Você está na página 1de 26
DIFERENCA SENUAL, GENERO E CRITICA. FEMINITA A ESCRITA TEN SEXO? sto de 1987, um grupo de mulheres escritoras ¢ organizou a realizagio de um evento (0 congresso Internacional de Literatura Feminina Americana),’ que se converteu no “evento le sob a ditadura’,? por sua ampliada convocatoria sua capacidade de suscitar um espago inédito, de ¢ de reflexdes, em torno dos temas mulher, escrita ¢ nenhum apoio institucional, sem o recibo acadé- — A reconquista de uma palavra que tinha , tanto pela autoridade literiria da tradicio enquadramento repressive da ditadura. » Congresso Internacional de Literatura Feminina na funcionou como um conjunto de intensi- mo inseguro a respeito das energias que ia como as miquinas de processamento cultural is essas energias iam se conectar, correu o isco 1arca do género sexual como local de des to das hegemonias discursivas. dupla marca de enunciacio: a da violencia ¢ ‘a do Chile da ditadura, em cuja paisagem realizou 0 evento; ¢ a da marginalidade da mericana, frente ao- discurso institucional ‘metropolitano. Ainda que a primeira destas di se transformada pela redemocratizagao, a segunda confrontando a critica com a necessidade de um dos primeiros-saldos favorive ‘Congresso parece ter sido uma cons hada entre as escritoras ck precariedades e as ambiguidades de inscri literatura de mulheres, dentro do marco da literdria € do mercado editorial | Gracas 2s Fel ‘Zadas, ficou evidente comio a tradicao da litera fendem a omitif, ow marginalizar,a-produ excegaio de duas situagées; quando a recuperam Fégio patemalista do falso reconhecimento. diferenca", exaltada pela feira do oAsumo pati — de modo banal —a “diferenciagio” de seus procltoi que se tenha produzido uma maior difust0 © Congreso tinha se proposto formular, teve wre) dade de alterar as suposigdes e as disposigdes de Id critica literaria estabelecida, além de tomar parte, instigador, no debate cultural sobre a transigio d Meu propésito aqui € retomar o fio de algumas ‘Bagdes, que o Congreso levantou em torno da es € da diferenga do “feminino",* como ocasiao part certas tendéncias da c réria feminista, que #6 em toro da marca de sexo e de género na escrita @ ‘camente, na literatura de mulheres. LITERATURA DE MULHERES E ESCRITA. FEMININA: COMO TEXTUALIZAR A. DIFERENCA GENERICO-SEXUAL? £ matéria de relativo consenso dizer que “nos tl anos, no Chile, as mulheres produziram uma notivel dade e qualidade de textos literdrios"> Cita-se, disso, um significativo conjunto de nomes de fil , Mercedes Valdi om o masculino, ativa as marcas da il © as recombina na materi designa um conjunto de obras tem valencia sexuada, mesmo que se encatreguem da pergunta de como textua- 1. A categoria da “literatu imitar um corpu: fo, certas caracterizag tipificar uma “esc querem expressivo, buscando um “es ivel remitico, querendo enconti io centrado em certas “imagens d igere uma identificagdo compart personagem e narradora.” Aquela c1 m correspondéncia lin Fem uma concepgao repres vida, que retratariam a “autenticidade” da cond ou entao, na chaye feminista, o valor. positivo- conscientizacao antipatriarcal.3> Parece qué esse tipo de critica, a0 no perce lidade signica do complexo escritural (a ener, posta em funcionamento pela maquindi com sérios problemas e limitagdes: por uma parte A ivo de contetidos vivens ta da literatura de mulheres, que se fiado por aquelas obras nas quais a escrita protagon trabalho de desestruturacao-reestruturagao dos cédigow tivos; trabalho esse feito para violentar a estabilid universo referencial € para desfigurar, assim, todo fi posto de verossimilhanga dos mecanismos de perso € identificagao feminino-literarias/Por outra mento conteudista do “feminino” 0 assume como 0. pleno de uma identidade-esséncia, que tornaria seguril tavel a relagio entre “as mulheres que escrevem" ¢ como mulher”, sem levar em consideracao 0 modo identidade e representacao se juntam e se separam, i curso do texto, sob a pressio do dispositive de linguistico-simbélica da escrita, Ambas dimensOes =f como produtividade textual e a identidade como representacdes — necessitam ser incorporadas ps iteriria feminista para construir e deconstruir 0 no/do texto. Porém, se superamos a anilise temética das “4 mulher", como método para explicitar as correlagdeh tidade, entre a definigao de género (ser mulher) ¢ (0 literaria (o feminino), devemos refa sobre “o que faz, de uma escrita, uma escri Possivel que uma escrita seja feminina? E a eseritit uma categorizagao valida? Que escrita feminina me atengdo como escrita feminina? Temos expectativay quando lemos o texto poético de uma mulher?” Quando se interrogam sobre o valor da difere texto feminino e texto masculino, muitas escritoray a0 pressentir a ameaga de se verem rebaixadas di 130 inguagem nao tem sexo, € declaram sexual nao significa nada, que nao ha dife- entre escrita masculina e feminjna”."” Come- , retomando uma citagio de Lyotard) que 20 da questio é, ela mesma, muito Suspeita’; mo modo que quando alguém diz que nao faz je nao é nem de direita nem de-esquerda, todo que € de direita”,* afirmar que-e-linguagenr ex n-diferentes.a diferenca genérico-sexual (que nao entre © masculino € o feminino), equivate poder estabelecido, cujas téenicas-consistem, em levar a-masculinidade_hegem@nica_a_se utro, do im-pessoal, ‘mufla-o operativo de ter universalizado, & forea, culino, para converté-lo, assim, en represen~ ita demonstrou lo neutral — transcendente — que afirma o ide: ico, mas um suporte modulado pelo processo ico cultural da masculinidade dominanteTA"| escrita literdria e as normas culturals, Carregam s deste operativo de violéncia sociomasculino, que bs textos a suas viciadas regeas de universalidade. 4 essas armadilhas, a critica literéria feminista consi- \e seus principais objetivos deviam consistir, primeiro, Ar abuso de autoridade, que obriga as escri- weres a se deixarem reger por catalogacoes mascu- is, em estimular modelos afirmativos € valorativos ‘como experiéncia “propria” (diferencia!) que 1 sua vez, A necessidade de criar um sistema de onomamente feminino, que nio obrigue as heres a serem lidas através de um dispositive \erpretagio oficial, que falseia suas caracteris- naliza suas singularidades. cessidade de um sistema de propriedad (um feminino que se converte, frequentemente, ratista de uma identidade a defender, mediante BI parte) parece acreditar na necess pendente; um saber que se trama em uma € altemativa a da cultura dos homen: que priva, assim, 0 feminino de dialégica com as miltiplas redes inscrevem os signos “homem’ e “mulher”. feminino sto forgas relacionai de um sistema de identidade e de poder, que as con)uga nalmente. Ainda que devamos questionar as assimelJ poder simbélico, manobrado pelos sinais do ge de uma masc cultura das mulheres deva obedecer & chave mon do feminino,/Além disso, esta mesma categoria do “Teh ‘se torna altamente problematica, se mencionamos if simbélica da escrita; podemos falar, tao separ sscrita masculina e de escrita feminina, se a linguagem a textualidade poética sio espacos de deslocamentog feréncias do “eu”, que excedem o realismo biogrific do ser “homem” ou “mulher”, para remodelar, incessini as fronteiras da subjetividade cultural Josefina Ludmer afirma, por exemplo, que “a eset nina nao existe como categoria, porque toda esetiti xual, bisexual, unissexual”." Ela alude a uma sub criativa, que combina varias marcas de identidad@ processo flutuante de significagao, ‘e-ordenando Of cimentos de género, sendo a escrita aquela regilio 1m € se diversificam os tragados dle subjetivagli ficagao simbélica. Para Ludmer, voltar a enquadrar iI na chave monosexual — definir o texto como unl masculino ou feminino — seria restringir o potenclil bélico (transgenérico) da criag20, como flUxo I mento da identidade e do sentido. Relaciono esti de Ludmer com as teorias deJulia Kristeva ao al para além dos condicionamentos biolégico-sexuall sociais que influenciam 0 comportamento do al autora frente 2 literatura, a escrita coloca em fi cruzamento interdialético de varias forcas de subjetl principais forgas se opéem: a forca raciocinantes zante (masculi imboliza a institu Barante o pacto sociocomunicativo, e a forga set 132 se impée a norma estabilizante), seja em termos indo prevalece a vertigem desestruturadora). mite da escrita, que se aventuram no is explosivo dos cédigos, como acontece com as desatam, dentro da linguagem, a pulsio do semi6tico-feminino, que arrebenta 0 signo € , entio, falar — jogrifico que 2a¢a0 ‘a cada vez que uma poética, ou uma erética do 1 © marco de retengao/contencao da signi a com seus excedentes rebeldes (corpo, libi iade, multiplicidade so majoritério./Qualquer literatura qué se pratique ssidencta dt identidade, a respeito do formato regu: e opera como paradigma de desterritoria poder e captura da identidade, normat pela cultura oficial. - jesse de uma tese, como a que formula J. Kristeva (a experiéncia da linguagem, na qual as duas \e bordeiam a fala — a margem inferior [feminino] mas fronteiras que se cruzam interd iste em que nos permite entender esta contra Jo € conceito, fluxo ¢ segmentacao, que igo entre “masculino” e “feminino 133 Uma tese como esta — que re incidénela entre determinante bioldgico (ser mulher) ¢ identidade (escrever como mulher) — nos permite explot € os desarmes da representagio, que se prod cexpérigncia do género (0 feminino) e sua repre: ciativa. A elaboraga0 permite converter o feminino na metafora ativ wulher", se imagina como pacto a tecer ¢ dade minoritéria (o feminino como margem sexull representacao, que desafia as normas hegemOnicas # da outridade) e politicas do signo (0 feminino como al ‘¢ potencializador de virias formas de transgressito dit dade). Somente depois de romper com a crenga dete) na qual fungao anatOmica (ser mulher/ser homem) simbélico (0 feminino/o masculino) se correspo! ralmente, e com o mito da Identidade-Una do corpo de) € possivel tornar extensivo o valor contestatério do (entendido transversalmente) a0 conjunto das prith hegeménicaf Desfazer a constrigo dos Vestigios 5 Suporte origindrio do corpo natural permite dar # aos signos do masculino e do feminino, que se des! transformam, segundo as dindmicas da subjetivi formulam como resposta as diferentes solicitagd lagdes de identidade. IDENTIDADE E DESIDENTIDADE. PULS, ESCRITURAL E DESCENTRAMENTO DO $I Mesmo que a mulher estabeleca uma relagito pi com 0 somatico-pulsatil, com aqueles fluxos ind que nunca se ajustam inteiramente ao controle 1 lei simbélica, pelo fato de ela estar situada nas mi discriminadas do que abarca esse controle, a rel mulher € transgressio nao esti nunca garantida ‘Transgredir a norma sociomasculina depende de que dindmica dos signos se oriente para a ruptura cagdes monolégicas, se o potencial critico desta di hegeménica, também o “ser homem’” to/autor a ser fatalmente partidrio das 1 da cultura oficial, por muito que a orga- (0 varios e convincentes os exemplos de assinadas por homens (recordemos os revolugao poética’, analisada pela propria J. Kristeva), aagdes potico-lteririas contorceram a linguagem. é descentrar, completamente, a funcao-do- vagandeada pela ideologia cultural dominante ocamos no COATexto chileno da. poesia escrita, , foram Juan Luis Martinez, Rail Zurita, Gonzalo 'g0 Maqueira, os primeiros ademolir “eu” da 1 ¢ lirica € projetar seus escombros contra a Foram as suas navalizaram 0 “eu” da historia, com parédias papéis masculinos ¢ femininos, que se alternam gem do poeta, que se tornou voz do lumpen, , do travesti, do guertiheiro ou da santa. Recordar da neovanguarda poético-literiria, dos anos de situar a emergéncia das atuais vozes fem 1 forma de atender ao pedido de Soledad romper © gueto do sexo, pois se trata de mulheres) junto aos outros, produzidos por res contemporineos, considerando semelhangas 15, recgnhecendo conquistas e gportes-mas também Ko nao reconhecertimitagdes nos textos-de Ghiio, a0 nao introduzir matizes (de obediéncia a relagio que cada um deles sustenta com a criria, a critica feminista corre o risco de super- 210 das mulheres e prolongar assim sua inva \do as energias com as quais se inserem nas que giram em torno d ” podemos passar a censurar — em nome da contetidos tematicos do feminino a “repr outros textos geradores de técnicas capazes de suspel feminino, como categoria auto-evidente, e questidl determinismo genérico-sexual, como vetor homoge unificagao do texto. Esta diferenga separa “duas tend extremas, na atividade cultural de oposi¢ao: uma qu a considerar definidos os processos de signi regando os significados (“j4 constituidos”) de vei mensagem de oposicio, e outra que “considera 0 logico do proceso de significacio como algo a ser desi baseando-se na idéia ‘de que os modos habituais de sentagao constituem formas de subjetividade —o sujellty pelo caricter fechado da obra, por exemplo — cat de uma cultura patriarcal ou masculina, ¢ que eh ‘do modo feminino’ é, em si, desafiar a constituiglo id dos modos predominantes dle representagao’ Reincorporar a escrita de mulheres as cruzamento polémico das séries, organizad: terdrias, obriga a critica feminista a pensar o femit tensdo com o marco da intertextualidace cultural e il uma dimensio que deve se manter isolada, aust! processos de normativizagao da cultura. Somente (eh © texto feminino, como parte ativa da tradi¢ao com dialoga, ou interpela, adquire dinamismo critic continuidade/ruptura, através da qual uma pritiea renca interrompe o sistema da identidade e d oficiais. Nenhuma tradigao literdria esté hermeti selada pela continuidade de apenas uma tinica vor! hist6ria € tradig2o ndo sio totalidades monolitieas, brantéveis, mas sequéncias formadas por distintos gulares — planos de consisténcia, que entram em batalhas de cédigos. As mulheres nao podem se dif de nao participar ativamente dessas batalhas, mes regras do combate estejam prefixadas a partir do. que em toda cultura ha entrelinhas rebeldes, por: 136 —somente obedlecem-o protocolo da cultura ¢ reproduzem, inconscientemente, seus formatos . E possivel que uma mulher tome a ipenas para render um tributo conformista A pressu- 1a da cultura estabelecida. Nao basta “ser leterminante sexual) para que o texto se carregue lidade transgressora das escritas minoritirias. > basta desenvolver o tema da mulher e da smente re-produza) a diferenga genérico-sexual. A nao é, entdo, a de saber o que seria 0 “propric —como se 0 texto fosse lo expressive de um conjunto de atributos, predeter- — mas como textualizar as marcas do feminino, para \ diferenga genérico-sexual se torne ativo principio de ico. simbélico-cultural, cia no cariter semistico-discursivo da reali conquistas teéricas do feminismo que des © valor “construfdo” (representacional) das marcas da nina”, que a cultura imprime 98 corpos “homem” e *mulhe mente — +z dos tragos de identificagio sexual{,A demonstragao a identidade e © género sexuais sao “efeitos de produ zando, através de sua metafisica ‘ncias, € crucial para romper com o determinismo > “sexo” C*mulher*)/*género” (feminino), vivida como ‘0 plena, univoca e transparente Ao m0 ‘género, através de toda uma série de desmontagens, , que mostram como tal nogio foi modelada pelas \cdes ideoldgico-culturais, a critica feminista nos lerar estas convencdes, reelaborando suas inagdes de identificagao sexual, Esta des-substancializagio do femi para que a pergunta pel genérico-sexual e escrita, como se a coordenada do nao interviesse, decisivamente, nas montagens ¢ desmontiy da representagio. Entao, como vincular entre si sexual, 0 pertencimento de género e a experién Enquanto um tipo de feminismo literdrio (essenci a supor, como naturais, as associagdes de identidade termos como “mulher”, “escrita” “feminino” estabelecet) relaco de contiguidade expressiva, outra linha critica (i estruturalista) considera que estas associagdes devel) desconstruidas, para problematizar cada um dos sini que a ideologia naturalista tende a afirmar, como ¢ @h| sasse uma unidade de significado plena ¢ transparent exemplo, “identidade feminina’ A implosao do sujeito ¢ os descentramentos do et, teoria contemporinea radicalizou em sua demand humanista da “morte do sujeito” (ao menos, da morte transcendental da racionalidade metafisica), exigem di nismo repensar 2 i al, jf no mais como expressiio coerente de um eu unificado (0 “feminino™ modelo), mas como uma dindmica tensional, crust uma multiplicidade de forgas heterogéneas que a constante desequilibrio. Nao podemos continuar fal uma identidade, masculina ou femi designassem algo fixo ¢ invaridvel, ¢ nao cons flutuantes.|Se algo o feminismo aprendeu com a pal é, primeiro, que © sujeito do inconsciente sexual ja cide consigo mesmo, porque a diferenga masculin © atravessa sempre como contradicao inter tividade em constante processo ¢ movimento. By que a feminilidade nao se consegue simplesment alcanga por completo,” nao porque o feminino vazio ou caréncia, de acordo com a axiomatica casi ‘alta Clacaniana), mas porque a relacao da mulher, uma inadequagio basica, de se sentir estrangeira a@ adesio e coesto sociais, que sela do consenso sociomasculino. Esta inadequacao fi is de pertencimento-pertinéncia, que das configuragdes da identidade social. Esse 10 € indiferente 20 modo sob o qual as mulheres » margem; como bords e fronteira — como locali- ‘ofe — a respeito do sistema de categorizacio ¢ simbolizagao cultural{E ainda que séja Certo que 6 smo contestat6rio, do querer dissolver a autoridade > seja exclusivo © nem privative das praticas de nao € menos certo, também, que as mulheres a alternativa norma/infragao sob condigées de io © assimetria tais que as predispoem especial- excessos. Algumas procuram conjurar o perigo das lesintegradoras das estruturas sociais, exagerando — ente — seu conformismo as ideologias da ordem familiar, nacional). Outras, pelo contririo, desatam pasmédica” (Kristeva) da desidentidade, no inte- » sistema, para solapar suas edificagdes normativas € s. Sem dtivida nenhuma, a escrita € o lugar onde 10 da revolta opera mais intensivamente, sobretudo ragio tém seu ideolégicos e culturais desconectados, a ponto de a unidade linguistica que amarra o sentido a eco- ‘cursiva da frase € do contrato.# (iste texto é uma versio mod ica, Santiago, Francisco Zegers, 1993.) rodugioa Eserbiren los bores, p.7. idament do Suplemento. Tal critica feminista foi neamente,& preparagao. ‘Americana (1987) na SECH; 0 se ‘Mujer La Morads, que convocou 20 Et ¢ de mujeres. Madsi: Citedra, 1991. p. 31/32. ‘da Universidade do S OLEA. La Foca, n. 152 yer na condenag palavra tenta ir construindo a image ABAJ. La Epoca,n. 189. tas perguntas de uma resenha de Marta Contreras, ppublicada na Revista Lar, n. 11, Big nae” de Rud m1 | ons, 1977. p. 213/216 ia de géneros, para nomear, como fem EXPERIENCIA E REPRESENTACKO 0 FEMININO, © LATINO-ANERICANO Os grupos feministas tém reagido de modo diverso a incorporagio da teoria como instrumento de formacao € de luta intelectual para as mulheres. Os movimentos feministas mais diretamente vinculados ao ativismo social tendem @ ~desconfiar da teoria, a considera-la suspeita de reproduzir a= ‘condigdas de desigualdade opressiva, ligadas a uma “divisio do trabalho” que opée 0 pensar ao fazer, a abstragao dos ros a concregio da vida material, a especulacao mental a0 contato fisico com a realidade difria, a classe média inte- lectual 20 mundo popular. Muitas feministas ainda acreditam que a intelectualizacio do discurso leva as mulheres a cair na armadilha falocratica, que vincula 0 poder-da-razio a razio-como-poder. A teoria seria, para essas feministas, um discurso da autoridade, culpado de repetit a censura mantica durante séculos pelo dominio conceitual do Logos (masculino) sobre a cultura do corpo e do desejo que associa, natura mente, 0 feminino ao subjetivo e a0 afetivo; ao eu vivencial. Por outro lado, hé mulheres que tém desenvolvido, na cena cultural do feminismo contemporineo, um trabalho inten~ samente te6rico que entra em dura competicao intelectual ‘com a produgio do conhecimento em todas as dis verdade é que ja no ha forma de pensar os signos “mulher” ou “género” sem entrar em didlogo com esta aguda producao te6rica do feminismo mais recente, que cruza a filosofi -andlise e a desconstrugio, a critica cultural. O problema € que, visto desd ‘erta geografia do poder cultural, esta produgao de corte pés-estruturalista leva inscrita a marca subordinante do contexto académico-metropolitano, que @ organiza através de sua cadeia internacional de congressos publicagdes. A relagio de conflito que se estabelece entre (os que se localizam na periferia latino-americana € a teoria internacional do centro, toma frequentemente a forma de uma oposigio entre experiéncia (o mundo pritico da vida coti- diana e da intervengio direta na vida social) € discurso (0 mundo abstrato da reflexio especulativa, que permanece prisioneira do academicismo). Neste texto me proponho a averiguar de que modo esta oposigao entre experiéncia e discurso reforca a codificacio de uma outridade do feminino e do latino-americano, que se baseia nos mitos, nos sentimentos € nas ideologias do natural como consciéncia espontinea e narrativa primaria de um compo de origem. CORPO E EXPERIENCIA © modo como cada sujeito concebe € pratica seu género est mediado por todo um sistema de representacdes que articula os processos de subjetividade através de formas. culturaisfO5 signos “homem” e “mulher” sio construcoes discursivas que a linguagem da cultura projeta e inscreve na superficie anatémica dos corpos, disfargando sua condicio de signos (articulados e construfdos) atras de uma falsa ay réncia de verdades naturais, ahist6ricas.' Nada mais urgente, entio, para a consciéncia feminista, do que contradizer a metafisica de uma identidade originaria — fixa e permanente — que ata, deterministicamente, o signo “mulher” & armadilha naturalista das esséncias e das substincias. E para realizai esta tarefa, a critica feminista deve tomar prioritariament em conta a linguagem e 0 discurso, porque estes so 0: meios através dos quais se organiza a ideologia cultural, que pretende converter © masculino € o feminino em signos de identidade fixos ¢ invariaveis, através de uma formagio discursiva que, deliberadamente, confunde natureza e signi- ficagao, para nos fazer crer que “a biologia € 0 destino” 3 sob intervengao de uma organizag é, também, o que permit dade dada como natural, abrindo os a novas combinagdes interpretativas jetos conceituais que ordenam sua compreen- ir das ferramentas que lhe permitem compreender e, a0 se tempo, transformar o sistema de imagens, representagdes & simbolos que compoem a I6gica discursiva do pensamento também, contribuir leol6gico-discursiva nega sem ser ques- -minismo € teoria, € passivamente para que a mani | das categorias “homem” e “mulh discursivo, ou do que chamamos realidade, de seu © produto e, 10 mes da sociedad Essa abordagem semi6tico-discursiva do s tural — que foi uma das conquistas tedricas do feminismo pos-estruturalista — deveria nos resultar convincente ¢ eficaz, americanas que, entre outros efeitos, acusam 0 teoricismo metro- a de rabiscar as categorias sderam seu ancoradouro, \o-americanas, comprometidas /com a mobilizagao social, desconfiam da do corpo ¢ da sociedade que professa o desconstr académico, 0 que 0 toma culpavel, segundo elas, de nos fazer acreditar que o real é um puro artefato discursivo; que o sign Ma A partir de um cen: 8 condigdes hist6ricas opressio, reforcam a desigualdade na qual se afirma o patriar- cado, as sofisticagdes da teoria metropolitana se tormam abusivas para aquelas feministas que pensam que, aqui, se necessita de mais aco que de discurso; mais compromisso nhante que arabescos desconstrutivos. Esta hipertextualizagao do corpo e da sociedade, da qual se culpa o pés-estruturalismo © suas modas te6ricas metropolitanas, produ: ivamente, no femi uma defesa do valor da “experi¢ncia” como garantia de uma vinculagao direta com a realidade das mulheres e sua problematica social. Traca-se assim uma oposi¢io entre pritica latino-americana © teoria metropolitana, que engata com a divisio anterior entre expe- riéncia (autenticidade do vivido, espontaneismo da cons- ciéncia) e representagao (abstragio conceitual ¢ hiperme- diagao. discursiva). A teoria feminista elaborou uma reivindicagao critica da “experiéncia”, que sabe se demarcar de toda confustio com 0 resgate naturalista de um dado primario. Tomado dimensio ja nao ontolégica, mas epistemol6gica, © conceito de experiéncia tem o valor critico de postular formas de conhe- cimento parciais e situadas, relativas a0 aqui e agora de uma construgio local de sujeito, que desmente o falso universa- lismo do saber que defende o sistema de generalizaglo mascu- a. Contra a abstrago neutralizante do saber, a revalorizag2o da experiencia serve para afirmar a concregao material-social de uma determinada posigao de sujeito, especifica a um contexto particular de formagio e relacdes sociais. O re a experiéncia (a pessoa-em-situagio: subjetividade e c merece, efetivamente, ser defendido contra a tese da cientifi- cidade do saber objetivo e da especulatividade do saber filo- s6fico como saber puro, sem marcas de determinagao sexual io de nenhum dos conflitos de forga € poder, que imagao € apropriagao do sentido). Em sua dimensao te6rico-politica, a “experiéncia” sublinha a localizagao critica de um ligos dominantes, a partir de um lugar de enunciagao sempre especifico, materialmente situado, € designa processos de 150 Ms atuagao que dotam seu sujeito de mobilidade operat6ria, pau produzir identidade ou diferenca como resposta a cert conjunturas de poder, O traslado desta dimensio critica da “experiéncia”, 20 campo do feminismo latino-americano, deveria nos servir para defender um contexto de operacdes, a partir do qual se pode elaborar formas locais de producio tedrica, Tanto teorizar a experiéncia (dar-lhe a categoria analitica de uma construgo de significados), como dar conta das particulares experiéncias da teoria que a critica feminista latino-americana realiza, em espacos culturais no homolo- giveis nas codificagdes metropolitanas, passa por afirmar-o valor tético de um conhecimento situado: um conhecimento que se reconhece marcado por uma geografia internacional de subordinagées de poder € que, além disso, reivindica a afirmagio do contexto como um recurso stil para se opor a um certo nomadismo pés-modernista, 0 qual deslocaliza tudo sem cessar, apagando perigosamente as fronteiras ¢ os anta~ gonismos. “Contexto” e “experiencia” designam, neste caso, ‘© modo contingente e situacional através do qual as femi- nistas latino-americanas produzem teoria. Porém esta defesa (e6rico-politica) da “experiéncia” tem pouco a ver com 0 uso pré-critico que frequentemente Ihe deram as tendéncias predominantes do feminismo latino-americano, que dotam ‘essa nocao de um valor pré-discursivo ou extra-discursivo; um valor que parece designar uma realidade sempre anterior ou exterior & mediacio categorial, como fonte de um conhe- cimento vivenciado a partir da natureza (corpo) ou a partit da biografia (vida): um conhecimento direto, i-mediato. (XK defesa de-uma_anterioridade ou exterioridade conceito, mediante palavras como “experiéncia” ou “corpo”, jf estavam presente em um certo modelo de “escrita feminina’, | que cultivou a primeira critica literdria feminist influenciada por{frigaray, Cixous e Wittig que propunha esse modelo ] critic éra deixar-fluir-a-matéria corporal, tradicionalmente censurada pelo modelo logocéntrico de racionalizagio mascu- | lina, para que, através de uma estética dos fluxos libidinais, | deslizasse € circulasse eroticamente, nos limites da barreira sintatica do Logos, tudo o que produz ritmo, carne ¢ dese} A lingua primigénia do corpo da mae — do “corpo a cor com a mae (Irigaray) — atuaria como um depésito sensorial € afetivo de vivéncias femininas, que sio anteriores a0 corte produzido pela estrutura de vazios, auséncias e perdas a qual, depois, é condenada o sujeito pela aprendizagem (paterna) da lingua, que opera uma semjotizagaio masculina do real. Esta imagem de um corpo pré-simbélico (um corpo anterior ao corte ico e A legislacao paterna do signo) levou muitas feministas a buscar o selo mitico de uma fusio originaria com a mae, © que daria as mulheres escritoras a oportunidade de expressar uma subjetividade primigénia e “autenticamente” feminina, com uma voz nio mediada pela representagio masculina, supostamente anterior a suas nominagdes e suas, ideologias. A “experiéncia do corpo” serve de matriz natural (feminino-materna) de uma feminilidade originéria, que a escrita das mulheres deve rememorar fisicamente, através de uma poética dos afetos. £ certo que o pulsional-semistico conforma um estrato da subjetividade que os processos de formagio cultural, sob contrato masculino, tendem a reprimir ou excluir, € que esse estrato corporal deveria ser liberado € potencializado como uma forca, subversivamente contraria, 8 hegemonia totalizante do logos masculino. Mas, sublimar a fantasia primigénia de um corpo anterior ao verbo € a repre- sentacio (um corpo pré-cultural), como ideal do feminino, contribui lamentavelmente para desativar a necessidade de que o sujeito enfrente a tarefa critica de se rearticular discur- sivamente, através das institulgées da cultura, A defesa de uma corporalidade priméria, como depésito arcaico do feminino, projeta um imagindrio feminino do corpo-natureza que se torna facilmente cGmplice, para uma tendéncia majoritiria do feminismo latino-americano, da concep¢ao metafisica do ser latino-americano, como pureza origindria que emana do continente virgem. Sabemos de toda uma tradigio do pensamento cultural latino-americano, que afirma uma identicade-esséncia baseada na oposi¢io entre 0 racional e o irracional, 0 civilizado € © barbaro, o artifici © natural, 0 forineo € 0 auténtico, ou seja, entre a superfici dade das aparéncias (a mascara europeizante) € 0 genuino € autéctone do ser continental. So muitos os textos que resumem a verdade do ser latino-americano como tudo 0 que resiste © se opde & sintese racional da modernidade ocidental, desde seu pertencimento ancestral ao nticleo primitivo de um ethos “7 ‘cultural, que se caracteriza por estar “mais ligado ao rito do que & palavra” ¢ “ao mito que 2 hist6ria"] Se © Logos do Ocidente (consciéncia, espirito, hist6ria, técnicas ¢ ideolo- gias) possui um projeto civilizat6rio, que tem se dedicado a reprimir sistematicamente seu outro lado mais escuro selvagem (natureza, corpo, inconsciente, rito € mito), a “natu- teza” do feminino — para o feminismo latino-americano que adere a esta metafisica do primignio — deveria se encontrar idealmente no reverso desse modelo colonial, que € um modelo branco, letrado e metropolitano, ou seja, na oralidade popular. Bfetivamente, 0 paradigma da autoridade da “cidade letrada” (Rama) — um paradigma tracado pela inteligéncia pensante do conquistador — se imps sobre a pluralidade etno-cultural de corpos e linguas domesticados a forca, pelo cAnone erudito da palavra ocidental; uma pluralidade que simboliza, assim, uma contrameméria repri- mida. Porém, 0 superior (ordem, razio, signo e lei) e o inferior (des-ordem, corpo, tito ¢ simbolo) nao sao sistemas que se ‘opdem um ao outro, sem que medeiem regides de contatos entre eles, mas sistemas que se superpéem e se entre- cruzam, pasando por complexas translagdes e combinagdes de registros heterogéneos.f O que precede e excede o ocidental, como substincia rebelde a sua hegemonia culty; ralista, no permanece fixamente retido e consignado dimensio originariamente pura (inalteravel) do se: americano. Fixar para sempre o feminino na imagem di corpo-natureza da América Latina, como territ6rio virge (simbolo pré-moderno de um espaco-tempo, ainda na contaminado pela l6gica discursiva da cultura do signo! deshistoriza o significado politico das priticas subaltern: cujas operagdes de cédigos reinterpretam e criti hibridamente — os signos da cultura dominante, a partir interior mesmo de suas comelagdes ¢ mesclas de poder ‘A academia norte-americana desempenha, hoje, uma “fungao-centro”, que traduz a produgao local do feminismo latino-americano, subordinando-a a seu registro hegeménico. Existem boas razdes, entao, para defender uma outridade local em relacao a esta hegemonia académico-institucional da teoria feminista metropolitana, que apaga singularidades ¢ dife- rengas (de tempos e lugares) com a sintese homogeneizante 48 de suas abstragdes globais. Porém, € perigoso resgatar esta “outridade” latino-americana, dando-Ihe © valor mitico de ‘um corpo vivo, dotado de uma energia natural que, por sua vez, mbolizaria o aceso direto a um conhecimento mais verda- deiro — por auténtico — do subalterno.JEsta imagem ratifica, sem o saber, um esquema de “divisto global do trabalho que sempre colocou a “América Latina no lugar do corpo”, ‘enquanto 0 Norte € o lugar da “cabega que a pensa”, razio pela qual “os intelectuais norte-americanos dialogam com ‘outros intelectuais norte-americanos sobre a América Latina, porém sem levar em consideracao os aportes teéricos dos criticos latino-americanos”.* Varios textos do feminismo latino-americano operam com este ideologema do corpo (realidade concreta, vivéncia pritica, conhecimento espon- tineo, biografias cotidianas, oralidade popular), que encarna a fantasia de uma América Latina animada pela energia salvadora do compromisso social e da luta comunitaria, cujo valor documental ¢ testemunhante seria julgado politicamente superior a qualquer elaboracao teérico-discursivay Esta relocalizagio da mulher pelo lado da “experiéncia pessoal”, da imediatez do fazer (vivéncia, ago, experiéncia, compro- misso) com seus emblemas domésticos e cotidiano-populares,” faz par com uma imagem do feminino/latino-americano, que 0 simboliza como 0 “outro” selvagem (preconceitual) da academia. Ainda que seja certo que as batalhas descolo- nizadoras, as lutas populares e as convulsdes ditatoriais na América Latina gestaram texto e conhecimento fora do cinone livresco (nas margens informais e subversivas do extra-aca- démico), emblematizar esse corpo-de-experiéncias como a linica verdade do feminismo latino-americano (sua verdade priméria e radical, radical por extrate6rica) vem a confirmar © esterestipo primitivista de uma “outridade” que s6 tem vida através de afetos € sentimentos. Esta “outridade” é romanceada pela intelectualidade metropolitana, que concebe © popular ¢ o subalterno, o feminino € o latino-americano, como uma espécie anterior & tradugio, de modo que deixa intacta a hierarquia representacional do centro: um centro que continua hegemonizando, assim, as mediagdes teérico- conceituais do "pensar", enquanto relega a periferia a empiria do dado, para sua sociologizacao ou antropologizagao atr das hist6rias de vida ¢ do testemunho.* 9 ( CRITICA DA REPRESENTACAO E DA MULTIPLICACAO DE SENTIDOS Toda configuragao de sentido é heterogénea e inclui um processo intertextual que retine uma diversidade de acentos, frequentemente contra diversidade tenha permanecido, durante um longo tempo, silenciada pelo reducionismo unificador das metanarrativas que obrigam 0 sentido a ser ung O feminino € a voz reprimida pela domi- nante de identidade, que codifica o social na chave patriarcal. Porém, liberar esta voz longamente subtraf-la do campo de tensdes no qual enfrenta, polemica- mente, 0 masculino, para isolé-la em um sistema aparte que, esta vez, em nome do feminino (um feminino re-absolutizado como o reverso total ¢ univoco do dominante), torna a excluir 0 diverso ¢ 0 heterol6gico. O sonho de um / que idealiza war lugar entre 0 originario e o cado, onde encontrar uma linguagem puramente feminin: (uma linguagem depurada de toda contaminagio de pod ‘masculino), converte essa linguagem em uma “a-topia: umal ‘utopia, um refiigio sem lei", uma fala que se sonha inteira mente liberada de todo controle de dominagao, habitando um mundo completamente translGcido, definitivamente livre das opacidades e das resisténcias com que as lutas de poder deixam suas marcas. Se toda demarcagio de identidade supde © afora const de um “eles”, que se opde ao “nés", nao pode haver uma cultura de mulheres “completamente inclusiva, onde 0 antagonismo, a divisio, 0 conflito™ desaparegam para sempre. Se fosse assim, nos encontrarfamos com um| uuniverso no qual nada interrompe a I6gica fechada si mesmo. Como todos os demais |-planes_nio lineraes de representaciol © feminino nto € o dado expresso por uma identidade jé resolvida (ser mulhe ‘mas um conjunto instavel de marcas _ Gatrelaga-diferentes modos de subjetividade e contextos de atuacao. Esta dimensio situacional da diferenca-mulher € a 5% O Kul wigan? ia da subalternidade cultural. Ainda que a contra- diglo genérico-sexual possua suas préprias regras, que devem ser desmontadas com instrumentos conceituais especificos ia do patriarcado (as da teoria feminista), “nos paises neocolonizados, a dominagao da mulher deve ser estudada em termos de relagdes globais de poder", para dar conta de suas estratificagdes miltiplas, ja que, aqui, *“co-habitam deusas e deuses pré-colombianos, virgens ¢ bruxas, oralidade, escrita ¢ outras grafias; vozes indigenas, mesticas ¢ européias; retalhos de miquinas sociais, rituai feudais ou burguesas; mas também deuses do consumi vozes da cidade e da rua, fragmentos de cultura livres izado ou totalizador), mas uma rede de significados em processo e construgao, que cruzam 0 género com outras | marcas de identificagao social e de acentuagio cultural y “Do mesmo modo como a academia do centro se vale da teoria, como signo de distingao e privilégio metropolitano para naturalizar © outro (feminino/latino-americano), as redes transnacionais da indtstria literdria promovem uma repre- sentagao do feminino e do latino-americano, que sentimen- izam sua diferenga como recurso para abastecer 0 menu de ofertas da globalizagio 1, sem coli pluralismo de mercado. Sem ddvida alguma, “existe na lidade uma demanda sem precedentes de obras escritas por mulheres (latino-americanas), particularmente dos de uma maneira ou de outra, a textos que parecem reflet experiéncia feminina”. icano, que o mercado ar, em sua légica do best-seller io de mulheres que deve se reconhecer em seus universos de referéncia, seus padrdes de representacio € suas yologias de personagens, enlacando o privado (dramas psicolgicos, conilitos biograficos) € 0 piiblico (imagens de 151 ilos de identi izados por uma sociologia comum da mulher (por exert a mulher emancipada), como se existisse “uma supost nuidade, lisa e sem interrupgao, entre eexp conceito € expressiio, sexo e esc obras somente tivessem como fungio re = uma experiéncia do “ser mulher” que atua como, if definida e garantida (estabilizada), antes qui a desarticule a pritica do texto. A mecanica dis mercado serializa os tragos do feminino e do latino-a és de padrdes de identidade facilmente manips Para que os receptores das obras de escritor canas se ajustem, redundantemente, a imagem dk modelo, que fabrica para eles a indistria cultural, # » catalogaveis) so as que cost refletir uma dupla ilusio representativa: acreditam ef estética que designa a obra a tarefa de contetidos, previamente articulados pelo di tal maneira que sejam literariamer fempo, que estes temas e contetidos identifiquem uma homogénea de leitor: Pertencimento de género, na ilustratividade do este “mulher” ino-americana”. Reconheci identificacao sto as chaves tranquilizadoras, leitor em comunicagao com uma matriz de due o legivel nasce do calgo predeterminado (fixo)/ significante e significado. A nao-problematicidade da fi ajuda as “estratégias do marketing litera cuia representacio globalizada 14 iden ordenando acontecimentos Ii ‘6s dos corpos de mulheres, a fim ado literério glol a deveria se preocupar com um femi- flo se arme como uma representagao homogénea inte, mas como um vetor de descentramento interroga os mecanismos de centralizagao identidade presentes em qualquer formagio Gncluindo a da ‘literatura de mulheres” ou da ‘a latino-americana”). Acentuar teoricamente desestal converte-o em cito-metifora que serve para nomear * desorganizam © tornam ambiguo o significado ler oposicao binaria’,"” tais como, masculino/femi idade/diferenca, centro/periferia etc, Faz falta para feminismo no da diferenga, mas da(s) ismo que postula multiplas combinacdes de signos Ss contingentes” (Laclau-Mouffe), entre registros #08, plurais © contradit6rios, de identificagio sexual, resentacio social e significacio cultural, Nada mais longe ismo tedrico da(s) diferenga(s), do que o resgate como consciéncia primaria de um feminino latino- (compo, oralidade), que oculta as mediagdes que o em planos-de-representagio. as: Seyh Alfons el Magnanim, 1990, p. 202 “uso: razones para un deb 1992. * Sonia Montecino, seguindo a Pedro Morandé, em Madres y h alegorias del mestizaje chileno, Santiago: Cuarto Propio, 1991, p. 30. “Dols livos dio conta destas complexas reariculagdes do “latine-americano", 1a teoria cultural dos oitenta: De fos medios a las mediaciones ‘cultura y lenguaje de Jess Martin-Barbe CCulturas hibridas; estrategias para entrar y Gareia-Canclini (México: Grijalbo, 1985). 5 Juntamente com assinalar a alternativa que consiste em recuperar “as latino-americana (..) na mae amancebada, no despoja- heterogencidade. GUERRA, Lucia. Alternativas ideol6gicas winoamericano, Feminaria, Buenos Aires, n. 8, p. 2, abr. 1992. “FRANCO, Jean. Un retrato. Revista de Critica Cultural, Santiago, n. 11, . 20, jun. 1995, * Ainda que mnério ao liveo de Lucka Guerra, era y desconstruccién. Revista de Comp. Josefina Ludmer, Rosario, Beatriz. Viterbo Editors, 1994, ° KRISTEVA, Julia. El tiempo de las mujeres. Debate Feminista, México, n. 10, p. 357, 1995. ® MOUFFE, Chantal. Feminismo, cludadania y politica democritica radical, ‘Revista de Critica Cultural, Samtiago, n. 9, p. 56, 1994 OYARZUN, Kemy. Género y etnia; acerca del dialogismo en América Latina. Revista Chilena de Literatura, Santiago, Universidad de Chile, 9.41, . 36, (sd. = FRANCO, Jean. Invadi el espacio pablico, ransformar el espacio privado, Debate Feminista, México, n. 8, p. 273, 1993. 134 1d versus diferencia: los usos de la teoria postestructu- nist, México, n. 5, p. 104, 1992. 155 FEMINISMO DESCONSTRUCKO NOVOS DESAFIOS criTIcos (Os mais recentes dilogos do feminismo com a psicanilise ¢ a desconstrugio levaram as categorias “mulher”, “sexo” € “género” a experimentar miiltiplas dissociagdes de significado, segundo as quais ja ndo é possivel conceber a identidade — tanto feminina, quanto feminista — como algo que se fecha linearmente sobre um nticleo garantido de atributos predeterminados. ‘A psicandlise ja havia ensinado & critica feminista a forga descentradora, ex-centradora, do inconsciente que rompe 0 | equilibrio da identidade-una (seja masculina ou feminina), | ‘com a negatividade heterogénea de energias contrarias a toda consolidagao do eu. A psi ensinou ao femi sujeito (nem masculino nem feminino) coincide plenamente consigo mesmo. q Juntamente com a psicandlise, as filosofias da descons- trugao colocam em xeque a con: rompem com 0 ro entre categorias absolutas (masculino/feminino), e insistem «que as categorias da “identidade” e da “ 158 \ “a propria Por mais que evitemos cair em leituras conspiratérias, no podemos deixar de notar que as filosofias da desconstrugio emitem signos perversos.\A p6s-modernidade do final do pensamento do Uno; no entanto, ela acusa as falhas daquele sujeito, dono desde sempre da metafisica ocidental, e mediante um gesto bastante insidioso (e com uma marca cumplicimente feminina), decide agora acentuar favoravelmente toda a série de fendas © decomposigdes desta mesma @ntrica, que tinha sido usada, durante séculos, para excl 1o-masculino de sua narrativa mestra SO discurso da filosofia ocidental era 6 qué a nista devia refutar, antes, por sua condigio de t Agd0 repressiva. Atualmente, uma corrente deste mesmo discurso filoséfico, chamada “descons- truco", se mostra arrependlida de tanta prepoténcia e toma a iniciativa de autocrticar suas pressuposigoes masculinas de | idadle, roubando assim 20 feminismo sew protagonismo na desmontagem do relato falogocéntrico. A filosofia do final do século reivindica para si o privilégio — femi zante — da alteridade e do descentramento. De que poderiam se queixar agora as fei as, pergunta(Frangoise Collin, se losofia encrustou 6 seu “fazer mulher’ nas tems ticas do nao-uno, da diferenga ou da différance, da dissemi- nagio, da vulneral A situagdo é complexa e esta complexidade obriga o femi- nismo de hoje a empregar todas as suas astticias. Por um lado, a desconstrugao filosGfica do sujeito transcendental da meta- fisica ocidental prepara para o feminismo um cenério propicio 4 revalorizacao do “outro” (e da “outra”), que a modernidade tinha marginalizado de seu império da razio e da verdade dominantes. £ possivel, entao, entender “a crise da moderni- dade” como “a destruigao das bases masculinistas da subjeti- vidade classica”,’ a partir da qual reivindicar ininamente) © lugar do descentrado e do ul, além_de_batalhar, (feministamente) para transformar as coordenadas do poder sexual da masculinidade hegeménica, que essa modernidade. ‘ocupou como vetor de universalizacao. Porém, por outro lado, © feminino da desconstrugao fica geralmente circunscrito a0 159 i was plano especulativo da abstragio filos6fica, ¢ os autores masculinos, que tanto cultivam sua metifora, nao se sentem minimamente obrigados a estabelecer qualquer compromisso pritico, nem com as mulheres reais da luta politica ¢ nem, com a agio tedrica do feminismoS lAs mulheres do feminismo /se encontram, assim, corporalmente desalojadas, pela filosofi da desconstrugio, de sua prépria metifora de final de século. | Nio hi correlagao solidiria entre o refinamento dos novos } jogos interpretativos, elaborados pela filosofia da descons- | trugio em torno do feminino, e uma vontade manifesta de seus autores de se fazer participes de uma luta politica, que busque transformar as relagdes de poder e de género que constroem a desigualdade sexual. Nas palavras de/T. de] , (Lauretis) ao ‘adiar 0 tema do género sobre uma ahist6rica figura da feminilidade puramente textual”, as filosofias da desconstrugio “negam a hist6ria da opressio € da resistencia a das mulheres reais, tanto como a contribuicio episte- Normalmente, a filosofia pds-metafisica costuma feminino para simbolizar o jogo — fluido e multicentrado — das diferengas. Porém, a diferenga sexual é, para esta filosofia, is variagdes critica antimeta! do dogma da identidade-centralidade- lade. A filosofia da desconstruclo parece nao ter perce- demonstrado pela teoria feminista, a saber, uma diferenca entre outras, a diferenga divisio categorial do universal, segundo conotagdes de valor (uperior/inferior) que 0 dividem em “mente/corpo, cultura/ ino agencia nao somente os respectivos significados da diferenga sexual, mas todo 0 conjunto de figuraces discursivas que derivam de seu binarismo de pensamento e identidade. ‘Ao nao admitir a fungio estruturante desta diferenga masculino/ feminino, cujo valor regula todo 0 universo da represen taco, as filosofias da desconstrugao também podem se dar ao luxo de nao reconhecer a forga da transversalidade 160 querer dissolver a questo da diferenca sexual na metdfora do feminino como um mais além do género. O problema é que, ao deixar proliferar as diferengas em uma multi dade de devires, que se supdem todos igualmente carregados de alteridade e subversio, confunde estas diferencas sob uma figura ret6rica Gnica — a da diferenca — que apaga a politi- zagio do sexual como campo de luta da subjetividade. Se retiramos estruturalidade a diferenga sexual (se indiferenciamos a diferenga de género), negamos raz30 ao feminismo de ser —como nenhum outro pensamento critico — 0 que continua empenhado em subverter a dicotomia sexual. Se nio houvesse nenhuma diferenca entre o “devir minoritéri losofia (para falar deleuzianamente) € © projeto fer se a tarefa de subversio da dicotomia sexual urgéncia para a filosofia que para as mulheres, no poderiamos explicar porque sio quase exclusivamente mulheres femi- nistas as que lutam para desmontar a economia simbélica da representagio de sexo poder. A explicagio de porque o femi mulheres e porque as mulheres sao prioritarias para o femi nismo (dizer “prioritirio” nao € dizer "exclusivo”, nem menos m obviamente a ver com 0 fato de que, a0 serem elas as que se inserem mais desfavoravel- mente nas estruturas sociais ¢ culturais, a tarefa critica de desorganizar ¢ reinventar os signos da cultura, desde um ponto de vista n’io hegemOnico, € mais vital e decisiva para elas que para aqueles que, apesar de tudo, cor beneficiando dos pr ta deve nao apenas (no te6rico) revelar os estratagemas, mediante os quais esta filosofia usa a metéfora iferenga para dissimular o significado material e hist6- ‘0 da luta feminista, mas, também, ‘deve seguir lutando (no pritico) contra o dispositive s6cio-masculino que orga- niza a diferenga na desigualdade. iva teve o inqui valor de revisar as teses de uma primeira feminista que, baseada na naturalizacao da diferenga sexual, afirmava que a “escritura das mulheres” devia expressar “o feminino", ‘como se esse “feminino” fosse um contetido sexual prefixados, em um corpo anterior e exterior ao préprio texto; como se o referente “mulher” fosse uma unidade ja constituida, que o texto devia prolongar em um suporte expressivo, segundo uma ligacao natural (transparente) entre corpo, experiencia e significagao sexual{A nova critica feminista sabe muito beni? {que 0 corpo de origem, o pertencimento ide: fo a uma \determinada categoria genérico-sexual, é o dado (resumido, por exemplo, no dado de “ser mulher") que o texto recria ¢ transforma, produzindo cortes e intervalos entre corpo, trajeto biografico-social, posigdes de género, tragos subjetivos e figuracdes textuais. Era indispensavel que a nova critica femi+ nista se dista nna experigncia naturalizada, do corpo, da biografia ou da condigao da mulher (sociologi- zAvel ou psiciologizavel), como se o ciframento das posicoes (ou méscaras, que pode adotar o feminino nas tramas da eset tura, no dependesse da agéncia textual que as ficciona ¢ reestiliza| Havia que des-naturalizar os lagos entre determi. nagao sexual ¢ representaglo da identidade, para que a marca da diferenga, como alteridade, percorresse 0 texto, segundo lum trajeto simbélico-ficcional e enunciativo que retira tods propriedade sexual. Porém, hipertextualizar o feminino como iples montagem alegérica ¢ querer empurrar o trabalho da | diferenca sexual para 0 mais longe possiel da localizaao | “mulher’, ameaca também romper toda ligagao material entre | corporalidade sociale forca de subjetividade, como se a potencia | de atuagao da diferenga *mulher" nao tivesse nenhuma | relacao (de réplica, de impugnagaio) com a localizagao social de um signo, que inferioriza a autora de um texto no campo de poder da’ literatura. —s } Nao testa dtivida de que o feminismo fez bem em romper com a univocidade do pertencimento de género, para abrir 0 eu sexuado a deslizamentos e fissuragdes, capazes de torné-lo internamente miltiplo e contradit6rio; essa abertura também faz.com que o eu-mulher se conecte transversalmente com os 162 Bice aaah tb jdlindyigd agitate degre ti rll “outros inadequados” (Trinh T. Minh-ha), aos qua nismo convida a participar de sua diferenga. No entanto, hi © risco de que o singular-concreto das mulheres, a materiali- dade contingente de suas politicas de sujeito, sejam apagados pela generalizacio pés-moderna da diferenga, como lugar exclusivamente textual de uma nova mul desencarnada. este risco, para burlar um desconstrutivismo. feressado em neut aa diferenga — estes mesmos corpos que tinham sido abandonados pela carga essencializante do natu- feminismo ¢ de suas politicas locais’,’ da conta dos jogos taticos, através dos quais a critica feminista se posiciona no debate tedrico contemporineo. POLITICAS E POETICAS DO SUJEITO: ORGANIZACAO E DISPERSAO DO. SIGNIFICADO DA IDENTIDADE ‘nova critica feminista compartitha o argumento pos-me- de que as mulheres ja nto podem descansar na suibs- las e contradit6rias articulagdes ladle. Ao mesmo tempo, o feminismo nio pode renunciar completamente de que um trago de reagrupe “as mulheres", sob a referéncia coletiva de uma vez que sem a base operacional desse “nds” nao uta politica, Como conciliar o novo eu desunificado Cragme descentrado, stivel) da teoria pés-met mento e na instabilidade? | Em sua versio pés-estruturalista, a crit desmontar a unidade categorial do sign “n Se tementagao, no de: ica feminista quer wulher* e promover um nomadismo da identidade, baseado no posicional ¢ no articulat6rio, para criar uma multiplicidade de vetores de len- tficacao transitivos e contingentes. Esta desmontagem critica questiona a tot izagao homogénea de toda categoria de “iden- tidade", suscetivel de (1) apagar as diferencas entre mulheres, © @) de ocultar as falhas, as rupturas e dissociam cada “ser mulher" em posigdes os intervalos que nao-sintetizaveis, Pordue escindidas 20 longo de mtiplos eixos de diferenciacaes © contradigao interna. Pode 0 feminismo continuar faland. lo em nome das ‘mulheres’, se tal realidade € — interna e externamente —_ Wo plural e contradi que © significado “mulher” se dispersa fora de qualquer unidade coerentemente progra- miével?{Como construir politicas de identidade baseadas san Juma consciéncia de género, se tanto a identidade como o| Bénero slo atravessados, em suas cadeias de signos, por miltiplas rupturas que interrompem, desvi iam e bifurcam 0 trajeto representacional, que deveria unir 0 sujeito do fem. nismo a seu objeto, as mulheres? ~ Estas perguntas configuram um né de tensdes ¢ dilemas, Entre politica do sujeito e critica da representagao: entre, por lum lado, © momento afirmativo de um gesto emancipatorio, Gue deseja mobilizar as forcas da mudanga, produzindo novag , Por ot utr, © momento puspensivo da desconstrugio, que suspeita de qualquer crista. lizagao identitaria. Segundo estas tensdes, feminismo parece .£star dividido, por um lado, entre se afirmar (potiticamente) como identidade e, por outro, desconsteuir-se (i “Comio Fepresentaco-da-identidade; 2 rigor, amenite) 0 feminismo sabe ue nao ten que-escolhier entre estes: dois momentos, mas, elo contrario, no mais puro estilo desconstrutivo, reensar binarismo de-uma oposig’io entre o-sint € entre ambos uma “tensio-ativa” (Derrida), riamente — em fungao de © nao, mantendo que se-resolve — cada articulagao ide” e “representagio", que permitam a0 © circular entre ‘a negatividade critica de sua teoria”, Por um lado e, por outro, “a positividade afirmativa de suas Politicas"."" Estes deslizamentos implicam, por sua vez, uma gstratégia de multilocalizagao do sujeito da critiéa, para “desalinhar as fronteiras sem queimar as pontes”,” entre os diferentes locais de intervencao feminista nos quais se joga a Problematizagio do género. “Y evocamos a necessidade, para o feminismo, de uma mobi- lidade de gestos, conjunturalmente desenhados, segundo Prioridades titicas. Isto, € claro, tem a ver com o famoso “essen. Sialismo operacional", mencionado por Spivak como um recurso que nos autoriza a empregar o signo “mulheres” cada vez que um referente de identidade necessita servir de enlace € conexo solidéria, nas lutas contra as desigualdades de 8énero, mesmo sabendo que tal signo carece de base ontolé. Bica. © feminismo desenha estas articulagées contingentes de um *eu” ou de um *nés’, que encenam diferentes signifi, cadlos de identidade, segundo suas necessidades de allanca € coalizao, Trata-se de um “eu” ou de um “nds” em processe, que move a identificagio “mulher’ em direclo milltiplos locais de redefinigao contextual, em lugar de deixé-la amar. rada a uma identidade predefinida. Gragas a essas estratégias moveis podemos dizer que o “sujeito” do feminismo (o [sujelto” como consiruro, como o define T. de Lauretis) sie “as mulheres”, quando nos é necessério produzir afinidades coletivas em torno de um vetor genérico-sexual de identifi. casio social; dizendo de outra maneira, que o sujeito do feminismo € “o género", quando nos convenha insistir no cariter relacional do sistema de poder sexual; ou ainda, que © sujeito do feminismo “a operagao critica do feminin quando se trata de conjugar miltiplas forcas de dissidéncia dle identidade, que excedam o realismo sexual dos corpos de u Finalmente, que o sujeito do feminismo é “a mulher” quando, pelo contritio, necessitamos colocar um limite a0 apagamento filos6fico do género, que Promove a infinita deslocalizagao da diferenga sex: cando-se taticamente de um “sujeito” a outro, o fem vale de conexdes, afinidades, oposigées, recusas e polémicas, 165 segundo os encadeamentos provis6rios e contingentes de respostas sempre localizadas. Esta mobilidade de deslocamentos requer a forga de intervencao do feminismo, porém também sua capacidade de invengao, na hora de desenhar diferentes cenas de figuracio do “eu”, que variam segundo os mods através dos quais 0 “ser mulher” decide se colocar em palavras ou em imagens. S20 cada vez em maior ntimero 08 textos feministas que procuram novas formas de escritura, capazes de cruzar diferentes registros discursivos, até se converter em “ficgdes apaixonadas” (assim as descreve Ana Amado, a prop6sito do trabalho de D. Haraway), que “nao reconhecem fronteiras entre a reflexiio especulativa, a estética € a politica’." > _ Este cruzamento de fronteiras entre teoria, es tica, que caracteriza a busca fer entrar € sair das composigdes de identidade, mediante um ziguezague entre diversos “eu(s)” que, em mui ta institucional: 0 eu da decisio), o “eu” ico (0 eu do discurso metacritico: o eu da suspeita) ¢ 0 “eu” estético (o eu da arte e da literatura: 0 eu da pulsio ctiativa e do transbordamento metaférico). Intercalar estes planos de identidade e desidentidade (com todo o seu jogo de atragées € refragdes) fortalece © “sujeito" do feminismo a ser sempre outro para si mesmo, a no ter que se comportar sempre do mesmo modo, nem falar no mesmo tom. Esta intercalagao de planos nao-homélogos permite, por exemplo, que o feminismo possa deixar momentaneamente de lado 0 tom denunciante ¢ reivindicatrio das lutas de identidade € das politicas da representagio, quando seu discurso cai na redundincia € na programaticidade, para se aventurar naquelas margens, onde um carnaval de formas ¢ estilos desobedientes procura fissurar a ortodoxia do mundo dos rotestos (“sociedade”) ¢ das respostas (“ago", “conhecimento”). A estas margens, D. Haraway chama de margens de “hetero. glossia” e “polivocalidade”. Sao margens de des-identificacio, ‘que retinem tudo 0 que sai das regras normativas da univoci- dade: 0 ndo-integrado, o difuso, 0 errante, 0 desconexo, 0 ‘que vaga fora das totalizagdes identitarias. A forca descentra- dora destas ambiguidades e paradoxos de sentido per sujeito abandonar as identidades reconhec 166 famente entre “o pertencimento: ficagao) € 0 estranhamento (ou desorientagao) militante ou institucional dos projetos identitarios, baseados na “representacdo” das mulheres, persegue apenas um contetido politico sem fissuras ou excessos, sem loucuras ‘ou desperdicios, sem voltas ou rodeios. O dogma identitério procura nos fazer crer que as forgas de subjetivacao se redu- zem, linearmente, a calculados esquemas de identificacio, ocultando © plural heterogéneo que flui no “intervalo ou brecha” que separa a vor. do corpo, e que dissocia a vor. 0 corpo de qualquer argumento fixo de homogeneizacio da identidade."* Para oscilar c1 /_ Vale @ pena sublinhar a forga de estranhament 0 rada pelas simbolizagdes artisticas € (com as quais {rabalha ativamente a critica feminista, neste jogo de figu- .cBes do eu). A arte e a literatura sabem torcer os esquemas ‘Mentos, desvis-los na diregio das margens, onde se alojam ab matérias simbolicamente mais complexas por sua turbidez, gonvulsées e quebras. A arte e a literatura impedem que se Aogmatize o feminino no eu, sem rupturas € nem residuos, do sociologismo linear do género com que operai mente, 0s relatérios académicos e as comiss6es pablicas, rela- ‘cimento institucionalizados, em cujo marco se inscrevem, le- gitimamente, dentincias e reclamos pela obtencio de “direi- tos”. Sabemos que nio existe transformagio do sistema de sociais sem uma alteragao das regras do discurso simbélico, que ordena e formula o sentido. Da alteragao dessas regras € que pode nascer novas figuragdes de pensa- mento, novos estilos de fala, novas constelacdes do imagi- nario, para abrir a subjetividade aos registros figurativos de ‘uma outridade que, muitas vezes, se coloca contra a linguagem militante do protesto politico e, também, contra a linguagem burocratizada da academia. ‘A critica literaria e cultural — que trabalha sobre as dobras © 08 excessos da significagaio — sabe que o jogo da diferenca sexual somente pode ser reinventado quando se trabalha \$ € reviravoltas de um eu, cujas linguagens nao 167 la critica cultural que devemos defender, no do novo universo tecnificado e serializado do conheel. Mento universitirio, de sua instrumentalizagao burocritica, do qual slo testemunhas, no académico, os departamentos de “estudos de género", ¢ no piiblico-social, as ONG's, dois Gircuitos de reordenamento da fragmentariedade dispersa dos movimentos de mulheres, participantes da luta cidada que, sem dvida, con im para “colocar limite ao extravasa- ‘mento de subjetividades do ativismo feminista Novamente sio necessirios gestos duplos, desdobrados, Por um lado, nao deixar de reconhecer que os estudos da mulher ou do género formulam efetivamente um corte episte. mol6gico, nos blocos de sabet/poder das disciplinas acadé. micas tradicionais, a0 cruzar — a partir do eixo de problema: izagdo do género — a teoria social, a historia, a psicanilise etc.; € necessét © modo como tais estudos politizam 0 conhecim denunciar a fraude de uma “universalidade” da ciéncia oa da Filosofia, que se afirmava no supostamente puro e neuro de uma “terceira pessoa” masculinizada; ¢ nao deixar de reco. nhecer, finalmente, que as dindimicas microorganizativas dae ONG’s permitem, efetivamente, descentrar os nuicleos de tomada de decisio estatais ¢ inserir, em suas redes transna. cionais, demandas que provém da sociedade civil e que, as vezes, nao tériam expressio sem elas. Porém, juntamente com cste reconhecimento das vantagens politicas e institucionais dle ambos trajetos de consolidacao do feminismo, é necesvirio também manter uma reserva critica (de linguagem(s)) frente 30 modo como a planificagao do conhecimento, que sustenta ambos trajetos, tende a consagrar saberes operacionais (os felacao entre muther, politicas e saber, evitando que certas mPturas de sentido perturbem o intercémbio desembaracado ¢ transparente de dados e fungdes, exigido pelo burocratisme administrative do género. Ainda que 0 projeto feminista deva seguir absolutamente comprometido com um tragado de agdes ¢ discursos reivind:. cat6rios, nem tudo 0 que diz e faz 0 feminismo necessita 168 ional) de demonstracao-d vontade que suprime ou reprime tudo a or indefinivel — de perturbar os estreitos categorial com que operam os saberes ex} civeis das pesquisas académicas ou dos tecer ficgdes ut6picas, de jogar com uma certa desordem terminolégica, que se preste as aventuras do inclassi de preservar as fissuras € intei e s 2 3 a 5 a a 3 > normatividade profissional do saber competente das, as aplicadas. Provavelmente tudo isto seja possivel, gragas ao modo coi a critica feminista, além de reinventar modos de subj dade pol ua “manejar dnulos dacplnare,aando’GfeR GALS gs & linguas diferentes”," gracas 4 complexidade dos cenrios nos quais teve que se mover, para transitar entre a academia ea milinecia; entre o mundo discursivo da teoria contemporinea € as maquinas de acto, que disseminarao seus significados de oposigao nas redes publi Pa cul suas canonizag seus oe en © a postulagao de subjetividades alter- nativas, que sejam capazes de romper os pactos hegem6- nicos do uniforme ¢ do conforme. Esta mesma complexidade de cendrios, que leva a cri feminista a se deslocar entre 0 académico, 0 te6rico, 0 ico, Ihe ensinow a nao temer as confusdes ot laridades que se produzem na superficie dos cor ante a tensio — vigilante e batalhadora ao mesmo tempo Lares politicas da identidade e poéticas da subjetividade. (Este texto foi lido numa conferéncia no Coléquio *Comunidlad/ ‘contracomunidad’, Duke University, abril 2001.) 169 NOTAS " Nancy Fraser € Linda Nicholson, “Sexual criticism without philosophy”, em Feminism/posmodemism,editada por Linda Nicholson, Nova York, Routledge, 1990. p. 34. 2 Idem, 2 Assim o formula N. Hartsock: "Parece altamente suspeito que seja justo no ‘momento em que tantos grupos (...) comprometem redefinigées dos Outros izados, quando emergem as dividas sobre a natureza do ‘sujeito’, pensadores contemporiineos pela lertado sobre a ambiguidade do ia do patriarcado e a critica ‘© mesmo perante 0 fato de que “um dos aspe: cultura pés-moderna & a presenga de uma de status polit nao impede, as reeseritura de seu: + Rey Chow, “Autématas posimodernos", em Feminism y teora del dscurso, ‘ed. Giulia Colaizzi, Madsi, Catedra, 1990. p. 70. Diz Derrida: "Certas reivindicagoes de emancipaclo tuigio e o reconhecimento de uma subjetividade c ppara que sua identidade seja reconhecida em um trabalho ativo d ‘no campo nio apenas do discurso, ‘mas do combate politico. Esta dificuldade nos obriga a assumir responsabili- (qual se fom a responsabilidade de articular e negocive estes Contraditérios." *Conversaciones con Jacques Derrida’, em Re Cultural, n. 12, Julio 1996. p. 15. "Teresa de Laue, la teenloga del neo" em Revista Mor m2, p34 idora. Para deixar surgir, com a singula am |’ Marta Lamas, *La icin democritica feminista", em El reverso de nica, Caracas, Nueva Sociedad, 2000. p. 89. "Rosi Braidott, Swetos némades, Buenos Aires, Paid6s, 2000. p. 79. CRITICA ACADENICA E DEBATE. INTELECTUAL INTERVENCOES CRITICAS PNGR ONL ACT te fo A ale) * INIA teal) Torry