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HOMENS QUE ODEIAM SUAS MULHERES & AS MULHERES QUE OS AMAM Quando amar é sofrer e voce nao sabe porque 72 EDIGAO Dra. Susan Forwa ie & Joan Torres Kewom HOMENS QUE ODEIAM ‘SUAS MULHERES & AS MULHERES QUE OS AMAM ‘Quem acredita no mito do Prin- cipe Encantado, que se cuide. Mui- tas vezes, por tras do belo, ha uma fera de plantao. E 0 que explicam a Dra. Susan Forward ¢ Joan Torres neste livro, recheado de casos confidéncias dolorosamente reais. Psicbloga bem sucedida, a Dra. Forward comecou a observar um padrao nas mulheres infelizes que @ procuravam: a maior parte era casada, de aparéncia desleixada € acreditando piamente que ama- vam os homens mais maravilhosos do mundo. No passado, quase to- das haviam sido profissionais bem sucedidas e espécimes femininos ca- pazes de despertar paixdes em ho- mens carinhosos, fascinantes ¢ prédigos em presentes. Homens com um tnico defeito: a opressio psicol6gica sobre suas parceiras. Homens que Odeiam suas ‘Mutheres & um retrato de corpo in- teiro de relagdes que teriam tudo para ser perfeitas, mas se tornam, 20s poucos, insustentaveis. De um lado, mulheres que confiam nos instintos femininos mais do que na razio; do outro, 08 misoginos — ti- anos ciumentos que controlam até mesmo as relagdes de trabalho, familia © amizade de suas com- panheiras. Pautada nos inimeros ‘casos que ouviu em seu consultério, a Dra. Forward organizou um v dadeiro manual de sobrevivenc para as vitimas dos mis6ginos — ‘bem mais numerosas do que se pen- sa. Principal arma: 0 amor proprio. SO amando a si mesmas € a0 que fazem, as mulheres podem amar homens dignos de serem amados. i Fe HOMENS QUE ODEIAM SUAS MULHERES & AS MULHERES QUE OS AMAM. Dra. Susan Forward e Joan Torres HOMENS QUE ODEIAM SUAS MULHERES & AS MULHERES QUE OS AMAM Quando amar € softer ¢ vocé nao sabe por qué Tradugio de ALFREDO BARCELLOS (Qeo- Rio de Janciro — 1991 ‘Titulo original: MEN WHO HATE WOMEN AND THE WOMEN WHO LOVE THEM Copyright © 1986, by Dra. Susan Forward & Joan Torres Publicado com autorizagéo da Bantam Books, Inc., New York Direitos para a lingua portuguesa reservados, ‘com exclusividade pare 0 Brasil, 2 EDITORA ROCCO LTDA. Rua da Assembigia, 10 Gr. 3101 CEP 20011 — Rio de Jansiro — Ry Tels 224-5859 ‘Telex: 38462 EDRC oe Printed in Brazil/Impresso no Brasil capa ANA MARIA DUARTE HELENA LUIZA FROHWEIN DE SOUZA HENRIQUE TARNAPOLSKY GRACE DANTAS MATTOS CIP-Brasil, Catalogagio-na fonte, Sindicato Nacional dos Editores do Livros, RY. Forward, Susan F85th Homens que odeiam suas mulheres © as mulheres que fos amam / Susan Forward e Joan Torres; tradugio Alfredo Barcellos. — Rio de Janeiro: Rocco, 1989. 1, Casameno, Aconselhamento do. 2. Aconselhamento. 1, Torres, Joan If. Titulo avosrt cpp — 362.8286 eDU = 175.1 SUMARIO Uma introdugdo pessoal .. Parte I HOMENS QUE ODEIAM SUAS MULHERES 1. © homem mais romantico do mundo Adoramos 0 romance / Namoros vertiginosos / An- tolhos roménticos / Desespero e fuséo / Salvagao 2. 0 sim da luade-mel . : Racionalizagio do seu comportamento / Jekyll. € Hyde / Assungio da culpa / O desapontamento do homem / Vocé deveria ser perfeita / Por que nao consegue ler os pensamentos dele? / Um seio sem- pre repleto / Uma verdadeira fortaleza 3. Como ele assume 0 conircle: armas . © contrato de amor / Ele deve controlar / Porque © termo “abuso” / Controle por meio da opresso l6gica / Ameagas implicitas / Ataques verbais / Criticas incessantes / Técnicas da meialuz / Nega- tiva / Alteragdo dos fatos / Transferéncia da culpa / Sem permissao para protestar / Controle por meio da opressio fisica / Como vocé pode saber se a 13 27 40 52 6. opressio psicolégica vai passar & opressio fisica? / Redugao do mundo Onde ele assume 0 controle: arenas Controle no quarto / Critica sexual / Egofsmo se- xual / Brutalidade sexual / Viciados em sexo / ‘A méscara da satisfagio sexual / Controle finan- zeiro / O “bom provedor” / O “her6i trégico” / Controle da vida social / Controle do contato com a famflia / © modo de usar os filhos / Citime dos filhos / © ataque a voc8 como mie / Triéngulo / Brutalidade fisica / Os efeitos sobre as criangas © que mantém as mulheres fisgadas? ... © anzol do amor / Vicio amoroso e dependéncia / © paradoxo da mulher independente / Destrato ¢ vicio anioroso / A procura da chave magica / O anzol da esperanga / O anzol do medo / Medo de como ele a faz se sentir / Medo do que ele possa fazer / O anzol da conivéncia / “Ele ¢ bom e eu sou ma” / “Ele s6 faz isso para me tornar uma pes- soa melhor” / Sindrome de Estocolmo Como homens aprendem a odiar mulheres ..... equilibrio importante entre mae ¢ pai / Quando © pai € miségino / “Vocé s6 estard seguro se for como seu pai” / A maneira do pai é a tinica que existe / A tinica maneira de controlar as mulhe- res € oprimilas / Quando a mac ¢ vitima / As necessidades das mulheres s40 opressivas / Mame no pode existir sem mim / Nenhuma mulher pode me amar o bastante / A criagéo de um miségino / ‘Nao se pode confiar nas mulheres / Quando a mic € opressiva / Sinto-me incapaz com uma mulher do- minadora / Tenho dircito de ter tudo & minha ma- neira / Quando o pai € passivo / Os homens néo podem enfrentar as mulheres / Quando a mie € castradora / “Se voc! precisar de uma mulher, ela o maltratara” / Quando a mie rejeita / £ yer- gonhoso ser vulneravel / Meninos irados, homens idem / Apoio cultural as agressGes dos homens as or 92 104 . Loucura a dois mulheres / Ligagdes extraconjugais / Dependéncia e medo do abandono - Como as mulheres aprendem a amar os homens que as cdeiam .. gist shen © que torna as familias t40 importantes / Auto- imagem / Exemplo / Mensagens / Repeti¢io de padres / A histéria da familia de Jackie / Quan- do 0 modelo da mae ¢ a submissio / Relacion mento a qualquer prego / Apoio cultural a depen- déncia das mulheres / “Faca o que eu digo, nfo 0 que eu fago” / Dupla identificagio / O medo de perder o amor do pai / Se papai diz, deve ser ver- dade / O aprendizado da culpa / Papai s6 fica transtornado por sua causa / Nunca se pode ter cer- teza de como um homem faré vocé se sentir / Voc tem de amélo de qualquer maneira / O aprendiza- do da paciéncia / Restrigdes culturais a raiva das meninas / A raivarbumerangue / Se vocé se sente mé, € porque ¢ mé / O drama como modo de vida 7 controle dos pais filhas adolescentes / Os efeitos do abuso fisico ¢/ou sexual Intercémbio de sentimentos proibidos / O intercdm- bio de dependéncia / O intercdmbio de raiva / Rai va e sofrimento / Stress e raiva / Manifestagao fi- sica de stress / Expresses emocionais de stress / Stress © vicios / As mensagens ocultas do sofrimen- to / Tentativa de vinganca sem fiiria / Hostilidade direta / Hostilidade indireta Parte IL AS MULHERES QUE OS AMAM |. Como voce esté se sentindo? A importéncia dos sentimentos / Inventério emo- cional / A importante relagio entre pensamentos € sentimentos / A compreensio do processo de pen- samento / O componente de comportamento / A definigao do rumo 128 147 161 10. i 12, 13. Preparativos para a mudanca ‘Aceitagao da situagao / O que estabelece um bom relacionamento / Vocé s6 pode mudar a si mesma / Primeiro paso: torne-se uma observadora / Se- gundo passo: escolha continuar se comportando exa- tamente como tem feito até agora / Terceiro passo: escreva todos os rétulos que set patceiro tem usado contra vocé / Quarto passo: imagine 0 parceiro se comportando da pior forma possivel com outra pes- soa / Quinto passo: mude 2 maneira de ver seu parceiro / Controle-se e verifique como esté tratan- do a si mesma / Interrupsio de pensamento / Os cuidados consigo quando esté sofrendo / Coisas a fazer por voce A cura do pasado . ‘ Uma palavra de adverténcia / Nao comecou com seu parceiro / Porque € essencial olhar para trés / Como lidar com os sentimentos do passado / A manipulagao da raiva antiga / Revisio de antigas opinises / O aprendizado para a reorientagio da criancinha / O fim do poder das mensagens antigas / Receio de sentir raiva dos pais A descoberta de sua raiva .... © contato com a raiva do parceiro / O sim € o ndo no tratamento da raiva contra o parceiro / Nao tome decisées importantes / Néo o repreenda / Procure extravazar sua raiva / Pare de estimular 0 mau com- portamento de seu parceiro / O miségino definiu © relacionamento até agora / A definigéo do que voc’ quer / A reivindicagéo de seus direitos de adulta A fixago de limites com seu parceiro .. © roteiro reescrito / A importincia de fixar’ Limi tes / Mais tempo de ensaio / Ensaio com outra pes- soa / A fixagdo de limites / O que esperar do seu parceiro / A resisténcia ao aumento dos abusos do parceiro / A mudanga de comportamento do par- eeiro / A obtengio do que voc€ quer para si mes- ma / Uma palayra de adverténcia 172 189 201 2ut 14, 15. 16. A procura de ajuda profissional . © relacionamento € 0 paciente / A resisténcia do misdgino & terapia / Ajuda para vocé / A escolha do terepeuta O momento de deixar es seen © ponto de rompimento / A decisio de separar / Medo de abandonar um relacionamento viciado / Controle do medo de deixar / A conversio de me- dos desesperados em problemas soliveis / Como lidar com 0 sentimento de culpa por desistir do re- lacionamento / Culpa por abandoné-lo / Culpa por ser mantida por ele / Culpa pelos filhos / Culpa pela familia e amigos / O preparo para as reacoes de seu parceiro / Ele pode se tornar patético / Ele pode se tornar autodestrutivo / Ele pode se tornar ameagador / Uma palavra de adverténcia / Plane- jamento do futuro / O que esperar depois / O rom- pimento emocional / © desejo de que ele volte / 0 comeco da cura / A ajuda aos filhos para superar a crise A redescoberta de si mesma .. see A recuperagio do que perdeu / Os beneficios de desenvolyer outras areas de sua vida / Como os fi- Ihos podem se beneficiar de sua nova forga / Como evitar a repeticio / Nem todo homem é mis6- gino / A redescoberta do amor / Como encontrar seu equilfbrio como mulher 227 239 268 AGRADECIMENTOS Hi varias pessoas cujos esforgos e incentive constituem uma parte importante deste livro. Minha colaboradora, Joan Torres, aproveitou minhas idéias ¢ minha paixdo para contar a hist6ria, proporcionando-lhes forma e definicéo com extrema competéncia. Dorris Gathrid, Don Weisberg ¢ Larry Goldman contri- buiram para que tudo acontecesse. Dois amigos e colegas muito respeitados ofereceram gene- rosamente seu tempo e seus conhecimentos. Sao eles Nina Miller, M.F.C.C., e Andrew Drake, M.F.C.C, Nunca lhes poderei agradecer 0 suficiente. Minha editora, Toni Burbank, foi incansével em sua meta de perfeigao e uma grande fonte de conforto e estimulo quando eu precisava — 0 que aconteceu com freqiéncia. ‘As amigas ¢ clientes que me relataram suas hist6rias devem permanecer anénimas, mas eu as abengdo por sua coragem © sua disposigio para partilhar experiéncias. Finalmente, minha gratidio mais profunda as milhares de ‘mulheres que me escreveram ou telefonaram para meu progra- ma de rédio ¢ me comoveram. Este livro pertence a todos vocds. u UMA INTRODUGAO PESSOAL “Ninguém em seu juizo perfeito ficaria com alguém em ‘meu estado, Jeff s6 continua comigo porque me ama.” Quando me procurou pela primeira vez, Nancy estava 30 quilos acima do seu peso ¢ tinha uma iileera. Usava uma jeans velha e larga © uma bata informe; os cabelos estavam desgre- nhados, as unhas rofdas até 0 sabugo, as mdos tremiam. Ao ccasar-se com Jeff, quatro anos antes, era uma elegante coordena- dora de uma grande loja de departamentos de Los Angeles. Viajara a trabalho pela Europa ¢ pelo Oriente, selecionando estilistas para a loja. Sempre se vestira na Gltima moda e saira com homens fascinantes; jé aparecera em diversos artigos sobre mulheres bemsucedidas em Los Angeles — e conseguira isso antes de completar 50 anos. Mas quando a conheci, aos 34 anos de idade, estava tdo envergonhada de sua aparéncia ¢ da manei- ra como se sentia em relagéo a si mesma que quase nunca safa de casa. O declinio do amor-proprio de Nancy parecia ter comegado quando ela se casara com Jeff. Quando a interroguei a respeito do marido, no entanto, ela iniciou uma longa lista de super- lativos. “Ele € um homem maravilhoso. £ encantador, espirituoso © dinimico. Esté sempre fazendo coisas por mim — man- douse flores para comemorar o aniversério da primeira noite em que fizemos amor. No ano pasado, no meu a versério, cle comprou de surpresa duas passagens para a italia” 13 Fla comou que Jeff, um advogado ativo e vitorioso no ramo do show business, sempre encontrava tempo para estat em sua companhia, Apesar de sua aparéncia atual, ele ainda queria que o acompanhasse @ todos os jantares © viagens de negécios. “Eu adorava sair com ele ¢ seus clientes, porque sempre ficévamos de méos dadas, como namorados na escola se- cundéria, Sou a inveja de todas as minhas amigas por sua causa, Uma amiga chegou a comentar: “Voce tem um ma- Fido muito especial, Nancy.” Eu sei que ele € mesmo espe- cial. Mas othe s6 para mim! Nao entendo o que aconteceu. Eu me sinto deprimida o tempo todo. Tenho de me re- cuperar ou vou perdéto. Um homem como Jeff nao precisa perder tempo com uma esposa como eu. Pode ter a mulher que queira, até mesmo estrelas do cinema. Tenho sorte por ele ficar comigo tanto tempo.” Enguanto escutava Nancy ¢ observava sua aparéncia, per- guntei a mim mesma: “O que ha de errado neste quadro?” Havia uma ccntradig&o bésica. Por que uma mulher competente ativa haveria de ficar to por baixo num relacionamento amo- r0s0? O que Ihe acontecera nos quatro anos do casamento para produzir uma mudanga to grande em sua aparéncia ¢ senso de amor-préprio? Pressionei-a a falar mais um pouco sobre o relacionamento com Jeff ¢ pouco a pouco foi surgindo um painel mais claro. “Acho que @ nica coisa que realmente me incomoda em Jelf € « maneira como ele se descontrola de vez em quando.” — Como assim? — perguntei. Ela soltou uma risada antes de responder, “Jeff faz o que eu chamo de imitagdo de King Kong, tando, armando a maior confusio, Também tem a mania de me desqualificar, como aconteceu outra noite, quando jantévamos com amigos. Jeff falava sobre uma peca ¢ eu fiz um comentétio, Ele me disse, entdo, rispidamente: “Por que néo cala essa boca?” E acrescentou para os nos- sos amigos: “Nao déem atengio a ela. Esté sempre dizendo “4 besteiras.” Fiquei tio humilhada que senti vontade de afun- dar no chéo. E, depois, mal consegui engolir a comida.” Naney comesou a chorar ao recordar diversas outras cenas de humilhacéo em que Jeff a chamara de idiota, egoista ou insensata, Quando ficava furioso, Jeff gritava com ela, batia portas, jogava coisas. Quanto mais eu a interrogava, mais nitido 0 quadro se tornava. Ali estava uma mulher tentando desesperadamente des- cobrir como agradar a um marido que se mostrava com fre- Qiiéncia irado ¢ intimidativo, porém encantador. Nancy disse que muitas yezes adormecia horas depois com as palavras cruéis de Jeff ainda ardendo em seus ouvidos. E durante o dia tinha acessos de choro sem motivo aparente. Fora por insisténcia de Jeff que Nancy largara o emprego ao casar. Agora, ela sentia-se incapaz de retomar a carteira. E descreveu assim sua situagao: “Agora eu nio teria coragem de participar de uma reunidio de negécios © muito menos fazer uma viagem de compras. Nao me sinto mais capaz de tomar decisdes, porque perdi confianca em mim mesma.” Jeff tomava todas as decisdes no casamento. Insistiu no controle totsl de todos os aspectos da vida conjugal. Supervi- sionava todas as despesas, escolhia as pessoas com quem se encontravam socielmente ¢ até mesmo decidia 0 que Nancy deveria fazer enquanto ele estava trabalhando. Desdenhava qualquer opiniao de Nancy diferente da sua, gritava com ela, inclusive em piblico, sempre que estava insatisfeito. Qualquer desvio de Nancy do curso fixado por ele resultava numa cena terrivel, Declarei a Nancy que tinhamos muito trabalho a fazer, mas garanti que logo ela comeraria a se sentir menos acabru- nhada. Comentei que terfamos de analisar seu relacionamento com Jeff e que a autoconfianga que ela pensara ter perdido na verdade no desaparecera, apenas se extraviara. Juntas, tra- tariamos de recuperéla. Ao deixar aquela primeira sessio, Naney sentia-se um pouco mais firme e menos perdida. Mas eu comecei a me sentir abalada, 15 A histéria de Nancy me causara um grande impacto. Sabia que, como terapeuta, minhas reagdes frente a uma cliente eram instrumentos importantes. Estabeleco vinculos emocionais com as pessoas com quem trabalho, 0 que me ajuda a compreender mais depressa como estio se sentindo. Mas aquele caso era dife- rente. Eu me senti inguieta depois que Nancy se retirou, Nao era a primeira vez que uma mulher me procurava com aquele tipo de problema e também nao era a primeira vez que eu reagia com tanta intensidade. Nao podia mais negar que o que me afetava era a certeza de que a situagdo de Nancy se parecia ‘muito com a minha. Exteriormente, eu parecia confiante, realizada — uma mu- Ther que tinha tudo, Durante o dia, no consultério, no hospital € na clinica, trabalhava ajudando pessoas a encontrar a con- fianga e um senso renovado da prépria forca. Mas, em casa, a hist6ria era diferente. Meu marido, como o de Nancy, era en- cantador, sensual ¢ roméntico, eu me apaixonara perdidamente por ele, no instante em que nos conhecéramos. Mas logo des- cobrira que ele tinha uma fonte inesgotdvel de ira em seu fntimo possuia a capacidade de me fazer sentir pequena, inadequada © desequilibrada. Insistia em controlar tudo que eu fazia, acre- ditava € sentia. A Susanterapeuta podia dizer a Nancy: “O compor- tamento de seu marido nfo parece amoroso. Ao contrétio, a impressio ¢ de que esté havendo opressio psicol6gica.” Mas © que diria a mim mesma? A Susan que ia para casa a noite se encolhia toda para evitar que o marido gritasse com ela. Essa Susan vivia dizendo a si mesma que ele era um homem maravilhoso, uma companhia excitante; por isso, se alguma coisa estava errada, 86 podia ser culpa sua. ‘Ao longo dos meses seguintes estudei mais meticulosamente ‘© que acontecia no meu casamento © nos relacionamentos das clientes que parcciam se encontrar em situagdes semelhantes. O que estava realmente acontecendo? Quais eram os padres? Eram as mulheres que geralmente procuravam minha ajuda, ‘mas era o comportamento dos homens que exigia minha aten- edo. Como as parceiras muitas vezes os descreviam, eram en- cantadores e até amorosos, mas também capazes de assumir um comportamento cruel, critico e insultuoso, de um momento para outro. O comportamento dos homens estendia-se por um amplo espectro, da intimidagio e ameaga bvias a ataques mais sutis 16 e disfargados, sob a forma de constantes afrontas ou criticas erosivas. Qualquer que fosse 0 estilo, os resultados eram os mesmos, © homem assumia o controle ao esmager a mulher. Esses mesmos homens também se recusavam a assumir qualquer responsabilidade pela maneira como seus ataques faziam as par- ceiras se sentirem. Em vez disso, culpavam as esposas ou aman- tes por todo e qualquer incidente desagradavel Eu sabia, pela experiéncia do trabalho com cassis, que cada casamento tem dois lados. Mas € fécil para terapeutas identificar-se completamente com o cliente quando ouvimos apenas um lado da histéria. Nao resta a menor diivida de que cada parceiro contribui para qualquer perturbacio © conflito gue exista num relacionamento, Mas depois que passei a rece- ber alguns dos parceitos das minhas clientes, comecei a per- ceber que os homens no sofriam nem um pouco da angéstia que infligiam as mulheres. Eram elas que ficavam realmente desesperadas. Todas tinham perdas drésticas de amor-préprio © muitas apresentavam sintomas e reagées adicionais. Nancy tinha tilcera e excesso de peso, deixara que sua aparéncia se deteriorasse; outras tinham problemas graves de abuso de 16 xicos e/ou alcool, enxaquecas, distirbios gastrointestinais, pro- blemas de alimentacdo, dificuldades para dormir. O desempe- mho no trabalho muitas vezes fora afetado. Carreiras outrora promissoras haviam declinado. Mulheres antes competentes € bbem-sucedidas se descobriam a duvidar de sua capacidade ¢ jul- gamento. Ficavam deprimidas, ansiosas © tinham acessos de cchoro com freqiiéncia alarmante. Em todos os casos, esses pro- blemas comecaram a aparecer com a parceria ou casamento. A medida em que constatava que havia um padréo defi- nido nesses relacionamentos, comecei a discutir 0 assunto com colegas. Todas conheciam 0 tipo de homem que eu descrevia; todas j4 haviam tratado de mulheres que haviam sido casadas, estavam apaixonadas ou eram filhas de homens que se ajusta- vam & descricdo. O mais surpreendente para mim era o fato de, apesar dese comportamento tipico ser bastante conhecido, guém o descrever de mancira objetiva ¢ abrangente. A esta altura, comecei a rever a literatura psicolégica. Por causa da falta de sensibilidade do homem ao sofrimento que eausava & parceira, reexaminei primeiro os distirbios de caré- ter. As pessoas assim ttm pouca capacidade de sentir culpa, remorso ou ansiedade. Essas emogdes sfo incOmodas, mas in- 7 dicadores necessérios de nossas interagdes éticas e morais com outras pessoas. Eu sabia que havia dois grandes tipos reconhecidos de dis- térbios de carter. Primeiro, hé os narcisistas. S40 as. pessoas totalmente obcecadas por si mesmas. Tendem a manter rela- cionamentos basicamente para se certificar de que sAo mesmo especiais. Os homens que se incluem nessa categoria muitas vezes pulam a todo instante de um relacionamento para outro, em busca de amor e admiragéo. Alguns apelidos familiares para ‘esses tipos de homens so Peter Pan Don Juan. J4 foram cha- ‘mados de ““os homens que néo podem amar”. Os homens no relacionamento que eu pesquisava eram di- ferentes. Pareciam amar intensamente ¢, em muitos casos, se relacionavam ha longo tempo com a mesma parceita. Além disso, sua necessidade priméria divergia da do narcisista, pois eram homens que pareciam precisar controlar mais do que ne- cessitavam ser admirados. Na outra extremidade do espectro dos distérbios de caréter estavam os sociopatas, mais radicais © perigosos. Sao as pessoas que criam um turbilhio de caos em suas vidas. Usam © explo- ram qualquer um que entre em suas Grbitas, Mentiras © em- bustes constituem uma segunda natureza para eles. Podem va- iar de criminosos comuns a profissionais proeminentes ¢ bem- sucedidos que séo sistematicamente envolvidos nos crimes de colarinho branco. A caracteristica mais destacada dos sociop: tas € a total auséncia de consciéncia, Mas o homem que eu tentava definir era muitas vezes plenamente responsével e competente em suas relagGes com a sociedade, Seu comportamento destrutivo néo era generalizado, como acontece com 0 sociopata. Na verdade, era bastante diri- gido. Infelizmente era dirigido quase exclusivamente & parceira. Ele usava as palavras © as variages do temperamento ‘como armas. Embora tendesse a nio abusar da mulher em ter- ‘mos fisicos, sistematicamente a esgotava por golpes psicoldgi- cos, que, no final das contas, séo td devastadores em termos emocionais quanto a violéncia fisica. Especulei sobre o prazer pervertido que esses homens ex- perimentavam com a angistia ¢ sofrimento que causavam as suas parceiras, Seriam sédicos? Alinal, muitas pessoas com quem discuti essas descobertas garantiram que as mulheres envolvidas com tais homens eram casos cldssicos de masoquismo. Isso me deixou furiosa. Sabia que rotular @s mulheres, em relacionamentos doentios, de maso- ‘quistas — isto é, pessoas que procuram e desfrutam do soft mento — é wma prética comum hé muito tempo em minha profisséo © em nossa cultura. & uma maneira conveniente, mas extremamente perigosa, de tentar explicar por que tantas mu- Ihetes assumem um comportamento desprendido e submisso com os homens. Na realidade, as mulheres aprendem muito cedo esse comportamento, pelo qual sdo sempre recompensadas e elogiadas. O paradoxo, aqui, € que os comportamentos que tornam uma mulher vulnerével aos maus-tratos s#0 03 mesmos que a ensinam a ser feminina e adorével. O conceito de masoquismo € particularmente perigoso, porque serve para jus- tificar # agressio contra as mulheres — confirma que “é isso mesmo o que elas querem”. Conversando mais profundamente com os casais que acon- selhava, descobri que nada disso se aplicava aqueles casos, Em vez de obter prazer emocional ott sexual com o sotrimento da parceira, como acontece com 0 sédico, o homem que eu tentava definir sentiase ao mesmo tempo ameacado e enfurecido por esse sofrimento, A mulher nao era uma masoquista, assim como ‘© homem nao era um sédico. Ela néo tinha qualquer prazer se- creto, sextal ou emocional, com o tratamento abusivo do par- eeiro. Ao contrério, isso a desmoralizava de maneira conside- ravel. Mais uma vez, constatei que a terminologia ¢ as categorias psicolégicas nfo cram adequadas para descrever 0 que eu vi nesses relacionamentos. O homem que eu tentava definir nao constava da literatura psicolégica, era um sociopata, narcisista ou sédico bem definido, embora alguns desses elementos muitas vezes estivessem pre- sentes em seu caréter. A diferenga mais dréstica entre esse ho- mem € 05 desctitos na literatura psicolégica, era ele ser capaz de se envolver num relacionamento longo com uma s6 mulher. Na verdade, seu amor parecia bastante ardente e intenso. A parte trégica era que cle fazia tudo que podia para destruir a mulher que dizia amar to profundamente. Sei como terapeuta que as palavras “Eu amo vocé” nfo indicam necessariamente © que ocorre num relacionamento. Sei que € 0 comportamento € ndo as palavras que define a realida- de, Enguanto escutava os clientes, perguntava a mim mesm: 19 E assim que sc trata alguém que realmente se ama? Seré que ndo € assim que se trata alguém que se odeia? Lembrei a palavra grega para quem odeia mulheres: misé- ‘gino, de miso (odisx) e gyne (mulher). Embora a palayra cons- tasse da lingua hé muitos séculos, era geralmente usada para descrever genocidas, estupradores € outros homens que agiam com violéncia contra as mulheres. Sem dévida tais ctiminosos eram miséginos, no sentido mais letal da palavra. Mas eu estava convencida de que os homens que tentava definir eram também mis6ginos. $6 que as armas que eles escolhiam eram diferentes. Quanto mais eu aprendia sobre os miséginos ¢ os relacion: mentos miséginos, mais descobria sobre meus pacientes © tam- bém sobre meu marido, eu mesma e nosso casamento. Aquela altura, minha situagio em casa se tornara extremamente tensa. Descobria-me a inventar desculpas, no fim do dia, para néo ter de deixar o trabalho. Meus filhos viviam sob tensio e meu amor-préprio estava sempre por baixo. Se houvesse alguma literatura sobre os relacionamentos mis6ginos, meu marido e eu serfamos considerados um caso cléssico. Para ele, era sempre culpa minha se alguma coisa safa errads. Culpava-me por tudo, de seus problemas profissionais aos sapatos mal engraxados. Embora meu trabalho fosse a nossa principal fonte de rendi- mentos na ocasifo, ele zombava com freqiéncia da profissio Psicoterapéutica em geral, e de mim em particular. ‘Quanto mais cle me rotulava de egoista e indiferente, mais eu tentava apazigué-lo, pedindo desculpas, capitulando, ‘sabo- tando deliberadamente 0 progresso em minha carreira. Iniciara © casamento como uma pessoa jovial e dinémica; agora, 14 anos depois, sentia-me ansiosa e muitas vezes & beira das lagrimas. Descobrie-me a assumir um comportamento que nao podia su- pottar, pressionando-o ¢ interrogando-o constantemente, em ou- tros momentos caindo em siléncios soturnos e irados, em vez de enfrentar meus sentimentos em relagZo @ nosso casamento. Ocorreu entiio um incidente que fez pender a balanga para © meu lado — comecara a me especializar no trabalho com adultos que haviam sido violentados sexualmente quando crian- gas. Minha persisténcia em despertar a consciéncia piblica para questo jd atrafa alguma atengio. Recebi um contrato para ‘meu primeiro fivro, Betrayal of innocence: incest and its devas- tation. Corti para casa, ao encontro de meu marido, a fim de Partilhar a emogGo ¢ a satisfacdo. Mas, no instante em que pas- 20 sei pela porte, percebi que ele estava num dos seus maus dias. Compreendi que minhas boas noticias s6 serviriam para aumen- tar suas frustragoes. Por isso, fui para a cozinha sem dizer nada 1 respeito do livro, servieme de um copo de vinho e fiz um brin- de solitério para comemorar. Em vez de partilhar um momento alegre com o homem que tanto significava para mim, eu tive de esconder tudo, com medo de transtorné-lo. Foi ento que five certeza de que havia alguma coisa ter- rivelmente errada. Compreendi que meu marido ¢ eu — como 5 casais misdginos que aconselhava — precisévamos de ajuda externa para nossos problemas. Meu marido, no entanto, nao estava disposto a trabalhar seu comportamento ou nosso rela- cionamento, Por fim, angustiada, cheguei & conclustio de que nao podia mais continuar casada sem sucumbir por completo. © softimento pela tremenda perda se prolongou por muito tempo, mas, paralelamente, algo me acontecia, Descobri em mim enormes reservas de criatividade e de energia que antes nao estavam disponiveis, Nao demorou muito para que minha vida profissional ascendesse com destaque. Meu livro foi publicado, a clinica prosperava, passei a fazer um programa nacional de consultas pelo rédio. Descobri-me a lidar mais e mais, tanto no rédio como na clinica, com 0 mesmo tipo de opressio psicolé- zgica que vivera em meu casamento. Mulheres telefonavam para a emissora, contando-me que viviam esse drama por periodos que variavam de poucos meses a meio século. Muitas vezes, de- pois que elas descreviam apenas uns poucos incidentes revela- dores, eu fazia as perguntas seguintes sobre seus relacion ‘mentos: * Ele assume o direito de controlar como voct vive ¢ se comporta? * Renunciou a atividades ou pessoas importantes em sua vida para manté-lo feliz? '* Ele menospreza suas opiniGes, sentimentos e realizacGes? © Ele grita, ameaca ou se retira para um siléncio furioso quando vocé 0 desagrada? * Vocé “*pisa em ovos”, ensaiando o que diré, a fim de no itéslo? * Ele a deixa atordoada ao passar do charme para a raiva de forma inesperada? 24 '* Vocé se sente com freqiiéncia confusa, inadequada ou de- sequilibrada com ele? * Ele é extremamente ciumento e possessivo? * Ele a culpa por tudo que esté errado no relacionamento? Se elas respondiam “sim” & maioria das perguntas, eu sabia que estavam envolvidas com mis6ginos. Depois de esclarecer 0 que havia de errado em suas vidas, podia perceber o alivio em suas vozes, até mesmo pelo rédio. Convencida de que descobrira um importante distirbio psi- coldgico, resolvi fazer uma sondagem ainda mais profunda, di cutindo 0 assunto no A. M. Los Angeles, um programa de entre- vistas pela televisio, Em meu segmento, descrevi as titicas € comportamentos de um miségino tipico. No momento em que sai do ar, vérias mulheres da eq ‘técnica do programa me cercaram. Todas pareciam ter alguma espécie de experiéncia pessoal intima com esse tipo de homem, No dia seguinte, a rede informou que meu segmento recebera uma das maiores respostas em telefonemas de sua hist6ria, Nao muito tempo depois compareci @ outro programa de entrevistas pela televisio, em Boston. Desta vez passei uma hora inteira discorrendo sobre o assunto e houve uma reacio ainda maior. Quando comegaram a chegar cartas, do pais inteiro, com- Preendi que tocara num ponto nevrélgico. O senso de urgéncia has cartas ere tremendo. As mulheres queriam saber onde po- diam encontrar um livro sobre a misoginia. Queriam saber mais. Senti-me profundamente comovida com as mulheres que me escreveram € contaram suas histérias. Precisavam ser tran- iilizadas de que o que sentiam em seus relacionamentos no loucura”. Precisavam saber que no eram apenas “elas” — que havia outras pessoas que as compreendiam e ndo as de- finiriam com os termos negativos usados por seus parceiros. Suas reagées reforgaram ainda mais a minha convicgio de que reconhecer, esclarecer © compreender 0 que ocorre nesses relacionamentos, pode proporcionar um grande alivio do fardo opressivo da autoculpa, Soube, entdo, que tinha de escrever este livro — nao apenas para ajudar as mulheres a perceber 0 que Ihes estd acontecendo, mas também para ajudé-las 2 descobrir © que podem fazer a respeito. Antes que qualquer de nés possa mudar um relacionamen- to, precisamos compreender © que ocorre nele, Mas comprecn- era 22 der ndo é suficiente. A compreensio, por si mesma, € apenas um exereicio intelectual. Para que sua vida e scu relacionamento mudem, yoo’ tem de fazer alguma coisa de maneira diferente, no apenas pensar de maneira diferente. Para ajudé-la a conseguir isso, dividi este livro em duas partes. Na primeira, descrevo como esses relacionamentos fun- cionam ¢ por qué. Analisarci cada aspecto da interagao, dos co- megos roménticos € excitantes & confusio e & angtstia que cada ‘mulher apaixonada por um mis6gino acaba vivendo. Descrevo os préprios homens e como vieram a se comportar dessa ma- aeira. Também analiso como e por que as mulheres aprendem a aceitar o tratamento opressivo dos homens. Apresentarei diversos casais com que tive contato em minha clinica e acompanharemos alguns ao longo do livro. Como no deixar de ser, todos 0s nomes € caracte identifica- doras foram mudados, a fim de preservar # privacidade dessas pessoas. Mas as situagdes que experimentaram e as palavras que uusaram para descrevé-las slo tao fiéis quanto posso reproduzi-las, ‘Na segunda parte do livro apresento um conjunto de téc- nicas de comportamento eficazes que desenvolvi nos iltimos anos, Podem ser instrumentos para promover mudancas impor- tantes em seu relacionamento com 0 parceiro e consigo mesma. Essas técnices a ajudardo a se tornar mais autoprotetora, mais positiva ¢ eficiente, menos vulnerével & manipulacdo, confuséo perda de confianca que sempre ocorrem nos relacionamentos miséginos. Sei que o material deste livro pode despertar sentimentos fortes em vocé, quer esteja num relacionamento mis6gino ago- ra, recuperando-se de um no pasado ou preocupada com a pos- sibilidade de ser vulnerdvel a ele no futuro. Embora eu nao Possa estar a0 seu lado pessoalmente no inicio dessa jornada, quero que saiba que terd meu respeito, meu carinho © meu estimulo a cada passo do caminho. 23 PARTE I HOMENS QUE ODEIAM SUAS MULHERES O HOMEM MAIS ROMANTICO DO MUNDO E a paixio @ la Rodgers Hammerstein.* Voc? 0 vé do outro Jado de uma sala apinhada, os olhos se encontram, uma certa emogio a invade. As palmas das méos ficam tmidas quando ele se aproxima; 0 coragdo bate mais deptessa; tudo em seu ‘corpo parece estar mais vivo. E o sonho de felicidade, realiza- do sexual ¢ perfeigao. Aquele homem vai améla ¢ ser respon- sdvel por voc8. S6 estar perto dele jd ¢ emocionante ¢ maravi- Ihoso, Quando acontece, € irresistivel. £ 0 que chamamos de amor romantica, Rosalind tinha 45 anos quando conheceu Jim, F uma mu- her atraente, alta, com cabelos castanho-avermelhados ¢ um corpo esguio, que se empenha com afinco em manter a forma. Tem um estilo caracteristico de se vestir que ressalta sua altura ¢ seu talento artistico, ‘Tem uma loja de antigiiidades ¢ é uma bem-sucedida negociante, colecionadora ¢ avaliadora de objetos de arte, sua especialidade. Rosalind j4 foi casada duas vezes © tem um filho crescido, Ficou excitada com a possibilidade de conhecer Jim, porque ouvira falar muito a seu respeito, por intermédio de amigos. Levaram-na para ouvilo tocar com um grupo de jazz. Depois, quando se encontraram para um drinque, Rosalind sentiuse bastante atrafda por Jim, que era alto, mo- reno ¢ de 6tima aparéncia, “Jim e eu nos sentimos bastante atraidos um pelo outro. Conversamos sobre criangas e miisica. Ele me disse que + Autores ameticanos de indmeros sucestos mpsicais como Show boat © A noviga rebelde. 27 jé fora casado © que os dois fillos viviam com ele. Fiquei impressionada com isso. Mostrou-se interessado quando fa- lei sobre minha loja de antigtidades, porque estava refor- ‘mando alguns méveis ¢ queria conhecer 0 mercado em geral. Perguntou se poderiamos nos encontrar na noite se- guinte..Quando chegou a conta, percebi que ele nfo tinha muito dinheiro © por isso propus fazer um jantar em minha casa. Jim pegou minha mio e apertou.a, fitou-me nos olhos Por um momento. Era evidente que estava agradecido por eu ter compreendido sua situagéo. No dia seguinte pensei nele constantemente. Aquela noite foi maravilhosa. Depois do jantar, pus na vitrola a misica de A star is born (Nasce uma estrela), pois sou uma tola romantica. E la estévamos nds, dancando, em minha sala de estar. Jim me apertava e 0 mundo girava ao meu redor. Aqui esté o homem que gosta realmente de mim, que é forte, que esté disposto a consolidar um relacionamento. Todas essas coisas me passaram pela cabeca enquanto flu. tuava com Jim, sentindomme maravilhosa. Era a coisa mais romintica que j4 me acontecera.” Jim tinha 36 anos quando conheceu Rosalind. Ficou téo enlevado por ela quanto Rosalind pelo romance entre os doi era a mulher que estivera procurando por toda a sua vida. Mais tarde, ele me contou: “Ela era linda e tinha um corpo sensacional. Tinha 0 seu proprio negécio ¢ ganhava a vida por si mesma, Criara 0 filho € parecia ter feito um bom trabalho. Eu jamais co- mhecera alguém como ela, Rosalind era extrovertida e exu- berante, entusiasmada com tudo o que eu fazia em minha vida, até mesmo por meus filhos. Era perfeita. Comecei a Procurar meus amigos para falar a seu respeito. Falei até com minha mie. Posso dizer que nunca antes me sentira assim. Nunca pensara tanto em ninguém, nunca sonhara com outras mulheres como sonhava com Rosalind. Era mesmo diferente.” Depois do terceiro encontro, Rosalind comegou a esctever Seu nome com o sobrenome de Jim, s6 para ver como ficava Cancelava compromissos sociais com medo de perder os telefo. 28 Nar ER nemas de Jim; e ele nunca a desapontou. Em vez de se compor- tar como um “‘homem tipico”, Jim ficow tao envolvido quanto ela, Sempre ligava quando dizia que ia fazt-lo — nada de es- perar semanas pelo telefonema de um homem — e nunca pés seu trabalho acima da necessidade de vé-la. Juntos, estavam via- jando numa excitante montartha-russa emocional. © namoro vertiginoso de minha cliente Laura comecou li- teralmente “através de uma sala apinhada”. Na ocasiZo, ela era uma bem-sucedida executiva de propaganda, trabalhando na conta de uma grande firma de cosméticos, uma mulher muito bonita, de cabelos castanho-claros, olhos escuros amendoados € corpo esbelto, Tinha 34 anos quando conheceu Bob. Estava jantando com uma amiga em um restaurante. “Fui dar um telefonema ¢ quando voltei & mesa Ié estava aquele homem muito bonito, conversando com minha ami- ga, Ele me notara e esperava que eu voltasse. Houve uma descarga elétrica entre nés desde aquele primeiro momento. Creio que nunca me senti tao atraida por um homem antes, em toda a minha vida. Bob tinha aqueles othos faiscantes ‘a que nunca pude resistir. Fiquei tio fascinada que mal po- dia esperar 0 momento de levé-lo para a cama. Safmos na noite seguinte, em nosso primeiro encontro 1 86s, Bob levou-me a um restaurante pequeno e adoravel, a beira-mar, encartegou-se de fazer os pedidos. E um desses homens que sabe tudo de vinhos e comidas, algo que adoro ‘num homem. Parecia interessado em tudo a meu respeito — 0 que eu fazia, como me sentia em relagao as coisas, de que gostava. Falei e falei, Bob ficou sentado ali, me fitando com aqueles olhos eletrizantes, absorvendo cada palavra do que eu dizia, Depois do jantar, fomos para meu aparta- mento, ficamos escutando miisica ¢ eu acabei seduzindo-o. Ele é um auténtico cavalheiro, Adorei isso nele. E & claro que 0 sexo com Bob foi maravilhoso. Eu me senti mais li- gada a ele do que jamais estivera com qualquer outro ho- mem, em toda a minha vida.” Bob tinha 40 anos, trabalhava como representante de ven- das de um fabricante de roupas. Disse a Laura que se divorciara no ano anterior. Depois de um més de relacionamento, ele ¢ 29 Laura foram viver juntos © comesaram a falar em casamento. Quando ele a apresentou a seus dois filhos pequenos, houve uma simpatia mitua imediata. A devocio ébvia de Bob aos fillos fez com que Laura se sentisse ainda mais atrafde. © romance de Jackie ¢ Mark comegou com um encontro surpresa, marcado sem que se conhecessem pessoalmente. Tor- now-se um envolvimento sério naquela mesma noite. Jackie as- sim me descreveu: “Abri a porta e deparei com aquele homem incrivelmente bonito, parado ali, Ele apenas sorriu. E suas primeiras pa- lavras foram: “Posso usar seu telefone?” Pisquei aturdida € disse que sim. Ele pegou o telefone, ligou para o cara que promovera 0 nosso encontro e disse: “John, vocd es- tava certo. Ela € tudo 0 que vocé disse.” E esse foi apenas © comeco da noite!” Jackie era uma muther pequena e vigorosa, com 30 anos, quando conheceu Mark. Trabathava como professora numa es. cola priméria, sustentando os dois filhos de um casamento an- terior, enquanto fazia doutorado. Mark tinha 38 anos e concor. era recentemente a um cargo piiblico. Jackie se lembrava de ter visto o seu retrato em cartazes espalhados pela cidade. Ficou ‘muito impressionada com ele ¢ lisonjeada por suas atencdes. “Estavamos jantando com John, que nos apresentara, ¢ stia esposa. Ela virou-se para mim e disse: “Sei que vooés aca- baram de se conhecer, mas devo dizer que nunca vi duas pessoas que paregam combinar to bem.” Depois, ela pe- gowme a mio ¢ acrescentou: “Vocé vai casar com esse ho- mem.” Mark acenou com a cabega ¢ me disse: “Preste atengdo ao que ela esté dizendo. E uma garota muito es- perta.” Mais tarde, ele me sussurrou: “Vocé tem um pro- blema e seu nome € Mark.” Soltei uma risada e indaguei: “Por qué? Pretende me acompanhar por muito tempo?” Ao que ele respondeu: “Pode estar certa que sim.” Naquela noite, quando chegamos a minha casa, ficamos sentados lum pouco no carro. Mark me beijou e disse: “Sei que pa- rece absurdo, mas a verdade € que estou apaixonado por voo8.” Isso € que € ser romantico! 30 Na manhii seguinte, quando ele me telefonou, eu disse ‘que nio Ihe cobraria nada do que dissera na noite anterior. E sua resposta foi: “‘Quero que saiba que reitero tudo que falei Daquela noite em dianté, Jackie teve a sensagio de estar ‘num tapete magico. O fato de Mark se apaixonar por ela tao depressa ¢ to completamente a deixava atordoada. ADORAMOS O ROMANCE (© romance faz com que uma mulher se sinta maravilhose. ‘As emogGes e sensagées sexuais alcancam um nivel febril e no comeso a intensidade pode ser irresistivel. O relacionamento pode afetéla como uma droga alucindgena; “‘estar nas nuvens a maneira como muitas mulheres 0 descrevem. © corpo pro- duz uma tremenda quantidade de substincias quimicas, que contribuem para a “paixao maravilhosa” de que muitas pessoas falam, A ilusto, obviamente, & que vamos nos sentir assim para sempre, Durante toda a vida nos dizem que 0 amor romintico tem poderes mégicos para nos tomar plenas ¢ felizes como mu- Theres. A literatura, a televiséo © 0 cinema ajudam a reforcar essa convicgio, O paradoxo € que até mesmo o relacionamento tmis6gino mais destrutivo comega com toda essa emovio © ex- pectativa. Apesar das agradaveis sensagdes do inicio, quando Rosalind foi me procurar era um destrogo nervoso e sua loja de antigiiidades, antes préspera, estava & beire da faléncia; Lau- ra, a ex-publicitéria, estava tio desmoralizada que tinha certeza de que nunca mais seria capaz de ccupar outro emprego; & Jackie — que com tanto sucesso conseguia dar aulas, estudar & ccriar dois filhos — descobriasse em meio a um colapso nervoso, desatando a chorar pelos menores incidentes. © que acontecera com o romance lindo ¢ emocionante que caracterizara o inicio desses relacionamentos? Por que essas mulheres acabaram to magoadas e desiludidas? 31 NAMOROS VERTIGINOSOS Creio que hé uma sensagao de perigo latente no ar sempre que um romance avanga tio depressa quanto esses. O perigo pode aumentar a excitagdo © 0 estimulo do relacionamenio. Quando se anda a cavalo, um trote é bastante agradavel, mas nada tem de muito interessante; a emogdo esta no galope. Parte dessa emopdo € 0 conhecimento de que alguma coisa inesperada pode ocorrer — pode-se cair da cela, se machucar. & a mesma sensagio de emogio © perigo que todas as pessoas tém em crianga ao andar na montanha-russa. E vertiginosa, é excitante © proporciona uma sensagio de tisco. A partir do momento em que se acrescenta o elemento de intimidade sexual, a velocidade © a intensidade das emogées tornam-se ainda maiores. Voc# nao passa pela progressio nor- mal de descoberta com seu novo amante, porque nio hé tempo suficiente. O novo parceiro tem muitas qualidades que vdo afe- tar sua vida — qualidades que nao podem ser percebidas ime- diatamente, Leva tempo para que ambos os parceiros desen- volvam a abertura, confianga e honestidade que so necessérias Para um relacionamento sdlido. Um namoro vertiginoso, por mais emocionante que possa ser, tende a proporcionar apenas 4 pseudo-intimidade, que ¢ endo erroneamente encarada como uma unizo auténtica, ANTOLHOS ROMANTICOS A fim de se saber como é de fato 0 novo parceiro, € pre- iso que o relacionamento avance mais devagar. Leva tempo Para percebermos os outros de maneira realista, a ponto de po- dermos reconhecer ¢ aceitar tanto as suas virtudes como as de- ficiéncias. Num namoro vertiginoso, as correntes emocionais so to répidas e fortes que sufocam as percepgdes dos parcei- 0s. Qualquer coisa que interfira na imagem do novo amor como “ideal” € ignorada ou bloqueada. E como se os parceiros esti- vessem usando antolhos. Tratamos de observar intensamente a ‘maneira como a outra pessoa est nos fazendo sentir, em vex de tentar descobrir quem essa pessoa realmente é. A Iégica no Péira por ai: jé que ele me faz sentir maravilhosa, entao ele deve ser maravilhoso, 32 Nw | Laura e Bob foram arrebatados pela quimica fascinante ‘que sentiram nos primeiros encontros. Essa quimica tinha muito ouco a ver com o que cada um era como pessoa. O éxtase des- ctito por Laura no se relacionava com o cardter de Bob, mas sim com seus olhos, a maneira como se movimentava © como pedia vinho num restaurante. Ela nunca disse: “Ele era um homem sincero e digno.” Bob preenchia para ela o papel do amante romfintico perfeito os dois foram envolvidos pela se- dugéo © atragéo irresistivel do momento, A primeira indicagio que Laura teve de que poderia haver dificuldades, ocorreu logo depois que comesou a viver com Bob. “Saimos uma noite e ele disse: “Tenho uma coisa para the dizer. Ainda ndo me divorcici.” Quase cai da cadeira, por- que ja estévamos fazendo planos para o casamento! Ele acrescentou: “Eu me sentia divorciado e por isso achei que ndo fazia muita diferenga.” Fiquei tio chocada que néo consegui falar. Limitei-me a olhar fixamente para ele. Bob explicou que a aydo de divércio jé fora iniciada, estava cuidando de tudo, eu nfo precisava me preocupar. Com- preendi que ele me mentira desde 0 inicio — chegara a ‘mencionar datas coisas assim — mas ndo parecia to im- portante. Afinal, 0 que importava no ere 0 fato de Bob ter mentido, mas sim que estava pedindo o divércio.” A mentita de Bob deveria ter sido um alerta para Laura de que precisava conhecé-lo melhor, mas cla ndo queria ver. Preferia acreditar que Bob era o homem dos seus sonhos. Jackie também recebeu uma adverténcia bem cedo. No comeso do relacionamento, Mark Ihe falou muita coisa a res- peito de si mesmo e de suas atitudes em relagéo as mulheres, mas as informagdes vinham embutidas em lisonja e por isso Jackie nfo Ihes deu maior atengao. “Ele me disse que todas as outras mulheres com quem se envolvera sO queriam saber de uma coisa: “O que voce pode me dar?” © que achava especial em mim era eu estar interessada no que podia dar a ele. Mark comentou que era como se eu tivesse nascido e existisse s6 para cuidar dele. Todas as outras mulheres s6 tiravam e titavam, 56 33

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