Você está na página 1de 132

HIROSHIMA E

NAGASAKI

H IROSHIMA E N AGASAKI Marcos Reigota

Marcos Reigota

HIROSHIMA E

NAGASAKI

MARCOS REIGOTA

HIROSHIMA E NAGASAKI

São Paulo SP O autor

2015

Hiroshima e Nagasaki

Copyright © 2015 Marcos Reigota

Diagramação: Silmara Pereira da Silva Foto da Capa: Alice Yamamura Normalização: Vilma Franzoni

Ficha Catalográfica:

R285h

Reigota, Marcos.

Hiroshima e Nagasaki / Marcos Reigota. Sorocaba: O autor,

2015.

137p.

ISBN: 978-85-919719-0-9

1. Hiroshima (Japão). 2. Nagasaki (Japão). 3. Bomba nuclear. 4. Japão Bomba atômica - História. I. Título. II. Sakamoto, Kiyomi, colab.

Para

Alexandre, Raoul e Clement

Nos anos 60, nós queríamos as estrelas, mas o Sistema nos puxou as pernas. Noticiaram as drogas, caçoaram dos nossos cabelos e nos chamaram de tolos. Mas a queda das torres gêmeas fez com que o desejo por mais paz e amor voltasse com força. De repente, o centro mundial da acumulação e riqueza veio abaixo. Então, todo o dinheiro do mundo deixou de ser suficiente. As pessoas começaram a se olhar e a perceber que a vida também é preciosa . De que adianta o capitalismo, se a morte espreita com o ódio? É bom que as pessoas despertem do sonho consumista e percebam que a vida não é se divertir à custa dos outros.

Yoko Ono Valor (14, 15, 16 dez. 2001)

O controle imperial opera por três meios globais e absolutos:

a bomba, o dinheiro e o éter. A panóplia de armas termonucleares, efetivamente reunidas no ponto mais alto do Império, representa a contínua possibilidade de destruição da própria vida. Esta é uma operação de violência absoluta, um novo horizonte metafísico, que muda completamente a concepção pela qual o Estado soberano tinha o monopólio da força física legítima.

Michael Hardt e Antonio Negri Império (2001)

“O artigo “Massacre japonês assustou até nazista”, publicado em 16 de dezembro, foi escrito como se o Japão ignorasse os seus atos praticados durante a Segunda Guerra Mundial. Contudo, o governo do Japão tem expressado profundo arrependimento e sinceras desculpas pelos inúmeros danos e sofrimentos causados a vários países, com sua política de colonização e invasões, como denota a declaração de 1995, do primeiro-ministro Murayama. Após a Segunda Guerra, baseado no arrependimento pelo passado, o Japão promulgou uma Constituição que tem, como pilares, o pacifismo e a política de cooperação internacional, e renunciou eternamente ao uso da força armada como instrumento para resolver conflitos internacionais. O Japão reconhece francamente o fato de ter, em determinado momento do passado, causado grandes danos e dores a vários países, pretende não repetir a guerra e seguir o caminho dos países que amam a paz.

Keiji Hamada Revista da Folha de S. Paulo (3 fev. 2002)

Prezado(a) leitor(a), Este livro é resultado de profundas e antigas inquietações, que me levaram à militância, à docência, à pesquisa e ao nomadismo. Por conta disso, estive em muitos lugares, inclusive em Hiroshima e Nagasaki. Pelo caminho, encontrei anônimos/as cidadãos/ãs e renomados/as intelectuais, artistas, professores/as e pesquisadores/as através de seus textos, entrevistas, conversas e convívio. Vários amigos e amigas, alunos, alunas e colegas compartilham comigo a expectativa, o lamento, as inquietações e as possibilidades utópicas de construção de uma sociedade mais justa, ecológica, ética e pacifica. Compartilharam a busca da construção de uma cidadania que ultrapasse as nossas fronteiras geográficas. O percurso foi muito longo e dispendioso para o resultado que ora apresento. A contribuição deste livro a uma pedagogia e práticas sociais eco- pacifistas pode ser considerada insignificante nos dias atuais, mas não lhe caberão críticas de proposta ingênua e muito menos descompromissada. Muitas pessoas e instituições me apoiaram, a elas sou e serei grato. Ao longo do texto faço referências a todas elas, mas gostaria de enfatizar o meu agradecimento à Universidade de Sorocaba, Universidade Estadual de Londrina, Josai International University (Japão) e Fundação Japão que, em diferentes momentos, acolheram, incentivaram e patrocinaram este trabalho. Foi imprescindível o apoio de Aldo Vannucci, Marcos Marins, Newton Aquiles von Zuben, Mary Jane Paris Spink e Albert von Brunn. Pude contar com a colaboração do meu filho, Alexandre, e de Kiyomi Sakamoto, Leonardo Prota, Lourenço Zancanaro, Marcia Wada, Nilda Alves, Nilson Moulin Louzada, Oscar Naviliat (mais uma vez), Paulo Roberto Magnólio de Oliveira e Ubiratan D’Ambrósio. Quero destacar a atenção dos funcionários da Fundação Japão em São Paulo e em Tóquio, entre eles, Jo Takahashi, Mishiko Okano, Yumi Garcia dos Santos, Masumi Imai e Kaoru Miyamoto. A hospitalidade, competência e gentileza do professor Masato Morita que me recebeu na Josai International University não podem ser traduzidas em palavras.

No Japão o convívio com Akira Mizuta Lippit, Ikunori Sumida, Kyoko Murakami, Maria Shiguemi Ichiyama, Michiji Konuma, Noriko Mizuta, Ryuta Imafuru e Tetsuya Ozaki me possibilitou conhecer não só a tradicional hospitalidade japonesa, mas também pessoas do mais elevado nível cultural e científico daquele país. Nesse grupo, a presença dos “gaijins” Philippe Nys, Greg Mcelwain e David Alexander Willians foi um constante estímulo na discussão e vivência das nossas “diferenças culturais”. Para finalizar, gostaria de agradecer o apoio de colegas e amigos/as com os quais o diálogo sobre Hiroshima e Nagasaki muito acrescentou a este livro: Alexandre de Freitas Silva, Alice Yamamura, Andréa Focesi Pelicioni, Bárbara Heliodora Prado, Belloyanes Monteiro, Carlos Divino, Carolina Martins Miranda, Deborah Azenha de Castro, Dilmara de Souza, Fabrizio G. Violini, Heloísa Gomes Ribeiro Vendramini, Jacqueline Bergara Kusamoto, José Carlos Iglesias, José Luiz Toledo, Kiyomi Nakanishi Yamada, Lázara Regina de Rezende, Leni Palmira Piacitelli Vendramini, Luiza Aparecida da Silva, Márcia Wada, Márcio Luiz Quaranta Gonçalves, Maria Cecília Focesi Pelicioni, Maria Flávia Steffen, Neuza Mazini Cézar, Nilson Giraldi, Nilza Maria Diniz, Ofir Paschoalick, Olívia Cristina Vituli Chicolami, Rodrigo Barchi, Samuel R. Barreto e Leandro Belinaso Guimarães. Nestes dias (abril de 2002) distantes do lançamento das bombas atômicas, em que Israel trucida os palestinos, poucos meses após o triste espetáculo da prepotência dos EUA contra o Afeganistão e ainda continuamos sem notícias sobre o paradeiro de Osama Bin Laden, pensar, analisar, discutir e escrever sobre as possibilidades da paz é necessário. Que o nosso trabalho contribua para isso.

Sorocaba, abril de 2002.

PS. Treze anos após a apresentação acima quero apenas enfatizar, mais uma vez, meu agradecimento ao apoio e incentivo de tantas pessoas, para que esse livro chegasse ao espaço público.

São Paulo, 05 de agosto de 2015.

SUMÁRIO

PRIMEIRA PARTE A opção nuclear como símbolo e desafio do século XX

12

New Mexico

16

Glenn Seaborg

18

Takashi Morita

20

Uma crônica de Carlos Heitor Cony

21

Paris, 1900

21

Bruxelles, 1958

23

Almirante Álvaro Alberto

26

Stanislav Petrov

27

Duas cartas

29

“Peace and love”/ “Make love, not war”

31

Acidentes radioativos

35

Depoimento do Sr. Pierre Tanguy

37

Duas análises

38

Em 26 de abril de 1986

41

Relatos (dificilmente) selecionados

42

Para não esquecer, ou o dia em que a Índia declarou orgulhosamente

ao

mundo o sucesso dos

seus testes nucleares

43

Vozes - “The race for a black future starts with these nuclear tests.”

45

Terminando o século nuclear

 

45

SEGUNDA PARTE Hiroshima e Nagasaki

49

Observações sobre a Celebração pela Paz Kiyomi Sakamoto

90

TERCEIRA PARTE Fotos da Celebração pela Paz em 2000, em Hiroshima e Nagasaki

107

Referências

 

129

PRIMEIRA PARTE

A OPÇÃO NUCLEAR COMO SÍMBOLO E DESAFIO DO SÉCULO XX

Em 1999, começaram a aparecer nos jornais reportagens e artigos analíticos sobre o século XX. Neles, constatamos a importância política, social, cultural, científica e ecológica que teve o desenvolvimento da opção nuclear após a Segunda Guerra Mundial, principalmente para fins bélicos.

A Folha de São Paulo publicou, em 07/03/1999, artigo assinado por

Carlos Eduardo Lins da Silva, intitulado “As reportagens do século”, com

trabalhos selecionados por especialistas da Universidade de Nova York. Embora essas reportagens estivessem circunscritas aos EUA, as duas primeiras tiveram repercussão planetária e estão diretamente relacionadas com a perspectiva deste estudo.

A reportagem escolhida em primeiro lugar tem por título “Hiroshima”,

e o texto que a acompanha é o seguinte:

O melhor texto jornalístico do século 20, de acordo com a lista da NYU (New York University), é seco, contido e objetivo. Quarenta anos depois de tê-lo escrito, John Hersey o explicou em carta ao historiador Paul Boyer: O estilo simples foi deliberado e eu ainda acho certo que eu o tivesse adotado. Um modo literário ou uma demonstração de paixão teriam me colocado na história como mediador. Quis evitar essa mediação para que a experiência do leitor fosse a mais direta possível.

Hersey colheu o material para a sua reportagem em três semanas de maio de 1946. Falou com centenas de pessoas em Hiroshima. Ao final, resolveu se concentrar no depoimento de seis sobreviventes do ataque nuclear: uma escriturária, um médico, a viúva de um alfaiate, um sacerdote alemão, um cirurgião e um pastor metodista. “Hiroshima” conta, em 31 mil palavras, o que cada um deles fazia às 8h15 de 6 de agosto de 1945, quando a bomba nuclear explodiu, como eles reagiram aos acontecimentos do dia e como viveram durante os nove meses seguintes. A pauta lhe havia sido dada por Willian Shawn, secretário de redação da “New Yorker”, que se impressionara com a falta de personagens humanos nas milhares de reportagens publicadas sobre Hiroshima em 1945 e 1946. As 150 páginas do manuscrito foram redigidas em seis semanas. Depois, por oito dias, Hersey,

Marcos Reigota

Marcos Reigota Shawn e Harold Ross, publisher da revista, se dedicaram, em tempo integral, a editar

Shawn e Harold Ross, publisher da revista, se dedicaram, em tempo integral, a editar cada frase. A edição de 31 de agosto de 1946 da revista “New Yorker”, sem nenhuma chamada de capa para o texto que ocupava todo o seu conteúdo editorial, se esgotou em apenas dois dias.

A reportagem que ficou em segundo lugar na lista dos especialistas

americanos, recebe o título de “Ambientalismo”. Carlos Eduardo Lins da Silva escreve:

Ao contrário do primeiro colocado na relação da NYU, o segundo mais importante texto jornalístico do século é um libelo. “Silent Spring” (Primavera Silenciosa), também publicado na revista “The New Yorker”, 16 anos depois de “Hiroshima”, é tido como ponto de partida do movimento ambientalista moderno. Raquel Carson (1907-1964), sua autora, era bióloga, zoóloga e jornalista especializada em ciência. Ela propôs, em 1945, à revista “Seleções”, artigo sobre os efeitos do pesticida DDT no ambiente. A sugestão foi recusada. Em 1957, “The New Yorker” lhe pediu a pauta, só realizada após ela ter descoberto estar com câncer.

Para que possamos ter uma ideia mais ampla dos significados dessas duas reportagens, basta dizer que a reportagem classificada em terceiro lugar

é “Watergate”, que ocasionou a queda do Presidente Nixon e, em quarto

lugar, ficou a reportagem sobre os bombardeios nazistas em Londres. Em 9 de dezembro de 1999, a Folha de São Paulo publicou um caderno

especial com o título “O Século da Imagem”, mostrando fotos que, segundo o jornal, marcaram a História do Brasil e do mundo, nesse período. A foto de cobertura do caderno especial, ocupando toda uma página, é

a nuvem radioativa, o famoso “cogumelo”, provocado pela explosão de uma das duas bombas atômicas lançadas no Japão pelos EUA.

O texto (não assinado) que acompanha essa imagem registrada pela

U.S. Signal Corps/Associated Press é o seguinte:

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte Um dos episódios mais bárbaros do século é registrado pelas

Um dos episódios mais bárbaros do século é registrado pelas lentes do exército norte-americano. Uma coluna maciça de fogo e fumaça desenha no ar um imenso cogumelo. Um bombardeiro B-29 norte- americano joga a bomba atômica sobre a cidade de Nagasaki, no Japão, matando mais de 70 mil pessoas. É dia 9 de agosto de 1945. Três dias antes, os EUA lançaram o primeiro artefato do gênero em Hiroshima, onde tinham sido registradas outras 60 mil mortes. O poder destrutivo da nova arma encerra a guerra no Pacífico e, ao mesmo tempo, desencadeia um novo tipo de temor internacional. Nas décadas seguintes, as duas maiores potências nucleares, EUA e URSS, usam a ameaça de seus arsenais para dividir o poder político no planeta, um tenso equilíbrio de forças que fica conhecido como Guerra Fria. (FOLHA DE S. PAULO,

1999).

Nesse mesmo caderno da Folha de São Paulo, uma outra imagem referente à opção nuclear merece destaque, do lado de uma foto mostrando a derrubada do muro de Berlim (1989), de outra com Nelson Mandela saindo da prisão depois de 27 anos (1990) e da explosão do ônibus espacial Challenger (1986). A foto (da Associated Press) à qual me refiro mostra, numa sala de aula, um hospital improvisado com crianças deitadas e o título “Chernobil-1986”. Acompanha a foto o texto:

É 1h23 de 26 de abril. A central termonuclear de Chernobil, a 120 km de Kiev (Ucrânia), explode. O reator libera na atmosfera 5 toneladas de material radioativo. A então URSS diz terem morrido 32 pessoas, mas, em 91, o governo da Ucrânia, já uma república independente, calcula que os mortos são de 7 a 10 mil. Nos próximos 70 anos morrerão russos e ucranianos com doenças provocadas pela explosão. (FOLHA DE S. PAULO, 1999).

A foto (de Jeff Widener/Associated Press) escolhida para fechar esse caderno da Folha de São Paulo não poderia ser mais significativa. Mostra um solitário rapaz que se coloca à frente de quatro tanques que se dirigiam à Praça da Paz Celestial, em Pequim, para impedir a continuidade das manifestações pacifistas dos jovens chineses pela democratização do regime, em 1989. Com o seu corpo e gesto solitários, o jovem impede (nem que tenha sido por alguns minutos) o tráfego dessas armas de guerra. Com o título “Estilhaços de Hiroshima caem em São Paulo”, a Folha de São Paulo de 5 de agosto de 1999, noticia as atividades, em São Paulo, que marcam os 54 anos da bomba atômica. Entre essas atividades, duas delas merecem atenção especial. A primeira trata do lançamento do livro “Gen-Pés Descalços”, de Keiji Nakazawa. Esse livro, publicado em várias línguas e países, retrata o cotidiano de uma família pacifista em Hiroshima, antes e depois da bomba (NAKAZAWA, 1999).

Marcos Reigota

Marcos Reigota A outra atividade foi a palestra do Sr. Takashi Morita, que vive no Brasil

A outra atividade foi a palestra do Sr. Takashi Morita, que vive no

Brasil há 43 anos. O Sr. Morita, de 73 anos, preside a Associação de Vítimas

de Bomba Atômica, fundada por ele em 1984, que reúne 160 pessoas. Ao jornalista Ivan Finotti, o Sr. Morita disse: “A associação existe para pressionar o governo japonês para que ajude os sobreviventes que moram aqui. No Japão, as vítimas têm assistência médica. Aqui não.” (FINOTTI, 1999, Ilustrada). Sobre o momento da explosão da bomba em 6 de agosto de 1945, às 8h15, o Ivan Finotti escreve:

Na noite do dia 5, nem Morita nem os 200 policiais que serviam no quartel dormiam bem. “Aviões voaram toda a noite. Achamos que viria bombardeio”. Seus superiores logo tomaram as providências:

mandaram um grupo de dez policiais cavar abrigos antiaéreos num bairro próximo do centro. Às 8h, Morita já havia tomado café da manhã e estava na rua com seus nove colegas. Pegaram um bonde e desceram no terceiro ponto: “Íamos em fila indiana quando surgiu uma claridade muito grande pelas nossas costas. Não houve som nenhum, não sentimos nada e fomos arremessados ao chão”. Eram 8h15 e a bomba havia explodido a 580 metros de altura, sobre o centro da cidade. Apelidado de “Little Boy”, tinha três

metros e levava em sua barriga 60 quilos de urânio enriquecido [

]

Lá pelo meio dia, o policial foi ao centro da cidade, tentar verificar o que havia ocorrido. “Vi prédios queimados, estruturas retorcidas, pedaços de colunas. E uma montanha de cadáveres”. Dois dias depois, Morita foi hospitalizado para tratar de suas queimaduras na nuca. (FINOTTI, 1999).

A reportagem noticia também que, em 1988, o Sr. Takashi Morita

pediu aos 188 sobreviventes que conhecia que relatassem, por carta, como viveram o dia 6 de agosto de 1945 e, para os habitantes de Nagasaki, o dia 9 de agosto. Pediu também que contassem como esses dias mudaram suas vidas. Responderam ao seu pedido 138 pessoas das 188 contatadas (153

moradores do Brasil, 19 da Argentina, 8 da Bolívia, 4 do Paraguai e 4 do Peru).

Muitos dos relatos foram escritos sob a condição de que não fossem publicados ou que os nomes dos sobreviventes não fossem revelados. Os sobreviventes temem ser vítimas de preconceito. A pedido da Folha de São Paulo, o Sr. Morita aceitou divulgar pela primeira vez, trechos de alguns relatos, traduzidos pela professora de japonês Harumi Kawasaki.

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte Uma criança pequena, com o corpo todo queimado, com a

Uma criança pequena, com o corpo todo queimado, com a pele caindo aos pedaços, pedia para mim, também caída: “Irmã, eu queria tomar água”. Peguei água de um rio próximo e levei até sua boca. A criança tomou contente e morreu. (Mulher, 72 anos, moradora em São Paulo).

Quando fui para o Peru, tive candidatas para o casamento, mas quando eu contava ser sobrevivente, era recusado. Dizem que nossos filhos nascem deformados, sem firmeza no corpo. Eu mesmo sou meio doente. Como não consigo trabalhar direito, após a morte dos pais, fico na casa de meu irmão; e vivo esses dias sofridos. (Homem falecido em 1994, 74 anos, morador no Peru).

Lembro-me de uma mulher jovem que sofrera queimaduras e que carregava firmemente no seu colo uma criança sem cabeça. Ela estendia sua mão em minha direção e pedia água. (Mulher, 70 anos, moradora do Rio de Janeiro).

Minha irmã tinha 3 anos na época do bombardeio. Depois da guerra, cada vez que ouvia um ruído de avião, entrava em casa e se escondia dentro do armário com os olhos e ouvidos tapados. Ela morreu aos 26 anos da doença da bomba. (Mulher, 70 anos, moradora em Mogi das Cruzes).

Meu tio morreu em 1946, por ter ajudado no salvamento das pessoas e por causa da radiação. Meu pai e minha mãe também. Meu segundo filho tem a pele sensível e manchas. O médico não pode ajudá-lo e ele procura não sair no sol. (Mulher, 72 anos, moradora em São Paulo).

NEW MEXICO

Numa conferência em 1998, em Natal, durante o Simpósio Internacional sobre Representações Sociais, o psicólogo francês Michel Roquette fez uma observação, referindo-se ao poder simbólico da bomba atômica. Dizia ele que as bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki concentram todo o imaginário sobre o tema, como se, aparentemente, tivesse sido a primeira vez que o mundo tivesse conhecido o seu potencial destruidor. No entanto, a primeira bomba atômica explodiu nos EUA, claro que apenas para testar o seu potencial, no deserto de Alamogordo, no Novo México, em 16 de julho de 1945. Geralmente, essa data e evento são esquecidos nos EUA diante dos objetivos da concretude representada pelos efeitos devastadores das bombas lançadas no Japão. No entanto, antes do Japão, a humanidade havia “conseguido” a capacidade de se autodestruir através de um artefato bélico. O processo político e tecnológico de construção da bomba atômica nos EUA e, depois, na ex-União Soviética, representa um dos mais significativos

Marcos Reigota

Marcos Reigota momentos da aliança entre interesses bélicos e científicos que conhecemos e que marcaria profundamente

momentos da aliança entre interesses bélicos e científicos que conhecemos e que marcaria profundamente as décadas seguintes. Envoltos em mistérios e aventuras, os cientistas que se aglutinaram em torno do projeto americano de construção da bomba atômica, tiveram suas atividades altamente recompensadas e legitimadas. Muitos dos cientistas, envolvidos de uma forma ou de outra com a elaboração e construção da bomba atômica, foram contemplados com o Prêmio Nobel de Física e de Química, outros renegaram a bomba atômica e se tornaram fervorosos pacifistas. Muitos deles marcaram o ensino e pesquisas dessas áreas de conhecimento, como é o caso de Glenn Seaborg, J. Robert Oppenheimer, Niels Bohr, Enrico Fermi, sem falar em Albert Einstein. Um dos pesquisadores mais emblemáticos dessa “aventura” foi Emil Julius Klaus Fuchs, que depois se revelaria, além de um competente cientista, espião do regime soviético. A história de como os EUA conseguiram produzir a bomba e como Fuchs se torna um espião é contada, de forma ficcional, por Peter Millar, no seu livro “Stealing Thunder”. (MILLAR, 1999). Numa passagem, o autor escreve sobre as indagações e dúvidas de Niels Bohr, numa eventual conversa com Klaus Fuchs, em Los Alamos, sobre os efeitos morais de se produzir e utilizar a bomba atômica (MILLAR, 1999, p. 44-45) 1 .

1 So, Klaus. Do you think this weapon will ever be used? What do you feel, as a German, about dropping such a device, with such unknown power, on your fellow countrymen? Please, I do not wish to disconcert you, but it is something we have to think about.’ Fuchs had heart rumours that Bohr was becoming increasingly worried about the morality of using a superweapon, particularly when he had-albeit indirectly - contributed so crucially to its origins. But the last thing Fuchs wanted was to be drawn into a conversation on the moral implications of a bomb that could alter forever the balance of power. He knew what had to be done. He was doing it. It was not betrayal. It was how science was meant to be. There should be no secrets between allies. But to get involved in a discussion of the topic would be to risk expressing his opinions too freely, and that might raise security questions, particulary in the mind of the ever-suspicious General groves. He parried Bohr with a standard response used on The Hill: ‘If it ends the war, then it will be worthwhile’. ‘Precisely’. The big man fixed Fuchs with the steady gaze of an apostle in search of a convert. ‘But it must end not just this war, but all wars. You know they have no idea exactly what force this bomb may yeld. You yourself are engaged on the calculations, so I do not need to tell you that it is a highly speculative endeavour: we have little frame of reference. I suspect that it will be tremendous. It will set history on to a new track’. Fuchs noticed an intensitity in his eyes, which in anyone else would have been mistaken for a psychological disorder. In Niels Bohr it was a window on to an intellect that never slept. ‘What will be the result if one contry alone has this bomb?’ the Dane continued. Fuchs told

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte Esse diálogo ficcional, acontecido na intimidade, entre dois cientistas, seria,

Esse diálogo ficcional, acontecido na intimidade, entre dois cientistas,

seria, pouco tempo depois, tema de conversas do cotidiano e de debates

calorosos em todo o mundo, movimentando milhares de pessoas e originando

uma grande quantidade de textos acadêmicos, ensaios, livros, filmes, peças

de teatro, esculturas, pinturas, etc. colocando-nos, todos, homens e mulheres,

definitivamente na era nuclear.

GLENN SEABORG

Na sua edição de 28 de fevereiro e 01 de março de 1999, o jornal

parisiense Le Monde, em coluna assinada por Pierre Barthélémy, noticia a

morte de Glenn Seaborg, Prêmio Nobel de Química de 1951 e diretor da

equipe americana que sintetiza o plutônio em 1941 com o seguinte texto:

Glenn Theodore Seaborg morreu, na noite de quinta feira, 25 de fevereiro, na sua casa em Lafayette (Califórnia), como consequência de um ataque cerebral que sofreu em agosto de 1998. Nascido no Michigam, em 12 de abril de 1912, este filho de imigrantes suecos encontrou aos quinze anos um professor que não ensinava, mas pregava’ a química e a física. A ciência o chama e ele integra a Universidade de Berkeley em Los Angeles, na prestigiosa equipe de professores-pesquisadores em química que dispunha do maior acelerador de partículas da época. Em 1940, ele recomeça as pesquisas de Edwin McMillan, que acabava de descobrir o primeiro elemento transuraniano (ou neptunium), e em 14 de dezembro de 1940, Glenn Seaborg e sua equipe observam uma mistura bombardeando um alvo de óxido de urânio. Uma nova substância? O elemento 94, batizado mais tarde de plutônio, estava ao alcance das mãos. Na noite de 23 de fevereiro de 1941, no momento em que uma tempestade caía sobre o câmpus de Berkeley, Glenn Seaborg, Edwin McMillan, Joseph Kennedy e Arthur Wahl identificam definitivamente esse novo elemento como sendo o plutônio 238. Um mês mais tarde, a equipe à qual se integrou Emílio Segrè, sintetiza o isótopo 239 e prova que esse átomo é fissível. Um combustível altamente energético para eventuais centrais nucleares, mas cujo principal interesse é, antes de tudo, militar, no momento em que a Alemanha nazista domina a Europa. No final de 1941, o governo americano decide pela construção da arma atômica e o físico Arthur Compton reuniu, na Universidade de Chicago, sob o nome codificado de “Metallurgical Laboratory”, uma equipe de pesquisadores com o objetivo

hinself he was not hearing this. ‘The very reason for the work we are doing here was the fear that the first country to achieve it might the Nazi Germany. But should any one country, no matter how benevolent it may see to us today, be allowed mastery of human destiny? This work will not be secret forever. If we are successful, then others will be too-sooner or later. How much sould we be telling our allies? (p. 44-45).

Marcos Reigota

Marcos Reigota de desenvolver uma técnica de produção industrial do plutônio 239. Glenn Seaborg chegou a

de desenvolver uma técnica de produção industrial do plutônio 239. Glenn Seaborg chegou a Chicago na primavera de 1942 e começa, então, “o período mais apaixonante da (sua) vida. Três anos de corrida contra Hitler”. Em 20 de agosto, os químicos puderam, enfim, ver os primeiros milionésimos de miligramas do novo elemento, um sal rosado completamente artificial. Ainda seria necessário produzir muitos quilos para satisfazer as necessidades militares. Em 16 de julho de 1945, explode em Alamogordo (Novo México) a primeira bomba atômica de plutônio. Os acontecimentos se aceleram. Em 6 de agosto, uma bomba atômica de urânio 235 explode sobre a cidade japonesa de Hiroshima e, três dias depois, em 9 de agosto, uma bomba de plutônio 239 destrói Nagasaki. “Eu teria preferido que uma demonstração tivesse sido feita sobre um lugar desabitado, a fim de deixar ao Japão a possibilidade de se render antes de um eventual bombardeio.” Reconheceu mais tarde Seaborg: “mas o governo considerou que isto poderia não funcionar. O Japão poderia se recusar a capitular e nós tínhamos na época

Quando em 1961, o presidente Kennedy o nomeia

presidente da Atomic Energy Commission, posto no qual ficaria durante dez anos, Seaborg milita por um real controle das armas nucleares. Ele participa da elaboração dos tratados de não proliferação, assinados em 1963 e 1970.

uma única bomba

No entanto, suas ocupações mais “políticas” não aposentaram a sua carreira científica. Em 1944, Glenn Seaborg enuncia uma teoria de elementos chamados, “superpesados”, obtidos pelo bombardeamento de nêutrons ou de núcleos de hélio. Isto lhe vale o Nobel de química de 1951, que divide com Edwin McMillan. Ele participa da criação de uma dezena desses elementos transuranianos e, em 1997, a União Internacional de Química Pura e Aplicada dá ao elemento 106 o nome de “seaborgium”. Última homenagem da ciência a este pai da alquimia moderna. (BARTHÉLÉMY, 1999, p. 18).

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte TAKASHI MORITA O Sr. Takashi Morita entrou discreto, silencioso. Curvou-se

TAKASHI MORITA

O Sr. Takashi Morita entrou discreto, silencioso. Curvou-se saudando

o público presente e colocou sobre a mesa um pequeno sino. Começou a sua palestra/depoimento falando em japonês, de forma

pausada e lenta, dando ao tradutor o devido tempo, retomando depois o que tinha a dizer.

O Sr. Takashi Morita chegou ao Brasil em 1956, com sua esposa e dois

filhos. Durante muitos anos ficou calado, esperando os netos crescerem

saudáveis para iniciar sua militância pela paz. Aos 21 anos, ele era um jovem militar que caminhava com suas roupas grossas, naquele azulado e quente dia de agosto em Hiroshima.

Logo o céu azul deu lugar a uma chuva negra e muitas pessoas caíam mortas ou feridas pelas ruas da cidade. Crianças, jovens, velhos, homens e mulheres. O Sr. Morita foi ferido pelas costas, fato esse que provocou vergonha no jovem militar. Não por ter sido ferido, mas sim porque o fora pelas costas. Entre mortos e feridos, ele caminhou pela cidade procurando ajudar e entender o que havia acontecido. Era a bomba atômica. Poucos meses depois, teve várias inundações em Hiroshima e os sobreviventes da bomba e das inundações acreditavam que Deus estava contra a cidade. Qual teria sido o

mal?

Todos diziam que a população que havia sido contaminada teria no

máximo dois anos de vida e a natureza levaria pelo menos 70 anos para voltar

a dar os seus sinais. Um ano depois, as primeiras plantas começaram a surgir

e com elas a esperança de vida. As inundações haviam levado para o mar praticamente toda a radiação mais intensa.

A esposa do Sr. Morita é também uma sobrevivente de Hiroshima.

Tiveram dois filhos saudáveis, mas crescidos sob o estigma de vítimas da radiação. Ninguém poderia prever o que iria acontecer com eles. Era necessário esperar o nascimento de uma nova geração: os netos.

O Sr. Takashi Morita é saudável, vigoroso, calmo e preciso. Acredita

que a sua saúde seja um "dom e uma condição para levar o seu testemunho e

mensagem pacifista".

Marcos Reigota

Marcos Reigota No Brasil vivem 161 sobreviventes das bombas de Hiroshima e Nagasaki. Nem todos têm

No Brasil vivem 161 sobreviventes das bombas de Hiroshima e Nagasaki. Nem todos têm a mesma saúde do Sr. Morita. Às 20h30, o Sr. Morita encerrou o seu relato e nos brindou com o som do sino da paz de Hiroshima. Há 54 anos, naquela data e horário, a primeira bomba atômica havia sido lançada.

UMA CRÔNICA DE CARLOS HEITOR CONY

Em 21 de agosto de 1999, foi publicada na Folha de São Paulo a crônica “Agulhas de Hiroshima”, de Carlos Heitor Cony, cujos parágrafos iniciais são os seguintes:

Pisei de mau jeito num desses caminhos da vida e peguei uma dor no tornozelo que não passava com os recursos da medicina ocidental. Aconselharam-me a alternativa que sempre se busca nessas horas: os complicados macetes da medicina oriental. Daí que adentrou em minha sala um japonês simpático, com o simpaticíssimo nome de Tada.

Ele e suas agulhas. Tada espetou-as não exatamente no local avariado, mas em quase todo o corpo. Identificou problemas no baço - e eu nem sabia que tinha baço dentro de mim. Para amenizar o agulheiro em que me transformei, falou de sua vida e de sua quase morte. Morava em Hiroshima, tinha 6 anos, quando viu um sol nascer do chão e matar todo o mundo em volta. (CONY, 1999, p. 2).

PARIS, 1900

Com o objetivo de se comemorar 100 anos da descoberta da radioatividade e do raio-X, foi realizado em 1996, em Paris, o simpósio “Átomo e Sociedade”, que contou com a participação de conhecidos intelectuais e cientistas franceses, entre eles Alain Touraine, Michel Maffesoli e Michel Serres. O título da conferência de Michel Serres, Paris 1900, indica o tipo de análise que o filósofo e historiador da ciência, de formação em matemática, pretendia fazer, mostrando como, na virada do século, a capital francesa era o território privilegiado de várias manifestações artísticas e literárias, assim como científicas, que a colocavam na situação de “centro do mundo”, popularmente conhecida como “Cidade Luz”, numa cara referência ao Iluminismo.

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte Serres inicia a sua conferência questionando: “Henri Becquerel descobre a

Serres inicia a sua conferência questionando: “Henri Becquerel descobre a radioatividade em 1896 e recebe o Prêmio Nobel em 1903. O que se passa em Paris, entre essas duas datas, ou seja, em torno de 1900?”. (SERRES, 1997, p. 15).

de forma geral, surge em

Paris, por volta de 1900, um sistema novo de representação que nós vamos encontrar em todos os trabalhos de ciência ou arte dessa época:

abstrata.”(SERRES, 1997, p. 17). Nesse contexto cultural e científico onde se cruzam nomes como Monet, Debussy, Ravel, Bergson, Hadamard, etc., é que, para Serres, Henri Becquerel descobre a radioatividade, como um caso particular desse movimento de descobertas coletivas. Para Robert Dautray, membro da Academia de Ciências da França, na época da descoberta da radioatividade, a existência do átomo era ainda uma incógnita, uma hipótese sem fundamento com base em experiências feitas pelos físicos (SERRES, 1997, p. 21). Isso deve ser levado em consideração devido à predominância do Positivismo na ciência francesa, que considerava como verdadeira uma hipótese científica, somente após a sua comprovação por processos experimentais. Dessa forma, como levar em consideração, seriamente, uma hipótese que se quer científica, mas cujo teor de abstração e subjetividade escapa aos controles experimentais? Apesar das resistências dos meios científicos mais conservadores, a Escola de Física e de Química Industrial da Cidade de Paris entra para a história, inicialmente com as pesquisas de Henri Becquerel, e depois com as de Pierre e Marie Curie. Observa Héléne Ahrweiler, Presidente do Comitê de Ética para as Ciências do CNRS 2 ,

À sua própria pergunta, Serres responde “

2 CNRS = Conselho Nacional de Pesquisa Científica

Marcos Reigota

Marcos Reigota Nos anos trinta, a aventura do átomo era apresentada aos estudantes como um conto

Nos anos trinta, a aventura do átomo era apresentada aos estudantes como um conto de fadas, sem que jamais alguma menção tenha sido feita aos perigos mortais dessa nova ciência. E, no entanto, Marie Curie já havia morrido em 1934, de leucemia, em consequência dos raios X e da radioatividade. Irène Joliot-Curie morrera do mesmo mal em 1956. (AHRWEILER, 1997, p. 31).

A crença nos benefícios da ciência e nas suas possibilidades fica explicitada no discurso de Pierre Curie, quando, em 1912, recebe o Prêmio Nobel: “Sou daqueles que pensam, como Nobel, que a humanidade terá muito mais benefícios que malefícios das novas descobertas”. (AHRWEILER, 1997, p. 31). Efetivamente, as novas descobertas em radioatividade serão determinantes para a ciência e para a política nas décadas seguintes. Para Robert Dautray comentando as ideias apresentadas por Michel Serres as contribuições dos estudos sobre a radioatividade podem ser resumidas da seguinte forma:

Primeiro, a aquisição de um novo conhecimento da matéria e do Universo; segundo, a constatação de que a radioatividade forneceu um relógio da história do mundo e, assim, nos abriu para o passado, mostrando como esse passado engendrou o mundo presente; terceiro, o fato de que a radioatividade forneceu os percursos, as marcas que permitem auscultar da mesma forma o funcionamento do corpo humano, assim como o da Terra e do sistema solar e de revelar seus mecanismos; quarto, suas as aplicações: energia nuclear, defesa nacional, medicina nuclear, etc. (SERRES, 1997, p. 21).

É nesse quarto item apontado pelo acadêmico que as mais vigorosas e apaixonadas discussões e disputas políticas vão acontecer, principalmente no que se refere à sua aplicação bélica e civil, através das usinas nucleares.

BRUXELLES, 1958

Ao contrário do que poderíamos imaginar, as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki não foram suficientes para mostrar o perigo que esses artefatos bélicos representavam para a humanidade. Vários países, entre eles os EUA, assim como a ex-URSS, a França, a Inglaterra e a China empenharam-se em possuir essa arma que, além do potencial destruidor, estava carregada de símbolos: de potência política e militar, de desenvolvimento tecnológico e de domínio geoestratégico internacional.

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte No plano político, o poder simbólico e militar vai encontrar

No plano político, o poder simbólico e militar vai encontrar a sua máxima expressão no Conselho Permanente de Segurança das Nações Unidas, cujos postos são ocupados pelos países possuidores de armas nucleares. Logo após a Segunda Guerra Mundial, inicia-se a corrida armamentista. Em 1946, os EUA continuam com os seus testes nucleares, sendo que os mais conhecidos e com maiores consequências ecológicas, foram os testes relacionados com a bomba de hidrogênio, realizados em 1954, no atol de Bikini. Os soviéticos testaram a sua primeira bomba atômica em setembro de 1949. Na então chamada “cortina de ferro”, a corrida pelo domínio da tecnologia atômica e produção de armas nucleares foi muito intensa. Como característica do regime stalinista, a população não tem como se manifestar contra as diretrizes traçadas pelos burocratas do Partido; por outro lado, o processo ideológico e educativo difunde a ideia do “átomo para fins pacíficos”. Discurso esse que muitas vítimas de Chernobil lembrarão décadas depois. (ALEXIEVITCH, 1998). Nos países da Europa “liberados pelo big brother”, a influência política

e cultural dos EUA é enorme. O ufanismo pós-guerra, aliado aos primeiros

resultados da política do “Welfare State”, consequência dos investimentos do Plano Marshall, deixa os europeus eclipsados em relação à corrida armamentista que ocorre no continente e fora dele. O período do pós-guerra na Europa e nos EUA é marcado pelo início da televisão, dos aparelhos eletrodomésticos e do automóvel particular, de ter filhos (que se revelariam muito “impertinentes” alguns anos depois), de dançar ao som do “Twist”, de acreditar nas inúmeras possibilidades da ciência, de viajar e conhecer outros países, os mais exóticos possíveis. No entanto, alguns intelectuais como Bertrand Russel, Albert Einstein

e muitos outros se destacam, alertando para as consequências da corrida armamentista nuclear e do militarismo de forma geral. Àqueles podemos acrescentar a figura de Mahatma Gandhi que, com o seu pacifismo e atitudes de desobediência civil e de não violência, provoca o recuo do Império Britânico e do seu poderoso exército, conquistando, enfim, a independência da Índia.

Marcos Reigota

Marcos Reigota Essas vozes dissonantes não foram suficientes para impedir a corrida armamentista que caracterizou a

Essas vozes dissonantes não foram suficientes para impedir a corrida armamentista que caracterizou a segunda metade do século, mas foram suficientes para plantar o germe dos movimentos ecologistas e pacifistas, algumas décadas depois. O Sr. Maurice Tubiana indagando Michel Serres, no simpósio “Átomo e Sociedade” ocorrido em Paris em 1996, faz um comentário sobre esse período:

Havia a necessidade de reencontrar alguma coisa de sólido e de voltar à razão e à fé do espírito humano e do progresso. Em 1945, o entusiasmo com o qual foi recebida a bomba atômica e o entusiasmo com o qual será feita a abertura em direção ao mundo atômico, são devidos à necessidade de acreditar que a paz, o progresso científico e a prosperidade são as chaves do futuro. (SERRES, 1997, p. 48).

A essas observações Michel Serres responde: “É possível. No entanto, em 1945, a crise dos filósofos e dos grandes cientistas em relação às explosões de Hiroshima e de Nagasaki foi profunda, pois ela dizia respeito tanto aos físicos atomistas como aos filósofos.” (SERRES, 1997, p. 48). É no clima de otimismo que, em Bruxelas, como símbolo da Exposição Universal, foi construído o monumento em forma de átomo, em 1958. Esse monumento emblemático, um dos mais significativos exemplares da arte kitsch em toda Europa, existe até hoje (a previsão era de que seria demolido após a Exposição Universal), tendo se tornado um cartão-postal obrigatório da capital belga, sede da União Europeia e da OTAN. “O símbolo de Bruxelas”, como é indicado em vários documentos para turistas, é uma maciça construção de 102 metros de altura, sendo que cada uma de suas nove esferas (representando a estrutura química do átomo) pesa 200 toneladas. Esse monumento pesado - de aço e capital simbólico - é com frequência representado nas histórias em quadrinhos modalidade artística das mais vigorosas na Bélgica e é, atualmente, um monumento incorporado à paisagem e ao imaginário daquele país. Em 1958, os guerrilheiros liderados por Fidel Castro ainda não haviam descido a Sierra Maestra, nem a ex-URSS havia apontado, desde Cuba, os seus mísseis para os EUA. A Guerra Fria começaria logo depois.

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte ALMIRANTE ÁLVARO ALBERTO O boletim mensal do Rotary Clube de

ALMIRANTE ÁLVARO ALBERTO

O boletim mensal do Rotary Clube de Iperó (interior de São Paulo), “Nosso Rotary” (ano I, n° 2), na sua edição de agosto de 1998, publicou a seguinte nota biográfica do Almirante Álvaro Alberto:

No transcurso de mais de meio século entre o início da Primeira Guerra e os vinte anos que sucederam à II Guerra, a vida intelectual e política brasileira foi marcada pela presença singular do Almirante Álvaro Alberto da Mota e Silva. Nascido em 22 de abril de 1889, no Estado do Rio de Janeiro, Álvaro Alberto viveu em um período de grandes transformações no mundo e na vida nacional - Revolução de 30, Estado Novo, Governo Juscelino Kubitschek e Regime Militar, período também rico e agitado na trajetória de sua vida. Fixam-se nesse momento os múltiplos perfis daquele que seria personagem-chave nos quadros dirigentes brasileiros: empresário, fundou e dirigiu aquela que chegou a ser a maior empresa do ramo de explosivos do país, responsável pela implantação da primeira fábrica de nitroglicerina na América Latina; tecnólogo, tornou-se inventor de conhecimento internacional na química de explosivos; professor, tornou-se a imagem de um grande formador de quadros da Escola Naval, onde ingressou em 1906 e trabalhou durante 30 anos; formulador de políticas, impôs-se como principal articulador de uma política nacional de energia nuclear, tendo sido liderança incansável na criação do Conselho Nacional de Pesquisa; e intelectual, produziu pesquisas originais no campo da química de explosivos. Membro de sociedades científicas nacionais e internacionais, entrou para a Academia de Ciências em 1921, sendo seu presidente de 1935 a 1937 e, depois, de 1949 a 1951. Participou ativamente da vida daquela sociedade, onde apresentou mais de uma centena de comunicações técnicas sobre ampla gama de assuntos, com ênfase na química dos explosivos.

Suas pesquisas químicas foram fundamentais no desenvolvimento das inovações que realizou no campo da tecnologia dos explosivos. Desenvolveu, patenteou e industrializou vários produtos nos campos civil e militar, tendo fundado a Rupturita S.A., empresa que presidiu durante 34 anos. Seus produtos chegaram a ser oficialmente adotados pela marinha brasileira, além de amplamente utilizados pela indústria de construção e mineração do país.

Nacionalista e entusiasta eloquente da aplicação da ciência na promoção do desenvolvimento econômico do país, Álvaro Alberto ganhou notoriedade a partir de 1946, quando representou o Brasil na Comissão de Energia Atômica do Conselho de Segurança da ONU, da qual foi presidente em duas oportunidades. Começou naquele momento a defender o acesso brasileiro à tecnologia nuclear. Posicionou-se contra o controle internacional das jazidas de minerais atômicos e formulou o princípio das compensações específicas, pelo qual o país só deveria comercializar esses minerais em troca do acesso à tecnologia nuclear.

De volta ao Brasil, liderou a luta pela formulação de uma política nuclear nacional e pela criação do Conselho Nacional de Pesquisas

- CNPQ, cuja presidência exerceu

desde sua criação, em 1951, até

Marcos Reigota

Marcos Reigota março de 1955. Lembrado como pesquisador e por sua capacidade de liderança e iniciativa

março de 1955. Lembrado como pesquisador e por sua capacidade de liderança e iniciativa no campo da política, Álvaro Alberto foi também importante personagem da vida política nacional. Sua atuação em favor de uma política científica autônoma, durante o governo Vargas, constitui aspecto decisivo da vida política brasileira daquele momento. Faleceu em 31 de janeiro de 1976, no Rio de Janeiro. (ROTARY, 1998, p. 6).

Entre a nota biográfica do Almirante Álvaro Alberto e duas publicidades de empresas, uma de construção civil e outra de informática na cidade de Iperó, encontramos a seguinte frase atribuída a Goethe: “O essencial é que um homem possua qualquer coisa a fundo e que se lhe dedique inteiramente como nenhum homem dos que o rodeiam o poderia jamais fazer”. (ROTARY, 1998, p. 6).

STANISLAV PETROV

O jornal “Le Monde” de Paris, na sua edição de 23 de fevereiro de 1999, publicou um artigo da jornalista Laure Mandeville, que de Moscou escreveu sobre Stanislav Petrov, “o herói desconhecido da Guerra Fria”. Com o título “A noite que quase explodiu a Terceira Guerra Mundial” e com o subtítulo: “Em 26 de setembro de 1983, um satélite soviético detectou um ataque nuclear. Depois de refletir, o oficial de plantão concluiu que foi um erro técnico”. (MANDEVILLE, 1999, p. 4b). A jornalista do periódico francês escreve que:

O tenente coronel Stanislav Petrov havia acabado de tomar um

bom chá quente numa macia poltrona do bunker ultrassecreto de Serpoukhovo 15. Estava de plantão nessa noite, no estado maior da central de prevenções dos ataques por mísseis, na periferia da zona sul de Moscou, ele estava no comando de 200 oficiais encarregados

de ajudá-lo durante a vigia. Preparava-se para uma noite como as

anteriores. Sentia-se bem, pois amava o seu trabalho de engenheiro militar. Mas de repente, alto som de sirene atravessa o espaço, e o coração dos oficiais de plantão começa a bater intensamente. Em enormes painéis de controle, luzes vermelhas começaram a piscar em todos os sentidos: Um dos satélites soviéticos encarregados de inspecionar as bases americanas de mísseis havia detectado um

ataque nuclear. O sistema de alarme do computador encarregado de identificar o sinal havia concluído que cinco mísseis norte- americanos Minuteman haviam sido disparados em direção à URSS. Era por volta de meia-noite e quinze de 26 de setembro de 1983, e isso parecia ser o início da Terceira Guerra Mundial. Psicose.

“Foi um terrível choque”, lembra o Coronel Stanislav Evgrafievitch Petrov, 59 anos, que se vira atualmente com a aposentadoria de

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte 1000 rublos (algo como US$ 60) na pequena cidade de

1000 rublos (algo como US$ 60) na pequena cidade de Frianzino, a uns quarenta quilômetros de Moscou. “Era necessário tomar uma decisão em alguns segundos, mas havia esse barulho das sirenes que acordava os mortos e que me impedia de refletir”, explica o velho militar de olhos azuis molhados pelo álcool que bebe, para esquecer o seu triste cotidiano. A psicose ideológica

antiamericana imposta pela hierarquia militar da URSS, depois da destruição, um mês antes, em pleno voo, de um Boeing sul coreano por um caça soviético, não contribuía para a serenidade do corpo

de oficiais. Depois de dois ou três minutos de reflexão, Petrov, que

na época tinha 44 anos, decide concluir que se tratava de um erro nos sistemas de alerta do satélite que havia enviado a informação. Ao trabalho” ordena o tenente coronel aos seus subordinados, que

o olhavam, paralisados. Ele sabia que, em teoria, um ataque

nuclear americano, se isso acontecesse, seria massivo. Constata

também que os sistemas de detecção soviéticos em terra não haviam registrado os mísseis assinalados pelo Spoutnik.

Pegando o telefone, que não parava de tocar, fez o seu relatório sem se deixar desmontar pelo seu superior, que vociferava do outro lado, concluindo que foi um falso alerta. A mensagem chega imediatamente ao Estado-maior e ao ministro da defesa Dimitri Oustinov, que convoca uma comissão de enquete. Segundo o semanário Kommersant-Vlast, o primeiro a trazer a público o falso alerta de 1983, o secretário geral do Partido Comunista Iouri Andropov, não foi molestado. “Eu tinha o pressentimento de que alguma coisa acabaria acontecendo, lembra Petrov, dezesseis anos depois, Nossos satélites não eram confiáveis”. Muitos incidentes já haviam acontecido quando se colocou o Spoutnik OKO (chamado também Kosmos 1382) em órbita, encarregado de vigiar as bases americanas, situado a 40.000 quilômetros do globo terrestre. A cada volta completa em torno da Terra, os satélites eram submetidos a emissões radioativas que provocavam o acúmulo de eletricidade estática. Nenhuma proteção estava prevista pelos responsáveis do departamento Lavotchkine, conta Petrov, os aparelhos eletrônicos se quebravam, provocando panes nos sistemas de orientação e os satélites explodiam automaticamente. O pior, lembra, era que “quando alguma coisa ia mal, os generais exigiam os culpados. Os oficiais estavam cansados de arrebentar os seus ossos sobre sistemas técnicos não confiáveis. Mas os chefões preferiam denunciar o fator humano, em vez de reconhecer os fracassos tecnológicos deles “

Quando relembra 1983, Stanislav Petrov tem tendência a subestimar o seu papel. “Se eu tivesse concluído que se tratava de um ataque, isto teria criado uma bagunça insana, mas nós iríamos concluir que se tratava de um erro”, ele explica. Em um artigo do Jornal Histórico Militar de 1993, o general Iouri Vorotyntsev, comandante-chefe das forças antimísseis na época, presta uma homenagem a Petrov. “Deus sabe qual decisão deveria ter sido tomada pela direção do país. Felizmente, um verdadeiro

profissional

estava no comando.”

De qualquer forma, Stanislav Evgrafievitch Petrov, nunca foi recompensado pelo seu sangue-frio. Depois de ter recebido os cumprimentos, ele foi interrogado durante três dias e três noites e foi criticado por não ter anotado os detalhes do acontecido. Um ano mais tarde, o coronel Petrov, que não estava mais autorizado a trabalhar no coração do sistema antimísseis, deixou o exército. (MANDEVILLE, 1999, p.4B).

Marcos Reigota

Marcos Reigota O artigo da jornalista Laure Mandeville é ilustrado com uma foto de Stanislvav Petrov,

O artigo da jornalista Laure Mandeville é ilustrado com uma foto de Stanislvav Petrov, feita por Serguei Mikheev/Laski Diffusion. Nela vemos um homem grisalho, de barba, com o olhar triste, distante e cabisbaixo, vestido com uma camisa xadrez, lembrando um velho cantor norte-americano de country music. Segura, num cabide, o seu uniforme de militar com várias medalhas em ambos os lados.

DUAS CARTAS

Os escritores Kenzaburo Oe e Mário Vargas Llosa trocaram duas cartas publicadas em janeiro e fevereiro de 1999, no jornal El Pais, de Madrid. Nelas os famosos escritores comentam seus livros e personagens, falam de literatura e leitores, de política, de suas convicções, etc. como dois velhos amigos que se respeitam e se querem bem. Na segunda carta de Kenzaburo, publicada em 8 de fevereiro de 1999, com o título de “El poder de la inocência”, há referências ao tema nuclear, como os seguintes:

Era inevitável que um processo de modernização tão violento e espetacular causasse no Japão e nos japoneses uma série de profundas feridas. Na primeira metade deste século, foi o Japão que infligiu feridas a outros países e povos da Ásia. Como primeiras vítimas do poder destruidor das armas nucleares, o Japão e os japoneses receberam, por sua vez, feridas morais que seriam

No início deste ano, um respeitado

professor da Universidade de Harvard propunha, em artigo

publicado num jornal japonês, três condições hipotéticas para que

o Japão pudesse possuir armas nucleares: 1- O cancelamento de

seus acordos militares com os Estados Unidos, 2- Uma ameaça séria por parte da China; 3-Uma mudança profunda na opinião pública japonesa. Para ser justo com o professor, a essa citação tem que se acrescentar também sua conclusão: enquanto continuar a dominante presença americana no leste da Ásia, o Japão não terá um arsenal nuclear próprio. Eu faço parte dessa opinião pública que tem que expressar-se em relação ao Japão e aos japoneses do próximo século. E eu, pelo menos, creio que, em nome da paz duradoura e independente, o Japão deveria tomar o caminho da abolição de todo tratado com qualquer país que ofereça bases militares e prometa a colaboração em ações militares. O que aconteceria se o Japão tivesse seu próprio arsenal nuclear conforme a primeira dessas três condições hipotéticas? Minha condição de novelista me obriga a imaginá-lo. A possível tensão que se geraria entre a China e o Japão levaria os japoneses à histeria coletiva. E daria lugar a uma expansão colossal do poder nuclear do Japão. Nesse processo, é impossível adivinhar qual seria

o primeiro a atacar o outro. Mas, se declarada uma guerra nuclear

entre a China e o Japão, não seria o imenso continente, mas sim o

herdadas no futuro. [

].

pequeno arquipélago, o que terminaria inteiramente extinto como nação, pelas armas nucleares. É, por conseguinte, em primeiro

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte lugar, um imperativo categórico que o Japão não tenha nunca

lugar, um imperativo categórico que o Japão não tenha nunca um arsenal nuclear. Pelo contrário, o Japão deve criar, por vontade própria, algumas condições de paz duradoura nas suas relações com a Ásia e o resto do mundo. Esses são meus dois desejos para a primeira década do século que chega, em que, é provável, ainda estarei vivo. Uns desejos pensados em meio a uma sensação de total impotência. É possível que pense que, como na minha primeira carta (El Pais, 10 de janeiro), insisto em falar de um tema muito difícil para um escritor. Só espero que compreenda que os meus desejos são derivados de minha certeza na virtude da não violência ou da inocência inerente à natureza humana, que confio (que) sobreviva no próximo milênio. (OE, 1999, p. 17).

Mario Vargas Llosa responde, na “Segunda carta a Kenzaburo Oe”, publicada no El Pais, em 14 de fevereiro de 1999, as ideias e hipóteses do escritor japonês, ao mesmo tempo em que explicita as suas próprias sobre o mesmo tema.

Sinto o maior apreço pelos alarmes e preocupações que merece o seu país e compreendo que, no seu empenho de conquistar uma paz duradoura, lute para que o Japão rescinda todo tratado que implique aceitar bases militares e uma colaboração militar com qualquer outro país. Depois de ter vivido o apocalipse de Hiroshima e Nagasaki, é compreensível que o movimento pacifista logre tantas forças no seu país e que, no Japão, a campanha pela abolição das armas atômicas tenha mais dinamismo e popularidade que em qualquer outra sociedade e conte com o apoio de intelectuais tão respeitados como o senhor. Ninguém dotado de um de sentido comum poderia recusar sua posição (su juicio) de considerar “abominável” a “decisão de ter armamento nuclear”. Em termos parecidos eu qualifiquei, em um artigo recente, a fabricação de bombas nucleares pela Índia e Paquistão, insensatez que, além de provocar uma feroz carnificina em caso de um conflito armado entre ambos os países, constitui um perigosíssimo precedente para que outros países do Terceiro Mundo sigam esse sinistro exemplo. E fui também um dos primeiros a criticar os testes nucleares no Pacífico, com os quais inaugurou a sua presidência o mandatário francês Jacques Chirac.

No entanto, não posso subscrever as teses dos pacifistas, por mais respeito que me mereçam o generoso idealismo que as inspira. Creio que todo intercâmbio de ideias sobre o pacifismo e as armas nucleares deve partir de uma circunstância concreta, não de uma postura abstrata. Tais armas, lamentavelmente, já estão aí. É uma desgraça para a humanidade, sem dúvida, mas essa lamentação não tem eficácia nenhuma. O importante é atuar de maneira realista, tratando de conseguir objetivos possíveis. Quer dizer, de imediato frear a corrida armamentista, impedindo a proliferação de armas nucleares nos países que ainda não as têm, em vez de pressionar em favor da progressiva eliminação dos arsenais nucleares das nações que as possuem.

Países como o seu e o meu podem renunciar de maneira unilateral a ter armas nucleares; aliás, devem fazê-lo. Mas, reconheçamos que esse é um privilégio de que desfrutam o Japão e o Peru devido a que, no mundo de hoje, o poderio militar atômico está primordialmente concentrado nas potências ocidentais, quer dizer, nas sociedades democráticas. Isto não tira o perigo das armas

Marcos Reigota

Marcos Reigota nucleares, evidentemente. Mas assegura um mínimo de responsabilidade moral e política na hora de

nucleares, evidentemente. Mas assegura um mínimo de responsabilidade moral e política na hora de utilizá-las. A prova é que, no último meio século, a arma nuclear não foi empregada e melhor serviu para impedir que o império soviético se estendesse, agregando mais colônias ou satélites do que os que obteve no final da segunda guerra mundial. O que teria acontecido se os Estados Unidos houvessem renunciado, em nome do ideal pacifista, a abastecer-se, nos anos quarenta, das armas nucleares que Hitler procurava avidamente para conquistar o mundo? E qual haveria sido o desenlace final da guerra fria se, nos anos cinquenta, somente a União Soviética tivesse mísseis nucleares, porque a Grã- Bretanha, França e os Estados Unidos renunciaram a fabrica-los em nome do pacifismo? Temo muito que hoje não seria só o Tibet um país invadido e colonizado por uma potência totalitária cujo governo, ao contrário do que acontece numa democracia, não tem que prestar contas à opinião pública de seus atos, nem subordina sua conduta a uma legalidade e goza de impunidade para os seus crimes.

O equilíbrio do terror é, desde então, perigosíssimo, já que não exclui nem os acidentes nem as iniciativas insensatas de algum ditador enlouquecido e megalômano.

Por isso, é indispensável trabalhar, com todos os meios a nosso alcance, em favor da gradual e sistemática destruição de todos os arsenais nucleares existentes e por uma vigilância internacional destinada a impedir que, num futuro, reapareçam. Essa política, com todos os seus riscos, parece-me menos perigosa que a de pedir às potências democráticas que destruam seus arsenais motu propio, como um exemplo que o resto do mundo deveria seguir, em busca da paz mundial. (LLOSA, 1999, p. 15).

“PEACE AND LOVE”/ “MAKE LOVE, NOT WAR”

Nos anos 1960, vários testes nucleares foram feitos pelos EUA, em túneis, nos desertos de Nevada. Uma dessas explosões, ocorrida em 19 de janeiro de 1968, denominada Faultless, liberou 60 vezes mais energia que a bomba lançada sobre Hiroshima. Estima-se que essa explosão custou US$15 milhões. Uma explosão anterior, denominada “Shoal”, aconteceu em 26 de outubro de 1963, tendo liberado aproximadamente 80% do total de energia da bomba de Hiroshima. (BRECHIN; GOIN, 1997). Os autores observam ainda que os túneis onde foram testados “Faultless” e “Shoal”, e outros túneis para testes nucleares dentro dos Estados Unidos, contêm o mesmo tipo de lixo radioativo produzido pelos rotineiros reatores nucleares. Utilizando dados do Departamento de Energia americano, divulgados em 1995, afirmam que “alguns desses túneis permanecerão radioativos por muitos milhares de a nos.” (BRECHIN; GOIN, 1997, p. 194).

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte Vernon Brechin, diretor do AE Systems, cujas pesquisas estão relacionadas

Vernon Brechin, diretor do AE Systems, cujas pesquisas estão relacionadas com os efeitos ambientais dos testes nucleares em túneis e Peter Groin, professor de artes na Universidade de Nevada, concluem o seu artigo publicado na prestigiosa revista Public Culture, escrevendo:

Como cidadãos e também como pesquisadores e divulgadores em temas relacionados com o lixo nuclear, nós sugerimos que uma ordem presidencial seja dada para que se faça um inventário dos depósitos de

radionuclídios presentes em cada túnel de teste nuclear [

desses sítios tombados precisam ser transferidos do Departamento de Energia para outra agência, como a Agência de Proteção Ambiental, que poderia mandar limpar as áreas contaminadas. Considerando que esses lugares contribuem para nosso legado nuclear, sugerimos que eles sejam colocados no National Register of Historic Places. Visitas periódicas públicas poderiam ser feitas, como, por exemplo, aos lugares da primeira explosão

nuclear no Trinity Site no Novo México. Desde que as consequências para a saúde permanecerão por centenas e talvez milhares de gerações, é melhor que esses lugares sejam publicamente lembrados e não se permita que sejam ‘esquecidos’. (BRECHIN; GOIN, 1997, p. 195). Os anos 1960 foram pródigos no desenvolvimento da opção nuclear, tanto para fins bélicos quanto para fins civis. A partir do momento em que a União Soviética aponta, de Cuba, os seus mísseis para os EUA, estes começam a colocar no espaço europeu os seus mísseis nucleares apontados para a União Soviética, principalmente de suas bases militares na Alemanha. A geração europeia e americana, nascida após a segunda guerra, começa a não gostar das diretrizes que os políticos, nos seus respectivos países, tomam em relação à difusão e ampliação, tanto do armamento militar quanto da instalação de usinas nucleares. Nos EUA, o livro de R. Carson, “Primavera silenciosa” (Silent Spring) foi um enorme sucesso de público e crítica. Ao mesmo tempo, a guerra do Vietnã, logo após a guerra da Coreia, mantém os EUA em permanente estado de alerta, com o discurso ideológico de “salvaguardar a Liberdade e a Democracia em todos os cantos da Terra”. A resistência ao militarismo norte- americano se faz no interior desse país de várias formas: muitos jovens americanos começam a responder às convocatórias militares com a

O controle

].

Marcos Reigota

Marcos Reigota desobediência civil; Martin Luther King e Angela Davis aportam uma nova consciência à comunidade

desobediência civil; Martin Luther King e Angela Davis aportam uma nova consciência à comunidade negra, engrossando os movimentos contestatórios que surgem nos mais diversos espaços; as novas formas de se relacionar e estruturar a vida pessoal encontram nos hippies a sua expressão mais conhecida e popular; o cinema americano, à sombra de Hollywood, produz “Sem destino” (Easy Rider), com Peter Fonda, Dennis Hopper e Jack Nicholson. A música americana reencontra no “free jazz” de Miles Davis a sua possibilidade revolucionária. Tal postura também é encontrada em outros estilos musicais como o soul, o pop, o folk e o rock,, Pa com entre outros, Janis Joplin, Bob Dylan, Joan Baez, Jimi Hendrix, The Band, Jefferson Airplane, The Mamas and the Papas, Simon & Garfunkel, Aretha Franklin, Richie Havens, James Taylor, Greateful Dead, The Doobie Brothers, Sly and the Family Stone, Stevie Wonder, Curtis Mayfield, Joni Mitchell, Frank Zappa, Crosby, Still, Nash & Young, Smokey Robison, Al Green, Ilke & Tina Turner, The Doors, Jim Croce, John Denver, Santana, Patti Smith, etc. As músicas deles e delas forneciam a trilha sonora das constantes manifestações pacifistas, cujos slogans “Peace and love” e “Make love, not war” não ficaram restritos ao espaço norte-americano. Correram mundo. O movimento social, político, cultural, estético e ecológico, que ficaria conhecido como “contracultura”, marca assim a sua entrada triunfal na história do século XX. Quando o exército mexicano assassinou jovens estudantes que protestavam contra a realização, no país, das suntuosas Olimpíadas, aconteceu uma grande comoção internacional e o abandono da carreira de diplomata por Octavio Paz. Em Praga, jovens combatiam nas ruas, enfrentando os tanques soviéticos conduzidos por outros jovens que para lá foram, enviados em nome da unidade do sistema comunista defendido e liderado pela URSS. Um jovem tcheco imola-se em praça pública contra a ocupação do seu país, reivindicando liberdade. Nos muros de Paris, frases como “Soyons raisonnables: demandons l’impossible” (sejamos razoáveis, peçamos o impossível) davam o tom do movimento que exigia mudanças profundas no sistema educativo e na sociedade francesa que logo se espalhou pela Europa. Jean-Paul Sartre,

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte Simone de Beauvoir e Herbert Marcuse eram presenças obrigatórias nas

Simone de Beauvoir e Herbert Marcuse eram presenças obrigatórias nas inúmares assembleias públicas que ocorriam em Paris, Berlim, Bruxelles, Louvain, Frankfurt, Roma, Milão, assim como Jean-Luc Godard e muitos jovens intelectuais que seriam referências internacionais nas ciências humanas, alguns anos depois, como Jacques Derrida, François Lyotard, Gianni Vattimo, Edgar Morin, Serge Moscovici, Cornelius Castoriadis, Claude Lefort, Felix Guattari, Gilles Deleuze , Michel Foucault, Andre Gorz, Pierre Bourdieu, Louis Althusser e tantos outros. Da Inglaterra saía a trilha sonora dos Beatles, Rolling Stones, Traffic, Hollies, Van Morrison, Marianne Faithfull, Pink Floyd, Led Zeppelin, Deep Purple, Kinks, Cat Stevens, Fleetwood Mac, The Who, Joe Cocker, The Moody Blues, Genesis, Bob Marley, Small Faces, etc As ruas de Tóquio se inflamam, assim como as do Rio de Janeiro e São Paulo. Com muitas diferenças entre todos esses movimentos e localidades, o denominador comum que atraía tantos jovens era a busca da essencial liberdade e o combate ao sistema que os oprimia, mutilava e em muitos casos, assassinava. A juventude, nascida após a Segunda Guerra Mundial estava ávida de novos valores e formas de viver. A intensidade com a qual buscou a sua utopia, deixou resquícios culturais e políticos de importância fundamental para os movimentos sociais que viriam a seguir, principalmente no movimento pelos direitos civis das minorias, no feminismo, no movimento homossexual e no movimento ecologista. Em 1970, Janis Joplin e Jimi Hendrix morrem de overdose de heroína

e Jim Morrison é encontrado morto na banheira de um hotel de Paris. Os Beatles gravam o seu último disco, “Let it Be”, e dissolvem-se definitivamente. John Lennon declara que o sonho acabou e, juntamente com

a sua mulher Yoko Ono, inicia uma campanha estético-pacifista que marcaria

os anos seguintes. Numa de suas canções, Gilberto Gil cantava: “o sonho acabou e quem não dormiu num “sleeping bag”, nem sequer sonhou ” No campo diplomático, acordos e tratados pela não proliferação de armas nucleares são discutidos e assinados, sem que, no entanto, os mesmos tenham tido a capacidade de frear a enorme e poderosa indústria de

Marcos Reigota

Marcos Reigota armamentos e o desejo de muitos países de possuírem a tão sonhada (pelos militares

armamentos e o desejo de muitos países de possuírem a tão sonhada (pelos

militares e seus aliados civis), enigmática e poderosa bomba atômica e outras

armas originadas das dispendiosas pesquisas sobre o átomo.

A construção de usinas nucleares, como consequência civil posterior

ao desenvolvimento das pesquisas com fins bélicos, passa a ser não só uma

fonte de renda que lucra milhões de dólares, mas também o argumento das

vantagens das aplicações civis para o bem da sociedade em países carentes de

fontes de energia. Países esses ávidos consumidores de eletricidade como

consequência tanto do nível de industrialização, assim como do alto

consumo, provocado pelo uso constante dos eletrodomésticos, que passam a

ser, a partir dos anos cinquenta, instrumentos (e fetiches) inerentes à vida

cotidiana.

Porém, as usinas nucleares e a corrida armamentista foram alvo de

muitas críticas em países como a Alemanha, a Bélgica, a França e a Itália,

originando daí os primeiros movimentos ecologistas, que no caso alemão,

seria o embrião do Partido Verde.

ACIDENTES RADIOATIVOS

O jornal O Estado de São Paulo, na sua edição de 1º de outubro de

1999, noticia o acidente na usina nuclear de Tokaimura no Japão, ocorrido no

dia anterior. Ao lado da reportagem, foi publicada uma coluna divulgada pela

agência de notícias Reuters, com alguns dos principais acidentes radioativos

acontecidos no mundo, nos últimos 40 anos. A nota explicita que alguns

vieram a público só depois do fim da Guerra Fria. São eles:

19/07/1957 - Um incêndio destrói a parte central de um reator de produção de plutônio, no complexo nuclear Windscale, na Grã-Bretanha, enviando nuvens de radioatividade para a atmosfera. Segundo um relatório oficial, a radiação que vazou pode ter causado dezenas de morte por câncer.

1957-1958 - Sério acidente perto da cidade de Kyshtym, nos Urais. O cientista russo que relatou o desastre pela primeira vez estimou que centenas de pessoas morreram por doenças decorrentes da radiação.

03/01/1961 - Três técnicos morrem numa usina americana em Idaho Falls, num acidente em um reator experimental.

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte 04/07/1961 - O capitão e vários tripulantes morrem quando uma

04/07/1961 - O capitão e vários tripulantes morrem quando uma grande quantidade de radiação se dissemina pelo primeiro submarino soviético movido a energia nuclear. Um cano no sistema de controle de um dos dois reatores havia rachado.

1965 - A Comissão Americana de Energia Atômica, deliberadamente produz, num reator nuclear, uma nuvem de baixa intensidade radioativa sobre Los Angeles.

05/10/1966 - A parte central de um reator experimental perto de Detroit, nos Estados Unidos, funde-se parcialmente, quando um sistema de refrigeração a sódio falha.

07/12/1975 - Acidente no complexo nuclear Lubmin, perto de greifswald, na antiga Alemanha oriental. Um curto- circuito causado pelo erro de um eletricista provocou um incêndio. Segundo algumas reportagens, o centro do reator quase derreteu.

28/03/1979 - Pior acidente nuclear dos Estados Unidos, na usina de Three Mile Island, perto de Harrisburg, Pensilvânia. O derretimento parcial de um dos reatores força a retirada dos habitantes da região, depois que gás radioativo vazou para a atmosfera.

07/08/1979 - Urânio altamente enriquecido vaza de uma usina de produção de combustível nuclear altamente secreta, no tennessee. Cerca de mil pessoas são contaminadas com quantidades de radiação até cinco vezes maiores do que recebiam normalmente em um ano.

25/04/1981 - Funcionários do governo dizem que cerca de 45 pessoas foram expostas à radioatividade durante consertos em uma usina problemática em Tsuruga, Japão.

10/08/1985 - Uma explosão arrasa Shkotovo-22, unidade de reparos em embarcações, que atendia navios soviéticos movidos a energia nuclear. Dez pessoas morrem na hora. Muitas morrem depois, por exposição à radioatividade.

06/01/1986 - Um funcionário morre e cem ficam feridos numa usina em Oklahoma, quando um cilindro de material nuclear explode, depois de ter sido excessivamente aquecido.

26/04/1986 - data do pior acidente nuclear do mundo. Uma explosão e um incêndio na usina nuclear de Chernobyl disseminam radiação pela maior parte da Europa. trinta e uma pessoas morreram imediatamente após a explosão. centenas de milhares

Marcos Reigota

Marcos Reigota de pessoas foram retiradas da área e um número semelhante sofreu com efeitos da

de pessoas foram retiradas da área e um número semelhante sofreu com efeitos da radiação.

Nov./1992 - No acidente nuclear mais sério da frança, três funcionários são contaminados, depois de entrar em um acelerador nuclear de partículas, em Forbarch, sem roupas protetoras.

Março/1997 - Um incêndio e uma explosão na usina de reprocessamento da estatal japonesa Corporação de Desenvolvimento de Reatores de Energia e Combustível Nuclear, em Tokaimura, contaminam pelo menos 35 funcionários com radiação de baixa intensidade.

DEPOIMENTO DO SR. PIERRE TANGUY

O Sr. Pierre Tanguy, ex-inspetor geral para a Segurança Nuclear da

EDF 3 relatou, no Simpósio “Átomo e Sociedade”, a sua experiência

profissional de mais de quarenta anos. Desse relato extraí os seguintes

fragmentos:

Posso testemunhar que, em 1954, uma boa parte dos funcionários do C.E.A. (Comissariado de Energia Nuclear) era contrária a que o

No

entanto, tudo o que dizia respeito ao desenvolvimento pacífico da energia nuclear, principalmente os projetos das usinas, era bem visto no nosso país. O C.E.A não atraía somente um grande número de jovens cientistas brilhantes, mas Saclay era considerada como um dos lugares de excelência de toda pesquisa científica na França. Todas as descobertas do urânio eram anunciadas pela imprensa como sendo grandes vitórias nacionais. Esta mesma imprensa comunicava com muito entusiasmo todas as perspectivas de utilização da radioatividade: os marcadores, as aplicações na pesquisa, na indústria, na medicina e na agronomia. É surpreendente que a mídia fale tão pouco sobre isso atualmente; será porque os bons resultados obtidos são reconhecidos por todos, não podendo suscitar nenhuma polêmica?

nosso país se lançasse na construção de uma bomba atômica

Em 1954

barata seria o motor do desenvolvimento de regiões pobres, onde a dessalinização da água do mar permitiria transformar as regiões áridas em terras cultiváveis, onde o nuclear pacífico traria soluções aos problemas de grande escala da sociedade da época. 1954 foi

também o ano no qual se iniciou a cooperação internacional em pesquisa nuclear. O presidente Eisenhower lançou o programa “Atoms for Peace”. Ele havia conseguido o acordo dos soviéticos para realizar a primeira Conferência de Genebra, em 1955. Ela deveria ter sequência na criação da Agência de Viena, em 1957. Os dois blocos participavam. O objetivo da Agência era, então, e

havia grandes projetos, nos quais a energia nuclear

3 Electricité de France- Empresa nacional para a produção de energia elétrica. É a única do mercado e tem o monopólio da produção. Todas as usinas nucleares francesas sao administradas pela EDF.

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte continua sendo, ainda hoje, de um lado, opor-se à proliferação

continua sendo, ainda hoje, de um lado, opor-se à proliferação de armas nucleares e, de outro, facilitar a promoção da energia nuclear pacífica em todos os países do mundo, depois de um certo aprendizado.

Eu entrei, então, no setor nuclear numa época em que não existiam

os protestos contra as aplicações pacificas. Isso não quer dizer que

não nos preocupávamos com a segurança das instalações nucleares.

Os promotores da energia nuclear para fins pacíficos tiveram, desde o início, a preocupação de dominar todos os riscos, para o homem e para o meio ambiente. Tinham consciência de que as centrais nucleares eram um pré-requisito ao desenvolvimento industrial. Definiram uma série de conceitos-método de barreira, defesa em profundidade, controle independente, que eram muito avançados em relação ao que se fazia em outras áreas da indústria. Nas usinas, desenvolveram medidas de segurança validadas em laboratórios que lhes pareciam responder ao objetivo que se fixaram: evitar que se produzisse um acidente grave que tivesse consequências nós os trabalhadores, na população ou no meio ambiente, próximo ou distante.

O debate com o público foi desenvolvido em dois momentos: antes

e depois de Three Mile Island. Antes, a comunicação dos

produtores do programa nuclear era de “sentido único”: de um lado, o produtor “que sabe” e, de outro, o público que devia ser instruído. Nós “dividíamos” o público: corpo médico, professores (de disciplinas cientificas), alunos. A argumentação era apresentada sem falhas. Mesmo se disséssemos que “todo acidente é impossível”, não falávamos sobre o que seriam, para o público, as

consequências de um pouco provável acidente muito grave.

Com o passar do tempo, parece-me hoje que essa segurança dos produtores e de todos os organismos nucleares apresenta-se um pouco com uma certa arrogância. Ela podia ser compreendida antes de Three Mile Island, na medida em que todos os atores estavam convencidos de terem feito muito mais em matéria de segurança nuclear que os seus predecessores, em outras atividades industriais “de risco”. Ela perdia toda a credibilidade a partir do momento em que se produziu um acidente, sem consequências diretas para o público, mas um acidente que havíamos afirmado que podíamos evitar. (TANGUY, 1997, p.125-127).

DUAS ANÁLISES

Stephen Vogel publicou, logo após o acidente de Three Mile Island, um artigo na Socialist Review, analisando o movimento antinuclear, observando as suas origens, impasses e dificuldades no espaço político da participação democrática nos EUA. Vogel escreve:

Marcos Reigota

Marcos Reigota Depois de Three Mile Island, os militantes antinucleares viram um aumento sem precedentes de

Depois de Three Mile Island, os militantes antinucleares viram um aumento sem precedentes de pessoas interessadas em aderir ao grupo.

Para o desespero de muitos, essas pessoas apareciam em uma ou duas reuniões e não voltavam mais. O movimento antinuclear, que tem na desobediência civil o fundamento de sua organização, não foi capaz de aglutinar as novas possibilidades que apareciam. Apesar de oferecer caminhos para a sensibilização e construção de um trabalho político com uma contínua campanha educacional, e um plebiscito, o movimentocontinuava a oferecer vagas promessas de continuidade de desobediência civil. Agora, o movimento antinuclear está diante de uma escolha básica.

Pode continuar no mesmo caminho que tem tentado ou mudar na direção de alicerçar alianças com pessoas, no trabalho e nas suas comunidades, construindo o tipo de movimento necessário para desafiar o poderio nuclear. Muitos militantes têm tentado responder a esse desafio com novas estratégias de organização e táticas.

No entanto, a indústria nuclear tem colocado milhões de dólares na sua renovação e numa agressiva propaganda, enfatizando a crise de energia e a necessidade do poder nuclear. Um exemplo extremo dessa campanha estava sendo veiculado na televisão, na primavera passada. A propaganda inicia-se com hippies reivindicando o fim do poderio nuclear. Quando ocorre uma queda/falta de energia (black out), uma voz pergunta, confrontando essas pessoas com a questão: ‘o que você faria sem a energia nuclear?’ (What are you going to do for energy whitout nuclear power?) Como foi noticiado no In These Times (june,18 july, 1), a indústria tem gasto milhões de dólares para difundir a sua campanha, organizada pela The Atomic Industrial Forum, The Edison Eletric Institut e Joseph Coors’ Heritage Foundation. Existe indicação de que a publicidade das indústrias tenha tido efeito. Uma porcentagem significativa do público, atualmente, considera o poderio nuclear como relativamente perigoso, mas necessário como fonte de energia, para combater nossa dependência do dispendioso petróleo do exterior.

É importante reconhecer o papel positivo que a desobediência civil

teve na construção do movimento antinuclear. Provavelmente, mais que outra tática, ela foi a responsável pelo rápido crescimento e excitação interna.

A desobediência civil atraiu muitas pessoas que foram convencidas

dos perigos do poderio nuclear. No período entre 1975 e 1977, quando a política do poderio nuclear foi primeiramente verbalizada, a desobediência civil deu um suporte ativo para muitas pessoas motivadas pelas questões morais e pelo estilo das ações. A desobediência civil muito ajudou, efetivamente, na construção do movimento num curto espaço de tempo, iniciando suas

atividades com poucas pessoas. O movimento cresceu rapidamente, porque tinha sido a base de suporte e conquistado militantes vindos do movimento contrário à guerra, e também da cultura jovem. Em 1977 1978, um novo quadro começa a aparecer. A base do suporte inicial começa a esvaziar-se. A desobediência civil foi importante por trazer ao movimento pessoas que estavam predispostas a fazer política. Não era uma tática para convencer os não adeptos ou um público educado.

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte Enfrentar a polícia pode ser uma importante lição para os

Enfrentar a polícia pode ser uma importante lição para os

militantes, mostrando coesão e unidade, e dando também o ímpeto necessário para continuar a luta. Por outro lado, desconsiderando outras crenças culturais e políticas, esses militantes dificultam a participação de pessoas que não aceitam tal tipo de projeto. Vivendo numa democracia formal, que tem no respeito às normas

seu principal argumento, consideram que essa é a melhor forma de se direcionar e atuar para obter mudanças.

o

O

movimento antinuclear foi iniciado por estudantes universitários

e

pessoas que estiveram nas universidades entre final dos anos 60

até metade dos anos 70. Muitos elementos da cultura e da política da época colocaram-os como remanescentes da contracultura da época, marginais da sociedade. Algumas dessas pessoas tendem a ser mais críticas na vida profissional e nas suas próprias vidas, procurando, num certo sentido, uma alternativa às tradicionais prioridades e escolhas necessárias. Muitas dessas pessoas são também economicamente excluídas. (VOGEL, 1979/1980, p.125-

127).

Na França, Alain Touraine foi um dos primeiros sociólogos a se dedicar ao estudo do movimento antinuclear, originado nos anos 70. No simpósio Átomo e Sociedade, Touraine lembrou algumas passagens desse movimento:

O movimento nuclear na França culminou com as manifestações de

30 de julho de 1977, em Creys-Malville. As minhas pesquisas, essencialmente centradas no uso civil do nuclear, mostraram que o que podemos chamar de movimentos ‘antinucleares’, têm uma parte muito reduzida de hostilidade à ciência; se existiam marcas de irracionalismo, eram relativamente limitadas e marginais. Em consequência, quase sempre, nos encontrávamos dentro dessa

forma de oposição baseada na retórica da vida ou da morte, de equilíbrio ou de movimento, de ciência ou de consciência.

Num primeiro momento, a reação da população não foi diferente do que aconteceu em outros lugares: as pesquisas de opinião mostraram que as porcentagens favoráveis ou contrárias eram mais ou menos as mesmas que na Grã-Bretanha, na Holanda, na Alemanha e na França. Mas existiam duas particularidades francesas. A primeira é que na França, mais que nos outros países, essa reação cultural tentou se transformar em um movimento social, que procurou questionar um poder: a tentativa foi de transformar a reação face ao nuclear no que se chamava, na época, uma ação antitecnocrática. A segunda é que esse período de reflexão e de ação crítica durou pouco. Considerando a importância dos interesses econômicos, o debate político clássico voltou à tona e, desde então, os franceses se distanciaram de seus vizinhos alemães: substituíram a crítica cultural pela simpatia profunda que têm pelo Estado.

Esse duplo aspecto constitui o “pano de fundo” da critica cultural, a tentativa de se criar um movimento social e, depois, a predominância de fatores políticos advindos do medo de uma crise de abastecimento do petróleo. A necessidade, considerada prioritária, era de guardar as fontes nacionais de energia, com controle interno. Tudo isto fez com que a França se tornasse um país onde essa critica cultural, ou essa reflexão sobre as condições

Marcos Reigota

Marcos Reigota de uma cultura pós-industrial, pós-moderna, neo-industrial tivesse se desenvolvido pouco. O

de

uma cultura pós-industrial, pós-moderna, neo-industrial tivesse

se

desenvolvido pouco.

O

movimento antinuclear, na realidade, esgotou-se em vários

lugares, no final dos anos 70, mesmo que tenha sido retomado com

força pelos pacifistas, na Alemanha, culminando com os enfrentamentos Pershing/SAM. Do lado francês, depois do drama

de

Creys-Malville que destruiu o movimento antinuclear, o medo

da

crise de abastecimento de energia vinda do petróleo reúne os

franceses em torno do Estado. Nessa época, François Mitterrand, como primeiro secretário do Partido Socialista, reuniu uma comissão de estudos; o relatório de 150 páginas tinha, manifestadamente, uma tonalidade antinuclear. Mesmo assim, François Miterrand observou que havia conclusões fortemente pró- nucleares; ele acompanhou e estimulou a continuidade, de tais estudos, que a maioria da opinião pública francesa apoiava.

A crítica antinuclear ajudou-nos consideravelmente e de maneira

positiva a visualizar a substituição de um modelo “evolucionista e progressista” por um modelo diferente ao qual, hoje, nós somos muito mais sensíveis. (TOURAINE, 1997, p. 36 - 40).

EM 26 DE ABRIL DE 1986

Em 26 de abril de 1986, aquela fria e feia cidade, de nome difícil, habitada por pessoas sem muitas perspectivas além de viver o seu dia a dia, ver nascer e crescer os seus filhos e enterrar os seus velhos com todas as honras devidas, entra para a história da humanidade como palco de uma das maiores tragédias tecnológicas do século XX. Assim como Hiroshima e Nagasaki, Chernobyl tornou-se referência obrigatória para se pensar as possibilidades, opções e riscos que diferentes camadas sociais enfrentam (ou combatem) nos mais diversos pontos do planeta. Decorridos vários anos após aquela manhã de abril, muito já se escreveu, discutiu-se, mostrou-se sobre o que se passou em Chernobyl, restando poucas opções para não se cair na redundância. No entanto, a escritora Svetlana Alexievitch, no seu livro “La Supplication: Tchernobyl, chroniques du monde après l’apocalypse”, consegue não cair na armadilha fácil, dando voz a muitos e diferentes sobreviventes. Nesse livro, velhas senhoras e senhores, crianças, donas de casa, escritores, jornalistas, professores/as, médicos/as, físicos, oficiais do exército, bombeiros, enfermeiras, etc. contam como viveram aquele 26 de

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte abril e os dias que se seguiram: como viram os

abril e os dias que se seguiram: como viram os seus animais de estimação serem liquidados para evitar a proliferação da radiação; como os animais (principalmente cães e gatos) que escapavam da perseguição, mudavam os seus hábitos alimentares; como frutas e flores perdiam o perfume característico; como os funcionários do partido comunista se comportavam; o papel da imprensa, do rádio e da televisão, etc. Em praticamente todos os relatos, encontram-se referências às enormes dificuldades pelas quais o povo soviético passou durante a II Guerra Mundial, ao fatalismo balcânico, ao papel “condutor” do partido, ao medo dos homens e mulheres grávidas, às reais e concretas consequências da radiação na saúde das pessoas, na vegetação, nos animais, na água e nos alimentos. Como conviver com algo que não se vê e que, no entanto, se faz tão presente, concreta e dolorosamente presente, como é o caso da radiação? Parece ter sido essa a pergunta que Svetlana Alexievitch fez a todos os seus entrevistados, dez anos depois do acidente. Alguns depoimentos são ricos em detalhes, em outros predominam as frases curtas. Algumas pessoas preferem o silêncio, outras questionam os interesses e objetivos da escritora. Muitos preferem esquecer algo doloroso de que estão constantemente se lembrando, outros querem contar os seus sentimentos amorosos (e o final de suas relações) e não faltam aqueles que se lembram de algo engraçado.

RELATOS (DIFICILMENTE) SELECIONADOS

poderia ter evitado, mas fui como voluntário. Nos

primeiros dias, não encontrei pessoas indiferentes. Foi só depois

que encontrei pessoas com os olhos vazios estar acostumado.

Eu fui

Todo o mundo parecia

Receber uma condecoração? Ter privilégios? São bobagens! No que me diz respeito, eu não precisava de nada. Um apartamento, um

carro, uma datcha

um homem. Os verdadeiros homens não recusam as missões

realmente perigosas. Os outros? Eles ficam embaixo da saia de suas

mulheres

nós

fazíamos uma série de juramentos e nós íamos. Nós voltamos para casa. Eu tirei toda a roupa que vestia e joguei no lixo. Mas dei meu capacete ao meu filho. Ele me pediu tanto. Usava-o

Um tem mulher que vai ter filho; outro tem crianças

pequenas; o terceiro sofre de queimaduras do estômago

Eu já tinha tudo isso. De fato, isso era coisa de

constantemente. Dois anos mais tarde descobriu-se que ele tinha

Marcos Reigota

Marcos Reigota um tumor no cérebro Não quero mais falar. (ALEXIEVITCH, 1998, p. 84). A senhora

um tumor no cérebro

Não quero mais falar. (ALEXIEVITCH, 1998, p. 84).

A senhora pode advinhar o que vem depois.

Eu guardo um recorte de jornal com uma notícia sobre o operador Leonid Toptounov. Naquela noite, ele estava de plantão na usina. Foi ele quem apertou o sinal de alarme, alguns minutos antes do acidente. Mas o sistema não funcionou. Cuidaram dele em Moscou.

Os médicos diziam: “Para salvá-lo, será necessário que ele tenha um outro corpo”. Só lhe restou uma pequena parte das costas, que não sofreu radiação. Ele foi enterrado, como os outros, no cemitério de Mitino. O interior do caixão estava repleto de folhas

de metal

recoberto com um metro e meio de cimento, com duas

camadas de chumbo Seu pai chorava, mas as pessoas lhe diziam:

“Foi o sacana do teu filho que fez tudo explodir!” (ALEXIEVITCH,1998, p. 93)

Quando ela nasceu, não era uma criança, mas sim um saco fechado sem nenhum orifício. Só os olhos estavam abertos. No relatório médico escreveram: “Nascida com uma patologia múltipla complexa: aplasia do ânus, aplasia da vagina, aplasia do rim esquerdo”. Eu escutei os médicos conversando entre eles: “Se nós mostrarmos isso na televisão, nenhuma mãe vai querer ter filho”. (ALEXIEVITCH, 1998, p. 95).

PARA NÃO ESQUECER, OU O DIA EM QUE A ÍNDIA DECLAROU ORGULHOSAMENTE AO MUNDO O SUCESSO DOS SEUS TESTES NUCLEARES

“Estamos felizes porque a Índia pode, agora, enfrentar o Paquistão”.

Anek Kanwar

Desde o lançamento das bombas atômicas, pelos EUA, sobre

Hiroshima e Nagasaki, a humanidade se viu ameaçada pela possibilidade de

contaminação dos recursos naturais básicos para a sobrevivência de todas as

espécies e, o que é mais grave, viu-se frente à possibilidade de sua

autodestruição, através de um artefato construído por profissionais do mais

alto nível científico.

O avanço dos conhecimentos científicos, principalmente da física e da

matemática e consequentemente, da tecnologia bélica e industrial permitiu

que se construíssem armas nucleares com incalculável potencial de

destruição.

Dessa forma, a “opção nuclear” traz, implícitos, dois momentos

culminantes da aventura humana, no século XX configurada, ora pela

enorme capacidade de desenvolvimento intelectual, ora pela sua

surpreendente capacidade de destruição.

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte Com isso, cientistas, filósofos, artistas, religiosos e anônimos cidadãos e

Com isso, cientistas, filósofos, artistas, religiosos e anônimos cidadãos e cidadãs em todo o mundo passaram a se interrogar sobre as ameaças que pairam sobre o futuro da sobrevivência da espécie humana e de espécies animais e vegetais, ameaçadas pelo poderio bélico. Para muitas pessoas, a bomba atômica foi um “mal necessário”, que

visava salvar a liberdade e a democracia, ameaçadas pelo avanço do nazismo

e do totalitarismo de Hitler e de seus aliados, Mussolini e Hiroíto. No

entanto, é de senso comum que, quando as bombas foram lançadas sobre a população civil de Hiroshima e Nagasaki, os países aliados já tinham praticamente vencido a Segunda Guerra Mundial, o que só fez aumentar a preocupação e as indagações sobre as finalidades, objetivos e riscos da opção bélica nuclear. Com a sofisticação técnica do arsenal nuclear disponível hoje no mundo, as bombas lançadas sobre as cidades japonesas, em 1945, são, atualmente, objetos “primitivos” e “artesanais”. No entanto, vários países, alguns deles muito pobres, gastam fortunas com o objetivo de possuí-las, alegando que as mesmas são fundamentais para a afirmação de sua autonomia e independência, tanto política quanto tecnológica. Como consequência do embate ideológico, político e científico que se seguiu após a Segunda Guerra Mundial entre os EUA e a ex-União Soviética,

acreditou-se, em ambos os blocos geopolíticos liderados por esses países, que

o desenvolvimento tecnológico e científico que possibilitasse a produção e a

posse de armas nucleares era fundamental para se garantir a paz e a soberania dos estados nacionais, ameaçados por seus inimigos internos e externos. Em oposição a esses argumentos, fundamentados na crença da racionalidade científica e no poder político advindo do desenvolvimento tecnológico e bélico, surgem em todo o mundo vários movimentos sociais de tendências ecologistas, pacifistas, antimilitaristas e antinucleares, gerando assim um grande debate público internacional. Os cinco testes nucleares feitos pela Índia, precedidos dos testes franceses na Polinésia e antecipando os testes paquistaneses, desautorizam os discursos conformistas em relação ao tema, colocando novamente a opção

Marcos Reigota

Marcos Reigota nuclear bélica na pauta da discussão planetária sobre a problemática ecológica e pacifista. Quando

nuclear bélica na pauta da discussão planetária sobre a problemática

ecológica e pacifista.

Quando um menino de treze anos, como Arek Kanwar, declara ao

mundo sentir-se feliz porque o seu país poderá enfrentar com armas

nucleares o vizinho Paquistão, concluímos que alguma coisa está errada e que

estamos diante de um equívoco muito grande. E não me parece ser esse um

equívoco dos “utópicos”, como são chamados os militantes pacifistas e

ecologistas, contrários à corrida armamentista em geral e nuclear em

particular.

VOZES - “THE RACE FOR A BLACK FUTURE STARTS WITH THESE NUCLEAR TESTS”

Após os testes nucleares realizados pela Índia e Paquistão em maio de

1998, a revista ecologista Down to Earth, publicada na Índia, na sua edição

de 30 de junho de 1998 traz um artigo onde se expressam indianos e

paquistaneses contrários aos testes:

- Mahabub Ul Haq, do centro de Desenvolvimento Humano de Islamabad, ex-ministro da economia do Paquistão e um nome eminente nos debates sobre desenvolvimento, criticou severamente os testes nucleares.

- Anupam Mishra, do Departamento de Meio Ambiente da Fundação Gandhi, de Nova Delhi, vê a euforia sobre o caminho nuclear da Índia como um triste negócio.

- Rajiv Vohra, editor do Gandhi Marg, se diz contrário aos testes nucleares. Vê isso como uma marca do declínio da ìndia nos últimos 200 anos. Da mesma forma, insiste que o ocidente industrializado é o responsável por colocar a Índia nesse estágio.

TERMINANDO O SÉCULO NUCLEAR

A revista “The Ecologist” dedicou um número especial ao tema, em

novembro de 1999, com a chamada de capa “ The madness of Nuclear

Energy”. Com artigos contundentes, baseados em fatos, argumentos e

estudos científicos, deixa clara a sua posição contrária à opção nuclear,

principalmente na sua vertente de “aplicação civil”, ou seja, energia nuclear e

seus derivados.

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte Com o editorial “Ending the Nuclear Century” e com uma

Com o editorial “Ending the Nuclear Century” e com uma

“Declaration on Nuclear Power”, os editores se posicionam claramente e

convocam os seus leitores a se mobilizarem, argumentando “O poder nuclear

estava nos dizendo, décadas atrás, que poderia fornecer-nos eletricidade

‘segura, limpa e também de produção barata’. Nós sabemos agora que, ao

contrário, é completamente insegura, altamente poluidora e também muito

cara”. (THE ECOLOGIST, 1999, p. 385).

Na sua declaração/convocatória, os editores argumentam:

A energia nuclear não tem futuro e, silenciosamente, continua a danificar a saúde humana e o meio ambiente. O que queremos é que, politicamente, se declare o fim da era nuclear. ‘The Ecologist’ deplora a fraqueza de nossos líderes políticos nesse número e condena a imoralidade da indústria nuclear, cuja existência querem prolongar. Nós clamamos pelo fim das experiências nucleares, agora que entramos no novo milênio. (THE ECOLOGIST, 1999, p. 431).

O século nuclear chega ao seu fim, provocando um “go back to Japan”,

com o acidente ocorrido na usina nuclear de Tokaimura, em 30 de setembro

de 1999. Segundo a Folha de São Paulo de 01 de outubro de 1999 o acidente

teria ocorrido assim:

1. Os técnicos Hisahi Ouchi, de 35 anos, Masato Shinohara, de 39, e Yutaka Yokokawa, de 54, transportavam 16 kg de urânio para reprocessamento nuclear a 140 km de tóquio. A quantidade normal é 2,3kg. o reprocessamento capta partes não utilizadas de combustível nuclear para aproveitá-las.

2. O excesso de urânio teria criado uma massa crítica, que inicia uma reação nuclear que produz energia, pela modificação dos núcleos dos átomos de certos materiais, espontaneamente. esse fenômeno é chamado de criticalidade.

3. Os técnicos veem surgir uma chama azul. Cientistas acreditam que a luz da reação não é azul, mas o bombardeio de partículas nucleares aos nervos dos olhos de quem experimenta o fenômeno dá essa impressão.

4. Alarmes dentro da usina soam, quando o nível de radiação atinge um nível 4.000 vezes superior ao normal. os três técnicos fogem do local, mas são internados posteriormente com febre, diarreia e número elevado de células brancas no sangue.

5. funcionários retiram as pessoas do local e não interrompem a reação nuclear, dentro da usina. A radiação na região, até 2 km ao redor do local, atinge 15 mil vezes o nível normal.

6. Começa o trabalho de retirada da água de resfriamento dos sistemas de reprocessamento de dentro da usina, o que teria

Marcos Reigota

Marcos Reigota ajudado a interromper a reação nuclear na manhã de hoje. (FOLHA DE S. PAULO,

ajudado a interromper a reação nuclear na manhã de hoje. (FOLHA DE S. PAULO, 1999, p. 13).

A revista “Down to Earth” de 31 de outubro de 1999 traz a informação

de que, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, com sede em

Viena, a “radiação liberada foi extremamente perigosa. Alguns estudos

mostram que a mesma pode ter sido 20.000 vezes acima do nível normal”.

(DOWN TO EARTH, 1999, p. 13).

O militante antinuclear, Chimiro Kamisawa, disse, a respeito do

acidente: “Muito tem sido feito pela sofisticada tecnologia japonesa que,

supostamente, produzia energia nuclear segura. O acidente prova que isto

não é absolutamente verdade”. (DOWN TO EARTH, 1999, p. 13).

A edição de fevereiro de 2000, da revista ‘Made in Japan’, traz a seguinte nota, na sua coluna “Zoom/Zuumu”: Primeira vítima fatal. O acidente nuclear da usina de Tokaimura, ocorrido em 30 de setembro do ano passado, na província de Ibakari, fez sua primeira vítima fatal. Higashi Ouchi, funcionário da processadora de urânio JCO Co., contaminado durante o acidente, morreu no dia 21 de dezembro, 83 dias após o vazamento nuclear. Ouchi recebia tratamento médico especial, para tentar reverter os efeitos da superexposição à radiação - ele recebeu uma carga radioativa 18 mil vezes maior do que um trabalhador recebe durante um ano inteiro numa usina nuclear. Além dele, pelo menos outros 49 japoneses foram contaminados no pior desastre do gênero do país. (MADE IN JAPAN, 2000, p. 10).

Se o debate sobre a opção nuclear nas duas últimas décadas do século

XX, pautou-se pela problemática relacionada com as usinas nucleares e, nos

últimos anos, com os testes nucleares franceses, indianos e paquistaneses, a

questão bélica voltou à tona, mesmos que de forma fugaz, no mês de

dezembro de 1999. A ameaça de um conflito nuclear ficou bem evidenciada

com uma frase do então presidente da Rússia, Boris Ieltsin, quando visitava a

China.

A Rússia estava em guerra civil na província da Tchetchênia. O conflito

lembrava, em muitos aspectos, a recente guerra civil na província de Kosovo,

que expôs ao mundo milhares de refugiados albano-kosovares, cenas cruéis e

sanguinárias e o intermitente bombardeio de Belgrado, pelos países da OTAN

(Organização do Tratado do Atlântico Norte), liderados pelos EUA. Porém,

apesar dos massacres e da violência com a qual a população muçulmana da

Tchetchênia foi atingida, nenhum país que diz respeitar os direitos humanos

foi além da retórica da censura aos comandados por Boris Ieltsin. Quando,

eventualmente, a intervenção dos autodenominados “países defensores da

Hiroshima e Nagasaki Primeira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Primeira Parte liberdade e dos direitos humanos” começou a ser uma possibilidade,

liberdade e dos direitos humanos” começou a ser uma possibilidade, mesmo que remota, Boris Ieltsin, da China, enviou, segundo o jornal Folha de São Paulo de 10 de dezembro de 1999, uma mensagem pela televisão a Bill Clinton e seus aliados dizendo: “Ele (Clinton) deve ter esquecido, por alguns momentos, o que a Rússia é. Que tem um arsenal cheio de armas nucleares”.

SEGUNDA PARTE

HIROSHIMA E NAGASAKI

Cheguei a Hiroshima, no sábado, por volta das 17h, pelo trem-bala Shinkansen. A estação central de Tóquio estava movimentada nessa manhã. Era o primeiro fim de semana das férias escolares de verão. Não tive muita dificuldade para chegar até a plataforma de onde partiria o meu trem. Precisava me concentrar nas inúmeras indicações e identificar, entre elas, as indicações em inglês. Antes do meu trem, dois outros partiram lotados para

Hiroshima. Pensei que grande parte daquelas pessoas estava indo para a Celebração pela Paz. Fiquei observando as graciosas e (quase) silenciosas crianças japonesas. Comprei jornais em inglês, água e alguns biscoitos para a viagem. Numa banca, vi uma revista cuja capa trazia o distintivo da seleção brasileira de futebol. Dei uma olhada na reportagem com várias fotos do jogo que Alexandre, Raulzito, Marcos Pop, eu e mais de 80 mil pessoas, presenciamos no Morumbi, o qual o Brasil venceu a Argentina por 3x 1.

A revista trazia um pôster do Rivaldo. Comprei-a (450yens) para

enviá-la ao meu filho.

O trem partiu lotado. Eu olhava aquelas pessoas e ficava pensando

quais seriam as histórias que elas teriam para contar. Mas o silêncio estava

instaurado. As pessoas raramente conversavam entre si: dormiam, liam ou apenas observavam a paisagem. Do meu lado, sentou-se uma senhora que me cumprimentou com um aceno de cabeça. Esse foi o seu único movimento em minha direção, até a cidade onde desceu. Peguei meu walkman, separei as fitas de Cascatinha e Inhana, Edu Lobo e Roberto Corrêa e as que recebi de presente do Alexandre, Maceo Parker e ZZ Top. Deixei de lado o livro “Hiroshima”, de John Hersey e “mergulhei” na paisagem. Queria avistar o Monte Fuji, mas infelizmente não consegui. A paisagem é um pouco repetitiva, com muitos prédios, sem grandes atrações

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte arquitetônicas. Uma cidade parece ser a continuação de outra, são

arquitetônicas. Uma cidade parece ser a continuação de outra, são raros os campos e árvores. A arquitetura tradicional japonesa também é escassa. Li algumas páginas, dormi um pouco, ouvi minhas músicas e pensei em vários amigos. O primeiro deles foi o Maurílio, meu amigo de infância. Pensava na influência do Japão nas nossas vidas de menino, pelas ruas de terra de Promissão, nas nossas tentativas de aprender japonês com o pai de nosso amigo Oswaldinho; nos doces que a Moritasan fazia e nos dava, com tanta generosidade. Essas imagens da infância distante e a concretude da presença no Japão, embaladas pela música de Cascatinha e Inhana, foram pouco a pouco dando espaço para pessoas e situações mais recentes. Pensei nas conversas que tinha com um conhecido na Suíça, quando ele se dirigia a Los Alamos, nos EUA, para estudar as últimas conquistas da informática. A qualquer questionamento meu ou pergunta um pouco mais crítica sobre o “conhecimento” produzido em Los Alamos, ele respondia: “é o meu trabalho!” Como se a dignidade do trabalho justificasse os produtos nefastos do mesmo. Pensei na viagem dele a Los Alamos e na minha a Hiroshima, como bolsista da prestigiosa The Japan Foundation. Lamentei que ele não estivesse próximo para conversarmos sobre essas nossas diferenças. Não pude deixar de registrar os contrastes entre sentimentos recentes e a minha viagem, tão longa e tão cara, a uma celebração pacifista. Pensei ainda nos meus colegas e amigos Nilson Moulin e Paulo Magnólio. Quando, em Macapá, disse a eles que havia recebido a bolsa da Fundação Japão, os olhos do Nilson ficaram marejados. O Magnólio pegou minhas mãos e as beijou. Ainda li 50 páginas do livro de John Hersey. Hiroshima estava se aproximando. Surpreso, constatei que o meu vagão, lotado em Tóquio, estava agora completamente vazio. As pessoas foram ficando nas cidades ao longo do caminho e eu nem percebi. O dia estava claro, luminoso e a paisagem era de montanhas cobertas de vegetação. Meia hora antes de chegar a Hiroshima, tive um sentimento estranho. Era uma mistura de emoção, orgulho, tristeza, alegria, responsabilidade, coragem, determinação, medo, angústia, impotência, luta e engajamento.

Marcos Reigota

Marcos Reigota Agora, escrevendo sobre isso, vejo as coisas com mais clareza; mas mesmo assim, nem

Agora, escrevendo sobre isso, vejo as coisas com mais clareza; mas mesmo assim, nem de longe consigo descrever aquele sentimento/sensação até então desconhecido para mim.

A primeira impressão de Hiroshima não podia ser mais positiva. A estação é moderna, ampla e muito limpa. Quando desci do trem, fiz questão de pisar com o pé direito. Quase pedi para alguém fazer uma foto minha ali mesmo, mas achei melhor conter o meu ânimo. “Hiroshima, here I am”. Peguei um táxi até o meu hotel e, em menos de quinze minutos, estava no Sejour Fujita. A impressão positiva da chegada foi sendo ampliada, quando vi a cidade: bonita, limpa, arborizada, com prédios modernos, ruas amplas, pessoas caminhando ou andando de bicicleta. Quando cheguei ao hotel, a Kyomi já estava lá. Falamo-nos rapidamente e, após um banho, estávamos na rua, em direção ao Parque da Paz, situado bem próximo do hotel. Vesti, pela primeira vez, a camisa azul que meu filho havia me presenteado, pelo meu aniversário. Como havia prometido a ele, usei-a em Hiroshima. No Parque da Paz, amplo, claro, rodeado de muitos monumentos e árvores, estavam muitas pessoas. Olhávamos com calma, sem pressa, tudo o que surgia à nossa frente. Detivemo-nos diante de um monumento representando uma menina. No centro, um sino em forma de pássaro, como um origami, era tocado pelas pessoas que se aproximavam. Em volta do monumento, uma enorme quantidade de fitas coloridas de origami 4 , confeccionadas por crianças das escolas primárias. Eu estava admirado com a quantidade, beleza e colorido. A Kyomi tentava ler algumas inscrições. Estávamos em extremidades opostas, quando uma freira japonesa acompanhada de outra freira filipina, aproximou-se de mim. Sem mais nem menos, me disse em português: “Você é brasileiro”. Fiquei surpreso por ter sido abordado dessa forma, saí da concentração com que estava olhando os origamis e respondi que sim.

4 São os tsuru (grou) que representam longevidade, esperança, proteção, paz.

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte Ela olhou sua colega e acho que lhe disse: “Acertei”,

Ela olhou sua colega e acho que lhe disse: “Acertei”, já que a freira filipina ria da “pontaria” da irmã Olga Yuko Yagihashi. Perguntei como ela me identificara como brasileiro, já que não vestia nada que pudesse dar essa indicação. Surpreendeu-me novamente, respondendo: - “Pela maneira como você olha os origamis”. Não sei se, além da minha curiosidade, havia uma maneira “brasileira” particular de se olhar os origamis mas, tendo vindo essa informação de uma “esposa de Cristo”, achei melhor não questionar. A irmã Olga parecia estar muito contente com nosso encontro. Disse que morou nove anos em São Paulo, no bairro do Paraíso, e que seu pai era agrônomo, tendo ido para o Brasil ajudar os agricultores. Devido ao grande número de imigrantes brasileiros no Japão, a irmã Olga passou a trabalhar com eles no Programa de Solidariedade Nipo- Brasileira, da Diocese de Hiroshima. Sobre a Celebração pela Paz, contou que, naquele dia houve uma missa na Catedral em que estavam presentes católicos de várias nacionalidades. Os brasileiros participaram, rezando em português. A Kiyomi se aproximou e a irmã Olga repetiu a história do nosso encontro e o que havia me contado até então. A sorridente irmã filipina balançava a cabeça, confirmando o relato. Em relação ao monumento e às fitas de origami depositadas pelas crianças, a irmã Olga disse que tudo havia começado com a menina Sadako Sasaki. Quando tinha dois anos, Sadako foi exposta à radiação da bomba atômica. Dez anos depois, ela foi hospitalizada com sintomas de leucemia, no Hospital da Cruz Vermelha de Hiroshima. Quando Sadako Sasaki estava no hospital, ela confeccionou mais de mil origamis. Segundo a lenda, quando as crianças doentes confeccionam essa quantidade de origamis, a doença vai embora. Não foi isso o que aconteceu com Sadako Sasaki, que veio a falecer. Anos depois, os colegas de escola de Sadako recolheram fundos para construir o monumento que passou a ser o símbolo máximo para as crianças das escolas primárias, que ali, até hoje, depositam milhares de origamis em nome da paz.

Marcos Reigota

Marcos Reigota Outras colegas da irmã Olga foram se aproximando: uma mexicana, uma espanhola, uma francesa,

Outras colegas da irmã Olga foram se aproximando: uma mexicana, uma espanhola, uma francesa, uma brasileira (de Belo Horizonte) e também um padre mineiro, de origem japonesa.

A irmã Olga conta para o grupo, novamente, o nosso encontro,

acrescentando um pouco do meu currículo.

O padre, mais ou menos da minha idade, vestindo roupas que o

identificavam como membro da ala conservadora, pareceu enciumado com o entusiasmo da irmã Olga, e quase foi grosseiro comigo. Dizia conhecer muitos brasileiros que chegavam ao Japão, dizendo tencionar fazer umas “pesquisas malucas”, mas que depois não era nada disso. Deixei claro que não era esse meu caso. Fui rápido, preciso e continuei a conversa com as freiras francesa, mexicana e espanhola. A freira brasileira, que balançava a cabeça apoiando o padre, quando ele fazia aqueles comentários desagradáveis, depois da minha resposta e de me ver conversando com as outras, saiu do lado dele e veio até mim, mas eu já estava me despedindo. A irmã Olga segurou longamente a minha mão, disse-me para comparecer no dia seguinte à missa que seria realizada na Catedral. Caso eu não pudesse comparecer, deveria telefonar-lhe, antes de voltar ao Brasil.

Mais adiante, um grupo budista preparava uma cerimônia. Uma

senhora convidou-nos a participar. A Kiyomi disse que se tratava de uma das vertentes mais tradicionais do budismo. Nesse momento, eu não queria ficar num lugar só, queria andar e ver o que estava acontecendo no parque. A Kiyomi concordou comigo e continuamos a caminhar. Encontramos um grupo de jovens descansando. Estavam vestidos de short e camiseta com algumas inscrições. Traziam também cartazes e faixas. Disseram à Kiyomi que eram participantes da Marcha pela Paz, percorrendo 80 km. Eles já haviam feito a caminhada e estavam esperando a chegada dos companheiros. Mais adiante, deparamos com o que restou do antigo Departamento de Comércio e Indústria de Hiroshima.

A UNESCO considerou o prédio como patrimônio da humanidade.

Todos que se encontravam no seu interior, no dia 06 de agosto de 1945, foram mortos. O teto e as janelas destruídas; a ferragem retorcida e grandes blocos das paredes, espalhados pelo jardim, dão uma ideia (pequena, mas

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte exata) do que foi aquele dia. O chamado “World Heritage

exata) do que foi aquele dia. O chamado “World Heritage A-Bomb Dome” é hoje um dos locais mais visitados na cidade. Naquele momento, estavam chegando as pessoas de uma outra caminhada pela paz. Rodearam o que restou do edifício e acenderam as suas lanternas verdes. Com todas as lanternas acesas, cantaram uma canção e se dispersaram. A Kiyomi me disse que a lanterna verde significa a luz do vaga- lume e que a mesma significa a luz da paz. Disse também que, no hino do Japão, há referência à luz do vaga-lume. Fomos jantar. Escolhemos um restaurante que estava bastante movimentado. Fomos muito bem recebidos e atendidos. Depois, seguimos para um bar muito simpático, que serve os mais variados tipos de café. Voltamos caminhando para o hotel. Passamos em frente ao estádio de beisebol, que estava bastante animado e entramos novamente no Parque da paz. Tudo parecia estar pronto para a manhã seguinte. Flores amarelas foram colocadas, de forma impecável, em torno do monumento em homenagem às vítimas (The Memorial Cenotaph). Diante dele, as pessoas paravam, faziam uma oração/prece, depois de acender incenso. Uma moça discreta, solitária, estava sentada sobre as pernas, com o olhar fixo no monumento. Ao lado dela, havia três caixas com inscrições diferentes. Um rapaz estava por ali e Kiyomi perguntou-lhe o que fazia a jovem. Respondeu-lhe: “É um lamento pelas vítimas de Hiroshima e Nagasaki. Ali ela passará toda a noite, imóvel, mostrando sua dor”.

Eu estava elegantemente vestido. No elevador, encontrei um adolescente que me cumprimentou e perguntou: -“Business?”. Respondi: - “Peace” e ele: -“Me too”. O rapaz ficou no restaurante, onde encontrou outros amigos de sua idade, que estavam em Hiroshima para participar da celebração. A Kiyomi me esperava na recepção e fomos caminhando até o Parque da Paz.

Marcos Reigota

Marcos Reigota O professor Morita, ao me entregar os convites oficiais, foi incisivo quanto a pontualidade.

O professor Morita, ao me entregar os convites oficiais, foi incisivo quanto a pontualidade. Em Hiroshima, precisávamos nos apresentar antes das 7h30 para a cerimônia marcada para as 8h. Kiyomi e eu caminhávamos em silêncio. A manhã estava clara e muito quente. Nas proximidades do Parque da Paz, crianças distribuíam flores para as pessoas que estavam chegando. Recebemos muitas flores ao longo do caminho. Pegamos todas as que pudemos. Apresentei meu convite a um rapaz da recepção (para minha surpresa, um ocidental, provavelmente norte-americano). Assinei a lista de presença dos convidados e recebi duas fitas verdes - uma para a Kiyomi, outra para mim. Deveríamos usá-las na lapela. Também um aparelho para acompanharmos a tradução simultânea do japonês para o inglês. Uma senhora conduziu-nos até os lugares reservados aos “Convidados do Exterior”. Duas fileiras à frente ficariam os sobreviventes com suas respectivas famílias, e as famílias das vítimas da bomba. A Kiyomi sentou-se à minha direita. Do lado dela, estava um casal canadense com seus dois (entediados) filhos adolescentes. Do meu lado esquerdo sentou-se o professor Ali Ashour Al-Jafar, da Faculdade de Educação da Universidade do Kuwait. Na fileira de trás, estavam americanos (de bermuda e camiseta regata) e um casal paquistanês. Na nossa frente, monges budistas, vestindo roupas alaranjadas e cor-de-rosa, sentaram-se ao lado de jovens mórmons americanos. De onde estávamos, tínhamos uma ampla visão. Fomos até o memorial aos mortos depositar as flores que recebemos das crianças. O local estava repleto de pessoas de todas as idades e diversas nacionalidades, que depositavam flores, acendiam incensos e faziam reverências de oração e prece.

Monges budistas tocavam seus instrumentos de percussão e cantavam. Havia muita gente, mas não havia barulho, as pessoas estavam em silêncio. As cigarras estavam por todos os lados. Todos estavam muito emocionados. Conversei um pouco com o jovem professor da Universidade do Kuwait, que vestia terno e gravata. Disse-me que lecionava literatura e se

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte dedicava a estudar, com seus alunos, a literatura infanto-juvenil com

dedicava a estudar, com seus alunos, a literatura infanto-juvenil com temas ligados a Hiroshima. Ele também estava muito emocionado, parecendo querer ficar em silêncio e observar. Presenteou-me com um origami azul e a Kiyomi com um roxo, que havia pegado no monumento a Sadako Sasaki (uma das funções dos origamis, ali, era serem retirados pelas pessoas que por sua vez, presenteariam com eles os amigos). O professor falou-me, ainda, dos inúmeros cultos religiosos que presenciara na noite anterior. Trocamos nossos respectivos cartões de visita e ficamos de manter contato. Estávamos conversando, quando vimos que, na nossa frente, um sorridente senhor desenhava o retrato de Ali Ashour Al- Jafar. Era Mitsuro Ohba, membro da “Sociedade Mundial de Oração pela Paz”. Terminado o retrato, ele o presenteou a Ali e pediu para fazer uma foto de Ali segurando o mesmo. Pediu também o seu endereço e trocaram cartões. Depois foi a minha vez de ser retratado. Ele repetiu o mesmo gesto:

fotografou-me segurando o meu retrato, deu-me o seu cartão e recebeu o meu. Depois, foi a vez de Kiyomi. Terminado o retrato dela, ele nos convidou para participar da oração pela paz mundial, que o seu grupo realizaria. O meu retrato não me pareceu muito fiel (assim como o de Ali e o de Kiyomi), mas foi um gesto tão carinhoso e amigável, que o guardei com o maior cuidado. Olhando-o, observei que o Sr. Mituru Ohba escreveu em torno: “May peace prevail on earth”, “May peace be in Brazil”, ao lado de notas musicais. Uma dessas frases e as notas musicais estão também presentes no seu cartão de visitas: “May peace prevail on Earth”.

Os sobreviventes e os familiares dos mortos iam chegando em pequenos grupos. Caminhavam devagar, cumprimentavam-se como velhos companheiros. Estavam vestidos discretamente, os homens com gravata e camisa de mangas curtas. Usavam chapéu de pano. Todos traziam flores nas mãos. Os inúmeros fotógrafos e câmeras de televisão trabalhavam

Marcos Reigota

Marcos Reigota incessantemente. Uma voz repetia no alto falante que, durante a cerimônia, não seria permitido

incessantemente. Uma voz repetia no alto falante que, durante a cerimônia, não seria permitido fotografar, e solicitava que todos colaborassem. Às 8 horas, “Hiroshima Cerimônia pela Paz” teve início com uma homenagem a todas as vítimas da bomba atômica. Nesse momento, discursaram Tadashi Akida (o prefeito da cidade) e um representante das famílias atingidas. Houve a oferenda da água, com amostras de 16 cidades que a forneceram quando toda Hiroshima estava contaminada. Nesse momento, eu já não conseguia registrar mais nada, pois a emoção era muito forte. Não registrei o nome dos representantes das vítimas, nem o que disseram. Esperava encontrar essas informações no programa, no entanto, elas não foram publicadas. Depois foi a oferenda das flores. Representantes políticos dos mais diversos partidos, vestidos de negro, com grandes flores de cetim na lapela, depositaram coroas de flores diante do monumento aos mortos. O silêncio era audível e as cigarras contribuíam com a sua música. Entre os que participaram da oferenda das flores, estavam o prefeito, o presidente da Câmara Municipal, o representante das famílias atingidas e o representante dos sobreviventes da bomba atômica. Exatamente às 8h15, foi feita a oração silenciosa de um minuto. O som de um enorme sino lembrava ao mundo que, naquele momento, há 55 anos, havia sido lançada, pelos Estados Unidos, uma bomba atômica sobre a população civil da cidade de Hiroshima. Depois foi lida, pelo prefeito, a Declaração pela Paz. A Declaração pela Paz foi publicada, em inglês, no programa oficial. Inicia-se com as seguintes frases: “Hoje nós estamos testemunhando o último 06 de agosto do século XX. Há precisamente cinquenta e cinco anos, uma única bomba atômica provocou o inferno na terra. Junto com os “hibakusha” (pessoas afetadas pela explosão) que se ergueram do fundo do desespero, derramamos lágrimas arrancadas da dor, confortamo-nos e encorajamo-nos uns aos outros, partilhamos indignação e preces, até cicatrizarmos nossas feridas” 5 : E termina com o parágrafo: “Declaramos ter decidido que, mesmo

5 “Today we are witnessing the last August sixth of the twentieth century. It has been precisely fifty-five years since one single atomic bomb created a hell on Earth. Together

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte que tivéssemos apenas um lápis, gostaríamos de continuar escrevendo, primeiro,

que tivéssemos apenas um lápis, gostaríamos de continuar escrevendo, primeiro, sobre a santidade da vida humana e, depois sobre a necessidade de se abolir as armas nucleares. Mais uma vez, rendemos nosso profundo respeito à alma de todos aqueles que pereceram na tragédia de Hiroshima.” 6 Após o prefeito, foi a vez de as crianças lerem o “Compromisso pela

Paz”.

Kanako Okada, da 6ª série da Hiroshima City Kaminukushima Elementary School, e Sho Yokota, da 6ª série da Hiroshima City Nagatsuka Elementary School, foram as crianças escolhidas para lerem o texto. Uma passagem:

“Apesar do nosso forte desejo de paz, o mundo continua em luta com guerras, fome, pobreza e armas nucleares. As armas nucleares foram construídas pelos seres humanos e, se quisermos construir o novo século, genuinamente pacífico, todos nós, seres humanos, devemos, com nossas próprias mãos, deliberadamente, eliminá-las da face da Terra. Para realizarmos isso, precisamos primeiro procurar resolver os problemas de intimidação e violência que experimentamos em nossas vidas. Foram nossos avôs que trouxeram a vida novamente a Hiroshima e, com eles, temos aprendido que, verdadeiramente podemos, se trabalharmos juntos, criar um mundo feliz e pacífico” 7 . Concluída a leitura, foram soltas centenas de pombas. A emoção era imensa e, apesar das recomendações iniciais para que não se fotografasse, muitos convidados não resistiram. Assim, eu também peguei a minha máquina

with the hibakusha 5 who rose from the depths of despair, we have shed tears of wrenching grief, comforted and encouraged each other, shared indignation and prayers, then studied and healed.”

6 “We declare our resolve that, if we had only pencil we would continue to write first of the sanctity of human life and then of the need to abolish nuclear weapons. Last but certainly not least, we pay our profound respects to the souls of all who perished in the tragedy of Hiroshima.”

7 “Despite our strong desire for peace, our world still struggles with war, hunger, poverty and nuclear weapons. Those nuclear weapons were built by human beings, and if we want to make the new century one of genuine, world-wide peace, we human beings must, with our own hands, deliberately eliminate them from the face of the Earth. To accomplish that, we must first seek to solve the problems of bullying and violence we experience in our own lives. It was our grandmothers and grandfathers who brought Hiroshima back to life, and from them we have learned that we truly can, if we work together, create a happy and peaceful world”

Marcos Reigota

Marcos Reigota Fotografar era quase um gesto automático de reação a tanta emoção no ar. Como

Fotografar era quase um gesto automático de reação a tanta emoção no ar. Como se isso não bastasse, um grande coro e orquestra formada por crianças cantou uma música com o título de “Sun of Peace”. Muitas pessoas choravam discretamente. Depois, foi a vez do Primeiro Ministro se pronunciar. Às 8h45, a orquestra e o coro voltaram para encerrar a cerimônia, interpretando a música “Hiroshima Peace Song”. Na dispersão, foi possível ver que o local estava lotado. O calor era intenso, a emoção idem, toalhas molhadas eram distribuídas pelas recepcionistas. Não havia algazarra, todos caminhavam silenciosos. Ali, Ashour Al- Jafar e eu nos despedimos. Kiyomi e eu nos separamos, pois era hora de cada um explorar o Parque da Paz de sua maneira. Tentei ir diretamente ao monumento aos mortos, porém não consegui chegar até lá, pois nesse momento estava lotado. Monges budistas recomeçaram as suas orações e músicas, que pareciam disputar com o barulho das cigarras. O monumento em homenagem a Sadako Sasaki estava repleto de crianças, que faziam fila para tocar o sino. Grupos de escolares acompanhados de professoras e professores tiravam fotos diante do monumento colorido pelos milhares de origamis ali colocados. Pessoas mais velhas liam as mensagens deixadas pelas crianças, procurando identificar as escolas e a procedência. Em inúmeras barracas ao longo do parque, pessoas coletavam mensagens, que depois seriam transcritas em lanternas de papel, a serem colocadas à noite no rio. Por 600 yens, escrevíamos a mensagem e recebíamos um postal, que mostrava algumas lanternas acesas ao longo do rio, tendo, ao fundo, o que restou do edifício bombardeado, iluminado e em destaque. Ao parar numa dessas barracas, onde homens, voluntários de diversas idades, recolhiam as mensagens, eu não entendi bem o que teria que fazer. Deixei-me levar, vendo o que as outras pessoas estavam fazendo. Paguei, recebi o postal e escrevi em português: “Paz, sempre”. Só muito mais tarde, fiquei sabendo que a minha mensagem seria colocada à noite no rio, juntamente com muitas outras.

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte Continuei a caminhada e cheguei até o local onde estava

Continuei a caminhada e cheguei até o local onde estava sendo realizada a “World Peace Prayer Ceremony”, para a qual o Sr. Mitsuru Ohba havia nos convidado.

A cerimônia consistia em que duas pessoas do público erguessem a

bandeira de um país e todos repetissem: “Pode a paz prevalecer na Terra. ”

O nome de cada país era falado em ordem

alfabética. Quando todos já haviam sido lembrados, recomeçava-se tudo novamente. Entrei na fila. Coube-me erguer a bandeira de Seichelles:

“May peace prevail on Earth”. “May peace prevail in Seichelles”. Em volta do que restou do edifício bombardeado, escolares colocavam centenas de velas, “protegidas” por um retângulo em isopor, pintado nas mais variadas corres e com palavras em inglês e japonês. Algumas crianças recebiam diplomas e presentes pelas velas que haviam preparado. Cada criança chamada, ficava sob o olhar de todos e era fotografada de vários

Pode a paz prevalecer em

ângulos, pela família, professores, colegas, jornalistas, pacifistas, turistas, etc. Voltei à “Word Peace Prayer Ceremony” e ouvi quando estavam desejando que a paz prevalecesse na Iugoslávia, Macedônia, Ruanda

O folheto que recebi de uma das pessoas do grupo informava que a

cerimônia seria transmitida ao mundo pela internet, no sítio

<www.geocities.co.jp/natureland/3176/index.html>.

Naquele momento, a mesma cerimônia realizada em Hiroshima estava acontecendo no Hawai, Lituânia, Tóquio (Inokashira Park), Sendai e muitos outros locais. Não longe dali, um grupo “cantava”, acompanhando uma música que vinha de um aparelho de som. Faziam sinais graciosos com os lábios, olhos, cabeça e com as mãos. Tratava-se de um grupo de portadores de deficiência. Mais adiante, avistei um monumento, no qual uma gravação, constantemente ligada, repetia o nome dos mortos, que também estavam gravados em lápides de mármore. Pessoas de idade avançada, entre elas muitas mulheres, discursavam emocionadas e em baixo tom de voz. Pareciam estar lembrando os amigos e familiares perdidos naquela ocasião.

Marcos Reigota

Marcos Reigota O monumento estava repleto das coloridas fitas de origami, flores, incenso e copos d’água.

O monumento estava repleto das coloridas fitas de origami, flores, incenso e copos d’água. Algumas oferendas em altar budista eram feitas com comida e frutas, com a melancia ocupando lugar de destaque. Eu queria ver e fotografar o máximo possível. O meu estoque de filmes se esgotou rapidamente e procurei nas imediações um lugar onde pudesse comprar mais. Pensei que teria dificuldade em encontrar um lugar aberto, já que era domingo e uma data tão importante na história japonesa e mundial. Entrei numa pequena rua lateral que parecia ter algum comércio funcionando. Qual não foi minha surpresa em deparar com uma movimentada zona comercial, onde se podiam comprar filmes, bananas, roupas, sapatos, eletrodomésticos, livros, computadores… Todas as lojas estavam abertas e um movimento frenético de pessoas (muitos jovens) parecia não ter absolutamente nada a ver com o que estava acontecendo no Parque da Paz, a poucos metros dali. Garotas de shorts muito curtos, com flores de plástico nos cabelos tingidos, se equilibravam nos seus enormes sapatos de plataforma. Falavam alto entre si e nos telefones celulares. Casais com pacotes de compras e carrinhos de bebê olhavam as vitrines. Vendedores convidavam os passantes a entrar nas suas lojas. Luminosos e telas de TV gigantes mostravam os últimos vídeos dos astros da música pop japonesa. Havia um movimento que contrastava completamente com aquele em que eu me encontrava alguns minutos antes. Achei uma falta de respeito, lastimei os vícios da sociedade de abundância, mas não tive nenhuma dificuldade em encontrar uma loja que vendesse filmes das mais variadas marcas e preços. Voltei o mais rápido possível ao parque e adentrei novamente aquela atmosfera de reflexão, silêncio, lamento, prece, militância. Num grupo de jovens, vi um rapaz vestindo uma camiseta com o retrato do falecido líder comunista vietcong Ho Chi Min. Achei curioso e pensei que pudessem ser jovens militantes do Partido Comunista japonês.

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte Num outro grupo, um rapaz vestia uma camisa do São

Num outro grupo, um rapaz vestia uma camisa do São Paulo Futebol

Clube.

Muitos “ocidentais” estavam por ali. A língua inglesa predominava, mas também ouvi um pouco de francês e italiano. Como eu, os convidados continuavam usando a fita de cetim verde na lapela da camisa. Usar essa fita era motivo de muito orgulho, pelo menos para mim, e imagino que para as outras pessoas também. Observei os vários monumentos no Parque da Paz. Muitos deles representam mulheres e crianças, nas mais diversas formas e posições. Não vi nenhum monumento lembrando a paz, com uma figura masculina adulta. Fui caminhando em direção ao Hiroshima Peace Memorial Museum. Passei novamente pelo monumento dedicado aos mortos, que continuava repleto de pessoas orando, depositando flores, acendendo incenso. Os monges budistas continuavam ali com os seus cantos. Entre eles, alguns muito jovens e outros bem velhos. Crianças eram conduzidas pelos pais para depositarem flores. Muitas pessoas ficavam por ali, paradas, silenciosas, com o olhar meditativo e distante. Quando cheguei ao museu, encontrei-o lotado. Paga-se uma quantia simbólica para entrar (5 yens) e para permanecer lá dentro é necessário muito preparo físico e psicológico.

Logo na entrada destaca-se uma maquete, que mostra como a cidade ficou completamente destruída após a bomba. Tijolos por todo lado, árvores queimadas e retorcidas. Acima da maquete, várias telas de TV mostram o mesmo vídeo que reconstitui os momentos antes, durante e depois da explosão. Embaixo das telas, há uma réplica da bomba conhecida como “Little boy”. Grandes painéis mostram fotos da cidade destruída. Um relógio de pulso, quebrado e parado às 8h15 indica o momento em que a bomba explodiu. Ainda nessa primeira sala, numa parede repleta de placas metálicas, vemos cópias de todos os telegramas, enviados pelos prefeitos de Hiroshima aos chefes de Estado cujos países realizaram testes nucleares.

Marcos Reigota

Marcos Reigota No museu, encontrei a resposta a uma das minhas perguntas: “Por que a bomba

No museu, encontrei a resposta a uma das minhas perguntas: “Por que a bomba atômica foi lançada na cidade de Hiroshima?” A explicação dada é que, quase no final da II Guerra Mundial, a maioria das principais cidades do Japão já havia sido bombardeada pelos ataques aéreos dos EUA. No entanto, Hiroshima continuava intacta. Supõe-se, também, que Hiroshima foi a escolhida pelo fato de que o tamanho e a topografia da cidade eram adequados para se avaliar o poder destrutivo da bomba. A cidade possuía também uma grande concentração de tropas, instalações e fábricas militares que não haviam sofrido danos importantes durante a guerra. Um outro painel mostra uma foto de Hiroshima antes do bombardeio, informando que era uma próspera cidade de castelos durante a época Edo (1603-1868). Depois da Restauração Meijii (1868 1912) abriu-se a Escola Normal e a cidade começou a reunir um considerável número de instalações militares, que deram à cidade a dupla reputação de “Centro Educacional” e “Cidade Militar”. No momento da bomba atômica, a população de Hiroshima era de aproximadamente 350 mil habitantes. Muitas pessoas, velhos, adolescentes e crianças, assim como estrangeiros, liam atentamente e observavam cada objeto demoradamente, formando pequenas aglomerações. No momento em que estive ali, o relógio quebrado e parado marcando 8h15 (que pertenceu a Akito Kawagoe) era o que atraía mais pessoas e provocava mais comentários. No segundo andar, uma série de peças mostram o poderio destruidor da bomba, a dor provocada e suas consequências. A emoção é muito forte, principalmente diante do que sobrou dos uniformes e objetos escolares das crianças: são peças rasgadas, queimadas,

desfiadas, manchadas, faltando botões

Algumas dessas peças trazem o

nome de seus proprietários e localizam a distância em que se encontravam do epicentro. É muito difícil descrever os objetos, mesmo que sejam poucos. Todos trazem uma série de significados nas suas formas retorcidas. Se não tivéssemos tão clara a origem, a procedência e o motivo pelo qual estão dessa

forma, alguns deles poderiam facilmente ser confundidos com peças de arte contemporânea.

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte Um dos que mais me impressionou foi o triciclo de

Um dos que mais me impressionou foi o triciclo de um menino de três anos, que morreu no momento da explosão. O brinquedo ficou praticamente

intacto, mas recoberto por pedras e barro. O pai do menino sobreviveu e guardou-o com ele, durante toda a sua vida. Em 1985, um amigo da família, que havia herdado o triciclo, doou-o ao museu. Algumas rochas mostram o quanto a radiação foi poderosa. A laje de um banco situado a 260 metros do epicentro mostra a sombra de uma pessoa fixada na mesma. No momento da explosão, ela estava sentada num dos degraus da entrada do banco, esperando que fosse aberto. Sem nenhuma condição de fugir, morreu queimada, deixando uma mancha negra fixada na rocha, como resultado da radiação. Uma parte do que foi uma parede mostra algumas linhas negras fixadas. Trata-se da “chuva negra” que caiu na cidade, após a explosão. A chuva estava contaminada com substâncias radioativas, por isso a sua cor e a fixação na parede. O exemplar que se encontra no museu foi localizado a 3.700 km do epicentro.

Eu já havia visto muitos objetos e lido muita coisa no museu. Estava

exausto, queria sair dali e ao mesmo tempo continuar, quando deparei com

alguns origamis feitos por Sadako Sasaki, quando ela se encontrava no hospital. São dobraduras delicadas, que não serão jamais esquecidas.

Vi ainda fotos de crianças feridas e queimadas, mulheres aleitando

filhos pequenos e fotos dos dias posteriores, que mostravam pessoas com ferimentos e quelóides. Quelóides são espécies de gânglios, que aparecem na

parte externa do corpo. São o resultado de queimaduras já curadas, aparecendo de 1 a 4 meses depois das queimaduras, deixando enormes

cicatrizes. A incidência maior de quelóides aconteceu entre 1946 e 1947.

Ao lado dessas fotos tão tristes e contundentes, é possível ver outras,

que mostram como o cotidiano foi retomando o seu ritmo. Nos primeiros meses após a bomba atômica, muitas pessoas estavam na feira vendendo e comprando legumes, crianças (engraxates) em atividade, outras com uma quantidade razoável de dinheiro nas mãos. Em 1946, mulheres plantavam e cuidavam dos legumes, em terrenos próximos de destroços bem visíveis dos

prédios e casas. A limpeza das ruas e a reconstrução das linhas de bonde ocupavam muitos homens. As crianças que sobreviveram voltavam às aulas

Marcos Reigota

Marcos Reigota em salas improvisadas. Possivelmente, algumas delas, presentes ali nas fotos, estiveram na cerimônia dessa

em salas improvisadas. Possivelmente, algumas delas, presentes ali nas fotos, estiveram na cerimônia dessa manhã de 6 de agosto de 2000 sentadas entre os seus familiares e amigos. Numa outra sala, podem-se ver desenhos e aquarelas, pintadas pelos sobreviventes, que relatam passagens vividas por eles naqueles dias. Alguns textos, também escritos pelos sobreviventes, completam o testemunho. Uma dessas aquarelas mostra uma mulher nua, seguida por crianças em fila, queimadas. No fundo, as casas queimam em grandes labaredas. Outra aquarela mostra mulheres feridas no chão e, sobre uma delas, o filho pequeno tenta apoiar-se para mamar. Ainda vi alguns presentes e impressões deixados pelos visitantes ilustres: Vlak Ravel, Papa João Paulo II, Che Guevara, Aldofo Perez Esquível, Dmitievich Sakharov, Madre Teresa de Calcutá, Jessie Jackson, Mikhail S. Gorbachev, a lista interminável dos embaixadores no Japão (o primeiro embaixador brasileiro no Japão a visitar o museu, o fez em 1978, sendo que o museu foi inaugurado em 24 de agosto de 1955) e a presença, repetidas vezes, do escritor Kenzaburo Oe, Prêmio Nobel de literatura de 1994. Uma das mensagens de Kenzaburo Oe, colocada em destaque, diz que ele acredita que a vida de muitas pessoas muda radicalmente depois da visita ao museu e que tal afirmação baseia-se na própria experiência. Infelizmente, não copiei a frase de Kenzaburo Oe, mas fiquei com o “recado” bem registrado, por concordar com ele. Passei ainda pela loja, onde comprei os livros: “Letters from the end of the world: a firsthand account of the bombing of Hiroshima”, de Toyofumi Ogura, falecido historiador e professor da Universidade de Hiroshima, e “Hiroshima Collection”, livro de fotos de algumas peças do museu, feitas pelo fotógrafo Hiromi Tsuchida. Comprei também duas camisetas, uma para o meu filho e outra para mim, onde se lê em grandes letras brancas “Love and peace”. Saí dali querendo andar, apesar do calor do início da tarde. Peguei um táxi e fui ao “Museu de Arte Contemporânea de Hiroshima”. No mapa para turistas oferecido pelo hotel havia apenas uma pequena foto do museu, com um parágrafo dizendo que o acervo era de obras de pós- guerra e que, entre elas, estavam trabalhos de Henry Moore e Andy Warhol.

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte O museu se localiza num belo parque, bem arborizado, com

O museu se localiza num belo parque, bem arborizado, com templos e bibliotecas. Pude ver que, nas imediações, se encontra a “Radiation Effect Research Foundation”.

A arquitetura do prédio é pós-moderna, como eu esperava encontrar.

No folheto que recebi na entrada, está escrito que foi inaugurado em 3 de maio de 1989: “É o primeiro museu público de arte no Japão, dedicado exclusivamente à arte contemporânea. Está localizado no Hijiyama Parque, famoso por suas cerejeiras, de onde se tem uma esplêndida vista de Hiroshima. Foi desenhado por Kurokawa Kisho, com uma série de colunas, ágora e uma casa de pedra japonesa (kura), mostrando uma imagem não restritiva a nenhum país ou era”. O Museu de Arte Contemporânea de Hiroshima foi construído com pedras e alumínio, “refletindo o desenvolvimento da civilização entre o passado e o futuro, ao longo do tempo que passa”. Logo na entrada, chamou-me a atenção o piso formado por grandes placas de rocha, colocadas em círculo, lembrando as construções dos incas.

Todas as placas se encaixam perfeitamente, formando um conjunto muito harmônico entre rochas de tons claros e escuros. Essas rochas tiveram a sua coloração original alterada pela explosão atômica.

O museu estava vazio. Na primeira sala, vi várias peças interessantes

de artistas que desconheço completamente, como Tadanori Yokoo, Ay-o, Takanobu Kobayashi, Fang Li-jun, etc. Nenhum deles faz referência à bomba atômica, como eu esperava. São trabalhos inovadores de artistas promissores (alguns nascidos na década de 1960), porém, devido também ao meu cansaço, passei rapidamente pelas obras. Vi, mas não as contemplei. Fiquei irritado com uma funcionária, que me seguia, qualquer que fosse a minha direção, com receio (creio) que eu tocasse ou destruísse alguma coisa

Fui

para uma outra sala e, logo depois, lá estava ela. Felizmente, depois de ter

chegado ali por uma escada em espiral (lembrando a torre de Babel) do artista Inoue Bukichi, vi obras de Miró e Pollock. Nessa sala, havia um casal e um pai com seus três filhos pequenos, brincando com uma das obras (era permitido). A peça era feita de várias esferas de ferro, colocadas no chão, com diferentes fissuras em cada uma

Em vez de prestar atenção às obras, resolvi testar a funcionária

Marcos Reigota

Marcos Reigota delas. As crianças, usando uma espécie de baguete, batiam nas esferas, extraindo suaves e

delas. As crianças, usando uma espécie de baguete, batiam nas esferas,

extraindo suaves e diferentes sons. Foi bonito ver as crianças correndo sobre

uma obra de arte (provavelmente caríssima) e explorando os sons.

Comprei alguns postais para enviar ao meu orientador de doutorado,

Jean-Marie De Ketele, e aos amigos Newton Aquiles von Zuben, Mary Jane

Paris Spink e Albert von Brunn.

Para o Newton Aquiles von Zuben, escolhi um postal da escultura

“Atomic Age”, de Henry Moore, e para os outros comprei postais com os

delicados desenhos de cereja de Yozo Hamaguchi.

Em volta do museu há um parque de esculturas. Todas muito bonitas e

contemporâneas, como a “Wings in Aki”, de Sumikawa Kiichi, “Twisted Rusty

Piller”, de Wakita Aijiro, “Our Planet”, de Shingu Susumi e “The Arch”, de

Henry Moore.

A última está situada num lugar tranquilo e com muita sombra, de

onde se pode avistar a cidade. É uma grande estrutura em bronze que, de

determinados ângulos, lembra um corpo feminino. Fiquei um bom tempo ali,

o vento e a sombra aliviavam o calor e das cigarras vinha o único som. Ainda

li o panfleto do museu que recebi na entrada: “ A cidade de Hiroshima

concluiu uma milagrosa reconstrução, depois de devastada pela bomba

atômica em 06 de agosto de 1945. Dessa forma, é de profundo significado

para a cidade a coleção de arte contemporânea que marca as mudanças desse

período”.

A política da coleção do museu especifica que serão incorporados:

1. Trabalhos significativos representando as tendências da arte contemporânea desde a Segunda Guerra Mundial.

2. Trabalhos que expressem a relação entre arte contemporânea e Hiroshima.

3. Trabalhos de excelentes jovens artistas com futuro promissor.

Deitei num dos bancos e dormi meia hora. Quando acordei, ainda vi

um grupo de pessoas, quase encoberto pelas árvores. Procurei um ângulo

melhor e vi que estavam num cemitério, rezando.

Voltei ao Parque da Paz no início da noite, vestindo a camiseta negra,

com as palavras “Love and peace” em branco. Não esqueci de fixar a fita de

cetim verde.

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte O parque continuava movimentado. As inúmeras barracas onde voluntários

O parque continuava movimentado. As inúmeras barracas onde voluntários coletavam mensagens para colocá-las nas lanternas, estavam em plena atividade. O “Peace Memorial Cenotaph”, desenhado pelo arquiteto Kenzo Tange, em memória das vítimas, continuava sendo envolvido por flores, incenso e preces. Algumas lanternas estavam sendo colocadas no rio Honkawa. Pessoas procuravam encontrar espaço nas escadarias das suas margens. As lanternas, muito delicadas, de madeira fina e leve, têm hastes que, quando abertas, formam um quadrado. No centro é colocada uma vela e os quatro lados são encobertos por papel colorido. Essa estrutura tão delicada desliza na água. Em poucas horas, milhares de lanternas estavam descendo o rio. As luzes das lanternas e o edifício A-Bomb Dome, todo iluminado ao fundo, faziam um contraste de muitos significados. Continuei percorrendo o parque, ouvindo os diversos grupos que cantavam por ali. Jovens japoneses interpretavam, em inglês, músicas gospel e mórmons norte-americanos cantavam, em japonês, hinos bíblicos. Encontrei, do outro lado do rio, em direção ao “A-Bomb Dome”, uma placa de bronze com informações sobre o edifício. Era a sede do centro de Promoção Industrial de Hiroshima, desenhado pelo arquiteto tcheco Jan Letzel. Construído em 1915, foi um dos primeiros edifícios modernistas da cidade. Em 1966, a câmara votou em favor de sua permanente preservação, da forma que ficou após ser atingido pela bomba atômica. Em dezembro de 1996, a UNESCO declarou o “A-Bomber Dome” como “monumento patrimônio da humanidade”. Em torno do prédio, crianças acendiam as inúmeras velas coloridas confeccionadas por eles nas escolas. Essa cerimônia é chamada “Challenge Peace Candle”. Um documento em inglês, distribuído no local pela 2000 Hiroshima Junior Chamber/ The Peace Promotion Committee, inicia-se com a frase: “Deixe nos expressar nossa vontade pela Paz, construindo velas e expandindo a amizade”. E continua: “Relembre o passado. Hiroshima é a primeira cidade no mundo destruída por uma bomba atômica. Milagrosamente, Hiroshima foi reconstruída. Um mundo sem guerra não é sempre pacífico. Nós ainda temos discriminação racial, destruição do meio ambiente e pouca atenção aos

Marcos Reigota

Marcos Reigota direitos humanos. Um mundo sem esses problemas é o tipo de mundo que queremos

direitos humanos. Um mundo sem esses problemas é o tipo de mundo que queremos ver no futuro. Esse é o nosso sonho. A Paz no mundo virá com todos juntos. Avós, pais, mães, meninos, meninas, todo mundo. As velas da Paz são o nosso símbolo de esperança pelo futuro. Nós queremos enviar essa mensagem a todas as pessoas no mundo, principalmente às crianças”. O ambiente era de serenidade. Parecia que aqueles momentos de dor, angústia e lamento das primeiras horas do dia foram sendo pouco a pouco substituídos por um conforto trazido pela solidariedade e pelo envolvimento de cada um ali presente. O parque estava lotado e, para se conseguir um lugar nas escadarias para apreciar as lanternas coloridas deslizando pelo rio, era necessário fazer fila. Pensei no Sr. Takashi Morita, presidente da Associação Brasileira das Vítimas da Bomba Atômica e no emocionante discurso que fez no ano passado, nessa mesma data, no auditório da livraria FNAC em São Paulo. Pensei que, provavelmente nesse momento, ele estivesse preparando seu contundente discurso pacifista. Pensei ainda no meu amigo Miguel Abellá, recentemente falecido aos 80 anos. Com sua verve e crítica anarquista ensinou a muitos ecologistas o que significa militância e compromisso com as causas fundamentais do nosso tempo. Não pude deixar de me perguntar por onde andaria aquele meu conhecido suíço frequentador assíduo do centro de pesquisas “Los Alamos”, nos EUA, de onde saiu a bomba que destruiu esta cidade. Pensava no meu filho, quando ouvi um grupo de jazz formado por japoneses. Achei que Alexandre gostaria do grupo e que aquele tipo de “cool jazz” prenunciava músicas brasileiras.

tristeza não tem

Fiquei “cantando silenciosamente”, acompanhando o

ritmo com o pés. Alguns japoneses ameaçavam dançar, balançando o corpo de um lado para outro. Eu consegui um lugar privilegiado. De onde estava, podia ver o grupo tocando e as lanternas deslizando pelo rio. Fiquei ali um

bom tempo. Ao meu lado sentou-se um jovem casal, ela grávida de uns sete meses. O rapaz cuidava de sua mulher com atenção e delicadeza. Tudo

A terceira música confirmou a minha hipótese: “

”.

fim, felicidade sim

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte indicava que estavam esperando o primeiro filho. Estavam vestidos com

indicava que estavam esperando o primeiro filho. Estavam vestidos com elegância e simplicidade. Atrás de nós, um italiano barulhento procurava ensinar algumas palavras de sua língua às tímidas crianças japonesas. Falava alto, atrapalhando os que queriam ouvir a música, mas ninguém ficou zangado por isso. O italiano parecia estar preocupado apenas em ouvir aquelas belas crianças dizerem “Bonna sera”. Quando, enfim, elas decidiram falar, ele gritou: “Bravo! Bravo!”. A mãe pegou as filhas e se despediu. Depois do grupo de jazz, veio um pianista que tocou um solo lembrando a música de Keith Jarret. Ele convidou uma japonesa que, com voz de cantora de blues no estilo de Sarah Vaughan, interpretou “Wave”, do Tom Jobim. Tudo parecia um típico show ao ar livre, numa agradável noite de verão, porém sem gritaria e histeria. Só aí então comecei a me perguntar: o que ficou da radiação nas rochas, nas árvores, nos animais, nas pessoas, na água e no ar? Quais foram as mutações genéticas provocadas? O que ainda resta de radiação nas paredes daquele edifício e nesse rio tão iluminado? Por que não bastou Hiroshima, se ainda massacraram Nagasaki? “Pense nas mulheres, rotas, alteradas, Mas não se esqueçam da rosa,

Da rosa de Hiroshima

Ia cantarolando essa música até o hotel. O parque já estava ficando vazio. Numa barraca, consegui um pôster da cerimônia das lanternas no rio

Honkawa.

(Vinícius de Moraes).

No dia seguinte, logo pela manhã, por indicação do Prof. Morita, fui visitar o Hiroshima Peace Institute, da Universidade Municipal. Fui gentilmente recebido por um funcionário, Sr. Manbu Iwasaki, que me falou sobre as origens e objetivos do Instituto. Ele mostrou as suas dependências e apresentou-me a dois pesquisadores. O Instituto foi fundado em 1998, com o objetivo de ajudar a resolver os problemas internacionais, através de pesquisa e educação. Uma de suas

Marcos Reigota

Marcos Reigota prioridades é o estudo das possibilidades de desarmamento. Os seus atuais temas de pesquisa

prioridades é o estudo das possibilidades de desarmamento. Os seus atuais

temas de pesquisa são:

O processo de abolição das armas nucleares;

Diminuição da tensão e desarmamento do nordeste asiático;

Contribuições ao corpo de paz das Nações Unidas.

Entre os seus temas prioritários, encontram-se:

construção da paz após conflitos;

formação da opinião pública para a paz;

direitos humanos e paz;

problemas da democratização após a Guerra Fria;

Pesquisa internacional sobre os danos causados pela radiação nuclear.

No texto de apresentação do Instituto está escrito: “O slogan: No more

Hiroshimas”, não lembra apenas a abolição das armas nucleares, mas

também quer contribuir para a realização de uma eterna paz no mundo.

Hiroshima tem continuamente enviado essa proposta ao mundo inteiro’.

Numa outra passagem pode-se ler: “No Japão e no exterior, parece que

houve um declínio do interesse das pessoas no que diz respeito aos perigos

das armas nucleares. A crescente apatia refletiu-se na conferência da

Internacional Peace Research Association, ocorrida em Brisbane, Austrália,

no verão de 1996”.

Observando a dificuldade dos sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki

para expor ao mundo o seu testemunho, apesar de todos os esforços nesse

sentido, o mesmo texto faz referência ao cancelamento da exposição sobre

“Hiroshima”, em 1994, no Smithsonian Institution National Air and Space

Museum em Washington, capital dos EUA”.

Com o objetivo de mudar essa situação, o texto observa: “Nós (do

Instituto) precisamos passar a experiência histórica da cidade para o mundo

todo e construir um quadro/uma referência solicitando a compreensão e

simpatia para nosso objetivo principal de abolição das armas nucleares”.

Ao ser apresentado ao professor associado Kazumi Mizumoto, ele

comentou que o Brasil é um país ativo na efetivação do tratado de não

proliferação das armas nucleares.

Eu disse a ele que, apesar dessa posição política brasileira no contexto

internacional, no plano doméstico eu tinha minhas dúvidas e que, se o Brasil

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte ainda não possui armas nucleares, é quase certo que não

ainda não possui armas nucleares, é quase certo que não abandonou essa possibilidade, tendo em vista o empenho no desenvolvimento de uma

tecnologia “nacional” de enriquecimento de urânio, controlada pelos militares. Como exemplo disso, falei do Centro Experimental Aramar, situado

a 20km de Sorocaba, onde está sendo construído o reator para um submarino

de propulsão nuclear. Depois falamos sobre Hiroshima e Nagasaki e sobre as Celebrações pela Paz. Ele me disse que eu veria, em Nagasaki, os restos das igrejas católicas bombardeadas. Essa cidade foi sempre muito aberta ao mundo, o que a tornou a mais conhecida do Japão. Falou-me que os portugueses tiveram uma influência importante em Nagasaki, difundindo o catolicismo, e me disse que, provavelmente, eu conheceria a história dos mártires da cidade. Respondi que não, e ele então me contou que, no final do século XV, seis europeus e vinte japoneses foram crucificados por serem cristãos, tendo sido depois canonizados pelo Papa. Disse ainda que eu poderia visitar o monumento em homenagem aos “vinte e seis santos do Japão”. Terminamos nossa conversa ali e, logo depois, fui apresentado ao pesquisador-visitante Masamichi Kamiya. Com ele, tive a mesma surpresa, quando me disse que o Brasil é um país ativo para o cumprimento do tratado de não proliferação das armas

nucleares. Eu repeti, então, o que havia dito ao professor Kazumi Mizumoto. Ele quis mais detalhes. Disse-me desconhecer completamente o assunto e perguntou-me se o Brasil tinha um projeto clandestino. Eu disse que clandestino não, mas secreto sim. No desenrolar de nossa conversa, ele mencionou o acordo entre Brasil

e Argentina, de cooperação mútua no controle e inspeção das instalações

nucleares; e que, para ele, esse acordo trazia boas perspectivas. Eu disse que não tinha a mesma confiança, pois acreditava que havia sido uma manobra política encontrada pelos dois países que, em vez de se digladiarem para ver quem teria primeiro a bomba atômica, resolveram se unir para evitar e enfrentar os questionamentos das potências nucleares e da opinião pública internacional.

Ele parecia estar muito interessado e disse-me que nunca havia pensado no assunto sob essa perspectiva. Fiz então referências à história

Marcos Reigota

Marcos Reigota recente dos dois países sob a ditadura militar e deixei claro que, apesar do

recente dos dois países sob a ditadura militar e deixei claro que, apesar do “encanto” que a política externa do atual governo brasileiro provoca na comunidade política e diplomática internacional, eu, como muitos brasileiros, não acredito na sua retórica, e que tal descrença está baseada em estudos e fatos. O Sr. Masamichi Kamiyo ainda me falou da necessidade de envolver a população nesse debate. Concordei, mas aleguei que poucas pessoas estavam interessadas nessa discussão e, entre elas, poucas têm condições, digamos, técnicas, de abordar o assunto. Aí estava um ponto crucial para nós, professores e militantes: formar pessoas com condições técnicas e políticas de intervenção num assunto tão complexo e ambíguo quanto esse. Nossa conversa se alongava mais do que o previsto. Despedi-me, dizendo-lhe que enviaria documentos e estudos relacionados com o Centro Experimental Aramar. Ele levou-me até o elevador e ainda teve tempo de dizer que, em novembro deste ano, a cidade de Nagasaki promoveria um encontro mundial da sociedade civil contra as armas nucleares.

Saí do Instituto, pensando na força e na fragilidade dos discursos diplomáticos e como eles penetram espaços importantes de reflexão. Não pude evitar de fazer um paralelo entre o que havia conversado, com o que estava acostumado a ver e ouvir em Genebra. Lá, havia presenciado um constante desfile de jovens formados nas mais conceituadas universidades americanas, filhos de personalidades ilustres e funcionários de alta hierarquia nas Nações Unidas, que acreditavam (ou só conheciam) nos discursos e tratados assinados pelas nações e Estados. Enfim, jovens que acreditavam na “oficialidade” e difundiam-na. As ruas de Hiroshima estavam movimentadas, o comércio funcionava freneticamente, as meninas passeavam exibindo os seus penteados e roupas coloridas, deliciosamente irreverentes. Parecia que não havia mais nenhum registro do dia anterior, nem do que ocorrera há 55 anos. Fui caminhando até o Parque da Paz, que estava limpo e vazio. Algumas pessoas dormiam nos bancos.

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte Uma senhora costurava. Crianças brincavam na Fonte da Paz. Até

Uma senhora costurava. Crianças brincavam na Fonte da Paz. Até então eu não havia visto a pequena e simpática fonte. Bebi de sua água. O Cenotaph continuava recebendo a visita de pessoas. O pátio, onde colocaram as centenas de cadeiras para a celebração oficial, estava arrumado e vazio. Pude apreciar sem pressa e fotografar os inúmeros monumentos. Todos muito refinados. Para mim, o mais expressivo é o dedicado aos professores/as e estudantes das escolas primárias: uma mulher assustada carrega nos braços um menino desfalecido. Outro monumento mostra uma mãe desesperada, procurando proteger seus filhos com o corpo. O menor é carregado nos seus braços e o outro tenta se proteger nas pernas dela. Fui observando cada um deles: o dedicado aos estudantes; aos funcionários públicos, aos coreanos vítimas da bomba atômica; aos voluntários; aos estudantes das escolas secundárias; aos funcionários dos correios; aos pedreiros e artesãos; aos agricultores e outros. Fui me despedindo do parque, observando as dobraduras coloridas ao sol e os copos d´água depositados em cada um dos monumentos. A Kiyomi me disse que, na tradição japonesa, o copo d´água nos túmulos e monumentos significa a última doação dos filhos, dos que continuam a viver, aos pais. O filho/a deve sempre estar presente na hora da morte do pai ou da mãe para lhe dar o último copo d´água. Seguindo a sugestão do professor Morita, eu não poderia deixar de visitar Miyajima, que, segundo ele, é um dos três mais importantes lugares sagrados do Japão. Eu não tinha nenhuma outra informação além dessa e de como chegar lá. Em 26 minutos de trem e mais 10 de ferry-boat eu estava num lugar que não poderia imaginar mais bonito. Do ferry-boat, podia ver um enorme Torii 8 vermelho, contrastando com o mar e as montanhas. O dia estava claro e o Torii, majestoso, erguia-se das águas do mar. Poucas pessoas estavam naquele momento no ferry-boat, mas todas procuravam o melhor ângulo para vê-lo e fotografá-lo.

8 Torii = portal de madeira que simboliza a entrada em áreas sagradas. Para o arquiteto contemporâneo Kisho Kurokawa, o Torii conecta o mundo interior com o mundo exterior. (Agradeço a colaboração de Mishiko Okano).

Marcos Reigota

Marcos Reigota Quando desci, deparei com muitas setas indicando mosteiros e templos. Deixei-me levar pela direção

Quando desci, deparei com muitas setas indicando mosteiros e templos. Deixei-me levar pela direção que outras pessoas estavam tomando. Mais alguns metros e encontramos veados passeando livremente pela rua, sendo alimentados e fotografados pelos turistas. Segui por uma trilha longe dos turistas e cheguei a um bosque repleto de borboletas de várias cores. De onde estava podia ver o mar e o terraço das casas. Caminhei pelas ruelas desertas, observando os pequenos jardins, a arquitetura tradicional japonesa, as estátuas de Buda nos muros e donas de casa alimentando, pacientemente, os veados. Pedi a uma delas para fotografá-la, e ela fez sinal que sim. Entrei numa rua cheia de objetos para turistas, de todos os preços e qualidades. Pude comprar deliciosos espetinhos de peixe no vapor e comê-los pela rua. Ainda comprei os pãezinhos recheados de doce de feijão (“mandiu”), que me traziam um sabor de infância. Sempre que minha vizinha, Moritasan, os preparava, lá em Promissão, oferecia-me um prato cheio deles. Na caminhada, encontrei um australiano, que me indicou o melhor caminho para chegar a um dos templos. Quando cheguei lá não acreditava no que via, tamanha beleza. O templo foi construído em madeira, finamente esculpida. As paredes são vazadas. O teto tem muitas imagens de animais (veados, tartarugas, tigres, cobras) e pessoas de diferentes épocas, vestidas de diferentes maneiras. O piso é muito limpo e lustrado, possivelmente pelos passos de muitas pessoas que há séculos andaram por ali. Escolhi um lugar para sentar e ficar em silêncio, contemplando aquele lugar. Devo ter ficado quase uma hora nesse ‘estágio de contemplação”. Quando resolvi continuar a caminhada, o melhor ainda estava por vir. Desci a rua cantarolando:

“Considere, rapaz, a possibilidade de ir pro Japão, num cargueiro do Lloyde, lavando porão”. (Oriente/ Gilberto Gil). Cheguei a um majestoso templo todo vermelho. Qualquer que seja o meu registro sobre tal lugar, ficará muito aquém da beleza, paz e serenidade que se tem ali. Quis ser fotografado no local,

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte vestindo a camiseta do “1º Workshop de Política de Educação

vestindo a camiseta do “1º Workshop de Política de Educação Ambiental do Estado do Amapá”. Não sei quanto tempo fiquei vagando. Do templo vermelho tinha uma vista completa e sem interferência do Torii, da mesma cor. Ainda caminhei pelo jardim, formado por uma longa ruela de árvores retorcidas como bonsai e luminárias baixas, de pedra. Do jardim, podia ver o Torii, o templo e o mar, que surpreendentemente estava sujo com embalagens de plástico e latas de refrigerantes e cerveja. Perguntei-me: será que a radiação e os efeitos da bomba atômica chegaram até aqui? Obtive a resposta alguns dias depois, lendo o livro de Toyomi Ogura, “Letters from the end of the world” (Kodansha International, Tokyo/N. York/London, 1997), onde está escrito: “Ouvi dizer que algumas ”

vidraças se estraçalharam até na Ilha de Miyajima

Fazendo o caminho de volta, observei enormes troncos de árvores centenárias expostos como relíquias nas ruas e outros templos e estátuas de Buda.

Li depois, no guia “Japão – Fromers”, (Julio Louzada Publicações, SP, 1994), que o Torii, “com mais de 16 metros de altura, construído em 1875 de madeira de cânfora, guarda a entrada da atração principal de Miyajima, o santuário Itsukushida. Miyajima é um dos pontos mais pitorescos do país, uma ilha excepcionalmente bela, que desde os tempos mais remotos, foi considerada sagrada. No passado, não era permitido que eventos tão humanos quanto dar à luz ou morrer ocorressem aqui. As mulheres grávidas e os enfermos eram rapidamente conduzidos para a ilha principal. Ainda hoje, não há cemitérios em Miyajima” (p. 485 - 486). Kiyomi e eu lemos essas passagens enquanto voltava ao hotel e tentava convencê-la a visitar Miyajima antes de partirmos para Nagasaki. Ela não me acompanhou nessa tarde, pois, após ter visitado o museu da bomba atômica, ficou deprimida, querendo ficar sozinha. Saímos para jantar e entramos num restaurante com desenhos de Bob Marley e inscrições como esta na parede:

(p. 24).

“Comer é um ato político” 9 , concordamos e rimos.

9 Eating is a political activism.

Marcos Reigota

Marcos Reigota Saímos do restaurante comentando que a reconstrução de Hiroshima, transformando-a numa bela e aprazível

Saímos do restaurante comentando que a reconstrução de Hiroshima, transformando-a numa bela e aprazível cidade, foi a melhor resposta que esse povo deu aos seus algozes.

Calor de mais de 35ºC em Nagasaki. Escrevo do meu quarto, estilo japonês (com tatame), depois de um banho coletivo, também no estilo japonês. Há 55 anos o calor do verão mais o da explosão da bomba atômica de plutônio lançada pelos EUA sobre a cidade, deve ter sido insuportável. Não consigo imaginar a dor e o sofrimento dos feridos. Quanto aos mortos, não seria demais dizer que sofreram menos. Cheguei ontem, vindo de Hiroshima. Foram mais ou menos 4 horas de viagem. Vim diretamente ao hotel, um ryokan 10 situado na periferia de Nagasaki, perto do porto. A corrida de táxi da estação até o ryokan custou quase o valor da diária. Fiquei irritado, pois desde abril estava tentando reservar um hotel. Com a diária, mais o táxi, poderia ter ido para um hotel mais confortável, nas imediações do Parque da Paz. Mal tive tempo para reclamar do ryokan e das despesas extras. Fui diretamente ao local da Celebração pela Paz, observando a cidade ensolarada, rodeada de montanhas. A primeira impressão de Nagasaki foi diferente de Hiroshima. Esta última é muito mais agradável, com avenidas amplas, belos jardins e arquitetura arrojada. Em comum, as cidades têm o calor e a triste sina de terem sido bombardeadas e semidestruídas. Nagasaki não atrai o visitante, mas mesmo assim me pareceu simpática. Tive que pegar mais um táxi para chegar até o Parque da Paz e, com isso, as despesas do dia ficaram elevadas. Ao chegar lá, fiquei surpreso com a simplicidade do local (em comparação com Hiroshima) e o silêncio. Poucas pessoas preparavam o local para a cerimônia oficial de hoje. Alguns grupos de estudantes presentes aqui e ali.

Muitos funcionários das cadeias de televisão instalavam inúmeros cabos e microfones. Outros testavam o som, arrumavam as cadeiras. Algumas

10 Ryokan hotel popular no estilo japonês.

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte pessoas colocavam velas ao longo do parque. Eu comecei a

pessoas colocavam velas ao longo do parque. Eu comecei a olhar os monumentos e fotografá-los.

O monumento à Paz é enorme, representando um japonês de braços

abertos (é a primeira e uma das únicas representações que vi com a figura masculina). O resultado estético é duvidoso, lembrando o realismo socialista ampliado. Uma outra escultura em mármore branco, também muito grande, representa uma mulher, este monumento, embora também próximo ao

realismo socialista, é bem mais bonito. Nas proximidades, encontram-se outros monumentos no mesmo

estilo, embora mais discretos, doados nos anos 80 pela ex-URSS, Bulgária, Tchecoslováquia e Alemanha Oriental.

O monumento doado pela Alemanha Oriental é o único que traz a

figura de uma família. Os outros representam mulheres com filhos. O monumento doado pela ex-URSS é um típico exemplar do realismo socialista,

sendo que a mulher representada lembra uma operária/camponesa. Pelas ruelas do parque, fui fotografando os monumentos doados pela Associação das Vítimas da Bomba de Nagasaki do Brasil, por Cuba, Turquia, Saint Paul City (Minessota) e Argentina. O monumento doado pelos “brasileiros” em 1988 tem o formato do mapa do Brasil em mármore negro, com uma pomba branca. É o único com

características geográficas. O monumento doado pela Argentina, em abril de 1996, é uma escultura abstrata da artista Carmem Arriola de Marin, com o título “Triumph of Peace over War”.

A escultura de Paul T. Granlund, doada em 1992 pela cidade

americana de Saint Paul (Minessota), é a artisticamente melhor realizada,

embora de fácil apelo. Apresenta crianças de mãos dadas formando um globo.

Outros monumentos, cujos registros da origem são mais importantes que os resultados estéticos, vieram de Pistóia (Itália), Middelburg City (Holanda) e Kwiat Zycia I Pokoju (Polônia).

O monumento doado pela cidade portuguesa do Porto chama a

atenção por vários motivos. O primeiro é por indicar a fraternidade entre as

cidades-irmãs, Nagasaki e Porto. O segundo é pela simplicidade e

Marcos Reigota

Marcos Reigota minimalismo: Trata-se de uma pequena placa de bronze, cravada numa lápide de mármore negro.

minimalismo: Trata-se de uma pequena placa de bronze, cravada numa lápide de mármore negro.

O monumento oferecido pela cidade de Ankara foge do lugar comum,

ao representar figuras não realistas de um homem e mulher de mãos dadas.

Os corpos são recortados numa pedra negra. Apenas os braços e as mãos, quando se encontram, são feitos em pedra.

O Parque da Paz em Nagasaki situa-se onde antes ficava uma antiga

prisão, que foi atingida pela bomba. Os restos dos muros foram preservados. Naquele dia, encontravam-se na prisão, além dos prisioneiros comuns, também os prisioneiros de guerra. Uma pequena mostra do que era a Catedral de Nagasaki foi poupada e preservada. Em volta de um muro do que foi um dia a catedral, foi construída uma área para cultos ecumênicos. Essa área é considerada o epicentro, ou seja, o “ponto zero” onde a bomba atômica explodiu. Nas proximidades, corre um rio. Em 09/08/1945 crianças nadavam ali. A terra misturada com objetos (vidro, ferro, madeira), que resultou após o lançamento da bomba, está protegida com vidro blindado. Nas imediações foi erigido um monumento à Paz. É menor do que o situado na área central do Parque, mas mesmo assim as suas dimensões são enormes. É uma imagem feminina de braços abertos e desarmados. Nas proximidades há outros monumentos, alguns muito bonitos, pequenos, discretos, que representam crianças brincando. Também por aí se encontra uma tocha que, creio, fica permanentemente acesa. Em volta de todos os monumentos, encontram-se as coloridas dobraduras (origami), flores e copos d´água. Nesse local, encontrei algumas pessoas que preparavam uma cerimônia. Eram principalmente senhoras, algumas vestidas de negro, que arrumavam as cadeiras e a comida. Uma delas perguntou-me se eu falava espanhol e começamos a conversar. Ela me disse que logo mais, às 18h30, ocorreria um culto e que, se eu quisesse participar, estava convidado. Disse que participariam dele todas as religiões praticadas em Nagasaki e deu-me o programa, escrito em

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte japonês, com uma foto de representantes de várias religiões. As

japonês, com uma foto de representantes de várias religiões. As senhoras iriam orar pelos mais de 70 mil mortos e 70 mil feridos pela bomba de plutônio, lançada pelos EUA. em Nagasaki. Entre mortos e feridos, encontravam-se quase 10 mil coreanos que, na época, viviam na cidade, muitos como prisioneiros de guerra do Japão. Antes de a cerimônia ecumênica começar, ainda caminhei pelo parque, vendo as pessoas colocarem velas protegidas por pequenas caixas de isopor, feitas por crianças, pintadas nas mais diversas cores, com desenhos e inscrições em japonês e inglês (“Peace” e “Love”) assim como aquelas feitas em Hirsohima. Essas velas seriam acesas no início da noite, quando outra cerimônia aconteceria em volta da Fonte da Paz. A Fonte da Paz lança água nas pessoas como um pequeno chuvisco. (o que nesses dias de calor de mais ou menos 35º C é um alívio). O significado da fonte é que não nos esqueçamos da sede que sentiram as vítimas da bomba atômica. Espera-se que a água, dispersando-se, possa também levar, com ela, a sede pela Paz. Enquanto as duas cerimônias estavam sendo preparadas fui até o Museu/Memorial. Quando entrei estava cheio de crianças japonesas, alguns americanos e canadenses. Senhoras preparavam ikebanas no saguão que antecede a exposição do acervo. Cada uma fazia o seu trabalho. Duas senhoras lideravam as mais jovens. As mais idosas olhavam os detalhes, afastavam-se das ikebanas, para obter um melhor ângulo de visão. Ao contrário das mais jovens, pareciam sérias e compenetradas. Brincaram comigo quando me viram fotografando-as. Acenavam com a mão e algumas fizeram poses.

Talvez aquelas senhoras estivessem ali preparando as ikebanas, como para fazer um contraponto ao que os visitantes iriam encontrar alguns metros depois. O ingresso (200 yens) traz uma foto da nuvem radioativa de muitos metros que se formou após a explosão da bomba. O famoso cogumelo, cuja imagem corre mundo desde então. Na entrada do “Nagasaki Atomic Bomb Museum” colocaram uma réplica da destruição da Catedral Urakami. Ao lado da réplica estão imagens

Marcos Reigota

Marcos Reigota de santos atingidas pela bomba e fotos da cidade completamente destruída, num raio de

de santos atingidas pela bomba e fotos da cidade completamente destruída,

num raio de aproximadamente 800m do epicentro. No raio de 2.000m

encontram-se a Chinzei Middle School, Nagasaki Medical College Hospital,

Nagasaki Medical College, Shiroyama Primary School. Objetos pessoais como

relógios, roupas, utensílios domésticos retorcidos

parado às 11h02, momento da explosão. Fotos de crianças queimadas, de

corpos espalhados pelo chão, de animais mortos.

A exposição traz, também, a caixa d´água do colégio Keiho,

completamente retorcida e uma réplica da enorme bomba lançada na cidade,

apelidada de “Fatman”.

Num “amontoado” de vidro e areia pode-se ver os ossos de uma mão

que ficou grudada. Essa é uma das mais impressionantes peças do museu.

Uma exposição didática mostra a história científica e política da

construção das bombas atômicas; o manifesto pacifista de Einstein e

Bertrand Russel; a “evolução” das pesquisas nucleares em diferentes países

durante a Guerra Fria; análises e trechos de documentos que mostram que o

lançamento da bomba sobre Nagasaki foi uma tentativa dos EUA definirem a

Um relógio de parede

sua superioridade e diferenças com a ex-URSS, marcando assim uma nova

era nas posições geoestratégicas globais que duraram, pelo menos, até a

queda do muro de Berlim. Uma sala com vídeos apresenta depoimentos de

sobreviventes das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki e, também, de

vítimas dos testes nucleares realizados pelos EUA no seu próprio território

(Nevada) ou no Pacífico, assim como depoimentos sobre o mesmo assunto de

cidadãos soviéticos, polinésios, etc.

Saí do museu cansado, achando que não havia visto tudo, nem

registrado o suficiente, mas o ambiente estava pesado e eu não resisti mais.

Ainda passei pela loja e comprei os livros:

● “Nagasaki under the atomic bomb – Experiences of young college girls”, editado por Michiko Nakano, publicado por Joeisha, Tokyo, 2000.

● “Footprints of Nagasaki – Excerpt from “Anohi Anotoki”, publicado pela Nagasaki Prefectural Girls High School 42nd Alumnae, Nagasaki, 1997.

● “In the sky over Nagasaki: an a-Bomb reader for children” publicado pela Nagasaki Prefecture Hiba Kusha Teachers Association Peace Education Materials Editorial Committee, Wilmington, Ohio, 1997.

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte O museu exibia também desenhos de Keiji Nakazawa, autor dos

O museu exibia também desenhos de Keiji Nakazawa, autor dos

famosos livros em quadrinhos que relatam a história de Gen, um garoto

sobrevivente de Hiroshima. Dei uma olhada superficial para não perder a ocasião, mas precisava sair dali.

O calor era intenso, alguns jovens escolares uniformizados estavam

nas proximidades da área de celebração ecumênica; jovens com aparência de militantes esquerdistas distribuíam panfletos em japonês. Um grupo de estrangeiros passava por ali. Era formado por secundaristas e alguns professores/as. A cerimônia ecumênica estava para começar e eu estava dividido entre presenciar esta última ou a das velas, em torno da Fonte da Paz. Um grupo de budistas atravessava a rua, tocando seus tambores. Um som forte, potente, repetitivo, perturbador. Um som simultâneo de alerta e de lamento. As pessoas começavam a chegar: autoridades religiosas, fiéis, estudantes, a população, visitantes como eu. As autoridades religiosas estavam sentadas em cadeiras, enquanto os fiéis, descalços, estavam ajoelhados no chão. Crianças, velhos, senhoras, senhores. O silêncio era quebrado apenas pelas cigarras e pelos ruídos dos microfones que estavam sendo preparados. Um senhor de mais ou menos 70 anos fazia o seu lamento, ajoelhado, impassível, em frente a três caixas de tamanhos diferentes, embrulhadas em tecido e com várias mensagens escritas. Ao lado dele, uma moça (filha? neta?), na mesma posição, mas aparentemente funcionando como “auxiliar”. Essa mesma moça estava presente na vigília em Hiroshima, na noite de 05 de agosto. A cerimônia foi iniciada com os estudantes carregando tochas acesas. Conforme o apresentador fazia o seu discurso, os estudantes, de dois em dois, conduziam as tochas acesas. Depois, cada representante de um grupo religioso fez a sua oração, o seu lamento. Às vezes solitário, às vezes em grupo, às vezes com música e bailarinas, como no caso dos xintoístas coreanos. Saí dali e fui caminhando até a estação de trem para, de lá, pegar um táxi até o ryokan.

Marcos Reigota

Marcos Reigota Caminhei uns 3km. A chuva me pegou e me fez bem. Fiquei, por opção,

Caminhei uns 3km. A chuva me pegou e me fez bem. Fiquei, por opção, completamente molhado. O motorista perguntou-me de onde eu vinha

e se estava na cidade a negócios. Quando ele me perguntou: “Business?” eu

respondi: “Peace”. Ele então falou: “Atomic bombing”. Quando ele disse “Ó

Brasil!!!!” eu engatei “Zico” e ele respondeu “Pelé, Jairzinho”, Eu acrescentei:

“Rivaldo, Ronaldo, Romário

a nossa conversa terminou aí.

Um confortável tatame me aguardava.

Saímos, Kiyomi Sakamoto e eu, às 8h da manhã, do ryokan em direção ao parque, onde aconteceria a Celebração pela Paz. A cerimônia começaria pontualmente às 10h45 e precisávamos estar em nossos lugares reservados antes das 9h30. Contava a Kiyomi o que vi no dia anterior, e ela fazia o mesmo. Ela chegou a Nagasaki na noite anterior, pois, de tanto eu insistir, decidiu ir conhecer Miyajima. Falávamos sobre as nossas impressões de Nagasaki e das cerimônias, monumentos, museus, fazendo comparações com o que vimos em Hiroshima. As celebrações pela Paz nas duas cidades têm vários pontos em comum. Porém as de Nagasaki pareceram-me, pelo que havia visto até o momento, mais simples e “locais”, em comparação com o internacionalismo de Hiroshima. O trânsito estava congestionado, o calor intenso era amenizado pelo ar condicionado do carro. Os meus olhos “corriam” pela cidade, pelo porto, pelas montanhas, pelo relógio e pelo taxímetro. Disse a Kiyomi que estava impressionado com a “presença comunista”, ou melhor, dos ex-países comunistas em Nagasaki, através dos monumentos doados à cidade. Como não vimos esse tipo de doação em Hiroshima, e como

a cidade nos pareceu muito moderna, comentei com ela que, possivelmente

durante a Guerra Fria, Hiroshima havia ficado sob a tutela americana e Nagasaki sob a tutela soviética. Era apenas uma hipótese, uma suposição, sem nenhum fundamento histórico mais objetivo. Apenas impressões que surgiram no caminhar pelas

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte duas cidades. Porém achava que seria interessante explorar mais esse

duas cidades. Porém achava que seria interessante explorar mais esse assunto e iria perguntar ao professor Masato Morita sobre isso. Mas a minha curiosidade não pôde esperar até voltar à universidade e pedi a Kiyomi que perguntasse ao motorista. Ele se atrapalhou e disse que o partido que está no poder em Nagasaki é o Partido Liberal. As minhas suspeitas sobre a possibilidade de ser um partido de esquerda se desfizeram, e achei melhor esperar até o meu próximo encontro com o professor Morita. O motorista mudou de assunto e continuou uma longa conversa em japonês com Kiyomi, que culminou com ele explicando, com muitos detalhes, como poderíamos voltar para o ryokan de ônibus. Em vez dos 4.000 yens de táxi, pagaríamos 400 yens cada um. Ao chegarmos ao Parque da Paz, o movimento era intenso. O portão de entrada ainda não estava congestionado, mas uma pequena fila já se formava para passar pela revista dos policiais. Após passarmos pelo forte aparato de segurança, tirei da mochila as pequenas fitas roxas de cetim que deveríamos usar na lapela. A fita roxa nos identificava como convidados oficiais da prefeitura e, como o professor Morita enfatizou, era muito importante usá-la na cerimônia. Com o convite oficial em meu nome e tendo como acompanhante o nome de Kiyomi Sakamoto inscrito no mesmo, fomos até a recepção e lá recebemos o programa da Celebração. Um jovem acompanhou-nos até os lugares reservados. Fomos os primeiros a chegar desse grupo de convidados. Nossos lugares estavam na segunda fila, à direita da fila central. Na nossa frente, de lado, estavam os convidados políticos. Entre eles e nós, num espaço pequeno, ficavam os jornalistas, com todos os seus apetrechos eletrônicos. Dali de onde estávamos, teríamos uma visão muito boa de tudo.

O calor era intenso, apesar de o local ser um recinto aberto e coberto com uma lona. As recepcionistas ofereciam pequenas toalhas de mão, enroladas, úmidas, assim como chá gelado.

Marcos Reigota

Marcos Reigota Alguns homens se abanavam com delicados leques de bambu e papel. Pouquíssimos usavam paletó,

Alguns homens se abanavam com delicados leques de bambu e papel. Pouquíssimos usavam paletó, mas muitos usavam gravata e camisa de mangas curtas. Lentamente, o local foi sendo ocupado e, ali onde estávamos, só chegavam japoneses, muitos de idade avançada. Pouco antes do início da cerimônia, chegaram um padre de características ocidentais e um senhor que parecia ser indiano ou paquistanês. Por ali, também estavam um padre afrodescendente, de meia idade, vestido elegantemente, e alguns norte- americanos que já havia visto no trem e no parque, no dia anterior. Nenhuma dessas pessoas (nem eu) mostrou disponibilidade para conversar. Os jornalistas se moviam incessantemente. Os radialistas pareciam ser os mais preocupados, pois a cerimônia iria ao ar, ao vivo, e tudo precisava estar funcionando muito bem. Os lugares reservados as autoridades políticas foram sendo, pouco a pouco, preenchidos. Vestiam paletó, e gravata e traziam na lapela uma flor de cetim, com uma fita branca. As esposas também portavam a flor de cetim. Algumas delas vestiam refinados kimonos em seda preta. Caminhavam e sentavam com elegância e discrição, apesar da visível condição de membros de alta hierarquia na sociedade japonesa. De onde nós estávamos, podíamos ver muitos seguranças e policiais fardados, em cima dos prédios vizinhos. Algumas cerimônias foram realizadas antes do início da Celebração. Uma delas reuniu vários representantes das religiões praticadas em Nagasaki, e foi uma repetição, mais curta, da ocorrida no dia anterior. Foi realizada a cerimônia do chá, dedicada aos mortos, por mulheres vestidas com coloridos kimonos. Cada gesto era calma e meticulosamente preparado. Cada movimento das mãos parecia durar muito tempo. A senhora que preparava o chá era assessorada por outras que se revezavam ao seu lado, sem fazerem absolutamente nada: apenas chegavam a passos delicados, ficavam ali alguns minutos até que, do outro lado, chegasse uma colega, ficasse pouco tempo e fosse substituída. Enquanto esse grupo de mulheres realizava a cerimônia do chá, viúvas e familiares dos mortos, vestidos de preto, ficavam sentados observando cada movimento.

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte Exatamente, conforme o previsto, às 10h45, começou a 55º Cerimônia

Exatamente, conforme o previsto, às 10h45, começou a 55º Cerimônia pela Paz em Nagasaki, com um pedido de descanso às vítimas da bomba

atômica, seguido do discurso do Sr. Genjiro Noguchi, Presidente da Câmara de Vereadores.

Às 10h51, foi feita a oferenda da água por um grupo de estudantes de mais ou menos 10 anos. Dois minutos depois começou a oferenda das flores. Grandes coroas de flores amarelas eram levadas até o altar, por

representantes dos partidos políticos. Do Partido Liberal ao Partido Comunista.

Exatamente às 11h02, horário da explosão da bomba em Nagasaki, foi feita a oração silenciosa.

O silêncio era emocionantemente cortado pelas badaladas de um sino e pela cada vez mais audível algazarra das cigarras. Às 11h03, foi lida a Manifestação pela Paz, pelo prefeito da cidade, Sr. Iccho Itoh. Chamou-me a

atenção sua referência direta aos EUA quando disse: “Próximo do fim da Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1945, às 11h02, uma única bomba

atômica de plutônio foi lançada, pelos EUA sobre Nagasaki”. 11 A seguir, mencionou testes nucleares realizados no planeta, lembrando ainda que

30.000 bombas nucleares foram produzidas até hoje. Às 11h13, o Sr. Akio Nakashima, representante dos sobreviventes de

1945, leu o “Empenho pela Paz”. Quando a bomba fora lançada, ele tinha apenas 18 anos: “As cenas infernais que presenciei na região de Urakami continuam vivas na minha memória. São um fardo que estamos destinados a

carregar pela nossa vida.” 12 E conclui com o poema:

“Sob o perfeito azul do céu Eu falo às crianças:

Livrem todos os países dos dias de guerra! Apertem as mãos fortemente e cantem uma canção À Paz, ao amor, à amizade

11 Near the end of the second world war, on august (1945 at 11:02 a.m., a single plutoniun type atomic bomb was dropped and the city of Nagasaki by a United States military aircraft.

12 The hellish scenes that confronted me in the Urakami Area still branded vividly in my memory. This is a burden that we are bound to carry throughout our lives.

Marcos Reigota

Marcos Reigota E ao brilho da vida!” 13 Depois do Sr. Akio Nakashima, um grupo de

E ao brilho da vida!”13

Depois do Sr. Akio Nakashima, um grupo de escolares cantou “The

souls of the children”. Na segunda estrofe (traduzida do japonês por Hachiro

Shimauchi) a letra é a seguinte:

“Aqui, hoje, sobre esta relva do verão,

Memórias dos amigos que se foram persistem,

Com sentimento de luto profundo,

Elevando-se aos céus

Pelas almas dos amados” 14

Durante exatos 20 minutos várias pessoas fizeram pequenos discursos,

que não pude acompanhar, devido à falta de tradução. Kyomi tentou traduzir,

mas pedi a ela para não se preocupar comigo, concentrar-se nos discursos e

tomar nota do que estava ouvindo.

Às 11h43, um grupo de meninas adolescentes entrou para cantar “A

Thousand Paper Cranes” música de Michiru Oshima e letra de Kanae

Yojoyama. A primeira estrofe, traduzida do japonês por B. Burke-Gaffney,

diz:

“Com um renovado empenho pela Paz, Eu dobro um grou escarlate e, com um puro coração,

Eu dobro um claro grou branco

E depois eu dobro um reluzente grou vermelho,

Queimando com emoção”. 15

Às 11h48 a cerimônia oficial foi encerrada. Quando eu estava saindo,

deparei com o prefeito. Foi a ocasião de apertar-lhe a mão e agradecer pelo

convite.

Na dispersão pude ver melhor algumas pessoas: velhos em cadeiras de

rodas; crianças alegres, alguns estrangeiros, muita gente fotografando.

13 Under the perfect blue sky, / I speak to the children: / Rid all countries of days of war! / Shake hands firmly and sing a song / To peace, love, friendship / And the gleam of life!

14 Here today, on this summer grass / Memories linger on departed friends / With feelings of deep mourning / Reaching high above the heavens / To the souls of the beloved.

15 With a renewed pledge for peace / I fold a scarlet crane and with a pure and noble heart / I fold a fresh white crane, / And then I fold a bright red crane, / Burning with emotion.

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte Na Fonte da Paz, velhos, jovens e crianças faziam fila

Na Fonte da Paz, velhos, jovens e crianças faziam fila para beber um pouco d´água e depois, com as mãos postas, cabeça abaixada e olhos fechados faziam uma reverência/prece. O chuvisco que os jatos d´água provocavam não incomodava ninguém. Pelo contrário, era motivo de alegria e de brincadeiras. Um senhor de short e camiseta perguntou-me de onde eu vinha. Quando respondi, ele comentou que por ali havia um monumento oferecido pelos brasileiros. Disse-me que morava numa das ilhas próximas a Nagasaki e que estava na cidade para fazer um exame médico, mas que, antes de ir “visitar o doutor”, resolveu sair para passear. O ambiente era de festa num dia de verão. Fui descendo os degraus da longa escada que liga a fonte à área dos cultos religiosos, obedecendo à ordem que todos conheciam. Para descer, usa-se o lado esquerdo e, para subir, o direito. Apesar do grande número de pessoas, não havia confusão, era só seguir o fluxo estabelecido, sabe-se lá como. Não havia nenhum controle ou indução nesse fluxo. Ele existia. Na área dos cultos, onde a bomba explodiu, o clima era de domingo. Crianças muito pequenas brincavam com os pais, senhoras idosas tomavam sorvete e riam juntas. Fotografei-as, quase de surpresa. Uma ou outra ainda acenava ou fazia o sinal de vitória com os dedos. Todas as fotos que fiz, inclusive a da vendedora de sorvetes, foram acolhidas com sorrisos, brincadeiras e palavras que eu não entendia. Respondia dizendo: “arigatô” e “sayonara”. Os monumentos estavam repletos de origamis, flores, incenso, copos d´água. Algumas pessoas passavam, olhavam e iam embora. A vida parecia retornar ao seu ritmo normal. Um casal que brincava com os dois filhos muito pequenos permitiu-me que fotografasse as crianças desenhando. Perguntaram-me de onde eu vinha. “Ó Brasil!” disse a mãe e o pai acrescentou que, mais acima, havia um monumento doado pelos brasileiros. Fui caminhando em direção ao museu. Uma jovem me entregou um panfleto, todo em japonês, com uma foto de uma criança e uma senhora, vestidos de kimono, tristes, faces sujas e algo nas mãos que parecia um pedaço de pão. (Essa mesma foto ilustra a capa do livro “Hiroshima Notes” de

Marcos Reigota

Marcos Reigota Kenzaburo Oe (Grove Press, N. York, 1996) – na contra capa há a informação

Kenzaburo Oe (Grove Press, N. York, 1996) na contra capa há a informação de que se trata de uma foto dos Arquivos Bettmann.) Queria conversar com a jovem, mas ela não queria conversa. Parecia estar ali apenas para distribuir os seus folhetos. Quantos fossem. Mais acima, quatro jovens cabeludos, vestindo a mesma camiseta negra “Hiroshima never more”, escreviam mensagens e acendiam incenso. Foram rápidos e os vi caminhando, sempre juntos, em outros momentos. Um velho solitário observava tudo o que acontecia, sentado num banco embaixo de uma árvore. Parecia estar compenetrado nos seus pensamentos.

O museu estava agitado, com muitas crianças e adolescentes se

movimentando de um lado para outro, acompanhados dos pais ou dos

professores, e alguns estrangeiros com a fita roxa na lapela.

As senhoras que fizeram as ikebanas não estavam mais no saguão de

entrada. As ikebanas sim: grandes, bonitas, acolhedoras. Sentei para beber um café na cantina e por lá fiquei um bom tempo. Lembrava-me de coisas que havia visto no dia anterior e que precisava rever:

as pedras escurecidas pela radiação; os animais mortos; as fotos e objetos escolares das crianças; os uniformes manchados e rasgados; as esculturas de um presidiário que sobreviveu e passou a esculpir peças que representam o terror daqueles dias; o nome das cidades solidárias e fraternas de Nagasaki,

(entre elas Santos, Curitiba e Rio de Janeiro); as imagens de santos e objetos católicos destruídos, etc. Não saíam de minha cabeça as questões que me fiz nesses últimos dias: Por que tanta crueldade com a população civil? Se não bastasse o estrago, a destruição e a dor em Hiroshima, por que repeti-los em Nagasaki? Por que tanto conhecimento científico e dinheiro gastos na produção de artefatos bélicos?

O

que será feito das 30 mil bombas atômicas ainda existentes no

mundo?

Josai International University Institute for Japanese Cultural Studies (23 ago. 2000)

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte OBSERVAÇÕES SOBRE A CELEBRAÇÃO PELA PAZ Kiyomi Sakamoto 16 Hiroshima,

OBSERVAÇÕES SOBRE A CELEBRAÇÃO PELA PAZ

Kiyomi Sakamoto 16

Hiroshima, Hiro (aberto, largo) Shima (ilha). É isso, Hiroshima inesquecível! Emocionante! Maravilhoso! Tudo! Tudo! Dia 06-08-2000. Às 8h em ponto, inicia-se a cerimônia (do adeus ou a Deus), pelo bombardeio de 1945. A desintegração do átomo! É demais! Tudo se desintegra: a carne humana, plantas, animais, prédios, tudo sob o calor de muitos megatons. Num segundo, o cogumelo, a rosa e tudo se desintegra. Onde tudo aquilo foi parar?!! O que resta, você pode imaginar, é claro! Mas é resto da vida. Estou atônita, sem átomo, quando me integro à Comitiva da Cerimônia. Somos conduzido às cadeiras, num local destinado aos visitantes estrangeiros, que fica atrás do bloco dos sobreviventes e seus familiares. E assim, sob o calor do verão japonês, às 8h, o mestre de cerimônias anuncia a abertura. A programação decorre dentro dos exatos minutos programados:

corais, hinos à paz, evocações e consolo às vitimas do “holocausto”da bomba. Transcrevo abaixo o texto editado pelo jornal “Look”, a serviço da comunidade estrangeira no Japão (incluindo os brasileiros), em agosto de 2000 na página 43:

“Em 1939, o físico Albert Einstein, com receio de que os nazistas na Alemanha estivessem produzindo uma bomba atômica, discutiu com o presidente americano Franklin D. Roosevelt, a possibilidade de os

foi

Estados Unidos estabelecerem seu programa nuclear. Em 1942 [

lançado o projeto Manhattan, pelo qual foi decidida, a fusão do urânio

235 e do plutônio 239 [

Los Alamos, no deserto do Novo México [

pronta, [

Quando a bomba ficasse

O local escolhido para reunir os cientistas foi

]

].

].

]

seria lançada sobre o porto Rruk, nas ilhas Caroline, Oceano

Pacífico, onde estava ancorado o grosso da força naval americana.

foi sugerido

que fosse lançada numa cidade populosa, com grandes edificações e habitações ainda não atingidas por bombas comuns, a fim de melhor avaliar os efeitos de sua destruição. Em 13 de junho de 1945, foram escolhidas, por ordem, as cidades japonesas de Kokura, Nugata e Hiroshima. Só mais tarde foi acrescentado o nome de Nagasaki. Em 16 de julho de 1945, Truman foi informado sobre o sucesso da explosão experimental da 1ª bomba atômica do mundo, que aconteceu no deserto de Alamogordo, Novo México.

Em 31 de maio de 1945, quando a bomba ficou pronta [

[,

16 Professora aposentada do ensino fundamental. Pedagoga pela Universidade Federal do Paraná e teóloga pela Universidade Metodista de Rudge Ramos.

Marcos Reigota

Marcos Reigota Durante a Conferência de Potsdam, concluiu-se que os aliados só aceitariam o final da

Durante a Conferência de Potsdam, concluiu-se que os aliados só aceitariam o final da guerra com a rendição incondicional do Japão. Ou seja, os japoneses teriam que se render com a ocupação de seu território pelos americanos, ingleses, franceses, holandeses, australianos, etc.

No início de agosto de 1945, estavam prontas duas bombas, que foram enviadas para o sul do Pacífico. Foi decidido lançar a primeira bomba no dia 6 de agosto, sobre a cidade de Hiroshima. A bomba tinha 3 metros de comprimento, 70 centímetros de diâmetro, quatro toneladas, e tinha como fonte de energia o urânio 235, equivalente a 1,3 milhões de TNT.

A segunda bomba deveria ser lançada no dia 11 de agosto, sobre a cidade

de Kojikura, mas foi antecipada para o dia 9 do mesmo mês e transferida para Nagasaki. Ela tinha 3,5m de diâmetro, 4,5 toneladas e tinha como fonte de energia o plutônio 239, equivalente a 2,2 milhões de TNT.

A bomba de Hiroshima foi lançada pelo avião B-29, com o nome de Enola

Gay (que era o nome da mãe do piloto Tylberts Jr.), às 8h15 e, para que

sua explosão causasse o maior estrago possível no solo, estourou entre 500 e 600m do chão.

A explosão formou uma bola de fogo cuja temperatura, no epicentro,

chegou a milhões de graus centígrados. Uma temperatura que chega a derreter uma barra de ferro e faz corpos humanos evaporarem. Em seguida, uma grande nuvem em formato de cogumelo se levantou no local da explosão”.

Efeito imediato da bomba

Aqueles que ficaram expostos aos raios de calor dentro de um raio de 1 km do epicentro da explosão morreram no período de uma semana, pois a pele e os órgãos se romperam, por causa da intensidade do calor. Pessoas que estavam a um raio de 3,5km sofreram queimaduras de pele. Quanto aos danos materiais, houve incêndios e fogos em edifícios, cercas, árvores e até carbonização nos dormentes das estradas de ferro. Como o calor se expandiu rapidamente para os lados, houve um vácuo no centro, o qual, logo em seguida, chupou a atmosfera ao seu redor. Como tudo isso aconteceu em poucos segundos causou uma tempestade de vento, cuja velocidade for supersônica. Apesar de a bomba de Nagasaki ter mais potência de destruição ela causou menos danos materiais e humanos do que a de Hiroshima porque a cidade fica no meio das montanhas e a bomba explodiu mais próxima do solo.

Chuva Negra

A condensação da umidade e cinza em pó que subiram ao céu caíram em forma de chuva negra em ambas as cidades. Muitas das vítimas que não foram queimadas pelo raio nuclear da explosão foram contaminadas pelo efeito da radiação dessa água preta.

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte De acordo com os estudos feitos pelo governo japonês em

De acordo com os estudos feitos pelo governo japonês em 1977, 140 mil pessoas morreram em Hiroshima e 70 mil em Nagasaki. Dentre as causas das mortes até o final de 1945, 60% foram em consequência de queimaduras provocadas pela temperatura termal do fogo, 20% de ferimentos causados pela força de explosão e 20% pela radiação.

Efeitos posteriores da bomba

A taxa de 50% de mortes da população de Hiroshima e Nagasaki em

1950 foi bem superior à das vítimas de outras cidades do Japão. Os efeitos

das duas bombas em seres humanos foram divididos em imediatos e

posteriores. Como efeito imediato são consideradas as vítimas que morreram no período de até dez dias após o bombardeio. Nos casos de efeito posterior, os sobreviventes perderam os cabelos e pêlos, tiveram hemorragias, declínio de células brancas, bem como lesões na boca e na faringe. Você consegue ler isso e não tremer? Estou tremendo por todos os sentimentos e sentindo o que o meu corpo capta quando leio as informações acima encontradas em jornais diversos publicados em japonês.

A programação da Celebração pela Paz teve a fala das autoridades

como o prefeito, o governador, o primeiro-ministro, representantes do povo e

familiares das vítimas das crianças, todas evocando a PAZ. Palmas aqui e acolá (poucas). Eu não consegui me mexer, pois sentia que, se fizesse algum movimento, poderia machucar as almas das vítimas. Fiquei imóvel durante a hora exata que durou a cerimônia. Senti o peso no ar, náuseas, tristeza,

sufoco

O calor do verão forte fez-me sentir o calor da bomba, sofrido pelas

vítimas pedindo água. Ao terminar este texto, nem percebi que a luz fluorescente havia se apagado. Percebi, então, que continuei escrevendo à luz fraca, na penumbra. Vou dormir ou tentar.

05/08/2000

No dia em que cheguei a Hiroshima, sai à noite para reconhecer a

região e localizar o Parque da Paz, que ficava a uns 15 minutos a pé do hotel.

A praça é maravilhosa, com os monumentos em memória das vítimas.

Marcos Reigota

Marcos Reigota Uma tocha de fogo está sempre acesa. Há um monumento às crianças vitimadas, com

Uma tocha de fogo está sempre acesa. Há um monumento às crianças vitimadas, com muitos sembatsurus (garças da felicidade). A garça é uma dobradura de papéis coloridos iniciada pela menina que sofreu a radiação e que, após alguns anos, adoeceu. Ela acreditava que se conseguisse dobrar 1000 garças, seria realizado seu desejo de se curar e viver. Ela faleceu quando concluiu 988 garças e as suas amiguinhas continuaram as dobraduras. Até hoje continuam com a tradição: em dia de cerimonial em memória dos falecidos, as crianças fazem dobraduras e levam-nas até os monumentos, em sinal de desejo de paz no mundo. O parque fica entre dois rios que se dividem embaixo da ponte; a praça fecha o triângulo com o museu, que guarda todos os objetos que restaram da catástrofe. Ao lado da ponte há o edifício famoso, deixado da mesma forma que ficou ao sofrer o impacto da bomba , em protesto e memória daquele terrível dia. É um grito pela não repetição do erro que é a guerra. Logo ao chegar ao parque pela manhã, para a celebração, vi as várias crianças e adultos que distribuíam flores à população, para serem ofertadas às vitimas da bomba atômica. Nós fomos até o altar e, junto às flores, acendemos incensos e rezamos pelas almas. Durante a cerimônia, foi pedido que não houvesse fotos em respeito às vítimas.

Flash

Durante todo o dia, escolares e seus professores, em grupos, traziam sembatsurus e faziam panfletagem sobre a paz. Vários grupos de religiosos, inclusive comunidades católicas, envolviam-se com as mensagens de paz e de repúdio a barbárie da guerra. Observei religiosos xintoístas com tambores que iam de monumento, a monumento rezando pelas almas. No centro do parque, há um monumento às vítimas que morreram

Através dele, se vê o fogo (tocha) eterno da vida, que

pedindo “água, água

queima para sempre, e, no fundo, o edifício destruído e conservado como ficou. (Tudo o mais foi reconstruído). Esse monumento está construído num represamento de água que vem de 16 municípios de Hiroshima 17 . São águas puras, vindas de fontes naturais dessas 16 regiões que fazem parte de

17 A autora se refere aos municípios do Estado (província) de Hiroshima, cuja capital é a cidade de Hiroshima. (Marcos Reigota)

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte Hiroshima. Em frente ao monumento, estão gravados e guardados os

Hiroshima. Em frente ao monumento, estão gravados e guardados os nomes de todas as pessoas que pereceram em consequência da bomba atômica. Junto dele, encontram-se duas tinas usadas para pegar água nos poços antigos, feitos de bambus. São construções significativas e sutis. Em frente a esse monumento realizou-se a cerimônia ressaltando o perdão e a promessa de não repetição de guerra, o erro da humanidade no Japão, conclamando o mundo à busca da paz (Heiwa). Na oração silenciosa, o sino da paz ressoou profundamente em nosso ser, como que numa comunicação com as almas que pereceram e trazendo e uma certeza de que lutaríamos para sempre em busca da paz. A partir desse momento, eu não consegui me mexer. Pairou um silêncio tão profundo durante todo o dia, enquanto permaneci na praça. As pessoas pouco conversavam. Ouviam-se apenas os estudantes panfletando e as crianças entoando hinos que reafirmavam a sua crença em construir a paz. Junto ao monumento às crianças que morreram, todos batiam o enorme sino de bronze e penduravam as dobraduras de mil tsurus (garça ou grou).

Na ponte do rio Ai Oi havia crianças do primário esperando outras, que estariam chegando, a pé, da cidade vizinha. Ao lado do edifício destruído e conservado para memorizar a tragédia foram colocados painéis com várias fotos da época e uma gravação narrando as dores que não poderão nunca esquecer. Em volta desse monumento, logo ao anoitecer, um grupo de homens e mulheres com lanternas de luz esverdeada, rodearam o edifício e fizeram o minuto do silêncio, em prece às vítimas. As luzes das lanternas representavam a luz dos vaga-lumes que numa noite escura, poderiam dar um pouco de luminosidade aos humanos; mesmo os vaga-lumes poderiam conduzir-se pela sua própria luz. Para mim, isso significa que nunca poderemos ficar numa eterna escuridão pois possuímos a luz própria que nos conduz. Seria a mensagem às almas, na crença de que elas próprias saberiam encontrar os seus caminhos. Essa certeza e mensagem foram entoadas em hinos, quando finalizaram o ato.

Marcos Reigota

Marcos Reigota Lamento I À tarde, andando pela Praça, de repente ouvi um choro agonizante, ”

Lamento I

À tarde, andando pela Praça, de repente ouvi um choro agonizante,

pedindo “água, por favor, dá-me água

agonizante. Deparei com uma pessoa representando, ao lado do edifício destruído. Estava vestido de branco, com pedaços de roupas rasgadas parecendo ser pedaços de carne rasgada do corpo mutilado. Fiquei assistindo à performance do artista, que só pedia água e citava poemas fúnebres. Fiquei comovida até as lágrimas e, se não fosse a minha timidez, teria num impulso buscado água da fonte e dado a ele. Depois de representar a morte, pedindo água, retirou-se solitariamente do local. Tocou-me profundamente a sua homenagem às vítimas da bomba atômica. Em Hiroshima, durante todo o dia, aqui e acolá, vários conjuntos musicais de jovens com violas e atabaques, concertos nos salões nobres do edifício do memorial, coros infantis, muitas representações de entidades sociais, ONGs, províncias do Japão com mensagens nas faixas, etc. Entrei em contato com crianças e adolescentes que arrecadavam fundos para enviar apelos pela paz de uma às crianças do mundo todo, e missões católicas em catequização. Conversei com o padre de uma entidade missionária, que disse ter decidido pela missão no Japão, porque sentia que as mensagens no Brasil estavam europeizadas. Na sua visão, a salvação e a paz não eram questões individuais, mas sim coletivas e que, no Japão (Hiroshima), as pessoas poderiam entender melhor o trabalho evangelístico, por serem mais participativas.

Fui em direção a esse grito

Mural

Em outro monumento encontrei um grupo com quadros grandes, onde as pessoas que desejassem poderiam desenhar uma figura em cima da outra, até que as cores se misturassem e as formas variassem. As primeiras pinceladas e cores desapareciam dos olhos, mas todos os desejos de paz e as recordações dolorosas formavam um quadro expressivo que, à primeira vista, sem profundas observações, parecia um só borrão. Mas imagine que mais de 200 pessoas desenharam e expressaram os seus sonhos de paz no mundo. Talvez se realizasse o objetivo da ideia de Yamazaki Riebko que quis que as

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte dores e os sacrifícios das vítimas da guerra nunca fossem

dores e os sacrifícios das vítimas da guerra nunca fossem esquecidos. Tal ato se repete desde 1998, todos os dias 6 de agosto; quando completar 10 anos, a artista irá expor todos os quadros. Neste ano, eu tive a oportunidade de participar com as pessoas de muitas nacionalidades presentes no dia. Quem sabe a paz se alcance num mesmo desejo de muitas pessoas que se expressam juntas, assim como no quadro abaixo, de 1998.

Figura 1 - Hiroshima- Cartão de desejos de Paz, composto por pessoas presentes à Cerimônia da Paz- ideia proposta pela artista plástica Yamazaki Riebko em 1998.

proposta pela artista plástica Yamazaki Riebko em 1998. Entrevista Numa certa hora, três estudantes da Universidade

Entrevista

Numa certa hora, três estudantes da Universidade de Hiroshima pediram para me entrevistar e, quando eu lhes disse que era brasileira,

demonstraram entusiasmo. A primeira

pergunta foi: “O que é paz para você?” Respondi: “não ter desigualdades socioeconômicas tão grandes como no Brasil, ter saúde, comida, moradia e educação para todos, ter compreensão e união comunitária, não haver guerra, etc.” Devolvi a pergunta: Estou assustada com o “ijime” que existe nas escolas

e muitos suicídios de crianças. O que significa isso? A guerra e a briga entre as pessoas não seriam a mesma coisa? O ijime (violência) contra outra pessoa não é o mesmo que soltar a bomba atômica na guerra? A paz existe no Japão e no mundo? “Eles não me responderam. Só me explicaram que a não

professora primária aposentada

Marcos Reigota

Marcos Reigota interferência dos educadores nessa questão ocorre como resultado de problemas na relação professores x

interferência dos educadores nessa questão ocorre como resultado de problemas na relação professores x aluno x pais no passado e a partir dali, os professores resolveram não se envolver. Não perguntei quais as questões que os levaram a tomar tal posição, porque demonstraram não querer abordar esse assunto. Eu respeitei, mas notei que a minha posição os fez pensar e refletir. Perguntaram ainda se no Brasil não havia “ijime” nas escolas. Eu lhes respondi que sim, mas não chegava ao suicídio das crianças. O que poderia acontecer e acontece, é a violência por outras causas como tráfico de drogas, etc. Morte resultante de brigas entre escolares acontece com mais frequência no Brasil do que no Japão. A paz é não ter tais atitudes das pessoas, não haver crianças sem ter o que comer ou abandonadas nas ruas. Quando não houver essas situações, teremos a paz que busco. Para eles o Japão tem mais igualdade socioeconômica e estudo para todos. Isso é verdade, mas a paz não se refere só à situação individual, mas à coletiva, também. Terminada a entrevista, fiquei pensando se contribuí com alguma coisa. Como se pode ter paz com tantas guerras ainda, após Hiroshima?

Tourou Nagashi (barquinho de vela)

Essa cerimônia é realizada no dia 07 de julho, quando, segundo a tradição japonesa, acontece um fenômeno com a estrela Veja, e se pode comunicar com os mortos. É por isso que, em Hiroshima, durante o dia, fazem-se barquinhos e escrevem-se, em papel, mensagens e desejos de paz às vítimas. Os barquinhos têm velas acesas no centro e são soltos no rio. É uma visão belíssima: os barcos descem o rio ao pôr do sol até se consumirem pelo fogo ou pela água. Tourou Nagashi em qualquer ocasião que se trata de comunicação com os mortos, os japoneses fazem barcos e escrevem mensagens. É o sinal de envio das almas nos seus caminhos a seguir. Tanto em Hiroshima como em Nagasaki há essas cerimônias. Tradicionalmente, ocorrem no dia de finados que, no Japão, é em 16 de agosto.

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte Figura 2 - Hiroshima. Tourou Nagashi: barquinhos de papel que

Figura 2 - Hiroshima. Tourou Nagashi: barquinhos de papel que conduzem velas (luz) e mensagens aos mortos

de papel que conduzem velas (luz) e mensagens aos mortos Fonte: KS Museu Na 2ª feira,

Fonte: KS

Museu

Na 2ª feira, 7 de agosto, fui ao museu onde estão expostos fotos, slides, desenhos de artistas, pedras e paredes semidestruídas, a bicicleta retorcida de um garoto que desapareceu no calor da bomba, uma escada onde uma pessoa, sentada, aguardava o banco abrir. Ao explodir a bomba seu corpo evaporou-se deixando marcas na pedra, e muitas outras histórias relatadas em objetos e imagens. Tudo tão expressivo, que me impressionou e emocionou até as lágrimas. Num certo momento, diante daqueles quadros, um garoto de mais ou menos oito anos, acompanhando sua família, perguntou à sua mãe o que significava tudo aquilo. Ela respondeu: “São horrores de uma guerra que aconteceu nesta cidade, há 55 anos que se completam hoje”. O menino exclamou: “55 anos!”. “Então, a vovó estava aqui

e

ela sabe de tudo isso?”. “Sim”, respondeu a mãe, “ela tem mais de 55 anos”.

E

o garoto se animou e disse: “Vou perguntar essa história quando voltar para

casa”. É assim, o museu, as comemorações, as testemunhas, as autoridades,

as pessoas sensíveis devem transmitir o que sabem desse fato.

Marcos Reigota

Marcos Reigota Transmitem de geração a geração, o que são esses horrores. Em Hiroshima transmite-se a

Transmitem de geração a geração, o que são esses horrores. Em Hiroshima transmite-se a história do absurdo que é uma guerra, tão violenta quanto qualquer ato de violação à privacidade e preservação da vida. Saí correndo do museu, para não me desmanchar em lágrimas. Não acreditei que a cidade que vi e as pontes por onde estava passando fossem as mesmas ruas e pontes que haviam sido destruídas. A cidade reconstruída é confortável, organizada, limpa. Penso em quantas pessoas devem ter se sacrificado nesta reconstrução? Os sacrifícios não foram só das vítimas imediatas, mas também das gerações que se seguiram a elas, que reconstruíram: como dar a volta por cima em resposta aos destruidores? Penso nos sofrimentos dos que hoje andam curvados pelo tempo de vida, mas penso também nas pessoas que, sofrendo as dores da perda, ergueram-se dos lamentos para que, hoje, Hiroshima seja uma cidade de se respeitar. Pensei: é melhor assim, do que o eterno lamento. Compreendi o espírito dos samurais, que, ao decidirem tomar uma atitude, não recuam diante de quaisquer obstáculos. Vão à luta, dando o seu próprio suor e sangue por uma causa que decidem abraçar. Eu, que tinha uma crítica talvez muito superficial ao “espírito de samurai” que, para mim, tinha ou tem aspectos fanáticos e fascistas, quando vi e senti essa força dos “Hiroshimanos”, senti respeito, admiração e ternura por esta cidade. Saí dela com certeza de que é, agora, “Hiroshima, meu amor”, (parafraseando o título de um certo filme, não me lembro de que diretor). 18

Lamento II

No lugar menos iluminado da praça, uma pessoa, que parecia ser mulher, vestida toda de branco, rosto branco e olhos sinistros. A única expressão facial era o seu olhar penetrante. Parecia até que as pupilas eram avermelhadas. Lembrou-me a cena da aparição de uma alma penada no filme “O Império da Paixão”, do diretor Oshima. Um senhor estava por perto e fui conversar sobre o sentido e a intenção dessa representação.

18 Trata-se do filme de Alain Resnais, “Hiroshima, mon amour”, adaptado da obra de Marguerite Duras. (Marcos Reigota).

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte O homem tinha um olhar tão sinistro quanto o daquela

O homem tinha um olhar tão sinistro quanto o daquela moça. Ao

responder a minha pergunta, olhou-me com olhar tão penetrante e sério, que

tive um arrepio. Ele me disse que as almas dos que morreram vítimas da

bomba atômica de Hiroshima lamentam a morte violenta, e que a atriz estava

representando isso na cena. Cena muda, sem nenhum movimento, isto é, a

única “fala” era o branco do rosto e das roupas e os olhos vermelhos.

Teatro de narração de história com ilustração de gravuras (kami- shibai)

Eu estava sentada no parque, ainda em estado de choque após a

representação dos lamentos “da água”. De repente, surge uma senhora e

arma o teatro (kami-shibai). Imediatamente juntam-se várias crianças e

adultos. Fui ver do que se tratava. A senhora começou a contar a história de

uma menina de 8 ou 9 anos, alegre, estudiosa, querida pelas suas colegas,

aparentemente sadia. Até que, certo dia, sente-se mal e a sua mãe a leva ao

médico. Então, começa a luta da menina contra a doença proveniente das

radiações que ela recebeu há alguns anos.

A doença vai progredindo e a menina acaba internada no hospital. Mas

ela não perde a esperança, mesmo quando toma consciência da sua doença e

começa a fazer dobraduras de tsuru (garça da felicidade ou grou) que, no

Japão, é o símbolo da felicidade. “Tsuru” representa os sentimentos de

alegria, longevidade, e é usado até hoje, nos embrulhos de presentes em

ocasiões festivas. A menina acreditou que, quando ela conseguisse dobrar

1000 tsurus, estaria curada. Sucumbiu, porém, à doença, antes de concluir

sua proposta e suas amiguinhas a completaram. Até hoje, neste dia de

memória da bomba atômica, crianças de todo o Japão fazem dobraduras de

tsuru e colocam no monumento à memória daquela menina e de todas as

crianças mortas pela bomba atômica. Encerra-se o teatro e a senhora guarda

seus objetos, indo apresentar a mesma história em outro ponto do parque.

Zen

A minha estada em Hiroshima terminou com a visita ao museu e, após

essa visita, andei pela vizinhança do hotel e acabei entrando numa casa

comercial que, no Brasil, seria empório ou quitanda.

Marcos Reigota

Marcos Reigota Ao conversar com a proprietária, uma velha senhora com problemas nas costas e pernas,

Ao conversar com a proprietária, uma velha senhora com problemas nas costas e pernas, pois era curvada e mancava, ela acabou oferecendo-me, com gentileza, um vidro de Yakult. Segundo ela, para alguém de tão longe chegar a sua casa, deveria haver algum “carma”. Para os japoneses, o carma explica qualquer ocorrido sem explicações lógicas. Na tarde quente, o Yakult me refrescou como nenhum outro refresco. Agradeci e saí feliz e reconfortada. Hiroshima é realmente uma graça dos deuses, pensei. No outro dia, peguei o trem e fui visitar a ilha de Miyajima, antes de embarcar para Nagasaki. Miyajima, significa - “miyta” templos, “jima” ilha, - É um maravilhoso recanto para o descanso e deixa os visitantes muito calmos (zen). Há algumas casas comerciais numa determinada área, mas o resto são só templos, maravilhosos, muito antigos e guardados pelos monges xintoístas. Conheci o “lugar” onde a família imperial se hospeda, mas vi só um hotel de luxo, muito grande, de algumas estrelas, por certo. A ilha é, portanto, um santuário. Segundo informação turística o santuário, Itsukushima, fundado no ano 593 d.C., é dedicado à deusa-guardiã do mar. Não há na ilha cemitério e nem hospitais, pois não se aceita que ocorram atos tão humanos quanto nascer ou morrer. As mulheres grávidas ou doentes são conduzidas para outro lugar. É, portanto de espiritualidade zen.

Às 13h30, peguei o Shinkansen para Nagasaki.

Nagasaki

Cheguei mais ou menos às 19 horas. Instalei-me no hotel, onde havia quartos à moda japonesa e ocidental. O Marcos preferiu ficar com o quarto em estilo japonês, com tatame. O meu quarto com cama “ocidental” era bem confortável. Depois do banho fui dar uma volta na região do hotel e comer algo. Às 21h. não havia nenhuma lanchonete aberta. O dono do hotel resolveu providenciar um “lamen”, pois a cozinha do hotel fechava às 20h. Subo então para o meu quarto. Marcos já havia chegado. Conversamos alguns minutos e fui descansar. Ligo a TV sempre que posso, pois é uma forma de habituar os meus ouvidos a ouvir a língua japonesa e tentar entender. É, enfim, uma reciclagem do meu japonês que aprendi com a minha família e comunidade japonesa do Brasil. Noto que muitas palavras eu não entendo.

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte Depois, fico sabendo que muitas palavras que aprendi são do

Depois, fico sabendo que muitas palavras que aprendi são do tempo da Segunda Guerra. De lá para cá, a língua japonesa sofreu influência do inglês americano e mesmo da filosofia de vida; todavia o inglês ajaponesado é incompreensível, por ser escrito com caracteres japoneses (kana) e pela forma que eles pronunciam. Por exemplo: waado kappu é World Cup. Custaram-me alguns movimentos mentais para entender o que queria dizer. Assim, a escrita em Kana é muito difícil para nós, ocidentais. Para mim, é melhor que se fale em japonês puro para que eu possa entender pelo menos o sentido e a ideia. É melhor pedir explicações do que tentar “traduzir” para o inglês, pois, além da pronúncia estranha, diferente, o meu inglês é precário. E com essas dificuldades já havia passado por Hiroshima, e agora estou em Nagasaki. Recebia um elogio de vez em quando, pelo meu japonês sem sotaque estrangeiro, mas entender, compreender e fazer-me entender é difícil. Falta-me muito vocabulário nas duas línguas. Mas cá estou. Em Nagasaki, 55 anos após o lançamento da bomba atômica, em 9 de agosto de 1945, exatamente às 11h02. É a manhã do dia da cerimônia na Praça da Paz, em espaço coberto em frente ao monumento em memória às vitimas. É um monumento enorme, de um homem com os braços estendidos. O braço esquerdo horizontal e o braço direito vertical, apontando para cima. Eu não entendi o sentido do monumento, mas me disseram que a interpretação fica por conta de cada um. Eu, como teóloga, o interpreto como uma força que vem de cima para o povo da terra, que procura a reconstrução e a paz. A cerimônia teve vários momentos antes de ser iniciada oficialmente. Houve a “Cerimônia do Chá”, oferecido às senhoras que foram vitimas da bomba atômica, pelo Clube de Senhoras de Nagasaki. Também uma representação de líderes religiosos de todas as religiões que atuam em Nagasaki (é uma cidade por onde o catolicismo iniciou a sua evangelização nos séculos passados). Em volta da praça estava tranquilo. Não como Hiroshima. Havia alguns grupos de estudantes, outros grupos de jovens universitários fazendo perguntas e ouvindo as pessoas de idade mais avançada contarem a história do dia da bomba. Eu estava perto da fonte de água, quando um grupo de crianças chegou com sua professora. Elas pegavam a água com uma cuia e jogavam sobre uma pedra escura. Perguntei às crianças o significado do que estavam fazendo.

Marcos Reigota

Marcos Reigota Elas me explicaram que aquela pedra era uma pedra tumular das pessoas que pereceram

Elas me explicaram que aquela pedra era uma pedra tumular das pessoas que pereceram com a bomba atômica, pedindo água. E então me lembrei de que, quando íamos ao cemitério, a minha mãe levava uma garrafa de água e a derramava sobre o túmulo de meu pai. Talvez o significado desses atos em Nagasaki seja mais real do que me ocorreu nas lembranças infantis, pois há um ditado japonês que diz que é infeliz aquele que não consegue assistir à morte dos seus pais, por não ter tido chance de dar água ou molhar a boca do moribundo na hora de sua expiração. Além daqueles que, no caso de Hiroshima e Nagasaki, morreram com muita sede, molhar a pedra tumular dessas pessoas é também uma expressão de solidariedade e misericórdia. A cerimônia de Nagasaki foi muito mais leve do que a de Hiroshima, que teve ares austeros, fúnebres, de recolhimento o dia todo e poucas pessoas conversavam. Em Nagasaki, talvez porque o espaço fosse bem menor, havia muito movimento e conversa entre as pessoas, cumprimentavam-se e o alto- falante sempre anunciava o que estava acontecendo naquele espaço. A história dos coreanos em Nagasaki é contada hoje como ação vergonhosa para Nagasaki. Contaram-me que os coreanos foram capturados, feitos escravos e trazidos à força a Nagasaki, como mão de obra explorada. Na ocasião trágica de há 55 anos, muitos coreanos morreram, mas o monumento a eles está colocado fora do limite da Praça. Isso me parece considerável, se relacionado com preconceito e racismo. Mesmo que o Marcos Reigota tivesse me dito para não ir ao museu, a fim de me poupar das tristezas ali relatadas, teimei em ir. Na entrada, havia os painéis relatando as consequências da tragédia para os que, até hoje, após gerações, sofrem de doenças sanguíneas. Algumas vítimas são netos daquelas pessoas. No ano passado (1999), muitas pessoas faleceram; neste ano, aproximadamente 18.000 pessoas que têm problemas hereditários causados pela bomba atômica serão submetidas a exames (conforme o jornal Asabrishimbum, 8 de agosto de 2000, página 1). Pois bem, na entrada do museu, os militantes pela Paz no mundo, estavam panfletando. Um senhor veio conversar comigo e acabamos entrevistando um ao outro. O meu entrevistado era um jornalista (não perguntei o seu nome e nem o seu jornal, pois eles se apresentam sem achar

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte importante a identificação; e então, em nome da discrição, não

importante a identificação; e então, em nome da discrição, não perguntei, mas apresentei-me como professora primária aposentada do Brasil). Travamos alguma conversa sobre seu movimento pela paz, sobra um mundo desarmado e sobre a proibição imediata da fabricação de armas nucleares, que hoje existem em vários países do mundo. Segundo o jornalista, é quase impossível alcançar esse objetivo, pois o mundo está caminhando irrecuperavelmente para uma possível catástrofe. Como educadora, voltei ao assunto já abordado anteriormente em Hiroshima, e disse que o que me perturbava desde que cheguei ao Japão, eram as ocorrências de suicídios de escolares, por não suportarem o ijime (violência) imposto por colegas. Segundo o jornalista, o Japão atual, em geral, após uma época de muito dinheiro depois da guerra, está passando por sua fase que se poderia chamar de “estar perdido”. Na verdade a não “interferência” na educação dos escolares, é uma atitude que reflete “o não saber o que fazer”. Os pais e professores atuais são filhos da prosperidade após a desgraça da guerra. Explicando melhor: antes da guerra e da presença americana no Japão, o país vivia uma política fascista. Com a derrocada e imposição norte- americana, os japoneses confundiram os conceitos democráticos, copiando o estilo americano de democracia com liberdade e individualismo. E entenderam que respeitar a liberdade individual dos educandos seria a não interferência nas atitudes de cada um, e que violência era e é um aspecto do instinto do ser humano; entenderam que deixar que cada um resolva a sua questão existencial era a democracia. Os pais, os educadores e os adultos hoje (que têm mais ou menos 40 anos) são nisseis da guerra. Isto é, filhos e netos da guerra. Um outro dado é a ocupação destes na reconstrução e também a busca enlouquecida por dinheiro, que começou há uma ou duas décadas. Nem os pais nem os professores têm hoje autoridade e clareza no tratamento com os filhos. São inseguros e sem princípios de conduta educacional. O que eles (educadores e alunos) entendem é a valorização das coisas materiais. Quanto à forma e princípio de educação, os educadores não são capazes de se posicionarem diante dos educandos. Assim, perdem o respeito dos alunos. Vejo muito, pela TV, a agressão aos pais e professores. Ouvi declaração de um adolescente que dizia não saber

Marcos Reigota

Marcos Reigota o caminho a tomar, que lei ou ética seguir. Então, acaba explodindo em violência

o caminho a tomar, que lei ou ética seguir. Então, acaba explodindo em violência consigo mesmo e com o próximo. Talvez eu possa explicar e compreender. Porém, como educadora, acho que é possível refletir junto com os educandos, sobre esses sentimentos instintivos e inconvenientes para se viver em coletividade. Despedi-me do jornalista e voltei ao hotel, por sentir que seria melhor aceitar a sugestão do Marcos e poupar-me da visita ao museu. Saí de Nagasaki no dia 10 de agosto e fui para casa de minha irmã Helena que, na época, morava em Nagano. Recentemente, ouvi pela TV NHK que o Ministério da Educação resolveu estudar a questão da violência dos escolares. Sinceramente, já há alguns anos, me perguntava por que o Ministério não mostrava interesse por essa questão. Mas acho que, atualmente, a ocorrência de violência e suicídio infanto-juvenil elevou-se em números. Deverão repensar a filosofia educacional até a data prevista (2001). Ouvi, também, um debate na TV entre professores de Hiroshima sobre a lei que existe na constituição japonesa, permitindo que a escola recuse alunos inconvenientes. Entre os que debatiam, estava um professor que foi agredido pelo aluno, porque ele o havia repreendido por estar lendo gibi durante a aula. Assim, o aluno demonstrou a sua revolta atacando fisicamente o professor, que teve a mão ferida por uma faca. No mundo tão violento, onde há tantas guerras lembro-me do Vietnã, da guerra de 6 dias no Golfo Pérsico, Biafra, Kosovo, Irlanda do Norte, Indonésia e outros tantos lugares. Essas viagens a Hiroshima e Nagasaki me lembraram as atrocidades do Japão, antes e durante a Segunda Guerra. Não acredito que uma violência justifica outra, mas há necessidade de reflexão sempre, sobre essa atitude dos humanos, que não conseguem se controlar em nome do poder. De poder dominar e sentir-se o melhor e o mais forte. Esse lado é podre. Mas estou grata por ter podido entrar em contato tão próximo com o Japão e com as questões nucleares e ter podido ver que os japoneses, mesmo naquelas cidades, não estão muito conscientes da ocorrência. A maioria sabe ser o dia da tragédia, mas ignoram que aquele perigo ainda paira sobre as nossas cabeças. Alguns, que ainda sobrevivem (muito poucos) tentam transmitir aos mais jovens, mas soube pelo jornal que até o Primeiro Ministro do Japão esteve pela primeira vez naquelas datas nas duas cidades. Creio que

Hiroshima e Nagasaki Segunda Parte

Hiroshima e Nagasaki – Segunda Parte ele sabia e ouvia sobre o assunto, mas nada como

ele sabia e ouvia sobre o assunto, mas nada como ver os restos mortais na sua frente, para fazer ideia do porquê de o prefeito de Hiroshima ter resolvido denunciar a fabricação de armas nucleares como uma de suas prioridades (conforme a sua declaração).

Os jornais

Os jornais em japonês que tive acesso foram-me traduzidos (só o sentido geral) pela Sra. Namito, amiga de família do meu irmão (Osvaldo), dona de casa, mãe, esposa, vendedora de apólices de seguro de vida e membro da APM da escola de seus filhos, e, também, pela professora Itoh, funcionária da prefeitura de Kamisu, voluntária que dá aulas de japonês a brasileiros, mãe, esposa e dona-de-casa. Ela diz que leciona a estrangeiros para conhecer, através dos alunos, o mundo fora do Japão. Agradeceu-me pela chance que teve, ao ler e traduzir jornais, de conhecer fatos da guerra que não vivera, pois é da geração nascida após a Segunda Guerra Mundial. Senti-me agradecida pela ajuda das duas senhoras. Sinto-me ainda gratificada pela oportunidade de fazer tantos contatos com vários japoneses, que nas minhas andanças, me ajudaram com preciosas informações, porque, do Japão e seus costumes, nada conhecia e dependia muito das orientações, até para pegar os trens. Uma coisa é certa: come-se muito no Japão. Come-se bem e muito: no trem, no ônibus, em passeios, etc. Quero terminar citando o Papa João Paulo II, com quem concordo plenamente.

Relembrar o passado é responsabilizar-se pelo futuro. Pensar em Hiroshima é negar a guerra e tornar-se responsável pela paz.”

Papa João Paulo II

TERCEIRA PARTE

FOTOS DA CELEBRAÇÃO PELA PAZ EM 2000, EM HIROSHIMA E NAGASAKI HIROSHIMA

As fotos apresentadas a seguir foram feitas por Kiyomi Sakamoto

(KS) e por mim antes, durante e após as Celebrações pela Paz nas duas

cidades. Entre as inúmeras fotos que fizemos, estas, são as que consideramos

as mais significativas.

Hiroshima Origamis no monumento dedicado a Sadako Sazaki.

são as que consideramos as mais significativas. Hiroshima – Origamis no monumento dedicado a Sadako Sazaki.

Hiroshima e Nagasaki Terceira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Terceira Parte Hiroshima – Monumento aos professores e estudantes vítimas da bomba

Hiroshima Monumento aos professores e estudantes vítimas da bomba atômica.

aos professores e estudantes vítimas da bomba atômica. Hiroshima - Monumento às mães vítimas da bomba

Hiroshima - Monumento às mães vítimas da bomba atômica.

aos professores e estudantes vítimas da bomba atômica. Hiroshima - Monumento às mães vítimas da bomba

Marcos Reigota

Marcos Reigota Hiroshima – Um dos sobreviventes. Ao fundo, momento antes do início da Celebração pela

Hiroshima Um dos sobreviventes. Ao fundo, momento antes do início da Celebração pela Paz.

Ao fundo, momento antes do início da Celebração pela Paz. Hiroshima – No epicentro da bomba

Hiroshima No epicentro da bomba atômica.

Ao fundo, momento antes do início da Celebração pela Paz. Hiroshima – No epicentro da bomba

Hiroshima e Nagasaki Terceira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Terceira Parte Hiroshima – No epicentro da bomba atômica. Hiroshima – No

Hiroshima No epicentro da bomba atômica.

– Terceira Parte Hiroshima – No epicentro da bomba atômica. Hiroshima – No epicentro da bomba

Hiroshima No epicentro da bomba atômica.

– Terceira Parte Hiroshima – No epicentro da bomba atômica. Hiroshima – No epicentro da bomba

Marcos Reigota

Marcos Reigota Hiroshima – No epicentro da bomba atômica. Hiroshima – Celebração pela Paz. 111

Hiroshima No epicentro da bomba atômica.

Marcos Reigota Hiroshima – No epicentro da bomba atômica. Hiroshima – Celebração pela Paz. 111

Hiroshima Celebração pela Paz.

Marcos Reigota Hiroshima – No epicentro da bomba atômica. Hiroshima – Celebração pela Paz. 111

Hiroshima e Nagasaki Terceira Parte

Hiroshima e Nagasaki – Terceira Parte Hiroshima – Que a paz prevaleça no mundo. Hiroshima -

Hiroshima Que a paz prevaleça no mundo.

e Nagasaki – Terceira Parte Hiroshima – Que a paz prevaleça no mundo. Hiroshima - Monumento

Hiroshima - Monumento a Sadako Sazaki.

e Nagasaki – Terceira Parte Hiroshima – Que a paz prevaleça no mundo. Hiroshima - Monumento