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HISTORIA POLITICA DE ISRAEL (J Melee rane) A finalidade da histéria politica é situar a vida dos homens no seio de um povo em formagao, e ao mesmo tempo situar a vida desse povo em os- mose com outras nagées e culturas, durante seu processo de desenvolvimento e de suas crises. O presente livro é um instrumento de trabalho para abordar o plano de fundo politico em fun- ¢do do qual os livros da Biblia foram compostos e reunidos. Gragas 4s descobertas modernas so- bre o Oriente Antigo, tornou-se possivel situar o nascimento do antigo Israel, sua histéria mo- vimentada. e as etapas de composi¢ao dos textos biblicos, em meio aos impérios e culturas do Oriente. Biblioteca de ciéncias Biblicas Capa: José Carios Quinta ISBN 25-95-00482-5 INDICE Lista de abreviaturas............cccceecceeeeeee eee eeeeeeeeeeeaeeeenenees 5 APTeSCNtaGAO .......ccccceee reece eee een ten eeeneeen seen eeeeese nesta eetaes 13 INTRODUCAO .......cccceeecncecccecceecceeeereesnennseeeusaneneseennns 15 1 — Historiografia de Israel ..........ccccccecccecc nee seeneneeeeenn ee 17 — Na Antiguidade.............ccceeeeeeeee . 17 — Histéria Judaica e Histéria Universal. 19 — A Idade Média.................e cece cece ee 22 — A Renascenca e os inicios da critica.. ww. 23 — Biblia e orientalismo....... wee 24 — Situacdo dos trabalhos. .. 26 — Sinteses recentes...........ccceeeeesenseeeeeeeces een eeneneaeee 29 TL — AS fONtCS.... cc ceceeecec reece ee nese neta ne nee seus eennene ees een ta ennes —A coletanea biblica................ ¢ A inscricfo de Idrimi ¢ Abdi-Heba de Jerusalém a Amenofis IV: “Que o rei se ocupe de seu pais!” .....-. 45 ¢ Israel na inscricdo de Mernepta.............--.6++ 47 © Vitéria de Ramsés III sobre os Povos do Mar......... 48 © Salmanassar III e Acab, em Carcar...........--. .. 49 © A estela de Mesa, rei de Moab....... 50 Teglat-Falasar III e Samaria........... we. 52 ¢ Salmanassar V conquista a Samaria .......-sssseeeeesenes 54 © Nabucodonosor II e Juddé: a tomada de Jerusalém... 54 IIL — O método € OS MELOAOS,...-....cceeres rene tn eee t tenet eee e ees — Relacdo: Antigo Oriente-Biblia . — Relacdo: Biblia-Historiografia biblica........ cece eee 58 — Historiografia Oriental ¢ Historiografia biblica....... 60 — As Historiografias biblicas.......6ceeseeeeeeeeeeeees 63 Primeira Parte: . ANTES DA MONARQUIA DE DAVI: AS TRIBOS........... 69 [ — AS tFiDOS coc ccccccecceecee eects ner eee beans a een ee ene neneeeeeseeeees 71 — A tribo.. wee 71 — Os antepassadOs..........cccscscsseesscsccecetsceucesesueeaes 74 Il — Os agrupamentos de trib0s.........cccccccccececeveccesecunaes 719 — Unido de tribos............ we 79 — Adoc&o............. 80 — Cana e os hurri 81 — Hapiru ou hebreus... 82 — Arameus e israelitas.. 83 — Os patriarcas........... 84 II] — A caminho da independéncia ......cccccccccacccccuscuscuecese 87 — Recuo do Egito..........ccccccecsecsecsseecnscescencessevenes 87 — “Subir do Pais do Egito”.. 88 — MOISES... eceeceeeseeneee . 89 — O EX0d0. 0... ee caeecccseecnsseccasecenececeesecsecseuees 91 — Choques e “murmuracdes”..........cccccsccssecsecceeeeee 93 IV — A vida das tribOs... .ccccccccccccccusceccneceuee 95 — Issacar, Zabulon, Neftali, Gad e Ruben.. 95 — Manassés junto com Efraim............... --- 96 — As tribos e os Povos do Pais..........ccssccssccesseseeeee 96 Segunda Parte: OCUPACGAO DA TERRA E AMEACAG............cccceeeeeceeee 99 I — O estabelecimento as tribOS........ccscccccecscccsseesevesees 101 — As tribos transjordamicas............ccccccccsescceeceeeees 102 — As tribos na Cisjordania Central..........00..00..0..00- — As tribos meridionais................ tee — As tribos do Norte..............cccsseceseesecesscceseceseees Tl — Israel na Epoca dos JutZes..... cece cececcavecccseeccccvessuees — Apos o fim do controle egipcio — Os dados arqueoldgicos............. . — AS ameacas estrangeiras...........cccccscaceccesessececuene — A estrutura da sociedade israelita pré-mondrquica.. 116 Terceira Parte: A MONARQUIA ISRAELITA UNIFICADA..........0c0cc00000 119 I — Posigdo do rei no Oriente Antigo... ccccccccccccccccceccece 121 — Ideologias monarquicas e a Biblia................0..0006 121 ~— Administracfo real. — A sabedoria real.... — Liturgias reais Il — A monarquia de Saul .......cccccccccceeeeeeceenenenseeenenenes 128 — Saul e seus combates.............cececeeceeeeneeeeeeneenees 128 — Saul e seus adversarios............cccceeeececseeeeeeeenen ees 131 TIL — Davi (ano 1000 A.C. Aprox.) ....cccccccccccccceeneeneee . 134 — A parentela..........006 . 134 — Davi e Saul........ . 135 — Davi em Siceleg...........:.cccceeseeeeeceeeeeeeee eee . 136 — Razias de Davi.............ccssceceeeececeeceeeeeeeees . 137 — Davi em Hebron................006 . 139 — Davi, rei de Israel em Jerusalém. . 141 — A politica de Davi.............00 .. 142 — A velhice de Davi................ . 143 IV — Salomdo (ano de 950 a.C. aprox.). .. we. 145 — Salom4o no trono de Davi....... ... 145 — Salom4o, o administrador..... »». 146 — As relacSes internacionais.. we. 148 — OS TOVESES.....cceccecceceecesceeceeeeen eee eeueenseneneeeeeneeee 149 V —A civilizagGo SalOMBNICA........ 61. cccc cece eee neeeentenneees 151 — A capital e as provincias............0ceee « 151 — Os trabalhos de arte...... .- 152 —A reflexdo.............5 .. 153 — OS CSCTILOS.........eceecec sense ee eeeeeer tec eneetenenen een enen ens 154 Quarta Parte: . AS DUAS MONARQUIAS: ISRAEL E JUDA.............005+ 157 I — O Reino de Israel e o destino de Judd........isccserreeees 159 — Israel rejeita a monarquia judaica . — Jeroboao, o efraimita (930-910 aprox.)........::ceee — Baasa, de Issacar, e Asa, de Juda (910-870 aprox.). 162 — A “Casa” de AMPi....ccccececeereeeeeeenc ee esneeer een en enna 163 — Hazael, de Damasco . — Jods, de Israel, e Jerobodo II....... — Declinio da monarquia de Israel ll — A guerra siro-efraimita e a queda de Samarid........0 71 — Teglat-Falasar III na Siria — O final do Reino de Isracl..........c.ccseesesseeeeeseeeee Ill — Ezequias de Judd e seus sucessores.. — Ezequias s6, 10 tron0 .eeecseseresere a — Ezequias ¢ Senaquerib........seeeeseseeeeeeeeeseseeeeeeees — A sombra da ASSiria......0ccccccccecccccccececceneesnrseaees 180 TV — JOSIOS 0... cece ceec cee cesccunccueececcusccecsuccusssurccustonucensens 182 — O assassinio de Amon. ..- 182 —A reforma de Josias..............ccccessececccecesceececeees 183 ~~ Judd e o fim da Assiria.........ccccccceecccccccececeeeaee 186 V — O fim do reino davidico...... .. 187 — O protetorado egipcio............00. «. 187 ~~ Nabucodonosor II (605-562 a.C.)........c:cccsesescceneee 188 — Apos a primeira capitulacdo , (15/16 de margo de 597 a.C.)........ccceecceeee .. 190 — O cerco e a queda de Jerusalém (587 a.C.)............ 192 Quinta Parte: DE NABUCODONOSOR A ALEXANDRE (587-332).....0... 195 1 — Sob a dominagdo de BabilOnia............ceccceeccee .. 198 A SUG Ia. eeccceccnesessne rene seueceaeseneeeees 198 — Samaria.........c eee we. 200 — Os judeus no Egito... cc ccccccecccceescscnescenarees 201 — Os exilados de Babil6nia.............0...cccccceeeeeaeeeee 202 — De Nabucodonosor a Nabonide (562-539)...... II — Sasabassar e Zorobabel...........6.0c.c0c000 211 — A politica religiosa de Ciro (539-529). . 211 — Sasabassar..........ccccccsecceccnscsseseesees .. 212 ~~ A Judéia sob Cambises (529-522).........ccccceseceeeeee 214 — Dario (522-485)........ccccccececcecececeevcaseccusousucuceeees 215 — A misséo de Zorobabel (520-518)..........cc.ccceeeeeeeee 216 — A Judéia na organizacdo do império persa............ 218 TEL — Neemias e Esdras......cccccccccccccseeccnecccsvecesnesscaussenues 221 — Ascensdo da Grécia..........ccccecseseeceecee . 221 — Os Mirachu sob Artaxerxes e sua politica. wee. 222 — Neemias, sua missdo e seus opositores...... -. 223 — Pressdo proveniente do litoral néo-judeu . 225 — A segunda missfo de Neemias.................. . 227 — A Colénia de Elefantina e suas dificuldades......... ~ Estruturas definitivas da Tora em vias de fixacdo... 229 — ESras oo... eee eeeecceneececeeeeeseseseuveuuecscausecsussess 230 — Conclusdo: fim da dominacdo persa...........00....005 231 Indice dos nomes prOprios.........ccccccccccsesssssceceestscceeestaees 235 Dados de Catalogacio na Publicagao (CIP) Internacional (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Cazelles, Henri. Histéria politica de Israel: desde as origens até Ale- xandre Magno / Henri Cazelles; [tradugao Cacio Gomes]. — Sao Paulo: Paulinas, 1986. (Biblioteca de ciéncias biblicas) Bibliografia. — ISBN 85-05-00482-5 1. Biblia — Historiografia 2. Judeus — Histéria — Até 70 3. Oriente — Histéria 4. Palestina — Histéria —- Até 70 5. Palestina — Politica e governo — Até 70 I. Titulo. Il. Série. CDD-930 86-1637 Indices para catélogo sistematico: . Biblia: Historiografia 220.95 . Israel: Histéria antiga 933 . Judeus: Histéria antiga 933 . Oriente antigo: Histéria 939 . Palestina: Histéria antiga 933 . Palestina: Histéria politica antiga 320.933 Amp wde BIBLIOTECA DE CIENCIAS BIBLICAS © O judaismo tardio — histéria e politica, A. Paul © Evangelhos sindticos e Atos dos Apéstolos, VV. AA. © A Biblia na origem da histéria, Pierre Giber ° Historia politica de Israel, desde as origens até Alexandre Magno, H. Ca- zelles soca nen Henri Cazelles HISTORIA POLITICA DE ISRAEL desde as origens até Alexandre Magno Edicées Paulinas Titulo original Histoire politique d‘Israél des origines 4 Alexandre le Grand © Desclée, Paris, 1982 Traducado Cacio Gomes Revisao Josué Xavier @ EDICOES PAULINAS Rua Dr. Pinto Ferraz, 183 04117 — Sao Paulo — SP (Brasil) End. telegr.: PAULINOS © EDICOES PAULINAS — S&o Paulo, 1986 ISBN 85-05-00482-5 (ISBN 2-7189-0218-3 — Bélgica) LISTA DE ABREVIATURAS 1 — Obras e publicagées periddicas diversas ACF Annuaire du Collége de France, Paris ADAJ Annual of the Department of Antiquities of Jordan, Amman AfO Archiv fiir Orientforschung, Graz AION Annali dell’ Istituto Orientale di Napoli, Napoles AJBI Annual of the Japanese Biblical Institute, Toquio AJSL American Journal of Semitic Languages, Chicago ANEP Ancient Near Eastern Pictures related to the OT., Princeton 1954 . ANET Ancient Near Eastern Texts related to the O.T.4, Prin- ceton 1969 Anst Anatolian Studies, Londres ASTI Annual of the Swedish Theological Institute, Jerusalém Aug Augustinianum, Roma AUSS Andrews University Seminary Studies, Michigan BA Biblical Archaeologist, Cambridge, Mass USA BAR Biblical Archaeology Review, Washington BASOR _ Bulletin of the American Schools of Oriental Stu- dies, Cambridge, Mass USA Bi Biblica, Roma BIFAO Bulletin de l'Institut Francais d’Archéologie orientale, Cairo BieOr Bibbia e Oriente, Génova-Milao BiLe Bibel und Leben, Diisseldorf BiNo Biblische Notizien, Bamberg BiOr Bibliotheca Orientalis, Leiden BZ Biblische Zeitschrift, Friburgo na Br. BZAW Beitrdge Zeitschrift Alttestamentliche Wissenschaft, Berlim CAH Cambridge Ancient History3, Cambridge CBQ Catholic Biblical Quarterly, Washington CRAI Comptes rendus de l’Académie des Inscriptions et Bel- les Lettres, Paris DBS DOTT EAE EI EPHE EsBi EVO GLECS HTR HUCA IEJ JA JANES JAOS JARCE JBL JCS JEA JEOL JESHO JIS JNES JNSL JPOS JOR JSOT KAI Supplément au Dictionnaire de la Bible, Paris Documents of O.T. Times, éd. D. Winton Thomas, Edimburgo 1958 Ed. M. Avi-Yonah, Encyclopedia of Archaeological Excavations in the Holy Land 4 vol., Oxford 1975 Eretz Israél, Jerusalém Annuaire Ecole Pratique des Hautes Etudes IV° et ve Sections, Paris Estudios Biblicos, Madri Egitto e Vicino Oriente, Pisa Comptes-rendus du Groupe Linguistique d’Etudes chamito-sémitiques, Paris ~ Harvar Theological Review Hebrew Union College Annuel, Cincinnati Isréel Exploration Journal, Jerusalém Journal Asiatique, Paris Journal of the Near Eastern Society of Columbia University, Nova Torque Journal of the American Oriental Society, Newhaven (Conn USA) Journal of the American Research Center in Egypt, Locuste Valley NY. Journal of Biblical Literature, Boston-Newhaven-Filadelfia Journal of Cuneiform Studies, New Haven, Connecticut Journal of Egyptian Archaeology, Londres Jaarbericht Ex Oriente Lux, Leyde Journal of the Economic and Social History of the Ancient Orient, Leyde Journal of Jewish Studies, Londres Journal of the Near-Eastern Studies, Chicago Journal of Northwest Semitic Languages, Stellenbosch Journal of the Palestine Oriental Society, Jerusalém Jewish Quarterly Review, Londres Journal for the Study of the OT, Sheffield Journal of Theological Studies, Londres H. Donner & Rollig, Kanaandische und Aramaische LA MDAIK MUSI OA Or OTS PEQ PRU RA RAI RB REJ RES Rev. Eg. RHPR RHR RiBi RIDA RLA RSO RSR RTL SAK Sem StOr SVT Sy UF Ug TZ vo VT Wado WZKM Inschriften,? Wiesbaden 1966 Liber Annuus, Jerusalém, Studium Franciscanum Mitteilungen des Deutschen Instituts fiir Aegyptischen Alterntumskunde in Kairo, Berlim Mélanges de l'Université St Joseph, Beirute Oriens Antiquus, Roma Orientalia, Roma Oudtestamentische Stiidien, Leyde Palestine Exploration Quarterly, Londres Palais Royal d’Ugarit (6 vol.), Paris Revue dAssyriologie, Paris Rencontre Assyriologique Internationale Revue Biblique, Paris Revue des Etudes Juives, Paris Répertoire d’Epigraphie Sémitique, Paris Revue d’Egyptologie, Paris Revue d’Histoire et de Philosophie Religieuses, Es- trasburgo Revue de Il’Histoire des Religions, Paris Rivista Biblica, Florenca Revue International des Droits de l’Antiquité, Bruxe- las Real Lexikon der Assyriologie, Berlim Rivista di Studi Orientali, Roma Recherches de Sciences Religieuses, Paris Revue Théologique de Louvain, Louvain-la~-Nevue Studien zur altaegyptische Kultur, Hamburgo Semitica, Paris Studia Orientalia, Copenhague Supplements Vetus Testamentum, Leiden Syria, Paris Ugarit Forschungen, Neukirchen Ugaritica (7 vol), Paris Theologische Zeitschrift, Berna Vicino Oriente, Roma Vetus Testamentum, Leyde Die Welt des Orients, Goettingen Wiener Zeitschrift zur Kunde des Morgenlandes, Vie- na , 7 ZAeS Zeitschrift fiir die aegyptische Sprache, Berlim ZAW Zeitschrift fiir die alltestamentliche Wissenschaft, Berlim ZDPV Zeitschrift des Deutschen Paldstina Vereins, Wiesba- den ZTK Zeitschrift fiir Theologie und Kirche, Tiibingen 2 — Obras e trabathos diversos Briend-Seux ’ J, Briend et M.J. Seux, Testes du Proche-Orient Ancien et His- toire d’Israél, Paris 1977. Galling, Studien L. Galling, Studien zur Geschichte Israels in persischen Zeital- ter, Tiibingen 1964. Grayson, Chronicles AK. Grayson, Assyrian and Babylonian Chronicles, Nova Jor- que 1985. Hayes-Miller HH. Hayes & J.M. Miller, Israelite and Judaean History, Lon- dres 1977. Helck, Beziehungen W. Helck, Die Beziehungen Aegyptens zu Vorderasien im 3 und 2, Jht v Chr, Wiesbaden 1962. Introduction critique Ed. H. Cazelles, Introduction critique a "Ancien Testament, Paris-Tournai, 1974. Kupper, Nomades J.R. Kupper, Les Nomades en Mésopotamie au temps des rois de Mari, Paris 1957. Olmstead History AT, Olmstead, History of the Persian Empire, Chicago 1948. Peoples of OT. Times Ed. D. Wiseman, Peoples of O.T. Times, Oxford 1973. Soggin Kénigtum A. Soggin, Das Kénigtum in Israel, Berlim 1967. de Vaux Histoire ancienne R. de Vaux, Histoire Ancienne d’Israél, 2 vol., Paris 1971 et 1973. Para a citacdo dos livros da Biblia seguimos as abraviaturas da Biblia de Jerusalém. 8 de Vaux Institutions R. de Vaux, Institutions de UAncien Testament, 2 vol., Paris 1961 et 1967. World History Ed. B. Mazar, The World History of the Jewish People, An- cient Times, Jerusalém. 3000 2500 1500 800 700 500 Mesopotamia Escritura cuneiforme Cidades Suméricas Império de Acad Sargdo Antigo Nara-Sin Invasaéo Guti Utu Hegal 1? Dinastia da Babilénia Hamurabi Arquivos de Mari Reis cassitas Arquivos de Nuzi Teglat-Falasar na Siria (1100 aprox.) Assurbanipal [1 Salmanassar III em Carcar (853) Adadnirari III Tegiat-Falasar IH (745-727) Salmanassar V (727-722) Sargao II ¢ Merodac-balada Senaquerib (705-681) Asaradon (681-660) Assurbanipal (669-630) Queda de Ninive (612) Nabucodonosor IH (605-562) Exilio de Ezequiel e Joaquim Nab6nides-Ciro, rei da Pérsia Queda Babil. 539/Dario 522-485 Xerxes (485-464) Artaxerxes (464-424) Dario II (424-405) Artaxerxes II (405-358) Artaxerxes HI (358-338) Dario IH (335-330) Asia Menor Antigo Império Hitita Mursil H na Babilénia (1680) Supiluliuma na Siria Fim do Império Hitita Arameus na Siria Tnven¢gao da moeda Quadro cronoldgico Siria Periodo do Bronze Antigo Ebla Aparecimento dos Hurritas Ameritas Némades perto de Mari Bronze Médio Idrimi em Canaa Bronze Recente Ugarit Ferro Ben-Adad I em Damasco Hazael Ben-Hadad II Rason Queda de Damasco e Samaria (732) Eshmunasar Megabises NT: Os nomes acima seguem a grafia usada no Quadro Cronoldgico da Biblia de Jerusalém, Edigées Paulinas, 10 aproximativo Palestina Amoritas Cultura cuneiforme Jerusalém nos textos de execracdo Abrado Exodo-expulsio Escrituras alfabéticas Hapiru Exodo-fuga de Moisés Israel em Canaa Filisteus (1180) Saul Egéia-Grécia Escrituras egéias Fim dos Aquenitas Povos do mar Egito Escritura hierogiifica Narmer Grandes pirémides Pedra de Palermo Textos das Piramides Uni da Palestina Pilhagem das Piramides Semitas no Egito Seséstris III em Siquém Textos de execracfio Invasdo dos Hicsos Tutmédsis II nas margens do Eufrates Amenéfis If (depois de 1450) Periodo de El-Amarna (1400-1350) Seti I Menefta Ramsés I Ramsés III Tausert 3000 2500 2000 1500 DAVI (1000 aprox.) Salomao (950 aprox.) < ‘ Jeroboaio Robodo Baasa Asa Amri Atalia Acab Jods Jet Amasias Jods Ozias “Jeroboao I Acaz Menaém Ezequias (Isaias) Oséias Manassés Samaria Amon (722) Josias (Jeremias) Capitulagao de Jerusalém (597) Sedecias Incéndio de Jerusalém (587) Zorobabel (520) Neemias (445) Esdras (399) Alexandre na Judéia (332) Guerras Medas Siamon Sheshong I Pianqui (Pi) e Tefnakht Sabaca Sabtaca Taharca Tomada de Tebas (664) Psamético J Necao IT (609-595) Psamético II (595-589) Hofra Cambises (525-522) Inaros Expulsao dos Persas Neferites (398-393) 800 700 500 11 APRESENTACAO O leitor ficara talvez decepcionado por nao encontrar, nes- se livro, a mensagem da Biblia nem seus profundos aspectos teoldgicos e filos6ficos. Uma histéria politica é algo de muito humano, demasiado humano, sujeito a todos os acondiciona- mentos sob os quais vive um povo em determinada terra, si- tuada em meio ao mundo. Usaremos os textos biblicos somente com relacdo aos dados geograficos, socioldgicos e histdricos. Os nomes préprios ocupam o maior espaco e, as vezes, repre- sentam um dado bastante seco. Nao aplicaremos, absolutamen- te, a psicologia, mesmo quando tratarmos de personagens que desempenhardo seu papel nessa vida movimentada e, as vezes, tragica. A finalidade de uma histéria politica é situar a vida dos homens no seio de um povo em formacdo, coisa que acon- tece em meio a suas tensGes internas. A finalidade é também situar a vida desse povo em osmose com outras nacées e cul- turas, durante seu processo de desenvolvimento e de suas cri- ses. Os autores biblicos falaram e escreveram para homens que viviam em uma sociedade, organismo em meio a outros orga- nismos: tribos, Estados ou Impérios. S6 poderemos compreen- der esses autores quando pudermos imaginar concretamente os acontecimentos que tiveram de enfrentar em sua cidade ou polis, no sentido mais amplo da palavra. Como escrever uma historia politica de Israel desde suas origens até o século IV a.C.? Como pode um sé autor ter a ousadia de abarcar a histéria de um milénio, cuja bibliografia é superabundante e cuja multiplicidade de dados é dificil de sintetizar? Tornava-se, porém, absolutamente necessario ter a dispo- sigdo um instrumento de trabalho para abordar o plano de fun- do politico em fungao do qual os livros da Biblia foram com- postos e reunidos. Gracas as descobertas modernas sobre 0 Oriente Antigo, tornou-se possivel situar o nascimento do an- tigo Israel, sua histéria movimentada e as etapas da composi- ¢4o da coletanea biblica, em meio aos impérios e culturas des- se Oriente. Dispomos, de fato, de numerosos dados objetivos e por isso fez-se mister tentar a elaboracao de um esboco. 13 E preciso, entretanto, que os especialistas cheguem a uma unanimidade. O leitor tem o direito dé sabé-lo. Por isso, pare- ceu necessario permitir que o Jeitor pudesse buscar informa- ¢des com base em notas e referéncias mais abundantes do que se costuma fazer em outros livros desta série. Um indice de nomes prdprios e dos termos mais impor- tantes, cuja referéncia principal esta em itdlico, permitira en- contrar o termo do qual se deseje explicagao. O presente livro desenvolve um estudo publicado em in- glés: The History of Israel in the Pre-exilic Period, em Tradi- tion and Interpretation, Essays by Members of the Society for Old Testament Study, Oxford, 1979, pp. 274-319. Queiram es- sa Sociedade e 0 editor desse volume (G. W. Anderson) acei- tar a presente obra como homenagem. 14 INTRODUCAO I. Historiografia de Israel II. As fontes III. O método e os métodos CAPITULO PRIMEIRO HISTORIOGRAFIA DE ISRAEL Historiografia ¢ uma maneira de escrever a histdria e de apresentar os acontecimentos. A Biblia, por sua vez, tem a sua historiografia ou até suas historiografias. A Biblia apresenta cronologias, narrativas concatenadas e até sinteses histéricas, como no caso do Livro dos Reis e Livro das Crénicas. Contu- do, é a titulo de Lei e Profecia que a Biblia foi coletada e trans- mitida tanto na Sinagoga como na Igreja. A curiosidade his- torica se originava de outro espirito. Abordava freqtientemen- te a historia de Israel com preconceitos apologéticos ou anti- apologéticos, segundo se acreditava ou nao se acreditava nes- sa Biblia. NA ANTIGUIDADE Os gregos tinham curiosidade histérica. No entanto, sé se interessaram pela pequena Judéia de maneira absolutamente secundaria e episddica. E 0 caso de Herddoto, no século V antes de Cristo, e depois Aristételes, Teofrasto e Clearco de Soli!. Pelo ano 300 a.C., Hecateu de Abdera dedica uma longa pagi- na aos judeus, mas em escrito intitulado Aegyptiacd. A obra se perdeu, mas Diodoro da Sicilia, historiador do século I, ci- tou essa pagina. Hecateu utiliza fontes ndo-biblicas. Aprecia Moisés e sua legislacfo, embora criticando o “modo de vida insociavel e intoleravel” dos judeus. Acrescenta um dado inte- ressante: suas praticas tradicionais teriam sido “perturbadas” ou “modificadas’? sob.os persas e os maced6nios; portanto, entre os séculos VI e III aC. 1. Esses textos se acham dispersos nos 5 volumes de Fragmenta Historicorum graecorum, editados por C. Miller e V, Langlois (Paris, 1841-1849, reimpresso em 1928- -1938). Existem trechos traduzidos para o francés por T. Reinach, Textes dauteurs grecs et romains relatifs au Judaisme (Paris, 1895, reimpresso por Hildesheim, 1963) e em inglés, com instrucdes e comentarios por M. Stern, Greek and Latin Authors on Jews and Judaism (2 vols., Jerusalém, 1976 e 1980). 2. Em grego ekineté. Segundo Flavio Josefo (supra, p. 20), em Contra Apion 17 Outra série de Aegyptiacd foi redigida pelo egipcio Ma- neton, no século III a.C., a pedido dos reis gregos Ptolomeus. Mais ou menos na mesma época, outro sacerdote, Beroso da Mesopotamia, redigiu os Babylionaca para uso dos seléucidas, outros sucessores de Alexandre Magno. Ambos se referem a historia de Nabucodonosor (século VI a.C.), Maneton fala do éxodo. Identifica esse fato com a expulsdo dos hicsos, “reis pastores” que dominaram o Egito no século XVII a.C. Como Hecateu, atribui também essa expulsao a uma impureza: os judeus teriam sido leprosos. Para azar da Histéria, Maneton confunde constantemente os acontecimentos da 18? dinastia egipcia (os Amenofis e os Tutmdsis) com os fatos da 19? di- nastia (os Seti e os Ramsés). E bem verdade que sé conhece- mos sua obra através dos recursos do historiador judeu Jose- fo (século I 4.C.). No decorrer desse século III a.C., se compuseram obras das quais a historia judaica biblica é o centro. Essa histdria é confrontada com as historiografias grega, egipcia e babilé- nica. O crondgrafo Demétrio? é judeu de cultura grega, preo- cupado com cronologia. Em seu livro Sobre os Reis de Juda, calcula as datas da criacéo e do éxodo. Certos nimeros por ele propostos se encontram na traducdo grega da Biblia, cha- mada Setenta. De resto, apresenta aproximac6es interessantes e coloca a data da queda de Samaria ao tempo do rei assirio Senaquerib, ao passo que ela aconteceu 20 anos antes. No sé- culo seguinte, Eupdlemo escreveu, por sua vez, “sobre os reis de Juda”. Nao era um novato, pois provavelmente trata-se do Eupdélemo enviado por Judas Macabeu como embaixador a Roma pelo ano de 160 a.C.*. Esse titulo, como o precedente, 1, 183, ele teria escrito um livro Sobre os Judeus, cuja realidade é contestada. De qual- quer forma, os episédios conservados sd se referem ao século IV a.C.: Alexandre e Ptolomeu I. A passagem sobre Abrado é certamente apécrifa, e a alusdo 4 carta de Aristéia a Hecateu pode ser apenas eco dos textos copiados por Diodoro. Sobre Be- résio, cf. S. M. Burstein, The Babyloniaca of Beossus, Malibu, 1978. 3. Conhecido por Eusébio de Cesaréia (Praeparatio Evangelica, século IV dC.) 4. J. Giblet, Eupoléme et Vhistoriographie du Judaisme hellénistique, em Meé- langes Gonzague Ryckmans, Lovaina, 1963, pp. 539-554; Bz. Wachholder, Eupole- mus: A study of Judaeo-Greek Literature, Cincinnati, 1974. Do mesmo autor sobre as cronografias, Biblical Chronography in the Hellenistic World Chronicles, HTR, 1968, pp. 451-481. 18 cobre, de fato, uma época mais extensa: esta historia vai de Adao a Demétrio I, contemporaneo do autor. S6 conhecemos um livro anénimo intitulado Sobre a pro- fecia de Elias, através de Eusébio de Cesaréia (século IV d.C.). Seu espaco de tempo é mais limitado. Comeca s6 em Moisés e termina em Salomao. Confunde o faraé contemporaneo deste (século X a.C.) com Hofra do século VI, que testemunhou nao a construcdo, mas, sim, a destruicéo do Templo. Esta nao é a unica confusdo feita por essas tentativas histéricas. Um frag- mento samaritano, transmitido sob o nome de Eupdlemo, tam- bém procura confrontar os dados biblicos com as tradicdes do mundo pagao. Assim, identifica Atlas com o Henoc biblico, que, segundo os apdcrifos, ter-se-ia também interessado em as- tronomia. De outra parte, teria sido Abraao quem teria intro- duzido a astrologia entre os fenicios. Artapa, historiador ju- deu anterior a nossa era, defende um ponto de vista diferente: teria sido no Egito que introduzira a astrologia, da mesma for- ma que José o fez com a agricultura, e Moisés, com o culto divino. Moisés é, ademais, identificado no Museu dos Gregos. Para os faraés, contemporaneos daqueles, Artap4 inventa no- mes egipcios grecizados. HISTORIA JUDAICA E HISTORIA UNIVERSAL Constatamos, pois, dupla preocupacdo: a cronologia e a insercdo das tradicdes biblicas no desenvolvimento das civili- zacées. Disso resultam importantes obras pagis, no século I a.C., das quais conhecemos apenas fragmentos, gracas a cita- ¢des de autores judeus e pagdos. Apolénio Molon nasceu na C4ria. Escreveu a obra Sobre os judeus, onde se louva Plutar- co, mas que Josefo considera de um anti-semitismo fanatico. De fato, é 0 primeiro, junto com Posid6nio de Apaméia, a acu- sar os judeus de homicidio ritual: por ddio racial, os judeus imolariam todos os anos um homem e se nutririam de sua car- ne. Apolénio, como Hecateu, se choca com a recusa dos ju- deus a se assimilarem. Faz vir da Arménia 0 antepassado de Abrado do qual nasce Isaac (Gelos, em grego), de quem nas- 19 cem doze filhos, entre eles José. Desta forma, Isaac é mais ou menos identificado com Israel. Da Asia Menor também provém Alexandre Polyhistor’, de Mileto. Entre os anos 85 e 35 a.C., escreve a obra Sobre os judeus. Utiliza seus predecessores, mas de forma muito livre, a partir das origens. Identifica Noé com Xisutro (Atra-asis) babilénio, o que a erudicdo moderna censurara. Conhece a Tor- re de Babel, um dillivio do tempo de Ogigeu, o primeiro rei da Atica, cuja lenda se liga ao Carvalho de Mambré, onde Abraao acampou (Gn 18,1 — cf. Josefo). O autor data o fato em 1020 antes da 1* Olimpiada (77 a.C.) e o éxodo sobreviria logo apés. A obra prossegue até a queda de Jerusalém e nao é antijudaica como ade Apido®, adversario de Filon perante Caligula (40 a.C.). Apiao nao escreveu uma historia sobre os judeus, mas, sim, uma Aegyptiacd, Segue também a Maneton quando fala do éxodo e ironiza os costumes do Templo antes de atacar os judeus de Alexandria. De outra parte, é uma his- téria judaica que encontramos nas Antiguidades Brblicas. O autor, chamado Pseudo-Filon’, é um judeu desconhecido, do século I d.C. Usa, como base, 0 texto biblico, desde Adfo até a morte de Saul, que ele completa por muitas consideracdes especulativas, chamadas midraxicas, provavelmente de finali- dade liturgica. Com Nicolau de Damasco, conselheiro de He- trodes, chegamos aos autores pagdos. Este escreveu uma His- toria Universal em 144 livros, com informagées sobre o dili- vio e a passagem de Abrafio em Damasco. Dessa histéria co- nhecemos apenas as partes mais recentes utilizadas por Jose- fo®. Que uso se pode fazer das Antiguidades Judaicas, redigi- das por esse historiador em 20 livros, desta vez téo bem con- servados? Este nado foi o unico a sentir a necessidade de rees- 5. Fragmentos e citagées em Fragmenta (Nota 1), HI, p. 206-224. Do texto das citagdes bastante confusas de Eusébio, veja, K. Mras, Eusebius Werke, VALI (Praep. Ev. IX, 17-39), Berlim, 1954, pp. 502s. M. Stern sé apresenta alguns excertos. 6. Flavio Josefo o cita freqiientemente, precisamente em seu Contra Apion, ed. T. Reinach, Paris, 1930. 7. D. J. Harrington et J. Cazeaux, Pseudo-Philon. Les Antiquités Bibliques, 2 vols., com a revisio de C. Perrot e Ph. Bogaert, Paris, 1976. 8. Sobre Flavio Josefo e sua obra, cf. A. Paul, O Judaismo tardio, Ed. Paulinas, Sao Paulo, 1983, pp. 63-67. 20 crever a histéria judaica apds a desastrosa guerra de 66-70, que terminou com a ruina do Templo. Infelizmente, a obra de Jus- to de Tiberiades, que o patriarca Fécio de Constantinopla ainda péde consultar no século IX, somente nos é acessivel através precisamente das criticas que lhe faz Josefo. As Antiguidades Judaicas, posteriores 4 Guerra Judaica, foram compostas de acordo com o modelo das Antiguidades Romanas, de Dioni- sio de Halicarnasso: tinham por finalidade introduzir o pu- blico romano nas tradigdes judaicas. Josefo, portanto, quer fa- zer obra de historiador e evita, conseqiientemente, a alegoria de Filon de Alexandria. Apega-se as fontes, sobretudo a Bi- blia, mas também a Artapa e a seus desenvolvimentos midra- xicos ja mencionados a propésito de Pseudo-Filon. Abrado é astr6nomo. Moisés, um capitdéo do exército egipcio que com- bateu contra os etiopes. Josefo aceita facilmente o milagre, visto que 0s leitores o admitem, referindo-se a outras tradi¢Ges reli- giosas. Tampouco sente exigéncias de ordem filoséfica e ra- cional. Admite, sem dificuldade, que Moisés tenha descrito sua propria morte, mas, de outro lado, leva a sério as divergéncias biblicas sobre a conquista de Jerusalém pelos israelitas ou so- bre o-encontro de Saul e Davi: este teria acontecido antes ou depois do combate contra Golias? Muita coisa se pode haurir das Antiguidades, mas sempre tendo em conta a apresenta¢ao dos fatos e desconfiando dos nimeros. Os cristéos, muitas vezes, copiaram seu texto. Enfrenta- vam problemas semelhantes. Julio Africano (170-245) construiu uma historia universal distribuida ao longo de 6000 anos’. Ja nao. toma como ponto de referéncia Abraao ou Davi, mas Ci- ro, 0 Persa, cujos dados lhe sfo fornecidos por Diodoro da Sicilia. Como Polyhistor, ele data o dilivio no tempo de Ogi- geu (2262 apos a criacio do mundo), mas coloca o éxodo em 3707. Eusébio de Cesaréia, falecido em 340 da nossa era, 0 uti- lizaraé, mas acompanhado de reais preocupacées criticas, pre- ferindo para o diluvio o ano de 2242 da Setenta, em lugar de 2262 de Julio Africano. Em seu Chronikon, discute os siste- mas cronoldgicos das diferentes nacées (assirios, hebreus, egip- 9. Com relacdo a esse periodo da historiografia, cf. A. Luneau, Vhistoire du sa- lut chez les Peres de l’Eglise. La doctrine des Ages du Monde, Paris, 1964. 21 cios, gregos e romanos). Cita suas fontes, sem ligar-se a uma filosofia da histéria: isso sera, por sua vez, a preocupacdo de Agostinho, que compés a Cidade de Deus, visando aos cris- tdos abalados pela tomada de Roma por Alarico, em 410. Em contexto muito apologético, seu discipulo Ordsio nos fornece, as vezes, informagées interessantes (Historiarum adversus pa- ganos libri septem). Jer6nimo, cujas exigéncias criticas em exe- gese conhecemos, nos deu uma traduc4o latina do Chronikon, de Eusébio. L A IDADE MEDIA A Idade Média latina tem pouca possibilidade de levar a frente a investigacdo histdrica e depende estreitamente dos trabalhos precedentes, que foram copiados e recopiados nos scriptoria monasticos. Os judeus, como também os cristaos, est4o ligados a literalidade dos textos biblicos, sem dispor de instrumentos necessarios para inventariar de perto os vestigios do passado. Os judeus se apegam 4 Lei como Lei, bem como a historicidade do texto e das instituicGes. Os crist&os tm, por sua vez, problemas com a Lei. No Pentateuco, procuram uma historia da salvaco e figuras. Beda, o Veneravel (Historia ec- clesiastica gentis Anglorum) e Isidoro de Sevilha (Chronica ma- jor) redigem histérias universais. A Biblia é 0 fulcro, embora seja considerada, de alguma forma, como proleg6menos para uma Histéria da Igreja. Além disso, durante a renascenca ca- rolingia (século [X), a histéria universal e a histéria de Israel interessam menos aos escritores do que as histérias nacionais calcadas sobre as histérias romanas de Suet6nio e de Salustio. Os copistas também se mostram ativos no Oriente bizan- tino. Os monges do monte Atos continuam a obra dos mon- ges estudistas, de Bizancio. A reflexdo teoldgica dos Padres se baseia na Biblia’. A pesquisa histérica nao é a caracteristica dominante na época, mas se manifesta na Biblioteca de um erudito como o patriarca Fécio. E o mundo muculmano que, a partir do século III de Hegira (século X), iré valorizar a he- ranca helénica. 10, Cl Mondésert, La Bible chez les Péres Grecs, no prelo. 22 Até esse momento, 0 mundo drabe se preocupou sobre- tudo com as genealogias tribais e com a histéria propriamen- te arabe. Com Yaqubi, Tabari e o grande viajante Mas’udi, ten- ta-se escrever histérias universais. Esses estudos histdricos irao prosseguir até o século XIII, com Ibn al Djazi e o Kamil, de Ibn al Athir. Essa historiografia depende evidentemente da apresentacdo de Israel no Corao. E bem menos ligada ao tex- to biblico, que a tradigAo muculmana considera como um tex- to falsificado. Enfim, com Ibn Khaldun, no século XIV, e seus Mukkadima (Prolegémenos), temos uma interpretacao mais sociolégica da histéria. Em nossos dias, essa historiografia sus- cita novo interesse!. Manifestam-se, de novo, as preocupacées histdricas no Oci- dente cristao. Oto de Freysingen desenvolve a idéia de que a civilizacdo se transferiu do Oriente para o Ocidente. Contudo, os judeus do Oriente, quando séo, como Saadia e Maim6ni- des, mais tedlogos e fildsofos do que historiadores, discutem a histéria nao somente com arabes, mas com os judeus carai- tas, que rejeitam as tradicGes talmudicas, conservando embo- ra a Biblia!?. E ent&o que a bandeira passa para o judaismo ocidental. O autor do Josippon, no século X, utiliza Josefo 4 sua maneira. Ibn Ezra, na Espanha, e Rashi, na Campanha (século XII), tecem observacGes judiciosas sobre a Biblia e a sociedade que suas leis fazem supor. A RENASCENCA E OS INICIOS DA CRITICA O interesse dos historiadores do século XVI se deslocara das sinteses sobre as Idades do Mundo e sobre a escatologia, para ligar-se 4 arqueologia e a andlise dos textos, sobretudo dos gregos. Esse ja € 0 caso de Nicolau de Cusa, do século 11. Trad. francesa de Slane, Les prolégoménes d’Ibn Khaldoun, 3 vols., Paris, 1868, reimpressdo Paris, 1934-1938. Excertos feitos por G. Labica e J. E. Bencheikh, La Muqaddima, Alger, 1963. 12. A. Paul, Ecrits de Qumran et Sects Juifs aux premiers siécles de l’Islam, Re- cherches sur l’origine du Qaraisme, Paris, 1969; S. Szyszman, Le Karaisme, ses doc- trines et son histoire, Lausanne, 1980. G. Vajda, REJ, 1981, 453-455; cf. também DBS Qaraisme IX, 571-586. 23 XV, que soube mostrar a inautenticidade da Doacdo de Cons- tantino 4 Santa Sé e procurou distinguir as etapas da compo- sig4o do Coro. Vem entao Erasmo, que se levanta contra as lendas que circundam de auréola os fundadores de reinos e mes- mo os santos. Do ponto de vista biblico, se acham privilegia- das a filologia grega e a critica do Novo Testamento. Se de- pois de 1477 (Bolonha) e, sobretudo, em 1516 (Veneza), se im- prime a Biblia hebraica, discute-se bem menos a historia de Israel do que a histéria da Igreja. Entretanto, se torna eviden- te que vao-se impondo novos métodos. Poderao eles levar a algo de positivo? Exerceu-se a principio a critica sobre a cronologia, mas os resultados foram bastante negativos', e depois a critica li- teraria e R. Simon tiveram que pagar por isso. Ainda nao ha- via chegado 0 tempo em que se poderia escrever uma historia de Israel que nfo fosse uma histéria santa ou uma anti-historia santa. Spinoza estabeleceu excelentes principios, mas suas ana- lises do direito puiblico de Israel nao valem nada e chegaram ao paradoxo de que “desde que os hebreus transferiram seu direito ao rei da Babilénia, cessaram o reino de Deus € 0 direi- to divino”'*. O inglés H. Prideaux, do século XVIII, se liber- tou mais dos pontos de vista juridico-teolégicos. Chegou mes- mo a criticar suas fontes (Aristeu, Josefo), em seus trés volu- mes, que vao de Teglat-Falasar III ao periodo de Cristo, mas sente-se ainda muito ligado pela seqtiiéncia apresentada pelos livros biblicos. A mentalidade da época, racionalista e deista, se choca profundamente com as esquisitices dos textos bibli- cos, enquanto pessoas crentes, como Bossuet, se sentiam ain- da obrigadas a escrever a histdéria universal a partir da Biblia. BIBLIA E ORIENTALISMO Para redigir uma verdadeira histdria de Israel, teve-se de esperar pela possibilidade de situar Israel e sua Biblia no con- texto do desenvolvimento das civilizacdes orientais. Semelhante 13. P. Hazard, La crise de la conscience européenne, Paris, 1935, pp. 121-202. 14. Tractatus theologico-politicus XIX, Amsterdam, 1670; cf. DBS VII, pp. 731-733. 15. Reeditado em 1913. 24 abordagem nao podia ter sido feita unicamente com base nas fontes da historiografia grega (Hecateu, Diodoro ...). Ela se tornaria possivel pelas viagens pelo Oriente feitas pelos Mi- chaud e pelos Niebuhr, pelo desenvolvimento da critica bibli- ca (Astruc, Eichhorn) e, sobretudo, pela decifracdo das linguas antigas: o fenicio (Barthélemy), os hierdéglifos (Champollion) e os cuneiformes mesopotamicos (Grotefend, G. Smith). Des- de 1829, H.H. Milman" abriu lugar para a sociologia e con- sidera que as trés narracOes nas quais o Patriarca apresenta sua mulher como sendo sua irma ao soberano estrangeiro s4o apenas variantes de uma unica tradicao. Incrédulo frente ao milagre e ao sobrenatural, esse autor nao admite mesmo a mo- saicidade das leis do Pentateuco. Em sua importante obra: Ges- chichte der Juden von den diltesten Zeiten bis zur Gegenwart (1859-1875), o sabio judeu H. Graetz também n4o da lugar a evolucdo da tradicdo juridica no Pentateuco’”. H. Ewald fara o mesmo em sua obra Alterthiimer des jii- dischen Volkes (1866). Admite um prolongado espaco de tem- po entre Moisés e a redacdo dos livros biblicos. J. Welhausen muito lhe deve. E este que com Graf e Kuenen, dara uma es- trutura mais consistente 4 histéria de Israel por meio de suas andlises das legislacdes sucessivas do Pentateuco e seu conhe- cimento da Arabia antiga. Seus Prolegomena zur Geschichte Israels (1883) sio dedicados a Ewald. Devemos-lhe uma Ge- schichte Israels (1878) e uma Israelitische und judische Geschi- chie’® (1894). E certo que, 4 luz dos progressos que o orienta- lismo iria fazer, pode-se julgar que esse autor nao soube atri- buir as tradicdes patriarcais seu devido valor, que nao soube guardar um justo equilibrio entre os fatos em si e a apresenta- cdo dos mesmos, considerados com demasiada freqiiéncia pe- lo autor como projecées de idéias e, enfim, que nao compreen- deu os valores da vida do periodo pés-exilico, onde ele via uma decadéncia para o “nomismo” por parte do movimento pro- fético. Mas, de outra parte, pds em evidéncia a evolucdo das leis no bojo de Tora, chave da histéria de Israel. Colocou em 16. The History of the Jews, reeditado, em 1913, em Londres ¢ Nova lorque. 17. Sobre Graetz, S. W. Baron, History and Jewish Historians, Nova lorque, 1964. 18. R. Smend prefaciou os excertos, J. Wellhausen, Grundrisse zum AT, Muni- que, 1965. O. Eissfeldt, Judius Wellhausen cf. KI. Sch. 1, pp. 56-71, Tubinga, 1962. 25 destaque as relagGes entre essas redacdes da Lei e o movimen- to profético. Foi capaz de reconhecer que Moisés teve um pa- pel a desempenhar e soube valorizar a vida independente das tribos antes do estabelecimento da monarquia. Depois de Wette que, no comeco do século XIX, havia estabelecido a identifi- cagdo do Deuteronédmio com o Livro da Lei mencionado em 2Rs 22 - 23, Wellhausen contribuiu fortemente para deslindar as linhas mestras da histéria politica de Israel, embora tenha percebido mal os valores religiosos da mesma. As descobertas arqueoldgicas posteriores iriam matizar numerosas afirmacdes suas, em particular sobre a antiguidade dos costumes e das leis. Foi entre as duas guerras mundiais que foram acertadas as cronologias mesopotamia e egipcia, a partir de 1500 a.C., com uma diferenca de poucos anos. O mesmo aconteceu com as grandes seqtiéncias da arqueologia palestinense do periodo do Bronze Antigo até a época persa. Sobraram algumas duvi- das com relacdo 4 primeira metade do 2° milénio da Mesopo- tamia, possivel época dos Patriarcas, e com relacaéo ao Antigo Império egipcio (3? milénio). Visto que a arqueclogia palesti- nense oferecia poucas datas absolutas, a literatura biblica teve de ser situada dentro desse quadro relativamente estabelecido do Oriente Préximo. Com relacdo a isso, tivemos sinteses de grande valor, como os trés volumes da Histoire du Peuple Heé- breu, de L. Desnoyers (1922-1930), a Geschichte des Volkes Is- raels, de R. Kittel (1925), a 22 edicAo de Israel et Ancien Orient de J. Vandervorst (Bruxelas, 1929), a Storia d’Israele, de G. Ric- ciotti, e os dois volumes de A. Lods: Israél, des origines au milieu du VII siéle (1930), Les Prophétes d’Iraél et les débuts du Judaisme (1935). SITUACAO DOS TRABALHOS Importantes problemas ficaram ainda sem solucdo e as- sim permanecem. Nao podemos falar ainda em um consenso com relacdo a histéria de Israel. As divergéncias se referem so- bretudo as origens, mas também ao valor das fontes relativas ao periodo de Davi e de Salomao. 26 1 — Certos autores acham que podem adotar a sucess4o dos acontecimentos de acordo com a ordem dos livros bibli- cos (A. e R.; Neher)”. Dentro desta linha, outros autores, per- tencentes sobretudo a escola de Y. Kaufmann”, atribuem a época mosaica o conjunto das instituicdes ditas sacerdotais (cf. o Levitico), que a maioria dos especialistas considerara como de origem tardia. 2 — Uma tendéncia diferente aceita as conclusées geral- mente adotadas pela critica biblica, mas julga que a arqueolo- gia confirma a historicidade da Biblia a partir de Abraao: W. F. Albright?, G. E. Wright”, W. Keller, World History of the Jewish People, A. R. Millard e D, Wiseman”. 3 — Outra corrente recusa dar tamanho peso aos dados arqueologicos e se apega a histéria da tradi¢do (Gunkel, Alt, Noth, von Rad, Mc Kane)**. Escrever tradigdes é algo relati- vamente tardio, e existem autores que até chegaram a rejeitar o esquema wellhauseniano, fazendo descer até o século VI aC. os estratos antigos do Pentateuco (T. L. Thompson, H. H. 19. Histoire Biblique du Peuple d’Israél, 2 vols., Paris, 1962. 20. Téled6t ha-Emunah ha'lsraelit miméy qedem ‘ad sph béyt shéni (hebrai- co), Tel Aviv, 1967. Traducdo inglesa abreviada de M. Greenberg. Y. Kaufmann, Con- naitre la Bible, Paris, 1970. 21. From Stone Age to Christianity, Baltimore, 1941, 22 ed. 1957 — é uma obra considerdvel, admiravelmente documentada. Por exemplo: The O. T. and the Archeo- logy of Palestine, na edicio de H. H. Rowley, O. T. and Modern Study, Oxford, 1951, pp. 1-47; The Biblical Period from Abraham to Ezra, Nova lorque, 1963; LArchéolo- gie de la Palestine, traducdo francesa, Paris, 1955, cf. D. N. Freedman, The publi- shed Work of W. F. Albright, Cambridge (Mass), 1975. 22. Biblical Archeology, Filadelfia-Londres, 1957, The Archeology of Palestine, em The Bible and the Ancient Near East, Essays... Albright, N. 1., 1961, pp. 73-112, e numerosos trabalhos arqueolégicos. Atualizacdo de W. Dever, HTR 73, 1980, pp. 1-16. 23. La Bible arrachée aux sables, traducdo francesa, Paris, 1963. 24. Vol. 2. Patriarches (editado por B. Mazar), H. L. Ginsberg, M. Greenberg, M. Haran, J. Liver, S. E. Loewenstamm, E. A. Speiser, H. Tadmor, Y. Yadin, S. Yei- vin. Sobre 0 conjunto, cf. Nota 41. 25. Essays on the Patriarcal Narratives, Leicester, 1980. 26. H. Gunkel, Genesis, Gdttingen, 1910 (cf. P. Gibert, Une théorie de la légen- de; Hermann Gunkel, Paris, 1979); A. Alt, Kleine Schriften, 4 vols., Stuttgart, 1962; M. Noth, Ueberlieferungsgeschichtliche Studien, Halle, 1943; id. Ueberlieferungs- geschichte des Pentateuch, Stuttgart, 1948; id, Histoire d’Israél, tradugao francesa, Paris, 1954; G. von Rad, Das formgeschichtliche Problem des Hexateuchs, Stuttgart, 1938: id, Gesammelte Studien, 2 vols., Munique, 1958, 1973; W. Mc Kane, Studies on Patriarcal Narratives, Edimburgo, 1979. 27 Schmid, R. Rendtorff, J. van Seters)?’. Nos ciclos patriarcais, haveria mais lendas (Sagen) do que fatos. 4 — Enfim, entrou na histéria 0 estudo sociolégico, mas em nome de filosofias e de mentdlidades bastante diferentes. Essa historiografia se ligara sobretudo as tenses internas e ex- ternas que 0s livros biblicos refletem. A. Causse ja havia pro- posto alguns marcos indicativos*. M. Weber’ pds em evidén- cia os fatores econdmicos. Atualmente, podemos ler os ensaios de G. Mendenhall, de M. Clévenot, de F. Dumortier, de J. Mi- randa, Cl. Wiener, N. Gottwald®° e acima de tudo a critica feita por M. Liverani da Histoire, de R. de Vaux?!. Com-o fim de reduzir as tensdes, Ph. Hyatt tentou uma confrontagdo entre os autores com relacdo ao método a se empregar*?, Mendenhall enfatizou a unidade do mundo poli- tico no qual apareceu Israel, e M. Greenberg deu énfase a uni- dade de Israel na época da conquista. Ambos renderam ho- menagem ao método usado por R. de Vaux, qualificado de “eclético” por J. H. Hayes e J. M. Miller (infra). Segundo es- sa abordagem, a tradicao “preserva e constréi” ao mesmo tem- po*’, Devem-se ter em conta os cultos locais e as tradicdes que os justificam (etiologias). A etnografia com seus estudos so- bre os costumes das tribos e de seus deslocamentos é um fator 27. T. L. Thompson, The Historicity of Patriarcal Narratives, Berlim, 1974; id. The Joseph and Moses Narratives, em Hayes-Miller, infra n. 40; H. H. Schmid, Der sogennante Jahvist; Beobachtungen und Fragen zur Pentateuchforschung, Zurique, 1976; R. Rendtorff, Das Uebertieferungsgeschichtliche Problem des Pentateuch, Ber- lim, 1977, e seu didlogo com outros especialistas em JSOT, 3, 1977; J. Van Seters, Abraham in History and Tradition, Nova lorque-Londres, 1975. 28. Du groupe ethnique a la communauté religieuse, Paris, 1937. 29. Le Judaisme antique, 1921, traducdo francesa Paris, 1970. 30. M. Clévenot, Approches matérialistes de a Bible, Paris, 1976; F. Dumortier, La fin d’une foi tranquille. Bible et changements de civilisation, Paris, 1975; J. Mi- tanda, Marx et la Bible, Salamanca, 1975; G. Mendenhall, Biblical History in Transi- tion, em The Bible and the Ancient Near East. Essays-Albright, Nova lorque, 1961, pp. 32-53; id, The Hebrew Conquest of Palestine, BA 25, 1962, pp. 66-87; N. Gott- wald, The Tribes of Yahweh. A Sociology of Religion of liberated Israel, 1250-1050 BCE, Nova torque, 1979 (Trad. bras. As tribos de lahweh, Ed. Paulinas, Sao Paulo, 1986); A la découverte de la Bible (Hari, Lafont, Rebré, Wiener, Wirth, Editions ou- vriéres), Paris, 1980. 31. OA, XV, 1976, pp. 145-159, e na edicdo de S. Moscati, Latba della Civita, Turim, 1976, I, pp. 277-414; H, pp. 3-126; I] pp. 439-512. 32. The Bible in Modern Scholarship, Nashville-Nova Iorque, 1965. 33. Op. cit. p. 23. 28 importante. A arqueologia, enfim, fornece um quadro geral relativo aos desenvolvimentos culturais e urbanos, mas tem seus limites. Em dois casos, pelo menos (Hai e Jericd)"*, ela s6 po- de ser explicada por meio da interpretacdo de tradicdes**. SINTESES RECENTES 1 — Efetivamente foram esses os principios que R. de Vaux aplicou em sua obra Histoire ancienne d’IsraéP*, infe- lizmente interrompida por sua morte antes de chegar ao esta- belecimento da monarquia. Embora levando em grande conta o ambiente, de Vaux seguiu as etapas biblicas: Patriarcas, Exo- do, estabelecimento em Canaa, periodo dos Juizes. 2 — Geschichte Israels in alttestamentlicher Zeit*" de S. Herrmann, dedicada a A. Alt, qualificada também de “ecléti- ca” por Hayes-Miller, e a Geschichte Israels bis Bar Koche- ba®®, de A. Gunneweg, so muito mais breves. Ambos consa- gram a primeira terca parte do livro ao periodo pré-monarquico, referindo-se aos movimentos dos povos no Antigo Oriente. En- contramos bibliografia e notas cientificas em S. Herrmann. 3 — Depois de haver estudado a organizacdo de Israel co- mo Estado, no quadro do Antigo Oriente, G. Fohrer*’ publi- cou uma Geschichte Israels bis zur heutigen Tagen. De nove capitulos, oito tratam da histéria biblica, com poucas notas, mas com abundante bibliografia por capitulo. 4 — A obra de J. H. Hayes e J. M. Miller, mais ampla e bem documentada, Israelite and Judean History, é do tipo 34. Cf. infra capitulo p. 43. 35. Em Histoire Universelle, edicio La Piégiade (Paris, 1956), deu-se um espaco muito restrito a G. Goossens com relacdo a Israel (pp. 378, 396, 407...). Mais desen- volvida e sugestiva é a Histoire du peuple hébreu, de A. Lemaire, Paris, 1981. 36. Les Patriarches, Paris, 1971; II. Les Juges, Paris, 1973. 37. Munique, 1973, traduc&o inglesa, Fortress Press, 1975. 38, Stuttgart, 1972; 23 edicdo 1976. . 39. Studien zur alttestamentlichen Theologie und Geschichte, Berlim, 1969; Ge- schichte Israels, Heildelberg, 1979. 40. Londres, 1977. Além dos editores, colaboraram: W. Dever e M. Clark (Pa- triarcal Traditions), T. L. Thomposon e D, Irvin (José e Moisés), A. Soggin (Davi 29 coletivo. Servimo-nos dela, como base, muitas vezes, neste es- tudo mais reduzido que segue. ‘ 5 — Enfim, a World History of the Jewish People, An- cient Times“ é uma obra muito mais consideravel, mas ain- da inacabada, suprida de uma bibliografia seletiva. Trata-se de uma obra de sabios judeus, naturalmente muito a par da arqueologia do pais e atualizados quanto aos dados sobre o Oriente Antigo. e Salomao), H. Donner (Israel e Juda), B. Oded (Juda e 0 exilio), G. Widengren (pe- riodo persa)... 41. Seis volumes j4 foram traduzidos para o inglés, de 1971 a 1981, Jerusalém. 30 CAPITULO II AS FONTES Dispomos de fontes muito diversas para chegarmos ao co- nhecimento da histéria politica do antigo Israel. Todas tém o seu valor, mas seu coeficiente de historicidade varia, pois ca- da qual fala 4 sua maneira. A COLETANEA BIBLICA A coletanea biblica! se refere freqiientemente a dados histdricos. 1. Os ordculos dos profetas sio pronunciados em fun¢ao de circunstancias em que se encontra o povo, sendo, porém, que essas circunstAncias nem sempre sdo bem evidentes. Os ord- culos foram postos por escrito, 4s vezes pelos mesmos profe- tas (cf. Is 8,16; 30,8); contudo, o mais das vezes foram recolhi- dos e agrupados pelos seus discipulos. Muitos escritos reve- lam o estilo, a psicologia e as preocupacées do préprio profe- ta; muitos, porém, foram redigidos em tempos mais ou menos remotos dos acontecimentos, como, por exemplo, as narrati- vas sobre Jeremias (Jr 34 - 44). 2. Possuimos, portanto, narrativas concatenadas sobre a vida dos profetas, nado sé de Jeremias, mas também de Isaias (caps. 36 - 39) e até de cenas biogrdficas mais breves (Am 7,10-17). Temos verdadeiros “ciclos” compostos de cenas su- cessivas, relativos aos reis (como a sucessdo de Davi, 2Sm 13 - 20; 1Rs 1 - 2).ou referentes aos predecessores desses reis, pa- triarcas (Abrado, Gn 12 - 24) ou juizes (Gededio, Jz 6 - 9). Ca- be aos historiadores determinar a composi¢ao, 0 alcance e a 1. As introdugdes ao Antigo Testamento tém justamente a finalidade de dar a conhecer o estado da pesquisa sobre a composicdo dos livros ou fragmentos de livros biblicos (O. Eissfeldt, G. Fohrer, G. W. Anderson, A. Soggin, W. Harrington...) Veja-se especialmente P. Auvray, H. Cazelles, M. Delcor, A. Gelin, P. Grelot, H. Lusseau, L. Moulonbou,... Introduction critique & UAncien Testament, Paris, Tournai, 1973. 31 finalidade desses “ciclos”, que, muitas vezes, apresentam des- continuidades. 3. Também as /egislagdes t@m grande valor historico, pois correspondem, se bem que nao a fatos isolados, mas ao me- nos as estruturas sociais sucessivas de Israel. Assim, 0 “cddi- go da alianca” (Ex 20,24-23,19) nao conhece reis, enquanto o Deuteronémio possui uma “lei real” (Dt 17,14-20). Esses c6- digos retomam freqiientemente os mesmos problemas, mas de maneiras divergentes: assim, por exemplo, em Ex 21,12s; Dt 19; Nm 35,9-34, o estatuto do escravo (Ex 21,1-11; Dt 15,12-18; Lv 25,35-46), 0 repouso sabatico (Ex 23,12; 34,21; Dt 5,12-15; Lv 23,3...). Dessa forma se pode determinar a histéria das insti- tuigdes. A DOCUMENTACAO EXTRABIBLICA A coletanea biblica se reporta constantemente a dados geo- graficos: paises, montanhas, vales, rios, cidades... Essa geogra- fia’? deve considerar-se como a primeira fonte da histéria do povo que ali se instalou e viveu, a menos que se possa provar que tal nome sé tem valor simbolico, como, por exemplo, a cidade de Ninive, que levava trés dias para atravessar (Jn 3,3). Contudo, nao haveria uma Ninive simbdlica, se nao tivesse ha- vido antes uma Ninive real. Em nossos dias, conhecemos esta Ninive, bem como conhecemos muitos outros dados da geo- grafia biblica: os mares (Mediterraneo, mar Morto, golfo de Acaba), 0 curso do rio Jordao, as colinas da Samaria, os vales de Jezrael e de Araba, o deserto de Juda... Até o presente sé- culo XX, o clima e o regime das chuvas, a vegetacdo e as cul- turas s6 evoluiram um pouco. Os nomes de muitas cidades e povoados atravessaram séculos e ocupacdes sucessivas: roma- na, bizantina e arabe. Mas nem todos os nomes (toponimicos) sio tao faceis de situar como Jerusalém, Samaria ou Aco (Sado 2. E. M. Abel, Géographie de ta Palestine, 2 vols., Paris, 1933; M. de Buit, Géo- graphie de la Terre Sainte, Paris, 1958; Bibliografia geral sobre os lugares da Terra Santa, E. K, Vogel e B. Holtzclaw, HUCA 42 (1971), pp. 1-92 e 52 (1981), pp. 1-92. Os nomes drabes e hebraicos diferem freqtientemente. 32 Joao de Acre). O mesmo se da com regides como o Galaad além do Jordao e a parte meridional de Juda, chamada Negueb. Esses top6nimos sao freqiientemente mencionados em tex- tos anteriores ou contemporaneos da Biblia. Essas fontes egip- cias’ , Mesopotamicas* ou mais préximas ainda, oeste-semiti- cas*, servem verdadeiramente de referencial histérico e cultu- ral para a Biblia. Devemos enumerar as principais: 1. A documentacdo egipcia é atualmente muito abundante € remonta a uma época que fica para além da invencdo da es- critura hieroglifica (3000 a.C. aprox.). E bem verdade que nem todas se referem a Israel. Mas tém importAncia sobretudo pa- ra Canad e para o litoral da Asia. . Os reis e chefes que fizeram campanhas na Asia sentiram a necessidade de perpetuar a lembranga de seus feitos. Siquém € provavelmente mencionada sob a forma de Secmem sobre a estela comemorativa de um general de Sesdtris III (1800- 1750 aprox.)®. Desta epoca datam também o que chamamos de “textos de execracéo”, nos quais sobre figurinhas sdo “execra- 3. Podem-se consultar facilmente os textos mais extensos dessa documentacdo oriental em J, Briend-M. J. Seux, Textes du Proche Orient et Histoire d’Israél, Paris, 1977; ed. J, Pritchard, Ancient Near East Texts related to the O.T, 3? ed. Princeton, 1969. Com rela¢éo particularmente 4 documentacdo egipcia, veja-se J. Simons, Hand- book for the Study of Egyptian Topographical Lists relating to West Asia, Leyde, 1937; W. Helck, Die Bezichungen Aegyptens zu Vorderasien, Wiesbaden, 1962; Die Bezie- Aungen Aegyptens und Vorderasien zur Agdis bis in 7, Jahrhundert v. Chr, Darm- stadt, 1979. 4. Um Repertoire géographique des textes cunéiformes (Wiesbaden, 1974...) ja esta em seu 4? volume. Veja-se também S. Parpola, Neoassyrian Toponyms, Neukir- chen, 1970. 5. Atualmente a documentacdo se acha mais dispersa. J. Nougayrol e C. Virol- leaud, Palais royal d’Ugarit, 6 vols. (ed. C. Schaffer), Paris, 1956-1965; M. Astour, Continuité et changement dans la toponymie de la Syrie du Nord, em La Toponymie antique, Colloque Strasbourg, 1975, pp. 117-141; R. Dussaud, La Toponymie histori- que de la Syrie antique et médiévale, Paris, 1927; W. Borée, Die alten Ortsnamen Pa- ldstinas, Leipzig, 1930; Cm. Horain, Lidentité des lieux de la Jordanie et de l'Arabie, Gand, 1964. 6. Por esta época, os egipcios vio em busca da turquesa no Sinai e comecam a exploracao do planalto de Serabit-el-Cadim, onde iré aparecer o mais antigo alfa- beto semitico (Estudos e bibliografia de M. Sznycer, Protosinaitiques [inscriptions] em DBS VIII, 1384ss., Paris, 1972). Uma corrente oposta estabelece os semitas no Egito, quer como cativos (W. C. Hayes, A Papyrus of the Late Middle Kingdon in the Brooklyn Museum, Brooklyn, 1955), quer como refugiados (Abisa em Beni-Hassan, cf. W. Shea, BA 1981, 44, pp. 219-228. 33 2 — Histéria Politica de Israel... dos” os principes da futura Palestina que se tornam cidades (entre as quais Jerusalém)’. De ameacadores tornam-se con- quistadores. Esses principes “de paises estrangeiros” (donde seu nome de “‘reis hicsos em lingua egipcia grecizada) domi- nam o Egito de 1750 a 1580 a.C. Os faraés do “Novo Impé- rio” os repelem entdo. E a vez dos exércitos egipcios ocupa- rem a Asia até as margens do Eufrates. A documentacio se torna mais abundante, e os nomes prdprios sao copiosos. A Palestina passa a ser um Huru (hurritas, populacdo n&o-semita), mas ha também o Canaa (0 pais baixo) e o Emor (Amurru, a regido montanhosa). Depois do século XVI a.C., os generais egipcios encontram no vale de Jezrael e em outros lugares os Aperu (hebreus ou hapirn)®, os shosu? (beduinos, muito pro- vavelmente os Beney Set de Nm 24,17, cf. Gn 4,25s). Ramsés II do século XIII fala de Moab, e seu sucessor Mernepta se refere a Edom e Israel (1220 a.C. aprox.)'°. Por volta de 1180, Ramsés III vence os “povos do mar”, dos quais fazem parte os filisteus que se fixam na costa e acabarao por dar o nome 4 Palestina. O Egito se enfraquece, entéo, em parte pelos ata- ques que vém da Libia e, em parte, por causa de discérdias internas. Ainda temos vestigios da presenca egipcia por volta de 1150". Em seguida, se deve aguardar a campanha de Shes- honq I (925 aprox.), que nos proporciona uma longa lista de 7, K. Sethe, Die Aeichtung feindlicher Firsten, Vélker und Dinge auf altaegyp- tischen Tongefissscherben des Mittleren Reiches, Berlim, 1926; G. Posener, Princes et Pays d’Asie et de Nubie; textes hiératiques sur des figurines d’envotitement du Mo- yen Empire, Bruxelas, 1940; id., Les texts denvéutement de Mirgissa, Syria 1966, pp. 277-287; Les Asiatiques en Egypte sous les XII et XIII dynasties Syria 1957, pp. 145-153. 8. J. Bottéro, Le probléme des Habiru a la 4 rencontre assyriologique intzrnatio- nale, Paris, 1954, art. Habiru, RLA (Berlim, 1972), pp. 14-27; H. Cazelles, The He- brews, dans ed. D. Wiseman, Peoples of the O, T. Times, Oxford, 1973, 1-28. 9, R. Giveon, Les Bédouins Shosou des documents égyptiens, Leyde, 1971. 10. E. Engel, Die Siegestele des Merenptah, Bi 1979, pp. 373-399, Briend Seux, p. 67. Coincide também com a época em que o sacerdote egipcio Wenamon vai em busca de madeira no Libano, ndo sem ter que sujeitar-se a humilhacdes. Fato que revela a fraqueza do Egito, cf. ANET, pp. 25-29. 11. B. Rothenberg, Timna, Valley of the Biblical Copper Mines, Londres, 1972, pp. 163s (conferéncias de R. Giveon). 12. Lista XXXIV de J. Simons (Nota 3); B. Mazar, The Campaign of Pharaoh Shishak to Palestine, SVT YV (Congresso de Estrasburgo), Leyde, 1957, pp. 57-66. Nao devemos negligenciar a documentacdo figurada, a dos asidticos pedindo asilo (Beni-Hassan), a dos filisteus (Ramsés II] em Medinet Habu, WF. Edgerton-JA. Wil- son, Historical Records of Ramsés III, Chicago, 1936), a das fortalezas da regiao (mig- 34 cidades capturadas de Israel do norte e do sul. A seguir, a do- cumenta¢ao escasseia. Mas, além dos Anais e dos textos gravados, a época de Ramsés nos deixou uma documentacdo sobre papiro (escritu- ra hieratica), extremamente interessante. Em grande parte, foi usada para a formacao de escribas. Podem tanto ser listas ari- das de nomes proprios ou termos de uso a serem aprendidos (os Onomastica"’) ou ent&o modelos de cartas a serem envia- das, assim como sobre a maneira de acolher os asiaticos (Mis- celénea'*). Existem também textos de carater mais literario: cenas da vida de um faraé (“Novelas”’), poemas épicos so- bre suas vitorias (Ramsés II na batalha de Cades, as margens do Orontes'*), instrugdes sobre a maneira de governar (edital do vizir) ou enfim, em forma de um didlogo muito animado, uma instrucdo completa sobre as rotas da Asia e seus peri- gos!’, 2. As fontes cuneiformes (Mesopotamia, Siria, Asia Me- nor) sao escritas com ferramentas, fazendo-se sulcos com um estilete sobre uma tabuinha de argila. Mas costumavam-se gra- var sinais sobre a pedra dura. Como o proprio pais, essas fon- tes sdo mais dispersas e mais complexas. Nunca devemos es- quecer que a cultura cuneiforme dominou a Siria-Palestina du- rante mais da metade do segundo milénio a.C."*. Encontra- ram-se tais tabuinhas até no Sul (Gazer), antes que o alfabeto o suplantasse. Essas tabuinhas encontradas no local contém listas de nomes, contratos e até fragmentos de uma epopéia. Dessa forma, nos proporcionam certa viséo sobre a atividade urbana. dol). Veja-se ed. Pritchard, Ancient Near Eastern Pictures related to the O. T. (= ANEP), Princeton, 1954, 13. A. Gardiner, Ancient Egyptian Onomastica, Oxford, 1947. 14. R. Caminos, Late Egyptian Miscellanies, Oxford, 1954. . 15. Introduction critique... p. 162; cf. S. Herrmann, Die KGnigsnovelle in Agyp- ten und in Israel, Wiss. Zeit, Karl Marx Univertat, (Festschrift A. Alt) Leipzig, 1953/4 pp. 35-44. 16. Poéme de Pentaour e outros textos em A. Gardiner, The Kadesh Inscriptions of Ramses I, Oxford, 1960; C. Kuentz, La bataille de Qadesh, Le Caire, 1928-1934. 17. Trata-se do papiro Anastasi I: A. Gardiner, Egyptian Hieratic Texts, Leipzig, 1911 (com traducdo); J. Wilson em ANET, pp. 475-479. 18. J. Reade, Mesopotamian Guidelines for Biblical Chronology, Malibu, 1981. Sobre as tabuinhas cuneiformes de Taanak, Siquém e Tel el Hesi, ANET, 490b. 35 Contudo, a documentac&o cuneiforme, para nés muitis- simo importante, nao é aquela que foi encontrada no solo de Canaa. a) As tabuinhas, em numero de aproximadamente 16.000, referentes a arquivos, descobertos pela miss4o italiana em Ebla na Siria, depois de 1974, remontam ao terceiro milénio (por volta de 2400-2300) e certamente tém algo a nos dizer em vista da intensa atividade dessa cidade imperial. Mas os textos sdo dificeis, e deveremos aguardar que os peritos entrem em acor- do”. b) Os arquivos do palacio de Mari, as margens do Eufra- tes, destruido por volta de 1750 a.C., nos do a conhecer a civilizacéo e a atividade dos amoritas, semitas do oeste, que precederam aos israelitas (cf. Ez 16,3; Gn 15,16). Trata-se de pecas administrativas e de cartas trocadas com principes es- trangeiros e oficiais do reino. Informam-nos sobre os movi- mentos das tribos né6mades e semi-ndmades que gravitam ao redor das pequenas capitais (Haneus, Sutu, Hapiru)”°. O co- mércio da cidade se estende até Hasor, na Galiléia, mas igno- ra O Egito. c) Em seguida, vém os arquivos cuneiformes de Hatusa, a capital do Reino Hitita, da Asia Menor”!, que saqueara a Babilénia no século XVI ¢ se estendera até a Siria, alijando a dominacdo egipcia. A rica cidade de Ugarit’? passa a ser seu protetorado. Hatusa foi destruida por ocasiao da invasio dos 19. P. Matthiae, Ebla, un impero ritrovato, Turim, 1977; G. Pettinato, Ebla, um impero inciso nell’argila, Milao, 1979. O mesmo autor ja publicou trés colegdes de catalagos e cépias. Podemos seguir o desenvolvimento da decifragdo em Studi Eblai- ta, Roma. 20. Os textos estdio publicados em Archives royales de Mari (ARM: Dossin, Jean, Bottéro, Burke, Finet...). Cf. Jz. Kupper, Les Nomades en Mésopotamie au temps des rois de Mari, Paris, 1957; Sutéens et Hapiru RA 1961, pp. 197-200. M. Heltzer, The Suteans, Napoles, 1981. Possufmos muitas outras informacées sobre o relacionamen- to dos babilénios e dos povos do oeste (amoritas), cf. P. Garelli, Le Proche Orient Asiatique; des origines & Vinvasion des peuples de la Mer, Paris, 1969, e a nova edicao da Cambridge Ancient History Ul, 1 e 2, Cambridge, 1973, 1975. 21. E. Laroche, Catalogue des Textes Hittites, 2? edic&o, Paris, 1971. 22. Vista de conjunto em Ras-Shamra (Ugarit) DBS IX. 1124-1466 (J. C. Cour- tois, M. Liverani, D. Arnaud, E. Laroche, A, Caquot, M. Sznyczer, E. Jacob, H. Ca- zelles, J. Cunchillos). 36 “Povos do Mar”, no fim do século XVI a.C. Ali se descobri- ram arquivos publicos, bibliotecas particulares e textos religiosos que langam luz sobre a religiaéo cananéia. Os arquivos publi- cos apresentam a documentacao de Hatusa e ilustram o fun- cionamento de uma pequena capital semitica. Mas a popula- ¢4o é, na maioria, hurrita, populacéo ndo-semitica que des- ceu do Caucaso. Os hititas se chocaram com esses hurritas e com 0 Reino de Mitani, na curva do Eufrates. Esse reino era governado por uma aristocracia indo-européia. Os indo-euro- peus se dirigirdo para a India, e os hurritas para o leste do Ti- gre (arquivos de Nuzi)*. Mas uns e outros chegardo até o sul da costa, nos confins do Egito. d) Nés 0 sabemos por meio das cartas cuneiformes en- contradas em Te/l-el-Amarna*‘, no Egito, capital efémera do Farad Amenofis IV, na primeira metade do século XIV a.C. No momento, possuimos 380 documentos, sobretudo cartas diplomaticas trocadas com grandes reis (Babilénia, Mitani, Hi- titas, Chipre) e reis vassalos da Siria-Palestina. Os nomes des- ses reis sdo semiticos, indo-europeus e hurritas e, entre estes ultimos, o rei de Jerusalém, Abdi-Heba. Esses reis vassalos sio atacados pelos hapiru. Mas ainda nao se menciona Israel nes- sa regido. e) O periodo seguinte se ilustra pelos Anais dos reis da Assiria (periodo médio assirio)*>. Um rei da Assiria tinha che- gado até o Libano antes da pressao hitita. A partir do século XIV, os assirios lutam com os hititas, mas sobretudo com as tribos chamadas alamu da Siria. E entre estes uiltimos que apa- recem no fim do século XII a.C. os arameus, que sao aparen- tados com os israelitas (Dt 26,5). Durante mais ou menos dois séculos, da-se um eclipse do poderio assfrio. Observa-se um declinio semelhante na Babi- 23. DBS VI, co. 646-674 (R. Tournay). 24, DBS I, 207-225 (Dhorme). Dispomos das edicgdes de Knutzon, Mercer, en- quanto se aguarda a edicao de W. Moran. Excertos em Briend-Seux, pp. 47-61. Veja- se também p. 41, nota 42. 25. A. K. Grayson, Assyrian Royal Inscriptions, 2 vols. publicados (até 859 aC.}, Wiesbaden, 1972, 1976. D. D, Luckenbill, Ancient Records of Assyria and Babylo- nia, 2 vols., Chicago 1926/7. 37 lénia, Egito e dos hititas. Mas, a partir do século IX aC., os conquistadores assirios retomam a ofensiva. Assurbanipal II (883-859 a.C.) chega até a Siria e o Libano. Em 853, Salma- nassar III se choca com a coalizio em Carcar, as margens do Orontes. Entre os coligados, os Anais do rei assirio mencio- nam Acab, 0 israelita”*. As informacées se multiplicam. Em 840, é de Jeu que Sal- manassar recebe 0 tributo. Jeu fundou uma nova dinastia, mas os Anais o qualificam como “filho de Amri” (0 pai de Acab)’’, Jods, de Israel, pertence 4 mesma dinastia e, por vol- ta de 800, se liberta da tutela dos arameus de Damasco, gracas ao apoio de Adadnirari III da Assiria. Todavia, a partir de 743 a.C., 0 progresso fulminante de Teglat-Falasar III (745-727, cf. 2Rs 15,29) faz reconciliarem-se Aram e Israel, mas para a rui- na de ambos. Gracas aos Anais (mutilados) desse rei e gracas as listas que apresentavam ano por ano o nome do funciona- rio titular (limmu)” e um alto feito do governo, podemos se- guir de perto a politica internacional, ao tempo de Isaias. E no tempo desse profeta que Sargon II (722-705) se encarrega da tomada da Samaria e que Senaquerib (705-681) menciona o cerco de Jerusalém e o rei Ezequias (701). Em seus Anais, seus sucessores, Asaradon (681-669) e Assurbanipal (o Sarda- napal dos gregos) conhecem Manassés, filho de Ezequias. Os assirios fazem, entao, campanha no Egito e tomam Ménfis e Tebas (664, a No-Amon de Na 3,8). f) A partir de 638/7, os grandes Anais assirios se calam, embora tenhamos ainda inscricdes dos fracos sucessores de As- surbanipal e documentos particulares bem datados que per- mitem seguir a agonia da Assiria. Trata-se das Crénicas neo- babilénias”, de Nabopalassar (626-605) e de Nabucodonosor II (605-562), que sdo as mais exatas sobre a politica interna- cional. Uma delas nos fornece a data exata da primeira toma- da de Jerusalém, o dia 2 do més de Adar, do sétimo ano de Nabucodonosor (16 ou 17 de marco de 597 a.C.). Esse aconte- 26. ANET p. 279a. Briend-Seux, p. 86. 21, ANET 280b. Briend-Seux, p. 88. 28. Listas em RLA Datenlisten, Eponymen, Konigslisten. 29. Ultimamente, A. K. Grayson, Assyrian and Babylonian Chronicles, Nova Ior- que, 1975. J. A. Brinkman, A Political History of Post Kassite Babylonia, Roma, 1968. 38 cimento acarreta a elevacdo de Sedecias, 0 ultimo rei de Jeru- salém. g) Outros documentos babilénicos nos informam sobre o cativeiro de Joaquin, pequeno rei destronado e sobre os su- cessores de Nabucodonosor. Evil-Merodac (562-560) agracia Joaquin. Nab6nides é destronado pelo conquistador persa, Ci- ro, em 539, que autoriza a volta dos exilados e a restauracado do culto em Jerusalém. As inscrigdes dos reis persas®® sao nu- merosas, sobretudo as de Dario (522-486), que autorizara a re- constru¢ao do Templo. Isso é um dos aspectos da politica reli- giosa dos aquemenidas, dos Darios e os Artaxerxes. A lingua administrativa nao € 0 persa, mas o aramaico, e é nessa lingua que sao redigidos os documentos, as cartas e peticdes encon- trados no Egito (Elefantina, Hermdpolis...) e no vale do Jor- dao*!. Assim, temos alguns flashes das comunidades judaicas, no mundo dos séculos V e VI. 3. Esses documentos ja se deveriam classificar entre as fon- tes oeste-semiticas recentes. Elas sio essencialmente epigrafi- cas, mais breves e menos abundantes do que aquelas das gran- des culturas precedentes. S6 comecam em meados do 2° milé- nio, com a invencdo dos alfabetos. Os mais antigos exempla- res parecem ser as inscri¢6es chamadas proto-sinaiticas**, das quais de resto se tém sinais em Canad. Sado pouco numerosas e mal decifradas. As tabuinhas de Ugarit*, ligeiramente pos- teriores (de 1400-1200 aprox.), so pelo coritrario numerosas e bem decifradas, completando os documentos cuneiformes aci- ma mencionados (p. 36). Informam mais sobre lendas e costu- mes da civilizagéo cananéia do que sobre acontecimentos bi- blicos. O alfabeto ugaritico estende sua influéncia até Canaa. O alfabeto fenicio aparece no século XII a.C.**. E 0 que sera utilizado pela literatura israelita e pelos vizinhos de Israel: 30. Reunidas em R.G. Kent, Old Persian, Grammar, Text, Lexicon, New Haven (Conn), 1950. Uma edicdo francesa esta sendo preparada por Melle Cl. Herrenschmidt. 31. Veja p. 231, notas 98 e 104. 32. M. Sznycer, Profosinaitiques (Inscriptions) DBS VII, 1384-1395, Ha divi- das sobre a data exata: por volta de 1700, para os egiptdlogos, e por volta de 1500, para os semitizantes. 33. Veja nota 22. A. Caquot e M. Sznycer, Zextes Ougaritiques 1, Paris, 1974. 34. Ostraco de izbet-Sarta e flecha de El-Hadr nas cercanias de Belém. 39 fenicios, arameus, amonitas, moabitas, edomitas**. Sdo bre- ves e escassos, do século XII ao X (Jeimilk, Airam, Abibaal e Elibaal de Biblos) e s6 interessam indiretamente a Israel. Os do século IX, pelo contrdrio, interessam mais a histéria bibli- ca. Merecem atencdo as inscrigdes de Ben-Adad de Damasco (cf. IRs 15,18), a do rei Mesa de Moab (2Rs 3,4ss.), a de Zacur de Hamat, adversdrio de Ben-Adad, filho de Hazael (cf. 2Rs 8,8ss.) e até a de Quilamuva de Samal, das cercanias de Car- quemis, nas margens do Eufrates. A situacdo melhora no século VII, época de Teglat-Falasar III e de Isaias: Azitavada, Cilicia, Matiel de Arpad, na Siria, Panammu e Bar Recub, herdeiros de Quilamuva de Samal. O século VII é mais pobre, mas nao sem interesse com relagdo ao_tempo de Jeremias: Aminadad de Amon, o sacerdote de Neirab perto de Alepo, os dstracos (inscricdes sobre fragmen- tos de ceramica) de Assur, e, enfim, a carta enderecada ao fa- rao por um principe que ameaca com as vitérias de Nabuco- donosor. Entre as incrigdes dos séculos VI e V, encontramos a lista dos reis de Sid6nia e o epitafio do jovem Esmunazar*. No século IV, a documentac4o se torna abundante com rela- c4o aos arredores do Mediterraneo, chegando até a India, no século III. INSCRICOES E ARQUEOLOGIA DE ISRAEL Embora ja tenhamos feito alus&o as inscric6es encontra- das no pais da Biblia, devemos dar um lugar a parte para as inscricdes hebraicas*” encontradas na Palestina. Sao relativa- mente numerosas, mas infelizmente estao, em geral, em mau estado e de dificil utilizagao para a historia de Israel. 35. Coleténea H. Donner e W. R6llig, Kanaandische und Aramdische Inschrift- en (= KAI), 23 edico, Wiesbaden 1966. 36. M. Dunand, Les rois de Sidon au Temps des Perses, MUSJ XLIX, 1975/6 (Trabalhos... H. Fleisch), pp. 489-500. 37. A. Lemaire, Inscriptions hébraiiques, 1 Les ostraca, Paris, 1977. D. Pardee fez um resumo inteligente dessas inscricdes para a historia, Literary Sources for the History of Palestine and Syria, AUSS XVI, 1979, pp. 47-70. Com relac&o a porme- nores, veja abaixo pp. 159, 165-168, 177ss. 40 1. As mais importantes s4o as cinco linhas gravadas no canal de Siloé pelos operarios de Ezequias, por ocasiao da per- furacdo (pouco antes de 701, cf. 2Rs 20,20), e as cartas ou ds- tracos de Laquis, contemporaneos de uma campanha de Na- bucodonosor no tempo de Jeremias (Jr 34,7). Um comandan- te militar escreve a seu chefe, Jaos, por ocasiao do cerco da cidade e fala de um “profeta”. 2. A tabuinha de Guezer (século X) nos da a conhecer a sucessdo anual dos trabalhos agricolas. Mais de cem cartas ou documentos administrativos, escritos entre os séculos X e VI, foram encontrados em Arad, perto da fronteira de Edom®®, A maior parte data do fim desse periodo. Fala-se de um templo de YHWH, de uma campanha edomita (cf. 2Rs 24,2), de Qui- tim (cf. Nm 24,23; Jr 2,10), de uma série de cidades registra- das pelo livro de Josué (cap. 15) e de nomes proprios que a Biblia menciona por ocasiao da volta do exilio. 3. Os dstracos de Samaria® datam do século III e nos in- formam sobre a administracdo do reino do Norte, no tempo antes de sua queda (722), e sobre as localidades vizinhas. E entao que os selos*® se tornam abundantes. Neles, encontra- mos titulos de funciondrios e até de um “sacerdote de Dor”, situada na costa. No fim desse século e comeco do século VII, aparecem as marcas sobre jarros*' gravadas ao redor do dis- co real de 4 ou duas asas. Demonstram uma organizacao do reino de Juda, muito provavelmente em funcao da escolha de quatro pontos de distribuicéo: Hebron, Zif, Soco, e Mmst (?). Existem também marcas particulares encontradas sobretudo em Gabaon”®. 38. A. Lemaire, op. cit., pp. 146-235; ¥. Aharoni, Ketuvét Arad (hebraico), Jeru- salém, 1975, tradugdo inglesa Arad Inscriptions, 1962. 39. A. Lemaire, op. cit, pp. 23-81. 40. F. Vattioni, / sigilli ebraici, Bi 50, 1969, pp. 357-388. H. Hestrin-M.Dyagi Men- deles; Hotam6t miyamey bet rishon ivriyin, ammoniyim... Jerusalém, 1978 (cf. F. Is- rael, AION 39, 1979, pp. 515-8). 41. A. Lemaire, Classification des estampilles royales, Eretz Israel 15, 1980, pp. 54-60; P. Welten, Die KOnigsstempel. Ein Beitrag zur Militdr-Politik Judas unter His- kia und Josia, Wiesbaden, 1969. 42. J. Pritchard, Hebrew Inscriptions and Stamps from Gibeon, Filadélfia, 1959. Em Tel Qasile, perto de Tel Aviv, encontraram-se dois éstracos que mencionam o ou- ro de Ofir (cf. 1Cr 29,4). A. Mazar, DBS [X, 587-597. 41 4, De um tipo diferente so, em Jerusalém, a inscric&o fu- neraria de um alto funciondrio, o “mordomo” (ai bayit, cf. 1Rs 4,6; Is 22,15) e outras, mais danificadas, encontradas em ambas as partes do vale do Cedron (Ofel e Siloé) e na regio da costa a reclamacdo de um trabalhador®. 5. Sob o periodo persa, por ocasiao do retorno do exilio (538-332), as marcas sao agora gravadas em nome de Juda, yhwd. E esse também o caso das moedas“, pois a cunhagem (ddricos) se divulgou a partir de Dario. Ambos so testemu- nho da existéncia de uma provincia de Juda. Um selo traz até 0 titulo da autoridade, um péha*’, tal como o foram Zoroba- bel (Ag 1,1) e Neemias (5,14ss). Para fins de histdria, falta ainda a utilizagdo daquilo que poderiamos chamar de arqueologia muda’. E a que nao pro- duz textos, mas traz a luz cidades e casas com suas paredes € suas sucessivas transformacoes. Revela as vias de acesso as fontes de agua, sepulturas, ceramica (grosseira ou fina, impor- tada ou fabricada no local), armas e jdias. Essa arqueologia nos permite situar o Estado mondarquico de Israel no seio das grandes correntes da civilizacao do tempo. Da-nos a conhecer o modo de vida dos habitantes das cidades e a circulagdo dos produtos. Proporciona um instrumento para a datacdo dos pe- riodos sucessivos, por meio do estudo acurado da ceramica“”’, evolucdo das formas, o modo de cozer e sua ornamentacao. Mas ao historiador cabe usar com precaucdo esse instru- mento. A cerfmica pré-helénica, por exemplo, permite datar com a imprecisdo de sé dois séculos. Uma camada de cinzas 43. A. Lemaire, Inscriptions hébraiques, 1, pp. 239-276; Y. Shilo, BA 1981, 161-171. 44, J. Babelon, DBS V, 1346-1375. Publicacdes em curso, de Y. Meshorer, L. Kad- man, M. Rosenberger. 45, N. Avigad, Bullae and Seals from a post-exilic Judaean Archive, Jerusalém, i976. 46. A. Barrois, Manuel d‘archéologie biblique, 2 vols., Paris, 1939 e 1953, além das Arqueologias de Albright e de Wright, citadas no cap. 1, notas 21 e 22; edigado M. Avi-Yonah, Encyclopedia of Archaeological Excavations, 4 vols., Oxford 1975-8; edicéo W. Thomas, Archeology and the O.T, Oxford, 1967. 47. PE. Bonnard, Poterie Palestinienne, DBS VIII, 136-240; R. Amiran, Ancient Pottery of the Holy Land, Jerusalém, 1963. E importante saber que a ceramica mice- na (antes de 1200) penetrou ndo somente até o vale do rio Jordao, mas foi além, P. McGovern ADAJ 24, 1980, pp. 55-68. 42 ndo é necessariamente o indice de uma conquista, pois outros tipos de incéndio podem té-la causado. A evolucdo da cultura ndo seguiu 0 mesmo ritmo em todas as regides. Contudo, o historiador deve levar em conta a arqueologia muda para des- crever as linhas gerais da histdria do pais. Em casos excepcio- nais, pode ter conseqiiéncias importantes para a interpretagdo dos textos: Jericé e Hai esto sem habitantes no século XII a.C. Em contraposicdo, gracas ao muro descoberto por Avi- gad, sabemos que, ao fim do século VII, havia um novo bair- ro em Jerusalém. A maior parte dos casos é menos clara. As conclusées tiradas da arqueologia sao freqiientemente contes- tadas, quer se trate da muralha jebus¢ia de Jerusalém, das ca- valaricas de Salomd4o em Meguido ou da primeira destruicao de Laquis*®. De qualquer forma, o historiador faria muito mal se ndo seguisse o lento trabalho das escavagées e se nado se familiarizasse com a ceramica ou o trabalho com o metal na Palestina. A Biblia nado é uma composi¢ao literaria de tipo especulativo. Mesmo a arqueologia muda ajuda bastante a ler aquilo que a vida tem de mais concreto. 48. Divergéncias de ponto de vista entre Y. Yadin e D. Ussishkin, The World His- tory of the Jewish People, IV, 2, Culture and Society, J erusalém 1979, pp. 187-235. A Revue Biblique publica regularmente os resultados de novas escavacGes. 43 TEXTOS ; A gentileza dos Srs. J. Briend e M.J. Seux nos permite inserir aqui alguns excertos dos Textos do Proche-Orient et His- toire d’Israél (Paris, Editions du Cerf, 1977), aos quais 0 pre- sente volume se reporta freqiientemente: A inscricao de Idrimi. Abdi-Heba de Jerusalém a Amenofis IV (EA 287) Israel na inscricao de Mernepta Vitéria de Ramsés III sobre os Povos do Mar Salmanassar III e Acab em Carcar A estela de Mesa, rei de Moab Teglat-Falasar III e Samaria Nabucodonosor e Juda: a tomada de Jerusalém A inscrigéo de Idrimi (1550-1500 aC. aprox.) Os hicsos, que dominaram o Egito de 1750 a 1580 a.C., foram expulsos pelos farads do “Novo Império”. Os exércitos egip- cios vasculharam a Asia até as margens do Eufrates. Encon- traram, entre outros povos, os hapiru (hebreus). Essa inscricdo esta gravada em uma estatua que representa Idrimi, rei do pais de Muquis e de sua capital Alala (atualmente Atcana, na cur- va do Orontes a leste-nordeste de Antioquia), durante a segun- da metade do Século XVI aC. Idrimi conta nessa inscrigdo par- ticularmente as circunstancias de sua chegada ao trono: fuga a Emar (a atual Mesquene, junto ao Eufrates, no norte da Si- ria), estada no pais de Canada, em Amia (a uns quinze quil6- metros ao sul da atual Tripoli) e volta ao pais de origem, de- pois que oraculos obtidos pelo exame do véo de pdssaros e en- tranhas de cordeiros sacrificados lhe garantiram que Teshub, © grande deus da tempestade de seu pais, Ihe era favoravel. (Sou) eu, Idrimi, filho de Ilimilina, servidor do deus Te- shub, da deusa Hebat e da deusa Ishara (?) (ow Ishtar?), Se- nhora de Alal4, minha Senhora. Um [oes ] funesto teve lugar em Halab (Alepo), mi- nha residéncia familiar, e nds fugimos. Os dirigentes de Emar eram parentes de minha mae, e fomos habitar em Emar. Meus irm4os, que eram mais do que eu (ali), habitavam comigo, mas ninguém pensava nos negdcios em que eu pensava. Eu (me di- 44 aquele que [............00 ] para (?) os cidadfos de Emar é um es- cravo”. Peguei meu cavalo, minha carruagem e meu servo, sesteneeceeeees eu atravessei o deserto e fui ter com os Suteus. Pas- sei a noite com ele na minha carruagem .............. 3 no dia se- guinte, me pus a caminho e ia para o pais de Kin’anum (Ca- nad). No pais de Kin’anum, esta situada (?) a cidade de Amia; na cidade de Amia, moram os cidaddos de Halab, cidaddos do pais de Muquis, cidaddos do pais de Ni’ e do (povo) do pais de Amaé. Quando me viram e que eu era um filho de seu senhor, eles se juntaram a mim, ........... Morei durante sete anos com os hapiru (hebreus); eu soltava os passaros, examinava os cordeiros, e, (ao final de) sete anos, Teshub se voltou para mim. Entao, eu fiz barcos, embarquei as tropas ............ nos barcos © CU cece o mar em direcao ao pais de Mugis; cheguei a ter- ra firme diante do monte Hazi (Casio, o Djebel Agra) e de- sembarquei. Entéo, o meu pais ouviu (falar) de mim, e me trou- xeram gado grande e pequeno; em um dia, os paises de Ni’, de Amaé, de Muquis e a cidade de Alala, minha cidade, se jun- taram a mim como um sé homem. Meus irmfos tiveram co- nhecimento (disso) e vieram a mim; como meus irm4os se ti- nham empenhado por mim, eu os estabeleci (como) meus ir- maos. A continuacao do texto tem por objeto o tratado pelo qual Idri- mi é reconhecido como rei e vassalo por Baratarna, rei de Hurri, e os feitos guerreiros e pacificos de Idrimi. Abdi-Heba de Jerusalém a AmenGfis IV: “Que o rei se ocupe de seu pats!” Esta carta foi encontrada em Tel el-Amarna, capital efémera do faraé Amenofis IV, que tomou o nome de Akhenaton (1? metade do século XIV a.C.). Sendo mais mistico do que politi- co, Akhenaton tende a se desinteressar pelas desordens que se produzem nas fronteiras e nos paises vassalos. E 0 que sente, em seu detrimento, o rei Abdi-Heba de Jerusalém. Embora re- clamando reforcos, Abdi-Heba se queixa da ma conduta de cer- tos soldados que Ihe s&o enviados: alguns nubios, de fato ten- taram introduzir-se no paldcio, abrindo uma brecha no telha- do! 45 [Ao re]i meu Senhor [diz: assim (fala) Ab] di-Heba, teu servidor: [eu cai] sete ve[zes e sete vezes aos pés] de meu Se- THOT (.......cesseeecees 6 linhas muito danificadas e 2 linhas total- mente perdidas....). Que o [re]i saiba que todos os paises estao em paz, (mas) que contra mim ha guerra. Entdo, que 0 rei se ocupe de seu pais. Veja, o pais de Gazru (Guezer), o pais de Ashkaluna (Asquelon) e a cidade de La[quis] hes deram man- timentos, azeite e tudo o que era necessario. Entao, que 0 rei se ocupe das tropas de soldados, que envie tropas de soldados contra os homens que cometem uma falta contra o rei, meu Senhor. Se neste ano houver tropas de soldados, havera um pais [e] um governador pelo rei, meu Senhor; [mas], se nao houver tropas de soldados, nao havera nem pais nem gover- nador pelo rei. Veja, esse pais de Urusalim (Jerusalém), nado foi nem meu pai nem minha mde que mo deram; foi a mao forte do rei que mo deu. Veja, o que se passa é 0 fato de Mil- kili e o fato dos filhos de Labayu, que deram o pais do rei aos hapiru. Veja, 6 rei, meu Senhor, o verdadeiro direito esta co- migo! . O que diz respeito aos Kashi (...), que o rei interrogue os comissarios: embora (minha) casa seja muito forte, eles tenta- ram com efeito (cometer) uma grave e grande falta: pegaram suas ferramentas e cortaram um suporte do telhado! (.......... 3 linhas danificadas....) Que [o rei, meu Senhor], se ocupe de- les (isto & dos soldados que enviard); 0 pais 6 .............5 que 0 rei requisite para eles muitos mantimentos, muito azeite, muita roupa, até que Pa’uru, o comissario do rei, tenha subido ao pais de Urusalim. Addaya partiu, bem como a guarni¢ao............. [que] o rei havia dado. Que o rei saiba que Addaya me disse: “[Ve]ja, ele (isto é o rei) me liberou’”. Nao o (isto é, o pais) abandones! Envia-me este [ano] uma guarnicdo [e] envia um comissario real. Aqui, eu enviei ao rei [meu] Se[nhor.,.............. ], [eseesesseessseneee ] prisioneiros, cinco mil [..............0 ], [eeeseeseneeeseee ] oito carre- gadores de caravana real; eles foram presos na planicie de Ia- luna (Ayyal6n). Que o rei, meu Senhor, saiba que eu ndo pos- so enviar uma caravana ao rei, meu Senhor; para tua informa- cao! Veja, o rei estabeleceu seu nome para sempre no pais de Urusalim; entdo, ele nao pode abandona-lo, o pais de Urusalim. 46 Ao escriba do rei, meu Senhor, diz: assim (fala) Abdi- Heba, teu servidor: eu cai a (teus) dois pés; eu sou teu servi- dor. Dirige belas palavras ao rei, meu Senhor. Sou apenas um oficial subalterno do rei. Eu morreria por ti! Vos fareis (cair sua) ma acdo sobre os homens de Kashi. Estive a um dedo de ser morto pelas m&os dos homens de Kashi dentro de minha casa! Que o rei [investigue] a se[u respeito]. Que [o rei] meu Senhor m[e. sete] vezes e sete vezes! Israel na inscrigéo de Merneptd (1220 aC. aprox.) A estela do ano 5 do faraé Mernepta, sucessor de Ramsés II, foi descoberta, em 1895, por Flinders Petrie, no templo fune- rario do farad, a oeste de Tebas. Ela se conserva, hoje, no Mu- seu do Cairo. Contém uma inscrigéo de 28 linhas, cuja parte principal narra as vitérias obtidas pelo farad sobre os libios, no 5° ano de seu reinado. Nas linhas 26 e 27, 0 texto evoca a submissdo dos povos asidticos e menciona Israel: Os principes estéo prosternados, dizendo: Paz. Entre os Nove Arcos, nao ha um que levante a cabeca. Tehenu (a Libia) esta devastada; o Hati esta em paz. Canad esta despojada de toda a sua maleficéncia; Ashgelon foi deportado; Guezer foi tomado; Yanoam é como se nao existisse mais; Israel foi aniquilado e nao tem mais semente. O Haru esta em viuvez diante do Egito. Todos os paises est&o pacificados... Por sua mencdo de Israel, inica em um texto egipcio antigo, este texto oferece a primeira intersecc4o entre um texo extrabi- blico e os dados biblicos. O texto egipcio nao diz claramente que Merneptd tenha empreendido uma campanha militar na Asia, mas devemos recordar que, em uma estela de Amada, o farad Mernepta recebe 0 titulo de “Domador de Guezer” (cf. H. Gauthier, Le temple d’Amada, p. 187). Apesar das dificul- dades de interpretacao, a inscrigdo convida a descobrir um gru- po humano que traz o nome de Israel e que ¢ mais ou menos sedentarizado no norte do pais de Haru. Esse Israel do fim do século XIII nao pode representar 0 conjunto das doze tribos que participaram da saida do Egito. Essa juncdo pode ter acon- tecido em Siquém, se se leva em conta o texto de Js 24. As re- 47 centes pesquisas sobre os ciclos patriarcais no livro do Génesis trouxeram 4 luz a existéncia de um ciclo fragmentario do pa- triarca Israel que foi incorporado ao ciclo de Jacé. Vitoria de Ramsés II sobre os Povos do Mar (1190 a.C. aprox.) Segundo uma inscrigdc descoberta no templo de Medinet Ha- bu em Tebas, foi no 8° ano de seu reinado que Ramsés III ob- teve uma vitéria decisiva sobre os Povos do Mar, em meio aos quais figuram os filisteus. Ano 8 do reinado de (Ramsés III)... Os paises estrangeiros (os Povos do Mar) fizeram uma conspiracdo (?) em suas ilhas. Todos os paises foram imedia- tamente derrotados e dispersos em combate. Nenhum pais péde resistir diante de seus exércitos depois de Hati; Code, Carque- mis, Arzawa e Aldsia, todos destruidos em um s6 golpe. Um campo foi estabelecido em um lugar de Amurru. Desolaram seu povo, e seu pais foi como se jamais tivera existido. Dirigi- ram-se ao Egito enquanto um fogo ia diante deles. A confede- ra¢ao deles compreendia os peleset (os filisteus), os tjeker, os sequeles, os denie(s) e os veses, paises unidos (entre si)... Aqueles que atingiram minha fronteira, sua semente nao existe mais; seu coracdo e sua alma desapareceram para sem- pre e por todo o tempo. Aqueles que se dirigiam juntos pelo mar, um fogo ardente havia diante deles na embocadura dos rios enquanto que uma palicada de lancas os cercava na mar- gem. Foram arrastados pela forca, cercados e prostrados so- bre a areia, mortos e empilhados uns sobre os outros. Seus bar- cos e seus bens, por assim dizer, cairam na dgua. Os filisteus mencionados, pela primeira vez, em uma inscricdo do ano 5 do reinado de Ramsés III (1198-1166), em companhia dos tjeker, sé aparecem sob o reinado deste faraé, enquanto os Povos do Mar ja tinham atacado o Egito varias vezes sob os predecessores de Ramsés III. Os filisteus, depois de derrota- dos, se refugiaram na costa de Canad, onde ocuparam as cida- des de Gaza, Ascalon e Asdod, nos primeiros tempos. Os tje- ker, de sua parte, se instalaram em Dor (Tanturah). A partir de 1100 a.C., os filisteus tornaram-se os principais ini- 48 migos das tribos de Israel e, sem o querer, favoreceram o nas- cimento da realeza israelita com Saul, que teve de combaté-los durante toda a sua vida. Salmanassar HI e Acab, em Carcar (833) Salmanassar III da Assiria teve de guerrear muitas vezes no oes- te no decurso de seu reinado, O texto abaixo é uma narra¢4o, ao mesmo tempo a mais antiga e a mais pormenorizada, de seu primeiro encontro, em 853, com uma coalizdo, dirigida pelo rei Hadadidri, de Damasco. Essa narrativa é particularmente interessante por mencionar explicitamente Acab de Israel en- tre os coligados. De passagem, se notara que o numero dos ini- migos abatidos, aqui 14.000, passa a 25.000, e depois a 29.000 nos textos posteriores de Salmanassar referentes 4 mesma ba- talha, mas que se reduzem a 20.500 no texto do obelisco negro do mesmo rei, que é do fim de 828, ao mais tardar. Eu parti do Eufrates (e) cheguei a Halman (A/epo); eles tiveram medo de (minha) ofensiva (e) agarraram (meus) pés; recebi deles, como tributo, prata e ouro; ofereciam sacrificios diante do deus Hadad de Halman. Parti de Halman (e) che- guei as duas cidades de Irhuleni do pais de Amat (Hamat, a atual Hama sobre o Orontes); conquistei as cidades de Aden- nu, de Parga (e) de Arganda, suas cidades reais; eu lhe tomei prisioneiros, seu bem, os bens de seus palacios (e) pus fogo em seus palacios. Parti de Argana (e) cheguei a Carcar (a ju- sante de Hamat sobre o curso médio do Orontes); destrui e demoli (e) pus fogo em Carcar, sua cidade real. 1200 carros, 1.200 cavalos de montaria (e) 20.000 homens de tropa de Ha- dadidri (Hadadeser) [do pais de] Imerishu (Aram, o pats de Damasco), 700 carros, 700 cavalos de montaria (e) 10.000 mil homens de tropa de Irhuleni do pais de Amat, 2.000 carros (e) 10.000 homens de tropa de Ahabbu (Acab) do pais de Sir’ila (Israel), 500 homens de tropa (do rei) do pais de Gu (Qu’é, ou serd necessdrio corrigir Gu < bal> =Biblos), 1.000 homens de tropa (do rei) do pais de Mucur (um pats deste nome na Siria do Norte ou do Egito?), 10 carros (e) 10.000 homens de tropa (do rei) do pais de Ircanta, 200 homens de tropa de Matinu- ba’li da cidade de Armada (Arvad), 200 homens de tropa (do rei) do pais de Usanatu, 30 carros (e) 10.000 homens de tropa 49 de Adunubali do pais de Shianu, 1.000 camelos de Gindibu’ do pais de Arba (dos Arabes), [x] 100 homens de tropa de Ba’sa, filho de Ruhubu, do pais de Amana (monte Amano, ao norte do Orontes ou Amon, a leste do Jordéo?): ele recebeu auxilio desses doze (sic) reis. Eles se levantaram contra mim {para dar] batalha e combate. Com as forcas superiores que Assur, (meu) Senhor, me deu (e) com as fortes armas de que me fez presente (o deus) Nergal, que vai diante de mim, eu com- bati contra eles (e) thes infligi uma derrota entre Carcar e Gil- zau. Abati pelas armas 14.000 de seus combatentes; como o deus Adad, fiz chover sobre eles uma inundac4o; espalhei seus cadaveres, enchi a superficie da planicie com seus vastos exér- citos, com as armas fiz correr seu sangue......... ; a stepe foi de- masiado pequena para ........... suas (?) vidas (7); 0 vasto campo nao-deu para enterra-los. Com seus corpos, obstrui o rio Arantu (Orontes) como com um dique. Durante essa batalha, tomei seus carros, seus cavalos de montaria (e) seus cavalos de tiro. Acab de Israel foi um poderoso aliado dos arameus na sua lu- ta contra Salmanassar III. O texto assirio atribui 2.000 carros ao rei de Israel por ocasiao da batalha de Carcar, enquanto Ha- dadidri nao tem mais do que 1.200. Esse numero de 2.000 car- ros é suspeito e, por razdes de critica interna, dever-se-ia ler 200 (cf. N. Na’aman, Two Notes on the Monolith Inscription of Shalmaneser LI from Kurkh, Tel Aviv 3, 1976, pp. 97-102). Além disso, o texto assirio obriga a rever a narracdo de 1Rs 20, onde Acab estaria em guerra contra os arameus. Do ponto de vista da critica histérica, esse texto é mais tardio (cf. E. Li- pinski, Le Ben-Hadad IT de la Bible et ’histoire, em Procee- dings of the Fifth World Congress of Jewish Studies, Jerusa- lém, 1969, pp. 157-173). A narra¢do biblica se refere aos com- bates contra os arameus feitos por Jods, de Israel (803-787), que torna a tomar do rei arameu os territérios conquistados de Israel sob o reinado de seu pai, Joacaz (820-803). A estela de Mesa, rei de Moab (840 aC. aprox.) A estela chamada de Mesa, encontrada por um missiondrio ale- mao em 1868 no pais de Moab, é de basalto negro e mede 1,10 m de altura e 0,60 m de largura. Foi quebrada em pedacos pelos 50 beduinos e salva por Clermont-Ganneau. Foi reconstruida em grande parte e se encontra no Museu do Louvre. A inscricdo consiste em 34 linhas e deve datar do fim da dinas- tia de Amri e pode ser contempor4nea dos primeiros anos de Jeti. Podemos coloca-la, pois, em 842-840 a.C. aprox. Eu sou Mesa, filho de Kemosh (yat)', rei de Moab, o di- bonita”. Meu pai reinou sobre Moab durante 30 anos, e eu reinei depois de meu pai. Eu fiz este lugar alto para Kemosh? em Qeriho, lugar alto (?) de salvacéo, pois ele me salvou de todos os assaltos e me fez triunfar de todos meus adversarios. Amri era rei de Israel e oprimiu Moab durante numerosos dias, pois Kemosh estava em cdélera contra o seu pais. E seu filho lhe sucedeu e disse: ‘“Oprimirei Moab”. Em meus dias, ele fa- lou assim, mas eu triunfei sobre ele e sobre a sua casa. E Israel ficou arruinado para sempre. Ora, Amri tinha tomado posse de todo o pais de Madaba‘ e ali habitou durante os seus dias e a metade dos dias de seu filho, quarenta anos. Mas Kemosh mo entregou durante os meus dias. E eu construi Baal Meon e ali fiz um tanque e construi Qiryaton. As gentes de Gad tinham habitado no pais de Atarot des- de sempre, e o rei de Israel tinha construido Atarot para si. Combati contra a cidade e a tomei. Matei todo 0 povo...; a ci- dade foi feita uma oferta para Kemosh e para Moab. De 1a to- mei posse do altar de seu Bem-amado (?) e me prostrei diante de Kemosh em Qeriyot. Fiz com que ali habitassem as gentes de Saron-e as gentes de Maharot... Kemosh me disse: ““V4 e toma Nebo, em Israel”. Eu fui de noite e combati contra ela, desde o comeco da aurora até ao meio-dia. Tomei-a e matei todos, sete mil homens, com es- trangeiros, mulheres estrangeiras e concubinas, pois eu havia votado um anatema para Ashtar-Kemosh. De 1a, tomei os va- sos (?) de lahweh e os levei diante de Kemosh. O rei de Israel 1. O nome do pai é completado gracas a uma inscricdo fragmentdria encontrada em Querac (cf. BASOR 172, 1963, pp. 1-9; 175, 1964, pp. 50s). ; 2. Dibon, cidade moabita (cf. Nm 21,29), bem parece ser a cidade real do rei Mesa. 3. Kemosh é 0 deus principal dos Moabitas, cf. Nm 21,30; 1Rs 11,7. 4. Madaba € citada em Nm 21,30; outras cidades moabitas citadas neste texto e igualmente na Biblia: Atarot (Nm 32,2,34), Nebo (Nm 32,2.38), Jasa (Js 13,18), Aroer (Js 13,16), Bet-Bamot (Js 13,17), Basor (Js 20,8; 21,36), Bet-Baal-Maon (Js 13,17). 51 havia construido Yahac e ali morava enquanto me movia guerra, mas Kemosh 0 expulsou diante de mim. Tomei de Moab du- zentos homens, toda a sua elite; levei-os contra Yahac e a to- mei para anexa-la a Dibon. Eu construi Qeriho: o muro do parque e o muro da acrdpole. Eu construi suas portas; eu con- trui suas torres; eu construi o paldcio do rei; eu fiz a dupla piscina para a 4gua no meio da cidade. Nao havia ali cisterna, no meio da cidade em Qeriho, e disse a todo 0 povo: “Fazei- vos, cada um, uma cisterna em vossas casas”. Eu fiz construir fossas (?) para Qeriho pelos prisioneiros de Israel. Eu construi Aroer e fiz a estrada de Arnon. Eu construi Beth Bamoth, pois havia sido destruida. Eu contrui Becer, pois estava em ruinas, com cingiienta homens de Dibon, pois to- dos (as gentes de) Dibon séo meus siditos. Eu reinei com che- fes de centenas nas cidades que eu havia anexado ao pais. Eu construi... Madaba, Beth-Diblathon e Beth-Baal-Maon e es- tabeleci 14 0S... de gado pequeno do pais. E Horo- nan onde habitava............0 E Kemosh me disse: “Desce e combate contra Horonan”. Desci .........00.. , © Kemosh ma en- tregou durante os meus dias ¢... de ld... e eu. O texto biblico (2Rs 1,1;.3,4-5) nos informa que Mesa, rei de Moab, pagou um tributo ao rei de Israel e que ele se revoltou por ocasiéo da morte do rei Acab (875-853). As fortificagdes realizadas por Mesa, de acordo com sua inscri¢4o, permitem compreender que a guerra empreendida por Jorao de Israel con- tra Mesa, com o auxilio dos reis de Juda e de Edom, tivesse sido dirigida contra o sul do reino de Moab, contornando o mar Morto (2Rs 3,6-27). O documento moabita tem, além dis- sO, 0 interesse de evocar a historia passada das relacGes entre Moab e Israel, mencionando Amri, rei de Israel (886-875), e as gentes de Gad, que estavam instaladas desde muito tempo na Transjordania (Nm 32,34-36; Jz 11,26). Teglat-Falasar III (745-727) e Samaria Os dois textos abaixo transcritos relatam a anexacdo do pais de Damasco por Teglat-Falasar II] e a derrota de Facéias. Nido pertencem aos Anais e nao levam em conta a ordem cronolé- gica dos acontecimentos. 52 A [Da] cidade de Hatarikka (Hadrak; cf. Zc 9,1) ao monte Sa’ué, submeti as cidades de [................ ], Gubla (Biblos), Ci- mirra, Arqa, Zimarra, [..........0 ] Usnu, [Siannu, Ri]’—raba, Ri’sicu, [............. ], cidades da [borda] do mar de cima (Medi- terrdneo); pus a sua [frente] seis altos funciondrios meus [co- mo governadores. Da cidade de KJash puni quem esta na bor- da do mar de cima [nas cidades de. Gal’az[a(?) (Ramot Galaad?) e] Abilak [ka(?)] (Abel-Bet-Maaca?) nos con- fins do pais de Bit-Humria (lit: “Casa de Amri” isto é de Is- rael), eu anexei o vasto [pais de Bit-Haza’i] li (lit: “Casa de Hasael’; isto é, o pais de Damasco) em sua totalidade ao terri- torio da Assiria; [pus a sua frente] meus [altos funciondrios] como governadores. O pais de Bit-Humria [........... ] ceeeeeseeee [.eesseeeeee ] levei para Assiria 0 conjunto (?) de (?) suas gentes [ ...]. Derrota- ram Paqaha (Facéias), seu rei, e eu instalei A’usi (Oséias) [no reinado] sobre eles. Recebi deles 10 talentos de ouro (e) 100 (?) talentos de prata (como) seu [tributo anuJal e eu lhes [im]pusl........... ]. B [Da cidade de Hat] arikka no monte S[a’ué e na cidade de K] ashpuna, que fica na borda do mar de cima, anexei [seseqeeseeseeenes ao] territorio da Assiria; [pus 4 frente deles] meus altos funciondrios como governa[dores]. Do mon[te Ama] na Djebel esh Sherqui, Anti-Libano) até as cidades de Gal’az[a (2) e de Abilakka (?) aos con]fins do pais de Bit-Humria, ane- xei o vasto [pais de Bit]-Haza’ili em sua totalidade ao territé- rio da Assiria; [pus a sua frente] um alto funcionario meu [co- mo governador]. {Hir] imu (Hiram) do pais de Carru (Tiro), que tinha en- trado em entendimento com Rahianu (Rason) [...............]; con- quistei Mahalab, sua fortaleza, bem como as grandes cidades; [ali fiz] prisioneiros. Ele veio 4 minha presenca e me beijou os pés. [Eu recebi] 20 talentos de [ouro, .... talentos de prata, seeseenanevaee roupas] com adornos multicores e linho, altos fun- ciondrios, cantores, cantoras, [grandes (?) cavalos de MJucu[r (EBItO) oe eeeseeseeee ] em [sua] to[talidade ........... ] seus [arre]do- 53 TES vesesesssesseee [eeeeeeeee J] [eeeetetseseseeee ] Pilhei [10 (?) talentos de ouro, 1]00(?) talentos de prata e os levei (?) pa[ra a Assiria (?)]; A derrota de Facéias por Oséias, ultimo rei de Israel, se narra brevemente em 2Rs 15,30. Salmanassar V (726-722) conquista a Samaria A passagem abaixo é um excerto de uma crdénica babildénica, cujo exemplar melhor conservado, alias 0 unico que apresenta a passagem em questdo, data do ano 22 de Dario I. Apesar de seu carater relativamente tardio, nao ha por que duvidar da exa- tidaéo da informacdo relativa 4 Samaria. No més de tébet (dezembro 727 — janeiro 726), no dia 25, Shulman-ashared (Salmanassar) sentou-se no trono da As- siria — Ele destruiu Shamara’in (Sa- maria). No quinto ano, Shulman-ashared (foi para o seu) des- tino (morreu) no més de tébet. Shulman-ashared exerceu a rea- leza sobre Acad e sobre a Assiria durante cinco anos. No més de tébet (dezembro de 722 — janeiro de 721), no dia 12, Shar- tukin (Sargon) sentou sobre o trono da Assiria. No més de ni- san (marco-abril), Marduc-aplaiddina (Merodac-Baladd) sen- tou sobre o trono da Babilénia. Salmanassar V (cf. 2Rs 17,3) pds o cerco em Samaria e tomou a cidade em 722 (2Rs 17,5-6; 18,9-10). A deportacdo dos habi- tantes de Samaria deve ter acontecido em 720, sob Sargon II. Nabucodonosor IT (605-562) e Juda: a tomada de Jerusalém Medos e babilénios, de uma parte, e egipcios, de outra, esto agora face a face; apds a esmagadora derrota destes ultimos em Carquemis (junto da atual Djerablous), Nabucodonosor II fara diversas expedigdes a Hattu e terminard fazendo cair 0 rei- no de Juda sob o seu dominio. Os textos que narram esses acon- tecimentos, com uma cronologia minuciosa, pertencem a cré- nicas babilénicas. No vigésimo ano (de Nabopalassar), as tropas de Micir (Egito) marcharam em direcéo a Kimuhu (@ margem ociden- tal do Eufrates, em algum lugar ao sul de Carquemis) contra 54 a guarnicao que o rei de Acad (Babilénia) ali havia instalado; moveram batalha contra a cidade durante quatro meses e to- maram a cidade; bateram a guarnicdo do rei de Acad. No més de tashritu (19 de setembro — 17 de outubro 606), 0 rei de Acad mobilizou suas tropas, marchou ao longo do Eufrates e esta- beleceu 0 seu acampamento em Quramatu, que fica as mar- gens do Eufrates. Fez suas tropas atravessarem o Eufrates e tomarem as cidades de Shunadiru, Elamu e Dahamu, cidade de Além-do-Rio; sujeitaram-nas a pilhagem. No més de sha- batu (15 de janeiro — 12 de fevereiro de 605), 0 rei de Acad retornou a seu pais. As tropas de Micir que estavam em Gal- gamesh (Carquemis) atravessaram 0 Eufrates, marcharam con- tra as tropas de Acad que estavam estabelecidas em Quramatu e repeliram as tropas de Acad, (que) voltaram. No vigésimo primeiro ano, 0 rei de Acad (ficou) em seu pais. Nabu-kudurri-ucur (Nabucodonosor), seu filho mais ve- lho, o principe da chancelaria, mobilizou [as tropas de Acad], pG6s-se a frente de suas tropas e marchou em direcio a Gal[ga]mesh que fica nas margens do Eufrates. Ele atraves- sou 0 rio (contra as tropas (?) de Micir), que estavam estabele- cidas em Galgamesh e combateram [................. ] um contra o outro; as tropas de Micir viraram sua face diante dele, e ele Ihes inflingiu [uma derrota] e os redu[ziJu a nada. O resto das tropas [de Micir que] escapou [a] derrota e que estava incdlu- me, as tropas de Acad o alcacaram na provincia de Hamatu (Hamat, atual Hama sobre o Orontes) e \hes inflingiram uma derrota; [nem] um sé homem [voltou] para o seu pais. Na mes- ma época, Nabu-Kudurri-ucur conquistou o pais de Ha[ma]tu em sua totalidade. Nabu-apla-ucur (Nabopalassar) exerceu sua realeza sobre a Babil6nia, durante 21 anos. (Ele foi para) o seu destino (morreu) no més de abu, no 8° dia (15 de agosto de 605). Nabukudurri-ucur voltou para a Babilénia no més de ulu- lu e se assentou sobre trono real na Babilénia no més de ulu- lu, no primeiro dia (7 de setembro de 605). Bem no comego de [seu] reinado, Nabu-kudurri-ucur vol- tou a Hatu e percorreu vitoriosamente 0 Hatu até o més de shabatu (2 de fevereiro — 2 de marco de 604). No més de sha- batu, ele levou para a Babildénia 0 pesado tributo do Hatu. No més de nisanu (2 de abril — 30 de abril de 604), tomou a mao 55 de Bel e do filho de Bel (o deus Nabu) e celebrou a festa de Akitu (Ano novo); No primeiro ano, no més de Simanu (30 de maio — 28 de junho de 604), Nabu-kudurri-ugur mobilizou suas tropas, marchou para o Hatu e percorreu vitoriosamente o Hatu até o més de kislimu (24 de novembro — 23 de dezembro de 604). Todos os reis do Hatu vieram a sua presenca e ele recebeu um pesado tributo. Marchou para [Isq]illunu (Ascalon) e a tomou no més de kislimu; ele prendeu seu rei e entregou-a a pilha- gem e ali [fez] prisioneiros; transformou a cidade em um fell e em um monte de ruinas. No més de shabatu (23 de janeiro — 20 de fevereiro de 603) foi embora e [voltou] para a Bab{ilé- nia]. (O texto do segundo e terceiro anos, bastante danificado, menciona novas campanhas em Hatu). / No quarto ano, 0 rei de Acad mobilizou suas tropas e mar- chou para Hatu; [percorreu] vito[riosamente] o Hatu. No més de Kislimu, (2] de novembro — 19 de dezembro de 601), to- mou a frente de suas tropas e marchou para o pais de Micir. Quando o soube, 0 rei de Micir mo[bilizou] suas tropas. Com- bateram um contra o outro em linha de batalha e mutuamen- te se infligiram perdas (lit.: derrota). O rei de Acad e seu exér- cito voltaram e [retornaram] a Babilénia. No quinto ano, o rei de Acad (ficou) em seu pais; ele jun- tou seus carros e seus cavalos em grande ntimero. No sexto ano, no més de kislimu (29 de novembro — 27 de dezembro de 599), o rei de Acad mobilizou suas tropas e marchou para o Hatu. Do Hatu, mandou que suas tropas avan- ¢assem para o deserto, (onde) se apossaram de numerosos Arabi (drabes), seus bens, seu gado e (estatuas) de seus deuses, em quantidade. No més de addaru (25 de fevereiro — 26 de mar- ¢o de 598), o rei retornou a seu pais. No sétimo ano, no més de kislimu (/8 de dezembro de 598 — 15 de janeiro de 597), o rei de Acad mobilizou as suas tro- pas e marchou para o Hatu. Estabeleceu-se perante a cidade de Yahudu (Judd) e no més de addaru, no segundo dia (16 de marco de 597), tomou a cidade; prendeu o rei e entronizou um rei de sua escolha; levou consigo um pesado tributo, (que) car- regou para a Babilénia. 56 CAPITULO HI O METODO E OS METODOS RELAGAO: | ANTIGO ORIENTE-BIBLIA Ha um so método para se chegar aos fatos de vida dos quais emanam os dados materiais que acabamos de transcre- ver a titulo de fontes. Quer sejam paredes, quer objetos ou tex- tos, nao teriam chegado até nds se homens e acontecimentos ndo os houvessem produzido. Contudo, a andlise desses da- dos é tao complexa quanto a vida humana em si mesma. Po- demos e devemos duvidar de sua interpretacao. Acabamos de afirma-lo acima, com relagdo aos textos. Devemos perguntar- nos se o texto que temos sob os olhos € de fato um eco fiel de uma transacd4o ou de um deslocamento. E ele fruto da ima- ginacdo ou veiculo de propaganda? E ele simplesmente uma conta, um recibo, uma lista de ragdes? Ou, talvez, um monu- mento escrito para a gléria de um rei do qual calam os lados sombrios? E esse rei, é ele assim glorificado enquanto vivo ou longo tempo apés a sua morte, quando ja tinha se tornado le- genddrio na memoria de seu povo? : A historia de Israel se desenrola dentro de espaco geogra- fico e dentro de tempo agora relativamente bem determinado. O quadro geografico deve sempre estar presente a mente do historiador. O Israel biblico é um pequeno povo que viveu em espaco restrito. Mas esse espaco nao se encontra isolado dos movimentos dos povos e das culturas que atravessam 0 Orien- te Préximo, antes mesmo da invencdo das escritas. Sua histo- ria tera, como moldura, a historia inteira desse Oriente Proxi- mo. Israel ai entra em cena, pouco apéds Moab e Edom, no século XIII a.C. De fato, 6 a data que nos é fornecida pela es- tela de Mernepté, para um Israel ainda nao sedentarizado, visto que o nome é precedido de determinativo de tribos (o boome- rang) e nao de povos ou de cidades. Antes disso, Os exércitos egipcios s6 encontram em Canaa os @peru (hapiru), os hur- ru ou os shosu. Resta precisar a relagdo entre hebreus e¢ israe- 57 litas. Uma primeira etapa do método consiste, portanto, em circunscrever a vida de Israel por meio dos dados fornecidos por seus vizinhos que estao longe de lhe serem sempre favora- veis (Mernepta, Mesa, Senaquerib...). Infelizmente, sAo pou- cos os dados bem datados. Para poder prosseguir, o historia- dor devera recorrer 4 Biblia, mas sem esquecer que ela se ex- prime usando os modelos literdrios que Ihe so oferecidos pe- las grandes culturas do ambiente. . RELACAO: : BIBLIA-HISTORIOGRAFIA BIBLICA Para estabelecer bases sdlidas para a historia de Israel, 0 historiador moderno escolhe, em geral como segunda etapa de seu método, o periodo dos profetas. Os livros dos Reis, Isaias e Jeremias nos dao pontos de intersec4o muito seguros com a histdria geral. Isaias pronuncia seus ordculos no tempo em que Israel se defronta com Teglat-Falasar III (734-732), depois, com Sargon (720-705), em seguida, com Senaquerib (701). Je- remias luta em um tempo em que Juda sofre a pressdo babilé- nica apos a batalha de Carquemis (605) e sucumbe sob os gol- pes de Nabucodonosor II (597,585). O grande desconhecido do exilio (Is 40 - 55) conhece Ciro pelo ano de 550 (Is 44,28; 45,1). A terceira etapa da pesquisa histérica consiste no estudo dos codigos. A andlise, de fato, mostra que cada cédigo cor- responde a uma dada situacdo da vida de Israel. Foi de Wette que estabeleceu solidamente o “ponto de Arquimedes” (Eiss- feldt) da critica biblica: a reforma de Josias de 622 (2Rs 22 - 23). O Deuterondmio é marcado pelos profetas aos quais ele confere um estatuto quase igual ao do rei (Dt 18,9-22). A quarta etapa consistira em determinar quais sao os textos pré-deuteronGmicos e os textos pos-deuteronémicos. A escola da critica literaria mostrou que 0 “cddigo sacerdotal’’ (veja-se particularmente o Levitico e seu cddigo, dito de Santidade, caps. 17 - 26) é posterior ao cddigo deuteronédmico. Nao conhece os reis e transmite ao sumo sacerdote as func6es religiosas reser- vadas ao rei no Antigo Oriente, inclusive no Israel monarqui- 58 co. Além do mais, distingue os sacerdotes e os levitas, que 0 Deuteronémio identifica, e o faz apdés a tomada de posi¢ao do profeta Ezequiel (cap. 44). A quinta etapa devera precisar a composicdo e o alcance dos textos pré-deuteronémicos. Discutem-se ainda as condi- cées do nascimento do movimento deuteronomista. Mas dois cédigos séo certamente pré-deuteronémicos: 0 cédigo de Ex 20,24 - 23,19, chamado de “cddigo da alianca”’, e o pequeno codigo de Ex 34 (14 - 26). Mas, enquanto o cddigo sacerdotal proporciona o quadro geral da Tora ou Pentateuco atual (sem esquecer a lei de Js 20, que levou os criticos a falarem de He- xateuco e nado de Pentateuco), e embora o cdédigo deuteroné- mico (Dt 12 - 26) seja realmente uma Tord inserida em meio a discursos, os cédigos pré-deuteronémicos s4o apenas episd- dios inseridos em uma seqiiéncia de cenas que constituem duas “histérias” das origens de Israel até Moisés. a) O cédigo da alianca pertence a uma “histéria” de ins- piracdo profética, préxima do Deuteronémio, nias distinta dela, tanto pelo estilo quanto pela legislagdo. Essa legislacdo é ar- caica e nZo conhece nem rei nem sacerdotes, nem mesmo jui- zes, mas somente “intercessores” (pelilim, Ex 21,22). Ela tam- bém nado conhece profetas, mas as narracGes consideram Abrado como profeta (Gn 20,7) e Moisés como super-profeta (Nm 12,6-7; cf. 11,16-17.24-29). Essas narragées (p.ex., Gn 20,3) e essa legislacfo (Ex 22,8) dao ao Deus de Israel o nome de Eloim, ao menos até Moisés (Ex 3,14). b) Essas narracgGes expdem freqtientemente as mesmas tra- dices que encontramos em outra série, aquela que chamamos de histéria “javista”, por ela dar ao Deus de Israel o nome de lahweh desde as origens (Gn 4,26, cf. 2,4b). E a essa histéria que pertence o cédigo de Ex 34, apresentado como exigéncias impostas pelo Deus de Israel a Moisés e a seu povo (Ex 34,27). Essa “historia” javista (J) divergindo da precedente, fala de “cetros” e de “reis” (Gn 49,10; Nm 24,7.17). E uma historia pré-profética, na qual os problemas nacionais sAo tratados nao em funcdo da palavra profética, mas em funcao da heranca das promessas divinas. As cenas sao cenas familiares, isto é, dindsticas, e essa dinastia é judaica (Gn 49,10). Como o ulti- 59 mo dos povos dados a posteridade de Abradio, se mencionam os jebuseus, isto ¢, Jerusalém, que sé foi conquistada sob 0 reinado de Davi (Gn 15,21). HISTORIOGRAFIA ORIENTAL E HISTORIOGRAFIA BIBLICA A monarquia israelita foi fundada 4 maneira das monar- quias estrangeiras (1Sm 8,6.20). Ora, no Antigo Oriente, os en- saios histéricos estavam centrados sob a eleicao do rei e sobre a sua acao. Ndo nos admiraremos, pois, que a mais antiga “his- téria” de Israel também tenha sido centrada sobre o rei e os problemas dinasticos. Como no Génesis e no Exodo, encon- tramos ali cenas particulares das quais o chefe é 0 centro (No- velas, cf. p. 35) e sinteses relativas aos problemas dinasticos. E o rei, 0 eleito legitimo da divindade nacional, que constitui a forca ou a fraqueza de seu povo; é 0 que chamamos de “per- sonalidade corporativa”'. Se Saul e Davi s4o vitoriosos, 0 po- vo esta salvo; se eles pecam, as desgracas se abatem sobre esse povo (2Sm 24). O rei, pai, chefe ou herdi, é o que garante ao povo um quadro administrativo e militar, gracas ao qual o po- vo encontrara justica e prosperidade (2Sm 8,15-18, cf. Gn 18,19); sera preservado de opressfo exterior e de rivalidades internas. Era nas “portas” da cidade (Gn 22,17) que se fazia justica e que se acertavam os contratos. Com a realeza, aparece a capital’, onde se organizam os servicos e onde sAo formados os escribas que administram o reino. As mais antigas narrativas historicas mesopotamicas ce- lebram as vitérias do rei; Eanatum livra a cidade sumérica de Lagash das tentativas de seu vizinho’, Utu-hegal livra Sumer do jugo dos montanheses gutos*. No Egito, se conta como os 1. Sobre essa nocdo introduzida por W. Robinson na exegese, veja-se J. de Frai- ne, Adam et son lignage, Etudes sur la “personnalité corporative” dans la Bible, Paris- Bruges, 1959, 2. G. Buccellati, The enthronment of the King and the Capital City, in Studies... L. Oppenheim, Chicago, 1964, pp. $4-61. — Cities and Nations of Ancient Syria, Ro- ma, 1967. 3. E. Sollberger, e J. R. Kupper, Inscriptions royales sumériennes et accadien- nes, Paris, 1971, pp. 47-58. 4. Id., pp. 130-132. 60 farads libertaram o Egito da presenca asiatica, tanto na 12? como na 18? dinastia. De outra parte, de acordo com o hitita Mursil II, é por culpa do rei seu pai que a peste devasta o pais’. Na lenda de Ugarit, 6 a enfermidade do rei Keret que origina a carestia do pais e a revolta de seu filho®. As créni- cas babilénicas, os Anais assirios e os “altos feitos’”’ dos reis hititas atribuem quase tudo ao rei e s6 mencionam raramente os generais, mesmo quando, na Assiria, cada ano era datado pelo nome de um alto funcionario. No Egito, Uni fez, pelo ano de 2.350, uma campanha na Asia, indo até o “Nariz do Anti- lope” (Carmelo?), mas apressa-se a dizer que o fez sob 0 co- mando do rei Pepi I*. E por meio do capitao Ahmés, filho de Abana, que obtemos alguns pormenores sobre a expulsdo dos estrangeiros hicsos®, mas é o faraé Seqenen-Re que é 0 “triunfante”. Mesmo quando entdo se desenvolvem tardiamente as autobiografias, E. Otto’ consagra todo um capitulo para mostrar o quanto séo dominadas pela ideologia real". Esse tipo de historiografia nao se contenta com celebrar o rei atual, quer também reportar-se ao passado. Também uma historiografia biblica centrada sobre os problemas da monar- quia davidica devera apelar para a tradico anterior. No Egito, em 2.500 a.C., a pedra de Palermo” se preo- cupa com a continuidade do Egito através das dinastias suces- sivas. Os faradés farao a lista de seus predecessores (legitimos) 5. ANET, pp. 394-396. 6. A. Caquot e M. Sznycer, Jextes ougaritiques I, pp. 548-574, Paris, 1974; L. Ginsberg, ANET, pp. 146-149. ; 7, Que se trate de Supiluliuma, de Mursil If ou de Hatusi III, cf. A. Cancik, Grundziige der Hethitischen und alttestamentlichen Geschichtschreibung, Wiesbaden, 1976. Com relacdo aos Anais assfrios e As Crénicas babilénicas, cf. K. Grayson, no- tas25e29,p.. 8. ANET, p. 227s. 9, ANET, pp. 232ss e 554. 10. Die biographische Inschriften der Aegyptischen Spatzeit, Leyde, 1954, que G. von Rad, com raz4o, comparou com as Memérias de Neemias, ZAW, 1964, pp. 176-187, 11. Sobre essa ideologia real, sobre a justica e a prosperidade que 0 povo espera de seu rei, cf. H. Cazelles, De lidéologie royal, JANES V, 1973, pp. 59-73, Le Messie de la Bible, Paris, 1978; pp. 31-58, com bibliografia. ; ; 12, L. Bull, Ancient Egypt in ed. R. C. Dentan, The Idea of History in the An- cient Near East, Yale, 1955, pp. 38s; E. Drioton e J. Vandier, L’Egypte, 3° ed., 1952, pp. 139ss. 61 em Sacara e Abidos. Depois, 0 papiro de Turim, redigido sob os Ramsés, na época mosaica’, apresenta essa sucessdo até 0 tempo dos hicsos, depois da época dos deuses e desses semi- deuses que so os “‘servidores de Horus”. A pedido dos Ptolo- meus, Maneton continuara o trabalho. Uma obra andloga, embora mais complexa (como o pré- prio pais), se faz na Mesopotamia. Por volta de 2.000 a.C., a lista real suméria'* faz preceder a lista das dinastias por uma série de 8 reis anteriores ao diltivio. Mostrava a unidade da Me- sopotamia até a revolta de Utu-Hegal contra os gutos, com o risco de apresentar, como sucessivas, dinastias contempordneas, de cidades diferentes. A primeira historiografia israelita deve- ra também descrever a unidade de Israel com tradicédes tribais diferentes, cuja ordem cronolégica nado é sempre respeitada. Ao tempo da primeira dinastia babilénica (1900 a.C. aprox.), se recolhem os precedentes histéricos do tempo da primeira época semitica (por volta de 2.300, a dinastia de Acad). Te- mos, além disso, listas de “pressagios” nas quais se acham ano- tados os acontecimentos reais com suas conseqiiéncias, fastos e nefastos. Serdo utilizadas nas crénicas posteriores. Essas cr6- nicas utilizam, além disso, as tradicdes consignadas nos arquivos e santudrios das cidades babilénicas!*. A crénica de King!® narra as vitérias e os maus éxitos de Sargon, o Velho, e de seu sucessor Naram Sin. Depois, ela passa ao neo-sumérico Shul- gi, que “tinha tendéncias criminosas”. Conta a anedota segundo a qual o rei Erra-Imiti morreu degustando um caldo quente, deixando sobre o trono um substituto imprevisto... e é assim que introduz a primeira dinastia da Babilénia. A crénica de Weidner!’ vai mais longe ainda: julga os antigos reis em fun- ¢4o de sua fidelidade ou infidelidade para com o santudrio de Marduc, o deus nacional da Babilénia. Viréo, em seguida, a 13. A. Gardiner, The Royal Canon of Turin, Oxford, 1959; Egypt of Pharaohs, Oxford, 1961, pp. 47s; Drioton-Vandier, p. 159. 14. The Idea... E. A. Speiser, p. 50, citando T. Jacobsen, The Sumerian King List, Chicago, 1939, cf. ANET, p. 265. 15. Cf. as publicagdes de K. Grayson, acima, nota 7. 16. Crénica n? 20, pp. 50 e 152ss. Existe também a “Crénica dindstica”’, n° 18 de Grayson. 17. Grayson n° 19, pp. 43 e 145ss. 62 lista dos reis assirios'®, aquela que chamamos de “genealogia de Hamurabi’’, a lista dos reis de Ugarit®, na qual se evo- cam os antigos amoritas (Ditanu) que viviam sob tendas. Essa historiografia apresenta freqiientemente um aspecto cultual, ao mesmo tempo que possui uma funcdo de legitimacdo da dinastia existente. Como diz Grayson, a historiografia antiga é uma biased history”. Isto é, 6 uma historia orientada. Ela faz sua seleco entre as tradicdes e fatos do passado, em funcgao dos proble- mas presentes do povo. “A parte da descric&o imaginativa (fan- ciful) da hist6éria do culto de Esagil (templo de Marduc na Ba- bildnia), ndo ha indicios de que o autor se tenha afastado (de- parted) dos fatos histéricos””. AS HISTORIOGRAFIAS BIBLICAS A partir desses modelos é que podemos interpretar a mais antiga historiografia israelita, a do Javista (J)* do Pentateu- co, como também a da Sucesséo de Davi em 2Sm (e 1Rs 1 - 18. A ler em ANET, pp. 564-566; termina em Salmanassar V, o conquistador da Samaria. 19. L. Finkelstein, em JCS 20, 1966, pp. 95-118, cf. W. Lambert, id. 22 (1968), 1-2, e 0 estudo de A. Malamat em JAOS, 1968, pp. 163-173. 20. Ultimo estudo de K. Kitchen, UF IX, 1977, pp. 131-142. Mais um novo texto, mais cultual, se ocupa com os antigos reis para melhor compreender a sorte dos no- vos: A. Caquot, Annuaire Collége de France, 1975, p. 427; H. Cazelles, EPHE, 5? secdo 1979/80, LXXXVIII, pp. 233s. Veja também UF, X, 83, XI, 56. 21. Assyrian and Babylonian Chronicles, p. 50. Sobretudo para as tradigGes trans- mitidas pelos santudrios, com as suas “legendas” (os textos a ler que explicavam a santidade do lugar), é que se propée a aplicacdo do foiclore e da formulacdo das apa- rigées divinas (teofanias). E natural que o estudo da forma nao resolve por si mesmo o problema de fundo: qual foi a experiéncia religiosa que esteve 4 origem do texto aler. G. A. Herion, The role of Historical Narrative in Biblical Thought; the Tenden- cies underlying O. T. Historiography, JSOT 1981, 1, pp. 25-57. 22. Grayson, Ass. and Bab. Chronicles, p. 44. L. Ramlot, Histoire et mentalité symbolique in Donum J. Coppens Ii], pp. 82-190, Paris-Gembloux, 1968. 23. P. Gibert, La Bible a la naissance de histoire, Paris, 1979. (Trad. bras. A Biblia nas origens da Historia, Ed. Paulinas, S40 Paulo, 1986). Por negligenciar esse aspecto dindstico é que muitos autores pretenderiam datar a historiografia “javista” ap6s os profetas, até mesmo depois do exilio. Ora, o problema da legitimidade dinds- tica esta agora bastante ultrapassado. Isso, porém, nao impede que se possam perce- ber “retoques” na historiografia real pré-profética; ela tem por finalidade adaptar esses antigos textos a abordagem teoldgica dos profetas e dos deuteronomistas. Mt. 63 2)* e as narracSes que preparam a monarquia judaica nos li- vros de Josué, Juizes e 1Sm. Tera menos arquivos a disposicao e estarA mais proxima das tradicées tribais. E pré-profética e centrada na dinastia, seu palacio e seu santudrio de Jerusa- lém?°, que se destaca entre os santuarios locais visitados pe- las tribos e seus antepassados, Serd genealdgica, mas sem rigi- dez. Tendo m4o a pecas muito diversas, ela nao deixa de apre- sentar um fio continuo”. A maneira de seus modelos, ela co- mec¢a por um sumario dos comecos da humanidade e de sua proliferaco antes do dilivio’’. Imitando as pretenses univer- sais dessas monarquias, ela afirma a vocacdo universal de Abraao (Gn 12,3b). Em funcao dos problemas préprios da mo- narquia davidica as voltas com rivais e conflitos internos, ela evoca a maneira pela qual se deu a repartic4o do territério en- tre Abra&o e L6 (Amon e Moab). As tradicdes simeonitas de Bersabéia (cf. Js 19,2) unem e opGem Isaac e Ismael; as de Laai- Roi (Gn 24,42; 25,11), mais ao sul ainda, unem e opdem Esau e Israel, frente 4 araméia Rebeca. Além disso, existem os pro- Tsevat, Israelite History and the historical Books of the O. T, em The Meaning of the Book of Job and Essays... Neva lorque, 1981, pp. 177-187; J. Sasson, On choo- sing models for recreating Israelite Premonarchic History, JSOT 21, 1981, pp. 3-24. 24. Sobre a historiografia dos livros de Samuel, consulte-se A. Caquot, ACE 1974, pp. 419ss; 1975, pp. 423-426; 1976, pp. 451-460; 1977, pp. 161-200; 1976, pp. 321-379; 1977, pp. 161-209; 1979, pp. 481-528; 1980, pp. 16lss 385ss 481ss; Studies, Loewen- stamm, 57-90, Jerusalém, 1978. 25. N&o somente Gn 49,10 supée a existéncia da monarquia judaica, mas as lis- tas dos povos assimilados terminam muitas vezes com a mencdo dos jebuseus (assim Gn 15,21; Ex 23,23...), os habitantes de Jerusalém que foram conquistados por Davi, tendo-a tornado sua capital. Muitos admitem, com razéo, que 0 moate Moira identificado pela tradigo com o monte Sion (Gn 22,2 cf. 2Cr 3,1), chamado Jire’Iah- weh, é Jerusalém no qual o nome divino substitui o do antigo Deus Salém. Entre os nomes de lugares de culto, onde o Deus de Abrado recebe 0 nome de El acompa- nhado de um epiteto (como El Olam em Bersabéia), o de El Qanno (Ex 34,14) bem parece ser uma reinterpretacdo do velho nome E/ goneh {ereg), o deus de Melquise- dec em Salém (Gn 14,19). Isso nao passa de indicios, cujo valor cumulativo, porém, é impressionante. 26. Mas a historiografia pré-biblica nos ensina a ndo confundir a continuidade da ou das narracées com uma verdadeira cronologia. 27. A publicacdo, por R. Millard e W. Lambert, de Atrahasis (Oxford, 1969), onde se encontram reunidos muitos temas da histéria primitiva javista (revolta, cria- cao da humanidade, sua proliferacdo, diluvio e pragas), nos fornece um modelo mais préximo do que a lenda de Gilgamesh (e a lista real sumérica) da literatura que o javista utilizou. 64 blemas mais particulares das doze tribos, em seus quatro agru- pamentos (Lia, Raquel, Zelfa, Bala) e seus conflitos. Evoca-se a violéncia feita por Ruben a Bala, antepassada de Da antes de suas peregrinacdes para o norte, e o golpe de Simedo e Le- vi, em Siquém, antes de sua dispersdo. Dessa forma, a realeza recai em Juda, o cagula deles. Contudo, é José que fica com a parte melhor, do mesmo modo que teve sua preponderAncia antes da instituigdo da monarquia. Benjamim nasce de Raquel como José, e este bem gostaria de guarda-lo com exclusivida- de. Mas é Juda que, na historiografia javista, salva todos os seus irmdos. Essa historiografia ndo duvida em reinterpretar audaciosamente antigas tradicdes locais ou tribais, mas ndo as inventa (as divindades locais se tornam “anjos” de Iah- weh”*), Algumas vezes, ela apenas traz alusGes. Outras vezes, pelo contrario, sabe utilizar a arte que os escribas tinham pa- ra a “novela” e a aproximacdo de palavras. Nesse caso, seus modelos eram mais egipcios do que babilénicos. Essa histo- riografia se serviu deste modelo com habilidade, propiciando- nos a narracdo do Eden (Gn 2 - 3), a viagem do servo a Hara (Gn 24), a astuicia de Rebeca (cap. 27), a historia de José. Este ministro teve éxito, mas sua habilidade nfo conseguiu dobrar a vontade de um Jacdé. Nao ha nada de epopéia nisso. Jacé é portador de uma heranca que é demasiado pesada para seus ombros; Salomao, tal como seus sucessores se mostram inca- pazes de salvar a heranca recebida. Assim, depois dessa historiografia real, vai aparecer uma historiografia profética. Trata-se dos textos “eloistas” do Pen- tateuco, nos quais aparece o “Espirito” (ruach) de Deus, pas- sando de Saul e de Davi para o profeta Moisés (Nm 11). Sa- muel, homem de Deus, sera o profeta criador de reis, que trans- fere a coroa de Saul a Davi, como mais tarde o fara Eliseu, da casa de Acab para a casa de Jeu. Por ter sido redigido, com toda probabilidade, no reino do norte e nos seus ambientes pro- féticos (Os 8,4; 13,11), Davi é honrado, mas nao a sua casa sem nenhuma das dinastias no norte. A salvacdo vem da fidelida- de aos costumes pré-mondrquicos que remontam a Moisés, “que 28. H. Cazelles, DBS VII, 147-149, Essai sur le pouvoir de la divinité a Ugarit et en Israél, Ug V1, Mélanges Schaeffer, Paris, 1969, pp. 32-36. 65 3 — Historia Politica de Israel... fez Israel subir do pais do Egito”, costumes esses as vezes fixa- dos em velhos escritos conservados nos santuarios leviticos (Si- quém, Guilgal, Betel, Da). Essa historiografia retoma, as ve- zes, oS dados da historiografia precedente, mas com um senti- do moral mais afinado. Conservou, enfim, dados preciosos sobre a vida das tribos do norte e de seus relacionamentos com os arameus, irm4os, embora irmdos inimigos. Devemos a ela também uma redacdo do livro dos Juizes centrada sobre os mandamentos de Deus e nao sobre a pessoa do rei”. Aparece, entao, a historiografia deuteron6mica, no sécu- lo VII a.C. ou mais provavelmente desde fim do século VIII, apos o desaparecimento do reino de Israel, fato que levantava terriveis problemas de ordem teoldgica. Trata-se de uma obra muito recente, que é centrada sobre o Templo de Jerusalém, mas esta em estreita conexdo com a historiografia profética do século precedente. Utiliza também modelos babilénicos pelo fato de julgar os reis de acordo com sua fidelidade ou infideli- dade para com o santuario nacional ou pelo fato de tentar uma histéria sincrénica dos dois reinos*®. Os patriarcas passam pa- ra segundo plano, e deles sé se retm as promessas e 0 jura- mento que Iahweh lhes havia feito. Essa historiografia conhe- ce a monarquia, e esta é supervisionada e controlada pela Lei, os sacerdotes levitas que a guardam e os profetas. Essa histd- ria comeca com o Deuteronémio e termina com os Livros dos Reis. Tera duplo aspecto: muito inteligente pela utilizacdo das fontes, desta vez urbanas e oficiais e muito popular pela utili- zacaio dos ciclos sobre os profetas itinerantes como Elias e Eliseu. 29. Tal como nas redacées pré-deuterondmicas do Pentateuco, existem adigdes deuteronémicas neste livro (corrigir o que foi dito em Juges [Livre des] DBS IV, 1411-1414), como em 2,6-15. Mas 0 livro atribui a fun¢do salvadora anteriormente con- ferida 4 monarquia a juizes salvadores (um por tribo). 30. Grayson, n° 21. Nao devemos esquecer que o préprio Deuterondémio se ba- seia em um esquema de tratados de alianca que comportavam um preambulo histori- co: cf. D. Mc Carthy, Treaty and Covenant, 2? ed. 1978, pp. 53s; 159ss; M. Weinfeld, Deuteronomy and Deuteronomic School, Oxford 1972, pp. 116-145. Depois de Noth, so numerosos os trabalhos relativos a historiografia deuterondmica, p. ex., U. K6p- pel, Das deuteronomische Geschichtswerk und seine Quellen, Berna-Frankfurt, 1979. Ensaio de sintese em J. van Seters, Histories and Historians of the Ancient Near East, I. The Israelites, Or 1981, pp. 137-195. 66 Temos, enfim, a historiografia sacerdotal, que ignora a monarquia e constréi uma histdria muito original de Israel no seio das nac6es. A vida de Israel é centrada em um santuario. Deus aparece ocasionalmente aos patriarcas. Depois de Moi- sés, Deus fica no meio de seu povo pela mediacdo de uma Lei litirgica, de tragos muitas vezes bem arcaicos, e por meio do .servico cultual do clero aaronita. Essa historiografia conti- nua através dos Livros das Crénicas, Esdras e Neemias. Tam- bém eles estao centrados no culto do Templo e de suas refor- mas. Ali, encontramos muitas informacoes sobre a historia pds- exilica e mesmo sobre os movimentos das tribos na época da monarquia. Contudo, a comparacdo dessa histéria com o Li- vro dos Reis mostra quanta precaucdo se deve ter ao utiliza-la para descrever este ultimo periodo. Tendo em conta esses diferentes aspectos da historiogra- fia biblica, podemos tentar uma histdria politica do Israel bi- blico e de suas peripécias no decorrer da evolucdo atormenta- da do Oriente Préximo. Em conseqiiéncia do que ficou dito, se impG6em cinco partes a este trabalho: I. Antes da monarquia de Davi: as tribos e sua vida. IL. A tomada de posse do pais. III. A monarquia israelita unificada. IV. As duas monarquias: Israel e Juda. V. De Nabucodonosor a Alexandre. 31. O P. Lagrange lhe dava o nome de Compéndio (RB 1938, p. 176). Veja Intro- duction critique a UAncien Testament, pp. 230-234; P. Ackroyd, The Priestly Work, in Exile and Restoration, Oxford, 1970, pp. 91-102; J. Blenkinsopp, The Structure of P em CBQ 1976, pp. 275-292. Sobre a historiografia do Cronista, veja G. von Rad, Das Geschichtsbild des chronistischen Werkes, Stuttgart, 1930; T. Willi, Die Chronik als Auslegung. Untersuchungen zur literarischen Gestaltung der historischen Ueber- lieferung Israel, Gottingen, 1972. Da mesma forma como hd retoques deuteronémi- cos na histéria pré-deuterondémica, existem retoques sacerdotais nas histérias pré- deuteronédmicas e deuteronémicas (particularmente no livro de Josué). 67 PRIMEIRA PARTE ANTES DA MONARQUIA DE DAVI: AS TRIBOS I. As tribos II. Os agrupamentos de tribos Ill. A caminho da independéncia IV. A vida das tribos No Antigo Oriente, como jd o temos visto!, o Estado monarquico é o “ponto focal” no que tange 4 historiografia e a fixacdo das tradicées religiosas. Para se poder escrever uma historia politica de Israel, mesmo se levarmos em conta sua funcdo religiosa, ndo convém partir de Abraio ou de Moisés, mas, sim, da monarquia judaica. Sua fundacao causou pro- blemas nao sé para as diferentes tribos assim unificadas, mas também para a corte em si mesma. Contudo, esses problemas ndo poderiam ser expostos sendo situando essa monarquia den- tro das tradicées e da vida do passado. O Estado unificado de Israel esta no término de um longo processo. O processo se reflete na composicdo dos livros biblicos. A terra na qual penetraram as tribos de Israel foi a terra de Canaa, antes de tornar-se terra de Israel’. As tribos® ai encontraram cidades (Nm 35,11). Viveram em simbiose com elas antes de as conquistar e de tentar assimila- las. Os estudos sobre essa simbiose (dimorfismo)*, sobre o nomadismo® e seminomadismo® lancaram nova luz sobre as tradicdes que foram consignadas nos livros biblicos sob diver- sas formas. Israel se implantou em Canaa, mas Israel nao é Canaa. As estruturas politicas sucessivas que Israel atravessou antes de ser esta comunidade muito original que é o Israel pds- exilico mergulham, embora nao exclusivamente, num terreno cananeu. Propomo-nos acompanhar esse crescimento original em meio a situacGes e mesmo costumes comuns. 1. Consulte a respectiva pagina e também Z. Kallai, The United Monarchy of Israel. A focal Point in Israelite Historiography, in Israel Exploration Journal, 1977, pp. 103-109. 2. J. Sapin, “La géographie humaine de la Syrie-Palestine, au deuxiéme millé- naire avant Jésus Christ comme voie de recherche historique’, in Journal of Econo- mic and Social History of the Orient XXIV, 1981, pp. 1-62, sobretudo pp. 10ss. 18ss. 55ss; 1982, 1-49, 113-186. Com relacdo aos mapas, cf. Atlas of Israel, Jerusalém, 1970. Com relacdo aos problemas sociais da idade do Bronze recente em Ugarit, cf. M. Li- verani, em DBS IX, col. 1314-1348. 3. Sobre o funcionamento das tribos que vivem sob tendas, cf. A. Jaussen, Cou- tumes des Arabes au Pays de Moab, Paris, 1908, pp. 107-286; A. Musil, Arabia Pe- traea II, Ethnologischer Reisebericht, Viena, 1908. 4. M. Mario Fales, in ed. S. Moscati, Lalba del‘a Civilta L., Turim, 1976, 149-269. 5. H. Charles, Tribus moutonniéres du Moyen Euphrates, Beirut, 1939; cf. DBS VI, pp. 541-550. 6. Existe um nomadismo pastoril pré-beduinico (J. Sapin) e um nomadismo que nasce da domesticacdo do camelo e que levou 4 “beduinizagao” das tribos némades. Cf. os estudos de W. Dostal e J. Henninger, in ed. F. Gabrieli, Lantica Societa bedui- 70 CAPITULO PRIMEIRO AS TRIBOS A TRIBO A mais antiga realidade socioldgica é, de fato, a tribo, 0 que ndo exclui, mas supde um niicleo familiar. Nao ha no Gee nesis nem “filhos de Abrado” (beney Abraham) nem beney Isaac, mas existe uma “descendéncia (Zara, literalmente “se- mente”) de Abra&o” (13,16) e uma “casa de Isaac” (Am 7,16). Além disso, nao convém comecar uma histdria politica de Is- rael por Abrado, que nao é o antepassado de uma tribo que leva o seu nome, o que chamamos de epG6nimo, enquanto a Biblia fala freqiientemente dos beney Israel, “filhos de Israel”. Esses beney Israel constituem as doze tribos que se ligam de uma maneira ou outra a um ep6nimo que tem o nome de Is- rael. Os historiadores parecem estar de acordo em dar, nas ori- gens, um grande espaco a autonomia das tribos’. Essa auto- nomia é manifesta tanto nas tribos semindmades do Oriente Préximo como na correspondéncia dos reis de Mari®, no sé- culo XVIII a.C., em textos biblicos como Jz 1. Estudos recen- tes desenvolveram o ponto de vista de que a tribo era na ori- gem uma unidade étnica®, mesmo quando em relacéo com na, Roma, 1959; J. Chelhod, Le Droit dans I. i i i 3 i- man, { Nomad, Rema, 1960. la Société bédouine, Paris, 1971; E. Vadi 7. Apresentacao e Bibliografia em R. de Vaux, Les Institutions de U’Ancien Tes- fament, Paris, 1958, pp. 15-29 ¢ 319-321; G. E. Mendenhall, Social organization in Early Israel, in ed. F. Cross, Magnalia Dei. The Mighty Acts of God. Essays...; G. E. Wright, Toronto, 1976, pp. 132-151, que infelizmente atribui, sem haver estudado, a R. de Vaux uma teoria que ndo é dele: “Nem os israelitas, nem seus antepassados nunca foram verdadeiros beduinos”, dizia de Vaux (Institutions I, 16); H. Reviv, Fron Clan to Monarchy, (em hebraico) Jerusalém, 1979. 8. Sobre Mari, veja acima p. 43. J.R. Kupper, Les Nomades en Mésopotamie au temps des rois de Mari, Paris, 1957; A. Malamat, Mari and the Bible. Some Pat- terns of tribal Organization and Institutions, JAOS 82, 1962, pp. 143-160; Aspects of tribal Society in Mari and Israel, XV RAL Liege, 1967, pp. 129-138; V. H. Mat- thews, Pastoral Nomadism in the Mari Kingdom (1830-1760 BC), Cambridge (Mass), 1977; M. B. Rowton, Pastoralism and the Periphery in evolutionary Perspective, Ar- chéologie de I’Irag, Coléquio Paris, 1979, Paris, 1980, pp. 291-301. : 9. N. de Geus, The Tribes of Israel, Assen, 1976, p. 149, Para N. Gottwald, The Tribes of Yahveh, Londres, 1980 (Trad. bras. As tribos de lahweh, Ed. Paulinas, Sao 71 outras tribos e, mais ainda, com cidades'®. A tribo queria guardar sua liberdade de movimento e se mostrava muito des- confiada diante do governo das cidades. . A tribo israelita se compée de “casas” (beyt em hebraico, bayit em arabe, bitu no acddico de Mari) ou entéo de “fami- lias” (? mispaha)", cf. Gn 24,38; 1Sm 20,29. Quando a tribo se desloca, cada qual vai com sua propria casa (1Sm 27,3; 2Sm 2,3), que é a “casa do pai” (beyt’ab). Diferentemente da tribo beduina, a vida da tribo israelita nao tem por centro o came- lo, que, para Abrao e para Jacé, ndo passa de acessério. As tribos israelitas vivem de seu gado de pequeno porte, que se desloca lentamente (Gn 33,13). Necessitam de pontos onde haja agua (Gn 21,25; 26,16-33). Mas as tribos podem adquirir cam- pos (Gn 26,12) para apascentar gado de grande porte a manei- ra dos haneus e dos benjaminitas de Mari’?. A margem dos territérios que ocupam, podem ter aldeias, onde moram mu- lheres e criancas. As tribos mudam de pastagem e se deslocam pelo meio das cidades e dos campos dos sedentarios, sendo tentados a pilhd-los e captura-los, com o risco de ali permane- cerem (Gn 34). Paulo, 1986), o “tribalismo” israelita é um “self-constructed instrument of resistance and of decentralized self-rule” (p. 325). A organizac4o tribal se estruturou progressi- vamente, cf. W. Thiel, Die soziale Entwicklung Israel in vorstaatlicher Zeit, Berlim, 1980. 10. G. Buccellati, Cities and Nations of Ancient Syria, Roma, 1967. A tribo se diferencia da cidade pelo fato de aquela viver sob uma tenda. D, Wiseman, They li- yed in Tends, in Biblical and Near Eastern Studies. Essays... La Sor, Grand Rapids, 1978, pp. 195-200; M. B. Rowton, The Physical Environment and the Problems of the Nomads, XV RAI, pp. 109-122; J. Sapin, La formation de la tribu de Benjamin, tese, Estrasburgo, 1972; veja também DBS VII (Patriarches), coll. 116-120; J. Starcky, Abraham et Vhistoire, em Cahiers Sioniens V, 1951, pp. 17-30. 11. W. Johnstone, O. 72 Technical Expressions in Property Holding, em Ugariti- ca VI (Mélanges Cl. Schaeffer, pp. 309-318, Paris, 1969), julga, ndo sem razdo, que se deveria traduzir por “cla”. O semita ndo pensa em uma familia ampliada, mas o termo é cOmodo para designar uma unidade que nao é nem a tribo nem a familia propriamente dita. Sobre as relacGes entre religiao e vida tribal, cf. J. Henninger, Ara- bica sacra: Aufsdtze zur Religionsgeschichte Arabiens und seiner Randgebiete, Goet- tingen, 1981; E. Otto, Sozialgeschichte Israel. Problemen und Perspecktiven, BiNo 15, 1981, pp. 87-92. / 12. Atendendo as observagdes de H. Tadmor. preferimos neste momento falar de “yaminitas”, de forma a evitar toda confusao com os benjaminitas da Biblia. Mes- mo admitindo com G. Dossin e T. L. Thompson (The Historicity of the Patriarcai Narrative, Berlim, 1974, p. 61) a equivaléncia entre os Marmi e os TUR-ya-mi-ni, a leitura mar (filho em acddico = bi-ni no onomastico de Mari) demonstra que yami- nitas é uma leitura incompleta. (Cf XV RAJ, pp. 77s). 72 O CHEFE O chefe de familia é 0 pai, que também pode ser 0 avo. Como ele procria, também comanda. Ele oferece os sacrifi- cios familiares por ocasido da erec4o ou da ampliacdo da ten- da, por ocasiao da tosquia das ovelhas, da circuncisdo dos fi- Ihos e mesmo em caso de divorcio. Conduz os seus ao comba- te, negocia o casamento de seus filhos ou filhas, faz votos e abencoa. Pela sua morte, junta-se 4 sua parentela (am)! em sepulcro coletivo. Mas a mesma palavra ‘am designa um gru- po familiar mais amplo ou o homem que o representa apds O pai: o tio paterno. Na falta deste, é o parente mais proximo que exerce 0 direito do go’, vingador do sangue ou fiador, em caso de processo. Tem prioridade em caso de venda de um terreno e, na qualidade de herdeiro (yabam), acolhe e desposa a mulher do defunto: é o levirato. Em caso de casamento, normalmente a jovem esposa vem para a casa do esposo. Existe a tendéncia de se tomar esposa nas familias mais préximas. Alguns véem nisso um traco de exogamia. Em todo caso, nao existe dificuldade em desposar uma meio-irma paterna (Gn 20,12; 28m 13,13). Como entre os arabes de Moab no comeco deste século’, o primo goza de direito privilegiado sobre a respectiva prima. Mas acontece que em Israel se manifestam outras formas de casamento, sobre- tudo na tribo de Juda. Nada é simples em historia, e as varia- ¢6es nos costumes tribais se mostram reveladoras. As tribos so, portanto, agrupamentos de familias, sib em arabe, matteh e depois shebet em hebraico. A imagem é a de um ramo que sai de um tronco comum. As familias sAo apa- rentadas, realmente ou por ficeao. A autoridade do chefe é aqui mais fragil. Jacé tera mais dificuldade com os seus do que Abraao ou Isaac. A autoridade depende da valentia e da habi- lidade de apaziguar um conflito. Esses chefes sAo os xeques arabes ou os sugagu dos haneus e benjaminitas de Mari. As 13. B. Alfrink, Lexpression n’sp I‘myw dans OTS. Leyde, 1948, pp. 118-131; E. M. Meyers, The theological Implications of an Ancien Burial Customs, in JOR 62, 197/2, pp. 95ss; G. Rinaldi, La “riunione presso i padri’) in BieOr, 1973, pp. 89s; J. Priest, Huldah’s Oracle, in VT 1980, pp. 366-368. 14, A. Jausen, Coutumes des Arabes au pays de Moab. pp. 45s. 73 vezes, seu prestigio é tal, que o chefe conservara e transmitira sua autoridade a seu filho geralmente, mas nem sempre, mais velho. Dessa forma, surgem problemas de sucessdo. O novo chefe (ou o antigo) pode ser bem aceito por algumas familias e rejeitado por outra, que, ent4o, passa para outra tribo. Car- mi é rubenita em 1Cr 5,3, mas sera judaita em 1Cr 4,1 e Js 7,1. Bem parece que o mesmo Zara que é edomita em Gn 36,13, é judeu em Gn 38,30. Hufam e Sufam estado ligados a Manas- sés em 1Cr 7,15, mas séo benjaminitas em Nm 26,39, o que pode explicar as relac6es estreitas entre Jabes de Galaad e os benjaminitas (Jz 21,14 e 1Sm 11,1ss). Um dos quatro clas ben- jaminitas de Mari, Jarihu, traz o mesmo nome que a Jericd bejaminita; mas todos os nomes das outras familias sao dife- rentes. Como, ademais, ha cerca de meio milénio entre uns e outros, compreendemos a reserva que mostram os historiado- res sobre a identificacao dos dois grupos*. OS ANTEPASSADOS Entre os nomes dos antepassados das antigas familias is- raelitas, se destaca o de Abréo, modificado em Abrado, no oes- te, apos sua migracdo, o que se explica bem pelas leis da foné- tica oeste-semitica’®. Ab(i)ram é um bom nome mesopot4mi- co da primeira metade do 2° milénio. Ele evoca o culto do deus-pai!’ e se pode traduzir com: “o pai ama”. Mas, passan- do para o oeste, para a regido amorita (Mari e mais tarde Uga- rit), o nome significa, “o pai é exaltado”. O primeiro deus da lista do pantedo de Ugarit sera i/-abi, que se devera traduzir antes por “deus-pai” do que por “deus de meu pai”. Os tex- tos de Mari nos dao a conhecer nomes de lugares onde en- 15. Veja a discussdo a respeito em R. de Vaux, Histoire ancienne d’Israél, 1, Pa- ris, 1971, pp. 587-589s. Yeivin observa que dois clas benjaminitas, Ard e Miklot, pare- cem conhecidos das listas de Tutmés LI (século XV a.C.). Conquest, p. 122. 16. Os semitas do oeste tém a tendéncia de alongar a vogal a ponto de a dobrar pela insercdo de um 4 intercalar (cf. exemplos in C. Gordon, Ugaritic Textbook, Ro- ma, 1965, Gramatica 8.8). 17. Ugaritica V, ed. C. Schaeffer, Paris, 1968, pp. 44s (J. Nougayrol), p. 519 (E. Laroche). Cf, discussdo em R. de Vaux, El et Baal, le Dieu des Peres et Yahveh (Uga- ritica V1, pp. 501-513); H. Cazelles (id, pp. 29-32); H. Hirsch, Gott der Vater, AFO XXI, 1966, pp. 56-58. 74 contramos nomes de parentes de Abrado (Naur, Sarug). Co- mo Harram é um lugar de culto lunar, suposto por outros no- mes da parentela de Abrado (Taré, LabAo), os especialistas ad- mitem, sem dificuldade, que Abrado tenha imigrado de Hara para Canaa. E possivel que tivesse havido uma primeira emi- gracdo de Ur para Hara, mas isso é discutivel®, Segundo o Génesis, Abr(a)o passa pelos santuarios de Siquém, Hai e Betel, mas se fixa sobretudo na regido de Bersabéia. Aqui se cobrem mutuamente tradicdes de Abrdo e de Isaac (compare- se Gn 26 com Gn 12,9-20 e 21,22-34). Ha boas razGes para se identificar Abrado com Abrhn, principe de Simeon, dos tex- tos de execracdo egipcios”, visto que o nome de Simeon sera ligado a regido de Bersabéia, onde Abrado mora (Gn 21,22-34), embora as objecdes contra essa hipdtese sejam numerosas. Os textos de Mari e os textos de execracao egipcios per- tencem ao século XVIII a.C., atingindo o fim do periodo amorita”. Os amoritas”! so semitas do oeste cujos nomes particulares tém forma especial. Para os babilénios, Amurru 18. Falar de “Ur dos Caldeus” é um anacronismo, pois os caldeus sé aparece- ram em Babildnia no século [X a.C. Algumas tradicGes pensaram em Ur no Caucaso, cf. Xenofonte e J.M. Grintz JNES 1962, 190 (K/Haldu desempenha um papel no Urar- tu, ao norte da Assiria). Outros escritores, com C. Gordon (JNES 1958, p. 31), He- brew and Semitic Studies presented to G. R. Driver. Oxford, 1963, pp. 77-84, pensam em Ur da Cilicia (cf. criticas de A. Saggs, Jrag, 1960, pp. 200-209). Veja o problema em R. de Vaux, Histoire... pp. 182-187; F. Vattioni, Augustinianum 4, 1964, pp. 345-347, e A. Lods, Israél des Origines au VIII siécle, p. 187... 19. Uma primeira série foi publicada por K. Sethe, Die Aechtung feindlicher Fuersten, Voelker und Dingen auf altaegyptischen Tongefassscherben des mittleren Reiches, Berlim, 1926. Uma segunda série € um pouco mais tardia e foi publicada por G. Posener, Princes et Pays d’Asie et de Nubie, Bruxelas, 1940. Novos textos, as vezes idénticos, foram exumados em Mirgissa. Cf. G. Posener, Les textes d'envoiite- ment de Mirgissa, em Syria XLII, 1966, pp. 277-287. (ACF 74, 1973-1974, pp. 397-404). W. L. Moran péde redigir as Mari Notes on the Execration Texts, Orientalia XXVI, 1957, pp. 339-345. : 20. Sobre este periodo, cf. G. Posener, J. Bottero, KM Kenyon, Syria and Pales- tine c. 2160-1780 BC, Cambridge Ancient History? 12, 1971; P. Garelli, Le Proche — Orient asiatique des origines aux invasions des peuples de la mer, Paris, 1969, pp. 121-128. Os semitas nao sdo refugiados no Egito (Abisha, cf. ANEP n° 3; lista de escravos publicada por W. C. Hayes). 21. M. Liverani, Amorites, in ed. D. Wiseman, Peoples of O. T. Times, Oxford, 1973, pp. 100-133 (p. 118 sobre os dados egipcios); G. Buccellati, The Amorites of the Ur III Period, Napoles, 1966; K. Kenyon, Amorites and Canaanites, Londres, 1966; J.R. Kupper, Les Nomades, pp. 147-248; A. Haldar, Who were the Amorites?, Leyde, 1971; J. Gibson, Some Important Ethnic Terms in the Pentateuch, JNES, 1961, pp. 75 era a regido do oeste, particularmente a dos perigosos néma- des de Djebel Bishri, enquanto para os egipcios, Emor sera a regiao montanhosa do Libano. Ali se fundarad o Estado de Amurru”. A populacdo amorita, ora sedentdria ora némade, nado é una, e isso se refletira em certos textos biblicos. Muitos argumentos militam em favor de datar Abrado e sua migracdo” na época amorita: o nome de Abrao e 0 no- me de Jacd™, a expansao cultural da civilizacdo mesopotami- ca na regido siro-palestinense sob a dinastia amorita e a des- coberta de rotas comerciais da época do Bronze*. Mas Gn 14, que parece favorecer essa data, seus dados e, mais ainda, suas identificacdes, é controverso”*, Esse capitulo nado pode servir de base sdlida para uma cronologia. Além disso, alguns espe- cialistas, como Gunkel”, em funcao da exploragaio de super- ficie do Negueb, gostariam de colocar a data de Abrado ao 220-224;-L. M. Muntingh, Israelite-Amorite Political Relations during de 2d Mille- nium BC... Ed. F. Fronzaroli, Atti del Secondo Congresso internazionale di Linguis- tica camito-semitica, 1974, Florenga, 1978, pp. 211-236. Sobre a onomastica, cf. H. B. Huffmon, Amorite Personal Names in the Mari Texts, Baltimore, 1965. O conhe- cimento da lingua amorita e dos amoritas vai ter novo surto com a descoberta italia- na dos arquivos de Ebla (2300-1700 aprox.) em Tel-Mardikh na Siria; P. Matthiae, Ebla, un impero ritrovato, Turim, 1977 (que fala mais de paleo-sirfaco do que de amo- rita); G. Pettinato, Materiali Epigrafici di Ebia, 3 vols., Napoles, 1979-1981. De uma bibliografia ja enorme, citamos I. Gelb, Thoughts about Ibla..A Preliminary Evalua- tion, em Syro-Mesopotamian Studies 1, 1977, pp. 3-29. Comegaram a aparecer ou- tros estudos em Studi Eblaiti, Roma, 1979. 22. Horst Klengel, Geschichte Syriens im 2. Jahrtausend v, U. Z., Berlim, 1969, pp. 178-299; W. Helckj, Die Beziehungen Aegyptens zu Vorderasien in 3 und 2. Jahrt. vor Chr, Wiesbaden, 1962, 22 ed., 1971, p. 248 e passim. 23. Ea posicdo de Vaux, Bright, Kitchen, Rowley, Parrot, Dunand, Yeivin e, pra- ticamente, Bimson (na ed. AR. Millard & D. Wiseman, Essays on the Patriarcai Nar- ratives, Leicester, 1980). Mas a situacao é atualmente muito confusa, cf. Hayes-Miller, Israelite and Judaeam History, pp. 70-148 (WG Dever & Malcolm Clark). E ficaré confusa enquanto no se queira reconhecer e analisar as perspectivas do javista sobre © governo real e sua ideologia (infra 12Iss, 153ss); sua obra nada tem de epopéia, e ele sabe escolher as tradices tribais de seu povo com o fim de ilustrar essas perspectivas. 24. Cf. C.J. Gadd, Iraq 7, 1940, p. 38 (Chagar Bazar na Alta-Mesopotamia); M. Rutten, RA 54, 1960, passim e p. 149, onde Jaqub-EL de Manana, perto de Kish, é identificado com Yahqub-El. E este ultimo nome que mais corresponde ao Ya’qob- (El) da Biblia. Sobre Abrado, cf. D, Wiseman, in Essays... (cf. acima, nota 23), pp. 153s e notas. 25, Sobre estas pesquisas, cf. B. Rothenberg, em Bull. Museum Ha-Arets, Tel Qa- sileh X, 1968, An Archaeological Survey of the Elath District; X1, 1969, An Archaeo- logical Survey of South Sinai (pp. 22-38) i; PEQ 1970, pp. 4-29. 26. Rivers in the Desert, Londres, 1959, 23 ed., Nova Iorque, 1968, pp. 67-84. J. J. Bimson estd influenciado por isso, cf. Essays... (nota 23), p, 84. 76 redor de 2000, no periodo da ceramica “caliciforme” (a pri- meira do Bronze médio ou intermedidrio entre o Bronze anti- go e o médio)*’. Outros escritores, em vista do pequeno nu- mero de geragdes que separam Abrafo de Moisés segundo a Biblia, colocariam, pelo contrdrio, o patriarca por volta dos séculos XIV e XIII?*. Também invocam em seu favor o cara- ter mais tardio da onda araméia, a semelhanca entre os costu- mes patriarcais e os costumes arameus conhecidos através dos textos de Nuzi, a aco dos hapiru no tempo de El Amarna (sé- culo XIV) e os paralelos com Ugarit. Esses dados esto certos e obrigam a datar varias cenas patriarcais de um periodo que ja nao é o dos amoritas. Mas esses dados valem mais para Is- rael, o arameu errante de Dt 26,12, do que para Abraao, Isaac e Jacéd. Jac6”? (que se tornara Israel) se liga a Abrafo, mas nado é 0 unico. Segundo a tradic&o biblica, os ismaelitas (arabes) do sul judaico também descendem dele através de Agar, que freqiientava Laai-Roi (Gn 16,14), tal como Isaac (Gn 24,62), na direc&o de Cades. Os madianitas e outras tribos da Arabia do Norte, como Deda, se relacionam com Abraao através de Cetura (Gn 25,1-4). Nas proximidades de Hebron, Abrado € qualificado de hebreu (Gn 14,13) e ao mesmo tempo, em Mam- bré, 6 chamado de amorita. Ora, Gn 10,25-28 relaciona com Héber?!, antepassado dos hebreus, os arabes do sul (Hadra- maut, Ofir, Saba), fazendo-os sobrinhos de Faleg. Além dis- so, uma tradicdo junta a fundac&o de Hebron a de TAnis, por ocasiado da penetracdo dos hicsos®*, ao fim do século XVII 27. Sobre esse periodo de transigao, cf. R. Cohen e WG Dever, Preliminary Re- port of the Second Season of the ‘Central Negev Highlands Project; em BASOR 236, Outono de 1979, pp. 41-60. 28, C. Gordon, Hebrew Origins in the light of Recent Discoveries, in ed. Alt- mann, Biblical and other Studies, Cambridge (Mass), 1963, pp. 3-14. : 29. O nome sera atestado sobre as listas egipcias relativas 4 Palestina, a partir do século XV, sob a forma de Yqb-i, cf. Simons, J. Handbook or the Study of Egyptian Topographical Lists relating to Western Asia, Leyde, 1937, indice a p. 200. Os velhos “hicsos” { cf. abaixo, nota 32) trazem esse nome. 30. E nessa parte que Estrabao, no século I, colocara os “agarénios”. O gedgra- fo Ptolomeu localiza Madia a leste do golfo de Acaba. a 31. Pode ser que possamos aproximar o rei de Ebla, Ebrum (fim do 4° milénio), com o Héber biblico. . 32. Os hicsos, “principes dos paises estrangeiros”, sdo sobretudo semitas; J. van Seters The Hycsos. A New Investigation, New Haven, 1966; J. von Beckerath, Unter- 77