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síntese

k rio-grandense

SandraJatahy Ffesavento

O cx>tídíano

da república

O Editora

da Universidade

Universidade Federaldo RioGrande do Sul

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o cotidiano da república

Universidade

Federal

) do Rio Grande

do Sul

Reitor

Hélgio Trindade

Vice-Reitor

Sérgio Nicolaiewsky

Pró-Reitora de Extensão Ana Maria de Mattos Guimarães

EDITORA DA UNIVERSIDADE

Diretor

Sergiüs Gonzaga

CONSELHO EDITORIAL

Pina Celeste Araújo Barberena

Homero Dewes

Irion Nolasco

Luiz Osvaldo Leite Maria da Glória Bordini

Newton Braga Rosa

Renato Paulo Saul

Ricardo Schneiders da Silva

Rômulo Krafta

Zita Catarina Prates de Oliveira

Sergius Gonzaga, presidente

Editora da UnIversidade/UFRGS • Av. João Pessoa, 415 • 90040-000 - Porto Alegre RS

Fone(051) 224-8821 • Fax(051) 227-2295

'

Sandra Jatahy Pesavento

O cotidiano

da república

elite e povo na virada do século

Terceira edição

Editora

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iwv8nid«toFed«nidoRioGiindedosii

J daUniversidade

Sífitese rio-grandense/3

© de Sandra Jatahy Pesavento

r edição: 1990

Direitos reservados desta edição:

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Capa: Paulo Antonio da Silveira

Ilustração da capa: Família porto-alegrense no final do século

Editoração: Geraldo F. Huff

Revisão: Marli de Jesus Rodrigues dos Santos

Anajara Carbonell Closs

Maria da Graça Storti Féres Mônica Ballejo Canto

Montagem: Rubens Renato Abreu Administração: Júlio César de Souza Dias

Sandra Jatahy Pesavento

Professora

no

Departamento

de

História

da

UFRGS.

Mestra

em

História pela PUCRS. Doutora em História pela USP. Publicações:

República Velha Gaúcha: charqueadas, frigoríficos e criadores —RS

1889'J 930; História do Rio Grande do Sul; RS: a economia e o poder

dos anos 30; RS: agropecuária colonial e industrialização; A Re

volução Federalista; A Revolução Farroupilha; História da indústria sul-rio-grandense; Pecuária e indústria. Formas de realização do

capitalismo na sociedade gaúcha no século XIX; Burguesia gaúcha. Dominação de capital e disciplina de trabalho, RS: 1889-1930; Emer gência dos subalternos: trabalho livre e ordem burguesa; Cem anos

de República; Porto Alegre: espaços e vivências; Borges de Medeiros;

Memória da indústria gaúcha: RS 1889-1930; De escravo a liberto:

um dificil caminho; República verso e reverso; O cotidiano da Repú

blica: elite e povo na virada do século; O Brasil contemporâneo; Os

industriais da República; O espetáculo da rua; 500 anos de América:

imaginário e utopia; História da Assembléia Legislativa do Rio

Grande do Sul: a trajetória do parlamento gaúcho; Porto Alegre cari-

raía: a imagem conta a história; Os pobres da cidade: vida e trabalho

-1880-1920.

P472

Pesavento, Sandra Jatahy O cotidiano da república: elite e povo na virada do

século / 3.ed. /Sandra Jatahy Pesavento. - Porto Alegre :

Ed. da Universidade/UFRGS, 1995.

(Síntese Rio-Grandense; 3)

1, República — Forma de governo — Rio Grande do

Sul. 2. Rio Grande do Sul —

republicano. I. Título.

História —

Período

CDU981.65.07/.08

321.728(816.5)

Catalogação na publicação: Zaida Maria Moraes Preussler. CRB-10/203

SUMARIO

Qual repdblica?

7

A república do progresso: trabalho livre,

máquinas e riqueza

14

O progresso na ordem: as condições

de trabalho

22

O espetáculo da cidade: assimetria social

e ocupação do espaço

32

Cidadania em questão: zé povinho reclama

e

exige

41

Os perigos da cidade: ó da polícia

55

Bêbados, jogadores, prostitutas e vagabundos:

as ameaças à moral e aos bons costumes

Homem e mulher, criança e casamento

Educação do povo e das elites:

a distinção dos saberes

62

72

79

QUAL REPÚBLICA?

Em 1979, o senador da Aliança

Renovadora

Nacional (ARENA) Francelino Pereira perguntava a

uma nação que enveredava pelo tortuoso e difícil

caminho da abertura: "que país é este?"

A indagação, que induz perplexidade, questio

namento

e

reflexão,

foi

retomada literalmente

no

ano seguinte

por Affonso Romano de Santana na

obra do mesmo nome.

Sem maior indagação sobre os condicionamen

tos

pessoais

ou

políticos

que

levaram o

senador

piauiense a pronunciar frase tão instigante, a ques

tão ressurge com força quando se pensa que a Re

pública brasileira conta já com um século de exis

tência: que país é este? qual República?

Não se trata em absoluto de enveredar pelo ca

minho do endosso da lendária e contraversa expres

são atribuída a De Gaulle de que este não seria um "país sério".

Pelo

contrário,

um

regime

que

completa

100

anos, mesmo com altos e baixos, direitos e avessos,

é

digno de

séria reflexão; o fato de pais e filhos

votarem juntos para presidente da República pela

primeira vez é uma questão seríssima; pensar que há séculos atrás emergiam questões, discriminações e problemas com os quais nos debatemos hoje pode

ser até assustador.

Ao longo destes cem anos, a República tem si

do pensada de forma diferente. Em obra já clássica,

Emília Viotti da Costa (JDa Monarquia à República:

momentos decisivos.

1977)

realizou

um

excelente

balanço das diferentes visões historiográficas sobre

o

tema.

Os

contemporâneos

ao

evento,

animados

por

um "espírito de partido" que os posicionava contra

ou a favor do novo regime, tenderam a interpretar o

15 de Novembro ou como "obra do acaso", numa

postura nitidamente monarquista, ou como um "re

sultado inevitável", segundo um ponto de vista re

publicano.

Embora contraditórias, tais abordagens

convergem para um mesmo tipo de enfoque idealis

ta, marcado pelo subjetivismo e pela ênfase na atua

ção

dos

personagens envolvidos.

As versões dos

monarquistas

(Afonso

Celso,

Visconde

de

Ouro

Preto) ou dos republicanos (Felicio Buarque) obe

deceram a uma postura emocional de quem viven- ciara os acontecimentos nos primeiros e conturba

dos anos da implantação do regime.

No início da década de 20, quando as

crises,

tensões

e

conflitos

se

avolumavam,

não

mais

na

contestação do regime em si, mas "daquela Repú

blica", a historiografia apresentou um avanço com a

obra de Oliveira Viana (O ocaso do Império, 1923).

Numa postura de tendência positivista, orientada

pelas idéias de evolução, do progresso linear e do

mecanismo causa-efeito. Oliveira Viana definiu uma

visão até hoje veiculada em livros didáticos. Tocado

por

um certo

saudosismo

da

Monarquia,

o autor

realizou

uma revisão da transição do

regime me

diante

o

estabelecimento de certas

"causas funda

mentais":

a questão servil, a questão religiosa, a

questão militar, a questão federal. Trata-se, sem dú

vida, de um esforço explicativo na direção das mo

tivações dos agentes históricos (os fazendeiros es

cravocratas, os padres, os militares e os cafeiculto-

res paulistas) envolvidos, mas constitui-se ainda

numa visão mecânica, da qual estão ausentes as no

ções de processo, sistema, classe social ou mesmo

de capitalismo.

Novo avanço no campo da interpretação histo-

riográfica da República foi dado coma contribuição

dos autores marxistas das

décadas de

30,

40 e

50

(Caio Prado Jr., Nelson Werneck Sodré, Leôncio

Basbaun) que, sob a orientação do materialismo

histórico, buscaram explicar a queda do regime mo

nárquico pela sua inadequação ao desenvolvimento

econômico-social do país. Ou seja, a República se

ria o resultado de um desajuste entre a infra e a su-

perestrutura.

A

partir de

um contexto econômico-

social em transformação (trabalho livre, expansão

do café, indústria, urbanização, etc.), buscaram dis

tinguir os interesses das classes sociais envolvidas,

concluindo

que

a

República

teria

se dado

pela

aliança entre setores progressistas do latifúndio ca-

feicultor e as classes médias urbanas, sendo os mi

litares seus porta-vozes.

O enfoque é, contudo, ainda simplista e mecâ

nico, reduzindo a realidade a um modelo preesta-

belecido, mas tem o mérito de introduzir categorias

como "sistema" e classes sociais" na análise, en

tendendo a implantação da República como uma das

facetas de um processo de transformações em curso

na sociedade brasileira.

No decorrer dos anos 60 e 70, face ao próprio

amadurecimento

da

sociedade

urbano-industrial

no

país e os rumos empreendidos pelo desenvolvimento

econômico brasileiro, o eixo das análises no campo

das

ciências

humanas

tendeu

a

concentrar-se

em

torno das origens e da trajetória seguida pelo capi

talismo no Brasil. Desta forma, houve uma tendên

cia dos estudos realizados se concentrarem no pe

ríodo entre 1850 e 1930, quando o sistema capita

lista teria se gerado e desenvolvido intensamente a

partir do complexo agrário cafeicultor nucleado em

São

Paulo.

Neste contexto, as numerosas análises

sobre a cafeicultura, a imigração, a desagregação do

escravismo, a formação da indústria e da classe tra

balhadora

forneceram

uma

base

para

o

entendi

mento da transição da Monarquia para a República.

Embora realizados sob distintos recortes temáti

cos e de ênfase metodológica, os autores tenderam a

confluir para um mesmo tipo de conclusão: a Repú

blica viria corresponder, enquanto regime político,

às

variadas aspirações por progresso, representati-

vicíade política, riqueza, estabilidade e ideal de ci

vilização apresentados pelos diferentes grupos da

sociedade que, por motivos variados, se encontra-

vam em desajuste com a Monarquia. Este tipo de vi são estaria presente, de forma mais ou menos explí

cita, na obra de historiadores como Bmflia Viotti da

Costa, já citada,

lha. 1970, 1971), José Ênio Casalecchi (A procla-

mação

Edgard^ Carone (A República ve

1981).

As

"causas"

ou

da

República.

''questões" tradicionais seriam nestas obras retoma

das à luz da noção de processo, das tranformações

econômico-sociais do Império e da ação e motiva

ção das classes sociais.

O entendimento da Republica como uma das fa

cetas de um processo mais amplo de realização do

capitalismo no

pais encontrou novo apoio com as

análises de Florestan Fernandes sobre a revolução

burguesa (A revolução burguesa no Brasil. 1975).

O autor entende a revolução burguesa não como um

movimento

político

de

"assalto"

ao

controle

do

Estado pela burguesia, mas como um processo mais

amplo, ao mesmo tempo de transformações econô

mico-sociais - novas relações de produção, novas

técnicas e formas de organização do trabalho, novas

classes sociais - e de construção de estruturas polí-

tico-administrativas e concepções ideológicas con-

solidadoras do poder burguês. Com esse enfoque,

Florestan

Fernandes abre

espaço

mento

de

República

como

processo amplo.

uma

para

o entendi

das

facetas

deste

Na década de 80, o tema da revolução burguesa

seria retomado com as análises de Décio Saes (A

formação do estado burguês no Brasil, 1888-1891. 1985) para quem tanto a Abolição quanto a Repú

blica seriam momentos de

realização da revolução

burguesa. A proclamação da República correspon

deria à dimensão propriamente política daquele pro

cesso: a da construção de um Estado burguês, ou da

constituição dos aparatos jurídico-institucionais através dos quais a dominação e o poder burguês se

instalariam no Brasil.

Como diria Iraci G. Salles (^Trabalho, progres

so

e

a

sociedade civilizada.

1986), "a

república

colocou-se

então

como

a

alternativa

concreta

de

estabelecer uma ação através do Estado que assegu

rasse a ampliação e a reprodução do capital". Ou

seja, a República apresentava-se como o regime po lítico que melhor encarnava as propostas de pro

gresso, trabalho livre, ampliação da participação política, desenvolvimento econômico, maiores

oportunidades

de

acesso à educação,

emprego,

avanço

tecnológico,

princípios todos adequados

à

instalação de uma ordem burguesa. Neste sentido, o

republicanismo

dos

cafeicultores paulistas consti-

tmu-se numa espécie de projeto burguês para o Bra

sil, asSim como a proposta dos republicanos gaú chos, apoiados nos princípios do positivismo, repre

sentou também uma vertente regional da ordem bur

guesa no Sul. A diferença residia na forma do regi

me republicano: para os cafeicultores paulistas, pensava-se numa República liberal, inspirada no li

beralismo clássico do século 19; para os positivistas

gaúchos, tratava-se de impor uma República auto

ritária, baseada nos principios de Augusto Comte.

Na prática, o que vigorou foi o estabelecimento,

plano nacional, de um Estado burguês baseado

no

num liberalismo excludente, controlado pelas elites,

enquanto que, no Rio Grande do Sul a Constituição

estadual implantou um regime autoritário, altamente

hierarquizado e fundamentado numa rígida estrutura

partidária.

"Liberal-democrática'" ou "autoritária" na for

ma, a República de 1889 foi um projeto burguês de

realização política que assimilou a internalização do

capitalismo no país que, contudo, tem um verso e

um reverso.

Ao mesmo tempo que o poder burguês se es

truturava, consolidava-se política e administrativa

mente, criava instituições, difundia normas e valo res, criava leis e pautava a conduta dos cidadãos,

ocupava terras e erguia fábricas, remodelava cida

des e propunha novos moldes de educação, erguia-

se também uma outra República, a dos cortiços e

dos porões superlotados, das longas jornadas de

trabalho, das greves, dos botequins, das brigas de

navalha, dos subalternos, enfim.

Trabalho livre, igualdade perante a lei e cida

dania eram as palavras de ordem do novo regime.

Para os^ trabalhadores livres e cidadãos, a "sua Re

pública

haveria de ser a mesma e ao mesmo tempo

daquela

proposta pela burguesia

Dem diferente

emergente que procurava acertar o passo com a

História.

polarizada. Um mesmo processo histórico é que dá

margem a diferentes experiências e diversos olhares

1

duas repúblicas, numa visão

^ realidade. Doutores, proprietários de terra,

polfücos de casaca, capitães de indústria, imigran

tes, operários e Zé Povinho são todos atores sociais

que se movimentam e vivenciam de forma diferente

o processo de instalação da República.

Com esta idéia, não se quer também dizer que

eles pensem e ajam de forma completamente isolada

e sem influencias recíprocas. Pelo contrário, se o

processo de dominação/subordinação engloba tam

bém a dimensão da resistência, ocorre uma circula-

ridade entre formas de agir e de pensar. Se a bur

guesia toma decisões e impõe seus valores, é oor

sua vez também pressionada e influenciada pelo

comportamento dos subalternos. Estes, por sua vez,

metabolizam as normas e padrões de conduta que

lhes são impostos e reagem em manifestações já

aculturadas.

Em suma, quando se indaga "qual Repiíblica",

o que se busca é resgatar as diferentes vivências de

um mesmo processo, que são ao mesmo tempo par

ticulares ou específicas do grupo social a que per

tencem, mas também se interpenetram mutuamente.

Buscar-se-á, pois, contrapor ao projeto burguês de

Repdblica outras formas de sentir e olhar esta reali

dade vivenciada pelos subalternos.

O resgate destas outras dimensões do processo

histórico republicano já foi, de alguma forma, abor

dado pelas argutas análises de José Murilo de Car

valho (05- bestializados, O Rio de Janeiro e a Re

publica que não foi, 1987) e também por Eduardo

Silva (Ay queixas do povo, 1988).

Tais estudos centram-se na realidade do Rio de

Janeiro, palco privilegiado dos acontecimentos da

transição do regime, maior centro urbano da época.

A problemática é contudo, universal - a da realiza

ção histórica do capitalismo e da sua viabilização

política através de um regime determinado, contra

pondo a vivência burguesa à proletária -

na sua dimensão nacional latino-americana.

, tomada

O recorte espacial já pressupõe, em si, uma es

pecificidade dentro de

um marco geral capitalista.

Admitida, pois, esta especificidade, não seria possí

vel aprofundá-la através da análise do regional, per

seguindo a mesma temática? Como teria se com portado um dos recortes geopolíticos da nação

frente o processo em curso? Em outras palavras,

como uma das regiões do país —o Rio Grande do

Sul —teria vivenciado a implantação da Repdblica

na passagem do século 19 para o século 20?

A REPUBLICA DO PROGRESSO:

TRABALHO LIVRE, MÁQUINAS E RIQUEZA

A

instalação da Republica deu-se, pois, numa

conjuntura

balizada,

por

um

lado,

pelo

assenta

mento

das

bases

materiais

do desenvolvimento ca

pitalista no país e, por outro, pela estruturação de bases político-administrativas e ideológicas de rea

lização do poder burguês.

Entre os anos de

1880 e

1900 -

portanto, nas

décadas que antecederam e se seguiram à proclama-

ção da República —, a lavoura exportadora capita

lista do café comandou o espetáculo da modernida

de.

Com

abundância

de

terras

e

de

mão-de-obra

promovida pela imigração estrangeira, produzindo

*muito" e "barato" para o mercado internacional, a

cafeicultura

brasileira

mantinha

o

monopólio

do

fornecimento deste artigo e garantia a entrada de

divisas no país.

A acumulação do capital proporcionada pelo

café fazia com que as idéias de progresso e civiliza

ção que vinham da Europa adquirissem um sentido

preciso no Brasil. Em função do complexo cafeeiro,

aparelharam-se portos, construíram-se vias férreas,

adquiriram-se máquinas e produtos europeus para

uma sociedade que

se

modernizava e

acertava o

passo com a

História.

As cidades cresciam e tran-

fomiavam-se, criavam-se bancos para atender as ne

cessidades de uma economia em expansão e para

fazer frente à massa de salários num país que deixa

va para trás a escravidão. As chaminés das fábricas

nascentes passaram a alterar, pouco a pouco, a fi

sionomia de uma nação predominantemente agrária.

Café, trabalho livre, indústria e urbanização torna

ram-se sinônimos do progresso, riqueza, civilização

e regime republicano. Embora as atividades agrárias

-

pecuária e agricultura -

possam constituir-se de

forma capitalista, a concepção do

quanto modo de produção plenamente configurado

tende a identificar-se com o surgimento da fábrica

ou indústria moderna. Com a República teria fim "o agrarismo exclusivo do Império" (Raymundo Faoro.

capitalismo en

Os donos do poder.

dústria surgiu

colonial

1969). Estruturalmente, a in

herança

dependência

no

país condicionada pela

pela

situação

de

escravista,

em relação ao mercado externo e pelo predomínio

do capital mercantil. Conjunturalmente, o primeiro

surto industrial deu-se a partir da década de 80, no

Centro-Sul

do

país, sob a hegemonia do capital

agrário e mercantil e sob a subordinação ao capital

comercial e financeiro internacional. Como se disse,

este processo teve o seu centro deflagrador no com

plexo cafeeiro do centro econômico do país, mas as

demais regiões se viam também agitadas, em maior

ou menor grau, por este surto de tranformação. No

Rio Grande do Sul, a internalização do capitalismo

ocorreu praticamente ao mesmo tempo que em São

Paulo, mas a partir de uma base qualitativa e quan

titativamente diferente.

Enquanto que São Paulo partiu de uma base li

gada ao setor de ponta da economia brasileira -

o

café

o Rio Grande do Sul dependeu de uma acu

mulação de capital comercial obtida pela venda dos

gêneros agropecuários da região colonial imigrante

para o mercado interno brasileiro. Logo, a disponi

bilidade de capital para as inversões capitalistas foi

menor

no

Rio

Grande do Sul, assim como menor

também seria o contingente de

mão-de-obra livre

passível de assalariar-se. Para o Rio Grande vieram

colonos imigrantes para ser pequenos proprietários

e não para atuar como trabalhadores livres na lavou

ra, como em São Paulo. Portanto, a massa de imi

grantes que deixou o campo para assalariar-se na

cidade foi menor no Rio Grande do Sul do que em

São Paulo.

Sendo menores

as

disponibilidades de capital,

menores

seriam

também

as

possibilidades

de

im

portação de tecnologia estrangeira para as indústrias

nascentes. Da mesma forma, o Rio Grande não foi

um pólo de investimento de capitais estrangeiros e

seu mercado interno, embora expressivo para a épo

ca se comparado a outras unidades da Federação,

também era de menores dimensões que o paulista.

Entretanto, esta "pequenez" comparativa ao centro

econômico do país não isolou ou privou a região de

participar daquele

processo global de transforma

ções que o país atravessava.

rio-grandense,

constata-se que no fin de siècle a renovação capita

lista partiu do complexo colonial imigrante e não do

complexo

não

Analisando,

da

pois,

a

realidade

pecuária

tradicional.

Ou

seja,

houve no Rio Grande do Sul uma atividade agrária

de conotação capitalista que antecedesse ou servisse

de base para a emergi ncia de uma ordem

urbano-

industrial. Pelo contrário, o capital que permitiu a

inversão em indústrias proveio, predominantemente, da comercialização dos produtos coloniais ou das

reservas de alguns poucos "burgueses imigrantes" que, vindos da Europa com um certo capital, aqui

passavam a investir. Mesmo no caso de empresas

que se formaram em Pelotas ou em Rio Grande, ci

dades integradas ao complexo da pecuária tradicio

nal, o capital inicial foi acumulado através da co

mercialização dos produtos pecuários, mas por ação

de imigrantes que naquela região se estabeleceram.

Ao

longo das duas últimas décadas do

século

19, várias empresas industriais surgiram no Rio

Grande do Sul, nucleadas em torno de Porto Alegre,

Pelotas, Rio Grande, São Leopoldo e Caxias do

Sul. Já neste período é possivel delinear o tipo espe

cífico de indústria que caracterizaria o Rio Grande

do Sul: as "indústrias naturais", que utilizavam a

matéria-prima local de origem agropecuária, com o

que o Rio Grande do Sul confirmava a sua vocação

de "celeiro do país", ou seja, além de produzir para

o mercado regional, o estado especializava-se no

fornecimento ao mercado interno brasileiro de gêne

ros de subsistência, in natura ou beneficiados. Ao

lado destas "industrias naturais", estabeleceu-se no

estado um modesto porém estável ramo de "indús

trias artificiais": o metal-mecânico, que se utilizava

de matéria-prima importada para fabricar máquinas

e peças para o serviço da lavoura e da industria.

O governo gaúcho republicano de feição positi

vista que assumiu o poder político em 1889 tinha,

pois, como programa de ação básica no campo eco

nômico, a defesa de um modelo diversificado e in

tegrado, onde os setores agrário e secundário se in-

ter-relacionavam,

dando

ao

estado

um cunho mo

derno, progressista e de auto-suficiência.

Apoiando-se nas idéias de Comte, o "autorita

rismo ilustrado" que governava o Rio Grande re

presentou uma aliança entre setores agrários e não-

agrários da burguesia local que se estruturava. En

tendiam,

à

luz

dos

princípios

positivistas,

que

o

progresso

seria dado

pelo desenvolvimento indus

trial, pelo primado da ciência, pela educação e pela

moral. A

ciência e a indústria assegurariam o pro

gresso, enquanto que a moral e a educação mante

riam a ordem. Ordem e progresso, máximas burgue

sas concebidas numa realidade européia a partir de

um capitalismo maduro, foram adaptadas para sua

execução numa realidade regional distinta. Tratava-

se antes de promover a constituição do capitalismo

do que de desenvolvê-lo. Por outro lado, em condi

ções latino-americanas e brasileiras, o caminho para

a industrialização passava forçosamente pela mo

dernização agrária. Assim, o governo tinha uma

proposta de defesa da indústria sem formalizar um

projeto industrializante. A defesa do setor secundá

setor

rio

só tinha sentido conjugada ao apoio do

primário.

Assim, se o programa do Partido Republicano

Rio-Grandense contava entre os seus postulados a

proteção às indústrias

propunha-se a animar o desenvolvimento da agri

cultura, da criação e das indústrias rurais. Em defe

sa da indústria nacional e regional ameaçada se le

do

país,

ao

mesmo tempo

vantariam os deputados gaúchos no Congresso Na-

cional em

1891, denunciando o convênio assinado

entre o governo federal e os Estados Unidos, o

qual, em troca da entrada do café no mercado norte-

americano, deixava entrar no Brasil, livre de direi

tos, produtos provenientes daquele país, tais como

farinha, banha, máquinas, etc. Ainda em defesa da

industria, os deputados rio-grandenses no Congres

so

advogariam

medidas de

benefício às empresas

brasileiras em geral e não a concessão de privilégios

a fábricas específicas (Deputado Homero Batista.

Anais da Câmara dos Deputados. 1892. v. 5, p. 18-

9). Da mesma forma, quando parlamentares de ou

tros estados lembravam que o Tesouro Nacional

sustentara a guerra civil de 1893-95 no Rio Grande

contra os federalistas e que isso fizera progredir as

indústrias no estado, o deputado Pinto da Rocha de

fendeu-se dizendo que o Rio Grande nunca pedira

nada aos cofres da União para proteção de suas in

se elas estavam prósperas, isso se

dústrias e que,

devia "à inteligência e aos capitais dos próprios in-

dustrialistas" (Deputado Pinto da Rocha. Anais da

Câmara dos Deputados. 1895. v. 6, p. 449).

Da mesma forma, o deputado Victorino Montei

ro, em

1895, argumentava na

Câmara que o pro

gresso industrial do Rio Grande do Sul não poderia

ser atribuído ao encilhamento. O encilhamento., po

lítica econômico-financeira levada a efeito pelo go

verno federal entre os anos de 1891 e 1894, caracte

rizara-se pela ampliação do meio circulante do país

através da emissão de dinheiro e pela ampliação do

crédito, medidas estas postas em prática para satis

fazer as

necessidades do café e

de

uma economia

que passava a basear-se no trabalho assalariado. Di

zia o deputado gaúcho no Congresso: "Não partici

pamos

destes favores e ninguém poderá contestar

que o surpreendente progresso industrial rio-gran-

dense seja exclusivamente devido à iniciativa e ao

esforço dos filhos daquela terra" {Anais da Câmara dos Deputados. 1895. v. 2, p. 536).

Na Assembléia de Representantes, os deputa

dos, para favorecer as indústrias, estabeleciam uma

tática de redução alternada dos impostos de expor

tação para beneficiar igualmente todos os ramos in

dustriais e ao mesmo tempo não reduzir de forma

drástica as receitas do governo no que dizia respeito

à arrecadação de

impostos {Anais da Assembléia

dos Representantes. 1894-1898). Da mesma forma,

procuravam incentivar a racionalização e o aperfei çoamento dos processos produtivos, estabelecendo

delegacias de higiene para fiscalizar a qualidade da

obter bons produtos com

fabricação,

de

molde

a

aceitação no mercado {Relatórios de Presidentes do

Estado, anos 1899-1900). Em 1896, o imposto de indústrias e profissões

já ocupava o 3- lugar entre as fontes de receita do

estado, o que faria o secretário da Fazenda comen

tar em seu relatório: "este fato, que desde si é bas

tante significativo, nos deve merecer maior reparo

[•••]

A

rentabilidade que trata tem ido

sempre em

progresso crescente, atestando por tal forma o de senvolvimento de nossa atividade e progresso in

dustrial"

{Relatório

da

Secretaria

da

Fazen

da. 1896. p. 23).

E claro que tais medidas protecionistas da parte

do governo não podem ser tomadas no sentido de

que o

Rio Grande do Sul vivenciava um processo

Operário da Fundação Becker, 1903

de

industrialização fabril,

mas é também inegável

que tanto a preocupação com o setor secundário se

inseria

nas

metas do governo

republicano quanto

uma ordem urbano-industrial emergia lentamente.

Numa época em que são falhas as estatísticas e

outros dados quantitativos que atestem ou compro vem o surgimento das fábricas, uma comparação entre os catálogos das exposições realizadas no Rio Grande do Sul em 1875, 1881 e 1901 pode fornecer

um quadro da evolução industrial da região. En quanto que em 1875 predominavam as empresas de

pequeno porte, que empregavam reduzido niSmero

de trabalhadores e precária tecnologia, baseando-se

muito

mais nas ferramentas do que nas

máquinas,

em 1881 já há um crescimento significativo do nú

mero

mente

e da qualidade de

empresas maiores, geral

localizadas

nos

maiores centros

urbanos

da

época. Embora apresentando ainda um baixo capital por unidade de produção e combinando o uso de

ferramentas simples com máquinas importadas -

mecânicas, a vapor ou elétricas -, estas empresas

representaram

uma

centralização

de

recursos

nas

mãos de empresários capitalistas.

Em

1897, o Almanack Litterário e Estatístico

do Rio Grande do Sul comentava que a indústria

desenvolvia "a olhos

Almanack destacava,

basicamente, as importantes inovações tecnológicas

fabril

vistos

estava próspera e

de ano

para ano".

se

O

presentes nas maiores empresas, constando de má

quinas vindas da Alemanha ou Inglaterra, via de re

gra acompanhadas de técnicos para fazê-las funcio

nar. O trabalho dividia-se em várias secções e essas

empresas destacavam-se das

demais

pelo

elevado

capital, valor de produção anual e significativo nú

mero de operários. Em 1901, na grande exposição

realizada

em

Porto

Alegre

na

virada do

século,

apresentaram seus produtos aquelas que viriam a ser

as maiores indústrias

durante a República Velha:

Berta, Becker e Ullner (fundição). Companhia Fia

ção e Tecidos Porto-Alegrense, Companhia Fabril

Porto-Alegrense, Companhia Tecelagem Ítalo-Bra-

sileira. Companhia União Fabril, sucessora de

Rheingantz (têxtil e vestuário), Steigleder (carpinta-

ria), Rodolpho França (banha), Neugebauer (cho

colates), Christoffel e Ritter (cervejaria). Os jornais

da época atestam a dinâmica das necessidades de uma economia em expansão baseada no trabalho li

vre: são numerosos os anúncios de oferta e procura

de empregos e serviços que cobrem uma múltipla

gama de atividades.

Defendendo o regime republicano e os "novos

o jornal rio-grandense A Federeção (9

tempos",

jun.

1981)

declarava:

"A indústria protegida efi

cazmente afirma-se; o trabalho nacional favorecido

concorre com o estrangeiro e o vence. Em vez da

mesquinha condição de outrora, em que muitas ve zes, sem ter o que fazer, cruzavam os braços deses perados e impotentes, enquanto os filhos gemiam de

fome,

os

proletários vêem hoje a mão-de-obra re

putada, as fábricas abrindo, florescendo as existen

tes e proporcionando-lhes trabalho e pão. O transi

tório sacrifício que fazem é largamente compensa

do, e amanhã deixará de existir, porque as indús

trias que se estabelecem suprirão em breve, a preços

reduzidos e ao alcance de todos, o necessário, aqui

mesmo fabricado".

Os republicanos rio-grandenses faziam a apolo

gia da atividade industrial, símbolo do progresso, e

pregavam a harmonia entre o capital e o trabalho

como fundamento da ordem social.

Os operários, contudo, tinham uma outra leitura

do processo.

o PROGRESSO NA ORDEM: AS CONDIÇÕES

DETRABALHO

Em 1893, o jornal operário de Pelotas Demo

cracia Social (3 set. 1897) fazia uma reflexão sobre

"a organização da sociedade atual": "Sempre que

se diz que a sociedade atual não está bem organiza

da, não é raro encontrar-se quem a defenda, afir mando que a Repdblica nos deu muitos melhora

mentos-e garantias nas reformas políticas que reali

zou, as quais nos proporcionaram muita liberdade, e

que ainda poderão ser ampliadas à medida que as

necessidades o forem exigindo. Dizem mais que as

indústrias e a agricultura muito se têm desenvolvi

do, o que demonstra que há muito trabalho e como tal não há razão para se falar em reformas sociais,

querendo mostrar com isso que estamos navegando

em mar de rosas, ou desfrutando de grande felicida

de.

[

]

E se assim não é, precisamos então saber

quais são as garantias que a sociedade atual oferece

aos trabalhadores. Será obrigando-os a trabalharem

durante vinte, trinta ou mais anos, sujeitos a mais

cruel exploração e sofrendo privações as mais hor ríveis, para depois irem acabar num asilo de mendi-

cidade, quando não morrer desprezados e ignorados

em qualquer canto, como se fossem irracionais, dei

xando as famílias entregues ao mais completo aban

dono. Ou será consentindo que os menores de 14

anos vão para as fábricas sujeitarem-se a fazer tra

balhos que não estão em harmonia com as suas for

ças, aniquilando-se

passo que deviam aproveitar este tempo nas esco

las?"

assim física

e

moralmente, ao

O quadro era,

pois,

revestido das cores mais

negras e contrastava com a

proposta burguesa de

um progresso ilimitado e de benefícios que se am

pliariam pela coletividade em geral. Uma vez de-

nunciada a sua condição de explorado pelo sistema

e desassistido pelo regime republicano, o operário

procurava

contrapor-se

a

este

tratamento

injusto

pela divulgação de uma imagem positiva da classe:

''O proletário é o mineiro que penetra as entranhas

da terra para de lá tirar o combustível com que se

O proletário é o povo,

alimentam as máquinas [

].

é a nação, é a humanidade [

].

Sem ele nada pro

gride, as principais fontes

produtoras do capital -

agricultura,

indústria

e

comércio

-

não

existir [

].O

proletário é forte,

possante,

poderão

e

é

gi

gante cujos ombros são as bases de toda a organiza

ção

governamental,

produtora e

financiadora das

nações, suporta entretanto o desprezo da sociedade"

(O ProletáHOy Porto Alegre, 5 jul. 1896).

O jornal operário, que se atribuía à defesa dos

interesses desta classe, definia os trabalhadores sob

um duplo ângulo: obreiros do progresso, peça es

sencial da vida moderna, indispensáveis à socieda

de, dotados de um valor intrínseco enquanto classe,

eram contudo

aviltados

e

humilhados pela mesma

sociedade para a qual tanto labutavam.

Independente da postura política de tais perió

dicos -

filiação

quanto ao fato de que, embora trabalhando dura

mente, os operários se viam privados dos benefícios

havia unanimidade

fossem eles socialistas, anarquistas ou sem

ideológica definida -,

trazidos pelo progresso. Reivindicava-se, pois,

''fraternidade e justiça para aqueles a quem sempre

se

reserva o pior lugar no banquete geral da vida,

cujas comodidades e confortos são feituras de suas

calejadas mãos"

(Q Operário^ Cruz Alta, 1- dez.

1902).

Não se trata em absoluto de considerar que, nas

duas últimas décadas do século 19, o proletariado

urbano-industrial fosse totalmente politizado ou

apresentasse uma consciência generalizada de

sua

situação de classe. Inclusive as idéias de progresso

e evolução da sociedade caras aos positivistas e di

fundidas entre a burguesia da época, estava também

presente no meio operário. O que os periódicos ope-

rários questionavam, contudo, era que no momento em que a humanidade atingia um desenvolvimento

notável tão grande, a desigualdade social também se

manifestasse de forma tão

violenta. Como referia o

versinho reivindicatório, bem dentro do linguajar da época:

Proletários! Unidos brademos:

Liberdade, progresso e união:

Igualdade na pátria queremos

Baixe a força e impere a razão.

fO Proletário, Porto Alegre, 12 jul. 1896).

Em suma, o que se quer destacar é que nos jor

nais operários se encontrava o contraponto do dis

curso burguês e positivista segundo o qual o gover

no republicano promovia a "harmonia entre o capi

tal e o trabalho" e a "incorporação do proletariado

à sociedade moderna" sem traumas, de forma ordei

ra e pacífica

Neste sentido, os testemunhos são

vários, contrastando com o relato das fontes oficiais

que enumeravam o movimento ascendente das no

vas empresas surgidas no Rio Grande do Sul, com

suas novas máquinas importadas, descritas com de

talhes,

seus

técnicos

estrangeiros,

seu

crescente

ndmero de trabalhadores assalariados.

Em pleno período de vigência da política eco-

nômico-financeira

do

encilhamento,

de

1890

a

1894, que se caracterizou pela emissão e ampliação

do crédito e por medidas protecionistas que dificul

taram as importações, o jornal Democracia Social (Pelotas, 9 jul. 1893) fornecia um quadro demons

trativo das despesas de um operário fabril compara

das com sua renda, concluindo que, ao fim de um mês de trabalho, sobrava-lhes 840 réis! Concluía

o jornal: "O governo, decretando leis protecionis tas, protege de fato, mas protege meia dúzia, des

protegendo milhares protege os que não precisam de

proteção, deixando os que precisam entregues ao

acaso. Dizem: o protecionismo trouxe muito traba lho, muita extração à indústria nacional, muito in

centivo à exploração de novas indústrias, etc. etc.

[

]

Quem ganha com isto? A grande indústria e o

grosso comércio. O povo é o eterno burro desta bis-

ca política".

Por outro lado, por efeito do encarecimento da

matéria-prima importada, face à desvalorização da

moeda, algumas fábricas foram obrigadas a suspen

der temporariamente o trabalho, como a fábrica de velas estearinas da Companhia Industrial e Mercan

til de Rio Grande, por falta de pavios, deixando sem

emprego grande número de operários (Democracia

Social^ Pelotas, 22 out. 1893).

Portanto, o propalado protecionismo industrial

revelava-se sob uma nova faceta: inflação, elevação

do custo de vida e dos impostos indiretos, pagos por

todos, decréscimo da qualidade dos produtos e fa

bricantes estimulados pela avidez dos lucros e pela

eliminação da concorrência estrangeira.

O fim da política do encilhamento e a implanta

ção do saneamento financeiro a partir de 1894, com

a restrição ao crédito e às emissões, inauguraram

um período de concentração industrial e de melhoria

das condições de câmbio, facilitando as importa

ções. As pequenas empresas que haviam proliferado

no período anterior faliram e foram absorvidas pelas

empresas maiores que, face à valorização externa da

moeda, puderam mais facilmente investir em tecno

logia estrangeira.

Para os operários, contudo, a situação tendeu a

agravar-se, a julgar pelos depoimentos e registros de seus jornais. Em 1896, a Gazetinha (Porto Ale

gre, 10 dez. 1896) denunciava que os patrões esta

vam reduzindo os salários dos operários, sem que

com isso reduzissem também o preço dos artigos fa bricados. Desta forma, o patrão ampliava seus lu

cros, enquanto que a população trabalhadora tinha

duplicadas as suas perdas. Por outro lado, por efei

tos recessivos da política de saneamento financeiro,

muitas fábricas fecharam, deixando os operários

sem trabalho e sem salário (Gazetinha, Porto Ale

gre, 4 mar. 1897), em situação de desemprego e de-

sassistência

que

se

prolongava

por

mais

de

um

ano

Descrevendo a situação do proletariado urbano-

industrial no Rio Grande do Sul, o Echo Operário

(Rio Grande, 23 jan. 1898) registrava: "Ganhando

{Gazetinha, Porto Alegre, 17 dez. 1898).

salários insuficientíssimos,

lutando com uma crise

de trabalho que se prolonga interminavelmente e

que já vem de longa data, o operário vê-se assober

bado pelas necessidades as quais não pode debelar

porque em tudo são superiores às suas forças".

Fazendo também uma comparação entre as des

pesas mensais de

uma família operária com a sua

receita, b periódico concluía pela existência de um

déficit de 5$ para o trabalhador

Feita a compara

ção com os dados da Democracia Social para 1893,

a situação do proletariado teria piorado. Natural

mente, não podem ser tomados tais cálculos ao pé da letra, devendo o historiador sempre precaver-se

contra a "falsa segurança" dos números

Entre

tanto, são registros significativos que, tomados em

conjunto com os demais, formam um quadro indica

tivo em que, pelo menos, conclui-se que a situação

dos operários não deva ter melhorado no fim do sé

culo. Mesmo jornais que não eram porta-vozes da classe operária registravam que o embrutecimento e

povo se devia à miséria crescente a

desespero do

que se via submetido {Gazeta da Tarde, Porto Ale

gre, 2 dez. 1897). Dentre todas as categorias profis

sionais operárias, aquela que era considerada a mais

explorada era a dos alfaiates. Fazendo serão, traba

lhando em casa ou na alfaiataria, recebiam os mais

baixos salários, numa longa jornada que se estendia

das 6 horas da manhã até as 9, 11 ou meia-noite {O

Alfaiate, Porto Alegre, 12 out. 1907). Neste con

texto, quais eram, pois, as condições de trabalho

nas fábricas no fim do século?

"Os operários em sua maior parte vivem como

que seqüestrados do mundo dos movimentos livres,

adstrictos a movimentos rítmicos reiterados; em al

gumas industrias

principalmente, as

condições se

dentárias da vida, reunidas às circunstâncas deleté-

rias do meio-ambiente e à privação do exercício ne

cessário ao gozo de uma saúde perfeita, constituem

um atentado à vida dos infelizes trabalhadores. Os

alfaiates, sapateiros, costureiras, tecelões são os que

estão

pelas

mais

sujeitos a esses

circunstâncias

acima

esgotamentos de vida

citadas,

cujas

conse

qüências são o aumento das estatísticas dos anêmi

cos, tísicos e escrofulosos, porque está plenamente

provado que a monotonia de muitos gêneros de tra

balho origina o aborrecimento e, conseqüentemente,

com o tédio provoca a anemia, a mais clara das ma

nifestações dela. Daí pois, chegar-se à conclusão de

podem

que

os

trabalhos

musculares

parciais

[

]

prejudicar a normalidade das formas, alterar a har

monia do sistema osteológico, produzindo defeitos,

tais como o crescimento das mãos, pernas e braços,

como se notam nos operários de certas profissões''

(A Voz do Operário, Porto Alegre, 1- abr. 1899). O registro é particularmente interessante porque

constitui uma contra-argumentação aos princípios

tayloristas, que, elaborados a partir da observação

do trabalho dos operários nas fábricas americanas,

buscou instalar critérios de administração científica nas empresas para obter maior eficiência industrial.

Nesse sentido, o método taylorista buscava extrair o

máximo de

as

tarefas

rendimento do trabalho, racionalizando

pela sua decomposição em movimentos

ritmados, regulares, encadeados, visando economi

zar tempo e tornar o operário quase um autômato,

tal

o

seu condicionamento. Difundidos entre os em

presários ao longo das primeiras décadas do século

20, os princípios da administração científica do tra

balho concebido por Taylor viriam atrair também os

governos republicanos interessados em racionalizar

a produção.

Prosseguindo na sua crítica às condições de tra

balho

nas fábricas,

os jornais operários denuncia

vam: "a todos os males acima mencionados, reúna-

se as más condições higiênicas das oficinas com at

mosfera geralmente impregnada de vapores deleté

rios, de poeira nociva, de gérmens nefetínicos, o

traumatismo cirúrgico sob todas as formas e teremos

o quadro negro de que sofre o operário e que Karl

Marx assim descreveu" (A Voz do Operário^ Porto

Alegre,

abr. 1899).

Dentro de uma postura socialista, o jornal ope

rário buscava encontrar no Rio Grande as "fábricas

satânicas" descritas por Marx na Inglaterra algumas

décadas antes. Trata-se, sem duvida, de um discurso

ideológico, politizado e com o objetivo de despertar

no operário a consciência de pertencer a uma classe

explorada e dominada mundialmente pelo capital.

Para os líderes operários da época, esta meta políti

ca

ou

este procedimento estratégico tanto mais se

fazia necessário quanto mais se verificava que parte do proletariado era cooptado pelo governo e pelos

empresários.

Muitas vezes, ao serem entrevistados, os traba

lhadores afirmavam ter respeito e admiração pelo

"bom patrão" (entrevista com operário da Rhein-

gantz, de Rio Grande; Democracia Social^ Pelotas,

31 dez. 1893), numa clara demonstração de que as

práticas de assistência social promovidas pela em

presa (caixa de socorros, casas para operários) esta

vam tendo êxito. Numa época em que o próprio em

presário se encontrava presente dentro da fábrica, à vista dos empregados, o paternalismo nas relações

capital/trabalho tinha um vasto campo de ação. Por

vezes, o mito do enriquecimento pelo trabalho ou a

saga do imigrante perseverante que vencera na vida com o seu suor se impunham ideologicamente, di

fundidos pelos próprios empresários que se esforça

vam por relembrar que eles, nas suas origens, eram

pobres e haviam chegado como imigrantes também

(P Operário^ Cruz Alta, 1- jan. 1903).

O fato de haver operários cooptados pelo siste

ma não invalida a existência de vozes discordantes

que, embora inflamadas por uma clara ideologia de

contestação

à

ordem

burguesa,

apontam

para

a

existência de condições de trabalho e de vida dis tintas daquelas alardeadas pela burguesia e pelo go

verno.

Deve-se ter em conta ainda que, se as condições

fossem tão boas ao nível das empresas, não ocorre

riam greves operárias reivindicando melhores con

dições de trabalho, higiene das fábricas, melhor

tratamento dos mestres e fiscais para com os operá

rios, elevação de salário, diminuição da jornada de

trabalho, etc. Ocorreram neste período várias greves

de trabalhadores: em abril de 1890, os tipógrafos de

Pelotas rebelaram-se em função das condições de

pagamento de

Grande, 400

trabalho; em julho de

1890, em Rio

empregados da Rheingantz entraram

em greve, exigindo a retirada do inspetor da fábrica;

em agosto de 1893, chapeleiros de Pelotas fizeram

greve por aumento salarial; em outubro de 1893,

declaram-se

em

greve

os

carroceiros

de

Pelotas

contra a Câmara Municipal, que ordenara o paga

mento

sem

de

molas;

um imposto de

em

rodagem sobre carroças

1895, declararam-se em greve os

trabalhadores da Alfândega, da capital, pelo fato de

a polícia ter prendido alguns funcionários suspeitos

de roubo; no mesmo ano, pararam os operários da

Companhia Fiação e Tecidos Porto-Alegrense, rei vindicando aumento de salário; por igual motivo le

vantaram-se em greve, no mesmo ano, os emprega

dos da estrada de ferro de Porto Alegre a Uruguaia-

na;

ainda em

1895, tornaram a

declarar greve os

operários

da

Rheingantz,

reclamando

uma hora e

meia para almoço; em

1897, ocorreram em Porto

Alegre greves dos trabalhadores da Companhia Fá

brica de Móveis contra os maus tratos do mestre da

fábrica; do pessoal operário da fábrica de chapéus

de

Guilherme Eggers, por aumento salarial, e dos

trabalhadores da Tecelagem Ítalo-Brasileira, de Rio

Grande, contra a retenção dos salários pela empre

sa, a redução do pagamento dos operários que tra

balhavam em dois teares e o aumento da jornada de

trabalho em uma hora e meia; em 1898, retornavam

à greve os carroceiros da capital e o pessoal de des

carga

na

estação de Cacequi da estrada de ferro

Porto Alegre a Uruguaina. Ainda em

1898, traba

lhadores do Centro Telefônico de

Pelotas pararam

em

solidariedade a

um companheiro dispensado e

em Rio Grande os descarregadores da praia entra

ram em greve por aumento salarial. Note-se que,

entre as greves citadas, que atingem não só o âm

bito fabril como também o setor de serviços, se en

contram as dos trabalhadores da Rheingantz, empre

sa onde alguns operários haviam emitido opiniões

favoráveis ao patrão

ocorridas nessa empresa, as queixas dos seus tra balhadores se avolumavam sem chegar a constituir-

se em paralisação. Reiteravam-se, por exemplo, as

queixas contra as multas cobradas pela fábrica aos

operários que estragavam peças ou instrumentos de

Paralelamente às greves

trabalho ou contra a proibição de que se ensinasse

na escola da fábrica aos filhos dos operários algo

siérn das quatro operações, leitura e escrita (Echo

Operário^ Rio Grande, 12 set. 1897).

Baixos salários, longas jornadas, maus tratos de

superiores e más condições de trabalho nas fábricas

eram

queixas

freqüentes

do

trabalhador

do

sexo

masculino e adulto. A situção se agravava quando

se

tratava

de

mulheres

e

crianças.

em

1897

constatava-se a presença de mulheres e menores na

industria, fazendo concorrência ao trabalho dos ho

mens, tendo em vista os baixos salários pagos a es

tas categorias (Echo Operário^ Rio Grande,17 out.

1897).

Ao referir a preferência das empresas em em

pregar mulheres, o Echo Operário (Rio Grande, 7

nov. 1897) comentava: "a vantagem está em que as

mulheres sujeitam-se mais à exploração que os ho

mens por trabalharem sempre mais barato que estes.

Até agora só as mulheres do proletariado é que

temos visto exercer todas as profissões por pesado

que seja o exercício delas, e isso é devido à miséria

da classe a que pertencem".

] [

de

A. esses

argumentos

acrescentavam-se

outros,

natureza moral, como, por exemplo, o fato das

mulheres

serem

desta

forma

retiradas

do

convívio

do

lar para serem arrastadas à promiscuidade das

fábricas.

Igualmente

os

menores,

arrancados

da

guarda dos pais, eram levados a realizar tarefas mal pagas, sendo os primeiros a sofrerem com os aci

dentes no trabalho, tornando-se cedo inválidos.

As mulheres se viam ainda sujeitas às investidas

amorosas

dos

patrões,

capatazes e mestres {Echo

Operário^ Rio Grande, 26 set.

1897) ou, uma vez

grávidas, eram obrigadas a realizar o mesmo traba

lho das demais, sob pena de multas e de sanções ou

mesmo o risco de serem mandadas embora (Gazeti-

nha. Porto Alegre, 24 set. 1898). Determinadas pro

fissões, exercidas preferencialmente por mulheres,

eram ainda as que sofriam maiores penalidades. O

caso das costureiras é digno de nota. Tanto eram

obrigadas a pagar com seus salários todo o material

que

gastavam

no

serviço

(linha,

agulhas,

grude,

etc.) quanto o produto final do seu trabalho podia

ser recusado pelo patrão, sob a alegação de que não

tinha qualidade! (JDemocracia Social, Pelotas, 19

condições, ainda se viam

nov.

1893).

Fora

tais

obrigadas a descontos salariais como pagamento de multas e penas caso houvesse algum dano na produ

ção, atraso na hora de entrada na fábrica ou falta ao

serviço. Aquelas que realizavam suas tarefas no lar,

sob encomenda das instituições ou empresa (como é

o caso das vidvas que costuravam para o Arsenal de

Guerra) eram freqüentemente ludibriadas no paga

Alegre, 23 maio

mento

(Gazeta da Tarde,

Porto

1895).

A fábrica era, contudo, apenas um dos espaços

onde se desenrolavam as tranformações do fim do

século. Fora de seus muros, a ordem burguesa se estruturava na cidade emergente.

o ESPETÁCULO DA CIDADE:

ASSIMETRIA SOCIAL

E OCUPAÇÃO DO ESPAÇO

O

crescimento de um setor industrial manufatu-

reiro encontra-se

intimamente associado ao

cresci

mento das cidades.

Estas, evidentemente, preexis-

tiam ao desenvolvimento industrial, mas é no bojo

da transformação capitalista da sociedade brasileira

que se

deu a emergência paralela do

crescimento

urbano. Foi nas cidades que a economia de mercado

se realizou historicamente, tornando-se o locus pri

vilegiado de uma série de processos ao mesmo tem

po econômicos, sociais, políticos, culturais e ideo

lógicos de afirmação e consolidação do capitalismo

enquanto sistema. Em outras palavras, a emergência

da urbanização associada ao capitalismo represen

tou muito mais do que inovações na organização da

produção, inaugurando novas formas de comporta

mento e

novos valores.

urbana

que acompanhou o desenvolvimento industrial im

plicou uma reordenação da vida econômica e do es paço, manifesta no aprofundamento da divisão so cial do trabalho, na concentração de recursos, das

Numa

primeira

instância,

a

expansão

técnicas e dos bens, no nucleamento espacial da in

dústria e numa concentração populacional sem pre

cedentes. Ora, a ocupação do espaço urbano, por

seu lado, tendeu a reproduzir a assimetria presente

nas relações sociais, impondo mecanismos de se

gregação, discriminação e confinamento.

Além disso, a concentração populacional favo

receu a comunicação entre

os indivíduos, fortale

cendo a solidariedade vicinal, a troca de opiniões e

a circulação de idéias, bem como reforçou as formas

organizatórias da sociedade civil. Enquanto unidade

de realização da economia de mercado, a sociedade

urbana

é

eminentemente

uma

sociedade

de

consu

mo, na qual os meios de comunicação desencadeiam

entre a população um mecanismo de efeito-demons-

tração ao divulgarem os

tretanto, esta capacidade de consumo não pode se

efetivar de maneira uniforme, pois a cidade, embora

aja como um foco de esperança de promoção social,

é um pólo concentrador de pobreza, assim como o é

de riqueza.

produtos

industriais. En

O

"viver em cidades" introduz uma nova con

cepção de tempo, não mais marcada pelas estações, pelas variações climáticas. Inaugura-se uma nova

concepção de "tempo util", marcada pelo relógio,

tfpica do capitalismo e estranha à sociedade agrária.

Esta noção, uma vez introjetada no habitante da ur-

be, estabelece um "relógio moral" no interior de

cada indivíduo, compelindo-o ao trabalho e à neces

sidade de

utilizar racionalmente o tempo para pro

duzir, promover o seu sustento e de

sua família e

fazer face às novas necessidades trazidas pela vida

urbana.

Tais

transformações alteram significativa

mente os padrões de conduta. A inddstria e a urba

nização, embora eatabeleçam um processo cumula

tivo contínuo de

transformações sociais e de

con

centração de recursos, acabam por destruir também

progressivamente a natureza, impondo a necessida

de de repor os elementos ameaçados. Em suma, o

fenômeno urbano proporciona a emergência de no

vos problemas e põe em pauta uma série de ques

tões concretas a resolver, tais como a produção da

energia, o saneamento urbano, a habitação popular,

a racional utilização dos recursos naturais, a educa

ção e o lazer, os efeitos da tecnologia sobre o tra

balho industrial, a necessidade de organizar o mer

cado de trabalho, a definição de regras e institui

ções de controle social, a satisfação das necessida

des de abastecimento, o enfrentamento das greves,

etc. Teoricamente estabelecida a correlação entre a

organização do espaço urbano, o desenvolvimento

do capitalismo e os mecanismos de controle social,

deve-se ter em conta as condições concretas objeti

vas em que essa gama de processos tiveram, ou não,

lugar no Rio Grande do Sul. Estabelecendo uma

comparação entre a população e a taxa de cresci

mento populacional do Rio de Janeiro, de São Paulo

e de Porto Alegre em três momentos diferentes, é

possível formar o seguinte quadro:

POPULAÇÃO E TAXAS DE CRESCIMENTO DOS

MUNICÍPIOS DAS CAPITAIS

Capitais

População recenseada

Crescimento

médio anual

 

1872

1890

1900

1872

1890

 

a 1890

a

1900

Rio de Janeiro

274.972

522.651

691.565*

0,0363

0,0284

São Paulo

31.385

64.934

239.820

0,0412

0,1396

Porto Alegre

43.998

52.421

73.674

0,0098

0,0346

*Calculada.

Fonte: SQ^ai2iX2í-àoAnuário Estatístico do Brasil, 1930/1940.

Pelos dados pode-se ver que o Rio de Janeiro

manteve a sua posição de maior centro urbano do

país, mas coube a São Paulo o salto mais espetacu

lar ocorrido justamente no período republicano, o

que sem ddvida alguma se explica pela dinamicida-

de do complexo cafeeiro ora em expansão. Entre

tanto, o caso do Rio Grande do Sul, deve também

merecer reparos.

Se, em números absolutos, a po-

lulação recenseada guarda ainda certa distância em

relação àqueles apresentados pelos centros urbanos

maiores do Rio e de São Paulo, por outro lado o

crescimento médio anual é extremamente significa

tivo, comparando a primeira década republicana

com as duas ultimas décadas do Império.

O crescimento populacional de Porto Alegre

deve-se, muito provavelmente, ao desenvolvimento

do complexo colonial imigrante, no sentido de ex

portar alimentos e gêneros manufaturados simples

para o mercado central cafeeiro. Em função da di-

namização da cidade como centro comercial escoa-

dor da produção colonial, ampliaram-se as pwDssibi-

lidades de

emprego dentro de

uma economia que

transitava para o trabalho livre. Não se trata, é bem

verdade, de uma maior possibilidade de rotação de mão-de-obra do campo para a cidade, tal como

acontecia em São Paulo, onde os imigrantes vinham para assalariar-se e não como colonos proprietários.

Como se viu, esse processo de êxodo rural é mais

lento no Rio Grande do Sul, o que inclusive evi

dencia uma taxa de crescimento populacional urba

no mais baixa. Todavia, não é possível esquecer as

migrações cidade-cidade (do interior para a capital),

os imigrantes que já vinham diretamente para a urbe ou ainda os efeitos da abolição da escravatura,

quando os libertos, surgida a possibilidade, tende

ram a

dirigir-se

para os

centros

urbanos maiores,

onde tinham melhores chances de ganhar a vida.

O crescimento da cidade nos primeiros anos da

República levaria a Intendência de Porto Alegre a

fixar os limites urbanos da capital pelo Ato n- 12,

de 31 de dezembro de 1892, com o objetivo de, sob

o novo regime que se inaugurara, "estender a todos

os núcleos de populações esparsos nas proximida

des da capital os benefícios da vida, administração e

policiamento da cidade", providências estas que

deviam ficar a cargo da municipalidade (Jntendên-

cia Municipal. Leis Municipais de 1892 a 1900).

à

A

organização

do

espaço

urbano

oferecia

burguesia emergente novas oportunidades de inves

timento

de

capitais.

Os

terrenos

se

valorizavam,

particularmente naquelas que eram consideradas as

zonas nobres da cidade, onde as elites, de preferên

cia, fixavam suas residências: Rua Duque de Caxias

e Avenida Independência. Mas não só de palacetes

feição aristocrata mas habitados por burgueses

de

que a cidade crescia: fábricas, armazéns, oficinas,

prédios públicos se erguiam para o desempenho de

diferentes funções e para corresponderem às neces

sidades de uma cidade em expansão. Em 1893, ha

viam sido concedidas licenças para a construção de

300 casas térreas, 10 trapiches, 2 oficinas, 5 fábri

cas e

18 armazéns {Relatório do Conselho MunicL

pai de Porto Alegre de 1893), O governo municipal

estimulava as construções e a utilização e aprovei

tamento do solo urbano, como se pode ver nas me

didas tomadas em 1896 da criação de um imposto adicional sobre os terrenos baldios que ainda exis

tiam no centro da cidade {Anais do Conselho Muni

cipal de Porto Alegre de 1896),

Caberia lembrar que Rudolf Ahrons, o famoso

engenheiro responsável por um grande número de

edificações em Porto Alegre no início do século,

particularmente de prédios públicos, mas também de

fábricas e residências burguesas, abria seu escritório

de engenharia e arquitetura em 1895. A valorização do solo urbano abria caminho pa

ra a especulação imobiliária. Formaram-se compa

nhias loteadoras que, arrematando terrenos por bai

xo

preço, passaram a

vendê-los

à

população, ex

pandindo a

urbanização da

cidade

para zonas até

então inabitadas.

Em particular, um problema se configurava para

a burguesia emergente: o do assentamento de uma

população pobre, trabalhadora das fábricas e que,

por conveniência e controle, deveria habitar próxi

ma dos locais de trabalho. Nesse sentido, surgiu a

Companhia Territorial Porto-Alegrense, responsável

pelo loteamento dos bairros operários Navegantes e São João em 1895, sob a direção do capitalista José

Lins Moura de Azevedo. Na mesma época, sob a

iniciativa de Manoel Py, comerciante e industrialista

da capital, realizava-se o loteamento do bairro Au

xiliadora. Surgia assim, com o crescimento da cida

de,

o

"problema habitacional".

Se, para o pobre,

ele se configurava em termos de encontrar um lugar

onde morar a baixo preço, para a elite e o governo a

questão apresentava outras conotações. Habitação

para as classes menos afortunadas podia se conver

ter numa fonte de renda para aqueles proprietários

de casarões no centro da cidade, assim como tam

bém lotear zonas periféricas da cidade, afastadas do

apresentava

centro

mas

próximas

às

fábricas,

se

como um negócio lucrativo para a burguesia emer-

Passava a investir na especulação imobi

liária. ara a opinião publica em geral, de tendência

conserva ora, a existência de cortiços, porões, ca

sebres e barracos sem ar e sem luz, infectados e su

perlotados, era Um problema a ser atacado. Pobres

no centro

a cidade, à vista de todos, em antros de

promiscuidade e sujeira, implicavam sobretudo uma

questão moral que devia ser solucionada.

Mais do que a todos, entretanto, era ao poder

pdblico que cabia apresentar soluções. A Repáblica

fora procl^ada sob os auspícios do progresso e do

trabalho livre, mas dentro de ordem, e populações

pobres sem teto convertiam-se em focos de tensão

social, que era preciso evitar. Quando da proclama-

ção da República, registravam-se 5.996 prédios em

Porto Alegre, 4.692 casa térreas, 464 assobradadas

e 634 sobrados, 65 fora da divisa da cidade, e ainda 141 cortiços. Se para as demais edificações a esta

tística calculava uma população de 8 a 12 pessoas

por casa, nos cortiços '*a aglomeração é tal que di

ficilmente se chegará a um bom recenseamento en

tre seus habitantes, a maior parte sem família e vi

vendo em promiscuidade repugnante" (Armário do

Estado do Rio Grande do Sul. 1892).

A este quadro ainda poderiam ser acrescentadas

certas "heranças" do regime monárquico que a Re

pública deveria resolver: em 1889, os colonos imi grantes não aceitaram as terras a eles destinadas e

voltaram à capital, ficando a perambular pelo Mer

cado Público, sem teto e sem trabalho, a esmolar ou

a

biscatear,

sujeitos

a

doenças

(Mercantil^

Porto

Alegre, fev.-mar.

1889). A Intendência Municipal

tinha, pois, como atribuição tentar resolver o pro blema habitacional das classes populares. O jornal

Gazeta da Tarde (Porto Alegre, 13 mar. 1896), de

tendência

conservadora

e

moralista,

recomendava

que competia aos poderes públicos criar habitações

baratas para os pobres, como meio de "sossego e

moralização", com o que os afastava da taberna, e

os concitava à vida familiar, regrada e parcimonio- sa. Portanto, tal como a questão era apresentada.

aquilo que era problema do trabalhador apresenta

va-se também como

problema do patrão: sem casa

própria, o operário descambava para a promiscuida

de, a bebida, o vício, e os empregadores e o próprio

Estado só teriam a lucrar com a efetivação de medi

das que eram não apenas econômicas, como sobre tudo moralizadoras. Como vantagem adicional, o

periódico lembrava que o operário, uma vez deten

tor de casa própria e integrado a uma vida familiar

tranqüila, poderia viver feliz mesmo com um salário

modesto.

A

opinião publica conservadora recriminava a

existência de cortiços, porões, casebres e barracos

que,

superlotados

e

infectados, sem ar e

sem luz,

eram antros de promiscuidade e sujeira. Argumen

tava

a

Gazeta

da

Tarde

(Peto

Alegre,

17

jan.

1898): "A moradia em porões, é de necessidade ur

gente proibir, mas de modo terminante, sem transi-

gências. Os pseudo-filantropos, proprietários de po

rões e cortiços, perguntariam logo: mas onde irá

morar esta gente pobre? É fácil a resposta. [

]

Os

arrabaldes

estão

e

devem

ser

habitados

pelos

proletários. Na cidade propriamente dita, só devem

residir os que podem sujeitar-se às regras e precei

tos da higiene". "Quem é pobre não tem luxo [

more na cidade quem tiver condições de cidadão"

]

(Gazeta da Tarde^ Porto Alegre, 12 abr. 1897).

Portanto, os moradores dos cortiços, "indiví

duos sujos, sem escrúpulos de ordem alguma" (Ga

zeta da Tarde^ Porto Alegre, 17 jan. 1898), "gente

de

ínfima classe

social"

(Gazeta da Tarde^ Porto

Alegre, 15 fev. 1896), com "caras patibulares", de

veriam

ser

retirados

do

convívio

dos

cidadãos

e

ocultos da vista das famílias de bem. O povo das

ruas era pois um conjunto de indivíduos "feios, su

jos e malvados", que, a bem da ordem e do progres

so, urgia que se retirassem do centro da cidade. A

Intendência tomava providências no sentido de im

pedir a superlotação dos cortiços, multando os pro

prietários (Gazeta da Tardey 4 dez. 1896). E apre-

sentavam-se

sugestões

para proibir a moradia em

porões e elevar o

pagamento da

décima naquelas

que não apresentassem boas condições

Solicita

va-se à Intendência que adotasse um tipo mínimo

para as edificações no perímetro urbano da cidade,

evitando a proliferação de

casas de cômodos que

surgiam, fruto da exploração imobiliária dos "usuá

rios da terra" {Gazeta da Tarde, Porto Alegre, 12

abr. 1897).

Em suma, com a ocupação do espaço urbano e a

valorização dos imóveis, a especulação imobiliária

havia se revelado uma nova forma de acumulação

capitalista. Por outro lado, numa cidade que preten

dia

assumir contornos

modernos e

urbanizar-se, a

presença de cortiços superlotados, pouco higiênicos

e promíscuos era uma triste imagem que se deveria afastar. Na divisão do espaço que obedecia à assi

metria social, os subalternos deveriam ser varridos

da área central, levados aos subúrbios, aos arrabal

des, às novas áreas que eram loteadas, sob o influxo

da mesma atividade imobiliária que remodelava o

velho

centro

da

cidade.

Para

essa

operação,

ao

mesmo tempo saneadora, moralizante e especulativa

mas sempre baseada em critérios classistas, conver

giam as opiniões dos homens de governo e daqueles

mais

situados socialmente. Naturalmente, as ações

do governo e a opinião pública iriam se chocar com

Rua Marechal FSoriano, final do século. Porto Alegre

a especulação realizada contra os proprietários dos

cortiços e porões onde moravam os pobres, mas este

seria um conflito a ser resolvido quando se tratasse

de botar abaixo a velha moradia para dar lugar às

novas construções. Nesse caso, a valorização dos

imóveis

nas

zonas

mais

lucros aos proprietários.

centrais

daria

novamente

A questão habitacional, como não poderia dei

xar de ser, era também sentida por aqueles mais di retamente atingidos pelo problema, que, contudo,

tinham

uma leitura diferente da

realidade.

Para os

moradores dos cortiços, culpados eram os proprietá

rios

das casas, que elevavam o preço dos aluguéis

a níveis exorbitantes e dividiam o espaço em cu

bículos cada vez menores para aproveitar o espaço;

culpada era ainda a Intendência, que não punha em

prática os artigos do código de posturas municipais,

multando

aqueles

proprietários

que

não

zelavam

pela

ainda

conservação

dos

culpada

porque

prédios;

estimulava

a

Intendência era

dos

o

aumento

aluguéis

naquelas

casas

que

apresentavam condi

ções razoáveis de locação e permitia a proliferação

desordenada de construções destinadas àqueles que,

sem ter recursos, eram obrigados a habitar tais lo

cais

{Gazetinha^

Porto

Alegre, 25

ago.

1895; 20

ago. 1898). Finalmente - e aqui residia a grande di

ferença -, se

poder publico e proprietários assim

agiam, era porque o sistema político implantado permitia que as diferenças sociais se ampliassem e

estabelecera duas classes de cidadãos: os que ti nham direitos e os que só tinham deveres.

CIDADANIA EM QUESTÃO:

ZÉ POVINHO RECLAMA E EXIGE

['

Ao Zé Povinho:

]

Tu sabes, ó meu Zé,

o quanto custa o café,

o-pesar da mistura, a lenha e a carne que engoles.

Ciente e consciente de que, por isto, a vida te é ca-

^a., não

tens mais a fazer do que dirigir-te,

em

companhia

do

restante

da população,

ao

nosso

ilustrado intendente municipal e pedir-lhe que não

consinta que sejamos ludibriados pelo senhorio. É

o caso: pagamos honradamente os aluguéis das ca

sas em que moramos,

e

portanto,

vivemos ou su

pomos viver descansados de não ser incomodados

por eles, mas engano completo. Chega-lhe um su

jeito, oferece-lhe mais dez ou vinte mil réis sobre o

aluguel da sua casa e vai ele, ZÁSI Chega-se com a

cara meio suja pelo

acanhamento

e

diz-nos — o

aluguel, deste mês em diante —custa-lhe TANTO.

Se lhe serve tem a preferência, se não, desocupe a

casa. QUANTO ANTES, pois tenho quem me dê

muito mais. E sobre este arbítrio que deves recla

mar providências ao nosso ilustrado e criterioso

co-estaduano [o Prefeito]

disse.

Zé Pedro.

E

(Gazetinha, Porío Alegre, 16 jan. 1896).

Povinho,

caricatura

bastante

conhecida

da

época, aparecia nos jornais como o símbolo do po

vo: magro, enfezado, sofredor, desassistido pelas

autoridades,

deserdado

pelo

sistema,

reclamando

sempre. Joguete nas mãos dos políticos.

Entretanto, a República foi proclamada em no

me

também

da

abolição

dos

privilégios

do nasci

mento e a palavra cidadania tinha um sentido preci

so de extensão de direitos ao povo, estabelecendo

uma relação entre os governados, que pagavam im

postos, obedeciam às

leis e votavam, e o Estado,

que administrava os serviços públicos e controlava

a política. Ora, a prática da cidadania revelava-se

uma tarefa difícil, pois, se as diferenças de nasci

mento haviam sido extintas com a Monarquia, per

maneciam aquelas advindas das diferenças sociais,

fazendo com que existissem dois tipos de cidadão.

Como refere José Murillo de Carvalho {Os bestiali-

zados, 1987): "Embora proclamado sem a iniciativa

popular, o novo regime despertaria entre os excluí

dos do sistema anterior certo entusiasmo quanto às

novas possibilidades de participação".

Esta

participação

almejada

via-se,

na

maior

parte das vezes, frustrada quanto à possibilidade de

uma verdadeira "troca" ou reciprocidade na relação

cidadão/Estado. O povo via-se como um cidadão de

segunda classe, a quem só

competiam deveres. E

bem verdade que constatações desta natureza já ocorriam antes mesmo da Repdblica. Em 1880, por

exemplo, por iniciativa do Partido Liberal, fora

aprovada a Lei Saraiva, que concedia direito de

votar e ser votado aos católicos e estrangeiros natu

ralizados, assim como aos libertos, ao mesmo tempo

censitários:

que

realizava

alterações

nos

critérios

dobrava a renda líquida para os cargos eletivos e

reduzia a renda necessária para ser eleitor, com o

claro propósito de garantir o voto dos colonos ale

mães. O Jornal O Século (Porto Alegre, 2 dez. 1880)

extremamente crítico frente às articulações políticas

dos partidos monarquistas, concluía que a renda lí quida anual de 200$0C)0 para ser eleitor tirava "o di

reito de votar à ciasse menos favorecida da fortuna,

aquela a quem pertence o Zé Povinho". Um ano

depois, criticando a "afilhadagem" entre os dois partidos, O Século (Porto Alegre, 25 set. 1881) co

mentava: "As coisas são sempre assim: brigam, de

compõem-se, esfolam-se, e por fim das contas quem

perde é o pobre Zé Povinho que paga impostos es

candalosos para serem distribuídos com os pimpo-

Ihos".

Republica

recém-proclamada, os

reclamos não

se fizeram esperar: "Onde estão estas promessas de

bem-estar, de abundância e de liberdade que a cada

passo se fazia com palavrões cheios de uma retórica

que hoje consideramos ridícula por parte deste go

verno que dirige atualmente os destinos do Estado?

] [

Esta política intolerável, imprestável mesmo,

rouba-lhe o necessário tempo para cuidar dos inte

resses do povo, deste mísero e infeliz povo que, no

entanto, é a alma do Estado, a alavanca do progres

so, o motor da riqueza pdblica" {Gazetinha, Porto

Alegre, 3 abr. 1892).

Alguns anos mais tarde, já na virada do século,

o mesmo periódico viria expressar novamente o seu

desencanto:

"Nove anos faz amanhã que o trono

rnonárquico brasileiro, cedendo ao ingente esforço dum punhado de bravos, desmoronou, caiu. [ ]

Benjamin Constant, Silva Jardim e outros, convictos

e

convencendo que a República era a única forma

de governo compatível com o progresso de um povo

conseguir, por meio daquele verbo eloqüente, duma

dedicação sem limites, despertar pouco a pouco no

coração frio dos indiferentes a felicidade da Pátria,

um sentimento nobre, elevadíssimo, que em breve

transformou-se em convicção arraigada. [

] O

Bra

sil, em 15 de novembro de 1889, deixou de ser uma

monarquia republicana para ser uma República mo

nárquica. E desgraçadamente, é esta a verdade, foi

antes uma mudança de título do que uma mudança

de forma. Os abusos, os

privilégios, as honrarias e

preconceitos permitidos pela constituição monárqui

ca continuavam a ser postos em prática como antes,

com a única diferença que antigamente se faziam

em nome da lei e hoje se faz desrespeitando-a so

mente. Como dantes, existem classes privilegiadas,

como dantes se fazem 'os homens para a lei e não a

lei para os homens" (Gazetinha, Porto Alegre, 14

nov. 1898).

Ambos os depoimentos refletem a reversão das

expectativas do povo em relação às promessas do

novo

regime

e

a

deturpação dos

seus

princípios.

Não se tratava de assumir uma posição reacionária,

de um "saudosismo monárquico"; o próprio perió

dico afirmava que a República era um "fato consu

mado" e que era através dele que as soluções deve

riam ser buscadas. Entendia-se, contudo, que, se a

República estabelecera o princípio de que todos os

cidadãos eram iguais perante a lei, era deplorável

que só ocupassem cargos "homens pergaminhados

ou com bens de fortuna, em detrimento dos interes

verdadeira

ses

da

massa anônima que constitui a

opinião popular de um país, visto como é a maio

ria" {Gazetinha, Porto Alegre, 10 nov. 1898).

O

operariado era um instrumento inconsciente

do jogo de poder e os pleitos eleitorais não lhe di

ziam respeito uma vez que os trabalhadores não ti

nham representantes seus no meio político (Gazeti-

nha. Porto Alegre, 17 abr. 1892).

Entretanto, se o jogo político era vicioso e o re

gime traíra suas promessas, o poder público era o

responsável pelas condições de vida e de trabalho e

pelos serviços urbanos que eram sustentados pelos

impostos pagos pelos contribuintes. Em síntese, a

cidadania era invocada como direito e não apenas

dever para os desfavorecidos. O habitante das cida

des, eleitor e pagador de impostos, considerava-se com competência para reclamar e exigir do poder

público aquilo que lhe cabia prover e realizar. Natu ralmente, em se tratando de serviços públicos urba

nos, o questionamento se dava em termos de admi

nistração municipal.

Acusava-se o governo do município responsá

vel pela não aplicação da receita arrecadada através

dos impostos. Em vez de revertê-la na melhoria dos

serviços urbanos que beneficiariam a própria comu nidade, o governo ampliava os quadros do funcio

nalismo estadual para dar empregos aos seus parti dários e simpatizantes {Gazetinhaj Porto Alegre, 29

nov. 1898). Neste sentido, caberia lembrar que o

Partido Republicano Rio-Grandense era formado

por uma coalizão de setores agrários e não-agrários

da burguesia local, que estendia sua ação em busca

do apoio do colonato e das classes médias urbanas.

Com relação aos setores médios, a tática essencial

era a ampliação do numero de empregos no funcio

nalismo publico, fórmula clássica de cooptação da

pequena burguesia pelo Estado.

A má aplicação dos recursos públicos era, pois,

causa de Porto Alegre não poder comparar-se a ou

tras capitais do país, como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife {Gazetinha, Porto Alegre,

19 ago.

1898). Na opinião do periódico operário.

esgotos, de

transportes públicos adequados e do precário cal

çamento das ruas, além de ser pouco ajardinada, mal abastecida de água, fracamente iluminada, etc.

Porto Alegre

se

ressentia da falta de

A

principiar pelo

código de posturas munici

pais, constatava-se que os cidadãos deveriam cum

prir à risca a execução das posturas, mas não tinham

o direito de queixar-se da inobservância de determi

nadas disposições. Ou seja, em determinada situa ção, o governo era rigoroso na aplicação das leis e na prática de obrigar o cidadão a observá-las; nou

tros casos, deixava de fiscalizar a aplicação das leis,

justamente nos casos em que os cidadãos eram pre

judicados

Com isso, as

leis da Republica caíam

em descrédito, gerando confusão e anarquia. A lei

era

diante

aplicada

"aos

"da

casaca

e

da

Alegre, 6 ago. 1898).

pequenos"

e

desaparecia

luva"

(Gazetinha,

Porto

Uma outra queixa, bastante antiga mas que se

renovava

continuamente

através

dos

anos,

com

o

que se constata que não era de fácil solução, era a

relativa ao saneamento da cidade. As ruas não eram

limpas, a cidade não tinha esgotos cloacais, o reco

lhimento do

lixo era mal feito e, como coroamento

destes

"descasos

das

autoridades",

as

epidemias

encontravam um ambiente propício para se desen

volver. Entendia-se, segundo os conhecimentos da

época, que os locais sujos e putrefatos exalavam

emanações conhecidas como miasmas, que transmi

tiam

doenças.

As

pesquisas

de

Pasteur

e

Koch

questionaram a concepção de que as doenças se

transmitissem através do ar contaminado, esponta

neamente, a partir de substâncias em fermentação,

mas sim através de bactérias presentes no ar e que

deveriam ser combatidas por uma vacina adequada.

No caso do Brasil, ambas as idéias se justapunham.

Para combater as doenças, tanto se apelava para a teoria dos miasmas, com o que se bradava por ar,

luz e desodorização dos ambientes infectos habita

dos pelos pobres, quanto se principiou a difundir o

uso

das vacinas como grande novidade do

fim do

século para acabar com as doenças e garantir um

povo saudável e com aptidão para o trabalho. Para as classes dominantes, a higienização das

zonas proletárias da cidade fazia parte de uma es

tratégia mais ampla de disciplinarização das classes

trabalhadoras. Trata-se de um conjunto de práticas

burguesas

que

se

interligam

a

outras,

presentes

dentro da fábrica e fora dela e que se relacionam

com a própria conformação do mercado de trabalho livre no país e na elaboração de instrumentos de

controle sobre a classe subalterna. Na empresa este

processo se viabilizava através da divisão do traba

lho, da introdução de máquinas, da utilização de

fiscais para controlar a produção, da imposição de códigos de disciplina, da aplicação de multas, etc.

Fora dos muros da fábrica, o processo de domina

ção do capital sobre o trabalho se expressava pela

tentativa de reordenação da vida dos operários nos

seus múltiplos aspectos: habitação, educação, lazer,

saúde, etc.

O

sentido último deste movimento era

circunscrever espaços, hábitos e

atitudes

segundo

um padrão desejado; conformar um proletariado tra

balhador, dócil, morigerado, saudável, satisfeito,

adaptado; era ainda contornar os focos de tensão

social pela imposição de

uma ética e

uma ordem

burguesas, norteadas pelos ideais de higiene, pou

pança, trabalho livre e ordem social. O povo das

ruas, habitante dos cortiços, era o objeto preferen

cial da "desodorização".

Mas o Zé Povinho apelava também aos miasmas

para reclamar por seus direitos, mostrando na práti-

ca

que

a

circularidade

da

cultura

fazia

com

que

conceitos científicos difundidos na época atingissem

também

a

classe

trabalhadora.

Pensando

no

seu

bem-estar, Zé Povinho reclamava por seus direitos

Usando os mesmos argumentos dos médicos higie-

nistas e das autoridades: era preciso asseio e provi

dências do governo. Neste sentido, embora movido pela convicção de que perseguia seus direitos, em

certa medida o povo das ruas colaborava e até apressava uma estratégia de higienização da cidade.

As

medidas

de

saneamento

urbano foram em

preendidas

progressivamente

pelos

governos

ao

longo da Repdblica Velha. A tarefa, contudo, não

era

fácil,

pois demandava dinheiro, derrubada de

Velhos hábitos, agilização da máquina estatal e em

prego de tecnologias até então desconhecidas, pre

conceitos

e resistências.

Desde o Império que

os

serviços de limpeza pública da capital eram objeto

de muita discussão. O

era feito

por empresas

recolhimento do lixo urbano

particulares mediante con

trato de empreitadas. O código de posturas munici

pais determinava que o lixo fosse depositado em va

silhames apropriados para serem recolhidos pelas

carroças destinadas para tal fim, sendo cobradas

multas aos infratores. Do mesmo modo, era proibido

que se atirassem às ruas as águas servidas e os de

jetos fecais. O asseio público - recolhimento dos

dejetos fecais - era realizado também por firmas

particulares, que despejavam o material em alguns

pontos do Guaíba.

O aspecto sanitário da cidade, contudo, deixava

a desejar: "inúmeras ruas há cujo trânsito repugna a

população, devido aos miasmas que exalam as sar

jetas, motivados pelos despejos feitos pelos canos e

ainda

pelo

lixo

e

águas

servidas atiradas à

rua"

{Mercantil, Porto Alegre, 11 jan. 1884).

Ligado à questão da insalubridade dos cortiços,

do asseio público e do recolhimento do lixo, acha

va-se o problema das epidemias, que tendiam a au

mentar durante os meses de verão. Desde o Império que o temor das doenças afetava a opinião pública.

Ora era a varfola que fazia as suas vítimas {Gazeta

de Porto Alegre^ Porto Alegre, 1- jan. 1879), ora

era o cólera morbus que ameaçava a população da

capital

{Democracia,

Porto

Alegre,

1887). Naturalmente, a maior parte das

14

de

jan.

vítimas se

registravam no meio da população pobre. O novo

governo republicano teve, pois, como uma de suas

tarefas urgentes encarar o saneamento da cidade. O

destino do lixo coletado, por exemplo, teve encami

nhamento através da incineração. Ja~em 1888, o go

verno provincial abria um crédito em nome da mu

nicipalidade para a construção de um forno crema-

tório. Com a República, foi aberto um novo crédito

pelo governo estadual para a Intendéncia aplicar em

tal fim, resultando a construção do forno do lixo no

bairro da A