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A Experiência Estética Na sua vida, a arte teve sempre um lugar eminente; frequenta re­

A Experiência Estética

Na sua vida, a arte teve sempre um lugar eminente; frequenta re­ gularmente os museus, ouve muito música. Em compensação, na sua obra, esta dimensão da experiência humana está singularmente ausente, se exceptuarmos as suas análises da literatura, em Tempo e Narrativa. Quais são, em primeiro lugar, os seus gostos?

Tenho uma grande admiração pela arte do século xx:

na música, a minha predilecção vai para Schonberg, Berg, Webern e to�a esco�de Viena; na pimurá;·referiria âe

:füi,mgradoê_oula �s, Manessie_&. Bazaine.t fas são os exem­

plos que me vêm imediatamente ao espírito e poderia logo

invocar uma quantidade de outros: Mondrian, Kand�nsky !

Klee, Miró

Voltei há pouco tempo ao museu Peggy

·cGggenhe1m, em Veneza. Vi aí vários admiráveis Pollock, um

'

BaCQf!_t mbém um Chaga� Tenho uma verdadeira paixão por Chagall; perante as suas telas, tenho sempre a sensação de uma reverência; reverência perante a mistura de sagrado e_g� ir5mia que só é própria d�!e: casais que flutuam, um

r2-.bin.Q_v.9ªdor, ª"lgllres a um canto um burro, um tocador

de viola

Mas nada se deve excluir da nossa admiração;

é preciso até aprender de certa maneira a gostar de tudo. Resisti durante muito tempo à pintura clássica, e depois fui

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A CRÍTICA E A CONVICÇÃO

ver _ g_ rande �osi,ç_�Pouss� que teve lugar em Paris·�m

� decerto,�ompletament : diferente de,� ollod(ou

a reservado e o pressuposto narrativo

\q;:tg(àioria das telas. E preciso poder identificar as hi11_t9_!"i?;S

r�pr,esentadas. Mas o olhar educado pela pintura não figu­ rativa apenas consegue ver o jogo extraordinário d ª- core

�o desenho e o perfeito equilíbrio entre ambos. Aliás, li no

va empre a Poussin,

1994

:

Bazan _si.

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-*" r catálogo ? ª : _ l ?_ S ! Çã

ª . º preceptor_

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_ � ue _ Picass ? V ? lt

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· Gosto também fnuito da estatuária: Lipschitz, Arp, Pevsner

e o admirável Brancusi. É verdade qu;-muitas vezes é difícil

ma10r da arte de pmtar.

a esta arte descolar-se, _d o figLÍ1·at1vo; mas, quando tal COllS�­ ��<b _ Q��j_�iticf o "� absolutamente extrao_rçlinário. Penso, por exemplo, nas grandes esculturas de !i�nry Moore, onde o corpo humano-o corpo feminino em particular-é tratado de maneira constantemente alusiva. E pela mesma acção dizem-se do corpo coisas que não correspondem a nenhuma descrição anatómica, mas que, em compensação, induzem possibilidades relacionais inexploradas, tornam possível o desenvolvimento de sentimentos inéditos: de plenitude e de fecundidade, evidentemente, mas é ainda dizer muito pouco; de vacuidade, mais estranhamente, no caso das figuras ocas que podemos percorrer e et0o efeito é absolutamente espan­ toso. Estamos aqui num universo onde reina a polissem�

)

penso em particular numa das suas esculturas, Atom Piece, que se encontra em Chicago, perto da biblioteca universi­ tária, no sítio onde teve lugar a primeira reacção em cadeia controlada. A escultura consiste numa esfera explodida que

/ [ tanto pode representar o crânio de um sábio como um átomo

1'-Jeste caso, a polissemia_ é

por-si mesma. Estamos em pre­

sença de uma intenção de significar que vai muito além do acontecimento, que procura reunir todos os aspectos que es­ tariam dispersos em descrições: descrição dos protagonistas -

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q

e

explode ou a própria

evi��-f.l.t!':�ent� procurada

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A EXPERIÊNCIA ESTÉTICA

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o átomo ou o sábio -, descrição dos acontecimentos - a

explosão nuclear ou o átomo ainda inerte. Existe na obra a

capacidade de tornar mais densos todos estes aspectos, de os

intensificar ao condensá-los. Ç.

falamos, só podemos

distribuir a polissemia segundo eixos de linguagem diferentes

� dispersaS:-S-ó-aobrã-os reúne.

Mas não estaremos, nesse caso preciso, à beira dofigurativo do qual desejava que a escultura se libertasse?

Se quisermos, mas seria antes polifigurativo, na medida em que esta arte excede os recursos clássicos do figurativo.

aspectos densificados

da linguagem, como a metáfora, bnde vários níveis de signi­ ficação são mantidos em cortju to numa mesma expressão. A obra de arte pode ter um efeito comparável ao da metáfo­ ra: integrar níveis de sentido empilhados, retidos e contidos juntamente. - °-?.�ª _de arte é, �ssim, para mim, a ocasião de descobrir ���ctos da linguag.em,_que a sua prática usual e a sua função instrumentali_z,!_dad.rsgmunicação vulgarmente dissimulam. _AQbr_;_d�ªrt� cl_�_S!lU9-3,J2_ rQ_)2riedaçles da linguage_m que, de �-®_modo, permaneceriam invisíveis e inexploradas.

Aproximar-nos-íamos assim de--

invisíveis e inexploradas. Aproximar-nos-íamos assim de-- Pensa sem dúvida nas análises de Tempo e Narrativa, de

Pensa sem dúvida nas análises de Tempo e Narrativa, de que nos falou numa sessão precedente.

Foi efectivamente pelo tema do narrativo que, até hoje, abordei a estética. Como disse, o narrativo dera-me ocasião de tomar posição sobre um problema que não podemos resolver nem com as línguas artificiais nem sequer com a linguagem vulgar: a du la vertent<:_j signo. Por um lado, o signo não é a coisa, está em retirada em relação a ela e eii.gend _ :a; por isso, uma ordem nova que se ordena nu�a

não é a coisa, está em retirada em relação a ela e eii.gend _ :a; por