O QUE É A “DIALÉTICA”

A DIALÉTICA APLICADA AO ENSINO DE
GEOGRAFIA

Prof. Dr. Valter Machado da Fonseca

O marxismo está intimamente ligado a uma
filosofia e a um método. Esse método é o
materialismo
dialético
e
torna-se
fundamental entendê-lo, não só para
refutar as explicações sobre o mundo que
nos cerca, como também para formular
ações que conduzam a formas de luta
eficazes no sentido da emancipação da
classe trabalhadora.

O que é a teoria? É o conhecimento abstrato daquilo que queremos realizar. É necessário um método que não seja dogmático.REFLEXÃO PRIMEIRA O que é prática? Significa o ato de realizar. que pense a vida na sua mais constante fluidez. um método que leve em conta fatos e circunstâncias que nunca são os mesmos e que não separe a teoria da prática. . de transformar em realidade o que se pensa ou projeta.

generalizando e entrelaçando as relações entre as conquistas das ciências naturais e sociais.Ao contrário das ciências.  Qual é a relação entre a consciência humana e a realidade que nos rodeia?  Que lugar ocupa o homem no mundo? De que modo o vai conhecendo? Todas  estas questões constituem o fundamento da concepção de mundo. que focam a sua análise em um determinado campo.  de todo um sistema de representações e conceitos do mundo. a filosofia nasceu e continua sendo uma disciplina que busca dar respostas totalizantes acerca da realidade. . quer dizer. especificando o entendimento humano sobre o mundo e a origem de todas as coisas.

a realidade. Sempre nos vemos diante de respostas que assumem uma concepção materialista ou idealista. a ideia. A pergunta fundamental da filosofia apresenta-se sob variados aspectos. ou seja. ou a matéria. Diante da pergunta fundamental da Filosofia. que determina a nossa compreensão do mundo. se é o pensamento. os filósofos foram levados a ter duas posições distintas. . porém.O Problema Fundamental da Filosofia. é importante reconhecer sempre a maneira como se coloca a relação entre a matéria e a consciência.

. elevando-se a um estágio superior de entendimento. esse “Espírito” se reconhece em suas obras e adquire um maior conhecimento de si e do mundo. Para Hegel. Esse Espírito seria a razão. o que regeria o nosso conhecimento e a nossa razão seria a existência de um Espírito Universal que se exterioriza na natureza e na cultura. Ao transformar o universo. Foi com Georg Wilhelm Friedrich HEGEL (1770 a 1831) que a concepção dialética foi retomada. num patamar que resgatava o pensamento iraquiano. o logos e a partir do momento em que ele se move e opera no universo. ele o descobre e o transforma.Introdução ao estudo da Dialética.

reconhecendo-se e superando as formas anteriores. Hegel vê nela a condição de existência e transformação dos sujeitos. como Hegel também definia a dialética. Todas as vezes que o Espírito Absoluto opera no mundo. ele reflete a si mesmo. ou seja. Tal manifestação pressupõe a contradição como princípio que estabelece a relação entre o Espírito Absoluto e o Universo.A Dialética ou Ciência da Lógica. . seria o método pelo qual o Espírito Absoluto se reconheceria ao operar sobre o mundo. ao invés de entender a contradição como algo absurdo e destrutivo.

são as mudanças ocorridas no nível da realidade material que determinam as mudanças em nossas ideias.Foi com Karl MARX (1818-1883) e Friederich ENGELS (1820-1895) que a concepção dialética pôde superar a abordagem idealista do início do século XIX. Ao contrário. Marx e Engels concordavam com a observação de Hegel de que o trabalho era a mola que impulsionava o desenvolvimento e de que o pensamento e o universo estão em perpétua mudança. Criticavam ainda a unilateralidade da concepção hegeliana do trabalho. . pois Hegel dava importância em demasia ao trabalho intelectual e não considerava a significação do trabalho físico. invertendo sua análise de caráter idealista. Marx e Engels atribuíram à dialética proposta por Hegel uma interpretação materialista. material. mas discordavam de que as mudanças no campo das ideias seriam determinantes para a definição da realidade. para eles.

desenvolve uma atividade qualquer. participa de uma concepção de mundo. isto é. um artista. contribui assim para manter ou para modificar uma concepção de mundo. todo homem. é um “filósofo”.Para elucidar esta questão é importante recorrer a Antônio Gramsci (1979. . 7-8). Em suma. um homem de gosto. Não existe na atividade humana da qual se possa excluir toda intervenção intelectual. que afirma que. possui uma linha consciente de conduta moral. para promover novas maneiras de pensar (Grifos do original). ou seja. p. não se pode separar o homo faber do homo sapiens. fora de sua profissão.

ao longo de um processo histórico as leis que regem este movimento. por correlações de forças distintas. esses conflitos e contradições se agudizam. Na sociedade capitalista. em especial. retilínea e contínua. dinâmico. marcada por momentos diversificados. as leis da dialética. É preciso perceber os saltos.A sociedade é interpretada e analisada por Marx. . Engels como um organismo vivo. as descontinuidades e as rupturas que compõem. não obedecem a uma trajetória linear. Esse conjunto está em constante movimento. por conflitos e contradições. em seu conjunto.

também percorre os diversos modelos de escola. também estão submetidos às leis da dialética. consequentemente. por sua vez.. que. o surgimento de outro modelo de organização social.A compreensão do movimento da sociedade e das classes que a compõe é essencial para analisar a escola no interior dessa sociedade. Sem esta percepção torna-se inviável qualquer proposta que se proponha trabalhar no terreno da perspectiva da práxis transformadora. . Esse movimento que permeia a sociedade e a evolução de suas forças produtivas materiais. A agudização das contradições em determinado modelo de sociedade é que vai determinar o fim dessa sociedade e.

colocar-se do ponto de vista da dialética significa colocar-se no ponto de vista do movimento. da mudança. A primeira lei da dialética começa por constatar que “nada fica onde está.As Leis da Dialética Primeira Lei: a mudança dialética. Quando quisermos estudar as coisas segundo a dialética. nada permanece o que é”. iremos estudá-las nos seus movimentos. na sua mudança. . Quem diz dialética diz movimento. Por conseguinte. mudança.

mas enquanto movimentos. . Para ela. de se desenvolver. Nestas transformações. a dialética não considera as coisas na qualidade de objetos fixos. tudo está em condições de se transformar. Ao contrário da metafísica. dar a elas um sentido.Segunda Lei: a ação recíproca. uma direção. O encadeamento dos processos. acabados. o papel dos homens é o de acelerar as transformações.

resultado de um autodinamismo. uma velhice e terminam em um fim. . Isto é possível porque tudo é o resultado de um encadeamento de processos. Elas têm um começo. Mas quais são as leis do autodinamismo? A dialética ensina que todas as coisas não são eternas. gerará um novo começo. que. uma maturidade.Terceira Lei: a contradição. O desenvolvimento dos processos se dá num movimento “em espiral”. Vimos como a dialética considera as coisas como em perpétua mudança. por sua vez.

Afirmação. a burguesia cria sua própria negação. Esse movimento gera contradições e destas contradições advêm as mudanças. podemos observar que estas contradições seguem um movimento típico: a afirmação. a negação e a negação da negação. enquanto outra. Na sociedade capitalista existem duas classes antagônicas. a burguesia. Como a mudança dialética advém das contradições. que luta para manter a sociedade em seus fundamentos.Toda coisa é ao mesmo tempo ela própria e seu contrário. ora no sentido da afirmação. Uma. ora no sentido da negação. forças internas que movem-se. . o proletariado. Ao afirmar-se. Mas a burguesia não pode existir sem o proletariado. tende para a negação da classe burguesa. Em todas as coisas lutam duas forças contrárias. negação e negação da negação.

A unidade dos contrários. no mesmo momento. a afirmação e a negação coexistindo no mesmo ser. A isso chamamos a unidade dos contrários. ou seja. . É pela pesquisa do movimento de um objeto que podemos descobrir as suas contradições e as possibilidades de transformação. O estudo da dialética nos ensina que em tudo podemos encontrar uma composição de forças contrárias que se interrelacionam e possibilitam as variadas etapas no processo de mudanças que ocorre nas coisas.

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objeto com a imagem reflexa emitida pelo observador. Quanto maior for a concordância de identidade dos componentes estruturais do mundo. Por conseguinte.84-85) . Dimensão esta. Nossa estrutura cerebral trabalha a imagem refletora captada. (GOMES. É bom que se diga que este reflexo não é “mecânico” e perfeitamente idêntico à realidade objetiva captada pelos nossos órgãos sensoriais. associando a ela o já conhecido e reflete a imagem da realidade objetiva em nova dimensão. enriquecida pelo acervo de conhecimentos acumulados em nossa estrutura mental e respectivas interrelações do objeto refletor. só é possível refletir o que existe objetivamente. p. maior será a dimensão de cientificidade exaurida do processo de aprendizagem. 1981.REFLEXÃO SEGUNDA Para o materialismo dialético o conhecimento é visto como reflexo subjetivo do mundo objetivo.

enquanto canal de transmissão do conhecimento científico acaba também por reproduzir a mesma lógica da reprodução e expansão do capital. parcelas importantes de setores de resistência no interior das escolas reclamam por outras concepções. .A ciência no século XXI tem seguido a lógica do modelo capitalista de produção. Seguindo esta tendência e cenário. A educação. Assim. outras formas de se fazer ciência. a escola tradicional transforma-se na correia de transmissão dos interesses do atual modelo econômico de produção.

É por esses motivos que as proposições marxianas são tão temidas pelos donos dos meios de produção: os donos do capital. transformando-a. que podem influenciar os sujeitos em formação.A percepção da unidade teoria/prática Os estudos de Marx preocupam sobremaneira os donos dos meios de produção pelo fato de não serem apenas proposições teóricas. . de analisar as evidências. de se posicionarem sobre os problemas da sociedade. sobretudo. por serem acepções embasadas na prática. agindo sobre ela. mas. em relação à sua forma de perceber os fatos.

Neste sentido. os princípios teóricos devem estar indissoluvelmente ligados à ação prática. É preciso o exercício constante de pensar-agir-repensar-agir. confronto-a com a prática. E para que essa teoria seja. os cursos de formação devem se embasar na experiência sensível de percorrer as bases teóricas indo para a ação prática e voltando novamente ao reexame da teoria. de fato. sobre as atitudes e sobre os novos posicionamentos do sujeito perante a vida e perante a sociedade. Elas devem fazer parte de seu projeto de mundo. de fato.Para que os professores-formadores possam influenciar. é extremamente necessário que eles próprios possuam a prática transformadora da realidade social. . Para isso. eficaz o professor-educador deve vivenciá-la em suas experiências sociais.

1990.“Os educadores devem indagar-se para quem e em benefício de quem estão trabalhando. entre os quais até mesmo o de perder seus empregos. Os educadores que fazem seu trabalho de maneira não crítica. melhor compreenderão que seu papel como educadores exige que corram riscos. não captaram ainda a natureza política da educação. p.115) . Quanto mais conscientes e comprometidos estejam.” (FREIRE. apenas para defender seus empregos.

[.. A prática tem que valer como compreensão teórica. Dessa forma.... crítica.] A teoria e a prática pedagógicas devem ser trabalhadas simultaneamente constituindo uma unidade indissolúvel. criativa e transformadora.. ela deve ser reflexiva. 141). indagações da prática [. . a teoria responde às inquietações. 2009..Para arrematar esta aula vale ressaltar a contribuição de (VEIGA apud Gasparin.] A prática é a própria ação guiada e mediada pela teoria. nesse sentido. [.] a prática pedagógica é teórico-prática e. p.

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