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Em 1.ª votação, Câmara aprova Lei do Patrimônio Cultural de Curitiba |

Câmara aprova Lei do Patrimônio Cultural de Curitiba |

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Vida e Cidadania

Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Vida e Cidadania Jonathan Campos/Gazeta do Povo Com a nova lei, a Executivo municipal poderá atuar

Com a nova lei, a Executivo municipal poderá atuar de maneira mais ativa na preservação dos bens históricos e culturais de Curitiba.

HISTÓRIA

Em 1.ª votação, Câmara aprova Lei do Patrimônio Cultural de Curitiba

Na prática, as cerca de 600 unidades de interesse de preservação listadas na capital deverão ser tombadas. Como vantagem, os proprietários terão uma redução no valor do IPTU e o potencial construtivo do imóvel renovado a cada 15 anos

17/02/2016

14h29

Diego Antonelli

Com pelo menos três décadas de atraso, o município de Curitiba deve ganhar uma lei própria para o tombamento e preservação de bens culturais, além de um fundo de recursos para essa tarefa e um conselho municipal para ajudar a fazer a gestão desses bens. O substitutivo geral do projeto enviado pelo Executivo municipal ainda no ano passado foi aprovado nesta quarta-feira (17), em primeira votação.

A expectativa pela lei é grande. Hoje, o tombamento legal de bens culturais só é possível através do governo do estado ou da União. O que existe efetivamente na capital são decretos que transformaram cerca de 600 bens materiais em Unidades de Interesse de Preservação (UIPs) – título que representa uma ferramenta frágil e pouco eficiente na preservação dos bens. “O

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tombamento é um mecanismo mais forte e eficiente. O que se espera é que com uma legislação própria a preservação se dê de maneira mais efetiva”, afirma o arquiteto Key Imaguire Junior. A segunda votação do texto deve ocorrer na semana que vem.

O artigo 23 da Constituição de 1988 aponta que é competência comum da União, dos estados, do

Distrito Federal e dos municípios proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais notáveis e os sítios arqueológicos.

“Tem bens que são do interesse do estado ou da União proteger, e outros do município. Por isso é necessário uma lei. Mas mais que uma lei própria, são necessárias ações de conscientização e valorização da importância de se preservar a história”, ressalta Imaguire, que é membro do Conselho Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico.

Para o diretor de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da Fundação Cultural de Curitiba (FCC), Hugo Tavares, a lei é um avanço, mas que vem tarde. “Já deveria ter antes uma legislação deste porte. Ainda mais que Curitiba sempre tentou preservar sua história”, afirma.

Na prática, com a nova lei, as UIPs listadas (veja os 647 imóveis listados para a Câmara Municipal

pela prefeitura) devem ser tombadas. Esse papel caberá ao Instituto de Pesquisa e Planejamento de

Curitiba, o Ippuc. A conservação do cadastro desses bens tomados e mesmo a transformação disso em um bando de dados eletrônico, aberto ao público, será tarefa da FCC.

A maior parte das UIPs está na Regional Matriz, como o Reservatório do Alto São Francisco, o

Museu Alfredo Andersen, o Teatro Novelas Curitibanas, a Cinemateca, a União Paranaense de Estudantes, o Colégio Martinus, o Bar Saccy, a Sociedade Garibaldi, a Catedral, as igrejas da

Ordem, do Rosário, de Santo Estanislau e a Presbiteriana Independente, a Confeitaria das Famílias,

o Parque Barigui e o Palácio Avenida.

A partir do tombamento dos bens já listados, segundo Tavares, o município pretende mapear outros

locais e também bens imateriais. “A lei permite que bens que não são imóveis, como manifestações culturais e acervos sejam alvo de preservação”, ressalta. Ele não acredita que existirá resistência das pessoas que terão os imóveis tombados. “Muitos já estão acostumados com isso. Nas UIPs qualquer alteração poderia ser alvo de alguma penalização. Só será contra, quem não é a favor da preservação”, afirma o diretor da FCC.

Medidas

Como medidas de incentivo à preservação de imóveis, a lei prevê a redução do valor do IPTU, o enquadramento em leis de incentivo à cultura, e a renovação do potencial construtivo a cada 15 anos mediante a boa conservação ou restauro do imóvel – na prática, isso significa que o potencial poderá ser vendido mais de uma vez, incentivando o proprietário do bem a mantê-lo intacto.

Quanto às infrações, são previstas penalidades por destruir, demolir, deteriorar e mutilar bens protegidos; repará-los, reformá-los, pintá-los, restaurá-los e alterá-los sem autorização da administração municipal ou em desacordo com a autorização concedida; e deixar de realizar as obras de conservação e reparação.

Orçamento

O texto da legislação cria o Fundo de Proteção ao Patrimônio Cultural (Funpac), subordinado à

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Fundação Cultural de Curitiba (FCC). O fundo será uma espécie de orçamento para ser utilizado em custear projetos destinados à conservação do patrimônio protegido, tendo como fontes de recursos dotações orçamentárias e créditos destinados pela prefeitura, contribuições de pessoas físicas e jurídicas, e multas aplicadas por infrações contra o patrimônio cultural.

Conselho

De acordo com o projeto, os procedimentos de registro ou tombamento podem ser solicitados pelos proprietários, pela administração pública ou qualquer pessoa interessada em sua preservação. O requerimento caberá ao Conselho Municipal de Patrimônio Cultural, formado por cinco representantes do Executivo, um da Câmara Municipal, um do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, um do Conselho Municipal de Políticas Culturais, um professor de instituição de ensino superior, e um do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Paraná (CAU/PR), com seus respectivos suplentes.

Colaborou Fabiane Ziolla Menezes

Conheça um pouco dos desafios de preservação do patrimônio histórico de Curitiba:

José Carlos Fernandes

1964: Prefeitura de Curitiba engatinha no que seria sua política de patrimônio, prevendo pela primeira vez recursos para o setor. Patrimônio, contudo, é pensado como arquitetura – a preservação é de prédios – e não como nichos históricos.

1979 - 1983: O decreto municipal 1547/1979 propõe tombamento de 586 imóveis. À lista se somaram outros 200 imóveis. Trabalho é encabeçado por Rafael Greca de Macedo, então do corpo técnico da prefeitura. Levantamento é considerado irregular, sendo revogado por escritório do advogado René Dotti, depois de campanha movida pelo empresário Cândido Gomes Chagas, o Candinho, dono da revista Paraná em Páginas. Do imbróglio resulta início da política de potencial construtivo e maior vigilância do Ippuc na preservação de casario. É feita a demarcação do Centro Histórico.

1991: Prefeitura retoma projeto de preservação e formata programa das unidades de interesse de preservação, as Uips, gerida por equipe própria no Ippuc. Técnicos da casa fazem corpo a corpo com proprietários, orientando restauros e desenvolvendo projetos, como os que articularam parte dos imóveis antigos com novas construções no mesmo terreno.

1993: Criação das Unidades Especiais de Interesse de Preservação, as Uieps, com a intenção de concentrar transferência de dinheiro para imóveis de grande porte, necessitados de restauro, a exemplo da Catedral Metropolitana e Sociedade Garibaldi.

A partir de 2000: Cresce movimento para inclusão de casas modernistas na lista das Uips. Mas tendência da prefeitura passa a ser não incluir mais nomes, fazendo recomendações aos proprietários. Temor leva à perda de vários imóveis, como uma casa assinada por Brakte, no Alto da XV, e outra de Elgson Ribeiro, no São Francisco.

2006: Processo presidido pelo desembargador José Antônio Vidal Coelho, do Tribunal de Justiça, dá à Construtora Sion o direito de demolir casa modernista na Rua Gutemberg, 477.

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Casa era unidade de interesse de preservação (Uip).

2010: Processo presidido pelo juiz Abraham Lincoln Calixto, da Quarta Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Paraná, autoriza a demolição de casa modernista do engenheiro Mário de Mari, a pedido do próprio De Mari, na Avenida Nossa Senhora da Luz, 9.170. Casa era unidade de interesse de preservação (Uip).

*** Decreto 689, da prefeitura, vulgariza uso do recurso de potencial construtivo, criado nos anos 1990 para beneficiar proprietários de imóveis cadastrados.

2012: Processo presidido pelo desembargador Luiz Mateus de Lima dá ganho de causa ao Hospital Santa Cruz, liberando alvará de demolição às casas de número 1859 e 1869 na Avenida do Batel. Ambas eram unidades de interesse de preservação (Uips).

2014: o processo de Revisão do Plano Diretor de Curitiba começa, incluindo uma parte sobre o cuidado com os bens culturais.

2015: em janeiro, o Executivo municipal, via Ippuc e FCC, envia à Câmara um projeto para a

criação da Lei do Patrimônio Cultural, que prevê o tombamento de bens pelo município, a criação de um fundo de recursos para isso e também de um conselho municipal da área. O texto passa por três comissões ao longo do ano e por uma audiência pública, em outubro, ficando liberado para votação em plenário.

2016: a Câmara Municipal aprova em primeira votação o substitutivo geral do texto enviado pelo Executivo.

Fonte: Redação com informações do arquiteto Jeferson Navolar e da prefeitura de Curitiba.