Kampu

chea
Antes da invasão
vietnamita

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[3]

[4]

1.Camboja antes da invasão vietnamita:
prefácio
Uma reportagem fotográfica da primeira visita
norte-americana desde 1975. Fotos de Robert Brown,
texto de David Kline.
O Camboja mais uma vez tornou-se um campo de
batalha. Dessa vez, numa invasão vietnamita motivada
pela União Soviética. Antes dos vietnamitas aparecerem
em cena, o Camboja já tinha se tornado um dos países
mais demonizados do mundo, com seu governo acusado
de massacres em massa e violações de direitos
humanos.
Este é o país que os foto jornalistas Kline e Brown
fotografaram em 1975. Eles visitaram o Camboja em abril
de 1978, apenas dois meses antes do ataque dos
vietnamitas. Eles foram os primeiros jornalistas norteamericanos a visitar o país desde a derrota americana em
1975.
O que esses jornalistas descobriram foi um país
muito diferente das imagens horríveis que eram comuns
na imprensa ocidental. Eles encontraram um país que

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realmente apoiava seu governo e que estava embarcando
numa grande reconstrução e grande esforço socialista
dos últimos tempos.
Com mais de cem repórteres exclusivos, Camboja
é o único livro de fotos a fazer uma reportagem sobre a
sociedade cambojana antes da invasão vietnamita. Como
a situação no Sudeste da Ásia muda diariamente, este
livro sobre o Camboja providencia um olhar único a um
país que está lutando por sua existência.
2.Introdução
Em abril de 1978, nós chegamos ao aeroporto de
Phnom Penh [existia um voo diário de Pequim, nota do
tradutor], aeroporto Porchetong e nos tornamos os
primeiros americanos a visitar o país em mais de três
anos. Éramos quatro, todos jornalistas do jornal The Call
(O Chamado) da cidade de Chicago.
Não houve outros americanos que puseram o pé
no

Camboja

democrático

desde

que

o

Exército

Revolucionário marchou em Pnhom Penh em m17 de
abril de 1975. Não vieram outros jornalistas ocidentais

Kampuchea, antes da invasão vietnamita

desde os dias turbulentos em que o embaixador dos
Estados Unidos foi embora voando, ainda segurando a
bandeira debaixo do braço.
Nós

chegamos

num

momento

politicamente

bastante pesado. Graças à imprensa norte-americana,
saíam com frequência notícias sobre os “massacres” e
“genocídios” no Camboja. O presidente Carter afirmou
que o Cambodja era o violador “Número Um” de Direitos
Humanos no Camboja.
Sendo assim, tivemos a oportunidade de investigar
um terreno ainda inédito. O que está realmente
acontecendo no Camboja? Qual era a situação interna
três anos depois do Camboja tornar-se uma sociedade
socialista? Essas eram as questões que buscávamos
responder em nossa estada no país do Sudeste Asiático.
Ao todo, ficamos oito dias lá, viajando por 700 milhas
entre seis províncias. Vimos projetos de construção,
visitamos campos de arroz e cooperativas rurais,
visitamos uma escola com aparelhagem eletrônica, fomos
ao mundialmente famoso templo de Angkor e até mesmo
inspecionamos áreas fronteiriças onde a luta contra o
Vietnã estava acontecendo.

Kampuchea, antes da invasão vietnamita

Nós entrevistamos
líderes

do

partido

comunista e do governo,
incluindo

Leng

Sary,

primeiro-ministro
responsável

pelas

relações exteriores. E nós
entrevistamos
dúzias

de

comunistas
comunistas.

muitas
cidadãos,
ou

não-

Kampuchea, antes da invasão vietnamita

Fizemos discussões aleatórias para saber o que
eles

achavam

da

Revolução

Cambojana.

E

nós

verificamos que os nossos guias cambojanos fizeram
traduções fiéis dessas falas quando voltamos aos
Estados Unidos.
Para resumir, encontramos um país totalmente
diferente da imagem negativa projetada todo dia nos
jornais e noticiários. O país mais demonizado do mundo
era o Camboja. “Fome em massa”, “trabalho forçado”,
“genocídio” e “execuções em massa” são os termos
usados para definir a vida no Camboja hoje.
Essas acusações lembram aquelas que foram
repetidas na libertação da China em 1949. No entanto, os
dirigentes cambojanos estão sendo acusados de crimes
nunca vistos na humanidade até agora!
Para pontuar um caso, a rede de TV CBS
recentemente anunciou que existe uma “Sessão de
Matinê” no Camboja. Qualquer um pego flertando fora
dessa “Sessão Matinê” é executado. Que documentos
tem a CBS? “Alguns refugiados contaram a um

Kampuchea, antes da invasão vietnamita

congressista

norte-americano”.

E esse

congressista

contou à CBS!
Se um repórter quiser utilizar esse tipo de fonte a
respeito de qualquer outro assunto, ele vai ser motivo de
chacota e com razão. Mas quando se trata de história de
horror sobre o Camboja, o bom senso jornalístico cede
lugar à necessidade de fazer propaganda anti-cambojana
de guerra.

Parte da explicação para esses ataques jaz na
forma como os magnatas milionários da mídia –para não

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mencionar governos capitalistas -- enxergam revoluções
socialistas. É algo, que de qualquer forma, esperado. Mas
um fator adicional é o desejo do governo dos Estados
Unidos de esconder seu papel na história cambojana
recente.
O que os Estados Unidos fizeram no Camboja
antes de 1975 já é história: o golpe de estado que depôs
o príncipe Norodom Sihanouk e colocou Lon Nol no
poder; a invasão por tropas terrestres norte-americanas
em 1970; os massivos bombardeios secretos por aviões
B-52´s

que

datam

convenientemente

de

apagado

1969
nos

-

tudo

ataques

isso

é

contra

o

Camboja agora.
Até abril de 1975, Camboja estava sob o domínio
de imperialistas estrangeiros, agentes norte-americanos
controlavam a máquina de guerra de Lon Nol e
pessoalmente gerenciavam a luta contra as forças de
libertação nacional. Eles referiam-se às forças de
liberação nacional como “Khmer Vermelho”. Monopólios
transnacionais como Esso e Standard Oil seguravam a
jugular da economia cambojana em suas mãos.

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E a “república independente” de Lon Nol? Mesmo
os Estados Unidos em algumas posições oficiais
admitiram que faltava apoio do povo ao governo de Lon
Nol, funcionando ele como uma camuflagem para o fato
de que todas as instituições cambojanas estavam
diretamente sob o controle de oficiais norte-americanos e
de seus apoiadores. Antes de 1975, a única coisa que
impediu que Lon Nol fosse retirado do poder foi um
aparato militar e policial que semeava terror entre os
oponentes. Esse aparato era controlado pelos oficiais
norte-americanos a partir da Rua Notre Dame em Phnom
Penh.
Dentro de Phnom Penh, existiam muitas avenidas
arborizadas e amplos jardins. A vida era um paraíso para
a elite e para os oficiais norte-americanos. Mas essa elite
era frágil, devorada pela corrupção e desesperadamente
decadente. Pode-se ler no Baltimore Sun a respeito disso,
no dia da liberação, 17 de abril de 1975:
Para a pequena elite privilegiada, a vida cara de jogos de
tênis, boates, caros banquetes à moda francesa, assim
como festas opulentas chegaram ao fim, enquanto a
maioria da população afundava mais e mais na miséria.

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Como escreveu o repórter, a população afundava-se na
pobreza gerada pelos intensos bombardeios no interior do
país. Mais de 2.500.000 refugiados sem casa chegaram
famintos na capital, nos últimos meses do governo Lon
Nol, como resultado da guerra. Vagões cheios de corpos
levavam, toda manhã, corpos de pessoas que morriam de
fome, de doenças ou pereciam nas mãos da polícia
secreta.
Isso era em Pnhom Penh. No interior, bombardeios
b-52´s

tripulados

pelos

oficiais

norte-americanos

pessoalmente despejaram mais de 550.000 toneladas no
Camboja naqueles anos, reduzindo mais de oitenta por

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cento das aldeias do país a ruínas fumegantes. Algumas
regiões no interior tomaram a aparência de crateras
lunares devido ao bombardeio demasiado intenso.
Os oficiais cambojanos estimaram que ocorreram
cerca de 800.000 pessoas foram mortas e 200 000
estavam feridas. Isso equivalia a doze por cento da
população e, proporcionalmente, equivaleria a matar trinta
milhões de norte-americanos.
Apesar de seu esforço de guerra nunca dantes
visto, os Estados Unidos não conseguiram exterminar o
movimento de resistência nacional. Os milhões de
cambojanos ergueram paus e pedras contra armas, rifles
contra artilharia e granadas contra B-52´s. Numa das
maiores reviravoltas da história da humanidade, uma
nação pequena, pobre e mal armada derrotou um dos
maiores poderes militares do mundo.

Kampuchea, antes da invasão vietnamita

Além de estar escondendo crimes do passado, os
Estados Unidos estão se esforçando em desestabilizar o
novo

governo.

Essa

campanha

de

difamação

é

acompanhada de esforços da CIA, incidentes na fronteira
e sabotagem.
Sendo assim, o chamado público do Senador
McGovern, feito em agosto de 78, em clamar uma “força

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internacional” para invadir o Camboja é um indício sério
das intenções norte-americanas.

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Os Estados Unidos não eram, no entanto, a única
superpotência

querendo

acabar

com

a

revolução

cambojana. Depois de décadas de hostilidade contra os
comunistas cambojanos, a URSS era uma ameaça bem
mais concreta ao país.
A União Soviética estava por detrás, como
elemento que instigava e dava apoio militar, as duas
incursões agressivas que o Vietnã tinha realizado no
território do Camboja desde dezembro de 1977.
O passado tendo sido esse, o que exatamente está
acontecendo no Camboja hoje em dia? Por tudo o que
vimos no país, a situação no interior do Camboja é muito
boa. A economia está se desenvolvendo bem, ainda que
prejudicada por séculos de subdesenvolvimento. O novo
governo é forte e tem apoio popular. A população está
entusiasticamente tomando parte na construção de um
país independente e vigoroso, livre da opressão e da
exploração.
Nós visitamos a cooperativa Ang Tasom na
província de Takeo. Lá tivemos a oportunidade de ver o
dia-a-dia da revolução cambojana e seu papel entre as
massas populares.

Kampuchea, antes da invasão vietnamita

“No último ano nós não somente obtivemos arroz
para nos alimentar”, disse um líder da cooperativa. “Mas
nós conseguimos também um suprimento de 10 000
thangs (264 toneladas) de arroz sobrando. Agora todo
mundo tem o suficiente para comer e ainda mais”.
O significado dessa frase não pode ser enfatizado
suficientemente. Durante dois mil anos, camponeses do
Camboja passaram fome na estação seca. Eles ficavam
nas

mãos

tanto

do

clima

quanto

dos

grandes

latifundiários, que costumavam pegar uma boa parte do
que eles plantavam a título de arrendamento.
Agora o Camboja é auto-suficiente em arroz. O
ponto chave foi a destruição da antiga ordem capitalista e
feudal. Não existem mais os grandes latifundiários e todos
trabalham.

Mas

não

se

trata

apenas

disso.

O

desenvolvimento concentra-se na preservação da água,
de forma que se podem ter várias colheitas de arroz, ao
invés de somente uma durante um ano. Isso pode ser
obtido mediante irrigação.
“Com água nós temos arroz. Com arroz, temos
tudo”, diz o ditado popular. E em todo lugar em que
fomos, vimos gente construindo canais de irrigação,

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muitas vezes sem contar com nada a não ser suas
próprias mãos.

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Em Ang Tasom, nem todo mundo entre os 1300
trabalhadores trabalha nos campos de arroz. Alguns
trabalham como madeira e metalurgia, fazendo o que a
cooperativa precisa para seu próprio uso. Com poucas
máquinas disponíveis no país devido ao atraso, em geral
as pessoas de cada cooperativa fazem o que podem com
seus próprios recursos.
Tivemos, na fábrica da cooperativa, então, uma
visão que não nos saiu da cabeça. Uma bomba de 500
megatons, atirada por um B-52, não explodida, esperando
para ser reaproveitada em suas partes metálicas
aproveitáveis para fazer martelos. Lá estavam as vítimas
dos bombardeios norte-americanos utilizando as bombas
e o resultado da agressão para seu próprio proveito. Isso
foi o retrato da boa vontade do povo cambojano. Um
operário disse: “eles jogaram tantas bombas em nós,
agora

estamos

reaproveitando

algo

das

que

não

explodiram”.
Nós perguntamos pela abolição do dinheiro. Como,
então, os bens e os serviços eram distribuídos? “Os
caminhões do estado trazem regularmente todos os
suprimentos disponíveis”, explicou nosso anfitrião, “então

Kampuchea, antes da invasão vietnamita

nós pegamos cigarros, máquinas, roupas e outros bens
que não são produzidos aqui em Ang Tasom. Em troca,
colocamos nos caminhões do estado o arroz que
produzimos a mais, acima de nossas necessidades para
os habitantes das cidades e para as cooperativas
necessitadas”.
“B

as

ic

a

m

en

te

”,

nosso anfitrião disse, “estamos enfrentando os problemas
um a um, na medida em que nós os encontramos. Nossa
revolução não tem um modelo”.

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A saúde pública e a higiene do povo mostrou uma
considerável melhora nesse pequeno período de três
anos. A malária teve uma queda de noventa por cento
depois que houve uma campanha para limpar piscinas
com água parada e os locais onde o mosquito se
reproduz. Não encontramos ninguém doente tanto em
Ang Tasom e nem em outros lugares que visitamos.
Essa melhora da Saúde Pública teve um reflexo no
nível das cooperativas. “Em março desse ano, 36
crianças nasceram em Ang tasom e todas eram
saudáveis”.
Cada família tem sua própria casa, construída em
palafitas devido ao inevitável alagamento que ocorre na
estação das monções. A maioria das casas que vimos em
Ang Tasom são novas e atrativas, construídas desde a
liberação de 1975.

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Perguntamos sobre a vida familiar na cooperativa. “Nós
não fazemos mais casamentos arranjados”. Um jovem
nos disse “as pessoas casam com quem elas querem”.
Nós também ficamos sabendo que planejamento familiar
não é algo estimulado porque a população do país não é
grande. “Qual é a situação das mulheres”, perguntamos.
O

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líder da cooperativa respondeu: “as mulheres trabalham
lado a lado junto aos homens nos campos. Elas lutaram
lado a lado na liberação nacional. Temos muito respeito
pelas mulheres”.
Essas foram algumas das lições que tiramos de
Ang Tasom. O que notamos é que por todo o lado, as
pessoas parecem apoiar o regime de todo o coração.
Uma sensação que se teve foi que o governo não só os
representa como pertence a eles. Uma sensação que se
liga à sensação de ter o governo em suas mãos.
Um velho camponês colocou o problema da seguinte
forma: “a antiga sociedade era como a escuridão. Agora
estamos trabalhando para nós mesmos, não para os
senhores”.
“A revolução resolveu o problema da desigualdade
entre o povo”, disse um outro homem, um outro homem
que participou da guerrilha, acrescentando: “nós não
temos mais exploração”.
Nós

perguntamos

especificamente

sobre

as

acusações ocidentais a respeito de massacres depois da
vitória na guerra. Todo muito negou a existência de

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matanças generalizadas e não vimos evidências de
“assassinatos em massa” nós mesmos.

Se
as

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pessoas tivessem sido mortas da forma como sugere a
imprensa, com certeza deverão haver alguns signos, de
qualquer forma, evidências físicas e diminuição de apoio
do apoio popular.
As pessoas com quem conversamos não nos
fazem concluir que a revolução tenha sido destituída de
alguma violência, principalmente voltada contra contrarevolucionários, criminosos de guerra e congêneres. O
partido alegou que a violência era necessária para
quebrar o aparato de estado deixado pelos Estados
Unidos – assim como da KGB russa – para sabotar o
novo governo e derrubá-lo ainda em sua infância. Mas
essa violência, conforme nos disseram, foi diferente
daquela feita pelo governo de Lon Nol e do governo norteamericano. Qualquer violência que tenha sido usada
depois de abril de 1975 era para quebrar correntes de
forma que o que prendia o povo não o prendesse mais.
Nós

verificamos

(e

nossos

guias

também

colocaram a questão) que o Camboja enfrenta problemas
monumentais em sua revolução. Ela tem que se
desenvolver num sistema agrário que só agora está se
reconstruindo, assim como não tem base industrial quase

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nenhuma, com níveis de vida baixos até para o terceiro
mundo. E prosseguirá assim durante algum tempo.
Na conversa com o primeiroministro Ieng Sary, notamos que
é

firme

a

determinação

do

Camboja de autodeterminar seu
destino. Afinal, foi com muita luta
que a conseguiram e não irão
deixá-la facilmente. Ele definiu os
seguintes objetivos para a nação
cambojana:

Defender a nação cambojana e defender o poder

para o povo trabalhador.
Continuar a destruir as raízes das relações de

exploração.
Construir uma

base

agrária

para

poder

rapidamente construir uma moderna economia
industrial.

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Um outro ponto deve ser mencionado em nossas
experiências no Camboja. Apesar da violência dos norteamericanos contra eles, eles se mostraram afetuosos
conosco, embora um pouco tímidos no primeiro contato.
Uma fala particularmente nos comoveu. Um dia,
conversando num área rural com um camponês, ele disse
que sabia da luta dos jovens norte-americanos em Kent,
Jackson e outras universidades. “Nosso inimigo é o
imperialismo,

não

o

povo

americano.

Estudantes

morreram apoiando nossa luta. Por favor, agradeça ao
povo norte-americano por nós e que diga que nunca
esqueceremos sua ajuda”.

Inacreditável? Encontramos cambojanos que querem ser
amigos do povo dos Estados Unidos, que vêem como
vítimas das políticas do governo norte-americano, como

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nós mesmos. Apesar de que nossa delegação foi a
primeira a investigar o Camboja, é possível que outras
delegações possam ir e analisar o país por elas mesmas.
Elas poderão, então, ter um quadro mais realista das
pessoas vivendo num novo Camboja. Nós queremos que
outros venham e observem essa nação que “reencontrou
sua alma”, para citar os próprios cambojanos. Nas
páginas que se seguem, nós convidamos vocês a ver
através de nossa câmera o novo Camboja.

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3.Impressões

A cena à esquerda nos choca pelo contraste: uma casa
nova do sistema cooperativa tendo ao
lado imagens da vida camponesa que
existe há séculos.

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Entre muitas pessoas que encontramos, a curiosidade era
mútua. Esses dois jovens, ainda que um pouco tímidos,
estavam contentes em conhecer os primeiros norteamericanos que vinham como amigos.
Quando ouviram na rádio que quatro norte-americanos
estavam viajando pelo país, multidões passaram a nos
cercar para conversar. As pessoas, de início tímidas,
queriam fazer perguntas –e as crianças estavam sempre
tomando frente.

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A economia cambojana continua pobre, resultado de
séculos de subdesenvolvimento. Apesar de já pensar em
quando a agricultura poderá ser mecanizada, pessoas
ainda precisam trabalhar duro e utilizar o lombo de
animais para conseguir boas colheitas de arroz.

Estar no Camboja hoje é estar todo dia confrontado com
os destroços da guerra. Isso costumava ser a cidade de
Skoun e com a população de 20 000 habitantes. Um dia
os bombardeios norte-americanos vieram. As duas
fotografias capturam o que sobrou quando as bombas
terminaram de cair. Os bombardeios abriram crateras do

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tamanho de piscinas, assim como queimaram florestas,
destruíram vilarejos e cidades. Através da estrada, o
governo dos Estados Unidos deixou visíveis sinais de
agressão.

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Essas cenas trazem de volta muitas memórias. Como
muitos outros americanos, costumávamos tomar o chá
das cinco vendo a televisão falar do suporte que dávamos
aos exércitos de Lon Nol. Esses aviões da foto agora são
parte da pequena frota do Camboja. Pode-se ver, à
direita, o prédio da embaixada norte-americana em
Phnom Penh em 12 de abril de 1975. O embaixador John
Gunther Dean, com ajuda da escolta armada, conseguiu
escapar.

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Nós visitamos a sala de guerra de Lon Nol em Phnom
Penh. Ela foi preservada quase exatamente como foi
encontrada pelo Exército Armado Revolucionário e entrou
na dia 17 de abril de 1975. Mapas detalhados mostram a
posição de cada unidade de guerrilha.

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Determinação e entusiasmo – essas qualidades
contam para o rápido progresso que as pessoas estão
fazendo para reconstruir seus países. Trabalhadores à
direita estão construindo um dique a cerca de 20 milhas
rio acima de Phnom Penh.

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Ieng Sary, primeiro-ministro cambojano responsável por
relações públicas, conversou com o editor Dan Burstein
no dia 28 de abril de 1978. Ieng Sary foi amigável e
humilde em nossas discussões. A conversa com ele
ajudou a entender a história do Camboja e atual estado
das

coisas.

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Os símbolos da presença americana incluem um
portentoso prédio da IBM numa vizinhança pobre (à
direita), assim como se pode ver uma das muitos postos
de gasolina da Caltex.

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Muitas das ruas de Phnom Penh, principalmente nos
distritos do centro, estão vazias. No entanto, ao contrário
do que a imprensa ocidental divulga, a retirada de Phnom
Penh foi, em grande parte, através da persuasão e por
várias razões:

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Quando o regime de Lon Nol entrou em colapso,
não havia comida na cidade e nem existiam
estradas para trazê-la das cooperativas rurais.

O governo norte-americano e a União Soviética
deixaram para trás conspiradores e espiões para
derrubar o novo regime.

Um esforço de massa foi direcionado para as
cooperativas rurais do interior do país para tornar
as cidades viáveis.

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A evacuação de Pnom Penh frustrou todos os que
imaginavam que o regime fica á míngua ou seria
derrubado. Hoje 200 000 pessoas vivem na capital e
muitas retornam mensalmente.

À direita pode-se ver o banco nacional do Camboja em
ruínas. O fato de que foi explodido às vésperas da
libertação comprova que foi realizado por sabotadores
eram agentes externos. Equipes de limpeza limparam

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muito da sujeira e ruínas da cidade, mas muito ainda
prossegue para ser feito.
Os Estados Unidos continuaram a guerra contra o
Camboja bem tempo depois de 17 de abril de 1975. Nós
tiramos essa foto em Siem Reap, local que foi atacado
pelos Estados Unidos em 25 de janeiro de 1976 a partir
de bases na Tailândia – mais de dez anos depois de uma
guerra

que

supostamente

tinha

acabado.

Nós

examinamos a cratera de uma bomba ao mesmo tempo
em que fotografamos uma escola. Doze crianças foram
mortas nesse bombardeio que os Estados Unidos fizeram
nessa escola.

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Desde sua libertação, o Camboja tem enfrentado ataques
de outros países, assim como do Vietnã que, com apoio
da União Soviética, invadiu o país várias vezes, sendo
expulso sempre.
Essas armas foram capturadas depois de um ataque do
Vietnã em dezembro de 1977. Note os símbolos russos

no rifle. Todos nós que apoiamos o Vietnã e o Camboja
em sua batalha contra os Estados Unidos temos que
descrever o conflito entre eles como algo trágico. No

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entanto, na medida em que investigamos, é o Vietnã
quem tem sido o agressor.

Os rapazes e moças mostrados na foto descreveram uma
batalha nesse exato local, situado a 20 milhas da fronteira
do Vietnã.
Foi uma visão e tanto esse menino carregando um rifle
que por pouco não é maior do que ele. Cremos que isso
simboliza a decisão firme do povo do Camboja, sejam

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eles velhos ou novos, de defender a independência do
país.

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