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DICIONARIO _ LINGUISTICA | Cultrix Titulo do original: DICTIONNAIRE DE LINGUISTIQUE © Librairie Larousse, 1973 Diregio e coordenacio geral da tradugio: Pror. Dr. IzrpoRo BLIKSTEIN (da Universidade de Sio Paulo) Tradutores: Frederico Pessoa de Barros Gesuina Domenica Ferretti Dr. John Robert Schmitz (Pontificia Universidade Catélica de S. Paulo) Dra. Leonor Scliar Cabral (Pontificia Universidade Catélica de Campinas, SP) Maria Elizabeth Leuba Salum Valter Khedi (Universidade de S$. Paulo) © grupo de tradutores agradece 20 Prof. Dr. Isaac Nicolau Salum (da Univer- sidade de S. Paulo) a incstimavel ajuda na refundigao de numerosos verbetes. CO primeiro ndmero a esquerda indica a edicfo, ou reedio, Ano desta obra. A primeira devena a direta indica 0 ano em que G1O-1-1Z13-14 15.16 eels careedteto fl pubbeade: (04-05-06-07-08-09-10-11 Direitos de tradugiio para a lingua portuguesa adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA. Rua Dr. Mario Vicente, 368 - 04270-000 - Sao Paulo, SP Fone: 6166-9000 - Fax: 6166-9008 Email: pensamento@cultrix.com.br http; /www.pensamento-cultrix.com.br que se reserva a propriedade literaria desta traducdo. Impresso em nossas oficinas graficas. Prefdcio Para os lexicégrafos, um diciondrio de lingiiistica apresenta trés grandes problemas: o primeiro, ligado & natureza do diciondrio de uma ciéncia e de uma técnica, a extensio da nomenclatura levantada, ao tipo de definigao, a forma dos exemplos e das ilustragées; 0 segundo relaciona-se com o campo a explorar, definido por seus lim.tes com as outras ciéncias, no caso, especialmente, a psicologia, a sociologia, a bistOria, a fisiologia, a légica e as mateméticas; o tiltimo problema liga- -se 4 oportunidade da realizacao, isto é, do jutzo que se iré fazer sobre a oportunidade em que a difusio de uma ciéncia torna seu conbe- cimento e sua pratica necessdrios a um grande ntimero de pessoas e em que, por um movimento estreitamente ligado com essa difusio, opera-se na terminologia certa forma de estabilizagao e certos conceito~ de base se tornam comuns ao coniunto das escolas e das teudéncias lingiiisticas, que confirmam com sua existéncia a evolugéo da iin- giiistica como ciéncia. O que seria um diciondrio cientifico e técnico? No que nos concerne, ele deve poder responder as perguntas dos leitores que, nos textos lingilisticos, encontram termos tomados numa acepcao parti- cular ou que nao pertencem ao léxico da lingua comum; o que os leitores pedem & uma expécie de tradugto dos termos que ignoram, com a ajuda das palavras e dos conceitos mais correntes das gramé- ticas de ensino. Mas essa tradugao, essa forma de glossdrio que somos levados a dar a um diciondrio cientifico e técnico traz @ baila, por sua vez, diversos problemas: a definicao do termo ignorado utiliza palavras que devem ser conhecidas do leitor; mas a que nivel se situaria esse leitor ideal? Tomemos alguns exemplos: se o leitor procura nesse diciondrio de lingiitstica os termos correntes da gramética tradicional: antecedente, relativo, advérbio, adjetivo, demonstrativo, empréstimo, etc., ele espera encontrar uma explicagéo que o remeta a essa gramé- tica, mas solicita igualmente conhecimentos a respeito dos limites des- sa definigao e¢ das criticas que os lingiiistas possam ter-lhe feito; se o 3 leitor procura termos como bemolizado, pseudo-relativizagao, tmese, etc., as explicagdes do lexicdgrafo devem levar em conta um suposto grau de tecnicidade diferente nos leitores; certas palavras pertencem a@ escolas lingiiisticas bem precisas (estruturalismo, distribucionalismo, gramdtica gerativa, glossemética, etc.) ou a um dominio preciso (foné- tica, pseudolingiitstica, neurolingitistica, gramdtica comparada, etc.), que deverao ser definidos com os termos e as nogdes que pertencem a essa escola e a esse dominio. Nos diciondrios técnicos e cientificos, existem diferentes niveis de tecnicidade, ao mesmo tempo pelas pala- vras de entrada, pelas definigées e pelos comentdrios que se seguem a tais definigoes. Um diciondrio que tal exige, com efeito, que se acrescentem a uma defini¢a@o muitas vezes abstrata exemplos que a expliquem. Tais definigdes e exemplos formam um desenvolvimento enciclopédico, um comentério do conceito a que a palavra de entrada remete, Ao contrério de um diciondrio de lingua, que fax uma descrigzo dos empregos de uma palavra no quadro da frase e dé uma definigao de suas diversas significagdes, 0 diciondrio cientifico e técnico descreve a “coisa”, o conceito que estéd por trés da palavra. O exemplo jornece, de algum modo, uma segunda definigao, que passa pelo conhecimento grama- tical tradicional. Esse 0 motivo pelo qual tal diciondrio toma a forma de uma enciclopédia: depois da palavra de entrada, definigao e comen- tarios se misturam para fornecer um enunciado completo sobre a nogio coberta pela palavra. O diciondrio enciclopédico estd sujeito & regra da ordem alfabé- tica, a mais cémoda para a pesquisa; ele recorta, segmenta, parcela os enunciados; mas é preciso, ao mesmo tempo, que o leitor possa reco- locar os desenvolvimentos que lé num campo mais vasto, senio numa teoria. E preciso também que uma nogio como qualificativo possa remeter ao conceito que ela implica, adjetivo e que, por sua vex, adjetivo remeta a parte do discurso ou classe gramatical, tanto quanto a determinative, pois os adjetivos n@o-qualificativos sao determina- tivos. Além do mais, a definigzo do adjetivo é diferente segundo nos colocamos numa perspectiva estruturalista, gerativista ou tradicional. Existe, portanio, um enunciado total, que o leitor deve poder recons- truir com o jogo das remissdes. Isso poderd ser conseguido de duas maneiras: de um lado, hé artigos longos, como signo, gramatica gera- tiva, redundancia, transformacao, sintagma, relacdes paradigmaticas, etc. Estes formam, de algum modo, as nogées de base, os conceitos- -chave, que permitem o acesso aos termos mais especificos (os aste- riscos assinalam os desenvolvimentos longos feitos as palavras assim notadas) e, inversamente, remontaremos a esses artigos de sintese a 6 partir das palavras particulares por um jogo igual de asteriscos e de remissoes: podemos remontar de adjetivo a determinativo ou a classe gramatical. Nossa pretensao foi a de fazer do Diciondrio de Lingiis- tica nao apenas uma obra de consulta, com o objetivo de preencher lacunas pontuais, mas também uma obra de formagio lingiiistica, que ajude a constituir um conjunto de enunciados explicativos. Desse modo, esperamos fazer do diciondrio cientifico e técnico uma espécie de “manual livre’: “manual”, porque poderé ser reconstituido num discurso ordenado, e “livre” porque sera formado pelo préprio leitor, @ seu nivel e de acordo com o tipo de perguntas que ele faz a si préprio. E preciso ainda lembrar que o ntimero de perguntas que os lei- tores podem fazer a si mesmos a propdsito de textos lingilisticos é considerdvel; ora, todo diciondrio tem seus limites. Estes se encon- tram em duas diregdes: na extensio do dominio da lingiistica e na sutileza das andlises. A lingiistica esté em contacto com as outras ciéncias humanas, que sio a psicologia e a sociologia. As zonas fron- teirigas sto determinadas pelas disciplinas dos confins, das margens, fronteiras que definiriam as relagdes entre a linguagem e os outros comportamentos, individuais e sociais: a psicolingtitstica e @ sociolin- giistica. A linguagem é também uma atividade suportada por um organismo humano; essa atividade fisioldgica se expressa em dois niveis: o periférico, o dos dreados da fala (fonética), e o central, dos comandos motores e sensoriais, o nivel do cértex (a neurolingiitstica). A lingiiistica toca ainda a comunicacéo animal, porque existe ao mesmo tempo continuidade e descontinuidade na escala filogenética. Os confins sao definidos por um conjunto de ciéncias que tomam de empréstimo suas hipdteses e métodos da fisiologia ou da biologia (fonética actistica e fisiologia da audic¢@o). Os lingiiistas, sob a influ- éncia dos técnicos da comunicagio, também analisaram a lingua como um codigo; inspirando-se na matemética e na légica, eles trataram os textos como objetos suscetiveis de serem formalizados. A termino- logia e os conceitos das matemdticas, da teoria da informacéo e da légica permearam amplamente a lingiitstica, mas s6 depois de se terem adaptado aos problemas especificos das linguas naturais. Ciéncia bis- térica, ainda, a lingiiistica vé a lingua como uma imagem da historia da. comunidade sociocultural, mas a lingua participa também da his- téria do povo, porque modela uma imagem do mundo e é uma insti- tuigzo social. A lingiiistica esta préxima da historia, porque trata dos mesmos textos com a mesma intengio de desvendar-lhes a estrutura profunda. Em troca, a lingiitstica contribuiu grandemente para as ciéncias bumanas; seus processos de andlise foram usados na antropologia, na hist6ria e na literatura; apelou-se para suas hipdteses na psicolin- gilistica e na neurolingiiistica. Neste diciondrio também serio encon- tradas palavras que pertencem a psicologia, 4 sociologia, a fisiologia, etc. Elas sio tratadas com menos amplitude que as que pertencem Propriamente a lingtitstica, pois espera-se que os leitores facam uso de outros dicionarios de psicologia, de sociologia, de matemitica, etc. Este diciondrio de lingiiistica nao visa a ser um diciondrio de todas as ciéncias do homem. O refinamento da andlise também limita a extensio do léxico estudado. Cada escola lingiitstica desenvolveu, com suas teorias e métodos préprios, um vocabulirio especifico, adaptado as necessidades da teoria, ou até mesmo construido por inteiro: no desenvolvimento de uma ciéncia ou de uma técnica hd momentos neoldgicos. Ora, este diciondrio nao visa a ser a expressao exclusiva de uma escola, de uma tendéncia, de uma pessoa e, ainda menos, de uma simples opiniao; ele teria de acolher todas as grandes correntes atuais, na medida em que qualquer leitor pode ser levado a se interrogar sobre o estruturalismo distribucional ou funcionalista, sobre a gramatica gera- tiva ou a glosseméatica, as graméticas formais, etc. Mas, ao mesmo tempo, seria impossivel seguir cada escola em suas sutilezas de anilise e em seus pormenores terrtinoldgicos. Existe um limiar, que pode ser determinado empiricamente, a partir do qual o leitor informado sé poderé resolver suas questdes pelo proprio texto que ele estd prestes a ler. Optamos, portanto, por uma escolha arbitraria, detendo-nos num grau de tecnicidade considerado apropriado ao Ensino Superior, mas aquém da pesquisa especializada. Mas por que fazer agora um diciondrio de lingiiistica? Se o momento pareceu oportuno, isso se deve a convergéncia de diversos fatores relacionados com o desenvolvimento da prdpri.: lingtitstica. Quando uma ciéncia pertence ao dominio exclusivo de um pequeno ntimero de especialistas, ela tende a desenvolver terminologias abun- dantes e disparatadas; a necessidade, para cada escola, senio para cada lingiiista, de afirmar uma originalidade muitas vezes menor leva a propor novos termos que sd se distinguem dos antigos ou dos das outras escolas por sua forma e nao por seu conteido. Essa proliferagao terminoldgica & inerente aos primeiros desenvolvimentos de uma cién- cia ou de uma técnica. Mas quande essa ciéncia comeca a escapar aos tinicos especialistas que pretendiam assegurar para si a sua posse exclusiva, produz-se uma decantacho terminoldgica que nao poupa nem mesmo as nomenclaturas mais corretas. A vulgarizagéo é o grande & revelador de uma deflacto terminoldgica. Um segundo fator, nao menos importante, intervém quando, na historia de uma ciéncia, desen- volvem-se novas teorias que poem radicalmente em causa as que as haviam precedido: o estruturalismo identificara-se muito facilmente com a verdade e a ciéncia ideal, mas foi contestado pela gramédtica gerativa que, por sua vez, foi acolhida depressa demais como algo que transcende o homem e sua histbria; objeto de criticas internas, a teoria gerativa também se dissociou em varias novas hipéteses. Os lingiiistas tomaram entio consciéncia das implicagées filoséficas de suas teorias e da relacgto que elas mantém com o desenvolvimento das sociedades em que vivem; eles reconheceram a dimensio histérica e social de sua atividade cientifica. E por isso que a lingiiistica nao pode ser dissociada do lugar reservado aos problemas da linguagem e da comunicacao nas sociedades desenvolvidas. O materialismo meca- nicista dos neogramdticos, o positivismo dos distribucionalistas e dos funcionalistas, 0 ineismo dos gerativistas participam de ideologias que se explicam a si préprias na histéria das sociedades que as produzem. No instante em que os lingiiistas tomam consciéncia dos pressupostos tilosdficos que subtendem o desenvolvimento das ciéncias humanas, eles fixam o momento em que a metalingua de uma ciéncia é susce- tivel de andlise: 0 diciondrio cientifico e técnico torna-se entao posst- vel, e até mesmo indispensdvel, para se compreender o lugar da lin- giiistica no mundo atual. Algumas palavras, enfim, sobre a informacao lingilistica que esta na base deste diciondrio: a documentacio, comecada had dez anos, mediante um despojamento sistemdtico das obras escritas e traduzidas em francés, e um recenseamento dos termos mais importantes usados nos textos estrangeiros, foi completado pelo uso sistemdatico dos indices dos principais manuais usados na Franca; essa documentacao foi com- parada com a dos léxicos ou dos diciondrios anteriores a este. A bibliografia que acompanha o diciondrio repertoria o conjunto das obras de lingiiistica que pareceram titeis aos leitores informados, com exclu- so de artigos publicados em revistas. Desejamos que este Diciondrio de Lingiiistica seja. dtil a todos aqueles para os quais foi feito: estudantes de universidade, professores e a todos aqueles para quem as ciéncias humanas representam uma das caracteristicas fundamentais do progresso cientifico. Os autores. Agradecemos a B. Garin, da Universidade de Rudo, pela colaboracao que pe prestou redigindo os artigos sobre andlise distribucional, lingiiistica, estilo © estilistica. A abdugao Em fonética, dé-se o nome de abdu- go 10 movimento pelo qual as cordes vocais se afastam uma da outra, cau- sando a abertura da glote e a inter- tup¢io da atitude vocal. Com efeito, para a fonaco, as cor- das vocais se unem ligeiramente em toda a sua extenséo num movimento de adugio*. O ar pulmonar proveni- ente da expiracio sé pode escoar-se através da Jaringe por pequenos sopros sucessivos, gragas 4 vibracao das cor- das vocais, provocando assim a onda sonora laringea, chamada voz*, indis- pensavel 4 producfo de sons da lingua- gem. Produzse a abdugio no momen- to do abandono da atitude vocal por ocasigo de uma pausa na cadeia falada, ou pela produco de consoantes surdas chamadas aspiradas, como o {p], 0 [t], 0 [k] do inglés, durante cuja reali: zacio fica aberta a glote. A abducio & produzida pelo afastamento das car- tilagens aritendides, as quais estdo fixa- das as _extremidadas posteriores das cordas vocais, por trés da laringe. aberto 1. Classe aberta, V. FECHADO. 2. Vogal aberta & aquela que, em ‘oposicaéo as vogais fechadas, é pro- nunciada com uma posigio baixa da lingua, de forma que o canal bucal fica aberto. HA duas posigdes de aber- tura vocdlica: uma em que a lingua fi- ca muito baixa, como para [a]; outra em que fica um Pouco menos (como para as vogais semi-abertas [e] e [9]). Do ponto de vista aciistico, as vogais abertas so compactas. abessivo Chamase abessivo, em linguas da fa- milia fino-igrica, o caso da palavra eexprime uma_ situacio externa. Perse -ia no abessivo a palavra rua, numa frase como A casa estd FORA DA RUA. ablativo 1. Designase pelo nome de ablativo © caso* que exprime a separacio, e, por extensiio, a funcio local de afasta- mento de um lugar; p. ex.: O barco se afasta da margem. Em vérias lin- guas, dd-se o nome de ablativo a um caso da declinacZo que assume a fun- gao de varios outros casos; assim, o ablativo latino € a um sé tempo um ablativo, um instrumental, um comita- tivo, um agentivo e, muitas vezes, um locativo (v. essas palavras). 2. Ablativo absoluto. Em latim, o ablativo absoluto € uma oragfo que de- sempenha o papel de um circunstante independente, cujo sujeito esté no abla- tivo e o predicado, sendo verbal, & um patticipio no ablative (me nolente, “contra a minha vontade”, lit. “nao desejando eu”), e, sendo nominal, um substantivo no ablativo (Caesare duce, “sob o comando de César”, lit. “sendo César 0 comandante”). (V. caso) abrandamento (fr. adoucissement) Chamase abrandamento, enfraqueci- mento ou lenigio o fendmeno de evo- lugio histérica ou de alternancia sincr6- nica pelo qual, em certas Iinguas e nu- ma dada posigéo — geralmente na tervocilica — as consoantes so reali- zadas com um grau menor de fecha- 11 mento sob a influéncia das vogais: as fricativas surdas sio realizadas como sonoras, as oclusivas surdas como oclu- sivas ou fricativas sonoras. As oclusi- vas sonoras como [b], [d], [g] podem passar a [$], [8], [y] ¢, continuando © abrandamento, chegar ao desaparcci- mento ou sincope. A vocalizacio de uma consoante é também uma espécie de abrandamento. No céltico, 0 abrandamento afeta © conjunto do sistema consonantico. Nas Iinguas rominicas ocidentais, tam- bém se observa esse fendmeno em gran- de extenso: lat. ripa- > fr. rive, port. riba; lat. rota. > fr. roue, port. roda; lat. amica- > “fr. amie, port. amiga; lat. fabe- >> fr. féve, port. fava; lat. vulg. vedere > fr. voir, port. arc. veer, port. mod. ver; lat. egale- > fr. loyal, port. leal; lat. rege- >> fr. roi, port. rei; lat. rosa- (fricativa dental surda) >’ fr. rose, port. rosa (fricativa den- tal sonora). Ant.: RESTABELECIMENTO. abreviagao Agao ou resultado da representagao de uma série de unidades ou de uma sé unidade por parte delas. Podem distin- guir-se varios casos. (1) Abreviagéo de Sintagma. Nesse caso, certas determi- nagdes so omitidas nalguns contextos: as designagdes Faculdade ou Filosofia ou Faculdade de Filosofia para Facul- dade de Filosofia, Ciéncias e Letras sio abreviatutas devidas ao contexto social ou A economia da fala. Encur- tam-se, desse modo, as designagdes da- quilo a que se refere freqiientemente. A medida que o discurso avanca e os fatos se precisam, ha elementos de de- signagSes que podem ser omitidos. P. ex., se eu j4 disse que o jardineiro do clube veio fazer 0 meu jardim e jé contei 0 que ele fez em minha casa, ao voltar a referir-me a ele, direi simples- mente: 0 jardineiro. (2) Truncamento de sintagma. De um sintagma de duas ou mais palavras, tomam-se elementos de cada uma e forma-se uma palavra ou sintagma menor. P. ex., de automo- bile omnibus formou-se o fr. autobus, 12 © port. auto-dnibus (e depois énibus) ¢ 0 ingl. bus. (3) Abreviagao de sin- tagmas por siglas*. Nomes de organi- zagdes, instituigGes, movimentos etc., quando longos, abreviam-se por siglas formadas das iniciais dos termos com- ponentes: F.F.L.C.H. por Faculdade de Filosofia, Letras e Ciéncias Huma- nas, U.S.P. por Universidade de Sio Paulo, F.A.P.E.S.P. por Fundagio de Amparo a Pesquisa do Estado de Sao Paulo. Hé siglas j4 de fama mun- dial como ONU, UNESCO, etc. A abreviatura por siglas faz-se por maitis- culas, separadas ou nio por ponto. A tendéncia geral ¢ suprimirem-se os pon- tos, mesmo porque muitas delas se transformam em lexemas, comportando derivagdes: udenismo, petebista, arenis- ta, emedebista, etc. A tendéncia ao uso das siglas no mundo contemporineo é tal que j4 existem até diciondrios de si- glas. Por outro lado, organizagdes que teriam nomes fraseoldgicos j4 surgem designadas por um termo tinico, que é uma espécie de truncamento de sintag- ma que nio chegou a existir, como Pe- trobrés e Eletrobr4s. Outras siglas for- mam-se com sflabas ¢ no com iniciais, como Embratel por Empresa Brasileira de Telecomunicacées, Embratur por Empresa Brasileira de Turismo. (4) Abreviagéo de palavra. Pode set tam- bém uma forma de truncamento, o que & freqiiente na lingua popular. Por ex., as formas foto, metré, auto por fotografia, metropolitano, automdvel. O caso de cine € uma dupla abreviacao: 0 fr. cinématographe reduziuse a cine- mae este a cine. A abreviacio normal de palavra na tradicao portuguesa faz- -se tomando a primeira ou as duas pri- meiras sflabas e¢ o inicio da seguinte: mat., filol. e lit. por matemitica, filolo- gia e literatura. Freqiiente também é infcio e fim da palavra: am.’, at? e obr* por amigo, atento, obrigado, Ex.* por Exceléncia, etc. Outra variante é © truncamento pelo uso do final da palavra, como € 0 caso dos hipocoristi- cos: Zé por José, Ténio por Anténio, Tito por Sebastido. Casos hd em que a abreviatura se reduz a uma letra mi- nuscula mas com o perigo de ambi- giiidade, em geral desfeito pelo con- texto: f. por feminino e forma, m. por masculino, metro e més en. pot nome © neutro. Em portugués, distingue-se abre- viagdo de abreviatura; aquela & 0 pro- cesso, esta, o resultado. Assim, nao se pode dizer que p. € abreviacio mas abreviatura de pagina. abreviatura. V. ABREVIAGAO. abrimento Di-se 0 nome de abrimento 4 abertura do canal bucal durante a emissiio de um fonema. Para certos lingilistas, as pat- ticularidades especificamente vocdlicas estéo em relacio unica com os dife- rentes graus de abrimento e “o grau de abrimento € uma matca especifica- mente vocilica” (N. TruBetskoy, Prin. cipes de phonologie, p. 231). Pata outros lingilistas, como F. pE SAUSsURE, todos os sons podem ser clasificados segundo seu grau de abrimento, entre 0 abrimento m{inimo, que corresponde as consoantes oclusivas, e o abrimento maximo, que corresponde as consoantes mais abertas. [O uso de abrimento pa- ra traduzir o fr. aperture ficou consa- grado em port. gracas a Matroso Ci- MARA), absentia. V. IN ABSENTIA. absolutamente Diz-se que um verbo € expregado abso- lutamente, quando, sendo transiiivo, ele vem sem objeto. P. ex.: Pedro Es- cREVE no quadro e depois if em voz alta, mas seus discipulos néo ENTEN- DEM. absoluto 1. Ablativo absoluto, Ablativo “sol- to”, isto é, sem relagdo com termo al- gum da oragdo subordinante (V. aBLa- Tivo). 2. Dizse que um adjetivo é absoluto ou que tem sentido absoluto, quando, no sentido préprio, ele nao é, em prin- cipio, suscetivel de graus de compa- ragho. Assim, geogrdfico niio comporta comparativo nem superlativo. Chama-se também absoluto o superlativo nio li- mitado por um complemento de natu- reza comparativa. P. ex., trabalho mui- to grande ou grandissimo (supetlativo absoluto); 0 trabalho maior de sua vi- da de todos os de sua vida) (su- perlativo relativo), (V. RELATIVO, sU- PERLATIVO), 3. Chamam-se tempos absolutos as formas verbais que exprimem o tempo em relac¢Zo 20 momento do enunciado (presente, imperfeito, futuro etc.), por oposic¢ao a tempos relativos, que expri- mem o aspecto perfectivo em relagio 20s tempos absolutos. Assim, o futuro do pret. no portugués e no francés e © “passado anterior” no francés expri- mem a aco realizada em relagio a um futuro ou passado expresso no enun- ciado. abstrato 1. Substantivo abstrato, sin., na gra- mética tradicional, de suBsTANTIVO NXO-CONCRETO. (V_ CONCRETO). 2. Em gramitica gerativa, diz-se que um verbo é abstrato quando ele € teo- ticamente implicado pelas transforma- ges de nominalizacéo ou adjetivacio, mas nao recebe uma tealizagio morfo- fonolégica, Assim, o fr. ingénieur [enge- nheiro}, implica uma¥nofhinalizacio a partir de um suposto verbo tingéni-, como ajusteur [ajustador] é derivado de ajuster. Diz-se também que um substantivo é abstrato quando for ne- cessério supor-se um radical nao-reali- zado para explicar uma palavra deti- vada; assim, o fr. marmaille, coletivo que indica “um grupo de criangas”, modelado em valetaille, [grupo de cria- dos], implica um substantivo abstrato de um radical marm-. 3. Em gramética gerativa, por oposi- so as frases efetivamente pronuncia- das pelos falantes de uma lingua (ou frases concretas), chama-se frase abs- trata aquela cuja estrutura profunda é formada pelos sfmbolos mais gerais (SN [sintagma nominal], SV [sintag- 13 ma verbal] etc.). O grau de abstragao da estrutura profunda é tanto maior quanto maior for a distancia entre a forma da frase realizada e a forma pro- funda subjacente. P. ex., uma gramé- tica que analisa o verbo transitivo co- mo proveniente de duas oragces das quais a primeira é factitiva (Joao lé um livro provém de [Joao + faz] + [que + um livro + € lido por Joio}) tem caréter mais profundo que a gra- mftica que faz corresponderem nesse caso a estrutura superficial e a estrutura profunda (Jodo lé um livro provém de Joao + 1@ um livro). [Substituimos aqui_os simbolos por palavras da lin- gua.] abuso Em lexicografia, as notagdes por abuso ‘ou abusivamente sio matcas de tejei- géo que assinalam os sentidos ou as express6es rejeitadas pelos puristas: ex- tensdes do emprego de uma_palavra fora de seu campo de aplicacao origi- nal, empréstimos tomados a outras Iin- guas, ou transformagdes diversas que alteram o sentido “primeiro”. Assim, em francés, 0 emprego de bien achalan- dée (em boutique bien achalandée), com o sentido de “loja de grande fre- guesia”, é aceito, mas o de “bem pro- vida de mercadorias” & considerado abusivo. Em portugués, 0 emprego de Sofisticada com o sentido de “requin- tado ao extremo, aprimorado” também pode ser considerado ebusivo. agao 1. Verbo de agio. V. atrvo 1. 2. Agio-resposta, V. RESPOSTA. acento acavalamento Por acavalamento traduzimos o fr. che- vauchement e 0 ing. overlapping, que indicam a interseccao de dois conjun- tos: azul é substantivo e adjetivo; nes- se termo as duas classes, substantivo ¢ adjetivo, acavalam-se. M. CAMARA pro- poe debordamento para traduzir over- lapping e por cavalgamento traduz o fr. enjambement, termo de métrica que indica o acavalamento de um verso sobre 0 outro por uma seqiiéncia rftmi- ca. Para overlapping se tem também Proposto superposicao. aceitabilidade E aceitével o enunciado que é a um sé tempo gramatical, isto é, gerado pelas regras da gramética ¢ facilmente com- preendido ou naturalmente emitido pe- Jos falantes (V. GRAMATICALIDADE). A aceitabilidade € um conceito ligado ao modelo de performance*; depende, por- tanto, nfo apenas da conformidade as regras de gramética (toda frase agra- matical é inaceit4vel), mas também das regtas definidas pela situagao (contex- to) ou pelas propriedades psicoldgicas assim, hd uma extensio além da qual do sujeito. Hé graus de aceitabilidade; uma frase ou perfodo gramatical é ina- ceitével, mas essa inaceitabilidade de- pende de se tratar de lingua escrita ou falada, e do ponto de vista do emis- sor (ou destinador) ou do receptor (ou destinatério). aceito (fr. regu) Aceita € a palavra considerada perten- cente A norma-padrio do portugués chamado “culto”. 1. Acento fonético. Em lingiiistica, o acento é um processo que per- mite valorizar uma unidade lingiifstica superior ao fonema (sflaba, morfema, palavra, sintagma, frase), para distingui-la das outras uni- dades lingiifsticas de mesmo nivel. O acento caracteriza sempre uma combinacio de fonemas, diferenciando-a de uma ou de varias seqiién- cias de fonemas geralmente idénticas; classifica-se, portanto, 0 acento 14 entre os prosodemas*, ou elementos supra-segmentais, do mesmo modo que a quantidade e a pausa, A caracterfstica acentual pode efetuar-se por meio de uma forca expiratéria maior: trata-se entéo do acento de energia (ou acento de intensidade, acento dinamico, acento expiratério, etc.). Pode efetuar- -se também por uma variag&o da altura melédica devida a um aumento ou diminuicZo da freqiiéncia de vibragio das cordas vocais: tal tipo denomina-se acento de entonagio ou tom (ou acento musical, acento melédico, etc.). Na verdade, tanto elementos musicais quanto quanti- tativos intervém na manifestagio do acento de energia. O acento de energia tem fungao distintiva nas linguas em que ele & mével, como em inglés, em russo, e, exceto o francés, em todas as linguas romanicas. O inglés opde import, “importacao”, a impdort, “importar”, pelo simples fato de que a sflaba inicial € pronunciada com mais forca do que a segunda na primeira palavra, e com menos forca na segunda. O italiano, igualmente, apresenta numerosos pates mfnimos que repousam unicamente na diferenca de lugar do acento: dncora, “Anco- ra”, ancéra, “ainda”; débito, “divida”, debito, “devido”; principi, “principes”, principi, “inicios”. E 0 caso do portugués, também, com divida]duvida, débito/debito, etc. Nas Iinguas em que nio € livre seu lugar, o acento de energia tem fungao demarcativa: ow indica o fim da palavra, afetando, como em francés, sempre a Ultima sflaba, ou o comeso da palavra, como em tcheco, em que afeta sempre a primeira sflaba. O acento de energia exerce também uma fungZo culminativa, como pico de uma unidade fonética que pode ser a palavra ou o grupo de palavras: em francés, a seqiiéncia un enfant malade, “um menino doen- te”, constitui um unico grupo fonético cujo acento cai na tltima silaba -lade, enquanto a seqiiéncia un enfant jouait, “um menino brincava”, apresenta dois acentos, um em -fant, outro em -ait, corresr >ndentes a duas unidades fonéticas. A importancia do acento de energia nas linguas varia segundo a forca com que se pronuncia a sflaba acentuada com relac&o as silabas no acentuadas: em francés, a diferenca é muito fraca, pois as silabas n@o acentuadas conservam toda a sua precisao articulatéria, mas nas Iinguas germénicas, as sflabas acentuadas sféo muito fortes e as nao acentuadas, fracas. Tanto o tom quanto o acento de energia podem ter fungao distintiva, demarcativa ou culminativa. Em grande nimero de Ifnguas, sobretudo na Africa e no Extremo-Oriente, mas também rey na Europa setentrional, as variagSes de tom permitem distinguir uma palavra da outra. Em escandinavo, hd dois tipos de acentos agudo-grave que sé funcionam para as palavras que contém, pelo menos, duas silabas. Na verdade, o acento grave corresponde, nesse caso, 4 auséncia de acento agudo. Uma das silabas é pronunciada num tom mais agudo que as outras. E o lugar do acento que tem um valor distintivo; este é cha- mado acento de silaba, Ex.: kémma’ = “virgula”; komma? = “vir. Em chinés (dialeto de Pequim), existem quatro tons, isto é, quatro niveis de altura em que as palavras sio pronunciadas (ascen- dente, descendente, interrompido e unido), e cuja utilizagio permite distinguir signos que tém geralmente um significante idéntico. Ex. chu! = “porco”, chu? = “bambu”, chu8 = “senhor”, chut = “habi- taco”. Este é 0 acento de palavra. Na maioria das linguas européias, a variagio de tom é sobretudo importante para a fonética da frase. O acento de entonacao ‘torna-se entéo um acento de frase, que possibilita a expresséo de diferentes estados psiquicos e o reforgo da mensagem transmitida pelas unidades segmentais. Dai falar-se em frase dita com um tom queixoso, tom de Surpresa, tom irénico, etc. Em algumas linguas, a entonacao é 0 tinico meio de veicular certas informagées, como a natureza interrogativa do enunciado: em italiano, a interrogacao é venuto?, “‘veio?”, diferencia-se da afirmagao é venuto, “veio”, unicamente pela elevacao da entonacao na tiltima sflaba. O francés, que utiliza unicamente a entonacao na lingua falada, dispée, entretanto, de outros meios, como a locucio est-ce que?, “‘serd que...?” ou a inversdo, como, p. ex., pleut-il?, “‘chove?”. 2. Acento grafico. O acento grafico pode ser utilizado como sinal diacritico ou como marca de posigao da silaba ténica. Ha sistemas ortograficos que o dispensam totalmente, p. ex., o latim, o inglés, o alemfo etc. O grego usa o acento (agudo, grave e cincunflexo) prati- camente em todas as palavras, com excegio, nao total, de encliticas e procliticas. Como sinal diacritico, 0 acento grafico é empregado junto as letras para indicar certos fonemas; assim, em francés, é assinala [e] em été, “verao” ou “sido” (part. pas.), @ assinala [e] em reléve, “depende”’, 4 assinala [x] em médle, “macho”. O acento é também empregado para distinguir homénimos (em francés, of, “onde”, e ou, “ou”’) ou pata indicar a presenca de um fonema desaparecido (dne, “asno”, do fr. arc. asne). Em portugués, 0 acento grafico é usado menos como sinal diacritico do que como marca de posicfo da ténica; 16 mas, cabe notar que, mesmo af, 0 agudo é usado em vogeis abertas ¢ sobre i ¢ u, € o circunflexo, sobre e € o fechados e, na ortografia bra- sileira, sobre a, e, o nasais. acentuagao Em fonética, a acentuagdo consiste em pér em relevo uma ou virias sflabas numa palavra ou grupo de palavras, propunciando-as com uma caracterfstica fénica que as distingue das outras pa- lavras: maior forga expiratéria (acen- to® de energia) ou timbre mais agudo (tom*). : Em ortografia, a acentuacio grafi- ca tonsiste no uso de sinais diactiticos para indicar timbre e posicao da sflaba ténjca. acentuado Diz-se que é acentuada a silaba sobre a qual incide a ténica, seja ela marcada ou ‘nfo com acento grdfico. acentual O termo acentual qualifica tudo 0 que, unidade ou relagao lingiifstica, se defi- ne*pelo papel do acento. Unidade acentual é um morfema ousuma série de morfemas constituinte de: frase, com um tnico acento princi- pal: a unidsde acentual corresponde & “palavra” (palavra-raiz, palavra com- posta, palavra derivada) ou ao sintag- ma de base (determinante + nome). Oposigao acentual & a que se esta- belece entre signos lingiifsticos (mor- fema, palavra ou sintagma) que sé se diferenciam: 1) pela posigio do acen- to, ‘como prdtica/pratica, contem/con- tém e contaram|contario, em que a diferenga ortogréfica nao é pertinente; 2) pelo grau de altura do acento tonal, em chinés, nas palavras chu! “porco”; chu?, “bambu”; chu}, “se- ; chu’, “habitacio”. Contraste acentual é 0 que se esta- belece entre duas seqiiéncias sucessivas da cadeia falada, que se diferenciam pela presenca do acento sobre uma e€ nao sobre a outta, como, p. ex., no (V. também AGUDO, CIRCUNFLEXO, GRAVE.) sintagma francés un enfant pauvre, “uma crianga pobre”, entre as sflabas un en-fant ea silaba pauvre (Lpovr] é€ um monossflabo), ou pela variacao de altura de uma sflaba para outra nas Iinguas que apresentam um tom de sf- laba. acepgao Em lexicografia, diz-se que uma pala vra tem varias acepgdes, quando apre- senta varios sentidos diferentes segun- do os contextos. Assim, a palavta carta tem acepgdes diversas em carta de ba- ralho e carta geogrdfica, ec. Chama-se polissémica* a palavra que tem virias acepcdes. acessério Acess6rias sio as palavras néo-acentua- das desprovidas de autonomia sintética (artigos, preposigdes). Sao também de- nominadas palavras vazias ou instru- mentos gramaticais. acidental Propriedades acidentais séo as proprie- dades de qualidade, quantidade, lugar, estado, etc., que podem ser atribuidas as pessoas ou as coisas que séo as “substancias”. As propriedades aciden- tais ou acidentes séo os predicados das substincias em oragdes bem formadas do ponto de vista Iégico. Em O livro é vermelbo, livro € a substancia e ver- melbo, a propriedade acidental; em Jorge esté aqui, aqui & a ptoptiedade acidental atribuida a Jorge. acidente Denomina-se acidente cada um dos mo- dos de uma coisa, por oposigéo a subs- tancia e aos atributos que constituem sua esséncia. A oposigao acidente/subs- tancia fundamenta a distingao adjetivo ou verbo/substantivo na gramética tra- dicional. Em A crianca corre, corre & 17 um acidente ¢ crianca uma substancia; em O tempo esté chuvoso, chuvoso & um modo de tempo. acomodagéo. V. ASSIMILAGAO. acrofonia Dé-se o nome de acrofonia ao princi- pio de transcricio segundo o anal a constituigio de uma escrita silabica (que nota uma silaba por um tnico sinal grafico) foi feita a partir da es- crita ideogrdfica (na qual o sinal gré- fico representa uma palavra), atribuin- do-se ao ideograma o valor fénico da primeira silaba da palavra por ele re- presentada. aculturagao Designam-se pelo nome de aculturacao todos os fenédmenos sécio-culturais liga- dos & aquisicio, manutengio ou modi- ficacio de cultura*, principalmente a adaptaggo de um individuo ou grupo social a um novo contexto sdécio-cultu- acustica ral ou sociolingiifstico (falar-se-d assim da aculturagio dos emigrados recentes). acusativo Di-se 0 nome de acusativo, em linguas indo-européias que conservam a flexio casual, a0 caso* que exprime a fungio gramatical de complemento no sintag- ma verbal do tipo: verbo ativo + sin- tagma nominal (obj. dir.). P. ex.: lat. Claudius CLAUDIAM amat. Em prego, latim cetc., 0 acusativo pode assumir fungSes gramaticais ou locais traduzi- das em outras linguas pelo alativo*, ilativo* etc. Do mesmo modo, deno- minou-se acusativo de objeto interno ou acusativo cognato o acusativo de frases como: gt. polemein POLEMON, “combater um combate”, lat. mirum SOMNIUM Somniare, “sonhat um sonho lindo” (as tradugdes dos exemplos ilus- tram o fato em portugués, sem decli- nacéo); esse objeto, de um verbo nor- malmente intransitivo, tem a mesma raiz do verbo. (V. caso). 1. A actstica & a parte da fisica que estuda a estrutura dos sons e 0 modo pelo qual o ouvido a eles reage. 2. A fonética actstica estuda a natureza fisica da mensagem vocal, independentemente de suas condicdes de producio e de recepcio. Os progressos da fonética articulatéria* e da experimentacao fonética mos- traram que as articulacdes sio muito menos estaveis do que se pensava outrora. Assim, um mesmo efeito actistico pode ser obtido de dife- rentes maneiras por processos de compensacio: o [¢] do fr. peu, [p¢], “pouco”, pode ser obtido a partir de [e], seja por uma con- tragio da lingua, seja por um arredondamento dos labios. Os parametros actisticos que definem um som podem ser: a altu- ra, que se deve a freqiiéncia da vibracao que o produz, a intensidade, devida 4 amplitude e 4 freqiiéncia, e o timbre, devido A audibilidade dos tons parciais ou harménicos. O som laringeo, quando provocado por uma vibracao composta, € complexo, com um tom fundamental correspondente 4 vibracfo do conjunto e harménicos correspondentes as vibragdes parciais. Desempenhando o papel de um filtro actistico, cada uma das cavi- dades de ressonancia reforca os tons parciais cuja freqiiéncia coincide 18 com a sua. Se se reforcam os harménicos altos, obtém-se um som de timbre claro; se se reforgam o fundamental ou os harménicos baixos, © tom torna-se grave. As freqiiéncias reforgadas constituem os for- mantes que caracterizam o timbre de cada som. Os métodos da mo- derna eletroactistica permitem analisar qualquer som lingiifstico e apresentar o resultado da anilise sob a forma de um espectro que mostra a estrutura actistica do som (parciais, freqiiéncia, intensidade). Enriquecem os resultados que poderiam ser obtidos precedentemente por um ouvido muito sensivel ou pela andlise matemdtica da curva de vibragéo. As consoantes oclusivas caracterizam-se pela auséncia de uma cstrutura de formantes nitidamente definida. As vogais sio caracterizadas por dois formantes que, juntos, sio responsdveis pelo timbre particular de cada tipo vocilico. Esses dois formantes corres- pondem aos principais tessoadores do aparelho fonador: a faringe e a boca. Outros formantes podem intervir na determinacao das qualidades secundérias das vogais, como a nasalidade. Se os dois formantes prin- cipais se encontram no meio do espectro, como no caso de [al], [k], [g], ou, ao contrdrio, nas duas extremidades, nitidamente separados um do outro, como em [i] e [u], pode-se falar de um tipo de som compacto e difuso. Se os formantes estdo situados na zona de alta freqiiéncia do espectro, tem-se um som agudo como [i], [y] (opon- do-se a [u]) e [t] e [d] (opondo-se a [p] e [b]). E posstvel entio, conforme a estrutura do espectro actistico, rea- lizar-se uma classificagéo dos sons da linguagem que corresponda a classificagao articulatéria. Uma primeira tentativa foi feita por R. Ja- xopson, G, Fant e M. Haute desde 1952 (Preliminaries to Speech Analysis), em fungio do prinefpio do binarismo*. Para esses lingiiis- tas e foneticistas, os sons da linguagem opdem-se entre si pela presenca ou auséncia de um traco fonético, que pode ser formulado em termos articulatérios, genéticos* ou actisticos. Haveria assim doze oposigdes actisticas nas quais cada lingua opera uma escolha fonolégica: vocd- lico]nao-vocélico, consondntico/nio-consondantico, compacto/difuso, continuo/descontinuo, estridente/mate (ingl. mellow, fr. mat; tam- bém port. doce, segundo Martoso CAmara, in R. JakKoBson — Fonema e Fonologia, Rio, Liv. Académica, 1967, p. 125), brusco/fluente, sono- ro/surdo, nasal/oral, tenso/frouxo, grave/agudo, incisivo/raso, rebai- xado/sustentado (MatrToso CAmara, ibid., p. 126, prefere estes termos a bemolitado/nao-bemolizado, para traduzir o ingl. sharp/plain). A andlise actistica das consoantes e das vogais pode contribuir para o esclarecimento da influéncia que umas exercem sobre outras, 0 que 19 abre caminho a novas teorias sobre a s{laba*, a novas interpretagdes dos fenémenos de interacdo, tais como a metafonia, bem como fend- menos de evolugao diacrénica. A fonética actstica propde-se também 4 sintese da linguagem, que permite verificar, pela audicao, os resultados obtidos pela andlise e assegurar-se de que nenhum aspecto fundamental da composi¢ao actstica do som foi deixado de lado. A sintese da linguagem pode também permitir aos cegos 0 acesso aos textos escritos, gragas a certas méquinas que transformam o texto escrito em fala sintética, podendo entao servir de mdquinas de leitura. adequagao Quando se distinguem as duas formas sob as quais os enunciados de uma lfn- gua se nos oferecem — a forma escri- ta e a forma falada — propde-se o problema da adequacao da primeira & segunda: esse termo designa as relagdes que a lingua escrita mantém com a falada, que ela representa. Esses rela- gdes G0 caracterizadas pelo fato de que o escrito ¢ a representacdo mais ou menos exata dos enunciados fala dos da lingua. Dir-se-4, no mesmo sen- tido, que a adequacao do alfabeto la- tino com relagao ao italiano e a0 por- tugués ¢ maior do que com relagio ao francés. (V. aDEQUADO.) adequado Diz-se que uma gramitica € fracamente adequada (ou que tem uma capaci- dade* gerativa fraca) quando cla gera © conjunto das frases gramaticais de uma lingua; uma gramdtica é fortemen- te adequada (ou tem uma capacidade gerativa forte) quando nao somente ge- ta 0 conjunto desejado de frases, como também assina a cada frase a descricio estrutural correta. Uma gramética des- critiva € também fracamente adequada, porque, para uma mesma lingua, po- de-se ter um grande ntimero de gra- miticas possiveis, e essas gtamiticas descrevem virios enunciados pouco aceitaveis. Por outro lado, porém, uma gramética gerativa tem uma forte ade- quagio, porque representa o conheci- mento intuitivo das regras que o lo- 20 cutor possui, e porque explica ambi- gitidades e enunciados sintaticamente aptoximados. adessivo Dé-se o nome de adessivo ao caso* que exprime a posigio, nas proximidades imediatas de um lugar. Ex.: A casa fica PERTO DA IGREJA. ad hoc Em gramatica gerativa, diz-se que uma regra de gramatica é ad hoc quando foi feita unicamente com o fim de re- lacionat o fendmeno que descreve, € nao permite generalizagio alguma. adigao Em gramatica gerativa, a adigéo € uma operagao que consiste em acrescentar um elemento no decurso de uma trans- formacio. Esse elemento deve ser vazio de sentido, visto que, teoricamente, as transformagdes nao trazem qualquer modificagéo ao sentido das frases de base. Assim, se analisamos a frase Pen- so que Paulo viré amanb& como pro- veniente de duas oragdes: Penso isto, Paulo vird amanhi, por transformacio completiva, que fun- de essas duas oragdes numa tinica fra- se, 0 elemento que, acrescentado du- rante essa transformac#o, € uma con- jungio vazia de sentido. (V. opERa- por.)