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14 a 27 de Março de 2016 | Nº 104 | Ano IV Director: José

14 a 27 de Março de 2016 | Nº 104 | Ano IV

Director: José Luís Mendonça

• Kz 50,00

ARTES PÁG.11-12 III TRIENAL DE LUANDA AFRA SOUND STARS A SUBLIMAÇÃO DA KILAPANGA PÁG.3 ECODE
ARTES
PÁG.11-12
III TRIENAL DE LUANDA
AFRA SOUND
STARS
A SUBLIMAÇÃO
DA KILAPANGA
PÁG.3
ECODE ANGOLA
LÚCIOLARA
NÃOMORRE!

2 | ARTE POÉTICA

14 a 27 de Março de 2016

| Cultura

2 | ARTE POÉTICA 14 a 27 de Março de 2016 | Cultura

Cultura | 14 a 27 de Março de 2016

ECO DE ANGOLA | 3

LÚCIO LARA Mãos armadas braços d'Angola Vivas vitórias sim, parto "menor" Ideologias, ruelas passeios
LÚCIO LARA
Mãos armadas braços d'Angola
Vivas vitórias sim, parto "menor"
Ideologias, ruelas passeios sem rumo
Rostos serenos olhos nos olhos
Lúcio Lara está vivo!
Juntos caindo cidade baixa
Prédios, becos, cárceres privados
Cães de raça dentes ferozes
Encruzilhada vida e morte
Lúcio Lara morreu?
Nervos cruzados esperançosos
Física presença se impondo
Espírito alto sem asas falando
Sim, sou eu!
Dúvida certeza, lágrima rolando
Furiosos caminhos trilhados
Factos na história revelados
(Onde tínhamos o microfone?'
De tão verdade não foi gravado)
Mães cruzadas de fome
Dentes rangendo de ternura
Sangue vivo nas veias corre
Sim, este parto é "maior"
Lúcio Lara não morre!
Luanda, 2/Março/16
F. Tchikondo
F.Tchikondo nasceu no Kuito-Bié, em 1951. Mestre em Ciências Ju-
rídico-conómicas, escreve desde muito cedo. Está editada e pronta pa-
ra lançamento, pela União dos Escritores Angolanos, a sua primeira
obra literária intitulada “O semeador de pedrinhas e outros contos”.
Participou da antologia de contos “Pássaros de asas abertas”, pro-
duzida pela União dos Escritores Angolanos e lançada em Fevereiro úl-
timo, em Portugal, que homenageia os 40 anos da independência na-
cional.
HISTÓRICO COMBATENTE
Foi com profundo senti-
mento de pesar que o co-
lectivo dos trabalhadores
do Ministério da Cultura
tomou conhecimento da
morte do nacionalista an-
golano Lúcio Rodrigo Leite
Barreto de Lara, ocorrido
no dia 27 de Fevereiro, em
Luanda, vítima de doença.
Combatente pela liber-
dade do povo angolano,
Lúcio Lara deixa a sua mar-
ca singular na história con-
temporânea angolana pela
sua participação activa e
consequente no processo
de libertação de Angola do
jugo colonial que culmina
com a proclamação da in-
dependência nacional a 11
de Novembro de 1975.
Lutador incansável da
causa angolana, Lúcio Lara
tornou-se um histórico
combatente que deixa um
legado na sociedade e, atra-
vés da Associação Tchiweka
de que foi patrono, deixa um
exemplo que deverá ser se-
guido pelas novas gerações
para a construção de uma
sociedade harmoniosa, una
e fraterna, ideais que sem-
pre nortearam o MPLA.
Nesta hora de dor e de
luto, o colectivo de Traba-
lhadores e a Direcção do
Ministério da Cultura en-
dereçam a Família enluta-
da os mais profundos sen-
timentos de pesar.
Gabinete da Ministra da
Cultura em Luanda, aos 29 de
Fevereiro de 2016
Na Ausência da Ministra
Cornélio Caley

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| LETRAS

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Festival “Correntes d’ Escrita” NA PÓVOA DE VARZIM SE FALOU O PORTUGUÊS BATUCADO DE ANGOLA

NA PÓVOA DE VARZIM SE FALOU O PORTUGUÊS BATUCADO DE ANGOLA Uma sessão das Correntes d'

Uma sessão das Correntes d' Escritas com Carmo Neto

JOSÉLUÍSMENDONÇA

DE UM MONGE QUE FOI A BANHOS NO MAR DA PÓVOA

Curou-te o mar do mal que padecias Débil osso que tinhas enfermado

À

Que doente que eras quase te esquecias. Mas nesse dia à noite em tua cama Sentiste um mal-estar tão incomum

E perguntaste a tantos e nenhum

abadia voltaste tão sarado

Te disse que era doença de quem ama.

O

mar também espera recompensa

E

nem um padre-nosso tu rezaste

Agora ora infeliz porque ditaste Ingénuo a tua própria sentença.

Na praia olhaste os olhos de uma dama

E olvidar não pudeste essa tricana.

Com este poema de Carlos Pessanha, jovem poeta da Póvoa de Varzim, vencedor do Prémio Literário Funda- ção Dr. Luís Rainha – Corren- tes d’Escritas, abrimos esta crónica do maior festival lite- rário português, e da presen- ça de escritores e livros de Angola nesse encontro.

DENTRO DE UM LIVRO HABITAM OUTROS LIVROS Ia a tarde do dia 27 de Fe- vereiro adormecendo sob os panos frios do Inverno, perto de um mar revoltado, ali na Póvoa de Varzim, quando o auditório do Cine-Teatro Garrett (500 lugares) se tor- nou excessivamente minús-

culo para tão grande massa de poveiros que ali afluíram para ouvir os ilustres mes- tres da pena dizer as coisas sublimes que só eles sabem dizer. Estava a encerrar o 17º festival literário Correntes d’ Escrita que, aberto a 23 de Fevereiro, contou, este ano, com a presença de cinco es- critores angolanos: Manuel Rui, Carmo Neto, Lopito Fei- jóo, António Quino e este que vos escreve. Mas foi em plena manhã chuvosa desse mesmo dia que a Póvoa de Varzim escu- tou, pela voz de Carmo Neto, o sotaque do português ba- tucado que só Angola sabe dizer, a sua tentativa de res- ponder à pergunta “Quantos livros tem um livro?”, apon- tando dois caminhos para a busca do sentido do texto li- terário: “primeiro, o que está escrito; segundo, quando en- contramos a verdade escon- dida, o livro do leitor”. E afi- nal um livro dá origem a “centenas de livros dos leito- res, sendo que, em comum,

têm apenas o facto de todos esses leitores terem lido o mesmo e único livro”. Assim, “dentro de um livro habitam outros livros”, concluiu Car- mo Neto ao dizer que a Lite- ratura abre-se a diversas perspectivas. Na mesa nº 10 do Correntes d’Escritas no Cine-Teatro Garrett, estavam ainda João Paulo Sousa, Ra- quel Patriarca, Cristina Vala- das e Vergílio Alberto Vieira, com a moderação do jorna- lista João Gobern.

PÁSSAROS DE ASAS ABERTAS Angola foi a grande prota- gonista da noite de 25 de Fe- vereiro, no Hotel Axis Vermar. Pássaros de Asas Abertas e ReuniVersos Doutrinários fo- ram as duas obras lançadas sob a chancela da União de Es- critores Angolanos. Pássaros de Asas Abertas é uma antolo- gia de contos de 37 autores nacionais, cuja edição da res- ponsabilidade da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e da União de Escrito- res Angolanos e está integra- da nas comemorações do 40º aniversário da independência de Angola. Margarida Gil dos Reis e António Quino foram os responsáveis pela seleção e organização da obra. Marga- rida Gil dos Reis afirmou que este trabalho comprova a ri- queza da literatura angolana e deseja que, através deste li- vro, os leitores conheçam no-

que, através deste li- vro, os leitores conheçam no- Manuel Rui vos escritores, escolham os que

Manuel Rui

vos escritores, escolham os que mais gostam e queiram ler mais coisas escritas por eles. António Quino confiden- ciou que o seu sonho é que os portugueses conheçam me- lhor os angolanos pelos olhos da sua literatura. Nesta anto- logia, poder-se-ão encontrar alguns dos mais expressivos nomes da literatura angolana contemporânea. ReuniVersos Doutrinários condensa 35 anos de publi- cação de poesia de Lopito Feijóo e trata-se de uma es- colha do autor, onde os leito- res poderão encontrar os melhores e mais distintos momentos do labor oficinal do poeta.

A SUBJETIVIDADE DO TEMPO EM QUE SE ESCREVE “Escrevo o futuro ou es- crevo para o futuro” foi o te- ma proposto na Mesa 4 do Correntes d’Escritas na tar- de de quinta-feira, dia 25, no Cine-Teatro Garrett, colocan- do ao mesmo nível de refle- xão Fernando Perdigão, José Manuel Fajardo, J.A.S. Lopito Feijóo K., Matilde Campilho, Tiago Salazar, com a modera- ção de Henrique Cayatte. J.A.S. Lopito Feijóo K. con- siderou o tema da mesa um “pouco lunático”, mas como na sua terra as pessoas o costumam caracterizar co- mo lunático, agradeceu o convite e a integração neste debate. J.A.S. Lopito Feijóo K.

caracterizar co- mo lunático, agradeceu o convite e a integração neste debate. J.A.S. Lopito Feijóo K.

Lopito Feijoó

Cultura |

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LETRAS

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considera-se “um aprendiz de poeta que gosta de contar histórias”. J.A.S. Lopito Feijóo K. abordou ainda a questão da falta de compreensão dos escritores no seu tempo, al- guns só são entendidos no futuro: “temos muitos escri- tores que nunca foram en- tendidos e, mesmo aqueles que são entendidos hoje, da- qui a 50 anos, os vindouros vão ler as suas obras de outra maneira”. Está claro que “es- crever para o futuro é muito complicado quando tudo o que vivemos é o presente. O passado lá vai, quando muito podemos fazer uma visita ao passado, e em razão das nos- sas experiências, escrever no presente para sermos enten- didos no futuro”.

ESCREVO E DEPOIS Foi às 17h30 do dia 26, no Cine-Teatro Garrett, e mais umavez,comsalacheia.Mário Zambujal, Mayra Santos-Fe- bres, Álvaro Magalhães e Ma- nuel Rui foram os que falaram sobre o “depois da escrita” co- mo o tempo da leitura, o futuro, que pode ser mais próximo ou maislongínquo. Manuel Rui transmitiu a ideia que depois de escrever fica com a impressão do in- completo, tendo de voltar a escrever com “palavras que não existem”. Uma ideia transmitida através de um texto poético que mereceu as palmas entusiastas do públi- co. “Quando escrevo, o texto é uma invenção, uma necessi- dade de falar comigo no silên- cio, na antecipação de tentar que a minha escrita vá invadir o silêncio dos outros”…

O SILÊNCIO COMO PATRIMÓNIO IMATE- RIAL DA HUMANIDADE A Conferência de abertura do Encontro Correntes d’Es- critas apresentou na tarde

de quarta-feira, 24, no Cine- Teatro Garrett, a reflexão de José Tolentino Mendonça sobre “O Silêncio dos Li- vros”. Perante uma plateia muito preenchida, como é habitual neste evento, o poeta, sacerdote e professor defendeu o silêncio e o refú- gio da leitura como algo fun- damental para recuperar o nosso lado mais humano, numa sociedade que vive vorazmente a hiper-estimu- lação dos sentidos. Esta vi- vência acaba por nos tornar “analfabetos emocionais”, frisou o orador, citando In- gmar Bergman. José Tolenti- no Mendonça acabou por confessar que um dos seus sonhos é “ver, um dia, o si- lêncio ser declarado Patri- mónio Imaterial da Huma- nidade”, afinal, acrescentou, “o silêncio é uma forma de expressão extraordinária”.

PRÉMIO CASINO DA PÓVOA O júri do Prémio Casino da Póvoa elegeu a obra de Javier Cercas como vencedora do Prémio Literário no valor de 20 mil euros, atribuído no 17º Correntes d'Escritas. Na declaração de voto pode ler- se que o júri valorizou os se- guintes aspetos: "a atenção às grandes questões da so- ciedade contemporânea"; "a opção por uma construção narrativa atenta à polifonia de vozes e aos seus modos distintos de convocação de memória"; "a componente de romance de iniciação, quer individual quer coleti- vamente considerado na Es- panha dos primeiros anos de Democracia". Javier Cercas nasceu em 1962, em Ibaher- nando, Cáceres, e publicara já vários livros.

em Ibaher- nando, Cáceres, e publicara já vários livros. Teatro Garrett a rebentar pelas costuras Poeta

Teatro Garrett a rebentar pelas costuras

já vários livros. Teatro Garrett a rebentar pelas costuras Poeta da Povoa, Carlos Pessanha Vereador da

Poeta da Povoa, Carlos Pessanha

a rebentar pelas costuras Poeta da Povoa, Carlos Pessanha Vereador da Cultura, Luís Diamantino Manuela Ribeiro

Vereador da Cultura, Luís Diamantino

Povoa, Carlos Pessanha Vereador da Cultura, Luís Diamantino Manuela Ribeiro ESTÓRIAS DE SONHO UM CONJUNTO

Manuela Ribeiro

ESTÓRIAS DE SONHO

UM CONJUNTO

Bárbara Mesquita

Bárbara Mesquita

E LIBERDADE

DE CUMPLICIDADES

A União dos Escritores An-

“Um conjunto de cumpli-

golanos (UEA) apresentou dia 2 em Lisboa, no auditório Armando Guebuza da Uni- versidade Lusófona, a anto-

cidades”: com estas pala- vras, Manuela Ribeiro, que já anda há 17 anos a trabalhar para as Correntes d’Escritas,

de Varzim e vereador da Cul-

logia de contos intitulada “Pássaros de Asas Abertas”, integrada nas comemora- ções do 40.º aniversário da

sentação, depois do lança-

sintetizou a alma deste pro- jecto proposto pelo vice-pre- sidente da Câmara de Póvoa

Independência de Angola.

tura, Luís Diamantino:

Com este segunda apre-

mento no dia 22 de Fevereiro

“O projecto das Correntes d’Escritas surgiu quando eu

assumo o pelouro da Cultura

no Correntes d’Escrita, na

da Câmara Municipal. Sendo

Póvoa de Varzim, a UEA con-

eu professor de Literatura

tinua o seu trabalho de divul- gar e internacionalizar a lite-

Portuguesa, entendia que era necessário, já quando estava

ratura angolana, como frisou

na

escola a leccionar, fazer-se

na ocasião o secretário-ge-

na Póvoa um encontro que

tas que começaram com 30

ral, Carmo Neto, ladeado pe- lo representante da reitoria da Universidade Lusófona, Esmeraldo de Azevedo, e pe-

reunisse vários escritores e surgiu a hipótese, ao falar com um amigo meu, de um amigo meu que andava por aí

escritores, num espaço que tinha 70 lugares, já ultrapas- sou os 600 lugares.” Destacou ainda o verea-

la co-autora da antologia, Margarida Reis.

conhecia o Luís Sepúlveda e conhecia a Semana Negra,

e

dor da Cultura da Póvoa de Varzim o seguinte: “Dizia ou-

A 2 de Março, a tradutora e

em Gijón, (soube que a Sema-

tro dia um escritor que isto

organizadora alemã Barbara

na

Negra já acabou) e eu pen-

das Correntes d’Escrita é um

Mesquita e a editora Ulrike Asche-Zeit apresentaram, no Goethe Institut, em Lisboa a antologia de literatura ango-

sei que seria uma óptima oportunidade de fazermos essa ponte, e esse contacto com Gijón. O Luís Sepúlveda

milagre. O grande segredo das Correntes d’Escrita é que não há aqui estrelas. A única estrela que queremos que

lana Angola Entdecken! [Des-

e

outros escritores vieram cá

ilumine sempre as CE é o LI-

cobrir Angola!]. Esta obra an-

e

esse intercâmbio foi-se

VRO. O Walter Hugo Mãe diz

tológica já foi lançada (2015) nas cidades alemães de Muni- que e Hamburgo.

alargando a outros pontos e outros escritores e neste mo- mento as Correntes d’Escri-

que a Póvoa de Varzim, em Fevereiro, é a Frankfurt de Portugal, porque a Cultura

também tem a sua parte na Economia e é importante pa- ra a região, para

também tem a sua parte na Economia e é importante pa- ra a região, para o país e tam- bém para os países que inte- ragem conosco, como é o ca- so de Angola, Moçambique, Brasil, temos aqui também escritores da Colômbia, Por- to Rico, do México, de Cuba, etc. Temos aqui agentes lite- rários, tradutores, editores, jornalistas e não podemos esquecer um elemento mui- to importante que são os lei- tores que enchem as salas, sã eles que dão alma ao livro.”

Escritores angolanos Zetho G., Lopito F., Carmo N. e A. Quino com Margarida R.

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| LETRAS

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HISTÓRIA DOS MOVIMENTOS LITERÁRIOS EM ANGOLA

ANDARILHO CAÓTICO?

HELDER SIMBAD

Nesta narrativa, que trata

o tema dos Movimentos Lite-

rários, o que temos de infor- mação será sempre uma gota no oceano, na medida em que nos apresentamos na condição de narrador hete- rodiegético comfocalização externa. Não sendo omnis- cientes, deixaremos os leito- res preencherem as diversas lacunas que eventualmente

leito- res preencherem as diversas lacunas que eventualmente Avô Ngola poderemos deixar. O tema que tem

Avô Ngola

poderemos deixar. O tema que tem a ver com os Movimentos Literários in- sere-se no âmbito de um processo natural, o qual de- signamos por Evolução Lite- rária. O lexema Evolução, do latim evolutio, remete-nos para termos como progres- so, mudança, transformação

e etc. Neste quadro dinâmico

de transformações no cam- pus literário, provocado ge- ralmente pelos diferentes contextos históricos, surgem os chamados Movimentos Literários que, por sua vez, quando bem sucedidos, ao provocarem alterações no sistema semiótico literário, acabam por designar um pe- ríodo. Assim sucedeu com os

maiores movimentos da his- toriografia literária, a citar:

Maneirismo, Barroco, Neo-

classicismo,

Romantismo,Realismo, Sim- bolismo, Surrealismo etc. Do ‘‘Grande Dicionário da Língua Portuguesa’’ de Cân- dido de Figueiredosalta-nos

o lexema ‘‘Movimento’’, do latim movimentum, signifi- candodeslocação, transfor- mação social, evolução de

ideias. Carlos Reis, na sua obra ‘‘O conhecimento da Li- teratura’’, refere-se ao termo ‘‘Movimento’’ como sinóni- mo de corrente, ou de perío- do, ou ainda de escola. Em a ‘‘Teoria da Literatura’’ de Aguiar e Silva,‘‘Movimento’’ tem que ver com os aspectos dinâmicos e mutáveis dos di- ferentes estilos. A partir dos

‘‘Vamos Descobrir Angola’’, nasce o primeiro Movimento Literário com o acrónimo MNIA (Movimento dos No- vos Intelectuais de Angola). ‘‘Um movimento, essencial- mente de poetasligadoS pelo mesmo denominador que é o sentimento nacional para combater

o colonialismo’’,(Carlos Ever- dosa, in Roteiro da Literatu- ra Angolana)cujo manifesto se fazsentir, fundamental- mente, através da Revista

país. É necessário referir que

a BJLA nasce da BJL (Brigada

jovem de Literatura de Luan- da) quesurge em Luanda, a 5 de Julho de 1980.Funcionan- do como autênticas oficinas literárias, as Brigadas con- gregam jovens poetas, man- tendo viva e acesa a impor- tância do constante e reno- vador processo do fazer poé- tico. A poética produzida pe- las Brigadas afasta-se do tom épico dos poemas de comba- te que dominam a cena lite-

tom épico dos poemas de comba- te que dominam a cena lite- Berço Literário sinónimos e

Berço Literário

sinónimos e conceitos apre- sentados, relativamente ao lexema ‘‘Movimento’’, explí- cita ou implicitamente, tor- na-se evidente a ambivalên- cia semântica da expressão ‘‘Movimento Literário’’:

Como sinónimo de pe- ríodo, a ideia de Movimen- to Literário está associada

a todo um conjunto de fac- tos literários ininterruptos que provocam alterações de vária ordem no sistema semiótico literário. Como corrente de pensa- mento, um Movimento Lite- rário é uma associação for- mada por autores mais ou menos da mesma época que, compartilhando analo- gamente o mesmo conceito de humanidade e de arte, estabelecem uma ideo-es- tética comum.

VAMOS DESCOBRIR ANGOLA Em Angola, há 65 anos, em clima de domínio colonial, fi- liado no Movimento Cultural

Mensagem. O temário geo- humano, o discurso narrati- vo constituem o tronco co- mum na praxis literária des- ses cultores, influenciados pelo neo-realismo, pelo mo- vimento modernista brasi- leiro e pela Negritude. São os responsáveis pela formação de uma literatura enquanto elementoindispensável da consciência africana e nacio- nal que encontram na poesia o seu maior meio de expres- são. Com os mesmos dedos com que grafam os anseios da colectividade nos seus varia- dos poemas, pegam em ar- mas e fazem-se guerrilheiros.

BRIGADAS JOVENS DE LITERATURA Alcançada a independên- cia, abre-se-nos um novo pe- ríodo literário que, no entan- to, só se faz sentir, com maior notoriedade,com o advento gradual das Brigadas Jovens de Literatura de Angola (21 de Novembro de 1987), ins- taladas um pouco por todo o

rária dos poetas panfletá- rios, (CARMEN LUCIA, in A poesia angolana pós-inde- pendência: tendênciase Im- passes)uma actualização es- tética balizada pelos moder- nismos e as poéticas experi- mentais. Do ponto de vista institucional, a Brigada Jo- vem de Literatura traduz a concretização do pensamen- to formulado por Agostinho Neto, segundo o qual era ne- cessário desenvolver o mais amplo debate de ideias. As Brigadas sempre tiveram uma certa conotação políti- ca. Da Brigada saltam nomes como António Panguila, Fer- nando Kafukeno, António Gonçalves, Luís Kandjimbo, LopitoFejó, JoãoMaimona, João Tala etc.

OHANDANJI A partir de 1984, começa a

revelar-se sinais de ruptura

e discórdias internas a nível

da Brigada Jovem de Litera- tura de Luanda. Nesta linha de colisão, começam a surgir

pequenos círculos, grupos,

ou tertúlias, integrados por estudantes universitários à volta de projectosestético-li- terários, dentre os quais des- taca-se o Colectivo de traba- lhos literários Ohandanji do qual fazem parte Aníbal Si- mões (CikakataMbalundu), António Panguila, Frederico Ningi, Lopito Feijó, Luís Kandjimbo, com tertúlias no Lar de Estudantes Universi- tários da Ingombota. A tertú- lia Ohandanji procura cons- truir uma identidade pró- pria num quadro de partido único sem pôr em causa o sistema vigente. A assump- ção vanguardista era mais do que visível num mar onde emergia o simbolismo, o sur- realismo, o concretismo e al- guma tendência romântica.

KIXÍMBULA Em 1985, surge uma ‘‘cor- rente alternativa’’, num con- texto adverso aos seus inten- tos, à margem do sistema mo- nopartidário implantado ena sequência da ruptura estéti- co-literária provocada pela geração que o antecede, o Movimento Cultural kixím- bula, também designado por Canteiro Novo. Num plano dialogista com a geração de 50,na linha da revista men- sagem, das suas tertúlias nasce a revista Archote, mui- tas vezes designado como movimento, na qual pode- mos encontrar os seus mani- festo que vão desde a arte li- terária, a arte plástica e en- saios críticos. Destacam-se dentre muitos E. Bonavena, António Azzevas, Domingos de Nascimento, Rui Augusto, Dudu Peres, D’oriana, José Luís Mendonça, Lisa Castel etc. Poetas vanguardistas, de um simbolismo sublime, que por vezes se desenrola num simbolismo concreto, anu- lam na totalidade a narrativi- dade que caracterizava os poetas do MNIA, trazem o verso imagético, reticente, com exuberante ornato co- mo que de barroco se tra- tasse. Os homens da Revista

Archote eram designados como a geração do delírio azul e segundo António Ja- cinto, depois de Mensagem

Cultura | 14 a 27 de Março de 2016

LETRAS |7

Cultura | 14 a 27 de Março de 2016 LETRAS | 7 Criança do Berço Literário

Criança do Berço Literário

e Cultura nada mais de im-

portante tinha acontecido

na história da literatura an- golana, a não ser o Archote,

o que nos demonstra a im-

portância desse movimen- to que ganhou a sua legiti-

midade pela qualidade e di- versidade da sua proposta estético-literária.

A TEORIA DO CAOS Com o fim da fratricida guerra de armas, (?) que dizi- mou milhares de angolanos, a 4 de Abril de 2002, num am- biente de paz, de multiparti- darismo, com uma democra- cia em ascensão, nascem num curto espaço de tempo mui- tos grupos literários. De um filme, protagoniza- do por JasonStatham e We- seySnipes, chega-nos a teo- ria do caos: “várias partícu- las desordenadas encon- tram um padrão”. Feita uma análise profunda na nova va- ga de poetas emergentes, a teoria do caos aplicar-se-ia a esta geração de poetas confi- nados nos mais variadíssi- mos Movimentos Literários que hoje existem por aqui. O caos resultaria de uma análi- se descuidada, com alguns fios de preconceitos, pro- prium do processo literário, em termos de contraposição geracional, apresentando- se-lhes, o tracejante andari- lho, como que marcas de uma família de poetas sem direcção. Todavia, uma vez que a Brigada Jovem de Lite- ratura, hoje mórbida, era o destino de qualquer jovem candidato a poeta, o padrão encontrar-se-ia, paradoxal- mente, no processo de frag-

encontrar-se-ia, paradoxal- mente, no processo de frag- Brigada Jovem do Huambo mentaçãogrupológico, ini- ciado

Brigada Jovem do Huambo

mentaçãogrupológico, ini- ciado pelo NUCEL (Núcleo dos estudos literários), e no surgimento sequencial de

Movimentos Juvenis Como o Lev’Arte, o Clube Nacional de Poetas e Trovadores,o Movi- mento Litteragris (ex. Movi- mento Vianense),oGrupo Li- terário Requintal, o Berço Li- terário e outros que desco- nhecemos, mas importantes na dinâmica que se impõe.

GRUPO LITERÁRIO REQUINTAL Sublinha-se, que o Grupo Literário Requintal, fundado em 2001 terá surgido pri- meiro que o NUCEL e o Lev’arte, todavia, a retórica dos seus manifestos faz-se aos ventos, depois dos Movi- mentos acima referidos. Têm duas obras publicadas: uma antologia poética, intitulada Memórias Póstumas ao Té- dio e a obra Maresia da auto- ria de OrlandoKingunzo, membro do grupo. Na anto- logia podemos encontrar uma combinação entre o tex- to literário e o texto pictóri- co, numa relação dialogista que ora transparece uma re- presentação fiel dos dois sis- temas semióticos, ora, relati- vamente ao texto pictórico, uma interpretação subjecti- va de um artista surrealista que leu um poema e sugere uma proposta semelhante à margem daquilo que leu. Uma poética em construção com veio ideológico do clas- sicismo ensinado na acade- mia, algumas vezes mal in- terpretado talvez, porquan- to pareceu-nos haver algum desrespeito às formas fixas

relativamente a heterome- tria que superabunda em seus versos, construídos nu- ma linguagem a tender para a linguagem natural.

NUCEL O NUCEL tem na sua géne- se o GRANDE Jorge Macedo que congrega jovens, inicial- mente na UEA e depois no Centro Recreativo Kilamba, gerando alguns artistas das letras conhecidos entre os jovens, dentre os quais se destacam Avô Ngola, Ngavu- tuka etc.

LEV´ARTE OLev’arte,fundado a 20 de Julho de 2006, é um movi- mento cultural de âmbito na- cional, criado por tempo in- determinado, com sede na província de Luanda e nú- cleos espalhados um pouco por todo país. Preocupados com o incentivo a leitura rea- lizam diverso eventos tais co- mo “Poesia eu vivo”, “Poesia à volta da fogueira” e ‘‘Confe- rência de Literatura’’. No âm- bito da criação literária, o Lev’arte apresenta-se co- mo um grupo heterogéneo. Heterogeneidade presente na antologia ‘‘Palavras’’ e na divergência estética en- tre os seus cultores indivi- duais que já publicaram. Há uma Mira Clock que desa- brocha numa linguagem na esfera da corrente natura- lista, um Zola Vida que con- templa o Invisível, ora num surrealismo com simbolis- mo simples, um Kiokamba- Kassua com sorrisos sim- bolicamente moderado.

BERÇO LITERÁRIO Do fenómeno ‘‘Redes So- ciais’’ salta o Berço Literário, ciberneticamente conheci- dos como movimento Poeti- za, a 7 de Julho de 2013, com

o lema dar Sonho a quem não

sonha’’, um movimento com uma linha ideológica,idênti- ca ao do movimento Lev’Ar- te, com uma poética seme- lhante a do Requintal e a do Lev’arte, publicam a antolo- gia ‘‘Poemas de Berço e Ou- tros Versos’’, influenciado pelo SpokenWard, trazem a poesia dita, procurando cau- sar um efeito empático ao público, ora através de críti- ca social e muitas vezes num erotismo questionável.

CLUBE DE POETAS E TROVADORES O Clube Nacional de Poetas

e Trovadores (CNPT) surge

em 2008 com um grupode es- tudantes da Faculdade de Le- tras da Universidade Agosti-

nho Neto. Ensaios e análises de algumas obras de escrito- res angolanos, declamação de poesias e concursos para

a descoberta de talentos pa-

ra a trova são algumas das actividades que dominam o encontro, que acontece na sede da União dos Escritores Angolanos. O Clube tem vin- do a publicar algumas obras, dentre as quais se destacam Pegadas do Passado de Car- los Pedro e a Antologia Raí- zes.A poesia instrictusensu do Clube não só recebe inter- ferências de poetas das Bri-

gadas e de poetas da geração de 70 como Botelho de Vas- concelos, como também de poetas internacionais como

de Vas- concelos, como também de poetas internacionais como Natchaka Fernando Pessoa, José Régio e tantos

Natchaka

Fernando Pessoa, José Régio

e tantos outros.

MOVIMENTO LITTERAGRIS O Movimento Litteragris

(ex. Movimento Literário Vianense) nasce em 2010 para dar voz aos poetas Via- nenses. A retórica dos seus manifestos começa a atra-

vessar fronteiras e conquista jovens de outras circunscri- ções. É o primeiro Movimen-

to Juvenil a definir uma poé-

tica comum, consubstancia- da na fusão de escolas literá- rias angolanas com o surrea- lismo, concretizado através de uma linguagem algo sim- bólica.Publicará brevemente

a obra ‘‘Em Cada Sílaba uma

Cicatriz’’ de MussungoMoko

e um artigo literário, intitu-

lado ‘‘Agris Magazine’’; se-

guidamente a antologia poética ‘‘Ish, Versos da ter-

ra’’ e ‘‘Lunaticus, O Cidadão da Lua’’ de YbyndaKayambu ainda no decurso deste ano.

O movimento procura pin-

tar uma proposta estética diferente no quadro da lite-

ratura angolana.

VECTOR COMUM

Não obstante haver dife- renças em termos de poéticas

e organização, estes movi-

mentos juvenis têm um vec- tor comum: a Declamação. Feito um estudo na nova produção literária, a partir de algumas obras já publica- das (em formatos de livros e poemas soltos no facebook), faz-se imprescindível incluir, no corpus literário, “o novo ser” que se criou, com o surgi- mento desses movimentos:

8

| LETRAS

14 a 27 de Março de 2016 | Cultura

O Poeta-Declamador. Cer- tamente, o leitor perguntar- se-ia o que é, na verdade, um Poeta-Declamador? Que mo- tivações teóricas levar-nos- ia a tal conclusão? A nosso ver, evitando outros procedi- mentos de retóricas com o intuito de alargar o texto, não seria o Poeta-Declama- dor aquele que pensa o texto imaginando-se em palco? Consequentemente, o seu texto apresentar-se-ia com marcas profundas da orali- dade, um alargamento tex- tual propositado e por vezes com um conteúdo prosaico. Então! Não seria poesia o texto de um Poeta-Declama- dor? A oralidade não consti- tui uma marca na poesia tra- dicional angolana e africana em geral? Até que ponto o conteúdo narrativo anula o lirismo encerrado em um poema, reduzindo até ao grau zero a poesia contida? Ou estaremos diante de um novo fazer criação?

Todavia, é importante re- ferir que nem todos se afir- mam como Poetas-declama- dores. Por um lado, há os que se querem legitimar apenas como poetas e evitam o dis- curso da palavra dita; por outro, há os que se vão afir- mando como declamadores e poetas e os seus textos en- cerram as características apresentadas na abordagem do Poeta-declamador.

RUPTURAS ESTÉTICAS Mediante a sequência dia- crónica apresentada, pode- mos afirmar que o campus li- terário é uma passarela de rupturas estéticas onde des- filam as épocas. Aqueles que souberem inovar, revolucio- nando a arte literária nas suas variadas dimensões, ir- rompem as barreiras tempo- rais. O corpus literário não é uma caixa fechada e intrans- ponível, e sim um “jogo co- lectivo”. Aqueles que forem “outros” no seu tempo, tarde

Aqueles que forem “outros” no seu tempo, tarde HELDER SIMBAD ou cedo acabam sendo subs- tituídos.

HELDER SIMBAD

ou cedo acabam sendo subs- tituídos. Seria inglorioso, a nosso ver, esperar que a plêiade de ilustres e respei-

táveis poetas, confinados à União dos Escritores Angola- nos, detentores do monopó- lio literário, deixasse de pu-

blicar para que a geração em constituição se afirmasse. Como arrancar o monopólio literário das mãos de uma geração mais madura, mais instruída e com um certo protagonismo sócio-políti- co? Com os problemas do en- sino de um país que ainda carrega no rosto os estigmas da guerra civil e outras cri- ses?Com professores de Lín- gua Portuguesa que ensinam no primeiro e segundo ciclos de ensino, sem conhecimen- to de Literatura, com o agra- vante de nunca terem lido pelo menos um livro de poe- ma ou de romance?

HelderSimbad é coorde- nador-geral do Movimento Litteragris. Estudante do 3º ano do curso deLínguas, Tradução e Administração da Universidade Católica de Angola.

CONTOS MATRIMONIAIS KONGO

Segredo para a longevidade do casamento

MATRIMONIAIS KONGO Segredo para a longevidade do casamento PAULO BUNGA NIENGUE DESENHOSDEMANUELVENTURA De um tempo a
MATRIMONIAIS KONGO Segredo para a longevidade do casamento PAULO BUNGA NIENGUE DESENHOSDEMANUELVENTURA De um tempo a

PAULO BUNGA NIENGUE

DESENHOSDEMANUELVENTURA

De um tempo a esta parte tem-se assistido na sociedade angolana a ausên-

cia de princípios e valores éticos e morais, que muitos afirmam ser resultado do longo período de guerra que o país viveu. Mas se observarmos o tempo que passou desde o alcance da paz no remoto ano de 2002 até à data actual, vê-se que a queda destes valores continua, daí a necessidade de cada vez mais se procurar formas, se evidenciar esforços, para cultivar estes valores na sociedade, principalmente por parte da juventude.

É de reconhecer que muito têm feito as autoridades bem como a sociedade

civil para o resgate destes, mas que infelizmente têm tido pouco resultado se atendermos ao número de violações destes princípios e valores no dia-a-dia. Quando se trata de relações conjugais, as coisas parece piorarem ainda mais, uma vez que, nos convívios matrimoniais, as diferenças educativas en-

tre os cônjuges muitas das vezes falam alto no trato entre ambos. Por esta ra- zão, temos assistido da parte dos jovens e não só, várias dificuldades na cons- tituição e prolongamento do matrimónio, causando assim separações cons- tantes, divórcios e, em casos extremos, violência doméstica. Enquanto continuarmos a observar esta fragilidade na constituição e pro- longamento do matrimónio nos nossos jovens, temos que ter a plena cons- ciência de que teremos sempre famílias desestruturadas, acarretando com isso muitos problemas para a nossa sociedade de hoje e sobretudo do futuro. Não podemos esperar uma sociedade com princípios éticos e morais po- tentes, enquanto não trabalharmos para a estruturação de uma família forte, porque é dela que nasce o alicerce para a edificação destes valores no indiví- duo. E para a potencialização da família é necessário ensinar aos jovens os princípios e valores éticos e morais, para uma sã convivência dos cônjuges nas relações matrimoniais e/ou no matrimónio.

É comum ouvir os mais velhos dizerem que no seu tempo era melhor, o que

Cultura | 14 a 27 de Março de 2016

LETRAS |9

nos leva a concluir que a sociedade angolana dos anos 70, 80 e princípios de 90 não apresentava tanta falta de valores na convivência matrimonial como a sociedade actual, o que levanta as seguintes questões:

1. Que contribuição os ensinamentos existentes na nossa opulenta

oralidade angolana podem dar para um relacionamento conjugal sau- dável das famílias modernas? E de que forma podem contribuir para a

sua longevidade?

2. Como poderiam as famílias angolanas viver em função dos ensina-

mentos das nossas tradições ancestrais, tendo como linha mestra a vi- são do poeta Agostinho Neto em “Havemos de voltar”?

Para responder estas questões, é necessário que se façam estudos profun- dos das nossas tradições ancestrais, tendo em conta que durante longos anos elas se foram transmitindo de geração em geração de forma oral. Mesmo sendo transmitida através da oralidade, sabemos que ela preser- vou ao longo dos tempos valores fundamentais para a conservação do matri- mónio e não só, daí que, hoje ainda vemos na nossa sociedade casais idosos com uma convivência harmoniosa e exemplar. Este artigo visa dar a conhecer a existência nas nossas tradições ances- trais, no caso concreto Kongo, da presença de um corpus da literatura oral, que pode contribuir para o resgate de valores éticos e morais e que podem ser adaptados para as sociedades modernas actuais, que são os contos.

SÍMBOLO DA FILOSOFIA KONGO

Os contos constituem um símbolo da filosofia Kongo e têm um grande im- pacto na psicologia colectiva. É uma narração com o uso de personagens ima- ginárias, com finalidade de educar, aconselhar e prevenir os homens e/ou mulheres sobre determinadas situações e definir determinados padrões comportamentais individuais. A sua importância incide no facto de ser um meio muito usado, principal- mente pelos mais velhos, para aconselhar, educar, promover o entendimento dentro de uma família ou lar e mormente alertar para as consequências futu- ras de determinados comportamentos que os casais possam adoptar. Existem vários tipos de contos Kongo. A sua tipificação está muito ligada ao momento da sua utilização, porque em todo lugar onde estiverem a resol- ver algum problema, desde que esteja lá um bom “mpovi” (falador), os con- tos são utilizados e também dependem muito do assunto em abordagem. Segundo as nossas pesquisas, os tipos mais usados são:[1]

- Contos de amor: são aqueles que promovem o amor ao próximo no seio das comunidades;

- Contos de bons conselhos: são aqueles que aconselham como arranjar

um bom amigo, no caso das senhoras amigas, e mostram como deve ser o

no caso das senhoras amigas, e mostram como deve ser o perfil das pessoas na sociedade;

perfil das pessoas na sociedade;

- Contos dos malfeitores: são aqueles que mostram como será o fim daque- les que fazem mal aos outros, no caso dos ladrões, burladores, etc.;

- Contos matrimoniais: são aqueles que retratam os relacionamentos en-

tre os casais, noivos, namorados e mostram também como arranjar um bom parceiro conjugal;

- Contos heróicos: são aqueles que exaltam o heroísmo, falam dos grandes feitos dos antepassados, das guerras feitas por eles, etc.

De salientar que, dentre estes cinco tipos pesquisados, estudou-se os con- tos matrimoniais dos quais a seguir apresentamos três, com a sua mensa- gem, interpretação e contextualização.

Conto nº 01 – O comportamento no lar

Um homem casa com uma mulher muito bonita, admirada por todos no bairro. A mulher amava-o bastante e ele também gostava muito da sua mu-

lher. Tudo o que a mulher quisesse, ele fazia porque se agradava muito dela. Um dia, o pai deste homem encontrou-se muito doente e necessitava do apoio do filho para fazer o tratamento. Dirigiu-se à casa do filho, pedindo auxí- lio para que o levasse ao tratamento. O filho respondeu o seguinte: “Tenha um pouco de paciência, vou primeiro falar com a minha esposa”. Ao conversar com a esposa, esta disse-lhe: “Também o meu pai está a necessitar de apoio. Vamos primeiro atender a ele e depois veremos o caso do teu pai”.

O filho disse ao pai para voltar mais tarde e que deveriam ver esta situação

depois. O pai acenou a cabeça e simplesmente agradeceu. Foi procurar so- correr-se de outra maneira e ficou bom. Dias depois, o pai do homem voltou a aparecer para os visitar. Encontrou o seu filho no quintal da casa; saudaram-

se e depois levou-o para dentro da casa, mas a esposa do mesmo encontrava- se no quarto.

O marido foi ter com ela, dizendo-lhe: “Chegou o pai, está sentado na sala”.

Ela interrogou: “O meu ou teu pai?”. O marido respondeu: “O meu pai”. A mu- lher disse-lhe: “O pai é teu, veio ver-te como seu filho. Ele não tem nada a ver

comigo, porque não é meu pai”. Esta resposta chocou o marido que acenou a cabeça, olhou para cima e pa- ra baixo, disse consigo mesmo: “Afinal de contas, eu amo ela e a sua família, mas ela não tem amor pela minha família.”

Mensagem do conto nº 01 Este conto transmite-nos uma mensagem relacionada com a forma como se deve avaliar o comportamento de uma parceira ou parceiro no lar, a nível da tradição Kongo. Está ligado ao seguinte provérbio: “Kitomene, mu muntu kitukidi” ou seja: “É bonito, porque alguém o pôs neste mundo”.

Interpretação do conto nº 01

A interpretação que se pode tirar deste conto é que na vida de um casal é pre-

ciso que haja amor dos dois lados, ou seja, um casal quando se junta significa que as duas famílias também devem se juntar e o marido deve amar a família da

esposa e a esposa do marido: só assim haverá união no seio desta relação.

Contextualização do conto nº 01 Actualmente temos assistido a vários problemas nos lares angolanos que muitas das vezes resultam em divórcios por causa da falta de boas relações de um parceiro para com a família do outro ou da outra. Este conto aconse- lha-nos a sermos unidos dentro de uma relação. Quando os noivos se juntam para constituir um lar, as suas famílias também se devem unir, o que significa que cada um passa a pertencer também à família do outro. Estes ensinamentos podem ser usados em todas as relações tanto de pes- soas com maior idade como de pessoas com menor idade, em qualquer parte do mundo e principalmente naquelas relações em que os noivos ou casais são de origem diferente tanto na sua nacionalidade, etnia e/ou cor da pele.

Conto nº 02 – O divórcio

Um homem era casado com uma linda mulher. Como o homem bebia mui-

to álcool, cada vez que ficasse bêbado, punha-se a bater e a castigar a sua mu- lher sem motivo. Eles tinham cinco filhos, mas desde o primeiro ano de casa- mento até ao nascimento do quinto filho, isto é, cinco anos depois, o homem não mudara de conduta.

O pai da mulher, mostrando-se aborrecido com as queixas que recebia de

pessoas conhecidas que aconselhavam a retirar a filha da casa daquele ho- mem, enquanto não a matou ainda, decidiu chamar a filha e deu a proposta de divórcio. No momento, a filha concordou. Num outro dia, o pai convocou um conselho de família junto das autorida- des tradicionais, tendo reunido os membros da família da esposa e da família

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| LETRAS

14 a 27 de Março de 2016 | Cultura

do marido, para decidirem sobre o divórcio. O assunto foi posto na mesa. Os parentes da mulher falavam e todos estavam unânimes, que tudo estava ter- minado. Porém, quando o chefe da aldeia deu tempo à mulher para falar, ela começou por dizer aos parentes: “Já ouvi que todos estão de acordo que me devo separar. Agora vos pergunto: Quem será capaz de satisfazer as minhas necessidades que só meu marido satisfaz?”. Todos sentiram-se mal e muito envergonhados com essa questão. Nin- guém conseguiu responder. Daí o chefe da aldeia deu por terminado o encon- tro e decidiram que a relação se mantivesse.

Mensagem do conto nº 02

É necessário ter cautela quando duas famílias se reúnem para resolverem um determinado assunto, principalmente quando se trata de divórcio.

Interpretação do conto nº 02

É necessário ter cautela quando se vai resolver o problema de um casal. A se-

paração deve ser decidida por ambos e não pode haver incitação de terceiros.

Contextualização do conto nº 02 Hoje em dia, é comum vermos muitos familiares que procuram destruir relacionamentos porque notaram determinados comportamentos por parte do marido ou da mulher que estes acharam negativos e procuram intoxicar com certas ideias negativas o parceiro ou a parceira, para destruírem a rela- ção. Este conto aconselha-nos a termos cautela nestas situações porque mui- tas das vezes acabamos por ficar envergonhados e os parceiros acabam por não se separarem.

Conto nº 03 – A seriedade nas relações

Havia um jovem numa aldeia conhecido como Nsombe[2]. Este noivara uma moça. Enquanto esperavam o tempo passar até chegar o dia de ir fazer os deveres e levar sua mulher, o Nsombe se transformou em kinkakala e ga- nhou habilidades de voar. Assim que chegou o dia, o Nsombe apareceu junto dos familiares da moça para tratarem do seu alambamento. Os pais da moça rejeitaram-no, porque não o reconheciam e disseram-lhe que a mulher era já noiva do Nsombe. O Kinkakala reagiu, dizendo: “Sou eu mesmo, o Nsombe”, mas os pais da moça não quiseram acreditar, porque estava muito diferente. Nsombe saiu dali muito triste, aborrecido e regressou para o seu viveiro. Dias depois, voou e voltou a ir ter com os pais da moça, mas estes insisti- ram em não falar com ele sobre assuntos relacionados com o seu casamento. Assim, o Nsombe não conseguiu casar com a moça porque o conheciam de uma maneira e ele passou a apresentar-se de outra forma.

Mensagem do conto nº 03 Quando uma pessoa se apresenta aos outros, deve ser verdadeira e since- ra: não podemos procurar esconder o nosso verdadeiro ser para depois apresentar outro.

Interpretação do conto nº 03 Dentro de uma relação, as pessoas devem ser sérias, ou seja, para o suces- so de um relacionamento ou de um compromisso que a pessoa está a assu- mir, deve procurar mostrar o seu eu real e não mostrar um para, depois, ao longo da convivência, apresentar outras formas de ser.

Contextualização do conto nº 03 Temos verificado várias vezes na nossa sociedade que as pessoas, enquan- to noivos, apresentam um determinado comportamento, mas depois de pas- sarem a viver juntos, não mostram aquilo que realmente são, criando com is- so muitas dificuldades ao outro, o que não é bom para o sucesso de uma rela- ção que quer durar muito tempo. Os casais devem, a partir do momento em que se conhecem, mostrar as suas verdadeiras personalidades.

Auguramos, que os contos ora expostos constituam uma forma de resgate dos ricos valores da nossa tradição oral, a qual acreditamos ser um contribu- to para a salubridade dos lares angolanos.

NOTA DO EDITOR: Quanto à interpretação que o autor dá ao CONTO 02,

somos de opinião que ela está ultrapassada nos dias que correm. A tradição nãoéeterna.Peranteoriscodaesposaviraperderavidadevidoàviolênciaconjugal,a

famíliadeveintervir.Éumdeversagrado.Senãohouverpossibilidadedepôrfimàrela-

ção,entãodeve-sepersuadiromaridobêbadoeviolentoamudardecomportamento.

OvalorVIDAtemprimaziasobreoinstintosexual.

[2] Nsombe é o nome de um animal que vive nas palmeiras. Durante o tempo que permanece na palmeira ele apresenta uma estrutura que depois de um tempo transforma – se, nascem asas e passa a chamar se kinkakala.

Paulo Niengue é o pseudónimo literário de Paulo Bunga Niengue, natural de Luanda,nascido no município do Cazengo, cidade de N’Dalatando, provín- cia do Cuanza Norte, aos 24 de Novembro de 1985. Licenciado em Línguas e Literaturas Africanas pela Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, em 2013. Começou a frequentar o ensino primário em N’Dalatando (Cuanza Norte), tendo-o concluído por motivos de guerra em Luanda na es- cola nº 6015 no município doKilamba Kiaxi, assim como o ensino secundá- rio. De 2001 à 2004 frequentou o curso médio de Contabilidade Geral e Co- mércio, no Instituto Médio Comercial de Luanda “IMCL”. Leccionou no ensino base e médio as disciplinas de Contabilidade, Intro- dução à Economia, Organização e Administração de Empresas, História de Angola e Geografia. Actualmente é oficial da Polícia Nacional. Frequentou durante anos a Brigada Jovem de Literatura Angolana. É membro fundador do Núcleo de Estudos Literário. Contactos: 924930752-918245083, 222039474, correio electrónico:

pauloniengue2014@gmail.com

Literário. Contactos: 924930752-918245083, 222039474, correio electrónico: pauloniengue2014@gmail.com Escultura de Van

Escultura de Van

Cultura | 14 a 27 de Março de 2016

ARTeS | 11

Hagaha, Pop, Tubarão, Gato e N´Sheriff a agradecerem aos presentes no Royal Plaza pela demonstrada
Hagaha, Pop, Tubarão, Gato e N´Sheriff a agradecerem aos presentes no Royal Plaza pela demonstrada satisfação

III TRIENAL DE LUANDA

AFRA SOUND STARS A SUBLIMAÇÃO DA KILAPANGA

 

MATADIMAKOLA

Rock, reggae, blues eram

em que surge, precisamen-

“Nunca foi uma questão de di-

A reforma de uma banda

A banda nasce nos pri- meiros momentos do pós- independência, período em que o movimento juve-

nil era muito forte e a aca- demia de música, que fun- cionava na Marginal, apa- rece como ponto de encon-

os estilos que mesclavam com a característica kila- panga, vincada nos discos Saparam, Crioulinha, Yde- ble, Soke-Soke, Absaite e Kilapanga, o mais recente álbum da banda, lançado em Dezembro passado no decurso da III Trienal de

te em 79. Uma das memó- rias de um dos presentes na conferência é de um espec- táculo no Cine Karl Marx, em que Pop Show, vestido de calções curtos, é levado pelo público. Um espectá- culo que formou e deu vida ao sonho de muita gente

nheiro. É uma questão de cul- tura. Porque a geração pre- sente, de duas décadas atrás, não nos conhece”. E destes anos fora de An- gola, Hagaha intervém lem- brando que saíram de Ango- la para mostrar o que havia de melhor da nossa música,

que vive há mais de 25 anos fora de Angola não escapou à conversa. Sobre músicos que tiveram o estrelato nos anos oitenta e que agora são ´men- digos´, N´Sheriff respondeu que, no caso dos Afra Sound Stars, a reforma tem sido tra- balhada, e agradecem ao es-

tro de um sem número de

Luanda.

e,

entre os vários países por

forço dado por Teta Lando e

jovens ávidos de aprender artes. As escolas eram tam- bém pontos de encontro e locais de grande demostra- ção de amor à pátria. Liberdade África foi o nome escolhido para um grupo eclético que mistu- rava poesia e música, com-

A Kilapanga tem se man- tido viva com nomes como Ndaka, Wiza, Gabriel Tchie- ma, Gary Sinedima, Kyaku Kyadaffi e se refeito com efeitos mais pop e soul na estética musical proposta por Jack Nkanga, Sandra Cordeiro, Afrikanita. Con-

que queria enveredar pela música.

Reencontro Mais de 25 anos depois, desde 88 que estão fora de Angola, a banda volta a encon- trar-se e consegue dar aos seus amantes a sua face ini- cial. Os quatro ficaram dividi-

onde passaram, deixaram boas impressões na Bélgica, Brasil, Alemanha e França.

Essa ausência tornou-a mais conhecida lá fora, mas isso não é problema para a ban- da, que vê como máxima missão divulgar uma música de matriz angolana: “Porque

André Mingas por esta ini- ciativa conferida à UNAC. Contudo, sempre sobrevi- vendo como podem, vão se- meando discos e espectácu- los pelo mundo inteiro para daí conseguirem uma refor- ma condigna. Dos laboriosos arranjos

posto por mais de 15 ele-

tudo, seria claro encontrar

dos entre a América e a Euro-

a

experiência nos diz que a

que deram em grandes suces-

mentos. Quando as coisas

nestes a influência, nos ar-

pa, e muitas vezes fizeram

própria popularidade já não

sos, como Mbaka, Sambessa,

foram se tornando sérias, os que faltavam aos en- saios eram retirados e as- sim foram ficando poucos,

ranjos e nos motes, dos Afra Sound Stars como ponto de intercessão, que nos poderia induzir, sem

aparições solitárias que leva- vam o timbre da banda, cul- minando em trabalhos disco- gráficos e participações inde-

sinónimo de qualidade, vis-

to que razões externas, prin- cipalmente de cunho comer- cial, pesam na justificação. É

é

Mano António ou Mulata, a Pop Show coube a responsa- bilidade de responder como seria uma nova roupagem de

o

que gerou uma confusão.

grande margem de erro, a

pendentes a nível internacio-

verdade que a última gera-

Kimbele, e não hesitou: “Má-

O

número que hoje perfaz

uma avaliação de como es-

nal. Muito tempo passou e já é

ção não conhece a nossa mú-

gica”, acrescentando que o ar-

Afra Sound Stars retira o nome de Liberdade África porque insinuava conota- ções políticas.

o

ta banda de há três décadas e meia ainda impera neste tempo tão presente e como estava tão à frente na época

outra geração que mais con- some música, motivo que le- vou N´Sheriff a abrir a conver- sa com a seguinte afirmação:

sica, mas estamos aqui para divulgar e participarmos na construção do processo cul- tural”, sublinha.

quivo do Afra é vasto e que es- tão a dar novas roupagens a músicas que anteriormente receavam lançar.

12 | ARTES

14 a 27 de Março de 2016

| Cultura

Show do Mês Yuri Simão, o boss da Nova Energia, e Marita Silva, a di- rectora de produção da Sin- dika Dokolo, foram os pri- meiros a antever o espectá- culo, durante a conferência de impressa acolhida no Pa- lácio de Ferro, motivada também para dar a conhecer a público a parceria que pos- sibilita a inclusão do Shows

do Mês no roteiro da III Trie- nal de Luanda. Nos dias 27 e 28 do mês passado não foi diferente, embora tenha apresentado um formato de show que for- jou momentos que transcen- deram a banda. Todos se re- viram quando o pano subiu e Pop Show – voz e guitarra, Hagaha – piano e voz, N´She- riff – baixo eléctrico, Gato –

voz e percussão, Tubarão – bateria, prontos para mais uma noite de kilapanga. E desde o início que Pop deixa claro que não dedilha, coça a guitarra como se ela fosse uma extensão de si, e assim também faz N´Sheriff, mas sem coçar. É como se riscas- se a guitarra eléctrica até deitar faíscas ou raios meló- dicos, ou Hagaha a esfriar a

alma. Começaram com Mbemba, mas Sambessa, Mano António e Mulata con- seguiram levar o público à satisfação total, guardando para outro momento a pro- digiosa Kimbele, as senti- mentais S. M., Menina Não Chora e Kileka, ou a estrutu- ral Kapela. Mas se o show fosse merecedor de outro epíteto, com certeza que se-

ria show da saudade. Além

da banda interpretar May Way, de Frank Sinatra, What

a Wonderful World, de Louis

Armstrong, e Walk of Life, dos Dire Straits, o show trou-

xe as surpresas Zizi Miran- dela e Dually Jair, duas figu- ras que fizeram sucesso nos anos 80.

LAÇOS DE SANGUE SEM COR

MATADIMAKOLA

Por mais sofisticados que pensamos ser nos dias de ho- je, a temática do racismo e suas consequências ainda são prioridades na desenvol- tura das relações humanas. Com “Laços de Sangue” a III Trienal de Luanda oferece em aberto um motivo para não esquecermos ou maquilhar- mos um problema que muito afectou (e afecta) o continen- te berço: o racismo. Na peça, a noção de apartheid é o opo- nente. Contudo, ela ganha fi- gura na distinção de cor entre os meio irmãos Zacarias e Morris. Assim, “Laços de San- gue” esconde uma metáfora que literalmente, em caso de merecer outro título, tradu- zir-se-ia em pessoas sem cor, que é no fundo a grande in- tenção da obra. Ao assistir à peça, nos ve- mos desafiados a aprender uma afectividade efectiva, real e consumidora. Cultura tem cor? A cultura é, até certo ponto, contrária ao sentido

mais desinteressado de hu- manismo? Ou, no que toca à progressão do homem em so- ciedade, os ditos cultos serão naturalmente os privilegia- dos de uma sociedade, os de direito natural dos bens? Questões que abrem outras feridas dos tempos actuais, porque o irmão, o de tom de pele clara, teve acesso à esco- la e outro irmão de tom de pe- le escura, não. Se há em am- bos uma relação de explora- ção, por Morris não trabalhar e viver à custa do irmão negro que não passa de guarda de um parque frequentado por brancos, onde se sente invisí- vel, não ganha ênfase porque toda a peça, do início ao fim, se esforça em desenrolar as máculas e diferenças produ- zidas pelo simples facto da di- ferença de cor poder signifi- car diferença de mundo. As memórias de infância desenham um quadro díspar entre ambos, trocadas na ca- sa (constituída apenas de um quarto) que dividem nu- ma cidade sul-africana. O es-

pectador vai tomando cons- ciência da diferença de am- bos progressivamente: Mor- ris um dia abandonou Zaca- rias. Zacarias contenta-se com um emprego onde é in- visível. Morris um dia volta e enche a cabeça de Zacarias com planos de uma vida me- lhor. Enfadonho da rotina, Zacarias deseja viver uma relação e assim descobrimos que Zacarias não sabe escre- ver e que não pode dizer à corresponde branca que é negro, começando um rol de complicações que dão sus- tento à trama, mas que em nenhum momento se mostra superior ao amor dos ir- mãos, que lutam por manter um laço de sangue sem cor. Morris (Raúl do Rosário) e Zacarias (Meirinho Mendes) são desempenhados bri- lhantemente, com fluidez e brandura exacta. A encenção em muito contribuiu para a recepção e leitura da inteção da peça, que também se deve à escrupulosa simplicidade de Mena Abrantes, que tra-

deve à escrupulosa simplicidade de Mena Abrantes, que tra- LAÇOS DE SANGUE - FOTO DE CLÁUDIO

LAÇOS DE SANGUE - FOTO DE CLÁUDIO TAMBUE

duziu e dirigiu a peça com o apoio de Rogério de Carva- lho. O cenário não atrapa- lhou em nada: a modéstia do quarto era explícita. “Laços de Sangue” é da au- toria do escritor sul-africano Athol Fugard e teve estreia em Luanda no Centro Cultu- ral Brasil-Angola nos dias 11 e 12 de Fevereiro. Voltou a ser exibida no dia 3 de Março no Palácio de Ferro, início de

um caléndário vasto que in- clui apresentações nas pro- víncias. A peça chega-nos pelo Núcleo Experimental de Teatro, fusão circustancial entre o Grupo Elinga e a Fundção Sindika Dokolo. Athol Fugard pode ser co- nhecido do grande público luandense pela sua obra adaptada ao cinema, “Tsotsi”.

RESGATAR OS UNIVERSOS DA MEMÓRIA

ao cinema, “Tsotsi”. RESGATAR OS UNIVERSOS DA MEMÓRIA Sindika Dokolo A III Trienal de Luanda ar-

Sindika Dokolo

A III Trienal de Luanda ar- rancou no dia um de Novem- bro de 2015 e vai até 30 de Novembro do corrente ano, sob o lema: “Da utopia à rea- lidade”. Segundo o patrono da fundação homónima, Sin- dika Dokolo, a Trienal de Luanda é muito mais do que um espaço de arte, “é um símbolo de liberdade, um es- paço para alargar o espectro cultural do diálogo cultural”. Do tradicional à arte multi- mídia, a Trienal de Luanda tem como exercício contra- por a violência, respeitar a diferença, redimensionar e valorizar o outro, enquanto

sujeito artístico de acção, e resgatar, pelas artes visuais e plásticas, os universos da nossa memória restante. A programação da TRIE- NAL consistirá numa plata- forma abrangente e inclusiva que irá conter exposições de arte visuais, um fórum com 176 conferências e a partici- pação de 352 oradores, con- certos de música, apresenta- ções de teatro, um eixo co- municação e conhecimento (participação de 500 esco- las) e um eixo ciências da cul- tura (voltado para edições de obras literárias, discográ- ficas e pesquisas cultuais a

propósito de angola e o con- tinente africano). Imbuídos nas comemora- ções do 40º aniversário da independência nacional, os projectos da III Trienal de Luanda serão realizados nas cidades de Luanda, Benguela, Huambo, Luban- go, Saurimo e Soyo com a rede de Mediatecas de An- gola e fará projectos tam- bém nas seguintes cidades internacionais, São Tomé, Porto e Niterói. Integrada na III Trienal de Luanda decorrerá ainda uma exposição com revistas, au- diovisuais, catálogos e ou-

tros materiais referentes a áreas fundamentais da his- tória da cultura angolana e, no fundo, do valor intrínseco da arte africana. O patrono da Fundação, Sindika Dokolo, afirmou, na abertura da TRIENAL, em Novembro de 2015, que a TRIENAL é um acontecimen- to e uma oportunidade para todos os cidadãos luanden- ses e angolanos em geral,

não devendo ser considera- do como um evento para eli- tes. “A trienal de Luanda não

é uma festa em Luanda mas

sim um concentrado do que

é a cultura”.

Cultura | 14 a 27 de Março de 2016

HISTÓRIA | 13

CUNENE RECORDA

BRAVURA E CORAGEM DE MANDUME

HISTÓRIA | 13 CUNENE RECORDA BRAVURA E CORAGEM DE MANDUME Túmulo do Rei Mandume Yandemufaiyo Entrada

Túmulo do Rei Mandume Yandemufaiyo

E CORAGEM DE MANDUME Túmulo do Rei Mandume Yandemufaiyo Entrada para o kimbo da região sul,

Entrada para o kimbo

da região sul, de 1911 a 1917.

Durante o reinado de Man- dume, as guerrilhas entre os povos africanos acabaram e passaram a ser apenas con-

tra os portugueses que, a to-

do custo, tentavam ocupar a

parte sul de Angola. Antes da

ocupação colonial, os Am- bós estavam divididos pe- los reinos Cuanhama e Kua- matuis, os dois estados do

Evale e Cafima. Estes esta- dos viviam unidos e sem guerras entre si. A sua coragem e bravu- ra, baseada no pensamento de nunca se vergar diante dos portugueses, deve ser

o espírito a emanar nas

mentes dos jovens, para a construção de uma Angola cada vez melhor. Na ocasião o vice-gover- nador da província do Cune- ne, António dos Santos Can-

deeiro, disse que a socieda- de, principalmente o povo

da província do Cunene deve

moldar-se na bravura e co-

ragem do Rei Mandume ya

Ndemufayo, que ainda mui-

to jovem defendeu os Cua-

nhama na defesa do seu es- paço nesta região sul de An- gola e Namíbia contra a ocu- pação colonial dos portu- gueses e dos ingleses.

bós (sul de Angola e norte da Namíbia). Nascido em 1884,

e morreu a 6 de Fevereiro em

Oihole, estava destinado a ser um herói trágico. Na pri- meira parte do seu reinado (1911 – 1915), dedicou-se a revolucionar as regras que regiam a vida do seu povo. Mudou a capital dos Kwa-

nhamas da Embala Grande para Ondjiva, e emitiu decre- tos reais inovadores. Um de- les, anotam vários historia- dores, permitiu às mulheres serem proprietárias de gado. Foi o último rei dos Kwa- nhama, povo pertencente ao grupo etnolinguistico dos

ovambo que ocupa o sul de Angola e norte da Namíbia. Reza a história que Man- dume, foi escolarizado por missionários protestantes alemães, na altura o Sudoes- te Africano, hoje território integrado boa parte pela po- pulação kwanhama e che- gou no poder em 1911 e seu reinado durou até 1917, coincidindo com o período em que o poder colonial por- tuguês se concentrou na ocupação efectiva de Angola. Mandume-ya-Ndemufayo foi um dos símbolos máxi- mos da luta angolana contra

a invasão estrangeira. Face à

Biografia

superioridade militar dos europeus, acabou vencido. Segundo a tradição oral an- golana, Mandume, ao notar que já não tinha outra saída, preferiu suicidar-se ao ter

Mandume

Ya

Ndemu-

fayo assumiu os destinos do reino Kwanhama, o mais for-

te e poderoso dos reinos Am-

que se render. Em 2009, é

QUINITOKANHAMENI| ELAUÉRIOSILIPULENI| VENÂNCIOAMARAL |

A população da província do Cunene recordou no pas- sado dia 6 de Fevereiro a bra- vura e coragem do rei Man- dume ya Ndemufayo, aquele que foi o último soberano do povo Cuanhama e que defen- deu o seu povo contra a ocu- pação colonial na região sul de Angola. As comemorações dos 99 anos da morte de Mandume tiveram lugar em Oihole, município de Namacunde, local onde foi morto em combate e sepultado a 6 de

Fevereiro de 1917. A ceri- mónia foi antecedida de uma romagem ao túmulo do rei, onde foram cumpridos al- guns rituais como a deposi- ção de folha de Onfiati, que simboliza a resistência do povo kwanhama. Estiveram presentes fi- guras governamentais da província e central, diplo- matas, autoridades tradi- cionais, estudantes e a rai- nha Cláudia Fudeni. Pertencente ao reino mais poderoso da tribo Ambós, o rei Mandume-ya-Ndemufayo comandou os destinos do po- vo Cuanhama num dos perío- dos mais difíceis da história

comandou os destinos do po- vo Cuanhama num dos perío- dos mais difíceis da história Selo

Selo sobre Mandume

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|HISTÓRIA

14 a 27 de Março de 2016 | Cultura

constituída a universidade pública no Lubango, que re- cebeu o nome "Mandume Ya Ndemufayo”.

Túmulo do Rei No sul de Angola há um marco de resistência. Em Ohiole, Cunene, a terra abraça o corpo de um dos mais conhecidos e temíveis pesadelos das forças colo- niais europeias. Em 2002, reconhecendo

o simbolismo do rei dos

Kwanhama, abria portas o Complexo Memorial do Rei Mandume, inaugurado pelo Presidente José Eduardo dos Santos, na presença do seu homologo namibiano Sam Nujoma.

O lugar é simples, mas al-

tamente representativo. Ar- cos verdes cruzam-se, prote- gendo o último leito do rei,

que está rodeado de paus de Onfyati. É o lugar sagrado para os Kwanhama, e ponto de visita obrigatório para quem quer conhecer melhor

as histórias e lendas que for- maram o nosso país.

O Memorial localiza-se 14

quilómetros a sul de Nama- cunde, o local conta com res- taurante, sala de conferên- cias, e de exposição, quartos, e piscina e pausada, estando actualmente inoperante por obras de requalificação ini- ciadas em 2012. Trata-se de um gigante tu- rístico adormecido que bem explorado traria volumes de

receitas para o Estado, uma

vez reunir inúmeros requisi- tos capazes de atrair qual- quer turista.

Regionalismo Transfronteiriço “Regionalismo Transfron- teiriço, o caso da Fronteira Sul de Angola” foi o tema da palestra, realizada a margem da cerimónia na localidade de Oihole, proferida pelo aca- démico Ezequiel Israel Jonas. Segundo o palestrante, o

Workshop teve como objec- tivo, cartografar os regiona- lismos nas províncias junto à fronteiro sul de Angola, nar- rar a construção, a reconfi- guração dos regionalismos resultantes da fronteira sul e articular as iniciativas mi-

cro-regionais na província do Cunene e outras abran- gentes, bem como contribuir para o desenvolvimento dos estudos do Regionalismo na área de estudos africanos. Consta igualmente dos objectivos, o papel do Esta- do, as oportunidades econó- micas, o desenvolvimento das comunidades locais e a

segurança transfronteiriça. Na palestra foram debati- dos os principais autores do regionalismo transfronteiri- ço como, Santa-Clara (Ango- la) e Oshicango (Namibia), envolvendo as instituições públicas que operam na fron- teira, agentes económicos e fi- nanceiras, despachantes ofi- ciais facilitadores dos agentes económicos, agentes infor- mais que exercem actividades

económicos, agentes infor- mais que exercem actividades Ezequiel Israel Jonas de conversão monetária vul- go

Ezequiel Israel Jonas

de conversão monetária vul- go kinguila e abulantes facili- tadores de transportação. De acordo com Ezequiel Jonas a investigação visa compreender as dinâmicas de construção dos micro-re- gionalismos envolvendo a fronteira sul de Angola com vista à integração regional, sua articulação com os ma- cro-regionalismos abran- gendo directamente a área geográfica. Ezequiel Israel Jonas é natural do município do kwanhama, Cunene, e fez o mestrado em economia, e

doutorando em estudos africanos. Fala fluentemen- te português, ingles, Oshi- wambo, Umbundu, e Ngan- gela. Exerceu vários cargos tais como chefe do departa- mento do protocolo do Go- verno do Cuando Cubango,

representante em Luanda do governo da mesma pro- víncia e assessor do vice- governador do Cunene para área Política. Actualmente é secretário do Governo pro- vincial do Cunene.

é secretário do Governo pro- vincial do Cunene. Vice-governador deposita uma coroa de flores na campa

Vice-governador deposita uma coroa de flores na campa do soberano Mandume

deposita uma coroa de flores na campa do soberano Mandume Vice-governador cumpre ritual no olupale Sala
deposita uma coroa de flores na campa do soberano Mandume Vice-governador cumpre ritual no olupale Sala

Vice-governador cumpre ritual no olupale

Sala de conferências

Cultura | 14 a 27 de Março de 2016

BARRA DO KWANZA | 15

A CRIAÇÃO DO MUNDO SEGUNDO A TRADIÇÃO BANTU

Nzambi, a quem também chamam Ndala Karitanga (Deus criador de si próprio), Nzambi ia Kalunga (Deus Supremo e Infinito) e Nzambi Ampungu (Deus Poderoso), depois de ter criado o Mundo e tudo quanto nele existe, criou uma mulher para que fosse sua esposa e para que, por seu intermédio, pudesse ter descendência humana, a fim de que esta povoasse a Terra e do- minasse todos os animais selvagens, por ele criados. Disse a sua esposa que passaria a chamar-se Ná Kalunga, em virtude da filha que iria dar a luz, se chamar Kalunga. Com efeito, tal como Nzambi tinha anunciado, passados no- ve meses, nasceu sua filha. Esta foi crescendo como qualquer criança normal, junto de seus divinos pais, na Sanzala dia Nzambi (aldeia de Deus). Logo que sua filha atingiu a puberdade, Nzambi, informou Ná Kalunga, sua esposa, que tencionava mostrar para Kalunga, sua filha, tudo que havia criado e que, após três meses, retornaria. Esta resolução não agradou à divina esposa que tentou opor-se a que sua filha o acompanhasse. Porém Nzambi lembrou- lhe que ela tinha sido por ele criada para lhe obedecer, visto que, além de seu marido, era também seu Deus. Contrariada, mas impotente para obrigar Nzambi a desistir do seu intento, limitou-se a deixar ir a filha com o pai, en- quanto ela ficou a chorar amargamente. Logo que anoiteceu, Nzambi, instantaneamente, construiu uma Kubata (pa- lhoça), na qual instalou uma só cama. Ao ver um único leito, a filha recusou-se a dormir com o pai e saiu, a chorar da cabana. Ao ver a recusa da filha e não po- dendo convencê-la de outra forma, disse-lhe que se não viesse imediatamente

para junto dele, seria devorada pelas feras que infestavam a floresta. Transida de medo pelo que acabava de ouvir, Kalunga entrou novamente na cabana, dei- tou-se junto de seu pai e com ele dormiu não só naquela noite, mas durante to- do o tempo que durou a viagem. Finda esta, regressaram a casa e, Ná Kalunga, tal como tinha previsto, veri- ficou que a filha estava grávida do próprio pai. Enraivecida pelo facto e pelo desgosto, no meio das maiores blasfémias, enforcou-se numa árvore, peran- te os olhos atónitos da filha e de Nzambi, que nada fez para evitar tal suicídio. Desgostoso pela atitude da mulher, que não compreendeu os seus desígnios para povoar o Mundo que ele tinha criado, mostrando ser indigna de conti- nuar a ser esposa daquele que lhe tinha dado o ser, em vez de lhe dar vida, no- vamente, a amaldiçoou e transformou-a num espírito maligno, a quem deu o nome de Mulungi Mujimo (ventre ruim da primeira mãe que existiu na Ter- ra). A partir dessa altura, Nzambi passou então a viver maritalmente com sua filha Kalunga, a qual, depois da morte da mãe, passou a chamar-se também Ndala Karitanga e a ser a segunda divindade. Algum tempo depois da morte de sua mãe, durante um sonho, teve uma visão queadeixouapavorada.Viuamãecomacabeçaapoiadanasmãos,aolhá-lacom rancor e a insultá-la, dizendo que ainda ia devorá-la, enquanto ela, envergonhada, pedia perdão à mãe e dizia que de nada era culpada, posto que seu pai a tal a tinha obrigado. No meio desta aflição, acordou e contou ao pai o pesadelo. Este a sosse- gou,dizendo-lhequenadareceassedaquelaquetinhasidosuamãeequeagora era espírito, pois nenhum mal lhe poderia fazer, mas apenas lhe pedir comida.

Portanto,disseNzambi,vamosdar-lhe.Levantaram-seamboseNzambiprepa-

rou um pequeno montículo de terra, junto da porta casa simulando uma sepultu- ra.Disseeleentãoàfilhaquefossebuscarcarneeoutracomidaeapusessesobre

aquela sepultura, proferindo, ao mesmo tempo, as seguintes palavras: Mam’é nzanga ua-ku-kurila. Halapuila kanda uiza kuri yami nawa: ny ngu-na-ku mono nawa, ngu n’eza ny ku ku cheha (minha mãe, acabo de vir chorar-te; agora, não voltes a ter comigo outra vez, porque se volto a ver-te, venho matar-te). Chegado que foi o tempo, Kalunga deu à luz um filho ao qual Nzambi deu, também, o nome de Ndala Karitanga, passando este a ser a terceira divindade. Logo que o seu filho-neto cresceu e atingiu a adolescência, Nzambi ordenou-lhe que casasse com sua mãe Kalunga, para que esta concebesse dele muitos filhos de ambos os sexos, a fim de povoarem a Terra e dominarem todos os animais. Cumprindo as ordens de Nzambi, sua filha e seu filho-neto casaram e tiveram um filho e uma filha. Quando estes chegaram à maioridade, Nzambi ordenou, então, que o primeiro ca- sasse com sua mãe e a filha casasse com seu pai, dizendo que já não se jus- tificava a primeira união que ele tinha ordenado, informando-os, ainda, que depois daquelas uniões, as seguintes se fizessem sós entre primos. Por fim, depois de lhes ter ensinado tudo o que deveriam fazer para a que sua descendência crescesse e multiplicasse, para que lutasse contra as doenças e os feitiços que um dos descendentes do sexo feminino, viria a possuir, porque ele lhes legaria, disse, também, que viriam outros des-

cendentes divinos e que, após deixarem a vida terrena, cada um dentro de sua atribuição, iria supervisionar o mundo que ele havia criado. Nzambi despediu-se de todos, chamando depois o seu cão, que sempre o acompanhava, dirigiu-se para a Sanzala Kasembe diá Nzambi (Aldeia Encan- tada de Deus), e dali subiu para o espaço, levando consigo o cão. Naquela altu- ra, as rochas estavam moles, por terem sido formadas há pouco tempo. Ainda hoje se podem observar as pegadas esculpidas, numa rocha ali existente, es- pecialmente do pé direito de Nzambi, assim como da pata dianteira do seu cão. Estas pegadas existem também em diversas outras rochas espalhadas por toda a África, incluindo Angola.Foi, pois, dali, que Nzambi subiu à TCHEUNDA TCHA NZAMBI (Aldeia de Deus), ou Céu, como nós lhe chama- mos, onde se conserva, através dos séculos, para recompensar os bons e casti- gar os maus. À pergunta feita a diferentes sacerdotes bantu, como é e quem foi que criou Nzambi, eles responderam que, sendo ele Ndala Karitanga, se deve ter criado a si mesmo e que tudo o mais é mistério que jamais alguém conse- guiu ou conseguirá desvendar. A resumida lenda que acabamos de expor, foi contada por dois velhos na- turais da região do Sombo, conselho de Camissombo. Um chamava-se Tchin- jamba Sá Fuca e o outro Sá Hongo, ambos já falecidos. O primeiro morreu no Luaco, o segundo faleceu na sua terra natal com cerca de 90 anos em 1994. Comprovação feita pela Secção de Arqueologia e pré-história do Museu do Dundo-Angola, de que são originais e não forjadas por mãos humanas. Se- gundo as indicações dos nativos, a Sanzala Kasembe diá Nzambi, situa-se en- tre os rios Luembe e Kasai, junto da nascente do Mbanze. Dão-lhe estes no- mes por estar perto do Meue (estrangulamento) do Kasai.Neste ponto, o rio tem apenas cerca de quatro metros de largura. Segundo a tradição oral, foi junto à nascente do Mbanze que se estabeleceram, primeiramente, os chefes e autoridades divinas, Ndumba ua Tembu, Muambumba, Muaxisenge e ou- tros, quando fugiram à soberania do Muatiânvua.Foi naquele mesmo ponto que, mais tarde, se reuniram novamente, e ali planearam a separação e dis- tribuição de terras que cada um deveria ocupar. Do livro: “Crenças, Adivinhação e Medicina Tradicionais dos TCHOKWE do Norte de Angola”, João Vicente Martins, Lisboa, Instituto de Investigação Científica Tropical, 1993 (ligeiramente adaptado)

GLOSSÁRIO

* Lenda é a narração escrita ou oral de carácter maravilhoso, na qual os fatos históri- cos são deformados pela imaginação popular ou pela imaginação poética *.

* Nzambi s.m. – Deus Criador. Autor da existência e de suas características dominantes

- o bem e mal. Conquanto seja o Ente supremo, não rege directamente os destinos do Uni- verso. No tocante ao nosso planeta, serve-se de intermediários a entidade espiritual. Em face das atribuições de que se revestem, assumem o caráter de semideuses. Por efeito desse privilégio, é a elas, pois, a quem os crentes se dirigem em suas emergências. Decor- rentemente, a quem prestam culto. Enquanto as entidades espirituais permanecem nas profundezas do globo. Nzambi paira em toda parte, sem lugar determinado. Pelo alheamento a que votou os problemas mundanos, só são invocados em última instância. Tal como noutros povos, também existem sinónimos para de- signá-lo, Kalunga, Lumbi lua Suku, etc. Kalungangombe, o juiz dos mortos, tem o poder de su- primir a existência. Mas, se Nzambi não concordar com a decisão, o mortal continuará subsistin- do. Portanto, intervém quando necessário.

não concordar com a decisão, o mortal continuará subsistin- do. Portanto, intervém quando necessário. Obra de

Obra de Guizef

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14 a 27 de Março de 2016 | Cultura

16 | BANDA DESENHADA 14 a 27 de Março de 2016 | Cultura