Luísa

TRINDADE

Universidade de Coimbra

A água nas cidades portuguesas
entre os séculos XIV e XVI:
a mudança de paradigma
Resumo: O presente estudo tem como objeto central as questões
de abastecimento de água à cidade portuguesa. O recorte
temporal em análise –do século XIV ao XVI– revela-se
particularmente interessante por capturar um momento de
mudança ao nível dos equipamentos e práticas: trata-se da
reentrada e difusão do aqueduto no mundo urbano, após um hiato de vários séculos. Neste
âmbito, o texto divide-se em duas partes correspondentes a dois tempos distintos, divisão
grosso modo assinalada pelo reinado de D. João II [1481-1495]. Subjacente a ambos os
tempos e aos seus diferentes matizes, uma ideia fundamental: o prover de água à população,
sobretudo em abundância, é também um fortíssimo investimento simbólico, potenciador de
uma imagem de magnificência, eficácia e poder.
Palavras chave: Água; Cidade; Abastecimento; Fontes; Aquedutos.

El agua en las poblaciones portuguesas entre los siglos XIV y XVI: un cambio de paradigma

Resumen: El presente estudio se centra en el suministro de agua de las ciudades portuguesas. El marco
temporal que se ha considerado, del siglo XIV al XVI, resulta especialmente interesante
porque hablamos de un momento de profundos cambios, en cuanto a equipamiento y
prácticas: la vuelta de los acueductos al entorno urbano, después de un intervalo de varios
siglos. Por lo tanto, se ha dividido el documento en dos partes, que se corresponden con
dos épocas diferentes, interrumpidas por el reinado de Juan II [1481-1495]. Subrayando
ambos periodos y sus diferentes tonos emerge una idea central: el suministro de agua,
especialmente abundante, siempre es una gran inversión simbólica, que enaltece una
imagen de magnificencia, eficiencia y poder.
Palabras clave: Población; Agua; Suministro; Fuentes; Acuedutos.
The Water in Portuguese Towns from the 14th to the 16th Century: the Paradigm Shift
Abstract: The present study focuses on water supply to the Portuguese city. The time frame
considered –form the 14th to the 16th century– is particularly interesting while capturing
a moment of profound change, in equipment’s and practices: the re-entrance of aqueducts
in the urban world, after an interlude of several centuries. Thus, the text is divided into two
parts, corresponding to two different times, break roughly marked by the reign of King
John II [1481-1495]. Underlying both periods and its various tones, emerges a central idea:
supplying water, especially in abundance, is always a major symbolic investment, enhancing
an image of magnificence, efficiency and power.

Key words: Water; Town; Supply; Fountains; Aqueducts.
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138. S.Faculdade de Letras da Universidade do Porto. a sua destruição parcial e o corte de água daí decorrente. escrita ou material. Braga. foi uma arma frequentemente utilizada pelos exércitos invasores para a paralisação e sujeição dos cobiçados núcleos urbanos hispano-romanos. Urbanismo na composição de Portugal. O certo é que. os forais determinavam o local de assentamento da povoação em função dos pontos de água disponíveis: em 1315. 200 anos depois. Imprensa da Universidade. Coimbra. C. I. É disso exemplo a sofisticada canalização do bairro almóada da Alcáçova de Mértola. 109-117.. onde a tradição tecnológica e cultural clássica associada ao uso da água tinha raízes profundas.) Muçulmanos e cristãos entre o Tejo e o Douro (séculos VIII a XIII). 4 MACIAS. Divercidade. de distâncias mais ou menos longínquas. 2001. p. que toda a tecnologia clássica tenha desaparecido ou deixado de funcionar de imediato. contraria: fazer chegar água à cidade. O mesmo terá sido válido para a herança muçulmana ainda que. p.. Museu Nacional de Arqueologia. termas. Portugal islâmico: os últimos sinais do Mediterrâneo. comprova-se em diversas situações: era certamente romano o cano que em Braga. que a referência de 1087 ao «cursum aqua»2 junto à porta do Sol. Dinis ordenava que tivessem em conta «huum poço que hy esta»5. em pouco tempo.. Mesmo num território como o peninsular. e VALDIVIESO. independentemente do referente geográfico. à interrupção de um sistema continuado de manutenção. (coord. 63 (texto policopiado). 127. O uso continuado destas condutas. foi um problema permanente e de difícil resolução. no decorrer dos séculos seguintes. «Casas urbanas e quotidiano no Gharb al-Ândalus». abastecia o palácio dos arcebispos1. 2012. poços e fontes foram a forma mais comum de suprir as necessidades das populações. não raro. FERNANDES. em Coimbra. L. fosse para consumo.. p. 3 Sobre a intensificação do processo de islamização do território nos séculos XI e XII veja-se PICARD.). H. W. com ou sem reutilizações parciais de equipamentos anteriores. Lisboa. em cujo topo se encontrava a figura chave do Curator Aquorum. 5 TRINDADE.. D. Esta mesma importância fica bem patente no cuidado com que. p. nos finais do século XIV. FERNANDES. BARROCA. 272. FREITAS. Palmela. Portugal islâmico: os últimos sinais do Mediterrâneo. MARTINS. no caso do território atualmente português. Lisboa. p. Por isso a rede hidrográfica foi determinante na atração dos aglomerados urbanos.Luísa Trindade Qualquer estudo sobre questões de abastecimento e uso de água na cidade tardo-medieval. a cidade medieval dependeu essencialmente dos recursos hídricos disponíveis: dos rios em primeiro lugar. MATINS. constatação que fica hoje bem evidente a partir da localização das igrejas românicas erguidas no coração das freguesias então reestruturadas. assente em mão de obra própria e qualificada. banhos e as habitações das famílias mais abastadas foram das primeiras infraestruturas a acusar esse abandono. 1998. traziam água às cidades. Urbanografia do espaço de Coimbra até ao estabelecimento definitivo da Universidade. As condutas que. Por isso. Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. «Fronteiras e Reconquista». I. 2 ROSSA. Acresce que na época conturbada das invasões dos séculos V e VI. M. o processo de verdadeira islamização dos núcleos urbanos ocorresse já em data muito próxima do final da Reconquista.. 9. 2013. CITCEM. M. todavia. No interior do espaço urbano. o que explica que os vestígios de uma engenharia hidráulica evoluída se circunscrevam particamente às regiões meridionais3 –Alentejo e Algarve– e datem maioritariamente dos séculos XII e XIII. a desestruturação do império romano enquanto entidade político-administrativa conduziu ao desinvestimento nos equipamentos públicos e.Andalus (X-XIIe siècle): les signes d’une dynamique». «Le changement du paysage urbain dans le Gharb al. nascentes. Caminhos da Água. Museu Nacional de Arqueologia. Esse desinvestimento e destruição não significou.. 2005. Duarte de Armas registou os poços e fontes das localidades RIBEIRO. tem subjacente uma constatação que nenhuma fonte histórica. da mesma forma. espaço abandonado pelos conquistadores cristãos logo após a tomada da vila4. só pode querer dizer que o velho aqueduto romano estaria ainda em uso por essa altura. «Contributo para o estudo do abastecimento de água à cidade de Braga na Idade Moderna. M. como força motriz ou como meio de transporte. (coord. garantindo a sua sobrevivência. O Livro da Câmara de Braga (Século XVIII)». em quantidade e qualidade. Coimbra.. 1998.. p. I. Na realidade. 1 368 . Câmara Municipal de Palmela . ao ordenar a construção da muralha da Bemposta.. M. abastecendo fontes.

Revista da Faculdade de Letras. Aquele que num gesto de altruísmo dá de beber à população. entre o Concelho e o poderoso Mosteiro de Santa Cruz em torno dos direitos que ambos reclamavam sobre três das mais importantes fontes da cidade: as fontes do Rei. sendo frequentemente pagos com verbas para tal especificamente deixadas em testamentos. Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra. Anos depois.. H. os bens do mosteiro9.. Universidade do Minho. dos principais pontos de reunião e sociabilidade da população urbana. o papel do convento de S. 2009. p. 159 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo) Lisboa. 1997. fonte simples em Castro Laboreiro e. são vários os casos em que associa ao desenho uma pequena nota. Vinhais e Alandroal. com o seu «cano dalcatruzes carrado e betumado e fechado» que captava a água numa mina não muito distante do rio e a trazia ao depósito do mosteiro. bastará aqui recordar o litígio mediado pelo Infante D. Uma Figura 1. vol. ANTT . Apesar do início dos trabalhos. Aliás. a cisterna do Mosteiro de S. Coimbra. entre o casario ou junto aos caminhos que levam às portas das vilas: fontes de tanque e espaldar ameado surgem em Caminha. Como exemplo. do Boletim do Arquivo Distrital do Porto. a importância do abastecimento de água no mundo medieval pode medir-se pelo teor da esmagadora maioria das notícias que sobre este aspeto chegaram até nós: ora retratando situações de conflito em torno da posse e monopólio do precioso líquido. II. onde os poços do intramuros abasteciam a população de muita e boa água. D. sep. dependeram da iniciativa das vereações. ou. Trabalho e Produção em Portugal na Idade Média: O Porto. A documentação é rica em contendas entre os frades e os mesteirais acusados de sujarem a água. Montalvão e Alcoutim. 1958. mas aos dos arrabaldes. Braga. Miranda do Douro. Vilar Maior. 1320 – c. O papel essencial que cumpriam fez deles obras de bem comum e carácter piedoso. Universidade de Coimbra. Símbolo de vida e abundância. de resto. F. no Porto. c. No geral. Livro das Fortalezas. seria o próprio D. retratou em 15096. 9 MACEDO. 77. 1985. «As cartas do Infante D. A. como aconteceu no caso de Caminha. em Lisboa. Na verdade.. Pedro a entrar em confronto com os crúzios ao pretender desviar a água da Fonte Nova para a zona do Castelo onde decidira erguer um chafariz. da Rainha e a Fonte Nova8. 6 369 . Domingos veja-se ainda MELO. especificando dados relevantes. sobretudo feminina. o Prior de Santa Cruz travou o processo recorrendo a uma bula papal que salvaguardava. 1415. p. Biblos. Sobre o cano de S. vol. Recorde-se que em função do tipo de representação. em Valença e Ouguela. poços nas vilas de Melgaço. do apoio dos monarcas. vol. da nobreza e do clero7. 8 PIMENTA. e de estar já aberta «uma grande valla pera a agoa da dita fonte». durante séculos. as instituições religiosas foram as que mais investiram nos sistemas de condução. II. capitaliza para si mesmo uma imagem de eficácia e poder. Livro das Fortalezas. em contexto urbano. sob pena de excomunhão. p. especialmente relevante a partir do século XIV. Aspetos. 1509. LXIX. patrono e mecenas». Pedro. «O fornecimento de água ao convento de S. MORENO.A água nas cidades portuguesas entre os séculos XIV e XVI: a mudança de paradigma fronteiriças que. Vicente de Fora. a água foi em todos os tempos um poderosíssimo factor de engrandecimento. Domingos. reserva e abastecimento de águas. B. Aspeto tanto mais importante quanto eram equipamentos de grande visibilidade: fontes e chafarizes foram. porém. Não nos referimos aos inevitáveis poços e cisternas representados nas plantas dos castelos. vol. 8-9. embora fosse essencialmente para uso próprio e não tanto para abastecimento da população. finalmente. Pedro à Câmara de Coimbra (1428-1448)». Pedro. XXIII. Duque de Coimbra. «O Infante D. Os conflitos suscitados em torno das questões do domínio de água entendem-se melhor quando contextualizados num quadro de construção de imagens de poder. 484. ARMAS. Duarte de Armas. Coimbra..Edições Inapa. fontes cobertas. o intramuros raramente é visível. Recorde-se. 7 Para além dos poderes régio e concelhio. c. por mando régio. Domingos do Porto nos séculos XIV e XV». (fac-símile do Ms. Montalvão (pormenor). intrinsecamente associados. em 1436. ora denunciando o potencial propagandístico da sua oferta à comunidade. 1993.

c. especialmente quando o caudal não era intenso o que. as chamadas fontes de mergulho ou chafurdo. de maiores dimensões que os restantes. Lisboa.Luísa Trindade passagem do Foro Real. escudo e Cruz de Cristo. e igualmente retratado por Duarte de Armas na portada do foral de Évora de 1501. 1987. Deste tipo. Se tal ocorreu nas estruturas mais simples. 12 O tanque em que se mergulha o balde é protegido por uma abóbada de pedra por forma a impedir o acumular de impurezas. O acesso faz-se normalmente descendo dois ou três degraus. por exemplo). todos eles inscritos no merlão central. negros ou mouros11. Miranda do Douro. O documento refere-se ao ano de 1551. Por isso quem as pagava raramente perdia a oportunidade de o anunciar publicamente. Azevedo. tipologia que a documentação designa por cobertas ou arcadas12. corrobora justamente a fonte como ponto de encontro de mulheres incorporando-a no elenco dos seus percursos ou atividades mais frequentes: que «toda a mulher possa testemunhar em coisas que forem feitas ou ditas no moinho. p. 174. Lisboa. no forno. os Chafarizes das Bravas e d’El Rei. a inclusão de pedras de armas e epígrafes foi ainda mais comum nos chafarizes e fontes que atingiam proporções maiores. João V e o abastecimento de água a Lisboa. perduraram em Évora. Manuel. Alandroal e Vinhais. gerava conflitos. um dos mais concorridos de Lisboa. 117. embora estruturalmente continuassem a ser simples tanques adossados a muros –frequentemente ameados– de onde pendia a bica de água. (as fontes de Atouguia da Baleia e Flor da Rosa. Chafariz d’el Rey. Foro Real. Câmara Municipal. [Livro II. em 149713. Lisboa. mas traduzido e incorporado no direito português. chegaram a ser conhecidos pelas longas esperas. 13 O patrocínio e a data são atestados pelos símbolos régios. com destaque para os aguadeiros que abasteciam as casas nobres. 1990. Afonso X. os equipamentos mais centrais. INIC. p. Aliás. a câmara viu-se obrigada a lançar uma postura que organizasse a espera: cada uma das três bicas seria doravante usada exclusivamente por brancos. 10 11 370 . 1570-80. Coleção Berardo. este último mandado erguer por D. D. título VIII]. edição e estudo linguístico de J. não raro. Figura 2. aqueles a que mais pessoas acorriam diariamente. representado por Duarte de Armas em Caminha. No Chafariz d’El Rei. no banho. e por epígrafe. originalmente escrito para a realidade castelhana. no rio ou na fonte»10.

. Recorde-se como o uso das ameias foi. Duarte de Armas. Alandroal. D. não está em causa o aparato militar e a vertente defensiva que tais elementos propiciavam. caía exclusivamente sob alçada do poder régio. de acordo com o chamado Ius crenelandi. Encostada à muralha. as armas do conde e a inscrição que comemora a sua realização17. cit. nas vistas que traça de Bragança e Chaves.. ao centro do espaldar ameado14. Lisboa. «Torres. erguida provavelmente na primeira metade do século XIV. estando datada de 1423. 17 ALMEIDA. Afonso IV e o município. 1990. direito régio em vigor em Portugal pelo menos desde D. fontes e chafarizes da capital veja-se BUARCOS. p. A concepção do espaço de habitação da pequena e média nobreza na Baixa Idade Média (séculos XII-XV)». no Largo do Andaluz. Livro das Fortalezas (c. comprova-se pela ação dos filhos de D. Que o abastecimento de água garantindo o bem estar dos súbditos ou das populações dependentes era preocupação comum dos grandes senhores –rei à cabeça– e que nesses atos raramente se descurava a identificação do promotor. p. ao segundo devem-se os chafarizes de Portel. História da Arte em Portugal. 2002. 1991. em Santarém. 103-106. A inscrição do de Évora Monte atribui o mando da obra a Fernão Rodriguez. 54. neto d’El Rei e filho do conde de Barcelos. Claro que no caso de fontes e chafarizes. como se sabe. bem como CAETANO. lado a lado. estruturalmente muito idêntico aos anteriores e um dos mais antigos de que temos notícia. Alter do Chão e Évora-Monte. escrivão. O Gótico. Argumento que ganha força quando se evoca o mesmo tipo de coroamento nos cadafalsos ou forcas16. combina um alpendre ameado de proteção à Na inscrição pode ler-se o seguinte texto: «Na era de 1374 [ano de 1336] o concelho da cidade de Lisboa mandou fazer a fonte a serviço de Deus e do nosso Rei D. Afonso por Gil Esteves. J. tesoureiro da dita cidade e Afonso Soares. conserva-se em Lisboa. de novo pelos esforços conjugados do rei e do município. Para um elenco dos poços.. Grandeza e abastança de Lisboa em 1552. coloca-se a hipótese de os coroamentos ameados serem. ARMAS. Monsaraz.. até hoje. 1509) e Foral de Évora (1501). J. Livros Horizonte. Afonso. condes de Ourém e de Arraiolos. um claro sinal de patrocínio régio. D. M. Fernando. Revista de História das Ideias. por exemplo. 155. Coimbra. Lisboa.. mantendo este último. M. Vinhais e Évora. respetivamente. BARROCA. mas tão só uma eventual associação imediata à coroa. Ainda no que respeita aos elementos identificativos do promotor. por si só. estruturas punitivas cujo uso. 90 e 95. Se ao primeiro pode atribuir-se a fonte erguida na Praça Velha de Ourém.. iniciativa integrada no projeto mais vasto de engrandecimento da vila. porque os encargos foram repartidos entre o monarca. 19. Afonso e D. 16 Vejam-se as forcas desenhadas por Duarte de Armas. De forma mais esporádica. fl. inscreveram-se as armas de ambos. Distri-Editora. Afonso III15. D. Aqui. caso da Fonte das Figueiras. ouvidor de Dom Fernando. Um terceiro chafariz. alcançaram uma monumentalidade e carácter artístico invulgar. C. Universidade de Coimbra. 1º duque de Bragança. Casas-Torres ou Casas Fortes.A água nas cidades portuguesas entre os séculos XIV e XVI: a mudança de paradigma Figura 3. 14 371 . Sacavém. na primeira metade do século XV. p. sobretudo no decorrer dos séculos XIII e XIV. Presença. a Deus graças». 15 BARROCA. privilégio dos monarcas. 1997. op. Chafarizes de Lisboa.

efetivamente.. com destaque para a Casa da Câmara. atualizando a gramática decorativa e conferindo-lhe maior presença.N. aberto por três arcos e com cobertura abobadada. p.Luísa Trindade bica. registado nas queixas apresentadas pelo povo. data desta mesma altura. Santarém. agora vincada pelos pináculos e pelas magníficas gárgulas. os que de trezentos chegaram até nós–. a Misericórdia. 21 Como fez já Carlos A. foi demolido no século XIX. filha de D. C. Em duas das faces exteriores do alpendre. estrutura pentagonal. BARROCA.. Manuel I e senhora da Vila. ficaram-nos breves referências escritas. Torres Vedras. em 1561. L. O renque de ameias que coroa todo o conjunto. E sempre que possível. A. para além de ser necessário associar a construção destes equipamentos públicos a uma fase de consolidação do poder municipal21 –e vários são. Maria. Fundação Calouste Gulbenkian e J. ALMEIDA. ato que a inscrição colocada na face principal regista20. Um documento de 1322 refere um pagamento para os canos de Torres Vedras. a desencadear uma campanha de obras. M.I. primeira metade do século XIV. cit. por outro. obrigou a Infanta D. alpendre e muro de encosto. Fonte das Figueiras.. Torres Vedras. ou em terreiros fora de portas. trecho. 155. o pelourinho. O mau estado em que chegou ao século XVI. pp. 20 A epígrafe colocada na face central do Chafariz regista que a obra foi levantada debaixo da inspeção do Licenciado Duarte Velho. op. com um vasto tanque a céu aberto. se assiste a uma concentração de equipamentos vários. por mandado da Infanta Nossa Senhora. A Vila e o Termo nos Finais da Idade Média.. Com estrutura idêntica18. de representação de poder22. em local de particular visibilidade na aproximação à fonte. De alguns.175. «os canos de agoa que vem pera a villa» começam a ser uma referência comum em confrontações ou localizações próximas. por um lado. em Torres Vedras. importa sublinhar como no século XV acompanharam e foram impulsionados pelo processo de emergência da praça enquanto espaço público de crescente multifuncionalidade e. De facto. a cadeia. a O tanque exterior. ainda visível em fotografias antigas. cit. 22 TRINDADE. sem que deles sobreviva qualquer vestígio físico. Lisboa. 18 19 372 . 1995.T. Juiz. É efetivamente nessa centúria que nos adros das velhas igrejas onde desde há muito se realizava o mercado. destaca-se o Chafariz dos Canos.. F de Almeida. erguida no decorrer da década de 132019. sobretudo. RODRIGUES. embora não seja de pôr de lado a hipótese de vir substituir outro mais antigo. A esmagadora maioria destes equipamentos desapareceu Figura 4. o açougue.C. p. não existem referências anteriores. fundamentais para entendermos como se tornaram peças chave nos processos de progressivo enobrecimento da centralidade urbana. primeira metade do século XIV. mas ainda maior aparato e qualidade escultórica. a breve Figura 5. todavia.. op. 571-612. a partir dessa data. ostenta os escudos régio e concelhio. Chafariz dos Canos. É possível que se trate da sua construção pois se..

rasgada no afloramento rochoso. O Renascimento em Coimbra. Figura 7. um dos espaços de maior confluência e bulício da cidade.. II. E pera o dito terreiro ficar mais fermoso. Fonte coberta. e embora não seja um equipamento urbano. p. uma encimada por uma imagem de S. promovendo benfeitorias em prol da comunidade. Grupo dos Amigos de Montemor-o-Novo. Breve História das ruínas do antigo burgo e concelho de Montemor-o-Novo. 25 Em 1383. 1990-1993. L. mas também da sua própria imagem. de planta quadrangular e dotada de uma escada interior. Lisboa. Já não como cisterna mas como fonte de mergulho..A água nas cidades portuguesas entre os séculos XIV e XVI: a mudança de paradigma fonte ou o chafariz. numa sala quadrangular ampla. Se entre os que sobreviveram merece destaque o caso de Bragança –onde a reunião dos vereadores decorria. refere a existência de cisterna no Paço do Concelho. O Livro de receitas e despesas da câmara de Montemor-o-Novo. Coimbra. p. vol. org. Bragança. 24 Para além das cisternas de Castelo Rodrigo e Covilhã. o prior D. Modelos e Programas Arquitectónicos. Por honra e nobreza da vila é uma expressão que ganha então inúmeros adeptos. é ainda relevante o caso de Aguiar da Beira. Reinado de D. A nobreza senhorial e as grandes casas religiosas demonstram a mesma preocupação com o espaço urbano envolvente. para erguer novos paços do concelho. tornando-o maior e mais regular «pera nelle se poderem fazer festas de cauallo. Cortes portuguesas. desde o século XIV. João Baptista. pp. o concelho reuniu na «villa de chaves Em çima da Çisterna». Évora. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. outra por uma escultura de Sansão. século XIV. Fernando I (1367-1383). Marques. ambas vestidas de peles23. Afonso Martins remodelou o terreiro fronteiro à igreja.. ANDRADE. rasgada em todas as faces por generosa arcaria.Instituto Nacional de Investigação Científica. dotada de um banco contínuo e de renque de ameias em todo o redor. e literalmente assente sobre a grande cisterna abobadada– entre os que apenas se conhecem através da documentação refiram-se os de Chaves e Montemor-o-Novo25. 2002. 14. 23 373 . Aguiar da Beira. mais condizentes com a dignidade que reclamam para as suas próprias vilas. de 1506. importa aqui fazer uma referência especial à cisterna do castelo de Montalegre. A.. 27-30 (texto policopiado). Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa . onde os homens bons do concelho reuniam na cobertura da própria fonte. A. Nos inícios do século XV. O mosteiro de Santa Cruz de Coimbra é de novo um exemplo sugestivo. 106. Paços do Concelho e cisterna. Figura 6. No âmbito desta associação entre os poderes e a água refira-se aliança física que tantas vezes se registou entre a própria casa da câmara e a cisterna24. mandou [. CRAVEIRO. Os municípios pedem ajuda aos monarcas para melhorar estes espaços. 1977.] fazer duas fontes com seus tanques de agoa».

29 MARQUES. n. D. Patrimonia. lavadouros. Mais tarde será identificada como por «rua nova que fizeram sobre o cano que se chama Rua Nova del Rei». C. da Revista Mínia. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian. as duas linhas de água que. Foi costume aforar os terrenos por onde passavam para que o arrendatário construísse por cima. em Lisboa. §13. Cascais. J. SILVA. p. A cidade: jornadas inter e pluridisciplinares. «Posturas municipais e vida urbana». taxa que incidia sobre o vinho. «correger e repairar» era matéria camarária. Ruas dos Canos. Actas II. op. para o século XV. um cano sob uma calçada. a carne e o peixe. ou quando a água perdia qualidade deixando de poder ser consumida. 33 Em 1466 surge como «rua do cano nova». concretamente do foro do almotacé. Braga. João V e o abastecimento de água a Lisboa. canalizando-as para o extramuros. Monumentos. nem outro lixo. ou Villa.. J. Lisboa. Talvez por tudo isso o projeto foi considerado demasiado ambicioso pelo monarca que reduziu o encargo à obrigatoriedade de todos «os que taes canos teem que os alimpem e os façam alimpar mui bem»35. por exemplo. Fernando da Guerra e o abastecimento de água à cidade de Braga no segundo quartel do século XV. Tomar medieval. Universidade Aberta. 26 374 . nem a servidans das aguoas»27. p. permaneciam abertos correndo pelo centro das ruas em terra batida. 92. 51. Torres Vedras. a lançar o «real de água». juntando-se num só córrego32 junto ao Rossio. No mesmo sentido vai o texto do Regimento dos Vereadores e Oficiais da Câmara. que serviriam as artérias secundárias. MARQUES. transportando-a por distâncias mais ou menos longas. sendo esse trajeto conhecido a partir de então como «Rua nova do cano que vae pera o Rocio»33. através de ramais. transformando-as frequentemente em lamaçais. «O Aqueduto da Amoreira e o sistema de abastecimento de água a Elvas». J. p. Manuel a Lisboa em 1502. nem lancem arredor de muro esterco. Também sob a forma de fintas expressamente autorizadas pelos monarcas para esse efeito: em 1498. «Conhecer e nomear. Mesmo em Lisboa. Liv. Livros Horizonte. O espaço e os homens. Lisboa. Patrimonia. 1984.. 1999. Colibri. Embora se conheçam exemplos para várias cidades e vilas34. MASCARENHAS.. existiram por exemplo. 34 «Canos de pedra existiam em Braga no século XV. p. Lisboa Manuelina e a formação de modelos urbanísticos da Época Moderna (1495-1521). sendo os sistemas de redes de saneamento obras mais tardias. cujas funções foram codificadas nas ordenações. Para os séculos XIV e XV surgem notícias a sistemas de condutas. lavatórios e vasos29 onde a população se abastecia de água para uso doméstico. A. Quando as nascentes existentes nas próprias vilas e cidades secavam ou se tornavam insuficientes. 173. como ficaram conhecidos os trajetos por onde passavam. no capítulo da higiene urbana: «andaram pola cidade ou Villa em tal guisa que se nom façam em ellas esterqueiras. I. Lisboa. XLIX. 89. D... pp. CONDE..] da çidade e seu termo» eram encargo da vereação28. IHRU. a toponímia das cidades medievais portuguesas». 114. p. já o vigiar. 129. lavava roupa. tit.Luísa Trindade Se os encargos de construção foram frequentemente repartidos26. atravessavam a baixa e desaguavam no Tejo.. 2008. 1993.. previa ligações diretas aos edifícios. as alcaçarias ou os pelames. no Porto. com outros. nem se atupam os canos da Cidade. onde grande parte da população se abastecia. sep. 30 ANDRADE. outorgado por D. segundo o qual «fontes. A. outros canos idênticos foram construídos para recolha das águas residuais. 1980.. No seu modelo mais simples (quando não eram apenas valas). menores. No âmbito da engenharia hidráulica. os canos cobertos que conduziam a água potável às fontes. H. 78. Na realidade. 1996. S.. cit. Évora. 127-137. QUINTELA. 27 Ordenações Manuelinas. Um Olhar sobre a cidade medieval. 32 Conhecido até ao século XIV por «Rego merdeiro» ou simplesmente «Rego». 1. Manuel autorizava a câmara de Elvas. foram encanadas entre os finais do século XIII e o início do século XIV. por vezes especificando-se o uso de abóbadas31. 1996.. 2ª série 3(4). Cascais. Lisboa. seriam sempre obras pontuais. p. chafarizes e canos [. 2008. para o rio ou para o mar. Em Lisboa. 31 GONÇALVES.. sob proposta do concelho. 35 CARITA. Lisboa Medieval. para além de articular a recolha e circulação das águas entre canos de grandes dimensões que correriam ao longo das ruas principais. dava de beber a animais ou junto das quais sediava mesteres como as tanoarias. e que reverteria para as obras do poço de Alcalá. Também em Tomar a arqueologia revelou. só em 1486 se projetou a construção de um sistema de esgotos. 28 D.º 28. tornava-se necessário captá-la fora das localidades. Santarém e Braga30.

inevitavelmente. Câmara Municipal. F. p. 39 Sobre os banhos islâmicos veja-se o estudo de NAVARRO PALAZÓN. J. sem grandes especificações técnicas: um forno. Tarefa particularmente difícil pelo facto de as fontes escritas serem. muito deficitário. 38. A. C.Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Mas nada parece distingui-los do casario envolvente. 37 Biblioteca Municipal de Elvas. Alcácer do Sal.. 2ª ed. 2009. das massagens e dos óleos. como acontecia em Lisboa com o «Arrabalde em frente dos Banhos». p. op. A Rua das Flores no século XVI: elementos para a História Urbana do Porto quinhentista. Postigo e Porta dos Banhos são dos topónimos mais comuns. caso de Évora onde se sabe terem existido três. 2000. Lisboa. datado de meados do século XIV. e para o Porto. Castelo Melhor. p. com recurso a abóbadas perfuradas. pese embora a conotação negativa que a igreja atribuía a estes estabelecimentos. Setúbal. Colibri. por vezes.). J. As iluminuras europeias que retratam o banho são particularmente insistentes neste aspeto. nenhuma referência a tanques ou piscinas.. fazer um exercício com um equipamento específico: os banhos públicos. Pedro de Alfama. a sua função ultrapassou em muito as preocupações higiénicas constituindo primordialmente locais de sociabilidade e prazer. Jose Manuel Iglesias Gil (edit. as várias mulheres inquiridas relatam ser costume ir aos banhos públicos e aí comer e beber37. Porto. 38 Para os banhos de Lisboa veja-se BARROS. Loulé. neste âmbito. p. A. SILVA.. Assegurada a sua permanência e procura na sociedade medieval. O banho quente parece gozar então de total exclusividade. Tempos e Espaços de Mouros. como vimos. Ao que tudo indica.. É difícil não ver neste processo. Castelo Rodrigo. Aliás. ao contrário das piscinas em alvenaria características dos balneários romanos e islâmicos.. CARVALHO. Elvas. P. para evitar o gotejar da condensação. Talvez por isso. neste aspecto. através dos poucos relatos existentes38 parece possível entrever edifícios de pequena dimensão. Como na Antiguidade. 127-138. Sabemos que existiram de norte a sul do país36 e que gozaram de grande popularidade a ponto de a sua exploração ser cobiçada por nobres e religiosos. 232 e SILVA. Ainda assim. aspeto que vem apenas corroborar a prática de associação do banho com a ingestão de bebidas. num documento da Colegiada de São Pedro de Elvas. Porto.. É curioso. o ato ou ritual do banho simplificou-se consideravelmente. 95-137. Rua. frequentemente guarnecida com arcos de ferro de onde pendiam tecidos O papel que desempenharam enquanto referentes da paisagem urbana faz com que a toponímia seja uma das principais fontes para o seu estudo. Alfaiates. em grande parte pelo desaparecimento de um sistema baseado na progressão de diferentes temperaturas. nada os une às estruturas grandiosas e de vocação propagandística erguidas na antiguidade ou aos requintes técnicos e decorativos do Islão. 152. para aquecer a água. cit. FAUP. 2004. Castro Marim. «Arqueología del baño andalusí: notas para su comprensión y estudio».. p.. embora por vezes chegassem a nomear todo um arrabalde. sistemas de tubagem embutidos nas paredes e hipocaustos subterrâneos39. Tavira. Lisboa. Évora. o abastecimento era. A minoria muçulmana no Reino português (sécs. nº 55 (Informação cedida por Luís Filipe Oliveira. Leiria. presumindo-se que em Portugal não fosse muito diferente: efetivamente. 127-138. op. são algumas das localidades onde se registam. a quem aqui publicamente agradecemos). 1939. cit. Cursos sobre el Patrimonio Histórico 13: Actas de los XIX cursos monográficos sobre el Patrimonio Histórico. 2007. p. o sistema medieval tivesse que recorrer essencialmente a selhas de madeira para as quais a água quente era transportada em baldes. bebia-se vinho e ingeriam-se alimentos vários. onde os vários sentidos eram simultaneamente convocados: para além dos prazeres da água e do vapor. ouvia-se música.. JIMÉNEZ CASTILLO. importa agora compreender de que forma os mecanismos disponíveis para captação e distribuição de água à cidade terão comprometido a estrutura e organização destes equipamentos.. 248. A.. Castelo Bom. na Idade Média. a recorrência de uma adega. A Cerca Moura de Lisboa. Da Toponímia de Évora. A banheira. XII – XV). uma abóbada. 36 375 . Pergaminhos da Colegiada de São Pedro de Elvas. p. Fundação Calouste Gulbenkian . Para Évora. pelo menos em parte. o resultado da insuficiência e precariedade da engenharia hidráulica medieval. CARVALHO. em S. Com um investimento débil e pontual ao nível dos sistemas e redes de condutas. Acima de tudo. particularmente omissas.A água nas cidades portuguesas entre os séculos XIV e XVI: a mudança de paradigma A verdade é que o carácter precário dos sistemas de condução e abastecimento de água à cidade medieval tiveram repercussões a vários níveis. Em núcleos de maior dimensão podiam coexistir vários destes equipamentos. Santarém. Faro. Pelo menos para alimentar tanques de dimensões consideráveis. AFONSO.

Elvas e Lisboa. como consta pelo rasto que em todo ele se achou coberto de árvores». justamente quando a prática do banho cede à dupla ofensiva. 41 VITERBO.l. 2002. altura em que se fizeram igualmente obras na Fonte dos Canos. onde os canos foram profundamente renovados em 1561. 45 CRAVEIRO.– também aqui deve reconhecer-se o papel Figura 8. em torno de 1570.. neste século. 1988. a «batalha pelo abastecimento de água assume os contornos de uma política esclarecida e generosa que é. 1481-1495]. Dos benefícios da obra no enobrecimento e abastança da vila deu conta Ruy de Pina. 941. em Miranda do Douro. Une-os a vontade política subjacente de retoma dos ideais (e originais) clássicos. a mesma data em que D. João II».. De facto. Uma década de estudos sobre o urbanismo português. Sobre os vários aquedutos aqui tratados veja-se ROSSA. A urbe e o traço. 1977. Alguns casos». 125-133 e CAETANO. no caso dos banhos públicos.Luísa Trindade com a função de conservar a temperatura e o vapor.. como vimos já.. Lello. Almedina. ganha franca visibilidade. «mais nobremente do que fora feito havia muitos anos. 61. cit. são igualmente quinhentistas. 43 PINA. Crónicas de Rui de Pina. Staatsbibliothek. « Chronica d’El-Rei D. 1991. 42 TRINDADE. engenheiros e construtores portugueses. Vila Nova de Gaia. R. da Leitura Nova. p. sob cuja responsabilidade ficava igualmente a sua conservação41. determinada pelos temores de contágio que os poros abertos pelo calor supostamente potenciavam. No intramuros. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. op. ROSSA. João II [r. A Arquitectura «ao Romano». III. Curiosamente. um apenas idealizado: Évora. Banhos públicos medievais retratados na decisivo de D. p. vol. Dicionário histórico e documental dos arquitectos. concretamente do ano de 1487. Captada a cerca de três quilómetros de distância. De entre todas vale a pena focar de perto três casos –dois efetivamente concretizados. Como foi já referido. ainda que seja nos edição de c. [s. em Setúbal. Porto. W. em suma. expressão de poder»45. J. moral e médica.. p. Trata-se do Aqueduto dos Arcos. S. Óbidos onde se ergueu o Aqueduto da Usseira. Berlim. nas três décadas seguintes. seria transformado no novo centro político e administrativo da vila42. Como em tantos outros aspetos da sociedade portuguesa deste período –caso da reforma dos forais. 657-660. circulava por canos subterrâneos até atingir as bicas dos vários chafarizes. elevadas sobre arcos.168-169. era uma simples peça de mobiliário sem qualquer influência na arquitetura. edificado pelo mestre de obras Pero Vaz. Aquedutos em Portugal. Coimbra. Efetivamente. que se verifica um renovado investimento por parte do poder régio no transporte de água às principais cidades40. Divercidade. da mudança de paradigma ao nível da assistência médica. 44 A título de exemplo. L. Fubu Editores. com destaque para o da Praça do Sapal. a água chegava à cidade em condutas de pedra e alvenaria. local que.. pp. 2009. «Os aquedutos de utilidade pública em Portugal na Idade Moderna. p.]. 244). Lisboa.. W. O aqueduto de Bragança ou o aqueduto de Vilarinho. é a partir dos finais do século XV e no decorrer do século XVI. 1470 da obra de Valerius Maximus’ Facta et reinados seguintes que a edificação de grandes aquedutos Dicta Memorabilia (fol. 1ª ed. etc. o primeiro de que temos notícia resulta da iniciativa daquele monarca. 1899. L. 40 376 . Sebastião mandou reedificar de novo todo o aqueduto de Coimbra. Libes. pp. Muitas outras vilas e cidades seriam dotadas de aquedutos no decorrer de quinhentos44. refira-se o caso de Torres Vedras. na crónica que dedicou ao monarca43. pelo contrário. o seu encerramento e desaparecimento dá-se no exato momento em que estas limitações poderiam ser finalmente ultrapassadas. 56.

Sobre Francisco de Arruda continuam a ser de leitura obrigatória os dados documentais coligidos por VITERBO. FCSH UNL.000 reais pelo cargo de «visitador do cano da Água da Prata». como ficou conhecido pela qualidade translúcida da água. Figura 9. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 1988. O grosso da mão de obra era assegurada por muitos e bons oficiais de pedraria. em Évora 1533-1537. Na realidade. Frontino. Apesar das já «muitas fontes compradas. chegados de todas as partes do reino em resposta à chamada régia47. No momento em que a estadia prolongada da corte fazia de Évora uma forte rival de Lisboa. Maciel. pp. IST Press. vol. era atribuída a tença anual de 10. devendo-se a interrupção do projeto à morte do monarca. 49 As discussões que envolveram a construção do aqueduto de Évora e particularmente o papel que Resende nelas desempenhou.. 1991. tarefa sustentada em regimento especificamente criado para o efeito. O monarca. 55-65. fosse na leitura atenta dos tratados de Vitrúvio48 e. Tratado de Arquitectura. 291-322. 1991 p. mais do que ombrear com os evergetas clássicos. João III. das diferentes formas de localização dos mananciais às suas características e qualidades terapêuticas. Lisboa. João II e Miscelânea. e concertadas.A água nas cidades portuguesas entre os séculos XIV e XVI: a mudança de paradigma Tal como o de Setúbal. Lisboa. 346-364 (texto policopiado). introdução e notas M. sobretudo. também o aqueduto de Évora terá sido inicialmente pensado por D.. 271. cit. e feytas de abobada. em 1542. capital de contornos imperiais. são detalhadamente analisadas por MOREIRA. cuja tradução para português ofereceria ao rei em 1542-4349. A encomenda régia entre o moderno e o romano. defensor acérrimo dessa capitalidade emergente. 46 47 377 . op. só foi efetivamente construído no reinado de D. emulava também por esta via a Ebora romana. tradução do latim. G.. por seu lado. o seu papel junto do monarca parece ter sido decisivo na definição final da extensão do percurso e monumentalidade da obra. Évora. fosse no estudo de obras clássicas congéneres. o aqueduto de Água da Prata. reconstruindo o aqueduto que Resende acreditava ser de Sertorius. R. João III. a partir dos inícios da década de 1530. Lisboa. «para sempre estar coregido e bem rapayrado». o aqueduto terá sido um projeto acaloradamente defendido pelo humanista André de Resende. ancorado no conhecimento que trazia de Itália. ao trazer água em abundância à população. R. F. Lisboa. A direção da obra foi entregue ao então já muito experiente arquiteto régio Francisco de Arruda a quem. VITRÚVIO. cit. ascendia à categoria de «Pai da pátria». título com que a partir de então seria frequentemente nomeado50. 2010. foi recentemente comprovada por BILOU. I. p. 50 MOREIRA. S. RESENDE... Aqueduto de Água da Prata e Caixa de Água.. passando pela análise detalhada dos equipamentos de adução e reserva. pp.. A Évora de D. op. João II. ocorrida em 1495. A sobreposição ao antigo aqueduto romano. e medida a agoa que à cidade podia vir que era muita»46. Crónica de D. A Refundação do Aqueduto da Água da Prata. 352. p. A arquitetura do Renascimento no sul de Portugal. Colibri. 2006. 48 Todo o capítulo VIII do Tratado de Arquitetura de Vitrúvio é dedicado às questões da água.

ganhando expressão nas proximidades de Évora.8. o complexo sistema de contrafortes ou gigantes. cit. numa linguagem que se distancia dos trabalhos conhecidos deste arquiteto e obedecendo a um pronunciado apuramento clássico. 1944.. altura em que se festejou oficialmente a sua inauguração. nº 7/8. o aqueduto de Água da Prata foi. finalmente. Um conjunto de 45 notáveis da cidade entregou a quantia de 690 mil reais ao recebedor da obra. Figura 10. a sobreposição de vários registos de arcadas. com a chegada das primeiras águas ao chafariz erguido na Praça de Geraldo. Pelo contrário. ou pelo menos o estudo do traçado. Moreira atribui a autoria da Caixa de Água a Miguel de Arruda (sobrinho de Francisco) e o templete à parceria Miguel de Arruda-Nicolau Chanterene. Rua do Cano. Percorrendo quase 18 quilómetros entre a Herdade do Divor e o centro da cidade. Francisco de Arruda recebe nova encomenda régia: dirigir o aqueduto de Elvas. a partir de 1598.Luísa Trindade Apenas 6 anos depois. Francisco e do Rossio. pp. p. atingindo as quatro nos pontos de maior altura e. O que não lhe retira protagonismo. de novo. a conduta é em grande parte de alvenaria soterrada52. ano em que termina o aqueduto de Évora. até pela sua enorme extensão. o aqueduto da Amoreira ganha particular monumentalidade ao vencer o declive dos Vales de S. transformam a longa cortina num jogo formal de fortíssimo impacto no território. Évora. a primeira paragem nas obras dá-se logo em 1547. A. Todavia.. 53 R. em 1535. 1992. em conjunto. fecho do aqueduto. Com parte da tubagem a correr enterrada e parte à cota do terreno. O aqueduto e a água em Elvas. 52 Assinalada ao longo do percurso por  claraboias e respiradouros.  54 MORGADO. «O Aqueduto da Água da Prata». ao contrário do anterior e apesar da muito menor extensão (a captação fazia-se na Serra do Bispo a cerca de 7 quilómetros da cidade). cujas obras. o templete junto à igreja e Paço Real de São Francisco.. década de 1530. como a Arca de Água da Rua Nova. foram erguidos no coração da cidade alguns outros elementos do aqueduto. ESPANCA. se apoiava ao arco de triunfo romano ainda existente na Praça da cidade ou. decorriam desde 152954. aquela que verdadeiramente tinha financiado a obra51. Segundo este mesmo autor. perante o monarca e a grande nobreza da cidade. Câmara Municipal. de um despojamento dificilmente ultrapassável. Elvas. Aspetos que. As obras são retomadas entre 1571 e 1580 e. por falta de recursos financeiros. sobretudo no que toca à expressão urbanística conquistada no decorrer dos séculos seguintes. 361.. 89-90. T. obra ainda registada em fotografias antigas53. o desaparecido chafariz que. em função de três características essenciais: a linha ziguezagueante que descreve no seu trajeto. só terminando em 1622. o aqueduto era inaugurado. R. trama de que resulta a inconfundível imagem da Rua do Cano. adornado por leões de mármore. finalmente. quando a arcaria de volta perfeita foi sendo progressivamente apropriada pelo casario. Nesta altura estariam construídos os primeiros seis quilómetros. Revista Cidade de Évora. sobretudo entre a Quinta da Torralva e o Convento da Cartuxa. com a chegada da torrente ao Chafariz da Misericórdia. MOREIRA. Para além destes pontos de maior investimento. Fontes antigas. a edificação deste prolongarse-á por quase um século. op. Aqueduto de Água da Prata. essenciais na estabilidade que conferem à estrutura. a 28 de Março de 1537. troço enobrecido por pequenas torres que inequivocamente denunciam o traço de Francisco de Arruda. Em 1537. p. uma obra de carácter marcadamente utilitário. 51 378 .

55 379 . João V e o abastecimento de água a Lisboa. e depois de uma tentativa gorada de fazer elevar a água do Chafariz d’El Rei aos pontos mais altos de Lisboa. por outro. a necessidade de dar aguada aos muitos navios ancorados no Tejo. 58 D. p. numa procura de proximidade à vizinha Emerita Augusta. Indícios de planeamento urbano na Lisboa setecentista. da disponibilização da verba e da entrega dos trabalhos a João Fogaça. A Praça Nova de Elvas. p. trabalho realizado no âmbito do curso de mestrado em Arte. Além da Baixa. contribui com uma avultada quantia. «De Elvas a Olivença. em cujo fecho se construiria uma fonte nova. João V e o abastecimento de água a Lisboa. Património e Teoria do Restauro. entre 1513 e 1515. razão porque. é possível vislumbrar na renovação urbanística de Elvas –de que o aqueduto é apenas uma parte55– uma vontade de modernidade que é simultaneamente um desejo de classicismo. Aqueduto da Amoreira. a preocupação do monarca centra-se no Chafariz dos Cavalos cujas obras.. Veja-se a este propósito. desígnio a que a própria sobreposição de arcos poderia fazer referência56. Como no caso anterior de Évora. uma vez mais. Descrição da cidade de Lisboa. 2008. Damião de Góis. 60 D. com um espaçoso tanque. 1998. dados que conhecemos por um conjunto de cartas régias dirigidas ao Senado. CABEÇAS. 114 e pp. Monumentos. E não por acaso. das estimativas de custo pedidas. de novo caberia a André de Resende um papel relevante. p. Elvas. para terminar.. Lisboa. de novo. A pressão demográfica. século XVI-XVII. tornaram inadiável um investimento forte no campo da engenharia hidráulica57. p. 2). o caso de Lisboa. urbanismo e arquitectura. que as representações quinhentistas retratam e que Damião de Góis descreve.. considera da maior relevância para a cidade. cidade onde o forte crescimento registado no decorrer do século XV tornava impossível ignorar os malefícios da falta de água crónica. João II: datam de 1487 e respeitam à profunda remodelação do Chafariz d’El Rei. 49. Lisboa. vedor das obras da cidade. A obra é entregue à responsabilidade de Pero Vaz Cavaleiro. P. 13-14. Festas. IPPAR. 1988. p. O Renascimento antes de Vitrúvio». Em 1494. 90. 57 ROSSA. 56 PEREIRA. 28. devendo ser executadas de acordo com o projeto ou pintura que ele próprio apresentara ao monarca60. 59 Veja-se a representação incluída na Panorâmica de Lisboa da Biblioteca de Leyde. a D. Manuel. 2008 (texto policopiado). Já no reinado de D. Livros Horizonte. contrariamente ao que defende o município. W. por um lado. IHRU. existente pelo menos desde o século XIII. como «construção notável»59 (fig.A água nas cidades portuguesas entre os séculos XIV e XVI: a mudança de paradigma Figura 11. 113. Lisboa. Os primeiros esforços significativos devem-se. surge a primeira tentativa de construir um aqueduto para condução da água do Chafariz do Andaluz até ao Rossio. 66. Apesar dos esquissos feitos para a fonte do Andaluz. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi certamente com base na contribuição régia de 12 mil reais58 que se ergueu a estrutura de colunas e arcarias de mármore. Resta. em 1554. M.

Da Fábrica que falece à cidade de Lisboa. como de tecer entre os dois espaços continuidades formais. p. Se acreditarmos em Francisco de Holanda. o episódio revela-se particularmente interessante para o tema em estudo pela forma como integra este projeto do aqueduto e chafariz no âmbito mais vasto das reformas urbanísticas manuelinas para a capital. 51 e 77. Na realidade. a ideia é abandonada. Manuel. nesses anos definitivamente assumido como central. não seria concretizado. Livros Horizonte. Lisboa. João III terá equacionado a construção de uma estrutura que. Editorial Notícias. na Ribeira (1498).. Efetivamente. terminado o Hospital Real no Rossio (c. 95-96. p. pp. definidoras de outros tantos vínculos simbólicos. João V e o abastecimento de água a Lisboa. já avançada a edificação do Paço Régio (iniciado c. como bem salientou Helder Carita. a corte assistia no Paço a uma peça de Gil Vicente. 18. 1504). É justamente desse paradoxo que faz eco Francisco de Holanda ao considerar Lisboa como a «mayor e mais nobre cidade do Mundo». Projeto que.Luísa Trindade o projeto não chegou a ser concretizado61. morre de sede e não lhe dão agoa»64. op. 65 Ibídem. 64 HOLANDA. todavia. no caso do Rossio. dessa intenção ficou um desenho: aquele que ele próprio fez para a fonte do Rossio e que muito terá agradado ao monarca65. Em 1505. F. 1ª ed. de 1501)62 e concluída a frente de boticas. Fl. SENOS. as obras prolongar-se-iam por todo o reinado de D. Desenho para a fonte do Rossio. 114-115. Ligadas as duas «praças» pela rua Nova d’El Rei (c. 24-25. Mas porque os problemas de abastecimento de água não deixariam de aumentar nessa Lisboa transformada (e assumida) em capital política e comercial de um vasto império. O Paço da Ribeira. 2002. D. 1550?). Francisco de Holanda. Lisboa. pp. imagem com que encerramos esta breve incursão pelos caminhos da água na cidade. segundo o que este mesmo humanista deixou escrito na «Fábrica que falece à cidade de Lisboa». 1500). ao mesmo tempo que «. Razão porque. caso da obrigatoriedade de uniformizar as centenas de janelas dos novos pisos das boticas com as do Hospital Real63. 1571. em grande parte dirigido para o espaço balizado entre o Rossio e a Ribeira. dotando-o de um novo fontanário). uma vez mais. 63 CARITA. trazendo água da nascente da Água Livre ao Rossio. 61 62 380 . todavia. 1984.. que algumas evidências arqueológicas tornavam então ainda bem evidente.. D. Figura 12. H... recuperasse o trajeto do aqueduto romano de Olissipo. cit. não só de conferir uma renovada monumentalização e simetria (no caso da Ribeira aumentando dois pisos à extensa frente de boticas e completando o terceiro lado do terreiro com a Alfândega Nova. século XVI (c. este ano de 1513 marcava o início de um segundo forte investimento na cidade.. tratava-se agora. a ideia voltaria a ser equacionada no reinado seguinte. N. Ainda assim. Sem que as razões sejam conhecidas.