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Casamento entre Homossexuais, Estado e Religião 1

Na semana passada, a Argentina alterou a sua legislação para permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Vários outros países vêm adotando a mesma medida, através de mudanças aprovadas pelos respectivos legisladores, por plebiscitos, ou até mesmo por meio de decisões judiciais, fundadas no reconhecimento do dever do

Estado de respeitar os direitos fundamentais à igualdade, à privacidade, à liberdade e à dignidade humana do homossexual. No mundo todo, os avanços no sentido da democratização do casamento e da família são uma tendência crescente, que vem encontrando no campo religioso – em especial, na atuação da Igreja Católica -, a sua mais resistente oposição. Este tema, tão importante e polêmico, penetrou nos debates travados em torno da próxima eleição presidencial, e vários candidatos já se manifestaram contrariamente à idéia do casamento entre homossexuais, alegando que o assunto envolveria uma “questão religiosa”. Não se pretende aqui criticar as crenças religiosas de qualquer candidato.

A religião é questão de foro íntimo, e as convicções de cada um nesta área devem ser

respeitadas, inclusive em se tratando de pretendentes a cargos eletivos. Contudo, merece reflexão e crítica a confusão entre os papéis da religião e do Estado que se evidencia em algumas posições externadas sobre o tema. É um sério desvio de perspectiva, além de grave equívoco jurídico, tratar o matrimônio civil como uma questão religiosa, submetendo o seu regime aos dogmas

de qualquer confissão, ainda que majoritária. Não fosse assim, nem teríamos o divórcio no Brasil, já que, para a Igreja Católica, o casamento cria um vínculo indissolúvel entre

os cônjuges.

O Estado brasileiro é laico, por imposição constitucional. No Estado laico, as instituições públicas – como o casamento – não podem ser moldadas de acordo

com doutrinas religiosas, pois isto significa uma violência contra todos aqueles que não

as professam. Por isso, para o Estado brasileiro, o casamento não é um “sacramento”,

mas sim uma instituição civil, que deve ser talhada de modo a tratar a todas as pessoas com o mesmo respeito e consideração.

1 Publicado no Jornal do Brasil do dia 09/08/2010.

Estado laico não é o mesmo que Estado ateu. A laicidade do Estado não importa em hostilidade em relação às religiões, mas sim em posição de obrigatória neutralidade e equidistância no campo da fé. O Estado laico não pode ser intolerante em relação às crenças e instituições religiosas. Por isso, cada religião deve ter o direito de não aceitar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e de, por isso, não celebrar o culto respectivo. Mas, no Estado Democrático de Direito, os poderes públicos não podem, em nenhuma hipótese, se recusar a reconhecer direitos com base em motivações exclusivamente religiosas.