Você está na página 1de 130
Casa do Psicdlogo® Sobre a Pyicoterapia Pais-Bebe: narraltividade, filiagdo e transmissao Corecio 1° INFANCIA © 2003 Casa do Psicdlogo Livsaria e Bditora Lida. E proibida a reprodugao toval ou parcial desta publicagdo, para qualquer finalidade, sem autorizagio por escrito dos editores. 1" Edigao (2003 Editores Ingo Bernd Guntert e Silésia Delphino Tosi Produgio Grafica & Editoragao Eletronica Renata Vieira Nunes Capa Renata Vieira Nunes Revisio Grafica Thereza Christina Po Dados Internacionais de Catalogag#o na Publicagao (CIP) (Camara Brasileira do Livre, SP, Brasil) Goke, Bernard Sobre a psicoterapia pais-bebé: narratividade, filiagdo ¢ transmissio / Bernard Golse: dirigida por Claudia Mascarenhas Femandes Rohenkohl; tradugio Inés Cato, Maria Auxiliadora Fernandes, Julia Castilho, Regina Aragaio, — Sao Paulo; Casa do Psicdlogo®, 2003. -—- (Colegao 1* infancia) Bibliografia. ISBN 85-7396-223-2 1. Pais € bebé 2. Psicanilise infantil 3, Psicotcrapia de familia |. Robenkohl, Claudia Mascarenhas Fernandes. UI. Titulo. I. Série. 03-2041 CDD-150.195 indices para catalogo sistematico: 1. Psicoterapia pais-bebé: Sistemas psicoanaliticos: Psicologia 150.195. Impresso no Brasil Printed in Brazil Reservados todos os direitos de publicag’io em lingua portuguesa & Casa do Psicéiogo® Livraria e Editora Ltda. P 05417-0115 - Sao Paulo/SP — Brasil mail: casadopsicologo @ casadopsicologo.com.br F nup:vwww.casadopsicologo.com.br SuMmArio 1. O bebe hoje: novos dados, esperancas e Irustracées Pensar o bebé hoje .. O que os bebés nos ensinaram? O que o bebé exige de nés? 2. Os bebés sabem brincar? As condigées necessarias ao _brincar rela onal do Os diferentes tipos de brincar no bebé .. O brincar como espago de narragio e ae liberdade . Conclusdes Bibliografia 3. Transmilir a transinissd nm porto em comum entre as diferentes ter conjuntas paiscrianga ... Lembrete sobre a transmissio Stang geracionil O-conceito -de-narratividade sci: once nieeteane OS. O que os bebés contam a eles mesmos e © que nds contamos acle ... Bibliografia 4. Biicclerapia do bebe e do adolescente: cenvergencias Analogias do funcionamento psiquico entre bebés e adolescentes “80 Contribuig6es da psiquiatria do bebé 4 compreensao do adolescente ... 2 84 Material com direito: 2 SCEFE A PSICCTERAPIA PAISELEE: SARRATIIDALL, FIUACAG C TRANSMISSAD Algumas convergéncias entre psicoterapias do bebé e psicoterapias do adolescente Algumas anotagGes técnicas Conclusio a 94 Bibliografia ...... 5. As inleragdes precoces como espace de narragio: o bebe e os processos de ligacao para além da teoria do apego da psicanilise .. Entre o adulto e o bebé, a escritura de uma terceira hist6ri: Narratividade, sentido de um Si mesmo verbal e processo de ligagio .. Narratividade, apego e psicanilise ...... hese Conchinta 07 Bibliografia ..... oD A vespeito de al: Apego e psican: Emogao, representagao e espaco de narragio ...... nae Contlusin ised cere een ee. OD Bibliografia ..... eee nas figuras da destrutividade no desenvelvimento ena patclogia da crianga: Scbre a cisdo entre teoria das pulsées e teoria das relagées de objelo no campo das pulsies de morte . la? Algumas evocacGes eemctameicolbeie (sobre a violéncia, o 6dio ea agressividade) .. wee 129. A destrutividade na patologia, sob o Angulo da teoria das pulsdes e da teoria das relagdes de objeto: trés exemplos paradigmaticos... 133 Bibliografia adolescentes ...2.. Oconceito de pulsao de apego ..... Impacto sobre o encontro com bebés e adolescente: Conclusi i ah Bibliografia ..... daa abe tt ca 1 O BEBE HOJE: NOVOS DADOS, ESPERANCAS E FRUSTRACOES Muito obrigado, antes de tudo, aos organizadores desta jorna- da', e em particular a Colette Destombes, que me tem uma inesgotd- vel confianga desde alguns anos. Estou verdadeiramente muito feliz em ter aceito este convite. O titulo desta reuniao, “Pensar o bebé, pensar os pais e pensar o conjunto”, me parece muito importante porque — voltarei a isso mais demoradamente a tarde — eu creio que, a propésito do bebé, o fato de poder pensar em grupo é inteiramente essencial. O grupo nos permite, sem diivida, efetivamente pensar sobre e também ligar alguns niveis de funcionamento psiquico pré- prios ao bebé e que nao sao facilmente acessiveis ao pensamento solitério ou em ntimero muito restrito. O bebé, preciso dizé-lo exatamente, é uma coisa! Hd uma frase muito bonita de Georges Favez, que era psicanalista da APF. Ele disse h4 muito tempo: “Pertence-se a sua infancia, como se pertence ao seu pais”. Eu penso que é alguma coisa que, efetivamente, pode ficar nas nossas memérias ao longo da jornada. Porque a infancia é uma nogao temporal, certamente, mas é 0 lugar de no: toda uma série de processos que vao participar da construgao de raizes e de 1 Palestra traduzida por M. Auxiliadora Mascarenhas Fernandes, psicanalista (Salvador BA). 4 Scebt A PYCCTIPADA PAISELEE: NARPAIMIDADE, FHIACAG F TRANSMISSAC nossa pessoa. Tudo nao esta feito certamente aos 3 anos, nem aos 6 anos, nem jamais — mas tudo 0 que se passa na pequena infancia vai fornecer as ancoragens para muitas coisas futuras. Entao eu queria esta manha dizer de novo do formidavel avan- co da psiquiatria do bebé durante a segunda parte do século XX. Eu nao quero mais me atrasar, mas perguntaria porque, de repente, na histéria das idéias, na histéria dos conhecimentos, esse avango teve lugar naquele momento. Pessoalmente penso que os sofrimentos li- gados 4 Segunda Guerra Mundial nao sao alheios a isso. A guerra sem dtivida ocasionou um quinhio de sofrimentos enormes. Os be- bés pagaram um tributo pesado, e eu creio que, apés esses aconteci- mentos terriveis, os adultos viveram um movimento de culpabilida- de muito importante em relagado aos pequenos e que, provavelmente, esta atencdo agucada a seu desenvolvimento fisico e a seu desenvol- vimento psiquico sio um reflexo dessa culpabilidade. E em todo caso apés a Segunda Guerra Mundial que se desencadeiam todos os estudos sobre as competéncias precoces e sobre as interagées. E in- teressante observar que no mesmo momento em que os profissionais concederam ao bebé o direito, de certo modo oficial, 4 vida psfquica (seus pais sabiam desde sempre que seu bebé nao era apenas um lactente e um tubo digestivo, mas os profissionais por muito tempo tém falado assim, como de um ser muito passivo), fomos obrigados de algum modo a descrever ao mesmo tempo o que vai inelutavel- mente com a vida psiquica, isto 6, 0 risco de sofrimento e o risco de desorganizagao. E entiio mais ou menos na mesma €poca, nos anos 40-45, que se dispuseram os dois grandes primeiros quadros da pedopsiquiatria do bebé, isto 6, 0 autismo infantil em 1943 (L. Kanner) e as primei- tas descrigdes das depressdes do bebé (Anna Freud, Dorothy Burlingham, René Spitz, J. Bowby, J. Robertson). Eu creio que af estd uma coincidéncia importante: no momento em que se concede ao bebé, enfim, oficialmente o direito 4 vida psiquica, se é obrigado a conceder-lhe o que af estd inerente, quer dizer, o “direito” ao sofri- mento e a loucura. Isto para dizer que, certamente, todos nossos es- |. © BEE HOJE: NOVOS DADS, FSEEEANCAS EFELSHACCES. 6 forgos sao importantes. E preciso minimizar tanto quanto se pode os sofrimentos do bebé, mas nao ha vida psiquica sem que haja risco de sofrimento e de loucura. A erradicagAo total do sofrimento e da lou- cura é, evidentemente, uma utopia. A segunda razio é que, eu creio, cada fim de século tem suas preocupacées. De tempos em tempos me divirto a notar que no fim do século XIX houve uma coincidéncia cronolégica muito curiosa. Em 1895, descobriu-se ao mesmo tempo os raios X ¢ a psicanilise, ja que é neste ano que W. C. Roentgen descobre os raios X e que J. Breuer e S. Freud escrevem “Estudos sobre a histeria”, 0 que, em minha opinido, é mais que uma simples coincidéncia. Eu creio que ha, ao fim do século XIX, um grande interesse pelo enigma do “den- tro”: 0 dentro dos corpos com os raios X, 0 dentro do psiquismo com o comeco da reflexdo sobre 0 estado psicolégico. E cada fim de sé- culo tem, sem diivida, suas especificidades. O fim do século XX, que era também um fim de milénio, foi muito preocupado pelas ori- gens: as origens do tempo, as origens do universo, as origens do espago, as origens da vida... Houve uma permanéncia de publica- gGes sobre essas diversas quest6es. A busca das origens é, claro, uma questo que nos anima desde sempre, mas o fim do século XX foi particularmente sensivel, e parece-me que a psiquiatria do bebé, a psicopatologia precoce e a psicologia do desenvolvimento precoce se inscrevem nesse movimento, quer dizer, em um interesse pelos infcios da vida do corpo (a partir de quando o feto, 0 embrido é vivente?), e pelos inicios da vida psiquica igualmente (a partir de quando o feto pensa?). E nessa segunda metade do século XX também que nasceu a teoria do apego, que se exprime sempre em termos de seguranga, de inseguranga ou de ambivaléncia, e € preciso notar que os sociGlogos nos mostraram que a segunda parte do século XX foi muito marcada pela nogao de inseguranga. Alias, sabemos ainda alguma coisa e é talvez interessante ver que a teoria do apego nasceu nesse contexto. ultima parte do século XX, o bebé se tornou mui- to precioso em varios aspectos em nossa sociedade ocidental. O bebé Enfim, ne: le SCERE A PSICCIIRAPA, PAISBLEF: SARLATMIDADE, TIIACAD £ TRANSMISSAC aparece como precioso, cada vez mais tardio e cada vez mais raro, entao mais precioso. Espera-se dele, exige-se dele que seja quase perfeito, dizendo-se af que todas as técnicas de diagnéstico pré-natal deveriam assegurar um bebé perfeito, o que é inteiramente uma falsa visao das coisas, sem dtivida. Mas as coisas sao sentidas, coletiva- mente, um pouco como isto. E, enfim, demanda-se ao bebé, 0 que é mais grave ainda para ele, que seja muito rapidamente auténomo. Tanto, alids, que me parece que um dia, entre os direitos da crianga, sera preciso sublinhar o direito a infancia, pois niio se pode ser uma crianga, um adolescente ou um adulto com boa satide psiquica sem ter tido o tempo suficiente de ser bebé. Acho que teremos a ocasiio de falar novamente sobre isso hoje. Entao tudo isto faz que o bebé seja ao mesmo tempo um antigo eum novo mundo. O antigo mundo para cada um dentre nds é tam- bém um novo mundo quanto 8 histéria dos conhecimentos, a hist6- ria as idéias, e como toda exploragio de um novo mundo, ha ao mesmo tempo perigos € promessas. E sobre isto que direi uma pala- vrinha agora. Eu penso freqitentemente nessa frase de Bernard Doray, no fil- me que alguns de vocés devem ter visto, sem diivida, a propésito do Instituto Loczy (Loczy, um lugar para crescer). Ha uma frase intei- ramente impressionante do comentario deste filme, uma frase que me toca muito, onde Bernard Doray diz que, no século XX, nés tere- mos decididamente aprendido tudo sobre a maneira de destruir 0 individuo, entretanto ha também alguns lugares onde se sabe como ajudar as criangas a se construir, e que é preciso estar muito atento a salvaguarda desses lugares. Sao lugares preciosos, lugares frdgeis, onde os conhecimentos, as aquisigGes do saber, toda experiéncia que se acumula, devem ser preservados. Sabe-se, todavia, que na atualidade nao é muito facil transmitir as aquisigGes do saber e preservar as aquisigdes dos conhecimentos. Logo, é certamente alguma coisa muito importante. B. Doray acres- centa a esse comentario que, se ndo se faz a guarda, as sociedades de consumo que nos ensinaram “eficazmente” a produzir bens intteis 1. © BREE FOJE: SOVOS DACOS, ESEFEANCAS EF FELSERACCES, V7 vio nos ensinar também a produzir individuos muito frégeis, muito precarios, mas finalmente intiteis. Ha, parece-me um momento ético essencial em torno da ques- to do bebé. Entéo as promessas sio evidentes. As promessas da psiquiatria precoce, as promessas da psicopatologia precoce sao, a partir de agora, bem conhecidas, mas nao é por isto que elas ndo so frageis. As promessas: primeiro que a psiquiatria do bebé vai bem além da questao da psiquiatria. Nao é simplesmente uma pequena fatia suplementar da disciplina psiquidtrica. De vez em quando eu lembro sorrindo que, quando comecei a fazer psiquiatria, na época, se co- megava a fazer estagios em psiquiatria adulta. Este foi meu caso, mas eu sabia que queria me ocupar de crianga. Ent&o me diziam: a crianga estd mesmo muito na moda, e é preciso ir aos servigos onde se ocupam de criangas. Eu estive nos servigos onde se ocupavam de criangas. Disseram-me: muito bem, mas exatamente agora, 0 que é importante é a psiquiatria do bebé. Fui nos servigos onde se ocupa- vam da psiquiatria do bebé, com Michel Soulé, Serge Lebovici e outros. Entiio, em particular, Michel Soulé me disse: a psiquiatria do bebé esta muito bem, mas agora nao é tudo, had a psiquiatria do feto. Fui ver um pouco onde se ocupavam da psiquiatria do feto e onde se ocupam ainda, e € preciso, alids, que os centros de medicina fetal estejam muito atentos a essa dimensao igualmente. Mas ai me di ram: logo haverd a psiquiatria dos gametas e, de fato, a sacralizagdo dos gametas comegou grandemente em torno da assisténcia médica a procriacao. Ainda hd uma espécie de movimento retrospective muito claro da histéria das idéias, mas apesar tudo a psiquiatria do bebé nao € simplesmente uma pequena fatia suplementar da psiquiatria. A psiquiatria do bebé nos da de fato uma via de aproximagdo dos problemas eternos que os fildsofos, os lingiiistas, os antropélo- gos tentaram cercar a seu modo. Penso, por exemplo, nos processos de subjetivagao: como um bebé se torna uma pessoa? Como um bebé, um dia, pode se dizer: “eu e 0 outro, isso faz dois?” Sao questOes simples e ao mesmo tempo extremamente profundas e delicadas. HA e- is SokbE A PSICOTERAPIA Pals-EEBE; NAPBATIMDADE, FIUACAC E TRANSMISSAC processos graduais. Na Europa pensamos que esses processos sao relativamente lentos, que tudo nao é dado de imediato e a psiquiatria do bebé dé verdadeiramente uma nova maneira de abordar essas questGes da subjetivagdo, da simbolizagao, da semiotizagao e da semantizagio no espago humano. Ha muito tempo nos interessam essas questées relativas as coisas do lado do adulto, uma vez esses Pprocessos em movimento, uma vez maduros e instaurados, O bebé nos permite hoje vé-los em vias de nascer, em vias de fazer-se. Ha, verdadeiramente, alguma coisa que vai bem além da propria disciplina psiquiatria. Eu creio que o bebé reconduziu a to- dos esses raciocinios da carne e do corpo. Em certa época, hd alguns decénios, Merleau-Ponty dizia que a psicandlise pagava seu tributo 4 psicologia tendo se tornado um pouco etérea, desencarnada, es- quecendo 0 corpo. Eu creio que o bebé, entre as promessas que sdo as suas, nos permite ter em conta os nossos raciocfnios, af compreendidos nos- sos raciocinios psicanaliticos, de toda densidade, de toda espessura do corpo, das pulsées e da vida carnal. Eu creio que isso é muito importante. A psiquiatria do bebé também exige de nés que a apoiemos muito fortemente em um modelo polifatorial. Nossos colegas somaticistas também conhecem bem os modelos polifatoriais. Acha- mos precisamente que o ancestral do modelo polifatorial é 0 concei- to de “série complementar” proposto por S. Freud. Eu nao quero me estender aqui, mas, a propésito das neuroses, muito cedo ele disse: a neurose se organiza na interface de fatores enddgenos (os pontos de fixagao) e ex6genos (a frustragao sexual, por exemplo). Em psicopatologia é preciso se apoiar muito firmemente ao modelo polifatorial. De tempos em tempos eu creio que nossos colegas somaticistas nos invejam por ter descoberto isto antes deles, mas de todo modo nao é uma quest&o de precedéncia. O que conta é servir- se disso, uns ¢ outros, na perspectiva da transdisciplinaridade. Logo, nao apenas o modelo polifatorial é importante para a psicologia, mas é importante para o desenvolvimento simplesmente. 1. © BEE HOI: NCVOS DALOS, ESEERANCAS F FRUSTEACCES. 9 Os distirbios do crescimento e da maturagdo psiquica da crian- ¢a, mas também o desenvolvimento normal jogam exatamente na interface da parte pessoal do bebé o que ele traz consigo, seja seu equipamento neurobiolégico, genético, bioquimico, mas também os efeitos do encontro com o exterior. As vezes digo que o bebé tem necessidade de uma histéria. Mesmo os bebés tém necessidade de uma histéria, uma hist6ria médica sem divida, genética, bioquimi- ca, cognitiva, uma histéria de seu equipamento corporal, mas ele tém necessidade também, e imediatamente, de se inscrever em uma histéria familiar, uma hist6ria cultural, uma histéria de grupo para poder se apropriar do pensamento e da linguagem que existem, se- guramente, no mundo onde ele chega e que o precede. Mas, para deles se apropriar, 0 bebé tem necessidade do corpo e do grupo, de seu corpo, e de seu grupo familiar, social e cultural, o que é um modo de falar do modelo polifatorial. Eu creio que é uma das gran- des forgas do bebé, de exigir de nds ser mantido nessa perspectiva. Entre as promessas da psiquiatria do bebé ha também promes- sas a propésito das reducées de clivagens, por exemplo. Voltarei a isso A tarde. O bebé pode talvez nos permitir reunir teorias que até aqui pareceram muito cindidas umas e outras; a psicandlise ¢ a teo- ria do apego, por exemplo, que nado s4o tao incompativeis como 0 cremos. Quando se olha bem o bebé, a teoria das pulsGes e a teoria da relagdo de objeto sao talvez mais complementares do que o cremos. Eu penso que tudo € incompativel se cedemos a nosso inimigo pui- blico ntimero um, que é a clivagem entre o corpo e a psiqué. Se cedemos 4 essa clivagem, entio todas as outras clivagens dai decor- rem, ai compreendida a clivagem entre os somaticistas e a equipe psi. Nos teremos certamente oportunidade de voltar a isso. E preciso ento que lutemos permanentemente contra essas clivagens, mas é muito surpreendente ver que, a despeito de D. W. Winnicott, que nos ensinou que sao precisos dois ou trés anos para que o bebé tega junto seu corpo e sua psiqué, que os articule em harmonia... depois, em nossos trabalhos, nds vamos passar nossa 2c SCERE A PSICOIERALN PAIS FLEE: NABGATIMDADE, TLACAG E TRANSUISSAD vida inteira a querer resolver de novo essa jun¢ao entre corpo e psiqué! Esta af verdadeiramente o indicio de um masoquismo profissional nocivo. Mas a promessa do bebé é exatamente nos ajudar a intrincar as coisas. O bebé vai nos permitir, talvez, melhor compreender fendmenos como a resiliéncia. A resiliéncia, todo mundo fala disso, mas temos muito pouca coisa a dizer. Sera que a resiliéncia é genética? Serd que a resiliéncia é muito precoce? Se a resiliéncia € muito precoce, isso nao quer dizer forgosamente que ela é genética. Serd que uma parte da resiliéncia nao se adquire intra-titero, por exemplo, no quadro das interagGes feto-maternais, e ha origens de coisas extremamente inte- ressantes; eu creio que é uma das apostas do futuro: como conciliar entre o que & genético e o que é precocemente adquirido? E verdade para a resiliéncia. Mas temos ai também raciocinios importantes concernentes as origens — da violéncia, por exemplo; toda uma série de raizes perinatais em um certo nimero de distirbios. Eu nao irei muito mais adiante em relagdo as promessas porque elas sdo miultiplas. O bebé poderd nos ajudar a fazer um bom uso dos conflitos (falarei dos conflitos 4 tarde, a propésito da transdisciplinaridade). E um pouquinho como Winnicott dizia da sau- de mental: 0 ideal da satide mental nado é a auséncia de sintomas, mas sim poder fazer alguma coisa de util e de viva de nossas partes mais bizarras, de nossas partes mais dificeis. Entao, nas instituigdes, nas relagGes entre profissionais, em nossas transdisciplinaridades, a au- séncia de conflito é iluséria; seria mortal — como nos casais, alids 0 €. E preciso um minimo de conflito para viver; mas é preciso que nao sejam conflitos narcisicos ou conflitos pessoais, mas sim que nos sir- vam um pouco de microscépio para sentir, estudar, compreender 0 que se passa ao nivel da psiqué e do corpo da prépria crianga. A crianga projeta sobre todos os intervenientes partes dela pro- pria, partes de seu psiquismo, partes de seu corpo — e nés, entre nés, entre adultos, nés nos ocuparemos de novo desta questio. Isto pode ser um instrumento de trabalho extremamente Util para compreen- der o bebé que se situa aquém da linguagem. Assim, nao é preciso 1. © RfBE HUE: MOVES DADOS, ESPERANCAS E FRUSTEACCES a ter medo dos conflitos, mas é preciso conté-los, transformé-los; eu creio que 0 bebé nos mostra que ha efeitos do pensamento e é por isto que estamos aqui discutindo esta questéo. O pensamento nao é simplesmente alguma coisa de contemplativo, de académico ou para fazer coléquios. Pensar 0 bebé, como escrevi no titulo, j4 é um cui- dado. Pensar (pansery seu corpo, com o a, é seguramente falar do cuidado, e pensar (penser) o bebé, com um ¢, ja é se referir ao cuida- do, porque ha no pensamento — 0 pensamento grupal em particular — todos os fendmenos de atengao e de observaciio. Os efeitos de conti- nente, de transformacio, isto néo é simplesmente da descrigao, ja é do tratamento, jd é do cuidado pelo viés do grupo. Eu me detenho aqui no tema das promessas, dizendo apenas que tudo isto nos conduz a uma clinica do bebé absolutamente fasci- nante, que deve ser descritiva, muito finamente descritiva, e que deve ser muito interativa. E preciso entrar em contato com o bebé, mas fazé-lo com tato (no contato ha o tato) para nado forgar, nado ser intrusivo. A clinica do bebé nos obriga a levar em conta 0 que nds sentimos, e isso é muito interessante porque ndo se escreveu tudo sobre 0 bebé, no se escreveu tudo sobre seu corpo e seu comporta- mento. Uma grande parte da clinica com o bebé esta inscrita em nds, sobre 0 que sentimos, sobre o que 0 bebé reativa em nés, 0 bebé que fomos... Enfim o bebé nos obriga a ter uma clinica historicizante, quer dizer que remete os distiirbios que observamos hoje a uma hi téria que é sempre atacada por todas as formas de ditadura, e com- preendida por todas as formas de ditadura do pensamento. Ea respeito dos perigos, em compensacao, seria 0 contrari um dos grandes perigos é a clivagem. Jé falei disso. O segundo gran- de perigo é, sob o pretexto de que nos ocupamos de sujeitos muito jovens, querer fazer a predigdo. A medicina preditiva é a grande do- enga do século, do novo século que nos espera. Na medicina somatica e 2 A palavra francesa panser é tem origem ono latim pensare, mesma origem de “pensar”. O franeés penser significa “ter cuidado com; tratar (uma doenga, uma ferida); cuidar de alguém aplicando um penso (pensement)”. O autor, penso, quis fazer um jogo homofénico com a palavra pensar. (N.T.) a SCbRE A PSICCTERAPA PAIS EIBE: NALPATWIDADE, IILACAO E TRANSUISSAO também, talvez menos, mas de todo modo, nesse nosso dominio, a medicina preditiva é uma catastrofe absoluta. Nao podemos ter af sendo uma maldi¢do a adoecer um bebé no seu vir a ser. E uma pseudomodernidade, uma _ pseudo-toda-poténcia, ¢ uma pseudomagica. Dizer aos pais que uma crianga de 18 meses tem todos os motivos para ser autista aos 3 anos nio é medicina, é des- cuido total. Creio que devemos questionar muito fortemente, em conjunto, © lugar da predicdo em relagéo aquele da preven¢do. Igualmente a prevengao é benéfica, a prevengao visada, observar as criangas em risco, as criangas que tém necessidade de nds... mas adoecé-las num vir a ser é criar um vir a ser que denunciamos, é reforgar o préprio risco de tornar-se 0 que denunciamos, e temos de lutar com toda forga sobre essas posigGes, assim como em relacdo a nossas instén- cias de tutela e talvez em relacdo ao pensamento politico. Temos também um grande trabalho a fazer com as midias. Na Franga os profissionais de satide nao fizeram ainda o seu trabalho junto as midias, que buscam sempre o scoop’, que buscam a medicina triunfalista, visto que 0 bebé deve ser falado com nuances. Os bebés em risco nao sho forgosamente os bebés que serdio doentes ou adul- tos que serao doentes, e hi bebés que vao muito bem e que serao adultos com grande sofrimento. Nossas classificagdes feitas para adultos nao servirdo para o lago precoce, e ha toda uma série de problemas muito especificos do bebé que podem ser tratados de maneira imprudente. Eu penso em particular no timing de uns e de outros. E verdade que os politicos que nos governam tém necessidade de resultados quantificdveis a curto prazo, nao apenas para serem reeleitos em al- gum lugar, ainda bem... mas porque hd a necessidade de contabilizar e de demonstrar que o dinheiro piblico foi bem empregado. Mas ao mesmo tempo nés nao podemos sempre dar os resultados em dois, trés anos ou cinco anos, que € o ritmo de base, a unidade de base 3 Anglicismo que significa “informagao dada com exclusividade a uma agéncia de noticias”. (N.T.) 1. © BPEL BOUL: NCVOS DADOS, FSPERANCAS E FRUSTIACEES 23 temporal dos politicos. Nossos calculos se fundam algumas vezes sobre dez anos, quinze anos, vinte anos. O que é que um bebé vai se tornar como adolescente? Depois, 0 que o adolescente vai se tornar como adulto? Nao temos respostas em dois ou ués anos. Quer dizer: eu posso predizer o que ele seré em dez anos ou quinze anos sob cauciio. Temos uma espécie de timing diferente. Temos ja um timing diferente entre somaticistas e cuidadores da psiqué; temos um timing diferente entre cuidadores e politicos. E ha um problema real, um perigo real, de que sem diivida terei oportunidade de falar novamen- te no decorrer da jornada. Eis um outro perigo: a langue de bois (lingua de madeira)*; & esquecer que ndo podemos nos ocupar do bebé sem ambivaléncia, porque nao ha amor sem ambivaléncia, nem para os pais, nem para os profissionais. O bebé nao € todo rosa-bombom. Winnicott, que cito muito essa manha, escreveu um artigo sobre as 23 raz6es que uma mie tem para odiar seu bebé. E um artigo muito otimista, por- que h4 muito mais de 23! Mas enfim ele cita 23. E preciso que te- nhamos isto na cabega. O amor nao é suficiente. Nao podemos nos ocupar corretamente dos bebés se denegamos nossa ambivaléncia. E € 0 problema da modernidade em geral. A verdadeira modernidade nao exclui o subjetivo. A verdadeira modernidade nao exclui a ambivaléncia. E, para cuidar do bebé com um minimo de riscos iatrogénicos, é preciso estar verdadeiramente consciente e levar em conta esta parte hostil que é inelutavel. Hostil porque fomos um bebé € 0 bebé que fomos nao morre jamais, e nao podemos estar, qualquer que seja nossa profissdo, em rivalidade muito forte face a face com a crianga. Promessas, perigos... e enfim frustragio. Eu creio que a maior frustragdo, em 2002, a propdsito do bebé, é dizer que, exatamente: cingiienta anos apés a arrancada desse grande movimento que eu fa- linguagem congelada, especialmente da -m uma tomada da realidade” ¢ € provavelmente um decatque do polonés (segundo Le Robert: Dictionnaire des expressions et locutions, de Alain Rey ¢ Sophie Chantreau). No senso comum refere-se ao que dizemos como “sair pela tangente™, desviar 0 assunto. (N.T.)