Por uma reflexão sobre o nascimento da filosofia da arte

Qual é o sentido da filosofia da arte? Poetas, escritores e pensadores tentaram dar cabo a
essa questão que, para o bem dos estetas, permanece sem resposta.
por Ulisses Razzante Vaccari*
Ao abrirmos um manual de filosofia, muitas vezes, nos deparamos com o termo filosofia da arte e
nem sempre sabemos exatamente a que se refere essa linha de pensamento que, de uma forma
ou de outra, pertence à filosofia. Então, pergunta-se: o que significa, afinal, filosofia da arte?
Como ela surgiu? E, mais importante, como é possível pensar a arte filosoficamente?
O termo "filosofia da arte" é muitas vezes confundido com o termo "estética". Muito embora
alguns autores insistam em separar uma coisa da outra, no fim, um termo e outro não deixam de
designar uma e mesma coisa: a relação do pensamento filosófico com a criação artística. Se
formos investigar na história da filosofia como surgem ambos os termos, veremos que o termo
"estética", por exemplo, foi criado por Alexander Baumgarten (1714-1762) apenas no século XVII,
seguindo as exigências iluministas daquele século de definir e delimitar todas as áreas do saber
humano. Pela primeira vez na história da filosofia, o pensamento filosófico sobre a arte adquire,
se não um terreno sólido, ao menos uma denominação mais específica em meio às demais
disciplinas que desde sempre fizeram parte dos principais troncos da filosofia: a ontologia, a
moral e a política. Segundo Baumgarten, se essa experiência provocada pela obra de arte e pela
criação artística em geral deveria conquistar para si um lugar ao sol em meio às demais
disciplinas filosóficas, esse lugar deveria ser aquele da sensação.
De fato, como a obra de arte exige sempre um contato mínimo com um dos sentidos (por
exemplo, a música com o ouvido, a pintura com a visão), o ramo da filosofia dedicado a essa
experiência deveria invariavelmente chamar-se estética, na esteira do termo grego aesthésis,
que designa a sensação sensível. Em completa oposição à lógica, conhecida como a ciência das
regras do pensamento, a estética, ao contrário, deveria ser aquela linha de pensamento dentro da
filosofia cujo objetivo era determinar as regras, não do pensamento, mas da sensação sensível, a
partir das quais se poderia definir uma experiência estética. E muito embora seja possível dizer
que desde sempre os filósofos se ocuparam com o problema da criação artística - por exemplo,
Platão no livro X da "República" e Aristóteles na sua "Arte Poética" - apenas no século XVII com
Baumgarten essa preocupação passou a ser sistematizada, vindo a receber essa nomeação.
Preferência pela poesia
No que se refere à filosofia da arte, a sua definição e datação é um pouco mais complexa, e isso
por vários motivos. Entre eles, está o de que não se tem registro de um determinado autor que
tenha criado esse termo e o tenha definido, tal como Baumgarten o fez com a estética. De fato,
embora se precise mais ou menos o mesmo século XVIII como o século de nascimento da
chamada filosofia da arte, atribui-se a esse nascimento antes todo um movimento filosófico do
que um ou outro autor. É comum dizer que a filosofia da arte teve seu início no círculo de filósofos
do chamado idealismo alemão, que, dependendo de como o enxergue, se inicia com o grande
seguidor da filosofia kantiana, J. Gottlieb Fichte (1762- 1814), passa por Friedrich Schiller (17591805), Friedrich W. J. Schelling (1775-1854), por Friedrich Hölderlin (1770-1843) e termina no
grande sistema do idealismo alemão de G.W. Friedrich Hegel (1770-1831). Como se pode ver
pelos temas tratados por todos esses pensadores, a arte constituiria, senão o mais importante, ao
menos um dos mais relevantes temas do pensamento de cada um deles e de todo esse
movimento. E, embora não seja costume chamá-lo filósofo, não se pode esquecer o fato de que
todos esses pensadores possuíam uma ligação visceral com a obra e a pessoa do chamado pai
da língua alemã, o poeta Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). Essa ligação, não apenas
com Goethe, mas de todos esses nomes entre si e em torno de um mesmo ideal, definiu essa
nova postura do pensamento filosófico, a qual hoje se dá o nome de filosofia da arte. Esse ideal,

. como definiria posteriormente Hegel em suas reflexões sobre a arte. evidenciar. Surge. referia-se ao interesse preponderante pela criação e pela obra de arte em geral e.como se poderia ver já pelos escritos de todos eles. em relação à tradição estética.asp. principalmente. que. entre todas as demais artes. muito embora não tivesse escrito obras propriamente filosóficas. assim. a facilidade com que a poesia . uma resposta para isso poderia ser simplesmente o fato de que a poesia.ou sobre as fronteiras da pintura e da poesia". a pergunta: por que a poesia havia sido eleita.uol. Exemplo disso seria. publicou reflexões sobre a essência da obra de arte. são duramente criticados por Leonardo da Vinci (1452-1519) em seu "Tratado da pintura". Pintor por excelência. é o responsável pelo famoso mote do ut picturas poesis. nas palavras do filósofo. a uma intensa discussão filosófica. na qual tomaram parte os mais variados pensadores das mais variadas nacionalidades. Leonardo propõe. mas também Hölderlin são conhecidos muitas vezes antes por sua obra poética do que pela produção filosófica. caracterizava a experiência estética em geral. Posicionandose. que remonta a Platão e Aristóteles. Se existe. a pintura e a escultura. encontrou a maior e mais acabada expressão para a disputa. a poesia é o ponto forte de quase todos eles. tal teoria deu ensejo. De todo modo. nessa obra. .C. A poesia. ela repousa principalmente nessa preferência pela poesia. Conhecida como Paragone (que em português significa comparação). motivo pelo qual estariam ambas no mesmo patamar. A partir de então. Acompanhando de perto as linhas gerais da filosofia idealista que apenas nascia. cuja obra filosófica mais conhecida intitula-se "Cartas sobre a educação estética do homem". de 2013. como ocorreria de forma mais patente com todas as outras linguagens da arte: a música. que significa "a pintura é a poesia". Não apenas Schiller. de uma maneira ou de outra. Como se pode ver já pela principal característica desse seleto grupo de pensadores. Além disso. a supremacia da linguagem poética é flagrante em comparação com a limitação da pintura na expressão do pensamento. na figura de Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781). ainda cabe a pergunta: teria a filosofia da arte surgido para dar conta da grande produção poética (e musical) daquele período ou essa epifania poética da Alemanha dos séculos XVII e XIX teria surgido como efeito do pensamento filosófico sobre a poesia? A antiga questão permanece saudavelmente sem resposta. que disputaram em torno do valor da poesia. Representando um tipo de síntese entre Platão e Aristóteles. porque a pintura é uma linguagem superior à poesia. coisa que é naturalmente impossível na pintura. o mais reconhecido poeta alemão. essas reflexões sobre a arte do final do século XVII e início do século XIX responderiam a uma disputa milenar entre poesia e artes plásticas.). para Baumgarten. não apenas por meio de argumentos filosóficos. um elemento que permita diferenciar a estética tal como havia sido formulada por Baumgarten da chamada filosofia da arte.br/filosofia/ideologiasabedoria/17/artigo134537-1. muito mais do que todas as outras linguagens. afastava-se o mais possível daquela sensibilidade sensível que. ambas as linguagens se confundiriam na representação do gênero humano. em sintonia com os desenvolvimentos propriamente filosóficos em torno da criação artística e. nesse sentido. tal discussão atingiu naturalmente a Alemanha. já na era romana. pela poesia.e então o autor toma as epopéias de Homero como exemplo pode representar o movimento e a ação dos seus personagens. Na avaliação do autor do "Laocoonte . a suprema? O que havia nessa linguagem em especial que permitisse caracterizar toda uma nova linha de pensamento dentro da filosofia? Ora. que. poética. a obra e o mote horacianos são redescobertos ou. Horácio (65 a. dentro desta. Já na era do renascimento. Acesso em: 20 de fev. Para nos restringirmos aqui ao tema proposto. passa por Horácio e chega ao renascimento italiano e ao classicismo francês e alemão. então. parecia estar inaugurada na Alemanha toda uma linha de pensamento em prol da poesia. Para o autor da "Arte Poética". mais especificamente. assim. a que mais se oporia à representação sensível. Goethe.8 a. seria a linguagem artística mais próxima da própria reflexão filosófica e.com.C. mas também por meio de ilustrações feitas a próprio punho. estava em sintonia com a produção de grandes poetas cara a essa nação e a esse período. Disponível em: http://filosofia. ao longo dos séculos. o pensamento sobre a arte encontrou nesta a forma mais legítima de sua própria expressão.