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Um dia destes,” de Gabriel García Márquez

Narrador

“ Um dia destes , ” de Gabriel García M árquez Narrador 1. Presença na ação

1. Presença na ação: o narrador é não participante, pois não intervém na mesma como personagem, narrando-a na terceira pessoa (“Dom Aurélio Escovar (…) abriu o consultório às seis.”).

2. Posição / ponto de vista: o narrador é subjetivo, já que toma posição, comentando os acontecimentos (“… tinha um olhar que raramente correspondia à situação, como o olhar dos surdos.”; “O dentista leu nos seus olhos murchos…”). Ação

1. Relevância dos acontecimentos: o enredo é simples e linear, reduzindo-se a um núcleo de ação principal, constituído pela ida do alcaide ao consultório do dentista e à atuação deste.

2. Estrutura da ação:

A introdução do texto corresponde à localização espácio-temporal da ação e à

apresentação da personagem principal, Dom Aurélio Escovar. Surgem breves informações sobre sua profissão, os seus hábitos de trabalho, ficando no ar a ideia da sua organização e método, de um homem de hábitos determinados. De sublinhar o facto de exercer a profissão de dentista sem diploma.

O desenvolvimento diz respeito à sucessão das peripécias: a interrupção, pelo filho

do dentista, da atividade que este desenvolvia no consultório, anunciando a presença e o

requisito do alcaide, que se apresenta ameaçador e prepotente, prometendo violência

caso a sua vontade não fosse feita. Logo aqui se adivinha o conflito que protagoniza com o dentista, representando um grupo social que oprime e tiraniza. Por outro lado, a imperturbabilidade do profissional, poderá ser entendida como uma forma de protesto silencioso contra o alcaide e todos os que representa, tomando, neste conflito, as dores dos que sofrem a repressão social e política daqueles que como o alcaide têm as rédeas do poder.

O dentista porém, aceita consultá-lo, preparando-se para a receção do tenente,

mantendo inalterável a sua postura calma e serena, provocando um efeito cómico, já que a sua atitude é inesperada (“Diz-lhe que venha cá dar-me o tiro”). Este tom mantém-se com a chegada do alcaide e com a alteração do seu comportamento, produzindo-se uma saudação cordial, cortês que surpreende e provoca o riso. Assiste-se à atuação do dentista, profissional e por vezes mais humano do que seria de esperar, não desperdiçando a oportunidade de aludir, no seu diálogo com o paciente, em tom de crítica, à situação de opressão e violência sofrida pelo grupo social em que ele próprio se inclui (“- Aqui paga-

nos vinte mortos, tentente.”).

A conclusão dá-se a partir da linha 85, momento em que o alcaide se despede,

regressando à austeridade, à posição sobranceira de quem já não precisa do outro, deixando mesmo transparecer o desprezo que sentia (“… despediu-se com uma saudação displicente”; “O alcaide não olhou para ele.”). É neste momento da ação que fica patente o verdadeiro cerne da mensagem que se prende com o abuso das classes preponderantes, a crítica ao poder político corrupto e prepotente que gasta os dinheiro públicos em necessidades pessoais, sem pudor, sem respeito pelo que é de todos, ficando visível a usurpação que protagonizam (“- É o mesmo saco.”).

3.

Organização das sequências narrativas: a sucessão dos acontecimentos segue a ordem cronológica, organizando-se por encadeamento.

4. Delimitação: quanto à acção central, a narrativa pode considerar-se aberta, pois o dentista trata o dente do alcaide e o problema fica resolvido. Quanto ao conflito social latente, poder-se-á considerar a ação aberta, visto que no final do conto o tom de ameaça, de prepotência ganham novamente força, não se sabendo se a situação mudaria e se se considerar o título que aponta para a esperança de que um dia a situação se altere.

Personagens

1. Papel / relevo: a personagem principal é Dom Aurélio Escovar, um dentista sem diploma, representante de um grupo social desfavorecido e reprimido pelo poder político. Protagoniza o conflito com o alcaide do povoado onde exerce a sua profissão.

2. Caracterização: fisicamente, Dom Aurélio tinha um corpo “rígido e seco”. Do ponto de vista psicológico, a Dom Aurélio Escovar era organizado e metódico (“… colocou em cima da mesa um punhado de instrumentos que ordenou do maior até ao mais pequeno…”). Mostrava-se imperturbável (“Ainda não tinha mudado de expressão.”) e calmo (“Sem se apressar, com um movimento extremamente repousado”). Revela-se ainda corajoso (“Diz- lhe que venha cá dar-me o tiro.”), humano e profissional (“O dentista leu nos olhos murchos muitos muitas noites de desespero.”; “Fechou a gaveta com as pontas dos dedos e disse suavemente: - Sente-se.”). A personagem mostra-se também orgulhosa, firme e convicta (“Fez tudo isto sem olhar para o alcaide.”: “Aqui paga-nos vinte mortos, tenente.”). Espaço

1. Físico: a ação passa-se num consultório de um povoado que se adivinha pequeno, presumindo-se que Dom Aurélio seja o único dentista aí existente. Era um consultório com mobiliário velho e apenas instrumentos básicos e artesanais (ll. 47-50), em que as condições sanitárias não eram apropriadas pra um consultório (“… o teto rachado e uma teia poeirenta com ovos de aranha e insectos mortos.”).

2. Social: a pobreza do consultório e o facto do dentista exercer essa profissão sem diploma apontam para um meio social desfavorecido, sem recursos económicos. Trata-se provavelmente de um meio pequeno, onde as pessoas sofrem intensamente os efeitos de um grupo social mais poderoso, repressivo que usurpa os bens públicos e as liberdades pessoais.

3. Psicológico: este tipo de espaço não assume relevância neste conto.

Tempo

1. Cronológico: a ação passa-se num curto espaço de tempo, o correspondente ao gasto numa consulta par extracção do dente, que acontece numa segunda-feira de manhã.

2. Histórico: a ação acontece provavelmente durante a guerra civil da Colômbia, entre conservadores e liberais, acontecimento que dizimou milhares de pessoas, entre os anos 40 e 60.

3. Psicológico: o título “Um dia destes” pode ser interpretado com a expressão de um desejo de mudança e de crença nessa possibilidade. A esperança que um dia a situação mude é reveladora do espaço psicológico que projeta para o futuro a ânsia da alteração de uma situação presentemente opressiva.

Estilo do autor Para além dos recursos expressivos assinalados durante a análise do conto, destaca-se o humor do autor, obtido sobretudo pela introdução de situações inesperadas.