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CARLOS MARÍA CÁRCOVA

Assim, viajar em um ônibus ou em um trem, diariamente, para cumprir rotinas laborais ou estudantis ou de qualquer outro tipo não é percebido como a reiterada celebração de um contra- to de transporte. Ou, em todo caso, não resultam imediatamente claros os efeitos jurídicos supostos na celebração desse contra- to (responsabilidades do transportador etc.).

Comprar cigarros ou jornais; presentear alguém com algum objeto, prestar um exame, abastecer o tanque do automóvel. comer um sanduíche em um bar, dar voltas em uma carrossel. atropelar uma pessoa, mandar costurar um traje. não pagar o serviço de luz elétrica, chegar tarde a uma audiência, não pres- tar auxílio a uma pessoa em grave risco etc são todas ações ou omissões deonticamente determinadas. Apesar disso, tal circuns- tãncia não é assumida pelos sujeitos que as realizam.

..

Os exemplos podem tornar-se cada vez mais complexos e cruciais. Geralmente, os cônjuges adquirem pleno sentido dos alcances do matrimônio que celebraram, quando uma crise os põe frente à possibilidade da separação legal ou do divórcio.

Esses exemplos podem referir-se a condutas menos domés- ticas como o exercicio do sufrágio, as formas da participação cidadã, o controle dos atos de governo, o direito de peticionar. as garantias constitucionais. Outra vez registraremos uma bre- cha profunda entre a organizão e o funcionamento das formas institucionais e a efetiva compreeno que os indivíduos pos- suem dessa organização e de tal funcionamento que em tão gran- de medida os influencia e determina.

Existe, pois, uma opacidade do jurídico. O direito, que atua omo uma lógica da vida social, como um livreto, como uma partitura, paradoxalmente, não é conhecido ou não é compreen- dido pelos atores em cena. Eles cumprem certos rituais, imitam nlHumas condutas, reproduzem certos gestos, com escassa ou nula percepção de seus significados e alcances.

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Inlerméclio do direito suas vontades adquirem ullra- procluztndo conseqüências ainda depois de sua rnor-

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Organiza também e dá sentido a aspectos relativos à consti- tuição biológica do grupo. Define a estrutura familiar, fixa o esta- tuto legal da prole. permite certos tipos de uniões e proíbe ou- tras. Esta multiplicidade de funções que atravessam a vida social e penetram os menores resquícios da vida individual não é co- nhecida pelos sujeitos assim determinados. ou em seu caso não

são compreendidas. Tal efeito de desconhecimento varia por certo de país para país e de indivíduo para indivíduo. segundo o grau de desenvol- vimento social, cultural, político ou económico dos primeiros e o lugar que os segundos ocupam na estrutura social. Entretanto, além destas fundamentais determinações. dito efeito de desco-

nhecimento subsiste.

Grandes contigentes sociais padecem uma situação de pos- lergação. de pobreza ou de atraso que produz marginalidade e

anornia. Isso implica.

entre outras coisas, que a mensagem da

ordem jurídica estatal não chega - materialmente - à periferia da

estrutura social. Pensemos neste tipo de fenômeno como uma das fontes do "desconhecimento".

No outro extremo da realidade, essa fonte do desconheci- mento resultaria da complexidade dos processos simbólicos que atuam nas sociedades altamente desenvolvidas e conseqüente-

mente

com um também alto nível de integração. Com efeito. a

interação dos.homens é ali. cada dia. mais sofisticada. Remete a mecanismos de comunicação simbólica e a processos de alto grau de abstração, assentados em práticas materiais especial- mente tecnificadas. Boa parte dessas práticas é executada col i- dianamente, porque os homens estão mecanicamente treinados para isso. Mas assim como muitas vezes eles ignoram o conteú do e a modalidade dos fenômenos científicos e tecnolôgicos que são o sustento dos instrumentos que manipulam, muitas vezes ignoram ou não percebem as razões que outorgam sentido a cs

sas práticas na estrutura social. eis aqui colocado. sumária e esquemaLicamenle. um prohlc

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Apesar disso,

nem os juristas dogmáticos, nem os jusfilóso-

fos se encarregam dele.

Pelo contrário, o direito das sociedades contemporâneas é presumidamente conhecido por todos. São inescusáveis o erro ou a ignorância. Os homens são livres e iguais ante a lei e, con- seqüentemente, estão igualmente capacitados para a celebração de qualquer ato jurídico.

Todos compreendemos, principalmente os juristas, que es- tes pressupostos - essenciais à vida do direito - não constituem senão um conjunto de ficções.

Que razão demanda a utilização dessas e outras ficções em relação ao funcionamento da ordem jurídica?

Que obstáculos epistemológicos impedem que tais fenõme- nos sejam tematizados na teoria jurídica?

Que circunstâncias permitem que os homens possam atuar em seus papéis sociais, sem perceber acabadamente o sentido dos mesmos?

Estas e muitas outras perguntas similares cabe formularmos em atenção ao tema que nos ocupa. Nos parágrafos seguintes, tentaremos a análise de certos "lugares", a partir dos quais se poderiam formular algumas respostas. Eles não são necessaria- mente consistentes, o que significa que a aceitação de uma ordem determinada de explicações poderia, eventualmente, excluir ou- tras. Contudo, parece necessário correr esse risco, antes de incor- rer em novos reducionismos. Trata-se, claro está, de "lugares pro- blemâticos". Mas, como dizia o recentemente desaparecido K. Fopper. o conhecimento não coma com percepções, observa- ções ou confirmações, mas com anomalias e com problemas.

O problema, vamos formulá-to agora em forma elementar e detalhada, consiste em que os homens, sujeitos de direito, di- Ias que devem adequar suas condutas à lei, desconhecem a lei e mio a compreendem. Isto é, desconhecem o estatuto jurídico dos .u os que realizam ou não percebem com exatidão ou não assu- IlH 'll1 os deilos Berados por tais atos ou têm visão confusa (' /('./>]l<'iloele uns ou eleoutros. São formas dist inl<1Sdcst c Icnómc-

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de diversa maneira segundo as características de cada formação histórico-social e, obviamente, das condições concretas, sociais e pessoais, de cada indivíduo ou conjunto de indivíduos.

  • 2. O DESCONHECIMENTO COMO UM SUBPRODUTO DA MARGlNALIDADE E DA ANOMIA

2. I. A Marginalidade

Tal como assinalamos em parágrafos anteriores, a margina- lidade e a anomia são causas imediatas e quase óbvias do efeito de desconhecimento que temos caracterizado.

Enormes contingentes de indivíduos, para vergonha das so- ciedades que integram, vivem atualmente em condições suburna- nas. Esta situação, que, na década passada, oferecia um panora- !TIaalarmante, agravou-se ainda mais como resultado deletério da chamada globalização capitalista em escala mundial, com sua se- qüela de aplicação uniforme de políticas de ajuste, inspiradas em concepções neoconservadoras. Seus resultados são evidentes,

Nos Estados Unidos, o desenho econômico imposto por Re- agan a partir de 1980 comprometeu ostensivamente a suprema- cia internacional desse país, em função das grandes deteriora- ções que causou ao sistema produtivo a chamada "revolução

conservadora". A dívida pública alcançou a cifra de US$ 4 tri-

lhóes. o que equivale a 80% do produto interno bruto. O

déficit

do orçamento' federal chega a 1 bilhão de dólares por dia, isto é,

350 bilhões de dólares ao ano. Os avais e garantias do governo, outorgados por diversos empreendimentos federais, chegam a pouco menos de 6 trilhões de lares e parte considerável desse valor deverá ser gasta pelo orçamento potico, devido às falên- cias (quebras) empresariais.

O índice de pobreza abarca 14% da população. Paradoxal mente, o crescimento da pobreza se produziu no auge do esplcn dor das "reaganornics". quando a economia mostrava cresmc I I tos consideráveis e provocava a admiração de muitos economls tas do ocidente, Esse êxito fugaz acentuou a regressividade na elll Iribuição de renda, com uma queda do salário de 9% durante os porlodos f{eRgtln-Bush,as passo que cresciam exponencíalrncntv .lI; .\llvlcl"clcs cspeclIlallv<1s(' <:;<<11cflclência industrial.

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Disse Lester Thurow que a família média norte-americana nunca poupou tão pouco como a partir de 1980; o investimento industrial foi menor que o da década anterior, enquanto o cor- respondente à infra-estrutura pública diminuiu à metade, sendo a rubrica "educação" a mais afetada.

Paul Samuelson afirmou que a direita republicana tornou-se uma verdadeira ameaça para os direitos de um grande número de norte-americanos que não compartilham as conviões dos "fundamentalistas do mercado".

Para Robert Reich, que atualmente integra o gabinete de Bill Clinton, a vantagem comparativa do Japão ou da Alemanha em relão aos Estados Unidos consiste no fato de aquelas nões exercitarem a solidariedade interna; e acrescenta textualmente:

"Os Estados Unidos estão criando uma nação de terceiro mundo dentro de suas próprias fronteiras (30.000.000 de pessoas) que cresce a um ritmo mais vertiginoso do que a dívida nacional. Ao mesmo tempo, os poucos beneficiários do sistema precisam se esconder dentro de comunidades 'cercadas' e a classe média se

apequena

Trata-se de duas economias só tangencialmente co-

... nectadas - uma que reside nas torres das corpo rações e outra que habita as ruas. O desafio que nos aguarda - agrega - não é o da competitividade, é o de manter uma sociedade coerente"!".

As crises que assolam a América Latina constituem um tes- temunho por demais conhecido, nem por isso menos dramático. Descrevê-Ias seria seguramente super-redundante. Apesar disso, parece útil transcrever as opiniões que expressa Abraham Lo- wenthal em ensaio publicado na influente revista especializada Foreing Affaírs'" sobre o subcontinente e sua comprometida es- tabilidade potico-econõmica

Disse o Diretor do Centro para Estudos Internacionais da Universidade da Califórnia do Sul:

"É difícil, se não impossível, que os governos (da Amé- rica Latina) mantenham o apoio popular para reformas que enriquecem uns poucos privilegiados sem brindar promes- S(1S críveis ele prosperielaele...

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"A longa queela secular ela Argentina parece haver-se

detido. ainda que a um

enorme custo para miles de po-

bres e ela classe média. Porém, uma moeda muito sobreva-

lorizada. uma balança comercial que piora drasticamente e sinais de pressões inflacionárias provocam vidas sobre os avanços realizados ...

"Para os pobres da América Latiria. a elécada de 90 é literalmente o tempo do cólera e também de tubercu- lose, malária e outras enfermidades infecciosas. Milhões de meninos vagam pelas ruas pedindo esmolas. Muitos se voltam ao crime insignificante ou ao tráfico de drogas para sobreviver. Aqueles que são afortunados e podem terminar estudos secundários ou universitários logo se defrontam com o fato de que não há empregos decentes disponíveis

...

"

E acrescenta o investigador citado:

"Em muitos países da América Latina, a questão social alcançou dimensões críticas. A violência urbana e rural está crescendo e, com freqüência, é brutalmente reprimida de forma que determina mais violência.

"A penetrante queda social reflete-se em práticas hor- ríveis como seestrar para pedir resgate e a venda ou assassinato de crianças. Estas sinistras realidades refle-

tem - e por sua vez alimentam - o alto grau de frustração

e alienação

palpável em

mais penosamente evidente no Peru, mas muitos países da América Latina. A emigra-

ção floresce, inclusive em países como o Brasil, onde não

havia ocorrido antes; movimentos insurgentes e milena- ristas estão ganhanelo força, bem como seitas religiosas evanlicas. Todas estas condições fazem a instabilidade e não o progresso firme e seguro."

Diante dessas situões, instala-se hoje a pergunta acer-

ca do papel e da "disponibilidade"

do direito por parte dos

cidadãos. Para uma estratégia potica e econômica que d ua-

liza. que desintegra, que dissolve nculos, que expulsa par

fora

do sistema centenas de milhões de almas, importa, ccr-

tarnente. privá-Ias de direito. Enquanto os cidadãos carecem

ele acocs concretas

em defesa de sua condição de vida. ele

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CARLQS MARiA CÁRCOVA

t'\ anomia: ordenamentos no conflito e crise do monismo

Por outra parte, a opacidade do jurídico se alimenta tarn- /)(~11lde variadas formas de anomia. Como é sabido, os sociólo-

~!OS descrevem dois tipos de situões anômicas: as que resul- 1,1/11 da inexistência de normas, por um lado, e as que são conse-

q(iência, por outro, da existência de normas ou ordenamentos ( 011/raditórios. A esta última situação logo aludiremos.

Até há poucos anos, este problema era escassamente visuali- ,1(10 Como conseência do predomínio acrÍtico no campo do

direito, de teorias que sustentavam um monismo normativista,

.sCHundoo qual o direito estatal de natureza heterônoma era o únlco direito existente.

Outras correntes, como a do "pluralismo jurídico" _ que tem suas origens nas investigações sociológicas de E. Ehrlich, no prin-

c (pio do século, e de outros estudiosos - desenvolvem_se atual-

mente com renovadas problemáticas na América Latina e parti- ( lllélrmente no Brasil. A corrente da denominada hermenêutica

nllcrnativa(J) ou do movimento do "direito alternativo" e as "teo-

IlnH críticas do direito" terminaram por demolir essa visão reduti-

vista. esclerosada e ideológica do direito (o já velho Direito for- 111;1se1 desmancha no arl! - diz Eros Grau)('!).

Elas tamm conseguiram pôr em crise, ao mesmo tempo, vlsúes tradicionais acerca das concepções teóricas, da natureza cIns plicas Profissionais, dos modos de Produção do conheci-

111('111(pr 0 áti