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A velha e a nova solidariedade (5.12-21)

Franklin Ferreira

Paulo passa a descrever a duas comunidades que passaram a existir a partir da intervenção divina na cruz.

A primeira, que inclui tanto gentios quanto judeus, é caracterizada pelo pecado e pela condenação, e a

segunda, composta pelos descendentes da fé que teve Abraão (tanto os circuncisos quanto os incircunci- sos), que é caracterizada pela graça e pela fé. O apóstolo ensina aqui que a primeira comunidade está em Adão e a segunda em Cristo. A analogia que Paulo traça nestes versos, entre Adão e Cristo, tem por obje- tivo demonstrar o princípio pelo qual muitos podem ser afetados, seja para o bem, seja para o mal, pelo

ato de uma só pessoa. Assim, veremos neste texto como Paulo desenvolve sua analogia entre Adão e Cristo, os respectivos cabeças da antiga e da nova humanidade.

1) Tema (incompleto) (5.12): Neste longo argumento, o apóstolo estabelece duas solidariedades: por um lado, ele estabelece a nossa solidariedade com o primeiro Adão. Por outro lado, a solidariedade com o segundo Adão (Jesus). A expressão “muito mais” é usada para demonstrar a superioridade da segunda solidariedade. Na primeira, fomos feitos ofensa a Deus (5.15). Na segunda, justificação (5.16).

Paulo liga o que vai dizer com o parágrafo anterior (“portanto”) e desenvolve o tema a partir da condição humana antes da reconciliação (a humanidade em Adão). Ele explica como foi que o pecado entrou no mundo e as conseqüências disto.

“Porquanto todos pecaram” tem sido interpretada por alguns como significando que cada pessoa escolhe

pecar, e as palavras gregas não são perfeitamente claras, mas é difícil evitar a conclusão que, de alguma maneira, todos pecaram em Adão. Há uma ligação entre o pecado de Adão e a situação da raça humana. Calvino: “Isto é o que se chama pecado original. Assim como Adão, em sua criação primitiva, recebeu tanto para sua progênie quanto para si mesmo os dons da divina graça [= divine gratiae dotes], também, ao rebelar-se contra o Senhor, inerentemente corrompeu, viciou, depravou e arruinou nossa natureza – tendo perdido a imagem de Deus [= abdicatus a Dei similitudine], e a única semente que poderia ter pro- duzido era aquela que traz a semelhança consigo mesmo [= sui simile]. Portanto, todos nós pecamos, vis-

to que nos achamos saturados da corrupção natural, e por esta razão somos ímpios e perversos”. 1

Paulo começa aqui a fazer uma comparação que não será concluída senão em Rm 5.18-21. A comparação foi interrompida por uma meditação que vai até 5.17.

2) Parênteses sobre o pecado (5.13-14): Aqui temos a explicação sobre o pecado mencionado em 5.12. No período entre Adão e Moisés, a morte era uma realidade. Como conclusão, havia pecado mesmo no período anterior à lei (Gn 2.16s). Adão é um tipo de Cristo quanto à universalidade dos efeitos de sua obra em relação à toda humanidade.

1 Três argumentos podem ser dados para apoiar esta interpretação: a) O texto de 5.13-14 ensina que o pecado antecedeu a lei de longa data, tal como Adão antecedeu Moisés. Ainda que não tivessem a lei, todos morreram (a referência é claramente à morte física), e a morte é um castigo pelo pecado. Só pode haver uma explicação. Todos morreram porque todos pecaram em e atra- vés de Adão, o representante ou cabeça da raça humana; b) O contexto mais amplo, especialmente 5.1-19, afirma que a trans- gressão ou desobediência de um homem trouxe morte, julgamento ou condenação para todos os homens. 5.19 decide a questão:

“muitos morreram por causa da transgressão de um só”. Ou seja, a morte universal é atribuída a um só e único pecado; c) A analogia entre Adão e Cristo, e entre aqueles que estão em Adão e os que estão em Cristo. Se a morte sobrevém a todos por eles pecarem como Adão, então, por analogia, nós teríamos de dizer que a vida sobrevém a todos porque eles são justos como Cristo. Mas isto afetaria o caminho da salvação. Charles Hodge disse: “Desde o início da epístola Paulo vem tentando inculcar

) As-

uma idéia básica, ou seja: o motivo pelo qual Deus aceita o pecador não é o próprio pecador, mas o mérito de Cristo. (

sim como nós somos condenados em virtude do que Adão fez, assim somos justificados por causa do que Cristo fez”. Estes três argumentos (a partir do texto, do contexto e da analogia) parecem suportar decisivamente a visão de que “todos pecaram em e por meio de Adão”. D. M. Lloyd-Jones resumiu a racionalidade disso nas seguintes palavras: “Deus já procedeu com a humanidade por intermédio de um cabeça e representante. A história inteira da raça humana pode ser resumida em termos daquilo que aconteceu por causa de Adão, e pelo que aconteceu e ainda há de acontecer por causa de Cristo”.

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Paulo parece afirmar que mesmo aqueles que não pecaram, no sentido em que eles não quebraram a lei dada por Deus, ainda assim morreram por causa do pecado de Adão (5.14). A condenação vem de somen- te uma “ofensa” (ou “transgressão” ou “passo em falso”), a de Adão. Paulo não explicou como a humani- dade se viu envolvida com Adão, em seu pecado, mas simplesmente afirmou o fato – todos os homens pecaram em Adão. Mas a graça provém de muitas ofensas, ofensas essas dirigidas ao representante de uma nova humanidade: Jesus Cristo (1Co 15.45-49; Hb 2.14-18).

Para melhor explicar este assunto, poderíamos dizer que assim como nós fomos justificados por causa do que Cristo fez, assim também nós fomos inicialmente condenados por causa do que Adão fez. Como e- xemplo prático desta questão, podemos lembrar do episódio narrado em Josué 7.1-11, quando Acã furtou parte do tesouro de Jericó, que por decreto de Deus era destinado à destruição. Neste texto nós lemos que “os filhos de Israel prevaricaram” e em conseqüência, “a ira do Senhor se acendeu contra os filhos de Israel”. Ou seja, o pecado de Acã teve implicações sobre toda a nação de Israel.

Paulo encerra esta parte da sua analogia fazendo uma breve referência ao fato de que Adão “prefigurava aquele que havia de vir”, ou seja, ele nos ensina que, assim como Adão é o cabeça da humanidade peca- dora, assim também Cristo é o cabeça da humanidade salva, por intermédio da sua morte. Ou, de outra forma, Adão é o cabeça da era da morte, e Cristo é o cabeça da era da vida.

3) A diferença entre Adão e Cristo (5.15-17): Aqui, o que Paulo apresenta é na verdade uma antítese entre os feitos dos dois cabeças mencionados no final do versículo anterior (vs.14). A similaridade entre esses dois cabeças reside apenas no fato de que foi através do feito de um único homem (Adão ou Cristo), que um sem-número de pessoas foi afetado. Depois de mencionar a única semelhança entre Adão e Cristo (quanto ao alcance universal dos efeitos de sua obra), Paulo explica as diferenças entre ambos, para evitar qualquer confusão:

a. Paulo nos mostra que por meio da transgressão de Adão, muitos morreram, mas, por meio da dádiva de

Cristo, muitos recebem graça (5.15): a natureza do que ambos fizeram foi diferente, pois não existe com- paração possível entre o “dom gratuito” e a “ofensa” (transgressão). Se pelo pecado de um só homem

(Adão), muitos morreram, muito mais a graça de Deus, proveniente do sacrifício de um só homem (Cris- to), foi abundante sobre muitos.

b. Por meio da transgressão de Adão, recebemos condenação, mas Cristo leva nossas transgressões, por

isto recebemos justificação (5.16): o efeito imediato do que os dois cabeças fizeram foi também diferente. No caso de Adão, o julgamento de Deus trouxe condenação; no caso de Cristo, a graça trouxe justifica- ção. Entretanto, este contraste é ainda maior, pois o julgamento de Deus veio por um pecado, enquanto que a graça decorreu de muitas transgressões.

c. Por meio da transgressão de Adão, recebemos morte, e por meio da dádiva de justiça de Cristo, rece-

bemos vida (5.17): Paulo ressalta a diferença do resultado final dos atos dos dois cabeças. Através da o- fensa de um só (Adão) “reinou a morte”; através do sacrifício de um só (Cristo) “reinou a vida”. As pala- vras “muito mais”, demonstram a superabundância da graça em face da ocorrência do pecado.

Não somente os atos entre eles são antagônicos, mas a graça da obra de Cristo é vista como maior do que o pecado, o julgamento e a condenação de Adão, visto que Cristo trouxe justificação, retidão e vida. João Calvino: “Para desfrutar da justiça de Cristo é indispensável ser crente, posto que a nossa comunhão [= consortium] com ele é alcançada pela fé. Esta mesma comunhão com Cristo é comunicada às crianças de maneira peculiar. Elas gozam do direito de adoção no pacto, por meio do qual elas entram em comunhão com Cristo [= in Christi communionem]. Estou referindo-me aos filhinhos dos fiéis, a quem a promessa da graça é dirigida. Os demais não se acham de forma alguma isentos da sorte comum [do gênero huma- no]”.

4) Completa o tema iniciado em 5.12 e expande 5.18 (5.18-19): Destes versos em diante nós podemos notar que Paulo passa a usar expressões comparativas como, “assim também”, “pois assim como”, “por-

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que como”, indicando que o apóstolo quer, agora, destacar a única similaridade entre Adão e Cristo: o ato isolado de um único homem determinando o destino de muitos.

O verso 18a resume 5.12; 18b completa 5.12. O alcance da graça está em evidência aqui. A condenação é

real (como com Adão), mas não irremediável. Em Cristo, a justificação é acessível a todos, embora nem todos venham a ser justificados. Em vez de propor a compensação ao pecado de Adão com a obediência de Cristo (5.19), Paulo prefere mostrar que houve expiação, ou seja, toda a ofensa do primeiro Adão foi jogada sobre o segundo. Há uma comparação e um contraste nestes versículos entre Cristo e Adão: em cada caso, a ação é uma, de uma só pessoa, e é decisiva, e tem implicações para todos (ou, pelo menos,

muitos). O contraste está nos resultados: morte, ofensa, desobediência e condenação ou o dom gratuito, graça obediência e a vida eterna (5.17-19).

“Diante de Deus”, dizia Thomas Goodwin que, no século dezessete, foi presidente do Magdalen College, em Oxford, “há dois homens – Adão e Jesus Cristo – e todos os outros homens estão pendurados nos cin- turões deles dois”.

5) Conclusão (lei) (5.20-21): O triunfo da graça de Deus sobre a lei é evidente à luz do que foi dito (5.20- 21). A lei só ressalta o pecado – a graça transbordante de Deus torna reversíveis os efeitos do pecado pela morte de Jesus Cristo.

Na sua última comparação (5.21), Paulo contrasta a vida e a morte como alternativas supremas. Assim

como o pecado reinou através da morte, “assim também”, a graça reinou produzindo a vida eterna. Este é

o resultado final da obra de cada um dos cabeças comparados. O pecado de Adão produzindo morte, e o sacrifício de Cristo acarretando vida eterna.

O paralelo entre Cristo e Adão é visto assim: todos os membros da raça humana recebem a culpa de A-

dão, porque ele é o representante da raça humana. Mas Cristo é o segundo Adão, o fundador de uma nova raça, a raça cristã. Adão não passou no teste, mas Cristo passou, e todos os membros da raça cristã rece- bem os benefícios da sua vitória, recebendo a justiça de Cristo, porque existe uma solidariedade entre o representante e o os membros da raça. Uma pessoa se torna um membro da raça humana por nascimento (“todos”, 5.18). Uma pessoa se torna um membro da raça cristã por meio de um novo nascimento (“to- dos”, 5.18, mas todos “que recebem”, 5.17).

Vivemos na época que enfatiza o individuo e a responsabilidade individual. Por causa disso, é difícil acei- tar a idéia que o pecado de Adão nos torna pecadores. Nós queremos pensar que as ações e decisões das outras pessoas não podem nos afetar. Mas isso não é verdade. As ações do pai afetam a família. As ações do pastor afetam a igreja. Cada dia, de milhares de maneiras, fazemos uma diferença para o bem ou para

o mal na vida das outras pessoas. Então, como diz o Breve Catecismo de Westminster, “a pecaminosidade

do estado em que o homem caiu consiste na culpa do primeiro pecado de Adão, na falta de retidão origi-

nal e na corrupção de toda a sua natureza, o que ordinariamente se chama pecado original, juntamente com todas as transgressões atuais que procedem desse estado”. Não temos uma natureza inocente. Quan- do consideramos a pergunta “por que todos pecam?” é difícil evitar a conclusão de que alguma coisa a- conteceu quando Adão pecou, que tornou o pecado uma parte inevitável da vida de cada pessoa. Real- mente não temos a mesma escolha que Adão teve. Parece injusto para nossa época individualista, mas podemos dizer a mesma coisa sobre a morte de Cristo em nosso lugar. Precisamos aceitar que não pode- mos existir sozinhos. Adão teve um lugar especial, mas nós também afetamos uns aos outros. Este é um fato da vida.

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