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  A EFICÁCIA DA DESCARACTERIZAÇÃO MINERALÓGICA ENQUANTO CRITÉRIO TEMPORAL DA HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA DA CFEM
  A EFICÁCIA DA DESCARACTERIZAÇÃO MINERALÓGICA ENQUANTO CRITÉRIO TEMPORAL DA HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA DA CFEM
 

A EFICÁCIA DA DESCARACTERIZAÇÃO MINERALÓGICA ENQUANTO CRITÉRIO TEMPORAL DA HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA DA CFEM

Tiago de Mattos Silva 1 Paulo Honório de Castro Júnior

1. INTRODUÇÃO

Diversos temas relacionados à Compensação Financeira pela Exploração dos Recursos Minerais (“CFEM”) – receita originária da União que visa a efetivar a participação do Esta- do Brasileiro no resultado da atividade minerária – deman- dam maior atenção da doutrina e jurisprudência, sobretudo por força da insegurança a que estão submetidos os minera- dores no que tange às regras que disciplinam a sua incidência.

A referida insegurança é intensificada em virtude de a CFEM ser sujeita ao chamado “lançamento por homologação” ou “autolançamento” 2 , em que o minerador possui o dever de,

1 Tiago de Mattos. Sócio do William Freire Advogados Associados. Professor de Direito Minerário do IBDM, Instituto de Altos Estudos em Direito – IAED, Centro Universitário UNA e Centro de Atualização em Direito-CAD. Paulo Honório. Advogado no William Freire Advogados Associados. Vice-Presiden- te do Instituto Mineiro de Direito Tributário - IMDT.

2 Decreto nº 01/91: “Art. 16. A compensação financeira pela exploração de substâncias minerais será lançada mensalmente pelo devedor. Parágrafo único. O lançamento será efetuado em documento próprio, que conterá a descrição da operação que lhe deu origem, o produto a que se referir o respectivo cálcu- lo, em parcelas destacadas, e a descriminação dos tributos incidentes, das despesas de transporte e de seguro, de forma a tornar possível suas corretas identificações”.

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incidentes, das despesas de transporte e de seguro, de forma a tornar possível suas corretas identificações
incidentes, das despesas de transporte e de seguro, de forma a tornar possível suas corretas identificações
  por sua conta e risco, apurar e recolher a exação aos cofres pú- blicos.
  por sua conta e risco, apurar e recolher a exação aos cofres pú- blicos.
 

por sua conta e risco, apurar e recolher a exação aos cofres pú- blicos. Posteriormente, compete ao Departamento Nacional de Produção Mineral (“DNPM”) fiscalizar a correção do procedi- mento adotado pelo minerador e, eventualmente aferido reco- lhimento a menor, constituir contra ele a parcela do crédito supostamente inadimplida. Inexistindo certeza e previsibilidade quanto às regras que determinam a incidência da CFEM e, desse modo, a sua apuração e recolhimento pelo minerador, a consequência observada é a nefasta insegurança jurídica, causa de inúmeros lançamentos que, muito em breve, inundarão o Poder Judiciário com novos litígios.

Dentre os temas polêmicos a respeito da CFEM, en- contra-se a eficácia da descaracterização mineralógica en- quanto critério temporal da sua hipótese de incidência.

Apesar de expressamente previsto no art. 14, III, do Decreto nº 01/91 como critério temporal da hipótese de in- cidência da CFEM, o instituto da descaracterização mineralógica tem sido considerado ineficaz pelo DNPM. Tanto em suas decisões administrativas, como nas deman- das judiciais, a Autarquia e sua Procuradoria defendem a tese de que apenas a inclusão da substância mineral no cam- po de incidência do Imposto sobre Produtos Industrializa- dos (“IPI”) seria critério válido de antecipação do momento de ocorrência do fato gerador da CFEM, uma vez que, por não existir norma que explicite o que seja a descaracterização mineralógica, sua norma instituidora possuiria eficácia li- mitada, o que tornaria impossível a aplicação do instituto.

O presente trabalho investigará a hipótese de que a tese defendida pelo DNPM a respeito da descaracterização mineralógica enquanto critério temporal da hipótese de inci- dência da CFEM é frágil, principalmente porque (i) o conceito

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enquanto critério temporal da hipótese de inci- dência da CFEM é frágil, principalmente porque (i) o
enquanto critério temporal da hipótese de inci- dência da CFEM é frágil, principalmente porque (i) o
  do instituto em exame é técnico (e não jurídico), dado pela Geologia e Engenharia
  do instituto em exame é técnico (e não jurídico), dado pela Geologia e Engenharia
 

do instituto em exame é técnico (e não jurídico), dado pela Geologia e Engenharia de Minas, de onde deve ser importado pelo Direito; (ii) e, ainda que assim não fosse, o próprio DNPM já regulamentou a matéria adequadamente – contrariamente ao que tem manifestado –, viabilizando a sua aplicação.

2. A COMPENSAÇÃO FINANCEIRA PELA EXPLORAÇÃO DE RECURSOS MINERAIS – CFEM

O art. 20, §1º, da CF/88 3 assegura aos Estados, Distri- to Federal e Municípios, bem como a órgãos da administra- ção direta da União, a participação no resultado da explora- ção mineral ou respectiva compensação financeira.

Com base na competência privativa outorgada à União para legislar sobre jazidas e minas 4 , foi instituída a CFEM, por meio da Lei nº 7.990, de 28 de dezembro de 1989, exação que visa a efetivar a participação da União e demais Entes Federados no resultado da atividade minerária. Também foram editados a Lei nº 8.001/90 (a qual define a base de cálculo e os percentuais da distribuição da CFEM) e o De- creto nº 01/91 (que regulamenta o seu recolhimento). Embora criada com a denominação de Compensação Financeira, a CFEM está estruturada como participação no

3 “Art. 20. São bens da União:

[…] § 1º - É assegurada, nos termos da lei, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Muni- cípios, bem como a órgãos da administração direta da União, participação no resulta- do da exploração de petróleo ou gás natural, de recursos hídricos para fins de geração de energia elétrica e de outros recursos minerais no respectivo território, plataforma continental, mar territorial ou zona econômica exclusiva, ou compensação financei- ra por essa exploração”.

4 Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre:

[ ] XII - jazidas, minas, outros recursos minerais e metalurgia”.

 

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privativamente à União legislar sobre: [ ] XII - jazidas, minas, outros recursos minerais e metalurgia
privativamente à União legislar sobre: [ ] XII - jazidas, minas, outros recursos minerais e metalurgia
  resultado da atividade. Esta conclusão é pacífica na doutri- na 5 e na jurisprudência
  resultado da atividade. Esta conclusão é pacífica na doutri- na 5 e na jurisprudência
 

resultado da atividade. Esta conclusão é pacífica na doutri- na 5 e na jurisprudência 6 , não havendo que se falar que seria indenização, preço público ou tributo. Portanto, trata-se de receita originária da União, de relação jurídica regulamen- tada pelo Direito Administrativo.

A CFEM configura típica obrigação ex lege (decorren- te de lei e não da vontade das partes, visto que foi instituída pela Lei nº 7.990/89), e pode ser perfeitamente analisada sob o enfoque da Teoria da Norma 7 . Ou seja, pode ser per- feitamente dividida em um antecedente e um consequente normativo, compostos pelos critérios material, espacial, tem- poral, pessoal e quantitativo, conforme elucida o quadro abaixo, que conjuga os enunciados extraídos das Leis nº 7.990/89 e 8.001/90 e do Decreto nº 01/91 (a despeito da problemática concernente à sua legalidade):

(a despeito da problemática concernente à sua legalidade): 5 “ Trata-se, a compensação financeira ou a

5 Trata-se, a compensação financeira ou a participação nos resultados, de obrigação de direito financeiro assumida pelos contratantes, como estabelecido ex lege, sem revestir a natureza de obrigação tributária ou forma de indenização. As receitas originárias são as que o Estado arrecada através da exploração do seu patrimônio, mediante atividades vári- as, inclusive econômicas”. TORRES, Heleno Taveira. A compensação financeira (art. 20, §1º. CF) na discriminação constitucional de renda – Regime jurídico e aspectos tributários. Revista da ADBT, p. 127.

6 STF, RE 228.800-5/DF, Primeira Turma, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, DJ 16.11.2001, p. 21.

7 Trata-se simplesmente de compreender a CFEM enquanto norma jurídica que, a partir de uma hipótese (fato jurígeno), prescreve uma consequência jurídica ou

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enquanto norma jurídica que, a partir de uma hipótese (fato jurígeno), prescreve uma consequência jurídica ou
enquanto norma jurídica que, a partir de uma hipótese (fato jurígeno), prescreve uma consequência jurídica ou
  2.1. Hipótese de Incidência A Lei nº 7.990/89 8 dispôs que a obrigação de
  2.1. Hipótese de Incidência A Lei nº 7.990/89 8 dispôs que a obrigação de
 

2.1. Hipótese de Incidência

A Lei nº 7.990/89 8 dispôs que a obrigação de recolher a CFEM surge quando verificada a exploração de recursos mi- nerais para fins econômicos, configurando-se a sua hipótese de incidência até a última etapa do processo de beneficiamento e antes de sua transformação industrial.

O critério temporal da hipótese de incidência, por sua vez, foi eleito como a saída por venda do produto mineral.

Com efeito, apesar de considerar-se ocorrido o fato gera- dor da CFEM (critério temporal) com a saída por venda do produto mineral, o art. 15, do Decreto nº 01/91 9 (de contestá-

“dever ser” (no caso, recolher dinheiro aos cofres públicos). Nesse sentido, ensi- na PAULO COIMBRA:

A despeito de não se cuidar, nesse capítulo, da CFEM como tributo ou de sua classifica- ção como qualquer outra categoria jurídica, não se deve desprezar, porquanto deveras útil mesmo aos demais ramos da ciência jurídica, o grande avanço da tributáristica pátria no estudo da estrutura normativa. [ ] Sem margem a dúvidas, a norma instituidora da CFEM é também composta por dois elementos estruturais – um antecedente e um consequente. Muito embora sejam partes integrantes de um único ente lógico-normativo, revela-se conveniente à melhor compre- ensão da exação em foco o estudo minudente de cada uma delas isoladamente, sob seus diferentes prismas”. SILVA, Paulo Roberto Coimbra. A CFEM à Luz da Teoria da Norma. In: SILVA, Paulo Roberto Coimbra (Coord.). Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais: natureza jurídica e questões correlatas. São Pau- lo: Quartier Latin, 2010, p. 46-47.

8 “Art. 6º A compensação financeira pela exploração de recursos minerais, para fins de aproveitamento econômico, será de até 3% (três por cento) sobre o valor do faturamento líquido resultante da venda do produto mineral, obtido após a última etapa do processo de beneficiamento adotado e antes de sua transformação industrial”.

9 Art. 15. Constitui fato gerador da compensação financeira devida pela exploração de recursos minerais a saída por venda do produto mineral das áreas da jazida, mina, salina ou de outros depósitos minerais de onde provêm, ou o de quaisquer estabelecimentos, sempre após a última etapa do processo de beneficiamento adotado e antes de sua transfor- mação industrial. Parágrafo único. Equipara-se à saída por venda o consumo ou a utilização da substância mineral em processo de industrialização realizado dentro das áreas da jazida, mina, salina ou outros depósitos minerais, suas áreas limítrofes ou ainda em qualquer estabelecimento”.

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jazida, mina, salina ou outros depósitos minerais, suas áreas limítrofes ou ainda em qualquer estabelecimento ”.
jazida, mina, salina ou outros depósitos minerais, suas áreas limítrofes ou ainda em qualquer estabelecimento ”.
  vel constitucionalidade), equiparou-o ao consumo ou utiliza- ção da substância mineral, em qualquer
  vel constitucionalidade), equiparou-o ao consumo ou utiliza- ção da substância mineral, em qualquer
 

vel constitucionalidade), equiparou-o ao consumo ou utiliza- ção da substância mineral, em qualquer estabelecimento do minerador.

A relevância na identificação do critério temporal da hipótese de incidência consiste em ser este o momento em que são fixados todos os elementos da relação jurídica fiscal entre minerador e DNPM, tais quais os elementos quantita- tivos da obrigação de recolher a CFEM aos cofres públicos, como a alíquota e base de cálculo.

Portanto, é imperioso que não se confunda, como comumente o faz o Poder Legislativo 10 , fato gerador com o critério temporal da hipótese de incidência.

Em primeiro lugar, hipótese de incidência é a descrição hipotética e abstrata dos elementos que, se e quando ocorri- dos no plano fático, ensejarão o surgimento da relação jurí- dica fiscal (obrigação de recolher a CFEM). Por outro lado, fato gerador é o próprio acontecimento, relatado no antece- dente da norma instituidora da exação 11 .

10 Por dessaber as dimensões que o produto legislado adquire, ao penetrar no sistema do direito positivo, talvez o legislador não estivesse consciente das irradiações jurídi- cas que adviriam do emprego desarrazoado de uma expressão por outra. O certo é que progrediu, a remo surdo, em todos os diplomas normativos de que temos conheci- mento, esse vezo impróprio e descabido de tomar como fato gerador do imposto o critério temporal de sua hipótese de incidência”. CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 332. Como exemplo, equivocadamente, o CTN elenca como fatos geradores do IPI (i) o desemba- raço aduaneiro; (ii) a saída dos estabelecimentos; e (iii) a arrematação do produto, quando apreendido ou abandonado e levado a leilão.

11 Nesse sentido, PAULO DE BARROS ensina que:

Consultando-se as preferências dos autores de cada país, as citadas elocuções fo- ram-se radicando, com maior ou menor intensidade, mas invariavelmente acompa- nhadas de um só vício muito grave, qual seja a de aludirem, a um só tempo, a duas realidades essencialmente distintas: a) a descrição legislativa do fato que faz nascer a relação jurídica tributária; e b) o próprio acontecimento relatado no antecedente da

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do fato que faz nascer a relação jurídica tributária; e b) o próprio acontecimento relatado no
do fato que faz nascer a relação jurídica tributária; e b) o próprio acontecimento relatado no
  Assim, o fato gerador da CFEM não é a saída por venda do produto
  Assim, o fato gerador da CFEM não é a saída por venda do produto
 

Assim, o fato gerador da CFEM não é a saída por venda do produto mineral, tampouco o consumo ou a utilização da substância mineral em processo de industrialização pelo minerador. Tais definições configuram o momento em que se considera ocorrido o fato gerador da exação (critério tem- poral) e, assim, fixados todos os elementos da obrigação fis- cal (base de cálculo e alíquota, por exemplo). O fato gerador da CFEM é a exploração regular dos recursos minerais para fins econômicos e, sendo a exploração para fins econômi- cos, é evidente que a substância mineral será vendida pelo minerador ou por ele consumida/utilizada, de acordo com a definição das suas atividades principais.

O que a norma instituidora da CFEM visa a evitar é que se considere como critério temporal da sua hipótese de incidência a venda de mercadoria distinta de produto mineral, ou seja, mercadoria que seja resultado da transformação in- dustrial do produto mineral, tais como ligas metálicas ou quais- quer outras mercadorias resultantes da modificação da na- tureza da substância mineral.

Por isso, visando a regulamentar o art. 6º, da Lei nº 7.990/89 (que dispôs que o fato gerador da CFEM ocorre após a última etapa do processo de beneficiamento ado-

norma individual e concreta do ato de aplicação. No direito positivo brasileiro, entre os doutrinadores, e na jurisprudência, vemos reiteradamente empregado fato gerador, quer para mencionar-se a previsão legal do fato, elaboração tipicamente abstrata, que se situa no âmbito das ideias, no altiplano das construções normativas gerais e abstratas; quer os fatos jurídicos, enquanto enun- ciados denotativos que ocupam a posição sintática de antecedente das normas indivi- duais e concretas. Se todas as dicções propostas merecem a coima de ambiguidade, interessa-nos ressaltá- la naquela que viceja no nosso meio jurídico: fato gerador. Manifestações de crítica a esse esquema terminológico foram deduzidas no seio de nossa melhor doutrina”. Op. Cit., p. 312.

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de crítica a esse esquema terminológico foram deduzidas no seio de nossa melhor doutrina ”. Op.
de crítica a esse esquema terminológico foram deduzidas no seio de nossa melhor doutrina ”. Op.
  tado e antes de sua transformação industrial ) o inciso III, do art. 14,
  tado e antes de sua transformação industrial ) o inciso III, do art. 14,
 

tado e antes de sua transformação industrial) o inciso III, do art. 14, do Decreto nº 01/91 discrimina o que pode ser considerado beneficiamento da substância mineral (por exemplo, fragmentação, pulverização, classificação, con- centração etc.), mas ressalva: “desde que não resulte na descaracterização mineralógica das substâncias minerais processadas ou que não impliquem a sua inclusão no campo de incidência do Imposto sobre Produtos Industrializa- dos (IPI)” – (grifamos).

 

A referida norma elenca dois critérios que antecipam

 

o

fato gerador da CFEM ao momento da saída do produto

mineral: a descaracterização mineralógica da substância ou

 

a

sua inclusão no campo de incidência do IPI.

 

Ocorre que, se descaracterização mineralógica impli-

 

ca a modificação da natureza da substância mineral, de modo que ocorre a perda das suas características essenciais (ou seja, a perda das características que lhe qualificam como substância mineral autônoma na natureza 12 ), trata-se, indubitavelmente, de processo de transformação industri- al, tal como definido no art. 4º, inciso I, do Regulamento do

 

IPI:

 

Art. 4 o Caracteriza industrialização qualquer opera- ção que modifique a natureza, o funcionamento, o acabamento, a apresentação ou a finalidade do pro- duto, ou o aperfeiçoe para consumo, tal como:

I - a que, exercida sobre matérias-primas ou produ- tos intermediários, importe na obtenção de espé- cie nova (transformação) – (grifamos).

 

12 Este aspecto será mais bem abordado em tópico subsequente.

 

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– (grifamos).   1 2 Este aspecto será mais bem abordado em tópico subsequente.   226
– (grifamos).   1 2 Este aspecto será mais bem abordado em tópico subsequente.   226
  Considerando que o aspecto material da hipótese de in- cidência do IPI é vastíssimo,
  Considerando que o aspecto material da hipótese de in- cidência do IPI é vastíssimo,
 

Considerando que o aspecto material da hipótese de in- cidência do IPI é vastíssimo, abrangendo, nos termos do pará- grafo único do art. 46, do CTN 13 , e do art. 4º, do RIPI 14 , os pro- cedimentos de beneficiamento 15 , montagem, acondicionamento ou reacondicionamento, renovação ou recondicionamento e, também, o de transformação, resta claro que a descaracterização mineralógica implica a inclusão da substância mineral no cam- po de incidência do IPI, o que torna o art. 14, III, do Decreto nº 01/91, se interpretado literalmente, ambíguo.

13 Art. 46. O imposto, de competência da União, sobre produtos industrializados tem como fato gerador:

I - o seu desembaraço aduaneiro, quando de procedência estrangeira;

II

- a sua saída dos estabelecimentos a que se refere o parágrafo único do artigo 51;

III

- a sua arrematação, quando apreendido ou abandonado e levado a leilão.

Parágrafo único. Para os efeitos deste imposto, considera-se industrializado o produto que tenha sido submetido a qualquer operação que lhe modifique a na- tureza ou a finalidade, ou o aperfeiçoe para o consumo” – (grifamos).

 

14 Art. 4 o Caracteriza industrialização qualquer operação que modifique a natureza, o fun- cionamento, o acabamento, a apresentação ou a finalidade do produto, ou o aperfeiçoe para consumo, tal como:

I - a que, exercida sobre matérias-primas ou produtos intermediários, importe na obten- ção de espécie nova (transformação);

II

- a que importe em modificar, aperfeiçoar ou, de qualquer forma, alterar o funciona-

mento, a utilização, o acabamento ou a aparência do produto (beneficiamento);

 

III

- a que consista na reunião de produtos, peças ou partes e de que resulte um novo

produto ou unidade autônoma, ainda que sob a mesma classificação fiscal (montagem);

 

IV

- a que importe em alterar a apresentação do produto, pela colocação da embalagem,

ainda que em substituição da original, salvo quando a embalagem colocada se destine

 

apenas ao transporte da mercadoria (acondicionamento ou reacondicionamento); ou

V

- a que, exercida sobre produto usado ou parte remanescente de produto deteriorado ou

inutilizado, renove ou restaure o produto para utilização (renovação ou recondicionamento). Parágrafo único. São irrelevantes, para caracterizar a operação como industrialização, o processo utilizado para obtenção do produto e a localização e condições das instalações ou equipamentos empregados”.

 

15 Destacamos que, apesar de beneficiamento estar incluído no conceito de indus- trialização para fins de incidência do IPI, como este procedimento não modifica a natureza da substância mineral, aplica-se ao caso a imunidade prevista no art. 155, §3º, da CR/88: “À exceção dos impostos de que tratam o inciso II do caput deste artigo e o art. 153, I e II, nenhum outro imposto poderá incidir sobre operações relativas a energia elétrica, serviços de telecomunicações, derivados de petróleo, combustíveis e mi- nerais do País”.

 

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elétrica, serviços de telecomunicações, derivados de petróleo, combustíveis e mi- nerais do País ”.   227
elétrica, serviços de telecomunicações, derivados de petróleo, combustíveis e mi- nerais do País ”.   227
  A referida ambiguidade consiste no seguinte: se descaracterização mineralógica é transformação, e se trans-
  A referida ambiguidade consiste no seguinte: se descaracterização mineralógica é transformação, e se trans-
 

A referida ambiguidade consiste no seguinte: se descaracterização mineralógica é transformação, e se trans- formação é hipótese de incidência do IPI, poder-se-ia con- cluir pela desnecessidade da previsão normativa da descaracterização mineralógica como critério temporal da CFEM. Ou seja, a inclusão da substância mineral no campo de incidência do IPI já abarcaria a descaracterização mineralógica, tornando-a desnecessária.

Ocorre que esta não é uma interpretação adequada. A inclusão da substância mineral no campo de incidência do IPI não implica, necessariamente, o surgimento da obrigação de recolher o imposto. Isso porque, sendo o imposto seletivo, suas alíquotas estão taxativamente dispostas da Tabela de Incidên- cia do IPI. Mas não há alíquota prevista para vários produtos resultantes de transformação da substância, fazendo com que, nestes casos, a norma seja incompleta, faltando-lhe o critério quantitativo 16 , o que impede a incidência tributária.

Em outras palavras, o fato gerador da CFEM, no caso de substância mineral objeto de transformação, que não es-

16 Ainda na lição de PAULO DE BARROS, não há cronologia entre a ocorrência do fato gerador e o surgimento da relação jurídica que impõe o dever fiscal decorrente, de modo que, inexistindo consequência jurídica no caso, pela falta do critério quantitativo, não há que se falar sequer em incidência:

Inexiste cronologia entre a verificação empírica do fato e o surgimento da relação jurídica, como se poderia imaginar; da mesma forma entre o momento de incidência

e aquel’outro de aplicação do direito. [

].

No processo de positivação, há diferentes

modos de construir conceitos tendo por escopo distintas operações lógicas que ocor-

 

rem na ponência da norma individual e concreta; contudo, não esqueçamos: são mo- mentos lógicos e não cronológicos. Em outros termos instaura-se o vínculo abstrato, que une as pessoas, exatamente no instante em que aparece a linguagem competente, que relata o evento descrito pelo legislador. Em um só tempo, constroem-se fato e relação jurídica, bem como ocorre incidência e aplicação do ordenamento posto”. Op. Cit., p. 317-318.

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e relação jurídica, bem como ocorre incidência e aplicação do ordenamento posto ”. Op. Cit .,
e relação jurídica, bem como ocorre incidência e aplicação do ordenamento posto ”. Op. Cit .,
  teja sujeita ao IPI pela inexistência de alíquota respectiva, ocorre no momento da descaracterização
  teja sujeita ao IPI pela inexistência de alíquota respectiva, ocorre no momento da descaracterização
 

teja sujeita ao IPI pela inexistência de alíquota respectiva, ocorre no momento da descaracterização mineralógica.

Assim, realizando uma interpretação teleológica do art. 14, III, do Decreto nº 01/91 com o art. 6º, da Lei nº 7.990/89 – que visa a evitar que se considere como critério temporal da hipótese de incidência a venda de mercadoria distinta de produto mineral – con- clui-se que tanto a descaracterização mineralógica como o efe- tivo surgimento da obrigação de recolher o IPI são os critérios tem- porais que antecipam o fato gerador da CFEM em relação à saída por venda.

Diante deste contexto normativo, pode-se afirmar que o fato gerador da CFEM ocorre sempre que verificada a ex- ploração de recursos minerais para fins econômicos, em qualquer destes três momentos: (i) saída por venda do pro- duto mineral; (ii) descaracterização mineralógica; (iii) e in- dustrialização da substância pelo minerador, sujeitando-a ao campo de incidência do IPI, com o efetivo surgimento da obrigação de recolher o imposto.

2.2. Critério Quantitativo (base de cálculo x alíquotas)

A Lei nº 7.990/89 determina que as alíquotas da CFEM variem de 0,2% a 3%, a depender do minério explotado, incidindo sobre o faturamento líquido resultante da venda do produto mineral, excluídos os tributos incidentes sobre a sua comercialização, as despesas de transporte e de seguro 17 .

17 Art. 6º A compensação financeira pela exploração de recursos minerais, para fins de aproveitamento econômico, será de até 3% (três por cento) sobre o valor do faturamento líquido resultante da venda do produto mineral, obtido após a última etapa do pro- cesso de beneficiamento adotado e antes de sua transformação industrial”.

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obtido após a última etapa do pro- cesso de beneficiamento adotado e antes de sua transformação
obtido após a última etapa do pro- cesso de beneficiamento adotado e antes de sua transformação
  Como o Decreto nº 01/91 criou novos critérios tem- porais para a hipótese de
  Como o Decreto nº 01/91 criou novos critérios tem- porais para a hipótese de
 

Como o Decreto nº 01/91 criou novos critérios tem- porais para a hipótese de incidência da CFEM, ao equiparar a saída por venda ao consumo ou utilização da substância pelo minerador, competiu-lhe dispor sobre a base de cálcu- lo da exação nessas hipóteses, uma vez que, inexistindo operação de venda, não se poderia falar em faturamento líquido. A opção eleita foi o custo de produção (composto pela soma das despesas operacionais e administrativas, di- retas e indiretas) aferido até o momento da ocorrência do fato gerador da CFEM, tal como disposto no §1º, do art. 14, do Decreto 18 e no art. 2º, da Instrução Normativa DNPM nº 06/2000 19 .

Portanto, a CFEM possui duas bases de cálculo, a de- pender do critério temporal da hipótese de incidência: (i) o faturamento líquido, no caso de saída por venda do produ- to mineral; (ii) e o custo de produção, nas demais hipóteses de incidência da exação.

Daí, mais uma vez, a relevância da descaracterização mineralógica, tendo em vista que a sua ocorrência implica o cálculo da CFEM com base no custo de produção, grandeza bastante inferior ao faturamento líquido decorrente da ven- da do produto.

18 “§ 1º No caso de substância mineral consumida, transformada ou utilizada pelo pró- prio titular dos direitos minerários ou remetida a outro estabelecimento do mesmo titular, será considerado faturamento líquido o valor de consumo na ocorrência do fato gerador definido no art. 15 deste decreto”.

19 Art. 2º. Para os efeitos previstos no art. 14, § 1º do Decreto 1/91, considera-se valor de consumo o valor total do produto mineral apurado, até a etapa de elaboração do produto final, que antecede a sua inclusão no campo de incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Parágrafo único. O valor total corresponde à soma das despesas operacionais e admi- nistrativas, diretas e indiretas incorridas até a etapa mencionada no caput deste artigo”.

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operacionais e admi- nistrativas, diretas e indiretas incorridas até a etapa mencionada no caput deste artigo
operacionais e admi- nistrativas, diretas e indiretas incorridas até a etapa mencionada no caput deste artigo

Por isso, no tópico seguinte, buscar-se-á infirmar a tese do DNPM de que a descaracterização mineralógica é inefi- caz, em virtude da falta de sua regulamentação.

3. O EQUÍVOCO DA TESE DEFENDIDA PELO DNPM

O DNPM tem manifestado o posicionamento de que a descaracterização mineralógica, por carecer de regulamen- tação normativa, seria critério ilegal, gerador de inseguran- ça jurídica e ineficaz, ao menos enquanto inexistir norma que venha a regulamentar o instituto.

LEOPOLDO MURARO 20 , em artigo sobre o tema, posicionou-se no sentido supramencionado, concluindo que apenas a inclusão da substância no campo de incidên- cia do IPI seria um critério válido de antecipação (ou limi- tação, como quis o autor) do fato gerador da CFEM:

No caso da descaracterização mineralógica, resta patente o vício de legalidade e a insegurança jurídi- ca gerada com a adoção de um termo criado pela norma infralegal sem a correspondente baliza da lei que visa regulamentar. Mineradores e agentes esta- tais ficam carentes de um parâmetro legal que de- monstre qual ponto que limita a incidência da CFEM. Nos termos expostos, portanto, pode-se concluir que a criação infralegal do Decreto nº 01/91, denomina- da descaracterização mineralógica, extrapola o po-

20 MURARO, Leopoldo Gomes. Descaracterização mineralógica e o ponto de incidência da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Mine- rais (CFEM). Revista de Direito, Estado e Recursos Naturais, v. 1, n. 1, p. 107-129

(2011).

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  der regulamentar do referido decreto, gerando inse- gurança jurídica, tanto no setor público como
  der regulamentar do referido decreto, gerando inse- gurança jurídica, tanto no setor público como
 

der regulamentar do referido decreto, gerando inse- gurança jurídica, tanto no setor público como no pri- vado. Como no mesmo inciso legal em que há a previsão da descaracterização mineralógica, inciso III do arti- go 14 do Decreto nº 01/9, abriu-se a possibilidade de se limitar a incidência da CFEM em outro crité- rio, o campo de incidência do IPI, não restará preju- ízo algum em se retirar esta previsão ilegítima da interpretação e aplicação do referido dispositivo infralegal.

 

Ainda no entendimento do autor 21 , “a resolução do pro- blema fica condicionada à elaboração de um laudo técnico que in- dique o momento em que ocorreu a descaracterização”, sendo que tal fato poderia ensejar a produção de laudos técnicos di- vergentes, tornando a questão impossível de resolução, em função de se estar diante de “norma jurídica de eficácia limita-

da, [

]

carente de uma complementação normativa que permita a

incidência da previsão normativa contida na norma”.

No mesmo sentido, o DNPM editou a Orientação Normativa nº 07, de 12.06.2012:

 

Compensação Financeira pela Exploração de Re-

cursos Minerais (CFEM) – Ponto de incidência – Fase do processo minerário anterior ao campo de incidência do Imposto sobre Produtos Indus- trializados.

A

previsão contida no artigo 14, inciso III, do Decre-

to

nº 1/1991, de que o processo de beneficiamento

minerário será delimitado pela descaracterização

 
 

21 Op. Cit., p. 123.

 

232

minerário será delimitado pela descaracterização     2 1 Op. Cit ., p. 123.   232
minerário será delimitado pela descaracterização     2 1 Op. Cit ., p. 123.   232
  mineralógica das substâncias minerais processadas, revela-se como uma norma jurídica de eficácia limi- tada.
  mineralógica das substâncias minerais processadas, revela-se como uma norma jurídica de eficácia limi- tada.
 

mineralógica das substâncias minerais processadas, revela-se como uma norma jurídica de eficácia limi- tada. Por essa razão, enquanto não houver a edição de outra norma que lhe confira complementação, o único critério jurídico válido e eficaz que demonstra o ponto de incidência da CFEM, configurando a base de cálculo, é a fase do processo de produção mineral anterior ao campo de incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados, alternativa esta também prevista no artigo 14, inciso III, do Decreto nº 1/1991. PARECER Nº 90/2012-PROGE/DNPM-GT.

Entendemos que a posição manifestada pelo DNPM acerca da inaplicabilidade do instituto da descaracterização mineralógica não é juridicamente adequada.

A premissa fundamental que sustenta a posição do DNPM consiste na suposta falta de regulamentação da pre- visão normativa contida no Decreto nº 01/91 a respeito da descaracterização mineralógica. É inclusive citado, nos do- cumentos mencionados acima, o exemplo da regulamenta- ção do conceito de beneficiamento, para fins de incidência da CFEM, elemento este (regulamentação) supostamente ne- cessário ao instituto da descaracterização mineralógica para que pudesse produzir efeitos, ante a conclusão da sua su- posta eficácia limitada.

O DNPM desconsidera que o conceito de descaracte- rização mineralógica – que consiste na perda das propriedades químicas essenciais da substância mineral – é conceito técnico, que deve ser importado da Geologia, Engenharia de Minas e Metalurgia.

Não é dado ao Poder Legislativo, tampouco a órgãos regulamentadores, formular conceitos teóricos, sob pena

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Não é dado ao Poder Legislativo, tampouco a órgãos regulamentadores, formular conceitos teóricos, sob pena 233
Não é dado ao Poder Legislativo, tampouco a órgãos regulamentadores, formular conceitos teóricos, sob pena 233

de engessá-los em uma moldura que pode não ser a mais adequada em um dado momento. Os conceitos evoluem e devem evoluir, sobretudo os técnicos. Porém, tal evolução deve ser promovida pela doutrina especializada, a quem efetivamente incumbe tais definições.

A norma positivada está sempre conectada ao intrín- seco valor que motivou a sua edição. O Direito evolui, em um dinâmico processo histórico-cultural, porque os valo- res, representados por conceitos, também evoluem. Por isso a norma que pretenda definir conceitos está atuando fora do setor que lhe compete na estrutura jurídica tridimen- sional, já que a norma apenas evolui quando o conceito lhe impulsiona nesse sentido 22 :

Direito é a concretização da ideia de justiça na pluridiversidade de seu dever ser histórico, tendo a pes- soa como fonte de todos os valores. Se analisarmos essas três noções do Direito vere- mos que cada uma delas obedece, respectivamen- te, a uma perspectiva do fato (“realização ordenada do bem comum”), da norma (“ordenação bilateral- atributiva de fatos segundo valores”) ou do valor (“concretização da ideia de justiça”). Donde devemos concluir que a compreensão inte- gral do Direito somente pode ser atingida graças à correlação unitária e dinâmica das três aponta- das dimensões da experiência jurídica, que se con- funde com a história mesma do homem na sua perene faina de harmonizar o que é com o que deve ser.

22 REALE, Miguel. Lições Preliminares de Direito. 27. ed. São Paulo: Saraiva: 2005, p. 67-68.

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  Cumpre-nos, então, recorrer às ciências que estudem caracterização mineralógica, de modo a compreender o
  Cumpre-nos, então, recorrer às ciências que estudem caracterização mineralógica, de modo a compreender o
 

Cumpre-nos, então, recorrer às ciências que estudem

caracterização mineralógica, de modo a compreender o con- ceito de descaracterização mineralógica.

a

O que caracteriza um mineral são suas propriedades químico-físicas, as quais lhe distinguem das demais subs- tâncias minerais encontradas na natureza. As característi- cas físicas estão ligadas às químicas, na medida em que a composição química dos minerais determina suas proprie- dades físicas. Nas palavras de JAMES D. DANNA 23 :

 

Talvez a limitação mais importante e significativa im-

posta à definição de um mineral é que ele deva ser um elemento ou composto químico. Esta restrição origi- na-se da imagem consistente da estrutura de um sólido cristalino como sendo uma estrutura de átomos, íons, ou grupo de átomos estendida indefinidamente, disposto em

configurações geométricas regulares. [

]

Nestas con-

dições, estão eliminadas todas as mistura mecâni- cas, mesmo se inteiramente uniformes e homogêne- as – (grifamos).

 
 

A característica essencial dos minerais, enquanto subs- tâncias inorgânicas é sua composição química. Por sua vez, elemento químico é definido como uma substância pura, feita de apenas um tipo de átomo e que não pode ser subdi- vidida em substâncias mais simples através de nenhum meio físico ou químico, enquanto um composto químico é defi- nido como uma substância pura feita de dois ou mais tipos de elementos (átomos) combinados em uma proporção fixa

e

que pode ser subdividido em substâncias mais simples

23 DANNA, James D. Manual de Mineralogia, 2. ed. São Paulo: Livros Técnicos e Científicos, 1974, Volume 01.

 

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DANNA, James D. Manual de Mineralogia, 2. ed. São Paulo: Livros Técnicos e Científicos, 1974, Volume
DANNA, James D. Manual de Mineralogia, 2. ed. São Paulo: Livros Técnicos e Científicos, 1974, Volume
somente por meios químicos. A título de exemplo, pode- mos citar como elemento químico o
somente por meios químicos. A título de exemplo, pode- mos citar como elemento químico o

somente por meios químicos. A título de exemplo, pode- mos citar como elemento químico o Ouro (Au) e como com- posto químico a Hematita (Fe2O3).

A substância mineral qualifica-se como elemento ou, ainda, composto químico, uma vez poder ser encontrada livre na natureza ou misturada a outros elementos 24 . Por isso, a definição de mineral, segundo JAMES D. DANNA 25 ,

elemento ou composto químico de ocorrência natural formado por um produto de processos inorgânicos”.

é

Do exposto, resta claro que a descaracterização mineralógica, como o próprio nome permite intuir, impli- ca a alteração das características essenciais do elemento ou composto químico encontrado na natureza.

Por isso, qualquer processo de beneficiamento do re- curso mineral que não resulte na alteração da sua composi-

ção química natural não se qualifica como descaracterização mineralógica. Processos de tratamento ou beneficiamento têm apenas a finalidade de reconhecer aos minerais a pure- za necessária à viabilidade do seu uso posterior, consoante

lição dos engenheiros ADÃO B. DA LUZ e FERNANDO A. F. LINS 26 :

a

24 “Alguns poucos metais podem ser encontrados livres na natureza na forma de subs- tância simples (ouro, platina, prata) devido à baixa reatividade destes metais. No entanto a maioria dos metais existe na forma de compostos, que estão misturados a outras substâncias.” FELTRE, Ricardo. QUÍMICA: Química Geral, Volume 01. 6ª Ed. São Paulo: Editora Moderna, 2004.

25 Op. Cit.

26 DA LUZ, Adão Benvindo; SAMPAIO, João Aves; ALMEIDA, Salvador L.M; Tratamentos de Minérios. 4. ed. Rio de Janeiro: CETEM/MCT, 2004, Volume único.

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João Aves; ALMEIDA, Salvador L.M; Tratamentos de Minérios . 4. ed. Rio de Janeiro: CETEM/MCT, 2004,
João Aves; ALMEIDA, Salvador L.M; Tratamentos de Minérios . 4. ed. Rio de Janeiro: CETEM/MCT, 2004,
  Tratamento ou Beneficiamento de minérios consiste de ope- rações aplicadas aos bens minerais visando
  Tratamento ou Beneficiamento de minérios consiste de ope- rações aplicadas aos bens minerais visando
 

Tratamento ou Beneficiamento de minérios consiste de ope- rações aplicadas aos bens minerais visando modificar a granulometria, a concentração relativa das espécies mine- rais presentes ou a forma, sem contudo modificar a identi- dade química ou física dos minerais.

Se processos de transformação física dos minerais não alteram sua identidade química, que é a característica que de- fine o mineral, a descaracterização mineralógica é a fase do processo de produção em que o mineral sofre reações que o fazem perder sua composição química original, transforman- do-se em outra espécie.

Também não é exagero suscitar a aplicação, por analogia (uma vez que a CFEM não é tributo), do art. 110, do CTN, que determina a preservação dos conceitos de direito privado in- vocados pelas normas que instituem competências tributárias:

Art. 110. A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicita- mente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Fede- ral ou dos Municípios, para definir ou limitar compe- tências tributárias.

Em resumo, o referido dispositivo impede que, sen- do determinado tributo incidente sobre a propriedade de veículos automotores, venha norma posterior dispor que bicicletas ou animais se equiparam ao referido conceito, de modo a ampliar o âmbito de incidência tributária 27 . A

27 Consoante a lição de LUCIANO AMARO, “se a regra que outorga competência tributária (e, portanto, dá os contornos do campo sobre o qual é exercitável a compe-

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que outorga competência tributária (e, portanto, dá os contornos do campo sobre o qual é exercitável
que outorga competência tributária (e, portanto, dá os contornos do campo sobre o qual é exercitável
  maioria da doutrina considera inclusive que o referido artigo do CTN não precisaria existir
  maioria da doutrina considera inclusive que o referido artigo do CTN não precisaria existir
 

maioria da doutrina considera inclusive que o referido artigo do CTN não precisaria existir para que os concei- tos de direito privado fossem respeitados pela lei tribu- tária 28 .

Para LUCIANO AMARO 29 , o princípio segundo o qual a definição de competência não pode ser modificada pela lei mediante a qual esta competência é exercitada impõe que “resta também vedado à lei instituidora de tributo promover a al- teração do conceito léxico de palavras utilizadas por norma su- perior para a definição de competência” (grifamos). Assim, con- ceito léxico, que significa o conjunto de vocábulos de um idioma 30 , não pode ser alterado por norma inferior, assim como conceitos de Direito privado, para fins de ampliação do âmbito de incidência da exação.

Este princípio é inteiramente aplicável à descaracterização mineralógica, uma vez que o seu con- ceito existe e é dado, como visto, pelas ciências próprias, de modo que o legislador, e tampouco norma infralegal que venha regulamentar o Decreto nº 01/91, poderia lhe modificar a essência para fins de interpretação do critério temporal de incidência da CFEM, limitando o direito do minerador.

tência) autoriza a tributação de imóvel, não pode o legislador tributário equiparar móveis a imóveis, para efeitos fiscais, sob pena de ampliar, ilegitimamente, sua esfera de competência”. AMARO, Luciano. Direito Tributário Brasileiro. 15. ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 101.

28 Vide: AMARO, Luciano. Direito Tributário Brasileiro. 15. ed. São Paulo: Sarai- va, 2009, p. 102 e MACHADO, Hugo de Brito. O ISS e a Locação ou Cessão de Direito de Uso. RDIT 1/151, jun/04.

29 Op. Cit., p. 103.

30 BUENO, Francisco da Silveira. Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, 7. ed. São Paulo: Ministério da Educação e Cultura.

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da Silveira. Dicionário Escolar da Língua Portuguesa , 7. ed. São Paulo: Ministério da Educação e
da Silveira. Dicionário Escolar da Língua Portuguesa , 7. ed. São Paulo: Ministério da Educação e
  Igualmente, HUMBERTO ÁVILA 3 1 , dissertando sobre a segurança jurídica obtida por meio
  Igualmente, HUMBERTO ÁVILA 3 1 , dissertando sobre a segurança jurídica obtida por meio
 

Igualmente, HUMBERTO ÁVILA 31 , dissertando sobre a segurança jurídica obtida por meio da determinibilidade normativa, ainda que face à interpretação constitucional, afirma que o intérprete deverá verificar se os termos em- pregados no Direito positivo não possuem conceitos que já foram objeto de processos argumentativos de objetivação, utilizando como exemplo o conceito de salário, do qual ele (o intérprete) não pode se afastar:

O intérprete deverá reconstruir os sentidos mínimos

das expressões utilizadas pela Constituição, com vistas a verificar se os termos utilizados não possuem concei- tos que já foram objeto de processos argumentativos de objetivação. Por exemplo, quando a Constituição usou o termo “salário”, terminou fazendo referência ao conceito de salário já sedimentado no âmbito da le-

gislação e da doutrina do Direito do Trabalho. [

].

Nesse sentido, a atividade interpretativa não é livre, pois parte de conceitos que já foram elevadamente de- terminados pelo uso argumentativo anterior, de tal sorte que a utilização de determinadas expressões indica um processo de incorporação conceitual do qual o intér- prete não pode se afastar. Afasta-se, assim, a concep- ção segundo a qual a norma é exclusivamente construída diante do caso, como se antes dele não exis- tissem sentidos intersubjetivos dos quais o intérprete não pudesse se afastar.

 

O raciocínio acima é aplicável ao tema sob estudo, uma vez que o conceito de descaracterização mineralógica já foi tratado pelas áreas técnicas pertinentes, como já amplamente aqui exposto, conceito este do qual o intérprete e também o

31 ÁVILA, Humberto. Segurança jurídica: entre permanência, mudança e reali- zação no direito tributário. São Paulo: Malheiros, 2012, p. 334-335.

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entre permanência, mudança e reali- zação no direito tributário. São Paulo: Malheiros, 2012, p. 334-335. 239
entre permanência, mudança e reali- zação no direito tributário. São Paulo: Malheiros, 2012, p. 334-335. 239
  aplicador do Direito não podem se afastar. Trata-se de con- ceito claro, que confere
  aplicador do Direito não podem se afastar. Trata-se de con- ceito claro, que confere
 

aplicador do Direito não podem se afastar. Trata-se de con- ceito claro, que confere plena eficácia ao instituto da descaracterização mineralógica, enquanto critério temporal da hipótese de incidência da CFEM. A comprovação da sua ocorrência, naturalmente, depende de laudo técnico produ- zido por profissional especializado.

Ainda que ocorra a produção de laudos técnicos conflitantes acerca da descaracterização mineralógica em meio a uma lide administrativa ou judicial, tal fato não tem o condão de limitar o direito do minerador. Os debates téc- nicos são parte do Direito, em qualquer das suas esferas, a exemplo do que ocorre em procedimentos de resolução de conflitos por arbitragem, perícias técnicas etc.

Ante o exposto, resta clara a desnecessidade de regu- lamentação do instituto da descaracterização mineralógica, sendo este absolutamente apto a produzir efeitos.

E, ainda que assim não fosse, o próprio DNPM – con- trariamente ao afirmado pela Autarquia e sua Procuradoria – edi- tou a Portaria nº 237 de 18 de outubro de 2001, instituindo as Normas Reguladoras de Mineração (NRM), prevendo, inclusive, o conceito de beneficiamento. A NRM nº 18.1.1 ex- pressamente conceitua beneficiamento como o tratamento da substância por métodos físicos e químicos, desde que não haja alteração na constituição química dos minerais:

18.1.1 Para efeito das NRM entende-se por beneficiamento de minérios ao tratamento visando preparar granulometricamente, concentrar ou puri- ficar minérios por métodos físicos ou químicos sem alteração da constituição química dos minerais – (grifamos).

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minérios por métodos físicos ou químicos sem alteração da constituição química dos minerais – (grifamos). 240
minérios por métodos físicos ou químicos sem alteração da constituição química dos minerais – (grifamos). 240
  Por mais essa razão, constata-se a fragilidade do posicionamento defendido pelo DNPM. A própria
  Por mais essa razão, constata-se a fragilidade do posicionamento defendido pelo DNPM. A própria
 

Por mais essa razão, constata-se a fragilidade do posicionamento defendido pelo DNPM. A própria Autar- quia editou norma regulamentar sobre o momento em que termina o beneficiamento da substância: quando se verifica a perda das suas características químicas originais, sendo esta definição absolutamente compatível com o conceito ora exposto de descaracterização mineralógica.

A jurisprudência sobre o tema ainda é incipiente, exis- tindo apenas um julgado sobre o assunto, que, embora tenha legitimado o instituto da descaracterização (e, equivocadamen- te, declarando a inexigibilidade da exação, ao passo que a questão é apenas a identificação do seu critério temporal), o fez em caso em que a substância, submetida a processo de calcinação, fora situada no campo de incidência do IPI:

ADMINISTRATIVO. PRODUÇÃO DE CAL. COM- PENSAÇÃO FINANCEIRA PELA EXPLORAÇÃO DE RECURSOS MINERAIS - CFEM. Não é exigível a cobrança de Compensação Finan- ceira pela Exploração de Recursos Minerais - CFEM, quando ocorre descaracterização mineralógica no processo de calcinação, implicando na inclusão do produto cal no campo de incidência do Imposto so- bre Produtos Industrializados – IPI. (TRF4, AMS 2007.70.00.007511-2, Quarta Turma, Relator Márcio Antônio Rocha, D.E. 05/05/2008)

De todo modo, há outros casos em que a descaracteriza- ção mineralógica ocorre e, como exposto no início deste traba- lho, não há o surgimento da obrigação de recolher o IPI, por força da falta de previsão da respectiva alíquota na TIPI.

É o caso, por exemplo, da controvérsia relativa à pelotização. Apesar de arrolada pelo Decreto nº 01/91 como

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É o caso, por exemplo, da controvérsia relativa à pelotização . Apesar de arrolada pelo Decreto
É o caso, por exemplo, da controvérsia relativa à pelotização . Apesar de arrolada pelo Decreto
  processo de beneficiamento, há laudos técnicos apresenta- dos em diversas ações judiciais 3 2
  processo de beneficiamento, há laudos técnicos apresenta- dos em diversas ações judiciais 3 2
 

processo de beneficiamento, há laudos técnicos apresenta- dos em diversas ações judiciais 32 que demonstram se tratar de efetiva transformação, com a alteração da composição química da substância mineral.

Dessa forma, confirma-se a hipótese de que a tese de- fendida pelo DNPM a respeito da descaracterização mineralógica enquanto critério temporal da hipótese de in- cidência da CFEM é frágil, principalmente porque (i) o con- ceito do instituto em exame é técnico (e não jurídico), dado pela Geologia, Engenharia de Minas e Metalurgia, de onde deve ser importado pelo Direito; (ii) e, ainda que assim não fosse, o próprio DNPM já regulamentou a matéria adequa- damente – contrariamente ao que tem manifestado –, viabilizando a sua aplicação.

32 Cite-se, como exemplo, os Embargos à Execução Fiscal nº 8975- 31.2010.4.01.3901/PA, em trâmite na 2ª Vara da Subseção Judiciária de Marabá – PA. Nesse caso, o DNPM também apresentou laudos técnicos que atestam que a pelotização não implica a descaracterização mineralógica da substância. Veja-se trecho do acórdão do Agravo de Instrumento nº 0054755- 86.2012.4.01.0000/PA, interposto contra decisão proferida na supracitada ação de Embargos à Execução Fiscal:

Defendendo o ponto de vista da autora-agravante de que o processo de pelotização corresponde a transformação industrial foram juntados aos autos deste recurso, pela agravante: Laudo técnico assinado por Prof. de Siderurgia da PUC-RJ (fls. 581/ 594 – set/2008), Parecer técnico do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (fls. 595/616 – nov/2008) e Laudo técnico da UFMG (fls. 617/644 – set/2008). De outra parte, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas, em seu site, diz textualmente:

“O IPT, por meio do Laboratório de Resíduos e Áreas Contaminadas – LRAC do CETAE desenvolve processos de beneficiamento mineral e de valorização de resí- duos sólidos industriais, visando ao melhor aproveitamento destes materiais e à re- dução de custos. O LRAC domina a tecnologia de aglomeração em discos pelotizadores, dando atendimento às empresas produtoras de insumos químicos, mineradoras e pelotizadoras. E ainda, o Conselho Federal de Química, na Resolução Normativa nº 105/87 indica também a pelotização como processo de beneficiamento ( art. 2º - 00 – 00.14). E por fim, o artigo 14, inciso III, do Decreto nº 01/91, que regulamenta o pagamento da CFEM, considera a pelotização como processo de beneficiamento e não de transformação industrial”.

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da CFEM, considera a pelotização como processo de beneficiamento e não de transformação industrial ”. 242
da CFEM, considera a pelotização como processo de beneficiamento e não de transformação industrial ”. 242
  4. CONCLUSÃO Ante o exposto, conclui-se que o art. 14, III, do Decre- to
  4. CONCLUSÃO Ante o exposto, conclui-se que o art. 14, III, do Decre- to
 

4. CONCLUSÃO

Ante o exposto, conclui-se que o art. 14, III, do Decre- to nº 01/91, ao instituir a descaracterização mineralógica e a obrigação de recolher IPI como critérios temporais alter- nativos que antecipam a ocorrência do fato gerador da CFEM em relação à saída por venda do produto mineral, validamente regulamentou o art. 6º, da Lei nº 7.990/89, que já determinara que o fato gerador da CFEM se desse após a última etapa do beneficiamento e antes da transformação industrial da substância.

A tese defendida pelo DNPM de que o referido dispo- sitivo do Decreto nº 01/91 seria norma de eficácia limitada, de modo a ser necessária sua regulamentação, ante a im- possibilidade de se saber o que seja a descaracterização mineralógica, é frágil quando confrontada com os conceitos apresentados pelas ciências próprias a respeito do tema, fortes no sentido de que é a sua composição química o que caracteriza as substâncias minerais. Assim, por império da lógica e do bom senso, sempre que verificado, por meio de laudo técnico, que determinado processo industrial tenha alterado a composição química da substância, e, por óbvio, sua natureza, há que se reconhecer que houve a descarac- terização mineralógica, sendo este o momento de ocorrên- cia do fato gerador da CFEM e, por conseguinte, da fixação da sua base de cálculo como o custo de produção incorrido até a etapa anterior à transformação.

Ainda que assim não fosse, o próprio DNPM editou a Portaria nº 237 de 18 de outubro de 2001, instituindo a NRM nº 18.1.1, que expressamente conceitua beneficiamento como o tratamento da substância por métodos físicos e químicos, desde que não haja alteração na constituição química dos

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da substância por métodos físicos e químicos, desde que não haja alteração na constituição química dos
da substância por métodos físicos e químicos, desde que não haja alteração na constituição química dos
  minerais, regulamentou satisfatoriamente o instituto da descaracterização mineralógica, posto que de acordo com
  minerais, regulamentou satisfatoriamente o instituto da descaracterização mineralógica, posto que de acordo com
 

minerais, regulamentou satisfatoriamente o instituto da descaracterização mineralógica, posto que de acordo com o conceito técnico aqui apresentado.

Por tudo isso, não há dúvidas acerca da eficácia da descaracterização mineralógica enquanto critério temporal da hipótese de incidência da CFEM.

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da eficácia da descaracterização mineralógica enquanto critério temporal da hipótese de incidência da CFEM. 244
da eficácia da descaracterização mineralógica enquanto critério temporal da hipótese de incidência da CFEM. 244