer dizer que não estejamos mais contratando ou que va- mos enxugar nossa equipeno exterior. Creio que são dois modos de trabalhar a serem combinados, usandoaequi- pe do “Washington Post” e essa rede de freelancers, que está sendo avaliada e rece- bendo cotações dos editores, além de receber visibilidade por seu trabalho.

O jornalismo dito tr adicional

demorou muit oar eagir às

mudanças da er a digital?

Sem dúvida. Quando a in- ternet chegou, nós a vimos só como uma nova maneira de distribuir nosso trabalho, mas não pensamos naquilo como algo que nos atingi- ria ou de que podíamos nos apropriar. Agora, estamos diante de uma situação inevitável, vi- vemos numa sociedade que é digital emobile, eprecisamos acolher essa mudança com entusiasmo e esforço, por mais que sintamos saudades do antigo modo de trabalhar.

O sr. diz ter passado por um

período de luto quando perce- beu que os meios tradicionais de se fazer jornalismo tinham mudado. Como foi isso?

Eu fiquei muito triste, gos-

tava do jeito de se fazer jornal antes. Mas, quando cheguei ao “Washington Post”, em 2012, percebi que a direção eoritmo da mudança eram inexoráveis. Vi que os jorna- listas que estavam trabalhan- do mais com as plataformas digitais estavam tendo mais êxito em atrair os leitores do que os tradicionais.Epassei

a estudar o que faziam me-

lhor. Sua narrativa era outra, seu modo de apresentar as histórias, seu estilo, seus tí- tulos eram diferentes. Nesse momento, entendi que todos tínhamos que mudar, os da velha geração também.

E do que mais sente nostalgia

do velho jornalismo?

(Risos) Ah, da segurança, de ter menos competidores, de ter mais tempo para tra- balhar as histórias. Hoje eu trabalho o tempo todo, estou sempreligado. Antes não, era uma época mais confortável em vários sentidos.

Do ponto de vi s ta prátic o, como vocês estão mudando

o modo de contar histórias?

Estamos buscando fazer com que os textos sejam mais acessíveis e abertos à intera-

ção. Há, ainda, uma tendên- cia de o público querer ouvir mais a voz de quem escreve. Os leitores querem ter mais da personalidade de quem lhes transmite uma notícia, parece que sentem aí que o conteúdo é mais legítimo.

Estamos tentando enfatizar mais isso também.

O sr. mencionou que o “Wa-

shi ngton Po st” ve m t endo problemas com o c andidato republicano.

Sim, sempre somos críti- cos com todos os candidatos, eacandidata democrata (Hil-

lary Clinton) parece entender melhor o papel da imprensa. Já Donald Trump tem dito que, se eleito,defenderáoen- durecimento das leis de difa- mação, sugerindo multas, aumento de impostos e que nos submeterá a sanções. Contra nós, sua atitude beira

a ameaça. Trump acha que o proprie- tário do jornal, Jeff Bezos, encomendou uma cobertura negativa de sua campanha. Mas nada disso tem sentido, Bezos não influi em nossa cobertura. Estamos diante de

um risco de que, se Trump for eleito, queira se vingar. Mas

aí oenfrentaremos,ecom jor-

nalismo.

A jornalista viajou a Medellín a convite da Fundación Nuevo Periodismo Iberoamer icano