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Jornal Valor Econômico - CAD A - BRASIL - 10/10/2016 (20:53) - Página 16- Cor: BLACKCYANMAGENTAYELLOW
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Valor

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Sábado, domingo e segunda-feira, 8, 9 e 10 de outubro de 2016

Especial
Contas públicas Despesa com aposentadorias e pensões sobe mais rápido do que com funcionários em atividade

Custo de inativo nos Estados supera 30% da folha
Marta Watanabe
e Tainara Machado
De São Paulo
O avanço da despesa com inativos deve dificultar para os Estados o cumprimento do limite de
crescimento de gastos estabelecido como contrapartida à renegociação das dívidas estaduais
no Projeto de Lei Complementar
(PLP) 257, que ainda depende de
aprovação no Senado.
Nos 12 meses encerrados em
agosto, o gasto dos Estados com
aposentados e pensionistas representou 30,6% da despesa bruta com a folha, alta de quase quatro pontos em relação aos 26,8%
observados no mesmo período
de 2012. Dentre os 26 Estados
que já têm dados publicados para o período, o gasto com inativos aumentou em 21, o que significa que as despesas com aposentadorias sobem mais rápido do
que aquelas feitas com funcionários em atividade.
Em 11 Estados, o avanço foi
maior que a média de quatro
pontos percentuais como proporção da despesa bruta de pessoal. A avaliação de economistas
e de secretários de Fazenda é
que essa tendência deve se manter no curto e médio prazos e irá
tirar margem de manobra para
cortar gastos com pessoal, já que
o ajuste pode ser feito somente
sobre os funcionários em atividade. A reposição de funcionário também fica cada vez mais
difícil, comprometendo a prestação de serviços públicos essenciais, como segurança.
Em sete Estados, o gasto com
inativos representa 40% ou mais
da despesa total de pessoal. Isso
significa que o ajuste de folha de
pagamentos tem que acontecer
sobre uma parcela cada vez menor da despesa. O PLP 257 estabe-

lece que a despesa corrente dos
Estados, que inclui pessoal, deve
acompanhar a inflação nos próximos dois anos, sem alta real.
Os números se referem ao Poder Executivo e foram extraídos
dos relatórios fiscais apresentados pelos Estados ao Tesouro. Levou-se em conta as despesas liquidadas como proporção da
despesa bruta de pessoal.
Mesmo nos Estados em que os
inativos perderam participação, a
situação é complicada. No Rio de
Janeiro, segundo relatório do segundo quadrimestre de 2016, a
despesa com inativos representou
45,3% do gasto bruto de pessoal,
uma queda em relação a 2012
(46,6%). Guilherme Mercês, economista-chefe da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan),
destaca, porém, que isso se deveu
mais à forte alta da despesa com
servidores ativos (15%, em termos
reais, entre 2012 e 2015) do que à
moderação no gasto com inativos.
José Roberto Afonso, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), ressalta que gastos
cada vez maiores com aposentados significam um espaço reduzido para ajuste em folha. Isso, diz
ele, não foi previsto na época da
elaboração da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Quando um governo fica desenquadrado, o ajuste
determinado pela lei se dá apenas
em cima dos ativos, ou seja, o corte
de cargos e demissões de funcionários, inclusive de concursados.
Ouando os Estados atingirem o
teto de despesas com folha permitido pela LRF, diz Afonso, o corte
de gastos não poderá ser feito sobre toda a base de despesas. O limite máximo previsto pela LRF é de
49% da receita corrente líquida
(RCL) para o Executivo e de 60%
quando se olha para o consolidado, incluindo os demais Poderes.

Peso crescente

Composição da despesa bruta de pessoal nos Estados - Em %
2016
Acre
Alagoas
Amazonas
Amapá
Bahia
Ceará
DistritoFederal
Espírito Santo
Goiás
Maranhão
Minas Gerais
Mato Grosso
Pará
Paraíba
Pernambuco
Piauí
Paraná
Rio de Janeiro
Rio Grande do Norte
Rondônia
Roraima
Rio Grande do Sul
Santa Catarina
Sergipe
São Paulo
Tocantins
Total geral

2012

Ativos

Inativos

Ativos

Inativos

77,6
64,3
70,8
95,5
69,9
71,7
68,9
62,7
66,7
71,7
52,2
75,2
70,6
67,6
55,4
67,9
66,8
53,6
65,5
87,9
90,9
38,2
59,1
59,6
53,5
87,1
68,1

22,4
33,8
24
4,5
29,7
22,7
31,1
33,7
32,5
26,1
45,3
24,8
29,4
32,4
44,6
31,2
33,1
45,3
34,4
10,8
1,7
61,3
40,7
40,4
46,5
12,9
30,6

85,1
78,3
72,9
98,2
68,1
79,2
81,5
67,8
68
77,2
55,8
77,8
72,3
66,8
65,5
67,3
75,5
49,8
67,8
90,3
91,9
31
63,6
68
55,3
92
71,8

15
21,7
18,5
1,8
31,6
17,7
18,5
29
30
22,8
41,5
22
26,6
33,2
34,5
32,3
24,3
46,6
32,2
9,7
0,2
68,2
36
31,9
44,7
8
26,8

Fonte: Relatórios de Gestão Fiscal estaduais do 2º quadrimestre

No caso de um Estado em que a
folha do Executivo chegue a 50%
das receitas e que os inativos representam 40% desse gasto, por exemplo, o ajuste poderá ser feito somente sobre as despesas equivalentes a 30% da RCL. Isso porque
20% da receita continuará comprometida com o pagamento de
aposentadorias e pensões.
Na maioria dos Estados, parte
significativa das receitas já está
comprometida com a despesa de
folha como um todo. Com base
nos dados do Poder Executivo, de
26 unidades federadas, 22 já rom-

peram algum dos limites estabelecidos pela LRF. Apenas quatro —
Amapá, Ceará, Espírito Santo e Maranhão — ainda estão abaixo do limite de alerta para despesas com
folha, de 44,1% da RCL.
No Rio Grande do Sul, a despesa
com inativos já é de 61,3% do total
da folha. O subsecretário do Tesouro, Leonardo Busatto, diz que 85%
dos servidores estaduais possuem
regime especial de previdência,
com tempo menor de contribuição, caso de professores e policiais
militares, o que agrava a situação.
No ano passado, o Estado regula-

mentou o regime complementar
de aposentadorias, mas isso só afetará as contas de forma significativa no longo prazo, afirma.
Diante das fortes restrições financeiras que o Rio Grande do Sul
enfrenta (ver reportagem abaixo), o
Estado não tem conseguido repor
os funcionários que se aposentam.
Em 2015, foram 7.139 aposentadorias, mas o Estado contratou
apenas 579 servidores. “O que afeta diretamente a prestação de serviços do Estado na área de segurança e saúde”, diz Busatto..
Helvécio Magalhães, secretário de Planejamento e Gestão de
Minas Gerais, conta que também
está limitando a reposição de
funcionários ao estritamente necessário, priorizando educação,
saúde e segurança, “para não armar mais essa bomba relógio”.
Segundo ele, já há mais funcionários aposentados do que na
ativa no Estado. Como proporção
do gasto, os aposentados representam 45,3% da despesa bruta
de pessoal e esse percentual deve
continuar crescendo.
Para Mauro Ricardo, secretário
de Fazenda do Paraná, um conjunto de fatores tem acelerado o
crescimento das aposentadorias
nos Estados. Além dos regimes especiais, as promoções e progressões de salário no fim de carreira
aumentam o valor da aposentadoria, sem que o funcionário tenha feito contribuição semelhante ao longo da carreira. Para ele, a
situação dos Estados torna a reforma previdenciária uma questão ainda mais urgente.
Há receio, porém, de que a
iminência de uma reforma previdenciária pressione mais a
despesa com aposentados e pensionistas. O secretário de Fazenda do Alagoas, George Santoro,
conta que no Estado 20% da mão
de obra ativa é elegível para se

BEL PEDROSA /VALOR

Suplementação para cobrir o déficit
pode atingir 17% da receita em 2020
De São Paulo
A suplementação que os Estados são obrigados a fazer para
cobrir os gastos com inativos,
sem contar a contribuição patronal, foi equivalente a 11,7% da receita corrente líquida (RCL) em
2015. Em 2020, mesmo num cenário otimista, considerando
que a receita cresça 1,5% ao ano
em termos reais, essa suplementação aumentará para 17%.
Os dados foram levantados por
Leonardo Rolim, ex-secretário de
Previdência Social e consultor da
Câmara dos Deputados, com base
nos relatórios fiscais dos Estados.
“A situação da previdência dos Estados é quase tão difícil quanto à
da União, sobre a qual pesam principalmente o regime geral e as
aposentadorias dos militares.”
Nas prefeituras também chama a atenção o crescimento da
despesa com inativos. Segundo
levantamento da economista Sol
Garson para o Portal Meu Município, os desembolsos com inativos e pensionistas das prefeituras somaram R$ 26,6 bilhões em
2015, o que representou crescimento de 51,9% em termos reais
em relação a 2010.
Nesse período de cinco anos, a
despesa de pessoal aumentou em
31,2%. No período mais recente, de
2014 para 2015, o crescimento fica

mais evidente. Enquanto as despesas com inativos cresceram 4,1%, a
despesa de pessoal avançou 0,7% e
a despesa total recuou 2,3%, já sob
o efeito do aperto de receitas que
também afetou as receitas dos municípios, principalmente os mais
dependentes dos repasses obrigatórios. As variações são sempre
reais, com atualização pelo IPCA
médio e levam em conta dados de
3.640 municípios, dentre 5.568
existentes no ano passado.
O acelerado crescimento das
despesas previdenciárias, diz Sol,
foi a tônica dos municípios em
todas as faixas de população, o
que, na avaliação dela, exige um
olhar mais atento sobre a previdência municipal.
Diversamente dos Estados, as
prefeituras têm superávit financeiro na área previdenciária, lembra
Rolim. Segundo ele, isso acontece
porque, com exceção de capitais e
grandes municípios, há número
relativamente menor de inativos
nas prefeituras. Por isso os fundos
dos regimes próprios ainda têm
mais contribuições a receber do
que despesas a pagar com aposentados. Enquanto a relação entre
servidores ativos e funcionários
aposentados mais pensionistas é
de 1,4 nos Estados, nas capitais é
2,2 e nos demais municípios, 4,6.
O substancial montante de receitas de valores mobiliários do re-

gime próprio também é um indicativo disso. Na base de 3.360 municípios, esses rendimentos somaram R$ 6,9 bilhões em 2015, com
alta real de 48,5% desde 2010. De
2014 para 2015, rubrica subiu
20,2% enquanto as receitas totais
recuaram 2,3%, em termos reais.
Esses recursos, diz Sol, são normalmente usados para cobrir pagamentos com pessoal inativo.
“Há, no entanto, municípios,
principalmente de constituição recente, em que os pagamentos a
inativos ainda são muito reduzidos e os recursos se acumulam,
aplicados pelos respectivos fundos
previdenciários, cabendo reforçar
a capacidade de gestão do segmento”, afirma a economista.
Em alguns anos, diz Sol, os servidores que hoje contribuem
passarão a se aposentar. “Como
trata-se de administração de recursos complexa e de longo prazo, é preciso garantir a boa gestão dos fundos principalmente
nos pequenos municípios.”
Um dado que preocupa bastante os analistas é a quantidade expressiva de entes federados sem o
Certificado de Regularidade Previdenciária (CRP), documento que
atesta o cumprimento de obrigações formais — envio de documentos ao Ministério da Previdência,
por exemplo — e dos limites de
aplicação dos recursos dos fundos

aposentar. Os funcionários recebem benefícios para permanecer na ativa, mas uma reforma
previdenciária pode não manter
esses benefícios no período de
transição e estimular os pedidos
de aposentadoria.
Para Santoro, o gasto previdenciário cada vez maior é um problema sem solução no curto prazo. Em Alagoas, os gastos com folha no Executivo atingiram 48,4%
das receitas no segundo quadrimestre e os aposentados e pensionistas contribuíram de forma
significativa para o aumento dessa despesa. O desembolso com
inativos cresceu de 21,7% para
33,8% do gasto bruto de pessoal
nos últimos quatro anos.
Ele conta que o Estado chegou
a fazer uma segregação de massa com os funcionários mais novos, com a criação de um fundo,
mas isso somente surtirá efeito
para os inativos no prazo mais
longo. “Esse é um problema da
maioria dos Estados, onde predomina o grupo de servidores
mais maduros e mais próximos
da aposentadoria.” À medida
que os funcionários se aposentam, diminui o espaço para contratações e reajuste de salários.
José Roberto de Moraes, diretor-presidente da São Paulo Previdência (SPPrev), que administra as aposentadorias dos servidores do regime próprio, diz que
32 mil funcionários do Estado estão aptos para requerer o benefício. Um movimento de antecipação aumentaria o ritmo de crescimento dos inativos. Anualmente, se aposentam no Estado entre
17 mil e 18 mil servidores.
Para Mercês, da Firjan, além da
reforma das regras gerais da Previdência, cada Estado vai ter que
rediscutir suas regras próprias,
especialmente o valor de contribuição do servidor.

Sol Garson: entre 2010 e 2015, gasto com inativos nos municípios cresceu 51,9%; despesa com pessoal teve alta de 31,2%

e a regularidade em relação a pagamentos e cálculos atuariais.
Dos 5.597 municípios existentes hoje, 2.095 possuem regime
próprio para gerir os pagamentos de aposentados e pensionistas. Os funcionários das demais
prefeituras se aposentam dentro
do regime geral da previdência
pública e seus benefícios não pesam como despesas para os municípios, explica Sol.
Desses 2.095 municípios, 312
possuem o CRP por decisão judicial e 773 não têm CRP vigente,

de acordo com posição de abril
deste ano, levantamento mais recente fornecido pelo Ministério
da Previdência Social. Ou seja,
mais da metade das prefeituras
com regime próprio possui alguma pendência que impede a
emissão do documento.
Para Rolim, os entes que possuem CRP garantido pelo Judiciário e os que não têm CRP vigente há mais de 90 dias são as situações que costumam ser as
mais “problemáticas”. Segundo o
Ministério da Previdência, dos

712 municípios sem certificado
vigente, 405 não têm o documento há mais de 12 meses.
Como há validade nos certificados, explica ele, é comum que entre a expiração de um e a emissão
de outro o município fique sem o
documento. Mas se a prefeitura está sem o certificado por mais de
três meses, diz Rolim, é porque há
alguma pendência mais grave. “Se
o município está sem o certificado
há mais de um ano, provavelmente
não tomou iniciativa para solucionar o problema.”(MW)

Governadores parcelam salários e não têm reserva para pagar 13 o
Tainara Machado
De São Paulo
Sem nenhuma reserva em caixa,
alguns Estados só estão conseguindo pagar a folha de funcionários com o recolhimento de tributos do mês corrente, o que tem gerado atrasos e parcelamentos cada
vez maiores. Com a situação “no limite”— não há recursos previstos
para o pagamento do 13 o salário,
por exemplo —, os Estados mais
endividados, como Rio Grande do
Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais,
cobram alguma espécie de auxílio
do governo federal.
Minas, por exemplo, está pa-

gando os salários em três parcelas desde fevereiro deste ano. O
secretário de Planejamento, Helvécio Magalhães, conta que em
julho e agosto, meses em que a
arrecadação é mais fraca, o pagamento da terceira parte do vencimento dos funcionários só aconteceu no 14 o dia útil do mês.
“Estamos usando a receita
corrente de ICMS para pagar a
folha”, afirma Magalhães. Segundo o secretário, quase toda a
receita tributária própria, já descontada a transferência para os
municípios, é consumida pela
folha de pagamentos. “Não sobra quase nada para custeio.”

O Rio de Janeiro suspendeu por
30 dias novas liberações de empenho para pagamento de despesas
de manutenção de secretarias e órgãos estaduais. O governador em
exercício, Francisco Dornelles (PP),
negocia a apresentação de um projeto de lei que formalizaria o estado de calamidade financeira do
Rio, o que afrouxaria parte das restrições impostas pelo descumprimento da Lei de Responsabilidade
Fiscal. O Estado, porém, negou que
tenha feito pedido de socorro financeiro à União.
O subsecretário do Tesouro no
Rio Grande do Sul, Leonardo Busatto, conta que o Estado também

só vai conseguir terminar de pagar
a folha no dia 14 deste mês e que
não há chance de conseguir pagar
o 13 o em dia sem ajuda externa.
Guilherme Mercês, economista-chefe da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan),
afirma que os Estados, que há algum tempo já enfrentam problema de liquidez, começam a ter
problemas de solvência.
Em reunião com o presidente
Michel Temer na semana passada, os governadores dos Estados
do Sudeste e do Sul cobraram
ajuda do governo federal. “O Rio
Grande do Sul tem pleiteado ajuda da União em função da queda

da receita, decorrente do cenário
econômico”, afirma Busatto, com
várias sugestões em discussão,
inclusive emissão de títulos
O Estado, diz ele, tem mais de
R$ 1 bilhão em restos a pagar referentes a folha de pagamento,
atraso de contas com fornecedores e transferências a municípios.
Busatto reconhece que a situação
da União também é delicada,
“mas a diferença é que o governo
federal pode emitir títulos e ter
déficit, os Estados não”.
“Precisamos de um fundo de
emergência”, afirma Magalhães,
de Minas. Segundo ele, a renegociação da dívida foi essencial para

o Estado, com um alívio estimado
em R$ 3,6 bilhões em 2016. Mesmo
assim, diz, a falta de dinheiro em
caixa coloca em dúvida o pagamento do 13 o dos funcionários.
“O Estado está no limite. O investimento é zero. Estamos tentando não deixar a situação se
desorganizar, mas em termos
nominais a receita voltou ao nível de 2014, mesmo com aumento de impostos”, diz Magalhães.
Os secretários reconhecem,
no entanto, que a ajuda só deve
vir depois da aprovação da PEC
do teto do gasto, a prioridade do
governo no momento. (Colaborou Rodrigo Carro, do Rio)

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