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Marcel Detienne Os Mestres da Verdade na Grécia Arcaica Til orga Lendl de Ver danse Grécearchatche Tiaducom ° luc auorizads depo frances publiada em 8h por Bitons ta Deourene Par Praga pve © 1967, right © 1988 Jorge fanar brie Feangois Masporo er agus porta Sumario Prefiicio de Pierre Vidal-Naquet I Verdade e Sociedade 0 A Meméria do Poeta m1 (© Ancido do Mar Vv A Ambigitdade da Palavra v © Processo de Laicizagéo MI ‘AEscolha: Alétheia ou Apdte vo Ambigtiidade e Contradigio Notas Indice Analitico ¢ Onoméstico Prefacio 0 tfalo do livro de Marcel Detienne define, ao mesmo tempo, um paradoxo e n programa. Existem “mestres da verdade”*? Uma tradigao pedagésica, ‘bem antiga, pretend que o mestre seja independente da verdade que ensina, {que o supera e nos supera, Esta tradicdo parece ter tiunfado no século XIX, cias exatas, nas cincias da natureza e, até mesmo, nas ciBncias socias, Por acreditar que a realidade social podia ser um objeto cientifico, portanto independente daquele que 0 observa, Marx declarou uma vez que nfo era ‘murkista. Este universalismo & amplarmente posto em clivida hoje em dia (no tne cabe dizer por qué, net como): no melhor sentido, na medida em que es- amos hoje muito mais sensfveis do que antes &s condicSes psicoldgicas, so- cis, © até mesmo econdmicas, da aparicio e do desenvolvimento do penst- rnento cientifico, 2 infinita diversidade des pontos de vista, propostos por di- ferentes cientistas de diferentes ciéncias; no pior sentido, visto que alguns Estados e alguns homens se fazem os araulds ~¢ 0s mestres ~ de wna verdade tniltante: “Estudar as obras do Presidente X, seguir seus ensinamentos agir Je acordo com suas diretrizes", em torno desta palavra de ordem se rednen (0 militares de uniforme ou de’espfrito de todos os pafses, Mas, exatamente onde aparece © mestre, jé nfo hf mais verdade, Seja qual for esta evolugio, hé que se dizer que, se a linguagem militar assim como a poesia por outras raZzSes, propriamente intraduzivel e inco- ‘nuniegvel ~ uma ordem 86 compreensivel para aqueles aos quais se diripe — 6 peculiar & lingvagem cientifica poder atingir todos agueles que fizeram 0 ‘esforgo de aprendé-la, e ser conversivel em qualquer dialeto humo. Tsto no significa negar o valor de outras experincias hursanas, africa- indianas, chinesas ou amerindias, mas admit que esta Linguagem, sob 0 forma em que se manifesta fundamentalmente hoje em dia, encontra sua Oorigem na Grécia, nama Grécia sustentada, além de tudo, por uma heranca ri- © complexa, mas diferente daquela veiculada pelos grupos que falavam lingua “indo-européia” que penetraram no solo “rego” no fim do terceiro Movies dt verdade”: a playra “este, em francs mare, designa aqele que co- na, povern, eras win poder, ua auforidad; sda indice aqule que ens, edue, mingle sue &tomado como mode (ets, esertor). Mas, palavra rave posi a Wn im sentido que nfo encontramos ax radu coreapondente cn potas ig= rilfea aguele ue€ possuide, do ou senor de uber qualquer, (a7 ‘os mostres da verdace ne Gréca orsies mento grego!, Jean-Pierre Vernant apresentou-nos um quadro (assim como Ge leticologa etna, povar s pomsbdades da ora do campo sent eens eee ata Chat wage en un caro condzio plas has do Sl, uma. via aberla 40 oe ee ees See eres e oe erm eee roficio No momento em que comega a “tieratura grog’, 0 ei micénico desa- > certo que 0 ei mflico, que Pindaro ou Esguilochegaram ac0- necer, em pleno séclo V, € que se prolongaré sob una forma quasefoleléri= vm mitolgia belenstica antes de ser ressuscitado por Frazer, seja seu her= lcito dzeto, O fato de terse tornado mifico parece-me, a0 contréio,essen- ily mais talvez do que para Marcsl Detienne. Além diso, 0 préprio Detienne a, com mula precislo, que 0 Gnieo posina grego que se pode, efetiva Comparar aos poemasorientais, a Feogonia de Hesfodo, baeia-se fun- lanentalmente num personagem realy Zeus, como o Enuna’ EUS bascava-te 1 cleus Maeduk, protéipo do rei da Babildna: “E, também, esse personaem fo que tn des." A formula dir 6 essencil 0 deus Tr sts ldo, mas o suporte social que o vivficava, 0 Rei, desapareceu. Desde en Icuses © homens possueM um destino separado, 0 tempo dos deus se : eresivarents do tempo dos homens, Resa ainda ums tatigio, isamonts poétca, 2 do “rei de justga” que detém a “balanga”, distribu lor e receptor, ao mesmo tempo, do verdadero e do faso, Paralelzmente, o- la verdade € enigma e todo aque que diz a verdade 6, cle proprio, enigma, in constitu-se 0 personagem do “Ancigo do Mai”, Proteu ou Nereu, a0 jual Marcel Deienne consagra sou tercero capftulo. No hf “oposisio”, vntradigfo” entre 0 verdadsiro e o flso, a verdade (Alétheia) © o esqueci~ nto (Léthe): "Nao hé, pois, por um lado Aléteia C+) e por outro Léthe (-), re estes dois pélos so desenvolve una zona intermedia, na. qual 2 se desioca progressivamente em diregao a Léthe, e assim Toc A “egatividade" nfo est, entfo, ola, sparada do Ser, ela € um Jeslobramento da “‘erdade, sua sombrainsepardvel. A esta ambiva «pulavracficaz nas obras mais antgas do pensamento grego,sucede,entte= tonto, ni cidade erega cldsica, uma ambigtidade da aglo?, Frente a0 isco permanente que cada decsfo coletiva presenta ~ guctra ou paz, expediggo Ionia” of desbravamento de feras =a cidade clabora lent © progresi= unehte urna palavra-didlog, dilogo dos grupos socisis que se enfrentam ierreno poltico, didlogo dos oradores que propéem tal ou qual decisio. A lava efieazperder4, a partir dat sua soberania, © 0 didlogo passarainis- jar, incsive, 2 ambivaléncia da'mAntica™. Quando, na época da segunda vctra médica, Delos do oréculo airmanco gue Atenas sed salva por uma ‘nuralha de made”, Temstocles interpreta-o traduzindo esta expressio wjlvoca por “frotaateniense”, mas uma outa intsrpretagfo, mais Sbvie, ora Jrosfvel e havin sido proposta, Entre essas interpretagdes‘estabeleoe-s © dogo. A “verdad” entra assim, no mundo do elatvo:"Satisfez-se a0 po- 0", "Parecen bom a0 pove", assim expressan os decretos. Marcel Deticne wnpou os testemunhos em torno de dois pélos. Acitando uma elasificacso jos tragos foram levantados por Plato, mas que 6, de fato, bastante ant A palavea“uotica, em franets mantigu, indica a prétca da adivinhasSo, express em cgi pel utc “manca do rego mae, bo sia “adios, “pee 10 os mestre da verdade na Grécia arcaice oe oe ee ee $e ore ees one x ee eae ee bo eee eee eae Ce epee eee eters ees oa ctacawer nes ee eee eee ae aa re merg tnerenretepir: a ae eee ene ase eee pretécio Je uma sondagem que, creio particularmente, é extremamente feliz “Muitos historiadores admitem, desde Arist6teles, que a primeira polieia foi a dos guerreiros, A cidade, diz-se de bom grado, comeca quando, ao com hate desordenado, cheio de Faganhas individuais, como as que descreve Ho- wero, sucede 0 afrontamento de duas falanges compostas por guerreiros soli= Livi, vestides com o uniforme hoplita. Os “semelhantes” do exército tor- ‘nami-se os “Semethantes” da cidade, e sabe-se que este £ 0 nome (Homoiai) ‘que, em Esparta, s8m os cidadios propriamente ditos. Tal éa visfo tradicional ‘lo ue se chama, bastante impropriamente, a “reforma hoplita”, A qual Mar~ Detienne consagrou um estudo novo, ainda inédito®. Anslisemos squi al- uns procedimentos da vida militar: concursos funersrios, partiha do butim, tssembléias e conselhos de guerreios, tudo isso mostra-nos como se define, fo scio do exéreto, um plano pré-politice, por assim dizer, a partir do qual wargiram 08 procedimentos da vida da cidade, Assim, df-se a “vasta assem- bia” que reGne Aguiles antes do concurso funerério, realizado em bonta a Ptrocio. A palavra empregada (agén) 6, am do mais, caracteristica, pois osigna ao ream tempo a assembléa ¢ © concurso. ‘Naturalments, esta explicagso ndo resolve o problema nem tenta resol- vé-lo, i que outras sociedades que nfo conheceram nem a cidade nem a Je mocracia poltica, coneceram a “democracia militar”, O livro de Marcel De- ticnne permite que o problema seja melhor colocado; a salugdo, por definicfo, fica sempre para amanhs. PIERRE VIDAL-NAQUET FAPA— Bitiuteca | I Verdade e Sociedade Em uma civilizao cientfica, a ida de Verdade introduz imediatamente de objetividade, comunicablidade e unidade!. Para ns, a verde se defi x dois nfveis: por um lado, conformidade com alguns principio Ipicos, Por outro, conformidade com o real, sendo, Jesse modo, insepardvel dat 16s de domonstrasio, verificagéo © experimentagdo, Dente as novbes quo senso comum veicula, a verdade 6 sem Uva, uma das que parece tet seme De existido, sem ter sofrido nenhuna transformugdo, uma das que pare também, relativamente simples. Enureun, basta considera que_a export. mentagio, por excmplo, que sistenta a ndssa imagem do verdadero, 86 96 tornow uma exigéncia numa sociedade onde era tida como uma técnica tradi ional, ou sej, ume socedade onde a fisicae a gumiea conguistaram umn pa pel inportante. & possvel, entéo, perguntar-s sea verdade como categoria mental nfo €soldéria a todo um sistema de pensamento, se no €solidatia 4 vila materiale 2 vida social, Os indo-ianianos posstem urna palavra que € traduzia corretamente por Verdase: Rat, Mas Rta 6 também a oragao Ga sca, a poténcia que asegurao retorao das auroras, a ordem estabelocia pelo ato dos deuses,o dreito, em sums, um conjunto de valores que quobram ‘nossa imagem da verdade. © simples lugur 80 complexo, aun complexe diveraamente organiza, Se 0 mundo indo-irniano€ to diferente do nosso, © que haverfamos de dizer da Grécia? A “Verdade” ocupasia 0 mesmo lugar «qe ocupa en nosso sistema de pensamento? Ela abarcaria 9 mestno coneido seniinlico? A questio nto € de meru curiosidade. A Grécin nos cha ate. Ho por dias res solidtia: em primeiro lugar, porgue entre a Gréeia © a Racio ocidental as relagbes sio estcitas, tendo surgido historcameote do Bensamento grego a concepcto ocidental de una verdade objtva eracional, Sabe-se, por outro Indo, ue, na ria reflexo dos filgsofos conempordneos sobre o Verdadeiro, Parmenides, Patio e Aris\teles slo constantettente ite ‘oeados, confrontads e colocados em questio®, Somente mai tarde seria 2 tipo de razdo que a Gréciaconstr6ia partis do sctlo Vi, uma dotrminada ‘imagem da "Verdade” vid ocupar urs lagar fundamental. De fato, quando a reflex filossfica descobre 0 objeto préprio de su busca, quando Se dart ila do fundo do pensamento mii, onde a cosmologia nica ainda encontra suas raizes, quand se lana dliberadamente aos problernas que no tas dele aro de airair sua atengéo, ela organiza um campo concetual em torno de tuna noeso central que definirg, a partis de ent, um aspecta da primeira fi lasofia como tipo de pensamento edo prineiro filésofo como tipo de home: Alétheia ou "Werdade”, 14 os moots da verdade na Gréeia areas Quando Aiétheia aparece no prelidio do poema de Parménices, nfo surge articulada por completo pelo eérebro cientffico. Ela possui uma longa histéria, No estado de documentagSo, coroega com Homero, Este estado, de fato, poderia fazer-nos crer que apenas o desenvolvimento cronolégico dos {estemunhos sucessivos, de Homero a Parménides, conseguir lancar alguma luz sobre a *Verdade"®, O problema coloca-se, entretanto, em termos bas~ tante distintos, Desde muito tempo, convém que se sublinhe o cardterestra- ‘nho da mise-en-scéne na filosofia parmenfdica: uma viagem num carro condu~ ido pelasfilhas do Sol, uma via reservada a0 homem que sabe, um caminho {ue conduz 45 portas do Dia e da Noite, uma deusa que revela 0 conheci- mento verdadeiro, em Sima, um conjunté mfico e religioso de imagens que Conirasta singularmente com um pensamento filos6fico to abstrato quanto ‘ajuele que trata de Ser em si, De Tato, todos estes tragos,cujo valor religioso ‘nfo pode ser contestado, orientam-nos de forma decisiva em diregfo a alguns ‘meios filosético-religiosos onde o fl6sofo ainda no € mais do que um sébio, cigamos, até mesmo um mago, Mas € nestes meios que se encontra um tipo de fhomem © un ipo de pensamento voltados para a Aléheia: € a Aléieia que fem 0 privlégio de ver com sous prOprios olhos; & a plant que & alma do iniciado aspira a contemplar?. Com Epi- Infnides, com as seitas flos6fico-religiosas, a pré-histGria da Alétheia racional ‘S encontra nitidamente orientada para deverminadas formas de pensamento Teligioso, nas quais a mesma “poténci desempenbou um papel fundamental. ‘A peé-hist6ria da Alétheia flos6lica conduz-nos a um sistema de pen samento do adivinho, do poeta e do rei de justica, aos trés setores nos quais tm detesninad tgo de palavra define-se por Aldea, Determinr sini cacdo pré-racional® da “Verdade” & tentar responder a uma série de questes, ‘enue! as quis a5 rouis importantes slo as soguintes: Como se define, no petisamento mitico?, aconfiguracio de Alétheia?! Qual é oestatuto dapalavea de pensaentoseisiso? Como por ue um tip de plas fier subt- tuido por um tipo de palavra com problemas espectficos ~ relago entre a pa layra € a realidade, relagio entre a palavra © 0 outro? Que relagdo pode existir entre algumas inovagbes da pritica social do século VI e 0 desenvolvimento {de uma reflexo organizada sobre o légos? Quais sio os valores que, sofrendo inteiramente uma mudanga!! de significago, continuam. a impor-se, tanto ‘nam sistema de pensamento quanto no outro, ho mito e na raziio? Quais si0, por outro lado, as rupturas fundamentais que diferenciam o pensamento reli- pioso do pensamento racional? As intengOes deste lio nao se esgotam dentro dd projeto tnico de definir, através de seu contexto mental, socal e histérico, 8 significacdo pré-racional da “verdade” no sistema de pensamento mitico e, Solidariamente, seu primeiro contetide em meio ao pensemento racionall2, Na histéria de Alérheia encontramos o terreno ideal para levantar, por umn lado, 0 problema das origens religiosas de determinados esquemas conceituais da primeira filosofia e, a pastir daf, colocar em evidéncia um aspecto do tipo de homem que o filésofo inaugura na cidade grega; por outro lado, detectar nos aspeetos de continuidade que fecem uma tram entre o pensamento religioso & (© pensamento filos6fico, as mudancas de significagéo ¢ as rupturas [6gicas que diferenciam radicalmente as duas formas Ge pensamento, IL A Memoria do Poeta Invocada pelo poeta no comgen de um canto, n Musal deve tomar conhecidee 19s acontecimentos passados=:“E dizei-me agora, Musts,habitantes do Olim- {0 ~ pois sedes, v6s, deusas presentes por toda parte, ¢ conbeceis tudo; nfo ‘uvimos mais do gue um rufdo, e nds nada sabemos ~dizsi-me quais eram 05 ‘as, os chefes dos Diinaos. A 'multdo, nfo poderia eu enumeré-la nem de ominf-la, mesmo que tvesse de Iinguas, dex bocas e uma voz incansvel, un crag de bronze em meu pete, menos se as filhas de Zs, que leva pide, as Musas do Olimpo, ndo se recordem’ ( wnoatad" )> daqueles que chegaram a fion’, A palavra do poeta’, tal como se desenvolve na aividae poética, 6 soldria a duas nogdes complementares: a Musa ¢ a Meméria, Essas dduas poténcias religiosas definem a configuracdo geral que dé a Aldtheia poé- tica sua siaificagdo real ¢ profunda, ‘Qual é a significacdo da Muse? Qual é a fungo da Meméria? Eviden- ciamos, freqientemente, a presenga, no panteon grego, de divindades que ‘6m 0 ome de sentimentos, de paixdes, de attudes mentais, de qualidades intelectuais ete, Mousa € un dessas poténcias religiosas que ultrapassa 0 ho- ‘mem “no mesmo momento em que este sent inteiormente a sua presenca®”, Com efeito, pela mesma razo que mis, faculdade intelectual, corresponds 4 Métis, esposa de Zeus, ¢ thémis, que € uma nocéo social, corresponde 2 zgrande Théiis, outra esposa de Zeus, um nome comum correspond, no plano profano, & Musa do panteon grego, Numerosos testemunhos da época clssica Ppermitem-nos pensar que significa a palavra cantada, a palavra ritmada?. O duplo valor de poboa — nome comum, pottneia divina ~ faz-se enten= der particularmente bem num “‘discurso antigo” ( nakatbs KOy0 ), transmitido por Filon de Alexandria: “Canta-se um velho relat, imaginado pelos sfbios, ¢ transmitido de meméria, como tantos outros, de geracio em tragho, .. E assim como se segue: Quando 0 Criador acabou o mando intei- 1, perguntou a tum dos profetas se desejaria que algo nfo existisse dente to- hs as coisas que haviam rnascido sobre a terra, Respondeu-lhe o outro que todas cram absolutamente perfeitas © completss, que faltava somente Uma, a alavra laudaibria (tv éxawvésny... MOOV). . . O Pai de Tudo escutou esse discurso, ¢, a0 aprové-lo, criou imediatamente @ linhagem das cantoras plenas de harmonias, nascidas de uma das poténcias que 0 rodeavam, a Vir~ em Memdria ( Mviysn, ), que o vulgar, alterando seu nome, chama Mne- ‘mosyne®." Entre as Musis @ a “palavra cantuda” ~ especificada agui como “Palavra de louvor” ~ existe uma estreita solidariedade, que se afirma ainda ‘mais claramente em nomes muito explicitos que possuem as flhas de Memné- 18 16 os mestres da vordado na Gréeia sesica ria, pois toda uma teologia da palavra cantada se desenvolve a partir dees? Gor por exemplo, conota a gléria (Mog ), a piria das grandes faganhas (Qoe 6 pocta teansmite 28 geragdes futuras; Talia faz aust a fosta (OA IA), condigdo social da criaglo postica, MelpOmene e Terpsfeore despertasn cee oe imnagens de misica quanto de danca. Outros ainda, tais como Polimt- vine Calfope, exprimem a rica diversidade da palavra cantada, € a voz potente nif vida aos poemas. As epfcleses mais antigas das Musas so igualmonte ‘Mretadoras: muito antes de Hesfodo, as Musas existiam em aiimero de ts Poe veneradas em um santuério muito antigo situxdo no Héicon, cham Fans Meléte, Muéme © Aoide'®; cada uma delas levava o nome de wm i8- [ebo'cavencil da fungdo podtica, Meet designs u uiseplina indinpenav Per aprendizado do offcio de aedo; 6 a atengSo, a concentragfio, o exercicio wesatal, Hndme é o nome da fungéo psicol6giea que permite a recitago ¢ a Tnrovisagdo, Aoide!2 6 0 produto, 0 canto épico, © pocma acabado, terme flume da Meldee e da Mnéme, Outras nomenclaturas sio ainda atestadas, Cf tho efere-se a uma, em que as Musas aparecem em ndmero de quatro: Ar SHE Meléve, Aoide e Thetxino€'?, Duas delas desenvolvem aspectos inéditos: siehe € 0 prinetpio,o original, pois a palavra do posta busea descobrir 0 ori- cig seuldade primordial. Thelxinod € a sedugio do espfrito, 0 encanta~ rato que a palavra cantada exerce sobre 0 outro!®, Todos os epitetos da Musa, através dos uais se desenvolve uma verdadeira teologia da palavra, Aterhunham, pois, impordincia, nos meios de aedos © de poetas inspira te equivaléncia entre a Musa ¢ a nocdo de “palavra cantada”!®, ‘Mas a palava cantaca 6 inseparvel da menv6ria na tradigso hesi6dica, Musas sio filhas de Mnemassnel’; em Kios, elas levam 0 nome de, “re membrangas” (vet )!¥; sho elas também que fazem 0 posta “lem= Drar-so"!, Qual 6 signifieagdo da memGria? Quais so suas relagfies com a Vnlavra cantada? En primero lugar, o estatuto religioso da meméra, se Pale aos meios dos edos2 © sua importincia no pensamento poético nfo vrlocy ser compreendidos se se dosprezar ofato de que, do século XII‘ sé Pee TX, a civizacio grega fundava-se nio sobre a escrita, mas sobre as t~ Sebes daa, “Que membria no era necesséria nagueles tempos?! Quantes i qerecc cram Gadas sobre os theios de identificar os hugares, sobre es m0- ietios proplcios aos empreendiments, sobre os sacrificios que baveriam de aetck aa deuses, . sobre os monumentos dos herGis, cu localizagSo era Naas nuito dificil de ser encontrada em regiGes tio distantes da Gré- Shams chvlizagdo oral exige um desenvolvimento da memoria”, ela ne- wn dexeoucdo de teenicas de meanGria muito precisas. A poesia oral, da Goal resltam a fda © a Oddi, no pode sor compreenda va se post: fea ns verdadeira-"mnemotGenica”23, As pesquisas de Milman Patsy © seus Gpigonos esclarecem bastante 03 procedimentos de composigio dos poetas crwte da andlse da técnica formolar: os aedes, com efeito, eiavam oral- serve e de mancira dfeta,“ndo através de palavras, mas através de fOrmulas, Por grupos de palavras construdas de antemo © prontas para se engatar no Fee eeee dactico”™3. Sob a inspiragio postica, suspeita-se um lento aacs errata da meméria. Os poemas homéricos oferecem, por outro ldo, xem Hoe destey exercicios “"mnemotécricos”, que deviam assegurar 208 jovens mamérie do poets ‘accos 0 dominio da diffi sfenica poStica®: so estas as passazens conhecidas Sob 0 nome de “catflogos”. H4 um catflogo dos melhores guerteiros aque, tim catflogo dos melhores cavalos. O catflogo dos exércitos grego ¢ troiano, por exemplo, ocupa a metade do segundo canto da {fada, ou sea, quatrocen~ fos versos que representam para o recitante uma auténtica proeza. ‘Mas a mcm6ria dos poetas é ura funcio psicol6gice orientada como a nossa? As peaquisas de J.-P. Vernant27 permitem afirmar que a memérai nizada dos gregos nfo responde, de modo algum, aos mesmos fins que yosse; ea néo vis, em absoluto, reconstruir o passado segundo una persps va temporal. A meméria sacralizada 6 em primeiro lugar, um privilégio d& creas eeapae de homens organizados em confrarias: assim sendo, la se ezoncia radicelmente do poder de se recordar que possuem os outros indivi= duos, Nesses meios de poetas inspirados, a Mem6ria 6 uma onisciéncia de ca titer alivinhat6rio; define-se como 0 saber méntico, pela férmula: “o que € 0 {pe werd, o que for". Através de sua meméria, 0 poeta tem acesso direto, ‘Rociante uma vislo pessoal, acs acontocimentos que evoca; tem o privilégio ‘entrar em contato com o outro mundo, Sua memGria permite-the “decifrar Diavisfvel", A meméria no 6 somente o suporte material da palavra canta, { fungao psicoldgica que sustenta a tSenica formula; é também, ¢ sobretudo, © poténcia religiosa que confere 20 verbo poStco seu estatuto de palavra m= seevtcipioss®®, Com efeito, a palavra cantada, pronunciada por um poeta Goudo de um dom de vidéncis, é uma palavra eficar; cla institu, por virtude ‘dpa, um toundo simbélico-religioso que & o pr6prio real. Qual & a partir se ntio, a fungdo do poeta? Com que fins utiliza seu dom de vidncia? Quais Sto os rosistros da palavra cantada, inserida na mem6ria? Qual é, emi meio a tases repstros, olugar © 0 valor da Alétheia? "Tradicionaliente, a fungi do poeta € dupla: “celebrar os Imortaisy ‘cebrar as facanhas dos homens corajos0s”3®, O primeiro registro pode ser fustrado pelo exemplo de Hermes: “Elevando a vor, tocando harmoniosa~ ents s chara, cuj amvel canto o acompanhava, pode conceber com clarezit {eputwoy)'t, através de so louver, os Deuses Imortais ¢ a Terra tenebross (Wein aquilo gue tinham sido no comeco © quis atributos reeebeu cada um {oles na parila..." Situamo-nos no plano dos mitos de cmergéncia e or- enarnento, das cosmogonias, das teogonias. Mas paralelamente Bs histérias ivinas, existe, em toda a tradigio grega, uma palavra que celebra as faganbas individuais dos gucrreiros. Logo, 0 primeiro fato notével 6 a dualidade da tocsa: palavra que celebra, ao mesmo tempo, o feito humano e palavra que penta @ hist6ria dos deuses, Ese duplo registro da palavra cantada pode ser Smllarecido, se for colocado em relacto com, am trago fundamental da organi= Sees da sociedade micénica, Ao que parece?3,com efeito, o sistema palaciano he dominado por um personagem real, encarsegado das fungies religiosas, , as faganhas que lhes custario uma “memoria, ilustre” (HVAyIN ebxhefs )>1. Em uma civilizacio de earéter agonfstico, pode parecer paradoxal que © hhomem néo se reconhega diretamente em seus atos. Porém, na esfera do com~ bate, 0 guerrero aristocrético parece obeccado por dois valores essencias, Kigos © Kudos, dois aspectos da glorin®2, Kudos € a g6ria que lumina 0 ven~ cedor; € uma éspécie de graxa divina, instantfnea. Os deuses concedem-na & alguns © negam-na a outros®3, Ao contrério, Kidos € a gloria que passa de boca em boca, de geracio a gerasfo, Se o Kudos descende dos deuses, 0 Kiéos ascende até cles. Em nenlum momento 0 gucrreiro pode se sentir como ‘agente, como fonte de seus ato: sua vitbria 6 puro favor dos deuses, ea faga- nha, uina vez Ievada a cabo, toma forma soments através da palavra de ou vor. Defintivamente, um homem vale © mesmo que sou idgeas*, Sao oF mes tres do Louvor, os serventes das Musas, que decidem sobre o valor de um guerrero: sfo eles que concedem ou nega a “Memria"=°, ‘ual € 0 estatuto do Louvor? No mundo aristocrftico, ele 6, a prinef= pio, obrigatOric: “Louvai, de todo corasio, a8 faganhas, até mesmo as de ‘oss inimigo, para que seis juss”, dizia o Anciio do Mar®?, Os poemas de Pidaro e de Baqufldes mostram seu aleance: nfo apenas elogios da forca dos bragos, da riqueza dos res, da coragem dos nobres®8. Mas 0 poeta nfo des- pende seus louvores ao primeiro que aparece. © clogio é aristocritic: "Nes- tor e Sarpedon, o licio, ambos de. grande renome, tornaram-se conhecidos 20 of mestes da verdode ne Grécia arcsica para todos nés pelos versos harmoniosos que os artistas de génio compuse- ram, Sio os cantos ilustzes que fazem durar a lembranca do mérito, mas pou Cos cheparam a obté-los"®® Pela poténcia de sua palavra, o poeta faz de wm simples mortal “o igual de um Rei”, conferindo-Ihe o Ser, a Realidade; seu Jouvor € qualificado de Eropog6!, ' Mas, como a Camsa dos Indianos®2, a palavra do poeta é uma faca de dois gumes: € boa ou mf. "O Elogio toca a Censura’, diz Pindaro®. O louvor tem um aspecto negatiyo: “A Maledicén- cia de insaciéveis dentes”®*, que possul 0 rosto de Mamos65. O campo da pa- lavra poética parece estar polarizado por estas duas potéocias religiosas: por aim lado, 4 Censura, por outro lado, © Louvor. No me1o, 0 poeta, axbitro su- premio: “repelindo Censura tio tenebrosa...oferecerei a um amigo, como tuna onda benéfica, o louvor real de sua gléria”®6, Se em determinadas tradi- Bes a Censura € palavra malévola, critica postiva, ela se define, também, através de alguns de sous aspectos, como uma auséncia, uma falta de Lowvor. Qualificado como “tenebros0”6?, Mémos 6, no pensamento 1 tigo, um dos filhos da Noite, o imo de Léthe®®. Por suas afinidades com 0 Esquecimento, a Censura 6 0 aspecto negative do Louvor: simples doblete* de Léthe, define-se como o Siléncio®, Esquecimento ou Siléncio, & a poténeia ‘de morte que se ergue frente A poténcia de vida, Meméria, mae das Musas”. Por tris do Elogio e da Censura, o par que representa fundamentalmente as potencias antitéticas ¢ formado por Mnemosyne e Léthe"?. A vida do guerreiro Se joga entre estes dois pélos. Ao mestre do Louvor cabe decidir, para que um tomer “ini sje ocltado sob o ve nego da obscura? ou que o fag fracassar o Siléncio ¢ o Esquecimento’®, que seu nome brlhe na luz resplan- decente, ou que seja definitivamente condenado as Trevas?S. O campo da pelavra podtica se equilibra pela tensio de potdocias que se correspondem fHuas a dus de um lado, a Noite, 0 Silencio, o Esquecimento; do outro, a Laz, © Lowvor, a Meméria' As faganhas que so sikenciadas morrem: “Esque- nese os mortais de tudo aquilo que arrastaram em suas ondas 08 Yersos que proporcionam a gléria, de tudo que nlo fez Mlorescer a arte suprema dos poe- fas".7® Somente a Palavra do_um cantor permite escapar do Silencio © da Morte; na vor. do homem privlegiado, na vibracto harmoniosa que faz ascen- defo louvor, na palavra viva que é poléncia de vida, manifestamn-se 08 valores positivos ¢ revela-se o Ser da palavra ficaz!. Através do seu Jouvor, o poeta ‘concede ao homem uma “meméria, da qual ele 6 naturalmente privado. Te6- cfita assim expressa brutalmente: muitas pessoas ricas ficariam “sem mem6: rias" ( Gu.vaReOt ), caso nso tivesse exstido Siménides’®, Isso nfo quer di- er que as pessoas tetiam sido privadas da faculdaule de reconstruir seu passa- do temporal, mas apenas significa que nio teriam recebido o bem precioso que Pindaro chama Memédria ou Memorial (HVaMHOV )79. Nao se trata bem dda lembraaga vagn e profana quo os homens nfo deixam de nezar a seus mortos, A "Meméria”, com efeito é quase sempre um privilégio que 0 poeta A palavea “doblet” & proveniente do franc doublet, sigificando “peso de vo «que imitn pot prevent, En fants,» lave inia-nos, ainda, “Tua palavra d= ‘hese etiolopl que ama outs, masque penetrou angus Suna taneira irene”. ade) mamériado post 21 concede, propriamente, aos vivos®®. A “Meméria” de um homem &, com ex- trea exatidio, o “eterno monumento das Musas”, ou seja, a mesma teali- dade religiosa que a palavra do poct, inserida na Meméria, encamada no Elogio. No plano da palavra cantada, a Meméria possu, entdo, um duplo va~ Jor: ela 6, por um lado, o dom de vidéncia que permits 26 poets dizer uma pa- lavra eficaz, formular a palavra cantada. Por outro lado, esta mesma palavra ccantada é uma palavra que nfo deixa de ser eidentficar-se com 0 Ser do ho- mera cantade, ‘Qual 6, nesse sistema de pensamento, equilibrado pela tonsio dessas potiacine anittins, 0 mngar de Aldthia? A.tripla apasigte entre Memtria @ Esquecimento, Elogio e Censure, Luz ¢ Noite, exboga com muita preciso @ configuracfo que df a Aldtieia sha significagSo, Alétheia € una potBocia que Pindaro chama “fila de Zeus” e que ele inyoca junto 2 Musa, quando “se Jembra"®2, Para Baqufldes, Alétheia é a “concidads dos deuses, a Gnica cha- mada a compartithar da vida dos Imortais™®?. & uma poténcia tio grande, que chega a arrastf-lo a€ o terrfvel Mémos: “Certamente, a Censura dos mortals aplica-se a todos os trabalhos, mas @ Aléheia sempro triunfa”.*4 Solidaria 90 Louvor®>+ Aigieia nfo tem una fungio diferente da fangio da Meméris: “A pedra-de-lidiarevela a presenca do curo; nos homens, a virtuds tem por tes- temunho a Sabedoria (dos poetss)¢ a todo-poderosa Aldteia”.8® Em termos Formas, Aidtheia opde-se a Léthe assim como a Mémos'?, Ea est do lado da Luz: Aldtheia dé britho e esplendor, “dd lustre a todas as coisas™® Quando tum poeta pronune una pars de logo, elo Ta por Alcea, meno ime; sua palavra € alethés% como seu exptito (VOB )%!.0 poeta € ca- paz de ver @Alétheia™, ele é um “mestre da Verdade”, Louvor Censura Epaines) Momos Palavra Laz Obscuridade Meméria Exquecimento Altheia Lathe ‘A mesma relagdo Alétheia-Léthe €, muito possivelmente, a que organiza ‘as roprosentagées da palavra cantada consagrada aos relatos cosmoyOnicos: 1s afinidades de Aléthela, promunciada pelas Musas, com Mnemosyne que as riou, Jevam a postular 0 seyundo termo do par fundamental, Léthe. Determi= nadas indicagGes de uma obra de Hesfodo, diferente por seu objeto, mas de apirito similar, permitem dissimular um poueo 0 siléncio da Teogonia. Os trabalhos e os dias obedecem & mesma ideologia postice cue a primeira obra ‘de Hesfodor poeta est sempre inspirado pelas Musas, seu canto 0 hino Imaravilhoso que as deusas o fizeram escutar?®, Como’ adivinbo-profeta, Hesfodo se vangloria de revelar os "desfgnios de Zeus”. Suas palavras sio PA — Bibliotet 22 os mesves da verdade na Grécia acsica quulificadas de efron —_ 85, palavras de um cardier religioso por tina duplarazio: pela naturezareligiosa da fungio poétca que qualifica He~ Sedo, ¢ pelo cardler sagraio dos trabalhos da Terra que o poeta se prope 4 revelar ao lavrador de Ascra, No pensamento de Hesfodo, o trabalho da ‘Terra € uma prética inteiramentereligiosa: os trabalhos so aqueles que 0s deuses reservaram aos homens, os dis, que distribuem os trabalhos no correr 4o ano, s40 0 dias de “Zeus muito prudente™™; aguele que conhece o enca~ ‘eamento ritual dos trbalbos, que se lembra de cada ito, sem cometer sequer tum falla por esquecimento, € “homem divino”. A rigorosa observincia das ‘datas, a ropartioto os dine fies dos dis proibidos,& denominada, explici~ tamonte, por Hesiodo, Aleta” Em Os rabathos eos dias 2 Alétheia€ d= pla: ela, 6, primeiramente, a Aldiela das Musas, que 0 poeta promuncia em home delas'e que se manifesta aa palavra mégico-Teligiosa, arteulada & me- ti6ria poética, em segundo lugar, ca é a Alétheia que tem como pr6prio os vraior de Ascra ~"Verdade” que, desta vez se define expliitamente pelo “o-esquecimento” dos preceitos do poeta, Entre as duas nfo hi diferenca fundamental: 6 a mesma Aléthew, consderada sob dois aspects, ora em sta relagéo com o posta, ora em sua relagio com 0 lavrador que a escua. Se 0 ‘rimeiro detéin-na pelo simples privilégio da fungfo poética, o segundo nfo pode alcangé-ls, a no ser por uth esforgo de memvria.O eamnponés de Ascra 56 conhece a Aldihela na ansedade de uma memriaobcecada pelo esqueci- mento que pode, repentinamente, obgcurecer seu espfrito © privé-lo da “re ‘aco dos Trabalhos e dos Dias. & a nivel dos disefpulos que se acusa a complementaridade do Aléheia e de Léthe. Mas, por trs da rela, de algum thodo “ctiwolSgia” da Aldea do lavrador com Léthe pode-se reconhecer, a nivel do mestre, uma outra relaglo homéloga de Aldheia com Léthe ~ n80 tnuis Lie, esquecimento dos homens, mas Léthe, filha da Noite, Nesta dupla felagdo entre Aléheia © Léthe, uma no plano religoso,outra no plan lingis- tio, apenas a primeira € fundamental: é ela que nfo 96 estrutura a representa ‘lo da palavra cantada consagrada ao louvor do personagem real, como tam- tim organiza o campo da palavra dedicada 8 celebragdo da faganha guerreira, ‘Se a primeira funcao do poeta é atestada sorente através dos ikimos cos da literatura teogGnica, a fungo de louvor censura se mantém, até a Gpoca clissica, sustentada por poctas como Pindaro © Baquiides que conti- ‘muom desempenhando, para as minorias arstocréticas, 0 papel que seus pre~ decessores assumiram. Mas, neste momento, o sistema de. penssinento que ‘oncagrava a primazia da pala cuntada como poténciareligiosando é mais do gue um anacronismo, eujeforca de resisténciareflete a potencia obstinada Ge uma determinada elie. O poeta passa a ter apenas a misslo de exaltat os nobres, de louvar os ricos proprietérios que desenvolvem uma economia de fnxo, de gastos suntudros, © que se orgulham de suas aiancas matrimoniis © se envaidecem com sus quadrigas ou suas proczasatlticas™®. A servigo de tina nobreza cala ver mais vida de Iouvores, na proporeio em que suas prerrogativas polticas so contestadas, o poeta reafirma os valores essencials fe sua fungdo; mas isso é feito cada vez mais com tanto esplendor, que tais ‘alores comegam a pareosr antiquados e, na cidade grega, deixa de haver hi {ar para este tipo de palavra mgico-religiosal, na media em que este ss- meméria do poste 23 tea de valores 6 condenado pela democraciacfsica. No mfxino, 0 poeta re aldo due um para encaregado de devolver elite que o sustnta tia imagem enbelocida de seu pasado. surprendentso contrasts qu se belo com o carder tdo-poderoso do poeta na sociedadegrepa desde a Gfoca icc ado fim da paca arcaca, Na sociedad mini, o pot t= ” como aquele que entrega a lingua de Adrasto 20 adivinho Anfiarau®®, "Louvar 0 yalente”®® 6 0 que diz respeito a justica mais estrita; © Ancido do Mar diia “Lowvai.de todo coracio as facanhas, até mesmo as de vosso inimigo, para ‘que sejais justos."® De um certo modo, o clogio uma forma de jusiiga®l © poeta canta um louvor, esté seguindo a via da justica®; os poctas io “homens de talento e eqiidade”®; sua Aldiheia 6 reforgada por Dike De fato, no sistema de pensamento reigioso em ue triunfa a palavraeficar, ‘lo hd nenhiuna distincia enire a ‘verdade” e a justiga®®: este tipo de palavra «st sempre em conformidade com a ordem césenica, pois cra-a, consttuindo © instrumento de que ela necessita. Dike sublinha e reforga o aspecto “realizagfo" da palavra mfgico-reli- siosa, mas Péstis revela uma nova dimensio: as relagdes deste tipo de palavra com © outro, dimensio que definird, igualmente, o valor complementar Pei- ‘hd. A Péis 6 tradicionalmente a confianga que vai do homer a um dei ou A palavra de um deus; ¢ a confianga nas Musas, £€ no oréculo®, mas a nogdo de isis esté também freqientemente ligada ao juramento®? € destacou-se, a propésito, que ela era, no mundo grego, rigorosamente paralela& Fides dos omanos, correspondendo, assim, 2 nog&0 indo-curopéia Ue eredo®#, Quando Teseu e Pirftoo se fazem mutuanente um grande juramento de amizade, gra vam esse mtuo compromisso nas paredes da eratera que guardou o sangue as vitimas, slando-a no solo™: mas sua pis nfo € somente o comprornisso tuo, a confianga reefproca que funda o vinculo contratual, € tamiyém a 16 ta eficdcia de uma palavra mdgico-religioss. “Poderosa deusa”?), Piss tra- 4duz-no mundo divino uma conduta psicol6gica do homer. Parece’marcar um tipo de adesto intima do individwo, parece sero ato de f€ que autentica a po- tncia da palavra sobre 0 outro, mas, nas realidade, Pts se revela melhor ‘como 0 acordo necessério e constrangedor, assentimento requcrido pela por tEnca de Althea, como reqer toda palvra efi, Tene, portant 9 eo. ximar-se de PeithS que é, som hestacéo, a poténcia da palavra tal Como 86 exerce sobre o outro, sua toagia sua sodugSo, tal como o outro a experimenta. Peiihé, pela mesma razio que Piss, & um aspecto necessétio da AI&- ‘heia,'c 0 exemplo de Cassandra mostra sua importancia para o funciona: mento da palayra_mégico-religios. Cassandra € “profetizaveriica ( @dnG6paveig. )72; niio € um desses adivinhos que “procuram enos- sar"? mas, por te trafdo um juramento, por ter riicularizado a PGs? foi privada por Apolo do poder de persuadit?: sua palavra nif exerce neakum Poder sobre o outro. O defeito ¢ to grave que, ainda quc sua palavra se ef- caz, Cassandra parece poder promuneiar somente palavras “vis” ( Gixpavea.) ou mesmo “nfo fidveis"™ privada de Peith, ela ext ao mes- ‘mo tempo privado de Piss, Incapay-de persuati, aAldheia de Cassandra es- 38 os mestros da vordode na Grésa arcica th, por assim dizer, condenada a “nfo-realidade”; sua Aletheia de profetiza cacpntra ameagada em seus fundamentos. O que 6, entfo, a “persuaso"”? No fo milton, Peithé 6 uma divindade todo-poderosa, tanto em relago Perjeuses quanto tos homens; somente a Morte pode Ihe oferecer resis ‘cia, Peithd dispée dos “Sortilézios de palavras de ‘mel"?8; tem 0 poder de fascinars As pelavras soa dogura magica, esidindo sobre os bios do ora See cans corresponde, no panto grego, a0 poder que a palavraexerce nine, no plano miico, 0 charme da voz, a seduczo, « magia Nrrbon OEMyew 5 ERE, aS palavras Sie Ocoee LOI ‘aeln in re buldrio®®. Sob 2 mascara de Thelxinoé, ela € uma das Musas, € sob ade Tel- vepela, uma das Sereas*!. Mas, como estas dltinas®?, ela 6 fundamental- epti, ubiraente:Donefca e makifica. A lado da boa Peithé que acompa nha os Reis sfbios®>, existe uma outra, que “faz violéncia"®4; esta é a “odiosa filha do Desregramento”®5, de Are, que “carinhosa ¢ doce” “confunde com ‘suas indicagées”®5, A malvada Peithé & insepardvel das “palavras ‘carinhosas” C alpodror 26yor )87, que sio os instrumentos do engano, as armadilhas 6 Ake eraves de un de seus aspects, Peith,tio estreitamentearticu sae e Mietela, relaciona-se com poténcias negativas que sfo da mesma espé- ce de Lethe ‘A bieaidade de Peiths particularmente bem compreendida, no pla- no mifico, através da rela que esta potéaca estabelece com outras foreas ‘Gigocss submetidas & mesma ambigtidade. No pensamento mitco, Pith, “que nunca se viu rejeitada”®®, é associada, junto a Péthos © Hfmeros, & deusa de “cutis pensamentos” ( GlOROWNTG _), Afrodite™!, Esta pode enganar 3 “Kota oe homens moras eos deusesmortas; por esta azo, temo papel principal no oélebre ““Engano de ‘Hera’, Quando Hera quer fazer nascer em FneteMjcaefo amoroso ¢ langé-lo no sono doce, nfo canta apenas com a po- Fabs de na propria Charis, que se manifesta no corpo lavado de, ambrosia, fo resplendor do Geo odorant ¢eeluzente, nos cabelos penteados, “as belas ¢ {ivinastrangas”, no vestido de Atena, as j6ias, o véu, os pésluzentes. Para GRRE pnsiel ete corpo pleno de todas as poténcas de vitalidade, Hera so- plica a Afrodite que Ihe conceda “ternura” ¢ ‘“‘desejo"9? com que seré capaz: pe omar tanto of mortas quanto os inorais; pede-Ihe o “charme” todo-Po- eroso que Iie permit, diz ela ~encobrindo o objetivo de sua manobra itnjedy staves das palavras”*, convencer os coragSes de Tétis ¢ Oceano, cRoTha ito se véem privados, por obstinadas batalhas, da cama e do Para esta obra de persuasiio, a Afrodite “que ama os sorrisos"95 tira de seu sig afta bordada com os mis variados desenhos, na qua residem todos os charmes:"Af esto a ternura ( @OTHG),o deseo (THEPOG ), as conver Sages amorosas ( daptaris,) com propésitos de seduséo ( RE POOIS ), que ‘eRfondem o coragdo dos mas sibiow % Toda a cena se past sob 0 signo da Fen Feith, qv scoparia a Afrdie “ida sonient ef ations e+ ee ces Jo mening’, e sob este sign, conjugndo coma “carinhosa” Apa eet o engano do “prazer suave, da temura e da docura"®®, Mas atrama posi Giua que aswcin Afrodite, a mulher soreidente, a palavra de soduglo, Peithd ambiguldade de palavra 88 Apt so seu aspect benéio, equiva uma trams negative na qual cada {er denigs tomo posi seu correspondent negative #0 pepo pensar Imo, ape Afro se pbs um out Engon «Fh da Nowe ma pottnca megaiva que € a irmi,de Léte © Gas “plavras do cngano” RSTO Teste PP, Masa “palayas docopeeo"!, gus sao 0 versn {das palavras amorosas”, encontram-se sob o patronato de Hermes, 0 no- tumo, o mestre da Peithd de “asticia” (BoAta)!01, aspecto negativo de Afrodite PeithS102; eséo estas mesmas “palavras de engano”!03 que Hermes femetga Pandora a muler fatal mafic, a sombra da mulher “de suave pax Conversas | Mutter | Peiths | Apt Afrodite = amorosas | benéfica | suave | seducio Palavras | Mulher | Peithé | Apdte- oe deengano | maléfica | violenta | duplicidade Na qualidade de Peihé ou Apéte,& plavra , no pensamento mito, ‘una pottncia dupl poitiva e negativa que, nese campo, & perfetanente tnilga a outrs poténissambfgus, Exists, num cero sentido, una equ iBncia ene elasca plavraambivalente € uma mulher, €o deus Protea tm t= ‘ido matizao, Em tm pensimento poetic due se mantémn sense em relao 2 estas asoclages nifteas, sua meméria nos €atstada: Piro “compara” Sou oma a uma mitra lid, “oda bordage ce harmon", O poema & de fato, dir& mais tarde Dionfsio' de Halicarnasso!6, um tecido precioso que nce sob as taos do poeta a0 reunit varias linguas em uma $6, @nobre © 1 amples, extrondindn a natural const ea desenvolida, a doce e & ‘mordiz, Mas oteigo matizado ond se entelagam harmoniosamente os con tranios& enuanto tal seoelants rote, ext deus mpl evaridvel que gun, Togo, devo © loo, que reine tas ae formas em una 35107. Da ‘renin mancia, 1 sedugGo de uma playa potic que Se exprime polos “pra- Tres do cartoas medidas ¢os rts”, Canflogs A sodugdo que exerce na mulher pelo “charme de seu olhar” ( xdpigSwews ), pela “docura per- suasiva de sua voz” (paviis mOavoTns ——), pela “atracfo de sua beleza corporal” ( popeficéxaywydv eldog )!98 A correlacso entre os diversos anor do pensamento mic se tad, inchsive, em fos de vocabuléa t vita bontada” de. Afrodite, a0” lado. das “conversas amorosas” ( dapiatig ) encontra-se Parphasis, “propSsitos sedutores”", que tam- beim € uma poténca que confere a plavea do rei justo sua fora de sed, teu poder de conesder “urna. fevancho. sem combate", “arrehatando C nupargéuevor ) os comes por iio de palavrasaperiguadoras” 0, Ea toesma Perphass ge aparece na VIII¢ Neméia de fndaro:€ “companbeira dos discursos insidosos® Caiohtot uOBOL), “a opersriadeaseis”, "a peste malfeitora”!, Benen para 016i de Suse, para Pindero constitu Mina poténcia malic: ee acura de fer "praticads Volencia a0 respec 40 os mestras da vordade ne Grieia acalca do métito”, de ter procurado “estender a fama corrompida de homens sem valor”. A’ Parphass 6, nests ‘canstincas, 0 charme de omero sverng )14, e Pindaro denuncia-a como um engano, uma poténcia de {hates "arte enganeno,sedvindo-nos través das ula, Para dei festa poténcia que é tanto Peithd como Chris, tadaro fala de umn “desdobra- imento"H3 da Altes “As vers, os dcres dos moras vio al da és Fste desdobramento & decepeio, Apdite, E 0 momento em que, Smut das “engue talandor eo heel trae eel" os “Conudvios" tendem a se confundit, articulando-se numa sfntese, Entio, a “Miho tevonree um matic de volofea quo slteram eeu esplendor, sua luz: ‘tApdtell5 tende a recobri-la, a Léthe a obscurect-la, Pocma = Pérphais } Poets =) Alfa c Apt + (: Proteu Ret Aldiheia e Pseudés ie arab | epee L ute [Arie | Alii ae \ pana { Pademos, inclusive, ser mais afirmativos: de fato, nfo hd Altea sem uma parte de Léthe. Quando as Musas dem a “Verdade", anunciam, 20 Tnowho tempo, “o esqecimento das desgracs, a tua Ys’ preocupastes Co hneposueny te KaKaV Gunavudre wepimpdov UB. Sob 0 ito he sen charie, do prazer Gue elas provocan, 0 mortal foge do tempo otidimo, 0 tempo das misérias ¢ das balbdrdias. O esquecimento invado-o Sin homem leva’ luto em seu coragdo novigo frente As preocupasSes, ¢ sua alma se consome no desposto? Pols Gue um cantor, servente das Musas, colo- ine of grandes ‘eites dos homens de entfo ou dos deuses bem-aventurados, Fubvantes do Olimpo: logo esquecerd seus desgostos, de seus posares nl Tirso Tombrare™™7, Aguilo que para o posta € meméra, par, outro €e3- uecimente, A paluvia do poeta € como 0 canto das Sersias 4%, ims das Macas sua potgneia Je esquecimento € semolhante& que difunde 0 Zeus de dis "Ent sua presenea, 0 homem esqusce tudo que a vide humana traz de ifimento e tertores"1 atua da mesma manera que a droga que Helena jpn co uma crater: “acai as does, 2 c6lera, desta todos os mais" ‘G81 a natura deste Esquecimento? Nao € mais apoténcia negativa a filha {de Noite, que se opbe Aldea lminosa, Léthendo 6 aqui a espessa cbscuri- dade; € a sombra, a sombra que encerra a luz, a sombra de Alétheia. F preciso distiaguir duas eopéecs de esquecimento que slo, entre si, como os gémeos Thnatos @ Hipnos: so prieco € negro e se le tem "um corago do ferro, qin alma de bronze, implacdvel, ex seu peito", 0 segundo, Sono, 6 branco, “Mfangillo © doce para os homens”™21, Ao Esquecimento-Morte ofe-se © Tequzeimento-Sono, ao Esquecineno negative corresponde 0 Esquecinento postivo, A polavr’ cantad apasiguadora das “inelutéveis preoeupagSes” (C yoton Gunzavéov pehedovev ) contém, diz Apolo, tes prazeres Satderiag Amor © sono suave”122, O bom esquecimento €0 sono que 86 apo~ dena dguia de Zeus, 2 “nuvem sombria", 0 “suave fechar das pslpe- eto 13, $o sono amolcedor que faz Ares esquocer-se do ferro dspero das ambiguidade da pala a langas!24, 0 sono que vertem os cantos eo vinhol25, Léthe ndo & mais a filha ‘da Noite, mas a mie das Charites!26, das “visdes brithantes"!27, da alegeia dos banquetes © dos “eflfvios cintlantes” ( y&VOg) que surgem nos pom poses festins!28, Léthe acompanha Eros co suave prazer das mulheres!2, Noite Thinatos (negro) Léthe (Momos-Ate) “Hipnos (branco) Léthe ros-Afrodite) | kndres Nao hé, portanto, de um lado Alétheia (+) € do outro Léthe (-), mas, entre estes dois pélos, desenvolve-se um zona intermedidtia, na qual Alétheia se desloca progressivamente em ditecSo a Léthe, e assim reciprocamente. A “negatividade” néo est, pois, isolada, colocada & parte do Ser; ela é um des ‘dobramento da “Verdade”; sua sombrainsepardvell30, as duas poténcias an- Litéticas nfo sio, portanto, contraditéras, tender uma a outra; positive ten- ‘de ao negativo, que, de certo modo, “o nega’, mas sem o qual no se sustenta, Trata-se, cntio, de nuangar as afirmagies precedentes e de mostrar que nem 9 rei de justiga, nem o poeta so, pura e simplesmente, “méstres da ver~ dade”, mis que sus Alétheia esté sempre recortada por Léthe e desdobrada Por Apdie. O Ancifo do Mar parecia ser a prépria “Verdade”; ora, Nereu, assim como Proteu ¢ outras divindades marinhas, & também um deus-cnigma: ‘quando Herécles quer interrogé-lo, ee se oculta, se transforma em gua, em ‘ogo, toma mil formas, é ondulant, inapreensfvell9!, Nao é um caso insélito, Piteus € este rei de justiga qu» a imagina¢So miftica representa no exereicio de sua fungSo judicial, que é tido come possuidor de um grande saber mantico, mus est também estreitamente associado as Musas er cujo templo, diz-se, ensinou “a arte das palavras” ( X6yov téxvny )132; €0 inventor da “reid fica", esta arte de persuasio, esta arte de dizer “palavras enganadoras seme~ Tantes & realidade”. © tipo de rei-julz, asociado &s Musas © expert em per~ suadir, & inclusive, uma das figuras dominantes do prOlogo da Teogonia he- sidica. Quando Hesfodo celebra a soberania humana, estreitamente artcula daa poténcia sobcrana de Zeus, ele esboca a figura do rei ideal que faz a jus tiga através de sentengas corretas; este rei recebera das Musas wm don de Palavra: ‘de seus Idbios saem apenas palavras doces", sua lingua é um suave 16360", Se sabe dizer a Alétheia, assim como convém um rei de justica, sabe também encantar, seduzir, como o poeta, e, como este, “oferecer uma revan~ che, sem combate”, “arrebatando os coragées com’ palavras apaziguado- 1237133, Mestre da “yerdade”, também conhece a arte de enganar. A mesma “ambigidade colore os sonhos que pareciam estabelecer coniato com a Alé- ‘hia Gnica: no ordculo de Anfiarau, “Verdade” aparece acompanhada de ‘Oneiros, mas 0 Sonho esté vestido com um traje branco jogado sobre um = tro negrol4, Como diz Plutarco, alguns sonhos encerram tanto © “enganoso 42 os mostres da vordade na Gréca arcaica © 0 confuso” ( 18 émarmhv xa xouciQoy ) quanto o “simples € o ver~ fweiro” (1d Gov wal GAn06¢ )15. E por isso que na ha dos So- hos, Apdte se ergue frente a Alétheia'%®, Nao hé uma Alétheia mantica sem ‘uma parte de Apdte, que os sonhos encerram “suaves e enganosos™157, Desde 1 Odlaséia, os sonkos “veriicos” 08 sonhos “enganosos” esto estreita~ Inne sssociados: estes dlimos suem da porta de marfim, trazendo “palavras ‘sem realizacao” ( Ene’ Gxpdavea.); os primeiros provém da porta de chifre, “tealizando a realidade” ( Ervpa Kpaivovor, )!98. As mulheres-abelhas do Hino homérico a Hermes sto poténcias oraculares que consentem em dizer a “verdade™, quando alimentadss com © mel dourado; mas quando privalas {iis provardon deseneamntar, Gesvar do bom camino}: a Apateobitera a ‘Aldicia. A oivel ritual, esta ambigtidade deixa-se perceber partcularmente tem pela consulta de Trofdnios 4 Lebadia, onde Mnemosjne possui um papel due ¢representado, por outr lado, por Aldteia, De fato, antes de escorregar mm boca do ordculo, 0 consultante tata de behersiniullaneamente a ggua de duas fontes, a de Léshe 4 de Mnemossne. Ao beber da fgua de Léte,tor- husse algo semelhante a um moro, mas pela virtude da dgua de Mnemosine, {que €0 antidoto da prineira, mantém 0 privlépo de lembrar-se daqullo que Sit e euvin e, por conseguint adquire a foculdade de ver e ouvir em um mundo onde 0 ordinério mortal nfo mais v6, nio mais ouve. O jniciado de ‘Troftnios possi, desde entio, 0 mesmo estatuto duplo € armbiguo que estes homens excepcionais, os adivinhos Tiréias © Anfirau, que sfo "vives" no ‘mundo dos mortos, provides de uma “meméria" no mundo do esquecimen- uo © mundo divino ¢ fundamentalmente ambfguo. A ambitidade muanga os deuses mais positives: Apolo €o Brithante ( @otBog, ), mas Plutarco nota ‘qu, para alguns, ele € também o Obscuro ( EK6T1OG } © que se, para uns, as Magus e a Meméria se pein a ou lado, para outros, aparecem Esquecimento CAfiOn « Siléncio (how), Os douses conbecem a "Verdade”, mas sa- fem também enganar!™? pelas aparéncias e pelas palavras. Suas aparéncias io armadilhas para 0s homens, suas palavras sto sempre enigmdtcas, pois Secondem tanto quanto revelam, 0 orfculo “mostra-se através de um vB, as ‘sim como uma jovem desposada”!43, A ambigiidade do mundo divino cor- responde A duaitade do humano, Existem os homens que reconhecem a spa~ ‘elo dos deuses sob as spartncias mais desconcertantes, que saber entender ‘0 sentido oculto das palavras,e depois esto todos os outros que sedeixam Ie= var pelo disfarce, que caem na armadilha do enigma! 4, ‘Stio as Musas!45 que fazem, no prélogo da Teogonia, a mais notavel profisio de. ambigtidade: “"Sabemos dizer muitss coisas enganosas ( etSeq ), scmelhantes a realidades ( ér0poistv Sota ), mas sabemos também, quando queremos, dizer coisas verfdicas ( 4kn@éa )."146 As Musas sabem dizer a Aldtneia e a Apdte, qe se assem, chegando até a se confun- dir, Aléheta. A formula €notdve: em primeir lugar, porque representa um ‘stigo intermedidrio entre o plano mftico,o da dupla Apdte,e 0 plano racio- tal, 0 das alerhés © pseudés; em segundo lugar, porque traduz tanto a ambi flidade do engano, quanto 0 engano da ambiglidade. No fendmeno da Apdie, fstf a idéin fundamental de ua presenca na ausdacin e, complementatiae ‘ambigUidade da paloves 43 mente, a de uma auséncia na presenga!47: a psyché de Pétroclo Ihe & “seme Tante” em todos os pontos, mas quando Aquiles quer tomé-la, 6 consegue sgarrar 0 vazio. Pétroclo esté bem ali; ao mesmo tempo que Aguiles 0 ve, ele no estd ali; Aquiles sabe disso!48, F este cardter falaz do ambiguo que pro- ‘cura exprimir 8 frmula: “as coisas enganosas semelhantes 2 realidade™ (C yedben... éripotaw dota). Desce a Odtsséia esta {Srmula define a pottncia da “ret6rica, tanto ade Ulsses como a de Nestor!#8, ambos mes tres em méts. Ea esta mesma formula a que 0s Dissoi Logoi ecorrem para ‘specficar a tragSdia ea pintura o melhor nesss duas techn 6 aque qi be enganar ( 2EqRatAY ) fazendo coisas que, para a maioria,sio semelhantes Averdade ( Oyoia -..r0fs GANBvoIS RoWk@V. "3U. Em wodas essas expresses, a passayem de Alétheia a Lhe traduz-se em termos de “seme= Thanga", nog quase racional, pois, se mum determinado nivel, o pensamento _gfego arcaico estabelece uma verdadeira equivaléncia on, ao menos, um tipo de “participagio” entre os dois termos da comparacio!!, ela tende cada vex mais a uma, teoria fundamental, a teoria da miméss!*2, Na expressio VovSea... éripoimw duota "0 caréter ambiguo do falaz 6 nitida- mente notado, uma vez que os SOG so as mesmas realidades que os @nOEa—¢ que, ao mesmo tempo, os yebBea se fundam através do jogo da semelhanga nos @A7@6a; mas, ainda, a ambigtidade que o pensa- rento mfico nto analisa, porque ela Ihe € consubstancial53, & aqui o objeto {de uma andlse racional que procede em termos de imitaglo, de mimesis. Entre 2 potncarelgosa Apdo estas frmules, nas gus Pads €semelante a Alenhés, exisic toda a distincia que separa uma nogio de “duplo”, como a de tiBoov de une sepreseniag Figurada, pra “agen, al com acon cebe a 6poca clisscal 4, Assim se acha prefigurada, em um’ pensamento que separa do fundo mitco onde se enralza a férmula do Crétlo: 0 légos & coisa dupla” (BurhoUs): alethés © pseudés'55, eo i cae Musas Logos, Alétheia Aléiheia | Nereu alethés e Alethés e - pseudéa e Apdie | Deus de métis |Sonho{ PF] (-éuumoisin | Psewdés Preto | “homoia) Desta ambigdidade fundamental, iram-se duas conclusSes: por um la- do, 0 “Mestre da verdade” 6 também im mestre do engano, Posui a verda— de, € também ser eapaz de enganar; por outro lado, as potEncias antévas ‘linea © Léthe ndo fo contradisrias n0 pensamento mfco, os contrdsios Sao complementares!Se, A nfvel de um problema particular, verficamos un trago geral para uma Iogica do mito, ‘Aliheia est, portanto, no centro de uma configuragio que organiza & oposigo maior de Meméria & Bsquecimento, A este par fundamental corres- 44 os mestres da vordade na Grécia arcaica pondem pares particulares, tas como Louvor ¢ Censura, ov pares mais gerais, Como Dia € Noite, Mas, no campo da palavra mégico-religiosa onde funciona f oposigio de Alfiheia © de Léthe, a Alétheia esté articulada & Dike e a duss potncias complemontares, Pfs © Peithd, E através desta tiima que se insi= hua a ambigtidade que langa uma ponte entre 0 positivo eo negativo. A nfvel Go pensamento mftico, a ambigtidade nfo apresenta problemas, visto que to ddo este pensamento obedece a uma I6gica da contrariedade, da qual a ambi silidade constitul um mecanisino essencial. Mas se encontramos em Hestodo, ppor exemplo, um tipo de traducdo conceitual da ambigtidade, 6 porque a am- bivaléncia comeca a “constitu problema” em um pensamento que nio é mais rmitico © que nfo € ainda racional, um pensamento que €, Je algum modo, n= termediario entre a religio ea filosofia. Por definisfo, « palavra & un aspecto ‘da redlidade; 6 uma poténcia eficaz. Mas a potGncia da palavra néo est apenas ‘orientada para o real; é também, inevitavelmente, poténcia sobre o outro; niio hd Aldeheia sem Pelthd, Esta sepunda forma da poténcia da palavra 6 perigosa, pois ela pode ser iuséo do real. Logo surge uma inguictagdo: a sedugéo da palavra € tal, que pode se fazer passar pela realidade; 0 I6gos pode impor a0 spfrito humano objetos que se assemelham a realidade, a ponto de se confun- dit com ela, © que no sto, entretanto, mais do que unta V8 imagem. Mas esta inguietagdo, que se manifesta através de alguns versos de Hesfodlo ou Pindaro, s6'se torna um problema fundamental para um pensamento capaz de levantar ‘questo nova, inédita das relag6es entre a palavra ea realidade. ‘Se procuramos formular a problemética imanente, de algum modo, a uma coneepcdo da palavea em que a ambigidade € um caréter fundamental, podemos dizer que & ambiglidade da palavra 6 o ponto de partida de uma re- exo sobre a linguiagem como instrumento que 0 pensamento racional de~ senvolverd em duas diregdes diferentes: por um lado, o problema da poténeia dda palavra sobre a realidade, questo essencial para toda a primeira reflexo filos6fica; por outro lado, o problema da poténcia da palavra sobre o outro, perspectiva fundamental para 0 pensamento ret6rico e sofistico. Alétheia si- fhacse, portanto, no corago de toda a problemstica da palavra na Grécia ar= caica: as duus grandes potencias yao se definir em relagdo a ela sea reitan- ova, seja fazendo dela um valor essencial. ‘Os problemas, na verdade, néo se colocam espontaneamente através do simples jogo das ids: a histria das idéias nfo constitu nunca “seu préprio principio de inteligéncia"!57, Para que tals questOes surjam, para que a filo Sofia lovante o problema das relag6es entre a palavra e a realidade, para que a Sofstica e a Ret6rica construam uma teoria da linguagem como instrumento de persussio, € preciso que esteja consumada a rufna de um sistema de pen- ‘mento onde a palavra é tomada dentro de uma rede de valores simbSlicos, ‘onde a palava € naturalmente uma poténcia, que age espontaneamente sobre © outro. Estes problemas s6 podem ser colocados, portanto, em um nove qua {ro conceitual, a luz de téenicas mentaisinéditas, sob novas condigées sociais politica. v O Processo de Laicizacéo Por mais abeoluto que exja 0 império da palavra enfgico-religieal, algun imeios socnis parecem ter ecapado de sus influénca, Desde aépoca mais re~ ‘mots, possuem um outo tipo de palovra: a palavra-didiogo. Estes dois tipos de palavra opéem-se em toda uma série de ponts: a primeira é eficaz, intem- poral; € insepardvel das eondutas © dos valores simblcos ela 0 priviléio d um tipo de homem excepcional. Ao coatrério, a palaves-diloso €liiza- da, complementar 8 ago, inserita no tempo, provida de unm autonomia pr6- prin amplida 2s dimensGes de un grupo soca. Este grupo social €formado pelos homens especializados na Tuncéo guerreira, cue estatio particular p rece prolongar-se desde a época micénica até a reforma hoplita, que matea © fim do guerrero como individuo particular © aextensio de seus privilégios 40 cidado da Cidade? No plan das estruuras sociais, como no das est ‘as mentas,o grupo dos guerreiros ocupa, de fato, um lugar centalc excep onal. Por um lado, nfo abrange mais o grupo familiar do que o grupo terri torial: 08 guerreiros 830 dvididos om classes etérias¢ grupados er confraris. Estio ligados entre si através de relagoes contratuas,e nao através de Iag0s de sangue ou parenteseo, Por outro lado, © grupo dos gucrreiros se singuli- 22 por comportamentose por tenicas de educagao. Como assim estemmunhan as sociedades dries, os puerreros do submetides a provas iniiatGras que asseguram sua qualificaglo profissional, consagram sua promosio social © detinem a vocagio para morte, que os dstingue radicalmente dos vivos. Ee estatuto parcular do grupo dos guereiros define-se, da mesma forms, em algumas prticasinsUtucionas® Jogos funerdris, divisio do Dut, as” Sembléias deliberativas que, por sua solidariedade, definem uma espécie de campo ideol6gien,espectico dest grupo social. Bxtrair os traps essencais da palavracdidlogo ~ que se opie absolbtamente palavra mégien-religiosa— consist em fazer um desdobramento desias diversas insutuigdes, mostrar fas perspectives reciprocas,obier, através de seu funcionamento, una e- presentacéo do espago original, acancar, enfim, determinadas estruturas reniais init ‘Com os jogos funeréios,situamo-nos em um plano soidamenteestru- turadot, onde gestose palavrastEm significagbes dcfinidas®: plano socal, no dual se atestam costumes muito antigos,enigosestados do pensamento, mas também terreno de pré-diteito, "momento prvilegiado de vida coletiva on de surgem procedimentos que serio mais tarde os mesmos de um dieito consttufdo®. Os jogos no so improvisados, obedecer a repras. Quando 0 fogo de Pétroclo se extingui, Aqules “reteve ali sua gente para reunit-se em 45 45 os mestres da vordade ne Gréca arco grande assembiéia_(ebpiv dyGva), Das naus, trazia os _prémios (Beqep' 26.0) bacas, trips, cavals, mula, robustas cabegas de bois, pi- sioneias de bes enturas¢ Torro cinza"?. A assemblin dos guereiros define © espago material dos jogos: € dentro de seus limites que se desenrolama as Principais provas. Mas 0 espago definido pela assembltia no € um espaso Informe, éum espago centrado: quando Aquiles traz os prémios que, por se~ nerosidade principesca, pée em concarso, cle os “‘deposita no centro” (46 péaaov Bone )®. Isto nfo & um acaso, € um costume freqientemente atestado, \p6s os funcrais de Auiles, quando os aqueus ergiram “o maior, 0 mais nobre' dos tmulos", Téts, em pessoa, organizou jogos funerrios: 0s Drémios incompardveis “que” el havia obtido dos deuses para o concurs0 dos ‘hefes aqueus", “deposita-os no centro da assembiéia” Ofike éo@ ev Gyav. )». "Este nfo € 0 Gnico exemplo: quando 0 autor do E: do nesi6dico descreve a corrida de earros precisa que, “no interior da asse bigia (Evede dyBv0s), viaese, destinado ao vencedor, um grande tripé de cure, obra ilustre do grande sibio Hefafstos"!®, Ciro decreta que fs bens dos persas so a partlha da guerra, empregando a seguinte ex- pres: “Eftes bens slo como prémios -depositados no centro” Cv péow yap ABn xeteat cadta ta dyaB4)!!, Tedgnis evoca uma justa «que enfrenta com um smigo, uma just cuj prémio € urn rapaz na flor da ida~ Ae 0 prémio (&@Aov) encontranse “no centro” ( &V Hédo@ )12. Deméste~ nes, fnalmente, fla no sentido figurado de “prémios depositados no centro” (GOAa weipeva 8 yéow )!. Se, no quaulro da epopéia, a expressio impée a imagem de uma assem- biéia de puerreiros sentaios em efrculo, qual €0 valor deste ponto central? Qual €a imagem mental que veicula este costume institucional? Para defini 0 valor do centro neste contexto de joao, 6 preciso se fazer um desvio até urna instituigao que ocupa um lugar fundamental no mesmo grupo social dos ho- mens especiaizados no ofcio das armas: a paris do butim. Na maior dos casos, cada combatente trata de conquistar as armas de seus inimigos, cada um s¢ esforga para fazer um butim “individual”, Mas, juntanente com a to- mada (mainnise) imediata e pessoal dos bens que vio engrossara parte das ri- quezas que cad um possui leva consigo para a tumbal, existem sinais de tim outro costume: os bens tomas ao inimigo so depositados “no centro”. (Quando Teégnis de Mésara evoca 0 infortinio dos grandes propriettis, as despragas da cidade, o naufrégio da Order, deplora o fato de ver apenas de sastre pilhagem: “Com forca viva, eles (0s vile) pilham as riquezas, toda fdem desapareccu. . . Quem sabe s& 0 butim é também objeto de uma par Tha por igual?"15.Apartina do butim € Baoyds & td HEdOV ,, pois 0 butim é bem precisaments “o que é depositado ao centro”, Ulisses captura, cm uma fo noturna, © adivinho Helenos. Levaco “ao centro" (gnécovy!®, por duas raades: em primeiro lugar, porque € 0 ponto mais & Vista da assembléia, e, em segundo, porque € 0 lugar reservado a uma “bela press” que faz parte do butim de guerra dos aqueus. Como os prémios dos jo- 08 funcréros, 0 butim dos guerreiros & depositado & pEaov . Pois bem, Sabemos, por meio da querela de Aquiles e Agamenon, © nome qué os gregos reservavam a estes bens destinados 8 partitha: “as coisas postas em comun” processo de isiciacao 47 (Evvfta Ke{ueva)!. Por este desvio, podemos estabelecer una equivalén~ cia entre o contro © 0 que 6 comum, equivalenca esta gue se acha confirmada por tudo que sibemos, no mais sobre HEGOV '8, Apds cada vitor, pds ca- a pilhagem, 0 butim retorna as mos do Chefe, &s méos daguele que repre senta a colelividade!®, Através do chefe de guerra, é 0 proprio grupo que exerce um direto de olhar sobre as riquezas, dreto de olhar que se conserva at6 0 momento da partlha. As modalidades nao nos sio diretamente conheci- das: pelo discurso veemente de Aquiles, sbemos somente que "o Rei dstibut pouco, mas fica com muito". Entretanto, a cena dos jogos pode, por sua Vez, ‘tenuar esta falta de informag6es, pois parttha do bari € 8 stibuigSo dos Prémioe noe jogos pareoom obedecer a unt mesmo mecanismo intitacional0, Cada ver que Aquiles “pe em jogo um objeto de prémio, deposita-o ¢ uEgov ali € onde o vencedor vem pee6-lo, propriamente dizendo, “re colhé-lo”. Um dos gestos mais earacteristicos do episGdio dos jogos 6 de fa- to, @ tomada de posse dos prémios#1, Maso carter especifico desta aguisc ao swio aparece claramente, a nfo ser em sua oposigfo a uma outra forma de spropriaglo que a mesma cena meneiona repetidas veres:€ 0 ato de receber e, Corrlativamente, de dar, de "por na maa” (" €V yepot TOEVGt 2 Para concorrente azarido, como Nestor, velho demais para participar da corrida, fem sua, para aqueles que nfo tém nenhum ditcto de posse (mainmise) sobre ‘os prémios, Aquiles “pe na mo” um objeto, tripé ou couraca, que tira de sas reservas. Trata-se, sem dtvida, em ambos as casos, de bens que perten= ‘cem a Aquiles; mas, no primeiro caso, por terem sido depositalos no centro, 0s bens préprios de Aqui, seus ethyiaea , tomam-se, assim como os ‘objetos do butim, “coisas comuns” ( Zovila); perdem seu cardter de objeto ‘mareado por um direito de propriedade, S40 0$ res mul? A tomada de posse pelo vencedor pode se exercer imediatamente sobre cls. Ao contro, {quando Aquiles pie nas mos de Nestor o eflice que ele mesmo recolhera “0 Centro®, concede-Ihe um dom pessoal, semelhante ao que concede a Eumelos, quando, para recompensé-lo, manda vir de sua tenda uma couraga e a “pbc em sua’ mio" Ao dom pessoal que cria um yinculo entre dois homens © obriga 0 beneficiério a efetuar o contradominio®S, se opée muito claramente 0 texerecio imediato de um direito de propriedade sem contrapartid. A tomada de posse s6 pode, portanto, exercer-se através daintermedisgio do koov ‘cuts virtudes anulam as relagSes de “propriedade pessoal” que existem entre “Aquiles ¢ sua parte de. KTHWata., Depositados “no centro”, 0s bens préprios 4 Aquiles so, de alzum siodo, postos em circulaeao; tomam-se objets co- ‘muns, esto disponiveis para uma nova apropriagéo pessoal, Bste é, muito provavelmente, © mesmo procedimento que regula a reparticéo do butim: ca- a objeto, tomado por, um guerreiro no momento da pilhagem, é “posto em comu, use, €depositado “no centro”, af que 6 homem designado pela sorte2® ~ como 0 vencador & designado pelos deuses ~ virk “recolhe-lo” CGeipery, avaeipetv), sob os olhos de todos. O gesto de tomada determina (0 “diteito de propriedade imutével”2” de que fala Aguies. ‘Deste fato de pir 8 disposigfo, o canto XIX nos oferece um notével exemplo. Quando Agamenon se retrata publicamente, quando contessa que fora vitima de Erro (ATM), oferece a Aquiles seus bens, sua “parte de elei= ‘0s masts da verdade na Grécia arcaica fo", Mas os bens no so entregues de mio a mio: um procedimento como {a faria com que Aquiles se submetesse perante Agamenon, Recorre-se a luma formalidade gue Ulisses prope com a competéncia de um érbitro: “Que ‘Ayamenon, protetor de seu povo, traga os presentes em plena assembia” (oléta &¢ péoony ayopHV.28 Este procedimento, Ulises justifica-o por ‘uma exigéneia de publicidade, que 6, de fato, fundamental neste contexto ju- rico e neste melo puerreiro: “Todos os aqueus, deste modo, poderdo ver ‘com seus prprios olhos, © tu ters, tu, a alma tranqiil.”29 Mas existe uma futra rarao igualmente imperiosa, que 6 sugerida claramente pela continuagio do episédio. Aconvite de Agamenon, Ulisses os jovens KoDpot do ‘Gamnpu syucu vu A sua tenda: "Cntso, loge dito, logo feito, Da tends, levam ‘os sete tripés prometidos, as vinte bacias resplandecentes, 0s doze cavalos, trazem também, sem mais tardar, sete mulheres hébeis em trabalhos impocs- vels,e, em oitavo lugar, a bela Briseida, Ulisses pesa um total de dez talentos de ouro, depois pSe-se A frente dos jovens aqueus, © estes, seguindo seus Passos, trarem "0s presenies que deposttam em plena astembléa” Creal té pév Ev péaay &yopA Bécav).20 Apés 0 longo juramento de ‘Agamenon, que sanciont solenemente a reconciliagdo com Aquiles, © apés 6 sacrilieio do varao, cujo cadaver Talibios joga “no sorvedouro imenso do mar branco”, a assembléiaé dissolvida, $6 entf0, “os magnénimos Mirmidbes Jangam-se em torno dos presentes": vém recolhé-los no ceniro da asser- biéia'l, exatamente onde Ulisses e seus seguidores os haviam depositado. So- bre estes objetos, convertides em “propriedade ccimum” por sua colocagéo 5 péaov, écxercido o mesmo direito de tomada de posse (mainmise) que o ‘03 im vencedor sobre o prémio posto em jogo. O procedimento preconizado por Ulisses permite, portanto, recriar as condigées dle uma partilha. Assim se 4a operagio que 0 proprio Aquies parece evocar no canto 1 frente 88 ex. ‘séneias de Agamenon: "Convém que as pessoas tragam de novo seus bens massa?” (naMAQova rade’ éxayeipetv)? Agamenon nfo deu um pre= Sonte a Aquiles; apenas repés em circulacSo os bens que havia monopolizado, ara toda uma tradigéo, por €5 EGov , significa “pr em comum”. “Tudo que sei, escreve Herédoto num dado momento, € que se todos os ho- ‘mens trouxessem para o centro (.€5 HEGOV ) suas desgracas pessonis ( 10 Coivfa xaxd ) para troed-las com as de seus vizinhos, cada um, ap6s exa- ‘minar bem os males do outro, voltasia com alegria com aquilo que tivesse tra- Zido.?33 Que se trate de deixar os bens indivisos* ou de colocé-los em co- mum para se proceder a uma nova partihs?S, € a mesma expresso Bc écov que reiorna sempre, Através das formas institucionais postas em pritica, tanto na entrega dos prémios, quanto na partilha do butim, 08 valores {0 centro discernem-se claramente: 0 centro é, a0 mesmo tempo, “o que é ‘comunn” © “o que € pablico”. ‘Com os mesmos valores, a expresso & péoov aparcoe em outros panos, mas sempre dentro do mestho contexto social. Nas assembléias mili- fares, o uso da palavra obedece a regras definidas que conferem as delibera~ goes da Mada urna forma institucional muito marcads, Tomar a palavra impli a dois comportamentos gesticulares: avancar até 0 centro, por um lado, to- thar 0 eetro A mio, por out. Deseja-se dirigir a palavra & assembléia? A te~ processo delaiczsedo 49 {10 & rigorosa:ditige-so a0 “ péoov ”, Quando feo, arauto dos troianos, ‘encaminha-se para as naves eBncavas onde encontra os danacus, servidores dé ‘Ares, eunidos em assembéia junto 3 popa do navio de Agamenon, nfo tomo jt palavra até o momento em que se encontrou parado “no meio deles”36, Quando retornow a Mion, deu conta de sua mensegem, ayangando até “o tmeio” dos troianos¢ 08 dardaneus, formados em assembiéa’?, A resra é vé- lida para todo orador: quando Tel€maco toma a palavra na assemble, retorna 2 mesma, f6rmula: “mantivera-se de pé, no centro da Agora ( oTf Be ydory Ayopi})**. Quando um personagem fose a regra, 0 poeta dis- Lungue-0 como uma excegio. & o caso do canto XIX, quando, 2s palavras de reconcile promunciadar por Aquiles, Agamenon responde “de acu lugar, Sem se evantar no meio da assemblgia”®®, Uma vez que 0 orador se drigi 0 cenlzo da assembléia, © ara coloca-Ihs nas mos o cetro que Ihe eonfere a autoridade necesaéria para falar”, Entre o ceo e 0 ponto central, 2s afini- dades so estenciais; de fato, muito mais do que uma “emanagdo do poder real", o cetro parece simbolizar neste costume, # soberania impessoal do gru~ po. Ora, falar no centro nas assembléias militares, se nfo é falar em nome do {upo, 6, pelo menos, falar daquilo que interessa a0 grupo com ta: assuntos, omuns, especialmente assuntos militares. Quando Telémaco ordena a seus vociferadores convocar 08 aqueus de Iiaca, na Agora, o velho Egipto,o mais ‘doso, inguieta-se por cle. . . Jamas tivemos assembléia, nem constlho, desde o dia em que 0 nosso divino Ulisses tomou suas embarcagées. ‘jul convocados: por quem? Com que urgéncit? Da armada, donde retornam tun de mossos jovens ou um de nossos ancos, nfo ter ele alguma noticia precisa a nos enviar, alguma novidade da qual ele 4 no saiba? Serd este um butro intrease do povo (BF MLOV , sobre o qual ele quera discorrere deba- ter?'4I, E quando Telémaco toma'a palavra para Ihe dar a répica, suas pri- Ieiras palavras sio para desculpar-se por néo discorrer nem debater, quet Sobre a armads, quer sobre um interesse do grupo. Toda esta cena demonstra {que falar de assuntos pessoais 3 assembléia ¢insSlito, on mesmo incongruente, (6 ponto central em que se sustenta 0 orador, cetro & mi, & portanto,rigo- rosamente homblogo 20 centro onde so depositados os prémios das jozos © (Qs objetos do butim: estes so EDViUE , j4 0 primeiro € 0 KOWEY ou o Rove. 2. Nos Argonattas, quando Jaséo quer Embrar a scus companheiros due a expedigéo 6 um assunto que concerne a todos, exprime-se neste ter= thos: “Ovempreendimento é comum ( DvA, xpe1d} © 0s conselhos si0 co- ‘mins ( Euvot O01 )."43 A expressio aparece somente em Apold- hio de Rodes, certaments, aus ela 6 postulad por todo o contexto das asem- bigs deliberativas na Epopéa No jogo das diversas instituig6es, asemblgias deliberative, partiha do butim, jogos funerdrios, um mesmo modelo espacial se impde:’um espago circular e centrado onde, idealmente, cada um est, relativamente aos outros, ‘numa relagio reciproca ¢ revers{vel. Depois da Epopsia, esta representagto 4o espaco tornou-te solidsria a duas nog6es complementares: a nogio de pu= blicidade © a de comunidade, O méson € 0 ponto comum a todos os homens ‘organizados em cfreulo. Toxios os bens depositados neste ponto central 580 ‘coms coms, EOVAG : opSem-se ao KEFHGEE que é 0 objeto de wna 50 os mesttes do verdade na Grécie arcsica apropriagio individual; as palavras que af se pronunciam so Go mesmo tipo: dem respeito aos interesses comuns. Ponto comum, © méson & por isso :mesin, o lugar piblico por excelénci: por sua posigio geosrdtica, 6 sindni- mo de publicidade, Se a palavra dita & uLGOV.concerne aos interesses do srupo, ela dirige-se necessariamente a todos os membros ds assembléia. A partlha do butim, da mesma forma, exige a publicidade: cada um pegard sua parte sob os olhos de todos. Segundo a férmula de Ulisse, “ods os aqueus podem vé-1o com seus préprios olhos”, No grupo dos guerreiros, inclusive, a Publicidade atua em todos 0s niveis, colorindo toda a cena dos jogos: o resul- {ado das provas € solenemente proclamado* diante da assembléia, que ela~ hora a ata da xentenca The confere uma verdadeira eficécia juridica®S. Ax propria provas desenrolam-se sob 0 olhar de todos: a maior parte das justas fcontece & above, quando chega o momento da corrida de carro, Aquiles manda © velho Fénix para junto do limite do campo de corrida, a fim de fazer respeitar a prova, fora de 3eu cfrculo de publicidad, Em todos os niveis, nos jogos, na parilha do butim, na assembléia, o centro é sempre, ao mesmo tem- 0, 0 que est submetido ao olhar de todos e 0 que pertence a todos em co ‘mum, Publicidade e colocagio em comum $30 08 aspectos complemen- taros da centralidade, Ese contexto institucional e este quadro mental permitem distinguir os tragos essencias da palava-dilogo. Quando, na Epopéi, quer-se fazer © clogio do jovem guerteiro, falase dele, como se fala de Toante na Mada: “E tum expert no uso da langa, bravo no corpo & corpo e, na assembldia, powcos ‘aqueus sobrepujam-no quando os jovens guerreiros discutem seus pontos de vista." Bom realizador de faganhas, 9 gucrreiro completo & também al- ‘guéi que sabe muito bem emitir opiniSes*7. Um dos priviégios do homem de fucrra €0 seu direto de palavr, A palavra nfo € mais, nese momento, 0 pri- Vilggio de um homem excepeional, dotado de poseres religiosos. As assem~ bias so abertas aos guerreiros*, a todos aqueles que exercem plenamente © offeio dis armas, Esta solidariedade entre a Fangio guerreira ¢ 0 diteito de Palavra,stestada pela Epopéi, encontra-se iguamente confirmada 0s €os- times das cidades grogas arcaicas, onde a assembléia do exército & 0 substi- tuo permanente do povo, como,por exeimplo, nos costues conser vadiores da sssembléia macedénice™ ~ costumes esses particulamente vaiosos, pois es- ‘larecem tum aspecto essencia! da palavra nds meios guerreios. Quando Poli- bio quer falar do privlégio da palavra nos meigs guerreiros maced@nicos, fala desu igualdade de verbo, de sua. tomyopta. °. Utliza, portanto, wma pala- ‘ra do voeabulério politico quo, nas Histrias Ge Her6doto'l,apresenta as maiores afinidades com tooxpatia. ou ioovopia . Mas é também esta mesma palavra que Filodemo emprega espontaneamente quando quer especi- ficar os privilégios dos companheitos da Epopéia, tanto nas reunides comuns, {quanto nos banguetes coletivos®2, Termo anaerdnico, sem dGvida, mas que ttaduz perfeitamente um trago fundamental da relagao social qu liga o guct~ Teiro a0 guerrero: a iqualdade, esta igualdade que marcas instituigio militar dos “banguetes iguais” (Baty €fon)S%, onde se resinem os homens do lads, ‘que também caracteriza as asiembléias guerreiras, onde cada um dispde de um Inesmo direto de palavra. A partir da Epopéis, o grupo dos guerteios fende a proceseo de lacizapdo Jdefinir-se como 0 grupo dos semethantes ( U0t01)4. ‘Nas assemnblias yuerreras, a palavraé um bem comum, um K0wWO¥ entregue “no centro”. Cada um, por sua Vez, apropria-se dela com a concor= nea de seus guais: de pé, no Centro da assemblés,o orador encontra-se nt a distinela dagueles que o escutam c cada um se acha em relasao a el, i uina sitiago de iguakdade ¢ de reciprocidade. jgualténo, o verbo dos guerretos & tam- bbém de tipo laicizado, Inscreveese no tempo dos homens. Nao & uma palavra rnfgico-religiosa que coincide com 4 aco que institu em um mundo de forgas ¢ poténcias: ao contro, & uma palavra que precede 8 ago humana, que € seu Coupluente indispensivel, Ames de lovar « cabo qualquer ompren, fqueus redinem-se para deliberar: quando os Argonautas preparam uma etapa de sua expedigao, nfo deixam nunca de pedir conselhos uns a0s Outros, Este tipo de palavra estéinscrto, inicialmente, no tempo dos homens, por seu pr pho objeto: concerne dirctamente aos assuntos do grupo, aqueles que venham 2 interessar a cada um em sua relago com os demaisS®, Instrumento de didlogo, este tipo de palavra nso mais obtém sua efi cia através do jogo de Forgas religioss que transcendem 0s homens. Esti fun- dado essencialmente no acordo do grupo social, que manifesta pela aprova- hoe d 86, E nas assembleias militares que, pela primeira vez, a puarticipagio do grupo social funda o valor de uma palavra. Prepara-se, nesse Iomento, o futuro estatuto da palavra juedica ou da palavra flos6fica, da ‘que se submete & “publicidade” & que tra sua forca do assentimento ipo social? B neste mesmo meio que surgem as wogbes de Parégoros, Oaristus, Pa- ‘rafphasis, que delimitam 0 campo da persuasio. Aquele que sabe emitir bem a Sua opinito sabe se fazer ouvir: conhece as paras que ganar 0 asent- mento, que fazer ceder of coragSes, que levam 8 adesio%¥. No vocabulrio homético, Parafphasis (que é boa ou mi como a Peithd) designa a persuasio que nasce da convivéncia®, Oarists, a influéncia reefproca que engendra 0 omércio fatima do companheirismo, enquanto que Parégoros qualfica a palavra alentadora que exorta ao compénheiro de armas®), Mas, no plano af- fico, estas trés nogoes sio as poténcias religiosas que fazem parte do cortejo de Afrodite e especficam 0 cardter todo-poderos0 de Peithd®. Nas assem- biéias militares, a palavra4€um instrumento de dominagéo sobre o outro, uma primeira forma da “retérica". Nos meios guerreiros, funciona, de infcio, um tipo de palavra que concerne so homem, seus problemas, suas atividades, suas relages com 0 OUtr0, ‘Grupo social, fechado em si mesmo, a classe guerreira se direciona, no futuro da sociedade grega, para a instituigéo mais nova, mais devisiva: acid de, como sistema de instituigdes e como arquitetura esprital. E no meio dos juerreiros profissionas que so esbocam algumas concedes essenciais do Primeiro pensamento politico dos sregos: ideal de /sonomia, representagto de tum espaco centrado e simétrco, distingfo entre interesses pessoais¢ interes Se5 coletivos. Na morte de Polfcrates de Samos, Medndrio, eu sucessor, faz tuna profisao pablica, cujos termos se harmonizam com o pensamente politi- 0 do final do s6culo VI: "Polferates nfo tinha minha aprovacao quando rei- FAP A — Biblioteca 52 os mostres da verdade na Grécie arctica nava despoticamente sobre 05 homens que cram seus semelhantes (Opole), aaa ee seeectroa terd se api da mesina forma, Mas Polfrats seu sc Seinen eu deposio.o poder no cenro (Bo 68 é ykooy wiv apyay t10s(¢ _), e para vs proclamo a Isonomia’ 3, Semelhanca™, cen- a pecia ds dominagdo unvoct: rts termos que o coneeito de 0- nomia®> resume, trés termos que designam a imagem de um mundo humano, tori cles ue parejas da vida pablca fazen-no na qualidade d= 28S rd em que oiled Ge Feonomla se revel, desde sa apai- sea cn Bs ropreacntages de semelnanga e centralidade, cl est vir (fo, aid a fas tunes non comporinmentoe carcino grupo dos purrelos. ina iporisos,pariha do,butim, assembles deliberativas, tants instiuigaa que formar tm plan de pensamentopré-potice, © espag cit~ ine cg que extar aiuighcsvelcuam enconta sua expresso pi