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Melhoria da gestão pública: o caso da câmara de conciliação e arbitragem da administração federal (CCAF) – as relações Estado - Estado sob perspectiva

Resumo A conjuntura socioeconômica atual, influenciada pelos processos de reforma administrativa e globalização, impõe o desafio ao Estado de estabelecer e criar mecanismos alternativos para a solução de conflitos e controvérsias intraestatal e entre esse e a sociedade que o cerca. Para abordar a questão tomamos como recorte empírico a experiência da Câmara de Conciliação e Arbitragem da Administração Federal, CCAF. Para aprofundarmos a análise dessa experiência elegemos três objetivos estruturantes, quais sejam: identificar em que aspectos a CCAF pode contribuir para a melhoria da gestão pública; analisar o alcance das relações interpessoais na constituição de arenas de conflitos intraestatal; e por fim, identificar os obstáculos e ameaças que podem impedir a CCAF de se consolidar como espaço de conciliação e pacificação entre os órgãos governamentais. Para iluminar o percurso teórico-metodológico lançamos a seguinte hipótese de trabalho - a mediação tem se demonstrado um instrumento de melhoria da gestão pública na medida em que possibilita o deslocamento de conflitos intraestatal do âmbito do judiciário para a arena administrativa em busca de celeridade na solução de processos e finalização de contendas com elevação do nível de satisfação para as partes envolvidas. O nosso estudo é de natureza qualitativa por entender que essa metodologia adquire relevância na medida em que compreende os estudos das relações sociais fundamentados na pluralização das esferas da vida, e propõe a reflexividade como uma modalidade de apreensão do sentido da ação proposto pelos sujeitos envolvidos no processo de solução de conflitos e controvérsias no quadro de procedimentos instaurados pela CCAF. O nosso quadro de referência teórico está sustentado na premissa de que a melhoria da gestão pode ser realizada com a implantação de um novo paradigma, visualizado a partir de uma nova cultura entre os órgãos e no interior desses na relação entre seus funcionários, qual seja o paradigma da pacificação entre os órgãos públicos. Nesse percurso a pacificação se torna também um elemento de promoção da celeridade e da satisfação dos usuários da administração pública. A implementação de ações voltadas para a cultura de pacificação gera ampliação da governança por meio da emersão de espaços públicos. O conceito de responsabilidade coletiva concebido por Hannah Arendt (2004) foi o esteio utilizado para estruturar nossa análise da atuação dos funcionários públicos envolvidos na solução dos conflitos e controvérsias. Para a análise intraestatal utilizamos o conceito de governança de Eli Diniz (1995) como ação gestora voltada para os interesses da sociedade.

Introdução

A conjuntura socioeconômica atual, influenciada pelos processos de reforma administrativa e globalização, impõe o desafio ao Estado de estabelecer e criar mecanismos alternativos para a solução de conflitos e controvérsias intraestatal e entre esse e a sociedade que o cerca. Nesse artigo trataremos somente da primeira questão, sem, contudo, deixar de perceber que ambas as questões são interdependentes e podem exercer influência recíproca no processo de criação de opinião pública favorável à inovação no que tange à solução de conflitos e controvérsias fora da esfera do judiciário. A solução de controvérsias e conflitos por intermédio de câmaras de conciliação já é uma experiência validada em vários países e no Brasil temos, dentre outras, a experiência da Câmara de Conciliação e Arbitragem da Administração Federal, CCAF, órgão da Consultoria- Geral da União, criada pelo Ato Regimental nº. 05, de 27 de setembro de 2007, e tem sua forma de atuação regulamentada pela Portaria AGU nº. 1.281, de 27 de setembro de 2007, cujo objetivo principal é evitar litígios entre órgãos e entidades da Administração Federal. Com a edição da Portaria AGU nº. 1.099, de 28 de julho de 2008, as controvérsias de natureza jurídica entre a Administração Pública Federal e a Administração Pública dos Estados ou do Distrito Federal também são matérias de competência da CCAF (AGU, 2008). De acordo com o “Inventário das Principais Medidas para Melhoria da Gestão Pública no Governo Federal Brasileiro” (Secretaria de Gestão, 2009), produzido pela equipe do Programa Nacional de Gestão Pública e Desburocratização, GesPUBLICA, as atividades desenvolvidas estão baseadas na identificação de pontos conflituosos e na conciliação dos interesses divergentes entre os diversos órgãos e entidades da administração federal, a fim de evitar a judicialização das demandas e de contribuir para o encerramento de processos já existentes no judiciário. Seus esforços estão direcionados para o índice de conciliação, além da disseminação da cultura de pacificação dentro da administração pública, promovendo a celeridade e a satisfação dos interessados envolvidos nessas controvérsias. Esse artigo objetiva:

Identificar em que aspectos a pode CCAF contribuir para a melhoria da gestão pública;

Analisar o alcance das relações interpessoais na constituição de arenas de conflitos intraestatal;

Identificar os obstáculos e ameaças que podem impedir a CCAF de se consolidar como espaço de conciliação e pacificação entre os órgãos intraestatal. Para alcançar esses objetivos lançamos a seguinte hipótese de trabalho - a mediação tem se demonstrado um instrumento de melhoria da gestão pública federal na medida em que possibilita o deslocamento de conflitos intraestatal do âmbito do judiciário para a arena administrativa em busca de celeridade na solução de processos e finalização de contendas com elevação do nível de satisfação para as partes envolvidas. Além dessa ação direta a transferência de contendas e controvérsias do âmbito judicial para a esfera administrativa propõe um novo paradigma na solução de conflitos intraestatal, a cultura da pacificação. O nosso estudo é de natureza qualitativa, por entender que essa metodologia adquire relevância na medida em que compreende os estudos das relações sociais fundamentados na pluralização das esferas da vida (Flick, 2002). Outro ponto fundamental nos estudos de natureza qualitativa é o aspecto da reflexividade, para diversos autores, dentre eles Melucci (2005), essa abordagem implica uma crítica às pretensões de objetividade e neutralidade do saber e da intervenção do pesquisador. Portanto, essa perspectiva se constitui como um campo teórico em que considera a ação do pesquisador e sua intervenção no mundo como elementos prioritários na constituição dos objetos de pesquisa e sua intervenção no campo como algo

indissociável e positivo. Isso não quer dizer que essa metodologia careça de rigor e objetividade, e aqui temos uma freqüente crítica aos estudos qualitativos, mas que essa abordagem realça aspectos diferenciados em relação aos estudos quantitativos, como por exemplo, a “consciência do observador de que ele nunca será completamente outro em relação àquele que observa, que ele próprio, é parte do processo de observação” (Dayrell, 2005, p. 11). A reflexividade, nesse sentido, transforma o “eu” num projeto (Giddens, 1990), sendo que o passado, o presente e o futuro se comportam como uma interrogação constante e incisiva no processo de pesquisa, em outras palavras, a ação e a reflexão se tornam inseparáveis e constituem campo efetivo para a democratização da vida pública e privada. A escolha metodológica fortalece o vínculo entre as dimensões pública e privada na medida em que o observador não se separa do objeto em análise, favorecendo a experiência de pesquisa enquanto experiência propiciadora de uma vivência fértil no que concerne ao exercício da reflexão e do juízo no sentido proposto por Hannah Arendt (2002).

Volume de processos no judiciário e a melhoria da gestão pública – algumas considerações de ordem teórico-empírica

De acordo com o levantamento feito pelo Conselho Nacional de Justiça, a despesa da Justiça Federal durante o ano de 2008 foi de R$ 5,2 bilhões, o que representa um gasto de 0,18% com relação ao PIB Nacional ou um custo anual de R$ 27,68 por habitante (CNJ,

2008, p. 1). Ainda segundo o estudo, a Justiça Federal possui uma característica peculiar no que diz respeito às receitas arrecadadas. A soma delas ultrapassa suas despesas, fazendo com que a Justiça seja superavitária. Somente durante o ano de 2008 foram arrecadados aproximadamente R$ 9 bilhões em execuções fiscais, ou seja, mais que o dobro do total gasto. Além desse montante, somam-se R$ 56 milhões arrecadados com custas e recolhimentos diversos (ibid., p. 3). Desse modo, não poderíamos encerrar o debate acerca do desempenho do judiciário numa questão de desempenho financeiro, pois, como se vê, esse não seria o ponto. Há que se perceber que o judiciário brasileiro, após a CF/1988, adquiriu novos contornos, de acordo com Teresa Sadek:

todos os princípios democráticos básicos que sustentam a fundação de um Estado governado pela Lei foram garantidos;

direitos e garantias fundamentais foram ampliados de modo a incluir um amplo espectro de direitos supra-individuais, tais como direitos difusos e coletivos, e foram criados instrumentos necessários para a defesa desses direitos;

a preocupação com a desigualdade social e econômica provocou a inclusão não só de preceitos de igualdade jurídica, mas de medidas afirmativas para diminuir ou solucionar esses problemas;

foi ampliada a lista de artigos que não podem ser modificados, nem mesmo por emenda constitucional (cláusulas pétreas);

houve ambigüidade em relação ao tipo de governo: por um lado, afirmação do sistema presidencialista e, por outro, criação de instrumentos típicos do sistema parlamentarista, como as medidas provisórias (Sadek, 2004, p. 2). O judiciário brasileiro, de acordo com o delineamento adquirido em 1988, age sob duas facetas distintas, uma que representa o poder de Estado e outra que seria a de prestação de serviços. Nesse artigo nos ateremos a sua segunda faceta, sem desconsiderar a interrelação entre as duas. Mas é na segunda que entendemos se alojar aspectos específicos que merecem a ação de gestores públicos no que concerne às medidas de celeridade e solução de conflitos e controvérsias, princípios importantes no processo de modernização do Estado brasileiro em

direção à plena satisfação dos usuários (Barzelay, 2000; Diniz, 1997). Entende-se aqui que os conflitos intraestatal atingem a população no seu conjunto, pois se enfatiza que as ações judiciais envolvendo órgãos públicos dificultam o pleno desempenho da máquina pública no que se tange à prestação de serviços demandados pela população no seu conjunto, na medida em que a estrutura administrativa se mobiliza para atender às demandas oriundas de conflitos e controvérsias entre entes estatais. Os novos contornos além de ampliar o escopo de ação do Poder Judiciário criaram um espaço concreto de busca por direitos e justiça sem mediações, outros procedimentos que, eventualmente, poderiam ser utilizados anteriores à formalização de uma demanda judicial são de antemão descartados e paulatinamente se instaura a confiança indelével nas instâncias do judiciário. Como um espaço de mediação a CCAF se constitui como uma instância estatal com características que podem favorecer a ampliação da governança no setor público. Nesse artigo, tomamos o termo governança em virtude de sua capacidade explicativa quando pensamos em alcance de metas coletivas, implementação de políticas públicas e também por abarcar o aumento da participação em virtude das décadas pós-ditadura. Para Diniz a governança também supõe uma capacidade de coordenação do Estado que integre “as diferentes áreas de governo, de forma a garantir a coerência e consistência das políticas governamentais” e acrescenta que “coordenação significa submeter a lógica dos interesses em jogo a um sistema integrado capaz de compatibilizar as diferentes visões” (Diniz, 1995, p. 402). Essa percepção nos leva a propor o acréscimo da preposição “do” entre os termos serviço e servidor público, propomos serviço do público e servidor do público. Percebemos que essa inclusão não se atém a uma mera formalidade, mas estabelece uma ponte entre a ação do funcionário público enquanto servidor público investido de poder para encaminhar os negócios públicos, mas mantém a responsabilidade com os interesses coletivos. O estabelecimento desse vínculo interno traz uma percepção já apontada por Hannah Arendt, em que duas condições devem estar presentes para que haja responsabilidade coletiva:

devo ser considerado responsável por algo que não fiz, e a razão para minha responsabilidade deve ser o fato de eu pertencer a um grupo (a um coletivo), o que nenhum ato voluntário meu pode dissolver, isto é, o meu pertencer ao grupo é completamente diferente de uma parceria de negócios que posso dissolver quando quiser (Arendt, 2004, p. 216). Essa linha de análise estabelece possibilidades de emersão da cultura de pacificação preconizada pela CCAF, pois ao mesmo tempo em que amplia a governança, ou seja, age em nível estatal, age também diretamente no estabelecimento de uma nova postura entre os funcionários públicos envolvidos na solução de controvérsias e conflitos, esses passam a agir norteados por uma responsabilidade coletiva, da qual não podem se desfazer. Assim, pode-se dizer que o funcionalismo público utilizaria a sua estabilidade não como forma de segurança privada, de que não seria demitido quando da troca de governos, mas que essa se torna um laço indissolúvel de seu pertencimento a uma comunidade, a comunidade de funcionários públicos, que por sua vez se liga ética e moralmente a um comportamento de cidadania ativa. H. Arendt (2004) ressalta que perceber a responsabilidade coletiva como um fardo, carga ou até mesmo punição é um equívoco, pois o preço pago pela não-responsabilização é extremamente mais elevado. Esse raciocínio a leva a dois pontos distintos, a responsabilidade coletiva é um tipo de responsabilidade política; a culpa moral ou legal é uma ação individual. Para ela as considerações morais e políticas muitas vezes entram em conflito e no caso de se traçar uma linha divisória entre as duas a ação do indivíduo estaria delimitada nos níveis individual e coletivo. Deslocando essa análise para ações de melhoria da gestão pública poderíamos considerar a protelação de decisões ou de acordos como uma das medidas em que

a responsabilidade coletiva poderia ser acionada para determinar mecanismos em que a celeridade e a satisfação orientariam a ação dos servidores do público. Por oportuno, faz-se importante frisar que a CCAF mesmo não atendendo diretamente a população, pois tem seu espaço privilegiado de ação entre órgãos estatais, entendemos que a análise dessa Comissão é de fundamental importância para visualizarmos a gestão pública no que concerne a solução de conflitos e controvérsias. Importante frisar que na década de 1990, havia um consistente debate enfatizando a ingovernabilidade como um “símbolo da falta de competência do País para lidar com seus problemas, emitindo sinais de que nossos líderes e nossas instituições estariam aquém de nossas presentes necessidades” (Diniz, 1995, p. 388). Hoje a olhar pelo desempenho nacional tanto interna como externamente, percebe-se que esse debate não foi de todo superado, mas que atualmente se reveste de nova roupagem. Nesse sentido, esse artigo lança luzes sobre a atuação da CCAF para compreender como medidas alternativas podem aumentar a eficácia do governo na condução dos negócios públicos e contribuir para a melhoria da gestão e ampliar a governança. Para fins de estudo de caso foi selecionada uma controvérsia gerada entre o Instituto do Seguro Social - INSS e a Empresa de Correios e Telégrafos - EBCT relativamente à locação, pelo primeiro, de um imóvel de propriedade da segunda, em Minas Gerais.

O caso do Instituto Nacional de Seguridade Social contra a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos

Em 2001, a Empresa de Correios e Telégrafos – EBCT alugou um imóvel de sua propriedade em Diamantina/MG, para o Instituto do Seguro Social - INSS, firmando um contrato cujo valor mensal do aluguel era de R$ 3.400,00. Em 31/05/2006, quando da finalização do contrato e o eventual estabelecimento de um novo, houve discordância do valor do reajuste e o INSS permaneceu no imóvel e passou a depositar em juízo a quantia de R$ 5.500,00, com base, segundo o próprio INSS, no laudo de avaliação elaborado pela Caixa Econômica Federal, por ele solicitado. Em 26/05/2008, a EBCT ajuizou ação de despejo com indenização por perdas e danos e pedido de tutela antecipada por entender que o INSS não efetuou o pagamento integral do aluguel que entendia devido, o qual compreendia, à época, o total de R$ 10.304,40 mensais, de acordo com laudo da Caixa Econômica Federal, por essa solicitado. Do dia 21/02/2006 ao dia 06/08/2009, 28 correspondências oficiais foram trocadas entre a EBCT e o INSS, quatro pareceres técnicos expedidos por técnicos da EBCT, um parecer técnico do INSS, dois laudos completos de avaliação da Caixa Econômica Federal, CEF, um laudo completo de avaliação da Construções e Montagens Montes Claros – Ltda. - CMMC. Esse último laudo foi encomendado pela EBCT com o fito de compará-lo com o laudo emitido pela CEF, por considerar que esse apresentava incoerências técnicas. Verifica-se que, além dos dois órgãos envolvidos na contenda, outros órgãos públicos foram envolvidos no processo e por fim, em 2008 a ação judicial foi impetrada pela querelante proprietária do imóvel, EBCT. O processo encontrava-se sob a tutela do Poder Judiciário há mais de três anos, quando, na busca por uma solução alternativa para o conflito, no caso a busca de uma solução administrativa, o processo foi levado ao conhecimento da Câmara de Conciliação e Arbitragem Federal - CCAF, para uma tentativa de conciliação. A análise documental constatou que a notícia da instauração de Comissão de Conciliação resultou imediatamente na suspensão da ordem de despejo ajuizada contra o INSS, já em segunda instância. De imediato, pode-se sublinhar dois efeitos da introdução da CCAF no processo:

representou uma possibilidade rápida de solução do conflito, tanto que imbuídos dessa

perspectiva a ordem de despejo foi suspensa; e o segundo efeito, que interessa sobremaneira aos gestores públicos, foi a garantia de continuidade da prestação dos serviços do INSS à comunidade local. Os representantes legais de cada parte foram, então, convidados, pela Conciliadora do caso, uma advogada pública designada, para participar de uma primeira reunião conciliatória. No período de duas únicas reuniões, foi promovida a conciliação entre o INSS e a EBCT, tendo a CCAF buscado a realização de concessões entre as partes, no intuito de satisfazer as suas pretensões, sem a necessidade de recorrerem novamente ao Judiciário. De um lado, o representante da EBCT fez suas considerações justificando a proposta que havia sido inicialmente apresentada ao INSS. Aceitou, porém, reconsiderar os cálculos constantes da primeira planilha, acatando uma redução dos valores nos moldes de um laudo apresentado pela Caixa Econômica Federal. O INSS, por sua vez, considerando a concessão feita pela EBCT, acatou a proposta final, no valor de R$359.578,76, referente à atualização dos aluguéis até novembro de 2009. Da análise do Termo de Acordo, destacamos que as partes fizeram constar em ata a finalização do surpreendente processo de aquisição do imóvel pelo INSS, registrando-se, assim, mais um resultado positivo do processo conciliatório. Acordou-se, ainda, que a Diretoria Regional da EBCT, em Minas Gerais, e a Superintendência Regional do INSS Sudeste II, unidades descentralizadas das partes envolvidas, seriam responsáveis pelo acompanhamento e concretização da execução do acordo.

Uma vez lavrado o Termo de Acordo, as duas entidades solicitaram, em conjunto, a extinção do processo judicial. É possível depreender dos documentos emitidos pelos vários órgãos envolvidos, que a atuação da CCAF tem gerado uma cultura de pacificação, conforme se propõe, levando-os a agir de maneira claramente colaborativa. As partes depositaram confiança na Câmara como uma instância imbuída da competência técnica capaz de promover uma solução alternativa, perfeitamente viável, para aqueles conflitos ocorridos entre os entes da Administração Pública. Os documentos analisados que se referem especificamente à atuação da Câmara de Conciliação e Arbitragem Federal - CCAF demonstram a identificação preliminar dos pontos controversos das demandas, para que essa, ao longo das audiências de conciliação, possa promover uma nivelação dos interesses em busca de um acordo satisfatório para todos os envolvidos. Também se constatou como sendo inerente às atividades da CCAF a busca pelo encerramento do processo judicial. Este objetivo termina por impactar positivamente no assoberbamento do Poder Judiciário, às voltas com infindáveis ações. A atuação da CCAF neste caso, de modo sintético, pode ser apresentada através da Figura 1:

Pontos Divergentes entre o INSS e a EBCT

Conciliação dos interesses

Reajuste do aluguel pela EBCT.

Redução dos valores propostos inicialmente.

Rejeição do reajuste pelo INSS.

Realização de nova proposta de pagamento.

Ordem de Despejo contra o INSS.

Suspensão da Ordem judicial após instauração de Comissão Conciliatória

Ausência de consenso referente às cláusulas contratuais de aluguel

Aquisição do imóvel pelo INSS.

Ajuizamento de Ação de Despejo c/c Indenização por Perdas e Danos e pedido por Antecipação de Tutela

Solicitação em conjunto pela extinção processual

Figura 1 – pontos divergentes entre o INSS e a EBCT em comparação à conciliação de interesses

Vantagens da solução conciliatória na promoção da melhoria da gestão pública

propomos

dificuldades de solução de conflitos e controvérsias, tomando como fonte a vida judicial:

Diante

do

caso

apresentado

a

análise

das

vantagens

em

relação

às

Dificuldades inerentes à solução pela via Judicial

Vantagens inerentes ao Procedimento de Conciliação e Arbitragem

Especificidades dos ritos processuais resultando em morosidade burocrática Encerramento imediato do debate no momento da conclusão processual

Desburocratização dos ritos, haja vista a facilidade de comunicação entre os órgãos envolvidos Disseminação de cultura de pacificação a cada caso exitoso

Notória morosidade

Celeridade inerente aos ritos especiais

Cada ação contribui ao “afogamento” do Poder Judiciário

Cada conciliação contribui para a mudança do paradigma da judicialização das demandas internas da Administração Pública Federal

Ajuizamento de Ação de Despejo c/c Indenização por Perdas e Danos e pedido por Antecipação de Tutela

Solicitação em conjunto pela extinção processual

Figura 2: Dificuldades inerentes à solução pela via judicial em comparação com as vantagens inerentes ao procedimento de conciliação e arbitragem.

É importante frisar que a possibilidade de instauração de procedimento conciliatório desencoraja a judicialização excessiva das disputas entre entidades da Administração Pública. Outro ponto relevante que merece destaque é a celeridade na solução dos conflitos em virtude dos ritos especiais que a CCAF detém. E mais importante, cada conciliação de sucesso contribui e fortalece um novo paradigma, qual seja o da cultura de pacificação entre os entes estatais e a possibilidade de construção de uma percepção compartilhada em relação à finalidade do serviço público e da gestão pública – a promoção dos interesses coletivos, a satisfação dos cidadãos e a oferta de serviços com maior qualidade e menor custo para a população. Nesse sentido, o ato de mediação é um ato constitutivo de uma esfera pública pelo exercício da razão no diálogo público. As partes atuam de acordo com a legislação do serviço público, sem, no entanto, se privar da faculdade do juízo, segundo H. Arendt (2002), interrelacionada com a faculdade de pensar, forma apropriada de se apresentar no mundo. Dessa maneira, a ética do servidor público se aproxima da ética do servidor do público em que a função desse sujeito não se resume à preservação dos interesses da esfera governamental, mas se atém também à esfera do interesse do público, qual seja o aumento da eficiência da máquina estatal, a celeridade na solução de controvérsias e conflitos e a liberação da estrutura governamental para agir em direção aos interesses coletivos, compartilhamento de responsabilidades e funções dos funcionários públicos. Em relação à controvérsia especificamente podemos apontar que a solução interfere diretamente em outros órgãos públicos, como descrito na troca de correspondências entre os órgãos. O próprio órgão deixa de ser acionado no que tange à emissão de laudos e pareceres técnicos, bem como outros órgãos deixam de ser acionados, como a CEF, no exemplo em tela.

Um outro ponto que não foi levado em consideração quando da instauração do inquérito ou mesmo na troca de correspondências e reuniões entre o INSS e a EBCT foi o tipo de serviço que as instituições prestam à população, ambas têm milhões de clientes e o INSS se serve dos serviços ofertados pela EBCT e em nenhum momento esse elemento foi levantado pelas partes. Caso fosse uma controvérsia estabelecida entre entes privados, talvez, essa fosse a primeira via escolhida para se entabular o diálogo e a eventual análise da situação. As instituições poderiam trabalhar no sentido de trocar serviços ou criar novos serviços e embutir os valores em questão como aditivos contratuais ou parcerias. O consenso era plausível desde o início tanto que a controvérsia é finalizada com a aquisição do imóvel pelo locatário, o INSS.

Ao se aproximar da ética do servidor do público, a parte, na figura de um servidor público, um advogado, no momento exercendo a função de conciliador, instaura um procedimento que podemos denominar de desinstrumentalização da ação, ou seja, sua ação deixa de ser orientada pelo fim em si mesma (Weber, 1999), e é dotada de um conteúdo reflexivo (Giddens, 1990), na medida em que deixa de pensar no jogo ganha-ganha e se torna propensa a negociar no sentido de abrir mão de algo para que a outra parte também possa se beneficiar, sem perder os princípios da impessoalidade, eficácia, eficiência e transparência. No caso em análise podemos identificar o processo de negociação como um procedimento que se mantém fiel aos princípios da gestão pública e acrescenta novos elementos ao admitir a capacidade de reflexão e juízo como linha mestra de condução do processo.

Considerações Finais

A análise deste caso demonstra que os esforços empreendidos pela CCAF estão direcionados adequadamente para a cultura de pacificação dentro da administração pública e para o aumento da eficiência e eficácia das ações de órgãos públicos no que se refere à solução de conflitos e controvérsias. É imperioso afirmar que a Câmara de Conciliação promove outro tipo de ação dos funcionários envolvidos no processo de negociação, porque convoca a mobilização de outros valores, atitudes e habilidades para a solução de conflitos e controvérsias em nível administrativo. Traz um novo elemento para a cena pública, qual seja, as interações face a face. Os funcionários deixam de dialogar unicamente por intermédio de laudos, pareceres e ofícios, e têm a possibilidade de discutir o processo no seu conjunto estabelecendo parâmetros outros para a solução da controvérsia. Pode-se afirmar que esse tipo de ação contribui para a governança quando apresenta novas modalidades de gestão administrativa e financeira no sentido mais amplo, pois nota-se uma mudança de atitude frente aos problemas públicos, como também se vê a mudança de métodos de solução de questões que inundam o cotidiano da máquina pública. Novas atitudes prevêem nova ordem conceitual que seja adequada aos problemas que estão sendo enfrentados. Nesse sentido, instaura-se um jogo ganha-ganha, não restrito ao campo material. Outro ponto que merece destaque é a admissão de que o conflito entre entes públicos pode ser algo favorável à construção de novas relações sociais, ou seja, o conflito pode ser estruturador das relações sociais. É possível, muitas vezes, que a diversidade e divergência de percepções e opiniões acerca de uma questão possam trazer soluções inovadoras na medida em que também estabelece um ambiente provido de alteridade. E para finalizar, apresentamos alguns desafios que são enfrentados hoje pela CCAF, no sentido de formular novas agendas de pesquisa para aprofundar esse debate, capazes de antecipar obstáculos e ameaças para o bom funcionamento das Câmaras. A CCAF precisa se fortalecer para caminhar no sentido de aumentar o índice de conciliação, trabalhar pela não interrupção de seus serviços e criar uma estrutura administrativa que seja suficiente para responder o aumento das demandas e por último, criar

um sistema de regras e procedimentos que seja capaz de manter a criatividade e a flexibilidade do negociador na busca de solução céleres e satisfatórias.

Referências

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