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Anais do Seminário Nacional de História da Historiografia:

historiografia brasileira e modernidade

Alphonse de Beauchamp e o (não) lugar da Histoire du Brésil na historiografia brasileira oitocentista

Bruno Franco Medeiros 1

I. Contribuição francesa na história e na literatura brasileira no século XIX

Em 1818, o abade Dominique de Prat dizia as seguintes palavras ao se referir ao

Novo Mundo:

Há quase vinte anos [a América] tornou-se o assunto de nossas meditações; ela não ocupava, então, lugar algum na atenção pública 2 .

Sejam quais fossem os motivos de uma mirada de olhos da Europa sobre o Novo

Mundo, nesse momento alguns autores situados no universo intelectual francês buscaram

no Brasil algumas curiosidades pitorescas, preocupados com as implicações levadas ao

plano político pelo comércio com as colônias americanas, etc. Esta mirada de olhos da

Europa sobre o Brasil teve um impulso maior com a vinda da família Real para o território

colonial e os sucessivos acontecimentos que provocaram aquilo que a historiadora Maria

Odila da Silva Dias chamou de “interiorização da metrópole” 3 . Num momento em que um

príncipe europeu assentava trono no território colonial americano, não havia dúvidas de que

este episódio e as especulações sobre as conseqüências advindas deste acontecimento se

transformassem em assunto recorrente no âmbito do comércio literário desenvolvido por

uma “república das letras” que tinha suas fronteiras extremamente expandidas. Esse

comércio literário explica porque nesse momento eclode no cenário intelectual europeu

uma crescente onda de narrativas sobre o Brasil.

1 Graduando em História pelo Departamento de História da Universidade Federal de Ouro Preto. Bolsista de iniciação científica pelo PROBIC/FAPEMIG com projeto de pesquisa intitulado “A experiência de história no mundo luso-brasileiro: o conceito de história na formação nacional brasileira (1808-1850)”, sob orientação do Profº Dr. Valdei Lopes de Araujo, realizado junto ao Núcleo de Estudos em História da Historiografia e Modernidade (NEHM).

2 Prat, Dominique de. Apud in: Maria Helena Rouanet. Eternamente em Berço Esplêndido. A fundação de uma literatura nacional. São Paulo: Siciliano, 1991. p. 58.

3 DIAS, Maria Odila da Silva. “A interiorização da metrópole (1808-1853)”. In

(org). 1822: Dimensões. São Paulo: Perspectiva. Flávia Florentino Varella, Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org.). Ouro Preto:

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Carlos Guilherme Mota

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A América proporcionava a esses pensadores, que tinham um horizonte discursivo a disponível ainda a partir de uma de conhecimento forjado durante o século XVIII, uma gama de fatores que contribuíram para a assertiva de suas idéias. Dentre esses fatores, podemos citar a imagem edênica encontrada nas narrativas sobre o Brasil nesse período e que se tornará uma tópica nas narrativas de viajantes, nas descrições pitorescas de um Southey e um Beauchamp, e na constituição do cânone romântico brasileiro. “O Brasil não é longe daqui”, dizia uma canção popular alemã no início do século XIX, falava da exuberância da natureza local e exaltava camponeses alemães a emigrarem para o Brasil em busca de melhores condições de vida. Dentro do sistema filosófico de Montesquieu, por exemplo, o clima e a natureza tropicais, adornados por motivos edênicos, refletiam uma sociedade igualmente edênica 4 . A imobilidade característica das sociedades indígenas proporcionaria a Rosseau um exemplo para o seu juízo sobre uma sociedade em “estado de natureza”, em contraposição ao estado de civilização em que se encontrava a Europa: os indígenas viveriam sob o signo da liberdade e não da necessidade 5 . Sobre a contribuição francesa 6 para o sistema intelectual brasileiro do século XIX, podemos citar nomes como Auguste de Saint-Hilaire, Ferdinand Denis, Sismonde de Sismodi e Ferdinand Wolf. Esses autores receberam, por parte da fortuna crítica brasileira, uma receptividade muito positiva, contribuindo sistematicamente para a fundamentação dos cânones literário e historiográfico brasileiro do século XIX. Apesar da nacionalidade de alguns dos autores citados não ser francesa, a produção intelectual desses autores foi produzida nesta língua. Sismondi é, em ordem cronológica, o primeiro a publicar um trabalho de crítica literária sobre as escolas literárias do Brasil colonial. Em seu estudo De la Littérature du Midi de l’Europe, Sismondi faz referência a autores brasileiros pelo fato de esses autores pertencerem ao “sistema” 7 da literatura portuguesa. Essa notícia é reforçada pela data de publicação de De la Littérature, em 1813, quando o Brasil ainda não havia alcançado sua independência política. Ferdinand Wolf publicou o livro Le Brésil Littéraire – Histoire de

4 Cf. Maria Helena Rouanet. Op. Cit. p. 59.

5 Idem. 39.

6 Sobre a contribuição européia na crítica e na história literária Cf. Guilhermino César. Historiadores e críticos do Romantismo. A contribuição européia: crítica e história literária. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos; São Paulo: Edusp, 1978.

7 Sobre a noção de literatura como sistema ver o trabalho de Antonio Candido. Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1975, 2v. Flávia Florentino Varella, Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org.). Ouro Preto:

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la Littérature Brèsillienne em 1863. De acordo com Guilhermino César, Wolf é “um representante qualificado da historiografia romântica” 8 . Ferdinand Denis, em seu Résumé de l’Histoire Littéraire du Portugal, suivi du Resume de l’Histoire Littéraire du Brésil (1826), compreendeu a literatura brasileira pela primeira vez separada da literatura portuguesa, declarando um tipo de independência literária realizada junto à independência política. Ao “aconselhar que nossos autores olhassem mais para dentro de si mesmos e procurassem estudar cuidadosamente a natureza americana, o nosso barbarismo, o nosso primitivismo, em busca de características originais inexploradas” 9 , Denis representava uma das primeiras tentativas de sistematização orgânica da literatura nacional no Brasil. Denis foi um dos brasilianistas franceses mais bem recebido no sistema intelectual brasileiro que se firmava durante o século XIX. Mantendo correspondência extremamente ativa com o imperado Pedro II e, principalmente, com Ramiz Galvão – um grande erudito e conhecedor de documentos e obras sobre a história do Brasil, Denis é considerado pela história da historiografia brasileira 10 como um autor que ajudou a vulgarizar a imagem do Brasil no Velho Mundo. Figura que freqüenta as notas de roda pé e bibliografias em estudos dedicados à formação da sociedade brasileira, Denis foi “sabidamente, entre os franceses, e quiçá entre os europeus, o mais importante brasilianista e lusitanista da primeira metade do século XIX. Em seu tempo, ninguém conheceu tão bem os países ibéricos e a América meridional, particularmente Portugal e o Brasil”, nas palavras de Antônio Soares Amora 11 . Ferdinand Denis contribuiu para definir os parâmetros do que Maria Helena Rouanet denominou de “Manual do perfeito viajante”. Esta situação lhe daria um grande prestígio no sistema intelectual brasileiro. Vivendo praticamente durante quase todo o século XIX, Denis exemplificou não só um tipo de fonte mas também uma autoridade em matéria de Brasil 12 . Dentre os vários exemplos de Denis como um tipo de fonte largamente

8 Idem, p. XLIX.

9 Idem, p. XXXIII.

10 Sobre Ferdinand Denis e sua relação intelectual com o Brasil é indispensável a leitura do livro de Maria Helena Rouanet. Eternamente em berço esplêndido. A fundação de uma literatura nacional. passim.

11 AMORA, Antônio S. Apud in: Maria Helena Rouanet

12 Idem, p. 143. Flávia Florentino Varella, Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org.). Ouro Preto:

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p. 137.

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utilizado durante o século XIX, indica-se uma passagem de José Honório Rodrigues, que diz o seguinte:

Um exemplo flagrante do uso da cola e tesoura está no trecho referente à invasão da Bahia, em 1624, escrito com as mesmas palavras. Não nos parece que Abreu e Lima tenha copiado Bellegarde. No caso, ambos repetiram a mesma “autoridade” 13 .

Maria Helena Rouanet diz que essa “autoridade” da qual fala J.H. Rodrigues em sua obra não é outra pessoa senão Denis, afirmando essa hipótese através das palavras de Bellegarde, que diz ser a sua obra uma “tradução correta e aumentada” do Résumé de l’histoire du Brésil de Denis 14 . Se expuséssemos aqui toda a fortuna crítica sobre Denis, não haveria espaço suficiente dentro dos limites impostos para este texto. O que foi dito até aqui sobre a influência e contribuição do universo intelectual francês no Brasil e, principalmente sobre o papel desempenhado por Denis, demonstra o quanto esse universo contribuiu para a fundamentação de uma historiografia e uma literatura nacional no Brasil oitocentista. Apesar do ótimo desempenho dos nomes citados até aqui, um nome não foi muito bem recebido pela fortuna crítica brasileira durante o século XIX. Este nome é o de Alphonse de Beauchamp, que em 1815 publicou uma Histoire du Brésil. Ao lado da virtuose desenvolvida sobre a figura de Denis, percebemos um Beauchamp renegado pela historiografia brasileira oitocentista. Tentaremos demonstrar aqui por que Beauchamp sofreu um veto dentro da história da historiografia brasileira.

II. Alphonse de Beauchamp e a Histoire du Brésil A maioria das notas biográficas sobre Alphonse de Beauchamp encontradas em algumas enciclopédias inicia o verbete qualificando-o como historiador 15 . Algumas vezes encontramos ao lado do título de historiador o termo man of letters 16 . Mas o que todas referenciam, em nota menor ou maior, é sua participação como homem público e sua atuação, enquanto tal, no período da Revolução Francesa. Nascido em Mônaco em 1767, filho de um major local, Beauchamp ingressa no serviço militar a serviço do rei da

13 José Honório Rodrigues. Teoria da história do Brasil. Col. Brasiliana, série “Grande formato”, vol. 1. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1949, p. 129, nota 16. 14 Maria Helena Rouanet. Op. Cit. p. 145.

15 Para a escrita desse esboço biográfico foram utilizados os seguintes sites: http://www.1789- 1815.com/beauchamp.htm; http://www.1911encyclopedia.org/Alphonse_De_Beauchamp;

16 A qualificação de Beauchamp como man of letters é encontrado na edição de 1911 da ENCICLOPEDDIA BRITANICA. Flávia Florentino Varella, Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org.). Ouro Preto:

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Sardenha em 1784. A vida do autor é marcada por uma série de exílios, decorrente de sua participação em alguns eventos da Revolução de 89. Em um de seus retornos do exílio, Beauchamp instaura residência na casa de seus familiares em Paris. Privado muitas vezes de recursos financeiros, se vê forçado a entrar no bureaux do Comitê de Segurança Geral, e passa, sob o Diretório, para o bureaux de Policia, encarregado da supervisão de imprensa. Esta situação proporcionou a Beuachamp utilizar vasto material que resultou no seu primeiro e mais popular trabalho histórico – Histoire de la Guerre de la Vendée et des Chouans, publicado em três volumes no ano de 1806. Este livro teve boa recepção entre o público em geral, porém foi recebido com certo descontentamento pelas autoridades francesas. A publicação da Histoire de la Vendeé desestabiliza a posição de Beauchamp no cenário político francês, sob pretexto de ter cometido um abuso de confiança ao descrever as crueldades do regime de Fouché. A terceira edição foi confiscada e o autor detido em 1809 e exilado em Reims. Em 1811 recebe uma pensão pelos “direitos reunidos” e se ocupa de trabalhos literários, escrevendo extensivamente para jornais públicos e algumas revistas, característica de vários autores dessa época que viam na oportunidade de publicação corrente em periódicos uma forma de aumentar seus recursos financeiros. Sob a Restauração, Beauchamp colabora como principal redator para o Tables du Moniteur, para a Gazette de France, para a Biographie Universelle e para a Biographie Modern. Devido a algumas complicações decorrentes da contração da cólera, Beauchamp morre em 1832. Detendo-nos sobre a estrutura da Histoire du Brésil 17 , o período analisado na obra cobre desde o descobrimento do Brasil até a chegada da Casa de Bragança no território colonial brasileiro. O capítulo que inaugura o livro tem como assunto as origens da monarquia portuguesa e suas conquistas na África e nas Índias. Em seguida vem a descrição do Brasil com a exposição dos relacionamentos, das posições e costumes dos povoados brasilienses. As sucessivas guerras que aconteceram entre os naturais e os portugueses, ou entre estes e as nações que ameaçaram seu domínio no território brasileiro. Trata da história civil, política e comercial, das revoluções e do estado atual (à época) do vasto território brasileiro.

17 A edição original da Histoire du Brésil, de 1815, é ornada de duas gravuras que ilustram duas passagens do livro e de uma carta geográfica do Brasil. Flávia Florentino Varella, Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org.). Ouro Preto:

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As notas de roda-pé são inexistentes na Histoire du Brésil de Beauchamp. Mas essa situação ilustra uma opção. Beauchamp deixa bem claro no prefácio do seu livro o abandono da crítica e do rigor erudito em prol de uma opção mais focada na narrativa dos fatos. 18 Quando se trata de citações no corpo da narrativa histórica de Beauchamp, parte delas são longas e integram o corpo do texto, sem nenhum destaque a não ser as aspas percorrendo toda linha da citação. As fontes históricas utilizadas por Beauchamp aparecem no final do prefácio, configurando uma pequena quantidade de memórias, narrativas de viagens e documentos oficiais. Levando em consideração as características gerais da forma de exposição, percebemos que Beauchamp pretende, em última instância, narrar a história da civilização portuguesa no Brasil. Portanto, o caráter político, na maioria das vezes, assume um papel normativo dentro da narrativa histórica da Histoire. As divisões dos capítulos se dão de forma a priorizar o político, bem como o autor sempre enfatiza o caráter heróico de alguns deles, demonstrando seu valor e exemplo a ser seguido. Essa questão do herói como exemplo de virtude é confirmada na Histoire principalmente se levarmos em consideração que grande parte do trabalho literário e histórico de Beauchamp esteve voltado para as biografias, e que estes trabalhos estiveram, em grande parte, reunidos na Biographie des jeunes gens, ou vies de grands hommes, qui, par leurs vertus, leur génie et leurs actions héroïques, sont dignes d’être proposés pour modèles à la Jeunesse. E é sobre esse mesmo Portugal, cheio de exemplos de virtude que Beauchamp inicia sua narrativa histórica a partir das seguintes palavras:

As expedições marítimas e a história dos estabelecimentos dos portugueses nas Índias recordam sua antiga glória; mas este grande e belo episódio de seus anais remete também sob seus olhos o triste quadro da decadência de sua opulência e de sua monarquia. Um interesse, mais vivo, acompanha a história da origem das vicissitudes, dos progressos de seus estabelecimentos no Brasil, da fundação e do desenvolvimento prodigioso deste novo império do hemisfério austral, hoje a sede da opulência portuguesa ressuscitada e o centro de seu comércio e de suas riquezas. 19

Vislumbrando a vinda da família Real para o Brasil, Beauchamp percebe nessa situação um tipo de regeneração de Portugal, pois, após sua idade de Ouro, conhecido como um daqueles países que no limiar da Idade Moderna tiveram a feliz idéia de adentrar o mar

18 Cf. Alphonse de Beauchamp. Histoire du Brésil. Depuis sa découverte en 1500 jusq’en 1810. Paris:

Librairie d’Éducation et de Jurisprudence D’Alexis Eymery, 1815, tomo I, p. XII-XIII.

19 Idem, p. V-VI Flávia Florentino Varella, Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org.). Ouro Preto:

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na tentativa de complementar os quadros econômicos ibéricos com a ativação de um

comércio internacional, o país ibérico é visto apenas como um apêndice do cenário

comercial europeu na passagem do século XVIII para o seguinte. Reconhecido como um

novo Império, o Brasil já aparece em Beauchamp, assim como em Southey, em estado de

progressiva autonomização com relação a Portugal.

Sobre os indígenas, dentre as muitas referências citadas, podemos destacar um dos

tópicos mais recorrentes na história da historiografia brasileira com relação à falta de rei, lei

e fé entre os selvagens. A passagem que vem a seguir demonstra um Beauchamp

preocupado em descrever a falta de fé dos nativos:

Mais perto da brutalidade que do homem, os Tupis não reconhecem nenhuma divindade, ao menos seus costumes não indicam nada que anuncia o sentimento consolador que universalmente inspira a espécie humana; eles não parecem ter a menor noção de uma vida futura. Nenhuma palavra, na sua língua, exprime o nome de Deus, nem a idéia que nós ligamos ao mestre do universo. 20

Segundo Maria Helena Rouanet, um dos tópicos que mais contribuíram para fazer

da América o lugar de uma utopia setecentista de uma “sociedade feliz” seria a

inexistência, na língua dos selvagens, das letras F, L e R. Forte recorrência nos relatos de

viajantes, essa ausência justificaria a relação das três letras a uma ausência de fé, de lei e de

rei. Esta ocorrência justificaria, em grande parte, a importância da fundamentação do

pensamento do século XVIII europeu 21 .

Os recursos naturais, a exuberância da natureza, sua constituição edênica formam

um quadro dos objetos de descrição de Beauchamp, que pretende anunciá-las ao círculo de

leitores que lêem sua obra:

Clima salubre, solo rico e fecundo, rios navegáveis e numerosos, portos vastos e multiplicados, raças vigorosas de homens e animais, florestas profundas e magníficas, montanhas escondem todos os metais preciosos: tais são os raros benefícios que uma feliz situação geográfica assegura ao Brasil 22 .

Visto dessa forma, o Brasil é apresentado à Europa como um lugar cheio de

recursos naturais, lugar que a natureza privilegiou com abundância de florestas, rios, metais

preciosos, etc. Muitas vezes colocada em evidência através das descrições dos viajantes

20 Idem, p. 86.

21 Maria Helena Rouanet. Op. Cit. p. 60.

22 Alponse de Beauchamp. Op. Cit. p. 2. Flávia Florentino Varella, Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org.). Ouro Preto:

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naturalistas, esse tipo de narrativa acabou desembocando num tipo de historiografia que encontrou seu espaço de reprodução no modelo corográfico 23 .

III. Beauchamp e a historiografia brasileira do século XIX Apesar de Beauchamp ser um dos primeiros franceses no século XIX a perceber a peculiaridade histórica do Brasil, bem como sua progressiva autonomia com relação a Portugal, seu nome fora difamado durante um longo período na história da historiografia brasileira, bem como sua Histoire du Brésil sofreu um grande descrédito dentro do campo bibliográfico eleito para se escrever a história do Brasil. Podemos indicar como uma das origens desse descrédito o Juízo proferido por Varnhagen ao avaliar o Compêndio de História do Brasil, do general Abreu e Lima 24 . Nesse juízo, que data de 1844, publicado na Revista do IHGB, Varnhagen ataca indiretamente Abreu e Lima. Digo indiretamente porque o alvo principal de Varnhagen nesse juízo era Alphonse de Beauchamp. Na verdade, Varnhagen acusou Abreu e Lima de ter feito péssima e infeliz escolha ao escolher a Histoire du Brésil de Beauchamp como fonte para a escrita de seu Compêndio, tendo em vista que Beauchamp já tinha “praça assente no regime dos plagiários”, quando, nas palavras de Varnhagen, decidiu plagiar a História do Brasilde Southey 25 . Sobre o autor francês, Varnhagen macula sua imagem, dizendo que ele “[ ]

aproveita-se do trabalho alheio, procura disfarçar o plágio, dá a algumas idéias novas formas, suprime outras, sacrifica muitas vezes a verdade histórica ao estilo fascinador, e

portanto mais perigoso

justamente de duas oposições distintas: o brasileiro dá ênfase ao estabelecimento dos fatos

[ 26 A implicância de Varnhagen com Beauchamp nasce

históricos através dos documentos e miscelâneas variadas que representavam materialmente o passado colonial. Em contrapartida, Beauchamp preserva ainda um tipo de história pedagógica eloqüente como forma de exposição dos acontecimentos do passado.

23 Sobre a influência dos relatos dos viajantes na historiografia brasileira conferir Flora Süssekind. O Brasil não é longe daqui. O narrador, a viagem. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.

24 Cf. Francisco Adolfo de Varnhagen. Primeiro Juízo. Submetido ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro pelo Sócio Francisco Adolfo de Varnhagen, acerca do Compêndio da História do Brasil, pelo Sr. José Inácio de Abreu e Lima. RIHGB, 1844 (6).

25 A primeira edição da History of Brazil de Robert Southey foi publicada entre 1806 e 1819, em três volumes. Sobre Southey e sua History of Brazil vale a pena conferir o trabalho de Maria Odila da Silva Dias. O fardo do homem branco. Southey, historiador do Brasil. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1974.

, Flávia Florentino Varella, Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org.). Ouro Preto:

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Francisco Adolfo de Varnhagen. Juízo

p. 64.

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A Querela entre Antigos e Modernos coloca em cheque o topos de uma História Mestra da Vida enquanto uma concepção que ordena o tempo histórico. Principalmente entre os franceses, no fim do século XVII e início do século XVIII começou-se a pensar na superioridade do presente sobre o passado, rompendo com o modelo cíclico do Renascimento. O presente começa a ser percebido com um momento em contínua transição 27 . Ao mesmo tempo, a pesquisa antiquária ganhava um grande vigor com a descoberta de moedas, estátuas, medalhas, construções e etc, que parecia representar um tipo de documentação muito mais sólido, mais digno de verdade do que as narrativas antigas eivadas de erros e falsidades. A autoridade dos historiadores antigos começava a ser rebatida pelo crescente empirismo fundado no trabalho dos eruditos e antiquários. Varnhagen e Beauchamp representam, em certa medida, a convergência entre eruditos e historiadores clássicos, da qual surgiu a historiografia moderna. De um lado vemos o testemunho de Varnhagen:

Pois, que melhores e mais seguros guias quer para a História, do que os próprios documentos originais e autógrafos, guardados nos arquivos de um país, que os conservou sempre no maior recato, e que são submetidos a exames paleografos [sic], quando há neles a mínima suspeita? 28

Do outro lado, a opção de Beauchamp:

Os eruditos me reprovarão sem dúvida por não ter enchido as páginas desta história

infelizmente não sou um

erudito. [

[Histoire du Brésil] de notas, de citações e comentários. [

]

]

Poderíamos alhures opor ao sistema de citações minuciosas a autoridade

dos historiadores da antiguidade, únicos modelos que possuem uma crítica saudável,

e ao exemplo de muitos historiadores modernos que marcham sobre suas pegadas.

[

]

As memórias são para a história o que as cores são ao pintor [

].

29

Entre eloqüência e erudição, a historiografia sobre o Brasil se delineava desde o início do século XIX sob vários prismas, apesar do crivo da historiografia oficial do Império se basear num tipo de escrita da história decorosa e no veto ao estilo verboso. Ao analisar a existência de duas culturas no Ocidente – uma de sentido e outra de presença – Hans Ulrich Gumbrecht diz que a Modernidade se fundamentou em cima de uma cultura de sentido, e que a cultura de presença fora minada pela invenção da mente

27 Sobre este assunto conferir o artigo de Valdei Lopes de Araújo. “Para além da autoconsciência moderna. A historiografia de Hans Ulrich Gumbrecht”. Varia História. Belo Horizonte, vol. 22, nº36: p. 314-328, Jul/Dez 2006. Principalmente página 316.

28 Francisco Adolfo de Varnhagen, p. 74.

29 Alphonse de Beauchamp. Op. Cit. p. XII-XIII. Flávia Florentino Varella, Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org.). Ouro Preto:

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humana em Descartes, que postulava que “nenhum conhecimento verdadeiro poderia ser

produzido com as mãos sujas”, conhecimento este representado pelo trabalho erudito 30 .

O trabalho erudito procurava, de certa forma, tocar um passado perdido, ou seja:

procurava transcender o presente em direção ao passado através de uma materialidade que restou deste, característica de uma cultura de presença em contraponto a uma cultura de

sentido. Não devemos nos esquecer que o uso sistemático da documentação no século XIX é uma característica que a historiografia moderna toma para si através de uma herança da tradição antiquária 31 , situação que a historiografia clássica considerava desprestigiada. Observando as palavras ditas acima por Varnhagen e por Beauchamp, percebemos que enquanto um apóia a autoridade de seu discurso na documentação (Varnhagen), o outro (Beauchamp) acredita que essa autoridade reside exatamente nos historiadores da Antigüidade e nos historiadores modernos que seguem seus passos. A publicação da História Geral do Brasil de Varnhagen veio confirmar a superioridade de um modelo historiográfico que, diferente do modelo proposto por Beauchamp, excitava a força máxima dos documentos na escrita da história, enquanto um estilo mais verboso e eloqüente,que fazia parte da escrita da história de Beauchamp, era renegado como exemplo a ser seguido.

A preeminência de uma herança da tradição erudita na historiografia moderna 32 ,

levou esta a projetar nos documentos um tipo de materialidade que permitiu de certa forma tocar o passado através de uma transcendência do presente em direção a este passado, pois, a sensação de que o passado se tornava cada vez mais distante e diferente do presente 33 , a aceleração do tempo no contexto brasileiro gerava uma nova orientação com relação ao espaço de experiência e o horizonte de expectativa, conduzindo a historiografia brasileira ao elementar interesse pelo estabelecimento dos fatos a partir de uma rigorosa crítica documental, que ao mesmo tempo, forjava um futuro e uma tentativa de imortalidade do

passado brasileiro para a nação que se tentava construir no século XIX.

30 Sobre a obra de Gumbrecht vale a pena conferir o artigo de Valdei Lopes de Araujo. Op. Cit. p. 324.

31 Idem, p. 325.

32 Apesar da historiografia moderna ser motivada por uma cultura de sentido, nada impediu que elementos de uma cultura de presença fizessem parte dessa produção historiográfica. Cf. Valdei Lopes de Araujo. Op. Cit.

33 Sobre isto, ver o texto de Reinhart Koseleck. “Espaço de Experiência e Horizonte de Expectativa”. In

Futuro Passado. Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: EdPuc-Rio; Contraponto,

2006.

Flávia Florentino Varella, Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org.). Ouro Preto:

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