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Cos & 4. Intradugao A iconografia penetrou nas obras de Histéria primeiro na forma de ilustragdes — &s vezes abundantes, pertinentes, bem escolhidas e dotadas de legendas adequa- das. Nao € este, perém, 0 uso que aqui me interessa: quero abordar, por um lado, ‘0 amprego sistematico da iconografia como fonte para a Hist6ria; por outro lado, a trans- formagéo da iconografia em objeto de Historia. Se se acompanhar a presenca, nas ltimas décadas, da preacupacéo com as fontes iconagraficas @ Seu manejo em Histé- ria nos manuais franceses — que escolho por estar mais familiarizade com a historio- gratia que refletem normativamente (sempre 2 posteriori, 6 claro) — algumas constata- gdes serao possiveis. © ambicioso volume compilado por Charles Samaran, publicado em 1961, dedica ao assunto dois capitulos curtos, ENSAIOS ICONOGRAFIA E HISTORIA Ciro Flamarion S. Cardoso (Universidade Federal Fluminense) um relative a fotografia e ao cinema visto como lestemunhes, outro acerca do uso de tais testemunhos pelo historiador. As indicagdes de métodos so muito genéricas @ ajudariam pouco quem quisesse apoiar- se nelas para interrogar os tipos de fontes ali mencionados ". Em 1969, 20 Se ocupar do comentario de textos ¢ documentos his- t6ricos, André Nouschi incluiu uma pequena secdo qué trata das plantas e dos mapas antigos, isto porque, depois de décadas de uso de tals documentos por historiado- res franceses — em parte devido a longo @ frutifero contacto. com a Geografia Humana jd era pratica freqdente na Franca. incl s&0 deles em certos concursos de Historia*. Alguns anos depois, em 1974, numa obra em trés tomos que é uma espécie de mani- festo do que se costuma chamar de Nova Histéria, foi reproduzide 0 artigo sobre 0 cinema como fente que Mare Ferro publi- cara um ano antes no Annales. © texto ¢ provido de indicages de método bem mais especificas.e relevantes do que as contidas nos capitulos de Georges Sadoul que cons- 1. Georges Sedcul, “Photographie et cinématographe" © Georges Sadaul, “Témoignages photograph ques ei cinémategraphiques”. in Charles Samaran (org), [ istoire et ses méthades. Encyclopédie de 1a Ploiade, Parts, Gallimard, 1981, pp. 771-762, 1390-1410. 2. Asdté Nouschi, Le commentaire do textes ot de documents histonques, Paris, Fernand Nathan, 196%, pp 36-47. 09 10 ART LG © § tam do livro organizado por Samaran* Embora mais inclusive, o verbete imagem, ‘também redigido por Ferro, que aparece em outro manifesto da mesma tendénci uma enciclopédia publicada em 1978 con- cede maior espago a fotografia e ao cinema — tontes iconograficas ja privilogiadas no manual de 1967‘. Um capitulo da obra de & metodologia da Histéria de autoria de André Corvisier esta dedicado aos documentos iconograficos ¢ auditivos. No caso dos ico- nogréficos, mencionam-se de um lado plantas, fotografias, pinturas € gravuras “em gue 0 autor Se apaga atrés de seu tema”; de outro lado, “obras originals em ‘que © autor deu uma interpretacdo pessoal da realidade”. Classificacdo das mais pro- blematicas! Os elementos do método que se seguem #0, alids, bem pobres, desem- bocando no conselho de usar as fontes iconograficas com circunspec¢aio e critica mente — sendo a critica em questao adaplada das regras gerais da critica histo- fica externa e interna *. Por fim, na curto manual de Thuillier e Tulard, que é de 1986, ‘entre as fontes de novo tipo utilizaveis em Historia mencionam-se a arte (mais particu- larmente a pintura), os caries postais © 0 ENSAI OS cinema, sem maiores detalhes e mais adiante a paisagem, abordada por exemplo através da fotografia aérea. Também neste caso, invocam-se reservas e prudéncia no uso das fontes iconogréficas * A impress&o que fica dessas leituras &, sobretudo, a da auséncia de um trata- mento sistematico do tema. Este aparece fragmentado, sempre incompleto.e, na maio- fia dos casos, é objeto de conselhos metodolégicos vagos e pouco titeis na pré- ica — quando nao transparece uma forte prevengae de alguns dos autores a respeito das fontes iconograficas, levando-os. acon- selhar um uso limitado e critico delas! Pode ser notada, também, a auséncia de certos Angulos de andlise possiveis, em especial a perspectiva semidtica, Sem poder preencher tantas lacunas um pequeno artigo, minha ambigao se limita a oferecer um quadro sistematizado das possibilidades metodolégicas disponi- veis hoje para o tratamento histérico da iconografia,seja como fonte que ilumina outros aspects de social, seja come objeto especifico de pesquisa histérica, 2. A iconogratia como fonte 2.1 Utilizagdio qualitativa Qcupar-me-ei agora da modalidade de uso das fontes iconogrificas que nao implica seu enfoque quantitativo, no estabe- lecimento de séries. Em outras palavras, daqueles estudos em que cada unidade ico- nografiea (quadro, gravura, mapa, estatua ete) vale por si, como uma entidade distinta © especifica — mesmo quando, por proces- sos de comparacdo @ generalizago, tor pessivel trabalhar um grande numero des- sas unidades e chegar a conclusdes amplas. eae otie ta) S71 Em setores de pesquisa como a Histo- la Antiga, devido 4 relativa raridade das fontes escritas, j& tem longa tradic&o 0 recurso a iconografia como documento, embora, no passado (mesmo recente), tal recurso se caracterizasse muitas vezes por métodos simplistas e inadequados. Escolhi um exemplo da Egiptologia. John Wilson, tratando dos camponeses do INI? milénio a.C., depois de dizer, com razdo, que “o pouce que sabemos das pessoas comuns” do antigo Egito “corresponde a periodos posterioros’’, passa a0 que ele mesmo chama de “uma analogia bem forcada”: a suposiggo de que “‘o camponés do século XXVII a.C. vivia em forma bastante seme- Ihante a come vivia o camponés do século XIX d.C.". Ele acha que se com tal idéia ‘em mente observarmos os releves das tum- bas ogipcias do Ill* milénio-a.C., _. veremos 0 camponés egipcio como sendo pouco exigente, imprevidente, irrita- digo mas incapaz de guardar rancor, de coragdo leve e amante da alegria, capaz de trabalhar muite intensamente mas inca- paz de um esforgo longamente sustentado®,’ Eis ai deducSes copiosas tiradas dos relevos — por certo abundantes — das mastabas menfitas que representam cenas da vida quotidiana! Faltou, porém, a mais elementar aplicagdo da critica ‘interna. Teremos nés, nos relevos funerdrios e nos textos breves que 03 acompanham e expt Fee Seco sl) OS, citam, os préprios camponeses daquela 6poca em sua realidade intrinseca, ou — © que & muito mais provavel — a visZo que a classe dominante que explorava e gover- nava tinha deles e decidiu perpetuar na pedra? No fundo, alids, as afirmagées de Wilson derivam sobretudo de seus precon- ceitos acerca de camponés mederno. Muito mais adequado ¢ 0 manejo dos mosaices imperiais romanos por M. Ros- tovizelf. Conhecedor, em grande detaihe, dessa iconografia maci¢a em suas ternti- cas, composicies © ordenamentos — mutaveis no tempo — o autor, sem chegar a uma anélise seriada. a utiliza com siste- maticidade e inteligéncia, em grande niimero, para iluminar aspectos diversos da economia do Império Romano dos pri meiros séculos de nossa era”. Note-se que a constatagao da ausén- cia de técnicas seriadas ou quantitativas nao comparta forgosamente, de minha parte, um juizo de valor. Certas hipdteses exigem uma comprovagao quantificada, mas pert tamente possivel empreender andlises coerentes ¢ interessantes cam uma metodo- logia mais tradicional. Além de Rostovtzett, um bom exemplo disto é o estudo de Carl ‘Schorske sobre a cultura de Viena nos clti- mos anos do século XIX € primeiros anos do século atual — estudo em que a icono- grafia ocupa um lugar privilegiado °. 8. Mare Ferro, “Le film, une contre-analyse de Ia société?” n Jacques Le Gott @ Piece Nora (org), Faire de Shistoire. tl. Nouveaux objets, Paris, Gallimard, 4, Mare Ferro, “L'image”, in Jacques Le Gott, Roger Les Eneyeloodédies du Savoir Medeme, Paris, Petz [Aniicé Carvisier, Sources et méthodes en histoire saciale, Paris, S.E.D.E.S., 1980, pp. 217-283. Guy Thuilior o Jean Tulard, La anéinode en histoire. Que sais-e? n° 2323, Pi tee de France, 1986, pp. 53-54, 85-86. . 1974. pp. 236-255, Chartier 6 Jacques Revel (org). La nouvelfe istoire 1, 1978, 246-288, Presses Universita 7. John A. Wilson, The culture of ancient Egypt. Chicago, The University of Chicago Prass, 1951, pp. 73-74. 8. M, Rostovizeff, Historia social y econdmica del Imperio Romano, 2 vols. Trad. de Luis Léper-Ballest ras, Nadi, Espasa-Calpe, 1973 (3* ed) 9. Catl E, Schorske, Viena fin-de-siécle. Poltica e cul nag, Companhia das Latras/Ecitora da UNICAMP, inura, trad. de Denise Bottmann, Stio Paulo/Campl 1986. 11 12 2.2 Utilizagao quantitativa Neste caso, cada unidade — quadro, relevo, escultura etc — passa a ser unica- mente um elemento no interior de uma série elaborada a partir de um corpus mais ou menos vasto. E pois a série, nao cada ele- mento iconografico individual, que se constitui ne face da analise. Um livro pioneiro foi, nesta ordem de idéias, 0 que Gaby e Michel Vovelle consa- graram aos altares das almas do purgatorio na Provenca, sobretudo entre os séculos XV e XIX. O casal procedeu a uma sonda- gem tematica em cinco unidades adminis- trativas (departamentos) daquela provincia francesa. As folhas de levantamento e coleta de dados, em que as categorias ocu- Pam as colunas @ 05 casos as linhas, especificam os lugares que foram objeto de prospeceao, a nalureza dos documentos (mba, vitral, quadro, altar etc) ¢ um total de 11 elementos tematicos julgados perti- nentes, além de dados de identificagao (autores, datas, referéncias). O preenchi- mento dessas folhas abriu caminho & claboracao de uma tabela de distribuico ¢ronolégica dos elementos de composicao da iconografia analisada, a qual permitiu fazer constataces que os autores tratam ‘de explicar, A iconogratia do purgatério competiu, do fim da Idade Média até o século XVII, com @ do inferno e a do julgamento final dos mortos. Depois, no século XVll, difun- diu-se a devogao a almas do purgaté: respondendo a idéia moderna de um julga- mente individual. © século XVIII fo um divisor de aguas, levando a um divércio social © cultural entre a devocao popular & a polémica erugita A estatistica ocupa um lugar efetiva- mente reduzido no livro de Gaby e Michel Vovelle. O mesmo se pode dizer do artiga consagrado em 1973 por Maurice Agulhon ENSAtIOS a5 representagdes alagéricas da Republica na Franca do século passado ". Nesses mesmos anos, entretanto, o aperfeicoa- mento des computadores © sua crescente utilizagdo por histeriadores ja estavam assentando novas possibilidades, através do estabelecimento informatico de ficharios de imagens, que podiam ser objeto de uma andlise quantitativa mais sofisticada, apli cada a séries macigas ". Esta tendén metodoldgica, bem camo as teméticas que ‘8 utilizam, vém-se confirmando e amplianda desde entéo, Ainda assim, impée-se a cons- tatagao de que a quantificagde avancou, neste campo, muito menos do que, por exemplo, em Histéria Demogréfiea, Econd- mica ou das estruturas sociais — ou mesmo do que nos estudos histéricos de corte semantico @ partir de corpus de textos esoritos 2.3 Cinema e Histéria © artigo metodolégico ja citado de Mare Ferro — vinculado 9 pesquisas con- eretas do mesmo autor — merece mencso A parte. Nos exemplos citades até aqui como em numerosas outras obras, as fon tes iconograficas foram interrogadas com © fito de Serem investigadas coisas distin- tas delas mesmas: ideologias, mentalidades, © imagindrio etc. O texto de Ferro fica a meio caminho entre tal tendéncia ¢ o que seria a transformagdo da iconografia em objeto para a Historia: “Partir da imagem, das imagens. Nao pro- curar somente, nelas, ilustracdes, confir- macgies ou desmentidos de um outro saber, o da tradigao escrita. Considerar as ima- gens tais quais so, mesmo se for preciso apelar para outros saberes para melhor abordaé-las "."" © autor esperava, com sfeito, enten- der tanto a realidade figurada quanto a prépria obra“. No ontante, predomina no seu texto a preocupagae com 0 uso dafonte 7 le OS cinematografica para revelar, decodificando 9s filtros ideologicos, um conteuido latenta, uma realidade social extema de que 9 filme seria uma imagem". Ferro se distancia, metadolagicamente, das visbes semidticas do cinema. O filme € por ele abservade come “um produto, uma imagem-objeto. cujas significacées no so 86 cinematogréficas’’: trata-se, em suma, de um testamento "© trabalho do historiader nem sempre se apoia natota- lidade das obras: pode usar sequéncias ou imagens destacadas, compor series ¢ conjuntos. E deve integrar 0 filme ao mundo social, a0 contexte em que surge —o que implica a pertinéncia do confront da obra cinematogréfica com elementos n&o-cine- matogréficos: o autor, aproduca0, 0 publico, Co regime politico e suas formas de censura. 3. A iconografia como objeto 3.1 Hist6ria da Arte, Sociologia da Arte A Histéria da Arte foi, ¢ nas suas ten- déncias dominantes ainda ¢. disciplina metodologicamente reacionéria, marcada por uma forte carga de empirismo © positi- vismo, pelo desejo de techar a arte sobre si mesma, muitas vezes por concepedes organicistas de nascimento, expansao, apo- geu e decadéncia. a EN s A | es Desde fins do século passade, no entanto, a escola austriaca, a partir de Alois, Riegle Franz Wickhoff, reagiu contra alguns destes tracos, em especial a nocao de deca- déncia artistica, A polémica entabulou-se a propésito do Baixo Império romano: a arte da Antigiiidade tardia, habitualmente considerada uma degenerescéncia da arte gréco-romana foi resgatada como possuinda uma sensibilidade estilistica viva e inova- dora, nascida de valores novos ¢ servindo de ponto de partida para novos desenvolvi- mentos ". Mas Riegl acreditava numa liberdade. numa indeterminacao da arte, expressando-a na nocéo de vontedé ou intencionalidade artistica (Kunstwoller), 10. Gaby Vovelle © Michel Vovell, Vision de la mart et do Vau-deld on Provence d'eprés les autals des jimes du purgatoire XVe-XXe siecle. Cabvers des Annaies n° 29, Paris, Armand Solin, 1870 11, Mawriee Aguinon, “Esquisse pour uns archdologie de Ia République. L'allegorie civique Keminine'. Anna jes, Economies, socitits, civilisations. XXVIIL, 1, 12. Uma obra undadora foi, neste caso: VictorLoul Pressas Universiiaies da France, 1972. 1973, pp. 5-24, is Tapié er ali, Retables baroques de Bretagne, Paris, 18. Marc Ferro, capitulo cilade na nota n? 9 supra, p. 240. 14. (biG, p. 241 15. Ibid, p. 246. 16. ibid p. 241 17. Vor, a raspeite Santo Mazzarino, La fin du monde antique. Avatars d'un theme historiegraphique, Trad, de Angie Charpentier, Paris, Gallimard, 1973, pp. 189-193. 13 14 sent ‘ependo-se a qualquer interpretacdo que buscasse ver nas abras de arte um reflexo de realidades de outros tipos (sociais, eco- nOmicas, ideoldgicas etc). No nosso século surgiu, porém, uma interessante Sociologia da Arte, que de diversos modostentou correlacionar as artes plasticas (entre outras) com seu contexto social. As respostas sobre como estabele- eer tal corelagdo variaram. Alguns viram a imaginagao artistica enraizada na vida social, mas de forma a surgir como uma ‘extrapolacde que, para além das experién- cias reais, formulasse antecipadamente ‘exporioncias novas,come numa aposta sobre aspectos futuros da oxisténeia ". ‘Outras muitas solucdes foram propostas Parece-me, no entanto, que os debates a respeito nfo desembocaram numa (ou em mais de uma) metodologia claramente indi- cada Tomarei como exemplo as formul g6esde Pierre Francastel. Ao indicarmeétedos para uma Sociologia da Arte, ele destacou ‘seis pontos: 1) “Sociologia dos grupos ¢ tipo- logia_ das civilizagdes’’, ou andlise das relagdes mantidas pela arte com os “‘gru- pos. criadores e utilizadores das obras de arte”; 2)'“Sociologia das obras”, ou “dos objets artisticos de civilizacao” vistos come totalidades complexas: 3) ‘Sociologia dos objetos figuratives © dos moios de expresso”: resultante de tomar as obras ndo mais em sua totalidade, mas em seus elementos constitutivos e formas de expres- so (incluindo o suporte fisico e tecnolégico, mas também que Lucien Febvre chamou de “utensilagem mental”): 4) ‘Sociologia dos mades de apresentac&a”: a arte consi- derada como uma das modalidades em que se exerce, num meio Social dado, a dialé- tica do real e do imagindrio (estudo da Presenea da arte na vida quotidiana, em museus, em liturgias e festas etc): 5)""Socio- logia antistica comparada: tratar-se-ia do confronto da arte com outros sistemas EN SAL @S expressives de uma época determinada, a partir da problematica dos simbolos e dos sinais (ou seja, do que outros chamariam de problematica semidtica); 6) “Sociologia da arte na sociedade industrializada”: jd que 0 desenvolvimento da Sociologia da Arte passaria necossariamonte, segundo Francastel, por um conhecimento adequado da experiéncia artistica do presente. & pre- ciso notar ainda que, em plena época do debate estruturalista, o autor recusava ener- gicamente uma base linglistica, matematica ou légica para a disciplina™. As indicagées metodoligicas acima so, na verdade, além de amplas demais, muito vagas, Carecem de um cardter nor- mative @ operacional claro, que permita a alguém apoiar-se nelas para empreender pesquisas concretas: seria, de fato, ainda preciso construir uma metodologia para abordar cada uma das direces ou proble- maticas que aponta Francastel O mesmo, alids, se pode dizer do mar- xismo no tocante a rolacdo entre arte ¢ vida social. Indicacées teorizantes abundam em G, Plekhanov, G. Lukées, E. Fischer, W. Benjamin — entre muitos outros. Mas se uma metodologia nao pode existir som fundamente tedrico,também é verdade que este iltimo nao garante per seo surgimento de métodos aplicaveis que possam orientar Pesquisas. A tentative mais ambiciosa de fundar no marxismo — em versao derivada de Althusser — uma metodologia para His- toria da Arte, a de Nicos Hadjinicolaou faz criticas pertinentes a disciplina tal como existia entiio, mas decepciona terrivelmente ao formular propostas concretas e especifi- cas de método™. Hoje em dia, setores da Historia da Arte procuram dinamizar-se, metodologica- mente, através da perspectiva semistica — de que trataremos adiante — ¢ de uma aproximagdo com a tearia do inconsciente. Desde as proprias tentativas de Freud neste AB Gok Ga 1 7S 8 sentide, ha uma ambigiiidade persistente quanio 2 este whimo ponto: busca-se expli- car psicanaliticamente a génese da obra de arte, ou sentido (e 0 efeito) das préprias obras?” Outro problema, que alias 6 o de toda Historia de base psicologica até agora, consiste no cardter indireto da explicacso e da comprovagao psico-histérica ™ 3.2 A iconologia de Erwin Panofskyi (1892-1968) No ambito da Histéria da Arte, o espe- cialista mais influente foi talvez, em nosso século, Erwin Panofsky. que concebeu 0 projeto de uma disciplina — a iconologia — cuja finalidade seria atingir o sentido ‘objetivo imanente das obras de arte. Sob forte influéncia da filosofia das formas simbdlicas de Ernst Cassirer, sua teoria parte da definicao do espago picté- Fido, N4o como forma a priori da percepcao, nem como convencae arbitraria, mas sim, ‘come espaco de representacae articulado de modo especifico, 0 qual expressa na ‘sua totalidade as formas simbdlicas de uma Sociedade Partindo da critica do formalismo, do psicologismo e do empirismo antiteorizante, 2 iconologia de Panofsky tem a pretensio de ultrapassar a superficie fenoménica da EN s Al © s obra para atingir as estruturas ocultas do sentido, percebendo, assim, as ligagSes pro- fundas da arte com a cultura e com a ideologia sociais. Este projeto ambicioso foi muito limitado por duas circunstancias. Em primeiro lugar, pela crenca em que a verificagao da interpretacao que se propu- soso das artes plisticas deveria passar necessariamente pelo seu confronte com 08 textos de época, 0 que no fim das con- tas prejudicava 0 projete de uma iconologia como disciplina voltada para as estruturas especificas das imagens {como uma teoria do significante icSnico). Em segundo lugar, porque os trabalhos de Panotsky ativeram- Se @ uma Gnica tradigao antistica — a do Osidente cristao — 0 que impediu um apro- fundamenta e uma universalizacdo dos gous métodos do leitura © interpretacao. Seus discipulos nao resolveram tais proble~ mas, antes os agravaram. E preciso reconhecer, mesmo assim, 08 aspectos positives desta tentativa de tra- tamento cosrente e teorizado dos objetos produzidos pelas artes visuais™. 8.3 A perspectiva semistica aplicada a ico- nografia Nao € nosso objetivo, aqui, desenvok ver por si mesmo o tema da Semidtica vista como disciplina € suas relagées gerais com a Historia ™. 18. C1. Jean Duvignaud, Sociologie de l'art Paris, Presses Universitaires de France, 1967_ pa. 195-198, 19. Ver, por exemplo: Giloerio Velho (org, Sociologia da arte. Ria de Janeiro, Zahar, 1366: Gilberio Velho (org), Sociologia de-arto, I've de Janeiro, Zahar, 1967. 20, Pierre Francastel, “Proolomas da Sociologia da arte" in Gilberto Velho (org,, Sociologia oa arte, Il fem especial pp. 3544 21. Ch. por-exomplo: Goorgo Plokhanov, A arfe @ a wida social, Trad. (co espanhol) por Eduardo Sucupira Filhe, So Paulo, Grasilonse, 1964; Ernst Fischer, A necessidade da arte. Uma interpretagao marxista, Trad. de Leandra Kondor. Rio de Janeiro, Zafar. 1966. Nicos Hadpnicolaou, Historia del arte y licha de clases, Trad. de.A. Garz6n, México, Siglo XI, 1974 Ver Henri Zemer, "L'art”, ind. Lo Gott e P. Nora (org), Fae de histoire. Ii. Nouvelies approaches, cit. pp. 189-202. Saul Friedlander. Histaire et psychanatise. Essai sur les possibilits et les limites de la psychchistoire, Pars, Saul, 1975, p.208, 25. Ver: Enwin Panalsky, Essais d'conalogie. Pars, Gallimard, 1967; Erwin Panofey, L’oeuura dart at sox signtications, Parts, Gallimard, 1968. 26. Ciro Flamarion Cardoso, Ensaivs racionalistas, Rio de Janeiro, Campus, 1988, pp. 67-52. 2. 23. 15 16 AH T kG @ S & ‘A ampliacao da perspectiva semidtica aiconogratia e, mais globalmente, a0 mundo das formas, desenvolveu-se sobretudo devido ao fato de permitir uma conceptuall- zacao mais precisa dos objetos analisados, mediante a percepeZo, neles, de unidades significativas (sememas), nas quais se apdia aanalise” Uma primeira modalidade de aplicacao baseou-se na Semidtica derivada de Ferdi- hand de Saussure, conhecida como Semiologia. Exemplos desta tendéncia so 9s trabalhos de Roland Barthes (seus estu- dos da moda, da retérica da imagem ¢ da mensagem fotografica) e de semiotistas soviéticos, na érea das artes plésticas do cinema®. A Semistiea saussureana, ao ser esten- diga a objetos nao-linguisticos, apresonta, porém, um sério problema de fundo, que & bem percebido por T. Todorov: “De certo modo, a Semidtica esté esma- gada pela Linguistica. (...) .. parte-se da Jinguagem para estudar os outros sistemas de signos, mas correndo.0 risco de impor ‘© modelo linguistico 2 fendmenos diferen- tes, reduzindo assim a atividade semidtica a.um alo de denominagao (ou de redenomi- naGaa). (...) Toda Semiologia construida a partir da lin- guagem (e por enquanto 6 a unica que conhecemos) deve renunciar ao estudo do problema central de todo sistema semictico, que 6 0 da significagSo. Ocuparse-4 to somente coma significaro lingdistica, pela qual substituird sub-repticiamente seu ver- dadeiro objeto. Os obstaculos com que trepega a Semistica nao existem no nivel do objeto (que existe sem divida), mas no nivel do seu discurso, que vicia com o ver- bal os resultades de suas indagagdes*.”” No interior desta mesma tradi¢ao deri- vada de Saussure houve, sem duvida, tentativas bastante sérias — por exemplo no dominio dos estudos semisticos da arqui- tetura e do cinema — no sentido de uma modelizago semidtica nao-tingiifstica das Imagens no espaco™, © projeto de construir uma semistica especifica. dos objets icbnicos tem-se baseado mais, entretanto, numa outra ver- tente fundadora da disciplina: a que parte de Charles Peirce *. Com eieito, ¢ mais adequada a tal objetivo, e pode-se conside- rar que ja existem fundamentos concretos gue apoiem uma abordagem semiotica peir- ceana daqueles objetos ®, Sua aplicagao em Historia desenvolveu-se muito pouco, parém, até agora. Uma questo interessante 6 a que se liga & transcodificagao, ou seja, ao trans- porte de dacio objeto de um codigo a outro, Um artigo recente mostra bem como uma obra literaria — no caso, O nome da rosa, de Umberto Eco — ao ser transposta para linguagem cinematografica, sofre obrigato- riamente modificagdes que, pelo menos em parte, dependem da légica dessa lin- guagem ™. 4. Conclusdo Q historiador interessado|em trabalhar com fontes iconograticas —|seja que as ‘encare come testemunhos de pulros aspec- que se escolheu. Como também se notoly em outros casos — oda Histéria Oral 6 05 tipos a que se puder ter esta também ¢ uma regra a quaisquer fontes. 27. Ver: Umberto Eco, in “Fara ul Trad, de Pérola de Carvalho, 28, Roland Barthes, Sysiéme de “Rotrica de ta imagen”, Busnes Aires, Tiempo Conte 23, Por exemplo: B.A. Guspenshi nn? 29, abril-junho do. 1972, pp Sobre a semisti & BON SA Te) cs: Uma observagao que deve ser feita quanto ao uso da iconografia como fonte por historiadores é que tal uso tem estado ‘quase sempre vinculado a estucios das men- talidades, das ideologias, do imaginaria, Isto,tedavia, nada tem de’ nocessénio. Foi- tas as criticas externa © interna dos documentos iconogréficos, 6 perfeitamente possivel e util (como vimes com 0 exemplo de Rostovizeft) empregar fontes assim tam- bém em andlisos econémico-sociais de tipo historic, Cabe formular 0 desejo de que, no Bra- sil, ointeresse indubitavel que, nestes attimos anos, se tem manifestado pela iconografia como documentaco histérica e parte inte- grante da meméria nacional, leve & multi- plicagio de estudos aplicados a fontes iconograficas @ estimule, neste setor de pesquisas, o desenvolvimento metadolégico — bem como a descoberta, protecdo e res- tauragéo de acervos iconograficos ameacados de deteriorizagao ou destruigao. -andlise semantica dos signos arquitet6nicos" As fonmas de comteide. 10 Palo, Parpactivaredusp, pp. 135-158. mode, Pari, Seu 08 artiges in Eliseo Verén (org), La semioiogia. Trad. de Silvia Delpy. neo, 1976 (6 ec), pp.115-140 1967; Holand Barthes, “EI mensaje fotografico™ e ica da arte”, Trad. de Luzia Peltier. Tempo Brasileiro, -88; Boris Schnaiderman (org.), Semidtica rasa, Trad. de A. F. Bernar- ini, B. Schnaiderman o L. Self. Sao Paulo, Perepectiva, 1979, pp. 163-218, 2 260; YM. Lotman 0 1B. A. Ouspenski (org.). Travaud sur los systimes de signes, Trad. de Anne Zoukotl, Buxelas, Editions ‘Complaze, 1976, eab*0tudo pp | 158-180. 30. Tevelan Todorov e Oswald Di “zoni, Buenos Alice, Siglo XX A 81. Cf Emile Garroni,, Projecto od 32. Gharles Sanders Peirce, Semid ‘infEDUSP, 1875. 98. Consultar, por exomplo: Max Laura Pla, Barcelona, Anag) 36. John Updike, “Filmar 2 la ros 1988, pp. 16-17. 35. Gf. Jan Vansina, Oral tradition A BE 3975. iceionano ancielapdaice de Ins cioncias del longuoje, Trad. &. Pex ntina, 1976 (3* ed.) pp. 240-241. ‘Semioties, Trad. de A. J. Pinto Ribeiro, Lisboa, Edigbes 70, 1980. “-# Wiosofe. Tead. de O. S. da Mota e L. Hogenborg, $50 Paulo, Cul snsa @ Elisabeth Walther (og), La semiérica, Guia alfabética. Trad ", Trad. de Arturo Gémer-Lamadrid, Nexos (México), XI, 126, junha de study in historical metnadology, Harmondsworth, Penguin, 1973; Paul Thompson, Tho voice of the paet.Oral history, Londres, Oxford University Press, 1978, 17