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MEMORIAS DE UM JESUíTA PRISIONEIRO DE POMBAL
MEMORIAS DE
UM JESUíTA
PRISIONEIRO
DE POMBAL
Capa de Varsoo Pirruto de Mogalhães com desenho do Arquitecto J. P. Mrartlns Banata tirado
Capa de Varsoo Pirruto de Mogalhães
com desenho do Arquitecto J. P. Mrartlns Banata
tirado de .GUia Turístiqo da L,ri,sboa desoonheclda'
cam a devtda autorização de Trisign @
Colecção «HISTORIA DA COMPANHIA DE JESUS»
1. Hlstória da Compenhta 'de Jesus na Assistêncla de Portugal (7 vols.), Fran-
cisco Rodrigues.
2. Proscrltos (2 vols.), L. Gonzaga de Azevedo.
3. Histórta da Companhta de Jesus, 'W. Bangert.
4. Roteiro Histórico dos tresuítas em Lisboa, António Lopes.
5. Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal, Anselmo Eckart.
ANSELMO ECKART, S J. Memôrias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal LIVRARIA A. I. -
ANSELMO ECKART, S
J.
Memôrias de um Jesuíta
prisioneiro de Pombal
LIVRARIA A. I. -
BRAGA
EDrÇÕES LOYOLA -
SÃO PAULO
Com as devÍdas licengas Tr€d;ução ,porttug,u,elsla drirfeaüa, do priig,;rnal; llartino .,H,irsttoÊira
Com as devÍdas licengas
Tr€d;ução ,porttug,u,elsla drirfeaüa, do priig,;rnal; llartino .,H,irsttoÊira Fers,ecuüionris
Sobite,üati,s Jesu irn Lusittanüa", tNu,rn,berg, lrrg-1280, ipor Joaq,uiirm Abranch.e,s,
S. J., ,oorn a colabo'r.ação d,e fiprg Martita Uargo dra S,irlva.
@
SECRETARIADO NACIONAL DO APOSTOLADO DA
ORAÇÃO
Largo das Teresinhas, E
47Lg BRAGA Codex (portugal)
e
EDIÇÕES LOYOT-A
347
Rua 1822, N.o
B,a'irro
do
lpinanga
C. PosNüa'l
42.ggs
PAULO
04216 S.
(BRAS|L)
ADVERTÊNCIAS No texto encontram-se dois trpos de notas: N.A.* São parte integrante do texto original,
ADVERTÊNCIAS
No texto encontram-se dois trpos de notas:
N.A.* São parte integrante do texto original, que o tradutor entendeu pôr
em nota, por se tratar de digressões que interrompem o fio da nanração.
Notas numeradas: são notas incluídas
pelo tradutor paÍa completar ou faci.
litar a compreensão do texto; e
ainda as notas apresentadas co,mo tais
pelo próprio autor (N. A.).
Os subtítulos são introduzidos pelo tradutor para facilitar a
leitura, pois o autor não dividiu o texto em capítulos ou parágtrafos.
Apresenta apenas a divisão cronológica dos anos.
Estes subtítulos têm por fim orientar o leitor Íra, srucessão dos
factos que o autor vai ,narrando, sem significar que todo o texto aprÊ
sentado sob o m€smo subtítulo contenha apenas factos com ele rela-
cionadog.

PREFÁCIO

Não hd dúvida que este liyro que agora a.parece, pela primeira vez em tradução portuguesa
Não hd dúvida que este
liyro
que agora a.parece, pela
primeira vez em tradução portuguesa integral do original
latino, s'ê deve considerar como contributo de ineghtel valor
histórico, para maior conhecimento da época pombalina.
O anttor, não só foi testemunha ocular do essençial
daquilo que nos relata, mas esteve existencialmente implicado
no drama, vivendo-o no corpo, flo coração e na, Alma. E, ao
contrdrio de grande parte das publicações da época sobre o
mesmo temA, nunca procura esconder a sua personalidade,
os
seus ideais e a sua filiação religiosa, por detrtk do ano-
nimato.
É, impressionante o equilíbrio do género literdrio que
conseguiu criar: por um lado, revela a vibração sempre con-
tida (embora umas vezes menos que outras) própria de quem
rtiveu os vários passos deste calvdrio; por outro, revela o
homem culto e o narrad.or obiectivo que sabe que tem de
observAr, estudar e investigar, antes de lançar ao papel o
seu relato.
Não é menos impressionante a coincidência mAtemd-
tica dos dados humanos, geogrdficos e históricos descritos
pelo autor há mais de 200 anos para enqua"drar o seu teste-
munho pessoal, com aquilo que ainda hoie
podemos
verificar
in loco e com aquilo eil:€, os mais qualificados historiadores
seus contemporâneos, embora de outros quadrantes e afinL
dades, nos deixaram.
Trata-se do P. Anselmo Eckart, nascido a 4 de Agosto
de 1721 , no Eleitorado de Mogúncia (Mainz), muito provavel-
mente em Bingen. Filho de Francisco Pedro Eckart, que foi
Memórias de um Je'suíta prisionei'ro de Pomba,l conselheiro do Eleitor de MogúnciA, e de Maria
Memórias de um Je'suíta prisionei'ro de Pomba,l
conselheiro do Eleitor de MogúnciA, e de Maria Adelaide,
entrou na Companhia de lesus a 12 de lulho de 1740. Desti-
nado ao Brasil, chega a Lisboa em 1752, embarcando para
a.s missões do Pard e Maranhão, em 1753, onde aportou a 16
de |ulho. Fez a sua profissão solene de lesuíta na Aldeia de
Abacaxis, na região do actual Estado do Amazonas, a. 10 de
Outubro de 1755, recebendo-o o P. António Meisterburg, igual-
mente al,emão, mas de Bernkastel, e que acompanhard o
P. Eckart nos seus sucessivos cdrceres.
Missionou na Aldeia de Trocano, no interior do Ama-
zonas, até que Francisco Xattier de Mendonça Furtado, irmão
de Sebastião de Carvalho e Melo, decidiu interrtir como Gover-
nador que era do Maranhão - Pard, mudando o nome das
aldeias fundadas pelos lesuítas e dispensando os missiondrios
dos seus serviços. A Aldeia do P. Anselmo Eckart, TrocaTto,
fundada em 1724 pelo P. João Sampaio e cujos trabalhos de
pol)oamento foram
leva"dos a cabo
pelo
zelo do P. António
Iosé, passou a chamar-se Nova B,orba. É transf erido durante
brerte tempo para Caeté, junto de Belém do Pard e, final-
mente, deportado para Portugal em Novembro de 1757 e, oí,
confinado nA Residênsia de S. Fins, no Alto-Minho. Em 1759
é lettado preso para os cdrceres do Forte de Almeida e em
1762 passa para o de S. Iulião da Barua, à entrada do Teio.
Daqui, ainda saird. com vida em 1777, de;,pois da morte de
D. José e da queda de Pombal.
Em lulho deste mesmo Ano, embarca. para a sua pdtria,
via Génova. Depois, ainda conseguird juntar-se aos lesuítas
exilados, acolhidos por Catarina da Rússia. Em Dunaburgo
serd pouco depois Mestre de Noviços e Superior. Em 1804,
entre os seus noviços, estard um
jovem
holandês, Ioão
Roothdn, futuro
Geral da Companhia de Jesus. fd nowge-
ndrio, veio a falecer em Polosk a 29 de |ulho de 1809, sendo
tahtez o último sobrevivente dos cdrceres pombalinos.
A partir de determinada altura (não sabemos exacta-
Pref ácio mente quando) começou a redigir AS memórias do seu cati- veiro, que depois
Pref ácio
mente quando) começou a redigir AS memórias do seu cati-
veiro, que depois ird aornpletando com mais da"dos, rigoro-
samente investigados n,o estudo e no contacto com outras
testemunhas oculares. E é assim que estas Memórias nos apa-
recem publicadas pela primeira rêzt entre 1775 e 1789, em
latim, na obra, monumental em 17 tomos de Christoph Gottlieb
von Murr Journal nJr Kunstgeschichte unrd zur allgemeinen
Litteratur, nps Tomos VII, 293-320; VIII, 81-288; IX, 113-254;
344-352, sob o título R.P.A.E. (R. P. Anselmi Eckart) Historia
Persecutionis Societatis Jesu in Lusitania.
Von Murr (1733-1511) foi um erudito alemão, nascido
em Nuremberga, de vastíssima cultura, que viaiou muito e
investigou ainda mais. Pertenceu a um grande número de
academias científicas e literdrias. As suas obras, todas em
vdrios volumes, abarcam rwnos do saber como a. história,
a. religião, a música, a filosofia, etc
Apesar d,e protestante,
não escondeu a sua simpatia pela acção da Companhia de
Jesus. Por altura da suq. supressão pelo Papa Clemente XIV
escreve as célebres Cartas de um Proüestante sobrle a
extinção dos Jesuítas. De 1787 a 1789 publicard. A História
dos Jesuítas em Portugal na época do Marquês de Pombal,
em que nA bibliografia por ele consultada e que ele enu-
mera ('), pudemos contar cerca de 100 obras e documentos,
sendo a maior parte em po,rtuguês.
('1) Geschíchte d,er lesuítan i,n Portug,al, unter der Staa,tsverwal-
tuw des Marquis v,on Pombar. Nürnberg, Felsechrischen Buchhandlung,
L787, 2 vol., Erster Theil, Verzeichnis der Schriften zrtr Geschichte der
Jesüten in PortrUal" XUI-XL; B.N.L. R. 34875-6 P.
Von Mur abre a
introdução
desta sua obra da
seguinte
manei-
râ: "Q triste destino dos JesuÍtas em Portugal
como todos aqueles
que procurarn a verdade não podem deixar de o admitir
exige uma
-
descrição isenta dos motivos secretos que estiver&m na sua origem
e que, pouco a pouco, se têm vindo a revelar. Quando se pensa na
cnreldade com que foram tratados, por um Ministro despótico, tantos
l0 Memórias de um Jesuíta prislonelro de Pombal Mas o seu trabalho, verdadeiramente monumental é
l0
Memórias de um Jesuíta prislonelro de Pombal
Mas o seu trabalho, verdadeiramente monumental é
aquele a que id nps referimos, em 17 Tomos (ou mais exacta-
mente em 19, porque depois acrescentou mais dois com o
título Neues Journal zur Kunstgeschichte und zur allgemeinen
Litteratur) , em
eüê,
entre muitas outras obras, publica pela
primeira vez diversos documentos inéditos jesuíticos: os do
P. Eckart, por exemplo. Desses documentos, pudemos verifi-
oar que pelo menos o original de um deles se e?trcontra na
nossa B. N. L.: as celebéruimas plantas dos cárceres de .S. lu-
lião da Barra (von Motrr, Jounlal, IX, 236) (').
O relato do P. Eckart, publicado por von Murc sob o
título de P.P.A.E. Historia Persectrtionis Societatis Jesu in
Lusitania, foi traduzido jd em ydrias línguas.
1 Para francês, por A. Carayofl, na sua obra Docu-
ments inédits concernant I'a Compagnie de Jésus, IX, LXXXII;
1-312, Ed. de Poitiers, 1865 (t), com o título Les Prisons du
Marquis de Pombal ministre de S. M. le Roi du Portugal
(1759-1777).
Esta tradução tem duas particularidades: não segue o
texto original de von Murr na íntegra, suprimindo aquilo que
o
tradutor considerou «distractions littéraires du prisonnier»
e
sobrecarrega o texto com notas de outros relatos com a
finalidade de «@mpletar, a noruação.
homens inocentes e cheios de merecimento, no modo como tantos
nobres, presos sem culpa, foram por ele roubados de todos os melos
de defesa, acabando por ser executados, mesmo o espÍrito do obser-
vador mais
indiferente
não
pode
deixar
de se lndignâ.r
».
(2) B.N.L., Mss. Tggz (do P. Lourenço Kaulen).
(3)
Da imensa obra de
A. Carayon
em 23 vol. Docurne,nts
i,nédits
concerna,nt la Compagníe d,e lésus, existe também uma edição de
Paris, 1865.
íí Pref ácío Novamente para francês por Dom H. Leclerce, 2 - nA sua obra
íí
Pref ácío
Novamente para francês por Dom H. Leclerce,
2 -
nA sua obra Les Martyrs, Recueil des piàces authentiques sur
les martyrs depuis les origines iusqu'au XX' siàcle. PAris,
1903-1924. Nã,o conseguimos apurar se segue o texto de t)on
Murr ou de A. Carayon.
3 Para português, por Mgr. Manuel Marinho, no
seu livro Galeria de Tyrannos, Porto, 1917, com o título
O Diário do P. Eckart ou as suas prisões em Portugal desde
1755 a 1777.
Segue, de modo geral, a tradução de A. Carayono <<me-
nos em alguma passagem em que preferimos -
diz o P. MAri-
nho -
recorrer ao originAlrr.
4 Para espanhol, pelo P. Iosé Gallardo, com o título
Historia de Ia Persecución de la Compaflia de Jesus. Segue
o original de von Murr, mas ficou em manuscrito. (Cfr. Sera-
fim Leite, História da Companhia de Jesus ,no Brasil , VIII,
p. 206).
Nesta tradução portuguesa, o P. Ioaquim Abranches,
além do grande esforço em seguir, pela primeira vez e inte-
gralmente, o originpl latino, conseguiu imprimir ao seu texto
uma grande fluência e leveza.
Muito criteriosamente, ttai remetendo para nota, com
a indicação ( N .A.'* ) , o.s digressões explicativas do P. Eckart
de caráoter topogrdfico e histórico eüê, não sendo evidentes
para leitores estrangeiros, o são mais para leitores portugueses.
Quanto à opção que fez, relatirtamente às notas com-
plementares Acrescentadas por A. Carayofl, e quanto ao apên-
dice final, igualmente acrescentado, desta vez pelo tradutor, o
leitor julgard melhor do que nós.
t2 Memórias de um Jesuíta prisio'neiro de Pombal Na perspectiva de Carayofl, recorue o tradutor
t2
Memórias de um Jesuíta prisio'neiro de Pombal
Na perspectiva de Carayofl, recorue o tradutor às se-
guintes obras:
I Aneddoti del Ministero di Sebastiano Giuseppe
Carvalho, Conte de Oeyras,
Marchese di Pombal, sotto il Regno
di Giuseppe I Re di Portugallo; Venezia, 1787, em 2 Tomos.
Esta obra, ao contrdrio do que julga Carayofr,
não é
totalmen,te anónima. Sabemos que uma parte do tomo II é
do P. Lourenço Kaulen: Litterrae de miseriis ctaptivorum Socie-
tatis Jesu in Lusitania. In Carcere S. Iuliani ad Fluvium Ta-
guffi, die 12 Dec. 1766. (Cfr. Serafim Leite, Historia da Com-
panhia de Jesus no Brasil, VIII, p. 308) O.
Além disso, segundo von Morr, que conhecia perfeita-
mente esta obra porque a cita na sua bibliografia da Ges-
chichte ('), e também segundo Sommervogel, Bibliothêque de
(III,
la Compagnie de Jésus
col. 1963),
id
existiria umo edição
anterior à italiana, publicada em Varsóvia, chez
francesa,
Janos Rovicki, em 1783.
2 Mémoires de Sébastien-Joseph
De Carualho et Mélo,
-
Comte ,d'Oeyras, Marquis de Pombal,
Secrétaire d'État
et
Premier Ministre du Roi
de Portugal, Ioseph I,
1784, em
4 Tomos.
(4) Deste anónimo existe também uma tradução
portuguesa
com o tÍtulo Anedotas do Minísterio do Marquez de Pombal, e Conde
d'Oeíras Sebastiã,o losé de Carttallw. Sobre o reinmdo d,e D. José I
Rei de Portugal,.
Editor:
Domingos
Pereira da Silva, Porto, 1852.
(5) Von Mum,
Geschichte der Jesuiten in Portugal unter der
Staatsverwaltung des Marquis t)on
Pombal,. Nürnborg, L787, Erster
Theil, Verzeichnis der Schriften
zur Geschichte der Jesuiten in Por-
tugal, p. XL.
13 Segundo Sommervogel (|il, col. 1963), o tradutor fran- cês seria Claude Marie Gattel e
13
Segundo Sommervogel (|il, col. 1963), o tradutor fran-
cês seria Claude Marie Gattel e a edição francesa impre.ssa
em Lyon. O manuscrito de Gattel ainda existiria em Grenoble.
3 Relation abrégw, de ce qui est arrivé aux Jésuites
-
qui étaient à Macao, em Chine, lorsqu'on s,ê saisit d'eux en
1762, qui comprrend l,eur voyage de mer et leur détention en
1764 au Fort St. Julien.
Sommergel dd-a unicamente em Carayon (1, p. 123-141),
atribuindo-a Ao P. Louis du Gad (ou Duga"d).
Muitos teriam pon)entura esperado nesta apresentação
uma descrição, ainda que sumdria, do contexto político e so-
cial em que se ttai desenrolar o drama do P. Eckart. Continua
a ser nossa opinião que nesse terreno há ainda muito que
desbrayar e que clarificar, para se poder falar de forma isenta,
sobretudo no que toca às relações entre Sebastião de Carva-
lho e Melo e os |esuítas.
Por isso, em conclusão, aconselharíamos a.penas o lei-
tor 8üê, nesta tradução tão leve e atraente do texto latinp,
permitisse que o original publicado pelo protestante von Murr
se impusesse por se mesmo. Pode ser uma pequena achega a
essa clarificação.
António Lopes, s. i.
rrrsrónH Da PERSEcUTÇÃo DA COMPANHIA DE .IESUS EM PORTUGAT Tendo-me pedido alguns amigos, insignes benfeitores
rrrsrónH Da PERSEcUTÇÃo
DA COMPANHIA DE .IESUS
EM
PORTUGAT
Tendo-me pedido alguns
amigos, insignes benfeitores da
Companhia de Jesus, que
descrevesse a trágpca história dos Je-
ativos, atrevo-me
E,
confrado
na
divagações
paÍa
melhor inteligência
dos factos recentes ou mais antigos,
sobre-
tudo daqueles que dizem respeito a toda a Companhia, quer em
Portugal, quer noutras partes do mundo.
AI\O DE 1754 Começa a 14 de Agosto deste ano, a longa cadeia de cala-
AI\O DE 1754
Começa a 14 de Agosto deste ano, a longa cadeia de cala-
cadíssima Soberana>>.
A perseguição futura da nossa Ordem, previu-a ela pouco
antes de morrer. ««Meu filho» (D. José), escrevia, ««vê a Compa-
nhia com olhos menos benevolentes»>. Destruído este firmíssimo
de Diana,
o fruto do
e inolvidâ-
íntimo um
ódio mortal contra a Companhia, começou pouco a pouco a
desmascarar-so.
7
ANO DE 1755 Os três prlmelros persegutdos Em virtude deste decreto, chegado ao Paú, em
ANO DE 1755
Os três prlmelros persegutdos
Em virtude deste decreto, chegado ao Paú, em 1755, foram
de
padres
dois
portugueses
e um alemão
Cwz,
filho - de
um pintor
italiano,
que
ad
e Caeté, situada entre o Paú, e o Mara-
nhão; o Padre António
José, missionário em
Trocano,
junto
ao
rio Madeira, nome que lhe foi dado devido às muitas árvores
da floresta, que
se estendiam ao longo das suas margens e cujos
rÍLmos flutuavam à
superfície
das águas;
e o Padre Roch Hundert-
pfund (,), natural de Bregelz, província da Baviera, eue traba-
(t) O Padre Louis du Gad, Jesuíta francês da missão de Macau, sepultado
vivo com seus companheiros nas masmorras de S. Julião, donde depois de poucos
anos teve a sorte de sair pela intervenção diplomática da rainha de França, Maria
Leczinska, esposa de Luís XV, deixou uma relagão manuscrita, em que descreve a
causa destas detenções. O Padre Teodoro da Cnrz foi acusado de ter morto um sacer-
dote s@ular. Passando este por aquela missão da Companhia, adoeceu, e, não poden-
do prosseguir viagem, refugiou-se na residência do Padre Teodoro, vindo a falecer
dois dias depois, apesar da desvelada assistência daquele missionário.
Quanto ao Padre Hundertpfund, da província do Alto Reno, foi acusado de
ter tramado com os franceses da ilha de Cayenne a entrega da cidade do Pará. O
motivo desta denuncia foi ter ele chegado ao Maranhão a bordo dum navio francês
da ilha de Cayerule. Foi quanto bastou para ser despachado preso para Lisboa, onde
chegou pouco depois do terramoto. Numa carta escrita seis anos mais tarde, gueixa-
-se de ignorar ainda quais as causas do seu exílio. Relation abrégée, do P. Louis
du Gad, citação de Carayon, p. 3-4, nota.
Quanto ao Padre António José, o motivo da expulsão é ainda mais ridículo.
Estava ele em Trocano, missâo das margens do rio Madeira, quando recebeu uma
carta do director das minas para a fazet chegar o mais depressa possível às mâos
de Mendonga, antes da partida da frota para Portugal. Ora o barco da missão encon-
20 It/lemórias de um Jesuita prisioneiro de Pombal lhou com zelo indefesso como operário na
20
It/lemórias de um Jesuita prisioneiro de Pombal
lhou com zelo indefesso
como operário na vinha do Senhor, nas
aldeias e fazendas vizinhas. Era
homem muito estimado pela
rainha de Portu5al, austríaca, viúva de D. João V.
Estes
três primeiros
exilados apofiaram a Lisboa, a 19 de
Novembro de
1755. Ao descerem
do
navio, viram uma cidade
benignamente.
Mandaram-nos ficar perto da cidade pata guo,
apenas fossem chamados ao palácio real, pudessem comparecer
prontamente. Mas, nunca o foram.
trava-se então no Pará, e ele teve de equipar uma outra lancha, entregando a carta
a um homem de confiança para ele a dar pessoalmentea Mendonça o mais depressa
possível. Deu-se este por ofendido de a cafia ser confiada a um estranho, o não a
um homem da sua casa. Queixou-se ao Provincial, e exigiu que expulsasse para Por-
tugal um súbdito que ««não sabia servir a Deus nem ao rei»». (Aneddoti del Ministero
di Sebastiano Gíuseppe Carvalho, Conte de Oeyras, Marchese di Pombal, Sotto il
Regno di Gíuseppe I Re di Portugallo, MDCCLXXXYII, 1787,Ip.27).
ANO DE 1756 Vendo o Padre Hundertpfund que se apagaÍa toda a espe- rança de
ANO DE 1756
Vendo o Padre Hundertpfund que se
apagaÍa
toda
a espe-
rança de voltar à América,
obteve do
rei permissão paÍa
regres-
sar à sua
província
natal.
essou a
Espanha, a, à
3 de
Maio
de
rofessor
em Trento, onde
outrora ti
classes.
Yeio a morrer na sua páfiia, ro mês de Janeiro de 1776.
Conheci pessoalmente o Padre Malagrida
Entretanto, o Padre Malagrida, homem verdadeiramente
apostólico, que bem merece ser chamado o ««Francisco Xavier das
Indias Ocidentais»», com os seus ardentes sermões incitava à peni-
tência o povo de Lisboa, terrivelmente angustiado com os repe-
tidos tremores de terra. Conheci pessoalmente este grande homoffi,
a L6
de
Julho
de 1753, quando pisei pela primeira
vez a terra
americana do
Maranhão (cidade também
chamada S. Luís do
Maranhão), onde cheguei com cinco padres estrangeiros da Com-
plqhia
e onze noviços portugue.ses.
O
mesmo navio mercante,
««Divina
Providência», . guo
aqui nos trouxe, levou-me, junta-
mente com o Padre Gabriel Malagrida
e o Padre Martinho Sch-
wattz,
em Setembro do mesmo ano,
ao Pará. Aí permanecemos
por
oito dias.
O Padre Malagrida
foi chamado
a Lisboa,
por
carta da
Rainha, redigida em
latim; desej aya ela, veementemente, que
Memórias de um Jesuita prisioneiro de Pombal tro Carvalho e Melo, que obrigava os dois
Memórias de um Jesuita prisioneiro de Pombal
tro Carvalho e Melo, que obrigava
os dois Jesuítas
portugueses,
Teodoro da Cruz e António José, a deixar a terra americana.
Ambos eles eram
pregadores populares, que ateavam nas almas
a chama da fé
e
do
E
assim,
a esplêndida
semente que
eles lançavam
foi s
pela
cizània do
inimigo. Por esse
pa
tempo,
escrevi eu
oa ao Padre
Malagrida
explicando-
-lhe,
em poucas palavras, que a saída do Padre António José da
missão de Trocano seria catastrófica
paru
ela.
No dia 1 de Janeiro de L756, na presença
do
governador
do
Patá,, ergueu-se um pelourinho, sinal da
justiça que ia ser exerci-
da
pelos
ministros do Rei. Um só dia des ruíu o trabalho apos-
tólico realizado
por
longos anos. Tantos suores
desperdiçados!
Era forçoso ceder
e partir. Abandonar as pobres ovelhas aos
dentes dos lobos.
AI\O DE 1757 Carta do Padre Malagrtda ao Padre Eckart No ano seguinte (1157), recebi
AI\O DE 1757
Carta do Padre Malagrtda ao Padre Eckart
No ano seguinte (1157),
recebi em resposta
uma cafia do
Padre Malagrida
em que
me dina: ««Feliz de vós a
quem
Deus
concedeu
forças pata
suportar tão grandes tribula§ões! Falei
sobre a angustiosa
situação dessa missão a
El-Rei,
que
me asse-
gurou não
permitiria
que as
missões fossem entregues à solda-
(
desca. Mas, como o irmão do
overnador Supremo da Capita-
nia Prefeitura do Mararúão e do Pará
governa
não só o país,
mas também o próprio rei, não há, esperança nenhuma de
que
alguém nos acuda.
mais quereis ? Eu
próprio fui expulso do
Que
palácio real. E se souberdes a causa desta ingrata sit-ryÇão, ainda
mais vos admirareis. Tendo-se espalhado vários folhetos pela
cidade de Lisboa,
pondo de parte qualquer
intervenção da
eue,
Providência, atribuíam o terramoto apenas a causas naturais,
e não havendo ninguém que se atrevesse a contradizq tão teme-
rárias e ímpias afirmações, ou, o menor de todos,
desci à atena,
tomei a pend a, apoiado no testemunho de muitos Santos Padres,
demonstrei que este terrível tremor de terra era sinal claro da
ira de Deus. Isto desagradou de tal modo ao Primeiro Ministro
Carvalho e
Melo,
O
que me expulsou da cidade para o colégio
de Setúbal»».
(N.
A.*)
(') Ao ruir dos edifícios, seguiu-se um feroz incêndio que se prolongou sete
dias, e ameaçou reduzir a cinzas toda a capital. Em meio da horrível confusão, o
Irmão Braz com incríveis esforços, afrontando por quatro dias o perigo de ser devo-
rado pelas chamas que o rodeavarn, conseguiu dominá-las, salvando a Casa Professa,
e com ela parte da cidade. Os Jesútas armaram à pressa imensas barracas na cerca
da sua casa, e abrigaram nelas mais de trezentos infelizes sem amparo, alimentando-
-os, e cuidando-lhes os ferimentos. Os Padres percorriam a cidade paÍa confessar
Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal Este ano, o mais funesto paÍa as Missões
Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
Este ano, o mais funesto paÍa as Missões da Província do
Maranhão, trouxe sobre ela
a mais terrível das calamidades, guo
dificilmente poderá
ser
ÍepaÍada.
Feridos os pastores
não
-
disto sem que as lágrimas me venham aos
s a abandonar o rebanho
por tantos anos,
euo,
,
logo se dispersaram as ovelhas; muitas delas
embrenharam-se na densa floresta
paÍa
serem dilaceradas pelos
dentes dos lobos ferozes.
Realizada esta triste
façanha, o Governardor Geral do Esta-
do do Maranhã,o-Patá,
paÍa que o tempo
não apagasse a lem-
brança do seu nome, expôs no palácio a
sua própria
efígie: Dom
Francisco Xavier de Mendonça Furtado, do Conselho de Sua Majes-
tade Fidelissima, Ministo
Plenipotencidrio das demarcações do
Rio Negro, Comendador de Santa Marinha, Governador Capitão
General e Restaurador do Estado do Grão-Pard e Maranhão, etc
or da nação, esma-
Este gand
Portugal.
Enquanto
éste at
melhor
the aprazia
se poderia transferir
- a cidade do Paút
para outro lugar -
seu irmão em Lisboa, actua-
Ya incansaveJmente.
Afastados da Corte os Confessores Reais
Os Padres da Companhia
no palácio real eram como um
espinho que se lhe enterrava na carne.
Esquecera
o célebre
dito do
seu antecessor Pedro da Mota.
este tinha nas
Quando
mãos o leme do goverro, não faltou quem
à sua volta, oculta
ou abertamente, murmurasse contra a presença dos Padres da
Companhia no palácio real, e este prudente homem de Estado
os feridos e moribundos. Toda a gente admirou o seu zelo e dedicação. O próprio
Rei lhes apresentou um testemunho de louvor, e lhes ofereceu um subsídio pata Íos-
taurarem a Casa Professa, €Ín boa parte destruída. Só Ponrbal achou reprovável o
procedimento dos Padres, porque a inveja nunca pode rec onhecer o bem feito por
outros. (Anedd. del Ministero di Carvalho
t. I, p.20).
*)
(N.A.
Cidade fortificada da Estremadura Lusitana, outrora conhecida
por Xetúbre e Cetóbriga, cujo porto é frequentado por ingleses e holandeses pela
sua abundânçia de sal e peixe.
Ano de t757 25 respondera: ((Tomata eu ter em todos os cantos da corte um
Ano de t757
25
respondera: ((Tomata eu ter em todos os cantos da corte um
padre da Companhia, pois estes só dizem a verdade»»! Mas, com
que frequência a verdade foge dos palácios dos príncipes! Como
são poucas as pessoas que se mostram tais quais são,
nas
pala-
vras e nas obras!
Quão
Íatamente transparece numas e noutras
o que está oculto no coração! O ministro enchia continuamente
os ouvidos do Rei, com queixas contra os Padres; repetia as calú-
nias; multiplicava as intrigas; e acabou, finalmente, por dominar
o ânimo do
rei.
Em Setembro de 1757, os Padres da Companhia, confesso-
res do Rei e da
família real, foram todos afastados da corte, decla-
rando-se que
não se
precisava da sua cooperação: Padre José
Moreira, õonfessor do Rei e da
Rainha; Patire Timóteo de Oli-
veira, meu
amigo,
confessor da Princesa do Brasil e
Duquesa
de Bragança (hoje Gloriosíssima Rainha Reinante); e Padre
Jacinto da Costa, director espiritual do Príncipe
D. Pedro (agora
Gloriosíssimo
Rei) (t).
Ao
saber disto, a Rainha teút dito a D.
José, referindo-se a sua filha, Princesa do Brasil e Duquesa de
Bragança:
<«A Princesa Maria há'de
sentir isto vivamente»». Ao
que o Rei
teria retorqúdo:
«<Agora
não há remédio»». A Prin-
cesa do Brasil lastimaya a
ausência do seu confessor e instrutor,
Padre Timóteo de Oliveita, a quem
sempre
uito estimou.
Quando
lhe escolheram outro
mestre de latim, ela recusou, dizendo que
não precisava) pois
dominava suficientemente esta língua.
(t) Eis como se executou esta despedida: Eram dez horas da noite, quando
os Padres, que já se haviam retirado aos seus aposentos, foram intimados a sair pelo
capitão da Guarda Real. O Padre Costa estava de cama, doente. Obrigaram-no a
levantar-se, e conduziram-no ao colégio de Santo Antão. Os Padres Oliveira e Moreira
obedeceram prontamente. Este último pediu mesmo ao Capitão da guarda apre-
sentasse os seus agradecimentos a El-Rei por finalmente lhe permitir uma coisa que
já muitas vezes lhe tinha pedido em vão
que lhe consentisse retirar-se a uma casa
-
da Companhia, a fim de nela se preparaÍ paÍa a morte.
A saída foi imposta com tanta precipitaçáo, que nem tempo houve para cada
um juntar as suas coisas e levá-las consigo. No dia seguintê, o P. Henrique, Provincial,
apresentou-se no palácio a pedir explicações. Mas apenas chegado, logo se lhe deu
conhecimento, da parte de Pombal, duma ordem régia que lhe proibia a ele e a qual-
quer Jesuíta a entrada no palácio real (Ánedd., t. f, p. 40).
Memórias de um JesuÍta prisioneiro de Pombal O Padre Timóteo de Oliveira eÍa irmão do
Memórias de um JesuÍta prisioneiro de Pombal
O Padre
Timóteo de Oliveira eÍa irmão do Bispo de Lame-
*).
go (N. A.
Jesuítas. Então ele, es-
á veneno»! Mas, pouco
não foi
aquilo apenas
de graça: <«Pois bem,
comamos deste veneno !»»
Mals clnco Jesuítas exllados do Maranhão
Mas da
Europa,
voltemos à América. Amanheceu o dia 28
de Novembro, e os cinco Jesuítas exilados do Maranhão são
obrigados a embarcar. Eram o Padre Francisco de Toledo, da
cidade de S. Paulo (a
sua
Capitania
dotada com
privilégios
de
cidadania por D. João V é a Capitania de S. Vicente, no Brasil),
Visitador
da
nossa Província no Maranhão; o Padre José da
Rocha, nascido na Província do Maranhão, Reitor do Colégio
da mesma cidade; o Padre Luís de Oliveira,
Procurador das Mis-
sões do Pará,; o Padre António Moreira, professor
de teologia
no dito
colégio
(u);
o
Padre
David Fay, húngaro, da Província
da Áustria,-
miàóionário de
zelo veráadeirimente apostólico.
(N.4. *)
É esta uma cidade da província chamada Beira, célebre pelas cortes
ali reunidas, em 1243, vulgarmente conhecidas por Cortes de Lamego. (n) Nelas se
confirmaram as principais leis do Reino e, sobretudo, a lei que proibia a uma
herdeira do Reino casar com um príncipe estrangeiro.
(n) Refere-se às lendárias Cortes de Lamego, consideradas, hoje em dia,-sem
qualquer fundamento histórico.
CN.T.)
(u) A causa que provocou o exílio do Padre Francisco de Toledo foi uma carta
escrita a D. José l, a seu próprio pedido. Ouvindo todos os dias do seu Ministro
as acusações mais revoltantes e inverosímeis contra os Jesuítas, quis informar-se da
Ano de 1757 27 O Padre Davtd Fay e a Trtbo dos AmanaJós Este último,
Ano de 1757
27
O Padre Davtd Fay e a Trtbo dos AmanaJós
Este último, para
dilatar o Reino de Cristo e o do Rei de
Portu
propôs-se
procuÍar
os indígenas,
atraí-los à vida civili-
Eal,
zada,
fundar uma nova missão. Não
longe da aldeia de Carara
(a
Íá)
mais bela das missões do lVÍaranhão,
nas margens do rio Pina-
esforçava-se ele, com todo
o vigor,
por
atrafu à luz da fé as
várias tribos,
jaziam ainda na noite
euo
obscura do pagaÍtismo:
entre estas sobressaía a tribo dos Amanajós, tribo menos selva-
gem e mais parecidana cor com os europe-us, superando, aà região
do Maranhão e do Pará, todos os outros Indios, guo viviam ainda
na barbárie.
Movido pela ardência do seu zelo, procurou
abrir diálogo
com eles e
aprouve a Deus rcalizat os seus
desejos. A
pedido do
Padre
David, comparecerÍIm os Amanajós a um encontro
para
se deixarem conqúistar à liberdade de fllhos de Deus. Acddem
facilmente; nem sequer se recusam a reconhecer a autoridade
do Rei, pedindo simplesmente os isentem do serviço que os neófi-
verdade, e deu ordem ao P. Francisco de Toledo, Visitador da província do Mara-
nhão, paÍa que lhe fizesse uma exposição fiel sobre a actividade mission âria dos
Padres, e o estado da Religião naquelas terras. Comunicava-lhe ao mesmo tempo os
boatos desfavoráveis que corriam na Europa a respeito dos Jesuítas na América.
O Padre obedecêu, redigindo um relatório sincero, em que refutava calmamente as
calúnias assacadas contra os seus irmãos. Expunha ao mesmo tempo desapaixonada-
mente as violências de Mendonça, irmão de Pombal, e a desolagão geral a que tinha
reduzido o Maranhão. Não dizia, porém, uma só palavra sobre a impiedade e as
desordens do Governador, de que todos os mercadores, ao voltar à Metrópole, se
queixavam. (Ánedd,, t. I, p.36).
Pombal, que não suportava qualquer reprovação que caísse sobre si ou sobre
algum dos seus sequazes, chamou imediatamente o Padre Toledo a Lisboa, onde
o esperavam as masmorras de S. Julião.
Quanto ao Padre José da Rocha, que assistira - como diz a rclaçáo do Padre
Du Gad - com outros Superiores de diferentes Ordens a um Conselho convocado
pelo Governador, teve o atrevimento de propor que, antes de se executar a decisão
do Conselho, convinha se apresentasse à Corte uma relação dos inconvenientes que
dela poderiam resultar paÍa a Religião e paÍa o bem dos Índios e dos escravos. O
Governador tomou esta franquez;. como um crime, e exilou-o imediatamente.
Quanto aos Padres Moreira e Oliveira, ignoramos a causa do seu exílio, mas
não seriam mais culpados que o P. Toledo e o P. Rocha.
Memórias de um JesuÍta prisioneiro de Pombal 2B tos das outras missões, dos 15 aos
Memórias de um JesuÍta prisioneiro de Pombal
2B
tos das outras missões, dos 15 aos 50 anos, costumam p-restar
aos portugueses, desejando fruir a mesma imunidade dos Indios
Guajajaras, na missão dos Cararás. Prometem deixar a setva,
se lhes forem concedidas outras condições. Todas elas se centra-
vam no ponto principal
isen
do pelos portugueses. O
- Padre
tas pelos Amanajós, sem contu
legal, como, mais tarde, os seu
Entretanto, não se poupa ne
paru affancaÍ
ao cativeiro do demónio estas almas remidas pelo
preço divino do sangue de Cristo. Escolhe-se um lugar apto para
construir uma nova aldeia; prepara-se para isso um vasto terreno
;
cultiva-se a mandioca, com qüe os drasileiros fazem a farinha,
em quantidade suficiente para sustentar os neófitos durante um
ano; constrói-se uma nova casa. Abrira-se uma grande porta
ao Evangelho, mas depressa se fechou com a triste expulsão
dos
padres
Jesuítas.
À respeito
desta projectada redução dos Índios, vi um docu-
mento do Governador do Patá,, em que se levantava esta questão :
Com que autoridade aceitou o Padre David Fay a tribo dos Ama-
najós, em condições tão iníquas e perniciosas à Coroa de Portugal ?
Escrevera o Padre Fay uma carta para Lisboa, dirigida ao Padre
Bento da Fonseca, Procurador Geral da nossa Província do Mara-
nhão, contando-lhe em pormenor
e com fldelidade todos os esfor-
na fundaç
ços
empreendidos -selvagem.
aÍa
Pretendia
esta- tribo
dre
con
Bento expusesse ao Rei as
bo,
decret
em conformidade
com os
na-
do de D. Pedro
II,
que
continham o
Regimento
das Missões:
neste se encerra, com
perfeila clarcza, o mandato que permite
aos missionários receber os Indios, por meio de quaisquer acor-
dos e
condições, para que possam abandonar a selva e abraçar
a
santa lei
de Jesus Cristo.
o
suco das flores donde as abelhas extraem o mel, converter em
vitupério o louvor do mérito, compensar com malefícios os bene-
fícios.
Ano de 1757 Eckart expulso do Pará, com mals nove Jesuítas vlaja até Llsboa Por
Ano de 1757
Eckart expulso do Pará, com mals
nove Jesuítas vlaja até Llsboa
Por fins do mesmo mês de Novembro de 1757,
igual
des-
graça caíu sobre mais dez Jesuítas do Pará. Eram estes, paru
além do Reitor do
Colégio do Pará, nove missionários, dos quais
seis portugueses e três
alemães; o Padre
Lourenço Kaulen, de
Colónia, o Padre António Meisterburg, de
Berncastell, ambos
da Província do Baixo Reno, e o
Padre Anselmo Eckart, de Mo-
gúncia, adscrito à Província do Alto Reno.
Foram todos atirados para um navio de guerra carregado
com material bélico. O oflcial militar obrigava os seus subordina-
dos a fazer exercício todos os dias. Os Nossos ocuparam a maior
cabine do navio, partilhando-a com dez padres da Ordem Será-
fica dos Capuchos, que viajavam juntamente.
Acompanhavam este barco três navios mercantes. Um deles,
depois de vários
dias de viag€ffi, começou
a meter água em tanta
abundância gue, mesmo com as bombas constantamente em
acção, so entrou a duvidar se conseguiria chegar salvo ao porto
de Lisboa. Por isso, os capitães dos outros navios dirigiram-se
ao barco de guerra pata delibetat) não sobre a melhor forma de
fugir a algum recife perigoso, mas de evitar ser submergido pela
violência das águas. Resolveram
dirigir a nau, no meio de tão
grande perigo, para
a Ilha de Barbados, que
era a mais próxima
(na
América
Setentrional)
e pertencera
à
InglaterÍa) uma das
chamadas Ilhas
de Barlavento. Uma
vez rcpaÍada, entrou no
porto de Lisboa com mais sorte do que o navio de guerra.
ar{o DE 1758 No dia 1 de Janeiro, avistámos ao longe um navio. Não nos
ar{o DE 1758
No dia 1 de Janeiro, avistámos ao longe um navio. Não nos
dando sinal algum da sua nacionalidade, mandou o comandante
disparar
contra ele uma bala de cantrão. Imediatamente retor-
quiu
com outro tiro. Pouco faltou para que uma bala de chumbo,
zunindo
aos ouvidos do comandante, o matasse. O nosso navio
estava
preparado paru o combate. Os marinheiros armados
tinham tomado o seu posto.
Mas, depois de dois ou três dias, não se atrevendo a travat
combate com o nosso, o navio desapareceu. Pouco depois, surgi-
ram no horizonte mais outros dois. Eram duas naus francesas,
comandadas por ingleses guê, como
eles
próprios confessaram,
as tinha
comandante
de
Mar
e
os
ingleses,
a bandeira
al, convencer
sso
do comandante, munidas com o selo do Rei de
Portu9al,julgando
primeiro, que o oflcial alemão era francês e o verdadeiro arrais
do navio. Este, vestindo um uniforme ornado de fímbrias de ouro,
aflrmava ter sido oficial austríaco. Por fim, os hóspedes britânicos
desaparecerâÍI, depois de se abastecerem de tabaco e
papagaios.
Antes de chegarÍnos às Ilhas dos Açores, vimos ao longe
outras duas naus. Novas perturbações, novos preparativos béli-
cos, novos perigos.
Seriam
piratas
? De repente uma das velas
mais
altas é desfraldada e) logo
de
seguida, arueada. Ressoam
gritos
de
alegtia.
Tratava-se
de um sinal convencional. Eram
navios portugueses pertencentes à Companhia Geral do Grão-
Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal -Parâ e Maranhão. Írarinheiros do nosso Foram recebidos
Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
-Parâ e Maranhão.
Írarinheiros do nosso
Foram recebidos com
navio, dispostos em fi
pelos
armas
ao som de clarins e trombetas. Uma
des
cinco
padres da Companhia exilados do Maranhão e o juiz da mesma
cidade (o ouvidor),
também ele desterrado. A culpa que lhe impu-
tavam era grande: a amtzade que
mostrara
pelos
Jesuítas, deci-
dindo a favor deles num
processo
judicial. O homem
que
decide
com justiça a favor da Companhia deve ser tido como malfeitor.
Passámos
ao largo da
Ilha
de S. Miguel,
uma das ilhas dos
Açores, tão perto que podíamos ver os campos e as vinhas. O
Capitão Schwebel aproveitou esta óptima ocasião que se lhe ofere-
ceu paru traçar um rigoroso mapa de toda a ilha.
Chegada a Llsboa
Depois de dois meses e meio de viagem marítifrà, chegámos
à
de 1758. Mas, pouco faltou para
n
porto. Segundo o costume, todos
o
vem receber um
piloto
local, que
os conduza até à vila fortiflcada de Cascais: este guia o barco
por uma rota extremamente perigosa por causa de dois rochedos
muito próximos,
tristemente famosos pelos naufrágios causa-
dos. Os portugueses chamam-lhes cachopos ou cachorros, porque
o fragor do marulhar das águas
se assemelha ao ladrar de uma
matilha
de cães. Mal davam as 8 horas da manhã, de repente,
levantou-se uma furiosa ventania,
imediatamente a vela, desviou-se
e o navio,
sem
poder
affeat
da rota, sendo levado
paÍa
o
lado numa carreira rapidíssima, e arrastado para os perigosos
rochedos, onde ainda podia ver-se outra nau recentemente nau-
fragada. Que terror! Que
gritaria!
Lançam a âncora, mas esta
não
conseguiu p:render o
navio; lançam outra, sem obterem me-
lhor
resultado. Só resta a âncora
de salvação, a maior e mais
resistente. O trabalho ingente
dos marinheiros prolongou-se até
às 11 horas e, assim, neste triste dia, o nosso jantar
juntou-se
com
ffifiuÍfiT*5rfi ff]utfÍrrh n#u ffiilffrr ffi# tttlÍt rtI #ffiu umh &trr sf{$flrrtrüurrffi tfifi#tr fl IJ*
ffifiuÍfiT*5rfi ff]utfÍrrh n#u ffiilffrr
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f,
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rrfr#r ffifrrril-
ffi
f,?t}
Frontespício de um dos 17 volumes da obra de von Murr Journai zur Kunst-
geschichte und zur allgemeinen Litteratur, em que ele publica, pela primeira vez, As
Memorias do P. Eckart. (T. VIl, 293-320; MII, 81-288; IX 113-254;344-352), Nürn-
berg,, 1775-1789.
i 1 tli ? + Uma página do original das Memorias do P. Eckart, correspondente
i
1
tli
?
+
Uma página do
original
das Memorias do P. Eckart, correspondente ao ano de
1162 (no subtítulo desta tradução: Começa o cativeiro nos carceres de S. Juliao da
Barra) publicadas por von Murr sob o título: R. P. A. E. (Rev. P. Anselmi Eckart)
Historia Persecutionis Societatis Jesu in Lusitania.
Ano de 1758 guo, a 3 de Junho de 1753, largaram, ta presença do Rei
Ano de 1758
guo, a 3 de Junho de
1753,
largaram,
ta
presença
do Rei e da
Rainha, paÍa a América, com ceÍca de quarenta navios, dirigindo-
-se uns paÍa as ilhas do Atlântico, sujeitos ao domínio lusitano,
outros para Angola, Maranhão e Patá,, e tendo muitos chegado
ao Brasil. Este engenheiro alemão devia demarcar os limites do
Rio Negro, sobre os quais existia dura controversia entre
Espanha
e Portugal.
O príncipe
D. Manuel, tio do rei, que tinha grande
estima
pelo ofi.cial, a quem concedera o regresso à Europa antes
de expirado o ptazo,
enviou-lhe um
bergantim
paru o
desembdÍ-
cat. Mas, nós
exilados, tivemo de peÍmanecer
a bordo ainda
por quatro dias.
Entretanto,
voltava de uma
vimos
passar
ao lado do nosso navio o
Rei,
que
caçada em Salvaterra. Costuma lá, ir à caça todos
os anos, no dia
18 de Janeiro, depois de terminadas as preces
solenes, que se fazem na Igreja de S. Vicente, por ocasião do trí-
duo de Santa
era filha de um
Engrácia, virgem
márth de
Saragoça. Esta Santa
príncipe,
então senhor da Lusitânia. Ao lado do
Rei ia o príncipe D. Pedro, seu irmão, guo com a bengala lhe
mostrou a bandefua da nossa nau: de um lado ostentava o escudo
do reino
de Portu9al, e) do outro, as
insígnias
da
Companhia
de
Navegação do Maranhão e Pará, representando a Virgem Con-
cebida sem Pecado, com uma âncora aos pés. Os que costumam
conduzir o Rei são sempre remeiros do reino do
Algarve, a
que
comurtmente chamam algarvios. Atr{s deles vinhaú o Rei e a
Rainha com as Princesas, suas filhas.
-mor.
À
popa, de pé, o estribeiro-
Desembarque e começo da vlagem
para o exíIio em Sanfins
Na tarde de 15 de Fevereiro, saindo
do navio,
fomos leva-
dos paru tena, onde nos esperava
já, gtande multidão. Encontrei-
-Íle,
então, com o Conde de Paraíso, brigadeiro, antigo e valo-
roso oficial sob a bandeira austríaca, que saíu de Lisboa em 1753,
um dos principais comandantes militares. No mesmo ano, dera
ele um
lauto banquete aos Jesuítas alemães, antes da nossa par-
tida
paÍa
o Maranhão.
Estavam
já,
preparadas algumas pequenas
caleches, e,ada
uma com lugar para duas pessoas. Eram oito para
os quinze exila-
3
34 Àtlemórias de um Jesuita prisioneiro de Pombal dcis, que foram distribuídos aos pares por
34
Àtlemórias de um Jesuita prisioneiro de Pombal
dcis, que foram distribuídos aos pares por sete carros, e um ocu-
pou o oitavo. Por ordem de Carvalho e Melo,
logo na mesma
tarde, partimos para o exílio e fomos até Sacavém,
a duas léguas
da cidâde. Pernõitámos nessa vila da Estremadurâ lusitana.
No dia
seguinte, veio ter connosco um
oficial de justiça-Mei-
rinho da Corte, (antigo of,cial
de justiça,
guo tinha direito de
prender e executar outros
mandatos judiciais)
com o seu ajudante.
Estes dois cavaleiros armados vigiavam e guardavam cuidadosa-
mente os exilados.
Surgiu
então no céu uma grande
tempestade.
O ar estava gelado. Caminhávamos por estradas muito difíceis.
Tive por companheiro o Padre Fay. E, galopando por caminhos
muito maus, o carro virou-se p or duas ou três vezes.
Ltbelo de acusação contra os Jesútas
Nos primeiros dias
da viagem, entregaram-nos um libelo
insultuoso, impresso em Lisboa, effi
1757, com este título : Rela-
ção
Abreviada da República dos .Iesuítas do Paraguai (u). Era um
conpêndio, descrevendo um acervo de factos imputados aos mis-
sionários do Paraguai e do Brasil, effi que a verdade se misturava
com a mentira. Neste infame opúsculo o Padre Fay era procla-
mado réu, não de um crime qualquer, mas de um crime airoz de
lesa majestade, por causa da catta atrás mencionada, escrita por
ele ao Padre Fonseca, àcerca da tentativa da Redução dos Ama-
najós.
desta carta, qye
Arrc
intercgptada, mandou-a impri-
fora
mir
o
Governador do Pará. E
melhor
fora
que
a publicasse
na
íntegra, pois, truncada tirúa ela um sentido totalmente diverso.
(')
Poucos libelos deram tanto brado, e fizeram tanto mal à Companhia como
a Relação Abreviada. Foi o livro favorito de Pombal. Só na cidade de Lisboa mandou
imprimir 20.000 exemplares, que distribuíu por Príncipes, Bispos e Superiores de
Ordens Religiosas. Enviou-os aos embaixadores de Portugal nas diversas cortes da
Europa, com ordem de os fazerem traduzir para as línguas dos diferentes países em
que se encontravam, e de os espalhar por todos os meios ao seu alcance. Mais ainda.
Para maior divulgação fê-los imprimir com diferentes títulos. Assim em Outubro
de 1757, saíu em Roma com o título de Carta do Ministro de Portugal ao lulinistro
de Espanha sobre o império dos fesuítas,' pouco depois com o de República do Mara-
nhão e Hístória do Rei Nicolau I, sucessivamente. (Anedd. t. f, p. 130)
Ano de 1758 Mas é próprio dos falsos políticos usar de palavras pérfidas corr- tra
Ano de 1758
Mas é próprio dos falsos políticos usar de palavras pérfidas corr-
tra
aqueles que querem caluniar e contra o leitor
ignorante,
que
pretendem induzir em erro, ou, pelo menos, deixar perplexo e
menos benévolo para com aqueles contra os quais §e escreve.
Este libelo (que fora também fiadtzido para espanhol, itali-
ano e
alemão) menciona igualmente dois alemães, os Padres
António Meisterburg e Anselmo
Eckart: <<Jesuítas que com a
violência do ódio são conhecedores experientes de todos os mean-
dros, desvios,
enganos, manhas, astúcias, maquinações e estrota-
gemas>>. Este ridículo autor não sabe o que diz; a si mesmo se
afiaiçoà, quando mede a todos com a sua própria medida. Toda
esta tão grande astúcia dos Padres da Companhia permaneceu
oculta
dos Reis de Portu9al, tão
perspicazes
como os antecesso-
res de
D. José I: Filipe IV,
Filipe III,
Filipe II,
Cardeal D. Henri-
que e D. Sebastião ? Todos estes príncipes
coroados confirmaÍam
com diplomas régios as missões confiadas aos cuidados paternais
dos Jesuítas, cumularam-nos de privilégios e favores, honraram-
-nos prodigamente com elogios: mas, enganaram-se, iludiram-se,
foram induzidos em erro.
O fogo,
por tantos anos oculto debaixo
das cinzas, finalmente, sob
o glorioso
regime
de Sebastião de
Carvalho e Melo e de seu irmão Mendonça Furtado, explodiu
em chamas,
quando
os Jesuítas
conspiradores ocultos deram o
máximo do seu esforço, fiabalharam arduamente com todas as
veras da sua alma e se esgotaram de fadiga
para conquistar estas
terras meridionais para
Cristo e Portu gal.
Eu não discuto
aqui
como é descortês meter a foice em seara alheia; como é feio
e
estulto impor leis a homens que nunca se meteram comigo, nem
nunca me
fu;eram mal; como é insensato pôr-se a investigar o
que fizeram de bom ou mau nas nossas próprias casas.
Entretanto, o
desvergontrado redactor deste tristemente
famoso libelo escreve muitas
páginas narrando histórias retin-
tamente falsas. tIma delas, caíu
por acaso nas mãos dum
certo desembargador
da
província da Beira de Portugal. O calu-
niador contava que um missionário jesuíta do Paraguai dizia aos
seus indígenas güo, se num combate matassem algum português,
deviam
depois cortar-lhe a cab
depois de
mortos, se os não
aquele
desembargador
ao ler t
estas
páginas
cheio
de náusea e indignaçã,o.
Memórias de um JesuÍta prisioneiro de Pombal Acusações contra o Padre Eckart Mas, examinemos este
Memórias de um JesuÍta prisioneiro de Pombal
Acusações contra o Padre Eckart
Mas, examinemos este irredutível argumento aduzido pelo
acusador dos nossos irmãos: com
que força confirma a sua asser-
ção
de que eles queriam vindicaÍ paÍa si o domínio
destas regiões:
No mês de Janeiro de 1756 construíram a vila de Borba-a-Nova,
no mesmo
lugar
da de Trocano. O Padre Anselmo Eckart e o Padre
António Meisterburg
fi,xaram-se
ali para estabelecer nestas pro-
víncias o seu domínio, etc
Dá-me pena tanta ignorância que
este autor manifesta abertamente. Construíram uma cidade no
mês de Janeiro de 1756. Mas, quem construíu? Quem forarn os
Rómulos e Remos desta nova ««Roma»>? Neste ano,
na missão
de Trocano üvia apenas o Padre Eckart. Mas, concedamos (o
que é falsíssimo) que isto
foi assim mesmo, que de facto foi cons-
tiuída pelos Jesúítãs do Pará, uma cidade no ôôncavo da lua. Com
que fim ocuparia o
tal lugar? Não pertencia ele
à mesma ordem,
à
à
mesma
Companhia?
Quem
é que não vê a inse
cia de tal facto ? quem há que
não veja imediatamente que isto não passa de uma mentira cras-
sa? Este o infeliznarrador, que quer ajustar o quadrado ao círculo.
a isto, tenho a dizer que estive presente, que vi tudo
Quanto
com
os meus próprios olhos, que nesta comédia, ou antes, tra-
gédia, eu desempenhei um papel principal. Na manhã de 20 de
Dezembro de 1755, estando eu a celebrar missa com os meninos
e meninas da catequese,
chegou
de súbito
Mendonça
Furtado,
irmão de Carvalho e Melo, e uma centena de soldados, com a
intenção de proclamar que a aldeia de Trocano ia ser condecora-
da com o título de vila. Mandou então ao oflcial conhecedor da
língua
brasileira,
que fizesse esta promulgação: Coyr amó recó
rupí, isto é, de hoje
em diante tudo vai mudar: novos
oostumes,
nova disciplina,
novo modo de viver. De seguida, Mendonça
voltou-se para mim e disse-me: Vamos
declarar guerra
_hoje
o este
mato. Porico
depois são convocados os Índios ao repicãr dos sinos;
avançam por turmas em grupos os soldados valentões e os lenha-
dores armados de machados
que abrem enorÍne devastação nos
bosques, em torno da aldeia; ressoa nos ares o
fragor do tombar
das árvores, por todo o lado abatidas; uma das maiores, quase
em fonna de pirâmide, é erguida a 1 de Janeiro de 1756 no meio
da vila, que ainda ontem
era aldeia. Rompem,
da
parte de
alguns,
gritos festivos, ao som do troar das bombardas: Viva El-Rei.
Ano de 1758 E a aldeia que -se Borba-a-Nova. antes se cha"mava Trocano, passou a
Ano de 1758
E a aldeia que
-se Borba-a-Nova.
antes se
cha"mava Trocano,
passou a chamar-
Nome que foi tomado da vila de Borba, frL
província portuguesa do Alentejo. Foi esta a célebre vila que o
Padre Anselmo Eckart edificou, conquistou e honrou com nome
novo. Sustende o riso meus amigos
!
ele, poucos meses
antes da chegada de
Mendotrgâ,
Que
nos
princípios de Julho de 1755, fora enviado como missionário para
este lugar, concedo; mas, que tivesse por companheiro o Padre
António
Meisterburg, é absolutamente falso.
Este último estava
à frente de uma outra
missão,
chamada
Abacaxis, nas margens
do rio Madeira, mas à distância de dois dias de viagem. Depois
de uma ou duas semanas, chegaram uns pobres soldados, os pri-
meiros fundamentos desta ilustre vila futura.
A
maior parte deles
tinham sido obrigados
indígenas
na missão de
a casar contra vontade com mulheres
Marivá, junto ao rio Negro, missão que
tinha sido administrada pelos padres cannelitas e guo,
depois
tinha sido também ela reduzida
à
condição
de
vila;
ai iam ser
convocados os delegados de Espanha
rem os limites das províncias.
e Portugal pata determiÍla-
Jesuítas acusados de possuírem dols canhões
Entramos
agoÍa
peita atroz de que
a ttatat a graüssima acusação sobre a sus-
os Jesuítas tinham consigo dois canhões de
guerra. Mais um crime inaudito até ao dia de hoje.
A
respeito
destes pequenos canhões, eis a história muito
verdadeira,
que
tanto exasperou os nossos adversários. No ano
de
1725, fundou o célebre missionário português, Padre João
de
Sampaio,
residente em Abacaxis,
uma nova aldeia de Santo
António
de Pádua, nas margens do rio Jamari, que no mapa
aparece como Cayenro, mas os
índios chamam Irury. Este lugar
era frequentemente
infestado e os seus
campos
devastados por
uma
tribo bárbaru bastante numerosa chamada
Muras, não
muito diferente daquela de quem Túlio Cícero diz: houve um
tempo em que os homens vagueavnm como
pelos campos. Este
feras
povo nómada é gente de tanta crueldade, que mata impiedosa-
mente qualquer indivíduo que encontre, quer seja europou, quer
seja de qualquer outra tribo. O Padre Sampaio,
paÍa
livrar os seus
neófitos de tão perigosas incursões, pensou em transferir a missão
38 Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal para outro lugar. Expõe este plano, primeiro
38
Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
para
outro
lugar. Expõe este plano, primeiro ao governador do
Pará., que eÍa
ao tempo João da Maya e Gama;
este não apro-
vando a deslocação de aldeias, que é sempre difícil, persuadiu o
Padre a comprar
um pequeno canhão de bronze que caffegasse,
não com balas
de chumbo, mas de pólvora
seca, cujo
fragor
bas-
taúa para
pôr
em fuga
estes bárbaros. Por conselho,
pois, da
suprema autoridade da
província, comprararn-se dois pequenos
canhões e colocaram-nos na aldeia. Rebentam os tiros e os bút-
baros deitam a
fugir;
mas, vendo que nada lhes acontece, perdem
o medo, e continuam a infestar ferozmente a aldeia. Em vista
disto, o Padre Manuel
Fernandes, que precedera o meu antecessor,
Padre António José, paÍa
transferiu a missão paÍa
acabar de vez com as hostis incursões,
um lugar chamado Trocaoo, levando
consigo tudo o que pertencia à aldeia, incluindo estes dois canhões.
É realmente ridículo, que quando tantos governadores antes
de Mendonça
Alexandre de Sousa, José da Serra, ambos inimi-
-
gqs da Companhia, João Abreu,
Pedro Gorjão,
que
se não eram
inimigos, também não eram amigos, o próprio
rei D. João V,
que não podia ignorar estes factos
nada de repreensível tenham
visto neles, só Mendonça Furtado
- que parecia
julgar-se
o Oitavo
Sábio da Grécia, visse nisso um crime digno
do mais severo cas-
tigo. Assim, acusou missionários que viviam em absoluta pà2,
de fomentar uma guerra que
só existia na sua imaginação e na
de seu irmão, exasperada pelo ódio fercz que
ambos nutriam
contra a Companhia e escondiam dentro de si. E esta ridícula
invenção espalhou-a ele por meio da imprensa, pela Europa culta,
mas ignorante dos problemas da América.
Este capcioso promotor de justiça, em meio de tanta con-
fusão, tanta perturbação, tão horríveis intrigas contra dois Jesuí-
tas, parece sentir-se confuso, perplexo,
embaraçado
ao ver-se
subitamente diante de crimes tão atrozes sem
poder provar um
só de todos eles.
Finalmente, depois de muito cismar, chegou a esta brilhante
conclusão : Estes dois Jesuítas
eram afinal dois estrategos militares.
Mas que maneira tão estranha de
ajuizar! com que violência,
com que impetuosa
injustiça!
Nós, porém,
não resistimos com
violência à violência. Mas, onde estão as fortalezas? onde tínha-
mos nós as armas de guerra, os meios de defesa e de ataque ?
Onde tínhamos nós peças de artilharia ou
armas de fogo ? Tudo
isto é exigido pela acção militar e estraté gica. Aqueles que nada
Ano de 1758 sabiam de ciência bélica foram acusados de planear uma guerra. Ter-se-à feito
Ano de 1758
sabiam de ciência bélica foram acusados de planear uma guerra.
Ter-se-à feito tal acusação por brincadeira ou a sério ?
Consideremos
agora,
o lindo título deste
libelo: A República
dos Jesuítas. Não estariam todos os missionários dependentes
do seu Provincial,
do Bispo e do Governador ?
Porque lhes cha-
mam então
conspiradores autonomistas, adversários do
poder
real ? Iriam eles fazer uma nova
revolução do Paraguai ? (').
Pre-
tendiam os seus adversários que este libelo encerraya toda a ver-
dade; e antes assim fosse! Nele tudo se baralha: é um caos. Aos
olhos do leitor todo ele sugere apenas devastações, ruínas,-rapi-
nas e carnificinas.
Quem
o lê, vê diante de si milhares de Indios
paraguaios, uns arrastados ao cativeiro, outros imolados ao furor
dos espanhóis e dos portugueses, e ainda outros dispersando-se
em fuga pela floresta. Perdeu o monatca católico milhares e milha-
res de índigenas bem exercitados nas armas gue, a um sinal seu,
estavam
prontos a combater e pagavam o tributo anual, contri-
buindo deste modo
pouco, pata sustentar o erário régio.
.não
Extinguiu-se
assim, de todo, uma viva reprodução dos primeiros
fléis
cristãos nas missões do Paraguai, e com que prejuízo paru
as almas! Isto nem com lágrimas de sangue poderá ser suficiente-
mente deplorado.
teú, sido autor das incoerentes e malévolas aleivosias
Quem
opú
deste
mordaz,
tigar. Ma
existiu
e Melo,
ir
estas
Lisboa, e as propagou por todos os quatro cantos do mundo (t).
s fábu-
factos.
teve-o
ial dos
(') Refere-se talvez o autor à Revolução dos Comuneros, ocorrida de l7l7
a 1735, que foi um desafio aberto à autoridade real espanhola.
(N. T.)
(t)
Não seria certamente júzo temerário. Toda a gente em Portugal atribuía
ao Ministro este livro, bem como uma multidão de outros que corriam por todo o
Reino. Conta-nos a este respeito o conde de Alvão: As obras aparecidas em por-
tuguês a difamar as vítimas de Pombal eram na maior parte devidas à sua própria
pena. Ao menos o público assim lhas atribuía. O estilo de todas elas ressumava s€In-
pre o seu ódio viperino. (Anedd., i. I, p. 131)
Memorlas de um JesuÍta prisioneiro de Pombal ::fs: *:,*ttyT; : El À ixar impune a
Memorlas de um JesuÍta prisioneiro de Pombal
::fs:
*:,*ttyT;
: El À
ixar
impune
a
quem se atreva a
Não obstante tal
fazer
uma defesa tão injuriosa da sua real pessoa.
proibiÇão,
o Padre Fonseca atreveu-se resoluta-
mente a ilibar a honra e o bom nome da Companhia, que qual-
quer homem e, muito mais um religioso, tem obrigação de defen-
der, segundo
o aviso
do Espírito Santo: Tem cuidado de defender
o bom
nome (Ecl 41,15).
Para apagar, sobretudo entre os nativos, a infâmia espalha-
da pelos caltrniadores, o Padre Fonseca escreveu uma obra-n otá-
vel pela autenticidade dos testemunhos que colheu, digna de ser
publicada,
a fim de desfazer tantas
mentiras; esta mesma obra,
escrita
em português, foi traduzida paÍa
latim pelo Padre Fay.
Contlnuação da vlagem para Sanflns
dura lusitana, sede episcopal, sujeita ao Patriarca de Lisboa. Era
o segundo domingo da
Quaresma,
19 de Fevereiro, dia em que
grande multidão vinda das aldeias vizinhas afluíra
às celebrações
pligiosas, a que os portugueses chamam Procissão dos Passos.
d. frente desta piedosa procissão ia um etíope tocando trombeta.
É
um ofício müto bem remunerado, 4.000 rêis ou 10 florins, pois
entre os portugueses não há, quem o queira exercer, por o povo
estar falsamente convencido, de que, se o condutor desta procissão
morrer no mesmo ano, não se poderá salvar por ter anunciado
com uma trombeta fúnebre a morte do nosso Salvador. O Bispo
daguela cidade, ao ver chegar inesperadamente
mandou perguntar-nos por um fâmulo o que
tantas calechês,
é que nos levara
ali e paÍa
onde se dirigiam tantos Padres.
No dia segúnte, estávamos à distância de uma hora da nossa
residência chamada Canal. Temiam os cocheiros que o excesso
de lama lhes travasse as rodas dos carros e impedisse o prossegui-
mento da viagem, pelo que fomos obrigados a descer, e a pros-
4t Ano de 1758 rio Mondego, que vai desaguar no Atlântico. Chegámos a uma vila
4t
Ano de 1758
rio Mondego,
que vai desaguar no Atlântico. Chegámos a uma
vila da
província da Beira, chamada Montemor-o-Velho, (N.
4.*)
pata ai
passarmos a noite. Os seus habitantes, que foram
paÍa
nós de muita bondade, convidaram-nos a trocar o nosso albergue
No es la jaula conforme a la fiera que estd en ella.
Passagem polo Porto
Não longe da cidade do Porto, veio ter connosco uma patru-
palácio, havia dois anos. Pertencia ele ao clero secular e era
homem de fé, íntegro, tã,o aceite e estimado pela Raintra reinante,
D. Mariana)
a ponto de nunca esta lhe recusar os acepipes que
ele lhe enviava. Cawalho e Melo, apercebendo-se disto ficou roído
de inveja. Pouco disse aquele que afirmou: Os invejosos desejam
(N.A. *)
Esta vila, construída pelos mouros, chama-se MontemoÍ-o-V€lho,
paÍa se distinguir de uma outra, na província do Alentejo, que se chama Montemor-
-o-Novo, pátria de S. João de Deus, fundador da Ordem dos irmãos hospitaleiros,
que se dedicam aos enfermos.
Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal ser só eles os estimados, só eles tidos
Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
ser só eles os estimados,
só eles tidos
por grandes e famosos. Men-
donça
ficou marcado
junto do rei com
este negro ferrete e por
isso, foi mandado sair de Lisboa no espaço de 24 horas. Acolheu-
-se a uma propriedade sua, vizinha de um lugar chamado Salrego.
Assomandó à
janela
da sua casa, levantou ao alto um lenço branco
e agitou-o quando passávamos: era um exilado a saudar outros
exilados.
No Porto, tivemos também de presenciar espectáculos ter-
ríveis. Esta cidade está situada entre dois rios, na província de
Entre-Douro-e-Minho,
antigamente também chamada Portus
Gallorum; daqui, diz-se, veio
o nome de
Portugal. Espetadas
em altos postes
podia:rr
ver-se as
cabeças de
dezoito
infeli-
zes cidadãos.
O povo olhando espantado de terror
paÍa
estas
estacas
dizia: Agora, vamos ter
para os nossos filhos e netos.
forcas
A causa de tão
sang
i
que se levantou nesta
dação da Companhia
lho:
Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba, duas prefeituras
do Brasil. LJma pequena centelha levantou uma grande labareda.
Primeiro, agrediram os homens de uma certa taberna onde se
vendia vinho.
tlm
deles, mais imprudente, disparou uma bom-
barda de sua casa. Logo, muitos outros acudiram e excitados de
raiva gtitaram: Viva el
Rei, morro a Companhia. Acorrendo os
soldados para dominar o tumulto, com a sua violência, ainda
mais acfufaram os ânimos.
Logo que o primeiro ministro soube disto, ferveu de raiva.
Mandou imediatamente por tena e por mar ordens severíssimas.
As cadeias que existiam não bastavam para tanta gente: manda
construir novos cárceres.
Ferve nas ofiCinas o estrépito dos fer-
reiros; preparam-se
muitas algemas paÍa
as mãos, grilhões para
os pés, e gargalheiras para os pescoços. As enxovias
paÍa
maior
horror são munidas com portões de ferro. Chegam à cidade dois
navios de guerra para refrear os ânimos e
castigar os culpados
com sumo
rigor. Muitos foram executados; outros condenados
a ser publicamente açoitados com vergastadas; outros foram
obrigados a viver perpetuamente dentro de certos limites territo-
riais. Forçaram os dois filhos de um cidadão condenado à forca
a presenciar o triste
espectáculo da sua execução.
Caio Calígula
proce{.,
do mesmo modo,_ mas em sentido inverso,
gbr^rgando
os pais a assistir à morte dos filhos. Um certo soldado francês
de nascimento, testemunha desta lúgubre execução, contou-me
Ano de 1758 que os ré.us mais culpados coÍ?segryraq fugil e gs inocentes, ou menos
Ano de 1758
que os ré.us mais culpados
coÍ?segryraq
fugil e gs inocentes, ou
menos criminosos,
foram condenados à
morte. Poucos anos de-
pois, o principal destes juízes,
do ao Brasil a prepatat um
chamado
Mascarenhas, foi manda-
cárcere paÍa pessoa
altamente cons-
tituída em dignidade:
escolheu o cárcere e depois foi ele
próprio
encerrado lá" dentro.
Tal foi a paga que Cawalho e Melo deu ao
seu colaborador (').
Chegada a Sanftns
Ao
aproximar-nos de Braga,
capital da província de Entre-
-Douro-e-Minho,
fomos recebid os
com muita
delicadeza nas
casas de
campo
de Ferreiros e Montariol, pertencentes ao nosso
colégio de Braga. Dali cavalgámos em mulas, a 8 de Março de
1758,
e chegámos, o meu companheiro e ou, mortos de
cansaço,
à nossa residência de Sanfins, exilados para o mais longínquo
lugar do mundo português. Esta casa antiquíssima, euo fora dos
beneditinos, conta
cerca de 1.000 anos. Fora dedicada ao már-
tir
S. Félix, de quem se lê, a 1 de Agosto,
no Martirológio
Roma-
no: ««Em
Gerona,
na Espanha, o
natalício de S.
Félix Mártir;
depois de muitos tormentos, foi mandado
açoitar
até dar a vida
por
Cristo»». O seu crâneo guarda-se nq
Igreja contígua a esta
casa, muito frequentada
pelos galegos.
E
pia
tradição
entre eles
que se tocarem com
pão nas sagradas relíquias deste mártir
)
e
depois o atirarem aos cães, é neles remédio infalível contra a raiva.
Com o andar do tempo, este nome de S. Félix veio por corruptela
a transformar-se em Sanfins. IJá, 2A0 anos ou mais, este prédio
foi oferecido ao nosso colégio de Coimbra,
donde veio a asserção
dos Beneditinos: ««Para nós foi Sanfins; para
os Jesuítas
foi
San
Feliz» referindo-se ao fim dos seus direitos
e à feliz tomada de
posse pelos Jesuítas.
(')
Pombal recomendou instantemente aos comissários que enviara ao Porto
envidassem todos os esforços para envolver os Jesuítas no processo da sedição. fsto
revelou mais tarde o desembargador Mascarenhas, cujo pai recebera as instruções
secretas do Marquês. (Les Prisons du Marquis de Pombal -
Journal publié par
A. Carayon, Paris 1865, p.29). Cf. Brotéria, Outubro 1973, p.349-3il, D. Maurício,
Como foram implicados os fesuítas no motim do Porto de 1757.
44 Memorias de um Jesuíta prisionelro de Pombal Esta casa foi imortalizada por alguns dos
44
Memorias de um Jesuíta prisionelro de Pombal
Esta casa foi imortalizada por alguns dos seus ilustres habi-
tantes da nossa companhia: Simão Rodrigues, um dos primeiros
dez companheiros de Santo Inácio; o venerável Inácio de Azevedo
que
foi
martirizado com 39 companheiros pelos piratas em ódio
da fé e submergido no mar i a, ainda por S. Francisco de Borja,
que se diz ter habitado o quarto onde
eu mesmo dormi, agora
transformado em biblioteca. Estávamos como reclusos, quinze
Jesuítas da América, espalhados por diversas residências, pois,
por ordem de Sebastião de Carvalho, so impupera a9s nossos Supe-
riores a obrigação
de
vigiar,
paÍa que nenhum de nós pudesse
afastar-se pata
longe da
região a que fora confinado. Foi-nos
proibido
ainda com mais severidade
pôr pé em qualquer terra
fora de Portugal.
Novas cahimias
Entretanto, continuam os adversários da Companhia a espa-
lhar pelo povo novos panfletos, uns manuscritos, outros impres-
sos. Alegavam,-se as falsas razões pelas quais o Rei fidelíssimo
proibira os Jesuítas, confessores do palácio real, de nele entrarem.
Acusavam
frngidamente
os Nossos de terem introduzido no palá-
cio real o Príncipe de Espanha,
D. Luís, vestido com o hábito
seráfico de S. Francisco, no
intuito de o levar ao casamento com
D. Maria,
Princesa do Brasil. Falava-se então
do Duque
de Cum-
berland,
como pretendente à sua mão. IncriminavaÍn os Nossos
de serem os instigadores
dos tumultos
no Porto; g,
-populaÍes
ainda, de afimarem
que o vinho do Porto nem
sequer servia
para as missas: éramos nós réus de tanto sangue derramado ('o).
(t')
Todas as mentiras, mesmo as mais desaforadas e inverosímeis, eraÍn apro-
veitadas e usadas, desde que com elas se pudessem enganar os simples e desacreditar
os Jesuítas. Pombal e os seus sequazes não tinham o mais pequeno escrúpulo. Mas
infelizmente para eles, nem tudo eram almas simples e crédulas. Lfm dia um dos mais
ardorosos adeptos do partido anti-jesuítico, depois de despejar na presença duma
dama muito culta o seu mais longo e belo capítulo a respeito dos Padres, recebeu
dela esta réplica : «<Mas tudo isso não é nada; eu sei a respeito deles uma coisa muito
mais horrível; foram eles esses medonhos monstros que provocaraÍn o tremor de
terra destruidor de Lisboa!
»»
E o falacioso interlocutor ficou mudo, de boca aberta,
e saíu rodando sobre os calcanhares. (Ánedd. t. f, 137, not.)
Ano de í758 45 Que dizer de todas estas acusações ? Tudo meras ca!únias. Éramàs
Ano de í758
45
Que
dizer de todas estas acusações
? Tudo meras ca!únias.
Éramàs
acusados de tennos abusado
da liberdade dos Índios.
lãàT il'Jtill?:,t:
por palavra e por
escrito, estes infelizes indígenas! nós que pusemos
freio aos mer-
cadores de escravos! nós
que
sacudimos
da cewiz dos nativos
o jugo opressor da escravidão
paÍa
fazer deles homens livres!
O testemunho mais eloquente disto é o celebérrimo Padre António
Vieira, o restaurador das
missões da nossa província do Mara-
nhão, contra o qual se levantou toda
a cidade do Pará,
por
de-
fender acerrimaàente a liberdade
dos Índios. Arranéiram-ro
à força
do colégio e encerraram-no numa casa apertada onde
teria
perecido se uma piedosa mulher não se tivesse
compadecido
dele, e às ocultas olhasse
pelo seu sustento. Por fin, atirado com
seus companheiros
paÍa
um navio, obrigararn a navegar este
homem, euo
no seu tempo,
era incontestavelmente
o príncipe
*).
dos oradores
sagrados (N.
A.
Bula de reforma de Bento XIV
No
dia 2 de
Maio de 1758, chega à nossa Casa Pro-
fessa de S.
Roque a bula
(que
na
realidade
era um
breve)
da Refonna de Bento
XIV,
datada de
I de Abril
(,').
Este
decreto pontifício parece fundamentar-se no célebre
(N.A. *) Dos seus muitos volumes, cinco foram traduzidos paÍa a lÍngua
latina; encontrarn-se em Colónia com este título: Sermones Selectissimi foecmdi-
tate materiarum, sublimitate et acumíne
conceptuum
admirabiles.
(")
A autenticidade deste decreto foi muito contestada. Eis o que a este res-
peito afirma o autor de Mémoires de Pombal: O estado de abatimento em que na
altura se encontrava Bento XIV, com a saúde tâo abalada que já pouca esperança
havia de recuperação, o ódio desmascarado contra os Jesuítas, do Cardeal Passio-
nei, secretário dos brevos, as intrigas do Comendador Almada, o o próprio teor do
mesmo Breve, provo@raÍn as suspeitas bem plausíveis do seu carácter subreptício.
Por tal o tiveram os que se julgam com jt:ízo crítico para julgar objectivamente os
factos através das obscuridades do Direito Canónico. ( Mémoires de Sébastien
foseph de Carvalho et Mélo, Comte d'Oeyras, Marquis de Pombal -- Secrétaire
et Premier Ministre du Roi de Portugal loseph I, 4 tomos M DCCLXXXIV, pp.
146 e 147.)
Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal dor amplos poderes, estes, contudo, não se estendiam
Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
dor
amplos
poderes,
estes,
contudo, não se estendiam à Reforma
da Companhia, mas antes
esta se tivesse infiltrado e e
sempre o recurso à Sé Apost
É certo, pelo menos, que o Breve só pôde obter-se depois de dois memoriais
enviados a Roma por Pombal, ambos eles eivados de ódio e má fé. Neles apresentam-
-sê os Jesuítas «como homens que sacrificam os seus deveres cristãos, religiosos,
sociais e políticos a uma ambição cega, insolente, ilimitada, insaciável de adquirir
e amontoar riquezas, e de usurpar os estados soberanos)). ( Cf, Mémoíres de
Pombal, t. f, p. 169 e 184)
Ano de í758 47 A 3 de Maio, morre Bento XIV, confortado com os santos
Ano de í758
47
A 3 de Maio, morre Bento XIV, confortado com os santos
Sacramentos dos rnoribundos, mas
antes ainda publicou
o de-
creto declarando as virtudes heróicas do Vener áiel Padre Fran-
cisco de Jerónino, S. J., morto a 11 de Maio de 1716, ilustrado
por m_uitos milagres na vida e
depois
da morte. Expirou o Sumo
Pontíflce nos
braços
do Padre
Pepi
(',),
célebre missionário da
nossa província
napolitana. A respeito deste abraço escrevia um
arguto escritor romano: <<Amou-os até ao fim>» (Jo 13rl).
Nesse mesmo mês, o Cardeal
Saldanha, envergando as ves-
tes pontifícias debaixo do pálio,
comparece com um séquito
aparatoso na Igreja de S. Roque, eue é hoje a Igreja da Miieri-
córdia, e exi ge a
homenagem de todos os Jesuítas, como seu Visi-
(').
tador Apostólico
Este templo menos danificado pelo terra-
moto começou a ser
paróquia
em 1756, e, a Casa Professa des-
tinou-se às orianças órfãs.
(")
O Padre Pepi veio a morrer poucos meses depois de Bento XIV, a 29 de
Maio de 1759, com grande reputaçâo de santidade. Apesar disso, alguns jornais
publicavam pouco depois um lindo inventário de bens deixados por este humilde
religioso. Eis uma amostra da gazeta de Lisboa, de 20 de Agosto de 1759: <«O Cardeal
Arcebispo de Nápoles fez-se transportar juntamente com o Ministro de Sua Majes-
tade à casa dos Jesuítas, pouco depois da morte do Padre Pepi, falecido em odor de
santidade. Nos aposentos do defunto encontraram-se 600 onças de oiro em pó, no
valor de 50.000 ducados em notas; 1.600 libras de cera; 3 relógios de oiro; 10 vasos
de cobre cheios de tabaco da Holanda i 2W lenços de seda, e uma soma de 300.000
ducados. AIém de tudo isto, tinha este Padre mandado fazer uma estátua da Virgem
em prata maciça, de tamanho quase natural; numa palavra , eta tão rico que orna-
mentou a igreja dos Jesuítas, em toda a sua extensão de veludo carmesim com galões
e franjas de oiro»». Estas e outras, as fantásticas invenções do jornal lisboeta. A ver-
dade, porém, é que nem o Cardeal, nem o Ministro se deslocaram à qasa dos Jesuítas;
e que tais mentiras bem poderiam ao menos inventar-se com menos inverosimilhança.
(Ánedd.
t. II,
p. 5)
(")
Afectou mesmo um certo ar de humildade, chegando a dizpr que estava
ele mais necessitado de reforma do que a Companhia, «o que bem podia ser verdade»»,
diz o autor de Aneddoti. <«Coragem!, diz ele ao Padre Henriques, hei-de tratar-vos
com bondade»». Mas logo no dia seguinte, se desvaneceram todas estas bondosas
disposições. Queixou-se mesmo de que os Padres não tivessem iluminado as casas
em sinal de regozijo pela sua tomada de posse. Estranha queixa, esta! Querer obrigar
as pessoas a regozijarem-se com os golpes que preparava paÍa as fustigar! (Anedd.
t. f, p. 168)
Mamórias de um Jesuíta prisionei,ro de Pombal 48 Jesuítas protbidos de exercer Ministérios Apostóllcos No
Mamórias de um Jesuíta prisionei,ro de Pombal
48
Jesuítas protbidos de exercer
Ministérios Apostóllcos
No dia 6 de Junho, dia natalicio de El-Rei, Cawalho e Melo
dirige-se ao Cardeal Patriarca D. Manuel, que pertencia à família
dos-Condes de
Atalaya, a, duranle várias horas, pede e urge insis-
tentemente que proíba
os Jesuítas de, desde esse momento, pre-
gar e ouvir Confi3sões. Assevera que isto é exigido pelos interesses
do Rei, de todos os seus súbditos e de toda a Igreja. Os políticos
s.eryp
disfar.çarn
sob o
especioso
título
No dia
seg
ejas, o
decreto de
proibição. Este decreto
13 do
mesmo mê§, ao colégio de Setúbal, onde se encontrava exilado
o Padre Malagrida.
ele tinha escrito a
Li
uma carla cheia de zelo apostólico, que
respeito deste assunto. Nela descrevia a tris-
teza que se
dolorosas e
à espera do
era a festa
natal), eE todo o Patriarcado e em muitas outras dioceses. Roga
ele ansiosa^mente, por Deus,
ao Padre
Diogo
da
Càmara, a quem
por esta catta se dirigiu,
que
yá, quanto antes, ter com o Patriatca,
seu parente, e use
de todos os meios pata o levar a revogar
este edicto. Foi, de facto, mas encontrou-o j á, tão perto da moÍto,
que expiraria, depois de poucas horas, pata dar contas a Deus,
diante
do
qual não contam dignidades humanas ('n).
(")
Para honra do Patriarca, deve dizer-se que ele não morreu sem antes ter
retratado o seu próprio proceder, e chorado a sua culpa. De resto, antes de assinar
a sentença de interdito, mantivera com Pombal uma luta de cinco horas, vindo por
fim a ceder, mais por temor do que por convicção. O Ministro aÍneagou-o de o des-
pojar da sua própria Sede, e de envolver na desgraça dele todos os membros da pró-
pria família, se se r@usasse a ceder aos seus desejos. O Patriarca bem sabia que as
ameaças de Carvalho nunca ficavam só em palavras. Passou toda a noite a chorar
a sua fraqueza. No dia seguinte, retirou-se para o campo, o a amargura e o remorso
foram tais que o fizeraur sucumbir dentro de poucos dias. Antes de morrer, er(arou
um protesto contra a violência de que tinha sido vítima; mas o Ministro nunca per-
mitiu a sua publicagão. (Ánedd., t. I, p. 177)
Frontespício de outra obra importante de von Murr Geschichte der Jesuiten in Portugal unter der
Frontespício de outra obra importante de von Murr Geschichte
der Jesuiten in Portugal unter der Staatsyerwaltung des Marquis von
Pombal, Nürnberg, 1787, em 2 volumes. Esta obra pode ser con-
sultada na B. N. L., R 34875-6 P.
$§ $ 5 I5T'{{ $:l t r [i s. h, - ]'-t.:, §[t']§ ,§.]§.: §*t"]§t.'§.-trt;
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rl \ §{.\ \'{}N,
Frontespício da primeira publicação em francês das Memorias do P. Eclçnrt:
Les Prisons du Marquis de Pombal, Ministre de ,S. M. Le Roi de Portugal (17 59-
-1777), no volume IX da imensa obra de A. Càrayon Documents inédits cencernant
la Compagnie de Jesus, em 23 volumes, Paris, Poitiers, 1865. Esta publicação em fran-
cês das Memorias do P. Ectçnrt e uma tradução bastante livre ciu., por vezes, chega a ser
adaptação.
Ano de 1758 Dois bispos seguiram este exemplo apenas para agradar a Carvalho e Melo
Ano de 1758
Dois bispos seguiram este exemplo apenas para agradar a
Carvalho e Melo
o de Miranda e o de Leiria. O primeiro que
-
era da família dos condes de Miranda, da Ordem dos Pregadores,
redigiu
o seu interdito
começando
por estas palavras: E bem sabido
de
todos e cada uffi, e perÍeitamente
claro, qunntos danos os Jesuí-
tas trouxeram à
lgreja
Católica nAS quatro plagas do Mundo, etc
E basta. Pelas garras
se conhece o leão, pelo gorjeio se conhece
o pássaro. O segundo, D. João Cosme da Cunha, Cónego
lar de Santo Agostinho, que depois veio a ser Arcebispo de
Begu-
EvoÍa,
usou ainda um estilo mais
cáustico,
segundo
a afirmação de um
jurisconsulto anónimo e historiador invulgar. Diz este que é de
pasmar como é que um
bispo
de uma das mais pequenas dioceses
do país, publica um decreto tão incisivo e generalizado contra
umá ordem religiosa. Muitas outras coisas recordo ainda que
propositadamente omito.
O novo
Patriatca,-Francisco de
Saldanha,
sucessor de Manuel
José da Cãmara Atalaya,
desmascarou-se a si mesmo com a
carta pastoral em que acusa os Jesuítas de comércio proibido
aos
clérigos.
Na vida de Constantino Magno,
lê-se que
este
piedoso
imperador-o primeiro a defender a Igreja e a trabalhar pela
sua dilataÇão, tornando-se assim um exemplo pata todos os ou-
tros príncipes
afirmava
se algum
sacerdote pecasse publi-
eue,
-
camente, ele, com a sua púrpura, havia de encobri-lo para evitar
todo o escôndalo no meio dos fiéis. Mas, aqueles que hoje em dia
se orgulham, não só de ser fiéis, mas que se dizem fidelíssimos,
a flor
da Cristandade
,
fazem de um regatozinho um
rio;
de um
grão de areia uma montanha; olham sempre os defeitos alheios
com óculos de aumento; e tornam públicos
os defeitos
que
eles
desmedidamente
exageraÍam.
Isto levou os nobres da Corte a
fazercm este irónico
comentfuio: Saldanha não é o Reformador,
mas sim o InÍamAdor. Mas aquele documento tecido de mons-
truosas mentiias atraiçoa o dedo de Carvalho e Melo ('u), que
(ru) Este documento foi geralmente atribuído pela opinião pública ao próprio
Pombal. Com efeito, era datado de 15 de Maio, e o Cardeal só em 2 do mesmo mês
recebera de Roma a nomeação de reformador. Toda a gente se perguntava com
espanto como é que o redactor deste decreto pôde em apenas treze dias investigar
com segurança um assunto que exigia longas pesquisas e numerosas informa@s
de países e continentes tão longínquos. Como pôde ele em tão pouco tempo veri-
4
50 Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal deu a comer ao Patriarca Saldanha aquilo
50
Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
deu a comer ao Patriarca Saldanha aquilo que este não preparaÍa.
O Padre António Moreira, meu
companheiro nesta residência
de S. Félix, testemunha ocular desta trama
insidiosa, pôs elo-
quentemente em claro, durante muitos anos, a sua falsidade. Esta
refutaÇão,
que passou pelas minhas mãos, foi transmitida a Cle-
mente XIII.
Defesa apresentada pelo Padre Malagrtda ao Papa
Também o Padre Malagúda, vendo um tal desaforo nestas
infamantes
publicações,
tomou sobre si a defesa dos seus colegas
do Llltramar. Compôs uma apolo
num estilo muito digno,
Eia,
que pudesse chegü a todas as mãos,
e
enviou-a ao Papa Clemente
XIII.
Começaya ela assim: Beatíssimo Padre. Que triste espectd-
ficar a veracidade duma acusação tão grave, imputada aos Jesuítas das quatro partes
do mundo? Responde ironicamente o autor de Mémoires de Pombal: O Cardeal,
para elaborar um juízo definitivo sobre tão grave e delicada questáo, não precisou
de citar nem interrogar nenhum Jesuíta, nem de examinar documentos, ou contactar
testemunhas, nem sentiu necessidade de ulteriores investigações, porque, como afir-
mava no próprio documento publicado a 4 de Junho, a verdade de todos os factos
nele enunciados eÍa evidente e notória. Quatro dias de ponderação politico-filo-
sófica bastaram-lhe para fazer este irrefragável raciocínio: Os fesuítas são iguais
em toda a parte; os mesmos hábitos, o mesmo nome, o mesmo regime, o mesmo sistema;
ora os de Lisboa fazem comércio ilícito e escandaloso, logo todos os fesuítas o fazem
igualmente.
E que comércio era o que Saldanha atribuía aos Jesuítas de Lisboa? Os Padres
tinham, de facto, nesta cidade um depósito de mercadorias, que faziam as vezes de
moeda. Vendiam-r&s, como qualquer particular pode vender o produto das suas
terras, e o preço delas era empregado no sustento dos missionários da América, que
não possuíam outros recursos. Não era comércio propriamente dito. (Anedd. t. I,
p. 170
)
Para avaliar justamente a boa fé que presidiu à redacção deste decreto, recorde-
-se que o Cardeal Reformador só foi a S. Roque uma vez, em 31 de Maio, para rece-
ber as homenagens da comunidade da primeira residência da província, e informar
a todos que ia entrar no exercício do seu cargo. Ora nesse dia o decreto que conde-
jl
nava os Jesuítas como culpados de comércio
tinha sido redigido e assinado havia
duas semanas. (Mémoires de Pombal, t, f, p. 213)
Ano de 1758 5l culo é tudo isto ! Que repentina metamorfose ! Neste porto,
Ano de 1758
5l
culo é tudo isto ! Que repentina metamorfose ! Neste
porto, donde
outrora
tgntos pregadores
evangélicos costumtvam partir
para a
Áfirtca,
Ásia
e- América, vêm agora
ancorar os naus carregadas
de missiondrios que voltam das
missões. Não que eles, exaustos
com a sua actividade apostólica, anseiem regressar
à
sua pdtria,
na Europa, mas, como que fulminados por um raio, com estupe-
facção
do povo cristão, eles são obrigados pelas autoridades régias
a abandonar o seu campo apostólico, são
expulsos
das missões
pelo
próprio governador
por ordem
do Rei, são lançados para fora
-
delas, marcados com a ignomínia, atraiçoados pelos ltomens, esm*-
gados de calúnias como sedutores, traidores e proclamados inimi-
gos do Estado. Eles, guê
nunca deixaram de ser os propugnadores
da paz e da concórdia! Ai de mim! Não sei para
onde me voltar!
Onde estard a causa de tamanha calamidade ?
A
quem
atribuir a
culpa desta tão horrível tragédia ? A Sua Majestade Fidelíssima
?
Mas, este
I/ e
augustg
rtlho
dos piedosíssimos Reis,
D. João
D. Mariana
de Áustria,
Íoi
educado com todo o esmero nos sãos
princípios de um príncipe religioso, cuidadosamente formado pelos
e dócil
os,
padres da Companhia
ores
que erom da sua
consciência
tant
em
nefasta
u a
outros a causa de tão
Pri-
meiro-Ministro,
Carvalho e
Melo, não andarei longe da verdade.
Este autor de tanta ruíno, obcecado pelo esplendor do nome da
nossa Companhia, que lhe ofuscava os olhos injectados de inveja,
satíricos,
espalha-
todaaterraeas
5). Estas publica-
ão eivadas de ódio
tão cruel, virulento, implacdvel, 8u€, se estivesse na mão do seu
Doutores
da
iça de Deus, vingador
severo dos
pecados
dos
ardentemente a
honra de Deus.
ministro
,Se o
o Tribunal da Sagrada Inquisição,
acuse o Cúria Patriarcal, acuse o Desembargo do Paço, acuse os
Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal três magistrados, aprovaram o meu sermão e concedernm
Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
três magistrados,
aprovaram o meu sermão e concedernm outo-
QU€
rização
para o publicar, etc
Todas estas asserções do
Padre Malagrida posso eu confir-
má-las também. No
Parâ, vi
impressas
muitas páginas deste
género cujos autores filosofavam descaradamente sobre o tre-
mor, agitaçã,o e inclinação da terra como se caminhassem nas
profundezas dos abismos, e vissem escondidas as portas tene-
brosas da terra. Contavam eles
os anos que levaria a cidade
de Lisboa, recentemente construída, a desabar de novo; segundo
o vaticínio destes insígnes
adivinhos tal é o tempo
que se
requer
pata, nas cavernas
subterrâneas daquela cidade marítiffiâ,
se
acumular, arrastada pelas águas, a camada de betume e enxofre
capaz de prodtrzir um novo terramoto. Eu próprio
li este sermão
do Padre
Malagrida que me foi transmitido em Setúbal. Estava
ele munido das três aprovações
requeridas paÍa a sua publicação:
Licença do Santo Ofício,
do
Ordin fuio e do Desembargador do
Paço. LJma destas
licenças
citava as
próprias
palavras que
o
Padre
Malagrida
pronunciou, quando
no dia I de Novembro
de 1755, estando
a ouvir
confissões na nossa igreja
de Santo
Antão, viu
tremer convulsamente as enormes
pedras do templo:
O
meu coração estd firme, ó Deus, o meu coração estd firme
(.s/ 56,8).
Reacções à BuIa Pontifícia
Volto, agora, à Bula Pontif ícia de Reforma da qual o Padre
Lorenzo Ricci nenhum conhecimento teve antes de ser publicada.
Pois os nossos adversários fizeram sobre isto absoluto segredo,
conhecedores como eram de
que
o Geral, se o tivesse sabido ante-
cipadamente, nunca o consentiria i
a,
se
fosse obrigado
por um
poder mais
alto a dar esse consentimento, nunca
admitiria um
Visitador que não fosse da Companhia.
Quando
o Sumo Ponti-
fíce concedeu
que
se flzesse a
Visita,
o Rei declarou logo, com
palavras bem firmes, guo só aceitaria por Visitador um Cardeal
nomeado pela Santa Sé. Apenas
o Geral o
soube, recorreu logo
a Clemente
XIII e ofereceu-lhe um opúsculo, em que lhe demons-
trava que os prejuízos que adviriam desta visita seriam muito
maiores do que as vantagens.
Não faltou quem começasse logo a roer com dentes veneno-
Ano de 1758 sos este relatório oferecido ao Papa. Saíu a lume um novo artigo
Ano de 1758
sos este relatório oferecido
ao Papa.
Saíu a lume um novo artigo
anóniillo, escrito à maneira de carta familiar a um amigo,
num
estilo
tã,o
mordaz
que excedia tudo
quanto
de sarcástico se
publi-
caÍa até então. Nele se amontoavam acusações sobre acusações,
tudo quanto
por
quase dois séculos
os.inimigos da Companhia
tinhani vomitãdo ôontra ela, quer na
Índia,
quer em toãas as
ém, nem sequer
o Geral
,
a qqep- com
veis apresenta
como homem trivial. Ao
oriador oficial da Companhia, descreve-
-o o mesmo autor anóniÍlo,
como um ridículo
forjador
de fábu-
las mentirosas. E assim a todos os mais. Até os
Santos jesuítas
divide em duas classes: os Santos da Companhia, que são pou-
quíssimos, e os Santos no Companhia
que são muitíssimos, porque
tôdos os Jesuítas se f,ngem
Santos
e querem ser tidos por tais.
Por essa mesma
altura, saíu a lume
um opúsculo
com este
not ável título : Resposta da Sagrada Congregação dos Cardeais
oo ofício de 31
de Julho de 1758 opresentado a Sua Santidade pelo
M.R. Geral
da
Companhia de Jesus. Mas, provando-se, pouco
depois,
a sua absol
e a maneira insidiosa como nele
se apresentam os fa
em praça
pública,
baixador
de Portu
dos mais íntimos amigos de Ca
e moveu céus e terra para obter a liberdade do prisioneiro. Mas,
não o conseguiu, apesar das luvas verdadeiramente régias que
prometia ('u).
(")
Parece certo que este, como muitos outros libelos aparecidos por aquele
tempo contra os Jesuítas, se imprimiram em Roma no próprio palácio do embaixa-
dor de Portugal. De facto, Almada, vendo as vantagens que uma tipografia ao seu
dispor lhe ofereceria para a realização dos seus desígnios, contratou, à força de pro-
messas e de dinheiro, um Italiano, chamado Pagliarini, que tinha sido um simples
livreiro, a dirigir no seu próprio palácio uma imprensa clandestina. Começou então
a sair a lume uma multidão de livros sob a falsa origem de Lugano, qve irradiavam
da embaixada. Almada pôs à disposição do impressor uma varanda do seu palácio,
para mais depressa secar as folhas dos livros que ali eram vistas pelas religiosas do
mosteiro de São Lourenço. Estas comunicaram tão estranha exposição às pessoas
que as visitavam, e assim se despertou o alarme. Tornou-se deste modo pública a
verdadeira fonte donde jorrava a enxurrada de libelos que infestavam a cidade de
54 Memorias de um ,lesuita prisioneiro de Pombal Mas venhamos agora ao nosso reformador, o
54
Memorias de um ,lesuita prisioneiro de Pombal
Mas venhamos agora ao nosso reformador, o Cardeal Sal-
danha. Já, o Cardeal de Solis y Cordoyà, Arcebispo de Sevilha,
o aconselhara a que moderasse
um pouco o rigor da sua autori-
dade para com a Companhia que tinha
obrigação de defender,
e se não deixasse influenciar tanto pelos inimigos dela. Pois a
sua sentença condenatória seria uma nódoa contra a Santa Sé.
Vlslta ApostóItca de Saldanha à Companhla
Eis como decorreu a visita apostólica de Saldanha à Com-
u por exigir aos
do Ultramar, os
despesas e receit
ram e rebuscaratrn, effi vão, sem conseguirem descobrir os imensos
tesouros que Sebastião de Carvalho vislnmbrava e
cobiçava.
Não
havia uma casa gue, sobretudo depois do terramoto, não esti-
vesse atolada em dívidas. Os colégios de Coimbra
e do Pará,
que
eram os maiores
segundo com 100
o primeiro
com cerca de 2N religiosos, e o
-
deviam ajudar os que estavam em maiores
-
diflculdades a tentar desembaraçar-se das suas
dívidas. Impôs
ao Provincial a proibição absoluta de fazer qualquer trasferência
dos súbditos de uma casa para outra. Não fez visita canónica a
comunidade
alguma, como a bula pontifícia lhe permitia.
No dia
31 de Julho, ainda pude celebrar pela
última yez,
embora com liberdade limitada, a festa de Santo Inácio. No dia
seguinte,
celebrava-se a de S. Félix, padroeiro da nossa Igreja.
As
primeiras Vésperas são acompanhadas de música, à maneira
do Minho. IJm gaiteiro munido da gaita de foles e um moço ru-
Roma, tais como: Reflexões sobre o Memorial dos lesuítas; Os Lobos desmascarados
pelo P. Dinelli, Dominicano, etc
Mons. Caprara, Governador de Roma, mandou
fazer uma sindicância para descobrir o impressor, e Pagliarini, confessando o crime,
foi condenado às galés, donde saíu passado algum tempo, e se retirou a Nápoles.
Pombal , ào sabê-lo, passou-lhe carta de nobreza, com um alvará de secretário da
Iegação, uma pensão anual de I .200 escudos, e um prémio de 6.000 escudos. Mais
tarde, chamou-o a Lisboa, confiando-lhe a direcção da imprensa real, e, depois de
lhe ter obtido de Clemente XIV um breve de reabilitação, nomeou-o cavaleiro da
Espora de Oiro. (Mémoíres de Pombal, t. II/, p. 27 e f82)
Ano de 1758 fando o tambor. Cada vez que termin ava um salmo entoado por
Ano de 1758
fando o tambor. Cada vez que termin ava um salmo entoado
por
sete clérigos, rompia a gaita com uma rufadela, em suavíssima
sinfonia. Na região do Minho não se concebe uma festa sem este
melodioso concerto. Bstas gaitas de foles sâo tão apreciadas pelo
povo, que quando alguém quer
troçar
de outrem, Ihe atira à cara
este insulto: <<Nem tens um gaiteiro de foles na tua família>>.
No dia
27 de Agosto, faleceu a Rainha
Católica, D. Maria
Bárbara, esposa de Fernando VI, e filha de D. Joâo V. Troaram
a anunciar a sua morte os canhões da fortaleza de
Tuy. Esta cida-
de da Galiza ergue-se nnma colina, frente à nossa residência de
Sanfins, â cerca de um
quarto
de hora de distância. O comandante
daquela pÍaça militar espanhola foi delicado paÍa connosco, des-
pachando a nossa correspondência com o Padre
vedra (cidade situada entre Tuy
e Santiago de
lá, paru Madrid e Roma. Em Portu3al, o correi
confiança. Como testemunho
da grande estima desta Rainha
pela
Companhia, basta recordar
que
em seu testamento legou
212.N0 cruzados
ao Padre Borrotrâ, da CompaUhia
de Jesus,
paÍa
serem aplicados às missões da China
e dã Índia
Oriental.
Atentado contra D. José
Vamos
agoÍa àquela noite fatal e nefasta que frcará para
sempre memorável nos anais da História de Portugal. Recordo
a
lembrartça tristíssima da sacrílega agressão que se diz ter sido
cometi
I
por homens ilustres e insi-
gnes
p
lidade
squecidos do respeito e fide-
sei que o que vou dizer anda
na boca de toda a gente, mas sendo tantas e tão variadas as opi-
niões sobre esta matéria, e tendo sido divulgadas nas línguas de
quase todas as nações, vou descrever em poucas palavras inteira-
mente verdadeiras, euânto a memória me permite, aquilo que
H e ouvi.
Tinham passado apenas um ou dois dias sobre o atentado
e já
o rumor de tão nefando crime chegara à província do Minho,
onde eu me encontrava. EntravÍLm
já, na suspeita famílias ilustrís-
simas e de alta nobreza. Até mesmo às fronteiras da Galiza che-
gara o nome da formosa Isabel, filha do marquês de Távora,
Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal paÍa defender a honra da qual, muitos afirmam,
Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
paÍa
defender a honra da qual, muitos afirmam, se forjou esta
cruel história.
Dizia-se que o rei fora
gravemente atingido por uma arma
o que lhe provocata
uma ferida no
braço. Em nome dele pro-
mulga-se um
decreto conferindo à rainha plenos poderes
paÍa
assumir as rédeas do governo. Por todo o reino se
espalha uma
contínua murmuração, receando-se com tazã"o, que
isto
acabe
em sanguinolenta tragédia.
Passados três meses, nos princípios de Dezembro, por todas
as fortalezas de Portu
soam ( s canhões como sinal cie
alegria
Eal,
pela saúde
restituída ao rei. O mesmo festivo fragor deste troar
de canhão
chegou
io Minho,
frente à
Galiza.
Filipe
de
Néri têm
escolas
de Capu-
chinhos, há um outro de freiras franscicanas. Che garam ordêns
para que em todas as Igrejas
de graças por esta intenção.
se cantasse um Te Deum em acção
Mas, Sebastião José, propositada-
r
qente,
nada comunicou
às igrejas da nossa Companhia. Apesar
disso,
na igreja
da nossa Residê ncia de Sanfins, qrr. é ao mesmo
tempo paróquia, associámo-nos a este hino de acçã,o de graças,
com velas acesas na mão.
Poucos dias depois, cinco infelizes nobres sentiram na sua
pele que os deuses terrestres têm pés de lã e mãos de ferro. O duque
de Aveiro, o marquês de Távora, seus dois filhos e seu genro,
conde
de Atouguia, com
vários outros, são agrilhoados e atfua-
*)
dos paÍa um
cárcere perto de BelÉm.
(N. A.
Diz-se que o du-
que ao ser algemado exclamou: «E assim que se trata um duque
em Portu gal desta maneira tã,o indigna ?»».
(N.4.*) Tomou este nome de Belém por causa do mosteiro dos Eremitas de
S. Jerónimo, dedicado à Virgem Maria com o título de Nossa Senhora do Bom
Parto. O rei D. Manuel f, que o erigiu, jaz sepultado nele. A 13 de Junho de 1,777,
eu mesmo, celebrando missa neste sumptuoso templo, ainda pude ver um pano negro
estendido sobre o lugar da sua sepultura. Também sua esposa, D." Maria, tem ali
o seu mausoléu; tal como D. João III com sua esposa D. Catarinà, o Cardeal-Rei
D. Henrique e D. Afonso VI.
Segundo Plato, esta Ordem dos Jerónimos teve como fundador Pedro Fernando,
que abandonando a corte de D. Pedro, rei de Castela, e levando consigo para a vida
solitária alguns companheiros fundou, pelo ano de 1383, esta ordem, que foi con-
firmada por Gregório XI.
Ano de 1758 A marquesa de Távora, que acompanhata seu marido para Goa como Vice-Rei
Ano de 1758
A marquesa de Távora,
que acompanhata
seu marido para
Goa como Vice-Rei da india, é
entregue
sob prisão às monjas
que seguiam a regra de Santo Agostinho
(N. A.*).
o cocheiro. Felizrrente errou o alvo. Os cúmplices do duque,
como dois demónios encarnados, mesmo a correr apanharam
(N.4. *)
Neste panteão, perto de Lisboa, que se chama, vulgarmente, Con-
vento das Agostinhas Descalças do Grilo, repousam os restos de D. Luísa de Gusmão,
mulher de D. João IV.
58 Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal praça pública a carruagem usada pelo Rei
58
Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
praça pública a carruagem usada pelo Rei naquela infausta noite,
perfurada pelas balas, que não eram de chumbo mas de ferro (,r).
Para que nunhum dos réus pudesse escapar, espalharam-se
guardas por todas as fronteiras do reino, que revistavam minu-
ciosamente todo aquele que tentasse sair do país. Apesar da cons-
tante vigilância
de
dia e de noite,
ainda
conseguiu
evadir-se José
Polica{po
de Azevedo, um dos implicados no atentado ao rei.
(tt) É, certo que o atentado não era contra o Ministro, com o Deutscher
Merkur (Setembro de 1777) parece insinuar. A afirmação de que o Rei usara a cÍrrua-
gem do Conde de Oeiras não tem fundamento. Ele costumava deitar-se às 3 ou
4 da manhã; à meia-noite, o Secretário de Estado ia ter com ele, e dirigiam-se os dois
paÍa uma sala do palácio, sob pretexto de conferenciarem
sobre assuntos de estado.
Na realidade, porém, o objectivo do Rei era furtar-se à atenção ciumenta da Rainha
que nunca o perdia de vista, nem sequer nas caçadas. Quando esta o julgava todo
ocupado no governo do país, escapava-se ele às escondidas para o pátio, onde o
esperava uma carruagem para o levar ao palacete da jovem Condessa de Távora.
Entretanto, o Marquês ia fazendo tempo até o Rei voltar. Naquela noite o Rei voltou
ferido do seu passeio nocturno. O Marquês de Távora foi um dos primeiros a apre-
sentar ao Soberano o seu pesar pelo acidente sofrido.
Encontrou entâo o Secretário de Estado sossegadamente
sentado ao pé da cama;
levou-o à janela para lhe exprimir o espanto que sentia pela indiferença que o Ministro
manifestava perante tâo funesto acontecimento. Ao que o Ministro retorquiu: <«O
Marquês sabe bem como a Rainha é ciumenta; não é prudente se deixe constar que
o Rei foi ferido numa aventura nocturna. Melhor é dizermos que se feriu num braço
por efeito duma queda»>. Mas isto foi apenas um astucioso disfarce de Pombal para
que o Marquês de Távora não desconfiasse da terrível espada de Dâmocles, que tinha
suspensa sobre a cabeça. E assim, os réus desta suposta conjura ficaram-se tranquilos
em suas casas, sem se perturbarem com a movimentação de tropas da província
paÍa Lisboa, sob pretexto de irem ser utilizadas para a reconstrução da cidade. Sabia-
-se, sim, que alguns criminosos, verdadeiros ou supostos, iam ser presos. E de facto,
as famílias acusadas deixaram-se prender com uma indiferença que causou geral
espanto.
Todas estas e outras circunstâncias originaram grandes dúvidas em todos os
que não consideram como palavra santa e infalível todas as sentenças dos tribunais
públicos. Terá sido takez o equívoco de alguém que numa emboscada aguardava
o coche do seu inimigo, e por engano disparou contra o coche do Rei.
O Diário Florentino de 15 de Setembro de 1778 dá assim por terminada a revisão
desta causa: <<Corre aqui em Lisboa o boato de que já está concluída a revisão do
Ano de 1758 Prometiam-se 10.000 cruzados a todo aquele que indicasse o paradeiro do fugitivo:
Ano de 1758
Prometiam-se 10.000 cruzados a todo aquele que indicasse o
paradeiro do fugitivo:
aos portugueses-ou-a qqalquer estrangeiro.
Esquadrinham-se todos os esconderijos de Portu
gal
e pro-
cura-se minuciosamente em todos os lugares por onde pudesse
ter
escapado.
Enviam-se a todas as partes do mundo
sujeitas
ao
rei fldelíssimo, homens muito sagazes
euo,
como cães de caça,
tentam espantar
a fera do seu covil. Até no Brasil caftam sobre
um homem euo, antes tinha sido religioso da Companhia, e a
se chamar Policarpo.
ompanhia em Lisboa
professa
de S.
Roque,
fundada durante o g(
) de Borja, 3.o Geral
da Companhia;
o colégio
de Santo Antão;
o colégio de S. Fran-
cisco Xávier;
a casa do
Noviciado da Cotovia, assim chamada
devido ao nome da colina em que se encontrava situada, que
foi depois colégio
dos Nobres; o seminário irlandês de S. Patrício;
a resiãência de S. Francisco de Borja, Procuradoria
das provín-
cias ultramarinas;
e o Noviciado de vocações
paÍa
as missões
de Goa, Japão e China, vulgarmente chamado de Arroios. Esta
casa
foi
depois cedida a umas
Proibig-se estritamente
lgligiosas.
a todos os
Jesuítas qualquer
saída de
casa;
a miÍI,
porém, ainda
me foi entregue
umá cafia
escrita do colégio de Santo Antão
pelas festas
do
Natal (").
processo do tão falado regicídio, o que S. Majestade já nomeou quatro ministros
para promulgar a sentença. Diz-se que o tiro que feriu a sagrada pessoa do Rei não
foi disparado contra ele, mas sim contra o ajudante de câmara de S. M., que costuma-
va passar de coche por aquele lugar a certas horas da noite. Acrescenta-se que os
Marqueses de Távora e Atouguia não tomaram parte alguma no suposto crime.
Afirma-se ainda que o jovem filho do Duque de Aveiro vai receber de S. M. os vín-
culos e o título de Marquês de Gouveio».
§.4.)
(,t) O Cardeal Saldanha fez-nos intimar a
proibição expressa de sairmos, sob
pena de pecado mortal. Tão rigorosa medida causou geral espanto. O Núncio Accia-
juolo, quando pediu explicações, recebeu a ingénua resposta de que tal atitude para
com os Jesuítas foi tomada com o fim de os defender da indignação do povo, que
de certo assalt arÍa as suas casas paÍa os massacrar impiedosamente, âo saber que
estavam implicados na conspiração da nobÍeza contra a vida do Rei. (Anedd. t. f,
p. 206)
ANO DE 1759 Encarcerados os prlmeiros Jesuítas Venho agora ao mês de Janeiro, cujo primeiro
ANO DE 1759
Encarcerados os prlmeiros Jesuítas
Venho agora ao mês de Janeiro, cujo primeiro dia foi ou-
trora sempre tão alegre. Mas, neste ano de 1759, Janeiro ficarâ
peqpetuarnente de triítíssima memória para as
casas de Portugal.
O dia 12 deste mês, frcará, funestamente assinalado na lembrarLça
de todos, pela fercz sentença lavrada contra seis réus de
sangue
nobilíssimo e cinco outros,
ro Palácio de Nossa Senhora- da
Ajuda de Belém. Este
mesmo dia jamais se apagará na lem-
brança de todos os membros da Assistência Portuguesa que viram
dez dos seus mais insignes membros, insignes pela sua autoridade,
doutrina e piedade, atirados para uma enxovia como criminosos.
Foram eles o Padre João
Henriques, Provincial da Companhia
de Jesus em Portu gal; o Padre
Gabriel Malagrida,
missionário
apostólico; o Padre José Moreira. confessor
do
Rei e da Rai-
nha; o Padre Timóteo de Oliveira, confessor do Príncipe do Brasil
e da Duquesa de Bragança; o Padre Jacinto da Costa, director
espiritual
do
príncipe
D. Pedro; o Padre Francisco Duarte, his-
toriador
da Província
Portuguesa; o Padre Inácio Soares, pro-
fessor de teologia
no Colégio das Artes de
Coimbra; o Padre
João Alexandre, Procurador Geral da Província do Malabar;
o Padre João de Matos, Procurador da Casa Professa; o Padre
José Perdigão, Procurador da
Província Portuguesa.
O dia seguinte, 13 de Janeiro, foi assinalado por um espectá-
culo macabro,
nunca visto em
Portugal
desde o conde D.
Henrique.
Na Praça do
Cais, junto à margem do Tejo, levantou-se o cada-
falso olhando o Palácio Real de Belém; além das tropas de cava-
laria
e infantaria apinhava-se uma multidão imensa
de gente.
O primeiro
dos
condenados a chegar foi
a marquesa
Leonor
de T áxora.
Ao aproximar-se do cadafalso levantou os olhos ao
céu, soltando um gemido.
Diz-se
que
ofereceu
ao algoz
os seus
brincos, acrescentando
que bem sabia que ele nenhuma culpa
Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal tinha da sua desgraça; depois exortou-o a fazer
Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
tinha da sua desgraça; depois exortou-o a fazer ((com
limpeza>>
o seu trabalho. Com admir ável
fofialezq
ofereceu à espáda a
cabeça, que foi decep ada de um golpe.
À
marquesa seguem-se
seus
fllhos, José Maria e Luís Bernardo; seu genro,
conde de, Atou-
guia;
Brás José Romeiro, cabo de esqu riira;
Manuel Álvares
Ferreira e João Miguel, ambos criados do duque de Aveiro. José
Maria de Távora, ainda na flor dos
seus
24 aros, ajudante de campo
de seu pai, guando Governador
da Pro
ia da Beira,
protestôu
solenemente diante de Deus,
Supremo Universal diante de
Quem vai comparecer para Lhe dar
con
que ele não tem cons-
ciência nem da mais leve
culpa
cometida contra o rei. Estes seis
desgraçados foram barbaramente estrangulados e rodados.
Ço*pareceram,em seguida, o marquês Francisco de Táxora
e
o duque de Aveiro,
tidos como os principais conspiradores.
Com
horrorosa crueldade quebraram-lhes as mãos, os braços,
os pés e as pernas. Diz-se que o
duque exclamou: ««oh! que morte
horrenda!» Esta carniflcina prolongou-se pelo espaço de oito
horas, desde as 7 horas da manhã, até às 3 horas da tarde. As duas
últimas vítimas desta macabra
tragédia foram os criados do duque
de Aveiro, A:rtónio Álvares Ferieira e
José Policarpo
Azeveão,
que tinham alvejado o rei.
9
primeiro foi amarrado a uma coluna
e queimado
vivo;
o segundo, que conseguiu fugir
a tempo,
foi
queimado em efígie.
Finalmente, pegaram
fogo ao cadafalso
com os cadáveres das desgraçadas vítimas desta
terrível «justica>>)
e as chamas tudo
devoratam. As cinzas foram lançadas ao Tejo.
Tal foi o desenlace
desta horrorosa fiagédia, nunca até então
vista neste reino. Houve
um mouro, testemunha deste trágico
acontecimento que
gritou:
<<Viva el-Rei,
morram os velhacos».
No dia seguinte, apareceu morto no
meio da pÍaça. Dizem que
Carvalho e Melo (embora custe, é
forçoso
tizê-lo)
do
seu palácio
em Belém,
contíguo ao palácio real, presenciou
pela janela
esta
carnificina, enquanto
tomava o
almoço. Nem receou
que
a
execução
de cidadãos tão nobres viesse a afiaft o ódio sobre si
e a sua
posteridade: pois, foi sempre próprio do invejoso
vanglo-
riar-se dos seus actos mais ignóbeis como se de uma gÍande faça-
nha se tratasse.
Passados poucos dias, saíu a público a sentença que con-
tinha mais páginas do que razões sólidas. Da marquesa (a quem
se nomeia só por Dona Leonor) afirma-se que era uma mulher
inchada de orgulho. Diz-se que ela teria um dia afirmado: <<Em
Portu gal, pouco caso se faz dos carvalhos»». Os carvalhos, árvores
A,no de 1759 63 de madeira muito dura e de casca áspera, encontram-se nesta terra
A,no de 1759
63
de madeira muito dura e de casca áspera, encontram-se nesta
terra mesmo em terrenos áridos, entre seixos e solo rochoso. Este
motejo sarcástico aludia ao Primeiro-Ministro, Carvalho e Melo.
A
marquesa teve contra si mais este crime: atreveu-se diante de
muitas pessoas
a qurmurar
contra a política da corte. Prova-se
mais, prova-se
mais
assim começavam todos os parágrafos
-
de que se
compunha esta causa judicial.
Conhecida no estrangeiro
esta sentença e examinada
em pormenor, parágrafo por pará-
grafo,
foi
considerada
pelos
mais eruditos
jurisconsultos
como
carecida de qualquer fundamento jurídico.
Neste arbitrário e
intricado julgamento
estão
envolvidas
tantas contradições que
*).
dificilmentê
ú podem destrinçü (N. A.
Acumulam-se tormentos sobre tormentos; carrascos cruéis
ÍLmontoam crueldade sobre crueldade,
usando maças
de ferro
e toda a espécie de torturas. Sebastião de Carvalho procurou
convencer-se de
que
com este sangue nobilíssimo, tã,o pródiga
e cruelmente derramado, não só não se contaminaria, mas até
ficaria honrado. Quem poderia persuadir-se de tal coisa ? Só ele!
(N.4.*) Um certo londrino começa deste modo a apologia das liberdades
no seu país. <<Havia um francês tão ufano da sua própria páttia, que apenas se levanta-
va, caía de joelhos e de mãos postas dava infinitas graças a Deus por ser francês.
Muito mais razão tenho eu para me alegrar por ser inglês, pois gu€r por ter nascido
na Inglaterra, gozo entre os homens de plena liberdade e posso viver como quero.
E se comparo a minha feliz sorte com a triste condição dos que vivem oprimidos
pela prepotência dos Estados de outras nações, não tenho palavras para agradecer
ao Deus clementíssimo de quem procede todo o bem. Sobretudo, se lanço os olhos
sobre o desafortunado reino de Portugal, onde só se vêem cenas terríveis, cruéis e
tirânicas e por toda a parte a tristíssima imagem da morte; onde as mulheres são
obrigadas a sofrer as consequências dos erros dos maridos, se é que estes os come-
teram; onde os filhos têm de pagar pelas culpas dos pais; onde os argumentos alega-
dos numa sentença são tão fortes, que no nosso reino da Grâ-Bretanha nem sufi-
cientes seriam para a condenação à morte de um homem da mais baixa ralé. Mas,
não assim em Portugal, onde tais argumentos bastam para condenar aos mais atrozes
suplícios as famílias principais, mais ilustres e antigas; onde se podem presenciar
condes, marqueses, duques, os mais altos cortesãos do paço real, vice-reis da Índia,
expostos ao infame tormento da roda, nas mãos violentas dos carrascos, que os ator-
mentam com barras de ferro, sujeitos às mais cruéis torturas e a morrer num mar de
sangue, Estremece-me a pena de horror e congela-se-me o coração»».
Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal Conta-se gue, quando um dia apresentaram a Luís
Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
Conta-se gue, quando um dia
apresentaram
a
Luís XII, rei
das Gálias, uma longa lista de inimigos seus paÍa
o levarem a
vingar-se
de todos
eles,
em yez de os
condeflai,
apôs sobre eles
uma
cÍuz, indicando por este acto que a todos perdoava de cora-
ção
as injúrias recebidas. Carualho, porém, gue
deveria recordar
ao
rei ofendido a lembrança da piedade de Luís
XII, da clemência
de Augusto,
da
benignidade
de César, não
teve vergonha de supli-
car de
joelhos, insistente e veementemente ao
rei,
gue
desse exem-
plo d.e extrema severidade para com os réus e lhes aumentasse
o mais possível as penas. Livra-te de perdoar, que esta voz não
é de um homem, nem é para um homem
assim dissera Túlio
-
Cícero.
Que
o rei não
perdoe, assim clamou, não um pagã,o, mas
um cristão; queime-se a fogo lento, derrame-se óleo, ateie-se
a fogueira.
Nem os vizinhos espanhóis puderam abster-se de condenar
à nação Lusitana um acto tã,o bárbaro.
em que se aludia à oitava da Epifania
Li
do
vários poemas satíricos
Senhor, o dia desta tã,o
cruel execução. O processo de condenação foi
precipitado afir-
mavam: «quando aun el caso estava nudo y crudo>». O processo
era um atabalhoado de contradições que estavam por esclarecer.
Os réus proclamavam-se inocentes.
Muitas coisas se poderiam ainda acrescentar a esta mons-
truosa sentença, mas são tã,o incríveis que o mais difícil é acredi-
tar nelas. Por exemplo, que os conjurados, nobres e com grandes
fortunas, tenham remunerado
por suas próprias mãos os
agres-
sores do rei; a saber: um deu seis moedas de oiro, o segundo deu
oito e o terceiro deu várias.
pode persuadir-se que homens tã,o prudentes caíssem
Quem
numa tal
loucura que fossem manifestar a cinco criados uma
coisa que eta tão secreta ?
O mais incompreensível, porém, é gue de tantos que estavam
conhecedores deste crime,
ro espaço de três meses e mais, só um
fugiu. Grande é a força da consciência, duplamente grande, que
leva os que nenhum mal fizeram a nada temer, e os que pecaram
a temer sempre
o castigo
que têm diante dos olhos. O marquês
de Távora, ao ouvir que o seu filho tinha sido preso por esta
iníqua
agressão, começou
logo a agir.
O duque
no seu
palácio
à
beira Tejo, é arrancado da cama
ainda de
noite: diz-se que ainda desembainhou a espada paru
se defender.
A sentença afirmava que os réus se confessaram culpados:
Ano de 1759 com Íazã,o se pode perguntar se faeram tal declaraçã,o espontâ- neamente ou
Ano de 1759
com Íazã,o se pode perguntar se faeram tal declaraçã,o espontâ-
neamente ou à
força
de torturas. Conta-se que puseram na cabeça
do duque uma
coroa de ferro com espinhos agudos
e que lha
caffegara:m,
com suma violência. E isto feito
pelo
próprio
Carvalho
e Melo
ou, pelo menos, tà sua presença. Nem esta sentença, nem
o conjunto
dos factos conhecidos, que à mesma causa dizem res-
peito
são coerentes. Na sentença
afirnta-se
que
os réus confessa-
ram a sua culpa; dos factos
deduz-se o contrário. E que
dizet
dos juízes escolhidos pelo Presidente do Conselho, Cawalho e
Melo, que foram todos obrigados, quisessem ou não, a subscrever
esta severíssima sentença? Houve um
tendendo
paÍa
eue,
um
parecer mais benigno, teve a coragem de aflrmar que tal confissão,
arrancada por
meio da tortura
e depois negada, não tinha qual-
quer valor
jurídico. Pois este juiz
foi
obrigado
a retirar-se para
uma quinta que possuía La Beira, e, com muita honra paÍa
ele,
demitido da magistratura.
Note-se que do Conselho dos Condes
ou Marqueses, nenhum foi convidado a
participar
neste julga-
mento,
como
eÍa uso durante o reinado de D. João V.
Nem bastou a Carvalho descarregar a fúria vingativa sobre
homens nobres e notáveis, pela sua toga ou pelos seus feitos mili-
tares,
atormentando-os com o
ferro,
a roda e o f,ogo. Era preciso,
como ele dizia, arraÍtcat de raiz tão grande
Além de con-
çeste»».
fiscar-lhes os bens e de manohar com a ignomínia todos os seus
descendentes, para apagü a memória destas famílias, mandou
destruir todos os seus escudos onde quer que se encontrassem.
Nem os palácios
foram
poupados:
os monumentos erigidos
por
benfeitorês de
sangue ilústríssimo, os escudos de família e os
epitáflos foram queimados e destruídos.
Ouvi da booa de um irmão leigo da ordem de S. Domingos
contar-me com náusea a maneira desumana como, na sua Igreja
dos dominicanos de Viana,
mármore e oomo usaram
so atiraram contra os
sarcófagos de
instrumentos de ferro em brasa pata
*).
destruir os ossos de cadáveres da família dos Távoras (N. A.
Os palácios
dos nobres tão cruelmente assassinados foram
arrasados até ao chão e o terreno foi salgado. A respeito de um
(N.4. *)
Viana do Castelo é uma cidade na foz do rio Lima, distante cerca
de 4 léguas da nossa residência de Sanfins, outrora sede do governador da província
do Minho.
5
Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal destes palácios completamente destruído e arrasado, pertencente à
Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
destes palácios
completamente destruído e arrasado, pertencente
à família Távora, perto
da Lapa, tive conhecimento directo por
*)
catta do Padre Kaulen. (N. A.
Mas, Carvalho e Melo ainda não podia descansar. Todos
os cárceres de Lisboa, Belém e fortalezas vizinhas estavam reple-
tos com enorme multidão de reclusos. Entre eles o filho do duque
de Aveiro,
marquês
de Gouveia; dois
irmãos do marquês de
Távora, o marquês de Alorna e muitos outros.
mava o sanguinário ministro escolher vítimas
Entre estes, tta-
paÍa
mais outra
trágtrca cena. Tentou induzir o ânimo do rei a um novo acto de
«justiça», ou melhor, a uma nova crueldade. Há certos homens,
semelhantes aos leões, que começando uma vez a lamber sangue,
se tornarn ainda mais sanguinários. Mas, o rei resistiu-lhe, «<não
quero mais sangue»,
disse. Este sanguinolento impulsionador de
novas crueldades
parecia só desejar conquistar o poder trans-
pondo uma montanha de cadáv( res.
Parece certo
gue
o duque de Aveiro tramou esta insídia não
contra o monaÍca, mas contra o seu camareiro, António Teixeira,
e numa das visitas nocturnas ao conde de quem o dugue recebera
grave ofensa. Este, tendo instado com o rei para que lhe vingasse
o ultraje
recebido, e não obtendo dele qualquer satisfaÇão, ter-
-lhe-ia
dito:^r:!á qu9_V.
Majestade
não me quer
vingar a injúria
que me foi feita, então eu mesmo me vingarei»».
A
sege que o rei
usou naquela noite não era dele, mas de Teixeira. Muitas outras
coisas relatam homens muito dignos de fé sobre este intrinca-
díssimo caso, não serei eu árbitro
neste tão difícit conflito.
Jesuítas incrtminados como lnstlgadores do atentado
Carvalho
e Melo,
aproveitando uma ocasião tão
oportuna
paÍa mais acirrar o ódio dos portugueses e dos estrangeiros con-
tta os Jesuítas, incluíu na sentença, que procurou tornar conheci-
da por toda a parte, os nomes de quatro padres de diferentes pro-
víncias, como se estes tivessem sido os instigadores ou cúmplices
(N.4. *)
A Lapa, onde houve uma residência da nossa Companhia com o
santuário da imagem milagrosa de Nossa Senhora da Lapa, fica situada não longe
de Coimbra, cidade da Província da Beira.
Ano de 1759 do atentado do rei. Interceptou uma cafia do Padre João Henri- ques,
Ano de 1759
do
atentado do rei. Interceptou uma cafia do Padre João Henri-
ques,
aos Jesuítas
de
R
dos Jesuítas
deste
,
nos nossos
tempos
tão tormentosos, embora sejam ainda estimados
por
muitos
nobres da corte; e pede as fervorosas orações dos seus
irmãos.
O instigador dos nossos adversários nada poderia descobrir
de condenável nesta carta escrita por um homent tão bondoso:
rando
nela, procura afiancat trevas
sol e
e, a mesma piedade, a mesma
eturpa e transforÍna
em vício e
ou-se oraçõ
dncial
e
, decla-
arrogância fizesse contra
rando que eles estão tão cheios de
m num
súbito abismo de baixeza, como se se
palavra
de Ben-Sirac: <«Há quem se humilhe
malici
com o
coração cheio de dolo»»
(Ecli 19,23).
O Padre
Malagrida,
a quem Carvalho odiava com ódio vipe-
rino, não pôde
fi.car
esquecido. D." Leonor de Távora tinha-o
por homem santo e penitente. Ela, com seu marido Francisco
de Assis, frzeru com este padre os exercícios espirituais, j á depois
de ele ter sido proscrito para Setúbal. Tal crime não poderia ser
imputado a um homem imprudente,
nem a um criminoso, a não
ser que fosse doido varrido;
isto porém, atribuíu-o Cawalho a
este homem honestíssimo e perfeitamente são. Seria impossível
acreditar ou sequer suspeitar qualquer demência no Padre Mala-
grida. Ouvi um religioso de um mosteiro vizinho da nossa resi-
dência afirmar-me que tinha por um Jesuíta são, sábio e santo
ao Padre Malagrida, a quem conhecera muito bem no tempo
*).
em que vivera no Maranhão (N. A.
Os outros dois atingidos
por
esta
sentença eram os Padres
João Alexandre e João de Matos. E qual
foi
o crime que lhes
imputaram?
O
de visitarem
o duque de
Aveiro, de quem eram
amigos.
O
í
no
procedimento do homem
recto.
incluíu
quatro
Jesuítas,
mas
muitos Esta
tinha
e facto, acrescenta que o duque
*)
(N.A.
Este convento de Capuchos,
situado no monte
que
se chama por
antonomásia o Mosteiro, fora construído já no tempo do seráfico S. Francisco.
Memórias de um Jesuíta prisioneÍro de Pombal Mas, vejamos agoÍa os factos: O Padre João
Memórias de um Jesuíta prisioneÍro de Pombal
Mas,
vejamos agoÍa os factos: O Padre João de Pina, pro-
curador da província
lusitana, que ao tempo residia em Santo
nha ido apenas uma
as para assistir a um
se me não engano,
um certo parente dos marqueses de Marialva, pelo qual fora con-
sabido que o duque não simpatizava
rvalho, porém, esforçou-se por demons-
o duque ao colégio os desentendimentos
tinham
acabado. Argumento
que
prova
demais, não
prova
nada.
Dia vfuá, em que resplandeceú à luz do sol a inocência dos Jesuí-
tas e a maldade dos Cawalhos.
Invadtda a residência de Sanflns
Finalmente, altas horas,
ro dia
15 de Março, cercaram a
residência
de Sanfins aproximando-se
por
Apenas nascido o sol, tocam à porta: abre-se
diferentes atalhos.
a portaria. O oficial
do rei com certo receio entra com os militares: é que ouviru dizet
que vivia ali um célebre estratego militar
na América. Temiam aqueles heróis, mais t
que
houvesse fossos ocultos, subterrâneos,
rastilhos de pólvora prestes
a rebentar. Do rés-do-chão sobem
(N.4. *)
Caminha é um forte junto aos rios Minho e Coura, gue fica a 314 de
hora de caminho da nossa casa.
Ano de 1759 69 ao andar superior: perscrutam diligentemente todos os recantos da casa em
Ano de 1759
69
ao andar superior: perscrutam diligentemente todos os recantos
da casa em busca de
armas,
bacamartes, espingardas, e qualquer
outra
espécie
de armas.pÍontas
pata
descarregar.
Julgavam que
iam enconttar uma multiclão de armamentos. Correra
o boato
de que todos os lugares estavam repletos com tais instrumentos
béliôos e acreditavalse nisto. Mas o pânico desvaneceu-se.
Exigem
então ao Superior que
entregue
todo o dinheiro. Este era o prin-
cipal fim de-tão tuibulenta Íisita: todos os bens foram conftsca,-
dos
('r).
Novas prlsões
Cinco semanas e quatro dias após a prisão dos primeiros
dez companheiros
Jesuítâsr.
logo
os procuradores das missões
ultramarinas
com os seus irmãos coadjutores da residência de
S. Francisco de Borja, em Lisboa, foram encarcerados. Os leigos
(t') As outras casas da Companhia em Portugal, em número de 44, foram
sujeitas às mesmas rigorosas medidas. Os seus bens foram todos confiscados.
Eis alguns pormenores narrados em Aneddoti.
Os Padres foram todos confinados nas suas próprias residências, fixando-se
uma pensão equivalente a doze soldos franceses para a subsistência de cada um;
todas as provisões alimentares que havia em casa foram vendidas em leilão. A guarda
rendia-se todos os dias. Cada soldado estava munido de 12 cafiuxos. Numa das
casas de Lisboa, o jantar que tinha sido preparado para a comunidade distribuíu-se
pelos soldados. Noutra yez, em vez de servirem a wia venderam-na à gente de fora.
Em todas elas espiolharam os cantos e recantos da casa, abrindo até os túmulos à
procura dos tesoiros. Em Elvas nem se permitiu aos Padres celebrar Missa senão
com dois soldados de cada lado do altar, de baioneta calada. Um dia um dos Padres
ji
dirigia-se para uma capela da igrej a
revestido dos paramentos litúrgicos, quando
um soldado o detém apontando-lhe a baioneta ao peito para lhe dizer que não podia
celebrar naquele altar. No Porto, um oficial obrigou o sacristão a abrir o sacrário,
e a esvaziat o cibório para se apoderar dele, e o pesar na balança dum ourives sobre
o próprio altar. Em Coimbra foi proibida a distribuição que costumava fazpr-se
pelos pobres daquilo que sobrava das refeições. Julgando estes que isto fosse devido
à miséria que passariam os Padres, fizetamuma colecta pata os socorrer, como grati-
dão por tanto tempo que eles os tinham sustentado. Mas em vão, pois o oficial de
guarda nunca permitiu que lhes chegasse às mãos. (Anedd, t. f, p.263 e sgs.)
70 Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal foram encerrados no castelo da cidade de
70
Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
foram encerrados no castelo da cidade de Lisboa, outrora cons-
truído pelos s
em 1147. No
da residência
Províncias
do
bém um segundo procurador enviado de Goa paÍa ir a Roma,
mas não foi,
porque não obteve
licença de Carvalho e Melo. E
ainda um novo
procurador
do Brasil,
porque
a nossa Província
do Brasil, como eta demasiado numerosa, se dividiu em duas:
a do norte e a do sul.
Começa o catlvelro do Padre Eckart
um trabalho que ele devia fazq: uma lista com o título de todos
os livros e seus autores. Não erarn muitos
apenas cerca de 500.
-
Como ele me fazia
freguentes
visitas, numa delas perguntou-me:
<«Que tem el Rei contra os padres estrangeiros ?»
Eckart levado com outros Jesuítas
No dia I de
Março,
chegaram seis dos nossos, quatro padres
e dois irmãos, vindos
da
residência vizinha, chaúada S. João
('o) O texto de Isaías é este: <«Multiplicastes a alegria, aumentastes o seu jú-
bilo» (Is 9,3).
Ano de 1759 7l Seguiam adiante, entre duas filas de soldados, os meus dez Lima,
Ano de 1759
7l
Seguiam adiante, entre duas filas de soldados, os meus dez
Lima, já nos
aguardava imensa gente vinda de todos aqueles
*).
arredores. (N. A.
Ao chegarmos à hospedaria onde deveríamos passar a noite,
a multidão apinhada ao redor de nós era tanta, que se os soldados
com berros e
pancada a não afastassem, nem conseguiríamos
apear-nos das mulas. Eu ceei e dormi num quarto separado dos
meus irmãos. Como estávamos debaixo de telhas, para que nin-
guém pudesse voar por algum buraco que nelas pudesse haver,
dormimos naquela noite entre dois soldados.
Chegam a Braga
No dia
seguinte, ao entardecer, fomos apresentados em
espectáculo à
grande cidade de Braga. Houve
ao ver-nos
.quem
assim presos exclamasse: <«Parecem
mesmo Cristo
no meio dos
**).
algozes»» OI. A.
(N.A. *) O rio Lima, sobre o qual foi lançada esta ponte, nasce na Galiza e
desagua no Atlântico. Há historiadores espanhóis que tentam provar que o Letes
- outrora os poetas não o sabiam loc,alizar, -
é este rio, que em espanhol se chama
Limia ou Lima. Daqui yem que, quando os mestre-escolas perguntam aos alunos as
suas lições e eles não as sabem de cor, costumam dizer-lhes: tu
bebeste do rio
Irtes ?
(N.4. * *) Bracara Augusta, Braga, capital da província de Entre-Douro-e-
-Minho, é uma cidade antiquíssima, da qual alguns povos da Galecia (Galiza) toma-
rarn o nome de Brácaros @racarenses). Era um dos sete tribunais romanos da penín-
sula Hispânica. <«Fué Chancellería de Romanos (que llamavan ellos Convento) a
donde conveniam los comarcanos a recibir justicia»» (Lexicon Ecclesiasticum
Latino-
-Hispanicum, auct. Didacus Ximenez Arias O.P. Alcantarensis, Pampelonae, 1722).
Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal Por ordem de Pombal, todos os Jesuítas clas
Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
Por ordem de Pombal,
todos os Jesuítas clas residências
pró-
ximas do Colégio foram presos como nós e fiazidos paÍa a cidade
escolta
muros
algum
faltou
para
que eu não ficasse esmagado pela multidã,o. Foi um sargento
que
numa sp,la qEe servia de farmá-
cia,
armados. Estava
também o
Des
do Porto, revestido de negra
toga de seda
roçagante
até aos
tornozelos,
sustentando na mão
a longa vara da justiça. Mediu-rro dos pés à cabeça, e segredou
ao Reitor do Coléeio: ««Eu não
posso
iulgar
o interior das pessoas,
mas a caÍa deste Padre diz-me que
ele está inocente»).
Permaneci nesta farmácia até 12 de Março. A falta de saúde
3'H:
dos
iona-
vam as aulas da 2.^
classe de gtamáttica, que passou a ser a minha
prisão. LIm outro
sacerdote português, meu companheiro no
Patá, tendo ficado preso
na aula de
literatura,
sofreu tão intensa
comoção, que caíu doente e foi preciso sangrá-lo por mais de
uma vez.
No mesmo dia 12
de Março, foram presos três Jesuítas do
colégio do Porto, uffi dos quais
o Padre- Francisco de Toledo,
atrás mencionado,
tinha sido
euo
expulso dois anos antes do
Maranhão por ordem
de Sebastião Jósé
de Carvalho. Cantara
ele, nessa madru gada, a Missa solene de S. Francisco Xavier,
p9r
o último dia da Novena da
GràÇà, para na tarde do mesmo
ser
dia
ir
dar com os ossos na cadeia.
alva do dia
edreiros
p
o
Levantam a
de aula
janelas
três
the
dar
o
um cárcere,
las uma
os utensílios da sala flcaram submersos sob densa camada de pó
e cascalho.
Ano de 1759 No dia 26 de Abril, um vivíssimo clarão de nuvens em chama
Ano de 1759
No dia 26 de Abril, um vivíssimo clarão de nuvens em chama
penetrou
de repente através do
pequeno
dindo
as trevas da minha prisão. IJm
orifício da janelq sacu-
fragor terrível, seme-
lhante ao estoirar dum canhão potente,
veio
ensurdecer-me os
ouvidos. O
fulgor de um raio gue incendiou de luz a torre da
igreja,
perto da
minha
cadeia de prisioneiro, irradiava em todas
as
direcções. Na torre,
antjOuíssima. relíqrria du_
_?rquitectura
-
mourisca, há
uma capelinha da Santíssima Yirgem Mãe de
Deus,
que é vista da praça por
todos os transeuntes, e que pelo
lugar
que
ocupa
tem o
título
de Nossa Senhora da Torre. Algumas
alfaias sagradas ficaram marcadas pelos efeitos deste extraordi-
nário raio e as velas do altar cobertas de
fuligem. O chumbo que
ligava entre si os polígonos
de vidro do vitral da
capelinha der-
reteu-se. Dois dos
nossos,
uÍn
situado
perto
da
janela
e o outro
junto da mesa, ficaram a tremer de susto com o cheiro sufocante
a enxofre que se sentia no ar. Celebrava a cidade a festa de S.
Pedro de Rates, o primeiro Bispo de Braga.
O rei, ou melhor, Cawalho e Melo, continuou
a descarregar
a bílis principalmente
sobre
os Padres estrangeiros. Isto
é tanto
mais de admirar,
se nos lembrarÍnos que nas veias de D. José
circulaya sangue germânico, pois sua mãe era austríaca; e sua
avó
paterna,
Maria Sofia, era filha de Filipe Guilherme, eleitor
palatino
do
Reno. Quanto a Sebastião José casara com a con-
dessa
de Daun, effi atenção
à
quat a Rainha viúva
o promovera.
A
perseguição
continua. No dia 30
de Abril,
chegam de
Lisboa,
expulsos do Brasil, o Padre João Brener, de Colónia,
da Província do Baixo Reno, com mais 9 Padres -
{
italianos,
4 ingleses
e
l
alemão.
Os
soldados de sentinela
neste colégio transformado em
cadeia renovam em mim a tristíssima lembrança da ffagédia de
13 de Janeiro, mostrando-me a horrível cena em gravura de cobre
com cores vivas. O duque de Aveiro jazia, vestido de capa ver-
melha, sem cabeleira, com os braços e pés estirados e amarrados
à roda da ignomínia; via-se a marquesa de Távora com a cabeça
decep
ada do tronco a escorrer
sangue, que parecia fresco, o a longa
cabeleira, frisada à maneira das damas portuguesas, a flutuar.
Que triste espectáculo para a humana vaidade! Que cruel é a
roda inconstante da fortuna! Mostrava-se a cadeirinha que trans-
portou
os condenados um após outro. Viam-se os sacerdotes
âpresentando a imagem de eristo crucificado, a confortar os
sentenciados que lutavam com a morte. Eram presbíteros secu-
Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal lares da missão de S. Vicente de Paulo.
Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
lares da missão de S. Vicente de Paulo. Ardiam os corpos dagueles
infelizes com os algozes sempre a alimentar o fogo.
Morte do Padre José Morelra
Mas, voltemos a uma cena menos téttica, à 6 de Junho, aniver-
sário do rei, em que Carvalho e Melo foi honrado com três sucu-
Ientos benefícios: a comenda dos Cavaleiros da Ordem de
Cristo,
o título de Conde de Oeiras e o título de Benemérito de todo o
reino de Portu gaL Por este tempo, mais ou menos
,
caíu mortal-
mente doente o Padre José Moreira, que tinha sido
confessor de
el-Rei. Estava preso no cárcere de Belém conhecido por
Páteo
*).
dos Bichos, gue ficara vago depois do suplício dos nobres
(N.A.
Antes de receber o sagrado viático diante da Hóstia Consa grada,
que nobres e vários oficiais acompanharam com velas acesas, o
moribundo protestou solenemente que nem ele, nem nenhum
dos
padres
da
Companhia
era réu deste
crime sacrílego, que con-
fia todo o direito lhes estava a ser imputado.
Convém recordar que o Padre
José Moreira foi o Padre a
quem Sebastião José pediu que intercedesse
por
ele junto do rei:
isto fez ele, obtendo-lhe deste modo o favor do rei que antes lhe
fora negado. E, assim, este homem ainda pouoo conhecido, sem
nenhuma outra
recomendação, conseguiu obter o governo supre-
mo de Primeiro Ministro.
Quanta
ingratidão
naquele coração
felino! Que depressa se esqueceu dos benefícios recebidos! Isto
o pressentira
um
governador da Baía de Todos os Santos ou
de São
Salvador. Ao
saber que o Padre Moreira recomendara
Sebastião de Cawalho a el-Rei,
logo comentou: «Há-de lhe pagar
com coices»». E foi realmente com coices
que
ele feriu o seu ben-
feitor, expulsando-o do palácio real, e atirando com ele para
uma
masmorra,
deixando morrer nas trevas aquele que o elevara
à luz da
glória (.).
(N.4. *)
É que não longe dali estavam as jaulas dos leões, das panteras e dos
tigres. (")
O Padre Moreira deixou-se enganar pelas aparências, porque nessa altura
Carvalho fazia tudo por esconder os seus verdadeiros sentimentos. Quem o visse
ou ouvisse, pensaria que os Jesuítas não tinham melhor amigo. Chegou até a vestir
o seu segundo filho com a batina da Companhia; e, depois de assim o ter apresentado
Ano de 1759 75 Extgênclas de Canralho e MeIo Junto da Santa Sé Mas o
Ano de 1759
75
Extgênclas de Canralho e MeIo
Junto da Santa Sé
Mas o ministro não ficaria ainda satisfeito com ver morrer
placidamente as suas vítimas na triste escuridão duma enxovia.
Queria
vê-las a contorcer-se em angústias de agonia no cadafalso,
sob
os golpes da justiça. Em n
cartas ao Papa
reclamando arrogantemente co
sobre
todo
o
clero
para
julgar eI
riminais, e coÍr-
denar
que fossem considerados culpados de
crime
E
para dar mais força à sua solicitação
invoca
o exemplo de dois Papas
igual poder
Maje
a dois antecessores de Sua
. Sebastião.
q
Roma, conhecedora dos
males'
vir à
Igreja
de Deus,
cia, não nega em
absoluto
que. não
outrora,
algumas
vezes, aos rels
e, nesses casos, a
Santa
Sé nomeou dois juízes eclesiásticos, embora
pennitisse
que
com estes colaborassem assessores do rei. Isto, porém, só por
crimes excepcionais como os de
sedição manifesta, fiaição ou
maquinação contra a
pessoa do rei.
Tal
resposta
irritou o Primeiro-Ministro. Amontoa cartas
sobre cartas,
insiste teimosamente junto do
Papa. Ameaça.
Com
grande escândalo do mundo cristão, proclama publicamente a
ao monaÍca, levou-o ao P. Moreira, dizendo que entregava aos seus cuidados um
<<Apostolozinho»». Aludia ao costume português do seu tempo de designar por <«após-
tolos»» os Jesuítas, costume que vinha já do tempo em que S. Francisco Xavier passara
por Lisboa, de caminho paÍa a Índia. O próprio futuro Marquês quando vinha visitar
os Padres, anunciava-se às vezes com o cognome de <«Iesuítico»». Mas a fina perspi-
cícia da Companhia não foi capaz deadivinhar todo o verdadeiro significado da-
quele gesto.
A D. João V, porém, Carvalho com toda a habilidade e prodigiosa flexibilida-
de do seu carácter, nunca conseguiu iludi-lo. IJm dia em que o indigitavam âo rlo-
narca para Ministro, ele retorquiu: <<nem me faleis em tal homem. Não o conheceis.
Não quero colocar o meu Reino sobre brasas, deixando-o oÍn tais mãos»). Só os
Jesuítas, tidos por finos e astutos, se deixaram enganar por este hipócrita.
Do Padre Moreira dizia o mesmo monarca: «<É um santo e sábio religioso»»
(Mém. de Pombal, t, I, pp. 17 e 21)
Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal Clemente XIII e muitos dos seus Cardeais, como
Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
Clemente XIII e muitos dos seus Cardeais, como cúmplices e
protectores dos Jesuítas rebeldes, e conspiradores contra a vida
do rei. E, mais grave ainda,
o
embaixador de Portugal, Francisco
de Almada e Mendonça
("),
num encontro com ministros de
outros países, queixa-se abefiamente de que o Santíssimo Padre
<<declara guerra cruenta contra a Majestade Fidelíssima do meu
Clementíssimo Amo, sem motivo algum, o não ser o de apoi,ar os
Jesuítos»>. Nova catta para Roma, effi que se solicita que todos os
assuntos de
Portu Eal, em vez de se remeterem ao Cardeal Torri-
giani,
Secret fuio de
Estado,
sejam
enviados ao Cardeal Cavalchini,
que
é homem de insuspeita integridade, ainda não corrompido
pelos princípios dos Jesuítas.
Impõe ainda a Almada que
peça uma audiência
privada
à
cúria rômana, exigindo
que este ãssunto do rei seja sõ tratado
directamente
com o Papa: significava isto extorquir do Pontíflce
a licença paÍa sujeitar os Jesuítas
mais culpados
à pena
capital,
os menos
culpados à
extradição
paÍa
oq cárceres de Mazagã,o
(fortaleza poriuguesa em Marrocos,
na África),
e os ainda nao
contaminados
pelas
doutrinas maquiavélicas, isto é, ignorantes
dos segredos da
Comp anhia, ao exílio em Roma.
Almada usou como patronos desta iníqua causa, os Cardeais
Cavalchini e Corsini, este protector da Coroa Portuguesa.
Aconteceu que o embaixador de Portugal foi, certo dia,
(")
A respeito deste Ministro Plenipotenciârio, primo de Pombal, Mémoires
de Pombal (t.IV, p. 177) narra-nos pormenores curiosos. O seu Conselho era cons-
tituído por um só homem -
Padre António Rodrigues, Frade Menor da Obser-
vância, que tinha sido expulso de Lisboa como falsário. Era este homem que redigia
todos os despachos e ofícios ministeriais, recebia as instruções, ditava as respostas,
numa palavra, exercia todas as funções de Ministro Plenipotenciário em nome de
Almada. Este ocupava-se quase exclusivamente com o seu museu. Adquirira ele
com enormes gastos uma grande colecção de coisas raras, que mostrava com com-
placente orgulho aos curiosos: peixes raros, títeres que pareciam vivos e outras figuras
semelhantes, com movimentos e gestos cómicos que despertavam a hilaridade de
todos os que os viam. Estas e outras coisas semelhantes ocupavam grande parte dos
seus passatempos. Mas no meio de tudo isto, alimentava contra os Jesuítas o mesmo
ódio fanático de seu primo Pombal. Como este, também ele bajulara os Jesuítas
noutros tempos, ern que paÍa subsistir se viu obrigado a vender o seu coche com os
cavalo s.
Ano de 1759 chamado pelo Papa: chega apressado, a exultar de alegria, ora- dor eloquente
Ano de 1759
chamado pelo Papa: chega apressado, a exultar de alegria, ora-
dor eloquente para
advogat a causa do seu rei. Mas
que
desilusão!
Apenas entra fla antecârn?Í?, vê diante de si vários carcl,eais, entre
os quais Rezzonico, sobrinho do Pontífice, com o Cardeal-Secre-
tário;
Corsini
e Cavalchini estavam ausentes. E ainda Almada
não recupeÍaÍa da sua desagradável surpresa, quando se abre subi-
tamente a cortina dos aposentos
pontifícios
e,
convidado a
falar,
emudece, vendo-se iludido na sua
esperança. O Papa pede-lhe
que exponha o que tem a dizer em nome de Sua Majestade Fide-
líssima. Então ele cheio de indignação responde: <<Pedi umt audi-
ência privada corn o Papa; ort
vendo tantos cardeais perto de mim,
sem poder
dizer coisa alguma que eles não oiçam,
nada tenho a
propor>>. O Pontíflce faz-lhe sinal com a sua habitual cortesia, e
Almada, voltando-se
paÍa
o Secretário, diz-lhe: <<Afinal
vejo
que
Sua Majestade Fidelíssima nada consegue de Sua Santidade>>.
O que entretanto se passava em Lisboa, pode facilmente per-
ceber-se pelo teor desta importante carta,escrita em espanhol por
pessoa de
grande autoridade: «O trágico
e deplorável espectáculo
que este infeliz
Reino nos apresenta
não põe
diante dos nossos
olhos senão desordens, confusões, crueldades e tão triste cena
que dificilmente poderá encontrar-se semelhante em todos os
séculos passados. Prosseguem
as prisões e as
execuções,
quer
públicas, quer secretas.
Não há ninguém que não pense: Deus
abandonou este reino. Na última e,arta que escrevi a V. Ex.u infor-
mei-o guo, todos os que estávamos contra a Companhia de Jesus,
nos convencemos
da nossa sem-razã.o, pois após as mais minu-
ciosas investigações, não encontrámos uma só casa que não fosse
de ediflcação e em que todos os bens não fossem destinados a
um nm santo e apostólico.
Esmolas e dotações estavam todas
escrupulosamente
assentes
nos livros de
contas, com o acerto
e sentido de economia que deveria servir de modelo a todo o flel
cristão. Durante 52 dias tive em meu poder este precioso tesouro
entre muitos outros documentos, todos eles
provas
evidentes da
perseguiçâo de que eram alvo estes religiosgs. Tornou-se esta
perseguição patente pelo luminoso resplendor do céu no momento
em que alguns dos seus santos religiosos morreram, coroados
com o martírio. Julgou-sg
sejia suflciente que Deus, por este meio,
declarasse a inocência
da
Companhia,
para o monatca cair em
si. E, de facto, ele deu mostras disso. Mas, voltando o Ministro
à sua presença, publicou depois deste encontro um decreto, proi-
bindo sob pena de morte, que ninguém falasse em tal visão. Assim,
Memórias de um JesuÍta prisioneiro de Pombal 78 a perseguição continuou com todo o seu
Memórias de um JesuÍta prisioneiro de Pombal
78
a perseguição continuou com todo o seu
fercz rigor. Parece incrí-
vel que para
informar este processo fossem
procurados ingleses
e os que eram tidos como judeus. Vê-se claramente o dique
que
esta
Companhia opusera
à libe dade de costumes com a sua dõu-
trina
e pregação;
pois
logo que foi impedida de exercer o seu
ministério,
jorraram
as maldades em torrentes caudalosas. São
inexcedíveis a paciência e resignação com que se oferecem a Deus
por este reino e seus inimigos. Os próprios guardas se comovem
e ediflcam ao observar a suavidade dos seus modos e atitudes.
Não me considere, V. Ex.u., demasiado
volúvel, por mudar de
opinião e contradizet o que antes insinuaÍa
a respeito da Com-
pânhia de Jesus, pois foram a justi
ça
e a consciênciâ que, abrindo-
-firrlo os olhos, me ajudaram a reconhecer o meu erro. O mesmo
aconteceu aos cultos e sensatos religiosos de outras ordens, que
admiram a constância dos
Jesuítas,
e alguns houve
que
afirmaram
desde o púlpito que a Companhia oferecia a Deus tantos már-
tires neste reino, quanto o número de
religiosos
que nele contava.
Foi doloroso; mas, conseguiram o prémio do mártírio. Na triste
situação em que se encontra o país, só a Companhia
permanece
perfeitamente unida, pois as outras ordens encontram-§e interna-
mente divididas. Envio este breve resumo a V. Ex.u., que Deus
guarde por muitos anos. Lisboà, Julho de 1759>».
Estã cafia escrita para a Europa
atravessou
também a Ásia,
em 1761. Os Jesuítas de Manila
remeteram-na paÍa
os Jesuítas
*).
de Macau
(N. A.
Tal
eÍa
em Portu
quando, a fim de
Eal,
dar
alguma
real,
chegóu
às mãos do Núncio
Aposlolico
lo, uma
bafia pontif ícia para o
rei.
Nela se
ão, ressalvado§
sempre os sagra-
dos cânones e os
osos acusados de
privilégios forenses, para agir contra os
re[igi-
cumplicidade no atentado
ao rei. O Núncio,
no cumprimento do seu oficío, informa disto Carvalho e Melo
e pede uma audiência com o rei.
posta de que
o rei lhe concede
Três dias volvidos, recebe a res-
a desejada audiência, contanto
íut o Núncio rompa o selo das cartas ê o infonne com antece-
(N.4.*) Manila é uma cidade espanhola da ilha de Lução, que é a principal
das Filipinas. Macau é uma cidade na China, que fez parte do Império Colonial
Português.
Ano de 1759 dência sobre o seu conteúdo. Responde Acciajuolo que um Núncio não tem
Ano de 1759
dência sobre o seu conteúdo. Responde Acciajuolo que um Núncio
não tem autoridade paru violar uma carta
do
seu soberaro, ao
que Carvalho e Melo retorquiu: pois guarde essa carta que nós
não precisamos dela, pois
sabemos que não obteremos o que
pedimos
(").
E assim ficaram frustadas as óptimas intengões
do
Supremo
Pastor. O causador deste lamentável acontecimento
foi o Cardeal
Cavalchini, que subornando o correio pontifício o levou a de-
morar no câminho, fingindo-se doentê, enquanto entrementes
enviava um outro da sua confiança a infounar-se porrnenorizada-
mente de tudo
o que a Santa Sé concedia e recusava. Eis o texto
da carta do Papa:
Carta de Clemente XIII a I). José
Filho Caríssimo em Cristo, Saúde e Bênção Apostólica
O Embaixador de Y. Majestade, Almada, informou esta Sé
Apostólíca sobre o pedido coicernente aos ,Ieiuítãs que vivem no
vosso reino. Nós, considerando maduramente este assunto, em vir-
tude do nosso ofício e dever
pastoral,
prio juízo, não cessdmos dia e noite
não nos fiando no nosso pró-
de implorar o divino auxílio
junto
ao altar do Príncipe dos Apóstolos. A Ele temos suplicado
derramando do Alto aquela luz de que tanto precisamos nestes
8u€,
tempos tão conturbados) nos
dirija e nos indique o
devemos
Çrue
fazer para a maior honra de Deus e da Santa lgreja, € para o bem
(")
Alguns pormenores recolhidos em Mémoires de Pombal ajudar-nos-ão a
melhor compreender todo este assunto. Segundo o autor deste livro, o próprio Pombal
teria subrepticiamente recebido o documento pontifício antes do Núncio, e tê-lo-ia
guardado por três dias, abrindo-o, o inteirando-se do seu conteúdo; depois, habili-
dosamente, teria falsificado o selo do Santo Padre, remetendo-o ao Núncio junta-
mente com duas cartas dirigidas ao Rei. O Núncio não podia abrir o invólucro,
porque nele vinham as duas cartas dirigidas ao Rei, juntamente com a Bula, sob o
mesmo selo pontifício. Neste embaraço pediu ao próprio Rei que rompesse o sobres-
crito e retirasse as suas cartas, remetendo-lhe a ele o Breve, visto que o Rei o não
queria receber. Mas D. José, seguindo as instruções do seu Ministro, não quis fazet
nada disto, e o Nuncio viu-se obrigado a regf,essar ao seu palácio com o invólucro
pcr abrir. (Mém. de Pombal, t. II, pp. 109 e 111)
Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal do nosso rebanho, nada desejando com mais ardor
Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
do nosso rebanho, nada desejando com mais ardor do que paz e
tranquilidade para o povo de Deus.
Nem se convença V. Majestade que não tenhamos dado ouvido
às queixas que nos
foram
expostas. Temos em tanta estima
e apreço
a segurança. e bem-estar de V. Majestade como se de nós se trr-
tosse. Pelo
insistindo nos passos do nosso antecessor Bento XIV,
Qu€,
de saudosa memória, rogamos e exortamos a Y. Majestade permita
o
continuação da visita apostólica
confiada ao nosso
Cardeal
Sal-
danha. Assim se manterd a
jwtiça: distinguindo os inocentes dos
culpados, e
se alguma
relaxação se
introduziu na Companhia de
Jesus, ela serd chamada ao
primitivo
estado de
perfeição.
Como
é impossível que num corpo tão dilatado como a Companhia de
Jesus se não encontrem alguns membros contaminados de imper-
que devem ser purificados ou amputados, assím nos parece
feições
incrível que não haja entre eles muitíssimos inocentes, homens rectos,
períeitos e santos, como nos consta a nós e a toda a igreja de Deus;
homens 8u€, por todas as quatro partes do mundo, propagaram a
verdadeira
e que,
com seus
trabalhos,
suores e até cont o
próprio
sangue, .fecundaram as terras incultas dos bdrbaros I homens que
trouxeram ao r edil de Cristo inúmeros cristãos e gentios, que ilus-
traram a lgreja com a doutrina e erudição dos seus escritos e a de-
fenderam contra os seus inimigos;
homens entre os quais hcí santos
que veneramos nos altares,
por quem sabemos V. Majestade
tem particular
devoção,
embora mtdtíssimos outros sejam
também
dignos de tal honra. Por isso pedimos a V. Majestade, com todo
o afecto do nosso coração paternal, qtte, como filho obediente e
rteL ratifique o que por nós
Íor
determinado,
permita
que
a causa
da Companhio seja examinada
por juízes especialmente delegados
por nós e que os réus com culpa provctda possam ser punidos por
estes, não se tomando os inocentes por culpados. E, assim, a Com-
panhia, tão grande benemérita da lgreja, principalmente, naquelas
longínquas terras de missão, purtficada de seus e; ros,
seja
conservo-
da
nos
reinos de Y. Majestade. Tudo isto, não temos dúvida, V.
Majestade
fard,
à semelhança do que sempre fez em tempos pass*-
dos, como
também farci
tudo
aquilo que tão santo e louvdvel Insti-
tuto exigir, procurando
sempre a maior glória de Deus e a salvação
e segurança dos súbditos de V. Majestade.
Suplicamos ainda a V. Majestade, confiados na sua heróica
piedade,
se rigorosamente examinada a causa, vier a provar-se
8u€,
jurídica
e plenamente (do que Deus nos livre e de forma alguma
nos podenns persuadir) a cumplicidade deles naquele horrível AtentA-
Ano de 1759 8t do, não queira Y. Majestade manchar as mãos no sangue daqueles
Ano de 1759
8t
do, não queira Y. Majestade manchar as mãos no sangue daqueles
que são consagrados
certí V. Majestade a
todo o nosso afecto e
documento da sua
piedade.
Conseguindo isto de Y.
Maiestade,
como
um pai espera de um filho obediente, a V. Mqiestade e a toda a
família real concedemos afectuosamente a bênção apostólica.
Voltemos agora ao colégio de Braga e à minha cela de pri-
sioneiro. Os soldados que cercavam a nossa casa não só impe-
diam a entrada de qualquer homem da cidade, mas examinavam
cuidadosamente até o alimento
oferecido pela liberalidade dos
benfeitores, a fruta, como as melancias, que
desse o caso de a natureza fazq brotar uma
cortavâfiI,
não se
melancia coÍtr uma
carta escrita dentro dela! O nome de Carvalho e Melo chega aos
ouvidos dos Jesuítas presos por todo o reino até Almeida, perto
da fronteira com a
Espanha. Nesta fofialeza vivia o Visconde
dito de Mesquitela, parente de Cawalho, que quis celebrar com
uma festa pública a elevação deste último à dignidade de Conde
de Oeiras; mesmo no meio
da festa, no dia
10 de Agosto, deu-se
a morte
do rei católico, Fernando
VI, provocada pela
dor da
saudade em que a morte de sua esposa o deixara, não chegando
a sobreviver-lhe um ano.
Foram testemunhas
desta festa abruptamente interrompida
sete Jesuítas do Maranhão,
que estavam presos naguela forta-
leza e tinham vindo do Colégio
de Gouveia e de duas residên-
*).
cias, da Lapa e de Cárquere (N. A.
(N.4. *)
Gouveia, na diocese de Coimbra, era o marquesado do infeliz duque
de Aveiro. É costume entre os portugueses que nenhum duque pode atingir tal título
sem ter sido primeiro marquês, nem nenhum marquês sem primeiro ter sido conde.
E assim, o duque de Cadaval, o mais antigo dos duques, mais próximo da casa real
de Bragatça, é marquês de Ferreira e conde de Tentúgal.
Depois da morte do duque de Aveiro, Aveiro passou a chamar-se Nova Bra-
gança; mas, no pequeno calendário de Lisboa, vulgarmente chamado 'folhinha de
algibeira', que se publica todos os anos, ainda se encontra o nome de Aveiro. Aveiro
é uma cidade da província da Beira com um belo porto, que dista 11 léguas de Coimbra.
Os aveirenses têm um dialecto especial, cantando e acrescentando uma letra no fim
de várias palawas.
6
Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal Decreto de expulsão dos Jesuítas O dia 3
Memórias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
Decreto de expulsão dos Jesuítas
O dia 3 de Setembro ficou tristemente memorável
por
ser
a data de uma grande
tragédia.
Foi nesse dia que Carvalho e
Melo assinou o decreto de expulsão dos Jesuítas de Portu gal.
Come
ele com estas palavras que bem patenteiam o ridículo
çava
estilo do
ministro : <<O Rei Fidelíssimo depois de ter feito tudo aquilo
que deve
fazer
um rtlho rtd da Santa Sé>>. E que é que ele fez afinal ?
O Papa enviou ao rei cartas cheias de zelo apostólico e de afecto
paternal, e nem sequer foram abertas; a Cúria Vaticana nomeou
1uízes eclesiásticos, mas todos eles foram rejeitados. Pediu o Papa
que a causa dos Jesuitas fosse legitimamente
provada com teste-
munhos autênticos, e respondeu-se-lhe
que não eram precisas
mais provas, pois o rei não queria que elas se divulgassem no
estrangeiro.
As coisas falam por si, mesmo
quanta
simulação! desta forma se pretendia
perversa
do ministro: se uma
pele de leão n
uma
pele de raposa! O rcifez tudo, afinal não fez nada.
mais?
Que
Aprouve a Sua Majestade Fidelíssima, por conselho de homens
probos e eruditos, para salvaçdo
do rei e para bem do reino,
expul-
sar os Jesuítas de todos os territórios sujeitos à Coroa Portuguesa.
Neste decreto recoze-se de novo o caldo, e caldo recozido gera
e ndusea.
(Plínio, liv. 20. cap.Ix).
fastio
Volta à búla
a tão decantada
guerra dos Jesuítas do Brasil
contra o rei. Uma guerra viva no Brasil. E para conflrmar a causa
do crime
utilizarn-se especiosos exageros:
acrescenta-se um novo
apêndice à fábula
própria paÍa tolos
e barbeiros - pois assim
continua o autor do decreto : Esta horrível e extensa guerra lançara
jd
raízes tão profundas
se se proloàgasse
por
ntais dez anos,
QU€,
nenhum príncipe, nem nenhum rei da Europa, por mais poderoso
poderia resistir-lhe, etc
que fosse,
Mas, toda esta severidade veio a ser temperuda com alguma
clemência do rei. Concede
ele licença
de permanecer em Portu gal
a todos, mas principalmente aos rnais novos, ainda ignorantes
dos maléflcos
segredos da
Companhia,
se se
prontiflcarem
a des-
pir o hábito religioso. ('n) Se assim fu;erem, serão tidos como súb-
('n) Eis alguns pormenores a este respeito narrados em Mémoires de Pombal,
II, p. 123: <«Embarcaram
no Porto em dois navios suecos mais de 300 Jesuítas, quase
todos estudantes do colégio de Coimbra. Passados 20 anos, ai nda se não apagou na
Ano de 1759 83 ditos fiéis do monarca fidelíssimo. Portanto, aquele crime de lesa- -majestade
Ano de 1759
83
ditos fiéis do monarca fidelíssimo. Portanto, aquele crime de lesa-
-majestade de que se acusavam os Jesútas, não era imputado às
pessoas, mas tã,o só ao hábito religioso que eles vestiam.
Executou-se este decreto a 15 de Setembro. Alfa noite, mais de
100 Je_sútas
das
nossas casas de Lisboa e dos colégios de Coimbra
*)
e de
Évora
(N.4.
(todos eles eram dos que na eompanhia
cha-
mamos professos)
foram
atirados para um navio.
O Reitor do
nosso
colégio
de Evora dirigia
também a universidade fundada
pelo
Cardeal D. Henrieüe, que
depois foi rei.
A respeito deste
exílio dos padres escreveu para Braga uma
-Madre
irmã de
earualho e Melo
(vulgarmente conheõida por
Madalena,
professa
do Instituto de
S. Domingos) a um certo
pintor
seu conhecido, dizendo-lhe: ((Esta
noite
embarcaram os
**).
«Apóstolos»» em Lisboa não se sabe para onde»» (N. A.
Carvalho encerrou no mosteiro a sua própria irmã, fixando-
-lhe uma parca pensão anual para seu sustento. Morreu, há pouco,
na bonita idade de quase 90 anos.
Um
navio estrangeiro transportou os
primeiros
Companhia
acompanhando-o
um
navio de
guerr
até
à
fronteira
do
reino. As provisões destinadas
eram tão escassas que o navio se viu forçado a fazet escala no
memória dos habitantes desta cidade a lembrança da heróica firmez.a qtrc mostraram
estes jovens religiosos perante os violentos assaltos com que os seus parentes e amigos
e até professores universitários, tentaram convencê-los a largar a sotaina da Com-
panhia. Poucos foram entre eles os que cederam à violência destes ataques, A maior
parte respondeu com tal grandeza de alma e nobreza de sentimentos, que, com grande
raiva do conde de Oeiras, muita gente admirou e aplaudiu. Nâo contara com tanta
resistência. Nunca ele imaginara que numa juventude frágil ia encontrar tão obstina-
do apego a uma instituição que ele infamara e jurara destruir. As suas esperanças
saíram-lhe
inteiramente frustradas»>.
*)
(N.A.
Évora é a capital da Província Transtagana, a que chamam Alentejo,
conhecida como o celeiro de Portugal, pois fornece trigo a Lisboa por seis meses:
no resto do
ano, o trigo vem do estrangeiro»».
**)
(N.A.
O rei de Portugal, D. João III, que estimou a Companhia com um
afecto não só real, mas verdadeiramente paternal, teve em tanto apreço os trabalhos
de S. Francisco Xavier e Simão Rodrigues, primeiros companheiros de Santo fnácio,
que os chamou Apóstolos, contra a vontade e apesar do protesto deles. Daqui veio
que em Portugal os Jesuítas se tornassem conhecidos e honrados como os Ápóstolos,
84 Memórias de um Jesuita prisioneiro de Pombal porto de Alicante (N. A. *). IJm
84
Memórias de um Jesuita prisioneiro de Pombal
porto de Alicante (N. A. *). IJm dos nossos padres foi a terra e
recolheu de esmolas de mercadores uma soma avultada de di-
nheiro, além de outros mantimentos e roupas necessárias.
Para vergonha
de Carvalho e Melo e do
próprio rei, publi-
cou-se mais tarde
uma lista das provisões que esta nau recebera
ao partir de Lisboa. Nem sequer havia colheres de pau suficientes.
Aochegarem
estes
padres
eiilados a
Roma,
não
pôucos príncipes
da alta nobÍeza e até insignes pela púrpura, enviaram'ao encontro
deles as suas próprias carruagens. Mas, afastando de si tão grande
honra, entraram a pé na cidade e
foram apresentados ao pai uni-
versal dos aflitos e dos
pobres, llemente
XIII.
Em nome de todos
falou ao Sumo Pontíflce,
arranc.ando lágrimas abundant_es de
todos os ouvintes, o
último cancel fuio da úniversidade de Évora.
Reforma dos Jesuítas no Brasll
Enquanto em Portu gal começavam a ser expulsos os Jesuítas,
no Brasil os bispos continuavam a usar a faculdade de os refor-
mar, que
lhes fora concedida
pelo
Patriatca de Lisboa
('u), se é
que é lícito usar esta palavra reformar. Esta reforma foi
o mais
(N.A. *)
Alicante é uma cidade espanhola, no reino de Valencia, célebre pelo
seu vinho generoso também chamado Ximenez, da corrupção do termo Simonis Petri,
que, por ordem de Carlos V, trouxe videiras da província do Reno, na Alemanha,
e as trasladou para este lugar. As uvas-passas de Alicante são as mais preferidas
em Lisboa.
('u) Houve alguns Bispos, entre os quais o da Baía, que se atreveram a não
obedecer cegamente às imposições do Cardeal e do Ministro. O Arcebispo da Baia
D. José Botelho de Matos fora nomeado para substituir no Brasil o Cardeal reforma-
dor. Prontificou-se a publicar o decreto relativo ao comércio e a fazer as investiga-
ções; mas recusou-se a caluniar os Jesuítas e a desacreditá-los junto do povo. Fiz.eram-
-se as indagações com regularidade e franqrteza, e todas lhes foram favoráveis. Juntou
80 testemunhos devidamente assinados a atestar que os Jesuítas nunca se tinham
dado ao comércio ilícito de que eram acusados. O próprio irmão de Saldanha, um
dos primeiros cidadãos da Baia, prestou um testemunho brilhante à inocência deles.
O Arcebispo fez o relatório de tudo o que se passou, o enviou-o a Lisboa com todas
as assinaturas. Pombal ficou furioso. Expediu logo um navio com ordem de o Arce-
bispo deixar imediatamente a sua Sé. (Anedd. t. If, p. 145 e sgs)
Ano de 1759 iníquo vitupério infligido à nossa ordem religiosa. Um ministro do rei não
Ano de 1759
iníquo vitupério
infligido
à nossa
ordem religiosa.
Um ministro
do rei
não teve vergonha de, no colégio dos
Jesuítas do Pará,,
chamar uma Companhia de ladrões àquela
Companhia aprovada
e conf,rmada
pelos Sumos Pontífices. Tinha ele sido enviado de
Portugal paÍa
conflscar os bens das nossas casas. Chamado a
Lisboa lá, veio a morrer na companhia de ladrões, num cárcere
destinado a criminosos e ladrões, o
maior cárcere de todos,
chamado Limoeiro.
Uma outra espécie de reforma consistiu na oferta da bene-
volência rcal concedida a todos os
que desertassem da Companhia.
Foram muitos os que responderam com a
palavra
de David:
««Este é
paÍa
sempre o
lugar
do Meu repouso, aqui
habitarei,
porque o escolhi» (Sl 131,t4). Houve um que resistiu ao convite
com esta palavra da Escritura: <«Queffi, depois de deitar a mão
ao arado, olha paratrás não é apto parao Reino
de Deus»» (Lc 9,62).
Então, o bispo do Pará, olhou espantado para o governador, pois
os Jesuítas tinham de comparecer diante dos dois, e disse: «olá!
mas isto é um texto novo!». Este texto novo
conta mais de 1748
anos. Este bispo do Brasil, chamado Miguel de Bulhões com o correr
do tempo
foi elevado
por
Carvalho e Melo à Sé episcopal
de Leiria,
em Portugal. Faz agora 74 anos. Cruel misericórdia esta! Os
membros da Companhia para poderem permanecer em Portu
Eal,
tinham de trocar a casa religiosa,
a casa de
Deus,
pelo
século
perverso, expostos a tantos
perigos; tinham de cortar o flo da
vocação e desviar-se dos caminhos que a Providência Divina lhes
assinalata.
D. Gaspar de Bragança (Palhavã)
Arceblspo de Braga
No princípio de Outubro, ressoam de repente os sinos por
toda a cidade de Braga.
Anunciavam
a chegada
do novo Arcebispo
que era já, esperada. Era um dos três irmãos do rei, vulgarmente
chamados os três Meninos ou os três Senhores de
Palhayi, que
*).
habitavam num palácio fora de Lisboa (N. A.
(N.A. *)
Estes três príncipes foram educados no Mosteiro de Santa Cruz dos
Cónegos Regrantes de Santo Agostinho), num subúrbio de Coimbra, sob a orienta-
Memórias de um JesuÍta prÍsioneiro de Pombal Depois de se isolar por cerca de duas
Memórias de um JesuÍta prÍsioneiro de Pombal
Depois de se isolar por cerca de duas semanas numa quinta
dos arrêdores de Braga, D.
Gaspar fez a entrada solene na cidade
a 28 de Outubro. Toda
ela foi
iluminada
festiva:rrente com fogos
de artifício durante três dias. Os nossos, embora
preparados
paÍa partirem para o exílio, tiveram ainda de render ao novo
prelado esta última homenagem, associando-se em sua profunda
tristeza às alegrias do povo. Tratava-se de um espectáculo eques-
tre, organizavam-se as corridas chamadas Trojanas; e não falta-
ram
os foguetes
durante dias continuadus: cartuchos cheios de
pólvora, que
subiam deixando após si um rasto de fogo o qual,
a pouco e pouco,
se abria e desdobrava ení arcos coloridos,
estoi-
rando com
grande estampido. E também máquinas
de madeira
dispostas de tal maneira que, de repente irrompem em fogo, espa-
thando clarões de chama
tempestade de luz e cor.
ardente, por todas as direcções numa
Fogueteiros
especializados costumam
vir
todos os anos de Santiago de Compostela contratados por
somas avultadas, no
dia 24 de
Julho,
que
pr€
cede
a festa do Após-
tolo Santiago,
paÍa dar uma exibição da sua arte.
O Arcebispo
tinha o título de Senhor de Braga. Reivindica-
va também
para
si o
primado
dos Bispos
de
Espanha,
com
testo do Bispo de Toledo. No ordinário do Ofício
Divino
pro-
paÍa
as lgrejas de Portugal lêem-se sempre em
primeiro lugar estas
palavras
escritas
em tipo
maior: Bracharensis Primas
Hispania-
rum.
O
antecessor imediato era D. José, também da Casa de
Bragatg?, que morrera de morte repentina em Junho de 1756,
em Ponte de Lima. Po_r ordem de D. João Y, tinha sido educado
no nosso colégio de Évora.
O actual Arcebispo da Igreja
bracarense
trouxe consigo
de
Lisboa uma lápide sepulcral de mármore para se não esquecer
de que era mortal. Na catedral de Braga
jazem
sepultados o Conde
D. Henrieuo, que foi o primeiro a governar Portu
E?l
de Conde, e sua esposã D. Teresã de Espanha.
com o título
frente desta
do Capucho Frei Gaspar (da Encarnação), que era tio do duque d'Aveiro, o que
ção
fora implicado no atentado ao rei.
Este tinha sido antes Reitor da Universidade de Coimbra e abraçara de-
pois a regfa de S. Francisco. Da sua cela foi chamado ao palácio real, para tomar
o leme do governo no reinado de D. João V, e passados anos foi designado por
Bento XIV, como reformador dos Cónegos Regulares da dita Ordem.
Ano de 1759 Sé Arquiepis Mártires, da colégio, que Tendo sido grande no governo da
Ano de 1759
Sé Arquiepis
Mártires, da
colégio, que
Tendo sido grande no governo da sua diocese, tornou-se ainda
maior ao depor o báculo pastoral, para vir a morrer no seu con-
vento de Yiana, a 16 de Julho de 1590.
Jesuítas levados de Braga para o Porto
vivera. a flcar
Btaga, três
óprio
Reitor.
que
so
se lembrava
a não
eus súbditos,
dote,
a
perseverar na vocação religiosa. O réu de tão hediondo
crime foi acusado ao Ministro,
por
espiões clandestinos e por
isso, condenado a um duro e cruel cativeiro.
Eckart chega ao Porto
evitar que o povo afluísse em massa a ver os recém-chegados.
Os
cativos
a
o
colégio.
Eu
guarda-
do
oficiais;
à porta
estavam as sentinelas; frente à janela
vigiavam outros
guardas. No porto desta cidade estava preparado um
navio de
8B Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal guerra à espera de vento propício, havia
8B
Memorias de um Jesuíta prisioneiro de Pombal
guerra à espera
de vento
propício, havia já, oito dias, com o fim
de transportar
glos. No decreto
paru Itália
os Jesuítas reunidos de vários colé-
de expulsão
proibia-se severissimamente que
qualquer dos exilados voltasse ocult4mente para a sua
pátria,
'rrrorte.
sob pena de prisão, depo rtaçã,o para
África
oü mesmo de
Em todas as cidades, vilas e fortal ezas das províncias, principal-
mente daquelas que defendem as fronteiras de Portu
os juízes
Eal,
deviam, cada seis meses, indagar se algum Jesuíta teria entrado
furtivamente. E
paÍa
que no futuro constasse que
isto fora feito
sob mandado da autoridade régia,
o decreto
foi guardado no
arquivo real, conhecido
por
Torre
do Tombo.
Por aquele mesmo tempo, publica-se uma carta de el-Rei
paru o Patriarca
Saldanha,
a quem
trata
por
o ilustre título de Reformador e Visitador
Irmão e honra com
Apostólico da Com-
panhia em Portu
depois de a ter exterminado no seu reino.
Eal,
Manifestava a este príncipe purpurado que era sua vontade exor-
tasse todo o rebanho dos seus fiéis súbditos a acautelar-se da falsa
doutrina relaxada dos padres da Companhia, <<que se vos apre-
sentam disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes>>
(Mr
7,15).
Foi este um novo estratagema
do Ministro Carvalho,
pois
o PatriaÍca tinha de responder oflcialmente ao rei. O que ele fez
em ofício que começaya
por estas palavras:
«Dignou-se
V. Majes-