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GRAGOATÁ

n. 34

1 o semestre 2013

Política Editorial

A

Revista Gragoatá tem como objetivo a divulgação nacional e internacional

de

ensaios inéditos, de traduções de ensaios e resenhas de obras que representem

contribuições relevantes tanto para reflexão teórica mais ampla quanto para a análise de questões, procedimentos e métodos específicos nas áreas de Língua e Literatura.

ISSN 1413-9073

Gragoatá

Niterói

n. 34

p. 1-372

1. sem. 2013

© 2012 by

Programas de Pós-Graduação do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense Direitos desta edição reservados à– Editora da UFF – Rua Miguel de Frias, 9 – anexo – so- breloja – Icaraí – Niterói – RJ – CEP 24220-900 – Tel.: (21) 2629-5287 – Telefax: (21)2629-5288 http://www.editora.uff.br – E-mail: secretaria@editora.uff.br

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Organização:

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Emendas e diagramação:

Káthia M. P. Macedo

Coordenação editorial:

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Periodicidade:

Semestral

Tiragem:

400 exemplares

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação

Editora

filiada à

de Catalogação na Publicação Editora filiada à G737 Gragoatá. Publicação dos Programas de
de Catalogação na Publicação Editora filiada à G737 Gragoatá. Publicação dos Programas de

G737

Gragoatá. Publicação dos Programas de Pós-Graduação do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense.— n. 1 (1996) - . — Niterói : EdUFF, 2014 – 26 cm; il. Organização: Bethania Mariani, Vanise Medeiros Semestral ISSN 1413-9073 1. Literatura. 2. Linguística.I. Universidade Federal Fluminense. Programas de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem e Estudos de Literatura.

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GRAGOATÁ

n. 34

1 o Semestre 2013

Sumário

Apresentação

7

Vanise Medeiros, Bethania Mariani

ARTIGOS

Disciplinarização dos Estudos em Análise de Discurso

15

Bethania Mariani, Vanise Medeiros

A

emergência do sujeito desejante no discurso do MST

27

Freda Indursky

Au nom des noms. Mémoire et démémoire discursives en résistance

39

Marie-Anne Paveau

O

vazio como condição: um movimento de sentidos

a partir do horror

61

Lucília Maria Abrahão e Sousa

Desejo de desejo na mercadoria e o olhar do artista

77

Luciene Jung de Campos

Materialidades discursivas e o funcionamento da ideologia e do inconsciente na produção de sentidos

95

Belmira Magalhães, Helson Flávio da Silva Sobrinho

Arquivo, memória e acontecimento em uma política de Fundos Documentais

113

Amanda E. Scherer, Simone de Mello de Oliveira, Verli Petri, Zélia Maria Viana Paim

Para além do efeito de circularidade: interpretando as noções de pré-construído e articulação a partir de enunciados idem

per idem

131

Aracy Ernst-Pereira, Ercília Ana Cazarin, Marchiori Quevedo

Uma análise discursiva de sujeitos com gagueira

145

Nádia Pereira da Silva Gonçalves de Azevedo

Discurso sobre a criança: a questão do ludicismo

167

Angela Baalbaki

Processos, modos e mecanismos da identificação entre o sujeito e a(s) língua(s)

183

Maria Onice Payer

Identificação, memória e figuras identitárias: a tensão entre a cristalização e o deslocamento de lugares sociais

197

Evandra Grigoletto, Fabiele Stockmans De Nardi

Corpo, trabalho e prazer: as práticas de prostituição em cadastros policiais

215

Fernanda Surubi Fernandes, Olimpia Maluf Souza

A

milícia e o processo de individuação: entre a falta

e

a falha do Estado

235

Greciely Cristina da Costa

Das línguas na história: “Upatakon (Nossa Terra)

253

Maria do Socorro Pereira Leal

A

interface linguagem/mundo como produção simultânea:

quando estudantes enfrentam a administração central em uma universidade pública

263

Bruno Deusdará, Décio Rocha

Análise discursiva do Plano de Desenvolvimento

Institucional do CEFET/RJ: uma proposta de resistência

a

um discurso institucional hegemônico

281

Fábio Sampaio de Almeida Maria Cristina Giorgi

O significado acional no discurso da Constituição Brasileira: o gênero discursivo normativo constitucional em questão

299

Ruberval Ferreira, Maria Clara Gomes Mathias

A

biopolítica dos corpos na sociedade de controle

317

Regina Baracuhy, Tânia Augusto Pereira

A

pequena família guineana: abordagem discursiva do

continuísmo histórico num discurso pela independência

331

Beatriz Adriana Komavli de Sánchez

RESENHAS

Foi “análise de discurso” que você disse?

345

Silmara Dela Silva

Gumbrecht: latência na história

351

José Luís Jobim

ORGANIZADORES DESTE NÚMERO

355

COLABORADORES DESTE NÚMERO

356

NORMAS DE APRESENTAÇÃO DE TRABALHOS

369

Apresentação

Esta revista tem como fio condutor estudos contemporâneos em Análise de Discurso, contemplando tanto artigos que se inscrevem no quadro teórico da Análise de Discurso iniciada por Pêcheux e reterritorializada por Orlandi quanto artigos de lugares teóricos outros afins, como a História das Ideias Linguísticas, e ainda aqueles desenvolvidos também sob o termo discurso, como os estudos discursivos com base em Foucault, Maingueneau, Bakhtin, Deleuze e Fairclough. Nela podem ser lidos artigos que concernem à questão do sujeito, da nomeação e do inominável, do nome próprio, do real, do desejo, da ideologia, do arquivo, da memória, da prática científica, da língua, do enunciado, da identificação, bem como artigos que refletem sobre a questão da arte, do corpo, da doença, da criança, do aprendizado de línguas, da criminalização, da violência, do Estado, da terra, dos índios, da propaganda política, das instituições de ensino, da Constituição Brasileira e da sociedade de controle e disciplinar. No primeiro artigo desta Revista, “Disciplinarização dos estudos em Análise do Discurso”, Mariani e Medeiros, as organizadoras, refletem sobre o estado atual das pesquisas em Análise de Discurso no Brasil. Advertem sobre a homonímia do termo ‘discurso’, ‘Análise do Discurso’, dentre outros, apontando, por isso, ser crucial pensar a história de uma disciplina a partir de sua historicidade ("memória da conjuntura teórica que a constitui"), do processo de sua disciplinarização como produção de saber ("os mecanismos político-acadêmicos que a intitucionalizam, permitindo sua transmissão"), e das "tênues linhas que projetam seu porvir", para que se possa refletir sobre produção de conhecimento e sua transmissão. Apontam ainda que, para se desfazerem as evidências que deixam essa transmissão da produção de conhecimento como discursos sem sujeito, é preciso compreender as condições de produção de emergência de uma disciplina. E que, no caso da Análise de Discurso, essa discussão não se poderá fazer sem Eni Orlandi e Michel Pêcheux, dada sua relevância na fundação e construção de discursividades sobre o funcionamento da linguagem em sua relação constitutiva com a história e a ideologia. No artigo “A emergência do sujeito desejante no discurso do MST”, Freda Indursky promove uma reflexão assaz importante para os estudiosos da Análise de Discurso: debruça-se sobre o sujeito discernindo, em seu fecundo trabalho teórico-analítico, a questão da incompletude, da heterogeneidade e da divisão do sujeito. Dando continuidade a uma pesquisa, que tem

como objeto de investigação o discurso do/sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na mídia, a autora recupera as designações invasão/ocupação para analisar o jogo metafórico do deslizamento de uma designação a outra no discurso de uma liderança do MST, ou ainda, a irrupção do

discurso-outro em uma posição discursiva que interdita tal dizível. Marie-Anne Paveau, em seu atigo, “Au nom des noms. Mémoire et démémoire discursives en résistance”, centra sua reflexão teórica na questão do nome próprio. Recuperando cinco nomes próprios em diferentes suportes e materiais imagéticos – grafite na rua, inscrição em lápide de cemitério, nome em lista de nomes no “Mur des disparus français d’Algérie”, nomeação na lista de Legião de Honra pelo Ministro de Ensino Superior e de Pesquisa do governo francês e o nome de uma universidade francesa – para mostrar em sua análise, que parte da noção de memória discursiva de Courtine e na qual proprõe a noção de desmemória discursiva, cinco maneiras de resistir às normas, aos poderes e aos desaparecimentos. Em “O vazio como condição: um movimento de sentidos

a partir do horror”, um artigo ao mesmo tempo fecundo e belo, Lucília Maria Abrahão e Sousa se debruça sobre o conceito de Das Ding, em Freud e Lacan, instância do real e do inominável,

e, assim, aprofunda questões relativas à psicanálise – é preciso

sublinhar que o quadro teórico da Análise de Discurso é

atravessado pelas leitura de Freud por Lacan – que são caras

à Análise de Discurso. A autora engendra uma reflexão sobre

o vazio, o real e a linguagem convocando Machado de Assis, Clarice Lispector e fazendo uma densa análise da exposição “Hace falta mucha fantasía para soportar la realidade” em memória às vítimas do 11-M, em Atocha; como diz a autora, metáfora visual do que presentifica Das Ding”. Com o artigo de Luciene Jung de Campos, “Desejo de desejo na mercadoria e o olhar do artista”, estamos diante, tal como com o de Sousa, de uma articulação profunda entre a Psicanálise e a Análise de Discurso tendo o campo da Arte como

material de análise, no caso de Jung, o foco incide sobre o ensaio fotográfico na publicidade/propaganda. Neste artigo, advindo de sua tese de doutoramento, a autora se propõe a “refletir sobre a ideologia enquanto o ‘espelho’ que cumpre a tarefa de organizar

a imagem fragmentada do sujeito dividido e desamparado”. Belmira Magalhães e Helson Flávio da Silva Sobrinho, em

“Materialidades discursivas e o funcionamento da ideologia

e do inconsciente na produção de sentidos”, se propõem a

desnaturalizar discursos que circulam no cotidiano de nossa contemporaneidade. Este artigo, cujo cerne é o materialismo histórico e cujo suporte teórico é o de Análise de Discurso, traz uma reflexão produtiva e necessária acerca da subjetividade em uma teoria de natureza não-subjetiva, como é o caso da

Análise de Discurso aqui em foco, para, em seguida, analisar propagandas de telefonia em datas comemorativas do Dia das Mães e dos Pais. O artigo “Arquivo, memória e acontecimento em uma política de Fundos Documentais” de Amanda E. Scherer, Simone de Mello de Oliveira, Verli Petri e Zélia Maria Paim inscreve-se no campo da História das Ideias Linguísticas no

Brasil (Orlandi e Guimarães) articulado com os estudos franceses da História Social da Linguística. Traz-nos a criação do Fundo Documental Neusa Carson, renomada linguista brasileira com atuação expressiva no campo da descrição das línguas indígenas, promovendo uma importante reflexão sobre a prática científica como prática social. Neste artigo encontra-se ainda uma leitura de arquivo em dois trajetos temáticos, a saber, Cartografia da língua e de si e Política de línguas e o lugar do linguista. No artigo “Para além do efeito de circularidade:

interpretando as noções de pré-construído e articulação a partir de enunciados ‘idem per idem’, Aracy Ernst-Pereira, Ercília Ana Cazarin e Marchiori Quevedo se detêm em um ponto deveras importante para qualquer Análise de Discurso: o funcionamento da ideologia na articulação dos enunciados. Para isto, tomam enunciados tautológicos e focalizam com vagar e acuidade duas noções teóricas fundamentais que são o pré-construído e

o discurso transverso. Nádia Pereira da Silva Gonçalves de Azevedo, em seu artigo “Uma análise discursiva de sujeitos com gagueira”, lança um novo olhar sobre a gagueira com possibilidades terapêuticas. Em seu estudo longitudinal de dois sujeitos com queixas e diagnóstico de gagueira, ambos em terapia fonoaudiológica, a autora demonstra que o suporte teórico da Análise de Discurso possibilita um deslocamento do sujeito de uma posição discursiva dominante, que significa a gagueira como doença, para uma outra, que o permite sujeito-fluente. Em “Discurso sobre a criança: a questão do ludicismo”,

Angela Baalbaki, como o título já indica, trata do discurso sobre

a criança e mostra como certos sentidos sobre a criança vão

se constituindo como hegemônicos. Neste artigo, cujo aporte teórico é a Análise de Discurso, lemos uma criteriosa reflexão que percorre um extenso corpus do século XVIII ao XIX nos permitindo compreender como se vai engendrando o que a autora vai indicar como categoria criança, “produzida nas e pelas relações postas com o sujeito do capitalismo”. Sua outra contribuição consiste no conceito de ludicismo para dar conta desta forma-sujeito histórica. O artigo de Maria Onice Payer, “Processos, modos e mecanismos da identificação entre o sujeito e a(s) língua(s)”, incide sobre uma questão importante na Análise de Discurso que é a da “identificação do sujeito à língua, como correlata da

interpelação”. A autora nos expõe resultados de sua pesquisa, que concerne a processos de identificação na relação sujeito/

língua, e aqui descreve distintos modos pelos quais as relações entre sujeitos e formas das línguas produzidas na história se marcam na materialidade linguística. Seu cuidadoso trabalho visa ainda a contribuir na prática do ensino de língua. No artigo “Identificação, memória e figuras identitárias:

a tensão entre a cristalização e o deslocamento de lugares sociais”, de Evandra Grigoletto e Fabiele Stockmans De Nardi,

a questão da identificação também é objeto de reflexão cujo

referencial teórico é a Análise de Discurso. Partindo de conceitos expandidos em outros trabalhos, como o de lugar discursivo e mobilizando outros conceitos, as autoras propõem o conceito de figuras identitárias, no quadro teórico da Análise de Discurso,

e buscam verificar sua pertinência analisando a figura do Cangaceiro e do compadrito. Fernanda Surubi Fernandes e Olimpia Maluf Souza, em

“Corpo, trabalho e prazer: as práticas de prostituição em cadastros policiais”, tocam em uma questão tensa e interdita na sociedade,

a prostituição, e incidem seu foco na relação corpo, trabalho e

prazer. Após uma reflexão discursiva sobre a prostituição, as autoras tomam como material de análise no campo da Análise de

Discurso cadastros policiais que materializam os sentidos sobre

a mulher e a prostituição, sem, contudo, abrir mão de pensar a

relação entre a profissão de tal público feminino e o Estado na sociedade contemporânea. O artigo de Greciely Cristina da Costa, “A milícia e o processo de individuação: entre a falta e a falha do Estado”, advindo de sua tese de doutorado em Análise de Discurso, vai

trazer à cena a questão da naturalização da violência policial no espaço segregado da favela, em que o processo de individuação do sujeito vai ser marcado pela contraditória ausência-presença do Estado: falta e falha. A partir de recortes de sua tese, a autora vai se centrar nas discursividades sobre a milícia (e na historicidade da sua denominação) tomando como material entrevistas com moradores do Rio de Janeiro. Maria do Socorro Pereira Leal, em “Das línguas na história:

Upatakon (Nossa Terra)’”, parte de sua tese de doutoramento em Análise de Discurso, cujo escopo consiste na investigação da discursividade pela disputa da terra entre índios e brasileiros,

e se centra em manchetes jornalísticas online, aprofundando

a questão da denominação dada a uma intervenção policial –

“Operação Upatakon” – cuja finalidade era auxiliar na retirada de brasileiros da terra indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Neste artigo, a autora captura o fino jogo estabelecido pela língua indígena na língua do Estado brasileiro. Para o artigo “A interface linguagem/mundo como produção simultânea: quando estudantes enfrentam a

administração central em uma universidade pública”, Bruno Deusdará e Décio Rocha, tendo como referencial teórico Bakhtin, Maingueneau e Deleuze, recuperam um evento, a inauguração de um restaurante universitário em uma universidade pública no Rio de Janeiro, com o convite oficial assinado pelo governador, a nota oficial e as notícias divulgadas em página eletrônica, para uma reflexão em torno do sentido na linguagem como produção de um lugar que considera o social e o verbal como dimensões em constante interdelimitação. No artigo “Análise discursiva do Plano de Desenvolvimento Institucional do CEFET/RJ: uma proposta de resistência a um discurso institucional hegemônico”, Fábio Sampaio de Almeida focaliza o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI). Trata- se de um artigo que, à luz da Análise de Discurso Enunciativa,

vai pensar a instituição de ensino, seu papel e as relações de saber e poder que a constituem, e analisar a construção discursiva da noção de comunidade que ancora o discurso institucional do CEFET/RJ. No artigo “O significado acional no discurso da Constituição Brasileira: o gênero discursivo normativo constitucional em questão”, em que se adota como referencial teórico a Análise de Discurso Crítica, Ruberval Ferreira e Maria Clara Gomes Mathias têm como foco o estudo da construção discursiva do gênero discursivo jurídico-normativo-constitucional e, no caso, focalizam a Constituição Federal de 1988. Os autores, em sua análise, mostram que as constituições, tais como as conhecemos, são fruto de reivindicações da classe burguesa no século

XVIII e, entre outros objetivos, questionam o ideal de máxima

representatividade da Carta Magna de 1988. Regina Baracuhy e Tânia Augusto Pereira, no artigo “A biopolítica dos corpos na sociedade de controle”, refletem sobre o corpo inserido na sociedade disciplinar e de controle. As autoras percorrem diversos textos de Foucault, a fim de expor a

relação entre corpo e poder disciplinar, para, em seguida, pensar, apoiando-se em Deleuze, Courtine e Gregolin, já na sociedade de controle, algumas questões importantes relacionadas ao corpo,

como, por exemplo, a sua exposição espetacularizada na mídia

na contemporaneidade e seus paradoxos. O artigo “A pequena família guineana: abordagem discursiva do continuísmo histórico num discurso pela independência” de Beatriz Adriana Komavli de Sánchez tem como objeto de análise o pronunciamento que marca a independência da Guiné Equatorial, única nação africana que tem como língua majoritária oficial o espanhol, em 12 de outubro de 1968, e ancora-se na Análise de Discurso de linha bakhtiana. As designações e negativas são algumas das marcas trabalhadas neste material de análise, fruto de uma pesquisa mais ampla que visa a noção de hispanidade.

Finalizando esta revista, encontram-se duas resenhas de dois livros importantes para os estudos do discurso. A primeira, intitulada “Foi ‘análise de discurso’ que você disse?”, por Silmara Dela Silva, contempla uma fundamental coletânea de textos de Michel Pêcheux, organizados por Eni Puccinelli Orlandi no livro “Análise de discurso: Michel Pêcheux”, em 2011, pela Pontes Editores. A segunda resenha, “Gumbrecht: latência na história”, por José Luís Jobim, nos apresenta o recente livro de Hans Ulrich Gumbrecht, a saber, After 1945: Latency as Origin of the Present, publicado pela Stanford University Press em 2013. Com ela, fechamos a revista com uma prática comum aos analistas de discurso: a leitura de autores caros, no que se refere às questões que traz; de autores que nos permitem avançar em nossas reflexões.

Vanise Medeiros (UFF) Bethania Mariani (UFF)

Artigos

Disciplinarização dos estudos em Análise do Discurso

Bethania Mariani (UFF/CNPq/FAPERJ) Vanise Medeiros (UFF/CNPq/FAPERJ)

Nunca começa onde começa oficialmente. Começa antes. (Eni Orlandi, 2009)

Palavras iniciais

Qual o estado atual das pesquisas em Análise de Discurso no Brasil? Essa pergunta, para ser objeto de reflexão, demanda uma outra: à Análise do Discurso corresponde um campo de produção de conhecimento nas Ciências Humanas e Sociais já estabelecido e em transmissão nas instituições universitárias? Sendo a resposta positiva para esta questão, qual a conjuntura teórica que constituiu tanto sua institucionalização quanto sua transmissão? Uma nota de advertência antes de prosseguirmos: como nos lembra Pêcheux (1983), é necessário desautomatizar a repetição das formas de pensar e, também, a pura repetição de termos ou expressões que, apesar de homônimos, remetem para conceitos muitas vezes distintos. É o que queremos problematizar inicial- mente. Embora de uso bastante frequente nos estudos da lingua- gem, o termo ‘discurso’ e as expressões ‘análise do discurso’, ‘análise de discurso’, ‘produção de conhecimento’, ‘ciências huma- nas e sociais’, ‘institucionalização’ e ‘transmissão’ não possuem sentidos transparentes nem portam evidências em si mesmos. Essas expressões, e mesmo a que é nosso objeto de investigação, a ‘análise de discurso’, significam dentro de “configurações dis- cursivas” (MILNER, 1989) que marcam distintas maneiras de se conceber ciência, conforme a doutrina epistemológica em jogo. Assim, é importante esclarecer de que lugar falamos quando nos propomos a escrever sobre a Análise de Discurso no momento de publicação dessa Gragoatá 34. E, já de imediato, esclarecemos nossa posição teórica. Situamo-nos em um lugar da teoria do discurso no

Gragoatá

Niterói, n. 34, p. 15-25, 1. sem. 2013

qual se imbrica o pensamento francês e o pensamento brasileiro,

e cujo entrelaçamento porta uma memória a ser mencionada, e

retomada em vários momentos da escrita desse texto: a Análise do Discurso que se desenvolve na França, com os trabalhos de Michel Pêcheux, durante sua permanência no CNRS a partir dos anos sessenta, à frente de uma equipe multidisciplinar; e os trabalhos de Pêcheux em sua reterritorialização no Brasil, com outros desdobramentos teóricos e analíticos, a partir das pesquisas de Eni Orlandi, em torno do final dos anos setenta, no Instituto de Estudos da Linguagem, na UNICAMP. Também, de imediato, trazemos para dialogar com o nosso texto dois artigos de Orlandi – (2012a) Apagamento do político na ciência: notas à história da Análise de Discurso. Fragmentação, diluição, indistinção de sentidos e revisionismo; e (2012b) Análise de Discurso e contemporaneidade científica –, e o de Scherer & Petri (2012) – Le mouvement et les déplacements des études sur le discours à partir des années 1980 et leur disciplinarisation: le cas brésilien.

O ato de saber, a disciplinarização e a historicidade

Comecemos retomando Auroux (2008), tendo em vista que, para esse autor, na compreensão da produção de saber como conhecimento, há que se distinguir os saberes tácitos, que consti- tuem nossas práticas cotidianas, dos saberes que portam formas de representação seja das línguas, seja das relações humanas, seja do mundo etc. No âmbito da produção de saber como conheci- mento, Auroux define o ato de saber como sendo limitado e pos- suindo, por definição, uma temporalidade que não é sem horizonte de retrospecção e sem horizonte de projeção. Afirma Auroux: “o saber não destrói seu passado, mas sim, o organiza, o escolhe, o esquece, o imagina ou o idealiza e também tenta antecipar seu futuro, sonhando enquanto o constrói.” (AUROUX, 2008, PG). A

história presente de uma disciplina inclui, desse modo, sua histo- ricidade, ou seja, a memória da conjuntura teórica que a constitui;

o processo de sua disciplinarização enquanto produção de saber,

isto é, os mecanismos político-acadêmicos que a institucionali- zam, permitindo sua transmissão; e, por fim, a possibilidade de apreensão das tênues linhas que projetam seu porvir. Disciplina e disciplinarização são dois termos que também

precisam ser definidos. Puech e Chiss (1999), linguistas que se ocu- pam da História das Teorias Linguísticas, propõem a utilização do termo ‘disciplina’ para assinalar que a produção de conhecimento necessita de ser transmitida, e que as fronteiras dessa produção não são totalmente definidas ou delimitadas, uma vez que são configuradas discursivamente, constituídas por processos que não são estanques. Com a noção de disciplina, os autores colocam

a questão da transmissão como central: uma teoria de linguagem supõe textos fundadores e seus comentadores.

1 Formuler l’hypothèse d’une reconnaissance toujours possible du discours disciplinaire der r ière le discou rs su r l’objet et su r la méthode, c’est supposer au contraire que des conditions d’énonciation spécifique ordonnent toujou rs les savoirs savants en apparence les plus désincarnés. C’est également envisager des strates du discours discipli nai re où les images de la discipline se combinent, se superposent, se font écho en foction de stratégies variées, depois l’invention des connaissances jusqu’à leur socialisation la plus large. (CHISS; PUECH, 1999, p. 18, tradução nossa)

Com o termo ‘disciplinarização’, pretendemos levar em con- sideração não apenas o aspecto conceitual, mas também os aspectos práticos que organizam a transmissão: inscrição nas instituições científicas, utilização e uso dos saberes às vezes de forma vulgarizada na escola, nos colégios, nas universidades. (CHISS; PUECH, 2010, p. 72)

Um aspecto ligado à disciplinarização é o que os autores chamam de incremento da expansão da escolarização, sobretudo em sua relação com as condições históricas em que são ordenadas políticas para as línguas e para a educação de um modo geral. A compreensão das condições históricas que propiciam a emergên- cia de uma disciplina é crucial para se desfazerem as evidências que deixam a transmissão da produção de conhecimento como discursos sem sujeito. Chiss e Puech (1999) enfatizam que os discursos sobre o objeto e sobre o método são discursos afetados pelos discursos disciplinares, os quais organizam a forma e as estratégias de transmissão da teoria. “Em suma, a disciplina é menos um estado de fato que um processo sempre já começado e recomeçado”. (CHISS; PUECH, 1999, p. 10). As condições de transmissão de um saber bem como a transmissão em si se encontram sempre perpassadas pelos atos de enunciação daqueles que se ocupam desse processo de disci- plinarização, o que não quer dizer, ingenuamente, que haveria um estado de ciência pura, isenta, ou não afetada pelos processos de transmissão. Por outro lado, os que se ocupam da disciplinariza- ção e da transmissão nem sempre (com)partilham o lugar teórico do conhecimento em jogo, o que afeta, igualmente, a transmissão. Em outras palavras, não há como se desembaraçar da carga ima- ginária que se produz sobre o que está sendo disciplinarizado e transmitido: as imagens têm força inegável e constituem a própria transmissão. E, também, como nos lembram Chiss e Puech:

Formular a hipótese de um reconhecimento sempre possível do discurso disciplinar por trás do discurso sobre o objeto e sobre o método é supor, ao contrário, que condições de enun- ciação específicas sempre organizam os saberes da ciência aparentemente menos afetados pela realidade. É igualmente considerar estratos do discurso disciplinar em que as imagens da disciplina se combinam, se superpõem, fazem eco em fun- ção de estratégias várias, desde a invenção dos conhecimentos até sua socialização mais larga 1 . (CHISS; PUECH, 1999, p. 18)

O conhecimento é produzido, é disciplinarizado e circula em condições histórico-enunciativas de produção bastante es- pecíficas, o que significa sua inserção em políticas científicas e acadêmicas nacionais e, ainda que indiretamente, internacionais também. ‘Política científica’ é uma expressão que remete para um tensionamento entre o controle e a independência da pesquisa e do pesquisador. O funcionamento das políticas científicas implica um gerenciamento que perpassa a produção de conhecimento

tanto no âmbito institucional, em termos do incremento de um campo disciplinar, como individual, do pesquisador (com ou sem seu grupo) na elaboração de seu projeto, com justificativas para a escolha do objeto de estudo, explicações sobre a relevân- cia social ou para a formação de jovens pesquisadores ou, ainda, para o próprio campo teórico-metodológico, além de limitações geradas por formas de financiamento, o que representa formas de estabelecimento de vínculos com órgãos de fomento e seus instrumentos de avaliação (GUIMARÃES, 2003). Produzir conhecimento, nesse sentido, é se encontrar sub- metido aos efeitos da historicidade – seja aderindo, seja resis- tindo, seja propondo criticamente alternativas à política vigente –, que constituem e delimitam o lugar da produção científica no estabelecimento de relações com políticas de Estado, com a sociedade e com a universidade, enquanto lugar privilegiado da disciplinarização e transmissão. Além disso, nos dias atuais, ainda no que tange à produção de conhecimento de um modo geral, a velocidade da internet é um outro aspecto que precisa ser considerado como parte dos efeitos de historicidade, pois, ao ser incorporada ao trabalho científico, a internet vem produzindo uma diluição nas formas do pensar teórico, e a pesquisa, muitas vezes, fica reduzida a sites de busca de ‘informações’, com textos obscuros e pouco confiáveis. Tudo isso nos leva a refletir sobre o lugar dessa produção científica que, situada no escopo dos estudos da linguagem, recebeu o nome de Análise do Discurso, conforme o título que Pêcheux deu ao seu livro Analyse Authomatique du Discours (1969), conhecido como AAD69.

Análise de discurso: memórias e atualidades

No Brasil, os estudos em Análise de Discurso surgem por volta dos anos 70 do século XX. São estudos que se originam na Europa, especialmente na França, na década anterior, e têm como base a obra do filósofo Michel Pêcheux, uma obra profundamente afetada pelas releituras de três fundadores de discursividades:

Marx, Freud e Saussure. Henry, em artigo que busca explicar a conjuntura intelectual francesa que está na base das condições de produção do AAD69, afirma que

Pêcheux queria se apoiar sobre o que lhe parecia já ter estimu- lado uma reviravolta na problemática dominante das ciências sociais: o materialismo histórico tal como Louis Althusser o havia renovado a partir de sua releitura de Marx; a psicanálise, tal como a reformulou Jacques Lacan, através de seu ‘retorno a Freud’, bem como certos aspectos do grande movimento chamado, não sem ambiguidades, de estruturalismo. (HEN- RY, 1990, p. 14)

Por outro lado, Mazière (2008) e Maingueneau (1990) locali- zam os inícios da Análise do Discurso enfatizando ângulos dessa

historicidade de modos distintos. Mazière realça a interlocução crí-

tica com o artigo Discourse analysis, de Z. Harris (1952), e discussões situadas por Jean Dubois e seu grupo (MAZIÈRE, 2008). Maingue- neau, para distinguir a escola americana da francesa, afirma que

a Análise do Discurso, na França, inscreve-se na tradição das

pesquisas filológicas e filosóficas com o texto, enquanto que a

tradição americana filia-se à etnometodologia, sendo, nessa pers- pectiva, mais voltada para a oralidade (MAINGUENEAU, 1990). Para ambos, o que se convencionou chamar de Escola Francesa de Análise do Discurso, em torno de Michel Pêcheux e seu gru- po, apresenta um diferencial que é o de propor como horizonte uma análise discursiva de textos distinta de uma hermenêutica

e distinta, sobretudo, da análise de conteúdo. Para compreensão

dos desdobramentos dos estudos discursivos do grupo Pêcheux, é necessário fazer uma tomada de posição em que a história e a ideologia são constitutivas da materialidade linguística, e que o sujeito é dividido pelo inconsciente e interpelado pela ideologia. Na conjuntura francesa dos anos 60, assinando como Tho-

mas Herbert, Pêcheux chama a atenção para uma rarefação do pensamento crítico no âmbito das ciências humanas uma vez que as teorias desse campo do conhecimento, imersas em dicotomias

e oposições, reproduzem efeitos das formas filosóficas do século

XIX, sobretudo as de base kantiana. Essas oposições são estabele-

cidas a partir “do surgimento do indivíduo como sujeito histórico

(HERBERT-PÊCHEUX,

2011 [1969b], p. 187). Tal atravessamento das ciências humanas por essas formas de pensar produz, no caso específico dos estudos linguísticos, uma dicotomização teórica que opõe a liberdade do falante, sua possibilidade de criar, ao sistema da língua, que restringe essas mesmas possibilidades de criação. E nessa mes- ma chave, com uma reflexão que acompanha sua obra, Pêcheux recorta também a oposição entre estudos empiristas e estudos formalistas. Esse mapeamento das dicotomias desemboca na depreensão de três tendências dos estudos linguísticos, segundo

novo e a racionalização da sociedade (

)”

Pêcheux: a tendência formalista-logicista, a tendência histórica e

a linguística da fala (PÊCHEUX, 1988 [1975]). À Análise de Dis-

curso não caberia uma quarta tendência, mas sim o trabalho de construção de um domínio teórico situado na contradição aberta pelas três outras tendências. Um lugar teórico de onde se pudesse fazer intervenções críticas com abertura para campos de questões situadas fora das três tendências mencionadas, ou seja, questões

relacionadas às noções de sujeito, sentido, inconsciente e ideologia. Para Pêcheux, a resposta à pergunta se haveria “uma via para

a linguística fora do logicismo e do formalismo?” (PÊCHEUX,

1981 [1998]) constitui uma forma de circunscrever os efeitos do idealismo subjetivista e, ao mesmo tempo, a abertura de um outro campo de questões para os estudos da linguagem, sobretudo para estudos da produção de sentidos que incluíssem o real da língua,

o real da história, e a noção de sujeito dividido pelo inconsciente

e interpelado pela ideologia como categorias teóricas. Nesse quadro de reflexões, que se desdobra entre os anos 60 e 80, a Análise do Discurso, a partir de Pêcheux, é teorizada de forma a reinvestigar sempre seus fundamentos de partida. Situa-se, dessa forma, como uma disciplina de entremeio, dis- ciplina que abre seu campo de questões para uma semântica de base materialista, a qual não separa discurso e prática política. Scherer e Petri (2012) referem-se ao acontecimento da entra- da dos estudos do discurso no Brasil como um momento inicial da disciplinarização dessa tomada de posição teórica sobre uma forma específica de produzir conhecimento sobre a linguagem: o discursivo. Esse marco é relevante para que se compreendam os desdobramentos teóricos e os destinos acadêmicos que os estudos do discurso tomam ao serem disciplinarizados, inicialmente, nos cursos de Pós-graduação brasileiros e, pelo menos duas décadas mais tarde, nos cursos de graduação. Na década de 70 e na de 80 do século XX, os estudos discur-

sivos no Brasil também vão de encontro ao terreno conflagrado das três tendências delineadas por Pêcheux. A posição teórica que traz como objeto o discurso entra em descontinuidade com os estudos linguísticos até então vigentes, ou seja, instala-se como acontecimento teórico, como ponto de ruptura com a linguística que até então se fazia: não se trata mais de um quadro teórico-me- todológico formalista ou empirista para conceituar e analisar sis- temas linguísticos, mas sim de uma mudança radical de terreno, que implica um objeto próprio – o discurso, definido como efeito de sentidos entre locutores –, e inclui, em seu enquadre teórico, o materialismo e a psicanálise articulados aos estudos da lingua- gem. É uma posição teórica que traz um engajamento político próprio: falar é tomar posição no sócio-histórico, é inscrever-se subjetivamente em redes de sentidos com a ilusão de se estar na origem e no controle do dizer. Dos anos 90 para o momento atual houve um crescimen- to expressivo de estudos discursivos, porém, com enquadres teórico-metodológicos bastante diferenciados das reflexões de Pêcheux. Garantidas por uma crescente disciplinarização no âmbito universitário de pós-graduação, a palavra ‘discurso’ e as expressões ‘análise do/de discurso’ e ‘teorias do discurso’ circulam cada vez mais fortemente no campo dos estudos da linguagem, no Brasil, em quase 40 anos, sustentando, a cada vez que são empregadas, referenciais teóricos e métodos de análise bem dis- tintos. As distinções, no entanto, muitas vezes vão se diluindo, mesmo tendo-se em vista conceitos de base como sujeito, sentido, inconsciente, ideologia, além da forma de organização dos corpora

e os objetivos propostos para analisá-los. De que forma se realiza

a disciplinarização das teorizações? Verificar em detalhes a espe- cificidade do modo como se vem realizando a transmissão desses

distintos campos de produção de conhecimento que se reúnem sob o nome ‘análise do discurso’, cada qual em sua singularidade, é tarefa ainda a ser desenvolvida por um grupo de pesquisadores de forma a acompanhar, em parte, seus efeitos em dissertações, teses, publicações e apresentações em congressos. A comunidade imaginada ‘somos todos do discurso’ ins- titui, de um lado, uma forte homogeneidade que tem sua rele- vância quando se trata de política científica, mas, por outro lado, pode apagar as filiações teóricas em suas bases de sustentação epistemológicas. Se o termo ‘discurso’ e a expressão ‘análise do discurso’ ganham em visibilidade e circulação, eventualmente perdem na espessura teórica que garante as diferenças, ou seja, no modo como articulam os processos de produção de sentidos com o histórico-ideológico, de um lado, e com a noção de sujeito, de outro. A palavra ‘discurso’, enquanto conceito teórico, por exemplo, está definida em Benveniste, em Pêcheux, em Lacan, em Foucault, em Maingueneau, em Charaudeau, em Fairclough; mas, muitas vezes, não se encontra definido conceitualmente em outros autores, embora seja usada como referência genérica à fala. Assim, o que se observa é que ‘discurso’ e ‘análise do/de discurso’ são expressões que garantem o pertencimento à comu- nidade imaginada de analistas do/de discurso, mas como estão associadas muitas vezes de maneira generalizante ou misturada

a intelectuais com filiações teóricas e interesses distintos aca-

bam por embaralhar as perspectivas, retirando a densidade das teorias e das análises específicas. Em outras palavras, com essa forte circulação, não se garante no transmissível a necessária re- flexão crítica sobre as fronteiras epistemológicas que constituem tão diferentes domínios e análises de linguagem aí propostos. Mesmo assim, é possível perguntar: mencionar nomes próprios de autores, de teorias, e citar conceitos, seria uma prerrogativa suficiente para fundamentar os saberes de um campo de produção de conhecimento e trabalho em toda sua complexidade interna e demarcação de fronteiras? Sem dúvida, como nos adverte Orlandi (2012)

temos a Análise de Discurso, a Pragmática, a Teoria da Enun- ciação, a Análise Textual e muitas disciplinas que tratam da relação com a exterioridade, junto a disciplinas mais antigas, como a Semiótica, a Retórica, a Semiologia, a Filosofia da Lin- guagem. (ORLANDI, 2012a, p. 26, grifos nossos).

Porém, e esse é um dos aspectos para os quais Orlandi

chama a atenção, esse tratamento da relação entre a linguagem

e a exterioridade não se processa da mesma forma. Conforme a

autora, discutindo a relação entre disciplinas e o apagamento dos muitos sentidos da palavra ‘discurso’, Passa-se a indistinguir as divisões disciplinares em suas diferentes posições teóricas (face a noções como discurso, exte-

rioridade, contexto, sujeito etc.). Reúne-se assim no mesmo lugar teórico – como se isso fosse possível – a filosofia da diferença (Fou- cault, Derrida, Deleuze etc.), a semiologia, a semiótica, a filologia etc. (ORLANDI, 2012, p. 29) Trazemos um exemplo. Ideologia e inconsciente são concei- tos que, quando aplicados ou transferidos sem uma justificativa teórica de sua entrada em um quadro teórico-metodológico, além de ficarem esvaziados de seu potencial crítico, podem produzir contradições internas na análise pretendida. Não basta mencionar o inconsciente como um atributo do sujeito se não se tem como memória a obra de Freud bem como a consequente discussão que fundamenta criticamente a desnaturalização de concepções formadas durante o século XVIII, constituindo o homem como objeto de análise e, por conseguinte, o campo das ciências humanas tal como o conhecemos hoje.

Uma especificidade da disciplinarização

Trazemos para reflexão um acontecimento histórico bastante

significativo dessa virada do início dos anos 90, um acontecimento que impulsionou e consolidou, a nosso ver, a disciplinarização da Análise de Discurso. Na primeira reunião da Associação Nacional de Pós-Graduação em Letras e Linguística (ANPOLL), em 1986, em Curitiba, ocorreu a criação de vários Grupos de Trabalho, dentre eles a do Grupo de Trabalho em Análise do Discurso. Fundava-se

O GT, com o aval da política científica da época, e a partir de um

exercício efetivamente realizado de investimento teórico, de tra- dução de textos, de orientação de alunos, de aulas ministradas, de financiamentos de pesquisas e de participações em congressos

um forte núcleo de pesquisadores do discurso associados entre si,

e, ao mesmo tempo, sustentando eticamente suas diferenças. Foi

uma vitória política, portanto, o reconhecimento do percurso de trabalho e pesquisas realizadas, o que promoveu o fortalecimento da disciplinarização e transmissão dos estudos do discurso. Foi a pesquisadora Eni Orlandi, professora do Instituto de Estudos da Linguagem, UNICAMP, quem fundou o GT de AD e coordenou seu primeiro encontro durante as atividades do II Congresso da ANPOLL, no Rio de Janeiro, em 1987. Desde sua fundação, o GT de AD abrigou diversas tendên- cias teóricas, organizando os pesquisadores em uma comunidade. Tomo o termo ‘comunidade’ na forma como Auroux (2008) o conceitua, tanto em seu sentido mais genérico – o pertencimento a grupos se dá antes mesmo do pertencimento ao Estado –, quanto em seu sentido estrito do comunitarismo científico de grupos que sustentam alianças ou concorrem entre si conforme as políticas em jogo e, portanto, sempre inseridos em condições de produção determinadas. No ato de fundação do GT, como bem nos lembra Indursky, ex-coordenadora do GT e ex-presidente da ANPOLL:

No que tange ao GT de Análise do Discurso (GETAD), desde logo ele abrigou em seu interior diferentes perspectivas teóricas – Escola Francesa de Análise do Discurso, Semiótica Discursiva, Teoria da Enunciação, Teoria do Texto que se inte- ressam pelo discurso, apresentando, assim, uma pluralidade de pesquisas, em lugar de priorizar uma única vertente. Esse modo de funcionamento faculta o desenvolvimento concomitante de várias pesquisas, sem haver imposição de um trabalho único e uniforme para todos seus membros. Essa política interna permite

a administração democrática desse espaço institucional, sem que a

usual disputa de poder/prestígio interfira no ritmo dos trabalhos. (INDURSKY, 1994) A fundação do GT no âmbito da ANPOLL, em 1986, torna visível um processo histórico de disciplinarização da Análise do Discurso que já estava ocorrendo desde o início da década de 80 do século passado: do Instituto de Estudos da Linguagem, UNI-

CAMP, para outros cursos de Letras no Brasil, em um movimento que partiu dos programas de pós-graduação para o ensino de graduação. Muitas vezes sob o nome Análise do Discurso, disciplina-se universitariamente uma comunidade imaginária, como dissemos anteriormente, encobrindo diferenças teóricas que, se trabalhadas, poderiam se revelar bastante produtivas em suas especificidades, a começar pelas noções de língua, sujeito, sentido e seguindo para outras, como texto (verbal ou não-verbal), enunciação e interlocução. De qualquer maneira, qualquer que seja a discussão sobre Análise de Discurso, esta não se dará sem Eni P. Orlandi e Michel Pêcheux, autores que demonstraram a relevância da construção de um lugar teórico e de um método próprio para a construção de dispositivo de análise sobre o funcionamento da linguagem em sua relação constitutiva com o histórico-ideológico. A Análise de Discurso é uma disciplina de entremeio que está sempre retor- nando e reinvestigando seus fundamentos ao mesmo tempo em

que sua reflexão desloca e reterritorializa conceitos vinculados aos campos teóricos com os quais dialoga: a linguística, mais especifi- camente a teoria da enunciação tomada de um ponto de vista não subjetivo; o materialismo histórico, enquanto teoria das formações sociais e suas transformações; e, também, a psicanálise, base para se compreender o sujeito dividido, uma vez que o homem não é senhor de sua morada, como afirma Freud. O trabalho da análise discursiva dos processos de produção dos sentidos, e de seus efeitos, quando tomado do ponto de vista de Pêcheux e Orlandi, incide na suspensão das certezas, na crítica das evidências, na desconstrução das verdades, na escuta do silêncio

e das políticas de silenciamento. O político, compreendido aqui

como a divisão de sentidos na língua, é dessa forma constitutivo do trabalho de análise.

E a resistência, tema principal desse número da Gragoatá 34, faz parte do movimento da divisão dos sentidos e do sujeito.

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A emergência do sujeito desejante no discurso do MST

Gragoatá

Resumo

Freda Indursky (UFRGS)

No presente trabalho, retorno às designações ocu- pação/invasão para examinar um registro muito peculiar da designação invasão, ocorrido em uma entrevista com Diolinda Alves de Souza, líder do MST, em 06/12/1995, para a Revista da Folha. In- teressou-me, nesta entrevista, examinar o processo de subjetivação/identificação de Diolinda: em um determinado momento da referida entrevista, ao responder sobre sua primeira ocupação, refere-a como invasão. Assim procedendo, a entrevistada não mobiliza o que o sujeito pode/deve dizer a partir de seu lugar discursivo. Esta designação não corresponde ao modo de subjetivar-se For- mação Discursiva Sem Terra, tão bem desenhado ao longo da entrevista, até aquele momento. Esse deslizamento de ocupação para invasão permite identificar um processo metafórico específico. Processo metafórico é “um processo não-subjetivo no qual o sujeito se constitui” (Pêcheux, 1988, p. 130). E ainda: processo de metáfora consiste em um “processo sócio-histórico que serve como fundamento da ´apresentação´ de objetos para os sujeitos” (idem, p. 132). Entendo que este processo metafórico específico aqui analisado permite vis- lumbrar o momento em que o sujeito do discurso político é lançado em suas memórias de onde emerge como um sujeito desejante.

Palavras-chave: lugar discursivo; posição- -sujeito; formação discursiva; processo metafórico; produção do desejo; agenciamento sócio-político pulsional; sujeito desejante.

Niterói, n. 34, p. 27-38, 1. sem. 2013

A contradição é inseparável do corpo social, considerado em seu todo (Althusser) A produção [do desejo] é adjacente a uma multiplicidade de agenciamentos sociais. (Guattari & Rolnik) Era panela, roupas e lona para todo o lado. Papagaio cantando, galinha piando. Uma festa. (Diolinda Alves de Souza)

Apresentando a questão

Este trabalho inscreve-se em uma pesquisa que tem como objeto de investigação o discurso do/sobre o Movimento dos Trabal- hadores Rurais Sem Terra (MST) na mídia. Em várias ocasiões, trabalhei com as designações ocupação e invasão (INDURSKY, 1999; 2005; 2006, por exemplo). Retomo a elas, nesse artigo, para trabal- har com as possibilidades e limites do sujeito frente aos sentidos que lhe são permitidos e aqueles que efetivamente produz. A Teoria da Análise do Discurso (AD) ensina que tudo não pode ser dito e que os sentidos podem ser muitos, mas não são nem infinitos, nem qualquer um. Tais restrições sinalizam os limites do dizível e as interdições com que o sujeito do discurso se depara em suas práticas discursivas, as quais são indicativas, entre outras questões, da incompletude da linguagem bem como da divisão e dispersão do sujeito. E é com estes limites que o sujeito joga em suas práticas discursivas. Essas são as questões que serão mobilizadas no presente trabalho. Para tanto, vou me ocupar do discurso de uma das lideran- ças do MST no Pontal do Paranapanema, São Paulo. Trata-se de Diolinda Alves de Souza, mulher de José Rainha, ambos líderes do MST, no Pontal de Paranapanema, na década de 90 do século passado. Vou analisar sequências discursivas (SD) extraídas de duas diferentes entrevistas feitas pela Folha de São Paulo (FSP) com Diolinda. A primeira, em 01.11.95, por ocasião de sua prisão, durante uma manifestação de rua, e a segunda, após sua liberação, em 06.12.1995. Essas SD estão organizadas em dois recortes. O primeiro (SD 1,2,3,4) indica as coerções a que o discurso de Diolin- da está submetido e o segundo (SD5) deixa à mostra a ruptura de tais coerções. Ambos constituirão objeto de análise nesse trabalho.

A prática discursiva de Diolinda

Como vimos em trabalhos anteriores (INDURSKY, 1999; 2006), as lideranças do MST, ao se referirem às práticas desse movimento social, o fazem designando-as por ocupação. E, no discurso de Diolinda, não é diferente. Percebe-se também que o entrevistador, quando se refere às ações do Movimento, designa-

as por invasão, mas, ao responder, Diolinda “traduz” invasão por ocupação. Para visualizar o jogo discursivo que se estabelece entre essas diferentes designações no discurso do/sobre o MST, insiro, a seguir, duas sequências discursivas 1 recortadas da entrevista que Diolinda concedeu à Folha de São Paulo quando se encontrava no presídio de Carandiru.

O MST não radicaliza ao falar de invasões quando o governo fala em negociar? (Pergunta da FSP 2 dirigida à Diolinda Alves de Souza, em Entrevista Coletiva, 1.11.1995, Presídio do Carandiru, SP).

1 A primeira SD refere- -se à pergunta formula- da pelo entrevistador, razão pela qual não será numerada. A segunda SD consiste na resposta dada por Diolinda e faz parte de nosso primeiro recorte discursivo.

2 O jornal A Folha de São Paulo será referido pela sigla FSP.

3 Ao longo do trabalho, as datas entre colchetes remeterão à data da pri- meira edição francesa. E a data que se lhe justa- põe refere-se à data da publicação brasileira consultada.

SD1 - A orientação é para que os companheiros continuem ocupando terras. A prisão de um ou outro líder não vai inibir o movimento. (Resposta de Diolinda, 1.11.1995, Presídio do Carandiru, SP).

Como é possível perceber, a interlocução se faz entre repórter e líder do MST, em que pese o fato de que cada um desses sujeitos, para poder dizer, precisa se inscrever em seu lugar social (PÊCHEUX, [1969] 3 1990, p. 82). Ao fazê-lo, o repórter identifica-se com a Formação Discursiva (FD) dos proprietários rurais, designando as ações do MST por invasão. Por outro lado, a líder do MST se subjetiva na FD Sem Terra, antagônica à de seu interlocutor, designando tais ações por ocupação. Desta for- ma, essas sequências discursivas desenham os diferentes lugares discursivos (GRIGOLETTO, 2007) que atravessam essa entrevista

lugar discursivo da imprensa e lugar discursivo de lideranças do MST bem como as posições-sujeito a partir das quais os envolvidos nessa interlocução enunciam. Tais lugares circunscrevem a cena discursiva (INDURSKY, 1997) em que essa interlocução se trava. A designação ocupação se faz presente no discurso dessa liderança, como pode ser observado nas SD que seguem.

SD2 – As ocupações vão continuar. Isso faz parte dos princípios do movimento. (Entrevista de Diolinda Alves de Souza a Paulo

Ferraz, FSP – 16.10.95, p. 1-3).

SD3 - Vão continuar as ocupações e os plantios no Pontal. (Entrevista Coletiva de Diolinda no Presídio Feminino do Carandiru – FSP – 1.11.95, p. 8).

SD4 – É desculpa do Governo dizer que as ocupações atrapalham a ne- gociação. Nunca houve reforma agrária sem mobilização. (Entrevista

de Diolinda no Presídio Feminino do Carandiru – 1.11.95, p. 8).

Como se vê, Diolinda usa a designação ocupação para re-

ferir-se às ações do MST, o que é indicativo de que a líder desse Movimento identifica-se com e subjetiva-se pelo viés da designação

ocupação. Isto é constitutivo de seu discurso. Diolinda subjetiva-se

a partir de seu lugar discursivo de liderança, pelo viés de uma desi- gnação já estabilizada e normatizada no discurso do MST, tal como

4 Meu projeto de pes- quisa gira em torno do discurso do/sobre o MST, tal como ele é apreendi- do através da imprensa. Nesse âmbito, o dis- curso dos assentados e dos acampados pouco aparece e não se cons- titui em objeto de mi- nha pesquisa. Outros pesquisadores têm se ocupado do discursos dos sem-terra assen- tados e acampados e, em suas pesquisas, ob- servaram que, entre os sem-terra, pode apare- cer a designação invasão. Já meu trabalho busca apreender e examinar o discurso das lideranças do MST tal como este aparece na imprensa. E, neste âmbito, o sentido normatizado e regu- lamentado é ocupação, como é possível verificar trabalhos anteriores, referidos no início deste trabalho.

ele ocorre na mídia, pois essa designação remete a redes de memória onde ocupação aparece como uma “coisa-a-saber” (PÊCHEUX, [1982] 1990, p. 34) para quem se inscreve no lugar discursivo de uma liderança do MST. Essa coisa-a-saber caracteriza as SD consti- tutivas de nosso primeiro recorte. E assim é até o momento da entrevista que Diolinda concedeu à Revista da Folha [de SP] em 06.12.95, após ter tido sua prisão relaxada. Nessa entrevista, Diolinda fala de ocupações, de sua luta pela terra, da acusação de assassinato que pesa sobre seu marido, José Rainha, e também se refere a seu filho. Enfim, responde tranqui- lamente sobre todas as questões que lhe são feitas, até que, num determinado momento da entrevista, ao ser questionada sobre sua primeira ocupação, refere-se a ela como invasão. Vejamos a sequên- cia discursiva que traz esse registro, o qual vai constituir nosso segundo recorte discursivo e nosso objeto específico de análise e reflexão no presente trabalho.

SD5 – Quando tinha 15 anos, os pais entraram em uma dis- puta de terra que acabou originando o assentamento Vale da Vitória, perto do Município de São Mateus (ES). O conflito rendeu um lote para os Alves de Souza. E encantou Diolinda:

Me lembro bem daquela invasão. Eufóricas, centenas de famílias levantavam barracos na madrugada. Era panela, roupas e lona para todo o lado. Papagaio cantando, galinha piando. Uma festa”. (Entrevista de Diolinda Alves de Souza à Revista da Folha [de SP], 06/12/95, p. 17) (O destaque é meu).

É este fato discursivo que será objeto de interpretação. Inte- ressa-me refletir sobre o que levou a entrevistada a substituir a designação ocupação, própria à posição-sujeito de liderança que ocupa, pela designação invasão, proveniente do discurso-outro, do discurso próprio à posição-sujeito antagonista, a partir da qual os proprietários rurais 4 enunciam. É essa troca inusitada que reteve minha atenção. E este processo que consiste em tomar uma palavra pela outra, ou seja, ocupação por invasão, vou chamar, apoiando-me em Pêcheux ([1975] 1988), de processo metafórico. Em Semântica e Discurso, lê-se que um processo metafórico é “um processo não-subjetivo no qual o sujeito se constitui” (PÊCHEUX, [1975] 1988, p.130). E, um pouco adiante, o autor explicita que ele consiste em um “processo sócio-histórico que serve como fundamento da ´apresentação´ de objetos para os sujeitos” (idem, p. 132). A partir dessas duas formulações sobre a noção de metáfora, vou examinar o registro muito específico de invasão, identificado em SD5. A elas, acrescento uma terceira passagem, citada a partir de outro texto de Pêcheux ([1982] 1990a): um processo metafórico, segundo Pêcheux, possibilita examinar não só sentidos que desli- zam, mas também uma possível falha no ritual, como podemos ler na citação que segue:

a interpelação ideológica como ritual supõe o reconhecimento de que não há ritual sem falha, desmaio ou rachadura: “uma palavra

por outra” é uma definição da metáfora, mas é também o ponto em que um ritual chega a se quebrar no lapso ou no ato falho (PÊCHEUX, [1982] 1990a, p. 17) (O destaque é meu).

Interessa-me examinar, nesse trabalho, o processo metafóri- co ocupação/invasão identificado na prática discursiva de Diolinda, com o objetivo de indagar sobre seu sentido: seria o processo metafórico ocupação/invasão indicativo do que Pêcheux designa na citação precedente de falha no ritual? Seria a palavra invasão tomada em substituição a ocupação, indicativa de que Diolinda teria se desidentificado dos saberes da FD a partir da qual tem se subjetivado ao longo de sua vida de militante e se identifica- do com a FD em que se inscreve o discurso dos latifundiários? Como interpretar o deslizamento de ocupação para invasão? Essa

é a minha questão, aqui. Inicio minha reflexão, apontando a hipótese com que vou trabalhar: o processo discursivo ocupação/invasão não representa o sintoma de uma quebra no ritual de interpelação ideológica de Diolinda. Enunciar invasão por ocupação, no caso em análise, não significa que ela tenha se desidentificado da FD Sem Terra e tenha passado a se identificar com a FD dos Latifundiários. Este desliza- mento pode, quando muito, ser a pista de um vacilo sofrido pelo sujeito desse discurso (PÊCHEUX, [1982] 1990b, p. 314-17). Cabe,

a seguir, indagar sobre a natureza desse vacilo. Frente a essa hipótese inicial, avanço um pouco mais: pa- rece-me que, assim como não ocorreu um processo de desidenti- ficação, tampouco sucedeu um processo de contra-identificação (PÊCHEUX, [1975] 1988, p. 214-7). Este processo metafórico aponta para um outro processo semântico que passo a examinar, a seguir. Acredito que essa alternância ou batimento, como diz Pêcheux ([1982] 1990c, p. 54), seja uma oscilação momentânea entre o senti- do que pode/deve ser dito do lugar discursivo de uma liderança do MST e o sentido que, nesse lugar, está interditado, mas que é produzido mesmo assim. O deslizamento que estamos examinando vem fortemente marcado pelos “efeitos do interdiscurso [que] se desenvolvem em contradições” diz Pêcheux. ([1984] 2011, p. 157). Para Althusser,

a contradição é inseparável da estrutura do corpo social, consi- derado em seu todo, onde, aliás, ela se exerce, mostrando-se

estando,

conseqüentemente, por elas afetadas em seu cerne. Ou seja, em um único e mesmo movimento, é determinante, mas também determinada: determinada pelos diferentes níveis e diversas

(ALTHUSSER, 1967, p. 99-100)

inseparável de suas condições formais de existência (

)

instâncias da formação social (Os destaques são meus).

Entendo que esse deslizamento indica uma contradição, sim, mas não implica a ruptura com o próprio discurso e a deriva para o discurso-outro, afetado pela FD antagônica. Essa passagem de ocupação para invasão indica mais bem uma apropriação do discur-

so-outro. Como veremos, a seguir, ele aponta para algo diferente da ruptura: no momento em que o sujeito do discurso se apropria desta designação, a contradição se instaura em seu discurso. É ainda Pêcheux que ilumina essa contradição, pois tanto ocupação quanto invasão são

conjunturalmente determinados enquanto objetos ideológicos; nem universais históricos, nem puros efeitos ideológicos de classe, esses objetos teriam a propriedade de ser ao mesmo tempo idênticos a eles mesmos e diferentes deles mesmos, isto é, de existir como uma unidade dividida, suscetível de se inscrever em um ou outro efeito conjuntural, politicamente sobre-determinado. (PÊCHEUX, [1984] 2011, p. 157) (Os destaques são meus)

Diolinda, ao inscrever a designação invasão em seu discurso, vacila, não entre uma FD e outra, mas entre uma designação e outra, entre uma posição de sujeito e outra, entre a posição de um sem-terra e a posição de um líder, mas tal vacilo ocorre no inte- rior da FD Sem Terra e, assim procedendo, é o sentido de invasão que desliza. Ou seja: uma palavra pela outra, sim. Invasão por ocupação, sim. Mas não se trata da ruptura do ritual ideológico de interpelação de Diolinda, e sim de um deslizamento, de um vacilo do sujeito entre sentidos. Dito de outro modo, não é Diolinda que desliza de uma FD a outra, mas é o sentido de invasão que desliza, ao passar da FD dos latifundiários para a FD Sem Terra. Ouçamos, mais uma vez, a palavra de Pêcheux:

é porque os elementos da sequência textual, funcionando em uma formação discursiva dada, podem ser importados (meta- -forizados) de uma sequência pertencente a uma outra formação discursiva que as referências discursivas podem se construir e se deslocar historicamente. (Ibidem, p.158).

Relembrando aquele momento que viveu, Diolinda se depara com o real da língua que aponta para o impossível de dizer, dá de encontro com aquilo que, de seu lugar discursivo, lhe é interditado, mas que, sob o efeito da emoção, torna-se impossível de dizer de outro modo (PÊCHEUX, [1981] 2004, p. 52). É a própria contradição que pode ser flagrada através da bipolarização representada nesse processo metafórico determinado “pelos diferentes níveis e diversas instâncias da formação social” para retomar as palavras de Althusser. Mas, o que move esse discurso e o sujeito que o enuncia? Entendo que essa dualidade é um sintoma da emergência do sujeito desejante que se mostra pelo viés da contradição, no momento em que Diolinda rememora aquele acontecimento fundante de sua subjetividade sem-terra, momento que a impregna, uma vez mais, pelo viés da memória afetiva, de alegria incontida e a faz equi- vocar-se, a faz deslizar pelos sentidos, a faz produzir poesia - Era panela, roupas e lona para todo o lado. Papagaio cantando, galinha pian- do. Uma festa. - instaurando, no interior do discurso do MST, um processo metafórico que re-significa o discurso-outro para poder

incorporá-lo ao seu discurso. Diria que esse momento rememo- rado, por uma fração de segundo, é (re)vivido como presente. Em consequência disso, o real se incorpora à representação simbólica que o sujeito faz daquele momento rememorado e revivido.

5 A noção de pulsão foi formulada por Freud,

1915, em Instinto e suas Vicissitudes. Ela é re- sultante de uma pres- são que se situa entre

o mental e o somático e

está na origem dos estí-

mulos que se originam no corpo e alcançam a mente. Segundo Freud,

a pulsão não se dá a co-

nhecer por si mesma, mas é reconhecida pelas ideias (vostellung) e pelo afeto (affekt), sendo o afeto a expressão qua- litativa da quantidade de energia pulsional, cujas manifestações são percebidas como sen- timentos, e as ideias se produzem como traços de memória.

O sujeito desejante:

deslizando da Psicanálise para a Análise do Discurso

Para pensar o funcionamento desse sujeito, mobilizo ini-

cialmente a reflexão de Guattari (1986). Para este autor, a produção da fala, das imagens, do desejo não tem origem no indivíduo. “Essa produção é adjacente a uma multiplicidade de agenciamentos sociais,

] [

(GUATTARI & ROLNIK, 1986, p. 32). E, mais adiante, acrescenta

que tais “agenciamentos coletivos de subjetividade, em algumas

circunstâncias [

Entendo que é exatamente uma dessas formas de individua- ção que estamos observando pelo viés do processo metafórico em análise: aqui se individua, mesmo que por um instante, o sujeito desejante que se deixa perceber através dele. Tomo essa concepção de sujeito desejante, pois as formulações de Guattari apresentam pressupostos possíveis de serem aproxi- mados aos da AD. Em primeiro lugar, não se trata de considerar o sujeito em sua individualidade, mas de tomá-lo em seu agencia- mento coletivo e social. Em segundo lugar, porque Guattari trata das pulsões 5 como sintoma em nível do social e do político e não como sintoma individual. Para esse autor, a produção do desejo é resultante de pulsões de natureza político-social: “Trata-se, diz Guat- tari, de movimentos de protesto do inconsciente contra a subjetividade capitalística (sic), através de outras maneiras de ser, outras sensibilidades, outra percepção, etc.” (Ibidem, nota 5, p. 45). O autor chama a atenção para a importância política da

a mutações de universos de valor e de universos históricos”

],

podem se individuar” (Ibidem, p. 33).

produção do desejo e seus possíveis desdobramentos, entre os

quais se situariam os movimentos sociais. E é exatamente o que estamos constatando no caso em análise. Diolinda, ao tomar in- vasão por ocupação, é movida, por um lado, pela rememoração de

um momento muito forte que a marcou e que ainda é capaz de

emocioná-la, e, por outro, essa rememoração é resultante de uma pulsão político-social responsável pela emergência do sujeito desejante,

sujeito este que luta pela justiça no campo, afrontando grandes

proprietários de terra. Tais formulações de Guattari têm início em seus escritos em coautoria com Deleuze (1972). Os autores postulam uma nova concepção de inconsciente, mobilizando a noção de econo- mia em seu sentido pulsional e político. Afastam-se do inconsciente individual e vão ao encontro de um inconsciente em que jogam o funcionamento de fatores históricos, políticos, culturais e econômicos, daí surgindo um sujeito desejante capaz de pôr em questão a ordem

estabelecida. E é isso que está em tela nesse trabalho: observar um processo metafórico que expõe a ação e palavra de um sujeito movido pelo agenciamento político do desejo. Entendo que o processo metafórico ocupação/invasão iden- tificado na SD5 funciona como o sintoma do sujeito desejante no discurso de Diolinda. Chamo a palavra de Rolnik para explicar essa emergência: “Se situarmos o inconsciente na maneira de se orientar e de se organizar no mundo – as cartografias que o desejo vai traçando [desenham] diferentes micropolíticas, que corres- pondem a diferentes modos de inserção social” (ROLNIK, 1986, p.12). O processo metafórico em análise aponta para esses dife- rentes modos de inserção social trilhados por Diolinda. Em um primeiro momento, encontramos Diolinda jovem, participando de sua primeira ação política, ainda na companhia de seus pais. Dessa participação resultou o assentamento no qual sua família recebeu um lote de terra. Naquele momento, Diolinda era apenas uma jovem de 18 anos, filha de sem-terra, e acompanhava a ação política dos pais. Ainda não exercia função de liderança e podia mobilizar a designação invasão, comum entre assentados e acampa-

dos, para referir a luta pelo direito à terra. Nessa situação, movida pela pulsão político-social e pelas urgências típicas do cotidiano de acampados, subjetivou-se como um sujeito que desejava mudar

o mundo, distinguindo-se do mundo capitalista em que vivia. O

segundo momento nos coloca frente a Diolinda exercendo uma função de liderança entre os sem-terra acampados no Pontal de Paranapanema. E, nessa nova posição, Diolinda subjetiva-se, como vimos, pelo viés da designação ocupação. Modos diferentes de inserção social que conduzem a diferentes formas de designação. Nesse passo do trabalho, o que importa analisar é a pulsão

que está na base da oscilação/divisão/batimento do sujeito do discurso entre essas duas designações, ambas ocorridas num determinado momento da militância política de Diolinda e em uma mesma entrevista. Como vimos, Diolinda divide-se, nessa entrevista, entre duas designações: uma que remete para o que deve e pode ser dito e que é resultante de sua interpelação ideológica e do lugar discursivo que ocupa como líder do MST. Desse lugar deve dizer

e diz ocupação. Ao mesmo tempo, e contraditoriamente, a outra –

invasão - que aponta para o sentido impossível de dizer, a partir de seu lugar discursivo. Diolinda desliza, então, de um sentido para

o outro. Dito de outra forma: este deslizamento marca o ponto

em que se cruzam determinação ideológica – o que pode e deve ser dito – com determinação inconsciente, que sinaliza o sujeito desejante, capaz de mobilizar o discurso-outro. Esse ponto de encontro vem marcado por esta falha, esta passagem momentânea e única de ocupação para invasão. É o interdiscurso que se atravessa no discurso do sujeito. Ouçamos uma vez mais o que diz Pêcheux:

“a metáfora aparece fundamentalmente como uma perturbação

que pode tomar a forma do lapso, do ato falho, do efeito poético, do Witz ou do enigma” (PÊCHEUX, [1984] 2011, p.160). Em meu entendimento, o deslizamento aqui em análise ocorre no momento em que a emoção aflora e faz o sujeito mover-se e dividir-se entre as duas designações. Trata-se de um efeito poético.

Interrompendo a reflexão

Mais acima, vimos que a pergunta feita à Diolinda pela en- trevistadora funcionou como um estopim para a ocorrência dessa falha, produzindo um efeito devastador, jogando-a para fora dos limites de seu lugar discursivo de líder e do sentido que, desse lugar, lhe é imposto. E, assim, sob o efeito da emoção, do afeto, para retomar o termo empregado por Freud 6 , que a rememoração suscitou, o dizer desse sujeito transbordou dos limites que sua posição-sujeito e seu lugar discursivo lhe impõem, mostrando-se um sujeito fragmentado e dividido entre duas designações que identificam posições diversas. Oscilando entre a posição do bom sujeito que diz o que o líder pode e deve dizer de seu lugar discursivo, e a posição do su- jeito que, capturado pela rememoração, vai ao encontro do “im- possível de dizer, impossível de não dizer de uma determinada maneira” (PÊCHEUX, [1981] 2004, p. 52), o sujeito vai entretecendo em seu discurso a contradição. A presença de tais designações, contraditórias entre si, são o sintoma de que certos limites vão se esgarçando na ordem política da língua e, por entre os desvãos que vão surgindo, o sujeito desejante emerge, enunciando sob o efeito da emoção vivida no passado, rememorada no presente, mas tam- bém sob efeito do que acabara de viver: ter sido presa para, dessa forma, ser pressionada a dizer onde se encontrava seu marido procurado pela polícia. Mas não apenas isso: ao ser encarcerada, foi separada de seu pequeno filho, que ficou, dessa forma, privado do amparo do pai e da mãe. São esses sentimentos e memórias que fizeram aflorar o processo metafórico aqui analisado, que fizeram o sujeito estampar a marca de seu desejo em seu dizer. Como vimos, o sujeito, sob o efeito e força da emoção, ao responder à pergunta que lhe foi dirigida, sucumbe à própria incompletude e simboliza o interdito. E, ao fazê-lo, o sujeito dese- jante mostra-se tal como é: incompleto, heterogêneo e dividido em relação a si mesmo e ao lugar discursivo que ocupa e no qual se constitui enquanto sujeito Sem Terra. Incompleto porque os dizeres e sentidos que sua posição-sujeito lhe autoriza são insuficientes para dizer a emoção sentida, mescla de alegria e de dor, mescla de rememoração e atualização da luta pela terra, provocando o transbordamento dos sentidos Heterogêneo porque apropria-se do dizer do outro, que irrompe transversamente em seu discurso, instaurando em seu interior a diferença e a contradição. E dividido porque movimenta-se entre ocupação e invasão, entre o que lhe é

possível dizer e o que lhe está interditado, mas que só pode ser dito daquela forma, naquele momento. Pode-se, pois, afirmar que a incompletude, a heterogeneidade e a divisão do sujeito desejante desse discurso decorrem do jogo tenso entre o memorável, o dizível e o interdito, fazendo com que os sentidos extravasem seus limites e produzam o cruzamento entre discursos de posições-sujeito diversas e conflitantes. Ou talvez seja melhor dizer que o jogo tenso entre dizível e interdito acaba por borrar momentaneamente tais limites, dando lugar a esse cruzamento/transbordamento. Assim, ao dividir-se na dualidade contraditória ocupação/ invasão, esse sujeito desejante se constitui como sujeito de seu discur- so. Ao representar-se dividido, carrega a marca do outro, eviden- ciando que a unicidade do sujeito é imaginária e se desfaz frente às pulsões políticas que movem seu desejo de um mundo mais justo.

Abstract

In the present text, I resume the terms occupation/ invasion in order to investigate a very peculiar sense for invasion that appeared in an interview with Diolinda Alves de Souza, MST leader, in December 6, 1995, for the Variety leaflet of Folha de São Paulo. In this interview, I was interested in examining the process of subjectification/ identification in Deolinda´s phrasing: in a certain moment, while referring to her first occupation, she uses the term invasion. In doing so, the in- terview does not address what the subject can/ must say from its discursive locus. This term does not correspond to the mode of subjectification in her Discursive Formation, so well defined in the interview until that point. This sliding of occu- pation to invasion, allows us to identify a specific metaphorical process. A metaphorical process is “a non-subjective process in which the subject is constituted” (Pêcheux, 1988:130). And more:

metaphorical process consists of a “socio-historical process that serves as the foundation for the ‘pre- sentation’ of objects to subjects” (idem, p.132). I understand that this specific metaphorical process allows us to discern the moment in which the political subject is thrown back into its memories from which he emerges as a desiring subject.

Keywords: discursive locus; subject position; discursive formation; metaphorical process; pro- duction of desire; pulsional socio-political agency; desiring subject.

REFERÊNCIAS

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Au nom des noms. Mémoire et démémoire discursives en résistance

Gragoatá

Marie-Anne Paveau (Université de Paris 13 Sorbonne Paris Cité Équipe Pléiade)

Résumé

Cet article propose une réflexion sur la notion de mémoire, pensée, à partir de la théorie du discours, dans un cadre postdualiste, c’est-à- -dire qui considère les environnements matériels des productions verbales comme complètement intégrés à ces productions. À partir de la notion de mémoire discursive proposée par Jean-Jacques Courtine en 1981, on élabore celle de démémoire discursive inspirée des travaux de Régine Robin. Ces deux notions permettent de rendre compte de la manière dont certains locuteurs inscrivent des combats et des résistances au cœur du discours. On s’intéresse particulièrement au nom propre, dans sa dimension de nom de mémoire, et pour ce faire on propose cinq vignettes discursives, c’est- -à-dire cinq cas d’inscription ou de désinscriptions de noms propres dans des réalités chargées émotio- nnellement ou politiquement. Ces cas sont exposés à partir de photographies de noms en situation.

Mots clés : Démémoire discursive; Désignateur souple; Désinscription; Mémoire discursive; Nom propre; Prédiscours; Signifiance.

Niterói, n. 34, p. 39-60, 1. sem. 2013

Introduction

Les mots font des choses, words do things, c’est un principe admis depuis l’ouvrage de John Austin en 1962, en fait un peu plus tôt puisque la conférence dont est issu le livre date de 1955. Donc, depuis 1955, les philosophes, les linguistes et les chercheurs qui s’occupent des signes et des choses, du langage et de la réalité, peuvent penser que les mots ont des effets tout à fait concrets dans la réalité. Et John Austin nous a également expliqué comment les mots faisaient : how to do things with words. Cela ne veut pas dire que ce phénomène ait été intégré dans les théories et méthodologies linguistique et/ou discursives, loin de là. Il semble plutôt que la prise en compte de ce lien de con- tinuité entre langage et réalité, qui conteste la conception binaire mainstream d’une distinction, voire parfois d’une opposition entre les deux, selon la traditionnelle division mind/body, soit minoritaire dans les travaux sur les productions langagières. Ce sont la prag- matique, l’interactionnisme et l’analyse du discours d’une certaine façon, mais surtout des approches non directement langagières comme la gender theory de Judith Butler par exemple, qui mettent en avant cette articulation entre le langage et la réalité. Dans cet article, je voudrais proposer une réponse au « how » de John Austin, qui passe par une réflexion sur la notion de mémoire, pensée, à partir de la théorie du discours, dans un cadre postdualiste, c’est-à-dire qui considère les environnements matériels de nos productions verbales comme complètement intégrés à ces productions, et non pas seulement comme des conditions extérieures. À partir de la notion de mémoire discursive proposée par Jean-Jacques Courtine en 1981, je propose celle de démémoire dis- cursive inspirée des travaux de Régine Robin. Ces deux notions me permettront de rendre compte de la manière dont certains locuteurs inscrivent des combats et des résistances au cœur du discours. Je m’intéresserai particulièrement au nom propre, dans sa dimension de nom de mémoire, et pour ce faire je proposerai cinq vignettes discursives, c’est-à-dire cinq cas d’inscription ou de désinscriptions de noms propres dans des réalités chargées émotionnellement ou politiquement. Ma méthode dans ce travail est celle d’une grounded theory volontairement empirique (Glaser 1978), qui fait une place à une linguistique profane et expérientielle donc non théorisée, à partir de laquelle le linguiste peut écouter ce que les corpus ont à lui dire, avant de formaliser ses analyses. Ces vignettes sont composées d’une image, nécessaire pour moi dans une analyse qui prétend rendre compte de morceaux de réel, et elles sont généralement rédigées à la première personne, m’impliquant en tant que « locutrice interprétante » ordinaire dans la forêt des discours qui constituent nos environnements. Groun- ded theory donc, mais également une forme d’auto-ethnographie

qui fournit les matériaux d’une analyse désireuse d’objectiver au mieux, comme le dit Pierre Bourdieu, le sujet de l’objectivation, sans illusion de mise à l’écart aseptisé d’un sujet illusoirement objectif. Cinq vignettes donc, autour de cinq noms : Qitiao La Bomba, Chiquita Levy, Gaston Donnat, Jacques Bouveresse et Vincennes.

1. Qitiao La Bomba. Le désignateur souple d’un citoyen du monde

La Bomba . Le désignateur souple d’un citoyen du monde Image 1. Qitiao La Bomba, juillet

Image 1. Qitiao La Bomba, juillet 2011, Paris, rue des maraîchers, © Marie-Anne Paveau

1.1 Des noms sur un graffiti

Pendant presque trois ans, le « centre-bus Lagny » de la RATP (régie des transports parisiens), immense entrepôt entouré par les rues des Pyrénées, de la Plaine, des Maraîchers et de Lagny, à Paris, dans le 20 e arrondissement, a constitué un des spots de graffitis les plus fréquentés de la capitale. Jour après jour, semaine après semaine, les murs se sont peints et repeints, en toute légalité puisque la RATP avait elle-même financé le projet, en attendant la destruction de son bâtiment.

1 « Ce nom de Gilber- te passa près de moi, évoquant d’autant plus l’ex i stence de cel le qu’il désignait qu’il ne la nommait pas seu- lement comme un ab- sent dont on parle, mais l’interpellait ; il passa ainsi près de moi, en action pour ainsi dire, avec une puissance qu’accroissait la courbe de son jet et l’approche de son but ; — transpor- tant à son bord, je le sen- tais, la connaissance, les notions qu’avait de celle

à qui il était adressé, non pas moi, mais l’amie qui l’appelait, tout ce que, tandis qu’elle le pronon- çait, elle revoyait ou du moins, possédait en sa mémoire, de leur intimi- té quotidienne, des visi- tes qu’elles se faisaient l’une chez l’autre, de tout cet inconnu encore plus inaccessible et plus dou- loureux pour moi d’être au contraire si familier et si maniable pour cette fille heureuse qui m’en frôlait sans que j’y puis- se pénétrer et le jetait en plein air dans un cri

» (Proust, Du côté de chez Swann, “Noms de pays : le nom”)

[

]

La légalité, c’est ce dont parle entre autres ce graffiti recueilli en juillet 2011. Son emplacement est particulier puisqu’il occupe un angle cassé au coin des rues des Maraîchers et de Lagny, juste devant le lycée Hélène Boucher. Le dessin occupe exactement la largeur de cet angle, et le graffeur a préparé un fond dont la taille est adaptée à son dessin : pas de débordement, pas d’espace perdu, du travail de professionnel, un vrai faussaire n’aurait pas fait mieux. Ce motif est le seul que j’aie vu de ce type en deux ans, il est donc tout à fait singulier. Cette « carte trafiquée d’identité » tient tout un discours, qui parle d’identité bien sûr, mais aussi de frontières nationales, de papiers officiels, et même, sur le mode humoristique, de puissance sexuelle. Que nous dit ce graffeur facétieux, qui est aussi, d’une certaine manière, philosophe du discours d’identité ? Il a, d’abord, dessiné une identité « trafiquée » sur un mur légal où, pour une fois, aucun employé de la mairie ne viendra nettoyer ses traces indésirables. C’est bien trafiqué d’ailleurs : on reconnaît le dégradé de couleurs de la « vraie » carte d’identité française, les filigranes, les trois zones, les chevrons. Ensuite c’est précisément le national qu’il a trafiqué, comme le dit bien la place du mot dans notre figement français souvent

siglé : CNI, carte nationale d’identité. National est donc remplacé par trafiqué. Les mots sont-ils substituables ? C’est une question morpholexicologique : avec quoi se combine ce trafiquée, avec le nom d’avant ou le complément d’après ? Le nouveau figement, carte trafiquée d’identité, CTI, devient ambigu, car il peut se décompo- ser de deux manières et du coup il prend deux sens : est-ce une carte-trafiquée, d’identité, donc une « fausse carte » ? ou est-ce une carte, trafiquée-d’identité, une carte qui serait trafiquée avec de l’identité ? Syntaxiquement, c’est indéfinissable. Le choix ne peut être que sémantique. Voilà qui ouvre des possibles : si certains trafiquent des papiers avec du matériel d’imprimerie, Qitiao, le fait avec de l’identité. Enfin, et surtout, ce graffiti tient le discours du sens des noms propres, des « -onymes ». Car c’est bien ça, une carte d’identité, même trafiquée : des noms propres, des dates et des filigranes. Pas de phrase, pas de discours, pas de dialogue, mais des catégories. Et pour les graffeurs, s’y ajoutent des choix typographiques. Le nom Qitiao La Bomba m’est apparu (et j’insiste sur la subjectivité de cette interprétation, qui est centrale dans la conception sémantique du nom propre) comme le prénom d’un enfant chinois (Qi-tiao ?) qui aurait eu un père latino-américain, étrangement écrit dans une typographie du côté des idéogrammes chinois. Les yeux en amande semblent donc faire des plis asiatiques ouverts à Valpa- raiso en 1986, une « bomba » de couleur à la main. Le toponyme,

sous son aspect de nom de nation, parle aussi sur ce graffiti : une nouvelle entité nationale apparaît, « française-chile », dans cet

imaginaire sémantico-politique. Trafic de nationalité, trafic de frontières, trafic de couleurs. Pour finir, le graffeur appose sur sa carte trafiquée un « tag » assez grand : sa signature ample et composée, que l’on imaginerait bien authentique, d’ailleurs. On a donc un tag sur un graf qui trafique avec de l’identité sur un mur. Cette image est un discours des noms, qui parle au nom des noms, réels ou imaginaires, auxquels manque juste celui de l’autorité. Une chose m’a en effet manqué : j’aurais aimé pouvoir retourner la carte, et lire la « Signature de l’autorité ». Sur la mienne, « l’autorité », c’est « Le directeur de la Police générale, Louis Ducamp », avec sa signature. J’aurais donc bien aimé savoir comment le graffeur, qui se représente peut-être en Qitiao La Bomba, s’y serait pris pour trafiquer la Police générale.

2 Pour une synthèse voir Leroy 2004, et plus récemment Shokhen- mayer 2010.

3 Le discours média- tique est particulière- ment friand de ces tournures, du type :

« Peillon, le Morano de Hollande », « la Mo - rano du nouveau gou- vernement » (Nadine Morano s’est illustrée comme ministre du gouvernement Sar- kozy par ses prises de paroles intempestives et ses tweets brutaux, voire grossiers) ou « la Madoff du Chinonais », désignant une ancienne employée de banque de la région de Tours ayant escroqué des dizaines de personnes pour des sommes avoisinant les 3 millions d’euros (exem- ples de 2012 recueillis au vol dans la presse et sur Twitter).

1.2 Des sens dans les noms propres

En 1987, Paul Siblot propose une nouvelle approche du nom propre centrée sur la notion de « signifiance ». Claude Lévi-Strauss avait parlé dans La pensée sauvage des « quanta de signification » du nom propre (1962 : 258) et, plus tard, Jean Molino, avait développé ce point : « Dans le réseau cognitif de chacun, les noms propres constituent les points fixes de l’organisation symbolique, c’est-à- dire en même temps de l’organisation mentale et de la structure du monde » (1982 : 19). Dans la linguistique profane des locuteurs ordinaire, cette idée du sens des noms propres est une évidence, comme le montre l’exemple de Qitiao La Bomba, citoyen d’une France chilienne, que

mes cadres cognitifs, culturels et sémantiques ont immédiatement interprétés, voir surinterprétés, et même mal interprétés. Il existe toute une littérature et une onomastique de sens commun sur la

capacité évocative des noms propres, des pages célèbres de Proust sur les « noms de pays » ou le nom de Gilberte 1 , à la caractérologie spontanée des prénoms dans la multitude de guides des prénoms sur le marché (les Francine sont « fières et racées », les Anne sont « ordonnées et soigneuses », les Pierre sont « bons et généreux », etc.) en passant par les discours touristiques sur l’exotisme des noms, garants de celui des choses et des territoires (Tahiti, Le Sahara, Rio de Janeiro…). Mais en sciences du langage, deux paradigmes s’opposent pour rendre compte du fonctionnement du nom propre : celui du désignateur rigide (le nom propre vide de sens) et celui de ce que j’appelle le « désignateur souple » (le nom propre riche de sens) 2 . Cette dimension sémantique du nom propre est envi- sagée au sein de la théorie du nom propre modifié (Leroy 2005 dir.), c’est-à-dire actualisé par un déterminant qui le dote d’une « polyréférentialité » impliquant sa polysémie 3 . La question du sens du nom propre est cependant, dans cette approche, posée

de manière plus syntaxique que sémantique et plus sémantique que discursive, l’intérêt se concentrant sur les formes langagières de l’intradiscours plus que sur la situation des énoncés dans leurs contextes empiriques propre à la théorie du discours. Or, l’étude du graffiti de Qitiao La Bomba implique de montrer comment une constellation de significations organise une lecture sémantico-discursive dans le contexte culturel, so- cial, historique et matériel de l’énoncé. Les noms qui y figurent ne peuvent évidemment pas recevoir d’interprétation seulement référentielle (la « République française chile » n’existerait alors pas, or, dans ma perspective, elle existe bel et bien, sur le mur désormais détruit, sur la photographie, dans ma mémoire et celle d’autres passants sans aucun doute, et en discours ici) et il faut par conséquent proposer un modèle théorique et une méthodologie qui rende compte de la « souplesse » et richesse sémantique des noms propres en situation. Avant cela, je rappelle les travaux qui ont déjà été faits dans cette perspective afin de mieux situer ma proposition et surtout d’éviter de présenter une réflexion qui ne serait pas cumulative. Je propose de le faire en traitant un second exemple.

2. Chiquita Levy. Un univers sur une pierre tombale

exemple. 2. Chiquita Levy. Un univers sur une pierre tombale 4 Frédéric François, 1997, « Chiquita

4 Frédéric François, 1997, « Chiquita », album Je ne t’oublie pas, Sony / BMG.

5 Jean-Patrick Cap- devielle, 1980, « Oh Chiquita », CBS.

6 Joséphine Baker, 1949, « Chiquita madame (de la Martinique) », paroles de P. Misraki - J. Do Bar - ro, Milan Music (2007).

Image 2. Chiquita Levy, novembre 2012, cimetière São João Batista de Rio de Janeiro,© Marie-Anne Paveau

2.1 Une poétique de la mémoire sémantique

À Rio, dans l’immense cimetière São João Batista, repose

Chiquita Levy Lustosa, née en 1929, morte en 2009. Je ne sais pas du tout qui a été Chiquita Levy et je n’aurai jamais accès à la réalité de son histoire. En revanche le halo évocateur de son nom m’a parlé là-bas, au Brésil, en novembre 2012 et continue ici, en

France : « Nos prénoms nous hèlent jusqu’à notre mort », déclare Pascal Quignard dans Le nom sur le bout de la langue. Dans le cas de Chiquita Levy, c’est le prénom et le nom d’une autre, morte, ailleurs, qui me hèle, moi, vivante, ici. Évidemment, je suis une proie idéale pour les obsessions sémantiques anthroponymiques, puisque je m’intéresse de près aux prénoms (Paveau 2011) et que le mien fait l’objet des déformations régulières qui maintiennent

sans doute mon intérêt pour cet objet linguistique. Avant de partir

à Rio, un Lévy m’avait appelée Anne-Marie, et la chose n’est sans

doute pas pour rien dans le temps d’arrêt mi-surpris mi-amusé que j’ai marqué devant cette tombe. Pourquoi ce temps d’arrêt ? Pourquoi cette association, Chiquita Levy, m’a-t-elle frappée et amusée, et a déclenché des évocations et des plaisanteries échangées dans ce cimetière, au pied des montagnes et des favelas ? “On dirait un titre de bande dessinée”, s’est exclamée la personne qui m’accompagnait, et qui ne croyait pas si bien dire, on va le voir. Moi, j’ai vu (entendu ?) du mélange, du contraste, plaisant, drôle, facétieux même, et en même temps une parfaite association, due au rythme peut-être :

[1/2/3,1/2]. Ça se prononce bien, [Chi/qui/ta, Le/vy], ça se pose bien dans la parole. Chiquita Levy, pour moi, c’est l’Amérique latine mariée à la vieille Europe, c’est la plage, la bodega et Che Guevara de la scie de Frédéric François 4 que j’avais vaguement dans la tête, qui aurait atterri rue des rosiers, ou dans le Sentier, à Tel-Aviv mais aussi à Auschwitz ou Birkenau. “Chiquita”, c’est aussi une chanson de Capdevielle 5 , et plus loin dans le temps un tube de Joséphine Baker, « Chiquita madame (de la Martinique) » 6 , et puis il y a la « Chiquita banana », le prénom Chiquita ayant rem- placé comme nom de marque la compagnie United fruit dans les

années 1940. Chiquita, la “petite”, en espagnol, qui aurait rencontré le troisième fils de Jacob dans un film d’Alexandre Arcady. Tout ce monde-là se trouvait soudain convoqué sur cette pierre tombale, et le cimetière devenait bien peuplé soudainement. Chiquita Levy : les tropiques et le Lévitique, la banane et la kippa, la bodega et la Torah. Chiquita Lévy, deux univers dans un nom gravé sur une tombe, qui auraient pu rester latents et ina- perçus, sans le chemin de la mémoire sémantique, qui commence avec notre regard et se fraie ensuite des sentiers dans les sédiments des souvenirs qui nous fabriquent et nous relient à nos morts. Voilà pour le « story telling » de mon expérience profane, en quelque sorte, de ce nom capté par hasard dans le cimetière de Rio. Que peut en dire la théorie du discours quand elle s’intéresse

à la richesse sémantique du nom propre ?

2.2 Mémoire, cognition, émotion

Il faut rappeler les origines et reprendre le concept d’« hy- persémanticité » proposé par Ulrich Weinreich en 1963, qu’il

7 Les pieds-noirs sont les colons français ins- tallés en Algérie à partir de la conquête en 1830.

conçoit comme une plasticité sémantique du nom propre doté d’une puissance évocative importante. Roland Barthes reprend cette idée en avançant la notion d’« épaisseur sémantique » du nom propre, ou de son « feuilleté » (Barthes 1972 [1967]). Les « connotations associatives » de Catherine Kerbrat-Orecchioni en 1977 vont dans ce sens, comme les « halos positifs et négatifs » de Marc Wilmet (2003 [1997]). Paul Siblot, on l’a vu, faisait des propositions théoriques et terminologiques en 1987, comme les « potentialités signifiantes » (1987). Plus récemment, certaines chercheuses ont repris cette problématique et fait d’intéressantes propositions : Georgeta Cislaru propose l’hétéroréférentialité, l’hybridation, l’omnisignifiance (2005) ou la polyréférentialité, à propos du nom de pays, Michèle Lecolle parle de plurivocité et de « polyvalence intrinsèque », qui est la capacité du toponyme à désigner, concomitamment ou en alternance, plusieurs référents, en plus du référent géographique, par exemple l’état, la nation, le gouvernement, telle équipe de football ou telle entreprise. Alice Krieg-Planque, dans une perspective plus sociologique sur les noms propres d’évènement, emprunte à Louis Quéré sa « mise sous description » de l’évènement via le toponyme qui rendrait l’évènement insaisissable (2006 : 98). J’accepte l’ensemble de ces propositions et leurs implications théoriques, mais je souhaite envisager l’omnisignifiance du nom propre à travers sa nature prédiscursive, c’est-à-dire d’agent de transmission de cadres prédiscursifs collectifs délivrant des instructions sémantiques pour la mise en discours, ce qui me conduira à parler de « noms de mémoire » (Paveau 2006). Dans ma conception cognitivo-discursive, le nom propre possède une signification située (au sens cognitif du terme) dans le temps, l’espace et la culture de la communication : la position historique et énonciative du sujet est un critère aussi important que la sédi- mentation mémorielle du nom lui-même, puisque les effets dis- cursifs sont également des effets cognitifs. En effet, les positions énonciatives font varier les sédimentations sémantiques car les connaissances historiques, mémorielles et culturelles ainsi que les modes de catégorisation opérés par les noms propres, sont différents selon les sujets, fortement situés eux aussi, bien sûr :

l’exemple de Chiquita Levy le montre bien, mon réseau associatif et évocatif étant fortement déterminé par mes cadres prédiscursifs. Pour quelqu’un à qui j’ai montré cette photo, et qui revenait du Chili, le nom de Chiquita Levy s’est inscrit dans un autre chemi- nement sociocognitif : de Chiquita Levy à São João Batista, de São João Batista à Batista le patronyme, de Batista à La Havane, et à son cimetière, Colon ; puis d’autres noms de cimetières, Prague, Le Père Lachaise, et de fil sémantique en aiguille cognitive, Birkenau, et

d’autres lieux de mort encore. Mais dans cette réaction associative en chaîne, un autre facteur joue, qui est celui de l’émotion. On n’a pas encore pris suffisamment en compte, en sciences du langage,

le rôle de l’émotion dans l’élaboration des discours et de leur sens. Il existe désormais des travaux assez nombreux sur l’expression des émotions, mais très peu sur l’émotion comme catégorie de production des discours. On sait pourtant que l’émotion joue un rôle important dans la mémoire, et il est donc tout à fait pertinent de la convoquer dans le fonctionnement de ces noms de mémoire que sont les noms propres. L’aptitude à l’hétéroréférentialité autorise donc le nom propre, ici le patronyme Chiquita Levy, à une polysémie souple, fluide même, polysémie plus évocatrice que signifiante. Tous les noms de mémoire sont étroitement liés aux conditions cognitives de leur usage : même des noms pour lesquels on peut supposer un partage universel des savoirs pour des raisons historiques (grands hommes et grandes femmes des livres d’histoire, par exemple) ne « disent quelque chose » aux sujets que dans le cadre situé d’un partage de connaissances communes. Et, hors des connaissances communes, dans les lectures individuelles, des réseaux de signi- fications idiosyncrasiques se mettent en place, partagés dans une émotion sémantique commune.

3. Gaston Donnat. Un cas d’effacement volontaire de mémoire

8 OAS : « Organisation armée secrète », grou- pe clandestin créé en 1961, qui organise des opérations terroristes contre les partisans de l’indépendance.

9 Paris, L’Harmattan,

2008.

10 Le mot Harki désigne à l’origine un indivi- du servant Algérie à l’époque coloniale dans une formation parami- litaire, une harka (ha- raka en arabe veut dire « mouvement »). Le mot désigne par extension les supplétifs algériens engagés dans les armées françaises entre 1957 et 1962, et qui se sont donc battus contre les indépendantistes.

11 LDH Toulon, 29 fé- vrier 208, « Perpignan :

instrumentaliser les mémoires sans trop se soucier du respect de la vérité », site de la Ligue des droits de l’homme Toulon, http://www. ldh-toulon.net/spip. php?article2553, con- sulté le 13 janvier 2013.

php?article2553, con - sulté le 13 janvier 2013. Image 3. Les noms de la famille Donnat

Image 3. Les noms de la famille Donnat effacés de la quatrième plaque (photo © TC - 28 février 2008), Perpignan, Mur des disparus d’Algérie (sur le site de la Ligue des droits de l’homme de Toulon : http://www.ldh-toulon.net/spip.

php?article2553)

3.1 La liste comme discours (1). Éthique de la désinscription

Yvan Donnat, appartenant à une famille pied-noire d’Al- gérie 7 , découvre en février 2008 les noms de plusieurs membres de sa famille, tous vivants, sauf son père, gravés sur le « Mur des

disparus français d’Algérie », longue plaque commémorative ins- tallée à Perpignan, ville du sud de la France. Il en demande aussitôt l’effacement : la liste est en effet plutôt orientée vers les positions de l’Algérie française, c’est-à-dire celle de la communauté pied- noire qui était favorable au maintien de la colonisation française, et pour lesquels les accords d’Évian signés en 1962 ont représenté une perte importante qui alimente une nostalgie entretenue par la communauté.

Yvan Donnat explique ainsi son indignation et sa demande :

« Ils ont repris de fausses informations en utilisant, sans la vérifier, la liste du Ministère des affaires étrangères. Mon père a toujours été un humaniste et un militant anticolonialiste. Or, sur le mur, son nom, comme celui des autres membres de ma famille, est accolé à celui d’assassins de l’OAS ? Tout ça est révoltant ! » (Libération 15.02.08) 8 . Gaston Donnat est en effet un militant anticolonialiste connu pour ses actions, non seulement en Algérie, mais également au Cameroun. Un ouvrage rassemble des extraits biographiques, publié en 2008 avec une préface de Gilles Perrault : Afin que nul n’oublie. L’itinéraire d’un anticolonialiste 9 . Son fils Yvan engage des poursuites pour « préjudice moral ». Il est remarquable que la raison de son indignation ne soit pas que les « disparus » soient, excepté Gaston Donnat le père, bien vivants, et parfaitement identifiés, mais qu’ils côtoient des sympathisants de l’OAS. L’ini- tiative de ce mur vient du « Cercle algérianiste », qui explique que les 2.619 disparus français et harkis 10 , dont le nom figure sur les plaques de bronze du mémorial, « sont ceux de la liste officielle » émanant du ministère des Affaires Etrangères. Le directeur des archives dudit ministère écrit alors à Yvan Donnat le 25 février 2008, précisant que la liste n’est pas officielle mais reflète « l’état des informations reçues par la Direction des Archives lors du versement des archives de l’ancien Secrétariat d’Etat aux affaires algériennes ». Il termine par la promesse de l’effacement : « Je vais donc veiller à ce que les noms des personnes de votre famille soient ôtés du site du Ministère, et vous exprime mes profonds regrets pour le trouble qui a pu être occasionné » 11 .

12 Gonac’h 2007.

3.2 De la désinscription comme acte de langage

J’ai proposé le concept de « démémoire discursive » dans Les prédiscours en 2006, en retravaillant celui de « démémoire » que Régine Robin, qui a consacré une grande partie de ses écrits à explorer les « passés fragiles », avait avancé dans les années 2000 pour formuler les transformations sémiotiques du Berlin de l’après-chute du mur (Robin 2001) : elle considérait en particulier que le processus de débaptême et rebaptême des rues, les noms de figures des brigades internationales ayant été remplacés par ceux de chevaliers teutoniques (Robin 2004), avait accompli une « démémoire ». Le phénomène intéressant du débaptême s’observe d’ailleurs dans plusieurs lieux marqués par des changements politiques forts, comme en Afrique du sud depuis la fin de l’apar- theid : la ville de Krugersdorp, d’après le nom du père fondateur du nationalisme afrikaner, Paul Kruger, va devenir Mogale city, d’après celui d’un ancien chef africain, Mogale Mogale (« le brave ») ; Pre- toria sera rebaptisée Tshwane, du nom d’un ancien chef tswana ; et Port Elizabeth deviendra la Métropole Nelson Mandela (Libération

12.06.2010). Jeanne Gonac’h, qui a étudié ce phénomène à Vitrolles

13 L’expression « divine surprise fonctionne en effet comme un attri- but fixé sur la catégo- rie “événement inat- tendu agréable”, et de ce fait peut s’appliquer à un grand nombre d’événements de la vie privée ou publique. La déshistoricisation passe par une désémantisa- tion intense : divin est vidé de toutes ses allu- sions monarchistes (c’est en sourdine l’expression de droit divin qui sem- ble présente dans la profération initiale de 1940), et l’expression est coupée à la fois de sa référence, l’arrivée de P. Pétain au pouvoir, et de son énonciateur […] C. Maurras » (Paveau 2006, p. 92).

entre 1997 et 2002, ville provençale sous mandat du Front national, parle même « d’épuration symbolique », expliquant qu’il s’agit avec le débaptême de retirer l’histoire d’une femme ou d’un homme de la mémoire collective (pour Vitrolles, Dulcie September ou Jean-Marie Tjibaou par exemple) 12 . En théorie du discours, le concept de mémoire discursive, proposé par Courtine en 1981 à partir de la notion de « domaine de mémoire » de Foucault et dans le cadre marxo-freudien de l’analyse du discours dite « française » (Paveau 2010), puis retra- vaillé en mémoire interdiscursive par Lecomte (1981) et Moirand (2003, 2004), est un des outils les plus opératoires pour lire les discours dans leurs contextes. La mémoire discursive se mani- feste quand les discours s’insèrent, par des marques repérables, dans des domaines de mémoire associés, c’est-à-dire développent des liens mémoriels de reformulation, répétition, ou au contraire d’oubli et de déni, par rapport à des « formulations-origines » repérables mais non présentes explicitement dans les productions verbales (Courtine 1981). Ces insertions échappent largement au sujet, qui est en quelque sorte parlé par des mémoires qui lui sont externes. La mémoire interdiscursive que propose ensuite Sophie Moirand articule l’épistémologie de l’analyse du discours française au dialogisme bakhtinien (Moirand 2007a et b). Il y

a mémoire interdiscursive quand les discours parlent dans les

mots d’autres discours (parler du « soja fou », c’est parler de la question des plantes transgéniques dans les termes de l’affaire de la vache folle, par exemple) ou font surgir d’autres événements, qui deviennent en quelque sorte des cadres d’expression (« marée noire : le Tchernobyl de l’industrie pétrolière », titre par exemple le magazine en ligne Rue89 à propos de l’affaire du pétrole de BP en Louisiane en 2011). La demande, entendue et réalisée d’Yvan Donnat, est une de-

mande de démémoire discursive : la lignée discursive dans laquelle

les auteurs de la plaque ont inscrit le nom de son père, et, par là, son nom propre, qui est aussi son propre nom, est inajustée à celle qu’il possède et qu’il revendique. Yvan Donnat n’accepte pas que le mur « parle » sa famille dans le discours de l’Algérie française

et de la nostalgie coloniale. Cette inscription discursive est effacée.

La notion de démémoire discursive désigne donc un en- semble de phénomènes de déliaison des rappels et insertions dans le fil mémoriel du discours qu’illustre bien l’exemple de l’histoire du nom Gaston Donnat sur ce mur commémoratif. Mais il existe d’autres processus à l’œuvre dans la démémoire, qui concernent en particulier des éléments liés au sens et au référent des mots :

le désancrage de certaines expressions figées de leur contexte référentiel d’origine (voir par exemple l’étude que j’ai consacrée à l’expression à Divine surprise dans Les prédiscours, le terme pouvant être désormais appliqué tant à une victoire olympique qu’à l’ob- tention d’un marché) 13 ; l’ancrage, au contraire, de certains discours

dans les formes d’un autre, réalisant une sorte de transfert de mé- moire sur une autre : sur le site du Comité Véritas, organisation qui défend l’Algérie française, on trouve un texte intitulé « J’accuse », qui demande la condamnation du Général de Gaulle, reprenant la forme choisie par Zola pour défendre Dreyfus : ce choix stylis- tique engage une démémorisation suivie d’une remémorisation de l’événement ; la déliaison entre un signifiant et ses sens et référent, particulièrement dans le cas du nom propre : pour beaucoup, par exemple Tataouine, nom de l’un des bagnes disciplinaires les plus durs des armées françaises à l’époque coloniale, est l’un des clubs Méditerranée les plus agréables de Tunisie, la mémoire du bagne s’étant effacée, et le feuilletage mémoriel s’étant bloqué sur des sens restreints ; enfin, la subjectivation mémorielle : à partir de l’exemple du polémonyme ou nom de bataille, comme Diên Biên Phu ou Gravelotte, j’ai montré que la construction des sens du nom propre étaient largement située dans une communauté culturelle, sociale, nationale (Paveau 2008, 2009).

4. Jacques Bouveresse. Refuser un certain honneur pour son nom

Jacques Bouveresse. Refuser un certain honneur pour son nom Image 4. Extrait du « Décret du

Image 4. Extrait du « Décret du 13 juillet 2010 portant promotion et nomination » à l’ordre de la Légion d’honneur (Journal officiel de la République française)

4.1 La liste comme discours (2). Éthique du non/m

En juillet 2010, Jacques Bouveresse est nominé pour le grade de chevalier de la Légion d’honneur par la ministre de l’enseignement supérieur et de la recherche du gouvernement français, Valérie Pécresse. Il refuse cette nomination dans une lettre publique, publiée sur le site de l’un de ses éditeurs, les édi- tions Agone, et relayée un peu partout sur les sites d’information et par des particuliers :

14 Le Quid, disparu en 2007, était une ency- clopédie qui rassemblait surtout des informa- tions chiffrées sur les domaines les plus divers de la vie humaine.

Lettre de Jacques Bouveresse à Mme Valérie Pécresse, ministre de l’Enseignement supérieur En réaction à l’attribution d’une Légion-d’honneur qu’il n’a jamais demandée, Jacques Bouveresse nous a transmis la lettre (en date du 17 juillet 2010) par laquelle il a refusé cet « honneur ».

Madame la ministre,

Je viens d’apprendre avec étonnement par la rumeur publique et par la presse une nouvelle que m’a confirmée la lecture du Journal officiel du 14 juillet, à savoir que je figurais dans la liste des promus de la Légion d’honneur, sous la rubrique de votre ministère, avec le grade de chevalier.

Or non seulement je n’ai jamais sollicité de quelque façon que ce soit une distinction de cette sorte, mais j’ai au contraire fait savoir clairement, la première fois que la question s’est posée, il y a bien des années [1], et à nouveau peu de temps après avoir été élu au Collège de France, en 1995, que je ne souhaitais en aucun cas recevoir de distinctions de ce genre. Si j’avais été informé de vos intentions, j’aurais pu aisément vous préciser que je n’ai pas changé d’attitude sur ce point et que je souhaite plus que jamais que ma volonté soit respectée.

Il ne peut, dans ces conditions, être question en aucun cas pour moi d’accepter la distinction qui m’est proposée et – vous me pardonnerez, je l’espère, de vous le dire avec franchise – certainement encore moins d’un gouvernement comme celui auquel vous appartenez, dont tout me sépare radicalement et dont la politique adoptée à l’égard de l’Éducation nationale et de la question des services publics en général me semble particulièrement inacceptable.

J’ose espérer, par conséquent, que vous voudrez bien considérer cette lettre comme l’expression de mon refus ferme et définitif d’accepter l’honneur supposé qui m’est fait en l’occurrence et prendre les mesures nécessaires pour qu’il en soit tenu compte.

En vous remerciant d’avance, je vous prie, Madame la ministre, d’agréer l’expression de mes sentiments les plus respectueux.

Jacques Bouveresse

Jacques Bouveresse ne mentionne pas son nom dans cette lettre, mais le fait parler indirectement : c’est en effet par son seul

nom qu’il est honoré à son insu et sans y consentir sur la liste du décret officiel, l’honneur ayant essentiellement pour objet, en tant que valeur sociale, le nom des individus qu’elle distingue. Dans les versions ultérieures du décret (consultables sur le site du Journal officiel français), le nom de Jacques Bouveresse n’apparaît plus, ce qui constitue un effacement analogue à celui du nom de Gaston Donnat. Il faut préciser cependant que le refus de la décoration est quasiment un stéréotype comportemental en France, comme dans d’autres pays d’ailleurs, et que Jacques Bouveresse a de nombreux et célèbres prédécesseurs. Ce refus de l’honneur donne d’ailleurs lieu à une publicité presque aussi importante, si ce n’est plus, que son octroi ; par exemple une encyclopédie comme le Quid 14 donnait la liste des « refusants » célèbres de la légion d’honneur, dans un encadré qui rassemblait quatre particularités sous les rubriques suivantes : « Parmi les premiers décorés », « Parmi ceux qui ont refusé d’être décorés », « Femmes » et « Décorations à titre collectif ». La Fayette est dit l’avoir refusée « pour éviter le ridicule » et Georges Sand pour éviter d’« avoir l’air d’une vieille cantinière » (Quid 2004 : 599). L’encyclopédie Wikipédia donne également la liste, assez longue, des refusants, où l’on peut voir Daumier, Maupassant, G. Sand, Sartre, Beauvoir, Camus, Pré- vert, Brassens, désormais Bouveresse et, depuis janvier 2013, le dessinateur Tardi. Toutes les décorations se refusent, et même les citations à l’ordre, dans un contexte purement militaire. Une autre pratique est de rendre sa décoration, comme le Turc Erdo- gan Teziç, qui choisit d’accomplir ce geste en 2006 pour protester contre la pénalisation de la négation du génocide arménien par le gouvernement français.

4.2 Discours et valeurs. Le patronyme comme lieu discursif éthique

Nous avons là des discours intéressants de démémoire volontaire, auxquels s’ajoutent des dimensions éthiques, dans la mesure où se trouve engagée l’une des valeurs les plus anciennes et les plus structurantes de nos sociétés : l’honneur. Il existe en effet un lien entre éthique et mémoire. Au début de son ouvrage L’éthique du souvenir (2006), le philosophe israélien Avishai Margalit explique que sa réflexion a pour origine une anecdote lue dans la presse, à propos d’un colonel d’infanterie :

« On interrogeait le colonel au sujet d’un épisode bien connu de son passé, alors qu’il commandait une petite unité. L’un des soldats qui étaient sous ses ordres fut tué d’une balle tirée de son propre camp. Il s’avéra que le colonel ne se souvenait pas du nom du soldat. Un torrent d’insultes se déversa sur l’officier qui n’arrivait pas à se souvenir. Comment se faisait-il que le nom du soldat ne soit pas marqué “au fer rouge” dans le cœur du commandant ? » (p. 29). Avishai Margalit en conclut que se souvenir du nom, c’est

se souvenir de la personne, et que c’est cet oubli de la personne à travers le nom qui est reproché au colonel en question. Il précise « qu’il y a par rapport au souvenir des noms propres une image puissante qui transforme notre conception de la mémoire en question éthique » (p. 29). Les événements discursifs autour des noms propres que je viens de décrire, en particulier autour du nom de Gaston Donnat, confirment amplement cette analyse :

inscriptions de noms refusées ou désirées, récompenses nomi- nales acceptées ou rejetées. Si le nom propre est aussi « puissant » sur le plan mémoriel et éthique, les deux dimensions s’entrecroisant, c’est que, et cela ne concerne pas seulement le patronyme, il constitue le lieu de cette valeur située très exactement à l’articulation du social et de l’individuel, l’honneur. Il existe peu de travaux en sciences humaines et sociales sur l’honneur, et le livre de Julian Pitt- Rivers, Anthropologie de l’honneur, qui date de 1977 (traduit en 1997 seulement chez Pluriel), constitue une référence encore parfaitement actuelle. Il définit l’honneur comme une valeur sociale attaché spécifiquement au nom :

L’honneur est la valeur qu’une personne possède à ses propres yeux mais c’est aussi ce qu’elle vaut au regard de ceux qui constituent sa société. C’est le prix auquel elle s’estime, l’orgueil auquel elle prétend, en même temps que la confirmation de cette revendication par la reconnaissance sociale de son excellence et de son droit à la fierté. […]L’honneur aménage une connexion entre les idéaux en vigueur dans une société et la reproduction que fait de ceux-ci l’individu qui aspire à les incarner. À ce titre l’honneur implique non seulement qu’on se conduise d’une certaine façon, mais qu’en retour on bénéficie d’un traitement particulier (Pitt-Rivers 1997 [1977], p. 18).

C’est la raison pour laquelle certains individus éprouvent le besoin de défendre leur nom ou de le préserver d’environnements qui ne correspondent pas à leurs ajustements éthiques. Sans qu’un lexique éthique ait été explicitement mis en avant par Jacques Bouveresse, on peut cependant lire dans son refus de la Légion d’honneur, qui est d’ailleurs le troisième, quelque chose de cette éthique du nom. Une des raisons que donne le philosophe, outre celles qu’il formule dans sa lettre à la ministre Valérie Pécresse (le fait qu’il ne l’a pas demandée et qu’il n’accepte pas cet « honneur supposé » d’un gouvernement dont la politique lui semble « inacceptable »), est de ne pas « se retrouver en bien mauvaise compagnie », comme il l’explique dans un entretien publié par le quotidien en ligne Mediapart sur la question : « […] en acceptant les honneurs, on risque fortement de se retrouver dans une compagnie assez peu honorable et même parfois peu fréquentable » (31.07.2010). Les commentaires qu’il fait sur son refus font appel à la dimension éthique puisqu’il mentionne le « mépris avec lequel [les membres du gouvernement] sont capables de traiter des gens pour lesquels

ils n’ont en réalité aucune estime réelle » (je souligne), et c’est sur le terrain des valeurs qu’il place sa décision :

Etant donné les valeurs que servent réellement ceux qui nous gouvernent (je ne parle pas de celles qu’ils professent officiellement et dont ils se réclament quand ils parlent de choses comme la « moralisation » de l’économie ou de la finance), je ne suis pas du tout surpris qu’ils aient décidé d’honorer un homme comme M. de Maistre. Mais, dans ce cas- là, il vaudrait certainement mieux ne pas chercher à honorer en même temps les gens de mon espèce (J. Bouveresse, Mediapart,

31.07.2010).

Jacques Bouveresse ne parle pas de son nom, mais la Légion d’honneur, comme toutes les décorations, ne distinguant pas le nom de la personne dans le processus honorifique, c’est une éthique implicite du nom qu’il défend, surtout dans sa double allusion à la « compagnie » : être promu dans l’ordre de la Légion d’honneur, c’est en effet, principalement, figurer sur une liste, forme langagière de la compagnie, qui constitue un environnement discursif à la fois graphique, social, politique et moral.

5. Vincennes. Un signifiant mémoriel atopique

15 Ouvert en 1969, le Centre Universitaire Expérimental de Vin- cennes (C.U.E.V.), fondé dans l’effervescence de le révolution de 1968 sur l’idée de démocratisa-

tion de l’accès au savoir, devient une université

à part entière, Paris 8,

apte à délivrer des dip- lômes, en 1971. Pourtant construite en bâtiments durs qui auraient pu

être conservés, elle est entièrement détruite en 1980 et réimplantée

à Saint-Denis, dans la

banlieue nord de Paris.

à Saint-Denis, dans la banlieue nord de Paris. Image 5. Profil et couverture de la page

Image 5. Profil et couverture de la page Facebook de l’« Université paris 8 Vincennes-Saint-Denis »

5.1 Mais où est donc située l’université de Paris 8 ?

À Vincennes et à Saint-Denis, tout en même temps, ce qui constitue une énigme à la fois géographique, onomastique et historique. Les noms des lieux ne sont pas forcément à leur place dans

la géographie de la réalité. Le nom de l’université de Paris 8, qui

est encore officiellement Université Paris 8 Vincennes – Saint-Denis,

réveille cette réflexion à chaque fois que je le vois passer dans une information ou une annonce de publication ; car une revue a gardé ce nom, Recherches Linguistiques de Vincennes, comme les presses qui l’éditent, les « Presses Universitaires de Vincennes ». Je sais bien sûr d’où vient ce déplacement toponymique, et je connais assez bien, par mes travaux et mes collègues, cette histoire-là 15 . Mais je reste frappée par ce maintien, plus de trente ans après la destruction du lieu en question, Vincennes, et son déplacement à Saint-Denis. Je me suis souvent demandé, durant mes courses au bois de Vincennes, où était cette université « de Vincennes ». On m’en a un jour vaguement indiqué l’emplacement, et mes yeux traînent parfois sur le sol à la recherche de vestiges illusoires ; illusoires, car la destruction en a été radicale : il n’en est absolument rien resté et la perfection de cette éradication constitue aussi un processus de démémoire. Seulement, cette démémoire, radicale dans la réalité, n’a pas été discursive, puisque le nom de Vincennes est soigneusement conservé dans le logo de l’université et sur tous les documents, dans toutes les communications officielles.

5.2 Vincennes, nom de mémoire

Ce lieu détruit a gardé son nom, et ce nom, qui n’est plus vraiment un toponyme, est désormais un nom de mémoire. Ce nom de mémoire est le lieu sémantique où s’accumulent au fur et à mesure des usages les strates mémorielles de l’histoire de cette université expérimentale. Si le nom de Vincennes n’active que le sens de “ville” ou de “bois” dans certains contextes, dans d’autres, c’est la forme sémantique d’une université expérimentale disparue qui émerge. Vincennes est un curieux cas de mémoire lexicale et sémantique, mais également de résistance à la démémoire. Dans le cas de Vincennes, cette inscription, presque une incrustation du nom dans les noms officiels qui nomment Paris 8 et ses pub- lications, semble maintenir dans les sédiments mémoriels, non seulement un segment d’histoire, mais également son lieu, même oublié, même recouvert par les arbres, même reconstruit d’autres bâtiments. Les énoncés qui contiennent « Vincennes – Saint-De- nis » ou parfois « Université de Vincennes à Saint-Denis » font donc travailler, grâce à ce puissant levier sémantique, Vincennes, une mémoire discursive contre une démémoire discursive qui déplacerait et débaptiserait sans inscrire dans le passé vivant. Vincennes, nom de mémoire dans un discours de place. Dans Berlin Chantiers, il y a ce passage où Régine Robin ra- conte comment, après la réunification, les Berlinois conservèrent pendant quelque temps leurs trajets d’avant la chute du mur. Autre phénomène de résistance à la démémoire, brutalement accomplie à Berlin, à coups de débaptêmes-rebaptêmes de rues et de reconstructions radicales, nous dit l’auteure. Les trajets anciens conservés dans la nouvelle Berlin sont de muets discours qui

disent l’importance des lieux sous nos pieds, le bouleversement des déplacements et les enjeux des (r)emplacements :

Peut-être faudrait-il étudier les trajectoires quotidiennes des habitants de Berlin-Est et de ceux de Berlin-Ouest. Même s’il n’y a plus de Mur, les Berlinois continuent à suivre des rése- aux qui leur sont familiers. Une étude a récemment comparé les parcours quotidiens des habitants de quatre quartiers qui avaient été en bordure du Mur, Wedding et Pankow au nord, Neukölln et Treptow au sud. Tous ont vraiment conscience d’habiter un quartier, un kiez, mais ne connaissent que très peu le quartier voisin dont ils étaient, il n’y a pas si longtemps, séparés par le Mur (Robin 2001, p. 140).

L’exemple de Berlin et celui de Vincennes se ressemblent, bien que le premier soit non discursif. Dans les deux cas, une ré- alité matérielle a disparu, le mur et l’université ; et dans les deux cas ces entités sont maintenues, l’un par une sorte de sémiotique urbaine et corporelle, et l’autre par l’inscription d’un nom propre dans un autre nom propre : la conservation du nom de Vincennes dans le nom de l’université de Paris 8, située désormais à Saint-De- nis, maintient en effet un circuit, discursif et cognitif, qui vise à résister robustement à un effacement du réel.

Conclusion

Cinq noms, cinq manières de résister aux normes, aux pouvoirs, et aux disparitions. Cinq manières, aurait dit Louis Al- thusser, de ne pas répondre à l’interpellation qui fait de nous des sujets assujettis sans même que nous nous en rendions compte. « Hé, vous, là-bas ! », dit l’interpellation « qui ne rate jamais son homme » (Althusser 1970, p. 31). Mais dans ces cinq vignettes, l’individu ne se retourne pas. Avec Qitiao La Bomba, on a un dispositif plurisémiotique constituant un discours de résistance aux lois et aux idéologies des frontières. Au cœur de ce dispositif, qui est une mise en scène de la carte d’identité, preuve juridique à fort coefficient social de l’existence des sujets, les noms, nom de personne, nom de pays. Des noms choisis et décidés, inscrits et signés sans foi ni loi, pour ainsi dire, sans foi dans les institutions de police ni lois de la république. Chiquita Levy, c’est le nom de mémoire, le lieu d’une rêverie associative qui résiste tant à la signification prescrite des unités lexicales qu’à l’extinction de la vie par la tombe. Évidem- ment, pour qu’un nom parle autant, il faut que des subjectivités y entrelacent des imaginations et des émotions. Mais le nom propre possède, plus que les autres catégories de la langue, une aptitude spécifique pour constituer le lieu de cet entrelacement. Les noms Gaston Donnat et Jacques Bouveresse sont des noms désinscrits par la volonté de leur porteur. Si la théorie du discours s’occupe beaucoup des énoncés produits, elle a moins l’habitude de s’occuper de ceux qui ont été effacés. Or, l’effacement d’un

énoncé est une forme de production verbale, il y a du langage qui se démet de ses formes, et qui résiste à des inscriptions forcées comme il y a des travaux forcés. Enfin Vincennes, détaché de son référent géographique pour adopter celui de la mémoire, constitue un cas tout à fait singulier de résistance à la démémoire accomplie par la réalité elle-même. Comme le Mur de Berlin qui, disparu, semble toujours encore là dans les années 1990 pour les Berlinois, l’université de Vincennes, qui n’est plus à Vincennes, y reste par l’inscription du nom dans le nom d’un ailleurs géographique qui s’en trouve lui-même déplacé : car ce Saint-Denis, où se trouve désormais située l’université de Paris 8, est réciproquement « dé- placé » à Vincennes, par le seul fait du signifiant. Ces cinq vignettes montrent que le nom de mémoire, patro- nyme ou toponyme, loin de n’être que ce désignateur rigide que présente la logique, est un réservoir sémantique qui a le pouvoir de modifier la réalité, surtout quand elle est régie par des minis- tères, des policiers et des cimetières.

Resumo

Este artigo propõe uma reflexão sobre a noção de memória, pensada a partir da teoria do discurso, em um quadro p[os-dualista, ou seja, que consi- dera os ambientes materiais das produções verbais como plenamente integrados a estas produções. À partir da noção de memória discursiva proposta por Jean-Jacques Courtine, em 1981, elaboramos a de desmemória discursiva, inspirada nos trabalhos de Régine Robin. Estas duas noções permitem dar conta da maneira como certos locutores inscrevem combates e resistências no cerne do discurso. Inte- ressamo-nos particularmente pelo nome próprio, em sua dimensão de nome de memória, e, para fazer isso, propomos cinco vinhetas discursivas, isto é, cinco casos de inscrição ou desinscrição de nomes próprios em realidades carregadas emocio- nal e politicamente. Estes casos estão apresentados a partir de fotografias de nomes em contexto.

Palavras-chave: desmemória discursiva; memó- ria discursiva; nome próprio; significância.

Abstract

This article aims to reflect about the notion of memory, based on the theory of the discourse, inscribed in a post-dualist frame, i.e., the one considering the material circumstances of the verbal productions as totally integrated with these productions. From the notion of discursive

memory as proposed by Jean-Jacques Courtine, in 1981, we elaborate the notion of discursive dismemory, inspired by the works of Régine Robin. These two notions allow us to consider the way some opeakers show struggles and resistances in their discourse. We are particularly interested in the proper name, in its dimension of name of memory, and, to do that, we propose five discursive images, i.e., five cases of inscription and disinscription of proper names in realities emotionally or politically marked. These cases are presented from photographies of names contextualized.

Keywords: discursive dismemory; discusive memory; proper name; sig- nificance.

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O vazio como condição:

um movimento de sentidos a partir do horror 1

1 Agradeço imensamente a Glau- cia Nagem e ao Prof. Dr. Lauro José Siqueira Baldini, pela leitu- ra crítica desse texto e pelos co- mentários preciosos que foram incorporados a esta versão.

Gragoatá

Lucília Maria Abrahão e Sousa (USP-RP)

Resumo

Falar dos discursos na contemporaneidade é tocar,

de forma mais próxima ou longínqua, questões li- gadas ao furo da linguagem, ao vazio e à violência. Esse texto intenta, a partir de conceitos de Freud

e Lacan, compreender a relação entre das Ding e

a linguagem para analisar a exposição “Hace falta

mucha fantasía para soportar la realidade”. Tal evento foi idealizado e exposto na Estação Atocha, em Madri, três anos após os atentados terroristas de 2004, que inscreveram cenas de horror em um local de passagem e larga circulação em horário comercial e que fizeram dançar, em um céu de palavras, o furo da morte.

Palavras-Chave: discurso; furo; contemporanei- dade; psicanálise.

Niterói, n. 34, p. 61-76, 1. sem. 2013

Um diário, a falta de/em si e a Coisa

Só existem eu e esse vazio opaco

(Samuel Beckett)

Sobre o nada, eu tenho profundidades.

(Manoel de Barros)

“Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.” A página de um diário, escrito aos cincoenta anos quando suas principais referências afetivas (mãe, esposa, filho) já estavam mortas, instala algo de falta incessante. “Falto eu mesmo” encerra uma condição que percorre toda a trama de Dom Casmurro na revisitação imaginária do que o narrador foi (ou teria sido, já que o relato dele é desenhado pelas mãos vigorosas da rememoração, sempre cúmplice da imaginação) em diferentes momentos de sua vida. A falta de si mesmo esteve sempre presente e foi preciso uma vida toda para nomeá-la e chegar ao seu núcleo duro, a impossibilidade da completude, as garantias sempre furadas e a provisoriedade de toda certeza. Ou seja, o dizer de Bentinho dá a ver e a sentir Isso, a Coisa, a falta que é puro inominável. E diante Dela, é possível indagar: como tocar o inominável com palavras que tentam dar nome? De que modo dizer do que escapa a cada nova tentativa de contorno, deixando-se im- preenchível? A partir de que dizer é possível uma aproximação (sempre capenga e, a despeito disso, tão necessária) com o vazio, com o que (a)parece como fronteira de e para o furo em tantas obras da literatura e das artes? Tocar o “falto eu mesmo” é sempre tentativa em vão e, como sinaliza Clarice Lispector, é da ordem do imperativo de dizer e “conformar-se com a pobreza do dito”; é também da ordem de lidar com a angústia da folha em branco, cujo vazio faz latejar palavras que ali criam ausência e convocam o sujeito a dar um início, isso conforme Scherer (2011) apresentou oralmente em um evento. Ausência e vazio de dar uma continua- ção, acrescento. Isto é, tocar em vão as esburacadas esta(s) palavra(s) que ten- tam tatear e driblar a Coisa, fazedora de atordoamentos em tantos artistas, escritores e teóricos da linguagem, e que foi estudada e formalizada por Freud e Lacan, ambos lançados à radicalidade do vazio, cada qual à sua moda e a seu tempo. Ao longo deste texto, entrego-me à tarefa de dizer sobre Ela (e também do quanto me falto a mim mesma), tecendo apontamentos sobre a tessitura dos conceitos de Das Ding na obra dos dois psicanalistas citados. Essa aventura não é sem consequências, sei disso. Ainda assim, tento dar borda ao que persiste e que o narrador de Machado coloca na voz de seu narrador: “essa lacuna é tudo”.

Quando Freud ([1895], 1977) introduziu o conceito de Das

Ding, ainda no início de seus trabalhos no Projeto para uma Psico- logia Científica, pensava-a como “a lógica da origem” e também como “pólo excluído do aparelho psíquico”, algo que ficava fora dele. O então neurofisiologista (op. cit., p. 434) faz a aposta de que no aparelho psíquico haveria a existência de duas partes, “a primeira, que geralmente se mantém constante, é o neurônio a, e

a segunda, habitualmente variável, é o neurônio b.” E explica que

à primeira corresponde “o núcleo do ego e a parte constante do complexo perceptivo”, também definido como “neurônio a como

a coisa”. Assim, esse neurônio apresenta-se constante, sempre

em atividade, constitutivo do eu, ou seja, como algo interno e estrutural no aparelho. Essa zona se mantém sempre constante, presentificando o dizer do personagem machadiano. Segundo Kaufmann (1996, p. 84), nesse momento Freud “constatou que a mediação do outro era indispensável para a per-

cepção ou para renovar a experiência de satisfação”. Isso situa, no centro do funcionamento psíquico, uma presença permanente a dar resposta sempre sem garantias, já que há uma incompletude inicial, qual seja, o descompasso entre o grito do bebê e o que lhe

é dado como resposta pelo Outro. Vejamos.

Outras percepções do objeto também – se, por exemplo, ele der um grito – evocarão a lembrança do próprio grito (do sujeito)

e,

com isso, de suas próprias experiências de dor. Desse modo,

o

complexo do ser humano semelhante se divide em duas

partes, das quais uma dá impressão de ser uma estrutura que persiste coerente como uma coisa, enquanto que a outra pode ser compreendida por meio da atividade da memória – isto é, pode ser reduzida a uma informação sobre o próprio corpo (do sujeito). (FREUD, Projeto, [1895], 1977, p. 438)

Sobre isso, é possível explicar que o grito do sujeito recebe

muitas respostas e elas terão (rearranjos de) retorno pela atividade da memória; ao lado disso, há algo coerente e que persiste “como

a coisa”.

o filhote do homem é privado de seu grito pelo Outro ma-

terno porque atribui ao grito proferido um efeito estruturante, convertendo-o em demanda. Do lado do sujeito, o grito recobre

a sensação da qual jamais se saberá o que ela quis dizer ( ) Como se vê, há aí algo de inominável; de fato, ninguém po- derá dizer se a percepção é em cada uma de suas reiterações

a mesma que a primeira, e o mesmo se aplica à experiência

Das Ding é o que – no início da organização

do mundo no psiquismo (

termo estranho. Essa estranheza da Coisa engendra a ten- dência a reencontrar, mas, dirá Lacan esse objeto ‘perdido’ nunca esteve perdido mesmo que se trate de reencontrá-lo. Essa posição remete ao impensável da origem, daquela do significante e portanto da impossibilidade do gozo para se

- se apresenta e se isola como o

de satisfação (

) (

)

)

dizer. (KAUFMANN, op. cit., p. 84 – 85)

O que ficou apenas insinuado por Freud será mote e inves- timento para Lacan. Ao longo do Seminário, Livro 7, ele se debruça sobre o conceito freudiano de Das Ding, explorando-o em muitas formulações e definindo-o como instância que fica no centro, “no centro, no sentido de estar excluído” (LACAN, [1959-1960] 2008, p. 89). Trata-se do Oco “ao que existe de aberto, de faltoso, de hiante, no centro do nosso desejo” (LACAN, op. cit., p. 104), e que não se completa, tampouco se fecha, mas configura-se em retornos e desencontros:

o que se trata de encontrar não pode ser reencontrado. É

por sua natureza que o objeto é perdido como tal. Jamais ele será reencontrado. Alguma coisa está aí esperando algo me-

) é esse objeto,

Das Ding, enquanto o Outro absoluto do sujeito, que se trata de reencontrar. Reencontramo-lo no máximo como saudade. (LACAN, op. cit., p. 68).

Isso dá a dimensão de uma perda primeva, ou seja, algo que o sujeito perdeu sem nunca ter tido, pois “o objeto é, por sua natureza, um objeto reencontrado. Que ele tenha sido perdido é a conseqüência disso – mas só-depois. E, portanto, ele é reencon- trado, sendo que a única maneira de saber que foi perdido é por meio desses reencontros, desses reachados.” (LACAN, op. cit., p.145). Tal Oco não pode ser suturado nunca, por isso Ele produz lançamentos em direção a tentar “encontrar o que se repete, o que retorna e nos garante retornar sempre ao mesmo lugar” (LACAN, op. cit., p. 94), lançamentos a que o sujeito se entrega, e cujo resul- tado é sempre furado e submerso em espirais incompletas. Lacan atribui a Freud o início das formulações sobre Isso, colocando-o como o fundador de uma investigação que tateia o abismo.

Freud, precisamente, coerente consigo mesmo, indica aí, no

horizonte de sua experiência, um campo onde o sujeito, se ele subsiste, é incontestavelmente um sujeito que não sabe, num

ponto de ignorância limite, se não absoluta. É esse o nervo da

esse ponto

que lhes designo alternativamente como sendo o do intrans-

) (

lhor, ou esperando algo pior, mas esperando. (

) (

investigação freudiana (

)

um ponto de abismo (

)

ponível ou o da Coisa. (LACAN, [1959-1960] 2008, p. 255)

Irrealizado, intransponível, perdido, trata-se justamente de fenda, hiância, fissura e rasgo inscritos pela perda do corpo da mãe e pela interdição do incesto. Perda que nunca mais pode ser suturada, visto que é anterior a todo recalque (LACAN, op.cit., p. 70). Daí a Coisa engendrar uma falta (falta a si e em si-mesmo em Machado, falta-a-ser em Lacan no Seminário, Livro 11), um Oco que não cessa de se fazer presente e que se rende frente à pobreza de toda a palavra, pois “a Coisa, esse vazio, tal como se apresenta na representação, apresenta-se efetivamente, como um nihil, como nada.” (LACAN, [1959-1960] 2008, p. 148). Talvez por isso, Bentinho tenha marcado, em vários momentos do seu diário, a

impossibilidade de a língua definir uma saída para o vazio e de condensar ou alcançar seu sentimento, seu pensar e seu interior.

“Quis insistir que nada, mas não achei língua.” (ASSIS, s.d., p. 33)

“Não me atrevi a dizer nada; ainda que quisesse, faltava-me língua.” (ASSIS, op. cit., p. 75)

“Mas a vontade aqui foi antes uma idéia, uma idéia sem língua, que me deixou ficar quieta e muda.” (ASSIS, op. cit., p. 80)

“Outra vez me fugiram as palavras que trazia.” (ASSIS, op. cit., p. 81)

“Hoje, que me recolhi à minha casmurrice, não sei se ainda há tal linguagem.” (ASSIS, op. cit., p. 210)

Todos estes recortes materializam algo impossível de ser dito em sua essência de furo, seja pelos momentos de solidão, deses- pero, desamparo, seja até mesmo pelos encontros com alegria e/ ou morte. A língua não dá conta de abrigar e conter essa Coisa,

apenas contorná-la; as palavras faltam diante do que é absoluto vazio e o simbólico aparece vergado em seu des-poder, enfermo de potência e rendido a uma condição de não-todo. Temos, então,

o inominável que “essa Coisa, o que do real – entendam aqui um

real que não temos ainda que limitar, o real em sua totalidade, tanto o real que é o do sujeito quanto o real com o qual ele lida como lhe sendo exterior – o que, do real primordial, padece de si-

gnificante.” (LACAN, [1959-1960] 2008, p. 144). E esse padecimento de significante instala o efeito de incurável e irremediável, que coloca a linguagem também em um lugar furado e impotente,

pois a Coisa “(

tência insistente e cruel.” (LACAN, op. cit., p.196) e Ela pode “ser definida por isto – ela define o humano, embora, justamente, o humano nos escape. Neste ponto, o que chamamos de humano não poderia ser definido de outra maneira senão por aquela com a qual defini, há pouco, a Coisa, ou seja, o que do real padece de significante.” (LACAN, op. cit., p. 152). Ao longo do Seminário - Livro 11, Lacan retoma o trabalho em torno de “Algo que é da ordem do não-realizado” (LACAN [1964] 1973, p. 28), cuja materialidade se dá a ver em “tropeço, desfaleci-

mento, rachadura (

dimensão de perda” (LACAN, op. cit., p.30).

é de alguma maneira desvelada com uma po-

)

)

Perda sinalizadora de Das Ding, pois “A ruptura, a fenda, o traço

da abertura faz surgir ausência – como o grito não se perfila sobre fundo de silêncio, mas, ao contrário, o faz surgir como silêncio.” (LACAN, op. cit., p.31). É interessante marcar que esse silêncio (em que a palavra não entra, não cabe, não comparece, e esse núcleo duro que ela não consegue tocar) surge exatamente com

a presença da palavra, é a língua que instala o vazio, ou melhor,

é dizendo e repetindo que algo se inscreve para além de manco,

roto e capenga, instala-se como impossível. Assim, apenas o dizer

coloca o sujeito em contato com o que não pode ser dito, enfim com

o

real; e o psicanalista francês assegura que tal experiência com

o

real é radicalmente encontrável na análise: “Nenhuma práxis,

2 Não discutirei aqui as noções de tique e autô- maton, nem de princípio do prazer e da realidade, pois não são o foco deste trabalho.

mais do que a análise, é orientada para aquilo que, no coração da experiência, é o núcleo do real” (op. cit., p. 58). Lacan (op. cit., p. 159), ao longo deste Seminário, avança na direção de definir o real nos seguintes termos “o oposto do pos-

o real como impossível”, com cujo

encontro abre-se um para-além.

O real está para além do autômaton, do retorno, da volta, da insistência dos signos aos quais nos vemos comandados pelo princípio do prazer. O real é o que vige sempre por trás do autômaton, e do qual é evidente, em toda a pesquisa de Freud, que é do que ele cuida. (LACAN, op.cit., p. 56) 2

O que insiste em repetir-se, em mais uma volta de dizer, fun- ciona como abridor de nova hiância, como porto de passagem para outra maneira de encontrar a Coisa; e aqui está o traçado do que Lacan (op.cit., p. 63) define como a repetição no jogo do Fort-Da, cujo fio do carretel sustenta a aventura até o lugar sempre vazio, aquele onde só existe a sombra de uma presença, a passagem de alguém ausente.

A hiância introduzida pela ausência desenhada, e sempre aberta, permanece causa de um traçado centrífugo no qual o que falha não é o outro enquanto figura em que o sujeito se

projeta, mas aquele carretel ligado a ele próprio por um fio

sível é seguramente o real (

)

que ele segura (

)

(LACAN, op.cit., p. 63)

Falar em hiância, falta, vazio, repetição, fenda e fissura toca o conceito de inconsciente “tal como Freud inventou e como Lacan releu mobilizando articulações com a Linguística, Lógica, Topologia” (NAGEM, 2012, s. p.). Entretanto, faz-se necessária uma distinção entre Das Ding, instância do inominável e do real, e inconsciente, ordem da hiância tal como proposta acima, apontadora da fenda e indicativa do não-realizado em movi- mentos denunciadores de um sempre-retorno ao que não se fecha nem se conclui. Definido como repetição (já que o objeto perdido jamais pode ser reencontrado), o inconsciente não pode

ser acessado diretamente, isto significa que sonhos, atos falhos, tropeços apenas apontam-no. Por exemplo, a partir de um sonho

e da cadeia significante que lhe dá roupagem em relato no só-de-

pois, é possível fazer retornar e retroagir o inconsciente. Por conta

desse traço perdido e fugidio, Lacan (op. cit., p. 29 - 30) afirma que o que chama atenção ao analista é “o modo de tropeço pelo qual eles aparecem. Tropeço, desfalecimento, rachadura. Numa frase pronunciada, escrita, alguma coisa se estatela. Freud fica siderado por esses fenômenos, e é neles que vai procurar o inconsciente”.