Você está na página 1de 20

15/03/2016

PÓS GRADUAÇÃO EM YOGA Prof. Roberto de Andrade Martins Bhagavad-Gītā 20 e 21 de fevereiro
PÓS GRADUAÇÃO EM YOGA
Prof. Roberto de
Andrade Martins
Bhagavad-Gītā
20 e 21 de fevereiro
de 2016
A Bhagavad-Gītā é uma obra fundamental para o movimento Hare-Krishna; mas não tem “dono” e
A Bhagavad-Gītā é uma obra fundamental para o
movimento Hare-Krishna; mas não tem “dono” e
é muito mais antiga do que esse movimento.
Bhagavat é um termo respeitoso utilizado pelos devotos de Viṣṇu para representar essa divindade, e
Bhagavat é um termo respeitoso
utilizado pelos devotos de Viṣṇu
para representar essa divindade,
e pelos devotos de Śiva, por sua
vez, para designar sua
divindade favorita. É também
um termo empregado no título
de obras indianas consideradas
sagradas, de muitas tradições
diferentes (por exemplo, no
Budismo).
Bhagavat não é sinônimo de
Viṣṇu ou de Kṛṣṇa.
Nesta parte de nosso encontro, estudaremos alguns aspectos da Bhagavad-Gītā. Esta é uma das mais
Nesta parte de nosso encontro, estudaremos alguns
aspectos da Bhagavad-Gītā. Esta é uma das mais
populares obras da tradição indiana.
Foi escrita provavelmente entre os séculos V a.C. e
II a.C. É parte de uma obra muito maior, chamada
Mahābhārata.
A palavra sânscrita Bhagavat é derivada de bhaga: felicidade, sorte, prosperidade, bem estar, beleza, encanto,
A palavra sânscrita
Bhagavat é derivada de
bhaga: felicidade, sorte,
prosperidade, bem estar,
beleza, encanto, dignidade,
majestade, excelência.
Bhagavat significa glorioso,
ilustre, divino, adorável,
venerável, sagrado.
Essa palavra pode ser
aplicada a seres humanos e
devas.
Gītā vem do radical gai – cantar ou recitar. Assim, gītā é uma canção, aplicando-se
Gītā vem do radical gai – cantar ou recitar. Assim,
gītā é uma canção, aplicando-se principalmente a
cânticos religiosos, especialmente textos em versos
que descrevem doutrinas religiosas apresentadas
por uma divindade ou por um grande sábio.

15/03/2016

Portanto, Bhagavad-Gītā pode ser traduzido como “canção divina”, ou “poema da divindade”, ou “canto
Portanto, Bhagavad-Gītā pode ser traduzido como
“canção divina”, ou “poema da divindade”, ou
“canto sagrado”.
A palavra gītā é feminina, em
sânscrito (como quase todas as
palavras terminadas em ā).
Portanto, deve-se considerar
Bhagavad-Gītā como uma
expressão feminina e dizer, em
português: a Bhagavad-Gītā, e
não o Bhagavad-Gītā.
A Bhagavad-Gītā faz parte de um texto muito maior, o Mahābhārata, que é a mais
A Bhagavad-Gītā faz parte de um texto muito
maior, o Mahābhārata, que é a mais vasta obra
literária da humanidade (www.shri-yoga-devi.org).
A Bhagavad-Gītā contém 18 capítulos que
correspondem às seções 25 até 42 do Bhīṣma
Parva, que é a sexta das dezoito partes do
Mahābhārata.
O Mahābhārata é um poema épico que descreve acontecimentos relacionados à dinastia real de Hastināpuram.
O Mahābhārata é um
poema épico que
descreve acontecimentos
relacionados à dinastia
real de Hastināpuram.
Existem muitas outras gītās famosas, além da Bhagavad-Gītā, tais como a Uddhava-Gītā, que faz parte
Existem muitas outras gītās famosas, além da
Bhagavad-Gītā, tais como a Uddhava-Gītā, que
faz parte do Bhāgavata Purāṇa, a Aṣṭāvakra-Gītā,
a Devī-Gītā do Devī-Bhāgavata-Purāṇa, a
Gaṇeśa-Gītā e diversas outras (ver capítulo escrito
por Flávia).
Guru-Gītā
A tradição indiana atribui a autoria do Mahābhārata ao sábio Vyāsa, que teria sido também
A tradição indiana
atribui a autoria do
Mahābhārata ao sábio
Vyāsa, que teria sido
também o responsável
pela organização dos
Vedas e pela redação
de todos os textos
tradicionais
denominados Purāṇa.
A parte principal do Mahābhārata é uma batalha entre dois clãs que disputam o reino
A parte principal do
Mahābhārata é uma
batalha entre dois clãs
que disputam o reino –
os Kauravas e os
Pāṇḍavas.
Os Kauravas e os
Pāṇḍavas eram primos,
herdeiros do rei
Vicitravīrya. Mais
adiante falaremos sobre
essa história.

15/03/2016

O centro da Bhagavad-Gītā é um diálogo entre dois personagens: • Arjuna (nome que significa
O centro da Bhagavad-Gītā é um
diálogo entre dois personagens:
Arjuna (nome que significa
prateado, branco, imaculado
ou brilhante)
Kṛṣṇa (que significa negro,
cinza azulado ou escuro)
O
nome de Kṛṣṇa está associado
à cor de sua pele; não existe
qualquer conotação negativa
nessa associação entre Kṛṣṇa e a
cor negra.
Viṣṇu é uma das principais divindades do hinduísmo. Há centenas de milhões de devotos de
Viṣṇu é uma das principais divindades do
hinduísmo. Há centenas de milhões de devotos de
Viṣṇu, na Índia. Viṣṇu não possui um corpo físico,
mas, de acordo com alguns Purāṇas, ele adquire
um corpo e realiza atividades no mundo físico,
quando isso é necessário.
Para compreender a Bhagavad-Gītā é importante nos referirmos ao Mahābhārata, cujo tema central é a
Para compreender a Bhagavad-Gītā é importante
nos referirmos ao Mahābhārata, cujo tema central
é a história das disputas a respeito do trono de
Hastināpuram. Sua parte culminante é a batalha
que ocorre em Kurukṣetra (“campo dos Kurus”),
entre os Kauravas e os Pāṇḍavas.
Arjuna é um príncipe guerreiro (kṣatriya), sendo o terceiro dos cinco Pāṇḍavas (herdeiros do rei
Arjuna é um príncipe guerreiro (kṣatriya), sendo o
terceiro dos cinco Pāṇḍavas (herdeiros do rei
Pāṇḍu).
Kṛṣṇa é também um príncipe; mas não é um mero
ser humano, e sim uma manifestação (avatāra) da
divindade Viṣṇu no mundo terrestre.
A tradição descreve dez avatāras principais de Viṣṇu, que incluem Rāma (o herói do épico
A tradição descreve
dez avatāras
principais de Viṣṇu,
que incluem Rāma (o
herói do épico
Rāmāyaṇa) e Kṛṣṇa.
Nem todos os
avatāras de Viṣṇu são
humanos; há alguns
que possuem forma
animal, incluindo um
peixe, uma tartaruga e
um javali.
Dhṛtarāshtra Um rei de Hastināpuram chamado Vicitravīrya morreu sem descendentes. Para que pudesse ter um
Dhṛtarāshtra
Um rei de Hastināpuram
chamado Vicitravīrya morreu
sem descendentes. Para que
pudesse ter um sucessor, suas
duas esposas, Ambālikā e
Ambikā, tiveram filhos com o
sábio Vyāsa, meio-irmão de
Vicitravīrya, de acordo com
um antigo costume indiano. O
primeiro filho, Dhṛtarāṣtra, era
cego, por isso não podia
governar. O segundo filho,
Pāṇḍu, tornou-se, então, o rei.

15/03/2016

Os herdeiros de Pāṇḍu são os Pāṇḍavas; os herdeiros de Dhṛtarāṣtra são os Kauravas. Portanto,
Os herdeiros de Pāṇḍu são os Pāṇḍavas; os
herdeiros de Dhṛtarāṣtra são os Kauravas.
Portanto, os Pāṇḍavas e os Kauravas eram primos.
Os cinco Pāṇḍavas
Pāṇḍu e
Kuntī
Pāṇḍu morreu quando seus herdeiros ainda eram muito novos, por isso seu irmão mais velho,
Pāṇḍu morreu quando seus herdeiros ainda eram
muito novos, por isso seu irmão mais velho,
Dhṛtarāṣtra, assumiu o reinado, embora cego.
Kuntī, a primeira esposa de Pāṇḍu, permaneceu na
corte de Dhṛtarāṣtra, cuidando dos Pāṇḍavas, que
foram criados juntamente com os cem filhos do rei
(os Kauravas). Eles tiveram os mesmos mestres, e
seu tio Bhīṣma lhes ensinou a arte da guerra.
Bhīṣma
Seguem-se muitos episódios envolvendo o conflito entre os primos, culminando com a batalha de Kurukṣetra.
Seguem-se muitos episódios envolvendo o conflito
entre os primos, culminando com a batalha de
Kurukṣetra. Trata-se de um conflito civil e familiar
envolvendo parentes que lutam entre si e antigos
amigos que vão se enfrentar em combate.
Como Dhṛtarāṣtra era mais velho do que Pāṇḍu, seria ele quem teria o direito de
Como Dhṛtarāṣtra era mais
velho do que Pāṇḍu, seria
ele quem teria o direito de
ser rei de Hastināpuram; e
esse direito seria passado aos
Kauravas. No entanto, como
foi Pāṇḍu quem de fato
assumiu o trono, os
Pāṇḍavas tinham também o
direito de ser reis. A situação
era complicada.
Duryodhana, o mais
velho dos Kauravas
Duryodhana mostrando seu exército para Drona Havia uma rivalidade entre os primos, que se transforma
Duryodhana mostrando
seu exército para Drona
Havia uma rivalidade entre os
primos, que se transforma em
ódio com o passar do tempo.
Quando se tornam adultos, o rei
Dhṛtarāṣtra indica seu sobrinho
mais velho Yudhiṣṭhira (um dos
Pāṇḍavas, irmão de Arjuna)
como herdeiro, em vez de seu
próprio primogênito Duryodhana
(um dos Kauravas). Isso
desencadeia a disputa entre os
Kauravas e os Pāṇḍavas, que vai
levar à guerra.
Kṛṣṇa era um parente distante dos Kauravas e dos Pāṇḍavas. Kṛṣṇa tentou apaziguar o conflito
Kṛṣṇa era um parente distante
dos Kauravas e dos Pāṇḍavas.
Kṛṣṇa tentou apaziguar o
conflito entre os Kauravas e os
Pāṇḍavas, mas não conseguiu
resultados. Então, ele ofereceu
seu auxílio aos dois grupos: ele
combateria de um lado, e seu
exército pelo outro. Arjuna
escolheu o apoio pessoal do
próprio Kṛṣṇa, enquanto
Duryodhana preferiu seu
exército.

15/03/2016

A Bhagavad-Gītā se situa no momento em que essa batalha vai começar; descreve os dois
A Bhagavad-Gītā se situa no momento em que essa
batalha vai começar; descreve os dois exércitos que
estão prontos para se enfrentar, depois focaliza
Arjuna, que resolve ir para o meio do campo de
batalha para melhor avaliar os seus inimigos.
Essa crise de Arjuna, retratada no primeiro capítulo da Bhagavad-Gītā, dá início ao diálogo entre
Essa crise de
Arjuna, retratada no
primeiro capítulo
da Bhagavad-Gītā,
dá início ao diálogo
entre ele e Kṛṣṇa,
que começa a
instrui-lo a respeito
de uma grande
variedade de temas
morais, religiosos e
filosóficos.
As quatro partes seguintes do Mahābhārata descrevem o conflito de Kurukṣetra, que dura catorze dias,
As quatro partes seguintes
do Mahābhārata
descrevem o conflito de
Kurukṣetra, que dura
catorze dias, no qual os
Pāṇḍavas saem vitoriosos.
Quase todos os Kauravas
são mortos, e Duryodhana
sai da batalha mortalmente
ferido. Yudhiṣṭhira (irmão
mais velho de Arjuna) se
torna o legítimo rei, depois
disso.
Então, contemplando os adversários, Arjuna se dá conta de que vai iniciar um combate contra
Então, contemplando os
adversários, Arjuna se dá
conta de que vai iniciar um
combate contra parentes,
amigos, mestres
muitas
pessoas que conhece e
respeita. Entra em uma
profunda crise moral. Fica
desanimado e declara que
prefere ser morto a matar
os adversários.
Ao longo da parte principal da Bhagavad-Gītā, a batalha iminente é esquecida, e Kṛṣṇa se
Ao longo da parte principal da Bhagavad-Gītā, a
batalha iminente é esquecida, e Kṛṣṇa se dedica à
instrução de Arjuna. Ao final, Arjuna se declara
totalmente esclarecido e resolve desempenhar o
seu dever de guerreiro, participando ativamente da
batalha.
A Bhagavad-Gītā não aconselha as pessoas a se afastarem das suas atividades sociais, e sim
A Bhagavad-Gītā não aconselha as pessoas a se
afastarem das suas atividades sociais, e sim a
desempenhá-las com uma nova atitude interna: agir
sem pensar em nenhum resultado ou objetivo.

15/03/2016

Em vez de recomendar a Arjuna que deixe de lado todas as ambições terrenas e
Em vez de recomendar a Arjuna que deixe de lado
todas as ambições terrenas e vá apenas se dedicar a
práticas espirituais, Kṛṣṇa, que é o próprio deva
Viṣṇu, indica que o guerreiro deve participar da
batalha e destruir seus inimigos.
O objetivo central da Bhagavad-Gītā é mostrar como atingir a libertação espiritual (mokṣa). Assim, trata-se
O objetivo central da
Bhagavad-Gītā é
mostrar como atingir
a libertação espiritual
(mokṣa). Assim,
trata-se de uma obra
sobre Yoga, no
sentido original dessa
palavra, embora não
se destine apenas a
yogins e yoginīs
renunciantes.
Vamos apresentar agora muitos esclarecimentos religiosos e filosóficos importantes, que vão ajudar a compreender
Vamos apresentar agora
muitos esclarecimentos
religiosos e filosóficos
importantes, que vão
ajudar a compreender
tanto a própria
Bhagavad-Gītā quanto
alguns ramos do Yoga
tradicional indiano.
Se Arjuna desempenhar essa tarefa do modo correto – guerreando e matando sem desejos, sem
Se Arjuna desempenhar essa tarefa do modo
correto – guerreando e matando sem desejos, sem
ódio, sem temores, sem objetivos, sem pensar em
resultados – isso o ajudará a atingir a libertação
espiritual (mokṣa).
Ao contrário do que muitos (incluindo Gandhi) costumam afirmar, a mensagem da Bhagavad-Gītā não é
Ao contrário do que muitos (incluindo Gandhi)
costumam afirmar, a mensagem da Bhagavad-Gītā
não é pacifista. A Bhagavad-Gītā não é um manual
sobre não-violência (ahiṁsā), pois Arjuna é um
guerreiro, que deve cumprir seu dharma.
Para entendermos o contexto cultural da Bhagavad-Gītā é preciso entender um pouco sobre a religião
Para entendermos o
contexto cultural da
Bhagavad-Gītā é preciso
entender um pouco sobre
a religião Hindu.
Yoga não é religião, mas
nasceu dentro de uma
tradição religiosa, que
precisa ser compreendida
para não deturparmos
sua origem.

15/03/2016

A religião indiana, desde a fase mais antiga que conhecemos (contida nos Vedas), refere-se a
A religião indiana, desde a fase mais antiga que
conhecemos (contida nos Vedas), refere-se a um
grande número de seres divinos, os devas, que são
cultuados e aos quais são dirigidas preces e hinos –
por exemplo, Agni, Indra, Soma, Sūrya.
Há também devīs, que são seres divinos femininos,
como Sarasvatī, Aditī, Vāc.
Na tradição indiana há devas que são descritos como criadores do universo (como Prajāpati e
Na tradição indiana há
devas que são descritos
como criadores do universo
(como Prajāpati e
Brahmā), mas isso não é
uma característica geral dos
devas; há muitos devas, e
não um; e há algo superior
a todos os devas, que não é
um deva supremo, e sim
Brahman – o Absoluto, o
Ser incompreensível.
Todos os devas são diferentes manifestações de uma Realidade única, Brahman. Todos eles são, de
Todos os devas são diferentes manifestações de
uma Realidade única, Brahman. Todos eles são, de
certa forma, equivalentes; e qualquer um deles
pode ser considerado como o deva supremo, como
a essência de todos os outros devas, ou como a
representação desse Absoluto.
“Eles o chamam de Indra, Mitra, Varu a, Agni, e
ele é Garutmān, de nobres asas.
Os sábios dão muitos nomes ao uno, chamando-
o de Agni, Yama, Mātariśvan.”
(Ṛg-Veda I.164,46)
A palavra “deva” costuma ser traduzida por “deus”, mas devemos tomar cuidado para não confundir
A palavra “deva” costuma ser traduzida por “deus”,
mas devemos tomar cuidado para não confundir os
devas com a ideia judaico-cristã de Deus. Os devas
não são como o Deus bíblico, que é o criador do
universo, é único e não há nada superior a ele.
A palavra Brahman vem do verbo bṛh que significa tornar forte ou fazer crescer. Bṛh
A palavra Brahman vem do verbo bṛh que significa
tornar forte ou fazer crescer. Bṛh significa também
um som como o do trovão, ou do elefante; uma
fala sagrada, oração. Brahman pode significar um
texto sagrado (um mantra ou trecho dos Vedas).
No entanto, no contexto filosófico desenvolvido a
partir do Atharva-Veda, Brahman é um ser
espiritual eterno, auto-existente (svayambhu), que
não tem forma (amūrta), o Absoluto, o Grandioso
(mahat), o Supremo (parama), aquilo que está
além de tudo o que conhecemos (para).
Brahman não tem tradução. Não significa deus. Brahman é uma palavra neutra (nem masculino, nem
Brahman não tem tradução. Não significa deus.
Brahman é uma palavra neutra (nem masculino,
nem feminino). Há muitas divindades masculinas e
femininas no Hinduísmo (devas e devīs). Brahman
é um conceito totalmente diferente. Brahman é
único, os devas e devīs são muitos.

15/03/2016

15/03/2016 Os devas e devīs não são eternos, eles surgem no início de cada ciclo do
Os devas e devīs não são eternos, eles surgem no início de cada ciclo do
Os devas e devīs não são eternos, eles surgem no
início de cada ciclo do universo e desaparecem no
final de cada um desses ciclos. Brahman não surge
nem desaparece, é a única realidade permanente.
Cada um dos devas é uma manifestação ou aspecto do Ser supremo, que foi denominado
Cada um dos devas é uma
manifestação ou aspecto do
Ser supremo, que foi
denominado Brahman nas
Upaniṣads.
Cada um deles é, na verdade, o
Ser supremo na sua
totalidade, e engloba assim
todos os outros devas.
“Este é o seu título mais
glorioso, ó sábio, que todas
as divindades residem em
Indra.” (RV III.54.17)
Brahman (não confundir com Brahmā) não é representado por imagens, não tem templos dedicados a
Brahman (não confundir com Brahmā) não é
representado por imagens, não tem templos
dedicados a ele, ninguém faz orações ou pedidos a
Brahman, nem são feitos rituais para Brahman.

Brahman não é um deus criador, mas tudo surge a partir de Brahman, no início de cada ciclo do universo. Os próprios devas surgem a partir de Brahman.

tudo surge a partir de Brahman , no início de cada ciclo do universo. Os próprios
Brahman não é visível, mas está presente em todas as coisas que vemos.
Brahman não é visível, mas está presente em
todas as coisas que vemos.

15/03/2016

Brahman é uma Realidade que não pode ser atingida pelo pensamento, não pode ser definida
Brahman é uma Realidade que não pode ser
atingida pelo pensamento, não pode ser definida
conceitualmente.
No Vedānta, Brahman é descrito como sendo
realidade, consciência e beatitude
(sat, cit, ānanda).
Īśvara é um deva que é considerado o soberano do universo. Īśvara não é um
Īśvara é um deva que é
considerado o soberano do
universo.
Īśvara não é um nome
próprio de um deva
específico, é a designação
daquele deva (ou devī) que
uma pessoa considera como
o ser divino superior.
Pode ser Śiva, pode ser
Viṣṇu, Śakti ou qualquer
outro deva ou devī.
Na Índia atual, muitos hindus consideram Viṣṇu como o deva supremo, e, nesse caso, ele
Na Índia atual, muitos hindus consideram Viṣṇu
como o deva supremo, e, nesse caso, ele é
chamado de Īśvara. Para outros hindus, Īśvara é
Śiva; para outros, é Gaṇeśa, ou Sūrya.
O conceito de Brahman é bastante difícil de ser captado. Além disso, como Brahman não
O conceito de Brahman é
bastante difícil de ser
captado. Além disso,
como Brahman não é
uma divindade, não pode
haver culto a Brahman.
Ele está distante do ser
humano.
Mas há um ser que
preenche a distância
entre o homem e
Brahman: Īśvara
Brahman é a essência fundamental de todos os devas e Īśvara é o deva principal.
Brahman é a essência fundamental de todos os
devas e Īśvara é o deva principal. Īśvara
representa, para o devoto, o próprio Brahman, em
uma forma ou manifestação particular.
Para os devotos de divindades femininas, em vez de Īśvara as pessoas se referem a
Para os devotos de divindades femininas, em vez de
Īśvara as pessoas se referem a Īśvarī, a Soberana,
que pode ser Pārvatī ou Durgā, por exemplo.

15/03/2016

Para cada devoto, Īśvara é uma espécie de porta capaz de conduzi-lo ao Absoluto, Brahman.

Para cada devoto, Īś vara é uma espécie de porta capaz de conduzi-lo ao Absoluto, Brahman.
Dentre todos os devas e devīs, cada pessoa pode escolher alguma divindade específica com a
Dentre todos os
devas e devīs, cada
pessoa pode
escolher alguma
divindade
específica com a
qual tem mais
afinidade, e que
passa a considerar
como sendo o deva
supremo, Īśvara.
Bhakti Yoga (o Yoga da devoção) é um dos métodos tradicionais mais importantes de libertação
Bhakti Yoga (o Yoga da
devoção) é um dos métodos
tradicionais mais importantes
de libertação espiritual.
Este método consiste em uma
dedicação integral de sua vida
a uma divindade, Īśvara, com
a qual o devoto (bhākta)
estabelece uma forte conexão
afetiva.
A divindade escolhida
(Iṣṭadevatā) pode ser Śiva,
Viṣṇu, Śakti, etc.
Há uma grande variedade de devas e devīs, mas todos são diferentes manifestações do Absoluto,
Há uma grande variedade de devas e devīs, mas
todos são diferentes manifestações do Absoluto,
Brahman.
O culto a Īśvara é a prática fundamental do Bhakti-Yoga, ou Yoga devocional. No entanto,
O culto a Īśvara é a
prática fundamental
do Bhakti-Yoga, ou
Yoga devocional.
No entanto, em
muitos outros tipos
de Yoga, como o
Rāja-Yoga de
Patañjali [ver caps.
6 e 7], também há
práticas de devoção
a Īśvara.
De acordo com a tradição Vīraśaiva, o caminho espiritual dos bhāktas passa por seis fases
De acordo com a tradição Vīraśaiva, o
caminho espiritual dos bhāktas passa
por seis fases (sthala), comparadas a
degraus de uma escada.

15/03/2016

As duas primeiras fases estão relacionadas à renúncia (tyāga) aos interesses mundanos. É o período
As duas primeiras fases
estão relacionadas à
renúncia (tyāga) aos
interesses mundanos.
É o período durante o
qual o bhākta começa a
se esforçar e dedicar ao
culto de Īśvara movido
por sua fé e pelos
ensinamentos recebidos.
Etapa 2. Naiṣṭika-bhakti. A segunda fase é de disciplina (niṣṭhe), o esforço se volta para
Etapa 2. Naiṣṭika-bhakti. A
segunda fase é de disciplina
(niṣṭhe), o esforço se volta para
a obtenção de sabedoria ou
conhecimento (jñāna),
especialmente através de um
mestre ou guru. Esse mestre,
que é considerado como um
representante do próprio
Īśvara, guia essa etapa de
evolução do devoto. É o
período no qual ocorrem mais
tentações e dificuldades, pelas
imperfeições humanas.
Etapa 4. Anubhāva-bhakti. Na quarta fase, ocorre a experiência mística (anubhāva) pela qual o devoto
Etapa 4. Anubhāva-bhakti. Na
quarta fase, ocorre a experiência
mística (anubhāva) pela qual o
devoto capta a presença da
divindade sob a forma do poder
primordial (ādiśakti) dentro de si
próprio e no universo que o cerca,
enchendo-se de compaixão. Sua
atenção se volta principalmente
para dentro. Seu coração se
purifica, por isso ele começa a ver
a divindade dentro de si mesmo.
É uma fase na qual o devoto tem
vivências de dhyāna, sua buddhi
desperta, ele possui vivências
diretas (bhāva).
Etapa 1. Sad-bhakti. Na primeira delas, o que move o devoto (bhākta) é a fé
Etapa 1. Sad-bhakti. Na primeira delas, o que
move o devoto (bhākta) é a fé (śraddha),
juntamente com um sentimento inicial de
devoção (bhakti). A pessoa se dedica a atividades
devocionais, está voltada para o exterior, para a
ação, mas ainda não atingiu uma vivência de
contato com a divindade, e sente sua total miséria
por isto.
Etapa 3. Avadhāna-bhakti. Na terceira fase, o devoto recebe diretamente a ajuda ou o favor
Etapa 3. Avadhāna-bhakti. Na terceira fase, o
devoto recebe diretamente a ajuda ou o favor
(prasāda) de Īśvara, percebendo a existência de
uma vontade divina (īcchāśakti) externa. O
universo está repleto deste poder, todas as coisas
são oferecimentos e
todos os atos são
rituais feitos para
Īśvara. As ações
deixam de ser dirigidas
por desejos ou
intenções, a pessoa
renuncia a tudo.
Etapa 5. Ānanda-bhakti. Ocorre a entrega (śaraṇa) do bhākta ao poder divino supremo (parāśakti), atingindo
Etapa 5. Ānanda-bhakti.
Ocorre a entrega (śaraṇa) do
bhākta ao poder divino
supremo (parāśakti),
atingindo uma extrema
felicidade e completude
(ānanda). No entanto, esse
estado não é permanente, e a
pessoa vai e volta, sofrendo
quando sente a separação em
relação a Īśvara. O devoto e a
divindade ainda não se
uniram, eles se encontram
mas estão separados.

15/03/2016

Etapa 6. Samarasa-bhakti. Por fim, há a unificação (aikya) do bhākta com Īśvara. A pessoa
Etapa 6. Samarasa-bhakti. Por
fim, há a unificação (aikya) do
bhākta com Īśvara. A pessoa se
identifica com a consciência
suprema (citśakti). Não existe
mais culto, porque não há
alguém fora para receber esse
culto. O devoto se dissolve,
perdendo sua identidade, em
Īśvara, como o espaço se
unindo ao espaço, ou a água à
água. A palavra samarasa
significa ter a mesma essência.
O Bhakti-Yoga é um dos métodos de libertação recomendados na Bhagavad-Gītā.
O Bhakti-Yoga é um dos métodos de
libertação recomendados na
Bhagavad-Gītā.
O ātman não é individual, é igual para todos os seres humanos. A essência permanente
O ātman não é individual, é igual para todos os
seres humanos. A essência permanente distintiva
de cada ser vivo é sua individualidade, ahaṁkāra,
que é uma “camada” ou “envoltório” mais externo
que o ātman. Há também outras camadas
Etapa 6. Samarasa-bhakti.
Etapa 6. Samarasa-bhakti.
Outra ideia importante do é a conexão entre as pessoas e a divindade. Cada ser
Outra ideia importante do é a conexão entre as
pessoas e a divindade. Cada ser vivo (jīva) é
diferente de todos os outros; porém, a essência
mais fundamental de todos os seres vivos (e de
todas as pessoas) é idêntica. Ela é chamada de
ātman – uma palavra que significa “eu”.
Não são apenas as pessoas que possuem ātman. Todos os animais, as plantas, as pedras,
Não são apenas as
pessoas que
possuem ātman.
Todos os animais,
as plantas, as
pedras, o chão, o
céu
todos os
seres vivos ou
inanimados
também possuem
essa mesma
essência, o ātman.

15/03/2016

O ātman é igual em todos os seres. Existe apenas um ātman, e não uma
O ātman é igual em todos os seres. Existe apenas
um ātman, e não uma diversidade deles. As
Upaniṣads ensinam que o ātman é Brahman – ou
seja, a natureza mais profunda de cada pessoa, de
cada ser vivo, é o mesmo Absoluto que é também a
essência fundamental de toda realidade.
“Eu ultrapasso todo o universo, eu, que possuo a luz dourada.” (Taittirīya-Upaniṣad III.10.6)
“Eu ultrapasso todo o universo, eu, que possuo
a luz dourada.”
(Taittirīya-Upaniṣad III.10.6)
Bhagavad-Gītā: 13.12. Eu declararei aquilo que deve ser conhecido [jñā], e por cujo conhecimento se
Bhagavad-Gītā: 13.12. Eu declararei aquilo que
deve ser conhecido [jñā], e por cujo
conhecimento se obtém a imortalidade [amṛta].
É o Brahman supremo [para], que não tem início
[anādimant] e que é dito nem ser [sat] nem não-
ser [asat].
13.13. Suas mãos [pāṇi] e pés [pāda] estão em
toda parte [sarvatas], seus olhos [akṣi], cabeças
[śiras] e bocas [mukha] estão por todos os lados
[sarvatas], ele é capaz de ouvir [ṣrutimant] em
todos os lugares. Ele envolve [āvṛ] e está
presente [sthā] em todas as coisas [sarva] do
mundo [loka].
“Aquele que é Aquilo no homem, e aquele que é Aquilo no Sol, ambos são
“Aquele que é Aquilo no homem, e aquele que é
Aquilo no Sol, ambos são um só.”
(Taittirīya- Upaniṣad III.10.4)
Assim, mergulhando no nível mais profundo de si mesma, uma pessoa pode atingir a Realidade
Assim, mergulhando no nível mais profundo de si
mesma, uma pessoa pode atingir a Realidade
última, pois o ātman é Brahman.
Bhagavad-Gītā: 13.14. Ele parece ter as qualidades [guṇa] de todos os órgãos [sarva- indriya], no
Bhagavad-Gītā: 13.14. Ele parece ter as
qualidades [guṇa] de todos os órgãos [sarva-
indriya], no entanto está livre [vivarjay] de todos
os órgãos [indriya]. Sem se prender [asakta] a
nada mas sustentando tudo [sarva-bhṛt], livre
dos poderes [guṇa] e no entanto percebendo os
poderes [guṇa-boktṛ].
13.15. Ele está fora [bahis] e dentro [antar] dos
seres [bhūta], os imóveis e os que se movem
[acara-cara]. Ele é incompreensível [avijñeya],
por sua sutileza [sukṣma-tva]. Ele está distante
[dūra], e está próximo [antika].

15/03/2016

Bhagavad-Gītā: 13.16. Ele é indivisível [avibhakta] e no entanto parece estar repartido [vibhaj] entre os
Bhagavad-Gītā: 13.16. Ele é indivisível
[avibhakta] e no entanto parece estar repartido
[vibhaj] entre os seres [bhūta]. Ele deve ser
conhecido como o sustentador dos seres [bhūta-
bhartṛ], e como devorador [grasiṣṇu] e criador
[prabha-viṣṇu].
13.17. Diz-se que ele é a luz [jyotis] das luzes
[jyotis], além das trevas [tamas]. Ele é o
conhecimento [jñāna], o que deve ser conhecido
[jñā] e a meta do conhecimento [jñāna-gam]. Ele
está sentado [viṣṭhitam] no coração [hṛd] de
todos [sarva].
Essas camadas incluem níveis como a mente (manas), as forças vitais (prāṇas) e o corpo
Essas camadas incluem níveis como a mente
(manas), as forças vitais (prāṇas) e o corpo material
– além de outras camadas que não possuem
correspondentes no pensamento ocidental. Cada ser
vivo (jīva) difere dos outros por causa dessas
camadas, embora seu ātman seja o mesmo.
Na Bhagavad-Gītā o corpo e toda a estrutura do ser humano são chamados de “campo”
Na Bhagavad-Gītā o
corpo e toda a estrutura
do ser humano são
chamados de “campo”
(kṣetra), e o ātman é
denominado kṣetrajña (o
conhecedor do campo).
O ātman é apenas uma
consciência pura, uma
testemunha ou
observador daquilo que
se passa nos nossos
outros níveis.
Como vimos, de acordo com as Upaniṣads, o ser humano tem uma estrutura complexa, com
Como vimos, de acordo com as Upaniṣads, o ser
humano tem uma estrutura complexa, com muitas
camadas ou envoltórios (kośas). Essas camadas
recobrem o ātman, por assim dizer (como uma
matryoshka).
O ātman não é ativo, não pensa, não toma decisões, não se move, não se
O ātman não é ativo,
não pensa, não toma
decisões, não se move,
não se transforma.
São as camadas ou
envoltórios que contêm
os diversos órgãos
internos e externos
responsáveis por nossas
ações.
Bhagavad-Gītā: O venerável e divino [Kṛṣṇa] disse: 13.1. Ó filho de Kuntī, este corpo [śarīra]
Bhagavad-Gītā: O venerável e divino [Kṛṣṇa]
disse:
13.1. Ó filho de Kuntī, este corpo [śarīra] é
chamado de campo [kṣetra]. Os que o conhecem
[tad-vid], chamam aquele que está consciente
dele de conhecedor do campo [kṣetrajña].
13.2. Ó Bhārata [descendente de Bharata], saiba
que eu sou o conhecedor do campo [kṣetrajña]
em todos os campos [sarva-kṣetra]. Eu
considero como [verdadeiro] conhecimento
[jñāna], o conhecimento do campo [kṣetra] e de
seu conhecedor [kṣetrajña].

15/03/2016

Bhagavad-Gītā: 13.5-6. Os [cinco] elementos grosseiros [mahā-bhūta], o órgão do eu [ahaṃkāra], o intelecto
Bhagavad-Gītā: 13.5-6. Os [cinco] elementos
grosseiros [mahā-bhūta], o órgão do eu
[ahaṃkāra], o intelecto [buddhi], e também o
não-manifesto [avyakta], os onze órgãos [indriya
– cinco órgãos sensoriais, cinco órgãos de ação e
a mente] e os cinco objetos dos sentidos
[indriya-gocara]; desejo [icchā], repulsa [dveṣa],
alegria [sukha], sofrimento [duḥkha], o
agregado [saṃghāta – corpo e órgãos],
consciência [cetanā], firmeza [dhṛti] – em
resumo, isso é o campo [kṣetra], juntamente
com suas modificações [savikāra].
As ações realizadas com boas intenções ficam armazenadas e produzem bons efeitos; as ações realizadas
As ações realizadas com
boas intenções ficam
armazenadas e produzem
bons efeitos; as ações
realizadas com más
intenções também ficam
armazenadas e depois
acarretam efeitos ruins.
A fonte das ações
positivas ou negativas é,
sempre, a vontade,
criada pelos desejos e
aversões.
Depois de morrer, o corpo sutil (liṅgam śarīra) da pessoa fica, durante algum tempo, recebendo
Depois de morrer, o corpo sutil (liṅgam śarīra) da
pessoa fica, durante algum tempo, recebendo
consequências boas e ruins do seu karman; mas há
processos que não podem ser completados sem um
corpo material, sem contato com o universo.
Ao longo de sua vida uma pessoa vai sofrendo mudanças em várias de suas camadas.
Ao longo de sua vida uma
pessoa vai sofrendo
mudanças em várias de suas
camadas. Seu corpo se
transforma, sua mente se
altera, ela adquire
conhecimentos, sua memória
acumula vivências e – de
acordo com a tradição
indiana – seus níveis internos
também mantêm registros de
suas ações (karman).
Quando a pessoa morre, normalmente ela terá um grande reservatório repleto de resíduos de karman
Quando a pessoa morre, normalmente ela terá um
grande reservatório repleto de resíduos de karman
positivo e de karman negativo que ainda não
produziram efeitos [ver também cap. 4 do “Yoga
tradicional de Patañjali”].
De acordo com o Hinduísmo, a pessoa renascerá para poder receber os efeitos desse karman,
De acordo com o
Hinduísmo, a pessoa
renascerá para poder
receber os efeitos
desse karman, e sua
vida seguinte será
condicionada, em
grande parte, pelos
resíduos (saṁskāras)
da vida anterior.

15/03/2016

Se o resíduo acumulado for negativo a pessoa renascerá em uma condição de vida inferior
Se o resíduo acumulado for negativo a pessoa
renascerá em uma condição de vida inferior –
poderia renascer como um animal ou planta, em
certos casos. Se o resíduo for positivo, ela
renascerá em uma condição de vida superior (mais
próxima da libertação espiritual).
Segundo a tradição indiana, a vida é cheia de sofrimentos, por isso ficar renascendo não
Segundo a tradição
indiana, a vida é cheia de
sofrimentos, por isso
ficar renascendo não é
uma coisa boa.
Mas é possível se libertar
do saṁsāra e obter um
estado no qual a pessoa
não precisa renascer – o
estado de libertação
(mokṣa) ou isolamento
(kaivalya).
A libertação espiritual (mokṣa) descrita no hinduísmo não pode ser obtida por boas ações. Boas
A libertação espiritual
(mokṣa) descrita no
hinduísmo não pode ser
obtida por boas ações. Boas
ações representam um
karman positivo, que
resultará em renascimento.
É a ação sem objetivos, sem
nenhuma intenção (nem boa,
nem má) que pode levar à
libertação.
Por causa disso, cada pessoa fica envolvida em um ciclo de vidas, mortes e renascimentos
Por causa disso, cada pessoa fica envolvida em
um ciclo de vidas, mortes e renascimentos de
muitos tipos, que é denominado saṁsāra.
Mokṣa ou kaivalya é uma dissolução dos vínculos com o universo e com o passado,
Mokṣa ou kaivalya é uma dissolução dos vínculos
com o universo e com o passado, na qual a pessoa
se unifica com Brahman, que é realidade,
consciência e beatitude (sat, cit, ānanda).
Uma pessoa pode fazer algo porque aquilo é o seu dever, sem estar pensando nas
Uma pessoa pode fazer
algo porque aquilo é o seu
dever, sem estar pensando
nas consequências futuras
boas ou más para si
próprio ou para a pessoa.
Esse é um exemplo de
ação sem objetivo, no
qual não se pensa a
respeito do futuro, das
consequências. Essa ação
não acumula resíduos.

15/03/2016

Porém, essa pessoa pode cumprir o mesmo dever pensando nas consequências ou resultados futuros dessa
Porém, essa pessoa pode
cumprir o mesmo dever
pensando nas
consequências ou
resultados futuros dessa
ação, para si própria ou
para outros. Nesse caso,
ela está agindo com
objetivos; essa ação vai
acumular resíduos e
produzir efeitos ou
“frutos” (phala).
Mas se a mesma pessoa, na mesma situação, der alimentos ao sādhu pensando que isso
Mas se a mesma pessoa, na
mesma situação, der alimentos
ao sādhu pensando que isso vai
fazer bem ao sādhu, ou que isso
é uma ação meritória que vai
lhe trazer boas consequências –
nesse caso, ela está agindo com
objetivos. Isso vai lhe trazer
boas consequências no futuro;
mas vai prendê-la ao saṁsāra,
não vai ajudá-la a atingir a
libertação espiritual (mokṣa).
O amor puro (prema) é outro tipo de impulso que pode levar a ações sem
O amor puro (prema) é outro tipo de impulso que
pode levar a ações sem objetivo. O exemplo mais
comum de prema é o sentimento de uma mãe por
um filho ou filha, que a leva a fazer muitas ações
sem nenhum interesse e com grande prazer. Porém,
a mesma ação, na mesma situação, pode ter
objetivos ou ser feita sem objetivos.
Suponhamos que uma pessoa vê um sādhu pedindo comida na frente de sua casa, e
Suponhamos que uma
pessoa vê um sādhu
pedindo comida na
frente de sua casa, e vai,
coloca alimentos na cuia
do sādhu, porque isso é
seu dever, sem pensar
em mais nada; nesse
caso, ela agiu sem
objetivos.
Os Vedas e outros textos da tradição indiana mais antiga prescrevem a realização de certos
Os Vedas e outros textos da
tradição indiana mais
antiga prescrevem a
realização de certos rituais
(yajña). Se o ritual for feito
apenas porque deve ser
feito, então não acumulará
uma carga para o futuro;
porém, se for realizado
com certas finalidades ou
objetivos, levará ao
acúmulo de efeitos.
A mãe pode preparar um doce para um filho ou filha simplesmente por amor; ou
A mãe pode preparar um doce para um filho ou
filha simplesmente por amor; ou pode prepará-lo
pensando que isso vai fazer a criança ficar contente
(ou seja, um objetivo futuro), ou que vai fazer com
que a criança goste mais dela (outro objetivo
futuro, e egoísta).
A intenção da
pessoa é o que
determina se ela
está agindo com
objetivos ou sem
objetivos.

15/03/2016

Suponha uma pessoa que ouve uma música e começa a dançar. Ela pode estar dançando
Suponha uma pessoa que
ouve uma música e começa
a dançar. Ela pode estar
dançando com vários
objetivos: para ser paga,
ou para ser admirada por
outras pessoas, ou para se
exercitar e ficar com um
corpo mais belo e saudável
etc.; em todos esses casos,
está dançando com um
objetivo.
Exatamente a mesma ação pode ser realizada com finalidades ou sem finalidades (ou seja, renunciando
Exatamente a mesma
ação pode ser
realizada com
finalidades ou sem
finalidades (ou seja,
renunciando às
consequências). É a
atitude interna de
renúncia (tyāga) da
pessoa que faz toda a
diferença.
O Zen-Budismo tem uma prática de arco-e-flecha que exemplifica também essa atitude: a pessoa lança

O Zen-Budismo tem uma prática de arco-e-flecha que exemplifica também essa atitude: a pessoa lança uma flecha e nem olha se ela atingiu ou não o alvo, porque o resultado de sua ação não tem importância.

Mas ela pode dançar sem nenhum objetivo, sozinha, para si própria. Nesse último caso, ela
Mas ela pode dançar
sem nenhum objetivo,
sozinha, para si
própria. Nesse último
caso, ela não vai
acumular uma carga
positiva nem negativa
e estará trilhando o
caminho para a
libertação espiritual.
Isto é um exemplo de
Karma-Yoga.
Este é um modo de pensar completamente diferente do nosso, mas que está presente também
Este é um modo de pensar
completamente diferente do
nosso, mas que está presente
também em outras tradições
(como a não-ação do Taoísmo
e no T'ai chi ch'uan). É muito
difícil compreender e aceitar
esse conceito da ação sem
objetivos. Precisamos nos
desprender do nosso modo
usual de pensar, para poder
captar essa nova ideia.
Na Bhagavad-Gītā a palavra Yoga é uma designação genérica aplicada a qualquer prática ou método
Na Bhagavad-Gītā
a palavra Yoga é
uma designação
genérica aplicada a
qualquer prática ou
método de
transformação
espiritual em
direção à libertação
(mokṣa) do ciclo de
renascimentos
(saṁsāra).

15/03/2016

A realização de atividades sem qualquer objetivo (por exemplo: lutar), é um dos métodos para
A realização de atividades sem qualquer objetivo
(por exemplo: lutar), é um dos métodos para a
obtenção de mokṣa. Por isso, ela é considerada
como um tipo de Yoga, chamado Karma-Yoga.
Capítulo 1 – Arjuna-viṣāda-yogaḥ – O Yoga da fraqueza de Arjuna Capítulo 2 – Sāṅkhya-yogaḥ
Capítulo 1 – Arjuna-viṣāda-yogaḥ – O Yoga da
fraqueza de Arjuna
Capítulo 2 – Sāṅkhya-yogaḥ – O Yoga da
discriminação
Capítulo 3 – Karma-yogaḥ – O Yoga da ação
Capítulo 4 – Jñāna-karma-saṃnyāsa-yogaḥ – O
Yoga da sabedoria da renúncia à ação
Capítulo 5 – Saṃnyāsa-yogaḥ – O Yoga da
renúncia
Capítulo 6 – Ātma-saṃnyāsa-yogaḥ – O Yoga do
autocontrole completo
e assim por diante.
A Bhagavad-Gītā trata, em muitos pontos, sobre os guṇas, e indica a importância de que
A
Bhagavad-Gītā trata, em muitos pontos, sobre
os
guṇas, e indica a importância de que cada
pessoa vá reduzindo os aspectos tamas e rajas de
sua vida e aumentando sattva, como parte de
sua caminhada espiritual.
Dedicar-se de corpo e alma à devoção (bhakti) pela divindade (Īśvara) é também um método
Dedicar-se de corpo e alma
à devoção (bhakti) pela
divindade (Īśvara) é
também um método que
conduz à libertação
espiritual, chamado de
Bhakti-Yoga.
Esses dois métodos
espirituais (Karma-Yoga e
Bhakti-Yoga) não têm
qualquer relação direta com
práticas físicas ou com
processos de meditação.
No entanto, não se pode dizer que a Bhagavad- Gītā apresente um tipo diferente de
No entanto, não se pode dizer que a Bhagavad-
Gītā apresente um tipo diferente de Yoga em cada
um dos seus dezoito capítulos. Não são dezoito
caminhos diferentes para a libertação espiritual, e
sim dezoito apresentações diferentes de alguns dos
caminhos para essa libertação.
Aumentar sattva não é a mesma coisa que atingir a libertação (mokṣa ou kaivalya). O
Aumentar sattva não é a
mesma coisa que atingir a
libertação (mokṣa ou
kaivalya). O aumento de
sattva reduz os desejos e
impulsos egoístas (rajas), e
também reduz a ignorância
e a preguiça (tamas);
contribui, assim, para a
realização de ações sem
objetivos. São essas, por
sua vez, que podem levar à
libertação espiritual.

15/03/2016

É importante compreendermos os três guṇas, suas características e diferenças; e começar a observar sua
É importante compreendermos os
três guṇas, suas características e
diferenças; e começar a observar
sua ação em nós e à nossa volta.
A Bhagavad-Gītā tem três
capítulos que tratam essa temática
de modo detalhado, com muitos
exemplos: capítulos 14, 16 e 17.
Por outro lado, se quiser, pode tentar aproveitar esta vida para atingir a libertação espiritual.
Por outro lado, se
quiser, pode tentar
aproveitar esta vida
para atingir a
libertação espiritual.
Depende de você,
não depende de
qualquer outra
pessoa. Os vários
tipos de Yoga estão
aí, para quem quiser
usá-los.
Você não precisa se apressar, se não quiser. Você já existe desde o início do
Você não precisa se
apressar, se não
quiser. Você já
existe desde o
início do universo,
já teve milhões de
vidas. Pode
demorar outros
milhões de vidas
para começar a
buscar a libertação
espiritual.
teve milhões de vidas. Pode demorar outros milhões de vidas para começar a buscar a libertação