Técnico burro, Pibão e Bolsa-Morte

Alceu A. Sperança

Nunca se viu tanto protesto no Brasil quanto nos últimos tempos. Vão lá e metem bronca, no duro. Atacam os dirigentes dos clubes para os quais torcem. Ofendem os jogadores. Até danificam o patrimônio do clube. Em Curitiba, os aloprados conseguiram proibir o Coxa de mandar jogos em casa.

Mas não se vê protesto contra a caríssima tarifa do transporte coletivo, o mau uso dos recursos públicos e as carências gritantes na infraestrutura. Até criticam levemente a corrupção, o ficha-suja e a impunidade. Suave, como quem acaricia, já que não atribuem nada disso ao capitalismo. Então vem lá o instituto de pesquisa e o cidadão, indignado com o jogador que perdeu o pênalti, dá ao mau governante um atestado de “excelente”, “ótimo”, “bom” e “regular”, que, no fim das contas, quer dizer uma ou as duas coisas: “nem ligo” ou “tô nem aí”. No caso da grave crise mundial, governos “ótimos” e “bons” metem a mão nos recursos do povo e os enfiam em empresas quebradas, cujos gerentes, nariz empinado, apenas queriam que o povo se explodisse. E se explodiam, nos juros, nos impostos elevados, nos preços caríssimos ao consumidor. Mas banqueiro quebrou, governo socorreu. E todos continuam a faturar os tubos com papeis regiamente remunerados, com nosso dinheiro, é claro, pelo governo do “cara”. Cara que, segundo Delfim Neto, salvou o capitalismo. E salve-se quem puder! O que acontece quando os “caras” socorrem os grandes capitalistas com o dinheiro do povo? Ocorre o óbvio: o técnico do time é burro. Não é burrice elevar os impostos e cortar gastos de programas sociais e infraestrutura? Com isso o crescimento nacional fica deprimido, ora! Inteligente seria tributar o capital, mas ninguém vai fazer isso depois de ganhar um afago e ser chamado de “o cara” pelo patrãozinho, sinhô. Como não vai fazer o que devia, nem aqui nem na Europa, a conta vai para o povo,

mais uma vez, com a elevação do custo de vida e a inflação. Essas coisas que os “caras” nem dão bola mas matam o povo de tanto trabalhar e sofrer. Vale a pena resolver os problemas de endividamento do setor privado socializando os prejuízos privados e endividando o setor público? Certo que não. Isso é um desastre pior que não convocar gansos ou marrecos. Esses “técnicos” só fazem burrices, embora sejam “ótimos” e “bons” nas avaliações dos institutos de pesquisa. Menos complacentes, especialistas honestos como Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff deixaram bem claro, no livro Desta Vez é Diferente (This Time is Different: A Panoramic View of Eight Centuries of Financial Crises, 2008), que horrores como esses dão historicamente em recuperações econômicas lentas e anêmicas por muitos anos. Agora que o Brasil arrancava para fazer um golaço, que seria um índice de “crescimento chinês”, beirando os 13%, vem lá o pelotão de choque do governo e manda sossegar o facho: se o Brasil crescer mais, a inflação dispara, os apagões aumentam e as campanhas salariais explodem em greves por todo o País. Assim, quem vai crescendo no Brasil é a Dona Morte. Em 2009 foram gastos R$ 101,6 bilhões com pensões, montante 3,5 vezes superior à média gasta pelos países ricos. A facilidade do acesso a esse tipo de pensão no Brasil é como que uma “Bolsa-Morte” para os enlutados. “Mamãe foi desta para melhor, mas em compensação eu ganhei mais grana para o caro ingresso do jogo do meu time e poder chamar o técnico de burro!” Morrer, portanto, está movimentando a economia e aumentando o PIB, Pibão, para os íntimos: os vermes agradecem. alceusperanca@ig.com.br .... Jornal O Paraná, 15/6/2010

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