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Edimilson de Almeida Pereira Núbia Pereira de Magalhães Gomes

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DA IMAGEM

Exclusão étnica e violência nos discursos da cultura brasileira

Núbia Pereira de Magalhães Gomes ARDIS DA IMAGEM Exclusão étnica e violência nos discursos da cultura
Núbia Pereira de Magalhães Gomes ARDIS DA IMAGEM Exclusão étnica e violência nos discursos da cultura

Copyright © 2001 byEdimilson de Almeida Pereira

. Todos osdireitos reservados

Coordenação

Maria Mazarello Rodrigues

Composição eletrônica

Tânia Maria dos Passos Silva

Capa

Antônio Sérgio Moreira

Imagemda Capa: Guardiã (técnica mista sobre tela, 1997) Coleção: Ashe Yá Ojú àrum Babalorixa: Marcelo Martins de Oxumaré

Pereira, Edimilson de Almeida. 1963- P436a Ardis da imagem: exclusão étnica e violência nos dis- cursos da cultura brasileira / Edimilson de Almeida Perei- ra, NúbiaPereira de Magalhães Gomes. - Belo Horizonte:

Mazza Edições, Editora PUCMinas, 2001.

304p. : 37i1.;

21 cm.

1. Sociologia - relações sociais I. Gomes. Núbia Pereira de Magalhães II. Título.

CDD301

CDU 301.16

Proibida a reprodução toialou parcial. Os inftatores serãoprocessados na[arma da lei.

Editora PUCMinas Av. Dom losé Gaspar, 500 - Coração Eucarístico 30535-610 Belo Horizonte, MG - Fone: (31) 3319-4271 Fax: (31) 3319-4129 Bmaíkproexespucmínas.br

Mazza Edições Ltda. Rua Bragança, 101- B. Pompeia - Telefax: (31) 3481-0591 30280-410 Belo Horizonte - MG Esmail: edmazzaêig.corn.br

À Prisca. companheira lis; Geraldo e Iraci Pereira, meus pais

Maria Mazarello, Ricardo Aleixo e Leda Martins, espelhos órfícos

Lídia Avelar Estanislau/pela diginidade com que combateu, sempre-viva

Às pessoas de serenidade maior que a violência.

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"Quem foi que disse, que a gente não é gente?"

Solano Trindade

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Agradecemos às professoras das redes municipal- esta- dual e particular de ensino de Minas Gerais pela colabora- ção no registro dos discursos da violência em nossas escolas; aos alunos, por aceitarem a tarefa de conhecer - para supe- rar - as nossas práticas de exclusão social. Ao poeta Luís Sil- va (Cuti) pelas informações e críticas em outras oportunida- des. Aos professores José Luiz Ribeiro, Maria Lúcia Campa- nha da Rocha Ribeiro, Maria Nazareth Soares Fonseca,Ma- ria José Somerlate Barbosa, Steven White, Sérgio Roberto da Costa, Luciana Teixeira, Nelma Próes, Walquíria C. AVale, Telenia Hill, Aluizio Ramos Trinta e Laura Cavalcante Padilha pelo carinho reflexivo.

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SUMÁRIO

NOTA DO EDITOR

13

RETRATOS EM BRANCO E PRETO

15

O negro no imaginário cultural brasileiro

15

JOGOS

DE Luz E SOMBRA

31

OBJETOS SUSPEITOS

38

UM TEMA, SEUS NOMES """"""'"'''''''''''''''''''''''''''''''' 38

MAPAS DE UMA LEITURA

53

ORIENTAÇÕES E FRONTEIRAS

59

PALAVRAS

CONTRA A NOITE

68

ORIGENS DAS DIFERENÇAS

68

ALFABETO DA INTOLERÂNCIA

74

Escola sem paredes

Ideologia dos abecês de negro

Modos de elaboração dos abecês

Sentido psicossocial dos abecês

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74

81

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MANUAL DE FACAS

 

107

AO MESMO ASSUNTO

107

 

PALAVRAS:

FACAS SÓ LÂMINAS

117

OF1C1NAS DE PALAVRAS-LÂMINAS

 

127

A

VIDA

NOS ESTÚDIOS

133

O

HOMEM INV1SÍVEL

,

133

RETRATOS NO TEMPO

138

Vida de negros nos estúdios

Vidas de negros fora dos estúdios

138

148

RETRATOS

DO

MESMO

157

ONTEM E HOJE IMAGENS RETOCADAS

157

O

MESMO TRlSTE PÉRIPLO

160

UM NÂo É TODOS

180

UMA H1STÓRlA COM HISTÓRlAS

180

ESPELHOS PARA NEGROS E BRANCOS

183

Do escravo fugitivo aos top modeis

188

Negro-coisa, coisa ruim

195

Do escravo capturado ao II cidadão" suspeito

199

UM NEGRO NÂO É "OS NEGROS"

205

NEGROS

VISTOS

COMO

NEGROS

211

O QUE HÁ PARA VER

211

O

PENSAMENTO TATUADO

217

IMAGENS QUASE PRONTAS

226

7$'772'

55

ALÉM DE Luz E

SOMBRA

241

ICONOGRAF1A

2S7

I - Negros Disciplinados

257

II - Poses para Negros

273

IlI~Negro Coisificado

278

IV- Negro Moda

28S

CRÉDITO DAS

ILUSTRAÇÕES

289

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÂFICAS

293

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I

NOTA DO EDITOR

Em 1979,depois de concluir o Mestrado em Linguística e Filologia Românica (UFRJ), Núbia Pereim de Magalhães Gomes criou e coordenou o Projeto Minas & Mineiros. Vinculado ao Departamento de Letras da UF]F, nos anos seguintes o Projeto recebeu apoio da FAPEMIG (Funda- ção de Amparo à Pesquisa do Estado de MG), Pró-Reitoria de Assuntos Cornunitérioe/Ul'[P, INEP (Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos), Ministério da Cultura e CNPq. Em 1986, após concluir a graduação em Letras na UFJF, Edímilson de Almeida Pereira foi convidado para com- partilhar os trabalhos com Núbia. Nessa ocasião mapearam e redefiniram os objetívos do Projeto. Enfatizaram a pesquisa em áreas rurais e periferias urbanas, com o intuito de documentar os vários aspectos das culturas popula- res. Optaram por uma análise multidisciplinar dos eventos, combi- nando enfoques procedentes da Antropologia, Sociologia, História e Literatura. Interessaram-se por compreender a sistematicidade, a sig- nificação e os processos de inter-relaçãc que delineiam as diferentes faces das culturas populares. Levaram em conta o pressuposto de que os bens materiais e simbólicos, os comportamentos e as elaborações discursivas contribuem para visualizar as concepções de mundo que os indivíduos e os grupos tornam relevantes para tecerem as represen- tações de si mesmos e do outro. Dessas análises resultaram as obras:

Negras raízes mineiras: osArtutos (1988), Assimsebenzeem Minas Gerais (1989), Arturos: olhos do rosário (1990), Mundo encaixado: signijicaçõo da cultura popular (1992), Do presépio à balança: representações sociais da vida religiosa (1995).

Em 1994, Núbia iniciou a "viagem maior.t'Bdimilson seguiu com os trabalhos, ciente das modificações que aconteceriam. Uma de-

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las, já havia sido prevista pelos autores. Consistia na alteração do nome Projeto Mínas & tãineíroe para uma referência mais ampla. Edimilson ado tau o título Veredas Sociaisinspirado pelas provocações da obra de Guimarães Rosa. Os autores sentiam a necessidade da mudança porque a denominação anterior dava a entender que se tra- tava de um estudo apenas regional. Porém, as análises mostraram que era preciso considerar os eventos a partir do critério de comparações entre as culturas, levando em conta os procedimentos adotados por indivíduos e grupos em seus percursos de ínter-relações. Daí o empe- nho dos pesquisadores para decifrar as veredas que modulam esses percursos, partindo da ocorrência dos eventos em cornunidades Io- cais e acompanhando seus desdobramentos no decorrer dos contatos com diferentes ordens sociais. Seguindo essa orientação, de 1995 em diante, Edimilson orga- nizou quatro volumes. Várias reflexões deixadas por Núbia foram incorporadas aos livros, uma vez que mantiveram sua atualidade. Outras, no entanto, resultaram de estudos e leituras que o pesquisa- dor teve a oportunidade de realizar após 1994. As obras cc-produzi- das no período de (1995/2000) e as anteriores (1987/1992) são impor- tantes porque confirmam a presença de Núbia como intelectual soli- dária, analista instigante dos fatos culturais e ser humano esplêndí- do, no amplo sentido dessa expressão. Também porque estimulam Edimilson Pereira a redefinir caminhos para futuros trabalhos indivi- duais e a estender a rica experiência das cc-autorias. Os novos livros, resultantes das colaborações com Núbia, são: Flor donãoesquecimento:

o cotidianona cultura popular(1992-2000), Os tambores estãofrios: heran- çacutíural e sincretismo religioso 110ritual de Candombe (1993-2000), Ardis da imagem: exclusão étnica e violência nos discursos da cultura brasileira (1994-2000) e Ouro Pretoda Palavra: narrativas de preceito (1998-2000).

Os ensaios de Núbia Gomes e Edimilson Pereira, desde o início, não pretenderam apenas registrar eventos das culturas populares. Além disso, procuraram compreender as estratégias que os representantes das culturas populares articulam para se relacionarem entre si e com as outras forças da sociedade.

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RETRATOS EM BRANCO E PRETO

o negro no imaginário cultural brasileiro

A relação entre cor e singularidade, percebida como um viés do processo de exclusão que se acentua com o forta- lecimento da tirania do dinheiro e da informação, na época atual, tem estado sempre presente na reflexão produzida por teóricos como Paul Gilroy e Henry Louis Gates Jr. 1 No Brasil, além das análises lúcidas de Milton Santos" sobre os proces- sos de exclusão do negro, acelerados por uma globalização perversa (1999L outros teóricos como Muniz Sodré, princi- palmente em sua obra Claros eescnros," e Lilia Moritz Schwarcz, em vários momentos," apontam caminhos para se discutirem as relações entre cor e a absorção dos indivíduos pela socieda- de, principalmente com relação ao mercado de trabalho, que

1 Ver GILROY, Paul. Agaiust race: imagining politicai culture beyond the colar Une. Cambridge/Massa chusets: The Belknap Press, 2000; GATES, Henry Louis (Ed.). BlackUteratureandLiterary TIJeory. New York/London:

Methuen, 1984.

2 Ver SANTOS, Milton. Por lima outra globalização; do pensamento único ~l consciência universal. Rio de Janeiro: Recorri, 2000; 3 SODRÉ, Muniz. Claros e escuros; identidade, povo e mídia no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1999. 4 Cito da autora, principalmente, as reflexões contidas no livro O espetéculoe das raças; cientistas, instituições e questão racial no-Brasil, 1870 -1930,51\0 Paulo: Companhia das Letras, 1993 e nos artigos "A questão racial no Brasil", do livro Negras imagens, organizado por Lili" Moritz SCHWARCZ

15

ainda se modela por ressonâncias do sistema escravocrata. A questão é bastante complexa quando se observa, que, num mundo que se quer cada vez mais unificado, a história da "superioridade" de alguns e da "inferioridade" de outros continua a explicitar o valor de mercado da cor, tornada re- curso simbólico importante na competição pelo emprego.s As novas tendências impostas pela globalização nos fazem retomar as observações de Frantz Fanon sobre a pro- dução de imagens negativas sobre o negro. A reflexão de Panon nos possibilita avaliar que, mesmo nos dias atuais, no Brasil, Uma gama de preconceitos e de estereótipos ne- g~tivos,em circulação, continua a reforçar idéias preconce- bidas sobre O outro, principalmente quando este outro per- tence à maioria de negros e mestiços.s Fanon considera que os preconceitos, principalmente os relacionados com a inserção do negro no modelo de socie- dade pensado pelo sistema colonial, são decorrentes de uma história que o emoldurou como um objeto desprezível que era preciso expurgar do convívio social. O olhar da criança branca dirigido ao negro antilhano, na célebre cena descrita em Peau ncíre. masques blancs (Pele negra, máscaras brancas? explicita o grau extremo da alienação de pessoa e a imobili- zação da diferença em estereótipos de primitivismo e dege- neração. O grito aterrorizado do menino: - Mamãe, um negro; ele vai me fazer mal- exibe as imagens de negro que transitam no mundo configurado por fronteiras rígidas e por uma vi-

e Letícia Vidor de Souza REIS, São Paulo: Edusp, 1996, e ''Raça como

negociação", no livro Brasil afro-brasileiro, organizado por Maria Nazareth Soares FONSECA, Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

50 artigo, "Despertar da consciência negra", de Dulce Maria Pereira, Presidente da Fundação Palmares, publicado no Jornal do Brasil de27/11/00, P: 9, comen-

ta resultados de pesquisas recentes que demonstram ser o número de negros

desempregados muito maior que o de brancos. O artigo ainda apresenta dados que demonstram haver uma maior exclusão entre os indivíduos de pele escura numa sociedade que ainda se que'r modelo de democracia racial. 6Cf. Maria Nazareth Soares FONSECA. "Visibilidade e ocultação da diferen- ça". ln: - Brasil afro-brasileiro, Belo Horizonte: Autêntica, 2000. 7A cena é descrita em: FANON, Prantz. Peall noír, masques blallcs,lere. Éd.

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são que só consegue apreendê-lo como ameaça: o negro é mau,

é selvagem, é feio. s O olhar da criança amedrontada, na esta- ção de trem, dirige-se ao negro,. fixando-o numa imagem terrí-

vel: Mamãe, olha o negro. Eu

Na visão aterrorizada da criança, os estereótipos emer- gem com os sentidos difundidos por uma cultura, que só acei- ta o negro assujeitado pelo trabalho servil. A descrição da cena, que ecoa sem cessar no livro de Fanou: Olha, um negro mãe, olha o negro! Estou com medo, nos mostra que a criança corrobora os predicados formulados pelo senso comum. Ao mesmo tempo, ao amparar-se no olhar/corpo da mãe, a cri- ança branca resguarda a sua identificação com o espaço a que pertencem todos os iguais a ela, todos os diferentes daquele que ela vê cheia de terror. O negro, excluído do espaço com que a criança se identifica, sô.se pode reconhecer no pavor da criança, que atualiza o processo de fragmentação que a socie- dade legitima: um negro só pelenegra, só cabelo "ruim", só feições de selvagem, só feiúra abjeta. A descrição de uma cena de rejeição explícita ao outro reinstala o processo de visibili- dade/invisibilidade que o negro teve de enfrentar para sobre- viver num mundo que lhe é quase sempre hostil.

Panon procura desvendar as causas do horror ao ne- gro e as razões da internalização desse sentimento pelo indi- víduo, que passa a se ver através do olhar do outro, que o discrimina, com um elenco de predicados que o ensinam a odiar o que só ele tem, exatamente por ~er negro. Para os indivíduos marcados pela cor rejeitada, a individualidade torna-se um peso porque se aprende a odiar os atributos sig- nificados em seu corpo por um discurso estereotípico que jus- tifica a discriminação. Por mais que, na cena, a mãe tente

tenho medo dele, ele vai me comer. 9

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Paris: 'Éditions du Seuil,1952. Neste prefácio, todas as referências são, no entanto, da edição de 1975, da mesma Editora. A tradução de p<lssagens

do texto feita peja autora

3Cf. o capítulo "L'éxperience vecue du Noír", Frantz FANON, Peaunoive,

masques blance. Paris: Calíimard, 1975, p. 91.

9 Fanon. Idem, ibidem, p.91-2.

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ressignificar as imagens que o menino assustado legitima, o olhar e o grito inundam a cena da vergonha e do desprezo do indivíduo por si mesmo. Fanon alude à dificuldade do discriminado de desenvol- ver um esquema corporal e demonstra que a rejeição impossi- bilita o negro de se ver como pessoa, exatamente porque sem- pre foi olhado como uma diferença incómoda e ameaçadora, inscrita na cor de sua pele.'? E ao refletir sobre o deseja de extirpar do corpo os predicados negativos que fazem do negro um sujeito sempre em diferença, Fanon nos ajuda a compre- ender a carga semântica que o termo negro continua a carre- gar, mesmo após a extinção do tráfico negreiro, ainda que se deva considerar as sobrecargas de sentido advindas dos dife- rentes lugares em que o termo é significado:

Quando me amam, dizem-me que isso é possível apesar da

cor da minha pele; quando me detestam, ajuntam que não é por

causa da cor infernal". J1

Aqui e lá, sinto-me prisioneiro de um círculo

As observações de Frantz Panon sobre a fragmentação, o despedaçamento, o estado de despersonalização absoluta vivida pelo negro, os quais incidem no modo como o seu cor- po é aprisionado pelo olhar que o exclui, são importantes para se perceber mais profundamente a questão do estereóti- po e da fixação do significante pele/cultura que expõe o fato de a raça/cor mostrar-se como um signo não-erradicével da diferença. É pertinente observar, a partir dessas reflexões so- bre a sociedade racista colonial, que a imobilização do negro em lugares determinados pela sociedade pode-se dar, ao

mesmo tempo, como fixação e transgressão.

Nas cidades modernas, as favelas são lugares em que o negro, pelas próprias condições em que vive, poderia tomar- se consciente do processo cruel desenvolvido pela sociedade,

10 "Onde quer que vá", dirá Panon, "o negro permanece um negro. Ibidem,

p.95.

lJ Tradução livre feita por mim, da edição, em francês, de 1975.

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quando expurga de seu plano arquitetônico os indivíduos considerados diferentes do modelo de cidadão que a mesma sociedade privilegia. Todavia, tais lugares são também mar- cados por preconceitos e estereótipos internalizados nos in- divíduos que muitas vezes até justificam a força de repressão da sociedade. A fixação dos valores decorre, pois, do reforço das imagens ditadas pelo senso comum e da elaboração de mecanismos que possibilitam ao indivíduo responder ao im- pulso de sobrevivência e à aprendizagem de estratégias que possibilitam. a ele viver numa sociedade que o exclui. A ne- cessidade de expurgar de si as imagens que o fazem visível como diferença ameaçadora impõe a alienação de si mesmo e a camuflagem de uma corporeidade significada sempre por excesso de predicados ditos negativos. Assujeitando-se aos mecanismos de adaptação e de controle, o negro procura al- cançar uma outra imagem para o seu corpo, ilusória e alucinatória, mas capaz de conviver, com perdas e danos, com o regime de "falsa tolerância" característico da cultura brasileira. Muitas vezes são esses indivíduos excluídos que ajudam a fortalecer os preconceitos contra os negros, princi- palmente contra aqueles que ameaçam as conciliações possí- veis, porque, mais críticos, não se mostram tão cordatos aos imperativos racistas e, por isso mesmo, transgridem os es~ quemas de fixação. Os mecanismos de transgressão e fixação não referen- dam apenas as táticas e compromissos que o negro assume diante do racismo; transparecem também no modo como o negro aprendeu a se olhar a partir de significados e predicados produzidos pela sociedade. A lucidez de Frantz Fanon destaca o fato de a visibilidade do negro ter sido construída como signo de uma diferença negativa que inter- fere nas relações intersubjetivas. De alguma forma a compartimentação a que se refere o teórico antilhano, quando

discute o plano arquitetônico das cidades coloniais, continua

a fomentar hierarquias e divisões rígidas para alocar os ex-

cluídos e separá-los dos lugares ocupados pela minoria privi- legiada" Nessa compartimentação, que a.prática de controle

e vigilância vai tornando natural, os indivíduos são sempre

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fixados numa cenografia e numa experiência corporal posi- tiva ou negativa, que dependem do valor dos predicados culturalmente determinados. Por isso, os mecanismos de fixação do negro numa so- ciedade que o hostiliza referendam modelos de submissão e de negação do corpo e ratificam urna visibilidade perversa, que é o reforço da invisibilidade do negro como pessoa. Mas há mecanismos que podem fortalecer a transgressão, ainda quando os estereótipos continuam a coibir o negro com amea- ça de exclusão. Essa reflexão sobre os mecanismos de visibilidade e invisibilidade do excluído faz-se muito pertinente no Ardis da imagem, de Edimilson de Almeida Pereira. O livro, resul- tante de pesquisas feitas em co-autoria com Núbia Pereira de M. Gomes, nos ajuda a compreender a complexidade de mecanismos que, na sociedade brasileira, retomam o valor de mercado da cor da pele, fortalecendo estereótipos negati- vos e inibindo, embora não destruindo inteiramente, as pos- sibilidades de transgressão'. Edimilson Pereira, nesse sentido, é bastante lúcido quan- do se refere aos modos como a mídia, na época atual, vem reforçando formas' de estetízação do corpo do negro, ao mes- mo tempo que inibe o fortalecimento de um discurso político sobre os seus direitos como cidadão. A figura do atleta vence- dor e da mulata sensual é estimulante para explicitar pontos de sua argumentação. A mídia, parecendo reverter a signifi- cação do corpo negro como peça ou coisa, na paisagem socio- cultural do país, imobiliza os indivíduos em outras imagens e reforça a invisibilidade de todos aqueles - e estes são a maioria absoluta - que não se ajustam aos papéis legitimados. Nesse cenário, o padrão de beleza privilegiado, repetido em excesso, mostra-se incapaz de estimular a produção de novos significa- dos indicadores de uma mudança mais radical. Por isso, a midia continua a reforçar imagens estereotipadas, que veiculadas pela figura do negro serviçal, do fora-da-lei, do atleta, ou do objeto erótico, em nada alteram o quadro de referências. As reflexões produzidas por Pereira, de algum modo retomam as observações de [urandir Freire Costa-s. quando

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alerta para o fato de a atribuição de valores negativos a deta- lhes do corpo dos negros e mestiços induzir à formação de uma baixa auto-estima responsável pela disseminação sutil da ideologia do branqueamento, que nos atinge a todos como brasileiros. Porque, o cabelo crespo foi sempre considerado difícil, selvagem, mal agradecido a cremes e óleos, passou a ser considerado ruim, em oposição ao cabelo liso, macio, Sem- pré visto como bom. O cabelo bom é um fetiche entre a maio- ria dos brasileiros, e, por isso, faz-se metonímia de um corpo ideal, cuja cor branca é um pré-dado, "um predicado contín- gente e particular" (Costa, 1990, P: 4). Costa ressalta ainda os processos de exclusão vividos pelo negro no Brasil, tomando como referência o modo como o corpo faz-se texto para a leitura dos mecanismos de aceita- ção e de repúdio ao diferente, produzidos pela sociedade brasileira. A desvalorização das ímagens de negro, fomenta- da por clichés assumidos pelo senso comum, mostra-se signi- ficativa para se discutir, como faz o psicanalista, "o fetichísmo em que se assenta a ideologia racial" (COSTA, 1990, p. 4). Os mesmos argumentos possibilitam acompanhar os senti- dos produzidos pelo olhar lançado sobre o negro e a circula- ção das "negras imagens", principalmente as que permane~ cem em espaços de predominância negra e mulata. Parado- xalmente, nesses lugares, o olhar sobre o negro, ao ser internalizado e verbalizado deixa perceber muitas vezes o acirramento de tensões que se mostram no modo como a população mais pobre endossa imagens depreciativas sobre si mesma, porque também assume a opinião corrente de que negro é marginal, mau caréter, ladrão, maconheiro, deso- nesto, epítetos que traçam um circuito fechado, um círculo de giz que aprisiona o indivíduo na cor de sua pele. Esse mesmo olhar acentua determinados fatores pró- prios de grupos em que as tensões entre fortes e fracos se mostram numa espécie de "constelação do delírio", que in-

12 COSTA, Jurandir Freire. "Da cor ao corpo: a violência do racismo".

ln:

SOUZA, Neusa S21Dtos. Tomnr-ecJtegro. (1983). Rio de Janeiro: Graal, 1990.

P.1-16.

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duz OS indivíduos a se comportarem de acordo com uma "orientação neurótica", porque incorporam imagens que fa- zem do corpo do indivíduo um corpo perseguidor," respon- sável pela rejeição que o indivíduo tem a si mesmo. O horror ao cabelo "ruim", ao nariz "chato", ao cheiro forte do corpo, explica esse comportamento acentuado a partir do momento em que o indivíduo é assolado por uma amargura e uma dor que se traduzem em ódio ao corpo negro, a marca de sua diferença. Quando se considera, como lucidamente o faz Pereira, que os preconceitos e estereótipos são tornados naturais e, naturalizados, circulam mesmo em lugares em que a popu- lação é predominantemente negra e mestiça, entende-se por- que a fixação de modelos impede a produção de estratégias de fuga e de transgressão. A arguta reflexão do teórico nos ajuda a perceber que a naturalização das imagens de negro, repetidas em excesso em fixação negativa, reduz a possibili- dade de se produzirem novos significados que garantam a desestabilização de sentidos cristalizados. Não é o que se percebe às vezes, quando a transgressão proposta pelas perjormances de grupos funks e de Hip-Hop, oriundos de bairros periféricos de São Paulo e do Rio de [a- neiro. continua a ser descodificada, por significativa parcela de assustados espectadores, como incentívadora da violên- cia que tais manifestações denunciam? Incapazes de perce- ber os significados produzidos pelos sons, pelas letras, pelos gestos, que compõem uma outra forma de representação so- cial assumida pelos jovens da periferia, os que vêem as gale- ras como ameaça insistem em apreender as performances a partir de determinados predicados que sempre relacionam o negro com a violência e a selvageria. Verifica-se, nesse olhar persecutório que a sociedade lança sobre as expressões, que fogem aos estereótipos da di- ferença radical, uma fixação em modelos de representações

13 A expressão "corpo perseguidor" está no texto de [urandir Freire Costa (199ü) e serve para explicar a fantasia persecutória que induz o indivíduo a ver o seu próprio corpo como foco permanente de ameaça e de dor.

22

que .restaurem O exótico, ainda que parecendo rejeitá-lo. Essa retomada do exótico atualiza certamente muitos dos elemen- tos que podem ser observados nas obras de fotógrafos que focalizaram, no período escravocrata, as atividades desen- volvidas pelos escravos, no Brasil. A preocupação com a com- posição de cenas da vida brasileira em que o negro aparece como peça, como utensílio, como objeto de propriedade de seu dono, mostra a interferência do fotógrafo que funciona como um arranjador de cenas, como um cenógrafo que não desfigura a ordem social, antes mostra-se inteiramente a ela integrado. Aliás, seu trabalho reescreve a ordem escravocrata com os detalhes que procuram captar os traços dos escravos, amenizando, todavia, as marcas do trabalho servil e das se- vícias em seus corpos. Os retratos feitos por fotógrafos do porte de Christiano [r., principalmente os incluídos numa "variada collecção e tipos de pretos", eram produzidos, como mostra Pereiral sem ameaçar a ordem social branca, porque, transformados em objeto de pura contemplação, apresentavam ao olhar do es- pectador o que ele queria ver como estereótipo do africano. Os trajes e as escarificações. longe de identificarem os negros como pertencentes às suas tradições, reconfiguram os índi- ces de um exotismo desejado e consumido. Como acentua Pereira, as cartes são apresentadas ao público como testemu- nho do que os negros eram, isto é, objetos da paisagem e ob- jetos de observação para o olhar curioso do espectador. Ne- las se escamoteia, entretanto, a real condição em que o escra- vo vivia, porque as fotos o despersonalizam para focalizar sobretudo as atividades desempenhadas por ele. Ainda hoje tenta-se reproduzir o cenário em que a re- presentação do exotismo era absorvida. De algum modo, pro- cura-se revalidar lugares comuns que também estão nas cartes de visite elaboradas pelo fotógrafo Christiano [r, no Rio de Janeiro da segunda metade do século passado. Esse mesmo mecanismo que aloca nos retratos de escravos 'detalhes pró- prios do exotismo também está presente nos modos como a sociedade atual começa a absorver as expressões culturais das galeras da periferia. Ao inscrever nas performances dos

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jovens funkeiros e na denúncia feita, por elas, das políticas sociais perversas que empurram cada vez mais uma grande massa de excluídos para os morros e favelas os significantes do' exotismo, atenua-se a transgressão pretendida, isto é, na- turalizam a rebeldia, transformando-a em novo estilo a ser consumido. De certo modo, para serem assumidos pela socie- dade/ que os vigia, os freqüentadores dos bailes funks são tam- bém "fotografados" por um olhar que procura, não raras ve- zes, apenas apreender a coreografia dos performers e naturalizá-la a partir de determinados significados. Deve-se destacar, por isso, que o processo' de "glamou- rização" que já se evidenciava nas cartes de visite, está pre- sente nas imagens do negro-objeto, atleta, viril e altamente sexualizado, veiculadas pela mídia e mesmo na focalização das galeras de funkeiros, ainda que, nesse caso, muitas ve-

zes, ressigníficado em forma de demonização. Mesmo assim,

de maneira nem sempre sutil, procura-se ressignificar a trans- gressão das galeras por uma estética que, aOS poucos vai sen- do assumida pelos jovens de classe média. Por um artifício típico, da ideologia da tolerância, a pose dos retratos de es- cravos reaparece no modo como as expressões de transgres- são são harmonizadas para aparecer nos programas de TV. Pode-se pensar, então, que a preferência pelo exótico, no caso da circulação das imagens de negro é um caminho bastante perverso porque sempre propõe uma visão descomprometida com a realidade. No caso das cartes de, vi- site e dos anúncios que informam sobre a fuga de escravos, como nos mostra Pereira, impõe-se uma imagem do negro sempre como objeto, como "um objeto ruim, que causa pre- juízos aos outros indivíduos". Do mesmo modo, como acen- tua Herschmann," quando a midia procura mostrar os gru- pos de funkeiros como "agentes da desordem e do caos", dis- semina os modos como determinados discursos veiculam as imagens construídas pelo senso comum. Sem nenhum com- promisso com sua transgressão, diga-se de 'passagem.

14HERSCHMANN, Mícael. OflllJk e o Hip-Hop invadem a cena: Rio de Janeiro:

Editora da UFR], 2000.

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Todavia, é possível ler pelo avesso, as produções discursivas que se querem controladas pelo valores que dis- seminam. Assim, em todos os casos em que o negro é exibido por imagens-símbolo de uma diferença exótica ou transfor- mado em objeto de um discurso que o desconsidera enquan- to cidadão, outros sentidos se constroem à revelia de quem os produz. Como acentua Pereira, os negros escravos, nas carie de visite, imobilizados pelo olhar do fotógrafo, que os transforma em peça a serem exibidas aos colecionadores, tam- bém expõem o complexo processo de criação, elaborado pelo fotógrafo no palco de ilusões em que se transforma o atelier. Este mostra-se como o lugar de apaziguamento de conflitos, pois ali o negro é sempre tomado como escravo-índice, como pose numa realidade idealizada nos limites do estúdio. Mas, ao mesmo tempo, é também o cenário em que a ilusão de eternidade contamina os negros, e os faz desejar ser diferen-

tes daquilo que são. Nas fotos, as roupas "exóticas" reforçam

a ilusão de pertencimento a um lugar diferente daquele que

os negros ocupavam na sociedade escravagista, como peças de uma engrenagem mercantilista. A realidade "mentirosa",

é certo, podia ser vislumbrada na aparência de muitas das

escravas fotografadas como amas, desempenhando as fun- ções de mãe da criança, ou como pajens, que se parecem com as senhoras a quem pertenciam, e mesmo camuflada pela gama de artifícios de que se vale o fotógrafo para apaziguar os conflitos sociais e culturais, que também acabavam sendo fotografados. Funcionando como uma escritura "visível", tais retratos compõem uma retórica que se mostra como a face significante da sociedade brasileira, exatamente porque apre- ende os escravos pelo viés do exotismo. No caso das fotografias que estampam na midia atual os negros transformados em modelos, em artistas que bri- lham na TV, os recursos privilegiados também produzem efei- tos que apaziguam as "zonas de conflito", já que quase sem- pre só se ressaltam os atributos de uma composição que imo- biliza o negro na figura do atleta, do homem viril ou da mu- lata sensual- eroticamente significados. Tais atitudes, como nos mostra Pereira, ao justificarem os pressupostos da

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modernidade, que elege o novo como valor, ilustram a difi- culdade de aceitação das diferenças tais como elas se fazem diferença. Apesar desse incentivo ao novo e de seu caráter libertador, a propagação de discursos, que fortalecem o mito da democracia racial brasileira, escamoteia o fato de que, como nas fotografias de escravos, a transformação do negro em espetáculo de consumo fácil sonega os seus direitos de cida- dão. Basta observar a pouca alteração nos dados estatísticos que mostram o percentual de negros fora do mercado de tra- balho e a insignificante visibilidade de negros na categoria "empregadores" - apenas 22% de negros, contra 76% de bran- cos -, como atesta o artigo de Dulce Pereira, no Jornal do Bra- sil de 27/11/2000. Ou que se considere a violência que se abate de forma assustadora contra a população predominan- temente negra e mestiça, muitas vezes advinde de oriundos da própria população marginalizada. Ou, ainda, que se ob- serve a ineficácia de políticas públicas voltadas para o aten- dimento da população mais pobre e, por isso, predominante- mente negra e mestiça. Pereira nos mostra que a formulação do discurso do novo, que vem sendo veiculado pela mídia, insiste em neutra- lizar a discriminação racial violenta e os reais conflitos da população brasileira. Assim, paradoxalmente, a exposição de rostos de negros e de mestiços bem-sucedidos acaba por fun- cionar como as fotografias de escravos feitas no passado. Embora se procure retocar a face do país, marcando a ascen- são de negros e de mestiços, limita-se a apenas substituir al- guns dos estereótipos arraigados por imagens ardilosas que neutralizam a violência da discriminação. Desse modo, o discurso visual produzido pela rnidia, que se desenvolve en- tre a proposta de uma nova imagem do negro e o status quo, que fornece recursos para estabelecer a imagem do negro reificado, implica hábeis rearticulações da ideologia da de- mocracia racial. Ao se colocar na mídia o rosto e o corpo do novo negro, do negro que se afasta da população majoritária dos espaços marginalizados, acaba por se assumir a opinião de que black is beautijul, mas desde que seja igual ao que apa- rece na tela da TV, logo diferente da maioria da população.

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A reflexão produzida por Pereira nos faz perceber que essa imagem sedutora e ardilosa é encaminhada por um dis- curso utópico, que veicula argumentos sobre as possibilida- des de transformação dos "negros marginalizados de hoje em cidadãos críticos do futuro", substituindo estereótipos por outros estereótipos. O discurso sobre o novo prevê a possibi- lidade de ascensão do negro, mas isso só se faz possível quan- do referendado por imagens de indivíduos bem-sucedidos como atletas, artistas, líderes políticos, top modele, que parti- cularizam determinados predicados também tornados con- tingentes e particulares. Paradoxalmente, todavia, esse mes- mo discurso que faz eco aos estereótipos negativos sobre o negro, pode também fortalecer e estimular determinadas ati- tudes que, embora utópicas, podem produzir efeitos de sen- tidos transgressores, capazes de ultrapassar o ponto de che- gada proposto de antemão. É preciso, pois, estar atento, como nos adverte Pereira, para se reconhecerem os ardis que subjazem aos processos de representação. Há que se atentar para o fato de as repre- sentações transgressoras, estampadas na capa de grandes revistas ou veiculadas pela mídia televisiva, evocarem anti- gas contradições. Por.isso, mesmo em transgressão, as repre- sentações ainda alimentam os preconceitos contra o negro, quando destacam alguns indivíduos privilegiados que con- seguiram ultrapassar o alto percentual de negros entre a po- pulação marginalizada, no Brasil. Mais do que 11l.1nCa, diante de uma nova ordem social que nos é proposta pelas redes mundiais de financeirização e comunicação, visando à aproximação maior e inevitável das diferenças, faz-se mister observar, como nos adverte Pereira, as estratégias que propõem essa aproximação, para que se concretize, de fato, uma nova experiência de mundo, volta- da para a dignidade humana.

Maria Nazareíli Soares Fonseca

PUCMinas - BeloHorizonte

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JOGOS DE LUZ E SOMBRA

"Que somosnós entre os

incêndios destashoras (

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Moacyr Félix)

Os fatos do cotidiano, em sua fugacidade, muitas ve- zes, remetem a questões bastante complexas da sociedade. A insinuação é válida, se observarmos que diante de certos co- mentários ou imagens nos limitamos a uma atitude de indi- ferença, pois, afinal de contas, pode ser que o assunto ou "o problema" não diga respeito a nós, mas aos outros. Assim, nos eximimos de responsabilidades, criando a conveniente ilusão de que a sociedade se realiza com o bem-estar de al- guns indivíduos ou grupos. Contudo, a experiência social mostra o quanto nos dis- tanciamos desse paraíso artificial, que ao mesmo tempo em que mudamos o curso do cotidiano, somos atingidos per suas ondas. Somos, simultaneamente, ateres e espectadores dos enredos mais freqüentes de nossas vidas. Tratamos aqui de relacionar o sujeito à historicidade de suas experiências mas, além disso, de perceber o dinamismo das forças simbó- licas que animam essas experiências. Sob esse aspecto, é pos- sível apreender nas ações cotidianas uma diversidade de re- presentações e sentidos, que ultrapassam o seu aparente pragmatismo.

I Moacyr Félix, "O grande som", ln: Em nome da uida, Rio de Janeiro, 1981, p. 53.

Ê sobre fatos do cotidiano que trata o nosso texto, ele mesmo sugerido como uma resposta a certas provocações diárias. Em linhas gerais, consideramos os processos de ex- clusão através dos quais são atribuídos lugares às pessoas e às comunidades no conjunto da sociedade brasileira". Ou seja, perseguimos a idéia de que as estratégias de exclusão nem sempre se articulam como alijamento de indivíduos ou seg- mentos sociais, mas também como um modo de representá- los que indica sua inclusão parcial numa ordem projetada por grupos hegemônicos. Para explicitar nosso percurso, optamos pela aná~iseda exclusão por motivos étnicos, verificando de que maneira ela se manifesta "no discurso oral e no discurso visual através de conversas informais e da mídia impressa. Interessa-nos ob- servar, também, como esses dois discursos interagem e se apre- sentam como recursos de comunicação compartilhados pe- los segmentos que excluem e pelos que são excluídos. Em outros termos, 'isso demonstra que a aceitação dos discursos como fatos cotidianos dificulta o exercício da autocrítica, o q'ue poderia levar à descober:a ~a vi?~ê.ncia e da exclusão ocultas sob as teias das experiências diérías. Poucos se dão conta da tensão subjacente às expres- sões do tipo "ele é um negro até educado", "ela é negra mas tem o cabelo bom" ou às imagens de mulatas expostas nas capas de revistas e de homens negros m?rtos nas ?rimeir~s páginas dos jornais. De modo geral, tu.do I~SO tem SIdo consi- derado como palavras e imagens habituais e se torna quase impossível pensar em outras maneiras de perceber as popu- lações negras. Nesse sentido, os negros aparecem aos olhos da sociedade - estão, portanto, incluídos nela -r, de uma ma- neira que corrói os ideais de sujeito e cidad~o desejados pela mesma sociedade, estando, portanto, excluidos dela. É importante notar que esse cenário se dese.rU:0u sobre as linhas da formação histórica da sociedade brasileira e que, portanto, implica Um confronto de orientações ideológicas. De um lado, as lideranças que articularam a lmagem de um país branco ou mestiço com restrições às influências negras;

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de outro, as vozes que se levantaram contra esses preceitos.

A situação, no entanto, não pode ser reduzida a essa

dicotomia, principalmente quando as necessidades das rela- çôes cotidianas obrigam os indivíduos a estabelecerem diver- sos tipos de alianças. Aí emergem as contradições que reve- lam brancos engajados na crítica à exclusão dos negros e

negros assimilados pelas idéias de rejeição ao seu próprio gru-

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Além dessa contradição, frequentemente apontada, te- mos de ficar atentos para o fato de que a vivência cotidiana

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étnico.

aguça os processos de exclusão na medida em que se diversi- ficam e encontram canais para sua difusão. Ou seja, a exclu-

são por motivos étnicos se desdobra também na exclusão de

valores culturais, de modelos fenotípicos, de estruturas de

f pensamento, de formas de comportamento e de bens materi-

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I ais de um indivíduo ou de um gry.po. Por isso, a exclusão dos
I negros, que ocorre porque são negros, repercute sobre os de- mais elementos a eles relacionados.

Junto disso, se entendemos a exclusão COmo prática de-

I corrente de uma elaboração ideológica, teremos de conside- rar os canais que permitem o escoamento dos discursos excludentes. A mídia impressa, nesse ponto, constitui um su- porte com muitos recursos, decorrentes das múltiplas aplica- ções atribuídas à palavra e à imagem. Os jornais e as revistas de maior circulação, por exemplo, apostam na combinação de linguagem coloquial e produção visual sofisticada no in- tuito de atrair os seus leitores. Isso indica que esses veículos, ao mesmo tempo em que interferem nas opiniões e compor- tamentos dos leitores, também se aperfeiçoam como supor- tes de comunícação.s Estamos, por fim, imersos no jogo de luz e sombras da convivência cotidiana, onde a prática da exclusão étnica se evidencia e os elementos envolvidos na elaboração, difusão, aceitação ou crítica aos discursos dessa prática se mesclam e

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2 Melvin L. de Pleur, Teorias da ccnnunicaçie demassa, Rio de Janeiro, 1971, p. 29.

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se diluem. Em vista disso, as relações se estabelecem median- te um clima de supeitas e os atores desse enredo são, de algu- ma forma, tocados pelas contradições de uma sociedade multiétnica que tem investido pouco numa ética de valorização da diferença. A busca das sínteses estimula uma vivência cotidiana em que sujeitos situados fora do padrão de uma identidade se tornam suspeitos. Por isso, a suspeita se constitui como categoria social ambívalente, ora voltada para os interesses de grupos dominantes, ora aberta como um critério de crítica à exclusão. No primeiro caso, o perfil identitário de um Brasil embranquecido, patriarcal, de classes média e alta coloca sob suspeita o Brasil do "desvio" representado por negros, índios, mestiços, homossexuais e pobres - isto para nos atermos somen- te aos aspectos de etnia, gênero e condição econômica. No se- gundo' caso, a suspeita consiste num recurso de autocrítica, que permite desconfiar do perfil identitário apresentado como sen- do "o valor" da sociedade brasileira. Além disso, o ato de sus- peitar questiona a prática que exclui as diferenças apenas por- que se articulam como outras identidades e interroga os senti- dos dos discursos que tentam impor sua hegemonia. Adotamos a segunda perspectiva da suspeita para ana- lisar a exclusão étnica, pois entendemos que assim é possível fazer a crítica aos discursos estabelecidos, tecer nossa autocrítica e expor nossa interpretação à crítica de outros analistas. Não pretendemos redigir um discurso de condena- ção da palavra ou da imagem mas, cientes da limitação do recorte, optamos por analisar o modo como esses instrumen- tos se tornam, simultaneamente, o meio e a mensagem da exclusão étnica." Ou seja, como a palavra e a imagem tradu- zem o sentido da exclusão na medida em que são, também, a prática da exclusão, como exemplificam frases do tipo "negro não é gente" ou imagens de negros comparados a doenças.

3Yer Marshall Macluhan, Os meios de connmícação, São Paulo, 1971, Pi 21.

Os meios de connmícação, São Paulo, 1971, Pi 21. Ainda uma vez, no jogo de luz

Ainda uma vez, no jogo de luz e sombras do cotidiano, os atares vivem a tensão de terem que iluminar um ou outro dentre os sentidos possíveis dos discursos. A partir dai, uma nova ambivalência pode ser divisada, que o ato de iluminar um sentido implica lançar sombras sobre outros sen- tidos, que permanecem latentes. Se a opção por um sentido e não por outro constitui um procedimento ideológico, ain- da é necessário levar em conta que as noções de sentido equi- vocado ou sentido pertinente também se articulam com base em certas disposições ideológicas. Por isso, destacamos a importância do papel que a mídia

impressa desempenha nos jogos de luz e sombra do cotidia- no. Além da expectativa que capta a reduplicação da ideolo- gia de certos segmentos sociais em jornais e revistas, é inte- ressante analisar como o discurso de exclusão étnica desses veículos se torna objeto de consumo dos próprios excluídos.

opções dos excluí-

dos negros, apesar do mercado editorial brasileiro ser bas- tante diversificado. Além disso, é relevante discutir porque os negros brasileiros, mesmo quando têm opções para reali- zar seus discursos na mídia impressa, tomam por referência o modelo que os exclui.

Nesse caso, não se trata de satanizar a mfdia impressa, pura e simplesmente, mas de verificar que sentidos da mídia têm sido iluminados pelos produtores e leitores de jornais e revistas. Como essas operações se desdobram no cotidiano - basta observar o interesse das pessoas que se acercam das bancas de jornais, buscando e trocando informações -, julga- mos pertinente analisar como as opiniões de senso comum são manipuladas para delinear certas representações dos negros brasileiros. Nossa análise pretende verificar como a midia, percebida como veículo de informação coletiva, idea- liza e expande os conceitos que as pessoas compartilham no dia-a-dia, embora os indivíduos exprimam esses conceitos como propriedade particular."Nesse caso, não se trata de satanizar a mfdia impressa, pura e simplesmente, mas de verificar

Consideramos aqui. a hipótese da falta de

~As piadas ou frases sobre negros podem ser elaboradas por um indivíduo, mas a tendência é de se tornarem parte de um repertório coleüvo. Mas, isso não impede que as piadas ou frases pertencentes ao repertório

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A ênfase na mfdia impressa decorre do percurso histó- rico que orienta nossas reflexões. Partimos dos periódicos do século XIX para chegar aos contemporâneos na expectativa de compreender como as imagens impressas reduplicam os preconceitos contra os negros já evidenciados no discurso oral. Esse percurso nos ajuda a perceber um painel social em que a imagem dos negros veio sendo administrada com a intenção de realçá-los como imagens de sentidos estabeleci- dos a priori. Portanto, a visibilidade das populações negras não pode serpensada apenas sob o ponto de vista estético. É

necessário considerar as implicações políticas desse fato, pois

a ênfase no caráter negativo dos negros aponta o seu supos-

to despreparo para as funções estratégicas da sociedade, bem como justifica a necessidade de outros segmentos assumirem essas funções por eles.' Nossa análise pretende ser uma contribuição aos estu- dos acerca das relações de poder que passam do espaço pri- vado para o espaço público, tendo a midia - especificamente

a impressa - como canal de difusão e, também, como materialização de certas orientações ideológicas. Assim, as notícias sobre ° escravo que fugiu, no século XIX, ou sobre a trajetória da mulata de sucesso, na atualida- de, indicam a transmutação de 'eventos do espaço privado (do senhor e da família, respectivamente) em eventos de do- mínio público, uma vez que se tornam alvos de interesse de diferentes tipos de leitores. Dentre as questões a serem consi- deradas, nesses casos, estão o apelo à sociedade para empe- nhar-se' na discussão sobre uma ética de atuação da mídia e

a possibilidade de a mídia impressa vir a consituir-se como tribunal público - uma vez que atua na informação, na inter- pretação dos fatos e na formação de opiniões."

coletivo sejam exibidas como propriedades de um sujeito. Isso está sujacente à expectativa criada em torno de alguém que se anuncia, ou é anunciado" como "especialista" em piadas, de negros e, acrescentando, de mulheres, judeus, homossexuais, portugueses. 5 Sobre a administração da visibilidade na mídia ver John B. Thompson, A. mídía e a modernidade, Petrópolis, 1998,p. 12l. 6 Melvin L. de Fleur, op. cit., 1971, p. 196.

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I , aqui, é informação acerca de determinada realidade, mas se trata de notícia interpretada segundo um certo ponto de vis- ta do redator. Por se tratar de assunto relevante, esperamos contribuir para um debate interessado, que mapeie a forma- ção de opiniões voltadas para a dignidade humana e para os sujeitos que têm direito a ela.

uma notícia sobre o cotidiano, portanto, como evento histó-

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Ricardo Aleixo de Brito'

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o cenário das relações étnicas no Brasil apresenta um grau de violência comparável aos regimes mais drásticos de apartheíd, embora a sociedade insista em minimizar as con- seqüências dessa e de outras práticas de exclusão. Do pon- to de vista coletivo. tem-se sustentado o ideal de um Brasil em que os diferentes grupos convivem numa situação de relativa estabilidade. As divergências por motivos étnicos são tratadas como fatos esporádicos, que tendem a ser dilu- ídos em meio às questões de ordem econômica e política. Por isso, o discurso dominante insiste em afirmar que so- mos um país de ricos e pobres, mais do que um outro país em que pessoas de diferentes origens étnicas se debatem em busca da ascensão social. Do ponto de vista dos indivíduos, no entanto, a dramaticidade das relações é evidente pois a exclusão por motivos étnicos constitui um fato concreto, que atinge as pes-

"Ricardo Aleixo de Brito "Brancos" ln: Heloísa Buarque de Hollanda (org.), Esses poetas: nme antologia dosanos 90, Rio de Janeiro, 1998, p. 267.

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soas no corpo, na maneira como pensam, agem e exprimem

t- seus desejos. Se o discurso dominante enfatiza, através da mídia, a participação exemplar de todas as etnias em even- tos coletivos como o carnaval ou uma partida de futebol, por outro lado, não há como dissimular a agressão física e moral da polícia contra um negro, apenas por considerá-lo suspei- to durante uma blitz. 8 Nos cantatas individuais, o sujeito negro se depara di- retamente com a razão porque é discriminado, na medida em que ser negro é a condição sine qua non para que as atitu- des dos outros indivíduos em relação a ele sejam de receio e distanciamento. Vale lembrar as análises de Frantz Fanon acerca do fato de que a despersonalização vivida pelo negro decorre, em grande parte, do modo como o seu corpo é apri- sionado pelos olhares que o excluem." Esses olhares revelam, simultaneamente, um medo e um desejo em relação ao negro na medida em que o perce- bem como a diferença a ser evitada e como a provocação para a tessitura de outros liames históricos, sociais e afet~vos. Essa dupla percepção é articulada como trama SOCIal e interpessoal, o que nos leva a considerar o fato de que ela interfere não só nos modos como o negro é olhado pelo Ou- tro, mas também na maneira como os negros olham para si mesmos. Mas, essa ambivalência é desfeita quando os cantatas individuais ocorrem num momento competitivo; nessas oca- siões, as ideologias tendem a se tornar elementos de negocia- ção ou de imposição que contribuem para delinear o lugar dos indivíduos no jogo social. No momento competitivo as ideologias de exclusão são apresentadas sem eufemismos e, no tocante às questões étnicas, mostram que os sujeitos ne-

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8 Sobre o receio dos negros frente às forças policiais ver Hédio Silva [r., "Crónica da culpa anunciada", ln: Oliveira, Dijaci David de (org.). Acordo medo, Brasília/ Goiânia, 1998,P. 83-85. "ver Frantz Fanon, Pele negra, máscaras broncos, Rio de Janeiro, 1983. Homi K. Bhabha retoma a discussão desse tema em O local da cultura, BeloHori- zonte, 1998, p. 73.

gros e não-negros colocam em risco apossibilidede de sua interação se não se dispõem a respeitar-se mutuamente. À proporção que falta o respeito mútuo, instaura-se a lingua- gem da violência e através dela os indivíduos marcam seus espaços de sobrevivência, estabelecendo e reduplicando li- nhas de valores que indicam os contornos de grupos hegemõnicos e subalternos. Em geral.essa violência se exterioriza nos microespaços da sociedade, tais como esco- las, saguões de hotéis e edifícios, em casas de espetéculos, ônibus, hospitais, ou seja, nos locais onde os indivíduos se encontram parél, entretecer as redes de convivência social. No presente estudo, a pesquisa empírica é o ponto de partida para delinear a exclusão étnica como um drama que restringe os processos de inter-relações sociais. Ao tratá-la como um drama, consideramos o sentido que esse termo apre- senta no campo estético para tentar compreender através dele as intervenções que os atares sociais fazem a partir de um script que estimula as práticas de exclusão. A exclusão, como

drama, nos leva a considerar dois fatores centrais: a partici-

.pação dos atares e a configuração de um

processo comuni-

cativo que evidenciam.a exclusão como um processo social- mente articulado. É interessante pensar o drama como elaboração comu- nicativa essencialmente teatral, cujas possibilidades de repre- sentação de situações trágicas e cômicas se concretizam me- diante a participação dos atores sociais, Daí a importância do diálogo para estabelecer a ambiência dramática, pois é através dele que os atores se relacionam para debater sobre os sentidos que pretendem revelar e ocultar simultaneamen- te. Além disso, a tensão ocasionada pela diversidade de sen- tidos que se pode atribuir ao mundo, cria o estado perma- nente de luta pelo domínio da comunicação: o atar dra- mático, mesmo em silêncio, é um sujeito que convida à co- municação, pois a sua atuação implica a elaboração de enre- dos que interferem no desenho das relações interpessoais e intergrupais.

O drama da exclusão conta com atares sociais que. te- cem seus discursos fi luz da sedução e do medo despertados

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pela presença do Outro. As ações de quem assume o centro do enredo transitam nos limites do .cômico - que desautoriza o Outro empregando a tética de expô-lo ao ridículo - e do trágico - que aposta em sua eliminação mediante a aplicação da violência. O aspecto prático dessas possibilidades se exprime no repertório de piadas, frases e caricaturas que a sociedade assi- mila como sendo a representação do Outro. Veja-se a repre- sentação negativa dos negros brasileiros a partir de un: :ecor- te baseado no cômico para desautorizar a sua condição de

pessoa e de sujeito social. Nesse caso, 'pro~u:a-s,erealçar os aspectos do negro boçal, ingênuo e sem inteligência, que pode ser manipulado como objeto. Por outro lado, tem-se a per~~ pectiva trágica em que a representação do negr.o - [a desautorizada pela exposição ao ridículo - é modo a justificar o seu exílio das instâncias sociais privilegia- das. Nesse ponto, percebe-se o interesse em ,demons~arque o negro constitui um elemento de dese~uil~nona sociedade. O

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O discurso que os atares SOCIaIS orgamzam a partir das possibilidades cômicas e trágicas da exclusão configura um processo comunicativo, em que excluídos, e agentes-da-e,::- clusão se confrontam diretamente. O discurso e a açao excludente adquirem relevância na medid~ em que se tor- nam prática social, daí a necessidade de-abrir car::unhos para o seu florescimento. Em outros termos, a exclusao faz parte de uma lógica de poder e, ao manifestar-se, revela a máqu~­

na do poder à qual perten~e.M'":ita~~ezes,o at~ de exc~u.Ir

ações repressoras q.u~lDC1de~sobre ele

pode parecer discurso e açao do 'individuo, mas e n~cessano inquirir quais são as instituições de poder que ta~bemfalam através do indivíduo. Esse fato é interessante pOIS nos leva a considerar a exclusão como uma articulação social que, em- bora possa ocorrer 'nos limites das relações interpessoais, tam-

bém as ultrapassa.

. O processo comunicativo da exc1usao implica o envolvimento dos atares individualmente e, ao mesmo tem- po, das instituições e grupos aos quais pertencem, ~ob esse ponto de vista, o drama da exclusão pode ser considerado

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como elaboração ideológica que se realiza dentro de uma sociedade competitiva. Os indivíduos e os grupos estabele- cem representações de si mesmos e do Outro mediante um repertório de valores delineados hierarquicamente. Ou seja,

a definição das representações ocorre a partir do momento em que o desejo de ser o centro (Eu e Nós) e não a periferia (Outro e Eles) evidencia o confronto entre os atares sociais.

O que é dito sobre o Eu (como síntese da identidade) e

sobre o Outro (como crítica à diferença) constitui uma par- cela de um processo comunicativo maior ligado às estratégi- as políticas, económicas, culturais e que é apresentado à so- ciedade como um fato resolvido. Porém, como se trata de um

processo, é interessante observar a atuação dos atores sociais

e os canais que empregam ao transmitirem os discursos que

mapeiam as relações de exclusão. Para o tema que investiga- mos, temos como atares os negros e os brancos, e como ca- nais as instituições e os meios de comunicação. A partir des- ses elementos podemos perceber o esboço de um cenário em que as relações de exclusão por motivos étnicos se desenvol- vem de maneira tensa e violenta.

A título de exemplo, vejamos esse quadro dramático

na escola - local que, na contramão de suas funções socializantes, tem se caracterizado como instância de ocor- rência da exclusão. O enredo tem como cenário a escola (es- paço institucionalizado), como atores a professora (que ex- prime as opiniões de seu grupo familiar) e o aluno (que busca na instituição os recursos para confrontar-se com a exclusão). A escola e a professora, em geral, se posicionam no centro da trama, obtendo, com isso, a autorização para representar os alunos como habitantes da periferia.

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O depoimento a seguir procede da pesquisa que reali-

zamos, desde 1979, para reunir imagens, piadas e frases so- bre negros a serem analisadas no decorrer deste estudo. O depoimento foi registrado em correspondência pessoal envi- ada ao pesquisador por uma professora de escola municipal, em Divinópolis, Minas Gerais, que colaborou com o levanta-

mento de informações sobre a discriminação contra os ne- gros. Por um lado, julgamos pertinente resguardar os dados

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pessoais da auxiliar de pesquisa, que a mesma não teve a intenção de transformar seu depoimento em fonte de investi- gação; por outro, observamos que suas opiniões pertencem a

um conjunto mais amplo, ou seja, constituem uma elabora-

ção discursiva que identifica o modo como certos grupos sociais representam os negros. Percebe-se, muitas vezes, que o indivíduo reduplica a ideologia de seu grupo e, mesmo quan- do reconhece a violência que a caracteriza, se vê impedido de elaborar um discurso de contestação.

"você não imagina o preconceito que tenho! E até que me

esforço pra não ter, mas

minha familia falando horrores sobre os negros na minha frente. Bobagens, eu sei Você pode imaginar a loucura que é ter alunos pretos, ver os outros alunos com gozações o tempo todo e ter que recriminá- los, enquanto, por dentro, eu própria os discrimino. Acho (~enho certeza, aliás) que é por isso que falo, falo e de nada adianta!

Cheguei a pedir, no início do ano, que não me dessem turm~s

e eu tento não

com pretos, que não sei lidar com o problema

ser racista, jurei!Mas é inútil. Outro dia, fui fazer concurso do

Pitágoras, em B.H. e quando encontrei minha sala, bati com o olho numa pretinha. Pensei: coitada, que coragem, está

perdendo tempo

aí pensei: nossa, vai pôr mais um prá sofrer no mundo, que coragem! Porque os negros sofrem demais, pelo menos por aqui, é uma loucura."

Professora B.

Dívinópolís, MG, 23-11-1986

é difícil, cresci. com várias pessoas de

e

quando ela levantou, vi que estava grávida,

o relato da professora B. faz parte do cotidiano de muitas escolas brasileiras, embora permaneça o pacto de si- lêncio que leva a instituição e os excluídos a evitarem o deba- te aberto sobre o terna." Os confrontos entre os atores e a existência de uma ideologia de exclusão na escola aponta para

"Sobre as relações de discriminação estabelecidas pela escola e pela socieda- de, ver Nilma Líno Gomes, A mulher negra qllevi deperto, Belo Horizonte, 1995, p. 68.

43

uma sociedade cuja prática de exclusão vem se constituindo como Um dos eixos de sua organização. No relato' da profes- sora B. encontramos os recursos que a sociedade, em geral, emprega para excluir os negros: a primeira atitude é desqualificar os negros: a expressão "uma pretinha" revela a intenção de identificar os negros de forma pejorativa, consi- derando-os como elementos à parte da sociedade. Em segui- da, afirma-se o privilégio daqueles que elaboram o discurso de discriminação: a escola e o corpo docente se tornam irradiadores de uma visão de mundo etnocêntrica, que resul- ta na exclusão daqueles não identificados com o padrão étni- co-cultural dominante.

Cena semelhante se desenrola nos meios de comunica- ção. Tal como a escola, eles evidenciam a exclusão como a prática social cotidiana que atinge os negros. A exclusão por motivos étnicos passa a ocupar também a moderna rede de comunicações internacionais, além dos veículos já conheci-

dos - como jornais, revistas e emissoras de televisão. A Internet, por exemplo, tem permitido aos indivíduos e grupos trans-. mitirem as ideologias de exclusão numa velocidade maior que

a dos outros meios. A dificuldade de estabelecer uma orien-

tação ética para o uso desse tipo de meios cria situações gra- ves, na medida em que a rede adotada por instituições como

a universidade oferece aos usuários individuais recursos para

que divulguem seus discursos de exclusão. Veja-se os casos em que estudantes utilizam a rede de suas instituições para veicular propagandas contra negros e homossexuais ou para fazer a apologia da violência.!' Uma vez mais, o espaço do cotidiano - representado pela escola, a universidade e os meios de comunicação ~ se

II Ver a denúncia contra o discente da Universidade: Federal de]uiz de Fora, acusado de usar a rede da instifuiçâo para difundir mensagens contra negros e homossexuais. "Fim da sindicância: UFJF responsabiliza aluno por racismo", ln: Tribuna deMinas,Juiz de Fora, "Cidade", Quarta-feira, 13 de agosto de 1997, p. 1.

44

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transforma em cenário onde os negros e outros segmentos são tratados de maneira hostil. Esse drama, resultante da ela- boração ideológica e da prática de exclusão, pode ser obser- vado corno processo comunicativo que revela algumas das tensões da sociedade brasileira. É portanto, como uma forma de comunicação que desejamos analisar a exclusão por moti- vos étnicos. Para tanto, é necessário pensá-la cama um as- pecto relacionado à formação social brasileira, e que adquire novas configurações à medida em que a própria sociedade amplia sua capacidade para articular e divulgar suas ideo- logias.

Uma parcela considerável dos estudos a respeito dos negros brasileiros vem se detendo sobre os aspectos de seu patrimônio cultural ou de sua marginalidade decorrente da exclusão étnica e social. No entanto, poucas investiga- ções abordam os mecanismos utilizados para tecer ideologi- as que atuam no cotidiano e contribuem para a exclusão dos negros. Tem sido habitual analisar aquilo que é dito ou feito contra os negros brasileiros, isto é, o resultado final de um esquema maior em que os motivos de exclusão são arranja- dos. Em outros termos, analisa-se fragmentos da exclusão - o discurso ou a prática -', mas não se leva em conta a cena dramática da qual eles fazem parte, incluindo os atares soci- ais, os espaços que ocupam., os meios de comunicação que empregam e, sobretudo, as teias do pensamento e do imagi- nário acerca da exclusão presentes na formação e no desen- volvimento da sociedade brasileira. O crescente processo de mundialização dos enredos sociais tem sugerido a possibilidade de pensar as relações ét- nicas nos âmbitos local e internacional, simultaneamente. Isso se considerarmos que o combate às diferentes formas de ex- clusão não constitui a necessidade de um grupo, mas dos cidadãos e sociedades comprometidos com a defesa dos di- reitos humanos. A compreensão das relações étnicas no âm- bito local depende também do entendimento daquilo que ocorre em outras sociedades, pois a exclusão, ao fazer viti- mas individuais, vitimiza os seres humanos como um todo e

ocorre em outras sociedades, pois a exclusão, ao fazer viti- mas individuais, vitimiza os seres humanos

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revela Como diferentes sociedades se assemelham nos esque- mas de produção da violência. 12 A análise do drama da exclusão no Brasil é também ~ma ten~ativ~de compreender como as redes de comunica-

çao l.ocaIS ~ ínternacionaís contribuem

fundir os discursos e práticas discriminatórias. Para tanto

fundamen.tal que possamos conhecer as especificidades das

redes locais. através das quais a sociedade brasileira organi- zou o seu processo comunicativo de exclusão dos negros,

para criticar ou di-

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, ~:um,avls~taao século XIX deparamos com várias pu-

bhc~ço~s00rna1Sfpa~quins,revistas) que foram incorpora- das a vida de certa faixa das populações urbanas e rurais. A chegada des~aspublicações nas áreas rurais - em geral para grupos, restntos de intelectuais, políticos e outros mandatári-

os locais - e sua presença cada Vez mais constante nas áreas urbanas demonstra a formação do hábito de o indivíduo se

elaboradas a

defro~tar, di,ariamente, com as representações

respeíto de SI mesmo e do Outro, A nO,ssa ~~ia impressa tem-se constituído como espa- ç~ de amblVal:ncla para a representação dos negros, na' me- d.Ida em que nao os toma como agentes sociais _ daí a ausên- CIa de negros em muitas das páginas editadas ~ ou os apre- s:nta segundo:rm recorte estigmatizado - veja-se a reitera- çao de estereótipos de negros atletas, artistas ou marginais. Isso decorre do processo histórico-social brasileiro que confi- gurou, desde as suas origens, vários esquemas de exclusão de grupos menos favorecidos, destacando entre eles os ne- gros e seus descendentes. Meios de comunicação como jor-

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au:encla ou a representação estereotipada dos negros em livros e periódi-

cos e ex~mplo de uma 9uestão que. pode ser melhor compreendida se levan;,os em cont.a a~ s.?cledades locais e a sua inserção no quadro mundial. Essa e _uma contribuição para a busca de soluções dos processos locais de excll~s~O,na expectati:va de que seus efeitos alcancem repercussões exter- nas. ~interessante verificar como sociedades distintas, a brasileira e a norte-

amencare, ~: ~eparam co.m a

q~estão dos negros e sua representação nos

. onover, ,1e lss.mgFac,esln Childrcn s Tales: Absence ofblacks ín pictl.lre

livros e periódicos. Ver Nílma Lmo Gomes op. cito 1997

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books coincides wíth racial conflicts", lN: Tlw Christian Science Monitor Boston, Massachusetts, Tuesdav, Aprill, 1997.

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riais, revistas e televisão, em grande parte do tempo se ocu- pam da transmissão de modelos culturais que excluem de suas instâncias de produção escalas consideráveis do públi- co. Ou seja, a midia estabelece recortes da diversidade cultu- ral brasileira e os apresenta como se fossem o centro e mode- lo de uma cultura brasileira. Nesse acervo de recortes, rara- mente são privilegiados os aspectos da cultura brasileira re- lacionados aos negros; quando isso ocorre, como frisamos,

é de maneira estereotipada." Vale chamar a atenção para a complexidade que envol- ve a tessitura do estereótipo pois, como alerta Horni Bhabha, ele uma forma de conhecimento e identificação que vacila entre o que está sempre 'no lugar', já conhecido, e algo que deve ser ansiosamente repetido"." É dessa oscilação que nas- ce a força do estereótipo, infiltrado nos jogos sociais como "um modo arnbivalente de conhecimento e poder" .15 No caso específico dos negros brasileiros, a elaboração de estereótipos resulta de uma articulação que os situa den- tro e fora da sociedade, de acordo com as conveniências dos grupos mais influentes. Os negros se tornam uma representa- ção conhecida e desconhecida, na medida em que o estereóti- po informa à sociedade que eles são o agente negativo, mas a deixa em suspense por não lhe revelar as outras faces que os negros podem assumir, Na tentativa de preencher as lacu- nas dessa ambivalência, sociedade e indivíduos se empenham na reiteração dos estereótipos como se fosse uma estratégia para justificar o processo histórico baseado nas práticas de exclusão e para sustentar um sentido de verdade para esse mesmo processo. Em vista disso, a relação entre as elaborações discursivas

e os meios de comunicação se reveste de grande importância

pois, através das primeíres.sujeíto e sociedade exercitam

13Sobre as contradições da mídía impressa no tratamento das questões étni- casver Fernando Costa da Conceição, "Qual a cor da imprensa", ln: Díjaci David de Oliveira et ai (org.), A cor do medo, Brasília, 1998, P: 155. 14 Horní K; Bhabha, op. cito 1998,p.IOI.

"Idem p.103.

47

sua competência para manipular as ideologias com que desenham os estereótipos e, através dos segundos, bus- cam difundir o, discurso que, uma vez compartilhado,

lhes garante a legitimação. Cumpre frisar que essa rela- ção não é mecânica, Ou seja, as elaborações discursivas e

os meios de comunicação podem atuar em direção opos-

ta, estabelecendo a crítica dos estereótipos e propondo estratégias para superá-los. No momento, abordaremos o lado dessa relação que reforça os procedimentos de exclusão, isto é, absorven- do, reformulando e difundindo estereótipos que situam

os negros à margem da sociedade brasileira. Trata-se de um percurso que visa observar a montagem dos discur-

sos de exclusão para, a partir daí, vislumbrar uma análi-

se teórica 'que seja, também, uma reação política ao determinismo presente nas maneiras de representar os negros brasileiros.

A mídia, embora não seja a sociedade, se apresenta

como 'fruto da sociedade e nos permite observar que vá- rios aspectos da representação dos negros, antes de che- garem aos meios de comunicação de massa, estavam organizados e repercutiam no interior dos' grupos soci- ais. Nesse sentido, é pertinente notar que o imaginário acerca dos negros teve, e-tem, o seu terreno fértil no sen- so comum que orienta, de um modo geral, a vida dos

indivíduos e dos grupos. Por isso, como veremos no de- correr deste estudo, é possível rastrear a conivência en- tre a mídia e o público no processo de exclusão dos ne- gros, uma vezque a primeira cria novos estereótipos mas também reitera antigos estereótipos difundidos no coti- diano da população brasileira.

O senso comum permeia as relações sociais, atuan-

do como elemento definidor da busca de sentido para a vida em sociedade e, no dizer de Clifford Ceertz, pode

ser compreendido a partir de dois eixos: inicialmente como I/simples aceitação do mundo, dos seus objetos e dos processos exatamente como se apresentam, como parecem ser". Noutra perspectiva, o senso comum é uma

48

ser". Noutra perspectiva, o senso comum é uma 48 la "u, 1 # #4422i ft?rça-~pragmática que

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ft?rça-~pragmáticaque revela nos sujeitos o desejo de in-

terfenr 1:0:nundo "de forma a dirigi-lo para seus propósi-

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. No tocante aos negros, percebe-se a existência de uma

on~ntação ide':.lógica dominante que estimula a construção de representações baseadas no sentido conservador do senso

comum. Os negros são representados de maneira estereoti-

priori e aceita

~elasociedade como justificativa para admitir que a inferic- ridade dos negros parece ser incontestável. O aspecto conser- vador do senso comum restringe as possibilidades de contes- tar os estereótipos sociais, pois lhes atribui um caráter de fato n~tural. Em outras palavras, as ideologias dominantes, atra- ves do senso COmum, fazem com que um fato socialmente c?n~t~uíd~ adquira status de fato natural. Na prática, isso significa dízer que a exclusão por motivos étnicos está basea- da na orientação ideológica que faz parecer natural-um fato criado a partir de int~ressesde determinados grupos e divul- gado como verdade inerente à própria sociedade. .Por outro lado, o senso comum sugere aberturas que permitem contestar a idéia de aceitação do mundo como ele é ou parece ser. Através dessas aberturas, os 'atares sociais e o~ ~ru~os pb~em interferir na construção de seus espaços de vivênciaPor ISSO, os sentidos do mundo Se tornam variáveis articuladas a partir das relações entre identidade e alteridade alteridade, cuja maior conseqüência consiste no empenho dos atares sociais para realizarem a afirmação ou a crítica dos valores que os orienta.

tos,

ajustar-se a ele."16,

dominá-lo ou, na medida em que se torna impossível

pada co~o se isto fosse tuna verdade dada a

As elites brasileiras, por exemplo, utilizaram as aber- turas ~o sens? COmum para desenhar imagens dos negros da maneira que JUlgaram conveniente para atender aos seus in- teresses: Assim sendo, afirmaram sua ideologia de identida- de medl.ante a desautorização do Outro-negro como possível referencial de uma identidade nacional. O ponto ferino des-

rs Clifford Ceertz, A interpretação das culturas, Rio de Janeiro, 1989, p. 127.

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sa situação ~q~e,~;apassagem do negro bom escravo para o

o,syróprios negros e descendentes foram

seduzidos p~lapOSs~blhdadede interpretarem a si mesmos de form,a negativa, aS~lmcomo estava proposto nos periódicos do~nado~pelas elítes econômícas e intelectuais do país. Em contI~parhda,as aberturas do senso comum constituem um

desaÚ? para qu~os brasileiros encontrem meios de criticar os estereotipas e, simultaneamente, delinear representações em

que

negro ,mau

os, ~egros sejam reconhecidos como sujeitos sociais.

_ E Importante frisar que o senso COmum por si mesmo

nao atua como .fo~tede representações negativas ou positivas dos negros brasileiros. A manipulação que os diferentes segmen- tos SOCIaIS fazem do potencial do senso comum para alimen- tar ~construção de sentidos é que sustenta as práticas de ex- d~l~aocontra negros, nordestinos, mulheres, homossexuais, ai- ?-~tICOS,etc. Mas" como o senso comum parece não possuir su- Jel~o:que o manipulam, a sociedade aceita como natural as praticas d,e ~x~lusão ~ue são veiculadas atravésdalinguagem

verbal, (hlstona~, chistes. piadas, frases feitas)

gem VIsual (~ancaturas, fotografias, filmes).

. Os melas de comunicação de massa, de acordo com os mteresses dos grupos dirigentes, utilizam o aspecto ccnser-

vador do s~nso~omum e, quando veiculam os estereótipos de. nef?ros, ,I~edlatamente se justificam, afirmando de ma-

neira

q,ue a SOCIedade matste em aceitar cama jogos de humor. As- SI~, os ~egros das.piadas e frases feitas reaparecem nos jor- nars, revistas e ~mls~oras de televisão, em geral para reafir- fi,ar os valores sintetizados nos estereótipos do negro fora da -

e da lingua-

Im~hc1ta,~u~ estão apenas reduplicando as práticas

lei, da mulata sensual ou do atleta bem sucedido. ~maalternativa a esse padrão são proposições de iden- tificação dos negros brasileiros com negros situados em ou-

t~oscon~extos~ociais.Nota-se um esforço para que as condi- çoes locais de VIda dos negros brasileiros sejam substituídas p outras, consideradas como símbolos de uma identidade cul~~

17Clóvis Moura, O negro, de bom escravo a mal! cidadão? Rio de Janeiro 1977 "

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ralou de uma resistência social a ser resgatada. Aí se incluem os paradigmas dos negros de países como a Nigéria e o Benin (que sugerem o reencontro da África-Mãe através das matrizes re- ligiosas iorubés), a Jamaica (que é tomada corno referência de liberdade construída através da arte, especialmente a música) e

os Estados Unidos (que demonstram a possibilidade de conquista de direitos através dos movimentos civis). A adoção desses paradigmas apresenta resultados ime- diatos nos comportamentos, quando os negros locais - ape- sar de possuírem laços históricos profundos que os vinculam aos negros de outros países - se limitam a reproduzir os as- pectos que a mídia divulga, Em vista disso, verifica-se que os modos de agir e pensar dos negros brasileiros se explicita como uma brico/age de valores que necessitam de um período para se conectarem às estruturas da nova realidade social. Nesse intervalo, o que se percebe é a tentativa de os negros brasilei- ros afirmarem suas identidades mediante a adoção de traços de outros negros que também procuram estabelecer perfis de identidade em seus contextos específicos. Se levarmos em'conta a interferência dos contextos no estabelecimento dos perfis identitérios, teremos de relativizar

o princípio que preconiza uma identidade global entre os negros, cuja possibilidade se revelou através de um espírito de solidariedade universal, tal como nos versos de Agostinho

Neto (AngoJa,1922-1979):

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"A ti, negro qualquer meu irmão do mesmo sangue Eu saúdo!

(.)

Esta é a hora de juntos marcharmos corajosamente para o mundo de todos os homens" 1~

18Agostinho Neto, "Saudação", ln: Sagrada Esperança, São Paulo, 1985, P:47-8.

Por outro lado, o reconhecimento das diferenças contextuais relativiza a criação dos perfis de identidade. Isto é, não basta ser negro para pertencer a uma comunidade de irmãos com mesmos interesses. A interpretação da identida- de como fato que se constrói nas tramas da história obriga à relativização dos laços de pertencimento, ou seja, ao lado da semelhança étnica é necessário considerar outros fatores só- cio político-económicos que aproximam ou distanciam os negros. Eis o que nos mostra a poética de Solano Trindade (Brasil, 1908-1974),

"Negros que escravizam

e vendem negros na Afrlca não são meus irmãos

Negros senhores na América

a serviço do capital

não são meus irmãos

Negros opressores em qualquer parte do mundo não são meus irmãos

Só os negros oprimidos

escravizados

em luta por liberdade

são meus irmãos

Para estes tenho um poema grande como o Nilo".19

Os meios de comunicação, na medida em que atuam no processo de representação das identidades, têm oferecido aos negros brasileiros a oportunidade contraditória de serem outros ~ e não eles mesmos. Para tanto, não estimulam o de- bate acerca do ret'ativismo identitério mas, ao contrário, lan- çam mão do aspecto conservador do senso comum ao ínves-

19 Solano Trindade, "Negros", ln: Tem gente comfome e outros poemas, Rio de Janeiro, 1988, p. 15.

52

til' na lógica de que os modelos vindos do exterior ultrapas- sam, em valor, os sentidos das experiências locais. Evidentemente, não estamos considerando apenas os caracteres alienadores da mídia ou do senso comum. Numa perspectiva dialética, é preciso observá-los também como ele- mentos através dos quais é possível elaborar estratégias de defesa da cidadania e de promoção da justiça social. Ou, aín- da, como elementos dotados de plasticidade suficiente para

refletir a diversidade identitária que se desenha nos rostos da sociedade brasileira.

A análise proposta neste estudo investigará as relações

entre senso comum e meios de comunicação na tentativa de apreender as representações dos negros brasileiros resul- tantes desse encontro. Nossa reflexão não é necessariamente sobre a ausência dos negros na mídia, mas sobre a existência de uma linha de pensamento que exclui os negros da socie- dade brasileira em função da maneira como os representa. Por isso, a partir da vivência cotidiana - através da qual os fatos de exclusão se mostram concretamente - procurare- mos perceber a teia de argumentos que fazem do Brasil uma sociedade excludente e violenta, apesar dos idílios que des-

crevem sua índole pacífica e ordeira.

MAPAS DE UMA LEITURA

A análise do discurso da exclusão por motivos étnicos,

em suas vertentes verbal e visual, tem para nós uma dupla justificativa. Primeiro, porque a investigação se desenvolve como complemento de pesquisas que realizamos anteriormen- te acerca da experiência social de populações negras brasilei- ras." Abordamos a organização social de grupos economi-

ao Gomes & Pereira, Negras raízes mineiras: os Ar/liras, J. Fora, 1988i "Isolados

negros, desolados remanescentes", ln: táunâo encaixado: significação da cu/-

tllra popular, Belo Horizonte, 1992; "Os tambores estão frios: herança cul- tural e sincretismo religioso no ritual de Candombe", Juiz de Fora, inédito,

1996-2000.

53

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camente menos favorecidos, habitantes de áreas rurais ou periferias urbanas, que encontram na vivência do sagrado

um fator de constituição da identidade.

_ O discurso do sagrado nos permitiu verificar a preocu-

paçao das comunidades em afirmar sua identidade ao tomar como referência as heranças dos antepassados. Mas, na me-

di.da en; que se pensa o discurso celebrativo como parte da

tela social - portanto, afeito às disputas que envolvem a

busca pela hegemonia simbólica e também política - tor-

na-se possível detectar em sua tessitura elementos que evi- denciam os conflitos de natureza étnica, politica, social e eco-

nô~ca. Muitas vezes, o discurso sagrado emitido pelas co- murudades de negros brasileiros se apresenta como formula- ção orgulhosa da identidade, mas também se deixa atraves- sar pela visão excludente de discursos elaborados por outros grupos. Nesse caso, o discurso sagrado se revela como pro- dução social que se exprime a partir de lugares e sujeitos his- toricamente envolvidos em processos de interação e conflito, apesar de remeter os devotos para instâncias da experiência

transcendente."

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. As :la~oraçõesdiscursivas que acentuam a exclusão por

motivos étnicos, tanto quanto aquelas que acentuam o caré- te~ do sagrado, solicitam u~ tipo de análise abrangente, Ou seja:. o~ m~dos de construção das identidades dos negros brasileiros incluem suas experiências simbólicas com a reli- gião ou a arte, por exemplo, e bem como suas experiências histórica? relacionadas ao corpo e à cor de sua pele. Portanto, nas estratégias de singularização"> dos afro- brasileiros se desenham num horizonte de contradições. Isto é: a afirmação de uma identidade se torna possível mediante a adoção da vertente ortodoxa do sagrado (quando o sujeito se defíné como n:gro em virtude de sua práxis religiosa liga- ~a ao Candomble ou ao Congado) ou de Uma ideologia polí- tíca (quando o sujeito se,diz negro em função de sua militância

<1 Gomes & Pereira, Mundo encaixado, 1992, p. 3S aa Muniz Sodré, C/aros e escuros, Rio de Janeiro, 1999, p.lO

em partidos voltados para a defesa de direitos das classes menos privilegiadas). Porém, essa identidade é confrontada pelos discursos excludentes elaborados por outros grupos, não negros ou de tendências políticas não populares. Além disso, há que se pensar a identidade como um traço flutuante, cujas repre- sentações podem variar de um grupo étnico para outro e dentro de um mesmo grupo étnico. Assim sendo, a identida- de absoluta sugerida pela ortodoxia do sagrado ou da ideo- logia política tende a ser interrogada por outras identidades decorrentes das maneiras específicas como os grupos de ne- gros brasileiros experimentam o sagrado ou a política. Uma segunda justificativa para a análise dos discursos de exclusão por motivos étnicos decorre da necessidade de ampliar os debates acerca das chamadas heranças culturais afro-brasileiras, a fim de compreender como as relações coti- dianas - permeadas pela influência dos meios de comunica- ção de massa - se constituem pressionadas pela violência e a intimidação. Nesse contexto de envolvimentos afetivos, dispu- tas no mercado de trabalho, entretenimentos, opções ideoló- gicas, etc., a cor "constitui um recurso símbõhco'?" que in- terfere nas possibilidades de o sujeito ser mais ou menos acei- to. É seguro que não tocamos num aspecto inédito das rela- ções étnicas no Brasil, Mas, o que nos intriga, é justamente sua constante atualidade e os embaraços que se erguem no momento de encontrar novos ângulos para interpretá-lo. Aqui, vigora, em geral, o traço conservador do senso comum, isto é, como sociedade sabemos da exclusão motivada por fatores étnicos, mas insistimos em admitir que é difícil olhar de frente esse tipo específico de discriminação. Nesse caso, a conclusão consiste em associar a exclusão por motivos étni- cos à exclusão social e económica, No entanto, a leitura das vivências cotidianas revela que, além da discriminação socioeconômica, também ocorre a discriminação por motivos étnicos. Isso, paralelamente a

23 Idem, op. cit.,p.197.

um processo contemporâneo- de "banalização" da problemá- tica das "estratégias de singularização e 'Soberania' dos afrodescendentes" operada pela mfdia e pelo mercado.ê' Por isso, nossa metodologia de pesquisa voltou-se para a pesquisa de campo, a fim de registrar parte do discurso ver- bal e visual que, diariamente, serve como instrumento de confronto entre as pessoas que constituem o quadr o multiétnico da população brasileira. A medida que acentuamos a visibilidade dessa forma de exclusão," apostamos nas possibilidades de estabelecer outra prática social, atenta à necessidade do diálogo entre os diversos grupos definidos, segundo suas particularidades de etnia, gênero, faixa etária ou condição socioeconômica. Mediante as justificativas, delineamos o objetivo cen- tral da abordagem, que consiste em evidenciar como as rela- ções entre discurso oral e discurso visual têm sido articula- das para compor imagens estereotipadas dos negros brasilei- ros. Em torno desse objetivo, traçamos outros que se complementam e ampliam nosso campo de investigação, Sen- do assim, nos empenhamos e11,1; analisar a atuação da midia impressa diante das tensões diárias motivadas por questões étnicas; demonstrar como os vínculosentre "senso comum e mídia podem ser manipulados para construir os discursos de exclusão; e, por fim, apontar a estratégia de mascaramento que encobre ii exclusão étnica veiculada por textos e" imagens alusivos aos negros brasileiros. Para levantarmos o corpus do discurso de exclusão, con- sideramos as etapas da pesquisa de campo e da pesquisa bi- bliográfica. A primeira incluiu o registro do discurso verbal representado por frases feitas e piadas sobre negros, que apa- recem tanto na versão oral quanto na escrita. Realizamos essa etapa no período de 1979 a 1994, em cerca de 223 municípi- os do Estado de Minas Gerais. A coleta de dados contou com o auxílio de professores e alunos das redes de ensino público

24 Ibidem, P: 10 e 258. 25 Dijaci David de Ollveíra, "A cor do medo: o medo da cor", ln: Oliveira, op. cit., 1998, p. 37.

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(m;uucipal e estadual) e privado. Muitas vezes, os discentes in- sen~~ma pesquisa entre as atividades didáticas em ocasiões ~s­ pecfficas, como o 13 de maio (Dia da Abolição da Escravatura) ou o 20 de n?vembro (Dia Nacional da Consciência Negra ). Parte expressiva dos levantamentos ocorreu em 1988, ano em que se comemorou o Centenário de Abolição da Escravatura. Esses mom~n~os,ao ocuparem maior espaço na mídía, repercutem nas atividades pedagógicas, motivando alunos e

professores para os temas considerados polémicos Por iss '

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importante observar - para dimensionar criticamente ~ a in-

terfe.rência da mídia no processo ensino-aprendizagem,

na

medida em que junto com uma pauta de temas também são of~recidosdiscursos de diferentes tendências. Durante a -pes- qUIS~, .em 1988, verificamos que os temas acerca dos negros brasileiros ganhou espaço nas escolas à proporção que mere- cer~malgum destaque em programas de televisão, jornais e revistas. Em muitos casos, as edições impressas funcionaram como motivadores para atividades realizadas em sala de aula. No entanto, cessados os momentos de celebração cívi- ca, reencontramos a dificuldade para abordar o tema da 'Vio- lência causada por razões étnicas. Para seguir a pesquisa, co~amoscom o emp:nho pessoal de vários docentes, negros e;n~o~egros.Em venas escolas, o tema mereceu atenção es- porádica, ao passo que, em outras, o envolvimento pessoal dos docentes contribuiu para a abertura de discussões sobre outros temas considerados polêmicos, como o flagelo das dro- ?a,s, a experiênc~a'da sexualidade, a violência familiar, os pre~ JUIZOS do alcoolIsmo, a ameaça da Aids etc.

.A. par~ici~ação de jovens e adolescentes na pesquisa nos permítíu atmgír diferentes espaços sociais: as informações

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!I foram colhidas no interior das escolas, nas residências, nos

] clubes, locais de trabalho e lazer. Portanto, as vozes que eco-

I am,na~ frases de negr?s pertenc,em a i~1divíduos pobres da periferia urbana e de areas rurais, e a indivíduos de classe

I média e alta de várias cidades. I A pesquisa pretendeu, inicialmente, realizar o registro

í amplo dessa produção discursiva, por isso, não levou em con-

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ta a tradução dos fatos empíricos em dados estatísticos. É se-

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guro que essa tradução contribuiria para ampliar a vísíbílída- de d_os elementos arrolados, mas, isso não invalida nOSSa pre- t~nsaode estabelecer o mapeamento do imaginário de violên- CIa que se concretiza numa prática social de teor semelhante.

A se~~da:t~pada coleta de dados foi direcionada para as fontes bIbhografica~,nas 3uais buscamos referências _ que comen~aremos,nas one~taçoese fronteiras teóricas - e repre- sentações do dIsc:urso visual acerca dos negros brasileiros, Li- rrut~mos a pesqU1S~sobre o dis~urso visual à midía impressa. r:ehve~o-~osnas Imagens de Jornais e revistas por duas ra- zoes: pnmelro,. porque o s~rgimento desse tipo de registro no Brasil esteve diretamente ligado ao discurso verbal tal como

veremos nos

o. texto con:e~t~vaas Imagens. Segundo, porque o discurso v:sual na ~diaimpressa tem merecido menos atenção que o discurso Visual proposto pela televisão, o cinema e mais re-

centement~.? ví~eol N,o entanto, é preciso estar atento para nossa tradIça~Visual divulgada através de inúmeros periôdi-

C?S, desd~ o seculo passado: as charges e caricaturas, em espe-

cial, funcionaram e funcionam até hoje como recursos

análise crítica da sociedade brasileira, ao mesmo tempo em que reproduziram seus preconceitos e formas de exclusão.é

Não tivemos a pretensão de exaurir o levantamento do discurso visual, mas de analisar certas estruturas visuais que remetem à ideologia de exclusão articulada através do dis- curso oral. Portanto, não é a quantidade de imagens que nos interessa, mas a orientação ideológica que nos permite 'Vis- lumbrar em imagens aparentemente diferentes um mesmo

sentido ideológico, Por um lado, isso indica que a plasticidade do discurso oral e do discurso visual tem sido empregada raramente, quando se trata de representar os indivíduos ne- gros; por outro lado, demonstra aquilo que Muniz Sodré iden- tifica como "a continuidade da rejeição à alteridade simboli-

zada

Tendo como referência esse quadro da vida cotidiana - concretizada em representações do negro através da palavra

e da imagem impressa - procuraremos evidenciar e discutir

a hipótese de que a sociedade brasileira é perpassada por

uma lógica de exclusão étnica e social que, fundamentada

no aspecto conservador do senso comum, vem sendo reitera- da no decorrer de nossa formação histórica e sociaL A exclu- são aqui aludida não. se apresenta como novidade, mas nos interessa o fato de que ela se realiza na medida em que

nasce do modo como a representação dos negros brasileiros acentua a sua marginalização, em vez de contestá-la.

pela fenotipia escura" I 27

anúncios ~e escravos fugidos (século XIX) e~ que

de

$ C?lhamos ~om ate~ção o registro fotográfico de negros ~rasI1eIrOSem fins do seculo passado, na expectativa de veri- ficar se a mudança do suporte técnico na produção da ima- gem - ou seja, a substituição ou a convivência do desenho com os processos físico-químicos - foi acompanhada ou não de mudanças no esquema ideológico de representação da população ne9"ra. Vale ,observar que a alteração de suportes

pode, ser rel~clOnadaa ~nteresses de ordem política, econôrru- c~ e Ideol6g1.ca que eSlhm~laram a transformação dos perió-

dICOS em meIOS de maior CIrculação e de

ORIENTAÇÕES E FRONTEIRAS

Sob a legenda da exclusão étnica se revelam e se ocul-

tarn, em constantes cruzamentos, questões que reclamam

diferentes formulações de análise, Embora as análises pos-

sam ser organizadas a partir de certas opções metodológicas, é a própria natureza da realidade social da exclusão que con- vida as linhas de análise para o diálogo e a confrontação, Falar sobre essa exclusão implica tocar simultaneamente no indivíduo e no grupo, expondo suas feridas mais Íntimas e

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maior credibilidade

junto ao público, fatos que Se tornavam possíveis mediante a

reprodução em série da fotografia e do seu apelo realista.

26Vice:,t~Salles,"Crispim do Amaral", ln: Emanoel Araújo (org), A mão afro- bresiíeíra, 1988, p. 163-174.

58

"Momz Sodré, op. ctt., 1999, P: 258.

59

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suas máscaras mais superficiais. O dentro e o fora, o antigo e

o novo, o pessoal e o coletivo, o real e o sobrenatural - tudo, enfim, que diz respeito à configuração da idéia de sujeito e grupo como agentes da vida política, dos meios de produção

e das elaborações simbólicas estremece sob a barbárie pensa- da da exclusão étnica.

A leitura dos aspectos da exclusão étnica sugere uma

mirada crítica sobre os recursos utilizados na interpretação,

uma vez que o discurso tende a se constituir, ele próprio, empecilho aos significados que pretende desvelar. Diante de uma realidade complexa como a exclusão, observamos a que~ da do didatismo tantas vezes desejado na elaboração da aná- Use, embora nós e outras pessoas continuemos a esperar o discurso evidente que nos ajude a compreender as misérias cotidianas.

Se considerarmos que as diferenças étnicas podem ser

"reelaboradas, engendradas ou codificadas" como um pro- cedimento social 28, teremos de levar em conta a necessidade

de realizar uma análise aberta quese admita como questio-

namento da realidade e de si mesma. Ou seja, a análise, mes- mo quando se propõe como um discurso autorizado para contestar a exclusão, precisa estar atenta ao fato de que é gerada, também, sob as condições sociais que fundamentam

a exclusão. Portanto, não há análise isenta de contradições, quando se trata de elaborar interpretação de fenômeno tão abrangente e contraditório como a exclusão étnica. Nesse caso, propomos uma análise que contemple a exclusão sob diversos ângulos. Desejamos ressaltar que as elaborações discursivas, ao mesmo tempo em que participam das contradições sociais -

e se exprimam como contradições, apesar dos esforços de

autocrítica para minimizá-las - se apresentam como instru-

mentos para sua interpretação.

28 Sobre a reelaboração social das diferenças raciais, ver Octávio Ianni, Escm-

vidiio e mcismo, São Paulo, 1988, p. 72.

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Por isso, entendemos as orientações, por um lado, como fronteiras em estado de tensão, isto é, preferimos mapear li- nhas teóricas que se cruzam diante de um objeto, como a ex- clusão, que a partir de freqüentes mutações aprisiona os indi- víduos e os grupos sob antigas máscaras. Por outro lado, apos~ tamos na possibilidade de que as provocações teóricas nos le- vem a ver os elementos que foram alvos da exclusão como novos argumentos de crítica à exclusão e de afirmação de iden- tidade dos excluídos. Ou seja, trata-se de observar como a vio- lência do discurso oral e visual pode se constituir como ponto de partida para a articulação de outras formas de representa- ção dos negros brasileiros, bem como de outros segmentos tam- bém excluídos."

Para a abordagem do discurso de exclusão étnica, opta- mos por trabalhar em três direções, privilegiando as suas im- plicações pessoais e coletivas, as linhas desua constituição como

! valor cultural e seus efeitos COmo produto de confronto entre
I grupos sociais. As orientações teóricas em vista são, portanto, a psicanálise, a antropologia e a análise do discurso.
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i que possamos contemplar o discurso de exclusão sob diferentes

Como salientamos, essas orientações oferecem recursos para

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I ângulos, com a finalidade de compreender sua organização no

1 contexto amplo da experiência social dos indivíduos. Assim sendo, buscamos nos estudos de Freud acerca do chiste o suporte da psicanálise para observar as relações

; entre o imaginário individual e o im~ginário coletivo no in-

~9 Angela Y. Davis em E/ues, legacies and blackfeminism, New York, 1998, p. xvií, observa: "ln the contemporarv períod, wich is marked by a popular recognition of the politlcalization of sexuality, the blues constitute an exceptionally rich site for feminist investigation." Vale frisar ainda o fato de que eventos culturais como o samba, a capoeira e o blues, antes perse- guidos, se tornaram canais para afirmação de identidades negras. Mas, há que se questionar também as relações desses eventos com os mass midio, através de um processo emque a "aceitação" dos valores excluídos impli- ca o seu afastamento das comunidades onde se desenvolveram. Apesar de paradoxal, tem-se uma nova forma de exclusão construída a partir de um certo modo de inclusão.

uma nova forma de exclusão construída a partir de um certo modo de inclusão. ,ce $40$

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tuito de estabelecer representações do Eu e do Outro." É in- teressante frisar que tais representações se articulam em con- textos sociais competitivos, podendo revelar os modos pelos quais os discursos se tornam elementos importantes nos pro- cessos de exclusão por motivos de etnia, de gênero, de con- dição econômica ou ideológica, Além disso, por esse cami- nho é possível observar como indivíduos e grupos manipu- lam os símbolos, a fim de marcarem os contornos de suas identidades e, conseqüentemente, os contornos da diferença representado pelo Outro, De acordo com a perspectiva psicanalítica, o chiste apresenta várias conotações, Dentre elas, consideramos aque- la que o define como "algo cômico de um ponto de vista sub- jetivo", isto é, "algo que nós produzimos, que se liga à nossa atitude como tal e diante de que mantemos sempre uma relação de sujeito, nunca de objeto, nem mesmo objeto vo- luntário"." Esse sentido cômico e de ordem subjetiva pre- sente nos chistes pode ser detectado no discurso oral exemplificado pelas frases-feitas ou poemas tradicionais) acer- ca dos negros brasileiros e ressurge no discurso visual atra- vés de veículos como jornais e revistas. Por outro lado, o domínio das regras psicológicas que atuam nos chistes. frases feitas e imagens de exclusão resulta de uma elaboração cultural, Ou seja, a construção da identi- dade e da alteridade se exprime como evento cultural, carac- terizando-se, por isso mesmo, como empreendimento de sujei- tos voltados para determinados objetivos. Sob esse aspecto, os recursos da antropologia nos permitem pensar as organiza- ções sociais em termos da relação dos valores simbólicos com a realidade, bem como da relação entre aquilo que os indivíduos pensam como expressão de si mesmos e da sociedade em que vivem." Portanto, a exclusão através do discurso oral e do discurso visual se apresenta como um evento articulado por

:lOSigmund Freud, Os c!listes esim vetcçõo como inconsciente, Rio de Janeiro, 1977.

31 Idem, p.Z8. 32Clifford Geertz, op.cit., 1989

1977. 31 Idem, p.Z8. 32Clifford Geertz, op.cit., 1989 sociedade, de modo que falam tanto , Nesse

sociedade, de modo que falam tanto

, Nesse caso, a exclusão operada atraves dos discursos

, indica um certo modelo de sociedade que, simultaneamente,

Em .vista di~so,' as fra-

ses- feitas e as imagens ganham autonorrua, multiplicam-se,

indivíduos reunidos em

pelo sujeito quanto pelo grupo a que pertenc~.

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I legitima tal procedimento excludente.

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1 formam novas combinações com novos sentidos e passam a

ser percebidas como parte de um imaginá~iocol~tiv~,,ainda

i que 'sua manifestação concreta ocorra através .dos indivíduos.
! Mesmo que uma pessoa agrida a outra por meio de uma frase-

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t feita ou de uma imagem discriminatória, a tendência é inte~­

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! pretar tal atitude pessoal como red~plic~ç~o.de valores coleti- vos. 'Em outras palavras, o campo ímagmano a que recorre o agente da exclusão passa a representar um modelo para a

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organização da vida social. Em vista disso, mudanças na base material da sociedade - como a ascensão cconorruca dos ne- gros> não são suficientes -para evitar a exclusão por motivos étnicos, já que no imaginário coletivo e individual preval~cea estratégia de afirmação das identidades não negras mediante

, Através da análise do discurso verbal e VIsual verifica- remos os mecanismos que a mídia impressa e as pessoas em- pregam no intuito de desenhar a exclusão dos ne,gros brasi- leiros com base em motivos étnicos e socioeconôrrucos. Nossa ~ençãoestá voltada para "as várias instâncias 7n: que o sig- júficado da mensagem é negociado'Y com o objetivo de ana- Iisar o roteiro percorrido pelo mesmo desde ,o ag 7nte

enunciador até os diferentes interlocutores. Em VIsta dISSO,

a desqualificação dos perfis identitários dos neg~os.

,

somos levados a nos interessar pelos "modos de representa- ção da alteridade't" e da identidade, na medida em que suas articulações revelam muito das estratégias que os, grup~s so- ciais utilizam para delinear os seus processos de inclusão ou

de exclusão.

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33 Maria Cláudia Coelho et al.,

uma (in)disciplina criativa ", ln: José Luiz Braga et ali,(org.), A encenação dos sentidos, Rio de Janeiro, 1995, p.29. 34 Homi K.Bhabha, op. cit., 1998, P: 107.

"Das fronteiras da teoria da comunicação:

Os significadosda mensagemsobre os negros atraves- sam diversas etapas, interagindo com vários elementos. den- tro os quais o tipo' de veículo midiético (jornal, rádio, televi- são}, de enunciador (jornalista, .cientista social, cidadão co- mum) e de receptor (comunidades de periferia, grupos de intelectuais, estudantes). No tocante às representações do negro brasileiro, é importante ressaltar que os discursos arti- culados por esses elementos ocorre a partir de um aparato ideológico em que as heranças estereotipadas do escravismo se confrontam com as atuais perspectivas de crítica à exclu- são. Além' disso, os manipuladores desse aparato agem de ac~rdocom os lugares que ocupam na sociedade:assirn. sen- do, jornalistas, artistas, políticos, intelectuais:. público ~m geral interagem durante o percurs? ~e constr.uçao de sent~d? p.ara as identidades do negro brasileiro, .medlante as pOSSI~I­ lidades de reiterar ou criticar os procedImentos de exclusão., No entanto, as negociações em tomo dos sentidos veicu- lados através dos discursos oral e visual revelam que o processo de produção de sentidos é um campo ao mesmo tempo aberto e fechado, no qual as contradições se aBresentam como fato pai- pãvel. Muitas vezes, por conta das contradições, os agentes do.s discursos ao elaborarem a crítica da exclusão atuam de manei- ra que apenas contribui para reconfigurar o antigo e~qu~made exclusão. Isso demonstra a complexidade das negociaçoes que envolvem os sentidos das mensagens, cuja conseqüência [media- ta é a possibilidade de transform~r 0_ processo. de el,~b~ração discursiva num "processo de fabricação da realidade . Ao enfatizarmos a presença dos discursos oral e visual na escola, no trabalho, na casa e na rua estamos consideran- do os lugares do cotidiano onde as pessoas. se confrontam dlretamente com as representações do~difere~tes.seg~e,n~os sociais. Aí, nesses lugares essenciais a expenencla hlsto n c.a dos indivíduos, encontramos as representações que são, mui- tas vezes, antecipações da provável existência ~ocialdas pes- soas. No que diz respeito aos grupos de excluidos como ne-

gros, homossexuais, mendigos ou imigrantes é praxe que a repre- sentação construída através dos discursos seja recebida como li a

identidade" desses grupos. Assim, os sujeitos inseridos nesses gru- pos são contactados a partir da base de suspeita que os margina- liza, ou seja, cria-se um sentido a priori que implica na imediata

de medidas repressivas

em relação àqueles categorizados como os Outros. Diante disso, é pertinente indagar sobre as identidades possíveis que são silenciadas na vivência diária das pessoas e, até que ponto, a identidade assumida como sendo "a verdadei- ra" constitui uma capitulação de um grupo diante das pres-

sões exercidas por outro segmento social. No caso específico dos negros brasileiros, investigar as alternativas para a elabo- ração de perfis identitérios é tão importante quanto compre- ender os mecanismos que levam à construção de representa- ções que os colocam na faixa de exclusão étnica e social. Nossa abordagem enfoca '0 segundo aspecto, mas su- bentende que a crítica aos modelos estabelecidos, por um lado, sugere roteiros para a busca de outros perfis de identidade,

, por outro, se recusa a ser uma cartilha que ensina a identida-

i de aos sujeitos. Tal como os sentidos dos discursos, que de- correm de intenso processo de negociações, também as iden- tidades merecem ser pensadas como realidades dinâmicas. Para tanto, delineamos as fronteiras teóricas na inten- ção de observar os elementos que contribuem para desenhar certo perfil de identidade dos negros brasileiros, a partir de um certo modo de representá-los. Por se tratar de uma investida interdisciplinar (envolvendo a psicanálise, a antropologia e a análise do discurso), aceitamos o risco de sermos óbvios para alguns leitores e herméticos para outros. Ou, como no comen-

Anthony Applah dirigindo-se ao leitor, "quando me

constatar ignorando o que você [ulga importante, ou enten- dendo mala que você entendeu corretamente, lembre-se de que ninguém, nos dias atuais, é capaz de abranger todas essas

desconfiança e na conseqüente adoção

tário de

áreas com igual competência, e de que isso não torna menos válida a tentativa" ."

35 Maria Cláudia Coelho ct al., op. cit., p. 29.

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36 Kwame Anthony Appinh, Na casa de mel!pai, Rio de Janeiro, 1997, p. 15.

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Ao contrário de ser uma escusa para defender nossas reflexões das leituras críticas, apostamos na tentativa de aná- lise interdisciplinar para expor o discurso às diferentes for- mas de inquirição. A análise, aqui, é antes de tudo provoca- ção ao diálogo, principalmente por estarmos diante de um tema que, apesar de provocador, muitas vezes inibe as inici- ativas das principais vítimas, ou seja, os excluídos.

A fim de atingir esse objetivo. subdividimos o texto em

etapas que abordam a constituição da ideologia de exclusão através. do discurso oral (frases-feitas e poemas tradicionais)

e do discurso visual (fotografias e desenhos divulgados na

mídia impressa). No capítulo 2, "Palavras contra a noite", enfocamos a representação do negro nos poemas tradicio- nais conhecidos como abecês, enfatizando os modos de legitimação de sentidos que são articulados nas relações dos indivíduos entre si e destes com o grupo social. No capítulo 3, "Manual de facas", 'prosseguimos com a análise do discur- so oral, para destacar também o processo de legitimação de sentidos, mas tomando como objeto as frases-feitas,

A partir do capítulo 4, "A vida nos estúdios", passa-

mos a considerar a inter-relação entre discurso oral e discur- so visual, tendo como referência as fotografias de escravos no Rio de Janeiro do século XIX realizadas por Christiano Jr.

Verificamos, nesse ponto, de que maneira o discurso visual reduplicou o sentido da representação dos negros presente no discurso da tradição oral. Em seguida, nos capítulos 6 ("Retratos do mesmo) e 7 ("Um não é todos") procuramos evidenciar a saturação de um certo modelo de representação dos negros brasileiros, como se em nenhum momento tivesse sido necessário fazer

a crítica da passagem do suporte oral para o suporte visual.

Isto é, deparamos com uma espécie de consenso nos meios de comunicação que levou à aceitação da mudança de su- portes do discurso como um acontecimento autónomo, desli- gado dos contetídos do discurso a ser veiculado. Bastou, por- tanto, alterar os suportes e manter o conteúdo da antiga re- presentação designada para os negros. O capítulo final, "Ne- gros vistos como negros", pretende ser uma crítica a essa pers-

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pectiva sem, contudo, impor um novo modelo de tação. Ao contrário, discutimos as possibilidades de sentidos que podem alimentar os conceitos de representação. Em síntese, a análise voltou-se para os discursos que sustentam a exclusão, considerando-os como parte de um processo de exclusão. Sublinhamos o caréter social desse fe- nômeno, cujas conseqüências podem ser observadas concre- tamente na experiência cotidiana de negros e não negros. Nesse drama diário, a mídin desempenha papel decisivo pois, na medida em que reproduz ou critica os discursos de ex- clusão, tanto aquece os conflitos quanto as expectativas de

T solucioná-los.

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repre~en­

67

PALAVRAS CONTRA A NOITE

"Porque se inventam palavras

que furam como punhal?"

Carlos Drummonâ de Andrade 37

ORIGENS DAS DIFERENÇAS

o caréter multiétnico da sociedade brasileira pode ser

rastreado nos modos

priados pelos grupos com o objetivo de

ção acerca de si mesmos e dos outros. Essa atívidade de enunciação oferece um retrato das r~la~ões qU,e most:am os indivíduos e os grupos situados nos Imutes da mteração e do conflito social. A análise da enunciação evidencia do que estão falan-

produz1!, C?ffiUmCa-

como os recursos

da líng~a são ar:ro~

do os sujeitos; de que maneira, como falan:' se posicionam

em função daquilo de que estão falando e, finalmente, como posicionam o Outro dentro de seus discursos. ,C,om isso, po-

demos mapear os caminhos que os grupo~ SOClalS percor~em na afirmação de suas identidades na medida em que atribu- em valores a si mesmos e aos outros.

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37Carlos Drummond de Andrade, "Gesto e palavra", ln: Obra completa, Rio de Janeiro, 1992, P' 565-566.

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A interação que aproxima grupos ou indivíduos e os conflitos que os distanciam decorrem, em parte, dos valo- res que vigoram nas relações sociais e são expressos atra- vés dos vários discursos. Estes demonstram que em torno de questões corno o gênero, a etnia, a situação econômica e a disposição geográfica se desdobram nos acontecimen- tos que dão forma ao corpo de uma certa sociedade.

A análise do discurso permite medir a temperatura das relações em que os representantes de cada categoria, colocados diante de si mesmos e de outras categorias, se revelam a partir daquilo que vivem nas teias daquilo que falam. O discurso que mulheres e homens, negros e bran- cos, pobres e ricos, habitantes do campo e da cidade arti- culam a respeito um do outro - dentro de suas categorias _ tem por base diferentes pontos de vista que viabilizam a formação de uma realidade de discursos polissêmicos. O intercruzamento de categorias amplia a rede de discursos e demonstra como a posição do indivíduo ou do grupo varia na sociedade. Em termos de Brasil, o conflito entre discurso patriarcal e discurso feminino de contesta- ção criou diferentes possibilidades de mudança de lugar do homem e da mulher na sociedade. As conseqüências históricas desse conflito têm apontado um processo de as-

censão da mulher em relação ao mundo fechado patriarcalismo:

do

"tanto no Brasil, como em outros países, as atitudes sobre o papel da mulher sofreram modificações nas Últimas décadas, acompanhando as modificações ocorridas nos comportamentos relacionados aos papéis sexuais, sendo tais mudanças de atitudes mais pronunciadas no que se refere às oportunidades iguais de emprego e educação para ambos os sexos e menos pronunciadas no que se refere à divisão igualitária de responsabilidades dentro do lar, entre os sexos." 38

38 Maria Cristina Ferreira, Revista de Ciências Hllmmws/UGF, Rio de Janeiro,

1999,p. 99.

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Porém, quando o gênero se intercruza com a categoria étnica observa-se que os rumos do processo acima sofrem al- terações, já que a questão consiste em saber por que se tem tuna expectativa mais otimista para a ascensão da mulher branca do que para a mulher negra. Esse exemplo é uma variante, talvez das mais conhecidas, que indica o quanto a elaboração e difusão do discurso é relevante para a compre- ensão dos papéis sociais. Para avaliar isso, basta especular acerca dos desejos que alimentam as mulheres ao confronta- rem o discurso patriarcal: as brancas ricas estarão alinhadas com as negras pobres? Negras e brancas levam em conta suas trajetórias peculiares no fluxo da história brasileira? O pas- sado de senhoras e escravas moldou diferentemente o imagi- nário de brancas e negras? Dados como esses passam para a formulação ideoló- gica do discurso e se espelham em situações que tornam a semelhança de gênero um fato insuficiente para que mu- lheres - ou homens - negras e brancas pensem, falem e atu- em de modo idêntico na sociedade. A afinidade de gênero garante um ponto de cantata, mas não resolve por si só os dilemas advindes das outras categorias a que pertencem mulheres e homens.

Os discursos tendem a reter nas entrelinhas essas dife- renças e são elas que sugerem os matizes de identidades dos grupos numa sociedade multiétnica. Ê nas entrelinhas que percebemos como a reivindicação das mulheres sobre o di- reito de gestão do próprio corpo pode ser tecida em discursos que as unem no objetivo, mas as distanciam na maneira de alcançá-lo. A opção pela gravidez é um fato entre mulheres com níveis de escolaridade e posição social privilegiadas, ao passo que para mulheres pobres e com menos escolaridade a escolha, muitas vezes, está submetida a programas arbitrári- os de esterilização em massa.

Por isso, é relevante compreender as entrelinhas do dis- curso étnico formulado nos domínios da cultura popular - segundo noções do senso comum - e divulgado através de suportes como a oralidade ou a midia impressa.

70

Estamos considerando a cultura popular tal corno se apresenta em áreas rurais, onde a população socialmente desprivilegiada preserva e modifica saberes "~ndadosna historicidade, na experiência acumulada - também ela - por gerações de antepassados que aprenderam o mundo fora do paradigma da sabedoria erudita" Y Esse m?de.l~ d~ cultura popular é caracterizado como um sistema slgn!frcati:o - fru- to de representações simbólicas geradas na açao social - q~e se coloca como um modelo alternativo aos da cultura erudita ou da cultura de massas. Na cultura popular das áreas rurais o disc,:-rso ~rienta­ do pelo senso comum dificulta a identificação imediata do sujeito enunciador, pois se apresenta à sociedade como ",:~a espécie de patrimônio gerado coletiv~~~nte.Mas, a análise das entrelinhas nos acena com a possibilidade de ver de que maneira essa voz coletiva pode ser, também, um meio para a expressão de vozes individualizadas.

. Utilizaremos o conceito de senso comum na perspecti- va adotada pela antropologia interpretativa de Clifford Geertz. Segundo o antropólogo norte-americano, ~ senso co- mum é um elemento definidor de busca de sentido para a vida humana e pode ser compreendido a partir de dois eix~s:

primeiro, como "simples aceitação do mundo, dos seus obje- tos, e dos processos exatamente como se apresentam, como parecem ser" (aspecto conservador); seg:rndo, como força pragmática que revela nos sujeitos um deseJO,d.e atuar s~b~eo mundo "de forma a dirigi-lo para seus propósitos, dominá-lo ou, na medida em que se tornar impossível, ajustar-se a ele"

_ As ideologias discriminatórias se apóiam em af1~aço:s absolutas que são impostas ao grupo às custas da fragilização da auto-estima dos discriminados. Essa imposição, às vezes, é sustentada pelo lado conservador do senso comum e se expri-

(aspecto transformador)."

.

39 Sobre o conceito de cultura popular como modelo cultural alternativo, ver Gomes & Pereira, op.dt, 1992, p.74.

40 CE. Geert~, op. cit., 1989, p. 127.

71

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me nas relações sociais Como uma verdade que assim é ou assim parece ser. No rep.ertório oral da cultura popular brasileira cons- ta a lenda da origem das três raças. A narrativa, conforme vere- mos a seguir, é partilhada por muitos grupos e faz parecer natu- rais a inferioridade e a marginalização dos negros.

"Todos os homens nasceram pretos, e Nosso Senhor, ouvindo a queixa,mandou que fossem lavar num.poço.Aqueles que encontraram a água limpa, saíram brancos. A água mais toldada deu os mulatos e gente de cormais carregada. Os negros chegaram por fim e só encontraram água escura e rara. Tiveram apenas ocasião de molhar as palmas dos pés e das mãos. São as únicas que se tornaram brancas. É uma estória popular." 41

A transmissão da lenda de geração para geração, através da oralidade ou da escrita, tende a confirmar um tipo de "ver- dade" que é alimentada pelo lado conservador do senso comum. Em termos de elaboração de um discurso étnico, em muitos ca- sos o senso comum tem funcionado como legitimador da sUpe~ rioridade de um grupo e da inferioridade do outro. Esse modo de produção do discurso pode ser observa- do na forma literária conhecida como abecê encontrada no repertório da cultura popular. O estudo dos abecês permite comentar, entre outras coisas, a apropriação e a reelaboração que os representantes da cultura popular fazem de um ele- mento procedente da cultura erudita, Os abecês são constituídos por versos de rimas simples em quadras, sextilhas ou septilhas e iniciados pelas letras do alfabeto. Segundo Câmara Cascudo, as origens antigas dos abecês atestam sua ligação com a cultura erudita. Em 393, Santo Agostinho compôs um poema contra os donatistas, Com vinte estrofes em ordem alfabética, intitulado Peaímue conta

partem donati (ou Psalmus abecedarius). Autores importantes

coma Juan deI Encina e Lope de Vega (Espanha) e Luís de Camões (Portugal) também escreveram abecês poéticos."

11 Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do folclore brasileiro, Belo Horizonte, 1984, p. 523." 42Luís da Câmara Cascudo, op. cií., p.1-2.

72

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No Bra~il,os abecês se tornaram populares, abordan- do temas variados: histórias de cangaceiros, de bois fugíti- vos, de bat~lhasfamosas, os prazeres e desprazeres da ca- chaça, as biografias dos santos e as características dos ne- gros. Vio-Ieiros e repentistas. entre outros, ajudaram a di- vul~ar os abecê.s cantando-os em praça pública.Aré mesmo no ritual d.e Polia de Reis os abecês de negros surgiram para ma~car o instante de entretenimento dos devotos junto à lapinha. No município de ]equitibá/ MG, na parte lúdica da Folia,

"Quando os reis fazem brincadeiras para distrair os presentes, é ~ostum.eque os representantes Gaspar e Baltazar,

brancos,

recIteD:l para Melchior o piskin do negro, que é uma

forma de pasquul1 denominada ABC." ·1.1

_ A reelaboração dessa forma literária envolve sua pro- duçao como texto escrito e sua difusão preferencialmente at1"a,v~sdo .ca~t? ou da declamação. Além disso, mudanças fonéticas, sm,tahcas e ortográficas indicam que ° grau restri- to de escolaridade das pessoas menos favorecidas contribuiu para trazer o abecê da esfera erudita para a popular.

As 'pesquisas de campo sobre cultura popular que te- mos realizado demonstram que os abecês abordam o negro de acordo com a lógica conservadora do senso comum, Nos- s,o.objetivo é anal!sar os abecês de negro, procurando iden- tificar alguns meros de construção do discurso racista que per'pa~saa so:iedade brasileira e se apresenta como fato que asstnt e ou aSSIm parece ser, Nesse jogo de discursos é impor-

I tante perceber a face de cada jogador, a fim de compreen- dermos até que ponto o ato lúdico não é senão uma más-

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ii cara para ocultar angústias e desejos de quem é discrimina-

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Quanto à metodologia, apresentaremos dois exemplos

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13 Gomes & Pereira, Do presépio à balança, Belo Horizonte, 1995, P: 86.

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~~lCossocla1.Do ponto de vista sociológico abordaremos o

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Os meios de comunicação de massa como a televisão e os periódicos manipulam e veiculam essa artilharia de pre- conceitos sem considerar as susceptibilidades de uma popu- lação multíétnica no país. É interessante analisar o conteúdo racista de vários programas humorísticos de produção naci- onal, muitos dos quais são exibidos em horário nobre da te- levisão. Os jornais, por um lado, divulgam matérias de de- núncia do racismo, por outro, abrem espaço para discursos marcados pelo preconceito."

As manifestações da cultura popular citadas anterior- mente desempenham papel semelhante ao da televisão ou dos jornais, colocando as pessoas em cantata direto com o discurso racista. Em ambos os casos, há que se investigar os laços de conivência que permitem a formação e divulgação desse discurso, bem como a possibilidade de formação e in- terferência dos discursos de oposição a ele.

Nossa análise enfocaré especificamente os abecês de negro e suas implicações a partir do meio social em que são divulgados, ou seja, a cultura popular nas áreas rurais. Os exemplos nos permitirão analisar a orientação ideológica que os fundamenta, o seu modo de elaboração discursiva e o seu sentido psicossocial."

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ISCUrso dos abecês apoiados no conceito de II

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proposto por Geraldo N

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: VIsta pSicológico, buscaremos suporte teórico nas refie-

xoes ~e Freud acerca dos chistes e sua relação com o in-

conSClente.

44

ALFABETO DA INTOLERÂNCIA

Escola sem paredes

áreas

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Temos registrado a presença de

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abecés de

ur anas. Em geral esse discurso e negro té

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S a aSSOCI-

a o a. at1v~d~des lúdicas (narrativas, piadas, desafios, batu-

ques) e religiosos (Folia de Reis) da cultura popular.

Entre os enunciadores dos abecés identificamos pesso- as de grupos menos favorecidos negras e não negras que l~dode outras ~aisprivilegiadas, vêem os abecês como ~1:

típo de entretem~ento.As pesquisas que realizamos em cen- t~osur?anos maiores nos permitiram detectar uma freqüên- ela mais acentuada das piadas de negros em detrimento d uso da forma específica dos abecês. Nas áreas rurais as pia- das tam~é.m!oram registradas, mas parece que sua :nargem de presrígto e menor do que a dos abecés.

Nas cidades, as piadas são difundidas entre estudantes

e privada e, a julgar por nossas

pt opnas expenencías, em reuniões e festas - independente-

mente d~ ~lasse social - onde não é raro que se apresentem

os especialistas d em piadas de negro de mulher d t

es, e JU eu, de japonês, de homossexual.

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44 l~:r~~dâi~~~:~:' 7~bre ~ noção ~e merca.do de reíereoctetíded- cm aná-

Rio de Janeiro 1995' pJo"'59 L'Sll.Z ,lgmun Blag'd"F t

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ali (org.), A encenação dos sentidos,

reud, op. cit., 1977

74

4, Ver as imagens estereotipadas do negro em programas de grande audiên- cia como "Os Trapalhões" (Rede Globo) e "A Praça é Nossa" (SBT). °

jornal O Globo, na mesma data de 08/12/97, publicou uma matéria que condenava o racismo ("Relatório da OEA diz que Brasil' desrespeita os direitos humanos e privilegia os ricos/ Documento entregue a FH afir- ma que país é racista e lento na reforma agrária." - O País, p. 5) e outra, em que o racismo aparecia dissimulado como simples repertório de um gru- po de humoristas ("Artilharia pesada de humor contra todos os alvos/ Turma do Casseta & Planeta lança novo livro com 300 piadas que soter- ram qualquer tipo de idéia politicamente correta").

46 Para efeito de comparação ver abecê coletado por Leonardo Mota no Maranhão e citado por Câmara Cascudo em Vaqueiros e cantadores, Porto Alegre, 1939, p. 11-15. O abecê-1 está em Gomes & Pereira, op. cit., 1995, p. 86-89. 0,flbecê-2 é inédito e consta do arquivo de nosso Projeto MinEIS & Mineiros: pesquisa e análise interdisciplinar da cultura popular.

1

2

Gosta muito de Iordeza

"Avia em outro tempo

"Agora chegou a hora

quê possa, quê não possa só qué fazenda fina

quando tinha imperado

Da verdade eu falar

e

não qué fazenda grossa.

não havia tanta desorde

O

branco é raça boa

Afinal acaba todos

que os preto tinha sínhõ.

E

não nega seu lugar

saltando cerca de roça.

Foi uma pena que o castigo Parasse de acontecer

. Escravo virou mendigo

Osso duro de roer! Não trabalha, não quer nada Só vive de aborrecer.

Bacalhau era o remédio

daqueles nego manhoso que num qué tê paciência. Nego n~nCome gostoso. Ainda podia bacalhau pra certos negro teimoso.

Cara de nego é terrível

é coisa sem formosura.

Todo nego não presta só tem boa dentadura

foi conseguida por Deus

pra estragá a rapadura.

Devia se imaginá

e prestá bem atenção

pois ainda não se sabe

de onde veio essa nação:

se é obra do capeta

ai livusia do cão.

Eu calculo mas nun sei de que forma sucedeu:

se é gerado da terra ou coisa que apareceu.

Fedorento eles são muito pois não deve repará. Não há essência no mundo que faça nego cheirá por muito limpo que seja não quem agüentá.

Mas o preto infelizmente (Eu não queria abusar!) Não é raça nem é gente!

Bons tempos foram aqueles Quando havia escravidão

A gente comprava eles

Igual bicho de estimação Com chicote na lavoura

Capinavam nosso chão Cantando de gratidão!

Como foi nunca será Depois da abolição

Home é que negai não é. Ah! isso eu garanto.

Deus não tem nada com nego nego nada tem com santo. Se eu está sentado

E vem um nego eu num levanto.

Ia nego casá com branca

onde eu não acho vantage do nego foi por feitiço

e da moça foi por bobage. Não esperava de havê no mundo tanta corage.

Gostam muito de perfume Cheiro forte pra valer Pra apagar azedume Do cc de enlouquecer

Passam creme, passam tudo Usam seda e veludo Para com o branco aparecer.

Hoje em dia é perigoso

Chegar perto de Um negrinho Se a gente se descuidar Nem que seja um bocadinho

Negro agora quer mandar

 

A

bolsa vaí evaporar

E

fazer aparição

estô certo de uma coisa:

E

o relógio, coitadinho

Sai na rua pra passear

E por branco quer passar

Fingindo ter boa educação.

Daqui pra diante eu num sei

O que vai acontecer

Depois dessa tal lei Do preto tão livre ser:

Subiram pro morro acima Aprendendo a assaltar, A roubar e a matar.

É voz do povo c é verdade Que o vinho guarda o gosto Da pipa onde ficou Nisso eu tenho muita fé:

Negro veio da mata brava Bicho era, bicho é.

todo nego tem cara feia de dia veve dormino de noite na roça alheia. Queixo de cobra não besta na noite que nego passeia.

Lembrei agora de uma coisa

e está muito admirado

cabelo de nega preta nunca foi incastoado. Ora! foi por ventura? Saiu todo encolhido e enroscado.

Moramquenãotemquantidade

quem COm nego se envolve comete um grande pecado. Tomá beijo de um nego antes um tiro de revólve.

Some logo pelo ar.

Imagina que tristeza Para um branco de respeito Ter que aguentar esse povo Ter que viver desse jeito Se escondendo a toda hora Fechando porta e terreiro Pro nego ficar de fora.

vi gente discutindo Num abccê mais antigo Que negro antes era branco Até sofrer um castigo Assim virou tição

Quando Deus entrou no meio

E fez uma maldição.

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Nego não tem boca, é lapa. Não temnariz, é fucím. Não tem ouvido, é buraco. Não tem cabeça, é cupim.

Oração de nego é cálculo. Barriga de nego é mala. Casa de nego é senzala. Desengano de nego é baía.

Pensei que eles acabasse

e eu cumpria meu intento. Podia vir um ar mau

e conduzi eles no vento. O mundo não tava cheio de tento nego nojento.

Quero que eles me diga

o nome da negrinha quando cresce. Gente branca chmna amoça todo mundo já conhece.

Razão eles nunca teve pelas más ação que faz. Na dança que eles vão nunca termina em paz. Parece que são mandado por ordem de satanás.

Se preto passa pra crente não é por acaso não. Ele qué tê o direito de chamá branco de irmão,

Também nego se casa? Pois nego já é marido? Tenho visto é nego furtá e não tirá escondido. No meu pensamento nego não é garantido.

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Komo foi que aconteceu Ninguém mais sabe contar Aquilo que sucedeu Só dá para imaginar A negra no Paraíso Perdeu bem cedo o juízo Ecomeçou a roubar.

Logo no prímeío dia Dez maçãs ela roubou Pensando que ninguém via

Cinco frangos ela matou Pôs tudo' numa sacola

Com muito jeito arrumou Epra casa levou.

Mas o marido espertinho Também quis aproveitar

Foi chegando de mansinho

E roubando devagar

Muita lenha, muito ouro

Ela ajuntou caladinho

E escondeu noutro lugar

Ninguém pode garantir

A confusão que se armou

Quando a negra viu Adão

E por ele se apaixonou

Eva logo entrou no meio

Num quebra-pau de terreiro

E a crioula dispensou.

o paraíso tremeu. No meio da confusão O crioulo quis brigar E pôr culpa no patrão Mas Eva não deu conversa Não quis saber de demora E pôs a crioula pra fora

conversa Não quis saber de demora E pôs a crioula pra fora S$ " aetr 7

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